Pró-Reitoria de Graduação Curso de Inglês e Literaturas em Língua Inglesa Trabalho de Conclusão de Curso A MODIFICAÇÃO DAS CARACTERIZAÇÕES DE PERSONAGENS DECORRENTE DA TRADUÇÃO PARA A DUBLAGEM EM FILMES BILÍNGUES Autora: Lorena Taynah de Miranda Cunha Orientadora: Prof. Esp. Georgina Maria Duarte Campos Brasília - DF 2012 LORENA TAYNAH DE MIRANDA CUNHA A MODIFICAÇÃO DAS CARACTERIZAÇÕES DE PERSONAGENS DECORRENTE DA TRADUÇÃO PARA A DUBLAGEM EM FILMES BILÍNGUES Monografia apresentada ao Curso de Graduação em Inglês e Literaturas em Língua Inglesa da Universidade Católica de Brasília como requisito parcial para obtenção do título de Licenciada em Inglês. Orientadora: Prof. Esp. Georgina Maria Duarte Campos. Brasília - DF 2012 Monografia de autoria de Lorena Taynah de Miranda Cunha, intitulada “A MODIFICAÇÃO DAS CARACTERIZAÇÕES DE PERSONAGENS DECORRENTE DA TRADUÇÃO PARA A DUBLAGEM EM FILMES BILÍNGUES”, apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciada em Inglês da Universidade Católica de Brasília, em 28 de novembro de 2012, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada: __________________________________________________________ Prof. Esp. Georgina Maria Duarte Campos Orientadora Letras Inglês – UCB __________________________________________________________ Prof. Esp. Rogério da Silva Sales Pereira Letras Inglês – UCB __________________________________________________________ Prof. MSc. Cléria Maria Costa Letras Inglês – UCB Brasília – DF 2012 Aos meus pais, Robson e Fanny, sem os quais eu nunca teria chegado a este dia e que foram a base de todo o meu aprendizado. Às minhas professoras Iete e Kátia que despertaram a paixão dos estudos em minha vida. AGRADECIMENTO Agradeço inicialmente a Deus, a quem devo tudo o que sou. À minha orientadora, Prof. Esp. Georgina Maria Duarte Campos, pelo encorajamento, pelas sugestões e por ter acreditado em meus ideais. Ao diretor do Curso de Graduação em Letras, Prof. Esp. Rogério da Silva Sales Pereira, que se mostrou sempre solícito aos seus alunos. E aos professores e colegas que direta ou indiretamente contribuíram para a conclusão deste trabalho. Muito obrigada. — Afaste-se dessa televisão. “Afaste-se.” Nunca falara assim antes. A gravidade da situação impunha certa solenidade à linguagem. Falava como filme dublado na televisão. Luis Fernando Veríssimo RESUMO CUNHA, Lorena Taynah de Miranda. A modificação das caracterizações de personagens decorrente da tradução para a dublagem em filmes bilíngues. 2012. 122 p. Monografia (Inglês e Literaturas em Língua Inglesa) – Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2012. Este trabalho monográfico consiste em uma discussão sobre a tradução para a dublagem de filmes bilíngues, analisando o quão fiel os tradutores se mantiveram em relação às características originais dos personagens. No primeiro capítulo, há a apresentação da base teórica referente à tradução e à dublagem. A teoria é baseada em trabalhos de autores renomados, como Geir Campos (1987) e Paulo Rónai (2012). O segundo capítulo expõe os ideais que regem este trabalho e também a coleta de dados dos três filmes que compõem os objetos de estudo: Bastardos Inglórios (2009), O Poderoso Chefão (1972) e Rio (2011). Por fim, há a discussão dos dados coletados em relação à sua tradução e à sua dublagem. Após a análise, conclui-se que 69% dos personagens mantiveram sua caracterização original; portanto, não sendo modificados pela tradução feita. Desta conclusão, depreende-se também que o trabalho de dublagem no Brasil é muito bem exercido por seus profissionais, mas como se sabe, pouco reconhecido. Palavras-chave: personagens. Tradução. Dublagem. Filmes bilíngues. Caracterização dos ABSTRACT This monograph consists of a discussion about translating bilingual movies focusing on dubbing. Its aim is the analysis of how accurate translators have been towards maintaining the original features of the characters. In the first chapter, there is the presentation of the theory on translation and dubbing. The theory is based on works of renowned authors such as Geir Campos (1987) and Paulo Rónai (2012). The second chapter displays the main ideas that conduct this monograph, and it also displays the data collection of the three movies integrating the study: Inglourious Basterds (2009), The Godfather (1972) and Rio (2011). Finally, there is the discussion of the collected data concerning their translation and dubbing. After the analysis, it is concluded that 69% of the characters remained with their original features; thus, suffering no changes due to the translation. Along with this conclusion, it is possible to confirm that even though the labor of dubbing is very well executed in Brazil, it is not equally recognized. Key-words: Translation. Dubbing. Bilingual movies. Features of the characters. SUMÁRIO Introdução - - - - - - 08 1. Capítulo 1 – O processo de tradução até a dublagem - - 12 1.1 O que é tradução? - - - - - - - 12 1.2 Tipos de tradução - - - - - - - 16 1.3 Procedimentos técnicos - - - - - - 19 1.4 Teorias da tradução - - - - - - - 21 1.5 Ramos da área - - - - - - - - 23 - - - - - 25 - - - - - 25 - - - 26 1.5.1.3 Características técnicas da tradução para a dublagem - 27 1.6 Personagens de filmes - - - - - - 30 2. Capítulo 2 – Pesquisa - - - - - - 32 1.5.1 Tradução para a dublagem 1.5.1.1 O que é dublagem? - - - 1.5.1.2 Alguns momentos históricos da dublagem - 2.1 Hipótese - - - - - - - - - 32 2.2 Objetivos - - - - - - - - - 32 2.3 Cenário - - - - - - - - - 33 2.4 Objetos de estudo - - - - - - - 33 2.5 Metodologia - - - - - - - - 33 2.6 Instrumentos - - - - - - - - 34 2.7 Coleta de dados - - - - - - - 34 2.8 Análise - - - - - - - - 45 2.8.1 Bastardos Inglórios - - - - - - - 46 2.8.2 O Poderoso Chefão - - - - - - - 51 2.8.3 Rio - - - - - - - - - 54 Conclusão - - - - - - - - - 61 Referências bibliográficas - - - - - - - 64 Anexo I - - - - - - - - - 67 Anexo II - - - - - - - - - 72 Anexo III - - - - - - - - - 72 - 8 INTRODUÇÃO Atualmente a indústria cinematográfica é uma das que mais cresce mundialmente graças ao enorme público consumidor. Porém, sua produção em alta escala não pertenceu sempre a um mesmo local. Oficialmente acredita-se que o cinema surgiu em 1895 em Paris sem fins lucrativos e/ou de entretenimento (SILVEIRA, 1978). Com o passar dos anos, dois franceses, Méliès e Pathé, tiveram papeis importantíssimos que mudaram a ideia inicial do que era cinema fazendo com que esse se tornasse espetáculo de entretenimento com fins lucrativos industriais. Após a explosão da I Guerra Mundial, o foco da grande produção cinematográfica migrou dos ares europeus para onde viria a ser a maior potência industrial mundial, os Estados Unidos. Hoje o Brasil, assim como muitos outros países, é bombardeado com produções cinematográficas hollywoodianas. Para ser possível a chegada de filmes americanos para o público brasileiro, vários processos se fazem necessários, dentre eles estão os de tradução. O tema que norteia este trabalho de pesquisa se baseia em analisar se os aspectos que são levados em consideração quando se traduz para a dublagem filmes bilíngues do inglês e outra língua-alvo para o português brasileiro modificam o resultado final das caracterizações dos personagens. De acordo com os resultados obtidos pela Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 9,7% da população brasileira continua analfabeta apesar das campanhas e programas que visam acabar com o analfabetismo. A princípio pode-se parecer uma porcentagem pequena, mas como o Brasil é um país de grandes dimensões e, portanto, com grande população, 9,7% representa ainda 14 milhões de analfabetos no país (FOLHA ONLINE). Tendo em vista tais números, como então fazer com que as grandes produções cinematográficas americanas cheguem ao conhecimento desses 14 milhões de brasileiros? A resposta para esta pergunta é simples: por meio da dublagem. Dublagem é uma categoria de tradução que visa “à substituição da voz original de produções audiovisuais (filmes, desenhos animados, telenovelas, documentários) pela interpretação de um dublador, quase sempre em outro idioma.” (UNIVERSIDADE DE DUBLAGEM). A dublagem é de essencial 9 importância para a propagação da cultura cinematográfica estrangeira no nosso país devido principalmente ao grande número de analfabetos existente. No entanto, a dublagem não é importante somente por causa da alta taxa de pessoas analfabetas em nosso país. Temos ainda um grande número de semianalfabetos ou analfabetos funcionais, pessoas que conseguem basicamente desenhar seus nomes para assinar documentos e ler sílabas de palavras (leitura silábica), mas não conseguem compreender a leitura que fazem e não conseguem construir um texto de forma clara. Além dos analfabetos e analfabetos funcionais, a dublagem também é importante e muito válida para crianças que ainda não sabem ler e para idosos cujas visões não conseguem mais acompanhar o ritmo e o tamanho das legendas. Ademais, há de se levar em consideração também o hábito de leitura que a sociedade alfabetizada mantém em sua rotina. Em uma tentativa de proporcionar uma melhor forma de visualização desse último aspecto, uma pequena pesquisa quantitativa foi feita e dispõe de uma amostra de 50 pessoas, sendo 12% alfabetizadas até o ensino fundamental, 22% até o médio, 52% com formação em ensino superior e 14% com títulos em pós-graduação. Nota-se que a grande maioria apresenta escolaridade até o ensino superior ou pós. Foram analisadas várias questões sobre o hábito de leitura que os entrevistados mantêm em sua rotina. Em primeiro lugar, questionou-se se a leitura é um hábito prazeroso de lazer: 84% disseram que sim enquanto 16% discordaram. Quando foi questionado sobre que tipo de livros mais compram, a maioria dos entrevistados responderam que, na verdade, não compram livros. À primeira vista, isso parece ser contraditório com a primeira questão já que 84% considera prazerosa a leitura. No entanto, a conclusão subsequente vem da questão seis: 60% dos entrevistados acreditam que o alto preço de livros influencia na não compra dos mesmos. Sobre a frequência de leitura, 36% disseram que a última vez que leram um livro foi esta semana, 32% este mês, 6% mês passado, outros 6% leram há dois meses e 20% marcaram que a última vez que leram um livro foi há mais de dois meses. Outro dado interessante concluído pela pesquisa mostra que a preferência de se ter conhecimento sobre tal estória é assistindo ao filme (72%) em vez de ler o livro (28%). Esse dado deixa extremamente claro que até mesmo as pessoas com alto nível de escolaridade não têm o costume de ler quando outra forma de 10 mídia oferece supostamente o mesmo produto. Essa é uma discussão que pode levar horas sem chegar a nenhuma conclusão e, com certeza, essa não é a intenção deste trabalho, já que este é um tópico em que se trata de preferências pessoais. O objetivo é mostrar o fato, a quantidade de pessoas que leem e não leem. Observa-se que aqueles leitores ávidos passam a deixar de existir cada vez mais, seja por causa das novas tecnologias, seja por falta de tempo ou qualquer outro motivo. Cabem às escolas e às famílias tentarem fazer ressurgir tal hábito que, por mais antigo que seja, é extremamente importante em qualquer sociedade. Por fim, concluiu-se também que 64% dos entrevistados preferem assistir a filmes legendados, enquanto 32% preferem os filmes dublados. A partir da análise geral dos dados e com exceção principalmente da questão sobre ler o livro ou assistir ao filme, é possível identificar que o nível de escolaridade tem grande influência na opinião sobre leitura prazerosa que é mantida nas rotinas dos entrevistados. Quanto mais baixo o nível de escolaridade, foram encontradas mais respostas negativas sobre o hábito de leitura, e vice-versa. Portanto, apesar de a maioria dos entrevistados manterem certa frequência de leitura (68%), muitos (32%) ainda não o fazem, preferindo não ler nem mesmo legendas de filmes. Além das razões sociais mencionadas acima, este trabalho de pesquisa é norteado também por motivos acadêmico-científicos. Muitos estudantes universitários que cursam letras inglês e muitas pessoas que detêm o conhecimento da língua inglesa podem vir a pensar que a tradução, na verdade, não é tão complicada e difícil e por vezes julgam a tradução feita para algum filme, seja ela para a legenda ou dublagem. Este tipo de pensamento ou opinião precisa ser reformulado e essa pesquisa pode contribuir para isso. Assim, o trabalho apresentará como ocorre o processo de tradução para a dublagem, desde o conceito do que é tradução, passando por seus tipos, teorias e características, até mais especificamente como é feita a tradução para a dublagem e quais as dificuldades encontradas nesta área. Por fim, apresentará como toda essa teoria é aplicada em termos práticos. Em suma, este trabalho objetiva compartilhar conhecimento sobre a tradução para a dublagem. Além das razões já explicitadas nos parágrafos anteriores, a motivação pessoal que fundamenta este estudo sobre a tradução para a dublagem é 11 entender minuciosamente o trabalho tão complexo e atribulado que é traduzir. Para os estudiosos da língua inglesa, o idioma sempre gerou curiosidade e, portanto, dedicação nos estudos por parte dos mesmos. Quando se inicia os estudos de tradução, o idioma se torna ainda mais fascinante. A realização desse trabalho almeja o aprofundamento de tais estudos e a compreensão dos graus de dificuldade encontrados na profissão do tradutor para a dublagem com foco em filmes bilíngues. Este tipo de filme, por sua vez, se torna interessante já que sua principal característica é ter duas línguas-fontes a serem traduzidas para uma língua-alvo. O trabalho será divido em dois capítulos que discorrem sobre o processo de tradução até a dublagem e a apresentação da pesquisa qualitativa. 12 CAPÍTULO 1 – O PROCESSO DE TRADUÇÃO ATÉ A DUBLAGEM 1.1 O que é tradução? Quando se pensa em tradução logo vem à mente um processo em que um idioma A se faz entender em um idioma B por intermédio de um tradutor, seja esse humano ou computadorizado. No entanto, é necessário compreender que tal entendimento possibilitado por meio da tradução não se faz somente entre palavras, mas principalmente entre culturas. Segundo Geir Campos (1987, p. 26): “Não se traduz afinal de uma língua para a outra, e sim de uma cultura para outra.” Por esse e outros motivos, como conhecimento profundo da linguística e capacidade de compreensão de diferenças culturais, é que o trabalho de tradução se torna árduo e limitado a profissionais da área. Portanto, deve-se tomar cuidado com o pensamento equivocado de que uma pessoa que sabe dois idiomas fluentemente consegue fazer um ótimo trabalho como tradutor. Pode até ser que essa pessoa consiga traduzir uma frase simples como She bought a blouse yesterday, pois esta seria uma tradução literal das palavras para Ela comprou uma blusa ontem. Porém, quando algo um pouco mais complicado aparece, como uma expressão idiomática, é preciso entender que uma tradução literal já não serve mais e então procurar outra saída, uma que provavelmente precisará de no mínimo uma pesquisa linguística. Segue o exemplo com a frase: The new employee did not take long to learn the ropes. Nesse exemplo, é preciso ter em mente os vários significados e possíveis traduções que o verbo take apresenta, e, além disso, é preciso entender e saber o equivalente da expressão learn the ropes na língua-alvo, que, a propósito, é pegar as manhas. A tradução é uma atividade que exige muitas horas de dedicação e exige também certa experiência prática para se tornar mais natural para o tradutor. O profissional da área precisa saber toda a teoria por trás do processo de tradução, mas mais importante do que ter um excelente conhecimento teórico, é saber aplicá-lo em seu trabalho. Mais uma vez Campos (1987, p. 27) discorre sobre a parte prática do trabalho do tradutor: “Mesmo porque, como se diz, tradução se aprende traduzindo.” Entende-se, portanto, que não bastam 13 extensas leituras sobre os procedimentos da tradução. É indispensável o trabalho prático, o puro ato de traduzir. Este trabalho consta de uma pequena pesquisa em dicionários que discorrem sobre os diferentes significados de tradução. Além da presença de dicionários tanto da língua portuguesa quanto da língua inglesa, houve também dois critérios para a escolha dos dicionários a serem consultados. O primeiro raciocínio foi de usar dicionários já renomados, como Aurélio para o português e Oxford para o inglês. No entanto, é importante notar também os dicionários que aparecem nos primeiros lugares nos sites de pesquisa por causa do enorme acesso à internet que há hoje em dia. Portanto, a pesquisa inclui também dicionários online. Primeiramente, o Novo Dicionário Aurélio apresenta a seguinte definição para tradução: “Ato de conduzir além, de transferir. Ato ou efeito de traduzir.” Veja também: “Traduzir: Transpor, trasladar, de uma língua para a outra.” Essa definição do ato de traduzir ficou clara com a mensagem de que uma língua é trasladada para outra. Interessante foi a definição de seu substantivo, pois a tradução realmente tem a função de transferir um idioma x para um idioma y, usando-se de procedimentos variados que serão detalhados mais a frente. Além dessas definições, o Novo Dicionário Aurélio também apresenta conceitos básicos de tradução justalinear, literal, livre e simultânea. Percebese, portanto, que esse dicionário traz definições lógicas e concretas para o leitor. Observa-se agora a definição de um dicionário online, o dictionary.com. Aqui, tradução quer dizer: “1. The rendering of something into another language; 2. Change or conversion to another form, appearance, etc” 1. O site proporciona ao seu leitor entender que a tradução é mudança ou conversão para algo não limitado somente a idiomas. De acordo com essa definição, entende-se, por exemplo, que um poema pode ser a tradução de um sentimento. Veja o termo conversão como uma palavra positiva para a tradução, o que talvez se assemelhe mais ao verdadeiro trabalho que o tradutor faz. Um ótimo exemplo para concretizar este conceito é a conversão 1 1. Interpretação de algo para outra língua; 2. Mudança ou conversão para outra forma, aparência, etc. 14 que se dá entre temperaturas. No Brasil, usa-se a unidade de grau Celsius para medir temperaturas, enquanto que nos EUA é usada a unidade de grau Fahrenheit. Os dois representam a exata temperatura do ambiente com a única diferença de que são unidades de medida diversas. Isso que é necessário que aconteça em um trabalho de tradução: a mensagem precisa ser a mesma, mas em diferentes línguas. O próximo dicionário é o Macmillan Essential Dictionary que nos proporciona a seguinte definição: “The activity of changing spoken or written words into a different language.”2 Nota-se que dentre as definições pesquisadas, essa é a primeira a incluir tanto a tradução oral quanto a tradução escrita. É importante manter esse aspecto em mente, pois diferentes técnicas de tradução são usadas para suas diferentes ramificações, como a oralidade e a escrita. Além disso, o dicionário se limita a apresentar uma definição simples e curta – a mudança para outra língua –, mas sem omitir o princípio básico da tradução. Seguindo com a pesquisa em dicionários, observe o que o site urbandictionary.com diz sobre o que é tradução. Esse é um dicionário bastante informal e qualquer usuário pode editá-lo com suas próprias definições, ou seja, definições que não são oficiais. O conceito encontrado foi: “Translation: turning a thing understandable to one group of people to a thing understandable to another”3. Bastante simples e direta, é uma definição que consegue passar a ideia de o que é tradução em termos práticos de forma que qualquer leitor, independente se é da área de tradução ou não, consegue entender. Note que essa definição traz o termo compreensível, o que é de suma importância para que a tradução não se restrinja somente ao campo da literalidade. O próximo dicionário a ser estudado, Oxford Mini Dictionary & Thesaurus, também apresenta ideia semelhante: “Translate: express the sense of words or text in another language.”4 Por ser um minidicionário, não há registro do substantivo tradução, mas sim de sua forma verbal. É relevante perceber que aqui também há uma forma bastante clara de dizer que o ato de traduzir não se limita à literalidade do texto, mas abrange o sentido produzido pelas palavras; é esse sentido – e não necessariamente as palavras – que deve ser traduzido. 2 A atividade de mudar palavras faladas ou escritas para outra língua. Tradução: tornar algo compreensível para um grupo de pessoas em algo compreensível para outro grupo. 4 Traduzir: Expressar o sentido das palavras ou do texto em outra língua. 3 15 O Dicionário Online de Português apresenta definição de tradução semelhante ao Novo Dicionário Aurélio. Segundo aquele, tradução é “ação de traduzir, de transpor para outra língua.” Para um leigo da área que procurasse o significado de tradução nesse dicionário, seria possível entender o que é basicamente feito no trabalho do tradutor, ou seja, entender somente que é passar algo de uma língua para a outra sem observações mais aprofundadas. O dicionário subsequente a ser analisado é o Michaelis também em sua versão online. O conceito apresentado é bastante longo com cinco definições seguidas de conceitos de diferentes ramos da tradução. Abaixo estão as definições: 1 Ato ou efeito de traduzir. 2 Ato de trasladar palavras, frases ou obras escritas de uma língua para a outra. 3 Obra assim transladada. 4 Imagem, reflexo, repercussão. 5 Explicação, interpretação. Passando de uma a uma, é importante tecer alguns comentários sobre essas definições. A primeira não explica o que seja tradução significativamente, pois a partir desta definição é possível entender principalmente seu aspecto gramatical: se x é ato ou efeito de y, sendo y um verbo, logo x é um substantivo. A segunda definição apresenta um aspecto interessante que é limitar a tradução para obras escritas. De acordo com o Macmillan Essential Dictionary, a tradução pode ser tanto escrita como oral. A definição seguinte somente reitera o que foi conceituado anteriormente. A quarta definição é, de certa forma, curiosa. Pensar que tradução possa ser imagem, reflexo ou repercussão de uma língua é no mínimo bastante subjetivo. Se a obra traduzida é o reflexo e a imagem da obra original, quer dizer que ambos os trabalhos são exatamente iguais. Portanto, falta especificar que elas são exatamente iguais, mas em línguas diferentes. Não seria uma definição absoluta, mas seria mais compreensível. Já quanto ao aspecto de repercussão, parece ser desnecessária a apresentação desse termo na definição, uma vez que tradução pode vir a gerar repercussão, mas não a é. Em relação à última definição, tradução significa interpretação, explicação. Esses significados ficam um pouco vagos, pois se tradução é interpretação será então que o tradutor pode escrever o que ele/ela interpretou da obra em sua língua original? O que acontece com a ideia do autor? Será que se ele/ela escrever a sua interpretação não modificará a obra original? Além desse fato, nota-se também o segundo significado, tradução é explicação. Se isso for verdade para todas 16 as traduções, então tradutores de obras como as de Shakespeare, por exemplo, estenderiam suas obras originais pelo seu dobro em suas versões traduzidas, pois teriam de explicar referências relacionadas ao contexto do tempo em que a obra foi escrita e do tempo em que o autor a escreveu. Mas não é isso o que de fato sempre acontece. A partir de toda a análise em dicionários, conclui-se que a tradução não é tão fácil de definir, de se entender e muito menos de praticar. Tradução é, enfim, um processo no qual ocorre a mudança de forma sem a mudança de substância. Ou seja, o tradutor linguístico muda o idioma usado sem mudar a ideia original do autor. É claro que para que esse processo seja possível, muitas variáveis são levadas em consideração, tais como tipos de tradução, suas teorias, técnicas e características. 1.2 Tipos de tradução Antes de ser iniciada a discussão sobre os tipos de tradução, é necessário compreender dois termos técnicos da área: língua-fonte (LF) e língua-alvo (LA). Língua-fonte diz respeito à língua de partida, ou seja, a língua original a ser traduzida. Já a língua-alvo é a língua de chegada, em outras palavras, a língua para a qual o original será traduzido. A seguir está um exemplo para visualização: a obra The Raven de Edgar Allan Poe quando traduzida por Fernando Pessoa teve o inglês como língua-fonte e o português brasileiro como língua-alvo. Entendidos tais termos, o primeiro fator presente no processo de tradução a ser discutido será o caminho que os tradutores têm em mente quando começam algum trabalho. A primeira vertente é decidir se a tradução será literal ou oblíqua. Tomar essa decisão não quer dizer que em todo o trabalho, por exemplo, a tradução de um livro tenha que seguir totalmente uma só linha. O que normalmente acontece é que algumas partes do livro podem ser traduzidas literalmente e outras precisam de uma tradução oblíqua. Para saber quais partes precisam de quais tipos de tradução é necessário entender melhor o que é cada uma. Tradução literal é a tradução dita ao pé da letra, ou seja, palavra por palavra. De acordo com Campos (1987), essa tradução é possível quando ambas as línguas fonte e alvo se originam de uma mesma 17 família linguística. Como exemplo, podemos citar o português e o espanhol, ou o inglês e o alemão. Então a frase La chica és muy guapa em espanhol pode ser traduzida para o português literalmente para A garota é muito bonita. Assim tem-se a seguinte tradução literal: la = a; chica = garota; és = é; muy = muito; guapa = bonita. Já a tradução oblíqua é usada principalmente quando a língua fonte e a língua alvo provêm de diferentes troncos linguísticos, como o caso do português e inglês. Como essas línguas têm diferentes origens, suas palavras não costumam se assemelhar e por isso a tradução palavra por palavra pode apresentar um resultado sem sentido. Observa-se a seguinte frase: After lunch I attended a lecture given by the mayor, who is an expert in tax legislation and has a graduate degree in political science. No momento de traduzir essa sentença, é preciso tomar cuidado com os falsos cognatos: Palavras semelhantes em duas línguas, mas de sentidos totalmente diversos (...). Os falsos amigos muitas vezes são palavras de origem comum cujo sentido se distanciou por efeito da evolução semântica diferente (...). Outras vezes a semelhança é mera coincidência, resultado da evolução convergente de duas palavras totalmente diversas na origem. (RÓNAI, 2012, p. 45-46). Por causa dos falsos cognatos e por causa do fato de as línguas fonte e alvo apresentarem diferentes origens linguísticas, é necessário fazer uso da tradução oblíqua. Assim, a tradução fica como Após o almoço, assisti a uma palestra do prefeito, que é especialista em legislação de impostos e tem pósgraduação em ciências políticas. Para que a versão traduzida da frase seja bem escrita e bem formulada na língua-alvo, a tradução oblíqua permite que o tradutor faça pequenas mudanças, como omissão de palavras (I, given, has) ou acréscimo de partículas gramaticais (a preposição a após o verbo assistir). De acordo com Campos, a tradução oblíqua vale-se de alguns procedimentos técnicos por ela não seguir paralelamente a forma do texto original. Esses são vários procedimentos que serão discutidos mais adiante. A segunda vertente dentro dos tipos de tradução diz respeito à natureza do texto trabalhado pelo tradutor. Quando o profissional traduz um texto de seu idioma original para qualquer outra língua, diz-se que essa é uma tradução direta, pois ela foi diretamente traduzida de uma língua A para outra língua B. 18 No entanto, quando o tradutor trabalha com um texto que já é a tradução de um texto original, diz-se que este texto é uma tradução indireta. Ou seja, o texto em um idioma A foi traduzido para o idioma B. O tradutor usa então o texto no idioma B para traduzir para um idioma C. Exemplos de tradução indireta são obras de autores russos, como Tolstói, que foram traduzidos do francês para o português. As traduções indiretas, apesar de possibilitarem maior dispersão de obras literárias, têm um aspecto preocupante: as perdas. De acordo com Campos (1987, p. 50), “sabendo-se como se sabe que em toda comunicação ocorre sempre inevitavelmente alguma perda de informação, a perda de algum tipo de informação na tradução passa a ser também inevitável”. De forma inevitável, portanto, uma tradução direta já apresentará perdas. Uma tradução indireta então sofrerá ainda mais perdas e essas podem vir a prejudicar a compreensão da leitura, seja por perda de sentido ou até mesmo por mudança de sentido. Conclui-se, por conseguinte, que é preferível uma tradução direta a uma indireta. De volta ao exemplo do idioma A que foi traduzido para o B e desse foi traduzido para o C, a tradução no idioma B que serviu como mediadora para a tradução no idioma C chama-se tradução intermediária. Logo, com esse conceito, é finalizada a segunda vertente aqui trabalhada: tradução direta, indireta e intermediária. A terceira e última vertente deste tópico está relacionada a dois tipos de tradução. A primeira é a tradução integral, na qual todos os termos da línguafonte são traduzidos para a língua-alvo. A segunda chama-se tradução parcial, na qual alguns termos não são traduzidos por diferentes razões. Quem normalmente decide qual estilo adotar é o próprio tradutor. Rónai (2012) cita como exemplo o poema Tragédia Brasileira de Manuel Bandeira. Em certo momento do poema, Bandeira enumera vários nomes de bairros e ruas cariocas. Para a tradução do poema voltada ao público norte-americano, a poetisa Elizabeth Bishop optou por traduzir os nomes enumerados por Bandeira, enquanto que o tradutor Manuel Cardoso optou por não traduzi-los deixando-os como no original. Cada teórico e cada leitor tem sua opinião sobre termos como esses serem traduzidos ou não. Cabe ao tradutor tomar esta decisão. Claro que qualquer que seja a escolha do tradutor, ela terá, com certeza, impacto na percepção que o leitor tem da obra traduzida. 19 1.3 Procedimentos técnicos Muitas transformações textuais são necessárias quando se fala em tradução. Dependendo da forma que o tradutor traduz, de forma literal ou oblíqua, ela usará distintas transformações. De acordo com Campos (1987), essas transformações são chamadas de procedimentos técnicos. Este tópico apresentará os conceitos que o autor explica em seu livro acrescentados de alguns exemplos para que todas as definições fiquem claras. Durante o trabalho de tradução, muitas vezes os tradutores encontram palavras que quando traduzidas se mantêm. São palavras não originárias da língua-alvo, mas que são usadas fluentemente por falantes nativos dela. A esse procedimento dá-se o nome de estrangeirismo. Nossa língua portuguesa apresenta enorme número de estrangeirismos, principalmente em inglês, como site, shopping, corner, penalty, mouse. Uma vez que o estrangeirismo se torna natural ao idioma que o adotou, ou seja, uma vez que ocorre naturalização do estrangeirismo, ele se torna empréstimo linguístico. Em outras palavras, dizemos que, no caso do Brasil, quando ocorre o aportuguesamento de uma palavra estrangeira, tem-se então o procedimento de empréstimo linguístico. Chama-se empréstimo, pois o vocábulo não é original da língua B e sim da A, mas que a língua B fez tornar-se parte de seu vocabulário natural. Seguem alguns exemplos: a palavra site torna-se saite, football já é usado como futebol, delete como deletar, penalty como pênalti. O último procedimento técnico muito usado na tradução literal é o decalque linguístico. Este consiste da tradução literal de fato. O vocábulo arranha-céu é derivado literalmente de sky-scraper, assim como site também é encontrado na forma de sítio, e corner como escanteio. Até agora os procedimentos mencionados são simples e poucos, pois se tratam de tradução literal. Já a tradução oblíqua apresenta um leque mais complexo de procedimentos a serem usados. Em primeiro lugar, tem-se o uso da transposição, “que consiste em substituir uma parte do discurso (do texto) por outra, sem lhe alterar o sentido” (CAMPOS, 1987, p. 36). Observe como exemplo uma frase do livro The girl who played with fire de Stieg Larsson: “Salander left without saying goodbye.” A frase pode ser traduzida literalmente para Salander saiu sem dizer adeus. Ou pode ser traduzida obliquamente para 20 Salander saiu sem se despedir ou Salander se retirou sem dizer nada ou ainda Salander saiu em silêncio e assim por diante. Outro procedimento da tradução oblíqua é a modulação. O tradutor faz uso desse procedimento para passar a mesma ideia original do texto, porém com mudança de foco. Segue a análise de outra frase de Stieg Larsson: “She hated his touch” literalmente traduzida para Ela odiava seu toque. Fazendo uso da modulação, tem-se Ela odiava ser tocada por ele em que o foco do substantivo muda para o foco verbal (toque e ser tocada). Outra possível tradução a partir da modulação é Ela não suportava seu toque. Neste exemplo, o foco da afirmação de odiar é mudado para a negação de suportar. O terceiro procedimento que o tradutor usa diz respeito a uma situação em que ambas as línguas fonte e alvo conseguem tornar compreensível, mas usando estruturas linguísticas completamente diferentes – é a equivalência. Os casos que mais precisam da equivalência são provérbios, expressões idiomáticas e gírias. Observe o seguinte exemplo: o provérbio em inglês between the devil and the deep sea passa a ideia de que há um dilema, pois é preciso fazer uma escolha entre duas coisas ruins, negativas. Se for traduzida literalmente, a frase não fará sentido. Observe: Entre o diabo e o mar profundo. Nenhum falante nativo do português conhece essa expressão já que ela não é um provérbio, mas simplesmente palavras colocadas juntas em uma frase. É por isso que se deve procurar um equivalente na língua-alvo que passe a mesma ideia do provérbio da língua-fonte. Assim, a seguinte tradução é uma possibilidade: Entre a cruz e a espada e ainda uma que talvez seja mais popular Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. A seguir há um exemplo de expressão idiomática: “She doesn’t want anyone to know she’s getting married, so please keep it under your hat” (GAINES, 1986, p. 99). A expressão keep something under someone’s hat quer dizer manter segredo de algo. A tradução literal não faz sentido para os falantes do português, pois ela se torna manter algo embaixo do chapéu de alguém. No entanto, existe uma expressão idiomática em português que capta a mesma ideia da expressão em inglês. Para traduzi-la é preciso achar seu equivalente. A frase traduzida então é a seguinte: Ela não quer que ninguém saiba que ela vai se casar, então, por favor, faça boca de siri. Observe que a equivalência fazer boca de siri transmite 21 a mesma ideia da frase original sem precisar traduzir literalmente nenhuma das palavras da expressão em inglês. O próximo procedimento a ser discutido aqui é a adaptação, também conhecido como tradução livre, pois nada tem a ver com tradução linguística, mas sim com tradução ideológica, cultural. Segundo Campos (1987, p. 41), fazse uso da adaptação quando “a situação a que se refere o texto original, na língua-fonte, não faz parte do repertório cultural dos falantes da língua-meta.” Portanto, diferente da equivalência – em que a situação descrita existe em ambas as línguas fonte e alvo – aqui se trabalha com uma situação que não é natural da língua-fonte. Por exemplo, o termo sexta-feira 13 denota um dia de azar segundo a cultura brasileira dentre outras. No entanto, em espanhol essa expressão não faz sentido, já que o dia de má sorte nessa cultura é martes 13 (terça-feira). Campos (1987) ainda menciona que a ideia do seja vacas gordas é expressada por peces gordos (peixes gordos) em espanhol, e fat cats (gatos gordos) em inglês. Resumidamente e para que não haja confusão entre equivalência e adaptação, lembre-se que o primeiro é bastante usado na tradução de expressões idiomáticas, gírias e provérbios, enquanto que o último se trata de situações, ambientações culturais. 1.4 Teorias de tradução Como toda ciência – e tradução não ficaria de fora desse estudo já que ela é um ramo da linguística, que por sua vez deve ser estudada a partir de um ponto de vista científico – a tradução apresenta diferentes teorias sobre seus vários aspectos. Neste tópico discorre-se sobre dois aspectos, cada um apresentando duas teorias. Inicia-se então com o aspecto de orientação da tradução. Mary SnellHornby (1995) menciona em seu livro as diferentes visões de dois renomados linguistas. De acordo com a autora, Catford define tradução como “the replacement of text material in one language (SL) by equivalent text material in another language (TL).”5 Isso quer dizer que a tradução deve ser feita de acordo com os princípios ideológicos da língua-alvo (LA), necessitando, 5 “a substituição de matéria textual em uma língua (LF) por matéria textual equivalente em outra língua (LA).” 22 portanto, de possíveis ajustes na tradução. Por exemplo, conquanto a expressão bíblica cordeiro de Deus é traduzida para o inglês como lamb of God, para a sociedade dos esquimós a expressão deve ser traduzida como seal of God, uma vez que para essa cultura a foca é quem representa inocência divina, e não o cordeiro. Essa linha defendida por Catford é chamada de orientação linguística. Ainda seguindo a ideia de Mary Snell-Hornby (1995), é importante notar a visão de outro linguista, Theo Hermans, que defende a chamada orientação literária. De acordo Hermans, “from the point of view of the target literature, all translation implies a degree of manipulation of the source text of a certain purpose.”6 É possível notar, portanto, que a principal diferença entre as duas visões se valida no fato de que nessa há clara manipulação, enquanto que naquela há desejo de equivalência textual. O segundo e último aspecto a ser tratado neste tópico diz respeito aos métodos distinguidos por Friedrich Schleiermacher, mencionados no livro de Michael Oustinoff (2011). Schleiermacher distingue os métodos de tradução em pró-alvo e pró-fonte, e os resumem da seguinte maneira: Ou o tradutor deixa o escritor o mais tranquilo possível e faz com que o leitor vá ao seu encontro, ou ele deixa o leitor o mais tranquilo que possa e faz com que o escritor vá ao seu encontro. (OUSTINOFF, 2011, p. 55). Estes conceitos de pró-alvo e pró-fonte são bastante simples de compreender. Os tradutores pró-alvo são aqueles que favorecem o texto na língua-alvo, ou seja, quando traduzem, eles fazem de tudo para manter sua tradução o mais perto possível do original. Já os tradutores pró-fonte favorecem o leitor, isto é, eles traduzem de forma que o leitor sinta que está lendo a tradução como se fosse o original, sem sentir dificuldade alguma quanto a aspectos culturais e linguísticos. Ambos os conceitos apresentam pontos positivos e negativos. A tradução pró-alvo é positiva, pois mantém as ideias originais do autor; mas ao mesmo tempo ela é negativa, pois pode dificultar a leitura de quem não conhece a cultura e língua alvo. Dessa forma, é possível que o leitor tenha de 6 “do ponto de vista da literatura alvo, toda tradução implica num grau de manipulação de certo propósito do texto fonte.” 23 buscar referências fora do livro para que ele possa compreendê-lo. Não obstante, a tradução pró-fonte também é positiva e negativa. Ao mesmo tempo em que a leitura traduzida é facilitada, é possível que o leitor perca muitas das referências da língua-alvo, minimizando então as possibilidades de conhecimentos de outras culturas. Sabendo esses conceitos, conclui-se que o ideal é, portanto, chegar a um ponto médio entre as visões pró-alvo e pró-fonte. Saber medir o quanto do texto fonte deve permanecer na tradução, e o quanto deve ser mudado é uma decisão difícil de ser tomada, e até mesmo difícil de ser percebida. Veja o que Wilhelm von Humbdolt diz a respeito de uma boa tradução: Quando não se sente a estranheza, mas o estranho, a tradução cumpriu seu papel supremo; mas quando a estranheza aparece em si mesma e talvez obscureça até mesmo o estranho, é quando o tradutor deixa escapar que não está a altura de seu original. (OUSTINOFF, 2011, p. 56). Finalizando este tópico, é válido retomar que a tradução pode seguir uma orientação linguística ou literária, e pode ser pró-alvo ou pró-fonte. 1.5 Ramos da área Os ramos da área nada mais são que as áreas de atuação nas quais a tradução é o ponto essencial para iniciar o trabalho. Essas áreas abrangem um enorme leque de variedade. Este trabalho divide tamanha diversidade dos ramos da tradução em três: tradução literária, interpretação e tradução audiovisual. A tradução literária é basicamente a que traduz textos literários. Para melhor compreensão, é preciso entender o que é texto literário e texto não literário. Este último faz uso da linguagem denotativa por causa de sua função pragmática, informativa. Já o texto literário utiliza-se de figuras de linguagem, tais quais hipérboles, eufemismos, englobando, portanto, principalmente a linguagem conotativa. A tradução de um poema é um exemplo de tradução literária. A interpretação é uma área também bastante explorada pelos tradutores e de grande importância para o público envolvido. Há dois tipos de interpretação: a simultânea e a consecutiva. Aquela se fundamenta na 24 interpretação feita praticamente ao mesmo tempo em que o falante da línguaalvo se expressa. O intérprete permanece em uma cabine à prova de som, com fones de ouvido para receber a mensagem na língua-fonte e passá-la na língua-alvo. Por outro lado, a interpretação consecutiva consiste na presença do profissional no mesmo ambiente dos palestrantes. Ele toma notas sobre o que é dito para depois apresentar sua interpretação. A interpretação é muito requisitada em palestras, congressos, conferências, feiras e outros ambientes nos quais o público precisa entender o que lhe é falado pelo estrangeiro. Finalizando este tópico, inicia-se agora a parte mais interessante para este trabalho: a tradução audiovisual. Também conhecida como TAV, a tradução audiovisual abarca várias atividades interlinguísticas e intralinguísticas e preocupa-se tanto com o que é falado (áudio) quanto com o que é visto (visual). A área da TAV abrange seus próprios ramos, os quais se destacam a legenda fechada (closed caption), a legenda aberta e a dublagem. Em se tratando de legenda fechada para surdos ou ensurdecidos (LFSE), não é pacífico entre os estudiosos teóricos e os profissionais da área se esse tipo de trabalho audiovisual é considerado tradução ou simplesmente transcrição. Esta pesquisa não objetiva entrar a fundo nesta discussão, é importante saber que para fins deste trabalho a LFSE é considerada um ramo da TAV. Sendo assim, a característica principal da LFSE é incluir o máximo de descrição ambiental para o telespectador. Ou seja, além de apresentar as falas do programa, a LFSE também contextualiza sons ambientais, tais como risos, tosse, música de fundo. É importante notar que este tipo de legenda se caracteriza por ser uma forma de tradução intralinguística, ou seja, que ocorre a partir e para um mesmo idioma; portanto, há ausência de uma língua estrangeira como LF ou LA. Alguns autores, como Vera Lúcia Araújo (2008), também a consideram intersemiótica, pois passa a mensagem visual para a forma verbal e vice-versa. A legenda aberta está presente em filmes, seriados, músicas, talk shows e outros tipos de programas de origem estrangeira. Ao contrário da LFSE, a legenda aberta é interlinguística, pois contem um idioma estrangeiro como LF e, no nosso caso, o português brasileiro como LA. A tradução para a legenda aberta também não é considerada por alguns autores como tradução propriamente dita devido às suas limitações. Esta maneira de traduzir deve 25 observar número de caracteres, simultaneidade com a boca dos atores e com as cenas, tempo de entrada e saída, fidelidade com o que é falado. Essa última característica não quer dizer traduzir literalmente tudo o que é dito, mas tentar ser o mais fiel possível. Grande parte do público que gosta de programas legendados gosta também de ouvir o inglês, e não simplesmente ignorá-lo. Portanto, é importante que o tradutor para legendas tente manter certa correspondência entre as palavras. 1.5.1 Tradução para a dublagem 1.5.1.1 O que é dublagem? A dublagem é o último e mais importante ramo da tradução a ser estudado neste trabalho. A dublagem se caracteriza por ser uma tradução principalmente oral na qual o campo visual servirá de auxílio para o telespectador. Segundo Oustinoff (2011), o interessante sobre tradução oral é que nossa memória sonora produz retenção de mensagens de curtíssimo prazo; portanto, é essencialmente o sentido do que está sendo falado que deve ser traduzido. Não são os significantes (unidades de tradução/ unidades de língua) que devem ser retidos, mas os significados (unidades de sentido/ unidades de discurso). (...) uma vez discernidas as unidades de sentido, ainda será preciso exprimi-las de maneira adequada em outra língua, também de modo oral. (OUSTINOFF, 2011, p. 97) Desta forma, Oustinoff realça a importância de se tomar cuidado ao traduzir fontes orais para que a tradução não capte mais do que o sentido fundamental do original que os ouvintes irão precisar. Logo, a tradução oral deve ir ao encontro de seu ouvinte, se caracterizando como pró-alvo. Mas afinal, em termos práticos, o que é a dublagem? Segundo o então graduando do curso de comunicação social que produziu sua monografia completamente ao redor da dublagem Leandro Pereira Lessa, A dublagem de um produto audiovisual estrangeiro consiste numa transformação, através da substituição da trilha sonora original, total ou parcialmente, por uma outra no idioma do país onde o filme ou programa de TV será exibido. (LESSA, p. 91, 2002). 26 Portanto, dublagem se caracteriza por ser uma mudança da trilha sonora original por uma trilha sonora no idioma alvo. É interessante notar a diferença entre dublagem e voice-over, que é considerado um tipo de dublagem por alguns profissionais da área. A dublagem propriamente dita é amplamente conhecida por sua sincronia labial, enquanto que o voice-over não apresenta tal particularidade. Este é bastante usado quando há necessidade de dublagem em programas jornalísticos para a TV aberta. Por exemplo, quando Barack Obama faz alguma pronunciação interessante para um programa jornalístico brasileiro, a produção prepara a dublagem em português, mas não deixa a voz original ser completamente ausente. É possível ouvir a voz do presidente americano em um volume mais baixo que a dublagem, e esta não é sincronizada com os movimentos labiais do falante no original. Além disso, ao final da dublagem, os produtores ainda optam por transmitir a última fala no original para que o ouvinte sinta a veracidade entre o original e o que foi dublado. 1.5.1.2 Alguns momentos históricos da dublagem Este trabalho de pesquisa não foca sua concentração principal na dublagem, mas sim na tradução para a dublagem. No entanto, é indispensável que o leitor tenha conhecimentos de particularidades dessa forma de trabalho. Este tópico apresenta brevemente alguns momentos que marcaram a história da dublagem em nosso país. É natural que a primeira curiosidade que o leitor possa ter é de quando ocorreu a primeira dublagem no Brasil. De acordo com Lessa (2002), o primeiro trabalho audiovisual visando à dublagem foi feito para a produção do desenho animado Branca de Neve e os sete anões um ano após sua estreia em seu país de origem, em 1938. Naquela época, Walt Disney, o criador da animação, enviou um de seus funcionários ao Brasil para acompanhar o processo de dublagem. O americano ficou tão maravilhado com nossa produção de dublagem que o próprio Walt Disney fez questão de visitar o pioneiro da dublagem brasileira, Carlos Alberto Ferreira Braga, ou Braguinha, como ficou conhecido na MPB. 27 No final da década de 1940 e em meados da década de 1950, a dublagem se expandiu para além de produções de animações e começou a fazer parte também de filmes estrangeiros. Quando boa parte dos brasileiros já podia possuir televisão em casa, a dublagem se tornou ainda mais necessária, pois por causa da má qualidade de transmissão, era muito difícil ler as legendas. Então, muitas casas de dublagem apareceram no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas foi a Herbert Richards que praticamente deteve o monopólio da dublagem desde 1960 até a década de 1990. Desta forma, a dublagem foi ganhando cada vez mais espaço. Em meados de 1960, o então presidente da república, Jânio Quadros, decidiu seguir a linha dos países europeus e decretou compulsória a exibição de filmes dublados quando se tratassem de produções audiovisuais estrangeiras (LESSA, 2002). Hoje em dia, a dublagem já chegou aos canais da TV a cabo, e esse fato, a propósito, está gerando enorme repercussão pelos fãs da legendagem. Atualmente, se destacam Bravo Estúdios, Gemini Media, Telecine, Delart dentre outras. Outro acontecimento importante ocorreu em 1997. O jornal Folha de São Paulo publicou uma reportagem sobre a greve dos dubladores. Segundo o jornal, quase todos os 350 profissionais das 27 casas de dublagem que existiam na época reivindicavam aumento salarial prometido há mais de anos. Após 45 dias de paralisação, a greve terminou sem que os pedidos dos dubladores fossem concedidos e com muitas demissões. Situações como essa mostram o não reconhecimento aos atores-dubladores brasileiros que continuam a trabalhar até hoje como anônimos mal remunerados e que aguentam críticas pesadas do público sem quase nunca ouvir um elogio. 1.5.1.3 Características técnicas da tradução para a dublagem Como visto anteriormente, a tradução para a dublagem segue uma linha pró-alvo por se tratar de tradução oral, ou seja, tradução que tem como foco as unidades de sentido (OUSTINOFF, 2011). Vários outros aspectos também são de extrema importância neste ramo da tradução. É preciso saber que, a partir de agora, todas as informações técnicas que compõem a tradução para a dublagem foram concedidas em uma entrevista por e-mail com Dilma Machado, que é professora do curso de técnica de tradução para a dublagem 28 da PUC – RJ, tradutora atuante há 16 anos e também dubladora. Alguns de seus trabalhos como dubladora foram os personagens Hantaro em Hantaro, Senhorita Belo em As Meninas Superpoderosas, Princesa Sophie em Gossip Girl, e Saranóia em Yin, Yang, Yo. Já como tradutora sua gama de trabalhos se estende mais, os quais se destacam A Era do Gelo 3, Game of Thrones, Velozes e Furiosos 4, Zack e Cody: gêmeos em ação, Horton no Mundo dos Quem, Mickey Mouse Clubhouse. A tradução para a dublagem se inicia quando o tradutor recebe o vídeo original e o roteiro, o qual pode ser completo ou incompleto, ou pode até mesmo não vir com o material original. Portanto, segundo Dilma, o vídeo é a essencial fonte de trabalho do tradutor audiovisual. Com o material original em mãos, o tradutor começa com uma tradução bruta, ou seja, uma tradução bem generalizada no português padrão, e logo depois, ele faz sua adaptação. Esta é de extrema importância, pois é quando o tradutor presta atenção em quem está falando, qual é a ambientação, e o momento em que se passa a fala. Ou seja, é preciso prestar atenção se quem fala é uma criança, uma mulher ou um boneco, se o diálogo se passa em uma corte de tribunal, na casa de uma pessoa ou em uma boate, e se o filme é de época, é bíblico ou é atual. Com essas preocupações em mente, o tradutor começa a montar o roteiro para a dublagem. Além de prestar atenção no contexto das falas, o tradutor adapta a versão em português para a sincronia labial. Isso quer dizer que se no original o ator começou sua fala com a boca mais aberta e terminou com os lábios formando um som bilabial, o tradutor terá o cuidado de escolher palavras em português que tenham os mesmos aspectos. Claro que nem sempre vai ser possível, mas não por isso que o tradutor não vá se preocupar com tal aspecto. É indispensável pensar também no fato de que a tradução para a dublagem não é uma tradução para o português padrão, mas, na verdade, é uma versão brasileira. Isso acarreta grande importância no trabalho do tradutor. Já foi mencionado que quando se trata de piadas, trocadilhos ou expressões idiomáticas, a tradução literal muitas vezes não sustenta a ideia original. No entanto, não são nem mesmo necessários esses elementos para que se faça presente a versão brasileira. O filme Shrek 2 apresenta um ótimo exemplo de como adaptar a tradução para que ela realmente se torne uma versão brasileira. É uma cena em que Shrek e Burro estão andando pela floresta a 29 procura de um lugar que o Rei lhes havia falado. As falas da versão original são as seguintes: “Shrek: Face it, Donkey! We’re lost. Donkey: We can’t be lost. We followed the King’s instructions exactly. What did he say? ‘Head to the darkest part of the woods. Past the sinister trees with scary-looking branches.’ The bush shaped like Shirley Bassey! Shrek: We passed that three times already!” Note que o nome sublinhado refere-se a uma cantora do País de Gales, mas não famosa no Brasil. Portanto, se o nome continuasse na versão dublada, a piada não teria graça e o objetivo da cena seria perdido. A solução encontrada foi a seguinte: “Shrek: Admita, Burro. Estamos perdidos. Burro: A gente não tá perdido. Seguimos exatamente o que o Rei falou. O que foi que ele disse? ‘Ir para a parte mais escura da floresta. Passar por árvores sinistras com galhos assustadores.’ E esse arbusto aqui que é a cara da Fafá de Belém. Shrek: A gente já passou três vezes por esse arbusto!” Substituir o nome Shirley Bassey por Fafá de Belém tornou a cena mais natural para o ouvinte e, dessa forma, foi mantida a piada da comparação de um arbusto com uma pessoa famosa. Isso é fazer a versão brasileira. É muito importante entender que na TAV o trabalho nunca se resume às características da tradução de fato. No caso da tradução para a dublagem, o tradutor não só faz a tradução adaptada, mas também inclui no roteiro a minutagem e a divisão de anéis. Aquela quer dizer que o tradutor precisa incluir o tempo de entrada e saída de fala. Isso facilita muito a segunda fase do trabalho da dublagem, a etapa nos estúdios de gravação. Dessa forma, quando o dublador recebe o roteiro com a versão dublada, ele já sabe o momento exato de entrada e saída de suas falas. A outra incumbência do tradutor é dividir o roteiro em anéis, ou loops, como também é chamado dentro da área. De acordo com a dubladora Alessandro Araújo que concedeu uma entrevista para o canal fechado HBO 2 (2011), cada anel consiste em 20 segundos de cena. É importante que o tradutor faça essa divisão, pois é a partir dela que se calcula a remuneração dos dubladores. Ainda segundo a dubladora, a cada 20 anéis o profissional recebe por uma hora de trabalho. É notável mencionar que 30 já os tradutores recebem sua remuneração por minuto por volta de cinco ou seis reais. Então se o filme tiver a duração de 90 minutos, o tradutor receberá por volta de R$450,00. Esta remuneração é de acordo com recebimento do roteiro original completo. Se o tradutor recebe o script original incompleto, o valor do minuto se torna o valor x (cinco ou seis reais) com adição de 50% de seu valor. Já no caso de o tradutor não receber o roteiro, o valor de seu minuto se torna o dobro, pois ele provavelmente terá mais dificuldades e levará mais tempo para traduzir. 1.6 Personagens de filmes Para fazer a análise de comparação entre o personagem da versão original e o personagem da versão dublada, é preciso entender como se dá a construção do mesmo em uma obra cinematográfica. A seguir veremos uma visão panorâmica do que Luis Espinal apresenta em seu livro Consciência Crítica Diante Do Cinema (1976): Avaliação crítica do cinema Analítica Sintética Narrativa Intuição Linguística Tema Cultural Moral Argumentativa Picos da ação Evolução psicológica dos personagens Comparsas Antagonistas Simbólico Protagonistas Coletivo Individual 31 Com este esquema dos pontos em que Espinal (1976) explica em seu livro, percebe-se que o foco é o item dos personagens, mas sem perder o contexto em que eles estão inseridos. Segundo o autor, dentro da crítica analítica argumentativa, fazer uma análise psicológica dos personagens é não somente captar a psicologia deles – ou seja, analisá-los “por meio de ações, atitudes, interioridade, diálogos sobre o personagem, ambientações da situação” (p. 90) – mas também entender o estilo psicológico do filme e o itinerário psicológico pelo qual se chega ao espectador. Para que toda essa análise seja possível, é preciso entender os principais tipos de personagens de filmes de acordo com Espinal (1976). Primeiramente, têm-se os comparsas, que nada mais são que personagens secundários que acompanham o protagonista. Há também os antagonistas, que são conhecidos popularmente como aqueles famosos vilões. Na verdade, os antagonistas são os personagens que impedem que os protagonistas cumpram suas missões. Já os protagonistas são os “agentes principais da ação e que logo se converterão nos sujeitos da narração cinematográfica.” (p. 63). O protagonista é o personagem com o qual o espectador normalmente se identifica, não necessariamente por completo, e pelo qual ele torce. Os protagonistas podem ser interpretados em até três níveis: simbólico, coletivo e individual. Para concretizar tal entendimento, será usado o protagonista do filme A vida é bela (1999). O primeiro nível se refere a um personagem individual, mas que simboliza algo maior. No filme em questão, este seria o prisioneiro do campo de concentração. O personagem coletivo é de fato um grupo que está sendo representado ou descrito no filme. Em A vida é bela, o coletivo representado é o povo judeu. E o terceiro nível do protagonista é uma alusão ao personagem como pessoa singular. No filme em questão, este protagonista individual seria Guido Orefice, o pai de família que luta para que seu filho não passe pela experiência traumática de estar em um campo de concentração. Portanto, é a partir de todo esse entendimento da caracterização de personagens de filme que será feita a análise das personagens dos filmes bilíngues focados neste trabalho de pesquisa. 32 CAPÍTULO 2 - PESQUISA O segundo capítulo deste trabalho de pesquisa discorre sobre a modificação das caracterizações dos personagens decorrente da tradução para a dublagem em filmes bilíngues. Antes, porém, da apresentação da análise de fato, o leitor tomará conhecimento dos objetivos propostos para a pesquisa, seus objetos de estudo e as ferramentas que serão utilizadas para a realização da mesma. Além disso, os dados coletados serão dispostos de forma que o leitor tenha boa visualização da comparação entre o script original e o roteiro final da tradução para a dublagem. 2.1 Hipótese A tradução para a dublagem em filmes bilíngues modifica as caracterizações dos personagens da versão original. 2.2 Objetivos Objetivo geral Observar e analisar traduções para a dublagem de filmes bilíngues cujos idiomas originais são o inglês e outro(s). Objetivos específicos Observar traduções para a dublagem levando em consideração os procedimentos técnicos utilizados. Observar e analisar contextos em que os dois idiomas são falados nos filmes. Observar e analisar as caracterizações dos personagens. 33 2.3 Cenário Este trabalho de pesquisa visa analisar a tradução para a dublagem oficial em filmes bilíngues dentro do processo que abrange o script original, sua tradução e seu resultado final na dublagem. 2.4 Objetos de estudo Ao selecionar os objetos de estudo, foi levado em consideração filmes que apresentassem contextos bilíngues relevantes para a tradução focada na dublagem em português. Ademais, foram escolhidos filmes de diferentes gêneros (abaixo descritos), abrangendo, portanto, o estudo da tradução para a dublagem. Três filmes compõem os objetos de estudo desta pesquisa: 1) Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds): filme de guerra lançado em 2009 e dirigido por Quentin Tarantino; 2) O Poderoso Chefão (The Godfather): drama lançado em 1972 e dirigido por Francis Ford Coppola; 3) Rio (Rio): animação lançada em 2011 e dirigida por Carlos Saldanha. 2.5 Metodologia A análise de pesquisa será estudada conforme certa sucessão de etapas. Primeiramente, serão analisadas as cenas que envolvem o aspecto bilíngue de cada objeto de estudo em suas versões originais e em suas traduções oficiais com foco na dublagem. O próximo passo será fazer análise focada na tradução e nos procedimentos técnicos utilizados. Por fim, será averiguado se a dublagem conseguiu captar o sentido original, se foi necessária alguma modificação na tradução em si, ou se houve alguma modificação referente a sotaque. Ou seja, serão observadas se as caracterizações dos personagens se mantiveram na versão dublada. 34 2.6 Instrumentos Para melhor analisar os filmes com o objetivo proposto, faz-se necessário a utilização de parâmetros que norteiam este estudo. Tais parâmetros serão as análises denotativa e conotativa, a polissemia de vocábulos, as técnicas de tradução (seus tipos, procedimentos técnicos, suas teorias), as técnicas de dublagem (sincronismo labial e tempo de entrada e saída das falas) e a formação da caracterização de personagem. 2.7 Coleta de dados Filme: Bastardos Inglórios Idiomas: Inglês, francês e alemão Bastardos Inglórios trata de uma história durante a II Guerra Mundial. Na França, a judia Shoshanna consegue sobreviver a uma execução que matou toda a sua família. O responsável pelo fuzilamento foi o coronel nazista Hans Landa. Depois disso, ela se muda para Paris mantendo seu verdadeiro nome em segredo. Enquanto isso, em outro lugar da Europa, o tenente Aldo, americano, comanda um grupo de antinazistas conhecidos como Os Bastardos. O objetivo deles é matar o maior número possível de nazistas. O tenente se torna aliado de uma espiã alemã para dar continuidade aos seus planos. A história se desenrola de forma que todos os personagens se encontram no fim. É interessante notar que o filme apresenta três idiomas principais de forma equivalente, ou seja, nenhum sobrepõe o outro. Cena I: O coronel alemão Landa chega à casa do fazendeiro francês LaPadite procurando por judeus que podem estar escondidos naquela casa. No original, as falas em francês foram legendadas em inglês. Na versão dublada, o que era em inglês passou para português, e o que era em francês permaneceu com seu áudio original com legendas automáticas em português. Áudio original Versão dublada Cel. Landa: C’est la proprieté de Áudio original mantido com legendas monsieur LaPadite? (Legendado em em português 35 inglês). LaPadite: Je suis Perrier LaPadite. Áudio original mantido com legendas (Legendado em inglês). em português Cel. Landa: C’est un plaisir de vous Áudio original mantido com legendas rencontrer monsieur Lapadite. Je suis em português coronel Hans Landa. (Legendado em inglês). LaPadite: Que puis-je faire pour vous? Áudio original mantido com legendas (Legendado em inglês). Cel. Landa: J’espere em português que vous Áudio original mantido com legendas m’inviteriez chez vous enfim que nous em português puissions avoir une discussion. (Legendado em inglês). LaPadite: Certainement. Après vous. Áudio original mantido com legendas (Legendado em inglês). em português Cel. Landa se apresenta e continua a conversar com LaPadite. Após um tempo, LaPadite pede às mulheres que se retirem. Até agora todos os diálogos foram em francês – quase oito minutos de filme. Cel. Landa sabe que o fazendeiro fala inglês e então pede permissão para que eles conversem em inglês. Áudio original Versão dublada Cel. Landa: While I’m very familiar Cel. Landa: Embora eu esteja bem with you and your family, I have no familiarizado com o senhor e sua way of knowing if you are familiar with família, eu não sei se o senhor tem who I am. Are you aware of my conhecimento sobre quem eu sou. O existence? senhor sabia da minha existência? LaPadite: Yes. LaPadite: Sim. O diálogo continua em inglês até LaPadite admitir que está escondendo inimigos do Estado alemão em sua casa e apontar em que parte 36 debaixo do chão eles estão. Pouco antes de o diálogo voltar a ser em francês, segue o seguinte diálogo ainda em inglês: Áudio original Versão dublada Cel. Landa: Since I haven’t heard any Cel. Landa: Como não ouvi nenhum disturbance, I assume, while they’re ruído, presumo que embora estejam listening, they don’t speak English. nos ouvindo, não entendem o que falamos. LaPadite: Yes. LaPadite: Isso. Cel. Landa: I’m going to switch back Cel. Landa: Voltaremos a falar francês to French now, and I want you to agora e quero que follow my masquerade. Is that clear? encenação, está claro? LaPadite: Yes. LaPadite: Sim. siga minha A partir de agora, o diálogo volta a ser em francês e Cel. Landa começa a se despedir para que os inimigos não desconfiem de nada, mas enquanto ele fala uma coisa, ele faz gestos do contrário. Seus homens então atiram no chão matando todos, menos Shosanna, adolescente de 16 anos que consegue fugir. Cel. Landa mira sua arma para atirar nela enquanto foge, mas ela já está muito longe. Áudio original Versão dublada Cel. Landa: Au revoir, Shosanna. Cel. Landa: Au revoir, Shosanna. (sem legenda em inglês). (falado em francês pelo dublador, sem legenda em português). Cena II: Quando parte dos Bastardos se encontra numa taverna com a atriz espiã alemã (Hammersmark) que trabalha contra o nazismo. Um oficial alemão percebe o sotaque e atitude de um dos Bastardos e o confronta. Após o tiroteio, todos no bar estão mortos no chão, com exceção de um soldado alemão. O tenente dos Bastardos começa então um diálogo com esse soldado. 37 Áudio original Versão dublada Soldado: You outside, who are you? Soldado: Você aí fora, quem é? British? American? What? Inglês? Americano? É o que? Tenente Aldo: We’re American. What Tenente: Somos americanos. E você? are you? Soldado: I’m a German, you idiot! Soldado: Eu sou alemão, seu idiota! Tentente: Speak English pretty good Tenente: Fala muito bem minha for a German. língua pra um alemão. Soldado: I agree. So let’s talk. Soldado: Eu concordo. Então vamos conversar. Tenente: Ok, talk. Tenente: Muito bem, fale. Soldado: I’m a father. My baby was Soldado: Eu sou pai. Meu filho nasceu born today in Frankfurt. Five hours hoje em Frankfurt. Faz cinco horas. O ago. His name is Max. We were in nome dele é Max. A gente tava aqui here drinking, celebrating. They’re the bebendo e celebrando. Então eles ones that came in shooting and killing. começaram a atirar e matar. Não tive It’s not my fault. culpa. Tenente: Ok, it wasn’t your fault. Tenente: Tudo bem, não foi sua What’s your name, soldier? culpa. Qual é o seu nome, soldado? Soldado: Wilhem. Soldado: É Wilhem. Tenente: Now, is there anybody alive Tenente: Bom, e tem alguém vivo do on our side? nosso lado? Soldado: No. Soldado: Não. Hammersmark: I’m alive! Hammersmark: Eu estou viva! Soldado grita algo em alemão, não há Soldado: Cala a boca, senão eu te legenda em inglês. mato, vadia! Tenente: Who’s that? Tenente: Quem é? Soldado: Is the girl on your side? Soldado: Ela é do lado de vocês? Tenente: Which girl? Tenente: Que garota? Soldado: Who do you think? Von Soldado: Quem você acha? Von Hammersmark. Hammersmark. Tenente: Yeah, she’s ours. (Soldado Tenente: É, ela é nossa. (Soldado fala fala algo em alemão para algo em alemão para Hammersmark, 38 Hammersmark, não há legenda em não há legenda em português). inglês). Tenente: Is she okay? (Soldado Tenente: Ela está bem? (Soldado continua falando em alemão). Wilhem! continua falando em alemão). Wilhem! Soldado: She’s been shot. But she’s Soldado: She’s been shot. But she’s alive. alive. (Legendado em português). Tenente: Okay, Wilhem. What do you Tenente: Muito bem, Wilhem. O que say we make us a deal? me diz de fazermos um trato? Soldado: What’s your name? Soldado: Qual é o seu nome? Tenente: Aldo. Okay, Wilhem, here’s Tenente: Aldo. Muito bem, Wilhem, my deal. You let me and one of my esta é minha proposta: você deixar men come down there and take the um dos meus homens e eu entrar aí e girl away. No guns, no guns me, no pegar a garota. Sem armas, sem guns you. We take the girl and leave. aramas eu e sem armas você. E nós It’s that simple, Willi. You go your way. pegamos a garota e partimos. We go ours. And little Max gets to Simples assim, Willi. Você segue o grow up playing catch with his daddy. seu caminho, e nós, o nosso. E o So, what do you say, Willi? We got us pequeno a deal? Max vai poder crescer brincando com seu papai. Então, o que me diz, Willi? Temos um trato? Soldado: Aldo. Soldado: Aldo. Tenente: I’m here, Willi. Tenente: Eu estou aqui, Willi. Soldado: I want to trust you. But how Soldado: Eu quero confiar em você. can I? Mas como é que eu posso? Tenente: What choice you got, son? Tenente: Que escolha você tem, amigo? Soldado: Okay, okay. Aldo, I’m going Soldado: Tudo bem, tudo bem. Aldo, to trust you. Come down. eu vou confiar em você. Pode descer. Tenente: Hey, Willi. What’s with the Tenente: Oi, Willi. E essa machine gun? I thought we had us a metralhadora? Eu pensei que nós deal. tivéssemos um trato. Soldado: We still have a deal. Now, Soldado: Temos um trato. Agora, get the girl and go. pegue a garota e vá. 39 Tenente: Not so fast. We only got a Tenente: Não tão rápido. Só temos deal, we trust each other. And a um trato se confiamos um no outro. Mexican standoff ain’t trust. Um impasse mexicano não é confiar. Soldado: You need guns on me for it Soldado: Você teria que ter armas to be a Mexican standoff. apontadas pra mim pra ser um impasse mexicano. Tenente: You got guns on us. You Tenente: Você tem uma arma sobre decide to shoot, we’re dead. Up top nós. Se decidir atirar, estaremos they got grenades. They drop them mortos. Lá em cima eles têm down here, you’re dead. That’s a granadas. Se jogarem aqui, você Mexican standoff, and that was not estará the deal. No trust, no deal. morto. É um impasse mexicano, e não foi esse o trato. Sem confiança não tem trato. (Hammersmark fala algo em alemão (Hammersmark fala algo em alemão com o soldado, não há legenda em com o soldado, não há legenda em inglês). português). Soldado: All right, Aldo. Fine. Just Soldado: Tudo bem, Aldo. Tudo bem. take that fucking traitor and get her Agora out of my sight. pegue essa desgraçada traidora e leve pra longe de mim. Observações: Além do forte sotaque de Tennessee, o tenente Aldo tem uma fala muito popular, quase nada formal. Ele faz uso de expressões como ain’t, yall. Alguns exemplos dessa fala peculiar são os seguintes: Áudio original Versão dublada Where’s my men? Onde estão meus homens? How you know our names? Como sabe os nossos nomes? That’s a pretty exciting story. What É uma historinha muito interessante. comes next? Eliza on Ice? O que vem depois? Chapeuzinho Vermelho? There ain’t no way you’re gonna take Você não vai capturar aqueles them boys without setting off the garotos sem que eles explodam as 40 bombs. bombas. Filme: O Poderoso Chefão Idiomas: Inglês e italiano O clássico de 1972 O Poderoso Chefão retrata a luta da família siciliana para permanecer no poder na América pós-guerra. Don Corleone tem quatro filhos: Sonny (quem mais se envolve nos negócios), Fredo, Tom (o conselheiro de Don) e Michael (herói de guerra que não se envolve com os negócios da família). Todos eles falam italiano, mas também são fluentes em inglês. Apesar de haver mais falas em inglês, a presença do italiano também é muito grande. Cena I: Bonasera explica a Don Corleone o que aconteceu com sua filha. Ele fala em inglês, mas com sotaque. As palavras sublinhadas são algumas das que apresentam pronúncia diferente da pronúncia dos falantes nativos. Áudio original Bonasera: I believe in Versão dublada America. Bonasera: Eu acredito na América. America has made my fortune. And I América fez a minha fortuna. Criei raised my daughter in American minha filha ao estilo Americano. Dei fashion. I gave her freedom, but I liberdade a ela, mas eu a ensinei a taught her never to dishonor her nunca desonrar a família. Ela arrumou family. She found a boyfriend, not an um namorado que não era italiano. Italian. She went to the movies with Ela ia ao cinema com ele. Chegava him. She stayed out late. I didn’t tarde. Eu nunca reclamei. Há dois protest. Two months ago she took her meses ele a levou para passear com for a drive with another boyfriend. outro amigo. Eles a fizeram beber They made her drink whiskey and uísque e aí tentaram abusar da minha then they tried to take advantage of filha. Ela resistiu, manteve a honra. her. She resisted, she kept her honor. Então bateram nela como num So they beat her like an animal. When animal. Quando eu fui ao hospital, o I went to the hospital, her nose was nariz dela estava quebrado, o queixo broken, her jaw was shattered, held estiraçado preso com um arame. Ela together by wire. She couldn’t even não conseguia nem chorar por causa 41 weep because of the pain. But I wept. da dor. Mas eu chorei. Porque eu Why did I weep? She was the light of chorei? Ela era a luz da minha vida. my life. Beautiful girl. Now she will Uma menina linda. Agora jamais vai never be beautiful again (ele chora). ser linda de novo. (ele chora). Sorry. I went to the police, like a good Desculpe. Eu fui a polícia como um American. These two boys were bom cidadão. Os dois rapazes foram brought to trial. The judge sentenced julgados. O juiz os condenou a três them three years in prison, but anos de prisão, e suspendeu a suspended the sentence. Suspended sentença. Suspendeu a sentença! E the sentence! They went free that very eles ficaram livres naquele mesmo day! I stood in the courtroom like a dia. Eu fiquei no tribunal como um fool. Those two bastards, they smiled idiota. E aqueles dois safados at me. Then I said to my wife: “For sorriram para mim. Aí eu disse para justice we must go to Don Corleone.” minha mulher: “Para termos justiça temos que ir ao Don Corleone.” Cena II: Luca Brasi, advogado da família Corleone, a pedido do patriarca se encontra com a família Tattaglia para tentar se infiltrar. Áudio original Versão dublada Bruno: Luca! I’m Bruno Tattaglia. Bruno: Luca!.Eu sou Bruno Tattaglia. Luca: I know. Luca: Eu sei. Bruno: Un bicchiere di scotch, pre- Bruno: Você quer um uísque, préwar? (Sem legendas em inglês). guerra? Luca: Io non bevo. (Sem legendas em Luca: Eu não bebo. inglês). Sollozzo: You know who I am? Sollozzo: Você sabe quem eu sou? Luca: Io ti conoscio. (Legendado em Áudio original mantido com legendas inglês). em português. Sollozzo: Tu hai parlato con La Áudio original mantido com legendas famiglia Tattaglia, lo em português. ho pensato per me e te di un business. Ho bisogno di qualcuno 42 come te, forte. Io ho capito che non sei più contento con la famiglia Corleone. Capace che vuoi cambià? Ti vuoi mettere con me? (Legendado em inglês). Luca: Basta che i soldi sono buoni. Áudio original mantido com legendas (Legendado em inglês). Sollozzo: Cinquantamila em português. dollari a Áudio original mantido com legendas principio. (Legendado em inglês). Luca: Minchia. (Legendado em português. em Áudio original mantido com legendas inglês). em português. Sollozzo: D'accordo? (Legendado em Áudio original mantido com legendas inglês). em português. Cena III: Michael está ensinando sua esposa a dirigir. Áudio original em italiano Versão dublada Apollonia: Io so guidare, guarda! (Sem Áudio original mantido sem legendas legendas em inglês). em português. Michael: Frena! Che sono pazzo, Áudio original mantido com legendas meglio se ti insegno l'inglese. em português. (Legendado em inglês). Apollonia: (A parte em italiano é Apollonia: (A parte em italiano é legendada em inglês). Ma io lo so legendada em português). Ma io parlo l'inglese: Monday, Tuesday, Thursday, tua língua: segunda, terça, quinta, Wednesday, Friday, Saturday. Sunday, quarta, sexta, domingo, sábado. (Gravada pela dubladora com sotaque italiano). Filme: Rio Idiomas: Inglês e português Rio conta a história de uma arara azul que assim que nasceu no Brasil foi engaiolada e levada para os EUA, onde é adotada por uma garota e cresce 43 lá sem saber voar. Um cientista brasileiro de aves encontra Blu e conversa com Linda, sua dona, para levá-lo ao Brasil para acasalar com a única fêmea existente da espécie. Quando Blu chega ao Brasil, além de conhecer Jade, ele também conhece outros pássaros brasileiros que o ajudarão a salvar pássaros que estavam sendo contrabandeados. Cena I: Blu chega ao Rio e encontra os primeiros pássaros brasileiros. Áudio original Versão dublada Nico: E aí, tudo bom? Nico: E aí, tudo bom? Blu: Uh...yeah! I… am not… from (Blu tenta falar com sotaque carioca). Blu: É, é…tudo! É… como é que here. estão as coisas, parceiros? Pedro: Hey, Nico. He’s a tourist. Pedro: Se liga, Nico. Ele é turista. Nico: Funny, you don’t look like one. Nico: É mesmo, é? Não parece. Blu: Really? I don’t? Blu: Sério? Não parece? Pedro: Except you got pigeon doo-doo Pedro: Só que tá com coco de pombo on your nose. no nariz. Blu: Oh no, no. This is just SPF 3000. Blu: Não, não, não. Isso aqui é filtro solar fator 3000. Nico: So, are you here for Carnaval? Nico: E aí, você veio pro Carnaval? Blu: Actually, I’m just here to meet a Blu: Na verdade, eu vim pra conhecer girl. uma menina. Nico: A girl! Nico: Uma menina! Pedro: Yes. Pedro: Ah, cumadi! Nico: Little word for advice, you make Nico: Vou te dar uma ideia, hein! the first move. Brazilian respond to confidence. ladies Toma a iniciativa porque mulher brasileira gosta de homem que se garante. Blu: Right. Blu: Obrigado. Pedro: Yeah, it’s all about swagger. Pedro: Aí, a parada é chegar junto. You got to puff out that chest. Swing Você estufa esse peito, exibe essas that tail. Eyes like some kind of crazy penas, aperta os olhinhos que nem love-hawk! gavião apaixonado. 44 Nico: But first we got to burst you out. Nico: Mas primeiro, vamos tirar você daí. Blu: What? Blu: Quê? Pedro: Yeah! I’m gonna pop that cage Pedro: Aí, eu abro essa gaiola que open like a soda can! nem lata de refri! Blu: No, no. Wait! No, no. That’s ok. Blu: Não, não. Tá legal aqui! Não, não, peraí, peraí. Não precisa. Não, não. Nico: You call that popping? Nico: É assim que vai abrir? Pedro: This thing is robust. Pedro: Gaiola sinistra, hein! Blu: No, no, guys, really. I’m fine. The Blu: Não, não, não, gente. É sério. Tô cage is great. Love the cage! legal. A gaiola é ótima, eu adoro a gaiola! Nico: Tá bom. Suit yourself. Nico: Então tá, né. Você que sabe. Pedro: Don’t forget. Love-hawk. Pedro: Aí, não vacila. Olhar de gavião. Nico: Bem-vindo! Nico: Bem-vindo, cumpadi! Blu: Yes, yes… Bem… and to you, as Blu: Tá, tá bom. É, cum...cum...com a well. empada, né. Pra você também. Cena II: Blu se apresenta para Jade. Áudio original Jewel: You look like me. Versão dublada Jade: Você se parece comigo. Blu: Hi. My name’s Blu. You know, like Blu: Ah, é! Oi, meu nome é Blu. Com the cheese with the mold on it. You B de bobo, L de lixo e U de urubu. know, that smells really bad. (Para si:) (Para si:) Para de falar besteira. That’s stupid! Stupid, stupid, stupid! Burro, burro, burro! Cena III: Blu e Jade estão presos um ao outro por uma corrente. Eles estão correndo dos capangas que querem pegá-los. 45 Áudio original Versão dublada Jewel: This is great! I’m chained to the Jewel: Só me faltava essa. Presa ao only bird in the world who can’t fly! único pássaro no mundo que não voa! Blu: Actually, there are about 40 Blu: Ué, tem um amigo meu que não species of flightless birds. voa por opção. João de Barro. Jewel: Duck! Jewel: Madeira! Blu: No, ducks can fly. Blu: Não, de Barro. Jewel: No! Duck! Jewel: Não! Madeira em frente! 2.8 Análise É válido lembrar ao leitor que os parâmetros que serão adotados na análise incluem as técnicas de tradução (seus tipos, procedimentos técnicos, suas teorias), as técnicas de dublagem (sincronismo labial e tempo de entrada e saída das falas) e a formação da caracterização de personagem. Faz-se importante também a seguinte observação técnica: nos filmes Bastardos Inglórios e O Poderoso Chefão há seis opções de legendas no DVD. A ordem das opções de legendas é 1 eng, 2 por, 3 eng, 4 por, 5 eng e 6 por, sendo que 1 eng e 2 por equivalem a presença de legendas em inglês e português, respectivamente, durante todo o decorrer do filme; 3 eng e 4 por ativam os comentários do diretor em inglês e português, respectivamente; e 5 eng e 6 por ativam as legendas somente nas partes do filme em que o áudio não é em inglês (no caso da versão original) ou não é em português (no caso da versão dublada). Ou seja, essas são as legendas automáticas para quando há áudio em idioma estrangeiro. 46 2.8.1 Bastardos Inglórios Será iniciada a análise dos dados de acordo com a ordem das cenas coletadas. Primeiramente, há o filme Bastardos Inglórios. Para alguém que deseja assistir ao filme em sua versão dublada, a primeira cena já é uma surpresa devido à falta de dublagem. Assim como no original, a versão do filme para a dublagem apresenta legendas automáticas (em português) quando se fazem presentes as falas em francês e alemão. O áudio dublado de fato só aparece no filme quando o áudio original é em inglês. Ou seja, a distribuidora brasileira optou por dublar somente as falas em inglês e manter as outras, em francês e em alemão, como no original. Os primeiros minutos do filme são interessantes, pois já apresentam dois idiomas. O diálogo entre os personagens começa em francês e após oito minutos é mudado para o inglês. É quando a dublagem começa de fato. Antes de entender sobre a tradução feita nestas falas em inglês, é bom que o leitor saiba algumas características do personagem Coronel Hans Landa. Sua fala é bastante educada e, de certa forma, rebuscada. Não há registros de gírias ou outras formas de informalidade. Além disso, seu tom de voz é sereno e pacífico, passando completa segurança em todos os momentos nos quais ele fala algo. Feita essa observação, note que a tradução da primeira fala de Landa foi bem fiel ao seu original sem necessidade de usar os procedimentos técnicos da tradução oblíqua. No entanto, percebe-se também que o tradutor estava ciente da caracterização do personagem, um homem que fala com esmero e formalidade, pois quando traduziu you para senhor com certeza levou essas características em consideração. O pronome you pode ser traduzido tanto para você (s) como para senhor (es)/ senhora (s). O contexto completo da fala – como, quem e onde – é o indicador para a tradução. Se a tradução oficial tivesse sido você, ela estaria prejudicando a caracterização do personagem. “São minúcias, dir-se-á. Mas a tradução é o mundo das minúcias.” (RÓNAI, 2012, p. 86). Por menor que seja este ponto de tradução, ele poderia implicar na visão que o telespectador tem do personagem. Apesar 47 de todo o esforço e atenção presentes na tradução desta fala, alguém poderia questionar que a fala traduzida para O senhor sabia da minha existência? não foi tão requintada como o original. É possível que essa observação seja feita e não seria certo contradizê-la. No entanto, esta tradução tem um fim muito específico: a dublagem. Há de se levar em consideração todas suas especificidades técnicas antes de escrever o roteiro oficial de dublagem. Dessa forma, além de preocupar-se com as técnicas de tradução e escrever em bom português, o tradutor atenta-se também ao sincronismo labial e ao timing de fala. Seguindo com a cena, veja a tradução da última parte do diálogo em inglês. Assim como antes, o tradutor conseguiu capturar a elegância da fala de Hans Landa em sua dublagem. Ele seguiu a mesma ordem gramatical que a frase em inglês apresenta mostrando mais uma vez ser fiel ao original. No entanto, uma mudança de vocabulário fez-se necessária. A ideia transmitida por they don’t speak English precisou ser mudada já que não faria sentido dizer que o diálogo estava sendo em inglês na dublagem para o português. Assim, o tradutor optou por não entendem o que falamos. Solução fácil e simples, mas que causaria incoerência caso não fosse optada. Em contrapartida, a fala I’m going to switch back to French now não precisou ser alterada permanecendo em português como Voltaremos a falar em francês agora. O áudio, de fato, volta ao seu original na língua francesa. A última fala da cena, em francês, não foi dublada para o português e, no entanto, tampouco foi mantido o original. O que ocorreu foi a dublagem no próprio idioma francês provavelmente porque a fala não continha muito conteúdo ou conteúdo de difícil compreensão. Presumiu-se, portanto, que o telespectador entenderia que au revoir quer dizer até logo. Mesmo que o telespectador não saiba tal significado, ele poderia ser inferido pelo contexto da cena. Outro motivo para que os diretores de dublagem escolham que o idioma x permanecerá, mas de forma dublada, é que fazendo isso não há o confronto de áudios (se um personagem fala dois idiomas e somente um deles é dublado, é facilmente perceptível a mudança de voz e de tom, já que, na verdade, são duas pessoas diferentes – o ator e o dublador – falando.) Segue agora a segunda cena de Bastardos Inglórios, uma que é bastante interessante e envolve o inglês e o alemão no original. A cena começa 48 com o soldado questionando, em inglês, ao tenente sua nacionalidade para a qual a resposta é americana. A dublagem permaneceu com a mesma resposta, ainda que o idioma falado tivesse sido o português. Há uma pequena incoerência, pois americanos não falam português (com exceção dos poucos que optam por aprender nossa língua). No entanto, incoerência maior teria sido se a tradução mudasse a nacionalidade do personagem como justificativa por ele estar falando em português. Felizmente, não foi isso o que ocorreu e há algumas prováveis razões para que o tradutor nem pensasse em fazer tal tradução. Em primeiro lugar, o enredo do filme é sobre a Segunda Guerra Mundial e o cenário é a Europa. Apesar de o Brasil ter participado na guerra, o contexto do filme foca nos nazistas e judeus, classificações das quais o nosso país não faz parte. E em segundo lugar, este filme não é indicado a qualquer tipo de público. A produção não é recomendada a menores de 18 anos, e a própria história chama um público que se interesse por guerras e que tenha, no mínimo, algum conhecimento sobre a Segunda Guerra Mundial. Devido a essas razões, é facilmente descartável a tradução para Somos brasileiros ao invés de Somos americanos. O mesmo se aplica à fala I’m a German, you idiot! para Eu sou alemão, seu idiota! O uso do pronome eu nessa tradução também pode ser analisado. Em português brasileiro – ou simplesmente brasileiro7 – esse pronome é frequentemente ocultado pelo falante nativo já que a própria conjugação verbal indica que eu é o sujeito da oração. Dessa forma, para que a tradução ficasse mais natural, poder-se-ia retirar o pronome. No entanto, a permanência do mesmo pode ter sido para enfatizar o fato de o falante ser alemão. O eu, portanto, torna-se enfático para o que é uma obviedade a partir do ponto de vista do soldado. Assim como a cena anterior, a fala Speak English pretty good teve de ser alterada para não causar incoerência. A tradução Fala muito bem minha língua seguiu o mesmo raciocínio da tradução da fala de Landa na primeira cena. Todas as falas que apresentarem este mesmo aspecto seguirão o mesmo raciocínio da primeira para que o telespectador não faça confusão com o idioma falado e com o que é falado de fato. Dessa forma, o filme fica agradável e confortável para os ouvidos. 7 RÓNAI, Paulo. A tradução vivida. 4 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2012. 49 Ponto curioso a ser observado nesta segunda cena são as falas em alemão. A primeira aparece quando o soldado grita com Hammersmark. No original esta não é legendada em inglês, mas na versão dublada ela é traduzida para o português e dublada. Seria coerente, então, fazer o mesmo para todas as falas alemãs que aparecessem na cena. Contudo, não é isso o que ocorre e as outras falas em alemão simplesmente permanecem como o original: sem dublagem e sem legendas em português. Porém, não é necessário se ater a tal ponto, pois nesta cena as falas em alemão não comprometem o entendimento geral. Já se observou que todas as falas em inglês foram dubladas e as traduções até agora foram de ótimo nível. No entanto, não é possível ignorar o que só pode ter sido um erro por parte do tradutor. Para a surpresa e choque de quem faz esta análise e de quem a lê, a fala She’s been shot, but she’s alive foi simplesmente mantida em inglês. Paulo Rónai (2012) acredita que o dizer errar é humano não se aplica à melhor profissão que a do tradutor. Voltemos no capítulo anterior ao exemplo da tradução para o inglês do poema Tragédia Brasileira de Manuel Bandeira. O poema apresenta vários nomes de bairros cariocas que não causariam o mesmo sentido a um natural do Rio de Janeiro e a um americano. Sobre este quesito, Rónai (2012, p. 64) observa o seguinte: Outro tradutor, Manuel Cardoso, manteve em português todos esses nomes, mas, depois de reproduzir tais quais Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra... incompreensivelmente deixou escapar Constitution Street. O que o autor observa é que o tradutor fez uma escolha que aparentemente não manteve a mesma lógica usada anteriormente. Foi exatamente isso que ocorreu com tal fala do filme. Parece que o tradutor, num relapso, esqueceu-se de traduzi-la. Continuando na mesma cena, a fala And little Max gets to grow up playing catch with his daddy é um exemplo de quando não se deve usar a tradução literal. Playing catch é uma atividade lúdica extremamente presente na cultura norteamericana que significa jogar beisebol de maneira bastante informal, a qual há só um arremessador e um receptor. Normalmente, é jogado por pai e filho quando este ainda é uma criança. No Brasil, pode-se dizer que não há o costume de tal desporto e que, mesmo que fosse traduzido, não 50 passaria a mesma mensagem, já que os brasileiros não têm conhecimento do sentido que esse jogo passa ao americano. Portanto, se fosse traduzido para jogar beisebol, além de passar a mensagem errada, pois play catch não é jogar beisebol de fato, a tradução não conseguiria passar o sentido de que o jogo representa um passatempo entre pai e filho. Dentro deste aspecto da tradução oblíqua, o tradutor teve de optar por adaptar a fala para uma versão brasileira. Sua tradução foi E o pequeno Max vai poder crescer brincando com seu papai. O sentido de a criança passar tempo com o pai foi possível com essa tradução, mas perdeu-se a característica de personagem americano do tenente Aldo, já que aquele aspecto cultural precisou ser retirado para que o telespectador brasileiro identificasse a fala dentro de sua cultura. Dessa forma, a característica de personagem individual – Aldo Raine: americano humilde criado em Tennessee – precisou ser sacrificada. Outra fala do tenente Aldo que gera análise de tradução é What choice you got, son? O termo son é polissêmico e não está sendo usado com seu sentido habitual. Denotativamente, ele quer dizer prole masculina. Por outro lado, num sentido conotativo, o termo pode significar carinho ou ironia. A tradução literal é filho e também apresenta polissemia em português. No entanto, o tradutor optou por traduzi-lo como Que escolha você tem, amigo? A última palavra da frase, análise desta tradução, foi empregada gerando sentido de carinho, objetivando principalmente a aproximação do soldado em relação ao tenente. A palavra filho também poderia ser uma boa opção para a tradução, pois no caso desta frase, o tom de voz e a maneira com a qual o dublador fala talvez seja mais importante que a própria tradução para gerar o mesmo sentido do original. Para encerrar a análise do primeiro filme, há de se observar algumas falas soltas do tenente Aldo coletadas no decorrer do filme. Como já foi mencionado, o sotaque do personagem é bastante peculiar do estado de Tennessee, e sua fala é muito informal. Conjugações gramaticais e contrações de palavras não são uma preocupação do personagem. Enquanto as falas do coronel Landa foram bem traduzidas e a maneira de falar foi bem executada pelo dublador, as falas do tenente Aldo seguiram um caminho completamente contrário, prejudicando de forma extrema a caracterização do personagem. Primeiramente, todos os erros gramaticais do personagem, quando dublados, 51 tornaram-se exemplos da gramática culta de nossa língua. Dessa forma, a conjugação verbal is combinando com men deveria ser Onde está meus homens? mas, na verdade, a tradução foi Onde estão meus homens? A mesma linha de pensamento deveria ter sido usada quando houve ausência do verbo auxiliar do em How you know our names? e quando houve contração em ain’t e gonna e o uso coloquial do pronome them na frase There ain’t no way you’re gonna take them boys without setting off the bombs. Além das traduções que não captaram a ideia original das frases gramaticalmente informais, a própria voz dubladora do personagem não lhe fez jus por não apresentar sotaque algum que indicasse peculiaridade nas falas do personagem. Resumindo, percebe-se que o personagem Hans Landa permaneceu com todas suas características originais de forma que a combinação entre o tradutor e o dublador manteve o ótimo nível de atuação do alemão Christoph Waltz. Em contrapartida, a atuação de Brad Pitt, que teve a fala peculiar como ponto principal, foi extremamente prejudicada implicando em uma má construção do personagem Aldo Raine. 2.8.2 O Poderoso Chefão Encerrada a primeira parte da análise, é dada continuidade com o clássico O Poderoso Chefão. Antes de iniciar a análise das cenas, é interessante dedicar algumas linhas para comentar sobre a tradução do título. No original o filme se chama The Godfather, remetendo a um aspecto cultural das famílias sicilianas de respeitarem seus patriarcas ou os chefes de família. Em Portugal, somente a tradução literal foi necessária para o título que se tornou O Padrinho. Além disso, durante o filme, há menções sobre Don Corleone como padrinho dos italianos nos EUA. Mas no Brasil, preferiu-se empregar um título que gerasse a grandiosidade do patriarca, a importância de ser o padrinho. Portanto, em nosso país o clássico ficou conhecido como O Poderoso Chefão. Há quem critique e há quem apoie; para fins deste trabalho, ficam abertos esses poucos comentários para que o leitor forme opinião sobre sua preferência. 52 Assim que o filme começa, a cena já apresenta aspectos interessantes. É um pequeno monólogo em inglês cheio de sotaque italiano. Antes de observar a questão do sotaque, analisar-se-á a tradução de I went to the police like a good American por Eu fui à polícia como um bom cidadão. Esta última palavra no lugar de American (americano) fez com que o personagem perdesse uma característica importante – a noção de considerar-se americano. Percebe-se que a admiração que Bonasera tem pelos EUA é evidenciada nas suas primeiras frases (I believe in America. America has made my fortune). Não por isso seria aceitável descartar o termo americano e substituí-lo por cidadão. O fato de o personagem se considerar americano é uma característica única. Um americano não vai à procura de Don Corleone em busca de justiça e não o chama de padrinho. Era essa a conduta de Bonasera até sua filha ter sido espancada: a conduta de um americano. Portanto, a tradução deste termo para cidadão comprometeu caracterização de a personagem individual. Salvatore Corsitto, ator que interpreta Bonasera, é natural da Itália, e por isso, apresenta um sotaque genuíno quando transparecendo fala mais em inglês realidade ao contexto do filme. Infelizmente, a dublagem feita não conseguiu captar essa peculiaridade. Não há registros de sotaque italiano nas falas do dublador. Esse foi outro comprometimento da caracterização do personagem. Há duas possíveis soluções para esta cena. A primeira seria acrescentar sotaque italiano nas falas em português. A segunda seria acrescentar estrangeirismos (vocábulos italianos) que não comprometeriam o entendimento da cena. Palavras como scusa e miserabiles poderiam ter sido usadas substituindo desculpe e safados. Dessa forma, a nacionalidade italiana do personagem estaria preservada em suas falas. Apesar de a essência da cena não ter sido comprometida a ponto se tornar incompreensível, o telespectador brasileiro não pode usufruir de uma fala com sotaque italiano que ocorre logo na primeira cena, que, por sua natureza, é produzida de forma a chamar a atenção do telespectador para o filme. 53 Assim como o filme analisado anteriormente, em sua versão dublada O Poderoso Chefão apresenta dublagem em português para as falas em inglês e apresenta o áudio original para as falas em italiano com a presença de legendas em português. Algumas falas em italiano, no entanto, não apresentam legendas em português (por exemplo, as falas Un bicchiere di scotch e Io so guidare, guarda!). De acordo com Andressa Ferreira da Equipe Paramount8, o próprio Francis Ford Coppola escolheu manter algumas falas em italiano sem legendas em inglês. Assim, na versão dublada ele optou também por aquelas falas em italiano não apresentarem legendas nem dublagem em português. Feita tal observação, a segunda cena de O Poderoso Chefão compõe-se dos dois idiomas originalmente: ela começa em inglês, então mescla o inglês e o italiano e depois termina só com o italiano. Na versão dublada, ela começa em português, como era de se esperar, mas não mescla o português e o italiano, de forma a suprimir este último idioma. O diálogo entre Bruno e Luca é todo em português. Há de se questionar o porquê da ausência do italiano no diálogo entre os dois personagens uma vez que o mesmo não ocorreu durante o diálogo entre Luca e Sollozzo. Aparentemente, entende-se que a cena na versão dublada se compôs dessa maneira, pois as falas italianas entre Luca e Bruno foram tão poucas que se optou por sua dublagem em português. Não parece uma decisão feliz, já que gerou incoerência na produção de escolha de dublagens. Além disso, esta é uma das poucas cenas em que Bruno Tattaglia aparece. Poder-se-ia manter suas falas italianas para preservar sua identidade siciliana. Em relação à tradução do inglês para o português há pouco o que analisar. As falas parecem ter sido traduzidas de forma simples e sem muitas dificuldades, pois não houve necessidade de adotar os procedimentos técnicos da tradução oblíqua, mas somente de aplicar o conhecimento da tradução literal. A última cena, apesar de curta, é interessante por apresentar os dois idiomas na fala de um mesmo personagem. A cena começa com Michael falando em italiano. Ele está reclamando porque Apollonia batera o carro em um vaso de planta e, então, ele diz que é mais fácil ensiná-la a falar inglês que 8 Vide anexo II. 54 dirigir. Na versão dublada, Apollonia segue dizendo: “Ma io parlo tua lingua. Segunda, terça, quinta, quarta, sexta, domingo, sábado.” Essa fala foi gravada pela dubladora, inclusive a parte em italiano. Na verdade, no original em italiano, Apollonia dizia que sabia falar em inglês e começou a falar os dias da semana em uma ordem incorreta. Assim como as falas de Bastardos Inglórios que mencionavam o inglês, aqui também foi preciso mudar o termo inglês para outro que fizesse sentido na dublagem. Por isso a fala original de Apollonia não pode ser mantida, e para que não houvesse mudança de áudio dentro de uma mesma fala, a dubladora teve o papel de falar em italiano – sendo uma adaptação para a versão brasileira no próprio idioma italiano – e de falar em português os dias da semana também de forma errônea. Dessa forma, a fala de Apollonia não perdeu sua essência de ser cômica. Por outro lado, a fala de Michael seguiu o mesmo raciocínio de quase todas as falas em italiano durante o filme: o original se manteve com legendas em português. Para encerrar a análise de O Poderoso Chefão, pode-se concluir que o filme foi bem traduzido e as características dos personagens foram mantidas. Apesar da cena inicial do filme não ter apresentado uma dublagem satisfatória que acarretou no comprometimento da caracterização do personagem Bonasera, todo o filme manteve uma dublagem de ótimo nível desde as vozes escolhidas até a tradução feita. As cenas em italiano ajudaram a manter a caracterização dos personagens, e por isso a escolha da dublagem das falas entre Bruno Tattaglia e Luca foi infeliz. 2.8.3 Rio O próximo filme a ser analisado segue uma linha diferente dos anteriores. Primeiramente, ele é uma animação. O gênero animação já pede uma dublagem desde sua versão original, pois não são atores que estão na tela, mas desenhos. Os atores-dubladores, portanto, precisam emprestar suas vozes e trabalhá-las de forma que toda a composição de atuação seja passada somente por elas. Quando uma animação chega ao Brasil, a casa de dublagem precisa fazer uma dublagem por cima da dublagem original. Este trabalho parece ser ainda mais difícil no tocante ao sincronismo labial. Originalmente, o desenho é feito de forma que seus lábios (ou bicos) se movam a partir dos 55 movimentos das palavras naquele idioma. Devido à falta física do ator, esses movimentos se tornam mais caricaturados, e isso, provavelmente, é um critério de dificuldade quando se faz o sincronismo labial para a língua a qual o filme está sendo dublado. Encaixar as palavras em português naqueles movimentos labiais deixa de apresentar sua dificuldade habitual e torna-se um desafio para o tradutor e o dublador. Em segundo lugar, este filme foi diferente para ser traduzido e será diferente para ser analisado, pois ele trata nada menos do que a nossa cultura. Se for seguido o mesmo pensamento dos outros filmes de dublar para o português as falas em inglês e manter as outras falas no idioma original, então teremos português e português no filme. Como fazer, então, um trabalho de tradução e dublagem de forma que o filme continue apresentando suas piadas, seus trocadilhos, a identidade dos personagens, enfim, sua essência original? Com muita criatividade, com certeza. A primeira cena já demonstra essa criatividade. Quando Blu fala originalmente: “Uh...yeah! I… am not… from here.” o tradutor já pensou numa solução para manter o aspecto de turista. Não um turista americano, como é no original, mas um turista de algum lugar do Brasil que está visitando o Rio de Janeiro pela primeira vez. Com isso em mente, a solução foi optar pela tentativa de Blu em imitar o sotaque carioca. Para fazer isso possível, palavras sibilantes foram usadas e o sotaque carioca se evidenciou no som do s (note as palavras sublinhadas): “É, é…tudo! É… como é que estão as coisas, parceiros?” Já que a cena segue com o personagem Pedro se manifestando, é interessante tecer alguns comentários sobre o mesmo. Pedro é originalmente dublado por William James Adams – conhecido como Will.i.am –, rapper americano. Suas falas têm um aspecto bem peculiar. Elas são informais de tal maneira que o telespectador espera ouvir uma gíria a qualquer momento, mas, ao mesmo tempo, elas são respeitosas, pois é um filme voltado ao público infantil. A tradução e a dublagem captaram esse aspecto do personagem de maneira exímia. Na versão dublada, Pedro faz o papel de carioca completo. Registros como Aí no início de suas frases e o ritmo de fala transparecem para o público brasileiro o mesmo sentido que a fala original transparece para o público americano. Talvez o público americano veja Pedro como um rapper (e ele realmente faz um rap em certa cena do filme) e o público brasileiro o veja 56 como um carioca descolado, mas o fato é que a essência do personagem é a mesma para os dois públicos. A primeira fala de Pedro em inglês é Hey, Nico. He’s a tourist. e foi traduzida para Se liga, Nico. Ele é turista. O vocativo hey normalmente é traduzido para oi, olá, ei. No entanto, para formar a caracterização do personagem carioca, a tradução foi se liga (que se assemelha em inglês com check it out). Caso fosse usada uma das opções habituais de hey, Pedro deixaria de ter essa característica de informalidade e de personagem descolado. Não que originalmente ele não seja assim e a dublagem resolveu mudar as características do personagem, mas a escolha da palavra hey já passa a mesma mensagem que se liga nesse caso. Outra fala de Pedro que também foi traduzida visando à caracterização do personagem foi Yes depois que Blu fala que veio ao Brasil conhecer uma garota. A tradução literal seria simplesmente Sim, mas não foi essa a escolha oficial. Ah, cumadi! foi a tradução feita. Fez-se uso da transposição, ou seja, substituiu o simples yes por outro discurso sem mudar o sentido. Em inglês, yes, dependendo da entonação de voz, demonstra entusiasmo. Até mesmo em português nós usamos yes com o mesmo sentido. Uma criança que tira 10 na prova ou um adulto que é promovido no trabalho demonstram seu entusiasmo com yes. Porém, sim já não capta esse sentido. Conquanto o dicionário de inglês9 conceitua yes como uma interjeição que quer dizer uma forte expressão de alegria, prazer ou aprovação, o dicionário de português 10 nem mesmo conceitua sim como interjeição, mas como advérbio e substantivo. Portanto, a tradução de yes para sim na fala de Pedro não passaria o sentido original como a transposição para Ah, cumadi! passou. 9 YES. In: Dictionary.com Unabridged. Disponível em: <http://dictionary.reference.com/browse/yes>. Acesso em: 23 set. 2012. Verbete. 10 SIM. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 1 ed. 15 impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975. p. 1301. Verbete. 57 A fala seguinte de Nico também fez uso da transposição para ficar mais natural aos ouvidos do público brasileiro. Little word for advice passou a ser Vou te dar uma ideia, hein e Brazilian ladies respond to confidence, Mulher brasileira gosta de homem que se garante. Não houve tradução literal em nenhum dos casos, mas isso não interferiu de maneira alguma no sentido da mensagem. Quando se fala em transposição, é certo pensar que não há uma única tradução para a frase. Ao contrário, há várias possibilidades de tradução. O trabalho do tradutor, neste caso, é encontrar a melhor forma possível de expressar aquela frase em outra língua. O critério de ser pró-fonte ou pró-alvo é um dos que mais pesam quando se faz transposição. Já foi mencionado que em traduções orais, assim como é o caso da dublagem, o foco tende muito mais ao lado pró-alvo, ou seja, traduz-se pensando em quem vai ouvir e não em quem produziu a fala. Com isso em mente, o tradutor de Rio fez um ótimo trabalho, pois não se prendeu a detalhes do original, e sim prestou atenção para que sua tradução fosse bem recebida pelo público alvo. A próxima fala de Nico apresenta o aspecto da modulação em sua tradução. Veja como isso ocorre. No original, Nico diz: “But first we got to burst you out.” Consultando um dicionário de tradução ingles-português,11 o verbo burst quer dizer “estourar, explodir, quebrar, romper, abrir.” Claro que o contexto direcionará qual dessas traduções deverá ser usada. No entanto, a tradução oficial de dublagem não usou nada disso e ficou como “Mas primeiro, vamos tirar você daí.” Essa tradução não usou nenhum dos verbos mencionados, será que o tradutor se equivocou então? Na verdade, há de se ter muito cuidado com os dicionários de tradução, pois eles são muito capciosos, principalmente para quem não tem muito conhecimento da língua fonte. Burst, no contexto do filme, quer dizer quebrar algo de forma a abri-lo. Além disso, na frase em questão, burst vem acompanhado da preposição out. Então a mensagem da fala de Nico quer dizer quebrar a gaiola de forma a abri-la para que Blu consiga sair de lá. Em português, não há um verbo que passe essa mesma ideia e, devido às técnicas de dublagem, não haveria como adicionar mais palavras visando à fidelidade ao original. Então que surge como solução a técnica da modulação, que como 11 BURST. In: HOLLAENDER, Arnon; SANDERS, Sidney. The Landmark Dictionary: English/Portuguese and Portuguese/English. São Paulo: Editora Moderna Ltda., 1997. p. 47. Verbete. 58 visto, é a mudança de foco. Já que não há um verbo que transpareça o mesmo significado do original e já que não há tempo para sincronizar uma fala maior, a solução é mudar o foco da fala. O tradutor optou por deixar de focar no phrasal verb (na ação de quebrar com intuito de abrir visando à saída de algo) para focar somente no resultado final, a saída de Blu da gaiola. Dessa forma, a tradução cumpriu seu papel: passou a mensagem da língua-fonte para a língua-alvo. As duas últimas falas na versão dublada dessa primeira cena foram muito criativas e até mais engraçadas que as falas no original. Na versão original, Nico se despede dizendo: “Bem-vindo!” e Blu fica sem entender o que ele falou. Na versão dublada, isso não faria sentido, pois como é que Blu, que fala português, não entenderia uma frase tão simples como essa? A solução então foi mudar a fala de Nico para Bem-vindo, cumpadi! Com essa tradução, Blu não faz mais confusão com o dizer corriqueiro, mas sim com o vocativo, o qual é usado popularmente pelo carioca de comunidade e quer dizer pessoa a quem se dirige a palavra. Como Blu é um turista no Rio de Janeiro, ele pode muito bem não conhecer tal vocativo. Dessa forma, o tradutor optou por fazer a piada com este vocabulário, resultando em Tá, tá bom. É, cum...cum...com a empada, né. Pra você também. A cena seguinte é bem mais curta e mostra como Blu se apresenta para Jade. A fala de Blu, assim como outras, teve de passar por uma total adaptação. Blu se apresenta fazendo uma alusão do seu nome ao blue cheese. Em português, há, de fato, o queijo azul, porém, poucas pessoas conhecem esse tipo de queijo, podendo ser limitado esse conhecimento às pessoas da área gastronômica. O queijo azul tem três tipos principais: roquefort, stilton e gorgonzola. Este último é o mais conhecido pelos brasileiros assim como o queijo azul é conhecido pelos americanos. Se a tradução permanecesse com queijo azul, a dublagem não estaria cumprindo seu papel de apresentar uma versão brasileira do filme. Assim, o tradutor escolheu adaptar toda a fala de Blu. O aspecto da comparação com o queijo foi perdido, mas esse era um meio de se chegar ao fim. O aspecto principal da fala é fazer com que Blu se sinta envergonhado e sem graça pela maneira com que ele se apresentou. A tradução captou esse sentido final usando outro meio de alcançá-lo: Blu se apresentou usando palavras de sentido negativo. Então, a tradução oficial foi Oi, meu nome é Blu. Com B de bobo, L de lixo e U de urubu. Para de falar 59 besteira. Burro, burro, burro! É importante observar que para que o aspecto principal da fala fosse mantido, o tradutor adaptou-a a uma versão brasileira. No entanto, para que a versão brasileira se fizesse presente, o aspecto de Blu de ser americano (conhecedor de blue cheese) precisou ser retirado. Inevitavelmente, a tradução gera perdas. O tradutor precisa saber pesar essas perdas para fazer o seu melhor trabalho. Na última cena de Rio a ser analisada, o tradutor precisou usar a tradução oblíqua mais uma vez. No original, Blu e Jade estavam falando sobre pássaros quando ela grita: “Duck!” Blu pensou que ela ainda estava falando sobre pássaros quando, na verdade, ela quis dizer para eles se abaixarem. A palavra duck pode ser um substantivo que significa pato e pode ser um verbo que significa abaixar. No original, Blu faz confusão com a polissemia do vocábulo e isso gera uma cena engraçada. Em português, não há uma só palavra que denote os dois significados de duck em inglês. Por isso, o tradutor adaptou não somente uma fala, mas três, para que a cena continuasse engraçada. A fala Actually, there are about 40 species of flightless birds (literalmente como Na verdade, há por volta de 40 espécies de pássaros que não voam) passou a ser Ué, tem um amigo meu que não voa por opção. João de Barro. A tradução fugiu completamente do contexto original. Porém, isso foi necessário para que, juntamente com as falas seguintes, a cena permanecesse com sua essência. Antes de prosseguir com a fala, é importante notar a escolha do tradutor de usar o pássaro João de Barro. Era necessário usar um pássaro que não voasse – nesse caso, por opção – para dar continuidade à primeira fala de Jade. Dessa forma, além de o João de Barro permanecer boa parte de seu tempo no chão12, ele apresenta a característica de Barro, que será essencial para a continuidade da fala dublada. As próximas falas foram traduzidas da seguinte maneira: o que era Duck! se tornou Madeira! – que não tem correspondência literal nenhuma com seu original; o que Blu falava como No, ducks can fly (literalmente como Não, patos podem voar) passou a ser Não, de Barro; e a fala final de Jade que era No! Duck! (em tradução literal como Não! Se abaixe!) foi traduzida como Não! Madeira em frente. Para que 12 SANTIAGO, R. G. João-de-barro (Furnarius rufus). Biblioteca Digital de Ciências. Disponível em: <http://www.ib.unicamp.br/lte/bdc/visualizarMaterial.php?idMaterial=381>. Acesso em: 26 set. 2012. 60 fique mais claro o que ocorreu na versão dublada, observe que, assim como no original, Blu e Jade começaram falando de pássaros que não voam. Com a adaptação feita, Blu menciona o João de Barro. Jade grita madeira, e Blu acha que ela confundiu o pássaro como sendo João de Madeira, mas, na verdade, ela estava avisando que havia madeira em frente. Apesar de o contexto original deixar de existir na dublagem, esta foi a melhor solução encontrada para que a cena continuasse cômica. A partir da análise das traduções de Rio, conclui-se que o trabalho de tradução foi bastante árduo, pois foi preciso fazer muito uso da tradução oblíqua e da criatividade. Apesar de todas as adaptações necessárias – ou até mesmo por causa delas – o resultado final da dublagem do filme foi esplêndido. As caracterizações dos personagens permaneceram, as piadas das cenas não ficaram como no original, mas foram adaptadas para o público brasileiro, e todo o trabalho de tradução e dublagem geraram um efeito tão bom – senão melhor – quanto a sua produção original. 61 CONCLUSÃO Este trabalho foi baseado na análise da modificação das caracterizações de personagens decorrente da tradução para a dublagem em filmes bilíngues. O objetivo proposto foi observar e analisar traduções para a dublagem de filmes bilíngues cujos idiomas originais são o inglês e outro(s). Desta meta depreendem-se também observar as traduções para a dublagem levando em consideração os procedimentos técnicos utilizados, observar e analisar os contextos nos quais os idiomas são inseridos e, por fim, observar e analisar as caracterizações dos personagens. Voltando à questão apresentada por essa pesquisa, o eixo central que a conduziu questiona se a tradução para a dublagem modifica as caracterizações de personagens em filmes bilíngues. Inicialmente, a hipótese foi de que tal mudança nos personagens, de fato, ocorre. Após toda a teoria e a análise apresentada por este trabalho, foi possível verificar a validade dessa hipótese. Para verificar a hipótese levantada no projeto de pesquisa que deu origem a essa monografia foram analisados e interpretados dados coletados através de uma pesquisa bibliográfica e uma pesquisa qualitativa realizada com três objetos de estudo: os filmes bilíngues Bastardos Inglórios (2009), O Poderoso Chefão (1972) e Rio (2011). Cada filme, como mencionado anteriormente, apresenta o idioma inglês e outro (s) originalmente. O primeiro filme da lista trabalhou com as línguas inglesa, francesa e alemã. Já a segunda película foi gravada em inglês e italiano. Por fim, o último vídeo analisado apresentou o inglês e o português. A coleta dos dados se baseou em dois critérios. Primeiramente, verificou-se o roteiro original do filme, ou seja, o roteiro que o diretor cinematográfico escreveu. Após a coleta do script de cada cena, foram coletadas as falas do roteiro para a versão dublada, escrito pelo tradutor do filme. Com ambos os roteiros devidamente registrados foi possível iniciar o estudo proposto. A análise dos dados seguiu uma linha simples de interpretação que se manteve durante todo o projeto. A ideia foi comparar e analisar as falas originais de cada cena e as falas traduzidas para a dublagem em português. Alguns critérios foram usados para demarcar como seria feita essa análise. Estes instrumentos referem-se aos procedimentos técnicos da tradução (por 62 exemplo, estrangeirismos, transposição e adaptação), aos critérios de análise denotativa e conotativa das falas e ao critério de polissemia de vocábulos. Dentro da área de tradução, cabem ainda muitas outras formas de análise. No entanto, para a análise de tradução especificamente dos dados coletados, não foi necessário acrescentar outros parâmetros de estudo. A partir da análise dos dados da pesquisa, percebeu-se que em alguns casos houve, de fato, modificação das caracterizações de personagens. A seguir estão os resultados para cada objeto de estudo da análise. Em primeiro lugar, dois personagens principais foram analisados no filme Bastardos Inglórios, o cel. Landa e o tenente Aldo. Nesse caso, aquele personagem foi muito bem mantido quando houve a tradução para a dublagem enquanto que este não teve suas características preservadas. Tanto a tradução quanto a falta de sotaque na dublagem do personagem contribuíram para esta modificação. Outro personagem deste filme que também teve suas características modificadas foi o soldado alemão que dialogou com o tenente Aldo. Neste caso, é válido lembrar que somente uma de suas falas alemãs foi dublada e uma fala em inglês foi mantida como no original ao invés de ter sido dublada. Portanto, a modificação desse personagem motivou-se mais por falta de atenção quando foi feita sua dublagem do que pela tradução em si. Seguindo com os resultados parciais, foi observado o que ocorreu com os personagens de O Poderoso Chefão. Esta película se compôs de seis personagens analisados. Dentre esses, quatro não foram modificados (Luca, Solozzo, Michael e Apollonia), mas dois perderam suas características devido à tradução e à voz pouco trabalhada na dublagem (Bonasera e Bruno). Finalmente, o último vídeo, Rio, não sofreu modificação das caracterizações dos personagens Pedro, Nico, Blu e Jade. Houve, sim, adaptações nas falas traduzidas para que elas se encaixassem numa versão brasileira do filme. De acordo com os resultados parciais de cada objeto de estudo, pode-se fazer um balanço geral de tudo o que já foi averiguado. No total, treze personagens de filmes bilíngues foram analisados neste projeto de pesquisa e, destes, quatro sofreram modificações por causa da tradução e/ou por causa das características vocais do dublador. Isso quer dizer que aproximadamente 31% dos personagens analisados tiveram suas características modificadas. Portanto, esse resultado mostrou que 69% dos personagens de filmes 63 bilíngues propostos por este trabalho não sofreram modificações, evidenciando o ótimo trabalho de tradução para a dublagem que ocorre em nosso país. Dessa forma, é possível verificar que a hipótese gerada no início do trabalho se comprovou como falsa, já que a tradução para a dublagem não modifica as caracterizações de personagens em filmes bilíngues. Diante disto, esta pesquisa, apesar de seus limites, apresentou um trabalho que mostra a importância e a necessidade de tradução e de dublagem com alta qualidade. Felizmente, o Brasil está no caminho certo e é um exemplo dentro da área de tradução audiovisual focada na dublagem. É importante que este processo que envolve a dublagem continue sendo feito buscando sempre a excelência. Dessa forma, as pessoas que ainda têm preconceito com filmes dublados se conscientizarão da importância da dublagem para o público brasileiro ou, pelo menos, começarão a respeitar esse trabalho que é amplamente utilizado nas vias audiovisuais e, ao mesmo tempo, é visto com tanto desdém por certas classes da sociedade. Por fim, conclui-se que a atividade de dublar filmes para o público brasileiro é extremamente significante não só para as pessoas que por diversos motivos não acompanham as legendas, mas também o é por formar uma arma poderosa de dispersar a cultura brasileira. Afinal de contas, não há outra forma melhor de demonstrar nossa cultura senão pelo nosso próprio idioma. 64 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A vida é bela. Produção e direção de Roberto Benigni. Itália: Imagem Filmes, 1999. 116 min. ARAÚJO, V. L. S. Uma pesquisa de recepção da legenda fechada (closed caption) com os surdos de Fortaleza. In: III Congresso Ibero-Americano de Tradução e Interpretação (CIATI): Novos Tempos, Velha Arte – Tradução, Tecnologia, Talento, 2004, São Paulo. Caderno de Resumos do II CIATI, 2004. v. 1. p. 46-46 Bastardos Inglórios. Produção e direção de Quentin Tarantino. EUA: Universal Pictures, 2009. 153 min. BURST. In: HOLLAENDER, Arnon; SANDERS, Sidney. The Landmark Dictionary: English/Portuguese and Portuguese/English. São Paulo: Editora Moderna Ltda., 1997. p. 47. Verbete. CAMPOS, G. O que é tradução? Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense, 1987. ESPINAL, Luis. Consciência crítica diante do cinema. São Paulo: LIC Editores, 1976. FOLHA ONLINE. 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In: Dictionary.com Unabridged. <http://dictionary.reference.com/browse/yes>. Acesso Verbete. Disponível em: 23 set. em: 2012. 67 ANEXOS Anexo I Entrevista com Dilma Machado – Tradução para a dublagem Informações Gerais Nome completo: Dilma Machado Data e local de nascimento: 12-04-1962 / Catalão-Go Formação acadêmica: Especialização em tradução inglês/português- PUC-RJ Complementação pedagógica em inglês / Graduação em Educação Física. Profissão: tradutora Tempo de atuação na área de tradução para a dublagem: 16 anos Alguns dos trabalhos feitos: Como dubladora: Hamtaro (em Hamtaro); Srta. Belo (em As Meninas Super Poderosas); Saranóia (em Yin, Yang, Yo); Princesa Sophie (em Gossip Girl). Como tradutora: White Collar; Nip-Tuck; A Era do Gelo 3; Horton no mundo dos quem; In Plain Sight; Outsourced; Game of Thrones; Michey Mouse Clubhouse; Zack e Cody: Gêmeos em ação; Velozes e Furiosos 4. Como você começou na profissão de tradutora para a dublagem? O que veio primeiro: ser dubladora ou ser tradutora? A tradução veio após eu fazer o curso de dublagem com Alexandre Lippiani e Newton DaMatta (ambos já falecidos). Ao ir à empresa Cinevídeo para levar meu CV dizendo dos cursos de dublagem, por acaso mencionei que era tradutora. Três dias depois chegou o primeiro trabalho. Tive muitas dificuldades para começar a acertar dos detalhes existentes na tradução para dublagem, mas foi amor à primeira vista e não parei mais. Primeiro vem a tradução, porque dublar é mais difícil, pois depende de um diretor para escalar você. No entanto dublar é minha paixão. Há diferença entre os estúdios de dublagem do Rio com os de São Paulo? Se essa diferença se refere à tradução, há diferenças em todas as casas de dublagem. Cada uma tem uma exigência específica. 68 É preciso que os tradutores tenham conhecimentos profundos sobre o trabalho dos dubladores? Sempre digo que é aconselhável o tradutor de dublagem fazer o curso de dublagem para entender seu processo dentro do estúdio e se familiarizar com os termos usados na dublagem. Com isso ele irá fazer um trabalho melhor. Quais são as características técnicas detalhadas do passo a passo da tradução para a dublagem? O texto traduzido sempre tem alguma alteração dentro do estúdio, mas o grau de modificação depende da qualidade da tradução. O tradutor recebe o script original que pode ser considerado completo (com todas as falas), incompleto (quando faltam algumas falas ou diálogos de cenas inteiras) e sem script. Além disso, recebe o vídeo (que deve ser o principal, melhor dizendo, o único verdadeiro guia do tradutor). Com esses dois arquivos o tradutor fará a tradução de acordo com as regras que devem ser seguidas. Por isso minha luta para que os tradutores tenham uma formação acadêmica e profissionalizante. Dublar é sincronizar! Quanto melhor o sincronismo das palavras, principalmente as bilabiais, melhor será a dublagem. Para isso é preciso adaptar da melhor maneira possível sem perder o sentido do texto original. Quais são os problemas que os dubladores e tradutores se queixam dentro da área? Os dubladores se queixam da qualidade da tradução. O valor da hora do dublador é padronizado pelo Sated, sendo assim é igual em todas as casas de dublagem. Não sei qual é a queixa geral dos tradutores, mas a minha é a falta de comunicação entre diretores e tradutores. O diretor precisa ver o vídeo e ler a tradução para ver algum erro ou frase que não esteja fazendo sentido. Se ele entra em contato com o tradutor antes, as dúvidas podem ser resolvidas e com isso o trabalho em estúdio será melhor. É preciso trabalhar em equipe, pois o resultado final de um produto dublado não depende só do tradutor e sim de toda a equipe: diretor, dubladores, operador. O tradutor para a dublagem consegue se manter somente nesse ramo da área ou é preciso buscar outros trabalho de tradução? Acredito que se você é bom no que faz e executa com dedicação e amor, não será preciso buscar outras fontes. Haverá sempre trabalho. 69 Você recomendaria o trabalho de tradutor para a dublagem para quem está começando a carreira de tradutor? Com certeza! O mercado está crescendo cada vez mais e precisa de tradutores competentes, com formação. Não basta falar uma língua estrangeira e achar que pode ser tradutor, independente da área da tradução que ele escolher. Quais são as principais dificuldades técnicas que o tradutor para a dublagem encontra? Adaptações, principalmente de rimas, expressões idiomáticas e gírias. Quanto tempo você demora a traduzir um episódio de seriado ou filme? O tempo para traduzir depende de várias questões: tempo de duração do filme ou episódio de séries, sua disponibilidade para traduzir, o teor do assunto a ser tratado (claro que um desenho pré-escolar é mais fácil de traduzir que um documentário) e exigência de prazo do cliente. Garanto 45 minutos de tradução por dia, isso se estiver com disponibilidade apenas para esse tipo de trabalho, e também da dificuldade que terei para traduzir. Senão precisarei de dois dias. Qual sua opinião sobre a atual tendência de os canais da TV a cabo apresentarem seus programas dublados? Sou totalmente a favor, mas acho que é preciso haver opções: dublado, legendado, audiodescrito, closed caption, enfim, tudo que possa agradar ao telespectador. A tradução é uma forma inevitável de perdas. Você acha que, além disso, a escolha da voz dos dubladores também pode influenciar a perda de caracterização dos personagens? A partir do momento que há tradução, há perdas. Só não gosto quando banalizam a tradução para dublagem dizendo que ela é fácil. Traduzir, seja qual for a área, não é fácil. A voz do dublador pode e influencia na perda de caracterização do personagem. No entanto, o Brasil tem uma das melhores dublagens do mundo e isso é preciso ser valorizado. O brasileiro em geral tem a tendência a ser crítico de forma destrutiva e antipatriótica. Acho que os que criticam a dublagem deveriam ficar calados, pois não sabem o quanto a dublagem é valorizada nos principais países europeus que preferem a dublagem, tais como, Alemanha, França, Itália e Espanha. Quais são os critérios para a escolha das vozes dos personagens? Em que consiste o curso para dubladores? 70 As escolhas são feitas através de testes quando o cliente exige ou são feitas pelo diretor que escala os dubladores que preferir. O curso de dubladores consiste nos ensinamentos técnicos da profissão através de aulas práticas. Tenho a impressão de que há algumas décadas a dublagem não era tão criticada. Hoje, além das críticas, há também muito preconceito contra a dublagem. O que você acha que deve ser feito para que as pessoas comecem a apreciar, ou pelo menos respeitar, o trabalho desses profissionais? A dublagem começou a ser criticada a partir do momento que surgiram os canais fechados com os produtos legendados. Antes só existiam canais abertos e tudo era dublado. Mas a crítica vem de uma classe minoritária e elitizada, que, infelizmente, apesar do status, carece de informação e de cultura geral. O respeito só virá com a conscientização de que é preciso favorecer os pertencentes das classes mais baixas, os idosos, crianças, deficientes visuais (no caso da audiodescrição, que precisa dublar o produto estrangeiro antes de audiodescrevê-lo), e aqueles que realmente preferem a dublagem. Uma batalha longa e difícil, mas não impossível. Há alguma outra característica sobre o trabalho do tradutor para a dublagem que eu não tenha perguntado, mas que você acha importante mencionar? Fiz um vídeo falando sobre o processo da dublagem para os alunos de graduação da Universidade da Bahia, que se for do seu interesso posso enviar pelo Yousendit. Transcrição do vídeo de Dilma Machado Oi pessoal, tudo bem? Gostaria de falar sobre tradução para a dublagem, mas antes deixa eu me apresentar. Sou Dilma Machado, sou tradutora de dublagem há 17 anos e sou dubladora. Dou curso de técnica de tradução para dublagem e gostaria de falar sobre alguns detalhes importantes para quem quer entrar no mercado de tradução para a dublagem. É muito importante o tradutor da dublagem, além da técnica, experiência, de aprender como traduzir para dublagem, ele precisa ter noção de legendagem porque às vezes as falas são muito rápidas, e tem de haver adaptação, encurtar a fala, pois é preciso ter sincronismo labial, é preciso ter entrada e saída de fala. Só a tradução literal pode ficar longa e não cabe na boca do personagem. Outra 71 coisa é ter a noção de dublagem de fato, o que é dublar. Tem de conhecer os detalhes e dicas do estúdio, prestar atenção no diretor de dublagem. Hoje em dia com o crescimento do mercado de dublagem não existe um só local que ofereça curso especifico para isso. A tradução para a dublagem está englobada dentro da tradução audiovisual. Mas é preciso saber todas as técnicas, todas as dicas para traduzir para a dublagem, da mesma forma que existe uma especialização de preparação de legendagem, tem de existir para a dublagem. Aos poucos, a dublagem está chamando mais atenção e tomando lugar no mercado. Nos últimos dez anos a dublagem tem crescido muito em diferentes programas, filmes, seriados, desenhos, documentários, novelas, vídeos institucionais. A remuneração no RJ (e acredito que em SP também) varia de 5 a 6 reais o minuto. Minuto de filme rodado. O dublador recebe por hora de dublagem, o tradutor pelo tempo do filme (filme com 90 ou 100 minutos e multiplicar por 5 ou 6 reais). É preciso ter nota fiscal. Outra coisa, esse valor do minuto é quando o script é completo (com todas as falas necessárias, principais e não principais). Se o script não está completo, o tradutor recebe o valor X mais 50% desse valor. É importante verificar e avisar a empresa sobre o script para receber a remuneração devida. Sem script, o tradutor recebe o dobro do valor. Como traduzir? Prestar atenção no contexto da fala (como, quem, onde). Prestar atenção no registro de fala. Não pense como traduzir para o português padrão, você tem de pensar como você fala aquela frase. Ela tem de fluir, ser o mais natural possível senão o dublador e diretor terão o trabalho de adaptar aquela fala. A TAV é muito adaptada, claro. Trocadilhos, piadas podem ter graça no original, mas não em português. Então é preciso adaptar, tem de traduzir a intenção do trocadilho, piada. Tem de sair o mais natural possível. Prestar atenção se é filme de época, às vezes é preciso fazer pesquisas. Outra coisa, a tradução para legenda é resumo por causa de todas suas técnicas. Já a dublagem, você precisa fazer tudo, colocar todas as reações, tudo que acontece na cena precisa ser colocado na tradução para a dublagem, suspiro, riso, grito, pausa, tudo tem de estar no roteiro. O tradutor ainda precisa fazer a minutagem (hoje em dia já é assim, antes era o diretor). Minutagem é quando o tradutor indica o tempo de entrada e saída de cada fala, inclusive os letreiros. Outra coisa essencial é o vídeo como seu guia, não 72 confie no script, o vídeo é que te dá todas as informações corretas e necessárias. Anexo II Troca de e-mails com a Equipe Paramount. Boa tarde. Eu gostaria de saber se a Paramount Brasil foi a distribuidora responsável pelos filmes Bastardos Inglórios e O Poderoso Chefão. Gostaria de entender o critério de dublagem desses filmes. Por que somente as falas em inglês foram dubladas e por que, já que não houve dublagem nas outras falas, os outros idiomas não apresentaram legendas embutidas (automáticas) no DVD quando é escolhido assistir ao filme na versão dublada? Tudo isso é para um trabalho de pesquisa de final de curso. Obrigada pela atenção, Lorena Prezada Lorena, boa tarde! Agradecemos o seu contato com a Paramount Home Entertainment (Brazil). Com relação a sua dúvida, informamos que no caso de "O Poderoso Chefão" a escolha foi do diretor, neste caso Francis Ford Coppola. Não temos informação acerca de "Bastardos Inglórios." Atenciosamente Andressa Ferreira, Equipe Paramount Anexo III Pesquisa quantitativa sobre hábito de leitura.