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Reflexões Sobre as Causas e as Experiências de
Sistemas Agroflorestais em Áreas Instáveis
Lani, João Luís1.; Couto, L.2.; Vale, R.S.3.;
Tsukamoto Filho, A. de A.4; Amaral, E.F.5
1. Introdução
Antes de se tentar registrar as experiências do Sistema Agroflorestal (SAF) nas áreas
instáveis sugere-se refletir nas possíveis causas que contribuem para a sua
ocorrência. Assim, tentar-se-á aperfeiçoar de como agir no seu melhor manejo ou até
de como conviver com elas, com vista ao uso dos recursos naturais de uma forma
mais sustentável ou menos degradadora.
Neste sentido, é preciso visualizar dentro de um contexto maior, as inter-relações de
alguns fatores tais como: o CLIMA, especialmente a chuva e a temperatura; o SOLO
- suas características; a VEGETAÇÃO e o HOMEM - condição sócio-econômica. Este
entendimento holístico é denominado por Resende (1995) de tetraedro ecológico. Ele
sugere a compreensão do ambiente dentro dessa ótica, onde estes fatores são
importantes para explicar, a presença, por exemplo, de uma determinada vegetação
como a mata amazônica, cerrado ou a caatinga ou mesmo porque há ocorrência de
áreas instáveis em uma determinada região.
Considera-se neste trabalho como área instável aquela onde ocorre ou esta sujeita ao
desbarrancamento, deslizamento ou ao voçorocamento. Especificamente, dentre os
muitos fatores que podem tornar uma área instável podem ser citados os seguintes:
1. Interação entre os atributos do solo e o ambiente – características do solo;
2. Resistência diferencial das forrageiras ou das árvores às limitações ambientais tais
como a fertilidade, pluviosidade ou irregularidade das chuvas etc – fator
vegetação;
3. Práticas de manejo ou de uso – interferência humana.
Naturalmente, além desses fatores podem ser mencionados outros como a
característica das chuvas (erosividade). Há registros que em um só dia choveu um
terço de toda a precipitação pluviométrica de um ano (1.200 mm). Isto é, houve uma
chuva de 400 mm e neste caso tudo pode se tornar instável. São as famosas
trombas-d'água.
Logo, o objetivo desse documento é a tentativa de buscar as causas da ocorrência
das áreas instáveis e pelo SAF tentar manejá-las de uma forma sustentável.
2. Solo
Dentre os atributos que podem influenciar na presença das áreas instáveis podem ser
destacados os seguintes:
1. Pedoforma;
2. Textura;
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3. Profundidade do solum e do solo;
4. Estrutura e mineralogia.
Todos estes fatores podem influenciar na instabilidade de uma determinada área quer
isoladamente ou em interação.
2.1. Pedoforma
A forma é inerente a qualquer objeto e o solo embora seja pouco percebível tem a
sua forma. Estas são úteis na identificação das diferentes classes de solo e através
destas ter-se-á o caráter previsível de comportamento de acordo como o tipo de uso
e manejo. As diferentes pedoformas são apresentadas na Fig. 1 e algumas classes de
solos associadas a pedoforma são apresentadas nas Fig. 2 e 3.
Fig. 1. Nove diferentes pedoformas. Dependendo das mesmas pode-se ter maior ou menor
instabilidade de uma determinada área.
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Fig. 2. forma auxilia na identificação das diferentes classes de solos. Estas podem a depender
de outros fatores apresentarem diferentes comportamentos com relação a instabilidade.
Fig. 3. Distribuição de diferentes classes de solos na paisagem que apresentam diferentes
comportamentos em relação a resistência à erosão. LVd - Latossolo Vermelho-Amarelo
distrófico; Cd – Cambissolo distrófico e Rd - Litólicos distróficos.
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Dentre as possíveis nove diferentes formas mencionadas por Troeh (1965) (Fig. 1),
há a que tende a reter o mínimo de água denominada de convexa-convexa e
simbolizada por C-P-. Esta pedoforma favorece a erosão superficial, pois tem a forma
externa de uma bola. A enxurrada tende a se dispersar. Esta forma predomina nos
latossolos em relevo acidentado. A pedoforma côncava-côncava (C+P+) é a que esta
sujeita a maior instabilidade nas partes mais íngremes. Aí é se que verifica com muita
freqüência o início e o estabelecimento das voçorocas. A espessura do solum
(horizonte A + B) é mais raso. Este pode ser identificado pela cor dos montículos
dos cupins ou dos formigueiros. O horizonte C, mais erodível (mais siltoso) encontrase mais próximo à superfície, logo mais facilmente as enxurradas conseguem atuar
retirando o material de solo (erosão) e produzindo os sedimentos.
Qualquer pequena causa pode dar início ao processo de voçorocamento, tais como, o
tombamento de uma árvore, buraco de tatu ou mesmo, o que é muito freqüente a
exposição do horizonte C pela abertura de estradas. Não é incomum inclusive
canalizar a água da estrada para uma determinada área tornando-a instável (Fig. 4).
As estradas tem sido atualmente umas das grandes causas de deslizamentos e de
produção de sedimentos. Não há solo que suporte um grande volume de água
canalizado sobre si. Há casos que se pensa que o deslizamento é intencional para
gerar demandas futuras de trabalho e com isto manter o caixa das empresas tal é a
inapropriedade do trabalho executado. Talvez aí, o pedólogo possa auxiliar mais
eficientemente na engenharia civil, no planejamento de alocação de estradas e na
manutenção das mesmas.
Fig. 4. A canalização indevida das águas das estradas tem criado ambientes instáveis como o
desbarrancamento de longos trechos e, inclusive além do aspecto ambiental, há perdas de
vida humanas em acidentes.
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2.2. Textura
A textura relacionada com a estrutura influencia grandemente na instabilidade de
uma determinada área. Verifica-se que os solos com muito silte e areia fina são
particularmente mais erodíveis. Isto se observa especialmente no horizonte C dos
Latossolos pouco profundos na região da Zona da Mata onde o horizonte B resiste
mais a erosão, o mesmo não acontece com a parte inferior, o horizonte C (Fig. 5).
Fig. 5. O horizonte C é mais erodível e por solapamento ocorre a queda do horizonte A e B e
com isto estabelece-se a voçoroca.
Semelhantemente acontece na região de Marília (São Paulo), onde os solos
influenciados pelo material de origem (arenito) apresentam textura média e são
extremamente erodíveis mesmos em declives mais amenos.
Na Fig. 6 verifica-se a distribuição da fração areia quando submetida ao
peneiramento (a amostra foi submetida a 22 peneiras cujo diâmetro variou de 0,044
mm a 1,68 mm ou de 325 tyler a 10 tyler) (Lani, 1987). Observa-se que a amostra
do ES tem uma distribuição não uniforme o que pode facilitar o preenchimento dos
espaços vazios entre os grânulos e tornar o solo particularmente resistente a erosão
por sulcos ou por voçorocamento, mas em razão da baixa infiltrabilidade da água das
chuvas torna-os extremamente susceptíveis a erosão laminar.
Este material (solo) tem sido utilizado por pessoas de baixa renda como substituto ao
cimento convencional no fabrico de casas de estuque. Tornam-se extremamente
resistentes e apresentam a mesma resistência do cimento utilizado em construções
convencionais.
Por outro lado, na amostra da chapada dos Parecis, a areia não apresenta este
mesmo comportamento. Mesmo quando seca não é coesa, o tamanho dos grãos é
mais uniforme. Isto traduz numa informação que este segundo material onde ele
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ocorre há maior chance de tornar a área mais instável. A erosão seria muito maior e
teria maior facilidade de se estabelecer.
Fonte: Resende et al., 1992.
Fig. 6. Distribuição de partículas de areia, por tamanho, de material do horizonte A de um
Podzólico Amarelo abrupto dos Platôs Litorâneos do Espírito Santo e de um Areia Quartzosa
da Chapada dos Parecis, MT.
2.3. Profundidade do solum e do solo
A profundidade do solum (horizonte A + B) e do solo (horizonte A + B + C) pode
ser considerado um dos melhores indicadores na instabilidade dos ambientes (Fig. 7 e
8). Ela traduz o resultado de dois fatores antagônicos como o intemperismo que atua
no aprofundamento do solo e, da erosão que remove o mesmo pela água ou pelo
vento. A erosão hídrica é muito mais ativa nas condições brasileiras.
Fig. 7. Variação da espessura do solo ao longo de uma encosta. Nos lugares onde o solum é
mais raso a instabilidade é muito maior. A profundidade do solum (horizonte A + B) pode
servir de indicador no mapeamento das áreas mais instáveis.
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Fig. 8. Pela paisagem verifica-se onde a erosão é maior que a pedogênese. Nas áreas mais
movimentadas a incidência de áreas mais instáveis é muito maior (horizonte A + B menor) e
estas são mais freqüentes onde a precipitação é menor ou então há o ciclos de períodos de
seca - onde a vegetação é destruída e períodos menos freqüentes de chuvas e esta são de
maior intensidade.
A erosão hídrica pode atuar tanto a superfície como na sub-superficie, como na
retirada do horizonte C, quando este é exposto e por solapamento chegar até a
superfície gerando as voçorocas (Fig. 9).
A taxa de pedogênese (formação do solo) é em função da resistência do material de
origem (granito, gnaisse, diabásio etc) e da atividade do bioclima. Percebe-se (Figura
10) que se o bioclima é menos ativo (chove menos e a temperatura é mais branda) e
a rocha apresenta maior resistência (como granitos ou quartizitos, por exemplo) os
solos a serem formados serão mais rasos.
Fig. 9. Após a erosão atingir o horizonte C torna-se mais fácil o estabelecimento da voçoroca.
Elas são mais freqüentes onde o solum é mais estreito.
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Fig. 10. Esquema mostrando que a profundidade do solo varia com a topografia, bioclima e
resistência da rocha (Resende, 1985).
Verifica-se que o solo procura alcançar o equilíbrio que é um dos objetivos da
natureza, mas este fenômeno é à longo prazo. Logo, as paisagens com o solum
menos espesso apresentam estabilidade menor (maior erosão e menor pedogênese)
(Parzanese, 1991). Como tal, devem ser usadas com cuidado ou destinadas
preferencialmente a áreas de preservação ambiental (Classe 6 na Aptidão Agrícola ou
classe 8 no Sistema de Capacidade de Uso das Terras) (Lepsch et al., 1991;
Ramalho Filho et al., 1994). No caso de uso agrícola o espaçamento entre os
terraços deve ser menor e, se os solos forem pobres em nutrientes (distróficos ou
álicos), este ambiente oferecerá dificuldades de recuperação, pois os nutrientes dos
fertilizantes tendem a ser perder com maior facilidade, reduzindo substancialmente
sua taxa de aproveitamento.
Quanto especificamente as voçorocas Parzanese (1991) citam os seguintes fatores
que podem atuar na sua gênese: pobreza do solo, clima menos pluvioso, influência
humana, neste caso o manejo, especificamente o uso do fogo e a pressão de
pastoreio excessiva, diminuição da cobertura florestal, solum menos profundo nos
terços inferiores das encostas e o horizonte C quando é atingido desencadea então o
processo de voçorocamento (Fig. 11).
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Pobreza do solo
+
Clima
(Cinco meses de seca)
+
Influência humana
Diminuição da cobertura vegetal
+
Solum menos profundo nos terços inferiores
dasencostas
O horizonte C é atingido desencadeando o processo de
voçorocamento
Fig. 11. Fatores de determinaram a gênese das voçorocas.
2.4. Estrutura e mineralogia
A estrutura do solo afeta diretamente a instabilidade de uma determinada área (Fig
12 e 13). O exemplo clássico é a comparação entre três Latossolos que diferem no
tipo de argila (mineralogia) e nos teores de óxidos (ferro e alumínio) que são os
Latossolos Amarelos, que ocorrem nos Tabuleiros Costeiros; os Latossolos VermelhoAmarelos que são comuns em toda a região da Zona da Mata Mineira; e os
Latossolos Roxos (atualmente Latossolos Vermelhos Férricos) que ocorrem na região
do derramamento basáltico. Estes, para uma mesma declividade, apresentam
comportamento diferentes apesar de serem incluídos na ordem dos Latossolos.
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Fig. 12. A estrutura que depende do tipo de argila, teores de óxidos (ferro e alumínio) e de
matéria orgânica influencia grandemente na estabilidade de uma determinada área, pois
influencia a porosidade.
Fig. 13. Os óxidos e a matéria orgânica propiciam a formação da estrutura granular que em
alguns casos, como no Latossolo Roxo pode torná-lo susceptível ao voçorocamento pela
facilidade de arraste.
O Latossolo Amarelo, em razão do predomínio de caulinita de tamanho grande, que
se ajustam face a face, dão ao solo uma grande estabilidade (maior coesão entre as
partículas). Verifica-se neste solo a retirada pela erosão do horizonte A, normalmente
mais arenoso. A dificuldade de penetração da chuva no horizonte B faz com que haja
a erosão laminar. Não se percebe a campo em toda a região de sua ocorrência a
presença de voçoroca mesmo que haja aberturas de estradas expondo o barranco.
O Latossolo Vermelho-Amarelo apresenta estrutura em blocos subangular, mas que
se desfaz com certa facilidade em granular mas os grânulos ainda mantém uma certa
ligação entre os mesmos. Isto permite a penetração da água da chuva sem permitir
que a mesma provoque o arrastamento dos agregados. Logo, as voçorocas não são
comuns, a não ser que se exponha o horizonte C (não estruturado).
No caso do Latossolo Roxo a presença das voçorocas é muito freqüente mesmo em
declive menos acentuado. A hipótese é que os altos teores de óxidos (de ferro e de
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alumínio) propiciem a formação da estrutura granular (sem qualquer ligação entre os
grânulos) que os tornam como grânulos individualizados, como ser fossem pequenos
chumbinhos e com isto fica fácil a enxurrada carregar os agregados de forma
arredondada. Talvez esta seja a causa da pesquisa em alguns estados como o
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde o mesmo ocorre, estarem sempre
na vanguarda das novas idéias de conservação de solo como o plantio direto, plantio
na palha, cultivo mínimo e outros. A necessidade, o processo de erosão mais
intenso, os fazem mais criativos.
3. Ambiente e Cobertura Vegetal
A cobertura vegetal é um ponto importante na instabilidade das áreas e ela depende
diretamente dos seguintes fatores: radiação, água e nutrientes (Fig. 14). A radiação é
um fator pouco influenciado pelo homem embora possa-se atuar na escolha das
faces das montanhas como a noruega (menos ensolarada) e soalheira (mais
ensolarada). Isto faz diferença na região montanhosa onde a depender da atitude
escolhe-se, por exemplo, a área para o plantio de café nas faces menos ensolaradas
pois com isto disponibiliza-se mais água para as plantas – menor perda por
evapotranspiração; e a capineira que necessita de mais insolação é recomendada que
seja cultivada na face oposta (soalheira). A maior insolação é importante, pois os dias
são mais curtos no período (inverno) em que se necessita de capim para a
alimentação do gado.
Fig. 14. As plantas necessitam basicamente de radiação, água e nutrientes.
Logo, a precipitação pluviométrica e os nutrientes são os fatores mais diretamente
ligados à cobertura vegetal. Daí vem a pergunta: porque na região mais alta
predomina o capim gordura (Mellinis minutiflora) e nas regiões mais secas e quentes
o capim colonião (Panicum sp). A hipótese é que na parte mais alta predomina os
solos extremamente pobres, intemperizados e mais porosos e o campim gordura é
adaptado a este ambiente. O capim colonião como uma forrageira mais exigente em
nutrientes dominaria nos solos mais férteis, normalmente onde houve o
rejuvenescimento da paisagem (Fig. 15).
Este comportamento vai diferenciar na recuperação e na manutenção das áreas
instáveis, pois onde se tem mais nutrientes e a água não é tão limitante rapidamente
há a revegetação da área e a estabilidade da mesma. O ponto critico que se observa
a campo é onde ocorre o ambiente que não é propicio nem para o colonião e nem
para o gordura, pois não há fertilidade suficiente para o colonião e nem o clima mais
ameno e mais chuvoso para o capim gordura. Neste caso, verifica-se uma maior
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incidência de áreas desvegetadas (desnudas) e a erosão atua e forma áreas instáveis.
Tem-se denominado-as de áreas de tensão ecológica (Fig. 16).
Fig. 15. Nas áreas mais rejuvenescidas, mais quentes e normalmente mais férteis predomina
o colonião e nas chapadas, mais pluviosas e mais intemperizadas predomina o capim gordura.
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Fig. 16. Na zona critica (área de tensão ecológica) há maior predisposição para o
estabelecimento das áreas instáveis (deslizamento e voçorocamento).
4. Experiências de Sistemas Agroflorestais em Áreas Instáveis
Os sistemas agroflorestais são sistemas que possuem como princípio básico o
desenvolvimento sustentável. Neste sentido pode-se inferir que a sustentabilidade
resulta da diversidade biológica promovida pela presença de diferentes espécies
vegetais e, ou animais, que exploram nichos diversificados dentro do sistema. A
diversidade de espécies vegetais utilizadas nos sistemas agroflorestais forma uma
estratificação diferenciada do dossel de copas e do sistema radicular das plantas no
solo. Dessa forma a estratificação do sistema radicular, explorando um maior volume
do solo, contribui para diminuir a competição entre os indivíduos e para obter uma
maior eficiência na retirada de nutrientes e água do solo. As raízes das árvores
estendem-se em porções de perfil do solo mais profundos (horizonte B e C), trazendo
nutrientes, que são translocados para a parte aérea das plantas ao mesmo tempo em
que aumenta a massa de raízes nos horizontes superficiais (horizonte A e B). Além
disso, é importante salientar que o dossel de copas formado pela diversidade de
espécies vegetais faz, com que a queda das folhas e ramos das diferentes culturas
sobre o solo, proporcione uma maior cobertura do solo através da deposição de uma
densa camada de material orgânico. Conseqüentemente obtém-se uma maior
proteção do solo contra a erosão, uma diminuição da temperatura do solo e um
aumento na quantidade de matéria orgânica incorporada ocasionando assim uma
melhora nas propriedades físicas, químicas e biológicas do solo.
A utilização de sistemas agroflorestais em áreas instáveis depende da intensidade de
degradação que as mesmas se encontram, ou seja, para algumas áreas o
recomendável inicialmente é a execução de obras de engenharia civil como, por
exemplo, corte, aterros, curvas de nível e confecção de taludes bem como o plantio
de espécies que promovam uma cobertura mais rápida do solo até que estas se
apresentem potencialmente capazes de evoluir naturalmente, sem a necessidade de
interferência humana. Os sistemas agroflorestais são mais indicados para locais onde
as condições físicas, químicas e biológicas do solo garantem condições mínimas
necessárias para o desenvolvimento de espécies florestais e agrícolas, de modo que
estas no futuro possam contribuir gradativamente para a recuperação das áreas
instáveis.
Segundo Griffith (1980), quando se constata que o local a ser recuperado é um
terreno ainda capaz de render benefício ao seu proprietário, apesar de se encontrar
alterado, a revegetação com árvores de valor comercial é uma das alternativas de
uso dessas áreas. Pois, em geral, árvores são plantas menos exigentes em solo e
topografia que os cultivos agropecuários. Por outro lado, as condições empobrecidas
desses locais podem comprometer a sobrevivência e retardar o estabelecimento e
crescimento das plantas anuais, sendo necessário uma escolha cuidadosa das
espécies e técnicas de plantio.
De acordo com Macedo (1998), as árvores a serem utilizadas na recuperação de
áreas degradadas pela atividade agropecuária em regiões de savanas devem
apresentar algumas características básicas: raízes longas para que possam buscar
água armazenada nas camadas mais profundas do solo; resistência a períodos longos
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de déficit hídrico e exigir poucos nutrientes para que possam crescer nos solos de
fertilidade marginal das pastagens abandonadas.
No Brasil, de modo geral, os sistemas agroflorestais são utilizados na recuperação de
áreas de encostas com cultivos agrícolas, de áreas de pousio e principalmente de
áreas de pastagens degradadas, com a utilização de uma gama variada de espécies
florestais, agrícolas e gramíneas. A Embrapa Gado de Leite, por exemplo, vem
avaliando o potencial das espécies Acacia mangium, Mimosa artemisiana, A.
auriculiformis e A. angustissima, em combinação com eucalipto (Eucalyptus spp.)
para fixação de nitrogênio e controle de erosão do solo em área de pastagem
degradada na região da Zona da Mata mineira. Essa região caracteriza-se por
apresentar relevo acidentado e solos ácidos de baixa fertilidade natural, com maior
ocorrência de Latossolo Vermelho-Amarelo. Esse solo apresenta acentuada
deficiência de fósforo, que limita o crescimento de forrageiras na fase de
estabelecimento (Carvalho et al., 1985), e deficiências de nitrogênio e de potássio
(Carvalho et al., 1991) limitando a produtividade de forrageiras após o
estabelecimento. Os resultados encontrados pela Embrapa demonstram a eficiência
do sistema silvipastoril para a recuperação de pastagem degradada.
Outra experiência da aplicação de sistemas agroflorestais em áreas instáveis,
desenvolvida por Vidal (2001) no município de Ubá, MG, é a utilização de consórcio
de vegetação herbácea, arbustiva e arbórea para a recomposição da paisagem
degradada em uma área de mineração. Neste caso foram selecionadas espécies tais
como: Piptadenia gonoacantha (jacaré), Mabea fistulifera (canudo-de-pito), Mimosa
scabrella (bracatinga), Acacia mangium (acacia) Pinus oocarpa (pinus), Eucalyptus
grandis (eucalipto), Sacharum officinarum (cana-de-açúcar), Brachiaria decumbens
(braquiaria) e Mucuna sp. (mucuna). Os resultados permitiram verificar que o impacto
visual foi mitigado com a cobertura vegetal da área agregando valores à paisagem
local. O eucalipto, o jacaré, a acácia e a bracatinga, apresentaram bom
desenvolvimento. Observou-se ainda uma menor erodibilidade do solo, uma melhora
na fertilidade do solo e o início da formação superficial de uma camada orgânica
(horizonte A) e da atividade biológica dos solos além da presença de insetos, fungos
e outros animais, num local outrora considerado inóspito.
Ribaski et al. (2002) relatam que no Brasil, as regiões áridas e semi-áridas, sujeitas à
desertificação, se localizam no nordeste do país. Entretanto, no extremo meridional
do País, na faixa de transição entre a zona tropical e temperada, existem extensas
áreas areníticas que vêm sofrendo uma grande pressão antrópica devido ao aumento
dos níveis de utilização. Isso tem resultado em degradação do ecossistema regional,
devido à diminuição da cobertura vegetal, a qual facilita o processo de erosão.
Segundo Souto, (1994), as formações arenosas, características dessa região, são
bastante vulneráveis à erosão eólica e hídrica e, atualmente, diversas áreas
apresentam importantes núcleos de desertificação. Por outro lado, os solos
originados de rochas basálticas, apesar de oferecerem melhor rendimento para as
pastagens nativas, caracterizam-se pela pequena espessura, com uma profundidade
efetiva variando entre 5 cm e 50 cm e que, em grande parte, são ocupados por
pastagens degradadas ou em vias de degradação.
Neste contexto, os sistemas silvipastoris apresentam-se como uma alternativa de uso
sustentado da terra.
Segundo Townsend et al. (2002), avaliou-se em ensaio conduzido na Embrapa
Rondônia, Porto Velho, o estabelecimento da Teca (Tectona grandis) associado a
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diferentes métodos físicos e químicos de preparo do solo, na recuperação de
pastagem degradada de Brachiaria brizantha cv Marandu. O solo foi classificado
como Latossolo Amarelo distrófico e textura argilosa. Os resultados obtidos
permitiram concluir que a introdução da Teca e uma adubação fosfatada em
pastagens degradadas de B. brizantha incrementaram a produção de forragem, altura
de planta e cobertura de solo, contribuindo efetivamente para sua recuperação.
A região noroeste do Paraná caracteriza-se pela predominância de solos arenosos, de
alta susceptibilidade à erosão hídrica, originalmente recobertos por formações
florestais. A situação atualmente observada é a de degradação dos recursos naturais
renováveis, em função da pequena cobertura florestal remanescente, em combinação
ao manejo inadequado dos solos. Na topossequência de solos normalmente
encontrada sobre a matriz geológica do Arenito Caiuá, acompanhando a rede de
drenagem das bacias hidrográficas, ocorrem as Areias Quartzosas (Muzilli et al.,
1990, citado por Ramos & Leal, 1994). Em experimento instalado no município de
Paranavaí, PR, sobre Areia Quartzosa distrófica, realizou-se o plantio de Acacia
angustissima, Leucaena diversifolia, L. leucocephala e Mimosa caesalpiniaefolia. Os
resultados mostraram que as espécies apresentaram excelente adaptação às
condições de plantio, bem como taxas iniciais de crescimento equivalente às de
outras espécies de rápido crescimento, normalmente plantadas na região (eucalipto e
grevillea), no entanto apresenta vantagens da fixação biológica de nitrogênio
atmosférico e do seu potencial forrageiro (Ramos & Leal, 1994).
5. Conclusões
São feitas algumas reflexões sobre quais são as causas da formação das áreas
instáveis e considerou-se com tais aquelas sujeitas a desmoronamento e ao
voçorocamento. Foi mencionado algumas características do solo que podem
influenciar no aparecimento dessas áreas. Além disso, foram feitas considerações
sobre as experiências dos Sistemas Agroflorestais nestas áreas. Concluiu-se:
− A profundidade do horizonte é o melhor identificador da instabilidade das áreas. A
paisagem que apresenta solum (A + B) raso e C profundo é particularmente instável;
− As partículas do tamanho de silte e areia fina favorecem particularmente a
erosão;
− As áreas de tensão ecológica são particularmente as mais propícias a serem
instáveis;
− Os SAF podem contribuir para recuperar estas áreas ou evitar que as mesmas
sejam implementadas.
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Reflexões Sobre as Causas e as Experiências de Sistemas