A FORMAÇÃO PROFISSIONAL E O EXERCÍCIO DO MAGISTÉRIO EM PERNAMBUCO, NA GESTÃO DE ANÍBAL BRUNO (1930/1937). Lêda Rejane Accioly Sellaro Universidade Federal de Pernambuco A educação em Pernambuco, a partir de 1930, ficou sob a responsabilidade de Aníbal Bruno1, a quem o interventor Carlos de Lima Cavalcanti2 entregou o comando da Diretoria Técnica da Educação e a implantação da Reforma Carneiro Leão. A operacionalização desta reforma, já bastante dificultada pela reação católica ao modelo da Escola Nova3, fora interrompida com a Revolução. Ao mesmo tempo, haviam sido suspensas as aulas da Escola Normal e exonerados os seus dirigentes e professores. Dentre eles estava o jovem Gilberto Freyre, responsável pelo ensino pioneiro da Sociologia. Aníbal Bruno, embora administrando um órgão desacreditado e desgastado internamente, pelas tensões entre pessoas e instituições que o constituíam, e enfrentando o desprestígio da própria reforma, fragilizada pelos embates já sofridos, conseguiu implantá-la, adaptando e/ou dinamizando suas propostas. Conferiu um sentido integrado e arrojado à educação, sobretudo por meio de instituições voltadas para a melhoria das condições de formação e exercício do magistério, da administração e inspeção escolares. 1 Aníbal Bruno (1889-1976) era Bacharel em Ciências e Letras pelo Ginásio Pernambucano, Doutor em Direito pela Faculdade de Direito do Recife e Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina do Recife, jamais exerceu a medicina, dedicando-se totalmente ao magistério. Como professor foi: Catedrático interino e depois Docente Livre da Faculdade de Direito do Recife; Catedrático de Língua Portuguesa, da Escola Normal Oficial do Estado; Docente Livre do Ginásio Pernambucano; Professor da Escola Normal Pinto Júnior, da Escola de Aperfeiçoamento e do Instituto de Educação de Pernambuco, e da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais. Foi, ainda, Diretor da Escola Normal Oficial. Publicou vários trabalhos na área do Direito, da Medicina, da Língua Portuguesa e sobre Educação, onde se destaca o seu Programa de Política Educacional, em 1935. (Cf. Cavalcanti,1986, p.165) 2 COSTA PORTO, Jose. Os tempos de Lima Cavalcanti. Recife : Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco, 1977. (Coleção Pernambucana) 3 A Igreja Católica já se insurgira contra a atuação do médico educador Ulisses Pernambucano, responsável pela reforma do ensino em Pernambuco, a partir de 1923, com base no ideário da Escola Nova. O mesmo ocorreu com a Reforma Carneiro Leão, em 1929, e ocorreria após 1930, em relação à atuação de Aníbal Bruno. (Cf. Cury, 1984) 2 Este trabalho, ao reconstruir aspectos da atuação de Aníbal Bruno - confrontando o discurso oficial, contido no seu programa de política educacional com relatos de realizações, em Boletins da Diretoria Técnica de Educação e em depoimentos de professores, colhidos por Cavalcanti (1986) - busca uma melhor compreensão do significado e do papel das instituições voltadas para o magistério, no processo de renovação do ensino público em Pernambuco, entre a Revolução de 30 e o Golpe de 37. O contexto das mudanças O movimento armado de 1930, precedido de uma Aliança Liberal, abrira possibilidades de concretização de anseios e aspirações latentes e/ou parcialmente realizados, entre as camadas médias e o proletariado urbano. A renovação política enxertara no aparelho de estado, frações até então excluídas; fazendo com que as questões sociais, agravadas pelo rápido crescimento demográfico, passassem a ser consideradas. No início da década a população do Recife já era de 445.303 habitantes. A nova forma de exercício do poder trouxera conseqüências para as diferentes políticas, incluindo as relações entre Igreja, Estado e Educação. Os católicos e os educadores escolanovistas mobilizavam-se, com suas respectivas propostas, no sentido de realizar a reconstrução social pela reconstrução educacional. Nesse contexto, a criação do Ministério da Educação, a publicação do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova4, e a Constituição de 19345, ensejariam discussões e medidas relevantes no campo educacional. Na cidade de Recife, em meio a um clima de renovação cultural e artístico6, Aníbal Bruno se empenha na sensibilização do meio social para melhor assimilar e aceitar as reformas 4 O documento, que ora completa 70 anos, foi redigido por Fernando de Azevedo e assinado por mais de duas dezenas de educadores e/ou escritores, com o título A reconstrução educacional do Brasil – Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Todos eles eram favoráveis ao ensino laico e à co-educação; o que os colocava em choque com os católicos.. 5 A Carta Magna continha dispositivos referentes: à educação como um direito de todos; à obrigatoriedade e gratuidade da escola primária; e à ajuda aos alunos carentes. Caberia à União o planejamento geral da educação e uma ação supletiva nos estados carentes de um suporte técnico e/ou financeiro. 6 Entre outros fatos relevantes destacam-se: a fundação do Conservatório Pernambucano de Música, sob a direção de Ernani Braga; a Orquestra Sinfônica da Sociedade de Concertos Populares; a edição da Revista de Cultura Musical, pela Sociedade do mesmo nome; a criação do Grupo de Teatro Gente Nossa, por Samuel Campelo; a Fundação da Sociedade Pernambucana de Imprensa,Escola de Belas Artes, Sociedade dos 3 educacionais em processo, valendo-se para tal, de artigos publicados em jornais e no Boletim de Educação7. No seu primeiro número (a. I, n.1, dez.1931) transcreve o artigo O que se deve entender por Escola Nova, já publicado no Jornal da Manhã, periódico de grande circulação, no qual afirma: ”Todas as reformas de finalidade geral, requerendo larga ambiência para o sucesso de seus métodos, precisa dessa ‘adesão’ou, melhor, da identificação do meio com os processos que pretendem reformá-lo”. Opina sobre o problema de rejeição que sofrera a reforma Carneiro Leão, dizendo: “Ora, o insucesso que já algumas vezes coroou, entre nós, a aplicação da chamada ‘escola nova’, provém justamente desse desconhecimento, dessa ignorância, criando, ao invés de uma corrente de simpatia e, portanto, de colaboração, para a obra generosa a empreender, uma barreira intransponível de resistência e má vontade”. (p.86) A reação contrária provinha sobretudo do movimento católico através do órgão filiado à Congregação Mariana - a União Nacional Católica por Deus e pela Pátria - UNCDP – , que desenvolvia um trabalho de esclarecimento e convencimento da opinião pública e das autoridades, acerca dos perigos do novo modelo educacional, cuja laicidade diziam ferir os interesses e os direitos da maioria católica. 8 Para os escolanovistas esse argumento não convencia, por considerarem os aspectos conscientes e qualitativos da opção religiosa entre a grande maioria dos que se afirmam católicos. Na concepção dos renovadores, a principal função da escola seria a preparação da sociedade democrática, devendo ela própria representar uma sociedade em miniatura, com tais características. Conforme Bruno, “uma democracia supõe uma opinião nacional esclarecida, independente e organizada, consciente de sua quota de responsabilidade na obra comum, e animada do Amigos da Arte, Sociedade dos Amigos do Teatro Santa Isabel; a realização do 1.º Salão de Arte Moderna; e a publicação de Sobrados e Mocambos, de Gilberto Freyre. 7 O Boletim da Diretoria Técnica de Educação surgiu em 1931 e foi mais tarde transformado no Boletim de Educação; divulgando atos do Governo e trabalhos originais de pesquisas, orientação e cultura, traduções e transcrições de trabalhos; quadros estatísticos do movimento educacional do país e particularmente do Estado, além de comentários sobre novas publicações. 8 BELLO, Rui A. Memórias de um professor. Recife : Edição da Academia Pernambucana de Letras, 1982. 4 propósito desinteressado de servir a causa pública”. Para ele, fora a ausência dessa opinião que determinara a falência da Primeira República. ( Bruno, 1931, p.90). A expansão desse tipo de escola dependeria da adesão da sociedade e, sobretudo, dos professores; condições que ele tentou estimular durante sua gestão. Em 1934, ele escreve: Porque, em verdade, a escola nova não pode ser obra de autoridade, mas obra de convicção, ela há de resultar de um espírito novo que agite o professorado e o impulsione a viver a nova educação, com aquela sinceridade e aquele sentimento de larga simpatia pela criança, que caracteriza o verdadeiro educador.9 A operacionalização da proposta educacional Entre 1930 e 1937, foram criadas, reorganizadas ou dinamizadas algumas instituições, com as quais a Diretoria se empenhava em dotar Pernambuco de um sistema de ensino modelar e também moderno - expressão que, em suas variações, está presente em quase todas os artigos dos seus boletins. Uma dessas instituições foi a Escola de Ensaios ou Escola Experimental, criada em 1931, no Grupo Maciel Pinheiro, dirigida pela professora Lourdes Temporal. Nela avaliavam-se os novos métodos, dando-se continuidade à proposta da Escola de Aplicação, iniciada em 1923.10 Uma iniciativa pioneira e considerada plenamente vitoriosa foi realização dos Seminários Pedagógicos11 - círculos de estudos semanais, sobre temas novos - desenvolvidos nos salões da Escola Normal, com a presença de inspetores escolares, diretores de grupos e professores da capital12, para debates e aulas práticas, com novas metodologias. 9 Boletim Técnico da Educação, a. I, n.1, p.91-92, dez. 1934. 10 Boletim de Educação. a. I.n.1 p.105, dez. 1931. 11 O Boletim de Educação, de dezembro de 1931, já dava conta de que os Seminários se realizavam regularmente, incluindo temas como: Conceito moderno de educação; Finalidades da educação; Características da Escola Nova; A atividade da criança, como despertá-la, como conduzi-la; O problema da disciplina na escola; O ensino associativo; Complexo dcrolyano e projetos; A escola como meio de aprendizagem social; O trabalho em comunidade; Os cursos pré-vocacionais e educativos; Excursões escolares; A colaboração da família na obra escolar; Os círculos de Pais e Mestres, sua organização e seus fins; Trabalhos escolares de índole social e artística; Os clubes literários; O canto, a música, a dramatização; Bibliotecas e museus escolares; e Bibliotecas circulantes. 12 Medidas práticas foram tomadas para garantir a participação do professorado sem que isso implicasse em prejuízo para os alunos. Nestes dias, os dois turnos realizavam, pela manhã, atividades diversas de natureza social ou artística, reuniões de clubes literários, leituras comentadas, narrações, pequenas dramatizações, 5 Ainda em 1931, foi criada a Biblioteca Central dos Professores, com seções iniciais referentes à Pedagogia, Filosofia, Psicologia e Sociologia. O acervo foi enriquecido com a aquisição de bibliotecas que haviam pertencido a professores pernambucanos, crescendo como órgão de divulgação científica em geral e das modernas correntes educacionais, em particular. Também foram criadas as Bibliotecas Escolares, como partes integrantes das escolas.13 Quanto à renovação dos métodos educativos o processo era gradativo, de acordo com a capacidade dos mestres e as condições materiais das escolas. Os ensaios ocorriam então na Escola Experimental, e o material didático, desenvolvido pelos professores, era reunido no Museu Pedagógico Central14, podendo ser retirado para duplicação. Além do museu didático, havia o museu da criança e um curso de preparação para a administração de museus escolares. Os programas da Reforma Carneiro Leão, aprovados em 1929, foram adotados mas sofreram adaptações. Embora já precedidos de objetivos gerais e dos meios aconselháveis para obtê-los, tais programas careciam de um maior detalhamento; o que foi conseguido numa fase de experimentação nas escolas. A avaliação da aprendizagem escolar sofreu grandes alterações, em busca de mais rigor e uniformidade; levando em conta o desempenho do aluno durante processo, considerando-se sua capacidade de trabalho, a orientação e o espírito de iniciativa que apresentava, e a soma dos conhecimentos adquiridos no período letivo. Um novo sentido foi dado ao trabalho do inspetor escolar, já na linha do atual supervisor ou coordenador pedagógico – capas de atuar como um orientador técnico e não mais como um simples fiscal e vigilante do comparecimento e das faltas dos professores. canto, música, jogos diversos orientados, tanto quanto possível pelas próprias crianças, sob a vigilância discreta dos mestres. 13 Muitas recomendações eram feitas sobre o tipo de livros a ser incluído nos acervos, como a que se segue: “A escolha das obras deve ser tão rigorosa quão necessária à biblioteca possuir exclusivamente o livro que fortaleça a moral, o caráter, a inteligência. A leitura sã, amena, interessante, que acione a imaginação para o belo, o útil, o instrutivo é o que deve oferecer uma biblioteca escolar”. Boletim de Educação a. 2, n.1-2, p.54, mar/jun,1932. 14 A idéia do museu, presente na Reforma Carneiro Leão, como órgão auxiliar, ao lado das bibliotecas, teve sua função ampliada por Aníbal Bruno, que instituiu o Museu Pedagógico Central, em 29.11.1933, no prédio da Diretoria Técnica, logo considerado como suporte imprescindível para o desenvolvimento das técnicas e práticas escolares renovadas. 6 A relação entre a família e a escola também se modificou. Como forma de aproxima-las, fora criado em 1931, o Círculo de Pais e Mestres, visando ainda, “propagar entre aqueles, os métodos e as vantagens da escola moderna”15 , o que foi reforçado com a ação das visitadoras escolares – um serviço criado durante a Reforma de 1923, por Ulysses Pernambucano, quando à frente do ensino normal do estado.16 A crescente valorização da música terminou por integrá-la ao currículo. O primeiro órgão oficial de promoção cultural de Pernambuco - o Serviço de Música e Canto orfeônico instituído em 1933, foi entregue ao maestro Ernani Braga, professor da Escola Normal, com a responsabilidade de organizar e estender ao maior número possível de escolas o ensino da música e do canto orfeônico.17 Esclarece Cavalcanti (1986,p.31), que se deve, sobretudo à influência do grande músico Heitor Villa Lobos, então à frente da Superintendência de Educação Musical e Artística do país, o incentivo à formação de conjuntos orfeônicos, na maioria dos Estados brasileiros. Todo esse processo de renovação demandava um professorado qualificado. O muito feito nesse sentido orgulha o diretor, que afirma sem falsa modéstia: Pernambuco oferece hoje, no país, uma organização escolar original e eficiente. (...) Original, porque seu Instituto de Educação, com a Escola de Aperfeiçoamento, as Escolas Normais rural e urbana, a Escola Experimental, o Museu Pedagógico Central, a Biblioteca Central dos Professores, o Seminário Pedagógico e o Boletim de Educação, representa a mais perfeita organização do país para formação de professores primários”.18 15 O Boletim de 1934,p.29, já mencionado, dá conta de que os círculos “existem em quase todos os grupos escolares da capital e mesmo do interior e vêm realizando a sua ação cada vez mais eficiente, em benefício da obra educativa” 16 Cf. SELLARO, Lêda Rejane A. Educação e Modernidade em Pernambuco – inovações no ensino público (1920/1937) Recife, 2000. (Tese de Doutorado em História) Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco, 2000. 17 Para tanto, o Serviço criou um curso de Música e Canto Orfeônico para professores primários; selecionou composições musicais para uso das escolas; organizou programas para uniformização desse ensino; criou orfeões escolares nos grupos da capital e nas escolas Experimental, de Aplicação, Rrural Modelo e Técnico Profissional feminina, e um orfeão de professores. Vinte e dois professores especialistas e três inspetores passaram a atuar nesse órgão, percebendo uma gratificação adicional, sem prejuízo da atividade docente que exerciam. A Diretoria Técnica formaria sua primeira turma de especialistas em música e canto orfeônico, em 1936, por meio de um curso de especialização na área, também oferecido nas férias, para professores do interior do Estado 18 (Boletim de Educação, a. IV,p.49-50,1933). 7 O organograma representativo do Sistema de Ensino, publicado pela Diretoria Técnica dá uma idéia de sua estrutura e da formação do magistério em Pernambuco nesse período. Secretaria da Justiça Educação e Interior Escolas Isoladas . Escola profissional feminina Escola profissional masculina Escola doméstica Educação técnicoprofissional Internato 4 de outubro Diretoria Técnica de Educação Grupos Escolares Educação Primária . Escola Comercial Educação Normal . Museu Central Instituto de Aperfeiçoa mento Pedagógico Seminário Pedagógico . Biblioteca Escola de Aperfeiçoamento Seção Experimental de Psicologia Seção. de Pedometria Escola Experimental Escolas Reunidas 8 A Escola de Aperfeiçoamento – ponto alto das ações voltadas para o magistério Criado em 1931, a Escola de Aperfeiçoamento, considerada uma verdadeira faculdade de educação, se propunha a preparar professores para as funções superiores de inspeção e administração escolar. De acordo com o primeiro Boletim da Diretoria Técnica de Educação (a. I, n.1, p.112, dez, 1931), a instituição representava “um dos mais memoráveis acontecimentos para obra de educação em Pernambuco”, pronta para dotar o sistema escolar de técnicos aparelhados com os recursos da ciência moderna, preparados para exercer a mais vigorosa influência sobre o ensino no estado. Eram muitas as exigências para matrícula na Escola de Aperfeiçoamento.19 Os que preenchessem todos os requisitos submetiam-se às provas de aptidão intelectual e cultural por meio de testes e de trabalhos escritos de Português, Francês, Inglês, Matemática, Anatomia e Fisiologia Humanas, Física e Química. (Art.10.º). Os aprovados ficavam afastados do exercício do magistério sem prejuízo dos seus vencimentos, sendo substituídos por professores interinos, nomeados nas condições dos que substituíam professores licenciados, com direito à gratificação. Além da participação nas aulas, os alunos obrigavam-se a: realizar pesquisas biopsicológicas; fazer a prática profissional; escrever teses semestrais20; elaborar material didático; e participar das atividades de caráter educativo. O diploma conferido pela Escola de Aperfeiçoamento tornou-se uma exigência legal para o preenchimento das vagas de Diretores de Grupo e de Inspetores Escolares. Conferia, ainda, preferência para promoção no quadro do magistério primário. Em 1933, as alunas da Escola haviam realizado pesquisas de alto sentido educativo, sob a orientação dos professores; além de haverem aplicado testes de escolaridade (que nos últimos três anos, vinham substituindo os exames de promoção e conclusão de curso), em mais de 6.000 alunos, em cada ano.21 19 Podiam matricular-se no Curso de Aperfeiçoamento os professores do estado, (em número fixado anualmente pelo Governo), que contassem menos de 35 anos, tivessem conduta irrepreensível e possuíssem saúde e vigor físico, boa audição e visão, bom timbre de voz e pronuncia sem defeitos orgânicos, verificados por um Médico Inspetor de Educação Física. 20 Eram duas teses para cada disciplina, ficando estabelecidos os dias 30 de junho e 30 de novembro para a entrega das mesmas. O julgamento dessas teses era feito pela Congregação da Escola, à vista dos pareceres dos respectivos professores. (Art.15.º parágrafos1 e 4) 21 . Boletim de Educação, a. IV, n. 5-6,p.49,l933. 9 Não obstante a importância incontestável da Escola, como instituto superior de educação, e como centro de pesquisas, o seu custo era baixo; bastante inferior aos de outros Estados. Possuía nove professores, cada um dos quais percebendo uma gratificação mensal de 400$000. Para seu expediente consignava o orçamento verba de 250$000 mensais. Despendia assim o Estado com a Escola 4:000$000 por mês, menos que qualquer grupo escolar da capital.22 Em 1932, a Diretoria Técnica propusera à Secretaria da Justiça, a reforma da Escola Normal e a criação da Escola Normal Rural, para a formação dos professores destinados às escolas rurais. Uma comissão de professores da Escola Normal, sob a presidência do Diretor Técnico, foi criada para organizar o plano da reforma, trabalho que resultou na criação do Instituto de Educação do Estado; no qual se reuniram todos os órgãos de formação e aperfeiçoamento do magistério primário. Sua criação, foi determinada pelo Decreto n.º 182, de 25 de março de 1933. Quando enviado ao Secretário da Justiça, seu projeto foi assim justificado: Não poderia a comissão, que tinha em mãos o projeto de reforma radical das escolas normais manter essa criação solitária, no meio das outras organizações, afetas à formação e ao aperfeiçoamento do professorado. A convergência das atividades dessas instituições para uma finalidade comum, impunha a coordenação de todas elas. Com a reforma primária entra, na nova reforma, em relações orgânicas, a Escola Normal. Esta se deve articular com a Escola de Aperfeiçoamento e os vários órgãos como ela adstrita à preparação científica e técnica dos docentes primários.23 O Ensino Normal A formação do professorado foi o eixo do projeto educacional desenvolvido na gestão de Aníbal Bruno. Como órgão inicial e mais importante dessa formação figura a Escola Normal, em torno da qual, estão os vários órgãos que compõem o Instituto de Aperfeiçoamento Pedagógico; formando um todo orgânico - denominado Instituto de Educação. 22 Boletim de Educação, a IV, p.49-50, 1933. 23 Boletim de Educação, a IV, n.5-6, p.37,1934. 10 No novo Regulamento da Escola Normal, no título I - Da organização da Escola Normal - no Cap. 1 - Objetivo e orientação do ensino - tem-se uma visão geral da Escola, modelo para todo o ensino normal. A partir daí passa a constituir-se: de um curso secundário, com duração de 5 anos, sob regime federal; e de um curso de professores, com duração de 2 anos, com caráter profissional. Isso permitia a transferência entre estabelecimentos de ensino secundário equiparados e a Escola Normal. No título II - Do regime pedagógico, no capítulo VI - Das provas e das promoções, detalha nos artigos 42.º ao 61.º, em vários parágrafos e alíneas, um sistema de avaliação rigoroso, incluindo argüições, trabalhos práticos e ainda provas escritas parciais.24 O capítulo VII - Da prática pedagógica - trata do aprendizado dos modernos métodos educativos adotados nas escolas primárias; constando do aprendizado de: processos didáticos; sistemas escolares; instituições de educação sanitária, moral e social (cruz vermelha, cooperativas, clubes literários e esportivos, etc); organização de bibliotecas e museus escolares; aplicação de testes pedagógicos; organização de fichas antropométricas; e administração escolar. Objetivando-se o conhecimento por observação direta, eram visitados os museus e bibliotecas, os monumentos, os lugares históricos, fábricas, escolas, hospitais, centros de saúde, repartições públicas e bairros operários. O fruto do trabalho dos alunos, incluindo: material didático, desenhos e artes industriais, modelagem e outros trabalhos em madeira, palha, papel, fazenda, etc. eram expostos, anualmente, sendo a exposição aberta à visitação externa. Valendo-se dos meios de comunicação disponíveis na época, o Regulamento institui o aprendizado por meio do cinema e do rádio. No Art. 119.º fica estabelecido que as lições de Geografia, História, Ciências Naturais, Higiene, etc., deveriam ser auxiliadas por projeções de filmes instrutivos. O Art. 20.º estabelece que palestras educativas seriam feitas por meio do rádio, em dias fixados pela Diretoria Técnica de Educação. Em 1935, foi 24 Havia muito rigor na avaliação. Os alunos ou alunas, recebiam, de cada professor, uma nota mensal, resultante dos trabalhos orais e práticos. A média dessas notas seria computada na média anual; na qual também entraria, a média das quatro provas parciais, feitas durante o ano, em cada disciplina, nas quais, não haveria segunda chamada para os faltosos. Encerrado o período letivo, os alunos fariam a prova final que incluía exame oral ou prático-oral nas matérias que admitissem trabalhos de laboratório, de todo o conteúdo do programa; diante de uma banca examinadora, constituída de três professores da Escola, sob fiscalização do inspetor federal. 11 inaugurado o Serviço de Rádio Difusão da Escola Normal Oficial, com uma primeira rádio - aula sobre a nova Constituição Estadual. O corpo docente da Escola, constituído de Professores Catedráticos, Assistentes técnicos, Professores contratados e Docentes auxiliares, tinha suas responsabilidades bem definidas em 12 artigos. Eram admitidos por concurso público, constante de provas de cultura especializada da matéria, compreendendo a defesa escrita de uma tese sobre assunto sorteado dentro de uma lista de dez. Exigia-se uma prova de capacidade didática, versando cada uma sobre um ponto do programa escolar, sorteado 24 horas antes. Em vários dispositivos do Regulamento, sente-se a seriedade e o rigor da proposta escolanovista; e o depoimento de professores da época demonstra entusiasmo e adesão à mesma. Ao que tudo indica, o ensino normal de nível médio, preenchia, quem sabe com algumas vantagens, a atual formação de professores, feita em nível superior. Dessa forma, o novo modelo educacional, introduzindo inovações relevantes no ensino, impunha-se cada vez, entre o professorado e à sociedade em geral. A interrupção do processo renovador Em 1937, a reforma foi repudiada pelo Estado Novo, como portadora de tendências marxistas que atentavam contra as tradições ibéricas do povo brasileiro. O descontentamento de muitos professores, impossibilitado de uma reação efetiva, naquela ocasião, seria expresso posteriormente. Maria Elisa Viegas, em entrevista concedida a Cavalcanti (1986, p.47) afirmou categoricamente que o Estado Forte matara a educação em Pernambuco; atribuindo sua falência ao abandono a que fora relegado o professorado. O radicalismo da afirmativa, expressava a revolta, encontrada em formas mais amenas, no depoimento de outras professoras, que falaram com melancolia das grandes mudanças introduzidas pelo Estado Novo, referido como Estado Forte. Algumas das professoras que entrevistamos e que estavam em plena atividade docente, na capital, na vigência da Escola Nova descrevem, sem pieguismo, aliás, a sua atividade de professora primária como algo existencialmente gratificante, e, também, como um processo de auto-realização que se revitalizava no próprio amadurecimento profissional. Nas entrevistas elas transmitiram o seu entusiasmo de quando eram jovens e a alegria de quem colheu o fruto do próprio trabalho. (p.84) 12 O sentimento de auto-realização, de se saberem valorizadas, não estava necessariamente associado a uma remuneração condigna. Esclarece Cavalcanti (1986, p.47-48). Ao descrever o poder aquisitivo da professora primária no início da década dos trinta Lourdes Vasconcelos, Lábis Villaça, Hilda Brandão e Laura Bezerra, entre outras, primeiro descreveram a professora primária típica da época, pelo menos no quadro da capital, como jovens de classe média, em geral solteiras, que moravam com as famílias e que, assim, tinham no dinheiro que recebiam algo que dava muito bem para os alfinetes. O apoio técnico dado aos professores, para um melhor desempenho e aperfeiçoamento, além do estímulo às atividades associativas, asseguravam a renovação do entusiasmo e excluíam o risco do isolamento profissional, conforme ocorreria após 1937. Cabe aqui uma frase de Nilda Taves Ferreira, em seu livro Cidadania – uma questão para a educação, dirigindo-se às pessoas que têm vocação para atores da história. Diz ela: Não se trata de formar cidadãos que pensem poder resolver sozinhos os seus problemas, mas pessoas que percebam o quanto precisam caminhar junto com outras, aprender a negociar seus conflitos, ganhar e seduzir seus companheiros para projetos que atendam aos anseios coletivos. (Ferreira,1993,p.228) Certamente, este foi um dos fortes motivos que nortearam a gestão de Aníbal Bruno, à frente da Diretoria Técnica de Educação, em Pernambuco. Para concluir Considera-se que este curto período enfocado neste estudo – 7 anos – marcado por tantas e tão significativas realizações, foi possível, não só pelo apoio institucional recebido pela Diretoria Técnica de Educação e seu gestor Aníbal Bruno; mas, sobretudo, pela forma como ele soube conduzir as mudanças - divulgando e sensibilizando a sociedade e os professores e oferecendo a estes, condições dignas de formação e exercício da profissão. 13 Referências Bibliográficas ARQUIVO PÚBLICO. Catálogo coletivo de jornais publicados no Recife (séculos XIX e XX) Recife, 1984 (Coleções especiais; 3) ______. Regulamento da Escola Normal de Pernambuco (1917). Recife : Imprensa Oficial, 1920. BELLO, Rui A. Memórias de um professor. Recife : Edição da Academia Pernambucana de Letras, 1982. BOLETIM DA DIRETORIA TÉCNICA DE EDUCAÇÃO, Recife, a .1 n. 1, 1931. BOLETIM DA DIRETORIA TÉCNICA DE EDUCAÇÃO, Recife, a. 1 n. 1, 1932. BOLETIM DA DIRETORIA TÉCNICA DE EDUCAÇÃO, Recife, a. 4 n. 5-6, 1934. 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