Software livre como estratégia de inclusão digital: O caso da UFRB.
Free software as a strategy for digital inclusion: The case of UFRB.
Janaina Evangelista de Oliveira; Graduando; Universidade Federal do Recôncavo da Bahia;
[email protected]
Laila Suelen Jorge; Graduando; Universidade Federal do Recôncavo da Bahia;
[email protected]
Cleidson Santos de Jesus; Graduando; Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
[email protected]
Alessandra B Azevedo; Doutora; Universidade Federal da Bahia; [email protected]
Resumo
Baseado em pesquisa de campo realizada com alunos ingressante dos cursos
noturnos da UFRB do campus de Cruz das Almas - BA em 2009 e 2011, este artigo
discute a inclusão digital através do software livre e quais ações a Universidade tem
realizado para contribuir para um maior acesso dos seus alunos a tecnologia da
informação e comunicação - TIC e a utilização ativa e consciente do ciberespaço.
Palavras-chave:
Software livre; inclusão digital; cibercultura.
Abstract
Based on field research conducted with students of UFRB evening classes of Cruz
das Almas campuses in 2009 and 2011, this paper discusses the digital divide
through free software, and what actions the university has done to contribute to
greater access for their students to information technology and communication (ICT)
and active and conscious use of cyberspace.
Keywords:
Free software; digital inclusion; cyberculture.
Introdução
As tecnologias da informação e comunicação possibilitam e convidam a uma
atuação mais ativa e participativa. Contudo, é preciso ter acesso às ferramentas do
ciberespaço e saber como manuseá-las. As estatísticas apontam que apesar de
todas essas tecnologias disponíveis, são poucas as pessoas que usufruem,
constroem, produzem e participam de maneira ativa no ciberespaço independente
da faixa de renda que estejam. É sabido também que essa apropriação das
ferramentas do ciberespaço se agrava mais nas classes mais baixas. Apresentando
como reflexo é um enorme analfabetismo tecnológico que dificulta a inserção desse
jovem na universidade e no mundo do trabalho. O controle da tecnologia da
informação é fundamental e define as possibilidades de desenvolvimento e inclusão
digital, não só do cidadão, mas da região e do país.
Segundo a Agência de Publicidade, F/Nazca Saatchi & Saatchi em 2001, o número
de pessoas com acesso a Internet no Brasil tem crescido em ritmo acelerado,
atingindo 81,3 milhões de internautas (a partir de 12 anos). De acordo com a
Fecomercio -RJ/Ipsos (2011), o percentual de brasileiros conectados a internet
aumentou de 27% para 48% entre 2007 e 2011. O principal local de acesso ainda é
a lan house (31%), seguido da própria casa (27%) e da casa de parentes e amigos
25%.
1 A desigualdade social, infelizmente, também atinge o mundo digital no Brasil: entre
os 10% mais pobres, apenas 0,6 tem acesso a Internet; entre os 10% mais ricos
esse número é de 56,3%. Somente 13,3% dos negros usam internet, mais de duas
vezes menos que os da raça branca (28,3%). Segundo dados do IBGE 2008: As
regiões Sudeste (40,3%), Centro-Oeste (39,4%) e Sul (38,7%) registravam os
maiores percentuais de usuários, e as regiões Norte (27,5%) e Nordeste (25,1%), os
menores.
Segundo dados do IBGE 2007, o Brasil é o 5° país do mundo com maior número de
conexões á internet e o primeiro da América Latina. Em 20111, 46,3 milhões de
usuários acessam regularmente a Internet. 38% das pessoas acessam a web
diariamente; 10% de quatro a seis vezes por semana; 21% de duas a três vezes por
semana; 18% uma vez por semana. Somando, 87% dos internautas brasileiros
entram na internet semanalmente.
O Software livre tem sido grande aliado das políticas públicas de inclusão digital, por
ser colaborativo, seguro, barato, ter o código aberto permitindo o desenvolvimento e
aperfeiçoamento contínuo. Silveira (2003:445) afirma que “a morfologia das redes é
uma fonte drástica de reorganização das relações de poder e que tem um vínculo
claro entre o combate a exclusão digital e o movimento do Software livre”.
O artigo tem o objetivo apresentar o debate sobre inclusão e exclusão digital analisar
o papel do software livre como uma ferramenta ideal para promover a inclusão digital
ativa do cidadão. Também apresenta a pesquisa realizada nos anos de 2009 e 2011
na UFRB com os alunos ingressante dos cursos noturnos do campus de Cruz das
Almas. As pesquisas foram realizadas através da aplicação de questionários semi
estruturados, foram aplicados um total de 149 questionário que visavam identificar o
grau de conhecimento das TICs - Tecnologias da Informação e Comunicação e o
nível de acessibilidade a Internet.
O que é ser excluído digital?
Segundo Abraão (s.d), o termo exclusão digital foi mencionado pela primeira vez
num artigo de Jonathan Webber e Amy Hamon no jornal Los Angeles Time em 1995:
“De acordo com a OCDE, a exclusão digital refere-se à
distância entre indivíduos, famílias, empresas e regiões
geográficas em diferentes níveis sócio-econômicos com
respeito, simultaneamente, às suas oportunidades de
acesso às tecnologias de informação e comunicação
(TCI´s) e o uso da Internet para ampla variedade de ações
e atividades”.
Nota-se que o conceito de acesso, já explorado num contexto semelhante por
Jeremy Rifkin (2001), serve de metáfora entre os passwords computacionais e as
senhas simbólicas da vida social, expressas pelo acesso. Trata-se, aqui, do uso do
computador e das tecnologias informático-comunicacionais como metáforas do
mundo social, em grande medida, regida pela lógica matemático-formal dos
“sistemas eletrônicos-digitais”.
1
(http://tobeguarany.com/internet_no_brasil.php, consultado em 15/02/2012)
2 A exclusão digital não está restrita ao fator renda (apesar de ser limitada por ela);
algumas pessoas, ainda que com renda compatível ao acesso e uso da Internet, não
fazem uso das novas tecnologias por opção ou até mesmo por desconhecimento e
repulsa. Elas podem ter computador e internet em casa, sem jamais utilizá-los.
Existem alguns outros fatores que fortalecem o não acesso às tecnologias da
informação, e à Internet particularmente: 1) O desconhecimento da língua inglesa2,
visto que boa parte das informações presentes na internet é em inglês; 2) a infraestrutura necessária para o acesso à internet (linha telefônica3, computador e
provedor) e 3) o custo de acesso4 (preço dos computadores, custo das tarifas
telefônicas e despesas com o provedor de acesso) (CABRAL, 2003). Assim, como a
exclusão social, a exclusão digital é um conceito mais amplo e problemático do que
se comumente se pensa.
Então, numa outra lógica, o que seria o incluído digital? Aquele que tem acesso
constante e regular a um computador? Ter uma conta de e-mail e navegar por
alguns sites? Uma grande maioria dos internautas subtiliza a internet, pois
simplesmente navega por páginas de relacionamento, bate-papo, dentre outros e
timidamente produzem conteúdo. O slogan de que a internet seria o veículo de
comunicação mais democrático que a humanidade já teve, esbarra na mesma
restrição que se fez anteriormente ao rádio e à TV: instrumentos de emancipação,
de difusão de informações, podem converter-se facilmente em meios de controle e
desinformação. À par dessas contradições, creio que podemos considerar a difusão
das tecnologias de comunicação e informação um caminho sem volta; daqui a
alguns anos existirá vida sem internet? É neste sentido que a discussão em torno da
exclusão digital torna-se relevante.
No mundo acadêmico, cada dia mais os pesquisadores utilizam-se das TICs para o
desenvolvimento das pesquisas, além delas possibilitarem uma maior integração
entre vários grupos de pesquisas em diversos lugares do Brasil e do mundo.
Ferramentas de pesquisa em bancos de dados, periódicos eletrônicos, plataformas
de pesquisa, utilização de ambientes como o moodle dentre outros, exige do
pesquisador e do discente que estejam atualizados sobre as TICs da agenda atual
da sua área.
Segundo Cabral (2003), para que haja a inclusão na perspectiva tecnológica, é
preciso apreender o discurso da tecnologia; não basta saber os comandos de
determinados programas ou qualificar pessoas para o mundo do trabalho. É preciso
capacitá-las para influir na decisão sobre a importância da tecnologia digital na
política pública e na construção da cidadania. Não basta consumir e assimilar um
conhecimento já estruturado e direcionado para determinados fins, é preciso
participar ativamente dessa escolha. Portanto, o conceito de inclusão digital é mais
amplo que ter acesso à internet, é necessário redimensioná-lo em seu real papel
político e social.
2
Cerca de 80% dos sites da Internet estão escritos em inglês, sendo esse idioma compreendido por apenas 10%
da população mundial e 43% da população on-line ( MARTIGNAGO. s.d).
3
O telefone é um meio de comunicação que está ao alcance, segundo a ONU, de pouco mais de 20% da
população mundial. (MARTIGNAGO, s.d).
4
Há tentativas de barateamento dos computadores, os chamados “computadores populares”; a maioria dos
acessos residenciais é feita via modem e também existem provedores gratuitos. Mas, a qualidade destas
inovações é bastante discutível.
3 Fomentar o exercício da cidadania, para dar voz às
comunidades e setores que normalmente não têm
acesso à grande mídia e para apoiar a organização e o
adensamento da malha de relações comunitárias entre
os atores da sociedade civil que constituem a Esfera
Pública (SAMPAIO, 2003).
Segundo o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT – em
2007, afirmou como resultado da pesquisa de seu Observatório de Políticas Públicas
de Inclusão5 10, que o país possuía 108 programas de Inclusão Digital, atuando em
quase 3.000 municípios do país, via 16.722 pontos de inclusão digital – PIDs. Desse
total, 43 correspondem a iniciativas do terceiro setor – e o restante estava ligado a
instituições ou programas de instituições públicas. Mas nem sempre estão de fato
funcionando e o tipo de acesso que a população faz, muitas vezes não contribui
para real inclusão digital. Outro problema dos espaços públicos para uso da internet
é a manutenção das máquinas.
No que se refere à informatização em escolas públicas a pesquisa apontou sérios
problemas. “Pelos dados da PNAD 2005, só 11,6% dos alunos do Ensino
Fundamental tiveram condições de ter acesso à Internet em suas escolas, caindo
para 8,5% quando desagregadas as escolas públicas”. Contudo a pesquisa aponta
algumas medidas que vão ao sentido de modificar a realidade, mas vale destacar
que não basta somente oferecer as máquinas, junto é preciso a manutenção e as
condições de infra-estrutura necessárias para o bom funcionamento do espaço e
profissionais capazes de estimular a inclusão digital.
A
proposta,
contida
no
recente
Plano
de
Desenvolvimento da Educação – PDE – do Ministério da
Educação, de dotar com Laboratórios de Informática
todas as escolas públicas do país até 2010, além de
conexão de banda larga para as 17 mil escolas de
Ensino Médio. No mesmo Plano, a intenção de priorizar
o desenvolvimento educacional dos 2000 municípios de
menor Índice de Desenvolvimento Humano. As
propostas que circulam no Legislativo em vias de
aprovação, entre elas a de dotar escolas com um
computador para cada 10 alunos. A recente designação
de uma Coordenação Nacional das Políticas de Inclusão
Digital, visando superar a fragmentação e a setorização
e tornar mais eficientes as políticas de inclusão digital
(mapa da inclusão digital, 2007).
O que queremos apontar é, simplesmente, que tais esforços estão sendo
insuficientes para superar as desigualdades principalmente quando nos voltamos
para o interior dos estados do nordeste. Contudo, há experiência positivas que
mostram os benefícios da inclusão digital, como é o caso das experiências
realizadas desde 2002 pelo Programa de Inclusão Digital da Escola Aberta de Pernambuco, utilizando mais de 100 laboratórios escolares para ministrar cursos
gratuitos de informática básica e acesso gratuito a computador e à Internet,
possibilitaram verificar o enorme impacto de inclusão, dada a capilaridade e
localização das unidades escolares selecionadas e os custos enormemente baixos
de implementação.
5
(http://inclusao.ibict.br/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=162&Itemid=527, consultado
em 19/07/2007).
4 São muitas as evidências que indicam, de forma clara e convincente, que é pela via
de uma proposta inclusiva e democrática que se poderá garantir que as novas
tecnologias da informação e da comunicação cumpram seu papel social, gerando
melhor qualidade de vida para o conjunto da população.
Um reflexo claro que as tentativas de inclusão digital não estão alcançando os
estudantes do ensino fundamental é que eles chegam no terceiro grau com grandes
dificuldades de interagirem com o ciberespaço. O que hoje em dia para um
profissional de qualquer área é fundamental.
Software Livre
O software livre tem sido uma ferramenta utilizada para conceder mais liberdade as
pessoas que utilizam o ciberespaço de uma maneira ativa.
Iniciou-se o movimento do software livre com a criação do Free Software
Foundation, que reunia e distribuía programas e ferramentas livres com o código
fonte aberto, no ano de 1985, a partir da indignação de Richard Stallman contra a
proibição de acessar o código fonte de um software. Desta forma todas as pessoas
poderiam acessar aos programas e aos códigos em que foram escritos. (AMADEU,
2001). Logo após foi criada a Licença Pública Geral (GPL), como forma de garantir a
proliferação do software livre e seus derivados. Ela utiliza a mesma lei que garante
os direitos autorais, usados para limitar o acesso à alteração e a distribuição de uma
obra. (SILVEIRA, 2003)
Em entrevista para a revista Agência Dinheiro Vivo, Sergio Amadeu (2001)
apresenta define Software livre como sendo:
O software livre é um novo modelo de uso, baseado nas
práticas
colaborativas
entre
comunidades
de
desenvolvimento, que possibilita que qualquer indivíduo
tenha acesso ao código-fonte do software, podendo
estudá-lo e alterá-lo. Sua tecnologia é aberta. A
inteligência do software é inscrita no texto, o códigofonte, que diz quais são suas rotinas e que vai junto com
o código-executável. Então, a qualquer momento,
qualquer usuário de software livre, seja ele uma pessoa
física ou uma empresa, pode ter acesso completo, vendo
o que o software tem nele, o que ele pode fazer ou
deixar de fazer. Ele é completamente transparente e
permite compartilhamento total do conhecimento sobre
ele.
Com a popularização da internet, o movimento de Software livre ganhou força e
conseguiu produzir um sistema operacional livre, denominado GNU/Linux. No ano
de 1992, Linus Torvald compilou todos os programas e ferramentas do GNU em um
núcleo central, viabilizando o sistema operacional Linux. Existem mais de 400 mil
desenvolvedores espalhados pelos continentes e em mais de 90 países, enquanto a
Microsoft, considerada a maior empresa de software do planeta, produz o sistema
operacional Windows com aproximadamente 30 mil funcionários. (SILVEIRA, 2001).
Um software é considerado livre caso possua as quatro liberdade: A liberdade de
executar o programa, para qualquer propósito; a liberdade de estudar como o
programa funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades. O acesso ao código
fonte é um pré-requisito para esta liberdade; a liberdade de redistribuir cópias de
modo que possa beneficiar o próximo e a liberdade de aperfeiçoar o programa, e
5 liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie. O
acesso ao código-fonte também é um pré-requisito para esta liberdade. (SILVEIRA,
2003)
O percussor destas liberdades foi Richard M. Stallman no início da década de 80,
com a criação do Free Software Foundation asseguradas por um instrumento
jurídico chamado GPL ( Licença Pública Geral). Essa lei é a mesma que rege os
direitos autorais e garante a expansão e proliferação do Software Livre e de suas
derivações – o copyright, permitindo assim os direitos que antes estariam restritos
ao autor, passam a ser de toda a comunidade, pois ao invés de proteger os direitos
dos indivíduos esta protege os direitos coletivos. Observa-se também que um
software para ser livre, não é necessariamente gratuito, e sim é uma liberdade de
poder modificar e melhorar seu funcionamento.
Software Livre e Inclusão digital
Programas de desenvolvimentos de TI orientado especialmente para a inclusão
digital, educação e capacitação pode ser uma alternativa para consolidar uma
indústria de hardware e software que acrescente valor a economia nacional com
embasamento em software não proprietários. (SILVEIRA, 2003)
Um dos argumentos para utilização de software livre nas políticas de inclusão digital
é a importância de unir a política de inclusão digital, a informatização de escolas e
bibliotecas públicas e a adoção de TI como um instrumento didático- pedagógico
para uma tática de desenvolvimento tecnológico nacional (SILVEIRA, 2003).
Outro argumento é o custo para o Estado, já que as soluções não proprietárias são
mais baratas. A utilização do software livre nos programas de inclusão digital motiva
uma grande economia por causa do não pagamento de licenças. Esses recursos
podem ser aproveitados para a formação e capacitação, treinamento e educação
digital, apostando assim numa inteligência coletiva (SILVEIRA, 2003).
Um terceiro argumento, é que o software livre tanto quanto o proprietário necessitam
de suporte e manutenção.
O uso do software livre nos telecentros e unidades de inclusão
digital pode ser um grande incentivo ao surgimento de
inúmeras empresas locais capacitadas a configurar e até a
desenvolver soluções adequadas aos interesses das empresas
e órgãos públicos locais. As duas vantagens mais destacadas
no uso do software livre para o desenvolvimento econômico
social local são o código fonte aberto e a inexistência do
pagamento de royalties pelo seu uso. O código aberto permite
que qualquer programador habilidoso crie soluções que melhor
atendam as necessidades do seu cliente. A inexistência de
royalties permite que toda a renda gerada pela empresa local
de suporte e desenvolvimento fique com ela. (SILVEIRA, 2003,
p. 442)
O último argumento é que não se deve utilizar dinheiro público para formar e nem
alfabetizar digitalmente as pessoas em uma linguagem proprietária de um monopólio
privado, mesmo que as licenças sejam doadas para os programas de inclusão
digital, porque o Estado estaria pagando na verdade os professores ou
monitores/instrutores, para treinar usuários para aquela empresa (SILVEIRA, 2003).
6 O Brasil vem investindo em diversos programas de abangência municipal, estadual e
federal que estimulem o uso e o desenvolvimento do software livre. O Sergio
Amadeu destaca que o modelo livre traz benefícios econômicos ao país.
No mundo, o software proprietário tem pouca força. O Brasil
recentemente ganhou prestígio porque começou a desenvolver
plataformas abertas. O software livre é o caminho pra que se
possa construir empresas que se relacionem com empresas de
outros países e usem a capacidade de trabalhar a inteligência
coletiva para fazer ações, serviços de TI em outros lugares.
Agora, se a gente for vender licenças de propriedades, isso já
não deu certo antes e não dará agora. O caminho é
exatamente o de incentivar a rede de software livre, em código
aberto, e apostar na nossa inteligência coletiva, na nossa
capacidade de prestar serviços.(SILVEIRA, 2007).
Entretanto, essas políticas não estão alcançando o objetivo que buscam. No estado
da Bahia em 2005, somente 6,3% dos domicílios possuem Internet e deles 12,9%
utilizam a Internet. (mapa da desigualdade digital, 2007:17). Contudo é preciso
continuar investindo na inclusão digital da sociedade brasileira, buscando formas
mais eficientes de apresentar o potencial do ciberespaço.
As leis da Cibercultura estão em total harmonia com a proposta do software livre.
Hoje podemos encontrar todos os tipos de programas em software livre desde um
processador de texto, um programa de editoração de imagem, jogos, buscadores,
sites de compras, até programas de segurança de grandes bancos, etc...
Para Lemos (2005) a nova configuração cultural que vem alterando a forma dos
processos de comunicação, produção, criação e circulação de bens e serviços
desde o final do século XX chama-se “cibercultura-remix”. Esse novo movimento
técnico social, propõe segundo o autor não uma novidade, mas uma radicalidade.
Uma proposta diferente que possibilita que qualquer indivíduo possa emitir e receber
informações em tempo real, sob diversos formatos e modulações para qualquer
lugar do mundo. Construir, e divulgar de forma individual e/ou participativa
informações de interesse de uma tribo ou da sociedade.
A cibercultura se caracteriza por três leis fundadoras: a liberação do pólo da
emissão, o princípio de conexão em rede e a reconfiguração de formatos midiáticos
e práticas sociais. Os três pilares que alimentam essa revolução social que vem
acontecendo no mundo, possibilitando que a voz da expressão popular chegue a
tempo real em qualquer parte do planeta.
A primeira lei, liberação do pólo da emissão, ao liberar o pólo de emissão, dá voz a
população, possibilitando que além de receber informações, produza, analise,
compartilhe e emita opiniões produzindo novas informações que podem ter um
alcance antes jamais alcançado. “tem de tudo na internet”, “pode tudo na internet”.
A segunda lei é o princípio de conexão em rede, “tudo em rede”. Lemos (2005:2)
chama a segunda lei “de lei de princípio de conectividade generalizada”, pois a rede
está em todos os lugares. Atualmente, tudo está conectado em rede desde o
pagamento de um remédio na farmácia à emissão de uma carteira de motorista. O
mundo está conectado através da internet. Já não é possível pensar em fazer uma
7 pesquisa científica sem usar a internet ou interagir com pares em várias partes do
mundo sem estar na internet. As empresas gerenciam seus negócios utilizando a
rede. A forma de comprar, de se relacionar vem ganhando um espaço cada vez
maior no ciberespaço.
A terceira é a lei da reconfiguração. Segundo o autor, a máxima dessa lei é “tudo
muda, mas nem tanto”. A possibilidade de recriação a partir de uma base já
existente sem a substituição de seus respectivos antecedentes. Para ele “a idéia de
reconfiguração vai, além da remediação de um meio sobre o outro (por exemplo, o
cinema nos jogos eletrônicos e vice-versa)”. (Lemos, 2005:03). A reconfiguração
também vem modificando as estruturas sociais, e sua forma de se comunicar e se
comportar.
Donas (2010:15) aponta para a importância que a cidadania e redes digitais tem
entorno das TIC (tecnologias de informação e comunicação) para redefinir, o
comportamento da sociedade atual. O autor afirma que essas redes “são o campo
de batalha onde se travam algumas das lutas mais significativas pelos direitos
humanos”. Ressalta que não é possível falar de liberdade de expressão nem de
direito à informação se não for considerada as possibilidades que as ditas redes
oferecem aos cidadãos menos favorecidos.
Uma nova lógica está em vigor. Já é possível quebrar a hegemonia dos meios de
comunicação como o radio, o jornal e a Tv.
Os meios de comunicação de massa se caracterizam por
sua natureza profundamente assimétrica: um fala, muitos
escutam. Um aparece, muitos contemplam. O
conhecimento flui hierarquicamente do centro para a
periferia. Os países se dividementre importadores e
exportadores de produtos audiovisuais. Tudo parece
estar desenhado para que a nova exclusão digital
reproduza
as
velhas
desigualdades
sociais.
(BUSTAMANTE, 2010:15).
Dentre os elementos que Donas (2010:19) destacou sobre cidadania digital cabe
elencar alguns para contribuir com o debate:
§ a apropriação social da tecnologia, o que supõe empregá-la para fins não só
de excelência técnica, mas também de relevância social;
§ a utilização consciente do impacto das TIC sobre a democracia, avançando
desde suas atuais formas representativas até novas formas de democracia
participativa;
§ a promoção de políticas de inclusão digital, entendendo como inclusão não o
simples acesso e compra de produtos e serviços de informática, mas o
processo de criação de uma inteligência coletiva que seja um recurso
estratégico para inserir uma comunidade ou um país em um ambiente
globalizado;
§ a aposta no software livre, no conhecimento livre e no desenvolvimento de
múltiplas formas de cultura popular, com o objetivo de consolidar uma esfera
pública interconectada. (Bustamante,2010:19).
Não é possível ignorar a força que as TICs possuem na sociedade. A universidade
precisa estar inserida nesse debate contribuindo para o despertar desses jovens que
irão entrar no mercado de trabalho competitivo onde os diferenciais muitas vezes
girarão em torno das TICs.
8 Programa de Inclusão Sócio Digital da Bahia
Um exemplo de programa que tem o objetivo de promover a inclusão digital no
Estado da Bahia é o Programa de Inclusão Sócio Digital (PISD) que é coordenado
pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti); esse programa busca
com a democratização das tecnologias de informação e comunicação atender as
pessoas de baixa renda de todas as regiões do estado, possibilitando a elas o
desenvolvimento humano e social.
O programa tem entre os seus objetivos: capacitar a população de baixa renda para
que aprendam a usar os softwares e a internet; aumentar a geração de renda
através dessa capacitação e assim contribuir para a melhoria da qualidade do
ensino e também do seu contexto social.
Segundo dados do Cidadania Digital6, o Programa de Inclusão Sócio Digital está
presente em 268 municípios baianos, através de uma rede de 362 centros digitais de
cidadania (CDC). Esses centros possibilitam aos usuários acesso às tecnologias de
informação e comunicação através de uma rede de computadores, todos com
sistema de software livre (o que dar maior independência aos usuários, já que o
software não possui proprietário) e todos são conectados à internet.
Segundo o Observatório Nacional de Inclusão Digital (2010), o número de
telecentros no Brasil vem crescendo a cada ano que passa, tivemos no ano de 2008
a quantia de 4.879 telecentros e atualmente esse numero já chega a 5.993
telecentros. Temos na Região Nordeste 1.578 telecentros, que estão divididos da
seguinte forma:
Nº de telecentros na região Nordeste do Brasil
ESTADO
Nº de Telecentros
1º
BAHIA
694
2º
CEARÁ
285
3º
RIO GRANDE DO NORTE
155
4º
PERNAMBUCO
122
5º
PARAÍBA
84
6º
PIAUÍ
83
7º
MARANHÃO
82
8º
ALAGOAS
41
9º
SERGIPE
32
Fonte: Elaboração a partir de dados extraídos do site: www.onid.org.br
Os Centros Digitais de Cidadania (CDC) podem ser instalados em escolas publicas
(municipais e estaduais), Universidades estaduais, bibliotecas públicas e também
espaços cedidos pelas prefeituras. Para facilitar a administração e coordenar as
atividades dos CDCs, todos utilizam o sistema Berimbau Linux, que é um conjunto
de softwares livres desenvolvidos pela própria equipe técnica do programa. O
sistema se encaixa perfeitamente no conceito de software livre no qual a Associação
do Software Livre Brasil define como sendo software livre todo sistema que respeita
as quatro liberdades: liberdade de poder utilizar o programa; liberdade de poder
estudar o programa; liberdade de poder modificar o programa; e liberdade de poder
redistribuir o programa.
6
Projeto Cidadania Digital. Site institucional. http://www.cidadaniadigital.ba.gov.br/inclusaodigital.php?pgid=1
9 A Inclusão Digital na UFRB
A UFRB é uma universidade com cinco anos de criação e tem atraído alunos da
região do Recôncavo e do estado da Bahia. Em pesquisas feitas com alunos no
semestre ingressam na UFRB dos cursos noturnos (Tecnólogo em Gestão de
Cooperativas e Licenciatura em Biologia) tem apresentado dificuldades no acesso as
TICs.
O desafio de incluir digitalmente esses alunos tem sido grande, pois é possível
identificar muitos alunos que não tinham tido acesso ao uso do computador antes de
ingressarem na universidade. Em 2009, foi realizada uma pesquisa com os
discentes do Curso noturno Tecnólogo em Gestão de Cooperativas da UFRB sobre
o acesso à Internet e foi confirmado o que as disciplinas de informática e redação
científica vinham apontando: a existência de um grande número de pessoas que não
sabiam nem ligar o computador. A pesquisa que foi realizada em 2009 teve a
participação de 64 estudantes; 13 ingressaram no segundo semestre de 2008 e 51
ingressaram no segundo semestre de 2009; já em 2011 a pesquisa foi reaplicada,
contando com a participação de 85 estudantes, mas agora de dois cursos noturnos:
Tecnólogo em Gestão de Cooperativas e Licenciatura em Biologia.
A pesquisa realizada em 2009 mostrou que quase metade dos estudantes não
acessam a internet em suas residências, já em 2011, mas da metade dos alunos
entrevistados tinham computador em suas casas com acesso à internet. Vale
destacar, que quando foi perguntado onde realizam os trabalhos demandados pelos
professores, para os que não têm computador em casa, o uso das lan houses ou a
casa de amigos e parentes, resposta dada em ambas as pesquisas. Como quarta
opção, está o acesso em outros locais, sendo o principal deles o trabalho. Poucos
estudantes realizavam seus trabalhos na UFRB, em sua maioria aqueles que
participavam de algum projeto de extensão ou pesquisa.
Sobre a possibilidade de acesso à internet na UFRB, através de um laboratório de
informática. Em 2009 do total de pesquisados, 86% utilizariam o laboratório, sendo
que 46% usariam 3 horas ou mais semanalmente; já em 2011, somente 47% da
amostra utilizaria o laboratório, sendo que a maior parte deles usariam até 3 horas
semanais. Contudo, em 2009 a quantidade de laboratórios de informática ainda era
insuficiente para suprir a demanda crescente dos alunos, havia um laboratório no
pavilhão de aula – PVA1 e um laboratório no prédio da Biblioteca. Em 2011,
contamos com 138 computadores, sendo que 86 deles estão nos pavilhões de aula,
40 no laboratório da Biblioteca e 12 no laboratório de inclusão digital e
metarreciclagem.
Outro aspecto detectado nas pesquisas é que os alunos não têm domínio de
ferramentas básicas para o bom desenvolvimento da vida acadêmica, como bancos
de pesquisa, planilhas, editor de textos, programas estatísticos, utilização do
ambiente moodle, plataforma Lattes.
Diante dessa realidade, o colegiado do curso de Tecnólogo em Gestão de
Cooperativas criou o laboratório de inclusão digital e metareciclagem com o objetivo
de proporcionar aos alunos um espaço para suprir deficiências além de ser um
espaço onde o software livre, o debate sobre as TICs, as escolhas tecnológicas e
suas conseqüências estivesse presente. O laboratório conta com a parceria do
10 Grupo LINKLIVRE7 e com a colaboração de vários professores do CETEC e do
CCAAB CAHL. Vale ressaltar que todos os softwares são software livres e as
oficinas ofertadas todas utilizam software livre.
A UFRB tem dado passos interessantes no caminho da inclusão digital. Há vários
professores que pesquisam as novas mídias, existem diversas disciplinas nos vários
campi que abordam a temática da democratização da informação por diversos
aspectos e a criação do laboratório de inclusão digital e metareciclagem foi um
passo importante, pois se tornou um espaço para o desenvolvimento de oficinas e
reflexão sobre o tema.
Algumas disciplinas utilizam o laboratório de inclusão digital como espaço de suas
práticas em parceria com o projeto “inclusão digital para que?” que vem sendo
desenvolvido desde 2010. Quando algumas das oficinas oferecidas pelo projeto
atendem as necessidades da disciplina como, por exemplo, formatação de textos
científicos e busca em bases de e dado, etc.s os monitores atuam de maneira mais
ativa, quando não, eles participam dando apoio ao docente.
A metodologia desenvolvida pelo projeto “inclusão digital para que?” é inovadora e
busca criar um efeito multiplicador entre os estudantes e desenvolver um grau de
autonomia e estimulo para pesquisas no ciberespaço.
As oficinas primeiramente são ministradas por professores. Quando o aluno se
inscrever nas oficinas, é oferecida a ele a possibilidade de se tornar multiplicador.
Cada turma tem em média 03 multiplicadores. Na segunda oficina, com o mesmo
tema, quem ministra a oficina é o grupo de monitores. O docente/funcionário assiste
a oficina como forma de apoio. A partir da terceira oficina, os monitores ministram as
oficinas sob a supervisão da coordenação do projeto.
O resultado da pesquisa realizada em 2009 apontou a necessidade de envolver no
próximo projeto as escolas de ensino fundamental, para que os alunos cheguem à
universidade mais preparados. Assim, em 2011, foi aprovada pelo edital da
PROEXT a continuação do projeto com uma proposta expandida, além dos
discentes da UFRB foram incluídos estudantes do nono semestre das escolas da zona
urbana de Cruz das Almas.
No desenvolvimento do projeto em curso foi possível verificar que existe uma grande
deficiência, em relação à tecnologia da informação, enfrentada na maioria das
escolas públicas brasileiras, a de não existirem pessoas capacitadas para mediar o
conhecimento necessário para os jovens. O que foi encontrado foram laboratórios
em perfeitas condições, com computadores conectados à internet, mas sem uso,
justamente por falta de profissional competente na área. Essa é a realidade que
encontrada no município de Cruz das Almas – BA, onde das quatro escolas
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Grupo de Estudos e Práticas Laboratoriais em Plataformas e Softwares Livres e Multimeios (Linklivre) abriga
atividades de pesquisa e extensão que envolvem o papel da tecnologia na sociedade contemporânea, sua relação com a
comunicação, multimeios, tecnologias e produção artísticas, formação, produção de subjetividades e cibercultura. As relações
entre tecnologia, comunicação, arte e sociedade, baseadas na cultura digital, pautada por conhecimento, informação,
produção cooperada, interatividade, criatividade, inovação, plataformas e softwares livres, tecnologias sociais, cultura
libertária, creative commons etc. Atividades de pesquisa, capacitação e disseminação do uso do software livre; colaboração
com redes de desenvolvimento e ativismo; produção em comunicação e design, desenvolvimento de produtos experimentais
em arte e multimídia a partir do uso de ferramentas livres. O Linklivre está localizado fisicamente no Centro de Artes,
Humanidades e Letras (CAHL) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), na cidade de Cachoeira/BA.
11 municipais visitadas, três tem infocentros,
funcionamento por falta de pessoal capacitado.
mas
nenhum
deles
está
em
É necessário que se forme profissionais capacitados para trabalhar com a inclusão
digital, e que o conteúdo a ser passado aos alunos se torne mais amplo do que
somente ensinar sobre internet e edição de textos; que os profissionais envolvam os
alunos e a comunidade como um todo e busquem através das tecnologias de
informação, soluções para melhorem as condições de vida.
Na maioria das vezes as tecnologias da informação são passadas de maneira
mecânica e não estimulando o estudante a se tornar um ator ativo no ciberespaço. É
preciso ensinar a interpretar os conteúdos tecnológicos de forma rápida e inteligente
para que eles possam buscar através dessas tecnologias atenderem as suas
necessidades sociais e econômicas.
Hoje em dia o que os jovens mais utilizam na internet são as redes sociais, como
mostra a pesquisa feita no campus da UFRB em 2011, que apontou que dos 85
questionários aplicados, 66% dos alunos utilizam as redes sociais, mas a utilização
da ferramenta está restrita a relacionamentos pessoais, não há outros usos das
redes sociais para fins acadêmicos e profissionais.
É importante que a inclusão digital faça parte do contexto de ensino (fundamental e
médio), para isso é necessário se ter uma alfabetização digital como parte do
currículo escolar, capacitando os alunos há utilizar as ferramentas tecnológicas ao
seu favor e atendendo aos seus interesses pessoais, sociais e profissionais.
Conclusão
O artigo buscou levantar reflexões sobre o que é ser incluído ou excluído
digitalmente e mostrar que a exclusão digital não é meramente não ter acesso a um
computador com internet. A cidadania digital passa por outros aspectos mais sutis
que tem um efeito emancipador e includente enorme. Os diversos movimentos
mundo a fora aonde através de redes sociais, blogs, sites a população vem lutando
por uma democracia mais participativa e mais inclusiva estão mostrando a força e a
importância que as tecnologias da informação tem.
È fundamental que o sistema educacional (escolas de nível médio, as universidades)
façam parte dessa nova era da cibercultura preparando os seus alunos e docentes
para integrarem-se e serem atores ativos na construção de uma cidadania mais
participativa, onde o uso das ferramentas tecnológicas possibilite a quebra de vários
paradigmas como expandir os canais de emissão da comunicação, a construção de
conhecimento a partir da colaboração como a filosofia do software livre e a cultura
haker propõe.
Políticas públicas tanto a nível federal como estadual buscam através de programas
e projetos levar o acesso as TICs para a população mais carente, mas não basta ter
a proposta é preciso ao concretizar através dos laboratórios também fornecer
formação para os trabalhadores para que possam ser agentes multiplicadores não
somente de uso de software, mas que também contribuam para o despertar das
12 potencialidades que o uso das TICs tem para a organização e luta das
comunidades.
Ainda estamos no início para tornar a UFRB uma universidade de fato incluída
digitalmente, mas já é possível notar que a quantidade de discentes, técnicos e
docentes que estão dispostos a refletir sobre a questão da democratização da
informação e desenvolver práticas que melhorem o acesso ao uso das tecnologias
informacionais vem crescendo a olhos vistos.
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