O azul e seus efeitos de sentido na antologia “Para encontrar o azul eu uso pássaros” de Manoel de Barros Maria Emília Borges Daniel (UFMS); Maria Leda Pinto (UNIDERP/UEMS – PG/USP) Abstract: In the perspective of the French line Discourse Analysis, upon which this study is based, the occurrences of the word blue, in the corpus, consist, most times, not only of visual images, but also produce sensitive effects which evoke, simultaneously, sight, hearing, touch, smell and taste, implying a displacement of scenes Pantanal/scenery, which evokes the childhood memories of Manoel de Barros, his first sight of things, to a Pantanal/language, which is his manner of doing poetry. Keywords: poetic language; sense effects; blue; Manoel de Barros; Pantanal. Resumo: Na perspectiva da Análise do Discurso de linha francesa, que fundamentou este estudo, as ocorrências da palavra azul, no corpus, configuram, na maioria das vezes, não apenas imagens visuais, mas também produzem efeitos de sentido que evocam, simultaneamente, imagens visuais, sonoras, táteis, olfativas e gustativas, sugerindo um deslocamento de cenas de um Pantanal/paisagem, que evoca a infância de Manoel de Barros, a sua primeira visão das coisas, para um Pantanal/linguagem, que é a sua forma de fazer poesia. Palavras-chave: linguagem poética; efeito de sentido; azul; Manoel de Barros; Pantanal. 0. Introdução Este estudo analisa efeitos de sentido da palavra azul, em diversos (con)textos, no livro “Para encontrar o azul eu uso pássaros”, que se configura como uma antologia poética e fotográfica, pois reúne poemas de Manoel de Barros, produzidos especialmente para ela, apresentados em branco e preto, além de outros publicados em diversas obras, em diferentes épocas, apresentados em azul; e fotos de imagens pantaneiras feitas por Asa Roy e Osmar Onofre. Trata-se de uma edição bilíngüe (português/inglês), editada em 1999, pela Petrobrasgás S.A./Gaspetro, com tiragem de 10.000 exemplares. 1. Perspectiva teórica Inicialmente, cabe apresentar algumas considerações — que assumimos como pertinentes para fundamentar a análise a ser aqui realizada — relativas à noção de efeito de sentido, de acordo com a vertente francesa de Análise do Discurso, e que pressupõem conceber: a) [...] uma língua natural como sintática e semanticamente indeterminada; b) [...] o discurso como um acontecimento, ou seja, não é previsível, nem Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 887-892, 2005. [ 887 / 892 ] necessário. Não é da ordem da estrutura, mas da materialidade, é um fato que acontece. [...] a questão semântica deve ser encarada em análise do discurso, como efeito de sentido e não como sentido, pura e simplesmente [...] A idéia básica é que o sentido do discurso é seu efeito de sentido, isto é, o que se produz, na ordem da significação, pelo fato de ter acontecido em determinado enunciado em determinadas condições de enunciação. (POSSENTI, 1988: 201-2, sem grifo no original) O mesmo lingüista explica esses pressupostos e adota uma posição mais radical em relação à de Pêcheux (1969), que, sobre o discurso, afirma: “não se trata necessariamente de uma transmissão de informação, mas geralmente de um “efeito de sentido”. Para Possenti, mesmo quando se veicula uma informação, há um “efeito de sentido” e, a fim de sustentar sua tese, retoma os atos de fala de Austin, com seus efeitos locucional, ilocucional e perlocucional (uma informação pode agradar, chocar, etc...). Segundo o autor, se entendemos a sintaxe como basicamente indeterminada, ou seja, que as várias possibilidades de construção de um enunciado são alternativas, seleções do locutor, enquanto sujeito situado em um espaço e em um tempo, com um ponto de vista, a noção de estilo como desvio pode ser abandonada e substituída pela noção de estilo enquanto escolha, adotada por Granger.(1968). Quanto à enunciação, concebida como um ato histórico e social, cabe considerar que qualquer enunciação supõe uma posição a partir da qual os enunciados/palavras recebem seu sentido. Isso implica uma memória discursiva, pois as formulações nascem do interdiscurso e não de um sujeito que apenas segue as regras de uma língua. Assim, as enunciações se inter-relacionam sempre com outras enunciações (POSSENTI, 2002:181). Maingueneau (2001), tratando do sentido do enunciado afirma: “considera-se, geralmente, que cada enunciado é portador de um sentido estável, a saber, aquele que lhe foi conferido pelo locutor. Esse mesmo sentido seria decifrado por um receptor que dispõe do mesmo código, que fala a mesma língua”. Assim o sentido estaria inscrito no enunciado e a compreensão dependeria do conhecimento do léxico e da gramática da língua. Aspectos extralingüísticos seriam irrelevantes, usados para desfazer as eventuais ambigüidades dos enunciados. Assumimos, com o autor, que a reflexão atual sobre a linguagem afastou-se dessa concepção da interpretação dos enunciados, pois “Compreender um enunciado não é somente referir-se a uma gramática e a um dicionário, é mobilizar saberes muito diversos, fazer hipóteses, raciocinar, construindo um contexto que não é um dado preestabelecido e estável.” (MAINGUENEAU,2001: 19-20). 2. Análise dos efeitos de sentido da palavra azul Assim como Carlos Drummond de Andrade que, ao confessar “Minas não há mais” (...), “Itabira é apenas um retrato na parede”, acabou inventando Minas Gerais, numa experiência poética construída justamente a partir desse sentimento de perda, é de um “Pantanal” que não existe mais, a não ser na sua lembrança, que Manoel de Barros, esse “encantador de palavras”, faz emergir com mais vida e maior força ainda, o seu legado poético: o Pantanal/linguagem, como contraponto ao Pantanal/paisagem: “obra Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 887-892, 2005. [ 888 / 892 ] exuberante de Deus” onde, afirma o poeta, “para encontrar o azul eu uso pássaros”, verso estampado, como título, na capa da antologia (1999), que será focalizada neste trabalho. Inicialmente, cabe lembrar que, na Parte II — “Biografia do Orvalho” — do livro “Retrato do Artista Quando Coisa” (2001, p. 57) Manoel de Barros cita os versos: “Para encontrar o azul eu uso pássaros/As letras fizeram-se para frases.”, que o poeta atribui a Machado de Assis. No sétimo verso do primeiro poema dessa parte (p. 59), abaixo transcrito, usa o mesmo verso inicial dessa citação: Deus disse: Vou ajeitar a você um dom Vou pertencer você para uma árvore. E pertenceu-me. Escuto o perfume dos rios. Sei que a voz das águas tem sotaque azul. Sei botar cílio nos silêncios. Para encontrar o azul eu uso pássaros. Só não desejo cair em sensatez. Não quero a boa razão das coisas. Quero o feitiço das palavras. (Sem grifos no original) No poema Pre-texto, o autor declara que aceitou o desafio de glosar a exuberância do Pantanal, para “...dar sentido literário aos pássaros, ao sol, às águas e aos seres”. Assim, considerando o título, o poema aponta, entre outros, para dois efeitos de sentido, ao mesmo tempo: 1) como um pré-texto, ou seja, uma espécie de prefácio a fim de apresentar ao leitor a antologia; 2) como uma advertência ao leitor, a fim de preveni-lo de que o Pantanal é apenas um pretexto para a realização de sua poética enquanto soma de recursos lingüísticos/estéticos de que se utiliza na produção de seu discurso. Pre-texto Que as minhas palavras não caiam de louvamentos à exuberância do Pantanal. Que eu não descambe para o adjetival. Que o meu texto seja amparado de Substantivos. Substantivos verbais. Quisera apenas dar sentido literário aos pássaros, ao sol, às águas e aos seres. Quisera humanizar de mim as paisagens. Mas por quê aceitei o desafio de glosar esta obra exuberante de Deus? Aceitei para botar em prova minha linguagem. Que eu possa cumprir esta tarefa sem que o meu texto seja engolido pelo cenário. Nesse poema metalingüístico, no qual Manoel de Barros explicita a sua “arte poética”, ou a sua “profissão de fé”, é possível reconhecer a posição, já várias vezes declarada pelo poeta: “Poesia para mim é linguagem, não paisagem”, “Dentro de mim Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 887-892, 2005. [ 889 / 892 ] existe um lastro que é o brejal. Misturo dicionários com o brejo, não faço nada mais que isso” (MENEZES, 1998: 2-3). Considerando tais declarações, é possível analisar um efeito de sentido da palavra azul, no verso: “Para encontrar o azul eu uso pássaros”, título da antologia. O fato de, para o poeta, o Pantanal não ser concebido como paisagem, mas como linguagem (poesia), e o azul, símbolo do Pantanal/paisagem, cor predominante no céu e nas águas da região, plena de pássaros, a palavra azul produz um efeito de sentido de Pantanal/poesia, e a palavra pássaros, o efeito de sentido de palavras, matéria-prima da poesia: “Mas pode uma palavra chegar à perfeição de se tornar um pássaro?/Antigamente podia./As letras aceitavam pássaros.” (BARROS, 1998b: 26). Tal análise se justifica se levarmos em conta o segundo verso da epígrafe que consta na Parte II — “Biografia do Orvalho” — do livro “Retrato do Artista Quando Coisa” (2001, p. 57): “Para encontrar o azul eu uso pássaros/As letras fizeram-se para frases.”, na qual a seqüência “para frases” pode ser interpretada também como “paráfrases”. Nesse contexto, com a linguagem, Manoel de Barros parafraseia/inventa a paisagem: “Só a alma atormentada pode trazer para a voz um/formato de pássaro./Arte não tem pensa:/O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê/ É preciso transver o mundo.” (BARROS, 1996: 75). Além do Pre-texto, uma espécie de prefácio poético, a antologia apresenta também uma dedicatória: Dedico este livro/ao Bernardo da Mata:/um ser cuja palavra/amplia o silêncio (p. 13). Esses versos produzem, como efeito de sentido, a identificação de Bernardo da Mata como um ser pertencente ao Pantanal/paisagem. Em seu Pantanal/linguagem, Manoel de Barros vai ampliar poeticamente a palavra de Bernardo da Mata: “Bernardo é o que eu queria ser” (MENEZES, 1998: 1). Desse modo, na perspectiva da linguagem como interação verbal — em que, segundo o teórico russo Bakhtin (apud BRANDÃO: 1994: 09), “a matéria lingüística é apenas uma parte do enunciado; existe também outra parte, não-verbal, que corresponde ao contexto da enunciação” — a obra de Manoel de Barros é o enunciado que evidencia uma relação visceral com o seu contexto de enunciação, produzindo efeitos de sentido, expressivamente sonoros, visuais, táteis, olfativos, gustativos entre outros. É a palavra que nasce, renasce e/ou desnasce, para mostrar o mundo, o chão, a vida. Nascimento da palavra: Teve a semente que atravessar panos podres, criames de insetos, couros, gravetos, pedras, ossarais de peixes, cacos de vidro etc. — antes de irromper.” (BARROS, 1998a: 11). Tal trabalho com a palavra, como não poderia deixar de ser, é um processo consciente pelo qual o poeta eleva ao grau máximo a sua perfórmance. A criação de possibilidades de efeitos de sentido sinestésicos é claramente explicitada no poema a seguir. VII No descomeço era o verbo Só depois é que veio o delírio do verbo O delírio do verbo estava no começo , lá onde Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 887-892, 2005. [ 890 / 892 ] A criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos. A criança não sabe que o verbo escutar não funciona Para cor, mas para som. Então se a criança muda a função de um verbo, ele Delira E pois Em poesia que é voz de poeta, que é voz de fazer nascimentos — O verbo tem que pegar delírio. (BARROS, 1998: 15) “O mundo meu é pequeno, Senhor./ (...) No fundo do quintal há um menino e suas latas maravilhosas/Seu olho exagera o azul.” (p.21). Nesses versos, um dos possíveis efeitos de sentido da palavra azul é a evocação de imagens da infância do poeta, desse “mundo pequeno”, ao qual o menino já contrapõe, “exagera o azul” do mundo, para além do Pantanal/paisagem. Da mesma forma, paralelamente, outro efeito de sentido também pode ser construído: o poeta exagera/amplia a poesia para além do Pantanal/linguagem. “Na fala dos passarinhos, há restumes/de sol/e de azul” (p. 33). O neologismo restume, substantivo formado pelo sufixo nominal –ume, que indica “coleção”, unido ao radical rest-, denota uma “coleção de restos”. Note-se que a combinação dos três versos “Na fala dos passarinhos há restumes/ de sol/ e de azul” produz efeitos de sentido sinestésicos pela superposição de imagens sonoras — fala dos passarinhos — e imagens visuais formadas por várias tonalidades/matizes (uma “coleção”) de restos, pequenas fagulhas de amarelo (sol) e de azul. “Estes vôos retiram novos acordes/do azul.” (p.35). A palavra vôos, metonímia de pássaros, como sujeito do verbo retirar (transitivo direto), associada ao complemento verbal novos acordes, possibilita a construção de um efeito de sentido que remete, por meio do Pantanal/linguagem, evocado pela palavra azul, às imagens sonoras e ao movimento/dinamismo de um Pantanal/paisagem. “Sobre o azul das águas/camalotes se deixam esculpir/em forma de borboletas.” (p. 49). Um primeiro efeito de sentido que se pode produzir é o de que o Pantanal/linguagem evoca, plasticamente, o Pantanal/paisagem: “Sobre o azul das águas”, dos corixos, das baías, das vazantes, dos rios, é possível visualizar e até perceber, no deslizar das águas, a ação, o movimento, os ruídos dos camalotes, tal como borboletas voejantes. Além das ocorrências da palavra azul analisadas, localizamos, em outras obras do poeta, cerca de quarenta, que, em razão dos limites deste trabalho, deixamos de apresentar. 3. Considerações finais Assim, pela análise das ocorrências da palavra azul, na antologia, podemos perceber que tal palavra, na maioria das vezes, não figurativiza apenas o visual, mas também produz efeitos de sentido que evocam, simultaneamente, imagens visuais, Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 887-892, 2005. [ 891 / 892 ] sonoras, táteis, olfativas e gustativas, sugerindo um efeito de sentido de deslocamento de cenas de um Pantanal/paisagem, que faz parte suas memórias de infância, da sua primeira visão das coisas, para um Pantanal/linguagem, que é a sua forma de recriá-lo, praticando poesia A amostra analisada traduz, em linguagem metafórica, a aspiração do poeta (cf. Pre-Texto): o sentimento declarado de que, além do Pantanal/paisagem, “obra exuberante de Deus” que aceitou glosar, existe nele um outro, o “Pantanal/linguagem”, o interior, o da infância, o palmilhado ao longo dos anos, a ser descoberto, a ser navegado por dentro e transfeito em palavras. Assim, a obra de Manoel de Barros estabelece suas próprias regras, “reinventando-as constantemente, compondo ao longo de seus livros uma teia de pontos ora em relevo, ora recorrentes, ora em branco, que revelam a desconstrução/desrealização do “mundo objetivo”, ora o seu avesso.” (MENEGAZZO, 1998: 15). Na poética manoelina, palavras comuns, pela combinação inusitada com outras palavras comuns, com novas palavras e, até mesmo, com “despalavras” sugerem ao leitor múltiplos “efeitos de sentido”: um concerto de sons vegetais, sons de chão, de vento, de raízes e rios, de passarinhos, de gente. Essa orquestração de “vozes”, incluindo as de sua infância, situa-se em um contexto maior— no qual o canto dos pássaros se funde com imagens olfativas, táteis, visuais, destacando-se os tons/matizes do azul ou do Pantanal/linguagem, para o poeta e para o leitor, desde que exista uma “identificção” entre eles. 2 4.Referências BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996. _____ O guardador de águas. 2. ed. . Rio de Janeiro: Record, 1998a. _____ Concerto a céu aberto para solo de ave. 3 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998b. _____ Para encontrar o azul eu uso pássaros. Campo Grande, MS: Saber Sampaio Barros Editora Ltda, 1999a. _____ Poemas concebidos sem pecado. 3. ed.. Rio de Janeiro: Record, 1999b. _____ Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record, 2001a. _____ O livro das ignorãças. 10. ed., Rio de Janeiro: Record, 2001b. BRANDÃO, Helena H. N. Introdução à análise do discurso. 3. ed.. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1994. MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001. MENEZES, Cynara. O artista quando coisa. Disponível em: <http://www.secrel.com.br/jpoesia/1cynara.html> Acesso em <13 nov. 2002>. POSSENTI, Sírio. Discurso, estilo e subjetividade. São Paulo: Martins Fontes, 1988. _____ Sobre a leitura: o que diz a análise do discurso?. In: MARINHO, Marildes (Org.). Ler e navegar – espaços e percursos da leitura. Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil – ALB, 2001. Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 887-892, 2005. [ 892 / 892 ]