PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Tiago Lopes de Oliveira A situação atual do trabalho juvenil: a juventude e as exigências sociais para o seu ingresso no mercado de trabalho MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL SÃO PAULO 2008 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Tiago Lopes de Oliveira A situação atual do trabalho juvenil: a juventude e as exigências sociais para o seu ingresso no mercado de trabalho MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE em Psicologia Social, sob a orientação do Prof. Dr. Odair Sass. SÃO PAULO 2008 Banca Examinadora ______________________________________ ______________________________________ ______________________________________ RESUMO O presente trabalho pretende contribuir para um processo de reflexão sobre a atual situação da inserção dos jovens no mercado de trabalho e tem como objetivo analisar as exigências sociais desse processo, em especial, o que diz respeito às possibilidades de formação e resistência aos mecanismos de controle social. O estudo foi fundamentado na descrição da situação na qual ocorre a inserção do jovem no mercado de trabalho e na discussão sobre o significado do trabalho na atualidade, contendo também a análise de um programa de inserção de jovens no mercado de trabalho, o CIEE – Centro de Integração Empresa Escola. Com o propósito de levantar dados sobre o objeto deste estudo foram colhidas informações em documentos legais, pesquisas estatísticas e concepções teóricas de autores nacionais e internacionais. Também foi elaborado um questionário que foi respondido por um profissional do CIEE com o intuito de conhecermos melhor o funcionamento de um programa de inserção de jovens no mercado de trabalho e a sua influência para os jovens. Para fundamentarmos as análises, privilegiamos principalmente os conceitos de trabalho, desenvolvidos por Marx e Marcuse, e os conceitos de sociedade industrial, formação e ideologia apresentados pelos autores da teoria crítica, Adorno, Horkheimer e Marcuse. Na atual sociedade capitalista observamos que o ingresso do jovem no mercado de trabalho atende mais aos interesses do mercado e não contribui para o desenvolvimento do sujeito. Constatamos que os motivos que levam o jovem ao trabalho estão relacionados à necessidade de ganhar dinheiro e adquirir experiência profissional para poder conseguir um trabalho futuro. Com relação à influência da inserção no mercado de trabalho na vida dos jovens evidenciamos que o jovem trabalhador também está sujeito às implicações e exigências do mercado de produção capitalista onde o trabalho é utilizado como mecanismo de controle social. Por fim, concluímos que no trabalho, os jovens aprendem um modelo de comportamento que não favorece o desenvolvimento de atitudes de pensamento autônomo, mas sim os moldam para atender aos interesses das corporações. Palavras-chave: trabalho juvenil, juventude, formação, Teoria Crítica. ABSTRACT The present research is focused on contributing to the process of reflection regarding contemporary means of inclusion of youngsters in the labor market, having as its objective the analyses of the influence of such means of inclusion in the life of youngsters in general, especially with regard to their possibilities of development and resistance to the social control mechanisms. The study is based on the description of the means by which the insertion of youngsters in the labor market occurs, as well as on the discussion over the meaning of labor itself nowadays, containing furthermore an analyses of a program of insertion of youngsters in the labor market, known as the School Company Integration Center - SCIC. In order to raise data related to the object of this study, information has been collected from legal documents, statistic researches and theoretical concepts of both national and international authors. An enquiry has also been elaborated and then answered by an SCIC officer, in order to allow us to have a deeper understanding on how such program of insertion of youngsters in the labor market works and how is influences the life of youngsters in general. In order to base the analyzes brought by this research, we have privileged principally the concepts of work developed by Marx and Marcuse, as well as the concepts of industrial society, formation and ideology exposed by Adorno, Horkheimer e Marcuse, all authors of the Criticism Theory. We have learned that in the capitalist society of nowadays the inclusion of youngsters in the labor market serves directly the interests and objectives of the market and its players, not contributing to the development of the individual itself. Moreover, we have realized that the motives that lead youngsters to the labor market are utterly the necessity of making a living and gaining professional experience for future jobs/functions. Regarding how the inclusion in the labor market influences youngsters, its is important to emphasize that the juvenile worker is also subject to the implications and demands imposed by the market of capitalist production, in which the work is a social control mechanism. In conclusion, we have understood that the work leads youngsters to learn and adapt to a model of behavior that does not favor the development of attitudes of standalone thinking, serving in fact the interests of corporations. Key Words: juvenile work, youngsters, development, Critical Theory. Dedico às pessoas mais importantes da minha vida: Paulo, Regina e Sabrina. AGRADECIMENTOS A Capes pelo financiamento que possibilitou levar adiante esta pesquisa. Ao Prof. Odair Sass, pela paciência, sabedoria e dedicação dispensadas durante todas as orientações. Ao Prof. Dr. Jose Leon Crochik que também orientou essa pesquisa durante um tempo e a enriqueceu com suas contribuições sempre sábias e incentivadoras. A Prof. Dra. Jacqueline Brigagão, a quem eu estimo muito, pelo incentivo e ajuda que foram determinantes na minha escolha em iniciar o Mestrado. Aos professores do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social, pelos ensinamentos que contribuíram para a minha formação. A Marlene, pela simpatia e gentileza com que sempre ajuda a todos que precisam resolver algum problema. Aos meus colegas de turma da Psicologia Social, em especial: Aluisio, Geison, Renato, Netto, Nadir; espero ter oportunidade de reencontrá-los. Aos colegas do Núcleo Psicologia e Tecnologia, pelas discussões sempre enriquecedoras. A Letícia, pelas horas de saudades e por ser uma das pessoas mais importantes da minha vida, a quem eu também dedico esse trabalho. Aproveito para agradecer a Vera e Hilda pelo incentivo e pelas boas conversas. Aos amigos Daniel, Rafael, Caio Rocha, Paulo, Trude, Pablo, Caio, Lalo, Nuno, Ricardo, Rick, Denis, Sé e Lula, pelo companheirismo e por tudo aquilo que aprendo com vocês a cada dia. Ao Diego, Dimitri e Natasha, que mesmo morando longe, estão sempre presentes em meu coração. A amiga Lívia que sempre está ao meu lado, desde a época do colégio até hoje. Aos meus pais e a minha irmã, pelo incentivo e também por serem sempre tão atenciosos e cuidadosos comigo. Sumário Introdução ...................................................................................... 11 Problema de Pesquisa, objetivos e hipótese ................................. 20 1. Trabalho na sociedade industrial ............................................... 23 2. Situação do trabalho juvenil ....................................................... 52 3. O CIEE – Centro de Integração Empresa Escola .......................74 Considerações Finais ..................................................................... 90 Referências Bibliográficas .............................................................. 95 Anexo – Questionário enviado ao CIEE ......................................... 99 Lista de Tabelas e Quadros Quadro I – Mapa Laboral de Jovens da América Latina e Caribe ............... 43 Tabela 1 – Jovens que trabalhavam no Brasil em 2003 e 2006 .................. 63 Tabela 2 – Jovens ocupados e desempregados em São Paulo .................. 64 Lista de Siglas CIEE – Centro de Integração Empresa Escola CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas CNPJ – Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica FES – Fundação Friedrich Ebert IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ONG – Organização Não-Governamental PEA – População Economicamente Ativa PIB – Produto Interno Bruto PME – Pesquisa Mensal de Emprego PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio SERT – Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho 11 Introdução Durante o ano de 2003, trabalhei em um Programa Social do Governo do Estado de São Paulo, denominado “Programa Jovem Cidadão – Meu Primeiro Trabalho”, cujo objetivo é o de oferecer ao estudante a oportunidade de se inserir no mercado de trabalho, por meio de estágio remunerado. Tal programa é resultado de uma parceria entre Governo e empresas da iniciativa privada ou entidades sem fins lucrativos. O estágio oferecido deve proporcionar ao estudante experiências das relações do mercado de trabalho, de modo que ele possa, por meio do aprendizado, adquirir habilidades específicas e agregar novos valores à sua formação. Trata-se, segundo a Secretaria de Empregos e Relações do Trabalho (SERT), de um estágio sem vínculo empregatício, sem estabilidade de qualquer natureza e que tem por objetivo constituir-se na grande oportunidade dos jovens em São Paulo conhecerem o mercado de trabalho1. Quanto à duração do contrato do estágio e dos benefícios, o Programa Jovem Cidadão, prevê que o estágio tenha duração de 6 (seis) meses, com jornadas de 4 (quatro), 5 (cinco) e 6 (seis) horas diárias, durante 5 (cinco) dias por semana. A remuneração, que varia de R$ 130,00 a R$ 195,00 reais, é somada ao fornecimento de vale-transporte e a um seguro de vida e de acidentes pessoais. Em relação aos gastos, o Governo do Estado de São Paulo arca com metade do valor da bolsa-auxílio, com o seguro, a pré-seleção dos estagiários e com o gerenciamento do Programa, enquanto a empresa concedente do estágio fica responsável pelo restante da bolsa e pelo vale-transporte. 1 Fonte: SERT – Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho do Governo do Estado de São Paulo. 12 Os critérios de participação das empresas prevêem que toda empresa que esteja cadastrada no CNPJ – Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – poderá participar do Programa, abrindo vagas para oferecer estágio aos estudantes. O limite de contratação dos estagiários é estabelecido segundo o tamanho das empresas e de acordo com número de funcionários. Empresas com até 40 funcionários, podem contratar até 2 estagiários; empresas entre 41 e 80 funcionários têm limite de contratação fixado em 4 estagiários; enquanto que as empresas com mais de 80 funcionários podem contratar até 5% de estagiários sobre o número de funcionários da empresa; já empresas sem fins lucrativos podem contratar até 20% sobre o número de funcionários. Os critérios para a participação dos jovens estudantes no programa Jovem Cidadão constituem-se nos seguintes pré-requisitos: não estar trabalhando e nunca ter trabalhado com carteira assinada; ter idade entre 16 e 21 anos; estar matriculado e estar freqüentando curso de ensino médio em instituição de ensino público estadual. O estudante interessado na bolsa-estágio que preencher esses pré-requisitos deve se inscrever na sua própria escola. Para cada vaga são encaminhados três estudantes, deixando a escolha a critério da empresa. A ordem de encaminhamento às vagas oferecidas pelas empresas conta com critérios estabelecidos pela normatização do Programa, a saber: nunca ter trabalhado, ter a maior idade, maior escolaridade, maior vulnerabilidade familiar e possuir facilidade de acesso à empresa que oferecer vaga compatível com uma das opções de atividades escolhidas pelo candidato2. 2 Fonte: SERT – Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho do Governo do Estado de São Paulo. 13 Enquanto atuei junto a esse programa, trabalhei na área de Acompanhamento de Estágio. O meu trabalho consistia em verificar se o estágio desenvolvido pelo jovem estava de acordo com o que foi prometido pela empresa que o contratou. Antes de receberem os estagiários enviados pelo programa Jovem Cidadão, as empresas tinham que enviar um plano de estágio do qual constasse as atividades que seriam desenvolvidas pelos jovens. Tais atividades deveriam estar adequadas às normas do programa, as quais não permitiam trabalhos realizados na rua (office-boy, entregadores, etc.) nem a participação dos jovens em linhas de produção industriais. Entendia-se que tais atividades colocariam o jovem em situação de risco. Porém, é importante destacar que, em meus últimos dias de trabalho, no referido programa, tomei conhecimento de que o governo, preocupado em aumentar a quantidade de vagas oferecidas pelo programa, iria revogar tais restrições. Como integrante do setor de acompanhamento de estágio, posicionei-me contra tal revogação, a qual considerava mais relevante a quantidade de vagas em detrimento da qualidade dos postos de serviços oferecidos aos jovens. Relatei à coordenação do Programa que, à época, mesmo sendo prática proibida, uma indústria metalúrgica não cumpriu o seu plano de estágio e empregou um jovem na sua linha de produção; em um acidente, o jovem perdeu um dedo da mão, ao manipular o maquinário. O acompanhamento do estágio do Programa Jovem Cidadão visava observar os impactos e efeitos nos jovens, ocasionados pela experiência de trabalhar, e era realizado de três maneiras: 1ª.) junto às empresas, por meio de questionários enviados pelo programa, por correio, e que, depois de respondidos pelos profissionais responsáveis pelo jovem estagiário, eram encaminhados 14 novamente ao programa, para que fossem analisados pelo setor responsável; 2ª.) com os jovens estagiários, que, por meio do auxílio das diretorias de ensino das suas escolas, também recebiam questionários que eram respondidos e reenviados ao programa, para também serem analisados; 3ª.) a escola em que o jovem estagiário estudava também recebia um questionário, que, depois de respondido pelo diretor, era reenviado ao programa com o objetivo de verificar a freqüência escolar do jovem. Ao longo do período em que ali permaneci, foi possível constatar que os jovens, principalmente aqueles que vêm de família com baixo rendimento econômico, buscam cada vez mais cedo uma inserção no mercado de trabalho. Contudo, o que encontram são dificuldades decorrentes da grande concorrência pelos postos de trabalho que lhes são colocados à disposição pelas empresas participantes do programa. Muitas questões vinham-me à mente, fazendo-me pensar sobre o porquê, atualmente, um jovem quer tanto trabalhar: seria opção ou necessidade? Qual a influência do trabalho na vida do jovem? Dessas interrogações, interessa, aqui, investigar, especificamente, a atual situação da inserção dos jovens no mercado de trabalho – aspectos sociais, econômicos e políticos – Quais são as condições e exigências sociais enfrentadas pela juventude ao ingressar no mercado de trabalho, principalmente no que diz respeito às possibilidades de formação e resistência aos mecanismos de controle social impostos pela sociedade hodierna. Apesar de extensas discussões sobre o termo “juventude”, que ampliam a sua definição para além do critério da faixa etária ou classe de idade (cf. Groppo, 2000; Frota, 2001), é importante enfatizar que nesta pesquisa foi adotada como 15 referência a classificação da Organização das Nações Unidas, que leva em conta o ciclo vital e distribui os jovens em dois grupos distintos quanto à condição, motivação, necessidade e expectativa no mercado de trabalho, a saber: grupo 1) entre 15 e 19 anos; e grupo 2) entre 20 e 24 anos. Esta pesquisa pretende investigar a influência da inserção no mercado de trabalho na vida dos jovens de ambas as faixas etárias. Esta escolha foi adotada por opção do pesquisador que, por sua experiência profissional em um programa de inserção de jovens no mercado de trabalho e, também, por meio do que já constatou com base no levantamento bibliográfico realizado sobre o tema, não identificou diferenças entre os motivos e as condições que levam os jovens, tanto os do grupo 1 quanto os do grupo 2, ao mercado de trabalho. Assim, pretendeuse focalizar a análise em ambos os grupos. Enquanto trabalhei no Programa Jovem Cidadão, foi possível observar a “vontade” que os jovens tinham de conseguir um trabalho. Outro fator importante, por mim evidenciado, era a “vontade”, tão grande, ou até maior, que as empresas também demonstravam em conseguir um jovem estagiário. Diante dessa situação, é possível questionarmos quem é o verdadeiro favorecido com a inclusão dos jovens no mercado de trabalho. Como eu trabalhava no setor de acompanhamento de estágio, constantemente entrava em contato com os jovens e com as escolas em que estudavam. Adquiri a impressão de que a escola passou a ter importância para os jovens, somente na medida em que era prérequisito para que pudessem trabalhar. A escola também parecia que só se importava com os jovens na medida em que ela funcionava como caminho para a vida profissional. Se a escola forma os indivíduos, não mais preocupada com o desenvolvimento pessoal destes, mas, sim, empenhada em ajustá-los às 16 exigências do capital, passa a favorecer a adaptação social em detrimento da formação escolar. O que dizer, então, do trabalho? Em especial do trabalho dos jovens, que é visto como complemento da formação escolar? Se a formação escolar está à mercê dos interesses do capital, estará também o trabalho juvenil voltado nessa direção? Se sim, qual a sua influência para a vida do jovem? Kober (2004) pondera que, no Brasil, fortaleceu-se nos indivíduos uma idéia de que a educação está relacionada aos valores de mercado e não ao conhecimento e à possibilidade de emancipação. Segundo a autora, muitos currículos escolares passaram a ser influenciados pelas demandas das empresas em relação à força de trabalho. Kuenzer (2001) menciona que a escola tem servido de instância de seleção prévia para escolher os mais adequados às finalidades do processo produtivo. Para a autora: Já é constatação corrente entre os pesquisadores da área Trabalho e Educação que esta etapa do desenvolvimento capitalista marcada pela reestruturação produtiva determina uma nova proposta pedagógica de educação dos trabalhadores, que articula as capacidades de agir intelectualmente e pensar produtivamente (Kuenzer, 2001, p. 73). De acordo com Pochmann (2006), nos países ricos, observa-se atualmente apenas uma presença residual de pessoas de 15 a 24 anos de idade no mercado de trabalho. Nos países desenvolvidos, para cada dez jovens, somente um é ativo (trabalha ou procura trabalho), enquanto que, no Brasil, a presença de jovens no mercado de trabalho é muito maior, chegando a sete ativos para cada dez sujeitos com idade entre 15 e 24 anos. Segundo a OIT (2007), na América Latina existem diversos mecanismos que têm como objetivo estimular a demanda do trabalho juvenil, por meio da criação de instrumentos legais, que são utilizados, 17 especialmente quando existe a percepção de que os jovens enfrentam certos tipos de restrição para ingressarem no mercado de trabalho. Dentre esses mecanismos, três merecem destaque: 1) Contratos de aprendizagem e formação - na maioria dos países latino-americanos há contratos cujo objetivo final é facilitar a contratação dos jovens por parte das empresas que, de outro modo, não os contratariam, ao mesmo tempo que visam facilitar o acesso do jovem à formação do trabalho. Um exemplo desse tipo de contrato é o mecanismo que prevê a contratação de estagiários ou aprendizes pela empresa, para um certo número de funcionários contratados, ou, caso contrário, deverá pagar uma contribuição a uma Instituição de Formação Profissional; 2) Leis de Primeiro Emprego – criadas com base na idéia comum de que, ao financiar parte do custo da contratação dos jovens, poder-se-ia aumentar o número de pessoas contratadas pelas empresas para o primeiro emprego. Neste caso, na maioria das vezes, o incentivo é fornecido pelo Estado, diretamente aos jovens, por meio de bolsa-auxílio, ou às empresas, por intermédio de incentivos fiscais; 3) Regulamentações salariais – uma vez que as pesquisas indicam que os jovens ganham em média 56% menos que os adultos, teoricamente a existência de um salário mínimo a ser pago ao jovem trabalhador poderia desestimular sua contratação. Por outro lado, analisa-se o fato de que salários menores estimulam a contratação de jovens (OIT, 2007). As políticas de estado para os jovens são realizadas por meio de programas. A OIT (2007) destaca que as experiências mostram que os programas podem ter sucesso por um determinado tempo, mas para solucionar os problemas do trabalho juvenil, a fundo, é preciso modificar as estruturas que causam esses problemas e que geram a necessidade da criação desses programas. Sobre esse 18 assunto, Frigotto (2006) também argumenta que, sem atacar as mudanças estruturais, resta somente a possibilidade da adoção de políticas de inserção social, que atacam o problema por seus efeitos e não por suas causas. Para o autor, tais medidas são contraditórias, pois se apresentam emergencialmente necessárias, ao mesmo tempo em que são insuficientes. Em países pobres, os motivos que levam o jovem a inserir-se no mercado de trabalho estão associados às necessidades de sobrevivência, ao exercício da cidadania e à formação profissional. A necessidade de se conseguir dinheiro, certamente, é um importante fator que impulsiona os jovens para o mercado de trabalho. No entanto, não é só pela necessidade material que o jovem busca trabalho. Conforme o pensamento de Mesquita (2006), outra razão que leva os jovens, principalmente os das classes média e baixa, ao mercado de trabalho é o fato de o trabalho gerar uma imagem de que eles são – para usarmos uma expressão da gíria do jovem – “do bem” e não realizam ações criminosas. A obrigação de trabalhar é vista como algo digno, ou seja, considerado correto pela sociedade. Assim, faz-se necessário que a pesquisa sobre a atual situação da inserção de jovens no mercado de trabalho leve em conta, não só as demandas de mercado, mas também as necessidades desses jovens. A revisão bibliográfica relativa ao tema permitiu acessar diversos estudos pertinentes. Primeiramente, foi realizado levantamento de: a) artigos científicos, teses e dissertações, com destaque para Cruz Neto & Moreira (1998), Meneses (2007), Freire (2003) e Mesquita (2006); b) pesquisas estatísticas – Censo Demográfico, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) e Pesquisa Mensal de Emprego (PME), todas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia 19 e Estatística (IBGE); além da Pesquisa de Emprego e Desemprego da Fundação Seade/Dieese; c) relatórios de organizações políticas internacionais com destaque para o relatório “Trabajo Decente e Juventud”, da Organização Internacional do Trabalho (OIT); além do estudo “Informalidade: Saída e Exclusão”, do Banco Mundial, e do caderno “Desemprego Juvenil no Cone Sul: uma análise de década”, da Fundação Friedrich Ebert (FES). Com base nesse material analisado, foi possível identificar, por meio do número de citações, um autor principal para a discussão sobre o trabalho juvenil, Pochmann (2002, 2006). O referencial teórico que orienta esta pesquisa é o da teoria crítica. Procurou-se, em especial, privilegiar os conceitos de trabalho – Marx (1987, 2004), Marcuse (1968, 1969, 1998); sociedade industrial – Horkheimer e Adorno (1985), Adorno (1986), Marcuse (1969); formação – Horkheimer e Adorno (1973, 1985), Adorno (1996); e ideologia – Adorno (1996), Horkheimer e Adorno (1973). No primeiro tópico da pesquisa, discutimos o significado do trabalho na atualidade, sua função na sociedade e sua influência para os sujeitos. Em seguida apresentamos a situação da inserção dos jovens no mercado de trabalho, suas características e determinações. Por fim, realizamos a análise de um programa de inserção de jovens no mercado de trabalho, com base em informações obtidas por meio de um questionário que foi respondido por um representante do CIEE – Centro de Integração Empresa Escola. 20 Problema de pesquisa, objetivos e hipótese Na atualidade, no Brasil, tem aumentado o número de jovens que tentam se inserir no mercado de trabalho (cf. Tabela 1). Além de sua proporção numérica, a inserção dos jovens no mercado de trabalho merece atenção por enfrentar contradições entre o incentivo e a necessidade do jovem trabalhar, de um lado, e os obstáculos e restrições a ele impostas, de outro lado. Dessa forma, faz-se do trabalho juvenil objeto de estudo desta pesquisa, com o objetivo de analisar a situação atual da inserção de jovens no mercado de trabalho, em especial as condições e exigências sociais implicadas nesse processo. Para a consecução da pesquisa foram estabelecidas as seguintes etapas: 1. Discutir o significado do trabalho na atualidade, sua influência sobre os sujeitos e sua relação com os mecanismos de controle social da sociedade capitalista. Para cumprir esta etapa foram: a) apresentados os pensamentos de autores que são referência para a discussão da temática do trabalho; b) apresentadas as discussões que explicam a forma como a sociedade está organizada e o papel do trabalho nessa organização; c) discutidas as influências do trabalho na vida dos sujeitos, a sua relação com a formação dos indivíduos e o seu conteúdo ideológico. 2. Descrever a situação na qual ocorre a inserção do jovem no mercado de trabalho. Para cumprir essa etapa da pesquisa, privilegiaram-se como referências as informações colhidas nas seguintes fontes: a) documentos legais, privilegiadamente as leis que subsidiam o trabalho 21 juvenil no Brasil, a fim de obter informações exatas sobre o trabalho juvenil, entender e discutir os requisitos que o delimitam; b) dados de pesquisas estatísticas, com o propósito de ilustrar a dimensão do trabalho juvenil; c) concepções teóricas de autores nacionais e internacionais que contribuem para o entendimento dos aspectos psicológicos e sociais implicados no processo de inserção de jovens no mercado de trabalho. 3. Nessa parte da pesquisa foi realizada uma análise de um programa de inserção de jovens no mercado de trabalho, com o objetivo de obter mais informações sobre o impacto da inserção no mercado de trabalho na vida dos jovens. O Programa escolhido foi o CIEE – Centro de Integração Empresa-Escola – que é o maior órgão de inserção de jovens no mercado de trabalho do Brasil e é referência para outros programas. O Programa Jovem Cidadão, no qual eu trabalhei, foi criado a partir do modelo de funcionamento do CIEE, que já existe há mais de 40 anos. A análise foi realizada a partir das informações obtidas por meio de um questionário respondido pela assessoria de imprensa do CIEE. O objetivo era colher informações que a entidade possui sobre o mercado de trabalho juvenil e sua influência na vida dos jovens. Desde o início da forma capitalista das relações de produção, o trabalho juvenil é marcado por sua informalidade, não qualificação e utilização essencialmente como modo de dominação e exploração social. O presente estudo pretende evidenciar a hipótese de que a inserção do jovem no mercado de trabalho visa atender predominantemente: a) às necessidades imediatas do jovem 22 – receber salário para poder ajudar a família, aprimorar-se profissionalmente e adaptar-se socialmente; b) às exigências da produtividade capitalista. Isso significa dizer que o trabalho promove mais a adaptação social do que a formação autônoma dos jovens. 23 1. Trabalho na sociedade industrial Para investigar a inserção do jovem no mercado de trabalho, é importante considerarmos os fatores sociais, econômicos e políticos implicados no funcionamento da sociedade e na formação de indivíduos. O trabalho é um desses importantes fatores e exerce grande influência na vida das pessoas. O modo como o trabalho se organiza e o fim a ele destinado são características essenciais para estudarmos essa influência. Por isso, neste tópico discute-se especialmente o significado do trabalho na sociedade e sua influência na vida do homem. Na Grécia e na Roma antigas, os poetas e filósofos viam o trabalho como castigo de escravos e desonra que caía sobre homens pobres. Nas línguas dessas duas sociedades, não existia a palavra “trabalho”. Vendo-o como a degradação do homem livre, os filósofos da Antigüidade ensinavam o desprezo pelo trabalho. A palavra latina que dá origem ao nosso vocábulo “trabalho” é tripalium, instrumento de tortura para empalar escravos rebeldes; há também a palavra labor, que significa esforço penoso, sofrimento, fadiga. No Discurso da Servidão Voluntária, cuja primeira edição data de 1577, La Boétie (1982) discute o modo como os homens se colocam à disposição de certas pessoas e faz referência ao “extremo infortúnio” que é estar sujeito a um senhor, o qual “nunca se pode se certificar que seja bom, pois sempre está em seu poderio ser mau quando quiser” (La Boétie, 1982, p. 11). O autor mostra indignação ao constatar que milhares de homens trabalham em favor de certos sujeitos, não mais obrigados por uma força maior, como na escravidão, mas, sim, por vontade própria, de algum modo encantados e enfeitiçados. La Boétie (1982) 24 questiona de onde vem essa obstinada vontade de servir (trabalhar para outra pessoa), que faz com que o amor pela liberdade deixe de ser natural. Segundo o autor, para que os homens deixem-se sujeitar, é preciso que sejam forçados ou iludidos. Lafargue (2003), por sua vez, menciona que no século XIX, o trabalhador deixou-se perverter pelo dogma do trabalho. Para ele, todas as misérias individuais e sociais nasceram da paixão pelo trabalho, e o século do trabalho é, na verdade, o século da dor, da miséria e da corrupção. De acordo com o autor, quanto mais trabalham, mais os trabalhadores se tornam pobres, o que os fazem terem mais um motivo para trabalhar ainda mais. “Um cidadão que dá seu trabalho em troca de dinheiro, degrada-se ao nível dos escravos, comete um crime” (Lafargue, 2003, p. 83). Das idéias acima até a atualidade, o trabalho sofreu diversas mudanças, que vão desde a maneira como ele é realizado e a forma com que se organiza, até o seu significado e influência que exerce sobre o homem. Recorrendo à antropologia e às idéias de Darwin3, Engels (1939) expõe que, nos primórdios da vida na Terra, existiu um tipo de primata que, devido a certas condições, passou a não mais viver pendurado em árvores. Uma vez vivendo no solo, esses primatas não precisavam mais das mãos para se locomover, pois vivendo no chão, passaram a adotar uma postura ereta do corpo, locomovendo-se apenas com os membros inferiores, deixando a mão livre para exercerem outras atividades, condição que foi “o passo decisivo da transição do macaco para o homem” (Engels, 1939, p. 215). Livre da tarefa de locomoção, a mão humana pôde-se dedicar cada vez mais a outras tarefas, e foram essas 3 Charles Darwin (1809-1882), autor de A origem das espécies (1859). 25 diferentes tarefas que fizeram com que ela se aperfeiçoasse e se transformasse nesse poderoso instrumento de trabalho. O autor defende a tese de que “a mão não é apenas órgão do trabalho: é também um produto deste” (Engels, 1939, p. 217). Assim, foi a partir do trabalho, por sua adaptação a manipulações sempre novas, que a mão se desenvolveu. Contudo, não foi só a mão a beneficiada pela atividade do trabalho. A mão é, segundo Engels, somente uma parte de um organismo altamente complicado que também se desenvolveu a partir do trabalho. Dessa mesma forma, podemos pensar que, em conseqüência da atividade do trabalho4, não só as mãos se desenvolveram, mas também outras partes do corpo humano o fizeram, como o cérebro, por exemplo. Além disso, foi o aperfeiçoamento do próprio trabalho que levou à aproximação dos membros da sociedade que, cada vez mais, se envolviam em casos de ajuda mútua e de ação em comum. Para isso, no entanto, os homens precisaram desenvolver uma comunicação eficiente, o que forçou o surgimento da linguagem. Assim, pode-se evidenciar a relação entre trabalho e desenvolvimento humano. Essa tese de Engels, que atribui ao trabalho a invenção do homem, é considerada polêmica, porém, nesta pesquisa, serve para chamar a atenção à intensidade da relação entre o trabalho e o homem. A relação do homem com o trabalho, evidenciada por Engels, também é enfatizada por Marx (2004), que admite o trabalho como uma atividade vital do homem, responsável pela diferença entre este e os animais. A diferença decorre da maneira como cada um – homem e animal – se comporta frente à atividade vital. Enquanto os animais transformam, modificam e interferem na natureza, 4 Nesse texto de Engels (cujo original data de 1876), as atividades de trabalho são aquelas nas quais o homem interfere e modifica a natureza objetivamente, pondo-a a serviço de seus fins determinados. 26 apenas sob o domínio da carência física imediata, o homem o faz conscientemente, apreendendo a natureza como objeto de sua vontade. Para Marx (2004), o homem exerce sua atividade vital com consciência e não apenas transforma o material o qual opera, mas imprime no objeto o projeto que tinha conscientemente em mira. Segundo o autor: O animal é imediatamente um com a sua atividade vital. Não se distingue dela. É ela. O homem faz da sua atividade vital mesma um objeto da sua vontade e da sua consciência. Ele tem atividade vital consciente. Esta [atividade vital] não é uma determinidade com a qual ele coincide imediatamente. A atividade vital consciente distingue o homem imediatamente da atividade vital animal (Marx, 2004, p. 85). Marcuse (1998) assevera que o trabalho é a práxis específica da existência humana no mundo e destaca que o fazer do trabalho caracteriza-se por três momentos, a saber: por sua continuidade essencial, por sua permanência essencial e por seu essencial caráter penoso. A continuidade, a permanência e o fardo, segundo Marcuse (1998), caracterizam o fazer humano que se expressa nos processos de trabalho. “A continuidade do trabalho significa que a tarefa conferida à existência humana pelo trabalho nunca pode ser realizada em um processo de trabalho singular ou em vários deles. É preciso um contínuo estartrabalhando” (Marcuse, 1998, p. 17). O homem não pode viver sem trabalhar. O caráter de permanência, atribuído ao trabalho por Marcuse (1998), refere-se ao fato de que do trabalho deve resultar algo que perdure além do processo de trabalho singular e que pertença a um acontecer geral. De acordo com o autor: O trabalho término do outros, ou produzir e deverá constituir algo que permanece, que inclusive, após o processo de trabalho singular ainda está lá e está lá para os então deve conferir permanência ao próprio trabalhador: conservar para ele uma posição no seu mundo – Esta 27 característica do trabalho foi tratada na história do tema sob o título de “objetivação” (Marcuse, 1998, p. 18). Concluindo seu pensamento, Marcuse (1998) expõe que o caráter penoso do trabalho não está submetido a determinadas condições na execução do trabalho, ou à configuração técnico-social do trabalho, ou até mesmo a sentimentos de desagrado que poderiam ser contidos mediante tratamento psicológico. O autor menciona que: (...) anteriormente a qualquer ônus representado pelo modo de trabalho e pela constituição do trabalho, o trabalho como tal existe como pena, na medida em que subordina o fazer humano a uma lei alheia, imposta: a lei da coisa (Sache) que é preciso fazer. No trabalho, a prioridade é sempre a própria coisa, e não o trabalhador, inclusive quando ainda não ocorreu uma separação total entre trabalho e produto do trabalho (Marcuse, 1998, p. 18). A partir das idéias de Marcuse (1998), Engels (1939) e Marx (2004), é possível percebermos que o trabalho se encontra enraizado no curso da própria existência humana e não se restringe a um fenômeno de dimensão econômica. A dimensão filosófica do trabalho enfatiza a influência que o trabalho exerce na vida das pessoas e evidencia a relação entre ele e o desenvolvimento humano. A partir da visão filosófica do trabalho, discutiremos a seguir o significado histórico do trabalho, mais precisamente o seu significado e a sua função na sociedade capitalista. De acordo com Marx (2004), “o trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na medida em que produz, de fato, mercadorias em geral” (Marx, 2004, p. 80). É no trabalho e no produto de seu trabalho que o homem se reconhece. “O produto do trabalho é o trabalho que se fixou em um objeto, fez-se ‘coisal’ (sachlich), é a objetivação do trabalho; e a efetivação do trabalho é a sua objetivação” (Marx, 2004, p. 80). 28 Porém, o autor aponta que no capitalismo ocorre uma modificação e “a efetivação do trabalho aparece como desefetivação do trabalhador, a objetivação como perda do objeto e servidão ao objeto, a apropriação como estranhamento, como alienação” (Marx, 2004, p. 80). Essa modificação decorre do fato de o produto do trabalho, no capitalismo, não pertencer mais ao trabalhador, mas, sim, a outra pessoa. Até mesmo o próprio trabalho não pertence mais ao trabalhador, mas, sim, a outrem que o compra ou aluga. “O trabalho tornou-se um objeto, do qual o trabalhador só pode se apossar com os maiores esforços e com as mais extraordinárias interrupções” (Marx, 2004, p. 81). Segundo Marx (2004), no capitalismo, quanto maior é a riqueza que o trabalhador produz e quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão, mais pobre ele se torna, pois os produtos de seu trabalho não lhe pertencem. Marx (2004) assevera que o trabalho foi exteriorizado (alienado) do trabalhador. Para o autor: (...) a exteriorização do trabalhador em seu produto tem o significado não somente de que seu trabalho se torna um objeto, uma existência externa, mas, bem além disso, que se torna uma existência que existe fora dele, independente dele e estranha a ele, tornando-se uma potência autônoma diante dele, que a vida que ele concedeu ao objeto se lhe defronta hostil e estranha (Marx, 2004, p. 81). Ainda de acordo com Marx (2004), o trabalhador nada produz sem a natureza. “Ela é a matéria na qual o seu trabalho se efetiva, na qual o trabalho é ativo, e a partir da qual e por meio da qual o trabalho produz” (Marx, 2004, p. 81). É a natureza que oferece os meios de vida do trabalhador, em dois sentidos: 1) o trabalho não existe sem objetos nos quais se exerça; 2) a natureza é meio de subsistência física do trabalhador (alimentos, moradia, etc.). 29 O autor também aponta que: (...) sob o capital, quanto mais o trabalhador se apropria do mundo externo, da natureza sensível, por meio do seu trabalho, mais ele se priva dos meios de vida, pois cada vez mais o mundo exterior sensível deixa de ser um objeto pertencente ao seu trabalho e também cessa, cada vez mais de ser meio de subsistência física do trabalhador (Marx, 2004, p. 81). Conforme o pensamento de Marx (2004), o homem existe primeiramente como trabalhador, e, em segundo, como sujeito físico. O auge dessa servidão é que, somente como trabalhador, ele pode se manter como sujeito físico e, apenas como sujeito físico, ele é trabalhador. A exteriorização do trabalho não ocorre somente por meio da relação do trabalhador com os objetos de seu trabalho, mas também no ato de produzir. O trabalhador não só está alienado de seu objeto de trabalho, mas também da própria atividade do trabalho. A exteriorização do trabalho também consiste no fato do trabalho ser externo ao trabalhador, isto é, não pertencer ao seu ser (Marx, 2004). Marx (2004) conclui que: (...) o trabalho externo, o trabalho no qual o homem se exterioriza, é um trabalho de auto-sacrifício. A externalidade do trabalho aparece para o trabalhador como se o trabalho não fosse seu próprio, mas de um outro, como se ele no trabalho não pertencesse a si mesmo, mas a um outro (Marx, p. 83). Desse modo, o trabalho consciente e voltado para satisfazer as reais necessidades humanas deve ser guiado pelo valor de uso de uma mercadoria. O valor de uso de uma mercadoria remete ao seu verdadeiro valor frente às reais necessidades humanas. Contudo, o autor adverte que, no capitalismo, com o 30 aparecimento da propriedade privada dos meios de produção, a produção de mercadorias passou a não mais ser direcionada pela sua verdadeira necessidade ou utilidade social – seu valor de uso; ela passou a ser guiada pela possibilidade de se trocar a mercadoria produzida por outro tipo de mercadoria – ou seja, passou-se a privilegiar seu valor de troca. Aos que na prática interessa produzir somente em virtude do quanto de outras mercadorias podem receber pela sua, cabe preocupar-se exclusivamente com o maior ganho, e não com a melhor utilidade para a sociedade. Marx (2004) também evidencia o fato de que o período histórico do capitalismo caracteriza-se por uma condição fundamental: sob o capital, o trabalhador é proprietário de uma mercadoria – sua força de trabalho. Por força de trabalho compreende-se o “conjunto das faculdades físicas e mentais existentes no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação toda vez que produz valores de uso de qualquer espécie” (Marx, 1987, p. 187). Aqueles que não são donos dos meios de produção têm que vender a sua força de trabalho para sobreviverem. Registre-se que não foi a natureza que instituiu a divisão entre aqueles que possuem e os que não possuem os meios de produção. Segundo Marx (1987): A natureza não produz, de um lado, possuidores de dinheiro e mercadorias, e do outro, meros possuidores das próprias forças de trabalho. Esta relação não tem sua origem na natureza, nem é mesmo uma relação social que fosse comum a todos os períodos históricos (Marx, p. 189). A condição histórica desse período da humanidade não é conseqüência da produção de mercadorias, mas, sim, do fato do possuidor dos meios de produção e de subsistência encontrar o trabalhador no mercado vendendo sua força. A 31 força de trabalho como mercadoria é a marca do sistema capitalista de produção. E como acontece com todas as mercadorias, a força de trabalho passa a ser considerada pelo seu valor de troca, em detrimento de seu valor de uso. A força de trabalho como mercadoria possui uma qualidade particular que a distingue das outras mercadorias: a capacidade de produzir valores maiores do que os dela. Assim descreve Marx (1987) essa realidade: O valor da força de trabalho e o valor que ela cria no processo de trabalho são, portanto, duas magnitudes distintas. O capitalista tinha em vista essa diferença de valor quando comprou a força de trabalho. (...) Mas, o decisivo foi o valor de uso específico da força de trabalho, o qual consiste em ser ela fonte de valor e de mais valor que o que tem. Este é o serviço específico que o capitalista dela espera (Marx, p. 218). Fazer o trabalhador exercer sua atividade além do tempo necessário para produzir a mercadoria não é a única maneira de explorá-lo. A intensidade do trabalho também determina o grau de exploração do trabalhador. Nesse sentido, Marx (1987) mostra que, nem sempre, a redução da jornada de trabalho diminui a exploração sobre o trabalhador. A capacidade de operar da força de trabalho está na razão inversa do tempo em que opera. Quanto menor o tempo de trabalho, maior a sua intensidade. A redução da jornada cria a condição subjetiva para intensificar o trabalho, capacitando o trabalhador a empregar mais força num tempo dado. Para o autor: Não existe a menor dúvida que a tendência do capital, com a proibição legal definitiva de prolongar a jornada de trabalho, é de compensar-se com a elevação sistemática do grau de intensidade do trabalho e de converter todo aperfeiçoamento da maquinaria em meio para absorver maior quantidade de força de trabalho (Marx, 1987, p. 476). 32 A discussão de Marx (2004, 1987) sobre o trabalho na sociedade capitalista enfatiza o caráter de alienação e exploração ao qual o trabalhador está submetido ao vender sua força de trabalho para outra pessoa. O trabalho é usado como forma de dominação social. Por sua vez Marcuse (1968) pondera que a civilização se baseia na permanente subjugação dos instintos humanos. Ainda segundo o autor, a subjugação efetiva dos instintos é realizada mediante controles repressivos, impostos pelo homem. O desenvolvimento da repressão na estrutura instintiva do indivíduo é descrito por Freud. De acordo com Freud (1974), a nossa vida é guiada por dois princípios fundamentais: o princípio do prazer e o princípio da realidade. Segundo o autor, o bebê, na busca incessante de prazer, cria uma maneira alucinatória (com base no princípio de prazer) de satisfazer seus desejos. Porém, para sobreviver, é preciso que esse bebê crie um novo modo de funcionamento (com base no princípio da realidade) para que consiga “buscar” prazer de modo real. Para isso, ele precisa da relação com o outro, e, desse modo, o bebê entra em contato com a realidade externa. No entanto, esse contato com a realidade proporciona o adiamento do prazer imediato, que era causado pelo princípio do prazer. Esse contato que é estabelecido com a realidade está, portanto, calcado no adiamento do prazer imediato – adiamento que é visto como desprazer. A partir da instituição do princípio de realidade, o indivíduo começa a inibir a descarga total de prazer e passa a aceitar a frustração. Freud (1974b) aponta que a base da civilização é a renúncia e a repressão. Segundo o autor, a cultura não está voltada ao homem e não tem como objetivo sua felicidade. Os homens vivem a civilização, abrindo mão de parte da liberdade para terem segurança. O 33 princípio de realidade, que causa desprazer, é o responsável pela vida em sociedade. Marcuse (1968) faz uma diferenciação entre as vicissitudes biológicas (descritas por Freud) e as histórico-sociais dos instintos, e expõe os conceitos de mais-repressão e princípio de desempenho. A mais-repressão existe em função da dominação social da época e permite a submissão à dominação. O princípio de desempenho é o princípio de realidade de nossa época. Segundo o autor, os vários modos de dominação (do homem e da natureza) resultam em diferentes formas históricas do princípio de realidade. Para Marcuse (1968), essas diferenças afetam o próprio conteúdo do princípio de realidade, que sempre está submetido a um sistema de instituições e relações sociais, de leis e valores, que transmitem e impõem a modificação dos instintos. Para o autor, embora toda forma de princípio de realidade exija um grau de controle repressivo sobre os instintos, estas instituições citadas acima introduzem controles adicionais além dos indispensáveis à civilização humana. Isso se dá de acordo com os interesses de determinado grupo, que, por meio da dominação, tenta se manter ou se consolidar em uma posição privilegiada. De acordo com Marcuse (1968), atualmente é instituída nos indivíduos muito mais repressão do que a necessária para o convívio em uma sociedade racional, voltada para o bem-estar de todos os seus membros. É mister destacarmos o papel fundamental que o trabalho exerce nessa situação. Marcuse (1968) aponta que na sociedade atual os homens, enquanto trabalham, não satisfazem suas próprias necessidades e faculdades, mas trabalham em alienação. “O tempo de trabalho, que ocupa a maior parte do tempo de vida do indivíduo, é um tempo penoso, visto que o trabalho alienado significa 34 ausência de gratificação, negação do princípio do prazer” (Marcuse, 1968, p. 53). O homem existe na maior parte do tempo como um instrumento de desempenho alienado e somente está livre para si próprio quando não está trabalhando. O tempo de alienação pode se estender às horas de lazer, que passam a servir somente como relaxamento passivo da fadiga do trabalho e como recuperação de energia para mais trabalho. Segundo Marcuse (1968), os instintos dos indivíduos são controlados por meio de sua capacidade de trabalho. O indivíduo tem de trabalhar para viver, e esse trabalho não exige apenas dez, doze horas diárias de seu tempo, mas também, durante essas horas e as restantes, um comportamento em conformidade com os padrões e a moral do princípio de desempenho. Nesse sentido, Adorno (1995) evidencia que: Por um lado, deve-se estar concentrado no trabalho, não se distrair, não cometer disparates; sobre essa base, repousou outrora o trabalho assalariado, e suas normas foram interiorizadas. Por outro lado, deve o tempo livre, provavelmente para que depois se possa trabalhar melhor, não lembrar em nada o trabalho. Esta é a razão da imbecilidade de muitas ocupações do tempo livre. Por baixo do pano, porém, são introduzidas, de contrabando, formas de comportamento próprias do trabalho, o qual não dá folga às pessoas (Adorno, p. 73). Marcuse (1968) pondera que o controle sobre o trabalho social faz com que os indivíduos ajudem a fortalecer uma engrenagem que eles não controlam e que funciona como um poder independente, a que eles têm de se submeter caso queiram viver. Nas palavras do autor: O reino da necessidade, da labuta e do trabalho, não é o da liberdade, visto que a existência humana, nesse domínio, é determinada por objetivos e funções que não são propriamente seus, e que não permitem o livre jogo das faculdades e desejos humanos (Marcuse, 1968, p. 172). 35 Se o trabalho na sociedade capitalista existe, principalmente para satisfazer os interesses de determinados grupos particulares; se o trabalho é alienado, ou seja, não pertence mais ao trabalhador, assim como os objetos de seu trabalho também não o pertencem; se o trabalho transformou-se primordialmente em mecanismo de exploração e controle social, ele não pode contribuir para a formação dos sujeitos. O entendimento do significado do trabalho e de seus valores na sociedade industrial capitalista faz-se importante também no estudo de seu conteúdo ideológico. O trabalho, conforme descrito por Marcuse (1968), é uma das instituições que transmite leis e valores que ajudam a manter a ordem estabelecida. Marx e Engels (2003) ponderam que o modo pelo qual os homens produzem os seus meios de vida depende inicialmente da constituição mesma dos meios de vida já encontrados e a serem produzidos. Os indivíduos já encontram uma maneira determinada de exercerem atividades, ou seja, uma maneira determinada de manifestarem a vida, um modo de vida determinado. Para os autores, os indivíduos são assim como manifestam a sua vida, ou seja, o que os indivíduos são coincide com a sua produção. A partir desse pensamento pode-se evidenciar que o que os indivíduos são depende das condições materiais daquilo que produzem. “O fato é, portanto, este: determinados indivíduos que são ativos produtivamente de modo determinado entram nessas relações políticas e sociais determinadas” (Marx e Engels, 2003, p. 192). Os autores destacam que a produção das idéias e representações da consciência está, de início, entrelaçada na atividade material e no intercâmbio material dos homens. A partir do processo efetivo de vida dos indivíduos é que se desenvolvem seus reflexos ideológicos. 36 Marx e Engels (2003) apontam que não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. O pensar e o intercâmbio intelectual dos homens aparecem como afluência direta do seu comportamento material. Somente mudando a sua produção e intercâmbio materiais, os homens podem mudar seus pensamentos. “A consciência é um produto social” (Marx e Engels, 2003, p. 197). Conforme o pensamento de Marx e Engels (2003), o primeiro pressuposto de toda a existência humana, e, portanto, de toda a história, é o pressuposto de que os homens precisam estar em condições de viver para poderem fazer história. O primeiro ato histórico dos homens é produzir os meios para a satisfação imediata das necessidades indispensáveis para a produção da vida material mesma. Depois das primeiras necessidades satisfeitas, a ação da satisfação e o instrumento da satisfação adquirido levam a novas necessidades. Outra circunstância que, segundo os autores, está na base do desenvolvimento histórico dos homens, é a circunstância de que os seres humanos que renovam sua própria vida diariamente começam a se reproduzir. Marx e Engels (2003) ressaltam que a produção da vida, tanto da própria pelo trabalho, quanto da alheia pela procriação, possui um caráter social no sentido de que com isto se entende a cooperação social de vários indivíduos, não importando sobre que condições, de que modo e para que finalidade. O importante, segundo os autores, é compreendermos que um determinado modo de produção ou estágio industrial está sempre unido a um determinado modo de cooperação. Nas palavras dos autores: Depreende-se que a quantidade das forças produtivas acessíveis aos homens condiciona o estado social e que, portanto, a história da 37 humanidade precisa ser trabalhada e estudada sempre em conexão com a história da indústria e da troca (Marx e Engels, 2003, p. 196). Marx e Engels (2003) asseveram que o “espírito” tem em si de antemão a maldição de ser “afetado” pela matéria, que se faz presente na forma de linguagem. A linguagem é tão velha quanto a consciência e, assim como esta, surge da necessidade e da emergência de intercâmbio com outros homens. Ainda segundo os autores, “a riqueza espiritual efetiva dos indivíduos depende totalmente da riqueza das suas relações efetivas” (Marx e Engels, 2003, p. 203). Adequado a essa teoria, é a afirmação de que todas as formas e produtos da consciência não podem ser resolvidos pela crítica intelectual, mas só mediante a derrubada prática das relações sociais reais das quais emergiram. Ainda em consonância com o pensamento de Marx e Engels (2003), é importante enfatizar que: (...) na história, a cada estágio, se encontra um resultado material, uma soma de forças de produção, uma relação historicamente criada com a natureza e dos indivíduos entre si, que é transmitida a cada geração por sua predecessora, uma massa de forças produtivas, capitais e circunstâncias que de um lado bem que é modificada pela geração nova, mas que de outro lado também lhe prescreve as suas próprias condições de vida e lhe dá um desenvolvimento determinado, um caráter específico – portanto, as circunstâncias fazem os homens tanto quanto os homens fazem as circunstâncias (Marx e Engels, p. 204). Marx e Engels (2003) também ponderam que toda classe que aspira à dominação tem que primeiro conquistar para si o poder político a fim de apresentar o seu interesse como universal. Os autores também enfatizam que: (...) com a extensão da atividade do trabalho a uma escala da história universal, os indivíduos são cada vez mais subjugados a um poder que lhes era alheio, um poder que se tornou cada vez mais massivo e que em última instância se evidencia como mercado mundial (Marx e Engels, 2003, p. 203). 38 Concluindo, Marx e Engels (2003) evidenciam que os pensamentos dominantes nada mais são do que a expressão em idéias das relações materiais dominantes, ou seja, as relações materiais dominantes em forma de pensamento. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe com isso simultaneamente sobre os meios para a produção espiritual, de maneira que com isto lhes estão ao mesmo tempo submetidos os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios para a produção material. Os autores destacam que há um esforço para separar os pensamentos dominantes das bases materiais que lhe deram origem. O esforço serve para separar esses pensamentos dos dominadores, conferindo-lhes a característica de um pensamento comum, geral. Em concordância com o pensamento de Marx e Engels, podemos verificar que o trabalho, assim como o modo em que está organizado, exerce grande influência na produção das idéias e dos homens, e, em conseqüência, está relacionado com a ideologia que sustenta a divisão da sociedade entre dominados e dominadores. Para Horkheimer e Adorno (1973): (...) ideologia é justificação. Ela pressupõe, portanto, quer a experiência de uma condição social que se tornou problemática e como tal reconhecida, mas que deve ser defendida, quer, por outra parte, a idéia de justiça sem a qual essa necessidade apologética não subsistiria, e que, por sua vez, se baseia no modelo de permuta de equivalentes (Horkheimer e Adorno, p. 191). Os autores indicam que a ideologia se dá onde regem relações de poder que não são intrinsecamente transparentes, mediatas e, até, atenuadas. Ainda segundo eles, não se faz suficiente pôr a consciência em ordem para que a sociedade fique ordenada. Isso é que constitui a essência da ideologia. 39 Eagleton (1997) indica que, na arena política da sociedade burguesa, todos os homens e mulheres são abstratamente iguais como votantes e cidadãos, mas essa equivalência teórica serve para mascarar suas desigualdades concretas no âmbito da sociedade civil. Horkheimer e Adorno (1973) asseveram que se podia falar de ideologia quando um produto espiritual surgia do processo social como algo autônomo. O preço dessa autonomia era a sua inverdade, com o espírito pretendendo negar a sua base social. Mas, segundo os autores, atualmente, a ideologia caracteriza-se mais pela ausência dessa autonomia e não pela simulação de uma pretensa autonomia. A ideologia pode ser entendida como a totalidade dos produtos espirituais que preenchem em grande parte a consciência dos homens, e que se manifesta como um conjunto de objetos confeccionados para atrair as massas em sua condição de consumidoras e, se possível, para adaptar e fixar o seu estado de consciência, e não tanto como espírito autônomo inconsciente das próprias implicações societárias. Atualmente, a falsa consciência socialmente condicionada já não mais advém de uma anônima cristalização de um pensamento com base no processo social, mas, pelo contrário, trata-se de algo cientificamente adaptado à sociedade. Essa adaptação realiza-se por meio dos produtos da indústria cultural (Horkheimer e Adorno, 1973). De acordo com Eagleton (1997), para Adorno, a ideologia é uma forma de pensamento de identidade. Assim como o valor de troca das mercadorias, o pensamento ideológico efetua uma equação entre coisas que são incomensuráveis. Ainda segundo Eagleton (1997), Adorno considera a identidade como a forma primal da ideologia. 40 Segundo Horkheimer e Adorno (1973), os elementos que constituem essa ideologia intrinsecamente uniforme não são novos e representam estereótipos há tempos imobilizados e petrificados. Para os autores: O que conta não são, de fato, os elementos constitutivos nem sequer a persistência das características primitivas na atual cultura de massa, através de extensas épocas de imaturidade da humanidade, mas o fato de que todos esses elementos e caracteres estão hoje subordinados, em seu conjunto, a uma direção orgânica que transformou o todo em um sistema coeso. Nenhuma fuga é tolerada, os homens estão cercados por todos os lados (Horkheimer e Adorno, 1973, p. 201). Conforme o pensamento de Horkheimer e Adorno (1973), a indústria cultural consegue se apresentar como espírito objetivo, na mesma medida em que readquire, cada vez em maior grau, tendências antropológicas em seus clientes. Ao apegar-se a essas tendências e proporcionar-lhes uma confirmação, elimina de forma explícita tudo o que rejeitar a subordinação. “Quanto mais os bens culturais assim elaborados forem proporcionalmente ajustados aos homens, tanto mais estes se convencem de terem encontrado neles o mundo que lhes é próprio” (Horkheimer e Adorno, 1973, p. 202). Nas telas da televisão, constantemente nos são apresentadas situações que querem se parecer com as mais habituais e familiares. A ideologia expõe diante dos olhos dos homens o que já constitui a condição de sua existência, ao mesmo tempo em que proclama o existente como sua própria norma. “Da ideologia só resta o reconhecimento do que subsiste, um conjunto de modelos de comportamento adequados à hegemonia das condições vigentes” (Horkheimer e Adorno, 1973, p. 203). O trabalho como mecanismo de exploração transmite e fortalece esses modelos de comportamento adequados à manutenção das condições existentes. 41 Adorno (1993) assegura que os membros da sociedade não foram submetidos a um persistente controle social somente pela competição e cooptação em sua vida profissional, mas também a sua vida particular fora absorvida pelas formações reificadas em que se cristalizaram as relações interpessoais. Segundo o autor, não basta ter crédito bancário, ou realizar seus deveres com suas organizações, para que um cidadão seja qualificado. Para isso, ele deve dar o sangue e também o tempo livre que lhe resta para ocupar outros postos na sociedade. O pensamento de Adorno (1993) evidencia a questão de que é necessário ocupar um lugar, ter um papel na sociedade para ser reconhecido. O trabalho, para muitos jovens, significa a chance de se afirmarem na sociedade e serem reconhecidos como cidadãos. A escola parece não lhes conferir esse status. Não é somente pelo contexto ideológico que o trabalho influencia os jovens; o dinheiro que recebem por seus salários, mesmo que baixos, também permite a “inclusão” na sociedade, por meio da via do consumo de mercadorias. Adorno (1993) também assevera que o sujeito só experimenta a si mesmo, enquanto socialmente mediado. Para o autor, o sujeito realmente não é nada além de mulher de médico, membro do corpo docente, ou especialista em alguma coisa. “Quanto menos sentido funcional tem a divisão social do trabalho, mais obstinadamente os sujeitos se agarram àquilo que a fatalidade social lhes infligiu” (Adorno, 1993, p. 40). O status proveniente de uma ocupação profissional na sociedade capitalista pode seduzir e empurrar os jovens ao mercado de trabalho, em contradição com as reais condições apresentadas. Horkheimer e Adorno (1985) afirmam que o cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema. A indústria cultural subordina todos os setores da 42 produção espiritual a um único fim: ocupar o sentido dos homens da saída da fábrica à noite, até o relógio de ponto, na manhã seguinte. As técnicas da indústria cultural duplicam a realidade com perfeição e tornam mais fácil se obter a ilusão de que o mundo exterior é o prolongamento sem ruptura do mundo que se descobre nos filmes ou programas de televisão. Segundo Horkheimer e Adorno (1985), quem não se conforma com a situação dada, é punido com uma impotência econômica que se prolonga na impotência espiritual. “A produção capitalista mantém os sujeitos tão bem presos, que eles sucumbem sem resistência ao que lhes é oferecido” (Horkheimer e Adorno, 1985, p. 125). A cultura de massa disseminada pela indústria cultural exclui o novo e perpetua o modelo de sociedade existente. O mecanismo de controle social da indústria cultural é a diversão. Ainda conforme o pensamento dos autores, a diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio e é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para poder se colocar novamente em condições de enfrentá-lo. Divertir-se significa estar de acordo, não ter que pensar no sofrimento, mesmo quando ele é mostrado. Por fim, Horkheimer e Adorno (1985) asseveram que a nova ideologia tem por objeto o mundo enquanto tal. Ao serem reproduzidas pela indústria cultural, as situações desesperadas que estão sempre a desgastar os espectadores tornam-se a promessa que é possível continuar a viver. No capitalismo tardio, todos têm que mostrar que se identificam com o poder de quem não cessam de receber pancada. Aceitar se vender como mercadoria no mercado de trabalho é uma forma dos jovens se identificarem com aquilo que é valorizado pela atual organização social. A transmissão de valores e modelos de comportamento, por meio do trabalho, também foi evidenciada por Althusser (1970). Para ele, a reprodução da 43 força de trabalho não se dá apenas por meios materiais, como por exemplo, o salário. Segundo o autor: (...) a reprodução da força de trabalho requer não apenas uma reprodução de sua qualificação, mas também, ao mesmo tempo, uma reprodução de sua submissão às regras da ordem estabelecida, isto é, uma reprodução de sua submissão à ideologia vigente (Althusser, 1970, p. 109). Althusser (1970) ainda menciona que é por meio dos Aparelhos Ideológicos de Estado que são mantidas as condições da reprodução das relações de produção, isto é, das relações capitalistas de exploração. Dá-se o nome de “Aparelhos Ideológicos de Estado a certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas” (Althusser, 1970, p. 114). O autor destaca as seguintes instituições como Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE): o AIE religioso (o sistema de diferentes igrejas), o AIE escolar (o sistema das diferentes escolas, públicas e particulares), o AIE familiar, o AIE jurídico, o AIE político (o sistema político, incluindo os diferentes partidos), o AIE sindical, o AIE da informação (imprensa, rádio e televisão) e o AIE cultural (literatura, artes, esportes, etc.) (Althusser, 1970, p. 115). O autor faz referência ao fato de que além das técnicas básicas de conhecimento – ler, escrever, contar: (...) a escola também ensina as normas do bom comportamento, ou seja, a atitude a ser observada por cada agente na divisão do trabalho, conforme o emprego para o qual ele esteja destinado: regras de moral, consciência cívica e profissional que na verdade equivalem a normas de respeito pela divisão técnica e social do trabalho, e, em última instância, a normas da ordem estabelecida pela dominação de classe (Althusser, 1970, p. 108). 44 Giovinazzo Jr. (2007) também menciona a escola como responsável pela transmissão de conteúdos culturais e morais. Para ele, a instituição escolar exerce papel importante para que um determinado modelo de formação seja perpetuado, interiorizado e aceito. Segundo o autor, atualmente, a escola se apresenta como “extensão da realidade marcada pela não-liberdade, pela exploração econômica e pela dominação social” (Giovinazzo Jr., 2007, p. 231). Dessa perspectiva cabe à escola preparar as novas gerações para os desafios da vida, em especial para o mercado de trabalho. A escola passa a ter por finalidade a adaptação dos indivíduos para que aceitem os processos de competição e de seleção social, prevalecendo o seu caráter instrumental (Giovinazzo Jr., 2007). O autor destaca, ainda, que os próprios alunos interiorizam a concepção de que a educação escolar deve preparar para a vida tal como ela é e não querem que os professores os iludam com propostas utópicas que vislumbrem um modo diferente de organização social. Dessa forma, o discurso da educação escolar como preparação para a vida em sociedade significa a inserção dos jovens no mercado de trabalho, principalmente para aqueles pertencentes às camadas populares. Giovinazzo Jr. (2007) evidencia por fim o fato de que: (...) predomina uma concepção instrumental e pragmática da educação escolar, que os próprios alunos definem como preparação para o mundo do trabalho, não somente do ponto de vista da qualificação, mas ensinando a lidar com as dificuldades da vida em uma sociedade marcada pela seleção e pela competitividade (Giovinazzo Jr., p. 235). O que foi até aqui apresentado parece ser suficiente para sustentar que, para os indivíduos aceitarem o modo como a sociedade está organizada, é preciso uma mobilização cultural e uma educação voltada a esse fim. Por meio da educação voltada para o trabalho, assim como por sua ideologia, é criado um 45 exército de trabalhadores, que, em detrimento de seus verdadeiros interesses, se coloca à disposição de uma minoria que detém os meios de produção e que não almeja mudanças na estrutura social. Segundo Marcuse (1968), os grupos que governam a sociedade ocultam o fato de que seus interesses são interesses privados. Atualmente, na sociedade, observa-se um grande desenvolvimento da tecnologia e dos meios de produção e, ao mesmo tempo, o aumento da pobreza e da desigualdade social. Apesar de possuirmos os mais desenvolvidos processos tecnológicos, eles não são utilizados para beneficiarem a humanidade, mas, sim, são colocados para atender predominantemente o interesse de uma minoria, que atua para manter a reprodução e a manutenção das relações sociais de produção existentes. No que diz respeito ao fato de uma minoria que leva vantagem sobre a maioria, Adorno (1986, p. 63) destaca: “em termos de padrão de vida e de consciência, nos principais países ocidentais tornaram-se muito menos perceptíveis as diferenças de classe do que nos decênios durante e logo após a revolução industrial”. Para o autor, a imensa elevação do potencial técnico da sociedade industrial e a quantidade de bens de consumo que beneficiam todos os países altamente industrializados ocultam a verdadeira divisão social das relações de produção. De acordo com Adorno (1986), faz-se necessária uma análise da sociedade que leve em conta os verdadeiros fatos objetivos que determinam a posição do sujeito na estrutura social. Apesar de ocultas, as relações antagônicas entre as classes sociais ainda se fazem presentes, conforme a teoria de Marx sobre o capitalismo, e, até hoje, aqueles que detêm os meios de produção exploram aqueles que apenas possuem sua força de trabalho. 46 Conforme o pensamento de Adorno (1986, p. 67), a “dominação sobre os seres humanos continua a ser exercida através do processo econômico” e “objeto disso já não são mais apenas as massas, mas também os mandantes e seus apêndices”. Para o autor, a sociedade é “de acordo com o estádio de suas forças produtivas, plenamente uma sociedade industrial” e por outro lado, “é capitalismo em suas relações de produção” (Adorno, 1986, p. 68). De acordo com Adorno (1986): Os homens seguem sendo o que, segundo a análise de Marx, eles eram por volta da metade do século XIX: apêndices da maquinaria, e não mais apenas literalmente os trabalhadores, que têm de se conformar às características das máquinas a que servem, mas, além deles, muito mais metaforicamente: obrigados até mesmo em suas mais íntimas emoções a se submeterem ao mecanismo social como portadores de papéis, tendo de se modelar sem reservas de acordo com ele. Hoje, como antes, produz-se visando o lucro (Adorno, p. 68). É importante mencionarmos que a estrutura da sociedade industrial moderna é derivada do modelo de ciência positivista. Horkheimer (1984) indica que as bases atuais das ciências da natureza foram inauguradas no Iluminismo. Para esse movimento, o importante era o desencantamento do mundo por meio da valorização da razão; o conhecimento deveria emancipar-se do mito e diferenciar-se da imaginação, para, dessa forma, livrar os homens de seus medos e colocá-los na posição de dominadores da natureza. Afastada de seu potencial imaginário e fundamentada na idéia de dominação da natureza, a ciência positivista garante as condições que fortalecem a sociedade industrial burguesa. Qualquer pensamento que não seja útil para sua aplicação à ordem estabelecida deve ser renunciado. Pudemos constatar a influência desse modelo de conhecimento na instituição escolar conforme descrita 47 por Giovinazzo Jr. (2007). Este autor vê que essa instituição tem como objetivo primordial preparar o jovem para suportar a realidade imediata e enxerga que público-alvo (o jovem) encontra-se destituído da condição de vislumbrar um mundo melhor. A ideologia, conforme os pensamentos de Horkheimer e Adorno (1973, 1985) e Adorno (1993), atende aos interesses de manutenção da ordem estabelecida e rejeita tudo aquilo que tenta se diferenciar do todo, pondo em risco sua coesão. De acordo com Horkheimer e Adorno (1985), o modelo de conhecimento iluminista, ao se firmar como um modelo de dominação da natureza, ocasionou a relação entre saber e poder. Se o saber advém da dominação, então ele carrega status de poder. Implicitamente relacionada com essa questão, está a submissão de tudo ao critério da calculabilidade, pois só pode ser controlado e dominado aquilo que pode ser contado numericamente. “O que não se submete ao critério da calculabilidade e da utilidade torna-se suspeito para o esclarecimento” (Horkheimer e Adorno, 1985, p. 21). O número passou a ser o cânon do esclarecimento, que, ao reduzir tudo numericamente, tornou possível a comparação do que antes era heterogêneo. A sociedade burguesa derivada desse esquema destrói as diferenças e chama de ilusão aquilo que não se reduz numericamente. Em conseqüência, a ciência passa a voltar-se para si mesma, preocupada em estabelecer um método eficiente de quantificação do mundo. Da ciência já não mais se espera a tarefa de pensar um mundo melhor, mas, sim, a de obter explicações (desculpas) para a realidade estabelecida. Esse modelo de conhecimento perdeu seu espírito crítico e apenas propicia a duplicação da realidade no pensamento. Esse fato gera a paralisia da crítica e o impedimento de 48 qualquer possibilidade de mudança, pois não é mais objetivo do conhecimento pensar outras condições de vida, senão as que já existem. Podemos enfatizar que a pressão para a manutenção das condições sociais vigentes é uma característica da sociedade atual, com base nos princípios burgueses e iluministas. Todos os esforços são feitos para manter a sociedade do modo como está. Marcuse (1969) faz referência ao fato de que a sociedade industrial moderna é uma sociedade que não tem por “finalidade garantir, através de uma transformação e exploração cada vez mais efetiva da natureza, a realização das potencialidades humanas” (Marcuse, 1969, p. 108), e por isso torna-se irracional. A irracionalidade dessa sociedade caracteriza-se por conquistar e administrar todas as esferas da sociedade, utilizando-se da tecnologia para instituir novas formas, mais eficazes e mais agradáveis de controle e coesão social. Marcuse (1968) também assevera que a reprodução, maior e melhor dos mesmos sistemas de vida, passou a significar, ainda mais nítida conscientemente, o fechamento de outros sistemas possíveis de vida. e O desenvolvimento de um sistema hierárquico de trabalho social, não só racionaliza a dominação, como também contém a rebelião contra a dominação. Segundo Marcuse (1968), a incorporação econômica e política dos indivíduos no sistema hierárquico do trabalho é acompanhada de um processo instintivo em que os objetos humanos de dominação reproduzem sua própria opressão. Nas palavras do autor: Ao reter os indivíduos como instrumentos de trabalho, forçando-os à renúncia e à labuta, a dominação já não está apenas, ou primordialmente, defendendo os interesses específicos, mas 49 sustentando a sociedade como um todo, numa escala em contínua expansão. Por conseguinte, a culpa de rebelião é grandemente intensificada (Marcuse, 1968, p. 93). Ainda conforme o pensamento de Marcuse (1968), a ideologia atual reside no fato de que a produção e o consumo reproduzem e justificam a dominação. Mas caráter ideológico não altera o fato de que os benefícios oferecidos pela sociedade são reais. A repressividade do todo reside em alto grau na sua eficácia em ampliar as perspectivas da cultura material, facilitar a obtenção das necessidades da vida e tornar o conforto e o luxo mais baratos, ao mesmo tempo em que encoraja a labuta e a destruição. Para o autor, “a consciência passa a reduzir-se à tarefa de regular a coordenação entre o indivíduo e o todo. E essa coordenação é tão eficaz que a infelicidade geral decresceu, em lugar de aumentar” (Marcuse, 1968, p. 101). Para estudarmos a atual situação da inserção dos jovens no mercado do trabalho, também se faz necessário o estudo sobre a relação entre trabalho e formação. De acordo com Adorno (1996), atualmente se manifesta uma crise da formação cultural, com a formação convertendo-se em semiformação. A semiformação caracteriza-se pela identificação da consciência com os elementos culturais aprovados socialmente. Segundo o autor “a formação nada mais é do que a cultura tomada pelo lado de sua apropriação subjetiva” (Adorno, 1996, p. 388). Ela deve dizer respeito ao indivíduo livre e radicado em sua própria consciência. A formação é tida como condição implícita para uma sociedade autônoma. Ainda conforme o pensamento de Adorno (1996), na idéia de formação cultural necessariamente se postula a situação de uma humanidade sem status e sem exploração. Contudo, o próprio autor adverte que, na sociedade atual, as 50 relações sociais, em especial as diferenças econômicas, impossibilitam a formação do indivíduo. Para Adorno (1996), “a desumanização do sistema capitalista de produção nega aos trabalhadores todos os pressupostos da formação” (p. 391). Nos dias de hoje, são evidentes as dificuldades que se opõem à emancipação do sujeito. A organização social em que vivemos é descrita por Adorno (2000) como heterônoma, isto é: (...) nenhuma pessoa pode existir na sociedade atual conforme suas próprias determinações; enquanto isto ocorre, a sociedade forma as pessoas mediante inúmeros canais e instâncias mediadoras, de um modo tal que tudo absorvem e aceitam nos termos dessa configuração heterônoma (Adorno, p. 181). Aos sujeitos, cabe aceitarem com maior ou menor resistência aquilo que a existência dominante apresenta à sua vista. A formação cultural requer, então, uma proteção do mundo exterior, mas tal proteção equivale à diferenciação. Na sociedade heterônoma, apesar de aumentar o número de pessoas que têm acesso aos bens culturais, a formação não é atingida. Os conteúdos transmitidos pela indústria cultural ajudam a manter a realidade existente. Nem mesmo o desenvolvimento da técnica e a melhora do nível de vida resultam na formação. Adorno (1996) destaca a existência de um narcisismo coletivo, alimentado pela identificação, que faz com que as pessoas compensem a consciência de sua impotência social e, ao mesmo tempo, atenuem a sensação de culpa por não serem, nem fazerem, o que segundo seu próprio conceito deveriam ser e fazer. Adorno (2000) também afirma que a situação atualmente requisitada de identificação e adaptação imediatas relaciona-se com fenômenos do enfraquecimento do “eu”. O autor assevera que aqueles que aceitam trabalhar em 51 qualquer lugar e que rapidamente mudam e se adaptam relativamente sem esforço, demonstram características da semiformação e não da emancipação. Os jovens que se submetem a qualquer tipo de trabalho, em busca de afirmação social, parecem pertencer a esse grupo descrito por Adorno (2000). Nesta parte da pesquisa, foi possível observarmos como o trabalho é entendido na atual sociedade capitalista. Primeiramente, enfatizamos a visão pessimista que os filósofos da Antigüidade tinham pelo trabalho. Em seguida, por meio dos pensamentos de Marx, Engels e Marcuse, mostramos a importância filosófica do trabalho e sua importância para o desenvolvimento dos sujeitos, bem como a transformação do trabalho em exploração e dominação social. Para finalizar, introduzimos as discussões acerca dos conceitos de ideologia e formação, que irão servir de apoio para o estudo da situação atual da inserção dos jovens no mercado de trabalho. 52 2. Situação do trabalho juvenil Com o desenvolvimento das sociedades modernas e a predominância do sistema capitalista de produção, a situação na qual ocorre a inserção do jovem ao mercado de trabalho adquire características específicas. Por isso, faz-se necessário uma exposição da situação geral do trabalho juvenil, com o objetivo de melhor compreender o cenário social e político envolvido nesse processo. Com base nos escritos de Marx, analisa-se, primeiramente, o início da apropriação da força de trabalho dos jovens pelo capital; em seguida, são apresentadas estatísticas atuais do trabalho juvenil e a legislação que regulamenta o trabalho do jovem brasileiro, discutem-se também os aspectos sociais que influenciam a entrada do jovem no mercado de trabalho; e, por fim, são apresentados estudos que abordam pontos importantes da relação entre os jovens e o trabalho. A participação dos jovens no mercado de trabalho capitalista tem como um marco importante o desenvolvimento das máquinas no ambiente de produção. Ao chamar a atenção à revolução instrumental ocorrida na indústria moderna, Marx (1987) descreve como o emprego da maquinaria foi fator determinante para a inserção dos jovens no mercado de trabalho. De acordo com Marx (1987): Tornando supérflua a força muscular, a maquinaria permite o emprego de trabalhadores sem força muscular ou com desenvolvimento físico incompleto mas com membros mais flexíveis. Por isso, a primeira preocupação do capitalista ao empregar a maquinaria foi a de utilizar o trabalho das mulheres e das crianças. Assim, de poderoso meio de substituir trabalho e trabalhadores, a maquinaria transformou-se imediatamente em meio de aumentar o número de assalariados, colocando todos os membros da família do trabalhador, sem distinção de sexo e de idade, sob o domínio direto do capital (Marx, p. 449-450). 53 Podemos destacar que a inserção de jovens no mercado de trabalho capitalista, desde o início, realizou-se de forma a atender às exigências do mercado, não às exigências dos jovens. Os jovens, em geral, receberam e recebem salários menores do que os salários dos adultos. Em decorrência da possibilidade de se poder contratar a mão-de-obra jovem por um preço mais barato, a mão-de-obra adulta teve que se desvalorizar para poder competir com sua concorrente. Sobre esse assunto já servia como exemplo o estudo Quincey, ao destacar que, em Londres, em 1844: (...) aumentou muito o número de trabalhadores porque os homens foram substituídos no trabalho pelas mulheres e sobretudo porque os adultos foram substituídos por crianças. Três meninas com 13 anos de idade e salário de 6 a 8 xelins por semana substituem um homem adulto com salário de 18 a 45 xelins (Quincey apud Marx, 2004, p. 451). Por custar menos, a mão-de-obra juvenil passou a ser bastante solicitada, o que ocasionou a necessidade de uma primeira regulação de seu uso, pois, voltada para atender aos interesses dos donos dos meios de produção e não dos jovens, era utilizada de forma indiscriminada e abusiva. Em meados do século XIX, as empresas já preferiam contratar os jovens que custavam mais barato, em detrimento do trabalho do adulto. Marx (1987) menciona que, devido a esse uso abusivo da mão-de-obra dos jovens por parte dos capitalistas, foi verificada uma obliteração intelectual dos adolescentes que participavam do mercado de trabalho, visto que foram afastados da escola e transformados em simples máquinas de produzir lucro (mais-valia). Esse fato forçou o Parlamento Inglês a adotar a freqüência escolar como condição compulsória para a contratação de jovens (cf. Marx, 1987, p. 456). O empregador passou a ser responsável pela ida 54 do jovem à escola5. É mister destacarmos que a preocupação com o jovem se deu somente depois de sua percepção de que estava sendo prejudicado pelas condições de trabalho vigentes. Esclareça-se que, apesar de a análise de Marx até aqui apresentada ter sido realizada na Inglaterra, em meados do século XIX, é possível identificar características que ainda se mantêm válidas, à medida que as condições históricas que exercem influência sobre a inclusão dos jovens no mercado de trabalho ainda se fazem presentes, e é isso que faz a análise de Marx manter-se atual. No passado descrito por Marx, assim como na atualidade, os jovens atendem às necessidades dos donos dos meios de produção que, como praxe do sistema capitalista, se preocupam essencialmente com o próprio lucro. A participação dos jovens no mercado de trabalho aumenta a cada dia, e por isso tornou-se assunto primordial das agendas de órgãos e associações mundiais. Segundo um relatório da Organização Mundial do Trabalho – OIT (2007), a temática do emprego juvenil foi situada como prioridade na XVI Reunião Regional dos Estados Americanos (2006) membros da OIT, observando-se a necessidade de proporcionar maior formação ao jovem, a fim de promover sua melhor inserção no mercado laboral. O mesmo relatório aponta que quase da metade dos desempregados do mundo são jovens, e, por isso, é importante a elaboração de políticas e programas para melhorar as suas condições de emprego. Para a OIT (2007): En la promoción de un modelo de desarrollo con equidad y sustentable son prioritarias las políticas orientadas a que los jóvenes accedan a un 5 A análise de Marx (1987) mostra que os donos das indústrias, ao invés de acatarem as recomendações, passaram a falsificar certificados de freqüência escolar, para utilizarem-se da mão-de-obra jovem. 55 trabajo decente. Especialmente en una realidad como la latinoamericana, donde hay más jóvenes que nunca en su historia (OIT, p. 12). Na América Latina, os jovens constituem o segmento mais numeroso da população com idade de trabalhar. Segundo o Relatório OIT 2007, são 106 milhões de pessoas com idade entre 15 e 24 anos. Essa é a época em que mais existem jovens nessa parte do mundo, e é provável que no futuro esta cifra não siga crescendo, pois as projeções indicam, a partir de 2015, uma queda na taxa de crescimento populacional jovem. Isso representa que estamos no topo demográfico juvenil na região. Ainda segundo esse relatório, esses jovens de hoje nasceram durante a chamada década perdida (1980 – 1990) da América Latina, que foi caracterizada por uma queda drástica do Produto Interno Bruto (PIB) per capita da região. O mesmo relatório também enfatiza que os jovens da atualidade enfrentam mais dificuldades e desvantagens do que os adultos, no mercado de trabalho, pois possuem piores condições de trabalho e menor remuneração, condições tais quais aquelas dos jovens citados por Marx. O Relatório OIT 2007 ressalta que a maior parte dos estudos e documentos sobre emprego e juventude elaborados na América Latina evidenciam o fato dos jovens enfrentarem taxas de desemprego muito maiores que as dos adultos. Os jovens representam 46% dos desempregados da região. O mesmo estudo mostra que, dos 106 milhões de jovens da América Latina, 48 milhões estão trabalhando, 10 milhões estão desempregados (à procura de emprego) e 48 milhões estão inativos (não trabalham e não procuram emprego). Pelo fato da escolaridade estar associada à vida do jovem, outra distribuição dos dados deve ser apresentada: dos 106 milhões de jovens, 13 milhões estudam e trabalham, 32 milhões só estudam e não procuram emprego, 4 milhões estudam e procuram emprego, 35 56 milhões trabalham e não estudam, 6 milhões não estudam e procuram trabalho, e 16 milhões não estudam e não procuram trabalho. Dos 48 milhões de jovens que trabalham, 17 milhões têm ocupação não precária, e 31 milhões têm ocupação precária. Ainda, dentre esses 48 milhões de jovens que trabalham, somente 13 milhões trabalham e estudam, o restante só trabalha. Quadro I - Mapa Laboral de Jovens da América Latina e Caribe Não precários 17 milhões Estudam 49 milhões Inativos 48 milhões Precários 31 milhões Desempregados 10 milhões Não Precários Precários Desempregados 13 milhões não estudam 22 milhões não estudam 6 milhões não estudam Não Precários: trabalham em atividade econômica remunerada e contam com Seguridade Social Precários: trabalham em atividade econômica remunerada e não contam com a Seguridade Social Desempregados: não trabalham no momento e estão buscando emprego Inativos: Não trabalham e não estão buscando empregos 4 milhões estudam 9 milhões estudam 4 milhões estudam Inativos 32 milhões estudam 16 milhões não estudam Fonte: Trabajo Decente e Juventud – OIT (2007) Na América Latina, uma das características diferenciadoras do jovem em relação ao adulto é o tipo de emprego que conseguem obter. Dois de cada três jovens trabalham em atividades informais, nas quais freqüentemente a remuneração é menor do que o salário mínimo e sem a cobertura da seguridade social (OIT, 2007). 57 De acordo com Perry et al. (2007), o emprego informal responde por 54% do total dos postos de trabalho urbano na região da América Latina e compreende dois grupos: 1) trabalhadores por conta própria informais (24%) e 2) trabalhadores assalariados informais (30%). Para os autores, as características mais intimamente relacionadas ao emprego informal são: tamanho da empresa (dez empregados ou menos), nível de escolaridade (completo abaixo do ensino médio), setor (construção, agricultura, comércio varejista e transporte), detenção de cargo (menos de um ano), idade (os jovens são predominantemente assalariados informais) e situação familiar da mulher (casada com filhos). Perry et al. (2007) destacam que a maioria dos trabalhadores assalariados informais não optou por isso, mas, sim, foi excluída dos empregos mais desejados. Muitas pessoas que entram no mercado de trabalho não têm opção senão buscar ocupações menos satisfatórias no setor informal. Na maioria dos países, os trabalhadores jovens têm mais probabilidade de serem empregados informais do que assalariados formais. Isso sugere que o trabalho informal representa um ponto de entrada no mercado de trabalho para muitos jovens. O mercado de trabalho juvenil inicia-se na informalidade e na precariedade de suas condições. Para a OIT (2007), os jovens, em muitos casos, estão conscientes da informalidade de sua ocupação, mas, por conta de uma perspectiva de trajetória profissional, aceitam este tipo de trabalho com a expectativa de acumularem experiência e formação em geral que posteriormente os possam conduzir a um posto de trabalho melhor. Outro fator relevante indicado pela OIT (2007) para a contratação dos jovens atualmente na América Latina também já estava presente na análise de Marx (1987) sobre o trabalho juvenil no início do capitalismo. No passado, os 58 jovens eram contratados pois tinham maior capacidade de adaptação às máquinas, que não precisavam do uso da força para seu manejo e funcionavam ainda melhores se operadas por pessoas com estatura e força física adequadas. Hoje em dia, ocorre situação semelhante. Pelo fato de os jovens serem a população com maior conhecimento da Internet e da computação, são contratados por possuírem maiores chances de se adaptarem às novas tecnologias de informação. Além disso, os jovens são mais flexíveis e têm menos capacidade de articulação, o que também interessa aos donos de empresa. De acordo com Pochmann (2002), no decorrer dos últimos cinqüenta anos, pôde-se observar dois movimentos distintos no comportamento geral do mercado de trabalho nas economias latino-americanas. O primeiro ocorreu durante as três primeiras décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando predominou um movimento de estruturação do mercado de trabalho, algo que ocorreu simultaneamente ao processo de industrialização e institucionalização das relações e condições de trabalho e foi marcado pela expansão do emprego assalariado, principalmente com registro. É interessante observarmos que nesse período fora instituída a Consolidação das Leis Trabalhistas, que data de 1943. O segundo período iniciado no final da década de 1970, não seguiu a tendência do anterior e pronunciou uma ruptura na tendência geral de funcionamento do mercado de trabalho, tornando-o menos estruturado. A partir da década de 1980, a quantidade de assalariados sofreu significativa alteração na composição dos registrados e dos sem registro em carteira. Na década de 1990, os sinais de desestruturação do mercado de trabalho assumiram maior destaque, consolidando as tendências de redução do assalariamento com registro e de expansão do desemprego e o de ocupações não organizadas. A tendência à 59 monopolização e à concentração de riqueza leva os empreendedores a se utilizarem de todos os meios possíveis para garantir maiores ganhos. Filgueiras (1997) discute o papel da reestruturação produtiva na atual situação do mercado de trabalho. Estimulada pela ideologia da doutrina neoliberal, a reestruturação produtiva diz respeito a transformações estruturais ocorridas no âmbito do trabalho e da produção. A sua característica essencial é a flexibilidade, principalmente no que se refere aos modos de gestão. O autor menciona que o princípio da flexibilidade se apóia na noção de just in time, que significa a economia de todos os elementos da produção e a eliminação de todos os desperdícios, ou, exposto de outra forma, a busca permanente de eficiência e diminuição de custos. Para Filgueiras (1997), essa nova concepção de empresa implica na necessidade de uma força de trabalho também flexível. A mão-de-obra flexível é aquela que pode ser contratada livremente, entre o capital e o trabalhador, sem nenhum tipo de intervenção ou regulamentação do Estado. “O objetivo é flexibilizar a jornada de trabalho, a remuneração e os direitos sociais existentes” (Filgueiras, 1997, p. 908). Filgueiras (1997) também aponta novas formas de relacionamento entre as empresas e os trabalhadores, como por exemplo, a terceirização. Esse e outros tipos de subcontratação sempre são utilizados com o objetivo de diminuir custos e reduzir o efetivo de mão-de-obra ao mínimo. Para Pochmann (2002), foi em decorrência do avanço das políticas neoliberais que aumentaram as tendências de desemprego, a desigualdade social e a exclusão, inerentes ao processo de desenvolvimento do capitalismo. O autor também ressalta que as políticas neoliberais são reforçadas pela predominância do caráter financeiro (busca do lucro), em detrimento do caráter produtivo 60 (interesse social). Ainda segundo o autor, o predomínio dos ideais neoliberais levou à busca de maior flexibilidade no uso e na remuneração da mão-de-obra. As empresas nos países capitalistas avançados têm buscado a maior flexibilização do uso do capital e do trabalho, tendo por meta a redução de custos. Essa flexibilização provocou uma mudança setorial na composição da população trabalhadora, com aumento das vagas no setor terciário e o esvaziamento dos empregos no setor primário e secundário, a permanência de altas taxas de desemprego e a deteriorização das condições e das relações de trabalho. Pochmann (2002) conclui sua análise asseverando que o padrão flexível de uso e remuneração da força de trabalho assalariada está associado às facilidades legais e informais quanto à contratação, à demissão e à existência de uma esfera abundante de mão-de-obra. Em decorrência do processo de globalização, Tokman (2003) atenta ao fato de os empregos gerados nas últimas décadas terem se deteriorado. O emprego tornou-se informal, precário e concentrado no setor terciário. Segundo o autor, grande parte dos jovens está empregada no setor terciário, e a informalidade afeta mais os jovens que os adultos. Cacciamali e Braga (2002) também chamam a atenção ao fato de que, além das taxas de desemprego, o mercado de trabalho dos jovens, no Brasil, tem como principal característica a precariedade da inserção, com presença significativa deste grupo populacional nos postos de trabalho sem contrato de trabalho e proteção das leis trabalhistas. É importante destacar que predomina a hipótese da existência de possibilidades desiguais na inserção do jovem na sociedade e no mercado de trabalho. Aqueles que procedem de famílias de maior renda e que encontram dificuldades de ingresso no mercado de trabalho podem dispor de períodos mais 61 longos de tempo de busca e seleção porque contam com rede de apoio e capital social que facilitam o processo. Já os jovens originários de famílias de baixo nível de rendimento abandonam prematuramente o sistema educacional pela necessidade de trabalhar. Madeira (1998) aponta que a condição da família e o fato dos jovens quererem ou não trabalhar não são elementos decisivos para a sua incorporação no mercado de trabalho. Para o autor, o elemento decisivo é a existência de um mercado apropriado à incorporação desse contingente específico de mão-deobra. Concordam com ele Cruz Neto & Moreira (1998), que também mencionam que, se o trabalho juvenil é motivado por problemas sócio-econômicos, ele é mantido por interesses do mercado, uma vez que essa atividade envolve gastos reduzidos e gera expressivos lucros. Como representação desses interesses de mercado, podemos citar a reportagem de Sandrini e Zimmermann (2004), que evidencia o fato de o Governo Federal, para salvar o Programa Primeiro Emprego6, ter de aumentar o incentivo fiscal concedido às empresas pela contratação de jovens e não mais exigir das empresas que esse jovem, passado o período do convênio assinado pelo Ministério do Trabalho, seja contratado de acordo com as leis trabalhistas. Com relação à estrutura do mercado de trabalho, várias são as razões que explicam a preferência pela contratação da mão-de-obra adolescente, em detrimento daquela ofertada pelos adultos. O custo mais baixo dessa força de trabalho é o maior atrativo para a sua contratação, vindo acompanhado de outros fatores, tais como: incapacidade organizacional, baixo poder de reivindicação e 6 Apesar de citado, o Programa Primeiro Emprego do Governo Federal não é objeto deste estudo. 62 habilidades para determinadas tarefas que lhes são atribuídas (Cacciamali e Braga, 2003). No Brasil, tanto como no continente latino-americano, nos últimos anos, também se verificou um aumento no número de jovens na faixa etária de 15 a 24 anos, o que representa uma das maiores proporções de jovens na história demográfica brasileira. O principal aumento deu-se na faixa etária de 15 a 19 anos. O aumento do número de jovens também significou o aumento do número de pessoas que procuram trabalho. De acordo com o Censo Demográfico de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem mais de 17 milhões de pessoas com idade entre 15 e 19 anos. Se estendermos a faixa etária até 24 anos, são encontrados mais de 34 milhões de jovens no Brasil. Essa pesquisa revelou que a população economicamente ativa no nosso país compreendia 77 milhões de pessoas com dez anos ou mais de idade, no ano 2000. Se compararmos esse número com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) de 2003, podemos perceber um aumento da população economicamente ativa para cerca de 87 milhões de pessoas. A mesma pesquisa (PNAD), realizada no ano de 2006, já evidencia um total de 97 milhões de pessoas economicamente ativas, dentre as quais 89 milhões estão ocupadas, e por volta de 8 milhões estão desempregadas. De 2000 a 2006, a população economicamente ativa do Brasil cresceu de 77 milhões para 97 milhões – aumento de 25% em seis anos. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio de 2006, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, também revela que existem cerca de seis milhões e novecentos mil jovens com idade entre 15 e 19 anos que trabalham. Se estendermos o grupo etário até 24 anos, temos cerca de dezoito milhões de 63 jovens trabalhando, o que representa 20% da população brasileira trabalhadora. A mesma pesquisa, mas no ano de 2003, contabilizou cerca de dezessete milhões de jovens que trabalhavam. No período de três anos, no Brasil, portanto, foram inseridos no mercado de trabalho por volta de um milhão de jovens. Tabela 1: Jovens que trabalhavam no Brasil em 2003 e 2006 Idade 2003 2006 15 a 19 anos 6.500.000 6.900.000 20 a 24 anos 10.500.000 11.100.000 Total 17.000.000 18.000.000 Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – IBGE O mesmo instituto (IBGE), em outra pesquisa, que é realizada mensalmente em seis regiões metropolitanas do Brasil – Pesquisa Mensal de Emprego, que engloba as regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo –, constatou que, no mês de agosto de 2007, em comparação ao mesmo mês no ano passado, nas regiões pesquisadas, houve um aumento de 390 mil pessoas na população economicamente ativa, elevando seu número para 23,3 milhões. Desse total, em torno de 20%, ou seja, 4,5 milhões têm idade entre 15 e 24 anos. Do total da população economicamente ativa das regiões pesquisadas, 21 milhões estão trabalhando e um pouco mais de 2 milhões estão desempregados (à procura de trabalho). Dentre os 21 milhões ocupados, 17% (3,5 milhões) são jovens com idade entre 15 e 24 anos. E entre os desocupados, 47% (940 mil) são jovens nessa mesma faixa etária, e 20% (400 mil) estão em busca do primeiro emprego. 64 Em São Paulo, segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego 2006 da Fundação Seade em convênio com o Dieese, a população economicamente ativa abrange um pouco mais de 10 milhões de pessoas, das quais 8,5 milhões estão trabalhando e cerca de 1,5 milhão estão desempregados. Dentre os ocupados, 2,5% são jovens com idade entre 15 a 17 anos, e 18,2% são jovens com idade entre 18 a 24 anos. Entre os desempregados, 13% têm idade entre 15 a 17 anos, e 33%, entre 18 e 24 anos. Dessa forma, quase 50% dos desempregados de São Paulo têm entre 15 e 24 anos. Tabela 2: Jovens ocupados e desempregados em São Paulo no ano de 2006 Situação Ocupados PEA Jovens (15 a 24 anos) 8.500.000 1.759.000 Desempregados 1.500.000 690.000 Total 10.000.000 2.449.000 % de jovens 20,7 46 66,7 Fonte: Pesquisa de Emprego e Desemprego da Fundação Seade Foi possível notar que a inserção de jovens no mercado de trabalho apresenta algumas características específicas, tanto na América Latina, quanto no Brasil, como também na Inglaterra na época de Marx. Desde o início a mãode-obra jovem está relacionada com fatores determinantes: 1) valor baixo de seu custo e excesso de pessoas dispostas a vender sua mão-de-obra – os jovens, como já foi dito anteriormente, aumentam o número de pessoas disponíveis ao capital; e, pelo fato da mão-de-obra jovem custar menos, ela força o preço da mão-de-obra adulta para baixo. Os jovens podem substituir os adultos no trabalho e muitas vezes podem superar o seu rendimento, porque os jovens teoricamente podem se adequar melhor às tecnologias associadas ao uso do computador, 65 utilizadas, atualmente, na maioria das empresas. O valor baixo associado ao trabalho do jovem pode estar ligado ao seu caráter supostamente educativo, pois o jovem, além de contribuir para a empresa, também está recebendo, em troca, formação profissional. Nesse caso, seu salário dá-se, metade em dinheiro e metade em experiência. 2) informalidade e precariedade do trabalho: os jovens, na grande maioria ocupam postos de trabalho informais, ou seja, sem a proteção das leis trabalhistas. Isso barateia seu custo de contratação, diminui o compromisso do patrão com o jovem empregado e o torna flexível, senão descartável. É muito fácil contratar e demitir um jovem que mantém um contrato de trabalho informal. A legislação que rege o trabalho juvenil no Brasil contém os elementos que viabilizam essa situação. No Brasil, desde a década de 1930, existe uma legislação que estabelece as condições para o trabalho de menores. Em novembro de 1932, o presidente Getúlio Vargas criou o primeiro decreto especificando regras para a contratação de jovens pela indústria. Esse decreto estipulava a proibição de trabalho aos menores de 14 anos de idade. O decreto de 1932 apontava a relação do trabalho juvenil com a escola. Dessa maneira, de acordo com a lei daquela época, os donos de indústria que possuíam jovens trabalhando em sua produção, os quais, por sua vez, deveriam estar localizados onde havia uma escola dentro do raio de um quilômetro, deveriam conceder aos menores analfabetos o tempo necessário à freqüência da escola. Aqui, podemos entender que o trabalho era visto como um obstáculo ao desenvolvimento dos jovens, considerando-se mais importante freqüentar a escola. 66 É compreensível pensarmos que a necessidade da imposição de uma lei decorre de um mau uso, ou um uso exagerado, de certas circunstâncias. No caso em questão, o trabalho dos jovens. Os donos de indústria tiveram que ser obrigados a deixar os jovens estudarem. Em 1975, o então presidente do Brasil, Ernesto Geisel, através do Decreto no. 75.778, dispôs sobre o estágio de estudantes de ensino superior e de ensino profissionalizante de 2º Grau. Essa foi a primeira vez que apareceu na legislação brasileira a condição de estágio, diferenciando o trabalho adulto do trabalho do jovem. Porém, os estágios somente podiam ser realizados no Serviço Público Federal. Com o decreto de 1975, o trabalho juvenil passou a ser reconhecido como estágio; mas podiam ser estagiários somente aqueles que eram estudantes. Novamente fica enfatizada a implicação da educação com o trabalho dos jovens. Porém, a preocupação aparente com a formação dos jovens – e, há de se pensar, também com suas necessidades – é contraposta à retirada do vínculo empregatício, que retira os direitos garantidos ao trabalhador pela Consolidação das Leis Trabalhistas, que fora instituída em 1943. Se os trabalhadores precisam de leis para que lhe sejam assegurados um mínimo de benefícios, como pensar a questão do estágio, que, por lei - nesse momento, ainda um decreto – não garante esses benefícios, ou direitos mínimos? Dessa maneira, o estágio vinculava-se à educação, pelo fato de os jovens estagiários serem estudantes, e diferenciava-se do trabalho adulto, pela falta de benefícios e direitos. As denominações de estudante e estagiário parecem ocultar a de trabalhador. 67 O presidente Ernesto Geisel também foi o criador da primeira Lei de Estágio. A Lei no. 6.494, editada em 1977, dispunha sobre os estágios de estudantes de ensino superior e de ensino profissionalizante de 2º Grau. Na citada lei, foram incorporados os estudantes de curso Supletivo, e agora não só o Serviço Público Federal poderia contratar jovens estudantes trabalhadores, mas também as pessoas jurídicas de Direito Privado e as Instituições de Ensino poderiam contratá-los. Essa Lei vigora até hoje, apesar de ter sofrido algumas regulamentações durante o tempo. A Lei editada em 1977 também traz a relação do trabalho juvenil com a questão da formação do jovem (Estágio X Educação): Os estágios devem propiciar a complementação do ensino e da aprendizagem a serem planejados, executados, acompanhados e avaliados em conformidade com os currículos, programas e calendários escolares, a fim de se constituírem em instrumentos de integração, em termos de treinamento prático, de aperfeiçoamento técnico-cultural, científico e de relacionamento humano (Lei Federal 6.494, Art. 1º, Parágrafo 2º). Fica evidenciada uma concepção de educação para o trabalho. A escola e a educação que o jovem nela recebe são entendidas como preparação e qualificação para o mercado de trabalho. Trabalhando, ou melhor, estagiando, os jovens aperfeiçoam-se e qualificam-se para que, depois que terminem os estudos, possam vender melhor sua força de trabalho. Melhor para quem irá comprá-la! Isso reforça o caráter ideológico do trabalho, em que a atividade do trabalho é entendida como princípio educativo. A Lei de 1977 também enfatiza o fato de o estágio não criar vínculo empregatício. Dessa maneira, os jovens são mantidos fora da rede de direitos que a CLT garante aos trabalhadores. 68 É interessante fazermos uma diferenciação entre o jovem empregado e o jovem estagiário. O jovem empregado tem assegurado todos os direitos trabalhistas previstos em lei, tais como salário-mínimo, carteira assinada, etc. E apesar de o jovem não ter a obrigação de estar estudando, a duração de sua atividade deve sempre permitir uma efetiva freqüência às aulas, sendo o empregador obrigado a conceder-lhe o tempo que for necessário à sua formação escolar. Já o adolescente estagiário, cuja atividade é regulamentada e disciplinada pela Lei Federal no. 6.494, tem a obrigação de estar estudando e deve estar, necessariamente, cursando o ensino médio ou o ensino superior. Nesta hipótese, a atividade profissional apenas complementa, na prática, a formação teórica escolar, não estabelecendo vínculo empregatício e nem gerando os direitos trabalhistas e previdenciários (cf. Cruz Neto & Moreira, 1998). No que diz respeito ao valor do salário e à carga horária de trabalho, o valor da bolsa-estágio é definido por livre acordo entre as partes, e a jornada de trabalho do estagiário é livre, desde que não prejudique a sua freqüência às aulas. No ano de 1990, foi estabelecida a Lei no. 8.069, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e também estabelece condições ao trabalho juvenil. A Lei no. 8.069/90 institui a proibição de trabalho a menores de 14 anos e possibilita um modo diferente do estágio para a contratação de jovens: a condição de aprendiz. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, considera-se aprendizagem a formação técnico-profissional ministrada segundo as diretrizes e bases da legislação de educação em vigor. Ao jovem deve ser garantido o acesso e a freqüência obrigatória à escola, o exercício de atividade 69 compatível com o desenvolvimento do adolescente, bem como horário especial para o exercício dessas atividades. Diferente da Lei de Estágio no. 6.494, a Lei no. 8.069 assegura ao jovem aprendiz maior de quatorze anos os direitos trabalhistas e previdenciários. Em consonância com o Estatuto da Criança e do Adolescente, há também a Lei no. 10.097, do ano 2000, conhecida como Lei da Aprendizagem, que altera dispositivos da Consolidação das Leis Trabalhistas que dizem respeito ao trabalho juvenil. A Lei da Aprendizagem (10.097) proíbe o trabalho a menores de quatorze anos e estabelece ao menor aprendiz a garantia do salário-mínimo-hora. Ela também estipula os limites de contratação de jovens por empresas, que pode ser de no máximo 15% dos trabalhadores existentes em cada estabelecimento, bem como os limites da jornada de trabalho, que pode ser de até oito horas diárias. Foi possível constatar que os jovens enfrentam dificuldades ao ingressarem no mercado de trabalho. Há uma contradição entre os estímulos e incentivos que levam o jovem a procurar trabalho e os obstáculos e restrições que se colocam à frente desse objetivo. Agora, interessa inquirir como os próprios jovens enxergam a situação do trabalho juvenil no Brasil. A partir das pesquisas de Freire (2003), Meneses (2007), Branco (2004) e Mesquita (2006), é possível identificar o modo como o trabalho é visto pelos jovens, seu significado e importância. Em sua pesquisa, Freire (2003) abordou o tema trabalho juvenil ao tomar como objeto os processos de formação cultural da juventude, com o intuito de identificar o grau de adaptação dos jovens aos padrões sociais estabelecidos, bem como reconhecer suas possíveis formas de expressão autônomas. Ao investigar as opiniões dos jovens sobre os temas que constituem sua realidade 70 social, Freire (2003) constatou que eles reconhecem a dificuldade de conseguir o primeiro emprego e colocam a preocupação e incerteza quanto ao futuro no centro da discussão sobre o tema trabalho. A autora aponta a preocupação dos jovens com a falta de oportunidades no mercado de trabalho e a dificuldade que têm para compreenderem os mecanismos sociais que geram as restrições no campo profissional. Conforme sua análise, Freire (2003) pondera que o trabalho aparece como preocupação por meio do tema desemprego. Segundo a autora, os jovens associam a desqualificação profissional à má formação escolar e vêem a relação entre poder aquisitivo e escola como determinante quando se trata de trabalho. Os jovens que fizeram parte de seu estudo identificam as desvantagens de quem pertence às camadas sociais mais pobres. A autora conclui o exame do tema enfatizando a relação, descrita pelos próprios jovens, entre a escola e o trabalho e a constatação de que, tanto em um quanto em outro, eles não se sentem incluídos nos mecanismos de favorecimento e não desfrutam de lugar cômodo na dinâmica das relações sociais. A visão dos jovens sobre o trabalho também é evidenciada na pesquisa de Meneses (2007), que, ao estudar a relação entre formação e trabalho sob a ótica de jovens estudantes trabalhadores de camadas populares, levantou pontos importantes a respeito dessa temática. Assim como Freire (2003), Meneses (2007) empenhou-se em identificar o grau de adaptação dos jovens ao sistema estabelecido e evidenciou que, na visão dos jovens sobre o trabalho, prevalecem valores que indicam concordância à lógica administrada pelo capital. De acordo com a autora, existe uma contradição entre a possibilidade de o trabalho representar um processo de formação pessoal que possa conduzir à constituição de atitudes de autonomia do pensamento e o fato concreto que faz da situação 71 social, mais especificamente financeira, o fator primordial para o encaminhamento do jovem ao mercado de trabalho e que força o jovem a se adaptar às exigências impostas por esse mercado. Meneses (2007) ainda demonstra que o jovem trabalhador estudante das camadas populares concebe o trabalho de forma contraditória, pois, ao mesmo tempo que ele critica as condições de trabalho existentes, não deixa de defender os valores da sociedade administrada. Ao negar as diferenças no trabalho, discordarem das atitudes de subserviência e da condição de não ser possível demonstrar inteligência e criatividade na maioria dos trabalhos, concordarem que o mercado de trabalho oferece chances iguais para todos e darem maior valor às atividades intelectuais em detrimento do trabalho físico, os jovens investigados pela autora posicionam-se conforme a ideologia da sociedade industrial. Branco (2004) apresenta dados de pesquisa realizada pelo Projeto Juventude no ano de 2003, que também coloca em evidência a perspectiva do jovem sobre o trabalho. A pesquisa mencionada questionou, por meio de uma avaliação feita pelos próprios jovens, o que é bom e o que é ruim na condição juvenil. Também foi averiguado aquilo que mais exerce preocupação sobre eles atualmente. O autor atenta ao fato de o trabalho não estar incluído na lista das principais vantagens existentes em ser jovem, mas, pelo contrário, representar, ao lado do quesito segurança, a maior preocupação dos jovens na atualidade. Do total dos jovens participantes da referida pesquisa, mais da metade (52%) apontaram o tema emprego/profissional como maior problema a ser enfrentado. Para Branco (2004), basta o jovem olhar para o seu dia-a-dia para que se sinta atingido pela crise que abala o mercado de trabalho; ou então, basta que olhe ao seu redor para identificar nos membros um pouco mais velhos de sua família 72 esses receios se materializando. Contudo, o autor conclui sua análise asseverando que, não é pelo fato de o jovem preocupar-se com o trabalho, que o certo é encaminhá-lo para o trabalho. Faz-se preciso a criação de políticas que desestimulem a entrada do jovem no mercado de trabalho. Mesquita (2006) ao estudar o problema do desemprego dos jovens e as políticas públicas que visam combatê-lo, realizou uma pesquisa com jovens da região de Campinas, que faziam parte do cadastro do CIEE – Centro de Integração Empresa-Escola7. Os jovens entrevistados por Mesquita (2006) foram inquiridos sobre quais os motivos que os levaram a procurar um trabalho – no caso desses jovens que eram participantes do cadastro do CIEE, a procurar um estágio. Também foram investigadas as impressões dos jovens sobre o estágio. De acordo com os resultados obtidos por Mesquita (2006), a maior parte dos jovens entrevistados considera o estágio importante na medida em que era um meio de adquirir experiência profissional. Segundo os jovens, a experiência adquirida no estágio tornaria mais fácil a conquista de um emprego no futuro. Mesquita (2006) também destaca que boa parte dos jovens entrevistados aponta que o estágio auxilia no crescimento profissional, pois cria elementos de aprendizagem relacionados com a prática e o cotidiano das empresas. Outro ponto relevante que foi evidenciado pelo autor diz respeito à parcela dos jovens que enfatizaram o estágio como um meio dos jovens se qualificarem e serem bem vistos pela sociedade. Os jovens participantes da pesquisa realizada por Mesquita (2006) também apontaram a renda como um dos determinantes para o ingresso no mercado de trabalho. 7 Esse mesmo centro de integração também foi alvo de investigação da presente pesquisa. 73 Em todos os estudos apresentados, o tema trabalho aparece para os jovens como uma preocupação e um mundo de desvantagens que mais cedo ou mais tarde terão de enfrentar. É interessante destacarmos que o trabalho só aparece como objeto central na opinião dos jovens, na forma de desemprego. Com isso, podemos inferir que o trabalho ideal, atento aos anseios dos jovens, parece estar distante da possibilidade de ser alcançado. 74 3. O CIEE – Centro de Integração Empresa Escola Para atingirmos o objetivo desta pesquisa, foi realizado também um estudo com o CIEE – Centro de Integração Empresa-Escola. O CIEE é o maior órgão responsável pelo encaminhamento de jovens ao mercado de trabalho no Brasil e, por isso, faz-se importante fonte de informações para quem quer estudar o tema do trabalho juvenil. Esta parte da pesquisa foi realizada com base nas respostas obtidas por meio de um questionário que fora respondido por um profissional do CIEE8. O questionário abordou o modelo de funcionamento do CIEE – em especial do seu programa de estágio – e tentou obter informações sobre o trabalho juvenil, da perspectiva de quem os encaminha ao mercado. Além disso, o questionário também procurou levantar algumas questões que diziam respeito à impressão dos próprios jovens sobre o trabalho, inquirindo o profissional do CIEE sobre pesquisas realizadas pela instituição, com os jovens que trabalham. O questionário continha 71 perguntas subdivididas em três sessões: a) perguntas destinadas à coleta de informações sobre a instituição CIEE e seu funcionamento em geral; b) questões com as quais se pretendia investigar especificamente o programa de estágio do CIEE; c) perguntas que deveriam ser respondidas com dados obtidos pelo CIEE por meio do seu serviço de acompanhamento de estágio. O questionário foi encaminhado a um superintendente da instituição, que, com a ajuda de uma assessora de imprensa, respondeu somente algumas das questões por mim formuladas. Mesmo assim, temos material suficiente para 8 O contato que estabeleci no CIEE, conseguiu marcar uma entrevista pessoal somente para o dia 29/03/2008, o que dificultou um pouco a minha coleta de informações sobre a instituição, visto que o prazo para o depósito dos volumes foi 31/03/2008. No entanto, pela minha insistência, o meu questionário foi enviado para a sua assessora, que respondeu boa parte das perguntas, sem muitos detalhes, mas contendo a visão do CIEE sobre o trabalho juvenil. 75 atingirmos o objetivo principal desta pesquisa, que é o de verificar a atual situação da inserção dos jovens no mercado de trabalho principalmente no que diz respeito às suas possibilidades de formação e resistência aos mecanismos sociais impostos pela sociedade hodierna. O portal do CIEE na Internet 9 também serviu de fonte de informações para esta parte da pesquisa. Com o objetivo de apresentar melhor os dados obtidos, este tópico foi subdividido em itens. Cada item traz as informações colhidas na instituição – tanto pelo portal na Internet, como pelo questionário – e contém a discussão de um tema específico que foi alvo da nossa investigação. a) História do CIEE O Centro de Integração Empresa-Escola foi criado há mais de quarenta anos, no dia 24 de março de 1964. Conforme os dados da instituição, um grupo de empresários e educadores aceitou o desafio de realizar um ideal comum: possibilitar aos jovens estudantes brasileiros uma formação integral, proporcionando a eles o exercício prático da futura profissão e, assim, estimular sua inserção no mercado de trabalho. Os empresários envolvidos na criação do CIEE pertenciam, em sua maioria, ao Grupo Ultra, um importante conglomerado empresarial com destacada atuação no setor de gás combustível e petroquímica; tinham também grande influência política, pois muitos deles eram presidentes de grandes empresas e 9 www.ciee.org.br 76 ocupavam cargos de prestígio no governo da época. Ainda hoje, diversos diretores conselheiros do CIEE são executivos de renome que ocupam cargos importantes em grandes empresas e associações, como a FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Das informações acima, faz-se necessário registrar que, em março de 1964, também teve início no Brasil, a ditadura militar. Mesmo não tendo elementos concretos que determinem uma relação direta entre essa situação e a criação do CIEE, não podemos deixar de lado o contexto histórico da época. Aqui, também aproveitamos para mencionar que a Lei de Estágio também foi criada sob a égide da ditadura. O período da ditadura militar foi um período de grande crescimento econômico, e a repressão brutal convivia com altas taxas de crescimento. E foi nessa época que os jovens passaram a ser inseridos no mercado de trabalho. O CIEE denomina-se uma associação filantrópica de direito privado, sem fins lucrativos, beneficente, de assistência social, reconhecida de utilidade pública e que, dentre vários programas, possibilita aos jovens estudantes brasileiros uma formação integral, fazendo esforços para que ingressem no mercado de trabalho, por meio de treinamentos e de um programa de estágio. O CIEE não fica apenas na esfera do estágio, também promove workshops, oficinas, palestras, feiras e cursos. Esta pesquisa limita-se a analisar especificamente o programa de estágio. O CIEE coloca-se como uma entidade disposta a exercer o papel de agente de integração, atuando em parceria com organizações empresariais, órgãos públicos e instituições de ensino. Mesquita (2006) aponta que, apesar de ser considerado uma ONG (Organização Não Governamental), devido à atual conjuntura em que os 77 empregos estão cada vez mais difíceis, o CIEE transformou-se em uma bemsucedida empresa de intermediação de mão-de-obra, tendo que adotar um sistema de racionalidade semelhante ao de uma empresa privada, para poder atender as demandas provenientes das necessidades das empresas e dos jovens com relação ao estágio. O autor pondera que uma ONG atua na promoção de uma causa, com o objetivo de contribuir para algumas ações da sociedade. Também destaca que juridicamente o termo ONG não se aplica à legislação brasileira, que prevê apenas dois formatos para uma organização financeira sem fins lucrativos: associação civil ou fundação privada. Desta maneira, segundo Mesquita (2006), toda ONG é uma organização privada não lucrativa, mas nem toda organização privada não lucrativa é uma ONG. Conforme as informações da instituição obtidas por meio do questionário, o maior objetivo do CIEE é encontrar, para os estudantes de nível médio, técnico e superior, uma oportunidade de estágio que os auxiliem a colocar em prática tudo o que aprenderam na teoria. Ainda segundo as informações prestadas, o aspecto mais relevante para a criação do CIEE foi a falta de mão-de-obra qualificada nos diversos setores da economia. De acordo com o CIEE, ainda hoje essa é uma preocupação constante, pois estamos em uma época onde o desenvolvimento tecnológico acontece rapidamente. Além disso, na visão do CIEE, faltava ao jovem embasamento prático às teorias que ele encontrava na sala de aula. Essas informações carregam a idéia de que a educação deve estar voltada para o trabalho. Na escola, aprende-se a teoria necessária para atender as exigências do mercado. É oportuno evidenciarmos a observação feita pelo profissional do CIEE de que o principal aspecto para sua criação foi a falta de mão-de-obra qualificada em diversos setores da economia. Podemos inferir que, 78 mesmo argumentando em favor das necessidades dos jovens, esse aspecto motivador da criação do CIEE parece atender às exigências do mercado. O argumento de que os jovens têm de colocar em prática o que aprendem na escola, além de conter um conteúdo ideológico que confere à educação um status de preparação para o mercado de trabalho, justifica a demanda do mercado. Outro ponto interessante, já destacado anteriormente nesse estudo (cf. p.42), é o fato de a utilização da mão-de-obra jovem estar relacionada com a capacidade desse segmento da classe trabalhadora de se adaptar às novas tecnologias. Foi assim à época de Marx (1987), com a implementação das máquinas no setor produtivo, e ainda hoje se faz presente, conforme o relatório da OIT (2007), com a melhor adaptação dos jovens aos computadores. Segundo o profissional do CIEE, a instituição foi criada para atender tanto os interesses do jovem – busca de qualificação profissional e oportunidade no mercado de trabalho –, como os interesses da empresa, que disputa essa mãode-obra qualificada e os profissionais mais preparados para o dia-a-dia do mercado. O CIEE argumenta que foi criado para atender tanto as demandas dos jovens quanto das empresas, pois assim como há jovens que, na maior parte dos casos, nunca trabalharam e precisam de um mínimo de experiência para ingressar no mercado, há empresas que precisam de mão-de-obra qualificada para suas operações. Percebemos que, nessas razões apresentadas pelo CIEE, o interesse do jovem no trabalho diz respeito somente às possibilidades de se “qualificar” para poder ter mais oportunidades de trabalho. O CIEE não aponta o estágio como possibilitador, para o jovem, de um crescimento pessoal ou estudantil, mais voltado para a formação humana, mas, sim, para algo direcionado a formar certos 79 modelos de comportamentos que irão ajudá-lo a se adequar melhor aos processos do trabalho e, com isso, ter mais chances profissionais. Pode-se enfatizar que a qualificação profissional e a busca por um bom cargo são elementos aprovados socialmente, que representam na sociedade capitalista a inclusão. Contudo, a inclusão dos jovens dá-se de maneira desfavorável a eles e parece estar mais relacionada com a impossibilidade de se afirmarem na sociedade de outra forma do que com o real desejo de ter uma carreira profissional. b) Programa de Estágio Conforme as informações contidas no questionário respondido pelo representante da entidade, como também as obtidas no portal eletrônico, após mais de quarenta anos de criação, o CIEE, hoje, se dispõe como uma das maiores organizações não-governamentais (ONGs) do país, sendo referência quando se trata de estágio e treinamento de estudantes. O CIEE empenha-se em conseguir as melhores oportunidades de estágio para os estudantes e, com isso, busca alcançar um ideal maior: a inclusão do jovem, a consolidação da cidadania e o desenvolvimento da sociedade brasileira. Mais uma vez evidencia-se no discursso da instituição o fato de o trabalho representar uma via de inclusão do jovem na sociedade. No entanto, da maneira como se organiza a atual situação da inserção do jovem no mercado de trabalho, essa inclusão, apesar de criar uma identificação com a sociedade e conferir certo prestígio aos sujeitos, fortalece os elementos que mantêm as condições que lhes 80 são desfavoráveis. Oportuno também é dizer que, no trabalho, também se fortificam os pensamentos e modelos de comportamentos necessários à adaptação social. Segundo as informações obtidas, o CIEE: planeja, coordena e realiza todas as etapas para o desenvolvimento de um adequado programa de estágio; faz o cadastramento e o encaminhamento dos jovens às vagas de estágio; realiza o acompanhamento integral do estágio e providencia o Termo de Compromisso de Estágio, que estabelece todas as condições do estágio, assinado pelo estudante, pela escola e pela empresa. O programa de estágio é aberto a alunos regularmente matriculados que freqüentem efetivamente cursos vinculados à estrutura do ensino público e particular, de educação superior, de educação profissional, do ensino médio e de educação especial, aceitos por pessoas jurídicas de direito privado, órgãos da administração pública e instituições de ensino, para o desenvolvimento de atividades relacionadas à sua área de formação. Os jovens podem se inscrever pela Internet, onde o interessado faz gratuitamente seu cadastro, ou, ainda, pode ir pessoalmente a uma unidade do CIEE em várias cidades do Brasil, além de postos de atendimento em universidades e escolas. Ainda de acordo com as informações fornecidas pelo CIEE, obedecendo aos aspectos legais, qualquer empresa pode participar do programa de estágio, e não há restrição quanto ao ramo de atividade ou ao porte que possuem. Havendo interesse, o empresário pode oferecer oportunidades de estágio. No programa de estágio do CIEE, cada empresa é livre para decidir quantas vagas vai oferecer em um programa de estágio. Faz-se digna de atenção uma reflexão sobre a liberdade das empresas poderem contratar quantos estagiários quiserem. Lembro-me de que no Programa 81 Jovem Cidadão (no qual eu trabalhei), o limite ao número de estagiários que podiam ser contratados pelas empresas (cf. p. 2), era necessário para evitar a substituição da mão-de-obra adulta pela mão-de-obra jovem. Os diversos motivos que “justificam” essa troca foram evidenciados no corpo deste estudo, mas aqui podemos dar destaque ao menor custo e à maior flexibilidade da mão-de-obra jovem, que, nos tempos de reestruturação produtiva, favorecem aos interesses das grandes empresas e corporações (cf. p. 44 e 45). Nesse caso, ao não criar uma regulamentação sobre esse assunto, o CIEE pode ser usado de forma ardilosa por empresas que se preocupam somente com o lucro. O CIEE informa que, quando uma empresa cria uma vaga, ela decide os critérios de seu preenchimento. De acordo com a instituição, as empresas levam em consideração a idade, a escolaridade e o local onde o estudante vive. O CIEE, pelo fato das empresas poderem utilizar os critérios que mais julgarem necessários para a seleção dos estagiários, disponibiliza material e técnicas que auxiliam o jovem a criar um currículo profissional, a vestir-se adequadamente e a comportar-se adequadamente em uma entrevista. Merece atenção novamente a ênfase dada a certos modelos de comportamentos necessários para a inserção no mercado de trabalho. Marcuse (1968) assevera que o trabalho exige a conformação a um determinado modelo de comportamento que se estende para além do tempo e do ambiente de trabalho. O “vestir-se adequadamente” ensinado pelo CIEE induz o jovem a uma identificação com os produtos da indústria cultural, que, conforme Adorno (1985), é responsável por moldar e reproduzir os espíritos que determinam e corroboram as atuais condições da sociedade. A indústria cultural está calcada no modelo de comportamento necessário para a manutenção da divisão social de classes. Os 82 programas de televisão, o cinema, o rádio, etc. transmitem os conteúdos ideológicos que se fazem presentes no mercado de trabalho. Na televisão, existe até um reality show10 onde o campeão de uma competição que reúne todos os elementos necessários para a adaptação ao mercado de trabalho recebe como prêmio, ao final do programa, um emprego em uma grande empresa. O programa de estágio do CIEE no território nacional encaminhou para oportunidades de estágio, desde a sua fundação até o ano de 2005, 6 milhões de jovens. No ano de 2004, segundo o relatório de atividades da instituição, 600 mil estudantes foram encaminhados para oportunidades de estágio, mais de 220 mil empresas estavam cadastradas no CIEE, e aproximadamente 13.500 instituições de ensino atuavam em parceria com a instituição. De acordo com o relatório de atividades do ano de 2005, nesse ano, 840 mil jovens foram encaminhados para oportunidades de estágio. Um aumento considerável de 240 mil jovens em um ano. Os dados acima revelam a dimensão do fenômeno estudado, que, por suas proporções numéricas, reivindica atenção. A inserção em massa dos jovens em um mercado de trabalho que não está estruturado para a criação de novos postos de ocupação, ocasiona a desvalorização da mão-de-obra adulta, pois, com o aumento da concorrência e do exército reserva de trabalhadores, eles são obrigados, assim como os jovens, a aceitarem empregos precários, informais e mal remunerados. Atualmente é melhor ter um trabalho qualquer do que não ter qualquer trabalho. Também merece realce o fato de que as medidas que visam a inserção dos jovens no mercado de trabalho são instituídas por programas que, por não serem acompanhados de políticas públicas eficientes, não melhoram e 10 Tipo de programa de televisão onde os participantes não são atores, ou contratados, mas pessoas que se inscrevem para concorrer a algum prêmio. 83 até podem piorar o problema. Os programas de estágio, com seus argumentos laudatórios, mostram-se mais eficientes em disseminar alguns ideais – como, por exemplo, o status conferido pelo trabalho ou a necessidade de o jovem inserir-se rapidamente no mercado em busca de qualificação – do que em realizar as verdadeiras mudanças estruturais que melhorariam, não só a vida dos jovens, mas a de toda a sociedade. Com relação à carga horária dos estágios mediados por seu programa, o CIEE argumenta que, pela legislação vigente, não há carga horária máxima permitida para o estágio. A exigência é que o horário do estágio não conflite com o horário escolar. O CIEE recomenda que a jornada diária não ultrapasse o máximo de oito horas diárias, para que seja admitida uma margem de tempo para locomoção e refeição, sem prejuízo dos compromissos escolares. É preciso enfatizar que o limite recomendado pelo CIEE é compatível com o horário do trabalho dos adultos (normalmente 40 horas semanais). Uma regulamentação sobre esse quesito poderia ser útil no impedimento da má utilização da mão-de-obra jovem. Em abril de 2004, o jornal Folha de São Paulo apresentou uma matéria que dizia respeito ao mercado de trabalho para jovens. A notícia principal trazia a informação de que os estágios estavam desvirtuados e que estavam sendo utilizados para suprir mão-de-obra efetiva nas empresas. Também colocava em questão a necessidade da reformulação da Lei de Estágio e a implantação de algumas regulamentações, inclusive com relação à carga horária máxima permitida ao estágio. Na opinião de um grupo interministerial formado por membros do Ministério do Trabalho e Emprego, da Previdência e da Educação, inquiridos sobre o assunto, o ideal seria uma jornada máxima de vinte horas semanais. Já o presidente do CIEE defendeu a idéia de que devem ser 84 mantidas cargas horárias sem limitações, para não prejudicar o rendimento dos jovens. O rendimento ao qual ele se refere é exclusivamente de ordem econômica. No que diz respeito ao valor do salário oferecido aos jovens, o CIEE diz que inicialmente o estágio não precisa ser remunerado. Porém, a instituição esclarece, que conforme previsto na própria legislação, o estagiário pode receber uma bolsa-auxílio para a cobertura parcial de seus gastos escolares e pessoais. O CIEE recomenda o pagamento de bolsa-auxílio mensal ao estagiário, uma vez que a grande maioria dos estudantes necessita de recursos financeiros para continuar seus estudos. Para auxiliar as empresas na configuração da oportunidade de estágio, o CIEE apresenta a média de bolsa-auxílio praticada pelas empresas conveniadas. No entanto, cabe à empresa definir o respectivo valor. Nesse estudo evidenciamos que o baixo valor da mão-de-obra juvenil (cf. p. 7) contribui para a situação precária em que os jovens são estimulados a ingressar no mercado de trabalho. Também é importante destacarmos que, às vezes, o dinheiro recebido por meio da bolsa-auxílio é a única chance que o jovem tem de continuar seus estudos. Conforme Frigotto (2006), isso demonstra como as medidas adotadas para a inserção do jovem no mercado de trabalho são contraditórias, pois se apresentam necessárias ao mesmo tempo em que são insuficientes. O programa de estágio do CIEE pauta-se pela legislação específica do estágio: a Lei 6.494/77. 85 c) Estágio O estágio, segundo o CIEE, é uma das ferramentas mais eficazes no sentido de atender tanto a demanda dos jovens, quanto a das empresas, pois oferece a prática dentro da própria empresa. A empresa recebe um jovem interessado em crescer e aprender e que também pode ser moldado de acordo com os interesses da corporação. Ainda de acordo com o CIEE, o estágio propicia ao estudante o contato com a realidade da profissão – é a união entre a teoria e a prática. Além disso, o estágio propicia aos jovens um diferencial muito importante nos dias de hoje: a experiência. Destaca ainda a criação e a manutenção de contatos importantes no meio do trabalho. É interessante percebemos que, nas informações obtidas no CIEE sobre o estágio, não são mencionadas qualidades que remetam às questões relacionadas ao desenvolvimento pessoal ou intelectual dos jovens. O ponto constantemente ressaltado é a necessidade que o jovem tem de adquirir experiência – e aqui também não se faz referência se a experiência adquirida deve estar relacionada com as aptidões e interesses dos jovens. O jovem tem que trabalhar para conseguir trabalho. Outra questão evidenciada é a oportunidade que a empresa tem de moldar o jovem de acordo com os interesses da corporação. Destacamos, na primeira parte dessa pesquisa, que as empresas, na sociedade capitalista, só se importam com os próprios ganhos. Isso nos faz inferir que, na formação destinada aos jovens pelas empresas, as demandas dos sujeitos para um melhor desenvolvimento de suas aptidões são colocadas em segundo plano. O CIEE acompanha o jovem em todos os períodos de seu estágio, pois, segundo o órgão, não basta colocá-lo dentro de uma empresa sem mensurar seu 86 desempenho ou ajudá-lo em sua formação. Por isso, o CIEE aplica uma série de questionários para que o estudante e a empresa exponham o dia-a-dia. Todo estagiário recebe um contrato devidamente assinado pela escola, pelo CIEE e pela unidade que oferece o benefício. O jovem recebe uma cartilha contendo as principais diretrizes do estágio, dicas, seus deveres e direitos. Durante a vigência do estágio, o CIEE desenvolve processos de acompanhamento para subsidiar a empresa e as instituições de ensino, com informações básicas que garantem que os aspectos legais e técnicos do programa de estágio serão cumpridos. Esse acompanhamento dá-se por meio de confirmação da regularidade da situação escolar dos estagiários junto às respectivas instituições de ensino; recebimento e análise dos relatórios de estágio, preenchidos pelos estagiários e acompanhamento in loco, por meio de reuniões com os estagiários, previamente agendadas com empresas concedentes do estágio. Segundo o questionário respondido pelo representante do CIEE, os motivos que levam uma empresa a contratar um estagiário são: a certeza de que o estágio permite o cumprimento de seu papel social, ajudando a formar as novas gerações de profissionais que o país necessita; o estágio antecipa a preparação e a formação de um quadro qualificado de recursos humanos e permite a descoberta de novos talentos, preparando a empresa para o futuro; o estágio cria e mantém um espírito de renovação e oxigenação permanentes, proporcionando um canal eficiente para o acompanhamento de avanços tecnológicos e conceituais; e o CIEE, por ser um eficiente sistema de recrutamento e seleção de novos profissionais, reduz o investimento de tempo, de meios de trabalho e de salários a que está sujeita a empresa quando contrata profissionais recémformados ou sem prática, permitindo, assim, ampliar ou renovar seus quadros 87 funcionais, técnicos e administrativos, com custos reduzidos; a isenção de encargos sociais e trabalhistas, decorrentes da não vinculação empregatícia. As empresas não se preocupam em apontar a redução de custos como uma das principais razões para se contratar um jovem estagiário. No material colhido no CIEE, segundo as empresas, não existem motivos que trazem como justificativa o bem que o estágio faz aos jovens ou a contribuição para a sua formação pessoal. Talvez porque as empresas realmente constatem que a inserção do jovem no mercado de trabalho não se relaciona com tais motivos. Para os empresários, o estágio “ajuda” o país e as empresas, mas não os jovens. O CIEE afirma que os jovens procuram se inserir no mercado de trabalho por saberem que a experiência oriunda do estágio é importante para sua carreira profissional. Ainda, segundo as informações do CIEE, para os jovens, a bolsaauxílio também é um importante quesito na busca de um estágio. Da mesma forma que as empresas, os jovens não expõem motivos para justificar a sua inserção no mercado de trabalho que se relacionem com o desenvolvimento intelectual ou estudantil do jovem. Mais uma vez, constata-se que o papel do estágio na vida dos jovens é o de adaptá-los a um modelo de comportamento conveniente ao mercado e que os impulsiona na carreira profissional. Os jovens também não escondem as suas razões econômicas para quererem estagiar e revelam que o dinheiro recebido pelo trabalho também influencia na decisão de ingressar no mercado de trabalho. De acordo com o questionário, para o CIEE, o estágio melhora o relacionamento dos jovens com seus professores. Por meio de uma pesquisa, o órgão entrevistou 478 jovens inscritos em seu banco de dados e constatou que mais da metade deles davam nota de sete a dez para seus professores. Dentre 88 diversas razões para o fato, a pesquisa do CIEE destacou as seguintes: a impressão que os jovens têm de que seus professores são pessoas bem “antenadas” com a atualidade; a influência dos professores na decisão da carreira profissional; e o estágio representar algo de positivo na visão dos professores, que fornecem dicas de relacionamento e postura aos jovens. As pesquisas do CIEE também indicam que, na opinião dos jovens que trabalham atualmente, o estágio contribuiu para a contratação atual. É interessante ressaltarmos a influência que a opinião dos professores exerce sobre os jovens. Os professores também reproduzem a ideologia de que quem trabalha é melhor do que quem não trabalha. Se, para os jovens entrevistados pelo CIEE, aqueles que têm um estágio são vistos de maneira positiva pelo professor, podemos pensar que aqueles que não têm um trabalho são diferenciados e até rebaixados. De novo, os jovens enfatizam a influência do estágio como um facilitador para a obtenção de um trabalho. Conforme levantamentos realizados pelo CIEE, o estágio estimula a continuidade dos estudos. Segundo as informações do questionário, os estudantes pretendem fazer cursos extracurriculares para obter mais qualificação. O pensamento dos jovens é que o pagamento dos cursos extracurriculares será garantido pelo recebimento de salário ou de bolsa-auxílio, graças à pretendida conquista de um emprego ou estágio. O anseio dos jovens em realizar cursos extracurriculares para melhor se qualificarem para o mercado de trabalho demonstra a direção a que a educação está voltada. Os jovens pensam em aprender, na medida em que isso represente maiores chances de se conseguir um trabalho. O dinheiro, nesse caso, é importante, pois possibilita ao jovem a continuidade dos estudos. 89 O CIEE, por meio dos dados obtidos em pesquisas, indica que o estágio melhora a convivência familiar. Os jovens de baixa renda, ao começar a receber a bolsa-auxílio, passam a ajudar no orçamento familiar, o que, segundo a instituição, melhora o relacionamento entre os membros da família. O CIEE considera que a situação financeira afeta as relações familiares. O fator financeiro é um elemento fundamental na inserção dos jovens no mercado de trabalho. O dinheiro ganho por meio de um estágio faz-se importante para os jovens, não somente pele fato de lhes possibilitar o acesso ao consumo dos produtos da indústria cultural, mas também por representar uma estabilidade emocional familiar. A má situação financeira das famílias pode incentivar ou até forçar o jovem a ingressar no mercado de trabalho. As informações do CIEE expostas nesta parte da pesquisa, além de demonstrar a visão sobre o trabalho juvenil (estágio) de um órgão de inserção de jovens no mercado de trabalho, apontou alguns subsídios que exercem influência na decisão de uma empresa em contratar um estagiário, como também os motivos que levam o jovem a querer trabalhar. Podemos enfatizar três pontos importantes: 1) o estágio é importante na medida em que é via para outro trabalho; 2) o dinheiro recebido pela bolsa-auxílio exerce grande influência na decisão do jovem trabalhar, assim como a redução de custos na contratação de um estagiário está entre os principais motivos para uma empresa contratar um jovem; 3) o estágio é responsável por adaptar os jovens a um modelo de comportamento conveniente às exigências do mercado. 90 Considerações Finais Na atualidade, a inserção de jovens no mercado de trabalho está relacionada aos diversos fatores que determinam sua organização e finalidade. Entre esses fatores, o significado do que é trabalhar nos dias de hoje, a relação entre o trabalho e a formação dos sujeitos, bem como a sua relação com os mecanismos de controle impostos pela sociedade, foram considerados essenciais nesta pesquisa para se discutir o tema do ingresso dos jovens no mercado de trabalho, em especial para discutir como a atual situação da inserção no mercado de trabalho exerce influência na vida dos jovens. Desde a época em que eu trabalhava no Programa Jovem Cidadão, observava a necessidade dos jovens em conseguir um trabalho. No Brasil, a inserção dos jovens no mercado de trabalho tem relação com a idéia de que a educação escolar deve estar vinculada aos valores do mercado. A escola apresenta-se como um curso preparatório para o ingresso no mercado de trabalho. Os próprios jovens têm essa visão da escola. Nos estudos apresentados nesta pesquisa, constatamos que os jovens reconhecem as dificuldades e incertezas que estão relacionadas ao mercado de trabalho. Contudo, não deixam de querer conseguir um trabalho, influenciados pelos valores da sociedade administrada e pela necessidade de adaptação social. Para os jovens, o tema trabalho se constitui um universo de preocupações e desvantagens que, mais cedo ou mais tarde, terão que enfrentar. Enquanto nos países desenvolvidos o mercado de trabalho quase não contém a presença de jovens, no Brasil, a cada dia, mais jovens querem ingressar no mercado de trabalho. Entre os motivos que levam o jovem ao mercado de 91 trabalho, destacam-se os relacionados à necessidade de sobrevivência e à formação profissional. O trabalho está intimamente relacionado ao desenvolvimento humano e exerce grande influência sobre os sujeitos. Na sociedade capitalista, ele é utilizado como um mecanismo de dominação social, que transmite os modelos de comportamentos adequados ao sistema produtivo voltado para o lucro e ajuda a reproduzir os ideais que mantêm as condições vigentes que separam a sociedade entre explorados e exploradores. O estágio, apesar de sua legislação tentar diferenciá-lo do trabalho adulto, é um trabalho “comum”. A atual situação do mercado de trabalho – grande número de pessoas desempregadas, entre eles muitos jovens; tendência das empresas a flexibilizarem a mão-de-obra para reduzir custos; e insuficiente criação de novos postos de trabalho – não coloca o estágio em posição diferenciada do trabalho adulto. Com a jornada de trabalho tão intensa quanto a dos adultos e com a atribuição de tarefas aos jovens que pouco se relacionam com os elementos que favorecem seu desenvolvimento pessoal e a constituição de atitudes de autonomia de pensamento, o estágio, por ser trabalho, também é utilizado como forma de dominação social e não favorece a formação do sujeito. O estágio, assim como o trabalho, está voltado a atender aos interesses de uma minoria que detém os meios de produção. As políticas adotadas para a solução dos problemas relacionados à inserção dos jovens no mercado de trabalho mostram-se insuficientes e, às vezes, podem até agravar a situação. O estágio, quando situado dentro da lógica do capitalismo, ao custar mais barato e não possuir regulamentação rígida, favorece os interesses dos donos de empresa. As necessidades de os jovens 92 conseguirem dinheiro e de se adaptarem à sociedade estimulam o ingresso dos jovens no mercado de trabalho. O trabalho significa para os jovens uma via de inclusão, pois o jovem que trabalha é valorizado e bem visto pela sociedade. No entanto, a inclusão é feita de modo a adaptá-los a um modelo de sociedade que, na verdade, favorece a exclusão social. Ao se venderem cada vez mais cedo no mercado de trabalho, os jovens aumentam o número de trabalhadores à reserva do capital e fazem com que as empresas exijam mais qualificação de todos os trabalhadores – que disputam poucas vagas no mercado – mesmo que a citada qualificação seja para a realização de uma tarefa simples e alienada. Desde o início da sua apropriação pelo capital, a força de trabalho juvenil foi marcada por uma desvalorização com relação à mão-de-obra adulta e por piores condições de trabalho. Mediante os fatos que explanam a atual situação do trabalho juvenil, podemos enfatizar os seguintes aspectos: 1) a inserção de jovens no mercado de trabalho caracteriza-se pelo grande numero de jovens que se colocam à disposição do mercado; 2) os jovens querem ingressar no mercado de trabalho para: a) conseguirem dinheiro, tanto para consumirem os produtos da indústria cultural, como também pela necessidade de ajudar a família financeiramente; b) adquirirem experiência profissional que lhes será útil para conseguirem outro trabalho; 3) o estágio é uma via dos jovens, principalmente os que pertencem às famílias com baixo rendimento econômico, serem “incluídos” na sociedade, a qual não oferece outros meios aos sujeitos; 4) as atividades de trabalho dos jovens, inclusive os estágios, concentram-se no setor informal da economia, onde a falta de regulamentação e as piores condições de trabalho, desfavorecem ainda mais os trabalhadores. 93 Com relação à influência na vida dos jovens das atuais condições da inserção de jovens no mercado de trabalho, podemos pôr em evidência: 1) o jovem trabalhador também está sujeito às implicações e exigências do mercado de produção capitalista; 2) o trabalho, na sociedade hodierna, é utilizado como mecanismo de controle social, e nem a legislação diferenciada do trabalho juvenil ou a sua suposta relação com a educação escolar negam essa condição; 3) percebe-se a necessidade que os jovens têm de se inserir no mercado de trabalho para conseguir experiência profissional; 4) no estágio, os jovens aprendem um modelo de comportamento que não favorece o desenvolvimento de atitudes de pensamento autônomo, mas, sim, os moldam para atender aos interesses das corporações, ou seja, uma vantagem de se contratar um jovem, é poder moldá-lo melhor, pois ainda não possui muitas referências sobre o que é o trabalho, ou a vida; 5) a valorização do trabalho coloca em detrimento os objetivos fundamentais da educação escolar, que já não se preocupa com o desenvolvimento das potencialidades humanas, mas serve aos interesses do mercado; 6) a impossibilidade dos sujeitos poderem se manter fora do esquema determinado pela produção capitalista, o que significa que os jovens, que em outras épocas eram vistos como questionadores e revolucionários, agora brigam para serem membros da ordem estabelecida. Concluímos que a atual situação da inserção de jovens no mercado de trabalho influencia negativamente os jovens que se dispõem a serem moldados de acordo com princípios que colocam em segundo plano as pretensões da formação voltada para a autonomia. A inserção dos jovens no mercado de trabalho atende os jovens somente no que diz respeito às suas necessidades 94 imediatas, contribuindo de forma prejudicial para sua formação. O trabalho juvenil, na sociedade capitalista atende às exigências do princípio do maior lucro. Por fim, salientamos que este estudo amplia as discussões sobre a atual situação do trabalho juvenil e pretende contribuir para o entendimento das causas que fazem com que o trabalho não ajude de forma efetiva os jovens. 95 Referências Bibliográficas ADORNO, Theodor. W. Capitalismo tardio ou sociedade industrial. In: Cohn, Gabriel (org.). Sociologia. Tradução de Flavio R. Kothe, Aldo Onesti, Amélia Cohn. São Paulo: Ática, 1986. ___________. Mensagens numa garrafa. 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M. K. Szmrecsányi. 4ª edição. São Paulo: Livraria Pioneira, 1985. 99 Anexo – Questionário respondido pelo representante do CIEE O presente questionário tem como objetivo, colher informações sobre o CIEE e seu programa de estágio. O questionário divide-se em três partes: Parte A, com perguntas destinadas à coleta de informações sobre a Instituição CIEE e seu funcionamento em geral. Parte B, com questões com as quais se pretende investigar especificamente o programa de encaminhamento de estágio do CIEE. Parte C, onde as perguntas devem ser respondidas com dados obtidos pelo CIEE, por meio do seu serviço de acompanhamento de estágio. A. Questões gerais sobre o CIEE – Centro de Integração Empresa-Escola, com o objetivo de entender melhor o que é, e como funciona essa instituição. 1. O que é o CIEE? O CIEE é uma associação filantrópica de direito privado, sem fins lucrativos, beneficente, de assistência social e reconhecida de utilidade pública que, dentre vários programas, possibilita aos jovens estudantes brasileiros, uma formação integral, ingressando-os ao mercado de trabalho, através de Treinamentos e Programas de Estágio. 2. Há quanto tempo existe o CIEE? Foi pioneiro? O CIEE existe e atua já há 43 anos. 3. É de natureza pública, privada, etc.? É uma associação filantrópica de direito privado. 4. Como foi criado? Por quem? E por quê? 100 Há 43 anos, um grupo visionário de professores e empresários, em uma iniciativa pioneira, aceitou o desafio de realizar um ideal comum: possibilitar aos jovens estudantes brasileiros uma formação integral, possibilitando a eles o exercício prático da futura profissão e, assim, estimular sua inserção no mercado do trabalho. Surgiu, assim, o Centro de Integração Empresa Escola - CIEE, uma entidade vocacionada para exercer o papel de agente de integração, atuando em parceria com organizações empresariais, órgãos públicos e instituições de ensino, para que novas portas fossem abertas aos jovens estudantes. 5. Quais são as suas diretrizes de atuação e os principais objetivos? O maior objetivo do CIEE, nestes 43 anos de existência, é encontrar, para os estudantes de nível médio, técnico e superior, uma oportunidade de estágio que os auxiliem a colocar em prática tudo o que aprenderam na teoria. 6. Historicamente, houve algum aspecto relevante que contribuiu para a criação do CIEE? O aspecto mais relevante que inspirou a criação do CIEE foi a falta de mão-deobra qualificada nos diversos setores da economia. Além disso, faltava ao jovem embasamento prático das teorias que ele encontrava em sala de aula – o que favorecia a essa falta de pessoal qualificado no mercado. Ainda hoje essa preocupação é uma constante, principalmente em uma época onde o desenvolvimento tecnológico acontece rapidamente. 7. O CIEE foi criado para atender quais interesses? Ainda atende a esses interesses? O CIEE foi criado para atender os interesses do jovem, que busca qualificação profissional e oportunidade real no mercado de trabalho, e da empresa, que luta 101 por essa mão-de-obra qualificada e profissionais mais preparados para o dia-a-dia do mercado. Esse é, ainda hoje, um dos pilares de atuação do CIEE. 8. O CIEE foi criado para atender qual demanda? Dos jovens ou das empresas? Dos dois. Assim como há jovens que, muitas vezes, nunca trabalharam e precisam de um mínimo de experiência para ingressar no mercado, há empresas que precisam de mão-de-obra qualificada para suas operações. O estágio é uma das ferramentas mais eficazes nesse sentido: oferece a prática dentro da própria empresa. A empresa tem um jovem interessado em crescer e aprender e que também pode ser moldado de acordo com os interessas da corporação 9. Atualmente o CIEE está implantado em quantos Estados Brasileiros? 10. Como é a estrutura organizacional do CIEE? (Organograma e Estatuto Social) 11. Como são escolhidos os cargos de Presidente, Diretores, Conselheiros? 12. Quais são os serviços oferecidos pelo CIEE? (Para os jovens e para as empresas) O CIEE não fica apenas na esfera do estágio. Há também dezenas de oportunidades para o aprendizado. São workshops, oficinas, palestras, feiras, concursos, cursos - inclusive à distância - e muito mais ferramentas que agregam conhecimento ao estudante interessado. Há o Adolescente Aprendiz, que oferece oportunidade a jovens com idade entre 14 e 24 anos. Esse programa ocorre por meio do estabelecimento do contrato de trabalho especial, denominado contrato de aprendizagem, ajustado por escrito e por prazo determinado, que se desenvolve em dois ambientes: no CIEE, que proporcionará as atividades teóricas do programa de aprendizagem técnico profissional metódico, e outro na empresa empregadora, onde desenvolverá 102 tarefas de prática profissional, em ambiente compatível com sua idade e com a aprendizagem metódica recebida no CIEE. Isso só foi possível com a lei nº 10.097, de 19/12/2000, conhecida como "Lei da Aprendizagem", que introduziu substancial modificação no capítulo da CLT, e abriu o campo para que as instituições sociais também passassem a promover cursos profissionalizantes, aumentando a oferta desses cursos e reduzindo o problema da falta de qualificação entre os que estão buscando seu primeiro emprego. Para se cadastrar o adolescente deve freqüentar uma escola. Depois basta comparecer a uma unidade do CIEE munido de seu RG, CPF, Carteira de Trabalho e Declaração de Regularidade Escolar. Há também o Programa de Educação à Distância. O objetivo do programa, que utilizará tecnologia de ponta para atender os alunos, é oferecer ao jovem estagiário embasamento teórico e prático que favoreça sua entrada, e permanência, no mercado de trabalho. Todos os estudantes de nível médio e superior cadastrados no banco de dados do CIEE podem participar dos cursos gratuitos. Idealizado e conduzido por especialistas em Educação à Distância, os cursos serão desenvolvidos à distância com total interação entre alunos, tutores e recursos de apoio. 13. Que jovem pode participar dos serviços oferecidos pelo CIEE? (faixa etária, escolaridade, etc.) 14. Quais os critérios para que uma empresa possa participar do CIEE? 15. O serviço do CIEE é pago ou gratuito? (jovens e empresas) O jovem não possui qualquer custo para se inscrever ou participar dos programas oferecidos pelo CIEE. 16. Como se mantém financeiramente o CIEE? 103 17. Como é o contrato firmado entre o CIEE e as empresas parceiras? São todos iguais ou há diferenciação? 18. O que faz uma empresa se associar ao CIEE? A certeza de que o estágio permite o cumprimento de seu papel social, ajudando a formar as novas gerações de profissionais que o país necessita; Antecipa a preparação e a formação de um quadro qualificado de recursos humanos e permite a descoberta de novos talentos, preparando a empresa para o futuro; Cria e mantém um espírito de renovação e oxigenação permanente, proporcionando um canal eficiente para o acompanhamento de avanços tecnológicos e conceituais e é um eficiente recurso de formações aprimoramento de futuros profissionais; Eficiente sistema de recrutamento e seleção de novos profissionais, reduz o investimento de tempo, de meios de trabalho e de salários a que está sujeita, quando contrata profissionais recém-formados, sem prática, permitindo ampliar ou renovar seus quadros funcionais, técnicos e administrativos, com custos reduzidos; Isenção de encargos sociais e trabalhistas, decorrentes da não vinculação empregatícia. 19. Quais as principais dificuldades enfrentadas pelo CIEE, à época de sua criação e atualmente? As dificuldades continuam praticamente as mesmas: pouco comprometimento público e pouco interesse privado. Felizmente a própria regulamentação do mercado atual força as empresas à modernização e ao comprometimento social. B. Questões sobre o Programa de Estágio do CIEE, com o objetivo de entender e saber como funciona especificamente o programa de estágio. 20. Qual o objetivo do estágio? 104 O estágio propicia ao estudante o contato com a realidade da profissão que pretende seguir - é a união da teoria e da prática. Além disso, o estágio dá a ele um diferencial importantíssimo nos dias de hoje, que é a experiência. A criação e manutenção de contatos importantes no meio também é válida. 21. Quais jovens podem participar do programa de estágio? Quais as exigências? O estágio é aberto a alunos regularmente matriculados que freqüentem, efetivamente, cursos vinculados à estrutura do ensino público e particular, de educação superior, de educação profissional, do ensino médio e de educação especial, aceitos por pessoas jurídicas de direito privado, órgãos da administração pública e instituições de ensino, para o desenvolvimento de atividades relacionadas a sua área de formação. 22. Como é feita a inscrição dos jovens? Além do portal na internet, onde o interessado pode fazer seu cadastro gratuitamente, o estudante conta com as unidades do CIEE em várias cidades do Brasil, além de postos de atendimento em universidades e órgãos como Associações Comerciais. Muitas vezes também o próprio CIEE vai até as universidades e escolas. 23. Possui quantos jovens inscritos no total? 24. Desses jovens inscritos quantos conseguem estágio? 25. Dos que conseguem quantos não concluem o estágio? Por quê? 26. Quais empresas podem participar do programa de estágio? Quais as exigências? 105 Podem conceder estágios empresas privadas, órgãos da administração pública (Algumas prefeituras paulistas já possuem programas de estágio, como Ribeirão Preto, São José dos Campos, Sorocaba e São Carlos), empresas de economia mista e instituições de ensino. 27. Que tipo de empresa participa do programa de estágio do CIEE? (Ramo de atividade das empresas participantes – indústria, comércio, serviços; Empresa grande ou pequena, etc.) Obedecendo aos aspectos legais, não há restrição ao ramo de atividade das empresas nem ao porte que possuem. Havendo interesse, o empresário pode oferecer oportunidades de estágios. 28. Como é feita a inscrição das empresas? 29. Quantas vagas uma empresa tem direito? Cada empresa é livre para decidir quantas vagas vai oferecer em um Programa de Estágio. Tudo depende de estudos internos e da demanda pelos estudantes. 30. Quantas vagas são oferecidas aos jovens? Somente no estado de São Paulo atualmente são oferecidas 000 mil vagas de estágio. Em todo o país são 000 mil. 31. Quantos jovens são contratados pelas empresas, após o término do estágio? De acordo com a Intersciense, uma das mais importantes empresas do setor de pesquisa, mais da metade, 64% dos estagiários, foi efetivada em regime de CLT. Destes, 15% receberam melhores ofertas de trabalho depois do fim do período de estágio. Segundo os entrevistados, o Programa de Estágio do CIEE abriu as portas para o primeiro emprego, aliou a prática na empresa com a teoria da escola e melhorou a vida pessoal dos estudantes. 106 32. Qual a carga horária dos estágios? (maior, menor e média) Pela legislação vigente, não há carga horária mínima ou máxima permitida para o estágio. A exigência é que o horário do estágio não conflite com o horário escolar. No entanto, o CIEE recomenda que a jornada diária não ultrapasse o máximo de 8 horas, para que seja admitida uma margem de tempo para locomoção e refeição, sem prejuízo dos compromissos escolares. 33. Qual o valor do salário oferecido aos jovens? (maior, menor e média) Inicialmente o estágio não precisa ser remunerado. Porém, conforme previsto na própria legislação, o estagiário poderá receber uma bolsa-auxílio para cobertura parcial de seus gastos escolares e pessoais. O CIEE recomenda o pagamento de Bolsa-Auxílio mensal ao estagiário, uma vez que a grande maioria dos estudantes necessita de recursos financeiros para continuar seus estudos. Para auxiliar as empresas, na configuração da Oportunidade de Estágio, o CIEE apresenta a média de bolsa-auxílio praticada pelas Empresas conveniadas. No entanto, cabe à empresa definir o respectivo valor, considerando, inclusive, o alto custo das mensalidades escolares. 34. Como é feito o encaminhamento dos jovens às vagas oferecidas pelas empresas? Quais são os critérios para esse encaminhamento? Existe critério sócio-econômico? Ao criar uma vaga, cada empresa decide os seus critérios de preenchimento, que podem ser idade, escolaridade e local onde o estudante vive. 35. Existe restrição a algum tipo de atividade? Quais? Atualmente todas as áreas de ensino podem contar com estagiários, bastando haver interesse por parte dos empresários, das instituições de ensino e do poder público. 107 36. Qual a responsabilidade/papel do CIEE nessa intermediação entre a escola, a empresa e o jovem? O CIEE está ao lado do jovem estudante em todos os períodos de seu estágio, pois não basta colocá-lo dentro de uma empresa sem mensurar seu desempenho ou ajudá-lo em sua formação. Por isso o CIEE aplica uma série de questionários para que o estudante e a empresa exponham o dia-a-dia. Tudo que foi aprendido, os departamentos pelos quais o jovem passou, absolutamente tudo é acompanhado de perto pelo CIEE. Todo novo estagiário recebe um contrato devidamente assinado pela escola, pelo CIEE e pela unidade que oferece o benefício. Uma cartilha também chega às mãos do estudante contendo as principais diretrizes do estágio, dicas, seus deveres e direitos. As empresas também são beneficiadas, pois, ao promover programas de estágio, criam e mantêm a renovação e a oxigenação permanentes do seu quadro funcional. Assim, as empresas podem investir numa programação de estágio, cumprindo importante papel social e tarefa decisiva para a formação de futuros profissionais. Durante a vigência do estágio, o CIEE desenvolve processos de acompanhamento para subsidiar a empresa e as instituições de ensino com informações básicas que garantem que os aspectos legais e técnicos dos programas de estágio serão cumpridos. Esse acompanhamento dá-se por meio de confirmação da regularidade da situação escolar dos estagiários junto às respectivas instituições de ensino; recebimento e análise dos relatórios de estágio, preenchidos pelos estagiários e acompanhamento “in loco” por meio de reuniões com os estagiários, previamente agendadas com empresas concedentes do estágio. O CIEE observa todas as disposições legais e por isso tem condições de oferecer apoio técnico às empresas e aos estudantes, além de segurança no decorrer dos estágios. 37. Qual é a responsabilidade/papel da empresa? 38. Qual é a responsabilidade/papel da escola? 108 39. Quais critérios são utilizados pelas empresas no processo de seleção? (entrevista individual, testes, dinâmicas, etc.) Cada empresa pode utilizar os critérios que mais achar necessários. Pensando nisso o CIEE disponibiliza material e técnicas que auxiliam o jovem a criar um currículo profissional, a se vestir adequadamente e a se comportar em entrevistas. 40. Quais Leis dão embasamento ao programa de estágio? A atuação do CIEE se pauta pela legislação específica para o estágio: a Lei 6.494/77 e seu decreto de regulamentação (87.497/82). C. Questões sobre o Acompanhamento de Estágio, com o objetivo de colher informações dos jovens e dos empregadores, sobre o trabalho juvenil. A partir de questionários e pesquisas respondidas pelos jovens ao CIEE, investigar: 41. Os jovens que procuram estágio, já trabalharam ou trabalham? 42. Qual a condição econômica do jovem que procura estágio? (instrução do chefe da família, renda familiar, etc.) 43. Por que procuram estágio? Quando o estágio não é uma obrigação curricular (muitos cursos exigem o estágio na área como complemento à instrução), os estudantes o procuram por saber que a experiência oriunda do estágio é importante para a carreira. Para outros, obviamente, a bolsa-auxílio é um dos grandes quesitos para almejar o estágio, embora saibam que não é algo duradouro. 109 44. Em que período o jovem prefere estagiar? 45. Como os jovens avaliam as atividades que realizam no estágio? 46. O estágio amplia a capacidade de expressão? 47. O estágio fornece conhecimentos na área da informática? O computador faz parte da rotina dentro das empresas. Em menor ou maior grau (no caso de cursos da área de tecnologia, por exemplo) os conhecimentos fazem parte do aprendizado. Além disso, o estudante tem à disposição através do Programa de Ensino à Distância dezenas de cursos voltados à área. 48. O estágio desenvolve a capacidade e iniciativa para solucionar problemas? Muitas empresas buscam jovens que tenha essa capacidade de iniciativa; faz parte dos critérios de avaliação. Ademais o CIEE sempre aconselha ao estudante que ele seja participativo e interessado nas questões da empresa. Desenvolver esse lado participativo muitas vezes faz parte do sucesso que se deseja para o futuro. 49. O jovem recebe orientação adequada para realizar as tarefas de seu estágio? 50. O estágio aumenta ou diminui o interesse pelas aulas? 51. O estágio melhora o relacionamento com professores? Em 2006 uma pesquisa do CIEE mostrou que os jovens têm melhores respostas quanto aos seus desempenhos do que apedrejar os professores ou jogar a culpa na escola. 110 Para realizar a pesquisa, uma constante do CIEE para verificar a quantas anda a educação no país, o órgão ouviu 478 estudantes inscritos em seu banco de dados. Mais da metade deu notas que iam de sete a dez, a máxima, para seus professores. As razões para esse bom desempenho dos professores são muitas: 68% afirmam que seus mestres são pessoas bem antenadas com a atualidade. Outros 6% admitem até que o professor ajuda em problemas pessoas, fora do âmbito educacional. Aqueles que não têm um “ombro amigo” na família acabam vendo isso nos professores. Os professores também têm poder de influência em 18% dos alunos quando o assunto é a carreira a seguir. Os estudantes (68%) também contam que o estágio, condição básica no auxílio do futuro profissional, é algo positivo na visão dos mestres – 34% destes fornecem dicas de relacionamento e postura. 52. O estágio melhora o relacionamento com colegas de escola? 53. O estágio trouxe alguma dificuldade para o desempenho escolar? De acordo com a pesquisa da Intersciense, para 90% dos professores pesquisados o estágio melhora o desempenho escolar e aumenta o interesse dos alunos pelo curso. 54. O estágio aumentou o interesse em seguir uma carreira profissional? 55. As atividades desenvolvidas correspondem às expectativas que tinha ao iniciar o estágio? 56. O jovem está satisfeito com o salário que recebe? 111 57. Acha que no estágio, está adquirindo conhecimentos importantes para sua formação? Oitenta e sete por cento dos estudantes entrevistados pela Intersciense afirmam que o estágio contribuiu positivamente para a contratação do emprego atual. 58. Se sente mais respeitado por estar estagiando? 59. O estágio estimula a continuidade dos estudos? De acordo com os levantamentos realizados pelo CIEE, os estudantes pretendem fazer cursos extracurriculares para obter mais qualificação. O pensamento positivo dos jovens também assegura que o pagamento dos cursos extracurriculares será garantido pelo recebimento de salário ou de bolsa-auxílio, remunerações recebidas graças à pretendida conquista de um emprego ou estágio. 60. O estágio possibilita mudanças na convivência familiar? Uma pesquisa do CIEE denominada "Projetos de vida do jovem brasileiro" reuniu perguntas relacionadas às questões existenciais como “em que consiste a felicidade?”. O item “família unida” foi mais votado do que “sucesso profissional” por jovens com renda familiar de até três salários mínimos. Uma prova de quanto a situação financeira afeta as relações familiares. O desejo de “ajudar o país” também foi bem votado diagnosticando o idealismo e a esperança nos corações juvenis. Portanto o estágio remunerado muitas vezes é a esperança de que esses jovens poderão realizar os seus e os sonhos da família. 61. A vivência do seu estágio possibilita mais segurança nas ações do seu dia-adia? 62. A vivência do seu estágio possibilita mais informações sobre seus direitos e deveres? 112 63. A vivência do seu estágio possibilita assumir mais responsabilidade de suas ações? 64. Qual o seu nível de satisfação com o estágio? 65. Quais habilidades o jovem adquiriu durante o estágio? 66. Quais foram as contribuições trazidas pelo estágio à sua vida? 67. Quem trabalha está melhor de quem não trabalha? Por quê? A partir de questionários respondidos pelos empregadores, pesquisar: 68. Por que contratar um estagiário? São muitos os benefícios para as empresas, pois, ao promoverem programas de estágio criam e mantém a renovação e a oxigenação permanente do seu quadro funcional. Por esse motivo é importante que elas invistam no programa de estágio, cumprindo seu papel social lado a lado com a sociedade e atuando decisivamente para a formação de futuros profissionais. As empresas têm, também, incentivos fiscais na contratação de estagiários. 69. O desempenho do estagiário nas suas funções foi satisfatório para a empresa? 70. Quais as habilidades que o estagiário adquiriu durante o estágio? 71. Quem trabalha está melhor de quem não trabalha? Por quê? Livros Grátis ( http://www.livrosgratis.com.br ) Milhares de Livros para Download: Baixar livros de Administração Baixar livros de Agronomia Baixar livros de Arquitetura Baixar livros de Artes Baixar livros de Astronomia Baixar livros de Biologia Geral Baixar livros de Ciência da Computação Baixar livros de Ciência da Informação Baixar livros de Ciência Política Baixar livros de Ciências da Saúde Baixar livros de Comunicação Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE Baixar livros de Defesa civil Baixar livros de Direito Baixar livros de Direitos humanos Baixar livros de Economia Baixar livros de Economia Doméstica Baixar livros de Educação Baixar livros de Educação - Trânsito Baixar livros de Educação Física Baixar livros de Engenharia Aeroespacial Baixar livros de Farmácia Baixar livros de Filosofia Baixar livros de Física Baixar livros de Geociências Baixar livros de Geografia Baixar livros de História Baixar livros de Línguas Baixar livros de Literatura Baixar livros de Literatura de Cordel Baixar livros de Literatura Infantil Baixar livros de Matemática Baixar livros de Medicina Baixar livros de Medicina Veterinária Baixar livros de Meio Ambiente Baixar livros de Meteorologia Baixar Monografias e TCC Baixar livros Multidisciplinar Baixar livros de Música Baixar livros de Psicologia Baixar livros de Química Baixar livros de Saúde Coletiva Baixar livros de Serviço Social Baixar livros de Sociologia Baixar livros de Teologia Baixar livros de Trabalho Baixar livros de Turismo