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SEMINÁRIO PERMANENTE - 2011-2012
ciência e imaginário
19 de Abril de 2012 – 18h00
Sala 1, ed. B1
Doutor Pedro Picoito
NAS ORIGENS DO CULTO DE SÃO VICENTE EM LISBOA.
UMA REVISÃO
Resumo:
A tradição atribui a D. Afonso Henriques a vinda das relíquias de São.
Vicente, o popular mártir hispano-romano, de Sagres para Lisboa em 1173.
Esta trasladação teve um enorme impacto na recém-conquistada urbe da foz
do Tejo, cristã desde 1147, ao ponto de o mártir valenciano suplantar por
completo todos os cultos aí antes existentes e de se tornar padroeiro da
diocese e do concelho. O favor do santo entre a população lisboeta, bem
evidente nos Miracula Sancti Vincentii, o livro de milagres escrito entre 1173 e
1185 por um chantre da Sé, deve-se sobretudo à apropriação da sua memória
pela corte portuguesa e pelos principais poderes políticos e religiosos da
cidade, como evidenciaram os estudos fundadores de Irisalva Moita e Aires
Nascimento, que sustentaram também a origem transpirenaica do culto. A
descoberta recente de um fragmento do ofício litúrgico de São Vicente da
catedral de Lisboa, datado de meados do século XIII por Aires Nascimento, e
de várias notícias medievais da trasladação provenientes do Norte da Europa,
dadas a conhecer por Isabel Dias, apontariam no mesmo sentido.
No entanto, uma leitura atenta do relato da trasladação contido nos
Miracula revela que o acontecimento provocou uma violenta tensão entre os
diversos grupos sociais que então compunham o tecido urbano lisboeta,
fazendo mesmo duvidar que a iniciativa de trazer as relíquias do Sul tenha
partido do rei. A narrativa dá entender que o acto teria sido uma tentativa de
afirmação colectiva dos moçárabes, então sujeitos a uma crescente hostilidade
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por parte da coroa e do novo poder eclesiástico, empenhados na reforma
gregoriana e na substituição do rito hispânico pelo romano. Numa sociedade
de fronteira, fluida e heterogénea, com populações de diversas origens étnicas
e geográficas, a posse de um símbolo da antiquíssima identidade cristã dos
moçárabes seria uma vigorosa forma de resistência cultural aos
conquistadores.
Assim, os sinais do conflito político-religioso latente no texto permitem
entrever não só as relações de força entre as diversas comunidades
envolvidas, mas também os espaços físicos hierarquizados que ocupavam na
topografia lisboeta. É possível reconhecer o bairro dos colonos do Norte
peninsular em torno do castelo e da igreja de Santiago, no alto da cidade,
enquanto a comunidade do mosteiro de S. Vicente de Fora, inicialmente
constituída por frades germanófonos, se situava a leste da muralha, no
extremo oposto ao da moçarabia, localizada segundo José Luís de Matos a
oeste, entre Santa Maria de Alcamim e Santa Justa.
Longe do ideal de adventus e consensus que Peter Brown associa à
função social das trasladações de relíquias, a “guerra cultural” de que os
Miracula dão conta só desaparecerá com o triunfo integrador do culto de São
Vicente, desde então símbolo colectivo de Lisboa.
BIBLIOGRAFIA
FONTES
“Legendas e Milagres de S. Vicente. Texto Latino e Tradução
Portuguesa”, in Aires A. Nascimento, S. Vicente de Lisboa: Legendas, Milagres
e Culto Litúrgico (Testemunhos Latinomedievais), Lisboa, Centro de Estudos
Clássicos, 2011
ESTUDOS
Irisalva Moita, “Introdução”, in VIII Centenário da Trasladação das
Relíquias de São Vicente. 1173-1973, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa,
1973, pp. 13-96
Peter Brown, The Cult of the Saints. Its Rise and Function in Latin
Christianity, Chicago, University of Chicago Press, 1982, pp. 90-105
Aires Augusto Nascimento e Saul António Gomes, “Introdução”, S.
Vicente de Lisboa e Seus Milagres Medievais, Lisboa, Edições Didaskalia,1988,
pp. 8-27
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José Luís de Matos, Lisboa Islâmica, Lisboa, Instituto Camões, 1999 *
Christophe Picard, «Les Mozarabes de Lisbonne: Le problème de
l`assimilation et de la conversion des chrétiens sous domination musulmane à
la lumière de l´exemple de Lisbonne», in Arqueologia Medieval, 7, 2001, pp.
89-94
Isabel Dias, Culto e Memória Textual de S. Vicente, Dissertação de
Doutoramento em Literatura e Cultura Portuguesa Apresentada à Faculdade de
Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, 2003.
Manuel Real, “Os Moçárabes do Gharb Português”, in Portugal Islâmico.
Os Últimos Sinais do Mediterrâneo, Lisboa, Instituto Português de Museus/
Museu Nacional de Arqueologia, 1998, 35-56
Irisalva Moita, “São Vicente Padroeiro”, in São Vicente Diácono e Mártir.
Padroeiro de Lisboa. 1700 Anos do Martírio de São Vicente, Lisboa, Cabido da
Sé de Lisboa/ Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano, 2005, pp. 263-286
Pedro Picoito, “O Rei, o Santo e a Cidade”, in Ibid., pp. 57-122
Paulo Almeida Fernandes, “Os Moçárabes de Lisboa e a sua importância
para a evolução das comunidades cristãs sob domínio islâmico”, in Luís Krus et
al. (coord.), Lisboa Medieval. Os Rostos da Cidade, Lisboa, Livros Horizonte,
2007, pp. 71-83 *
Isabel Dias, “Ecos da trasladação de S. Vicente para Lisboa, na
Flandres”, in Ibid., pp. 400-405 *
Pedro Picoito. “A Trasladação de São Vicente. Consenso e Conflito na
Lisboa do Século XII”, in Medievalista Online, 4, 2008 *
Aires Nascimento, “Preâmbulo” e “Introdução”, S. Vicente de Lisboa:
Legendas, Milagres e Culto Litúrgico (Testemunhos Latinomedievais), Lisboa,
Centro de Estudos Clássicos, 2011, pp. 7-89 *
*Bibliografia sumária.
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Nuno Rafael Costa - Centro de Estudos sobre o Imaginário Literário