Algumas notas sobre o novo aeroporto de Lisboa (Pedro Abrantes, 29-11-2005) 1. Necessidade de capacidade aeroportuária adicional 1.1. É fisicamente possível aumentar a capacidade da Portela até cerca de 15 milhões de passageiros a um preço aceitável. No entanto, há sérias limitações a um aumento de capacidade para além desse valor. Nomeadamente, isso implicaria a construção de uma nova pista paralela, construção de mais terminais e o aumento da área ocupada pelo aeroporto, com impactos muito negativos no tecido urbano e na população local (um consultor fala da deslocação de 10.000 habitantes). 1.2. Parece razoável admitir, com alguma confiança, que o tráfego do aeroporto atinja os 15 milhões de passageiros por volta de 2015 (+/- 3 anos?). Logo, faz de facto sentido falar num aumento da capacidade aeroportuária a longo prazo, ainda que as questões de quanto e como não sejam lineares. 1.3. Pode-se afirmar, por outro lado, que seria desejável, pelo menos do ponto de vista ambiental, afastar o aeroporto de Lisboa. 2. Análise de soluções alternativas à construção de um único grande aeroporto 2.1. Das apresentações dos especialistas da Parsons, da ADP e da IATA conclui-se que a manutenção da Portela e de um novo aeroporto, em simultâneo, apresenta algumas dificuldades, nomeadamente: • Obstáculos legais à discriminação entre companhias aéreas e aplicação de regras diferenciadas nos diferentes aeroportos. Como resultado, poderiam existir dificuldades de regulação nesse novo contexto. • Perdas de economia de escala na operação dos aeroportos e das companhias aéreas, e perdas de densidade de rede. • Dificuldades de operação e controlo do espaço aéreo. No entanto, isto significa apenas, tanto quanto se pode depreender das apresentações, que seria simplesmente mais difícil tirar partido da capacidade total teórica disponível. • Custo de operação de 2 aeroportos maior do que o custo de operação de um só aeroporto. • Exposição da população ao ruído e poluição aérea em mais do que um local. 2.2. No entanto, não encontrei qualquer tentativa rigorosa de quantificar estes problemas, o que seria fundamental para poder comparar diferentes soluções alternativas de aumento de capacidade aeroportuária. Exemplos de soluções alternativas à Ota poderiam incluir: 2.2.1. Portela + pequeno aeroporto (Alverca, base militar,…). 2.2.2. Solução faseada, com um período de operação em comum entre Portela e Ota fase 1, e saída de funcionamento da Portela após a construção da Ota fase 2, se e quando necessário. 2.2.3. Portela + Ota fase 1 (15+15 milhões de passageiros). 2.3. Portela + pequeno aeroporto (2.2.1). Ainda que a capacidade de tráfego no novo aeroporto fosse aparentemente baixa (por exemplo, até 5 milhões pax/ano – estimativa optimista), isso permitiria suprir a procura até, por exemplo, 2020. Por outro lado, um pequeno aeroporto desse tipo poderia entrar em funcionamento em poucos anos e evitar a saturação e consequente degradação da qualidade de serviço na Portela. Este é um facto importante, ignorado na análise do problema. Para além disso, esta solução permitiria acompanhar a procura gradualmente, e assim reduzir o risco significativo associado à construção de um mega-aeroporto para um horizonte de projecto (e estimativas de procura) de 30+ anos. 2.4. Em relação aos problemas de regulação, esta solução poderia permitir uma especialização funcional, com o pequeno aeroporto a oferecer um serviço básico, mas atractivo para voos charter e operadores low-cost em particular, e a Portela a manter as principais companhias com voos regulares. Resta saber se alguns dos actuais grandes operadores prefeririam voar para o aeroporto secundário, o que poderia reduzir o efeito de rede de que a TAP começa a beneficiar. 2.5. Solução faseada (2.2.2). Essa solução poderia permitir reduzir o risco do projecto, ao avançar gradualmente ao longo do tempo. No entanto, esta solução poderia afectar a competitividade da Ota no curto prazo e afastar os investidores (um dos consultores cita o exemplo do “elefante branco” do aeroporto Montreal Mirabel). 2.6. Portela + Ota – 1+1 (2.2.3). Semelhante à opção 2.2.2, mas válida para o longo prazo no caso de crescimento de tráfego mais baixo que o esperado. Seria necessária uma análise custo-benefício (incluindo o factor risco) para verificar se esta solução faria sentido. 2.7. Sem querer afirmar que qualquer uma destas alternativas seja superior à opção Ota, o facto é que não foi apresentada qualquer análise custo-benefício rigorosa das várias soluções alternativas (por exemplo, em termos de risco, custo, impacto na economia, etc). E sem essa análise é difícil afirmar com confiança que a Ota é o investimento com maior retorno para o país. 3. Acessibilidade do novo aeroporto 3.1. O custo do investimento em acessibilidades é uma incógnita e não está incluído nos orçamentos apresentados pelos consultores. É sugerido que virá a ser operado um shuttle ferroviário que ligará a Ota à Gare do Oriente em 20 minutos, de 15 em 15 minutos. Ora, percorrer 42 km em 20 minutos implica uma velocidade comercial de 126km/h (e segundo Viegas, uma velocidade de ponta de 220 km/h). A questão que surge é se isso é sequer viável na actual linha do Norte, quer em termos de velocidade quer em termos de capacidade, e quanto custaria para ser possível. Suspeito que o custo de desenvolvimento desta infra-estrutura não seria trivial. No entanto, este deveria ser um custo directamente associado à construção do aeroporto neste local e a considerar numa análise custo-benefício. 3.2. Falta uma análise integral da acessibilidade do novo aeroporto à Região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) que tenha em conta, entre outras coisas, o aumento do congestionamento viário que resultaria do novo aeroporto. É verdade que a maior parte da rede viária para ligação à Ota está já prevista no Plano Rodoviário Nacional. No entanto, nada leva a crer que essa rede viária tenha sido dimensionada para o volume de tráfego adicional gerado pelo aeroporto. Para além disso, não estão previstos aumentos de capacidade nas vias de acesso a Lisboa (em particular a A1) que teriam de suportar o grosso do tráfego gerado pelo aeroporto. O que é que a futura AMTL tem a dizer sobre a localização do novo aeroporto? 3.3. Não existe nenhum estudo detalhado que mostre como é que a localização do novo aeroporto influenciará a acessibilidade do novo aeroporto às diferentes zonas da região LVT (e ao país), ou a acessibilidade da região ao resto do mundo. Por exemplo, se para chegar do novo aeroporto ao centro de Lisboa de táxi se demorasse, na hora de ponta, 50 minutos isso significa que o centro da cidade passaria a estar 35 minutos mais longe de Paris, Londres, Roma, Madrid. Essa seria uma componente importante duma análise custo-benefício de localizações. 4. Fiabilidade das estimativas de procura/ transferência de risco 4.1. A gestão de risco (Viegas) deste empreendimento é uma questão fundamental do ponto de vista financeiro. As estimativas de procura/tráfego que servem de base a todos os estudos económico-financeiros citados pelo governo são, no mínimo, incertas. O modelo de previsão de tráfego é altamente simplista, utilizando somente as estimativas do PIB como variável explicativa! Falta tratar explicitamente todas as outras variáveis que possam influenciar o transporte aéreo no futuro, por exemplo a distância do aeroporto à área urbana, a existência e características de alternativas terrestres (como o TGV), o potencial do mercado de turismo em particular em face aos concorrentes, as perspectivas de internacionalização dos diferentes agentes económicos locais, a emergência dos operadores low-cost, a posição do aeroporto face a aeroportos concorrentes (Porto, Lisboa, Madrid). 4.2. Por outro lado, seria importante segmentar a procura e tentar prever como é que cada grupo se vai comportar no futuro, e sob diferentes cenários. Por exemplo, será que a ligação entre a diáspora portuguesa e o país vai ser mais forte ou vai enfraquecer no futuro. E qual é a proporção desse tráfego no total. Sem um estudo de procura mais sólido, as estimativas citadas pelo governo para um horizonte de 30 anos são praticamente um tiro no escuro. 4.3. Um estudo de procura mais detalhado teria também a vantagem de permitir realizar uma análise de sensibilidade em relação a um grande conjunto de cenários, e assim obter uma melhor estimativa do risco que está associado a uma dada estimativa de tráfego. 4.4. Face à incerteza associada às estimativas de procura do aeroporto, é difícil afirmar com confiança qual vai ser efectivamente o custo público do projecto. Espera-se que o investimento necessário seja amortizado pelas receitas do aeroporto. No entanto, um estudo refere que as receitas deixam de cobrir o investimento se o custo da infraestrutura aumentar 15% para além do estimado. Se, para além disso, o tráfego estimado não se vier a verificar, o Estado terá que cobrir uma parte do prejuízo, dependente da afectação de risco definida com o concessionário (Viegas)? 5. Custos e benefícios do novo aeroporto para o desenvolvimento nacional/regional 5.1. Não há qualquer estimativa minimamente detalhada do impacto do novo aeroporto no desenvolvimento do país nem, por exemplo, na viabilidade do aeroporto do Porto, ou no crescimento da TAP e outras empresas ligadas a este sector, ou na distribuição espacial do desenvolvimento esperado pelas diferentes regiões. 5.2. Jorge Andraz (U. Algarve) afirma, com base na análise de dados de investimento e desenvolvimento económico, que, durante as últimas duas décadas, todas as regiões do país ganharam significativamente em termos de desenvolvimento económico com o investimento em infra-estruturas de transporte. No entanto, LVT (e região Centro) ganharam sempre relativamente mais do que as outras regiões (em particular a Região Norte). 5.3. De qualquer forma, esse estudo não prova qual o impacto económico que este investimento, em particular, terá. Ao contrário do que foi afirmado pelo ministro Mário Lino, não está provado que esta infra-estrutura seja "da maior importância para o país" (Mário Lino). Para demonstrar a importância deste projecto seria necessário realizar uma análise custo-benefício detalhada. 5.4. Conclusão: o que falta verdadeiramente neste processo é uma análise custo-benefício do novo aeroporto e das diferentes alternativas possíveis (porque as soluções alternativas não foram de facto estudadas em pormenor). Só assim podemos estimar com rigor quais vão ser os benefícios sócio-económicos deste projecto. Outros comentários (debate RTP1, 28-11-2005): - Ota = Prioridade de investimento na acessibilidade de uma parte do país ao estrangeiro vs investimento na acessibilidade local (dentro do país) vs (Ludgero Marques). - Princípio da precaução (Carmona Rodrigues). - Há um momento para discutir, agora é o momento de agir (presidente da TAP, referindo-se à urgência na tomada de uma decisão). - "Não estou convencido que 1+1 não seja uma boa solução" (Carmona Rodrigues).