8º CONGRESSO IBEROAMERICANO DE ENGENHARIA MECÂNICA Cusco, 23 a 25 de Outubro de 2007 ESTUDO COMPARATIVO DE SISTEMAS DE RESFRIAMENTO EM MOLDES PARA INJEÇÃO DE PRODUTOS ALETADOS Wander, P.R.*, Costa, C.A.*, Scain, F.º *Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul – RS – Brasil, º Indústria Belga de Matrizes Ltda – Caxias do Sul – RS – Brasil. *e-mail: [email protected] RESUMO Este trabalho apresenta um estudo comparativo entre técnicas de arrefecimento de moldes de injeção de termoplástico, com ênfase em produtos aletados, ou seja, grande relação comprimento/altura. As técnicas estudadas foram do tipo cascata e do tipo pino dissipador de calor, e foram avaliadas em termos de desempenho (capacidade de transferência de calor), temperaturas no molde e propriedades finais das peças injetadas. Para tanto foi realizada a instrumentação de um molde experimental de modo a medir e comparar as temperaturas internas e vazão de fluido refrigerante (água). Também foram medidas as temperaturas de saída das peças injetadas, que após foram analisadas quanto a sua cristalinidade e dimensões finais. Com as medidas realizadas foi possível estabelecer a resistência térmica da solidificação da peça, parâmetro importante para estudos de transferência de calor em moldes. O trabalho permitiu o desenvolvimento de uma sistemática prática e simples para a avaliação e emprego de sistemas dessa natureza. A aplicação dessa sistemática permitiu observar que o pino tem sua resistência térmica aumentada proporcionalmente com o comprimento do produto, enquanto a cascata tem uma resistência térmica constante com o comprimento. A partir desse estudo pode-se determinar o comprimento de peça em que o tempo de resfriamento é muito elevado para a técnica de pino, comparado ao tempo necessário na técnica de cascata, onde o tempo é constante, apesar de um pequeno aumento da temperatura do fluido de resfriamento, diante do aumento no comprimento do produto. Os resultados mostraram que as peças injetadas com a técnica de pino dissipador de calor apresentaram uma cristalinidade maior do que na técnica de cascata, o que está relacionado com o maior tempo de resfriamento da técnica de pino. Contudo, a análise dimensional mostrou que a técnica de cascata apresentou melhores resultados que a técnica de pino, provavelmente devido à menor temperatura de saída das peças com a técnica de cascata. PALAVRAS-CHAVE: Moldes de injeção, cascata, pino dissipador de calor, resistência térmica de solidificação. INTRODUÇÃO O molde para injeção de termoplásticos é caracterizado como uma composição, em que seus vários componentes, cada qual com sua função bem definida, conjuntamente formam uma ferramenta de alta complexidade. Esta complexidade é oriunda tanto do alto grau de interatividade com outras áreas de conhecimento envolvidas, tais como transferência de calor, mecânica dos fluidos, desgaste, e outras; como pela sua complexidade geométrica do seu conjunto de peças. Os componentes que constituem o molde, para atenderem da melhor forma suas funções, dentro deste complexo conjunto, demandam propriedades específicas, exigindo, portanto uma apropriada seleção dos materiais a serem empregados [1]. Apesar de todas as partes possuírem aspectos importantes para a boa funcionalidade e produtividade do molde, as regiões moldantes (cavidades e machos) são consideradas críticas uma vez que as mesmas interagem diretamente com o material polimérico e com o fluido utilizado na refrigeração do molde [2]. Na construção de moldes de injeção, muitos são os casos onde o produto apresenta grande responsabilidade, como geometria, dimensão (sob pena de não ser possível sua montagem nos demais componentes), custo (ciclos rápidos de produção), repetibilidade do produto em processo e a impossibilidade de marcas (a não utilização de insertos, uma vez que, esta prática implica no aparecimento de marcas no produto) [3]. A Figura 1 mostra uma representação genérica e simplificada dos componentes que fazem parte de um molde de injeção, e subdivide o mesmo em seis partes, cujas diferentes funções serão explicitadas a seguir. Os componentes responsáveis pelo guiamento e alinhamento do molde são fundamentais para sua concentricidade e conseqüente qualidade do produto final. A alimentação do molde, ou seja, canais de injeção principais e secundários, são os responsáveis pelo preenchimento de todas as cavidades, e, portanto, de grande influência no tempo total de ciclo de injeção. O sistema de ejeção responde pela perfeita extração do produto final, e, na maioria dos casos, deve garantir que o mesmo seja extraído mecanicamente de dentro do molde. O sistema de troca de calor, também conhecido como refrigeração do molde, deve manter estável a temperatura deste, e, além disso, ser eficiente o suficiente para que o produto esteja solidificado no momento da extração. É através das placas bases, superior e inferior, que o molde será preso na máquina injetora, e as forças de injeção e extração, transmitidas para o funcionamento cíclico do processo. Todos os sistemas apresentados são igualmente importantes para um bom funcionamento de um molde de injeção, entretanto esse trabalho de pesquisa apresenta focado no sistema de refrigeração. Sistema de Injeção e Canais de Distribuíção Sistema de Impressão: Cavidade e Macho Sistema de Montagem e transmissão de forças Sistema de Extração Sistema de Refrigeração Figura 1 – Representação genérica de um molde de injeção. Neste trabalho, é apresentado um estudo comparativo entre duas abordagens utilizadas para refrigeração de moldes de injeção para produtos com alta relação comprimento-diâmetro. A refrigeração do molde é um dos itens que permite conferir as características desejadas ao produto, contudo, quando o produto possui um comprimento elevado em relação a sua base, a refrigeração fica dificultada. Para contornar essa dificuldade são sugeridas duas formas de se aplicar a refrigeração no macho (parte do molde que faz a parte interna do produto): a primeira é fazer um sistema de placa defletora (“baffle”, popularmente conhecida como cascata) no interior do macho, para que, com a passagem do refrigerante, ocorra a transferência de calor, reduzindo a temperatura do molde; a segunda é a inserção de um pino de alta condutividade térmica no macho, sem que haja contato do mesmo com o polímero fundido, facilitando a condução de calor do topo do macho até o fluido refrigerante. As temperaturas em diferentes partes do molde oscilam, segundo [4], devido ao ciclo de trabalho e as modificações necessárias de processamento. Quando se trata de situações em que a transferência de calor está em função do tempo, tipicamente, tais problemas nãoestacionários ou transientes surgem quando ocorrem mudanças nas condições de contorno do sistema, de acordo com [5]. Para condições em que os gradientes de temperatura no interior do sólido são pequenos, um procedimento mais simples pode ser empregado, que é o Método da Capacitância Global. A essência deste método é a hipótese de que a temperatura no interior do sólido é uniforme no espaço em qualquer instante de tempo durante o processo transiente. Pela lei de Fourier, a condução térmica na ausência de um gradiente de temperatura implica a existência de uma condutividade térmica infinita, porém, tal condição é impossível. Esta simplificação, segundo [6], é justificada quando a resistência térmica externa e muito maior que a resistência interna do sistema. A medida da importância relativa da resistência térmica dentro de um corpo sólido é dada pela razão das resistências interna e externa. Esta razão pode ser escrita na forma adimensional pelo número de Biot, calculado por: Bi = hLc k (1) Em [5] é salientado que o número de Biot fornece a medida da relação entre a queda de temperatura ao longo do sólido e a diferença das temperaturas de sua superfície e do fluido. Desta forma, quando Bi<<1, o gradiente de temperatura no sólido é pequeno, ou seja, toda diferença de temperatura encontra-se entre a superfície e o fluido. Entretanto, para número de Biot moderado para elevados, os gradientes de temperaturas são significativos. Para números de Bi>>1, a diferença de temperatura ao longo do sólido se torna muito maior do que a diferença de temperaturas entre a superfície e o fluido, como mostra a Figura 2. T(x,0)=Ti T(x,0)=Ti T∞ , h t T∞ , h T∞ t= ρVc θi ln hAsup θ -L T∞ -L L x L T∞ -L Bi<<1 T T(t) T∞ -L L L Bi >> 1 T = T(x,t) Bi = 1 T = T(x,t) Figura 2 - Distribuição de temperatura em regime transiente para diferentes números de Biot em uma parede plana resfriada simetricamente por convecção. (Fonte: Incropera, 1998) Num problema de transferência de calor, quando o número de Biot for menor que 0,1, pode ser aplicado o método da capacitância global, com pequenas margens de erro. Ao se desprezar os gradientes de temperatura no interior do sólido, a alternativa é a formulação de um balanço global de energia, que deve relacionar a taxa de perda de energia com a variação de sua energia interna. Essa dT análise pode ser realizada através da − hAsup (T − T∞ ) = ρVc dt seguinte equação: (2) Fazendo algumas simplificações e integrando desde a condição inicial, quando t = 0 e T(0) = Ti, obtém-se: (3) Onde: θi = Ti - T∞ θ = T - T∞ (4) (5) ⎛ hAsup ⎞ ⎜⎜ ⎟ ρVc ⎟⎠ θ T − T∞ ⎝ e = = θi Ti − T∞ (6) Ou: −t A equação (3) pode ser utilizada para se obter o tempo necessário para o sólido atingir uma determinada temperatura T, ou também, a temperatura do sólido no instante t. Na equação (6) a grandeza (ρVc/hAsup) pode ser interpretada como uma constante de tempo térmica. Paro o objetivo deste trabalho é útil saber a energia total transferida pela parede num tempo “t” do processo transiente. Segundo [2], pode ser aplicada a conservação de energia, delimitada pela condição inicial (t=0) e por qualquer outro instante de tempo t>0. Ee – Es = ∆Eac (7) Igualando a quantidade de energia saída da parede Q a Es, e estabelecendo Ee=0 e ∆E ac = E(t) − E( 0 ) , segue-se que: Q = –[E(t) – E(0)] (8) Q = − ∫ ρc[T(r, t) − Ti ].dV (9) Ou: A partir da equação (9) pode-se observar que, supondo propriedades termofísicas constantes, a quantidade de calor transferida num instante t, quando a temperatura é T, torna-se: Q = ρcV(Ti − T) (10) Substituindo-se T por T∞ obtém-se a quantidade total de energia armazenada na peça, que é a máxima quantidade de calor que pode ser transferida, quando a peça entrar em equilíbrio com o ambiente. MATERIAIS E MÉTODOS Experimento Para a realização do estudo foi utilizado um porta-molde genérico, de cunho experimental, que permite a adaptação de diferentes conjuntos de macho e cavidade facilitando assim o desenvolvimento de estudos específicos acerca de moldes de injeção de termoplástico [9]. Um inserto fêmea (cavidade) e dois conjuntos de machos, incluindo seus sistemas de refrigeração e extração foram confeccionados exclusivamente para esse trabalho. O produto desses conjuntos é meramente experimental, sem nenhum apelo comercial, e pode ser visualizado na Figura 3, juntamente com o portamolde. (a) (b) Figura 3 – Porta-molde sem o conjunto macho/cavidade (a) e produto a ser injetado (b) Materiais empregados Para a cavidade foi utilizado um aço SAE 1045 sem refrigeração. Tal configuração foi utilizada, pois, o objetivo era o de forçar a transferência de calor para o macho, de forma a se obter resultados mais consistentes. O macho foi desenvolvido com o material P20, muito utilizado na construção de machos, cavidades e peças onde há contato com produto devido a vários fatores como: excelentes propriedades mecânicas em todas as direções, elevado grau de pureza, boa usinabilidade, tanto no estado recozido quanto beneficiado, boa soldabilidade, excelente polibilidade, possibilidade de utilização do bloco até o núcleo, boa uniformidade de dureza, boa reprodutibilidade, e apresenta um coeficiente de condutividade de 38 W/mK. O pino interno foi confeccionado com Ampco® 940. Este se enquadra na Norma RWMA, classe 3, sem berílio. É usada sempre que se necessite de boa condutividade térmica e elétrica, juntamente com altas propriedades mecânicas, utilizada em cavidades de moldes para plásticos. A Liga Ampco 940 pode ser nitretada para se obter durezas elevadas localizadas com mínimo de perda de condutividade. Algumas propriedades do amcpo® 940 são vistos na Tabela 1. Tabela 1 – Propriedades do Ampco 940 Dureza 210 HB 30 e 19HRc Coeficiente de condutividade (W/mK) 208 Resistência a tração (N/mm2) 689 Limite escoamento (N/mm2) 517 Alongamento (%) 12 Limite de elasticidade a compressão (N/mm2) 634 A escolha pelo Ampco® 940 foi devido ao fato de ser um material de uso comum na confecção de insertos de moldes onde se necessita boa condução de calor, muito embora, para a aplicação do pino interno, poderia ter sido utilizado outros materiais como o alumínio, cobre, entre outros. Como pode ser visto, a condutividade térmica do Ampco® 940 é bem superior a do aço. Sistemas de resfriamento Os sistemas de resfriamento propostos neste trabalho são: o de cascata, ou “baffle”, e o sistema de pino interno ao macho, mostrados na Figura 4 (a) e (b) respectivamente. No sistema de cascata, o fluido refrigerante (água) entra no macho e percorre seu interior por meio de um furo, auxiliado por uma lamina defletora que obriga o fluido a circular no topo do macho. Neste sistema, foram implantados dois termopares do tipo K, de forma a se poder medir temperaturas em duas regiões do macho: uma próxima a base do produto; e a outra, no topo do macho. No sistema de pino interno (Figura 4(b)), a água entra no macho e banha a base do pino, o qual conduz o calor do topo do macho até o fluido. Para este sistema, foram implantados três termopares (tipo K): um no topo do pino; o segundo próximo a base do produto; e o terceiro, no topo do macho. (a) (b) Figura 4 – Sistema de resfriamento tipo cascata (a) e Sistema de resfriamento tipo pino (b) Equipamentos utilizados A injetora utilizada para o processamento do polímero foi uma Himaco LH 150-80 de 80 toneladas de força de fechamento. A máquina é responsável pelo aquecimento, a homogeneização e plastificação do polímero, bem como de injetar o polímero para o interior do molde e a extração da peça já solidificada. Para fazer a circulação de água no interior do molde, e mesmo, a refrigeração de alguns componentes da máquina injetora, foi utilizada uma unidade de resfriamento de água modelo TC-15 de fabricação Tecnoclima. Esta máquina conta com um by-pass que permite o controle de pressão, proporcionando uma vazão constante. Para aquisição de dados foi utilizado um scaner 5100 com 5 portas de saída para termopar e um conversor A/D de 16 bit (resolução típica usual 15 bit). O tempo total de conversão por leitura é de 40 x 10-3 s, sendo que a taxa de amostragem é de 1 ms por ponto. Isso equivale a 1.000 medições/s, igual a 1.000 Hz. Os canais de entrada em cada placa são varridos sequencialmente a 25.000 medições/s e, com o auxilio de um micro computador, são armazenados na RAM (memória de acesso randômico) dentro de um intervalo de 1 ms. Os dados são convertidos em um arquivo de texto e processados posteriormente no Excel. Os termopares utilizados foram do tipo K com junta chromel-alumel. Apresenta faixa de medição de -40 a 240°C, com precisão de 0,75% ou 2,2°C, para mais ou para menos. Um termômetro óptico foi utilizado para a medição da temperatura da peça no momento da extração da peça. Este equipamento foi desenvolvido para medir alvos a pequenas distancias, abrangendo uma área mínima de ação de 18mm2 e numa faixa de temperatura de -18 a 275°C. Apresenta uma resolução ótica de 8:1, e precisão de 2% ou a variação de 2°C para mais ou para menos, aplicando-se o que for maior; a faixa de atuação é de 1 a 275°C. Para medição da temperatura média de entrada e de saída da água foi utilizado um termômetro de referência NOVUS 51, que apresenta uma resolução de 0,10°C. Para o calculo da vazão mediu-se a massa de água que fluiu no interior do molde. A balança utilizada foi a LC50 de fabricação Marte, com capacidade para 250g até 50 kg, e sensibilidade de 10g. Metodologia Foram injetados quatro lotes de peças, onde foram utilizados dois tempos de ciclo para cada sistema de arrefecimento. O polímero utilizado foi o polipropileno H-503. Durante o processo de injeção foram medidas temperaturas em diversas regiões do macho, vazão e temperatura do fluido refrigerante na entrada e na saída do molde e a temperatura de extração da peça. A taxa de varredura de temperaturas foi de 10 medições por segundo, ou seja, os termopares efetuaram 10 medidas por segundo. Os dados de injeção, recalque e de processamento, bem como seus tempos foram mantidos constantes em todos os ensaios, variando somente o tempo de ciclo (13,6s e 17,6s), sendo eles: • Pressão de injeção: 13 bar; • Tempo de injeção: 1,6s; • Pressão de recalque: 10 bar; • Tempo de recalque: 4 s; • Temperatura de processamento do polímero: 205 °C. De posse dos produtos injetados, foram feitas duas análises distintas: o DSC (Calorimetria Diferencial por Varredura) para se obter informações da cristalinidade do polímero; e a análise dimensional do produto. RESULTADOS Conforme já mencionado, foram processados quatro lotes de peças com dois tempos de ciclo para cada sistema de resfriamento. As principais medições realizadas estão mostradas na Tabela 2 e as temperaturas obtidas são mostradas na Figura 5e Figura 6. Tabela 2 – Temperaturas e vazões medidas SISTEMA DE RESFRIAMENTO Cascata Cascata Pino Pino MEDIÇÕES Ciclo de 13,6 Ciclo de 17,6 Ciclo de 13,6 Ciclo de 17,6 s s s s Temperatura média das peças na extração 98 73 109 99,6 [oC] Temperatura de entrada da água no molde 20,5 20,5 22,2 22,2 [oC] Temperatura de saída da água do molde 20,7 20,7 22,3 22,3 [oC] Vazão de água [l/min] 4,34 4,34 7,87 7,87 Observa-se que praticamente não houve variação de temperatura na água de resfriamento. Isso se deve ao fato da peça ser pequena e a capacidade da máquina de refrigeração bem maior que o necessário, gerando uma vazão muito elevada. Como o sistema de resfriamento tipo pino possui menos perda de carga, a vazão de água aumenta. Entretanto, apesar da maior vazão, a temperatura de saída das peças é maior, o que evidencia que o sistema de resfriamento tipo cascata tem maior capacidade por aproximar mais o fluido refrigerante da peça. Na Figura 5 verifica-se que a amplitude da temperatura no topo é menor para um ciclo mais rápido, enquanto na base essa diferença é bem menor. O fato da temperatura da base ser em torno de 30oC menor que a temperatura do topo mostra que ocorre um resfriamento da peça durante a injeção e ao preencher a base a peça já não possui uma temperatura tão elevada. Como a variação de temperatura durante o ciclo é razoavelmente uniforme, pode-se considerar que a transferência de calor em cada intervalo de tempo é um processo em regime permanente. Figura 5 – Perfil de temperaturas no macho do sistema tipo cascata em vários ciclos de injeção: a) Ciclo de 13,6 s e b) Ciclo de 17,6 s Os gráficos da Figura 6 mostram uma grande diferença de comportamento para o sistema tipo pino. Nesse sistema, para os mesmos tempos de ciclo, as temperaturas mantiveram-se bem mais elevadas, evidenciando a menor transferência de calor e justificando que a temperatura das peças na extração seja maior. Da mesma forma que o sistema tipo cascata, o ciclo mais curto apresenta temperaturas mais elevadas e amplitudes menores. Figura 6 – Perfil de temperaturas no macho do sistema tipo pino em vários ciclos de injeção: a) Ciclo de 13,6 s e b) Ciclo de 17,6 s Cristalinidade e Dimensional Para avaliar a qualidade das peças produzidas fez-se um teste de calorimetria diferencial por varredura que permite estimar o grau de cristalinidade comparando o valor obtido com o dado do polímero hipoteticamente 100% cristalino, conforme [7]. Em [8] é observado que a estrutura cristalina dos polímeros depende, entre outros fatores, da temperatura e do tempo de resfriamento, influenciando na porcentagem, no tamanho e na distribuição dos tamanhos dos cristais. Os dados obtidos podem ser vistos na Tabela 3, onde a região A é próxima ao topo, enquanto a região B é próxima a base da peça. Tabela 3 – Tabela do grau de cristalinidade Cascata Pino interno Amostra 13,6s 17,6s 13,6s 17,6s região A região B região A região B região A região B região A região B Calor de fusão da 83,81 82,53 70,87 79,73 84,07 89,88 84,20 87,91 amostra(J/g) Cristalinidade (%) 40,10 39,49 33,91 38,14 40,22 43,00 40,29 42,06 Diferença (%) 1,53 12,50 6,91 4,41 Observa-se que o sistema de pino confere uma cristalinidade um pouco maior às peças, porém, não chega a ser um valor significativo. Outra constatação é que não há uniformidade ao longo da peça, o que pode ser explicado pelas diferentes temperaturas ao longo do macho verificadas nas Figuras 6 e 7. Em relação ao aspecto dimensional, ambos os sistemas não atingiram os valores especificados no projeto para quatro dimensões analisadas, porém, os resultados para o sistema de cascata e para os tempos de 17,6 s de ciclo nos dois sistemas apresentaram menor variabilidade. O sistema de cascata apresentou desvio padrão de 0,02 a 0,03 mm para 13,6 s e 0,01 a 0,02 mm para 17,6 s, enquanto o sistema de pino apresentou desvio padrão de 0,04 a 0,07 mm para 13,6 s e 0,02 a 0,05 mm para 17,6 s. Para atingir-se os valores especificados pode-se alterar parâmetros de injeção, como pressão de injeção e de recalque e tempo de recalque. Transferência de Calor A partir dos dados obtidos foi possível realizar alguns estudos de transferência de calor para comparar os dois sistemas de resfriamento. Além das medições de temperatura e vazões já mostradas outros dados sobre o polímero e os sistemas são necessários. Algumas dessas informações são a densidade e condutividade térmica do polímero, bem como as dimensões da peça injetada, dimensões da cascata e do pino, para determinar velocidades e áreas de transferência de calor e propriedades de transporte, como viscosidade, calor específico e condutividade da água. Conhecendo-se as temperaturas de entrada e saída do polímero e o tempo de cada ciclo, pode-se estimar a quantidade total de calor trocada entre o polímero e a água através do sistema de resfriamento. Avaliando-se as resistências térmicas do metal e da água, pode-se determinar a resistência do polímero. Essa resistência térmica é difícil de ser avaliada analiticamente devido ao comportamento do polímero durante o ciclo, uma vez que em poucos instantes ocorrem fenômenos de convecção, solidificação e condução. A forma correta de avaliar-se essa transferência de calor seria através da simulação numérica utilizando elementos finitos, porém, uma solução simplificada teria aplicações em avaliações expeditas e dimensionamentos preliminares. Aplicando a equação (10) para cada instante medido pode-se determinar a transferência de calor instantânea e usando equações típicas de transferência de calor por condução e convecção ([5], pág. 43) determina-se as resistências térmicas do macho e da água. Assim, pode-se montar a Tabela 4, onde percebe-se que a transferência de calor diminui a medida que o polímero solidifica-se e diminui sua temperatura. Tabela 4 – Tabela de valores de 1/Rtpol em função do Qinst Tempo (s) Temperatura (°C) 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 205,00 192,20 180,30 169,21 158,90 149,30 140,37 132,05 124,32 117,12 110,41 104,18 98,38 101,02 dT/dt (°C) Qinst (W) 12,80 122,3323 11,91 114,7739 11,08 107,6824 10,31 101,0292 9,60 94,78696 8,93 88,93044 8,31 83,43578 7,74 78,28061 7,20 73,44395 6,70 68,90614 6,24 64,6487 5,80 60,6543 5,30 56,9067 Valores médios 1/Rtpol (W/m2K) Topo Base 1687,469 1525,177 1383,369 1258,637 1148,284 1050,146 962,4722 883,8246 813,0147 749,0504 691,0974 638,4485 590,501 1065,916 1474,202 1348,815 1236,702 1136,054 1045,375 963,412 889,110 821,574 760,040 703,852 652,442 605,317 562,048 969,741 Fazendo a média das médias se obtém o valor final para 1/Rtpol =984 W/m2K. Esse valor é razoável considerando que ocorre convecção, mudança de fase e condução num tempo e num espaço bem reduzidos. No cálculo de transferência de calor em moldes esse é um parâmetro muito importante e, mesmo com todas as incertezas do cálculo, é possível se ter uma idéia de grandeza. No caso do sistema tipo cascata, percebe-se que a maior resistência térmica está no polímero, já que o coeficiente de transferência de calor da água é bem elevado (da ordem de 104) e a condução de calor pelo metal também apresenta pouca resistência térmica. O mesmo procedimento foi feito para o sistema com pino e obteve-se a Tabela 5. Tabela 5– Tabela de valores de 1/Rtpol em função do Qinst 1/Rtpol [W/m2K] Temperatura dT/dt Tempo [s] Qinst [W] [°C] [°C/s] Topo Base 0 205,00 1 195,26 9,74 104,5406 947,7407 988,9047 2 186,04 9,22 98,96957 897,2345 936,2049 3 177,30 8,73 93,69537 849,4199 886,3134 4 169,04 8,27 88,70224 804,1533 839,0808 5 161,21 7,83 79,50006 761,2991 794,3652 6 153,81 7,41 83,97519 720,7286 752,0326 7 146,79 7,01 75,26341 682,3201 711,9559 8 140,79 6,64 71,25253 645,9585 674,0149 9 133,87 6,29 67,45540 611,5346 638,0959 10 127,92 5,95 63,86063 578,9452 604,091 11 122,28 5,63 60,45742 548,0926 571,8983 12 116,95 5,33 57,23557 518,8841 541,4212 13 111,90 5,05 54,18542 491,2321 512,5682 Valores médios 696,7341 726,9959 Fazendo a média das médias se obtém o valor final para 1/Rtpol =712 W/m2K. A transferência de calor no sistema tipo pino é bem mais complexa que no sistema tipo cascata devido a ocorrência de fluxos bidimensionais de calor (sentido radial e axial do pino), portanto, resolveu-se estudar o seu comportamento como se fosse uma superfície estendida (aleta). Após os cálculos chegou-se a uma eficiência da aleta de 32% e os resultados calculados foram coerentes com os medidos. Tendo estabelecido valores e uma metodologia simplificados para estimar a transferência de calor em sistemas de resfriamento de moldes, passou-se a fazer uma comparação de desempenho dos dois sistemas para uma peça hipotética com as seguintes características: diâmetro externo de 29mm, interno de 27mm, altura de 25mm. Em seguida foi alterada a altura da peça hipotética com os valores de 87mm, 149mm e 211mm para configurar peças de grande relação altura/base. Para a cascata, será mantido como espessura de parede (raio externo do macho menos raio da cascata), uma vez o diâmetro da cascata. Já para o pino interno, será utilizado como espessura de parede do macho, 4mm. A análise de todas as simulações realizadas mostrou que com o aumento da altura do produto, o pino vai se tornando menos eficiente, e o tempo de ciclo vai sendo aumentado de forma linear. Ao contrário da cascata, que apresenta uma maior estabilidade, mantendo-se próxima a faixa de 2 à 4s, conforme pode ser visualizado no gráfico da Figura 7. Figura 7 – Desempenho dos sistemas perante o aumento da altura do produto. Analisando o gráfico da Figura 7, percebe-se que o pino apresenta vantagem até uma altura um pouco maior que 40mm, para as condições citadas na simulação. A grande vantagem do pino então, é em locais de difícil acesso, ou regiões de grande fragilidade, onde a colocação de um pino seria a única alternativa para obter um mínimo de resfriamento da peça. CONSIDERAÇÕES FINAIS Seguindo a análise da Figura 7, verifica-se que com o aumento da altura do produto, há o aumento da resistência térmica e, portanto, há a necessidade de um tempo de ciclo maior. No caso da cascata, o aumento da altura do produto influencia pouco na resistência térmica, pois o furo também acompanha tal acréscimo, porém, há um aumento da quantidade de calor trocado, que acarreta num aumento de temperatura do fluido refrigerante. O uso de pino em sistemas de resfriamento na maioria das situações piora a transferência de calor, mas dispondo-se de uma forma de cálculo e valores práticos de coeficientes de transferência de calor, pode-se avaliar rapidamente as dimensões necessárias e o tempo de ciclo necessário, comparando com o sistema de cascata para determinar a melhor opção com base em informações confiáveis. Também observou-se que a cristalinidade melhora com menor velocidade de resfriamento, e a estabilidade dimensional é maior quando a temperatura de extração é menor. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. HARADA, Júlio. Moldes para Injeção de Termoplásticos: projetos e princípios básicos. Editora Artliber. São Paulo – SP, 2004. 2. MENGES, Georg; MICHAELI, Walter; MOHREN, Paul. How to make injection molds. 3ª Edição, Hanser. Munich, 2000. 3. REES, Herbert. Mold Engineering. Hanser. Munich, Vienna, New York, 1995. 4. BRITO, A.M., MATOS, A., MENDES; S.S. Manual do Projectista para moldes de injecção de plástico. Departamento de Engenharia de Polímeros, Universidade do Minho, Portugal, 2004. INCROPERA, F.P. e WITT, D.P. Fundamentos de transferência de Calor e de massa. 4ª. Ed. Rio de Janeiro: LTC, 1998. KREITH, F. Princípios da Transmissão de Calor. Edgard Blücher, 1969. CANEVAROLO Jr, S.V. Técnicas de caracterização de polímeros. São Paulo: Artliber, 2004. MANRICH, S. Processamento de Termoplásticos: Rosca única, extrusão e matrizes, injeção e moldes, revisada por Rosa Symanski. São Paulo: Artliber, 2005. BARETA, D. R. Estudo experimental comparativo de materiais aplicados a insertos machos de moldes de injeção dentro do conceito de moldes híbridos. Dissertação de Mestrado. Universidade de Caxias do Sul. 2007. 5. 6. 7. 8. 9. UNIDADES E NOMENCLATURA Asup área de transferência de calor (m2) Bi número de Biot (adimensional) c calor específico (J kg-1 K-1) E energia (J) h coeficiente de transferência de calor por convecção (W m-2 K-1) k condutividade térmica (W m-1 K-1) Lc comprimento característico (m) Q calor transferido (J) Rtpol resistência térmica do polímero (m2 K/W) T temperatura (K) t tempo (s) V volume (m3) θ diferença de temperatura (K) ρ massa específica (kg/m3)