Anais Eletrônicos do VIII Encontro Internacional da ANPHLAC
Vitória – 2008
ISBN - 978-85-61621-01-8
Sahagún e as festas agrícolas mexica
Karen A. A Valdivia1
Resumo
O objetivo deste trabalho é delinear uma análise do método estruturado por frei
Bernardino de Sahagún para a descrever as antigas festas do calendário solar mexica,
relacionadas ao ciclo agrícola, em sua crônica Historia General de las cosas de Nueva
España2. O conhecimento da antiga cultura indígena era fundamental para o projeto
missionário deste franciscano, que acreditava que era necessário conhecer a antiga cultura
indígena para poder convertê-la de forma eficaz. Assim as festas representavam um campo
de análise privilegiado a partir do qual ele poderia identificar qualquer resquício de suas
antigas práticas ritualísticas, que considerava idolátricas, nos cultos cristãos recém
incorporados pelos indígenas do planalto central mexicano.
As antigas festas e rituais expressavam toda a complexa cosmovisão mexica, refletia
sua estrutura social e a ideologia política existente, por isso o método estruturado por
Sahagún para descrever tais cerimônias revelam um sentido muito mais profundo por trás.
Apesar de Sahagún expor de forma sistemática os rituais, suas descrições revelam todo o
conflito que o missionário enfrentava ao tratar de tais cerimônias.
Frei Bernardino de Sahagún
Apesar de ser bem conhecido pelos estudiosos que pesquisam o México préhispânico e na época da conquista, nunca é demasiado fazer uma apresentação deste
importantíssimo missionário3. Frei Bernardino de Sahagún nasceu em Sahagún de Campos,
León, entre 1499-1500. Estudou na Universidade de Salamanca e formou-se sacerdote no
convento de São Francisco da mesma cidade. Em 1524 é ordenado sacerdote.
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Mestranda em Ciências da Religião, PUC-SP, [email protected].
Este trabalho originou-se da minha pesquisa de mestrado Sahagún e as festas agrícolas mexica: em busca de
um sentido.
3
Para maiores detalhes sobre a vida de Frei Bernardino de Sahagún ver Joaquín Garcia Icazbalceta
Bibliografia Mexicana, e também Ignacio Bernal Vida y Obra de fray Bernardino de Sahagún: dos cartas de
Paso y Troncoso a García Icazbalceta .
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Sahagún foi para a Nova Espanha em 1529 com mais dezoito missionários levados
por frei Antonio de Ciudad Rodrigo. Ele nunca mais regressaria à Espanha, permaneceu o
resto de sua longa vida na região do planalto central mexicano. Aprendeu como poucos a
língua indígena, o náhuatl. Em 1536 começou a dar aulas de latim no famoso colégio de
Santa Cruz de Tlatelolco aos filhos da elite indígena. Dedicou-se a elaborar diversos
escritos que ajudassem no projeto de evangelização dos nativos. Seus principais escritos
são Psalmodia Christiana, Colóquio de los Doce, Primeros Memoriales e Historia General
de las Cosas de Nueva España, sendo este último o objeto de nossa análise.
Sob a ordem de seu superior, frei Francisco de Toral, em 1557, Sahagún começa o
trabalho que tomaria os próximos trinta anos de sua vida. Este havia pedido a frei
Bernardino que recolhesse testemunhos sobre os antigos costumes e crenças do povo da
região. Interesse já demonstrado dez anos antes, quando com a ajuda do padre Andrés de
Olmos pretendia relatar as antiguidades mexicas.
Todo este trabalho de Sahagún resultou em seu mais importante escrito, conhecido
como Historia General de las Cosas de Nueva España, o qual foi escrito primeiramente em
náhuatl, terminado em 1569, e mais tarde, a pedido do provincial da ordem, Rodrigo de
Sequera, transcrito em espanhol, que termina em 1585.
A pesquisa de Sahagún foi paralisada duas vezes durante sua elaboração devido a
mudanças na postura da Igreja perante o indígena, relacionadas com as resoluções do
Concílio de Trento, da Companhia de Jesus e do Tribunal do Santo Ofício no México.O
utópico projeto dos franciscanos, do qual frei Bernardino fazia parte, de incorporar os
índios ao cristianismo mantendo sua especificidades culturais, um cristianismo universal
acima das diferenças, já não faziam parte de seus interesses. O indigenismo era visto como
suspeito e obras como a de Sahagún deviam ser confiscadas porque eram vistas como
perigosas (NATALINO.2002:129).
Frei Bernardino de Sahagún faleceu em 1590, no México, sem ver publicado e sem
saber o destino de seu trabalho mais importante.
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O Trabalho missionário
A obra de Sahagún insere-se no incipiente trabalho missionário levado a cabo na
Nova Espanha no início do século XVI, o qual enfrentava muitos problemas e desafios para
estruturar um modelo de evangelização indígena, sendo uma das principais preocupações
dos religiosos e inclusive de Sahagún, a idolatria, a persistência das antigas práticas
ritualísticas em honra às diversas deidades. A cultura indígena era tão bem consolidada e
estruturada que os conquistadores e missionários tiveram muita dificuldade para extinguir
seus principais pilares, fundamentados no politeísmo mítico, e reforçado por toda uma
ideologia política da elite. Dessa forma era necessário extinguir totalmente os antigos cultos
e festas que faziam em honra às suas deidades.
Por essa razão, frei Bernardino defendia que era fundamental conhecer a antiga
cultura indígena para poder convertê-la. As festas eram a máxima expressão da cosmovisão
nahua, refletiam toda a hierarquia e dinâmica social e também a ideologia social existente.
Significando, assim, um elemento chave no projeto missionário de Sahagún.
Em Historia General, Sahagún faz toda uma compilação dos principais elementos
que constituíam a cultura mexica, que ele pensava ser muito útil para seus companheiros
em seus esforços de evangelização, além de ser um registro importante para todos os que
quisessem estudar aquela cultura.
Frei Bernardino centralizou sua pesquisa no planalto central mexicano. Esta foi feita
por meio de um roteiro ou questionário, elaborado pelo franciscano, acerca dos principais
aspectos da antiga cultura indígena dos quais desejava obter informações, ao qual
responderam alguns principales e anciãos mexica, profundos conhecedores da antiga
cultura nahuatl, que concordaram em ajudá-lo baseados em seus antigos códices.
Sahagún adquiriu suas informações em Tepepulco, entre 1558-1560; em Tlatelolco,
entre 1564-1565 e México- Tenochtitlán entre 1565-1569.
Nas duas primeiras etapas,
Sahagún dedicou-se a reunir elementos da cultura náhuatl baseado no roteiro, questionário,
criado por ele. Estes temas escolhidos formaram o conteúdo de Historia General. E em
México, Sahagún reuniu todos seus manuscritos, passou-os à limpo e finalmente
reestruturou-os em doze livros, tal como se conhece a divisão de seu corpus até hoje.
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O principal objetivo de Sahagún era alertar aos seus irmãos de ordem que a
evangelização dos indígenas não estava sendo eficiente e que estes ainda faziam suas
práticas pagãs de forma camuflada, assim através de seus escritos, Sahagún queria mostrar
aos demais religiosos as persistências idolátricas escondidas que ainda poderiam existir.
Neste contexto o livro II de Historia General, dedicado às festas e rituais que os
mexica faziam em honra às antigas deidades é importantíssimo, pois era um campo
privilegiado de análise para o projeto de frei Bernardino. Através de suas descrições
podemos analisar como Sahagún entendeu a organização social da antiga cultura, o papel
desempenhado por cada classe social e de cada indivíduo nos rituais. As festas, como já foi
dito, eram o espelho da hierarquia social, reflexo da antiga cosmovisão indígena, além de
revelarem toda uma ideologia política por trás.
Das festas agrícolas
As festas do ciclo agrícola eram regidas pelo calendário solar, formado por dezoito
vintenas de e mais cinco dias vazios ou “nemontemi”. A partir dos trabalhos de Johanna
Broda (1971, 1979,1982) podemos afirmar que as festas podem ser divididas em dois
grandes grupos:
a) Festas de culto guerreiro, relacionada com as funções políticas econômicas
controladas pela elite governante;
b) Festa de culto agrícola, ligadas aos processos de produção. Esta categoria pode ser
dividida em duas partes:
- culto agrícola, de fertilidade, cujos patronos eram os deuses da chuva e do milho;
- culto à produção artesanal, cujos patronos eram as deidades dos ofícios
especializados.
Destas escolhemos sete delas que estão relacionadas com o ciclo agrícola. São as
vintenas I Atlcahualo dedicado aos deuses da chuva; IV Huey Tozoztli dedicado ao deus do
milho Cintéutl; VI Etzalcualiztli dedicado aos deuses da chuva; XI Ochpaniztl dedicado à
deusa Toci; XIII Tepeílhuitl dedicado aos montes eminentes; XVI Atemoztli festa aos deuses
da chuva; XVIII Izcalli festa ao deus do fogo Xiuhtecutli. As festas destas vintenas remetem
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a elementos agrícolas que formam um conjunto muito importante no pensamento nahua:
água, chuva, milho, montes e fogo.
Nos privamos de descrever tais festas neste trabalho por razões de espaço, mas
mencionaremos o que há de comum entre elas, de maneira que possamos lançar algumas
luzes sobre o método de descrição de frei Bernardino.
- Eram rituais de alto conteúdo mítico;
- A maioria das festas principais, que davam o nome à vintena, aconteciam no
último dia da vintena;
- Todas tinham uma série de rituais preparatórios antes da festa principal;
- Importantes cerimônias que aconteciam à meia-noite, principalmente os sacrifícios
humanos;
- As oferendas eram importantíssimas, assim como o jejum;
- Os sacrifícios humanos, principalmente de crianças e de cativos que encarnavam
as deidades a serem sacrificadas eram fundamentais;
- marcada participação da gente comum.
Sahagún considerava as festas e rituais que os mexica faziam as suas deidades como
cerimônias idolátricas.
Nas descrições elaboradas por frei Bernardino, ele valeu-se dos conhecimentos de
seus informantes e alunos, ele deixa ouvir a voz indígena, mas por outro lado, ele traduz e
manipula as informações de forma que mais se adequassem aos seus objetivos
missionários. Seu objetivo era explicitar os elementos de idolatria da antiga cultura náhuatl
que poderiam ainda subsistir nos cultos católicos dos neo-conversos.
Assim, analisar seu método de descrição é complexo, pois Sahagún vai muito mais
além da simples condenação, seu conhecimento o habilitou a manipular as informações da
maneira que lhe fosse mais útil, mais interessante.
Em sua abordagem, o cronista parte de seu mundo conceitual para poder explicar,
traduzir elementos da cultura indígena, fazendo assim muito uso de analogias. Frei
Bernardino estava preocupado com a conservação da ortodoxia da fé católica, o que lhe fez
privilegiar os aspectos exteriores da cultura náhuatl, como a ênfase no detalhamento das
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deidades, das imagens, das festas. Por isso, seus aspectos mais abstratos tiveram menor
importância na crônica de Sahagún.
Isto explica porque todo o sentido mais profundo que a água, a chuva, o milho, os
montes e o fogo tinham no pensamento indígena não fosse abordado pelo missionário,
embora Sahagún tivesse conhecimento da importância desses elementos na cosmovisão
mexica.
Sua descrição dos rituais é, portanto, sistemática. Ele se limita a descrever os
principais elementos das festas, quem participava, o que faziam em cada festa. O próprio
cronista afirmava não haver necessidade de que ele refutasse tais cerimônias pois ela eram
tão obviamente inumanas e cruéis que qualquer pessoa que lesse suas descrições ficaria
horrorizada.
O método estruturado por Sahagún para descrever as festas e rituais agrícolas é o da
ordem. Ele precisa organizar, dar um sentido, um significado às suas informações para
poder entendê-las e dar a compreender o que queriam dizer. Por isso notamos a necessidade
que o cronista tem de nomear tudo, tudo o que é importante tem que ter um nome, um
significado. Por isso, todos têm um papel, uma função a desempenhar, existiam níveis de
participação, mas todos participavam de alguma maneira.
E como estas festas tinham, para ele, uma ordem tão acaba e rígida, só podiam ter
um sentido: o idolátrico.
Por isso Sahagún também se preocupa em identificar, apontar sempre a presença de
alguma deidade, seja através das imagens (estátuas) seja personificada, principalmente
pelas vítimas sacrificiais, seja pelos ornamentos ou atavios que lhe revelassem a idolatria.
Sahagún, ele centraliza sua atenção nos sacrifícios humanos e nas oferendas.Os
sacrifícios humanos eram um elemento –chave dentro das festas para o projeto missionário
de Sahagún, eles eram o símbolo máximo de toda a prática idolátrica que precisava ser
extirpada. Para frei Bernardino este era o ponto alto do cerimonial mexica.
O sacrifício, para Sahagún era um argumento incontestável para identificar o
“engano” do qual sofriam os índios, já que para ele, os índios estariam sendo enganados
pelo demônio, assim, era dever dos missionários salvar os índios daquele engano. E por
outro lado também justificava a conquista espanhola.
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Os sacrifícios e as oferendas apontam para um sentido mais profundo das descrições
de Sahagún, através deles vemos que existem conflitos entre o sentido que essas práticas
ritualísticas tinham para os nahua e a forma como Sahagún as entende. Pois são práticas
que para eles significam vida e que para Sahagún seriam de morte.
A análise do método de descrição proporciona ainda muitas abordagens, aqui
esboçamos um caminho que pode abrir novas perspectivas e ser aprofundado.
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Bibliografia
Fonte documental
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Madrid: Dastin, 2001.
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Artigos de periódicos
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