São Paulo, 10 de setembro de 2007 Estudo de viabilidade de implantação de um programa de microcrédito habitacional na cidade de São Paulo. Avaliação de experiências internacionais: o caso peruano 1 Agradecimentos. Agradecimento especial ao Sr. Gustavo Riofrio, sociólogo, urbanista e militante, que dedica sua vida à reflexão e à ação para a melhoria das condições de habitação e de vida das populações desfavorecidas do Peru. Seu exemplo de engajamento, sua clareza de percepção dos problemas sociais e econômicos de seu país, seu compromisso com suas idéias e sua lucidez quanto às políticas públicas atuais, serviume de inspiração, além de fonte inestimável de informações. Nós, profissionais envolvidos no projeto de estudo de viabilidade de implantação de um programa de microcrédito habitacional na cidade de São Paulo pôde, graças à sua influência, pudemos compreender, não sem certo grau de inquietação diante da tarefa hercúlea que se nos apresenta, a necessidade de articulação entre as políticas de regularização do solo, de urbanização, de assistência técnica e de crédito. Agradecimento também especial às companheiras de viagem Nancy Cavallete (Prefeitura Municipal de São Paulo), Ana Rocca (Diagonal) e Tereza Herling (Cities Alliance) pela riqueza de seus comentários e pelo apoio na organização do estudo. O contato com vocês, também com seu engajamento e lucidez modificou minha percepção sobre nossas responsabilidades como profissionais e cidadãos. Por fim, os resultados obtidos na viagem não teriam sido possíveis sem a especial acolhida que nos foi reservada pelas entidades e pessoas entrevistadas em nossas reuniões: 1. International Finance Corporation: • Sr. Felipe Portocarrero (Oficial de Operaciones) e • Sr. Alberto Didoni (Oficial de Operaciones); 2. DESCO – Centro de Estudos y Promoción del Desarrolo: • Antr. Laura Soria (Jefa del Programa), • Arq. Juan Tokeshi, • Arq. Jaime Miyashiro, • Enga. Mônica Bráñez; 2 3. FONDO MIVIVIENDA: • Aldo Vidarte Fiek (Especialista em Nuevos Productos). 4. ONG COPEME – Iniciativa Microfinanzas: • Sra. Ana Jiménez de Sotomayor (Gerente Adjunta – Iniciativa Microfinanzas). • Sr. Armando Pillado (Gerente – Iniciativa Microfinanzas) 5. EDPYME EDYFICAR • Sr. Fernando Lopez Zacarias (Gerente de Agencia) • Sra. Nancy Goyburo (Gerente de Productos) 6. MIBANCO S/A • Sr. Fernando Balbuena Favarato (Gerente de la División Marketing) • Sr. Luis O. Caycho Chang (Jefe de Producto de Vivienda) 7. COFOPRI – Organismo de Formalización de la Propiedad Informal • Arq. Gabriela Niño de Guzmán • Arq. David Alfonso Ramos López 8. Municipalidad Metropolitana de Lima • Enga. Mariella Bueno (Gerente de Desarrollo Urbano) • Dra. Nancy Zedano (Subgerente de Adjudicaciones y Saneamiento Legal de Tierras). • Sra. Susana Ramírez (Asesora de la Subgerente de Planeamiento y Habilitaciones Urbanas). 3 Antecedentes. O estudo de viabilidade de implantação de um programa de microcrédito habitacional na cidade de São Paulo tem como principais objetivos: 1) aprofundar o conhecimento sobre as experiências de crédito habitacional, com foco no crédito destinado a compra de materiais de construção, por meio da análise da oferta e demanda desse tipo de financiamento na cidade de São Paulo; e 2) verificar a viabilidade de implementação de programas, sejam eles públicos ou privados, de microcrédito para melhoria habitacional; O estudo parte da seguinte pergunta central: é viável a criação de um programa de microcrédito para compra de materiais de construção na cidade de São Paulo? Em caso de resposta afirmativa à pergunta central, deveremos, então, procurar uma qualificação genérica do programa de microcrédito definindo: 1) quais seriam as principais características e necessidades do público-alvo; 2) quais os principais atributos (taxas, prazos, montantes, etc.) do produto oferecido para atender essas necessidades; 3) qual a natureza e as principais ações complementares ao crédito desse programa; 4) quais os principais agentes envolvidos nas estratégias e atividades definidas e 5) quais os canais de distribuição do produto oferecido. Dentro desse estudo global, que inclui uma análise ampla da oferta e da demanda por microcrédito habitacional na cidade de São Paulo, foi previsto um diagnóstico de experiências internacionais relevantes, com especial ênfase no caso peruano. A experiência peruana foi avaliada in loco, através de uma missão realizada entre os dias 28 e 31 de maio. Sua análise será complementada por um levantamento, a partir de fontes secundárias, dos 4 resultados de instituições microfinanceiras internacionais que integraram em suas carteiras produtos de microcrédito habitacional. Esse relatório tem como foco compreender as principais lições da experiência peruana em tentar solucionar os problemas acarretados pelos assentamentos urbanos informais: o déficit habitacional, instalação de equipamentos públicos, etc. Vale ressaltar que tão logo iniciamos os preparativos para nossa visita ao Peru, demo-nos conta de que não poderíamos compreender o papel e a importância adquiridos pelos mecanismos de crédito e microcrédito habitacional isoladamente de outras políticas habitacionais. Expandimos, portanto, o escopo de nossa visita, procurando, por sugestão do Sr. Gustavo Riofrio, adquirir uma visão ampla das complexas questões que envolvem o desenvolvimento da habitação popular: 1. Políticas regulamentação da propriedade do solo e seus impactos sócio-econômicos; 2. marco regulatório que permita transações econômicas a partir da aquisição da posse e do direito de propriedade; 3. políticas de desenvolvimento de infra-estrutura e de equipamentos urbanos; 4. criação ou incentivo à criação de mecanismos de crédito hipotecário, de crédito para aquisição, construção e melhoria de habitações, bem como a avaliação de respectivos resultados; 5. resultados e impacto das experiências privadas mais relevantes de microcrédito habitacional, suas implicações e seus problemas; 6. políticas de densificação urbana; 7. políticas de assistência técnica. De uma missão focada exclusivamente na avaliação de resultados operacionais e de metodologias e processos de instituições voltadas ao microcrédito habitacional, concentramo-nos em uma análise de políticas públicas articuladas ou voltadas ao incentivo do crédito como ferramenta de desenvolvimento sócio-econômico e, particularmente, de desenvolvimento habitacional. A experiência peruana nos foi aconselhada pela direção da Cities Alliance não como um modelo a ser replicado ou mesmo adaptado ao contexto Brasileiro / Paulistano, mas como: 5 1. Uma experiência histórica precoce a ser conhecida: a reflexão sobre o desenvolvimento das áreas urbanas e dos chamados “pueblos jovenes” no Peru data do início dos anos 1930, devido ao processo de crescimento demográfico iniciado no começo do Século XX e com a concentração nos centros urbanos que se intensificou a partir das migrações internas do campo para a cidade nos anos 40. As primeiras iniciativas voltadas à questão habitacional tiveram início nos anos 40, durante o governo de José Luis Bustamante y Riviero (1945 – 1948), com a criação da “Corporação Nacional de Vivienda” (CNV). De lá para cá, diversas iniciativas se sucederam, com tendências à centralização e descentralização da competência executiva na matéria (governo central vs. municipalidades); alternando ciclos de tolerância face às invasões geradas pela pressão demográfica, de repressão e, finalmente, de reflexão e ação, a partir do reconhecimento da questão habitacional e da responsabilidade pública. 2. Exemplos de políticas públicas e de iniciativas privadas e não-governamentais que devem ser avaliadas com olhar crítico: a. A ênfase no processo de regularização e titulação da propriedade em “pueblos jovenes” e seus esperados efeitos no mercado de créditos. b. As iniciativas governamentais com subsídios diretos e indiretos para a compra, construção ou melhoria de habitações: “BANMAT”, “MIVIVIENDA”, “TECHO PRÓPRIO”. c. A regularização e o crédito como alavancas do processo de investimentos em habitação e em urbanização. d. A emergência de uma solução privada: a expansão do microcrédito no Peru e a emergência de experiências de microcrédito habitacional: Mibanco e Edyficar. e. Uma proposta diferenciada - DESCO: avaliação da densificação habitacional e seus pressupostos; o papel dos programas de crédito para apoiar a estratégia; a avaliação das iniciativas “PROVIPO” e “Programa Paso a Paso”. Sobre a metodologia. 6 O presente relatório teve por base uma série de entrevistas com especialistas, militantes de entidades não-governamentais e responsáveis de entidades públicas e privadas ligados aos setores microfinanceiro e de urbanismo realizadas entre os dias 28 e 31 de maio de 2007 em missão ao Peru. Participaram da missão : Tereza Herling, coordenadora de projetos da Cities Alliance, Nancy Cavallete, responsável de Habi Social, designada pela Secretaria da Habitação do Município de São Paulo (SEHAB), Ana Rocca, gerente da Diagonal, empresa parceira da SEHAB na gestão social dos projetos de urbanização e regularização fundiária e Frederico Celentano, consultor independente contratado pela Cities Alliance para a realização do presente estudo. Além das percepções dos atores, uma série de documentos, estudos, diagnósticos e avaliações nos foram cedidos pelos entrevistados para que pudéssemos compreender o contexto, as políticas e iniciativas visitadas e suas implicações no processo de desenvolvimento Peruano e particularmente de Lima e seus arredores. Introdução. i. Situação econômica, crescimento demográfico e a questão da habitação popular no Peru. A República del Peru dispõe de um área total de 1.285.220 Km2 e uma população de 26,6 milhões de habitantes. Sua economia se caracteriza pelo equilíbrio dos indicadores macroeconômicos, mas um dinamismo econômico insuficiente para reverter os indicadores de pobreza ainda muito elevados. Apresar de uma inflação controlada, situando-se em 1,14%1, uma taxa básica de juros de 4,5% a.a.2, um PIB nominal de US$ 81,86 bilhões3, tendo apresentado uma variação real no ano de 4,5%4, o Peru ainda não foi capaz de transformar a realidade sócio-econômica dos 54% da população que se situam abaixo da linha da pobreza5. Além disso, a situação de desigualdade social persiste, sendo que os 10% mais ricos da população detém 37,2% da riqueza nacional e os 10% mais pobres apenas 0,8%6. 1 Dados de 2006. Fonte: Instituto Nacional de Estadistica e Informática (INEI). Dado de abril de 2007. Fonte: URL: http://www.bcrp.gob.pe/bcr/index.php 3 Ao final de 2006. Fonte FMI in URL: http://www.abinee.org.br/abinee/decon/decon52i.htm. 4 Ibid. 5 População que vive com renda inferior a US$ 2 por dia. Fonte: URL: www.indexmundi.com/g/g.aspx?c=pe&v=69&1=pt 6 www.indexmundi.com/pt/peru/renda_o_consumo_da _unidade_familiar_por_porcentagem.html 2 7 Essa situação de exclusão sócio-econômica tem, portanto, reflexos importantes no desenvolvimento das cidades e, particularmente, no fenômeno da informalidade predial urbana. O século XX foi marcado por uma queda acentuada nas taxas de mortalidade em toda América Latina, levando portanto, a um crescimento acelerado da população. Paralelamente ao rápido incremento demográfico entre o início do século e os anos 30, quando a população de Lima, por exemplo, dobrou, o colapso do sistema agrícola peruano iniciou um processo migratório do campo à cidade nos anos 40 e 50. No Censo realizado em 1961, Lima contava com 1.800.000 habitantes, sendo que 50% haviam nascido nas províncias peruanas. Assim, num curtíssimo espaço de tempo, Lima, uma cidade capaz de abrigar menos de um milhão de habitantes, passou a necessitar de uma política urbana ativa, capaz de fazer face às necessidades de habitação, vias, equipamentos públicos, etc. A pressão demográfica, somada a um crescimento econômico e a uma distribuição de renda insuficientes constituíram o pano de fundo para a emergência da questão da informalidade predial urbana que, mesmo com um crescimento vegetativo a partir dos anos 70, permanece como o maior desafio para o Peru e, particularmente, para a cidade de Lima. Hoje, o Peru é um país essencialmente urbano. 25% da população vive nas cidades de Lima e Callao. 72,3% da população residem em cidades com mais de 20 000 habitantes e apenas 17% em pequenos vilarejos rurais. As autoridades Peruanas não dispõem de dados oficiais atualizados, mas sabe-se que uma alta percentagem do inventário habitacional é informal (em torno de 50% das habitações são produzidas de maneira informal). O dado mais atualizado de que se dispõe data de 1993, quando se contavam 869.535 habitações em “pueblos jovenes” (em sua maioria informais), ou seja 33% de todas as habitações urbanas. Sabe-se também que, levando-se em consideração o crescimento vegetativo dos próximos anos, segundo dados disponibilizados pela Apoyo Opinión y Mercado o déficit habitacional peruano está estimado em 1,3 milhões de unidades para os 60% de famílias vivendo em assentamentos. Isso significaria que 90 000 casas anuais seriam necessárias para cobrir o déficit nos próximos 15 anos. Segundo dados da DESCO (Centro de Estudios y Promoción del Desarrollo), o déficit em Lima, até 2015, seria de 400 000 unidades. 8 ii. Desafios habitacionais e políticas urbanas. À diferença dos grandes centros urbanos brasileiros, há nas cidades Peruanas e, particularmente, em Lima uma baixíssima densidade habitacional. Quadro 1 – Densidade urbana em Lima7. A baixa densidade no Peru se explica pela implementação de políticas urbanas relativamente passivas que focaram no reconhecimento da existência das chamadas “barriadas” (invasões) e dos “pueblos jovenes”, principalmente a partir da Ley 13.517 de 1961. Esse ato normativo, além de reconhecer o status legal das “barriadas”, estabelecia que o Estado se comprometia a identificar terrenos urbanizáveis e construir Unidades Populares de Interesse Social em terrenos baratos (habilitados e urbanizados), com habitações elementares e acesso a infra-estrutura e serviços públicos básicos. 7 Fonte: “Nuevas Unidades y Ampliación de la Vivienda / Mejoramiento de Barrios” - Equipe Desco, fevereiro de 2002 9 Todavia, o problema de longo prazo não havia sido abordado pela Lei. Com o esgotamento das terras reservadas para os projetos de habitação governamentais, as famílias buscaram alternativas em áreas do cone norte e sul da cidade, não reservadas para assentamentos populares. Além disso, face à incapacidade governamental em implementar todo o disposto na Lei, as populações carentes de habitação passaram a procurar novas zonas de ocupação, utilizando as determinações legais como uma espécie de guia de urbanização (assentamentos regulares com ruas de dimensões e formas convencionais, lotes definidos e áreas reservadas para a instalação de equipamentos e serviços públicos). A Lei ajudou, portanto, a ordenar as invasões e proporcionou o desenvolvimento de um modelo de participação das comunidades na definição do processo de urbanização, cuja experiência emblemática é a de Villa El Salvador, situada no Cone Sul de Lima. Todavia, embora esse exemplo tenha se tornado uma referência para estudos acadêmicos sobre modelos de desenvolvimento urbano participativos (“enabling strategies”), a ausência de uma política de urbanização ativa (definição de locais adequados à ocupação, e próximos às fontes de trabalho e renda com previsão de instalação de infra-estrutura básica) teve por conseqüência a implantação de assentamentos horizontais, empurrando as novas ocupações para zonas mais distantes dos centros, de mais difícil acesso, gerando custos de urbanização extremamente elevados. A partir dos anos 80 e 90, pôde-se perceber, então, um desenvolvimento urbano menos direcionado e a ocupação progressiva de áreas inadequadas à edificação, além de maior precariedade da construção das habitações, dificuldades no processo de consolidação física dos bairros (com serviços de água, esgoto, saúde e educação) e a não integração dessas regiões ao tecido urbano das cidades. Fica, assim evidente, que a formação das “barriadas” e a expansão horizontal tiveram suas origens em: 1. políticas urbanas baseadas em esporádicos e desarticulados esforços de construção de complexos habitacionais; 10 2. tolerância à ocupação informal para que os segmentos socioeconômicos mais pobres pudessem construir suas habitações. A análise que segue abaixo procura avaliar a existência ou não de uma lógica interna, de uma coerência de propósitos das atuais políticas, estratégias e iniciativas públicas, não-governamentais e privadas para a urbanização e construção e melhoria habitacional no Peru. Em primeiro lugar avaliaremos as políticas governamentais baseadas na regularização da propriedade predial, sua relação esperada com o desenvolvimento urbano e os resultados obtidos. A regularização foi considerada a principal alavanca econômica para o processo de urbanização já que permitiria a valorização de um bem comerciável e a posse de um ativo a ser dado em garantia para um eventual crédito hipotecário ou habitacional. Também veremos rapidamente como foi estruturado um projeto de capacitação de microempreendedores para o uso efetivo do crédito – Programa de cultura de crédito Credicrece. As lições dessas políticas apontarão, como veremos, para a necessidade de uma melhor articulação dos processos de regularização com o planejamento das políticas de urbanização e, também, com as políticas de geração de renda e emprego. Associadas a essa estratégia, estão também os mecanismos de subsídios diretos e indiretos para compra, construção ou melhoria de imóveis. Aqui avaliaremos o funcionamento e os resultados do Fundo MIVIVIENDA, através de seus dois principais produtos: MIVIVIENDA e TECHO PROPIO. Estudaremos, também os resultados do BANMAT (Banco de Materiales), tentativa frustrada de subsidiar a compra de materiais de construção para as populações de baixa renda. Em seguida, estudaremos a experiência do mercado microfinanceiro e sua relação com o crédito para habitação: em primeiro lugar, traçaremos um perfil geral das microfinanças no país e veremos, no detalhe, os resultados globais e estratégias de duas instituições visitadas: o MIBANCO e a EDPYME EDYFICAR. Avaliaremos, então, como surgiu, quais as características do produto, quais os resultados e fatores de sucesso do produto MICASA do MIBANCO. 11 Estudaremos, então, a proposta de desenvolvimento urbano da DESCO, baseada no conceito de densificação urbana, e as lições de dois projetos de crédito para a melhoria habitacional: o PROVIPO e o PROGRAMA PASO A PASO. Por fim, procuraremos traçar algumas conclusões sobre os fatores de sucessos e as dificuldades das estratégias escolhidas, esperando, com isso, alimentar uma reflexão sobre as melhores políticas para a implementação de um programa de microcrédito habitacional na cidade de São Paulo. I. Programas Governamentais. i. A regularização fundiária como alavanca do desenvolvimento urbano. A implementação de um vasto programa de regularização fundiária no Peru se deve, nos últimos doze anos, à criação da “Comisión de Formalización de la Propiedad Privada” (COFOPRI) e do “Registro Predial Urbano” (RPU), instituições apoiadas pelo Banco Mundial através do Proyecto de Derechos de Propiedad Urbana (PDPU) que permitiu avaliar e aprofundar o “Plan Nacional de Formalización”. Uma considerável soma de esforços e recursos financeiros foram, desta maneira, destinados a construir as ferramentas jurídicas, operacionais e financeiras para um projeto mássico de regularização fundiária. Neste capítulo, iremos descrever rapidamente os princípios que nortearam essa política, os processos utilizados, os principais resultados e as dificuldades encontradas. Procuraremos responder às seguintes questões: Quais foram os êxitos obtidos pelo programa de formalização e quais seus impactos econômicos? i.a. Por que regularizar? Os programas governamentais peruanos atuais estão sustentados em dois pilares: a formalização e o acesso ao crédito, sendo este, em grande parte, decorrência daquela. 1. Influenciados pelos trabalhos do economista Hernando De Soto, todo um arcabouço teórico se construiu em torno da formalização da propriedade como elemento chave das políticas 12 habitacionais. Segundo essa visão, a formalização é essencial pois: a) concede segurança jurídica ao proprietário, condição necessária para a realização de investimentos privados em melhoria habitacional; b) consolida os investimentos privados em habitação que absorvem a maior parte, senão a totalidade, da capacidade de poupança das populações mais pobres; c) permite a valorização do principal ativo das famílias de baixa renda e um maior número de transações no mercado imobiliário; d) permite a utilização desse ativo como garantia para a obtenção de créditos; e) traz uma série de benefícios sociais, tais como acesso à infra-estrutura, equipamentos e serviços públicos. 2. Com a disponibilidade de garantias advindas do processo de formalização, o crédito surgiria, então, como alavanca do desenvolvimento sócio-econômico. As autoridades peruanas avaliam em grande parte o sucesso das estratégias de regularização através dos números relativos à obtenção de crédito e o comportamento (pontualidade no pagamento de parcelas) da população que obteve o título e tomaram empréstimos. Isso porque, o crédito poderia suprir, em tese, a ausência de investimentos públicos em urbanização: construção e melhoria de habitações, investimentos em infra-estrutura, etc. A teoria acima exposta parte do princípio de que toda informalidade se encontra à margem da sociedade, onde as relações devem, necessariamente, ser institucionalizadas dentro de um quadro jurídico-formal. A existência social e o acesso a bens e serviços públicos está, desta maneira, identificada a um ato formal de reconhecimento. Aplicando-se essa perspectiva à regularização fundiária, espera-se que o recebimento de um título de propriedade gere automaticamente o acesso ao acesso ao crédito, o aumento da participação das propriedade regularizadas em transações imobiliárias, a possibilidade de constituição de um patrimônio legalmente assegurado, etc.. De fato, o documento do Banco Mundial intitulado “Documiento de evaluación del Proyecto de Derechos de Propiedad Urbana” (1998) lista como variáveis chave para a avaliação de impacto do processo de formalização: a) variação do preço da propriedade nas áreas formalizadas; b) variação das transações imobiliárias; c) variação dos investimentos na propriedade; d) variação na participação das mulheres na propriedade; d) variação no acesso ao crédito e no número de hipotecas inscritas no RPU. 13 Antes de passarmos a uma avaliação dos resultados obtidos principalmente na variação do acesso ao crédito, tema que nos interessa em particular, vejamos como se construiu um processo de regularização, de fato, rápido e eficiente. i.b. Como construir um processo de regularização rápido e eficiente? Os esforços empregados para construir um processo rápido e eficiente (de baixos custos) para a regularização fundiária apresentaram resultados surpreendentes no Peru. Antes da reforma dos direitos de propriedade urbana nos anos 90, para responder ao desafio de titulação e registro imobiliário dos assentamentos informais, o Estado peruano estabeleceu 11 instituições diferentes, sem que nenhuma tivesse obtido resultados significativos. A incapacidade administrativa, como acima mencionado, levou, progressivamente, a uma transferência da organização dos assentamentos às populações residentes e suas entidades representativas. Nesse processo, foi-se admitindo cada vez mais os costumes e as tradições no que concerne ao reconhecimento de direitos individuais de propriedade (princípio da realidade sobre o direito). As próprias entidades representativas, por exemplo, foram criando “listas de residentes” utilizadas posteriormente no processo de “saneamento” técnico dos lotes. Não obstante, apesar de uma simplificação do processo de “lotización” em “pueblos jovenes”, o reconhecimento da propriedade demorava, em média, 10 anos, demandando uma série de requisitos que não guardavam relação com as listas de residentes. Reformas, no início dos anos 90, fizeram cair o prazo para 3 anos, mantendo-se custos elevadíssimos, calculados em média em US$ 2.1568, proibitivos para a população de baixa renda. O grande desafio das reformas implementadas a partir de meados dos anos 90 foi o de tornar os custos de formalização menores que os custos da informalidade. Cabe ressaltar que a maior parte do processo de regularização aqui descrito, refere-se a situações padrão em que a regularização é realizada em terras de propriedade do Estado. Há, portanto, muitas 8 Cálculo realizado por Hernando De Soto em “El Otro Sendero”, citado in Morris Guerinoni, Felipe, Oliascuaga, Victor, Vallenas, Rafael, La formalización de la propiedad en el Perú: develando el misterio, COFOPRI, 2003, pg 79. 14 situações específicas (ocupações em terras privadas, em sítios arqueológicos, em zonas de risco etc.) que demandam procedimentos especiais, inclusive, de remoção das populações. Processo antes da reforma (diagrama 1) Municipalidade Distrital Municipalidade Provincial Instituto Nacional de Cultura Qualifica ção do Assenta mento Aprovação plano perimétrico Anteprojeto de traçado e loteamento Coordenação com entidades Instituto Nacional de Defesa Civil Programa de Titulação de Terras Plano definitivo de trabalho Titulação Saneamento individual Ministério de Minas e Energia 60 dias 60 dias 116 dias 116 dias 45 dias indefinido 3 anos Fonte: COFOPRI Duas grandes etapas caracterizam o processo atual de atribuição da propriedade: um processo massificado de formalização, com poucas etapas, rapidez e baixo custo e um modelo de registro simplificado e de baixos custos. Processo após a reforma (diagrama 2) 15 Formalização Individual Planejamento Estratégico Formalização Integral •Análise físico •Análise legal Regularização Casa por casa Inventário, Pré-daignóstico e antecedentes Planejamento Geral Difusão em Assembléias Diagnóstico • Levantamento de planos, traçado e loteamento • Aprovação e inscrição de planos Qualificação Provas de concessão Titulação Individual Saneamento Registro 10 dias 20 dias 15 dias Fonte: COFOPRI Formalização massificada de baixos custos. A primeira medida importante implementada pela COFOPRI foi a de selecionar áreas geográficas para iniciar campanhas massificadas de formalização. Em seus momentos de maior produtividade, chegaram a gerar 50.000 títulos em 45 dias. Os custos da titulação inicialmente se situavam em US$ 50, aumentando com o passar do tempo para US$ 200. O aumento do custo marginal de um título está ligado à redução da possibilidade de se realizar economias de escala com o passar do tempo (populações mais dispersas, zonas de regularização mais distantes, etc.). O processo de formalização, como demonstrado acima no diagrama 2, prevê essencialmente três etapas: a) o processo 0 em que se faz o diagnóstico da informalidade (dimensão do processo de formalização, segmentação por tipo de propriedade informal e tipo de procedimento a ser aplicado); b) processo 1 em que se determina o se a propriedade é estatal ou privada e se realiza o “saneamiento” físico e legal, delineando-se os limites de cada unidade, verificando a existência de propriedades colidentes, a existência de direitos de terceiros, etc., para, em seguida, no interior do assentamento, 16 desenhar os quarteirões e lotes e reservar as áreas para uso público; c) no processo 2 se identificam os possuidores individuais dos lotes e verifica-se se cumprem os requisitos legais para a atribuição do título de propriedade. Deve-se ressaltar que é de extrema importância para a COFOPRI trabalhar com os Municípios para realizar os estudos de antecedentes previstos no processo 1 acima descrito. A base de dados e, eventualmente, lista de residentes de que dispõe os municípios são de extrema importância para garantir a rapidez do processo. A agilidade desses processos se deve, essencialmente, ao desenvolvimento de três ferramentas: 1. Sistema de identificação da parcela e atribuição de direitos de propriedade por mapeamento cartográfico do Instituto Geográfico Nacional realizado através de vôos aero-fotográficos. 2. Sistema de processamento de dados automatizado, com a criação de uma base de dados utilizadas para propósitos de planejamento, gestão e controle de processos massificados. 3. Implementação de uma metodologia de campo que combinam difusão e coleta de informações por assembléias, particularmente interessantes para o processo 2 acima descrito. Cabe ressaltar que à COFOPRI foi dado o poder de resolução de conflitos de propriedade em “pueblos jovenes” por simples decisão administrativa o que torna o processo célere e descomplicado. Modelo de registro simplificado (RPU) O RPU foi criado para conciliar segurança jurídica e redução dos custos de transação. Tradicionalmente, os registros públicos produzem custos inacessíveis para a população. O registro tradicional baseia-se numa escritura pública cuja elaboração requer um duplo controle: em primeiro lugar, um advogado elabora um documento privado e na escritura pública o notário controla a manifestação da vontade das partes e transcreve literalmente a minuta produzida nos livros notariais. Todas as escrituras públicas contém magnitudes numéricas expressas em palavras e, muitas vezes, contém informações topográficas que, com o tempo, tornam-se obsoletas. O RPU introduziu, então, a possibilidade de inscrever um título a partir de formulários padronizados e simples, contendo as 17 informações essenciais para a definição dos direitos de propriedade. A RPU atualiza e guarda sua base geográfica sobre a qual estão identificados os direitos de propriedade. Uma situação curiosa é portanto a duplicidade de cadastros no Peru. Não há correspondência do RPU com os registros notariais públicos. A coerência foi, assumidamente, sacrificada em nome da eficiência do processo. Outro ponto importante do RPU diz respeito à possibilidade de fornecer informações para a administração territorial e para o mercado. A sua base de dados inclui uma série de informações e é capaz de produzir estatísticas sobre o movimento do mercado imobiliário, o valor das transferências e de operações hipotecárias, etc. Essas informações têm valia não somente para o planejamento de políticas públicas, mas também para entidades públicas e privadas que desejem conhecer o perfil sócioeconômico de um local e realizar prospecções de negócios. i.c. Os resultados obtidos. Grande partes das províncias peruanas está coberta pela atuação da COFOPRI, principalmente as mais populosas, com maior quantidade de “pueblos jovenes” e problemas de informalidade predial urbana, tais como Lima (6,7MM de hab.), Piura (1,4 MM de hab.), Lambayeque (1M de hab.), Ica (600 000 hab), Trujillo, Loreto (770 000 hab) e Arequipa (1MM de hab). As áreas abordadas pela COFOPRI correspondem a mais de 65% da população peruana. As áreas marcadas como zonas emergentes foram as identificadas como prioritárias para a implementação Provincias com jurisdição COFOPRI Provincias em zonas emergentes Provincias sem jursidição COFOPRI dos processos COFOPRI. Fonte: http://www.cofopri.gob.pe/pdpu/Ambito.htm# 18 Os dados apresentados pela COFOPRI para mensurar os impactos econômicos previstos, dentro das variáveis criadas pelo Banco Mundial, encontram-se disponíveis no website da instituição. Todavia, muitos estão desatualizados (datando de 2003 – 2004) e merecem uma análise cuidadosa. TABELA DE INDICADORES PROJETO DIREITOS DE PROPRIEDADE (JUNHO DE 2004) URBANA Descri ção do indicador (dados acumulados) Meta Anual 1999 2000 2001 2002 2003 2004 (*) Número de lotes registrados (P1) 959,690 --- 861,529 956,068 1,082,581 1,167,305 1,177,053 Número de títulos registrados (p2) 805,527 --- 632,455 722,263 833,851 1,195,321 920,096 Meta 1999 2000 2001 2002 2003 2004 (*) 10 dias 5.65 dias 3.00 dias 3.13 3.19 3.78 5.77 Número de lotes que entram em P1 518,031 343,834 71,457 181,921 198,018 74,208 árias Percentagem de mulheres propriet 67.41% 67.57% 63.68% 65.62% 64.60% 66.79% 3,839 7,474 11,872 20,073 20,175 9,493 Descri ção do Indicador Duração média do registro de hipoteca : Hipotecas Registradas no RPU Fonte: http://www.cofopri.gob.pe/pdpu/AlaFecha.htm#p1 Como se pode observar da tabela acima, os resultados em termos de registros de lotes e de titulação são expressivos, principalmente se considerarmos a duração média do registro acima mencionada (45 dias). O projeto apresenta para estes indicadores resultados acima da meta estabelecida. Além disso, no website da COFOPRI encontramos dados atualizados para o número de lotes e títulos concedidos até junho de 2007. Os números confirmam o sucesso do projeto: até o momento 2.242.223 lotes foram regularizados e 1.652.328 títulos distribuídos. Deve-se, no entanto, chamar a atenção pela diferença crescente entre a regularização e a atribuição do título, o que demonstra dificuldades crescentes no processo de registro. Há, também, que se insistir na ausência de estatísticas precisas sobre a quantidade de lotes e habitações em situação irregular, não havendo como avaliar se o ritmo de regularizações é suficiente para resolver os graves problemas de precariedade habitacional no país e, sobretudo, para responder aos impactos sócio-econômicos previstos. Sobre os outros indicadores chama a atenção o fato de não estarem atualizados no website da COFOPRI e não estarem demonstradas as metas para hipotecas registradas. Uma rápida comparação entre o número de hipotecas e o número de títulos registrados demonstra resultados pouco significativos. A percentagem de hipotecas sobre o número de títulos registrados é de apenas 7,9% 19 levando-se em consideração o período considerado. Como veremos adiante através na análise dos resultados e agendas complementares, fatores relacionados ao marco institucional e a uma suposta falta de “cultura registral” das populações em questão explicariam os fracos resultados obtidos. Evolução de montantes e créditos concedidos nas zonas formalizadas (acumulado) 2000 2001 2002 2003 Montantes concedidos em MM US$ % crescimento 249 274 10% 313 14,20% 372 18,80% Número de créditos concedidos em milhares de unidades % crescimento 154 173 12,30% 197 13,90% 237 20,30% Fonte: La formalización de la propiedad en el Peru: develando el misterio, pg. 141. Os créditos acima registrados incluem somente dados de fontes formais, ou seja, das instituições regulamentadas e supervisionadas pela SBS – Superintendencia de Banca, Seguro y AFP. Para, completar o quadro, encontramos dados para os anos de 2004, 2005 e 2006 no website da COFOPRI (www.cofopri.gob.pe/?=1). Os montantes concedidos acumulados cresceram respectivamente para: US$ 459MM, US$ 563MM e US$ 639 MM e o número de créditos concedidos para: 266 M , 299 M e 325 M. Dessa forma, a variação em número de créditos entre 2003 e 2006 é de 37%, enquanto a variação em termos de montantes é de 71%, indicando um possível aumento do crédito médio que pode ser, dentre outros fatores, como a concessão a clientes mais estruturados, etc., fruto de renovações e não propriamente de integração de novos clientes. Seja como for, os dados parecem indicar uma tendência ao aumento do crédito nas áreas formalizadas, mas não podemos afirmar que esse aumento tenha uma relação direta com a formalização. Como veremos abaixo, uma série de iniciativas governamentais e privadas para incrementar o acesso ao crédito podem explicar esse crescimento, inclusive com a existência de programas como BANMAT e MIBANCO que não exigem o título de propriedade para a concessão do crédito. i.d. Avaliação crítica do processo de regulamentação e seus impactos. O princípio fundamental do processo de formalização é o de agregar valor de troca a uma importante massa de ativos e incorporar o setor informal nos processos de mercado. Para tanto, faz-se necessário, por um lado, criar-se um marco institucional que permita a transferência da propriedade sem limitações 20 e, por outro lado, incentivar mecanismos creditícios que tenha por lastro esse novo mercado imobiliário que serviria de alavanca para o desenvolvimento sócio-econômico. Os resultados do Estudio Línea de Base (EnLB) concebido para mensurar os impactos econômicos das reformas e dos processos de formalização mostraram que, efetivamente, 65% dos entrevistados investiram em suas casas, sendo que 75% dos titulados pela COFOPRI o haviam realizado. No entanto, o estudo mostrou que os recursos próprios foram a principal fonte de financiamento para esses investimentos, confirmando a idéia de que a habitação serve, para as populações de baixa renda, como um importante instrumento de poupança. Restava, ainda, uma incógnita : os resultados mostraram que houve pouca alavancagem do mercado de crédito. Para compreender melhor a situação do investimento e o acesso ao crédito, foi encomendado um estudo ao Group for Home and Infrastructure Finance. Embora desatualizado, o estudo aporta conclusões que ainda são relevantes para descrever a situação atual. Segundo o GHIF não há possibilidade de determinar se a formalização gerou efetivamente um maior investimento ou havia facilitado o financiamento formal. Esperava-se, de fato, que a segurança jurídica de uma propriedade e os investimentos nelas realizados reduziriam as assimetrias de informação para se aceder a um crédito formal, já que se ofereceriam garantias e, com o tempo, um melhor conhecimento do comportamento creditício. Além de um melhor acesso ao crédito, esperava-se que a presença de garantias reais reduziria significativamente as taxas de juros. De fato, segundo a EnLB, os possuidores de títulos tiveram um alto índice de aceitação de seus pedidos (94%) e as taxas de juros, em média, tiveram reduções de 7 a 9 pontos percentuais anuais. Dois aspectos devem, no entanto, ser ressaltados: os 6% recusados tiveram como motivos alegados pelas instituições financeiras a falta de capacidade de pagamento e, por outro lado, muitas famílias de baixa renda tiveram, no período, acesso a créditos formais sem a exigência de títulos de propriedade, por efeito das políticas do Banco de Materiales. 21 Completados com pesquisas quantitativas e qualitativas, os estudos EnLB e GHIF concluíram que não havia um efeito direto da detenção de um título de propriedade sobre a demanda do crédito. Para as populações de baixa renda, o principal fator a ser avaliado é o da capacidade de pagamento. Por fim, os estudos identificaram que, apesar do crescimento da participação da população de baixa renda no mercado financeiro, ele ainda representa uma pequena fração dos volumes totais e, para esse segmento, o crédito hipotecário continua inexistente. Tendo em vista os resultados inexpressivos em termos de acesso ao crédito para melhoria habitacional, cabe uma avaliação dos resultados dos programas governamentais de crédito que prometeram uma verdadeira revolução junto ao processo de regularização. ii. Programas de crédito: subsídios diretos e indiretos para compra, construção ou melhoria habitacional. Uma análise crítica. As políticas governamentais de crédito foram estruturadas em torno de duas estratégias: a) constituição de um Banco de Materiales para atuar em primeiro piso; b) a constituição de uma instância de segundo piso que apoiaria os bancos a concederem créditos para compra, construção e melhoria de habitações. Essa segunda estratégia, deu origem ao Fundo MIVIVIENDA que atua com mecanismos de subsídio indiretos (financiando taxas de juros mais baixas para os intermediários financeiros) e com subsídios diretos (financiando parte do pagamento da compra, construção ou melhoria de uma habitação). Antes de passarmos à análise desses dois mecanismos cabe uma menção à experiência do Banco de Materiales (BANMAT), banco público que tem como principais produtos créditos para compra de materiais de construção (Vivienda Progresiva, Vivienda Básica e Vivienda Nueva). O BANMAT, entre 2000 e 2005, beneficiou aproximadamente 193 000 famílias, com 82 000 operações e colocações de US$ 248 MM. O programa teve como público-alvo as famílias que receberam títulos, mas também famílias que não apresentavam regularização fundiária. Os montantes médios dos créditos por família se elevavam a US$ 5 000, com taxas subsidiadas de 7 a 9% a.a.. No final dos anos 1990, o BANMAT representava mais de 73% das colocações de créditos para melhoria habitacional. O programa teve que ser inteiramente revisado pelas altas taxas de inadimplência (mora a mais de 30 dias) que atingiu 74% 22 dos créditos. As causas dessa situação são, principalmente: as brandas políticas de garantia e avais e as más práticas de cobranças ligadas a ciclos eleitorais. O governo Peruano, no termo de referência assinado com o Banco Interamericano de Desenvolvimento em 2005 que tem por objetivo construir mecanismos sustentáveis de crédito habitacional, comprometeu-se em eliminar as operações diretas de crédito ao cliente do BANMAT, transformando-o instituição de segundo piso. A partir de 2005, o BANMAT reduziu consideravelmente seu fundo de crédito rotativo, mesmo porque o custo de recuperação dos créditos, estimados em 20%, praticamente inviabilizava a continuidade da operação9. Em 2005, último ano em que o banco BANMAT disponibilizou relatório anual do Banco, foram realizados apenas 7.061 créditos, para uma carteira de US$ 3,8 MM. Dessa maneira, no final dos anos 90, quando o modelo do Banco de Materiales já dava sinais de deterioração, foram criados mecanismos de subsídio diretos e indiretos ao crédito para compra, construção ou melhoria de habitações. Os princípios que nortearam a elaboração destes programas foram: a) os créditos deveriam ser operacionalizados por Instituições Financeiras privadas que dispõem das tecnologias de crédito e cobrança necessárias para gerenciar os créditos e manter uma carteira saudável e b) subsídios seriam necessários para que os créditos atinjam as populações de baixa renda (porque haveria uma alta elasticidade-preço da demanda por créditos habitacionais nas populações de baixa renda). A seguir analisaremos, então, os dois principais produtos do Fundo MIVIVIENDA: a) crédito MIVIVIENDA para compra e construção de habitações (embora, de fato, tenha sido utilizado somente para a compra) que propõe montantes entre US$ 20 000 e US$ 50 000 e b) Techo Próprio, crédito para compra, construção ou melhoria de habitações, cujos montantes variam entre US$ 4 000 e US$ 8 000. ii.a. Subsídios indiretos: MIVIVIENDA O Fondo MiVivienda operou para o crédito MIVIVIENDA como uma instituição de segundo piso que ofereceu subsídios indiretos a Instituições Financeiras que eram as responsáveis pela distribuição do 9 La formalización de la propiedad en el Peru: develando el mistério, COFOPRI, 2004, pg 132. 23 produto e gestão da carteira. O Fundo emprestava a 8% a.a. aos Intermediários, subsidiando, dessa maneira, a taxa final (de 11,5%) o que permitiu, outrossim, que os spreads obtidos pelos bancos servissem como um colchão de segurança em caso de inadimplência. Os dados mais recentes e confiáveis de que dispomos mostram que até abril de 2004, MiVivienda havia concedido 14.733 créditos para um montante total de US$ 290 MM. Em 2006, estima-se que o programa tenha financiado 30 000 novos lares, sendo o ticket médio de empréstimos de US$ 19.700. Com relação às características do público-alvo desse produto, se levarmos em consideração: 1. que o cliente deve passar pelos critérios bancários de elegibilidade; 2. que o produto, até o momento era em US$; 3. que o cliente deve fornecer uma entrada de 10% do valor do imóvel (necessariamente primeira venda e com valor até US$ 50 000); 4. que o cliente deve pagar taxas de juros de 11,5%, com possibilidade de desconto de 20% em caso de pagamentos realizados em dia para os créditos de até 10 anos (máximo possível sendo 20 anos); as cotas mensais, nas melhores condições, ficariam em torno de US$ 206, em média, que somente poderiam ser assumidas por famílias com renda superior a US$ 800. O produto se destinou, portanto, a uma classe média, via de regra assalariada que possa comprovar formalmente sua renda. Os resultados do programa foram positivos: além de um crescimento rápido da carteira, a perda se situou em apenas 0,4%. Não obstante, o programa foi, em grande parte, vítima de seu próprio sucesso. O governo investiu US$ 600 MM, dos quais 90% se encontram em carteira ativa e apenas 10% disponíveis para financiamento. Face a essa realidade, em maio de 2006 o governo eliminou os subsídios às taxas de juros que, de fato, subiram de 11,5% a 13,5% a.a. Empréstimos a Intermediários Financeiros somente estão disponíveis para Cajas Municipales, Cajas Rurales e EDPYMEs (Entidades de Desarrollo para la Pequeña y 24 Microempresa) que não têm capital suficiente para essas operações. Todavia, exige-se que os empréstimos nesse caso sejam feitos em moeda local. Algumas soluções para a recapitalização do fundo estão sendo pensadas, mas ainda não foram implementadas: securitização da carteira ativa para torná-los líquidos nos mercados de capitais; participação das Instituições Financeiras na capitalização do fundo, sendo que novos empréstimos seriam securitizados pelo fundo, etc. ii.b. Subsídios diretos: TECHO PROPIO O segundo produto do Fundo Mivivienda, Techo Propio, foi criado para atender a um segmento mais pobre da população que o atendido pelo Mivivienda. O programa tem por objetivo a compra, construção ou melhoria habitacional. Foi criado para canalizar subsídios diretamente à população de baixa renda, pois vários especialistas de crédito para habitação não acreditavam que os montantes de empréstimos estabelecidos estariam fora da capacidade de pagamento dos beneficiários. Como o Mivivienda, Techo Propio é operacionalizado por Intermediários Financeiros, mas apresenta características diferentes: 1. Os montantes do programa Techo Propio variam entre US$ 4 000 a US$ 8 000; 2. As famílias demandantes devem ter uma renda menor que US$ 460 mensais e nunca devem ter recebido qualquer apoio do Estado. 3. O sistema Techo Propio compreende três componentes que somados devem compor o valor total do investimento: a. Comprovação de 10% do valor do investimento como poupança, b. um subsídio fixo que varia entre aproximadamente US$ 1300 no caso de empréstimos para melhoria habitacional, US$ 2 000 no caso de construção em terreno próprio e US$ 3 600 para construção e aquisição de terrenos. c. Empréstimo junto a uma entidade financeira para completar o valor 4. Os empréstimos tipicamente são concedidos a taxas de juros de mercado imobiliário (entre 13 e 14% a.a.). 25 5. As famílias devem ainda apresentar um projeto à aprovação da Municipalidade, realizado por uma construtora ou arquiteto. 6. Para que o programa Techo Propio funcione corretamente, prevê-se uma participação ativa das Municipalidades criando um Programa Municipal de Habitação, capaz de promover o desenvolvimento de projetos que atendam aos requisitos do programa; implementando um escritório que possa atender à população, emitir as autorizações municipais de obras e certificados de finalização das obras e, por fim, obter fundos para emprestar aos grupos familiares que não tenham poupança. Os resultados do programa têm sido, até o momento, pouco animadores: de um total de 11.561 projetos elegíveis, apenas 52 obras foram executadas e 299 projetos estão em andamento10. Além disso, há uma alta inadimplência, situando-se em torno de 14%. Os fatores que explicam essas dificuldades estão: a) na pequena participação das municipalidades e na alta burocracia para se obter os benefícios do programa; b) o fraco interesse das instituições financeiras que operam o projeto, cujos spreads de 5,5% não cobrem os custos operacionais do projeto; c) a confusão entre o subsídio (bono) e o empréstimo que acarretam problemas de imagem para o programa; d) falta de interesse das construtoras em projetos de baixa escala / custo. Algumas soluções para essas questões têm sido propostas, tais como reunir vários grupos familiares para reduzir os custos operacionais dos bancos e garantir escala e volume para as construtoras. Não obstante, como veremos mais adiante, as facilidades dos programas privados parecem ser mais atrativas e os resultados mais sólidos. iii. Avaliação crítica dos princípios utilizados para a concepção da intervenção do Estado. Da avaliação dos referidos programas acima uma série de conclusões foram arroladas pelos estudos EnLB e GHIF que merecem ser demonstrados de maneira crítica. 10 Dados de Maio de 2007 fornecidos em entrevista realizada com o Sr. Aldo Vidarte Fiek (Especialista em Nuevos Productos do Fundo MIVIENDA). 26 Em primeiro lugar, quanto à demanda de crédito, segundo esses estudos, observaríamos: 1. Uma reduzida capacidade de poupança, o que contradiz a capacidade de auto-investimento em melhorias habitacionais progressivas ao longo do tempo. 2. Uma aversão a solicitar altos montantes, o que é certo e confirma a idéia acima de que a habitação popular se constrói de maneira progressiva e, portanto, produtos creditícios de altos montantes e prazos longos não são adaptados. 3. A necessidade de flexibilizar as formas de pagamento, o que também é certo e deve levar em consideração os fenômenos de sazonalidade das atividades geradoras de renda. 4. A ausência de uma cultura de pagamento criada pela fraca cobrança exercida pelas entidades estatais, sobretudo em momentos de campanhas eleitorais. Em seguida, com respeito à participação dos bancos: 1. A informalidade das atividades econômicas impediria uma análise do risco. Essa afirmação tem sido, há mais de trinta anos, a base para o desenvolvimento das microfinanças. Bancos utilizam análises de crédito baseadas em histórico creditício e estimação da renda. A partir do momento em que não disponham de dados para tanto, não irão conseguir avaliar o risco do cliente e portanto não concederão crédito, mesmo que esse cliente detenha um título de propriedade. 2. Falta de fontes de financiamento adequados para conceder créditos nos montantes e prazos demandados. Essa afirmação parece ser totalmente contraditória com a característica da demanda acima mencionada. Tanto os prazos (curtos) quanto os montantes (pequenos) não demandam fontes de financiamento especiais (com montantes elevados, prazos longos, carências, etc.). 3. Elevado custo da execução de contratos de crédito. Mais uma vez, desconhece-se aqui a possibilidade de se utilizar as já conhecidas metodologias creditícias em microfinanças, onde, via de regra, a análise de crédito realizada pelo agente que mensura a capacidade de pagamento do cliente e a pressão social organizada através de garantias fidejussórias ou grupos solidários são suficientes para manter as carteiras em risco das instituições financeiras em níveis baixos. 27 Por fim, uma avaliação das Instituições Microfinanceiras concluiu que encontrariam as seguintes dificuldades: 1. Altos custos operacionais (informação, avaliação de crédito, monitoramento e cobrança) que, como veremos, não corresponde à realidade de muitas instituições peruanas, como por exemplo o MiBanco e a EDPYME Edyficar. 2. Ausência de produtos de micropopupança que, efetivamente, é um problema tanto para o funding de suas atividades, quanto para o desenho de um produto adaptado ao apoio à melhoria habitacional. Porém, tanto MiBanco quanto Edyficar (que está se transformando numa entidade financeira) têm ou prevêem em seus planos esse importante produto. 3. Dificuldade para cumprir os requerimentos patrimoniais para se tornarem entidades reguladas. Por certo, muitas ONGs e EDPYMES estão nessa situação, mas, também como veremos a seguir, o mercado peruano de microcrédito amadureceu nos últimos anos e muitas instituições se encontram prontas a entrar no mercado de crédito habitacional. Por fim, dois aspectos ausentes da reflexão sobre a habitação popular no Peru devem ser mencionados: 1. Quais as políticas de urbanização que garantiriam infra-estruturas mínimas e equipamentos e serviços públicos essenciais às populações assentadas e que garantiriam a valorização esperada com o processo de regularização e a emergência de um mercado imobiliário? Em nenhum momento, seja em nossas visitas ou da leitura dos documentos que nos foram fornecidos, pudemos observar um plano de urbanização de “barriadas” ou “pueblos jovenes”. 2. Mesmo que o crédito fosse capaz de suprir parte das necessidades de urbanização e habitação, como poderiam as populações assumir a responsabilidade de construir suas casas, em zonas de sismo, em terrenos sem preparação topográfica, sem uma política de assistência técnica bem estruturada? Embora mencionada na EnLB e nos documentos do Banco Mundial, não encontramos qualquer plano de assistência técnica. II. Programas privados e não-governamentais de apoio à melhoria habitacional. 28 Neste capítulo avaliaremos outras visões do desenvolvimento do microcrédito para a construção: de um lado, a visão privada que encontrou um nicho e uma oportunidade de negócios junto à população de baixa renda e a visão não-governamental que busca articular sua missão social com mecanismos de mercado sustentáveis que possam apoiar de forma massificada o desenvolvimento sócio-econômico das populações de baixa renda. Primeiramente, avaliaremos a situação das Microfinanças no Peru, considerando ser este o ponto de partida para uma reflexão sobre o desenvolvimento do crédito habitacional. Em nossas entrevistas com os especialistas do setor microfinanceiro peruano e responsáveis de instituições microfinanceiras, resta claro que o desenvolvimento de um produto para habitação é tributário do desenvolvimento do setor microfinanceiro como um todo. As Microfinanças, de fato, utilizam uma metodologia creditícia de avaliação sócio-econômica do cliente microempreendedor que permite o aferimento do risco e a concessão do crédito dentro da sua capacidade de pagamento. A finalidade do crédito também é, aqui, um fator de garantia porque se o utiliza como investimento (em giro ou em ativo fixo) para o incremento da rentabilidade dos negócios. Com o crescimento das carteiras de microcrédito, reduz-se a assimetria de informação sobre a população de baixa renda e, com isso, a probabilidade de seleção adversa de clientes. Com um histórico de pagamentos mais rico que revela a capacidade e vontade de pagamento da clientela, abre-se a possibilidade de diversificação de produtos de crédito, inclusive para aqueles que não têm relação direta com o incremento da renda do cliente, como é o caso do crédito habitacional. Nesse sentido, o microcrédito para construção progressiva, como veremos no caso do MiBanco, apesar de apresentar condições próximas ao produto tradicional destinado a microempreendedores, possui uma dinâmica distinta: o crédito, para o cliente, não é um investimento, mas uma despesa extra e uma antecipação de uma despesa futura. Para conceder um crédito com essas características é preciso ter um conhecimento sólido da clientela e uma metodologia creditícia já estruturada. No caso do Peru, como veremos, as Microfinanças já apresentam uma maturidade suficiente para a diversificação desse produto. 29 Em seguida, avaliaremos a proposta e as iniciativas do MiBanco que dispõe da maior carteira de microcrédito habitacional do Peru e, por fim, avaliaremos a experiência da DESCO na tentativa de criar mecanismos sustentáveis de financiamento habitacional, associados a uma visão diferenciada processo de urbanização, através da idéia de densificação habitacional. O interesse da experiência da DESCO é que ela procura criar um ambiente propício à realização de um crédito mais arriscado (para populações de mais baixa renda). A avaliação crítica de sua experiência abre uma alternativa interessante para situações de maior assimetria de informação, como no caso brasileiro. i. As Microfinanças no Peru e a experiência do microcrédito habitacional. i.a. Panorama geral das microfinanças As microfinanças no Peru se caracterizaram por um crescimento rápido e sustentado. O segmento de microempresa no Peru concentra 40% dos créditos outorgados a microempresários através de entidades reguladas em toda América Latina e o Peru também é o país líder em microempreendedorismo na América Latina. Estima-se que 40% da sua população é composta de microempreendedores11. Além de uma série de ONGs relativamente pequenas, presentes em todo território nacional, o setor está sendo impulsionado: 1. Pela participação crescente de importantes bancos que vêm direcionando parte de suas atividades ao setor microfinanceiro. Os Bancos representam 48,8% dos créditos voltados para Micro e Pequenas Empresas. Destacam-se nesse mercado o BCP que representa 38,7% dos créditos desembolsados em 2006, o Mi Banco, com 28,1%, o Scotiabank, com 17,6% e o Banco del Trabajo com 16,6%. 2. Pela consolidação da participação nesse mercado das “Cajas Municipales de Ahorro y Credito (CMAC)”, representando 33,47% das colocações nesse mercado; das “Entidades de Desarrollo a la Pequeña y Micro Empresa” (EDPYMES), com 12,1% de todo o mercado e, por fim, das “Cajas Rurales de Ahorro y Credito (CRAC)” que representam 5,9% do mercado total. 11 Numa população de 28 M de habitantes, aproximadamente 11 Milhões de pessoas teriam sua receita gerada por atividades empreendedoras, em sua grande maioria, informais. 30 Alguns movimentos de mercado indicam uma crescente concorrência no setor voltado às microempresas: a fusão da Financiera Solución com o Banco del Credito, a criação da Financiera Solife, empresa especializada em microfinanças do Banco Financiero, a entrada agressiva do Wiese Sudameris, hoje Scotiabank nesse mercado, a decisão do Grupo BBVA em criar uma rede global que integrará entidades especializadas em Microfinanças, aportando 200 milhões de euros a esse movimento. Para completar o quadro, destaque-se, ainda, o anúncio do Banco de la Nación que irá entrar nesse mercado através de alianças estratégicas com as Cajas Municipales (estratégia de bancarização); a entrada de Cajas Municipales no mercado de Lima e, por fim, a fusão de algumas importantes Cajas (Ica com Chincha, Maynas com Piura), criando estruturas mais competitivas. Nesse contexto de alta concorrência é de se esperar uma diminuição do spread e portanto das margens dos diferentes players. Com efeito, as taxas de juros vêm caindo: em moeda nacional, as taxas efetivas anualizadas se situavam entre 55% e 60% em 2002, tendo caído a uma faixa que se situa entre 35 e 54%. A tendência, no período, foi de flutuação das taxas em moeda estrangeira, mas tendo se mantido em patamares sensivelmente mais baixos que as em moeda nacional. Em 2006, as taxas anualizadas se situaram entre 25 e 30%. À concorrência no setor de créditos aos microempresários no Peru, soma-se o incremento das atividades no segmento de crédito a consumo. Nesse mercado há uma predominância dos Bancos Comerciais que fazem a intermediação de 76,1% do total dos créditos (em 2006), sendo que 13,2% são realizados por financeiras, 8,5% pelas CMACs e, por fim, 2,1% pelas EDPYMEs e CRACs em conjunto. Essa tendência tem se reforçado com uma taxa de crescimento do crédito ao consumo em 2006 de 32% para os Bancos Comerciais e 21 % para as financeiras. O crescimento desse setor, apesar de importante, acarreta duas preocupações: 1. Por um lado, o crescimento do crédito maior do que o crescimento econômico pode gerar dificuldades de inadimplência em médio prazo. A queda da inadimplência entre 2004 e 2006, passando de 5,19% a 3,86% pode ser decorrência simplesmente do aumento da carteira ativa. Esse fenômeno poderia estar maquiando o indicador de inadimplência, mensurado pelo carteira em atraso / carteira ativa bruta. 31 2. Por outro lado, o aumento da concorrência e da oferta dessa modalidade de crédito, inclusive com a participação cada vez mais ativa do financiamento através do comercio atacadista e, principalmente, varejista (Saga Falabella e Ripley, por exemplo), pode gerar sobreendividamento da clientela. Dessa forma, temos um panorama que indica a evolução para um mercado cada vez mais saturado, oferecendo spreads menores e riscos mais elevados, tanto no segmento microempresa, quanto no segmento de crédito a consumo. Exige-se, portanto, uma maior especialização e maior diversificação dos produtos e é dentro dessa perspectiva que o crédito para melhoria habitacional deve ser compreendido. Diversificação e especialização se tornaram as palavras de ordem. Face à necessidade de financiamento para melhoria habitacional das populações de baixa renda e em virtude das características sócioeconômicas dessa público-alvo (volatilidade de receitas, pouca liquidez, reservas limitadas, ausência de título de propriedade, etc.), foi preciso estruturar produtos com montantes, prazos, garantias e metodologias adequados (cf. abaixo “As microfinanças e o crédito habitacional: desafiando certezas”). Resultados do setor não bancário. Microcrédito Peru - Instituições Não Bancárias (dezembro de 2006) N. de Clientes ativos Instituições % do total Carteira ativa USD % do total Crédito Médio USD (saldo) Crédito Médio USD (desembolso) ONGs 19 131.096 18% 29.599.891 4% 226 426 EDPYMES 14 187.033 26% 158.661.105 21% 848 ND CMACS 13 347.029 48% 496.680.000 64% 1.431 ND CRACS 12 59.945 8% 85.703.000 11% 1.430 ND Total 58 725.103 100% 770.643.996 100% 1.063 ND Fonte: "Microfinanzas em el Perú - Reporte Financiero de Instituciones de Microfinanzas", COPEME, dic. 2006 Obs.: os dados somente incluem a carteira de microcréditos destinado ao atendimento das necessidades financeiras das microempresas. Embora não haja dados consolidados entre Instituições Bancárias e Instituições Não Bancárias sobre o volume da carteira de microcréditos no Peru, tomando-se somente os dados consolidados pela COPEME (Consorcio de Organizaciones Privadas de Promocion al Desarollo de la Micro y Pequeña 32 Empresa), das Instituições Não Bancárias, observa-se uma carteira expressiva de microcrédito, no valor de USD 770 milhões, atingindo mais de 700 000 clientes, com especial menção para as Cajas Municipales de Ahorro y Credito (CMACS) que detém 48% do total dos clientes ativos e 64% do total da carteira ativa. Também, deve-se destacar o papel das ONGs, já que possuem 18% do total do total de clientes ativos e apenas 4% do total da carteira ativa, o que revela um crédito médio bem inferior que está direcionado às camadas mais pobres da população. 33 Sustentabilidade, Eficiência, Produtividade e Risco das IMFs Não Bancárias - Peru (dezembro 2006) Instituições Sustentabilidade Operacional (sem ajustes) Eficiência Operacional 1 Eficiência Operacional 2 Produtividade Carteira em Índice de cobertura Risco do risco ONG Adra AMA ASIDME Caritas CEPCO GCOD Edaprospo Finca Fondesurco Fovida IDER Cesar Vallejo Idesi La Libertad Idesi Lambayeque Idespa IPR Manuela Ramos Mide Prisma Promujer 141% 149% 88% 135% 106% 139% 99% 105% 113% 134% 110% 105% 61% 117% 39% 119% 93% 96% 157% 28,39% 4,00% 38,52% 27,50% 23,52% 15,90% 41,74% 35,43% 15,74% 16,23% 25,79% 32,02% 36,56% 26,22% 9,73% 35,55% 29,04% 38,66% 23,88% 33,99% 35,06% 90,46% 33,46% 39,43% 16,72% 45,23% 60,03% 18,98% 18,29% 44,47% 45,21% 54,25% 39,63% 11,62% 42,59% 38,74% 42,79% 30,74% 191 146 139 155 61 225 192 112 74 82 67 111 84 60 89 200 162 123 303 0,00% 14,24% 18,39% 3,12% 15,27% 0,45% 10,73% 0,92% 5,40% 7,34% 5,74% 16,72% 29,07% 3,08% 23,38% 0,19% 5,70% 1,93% 0,00% 100,00% 79,98% 79,11% 106,86% 89,49% 100,00% 70,29% 189,70% 74,59% 95,48% 98,95% 74,74% 27,99% 94,48% 31,62% 623,28% 91,65% 231,15% 100,00% EDPYME Alternativa Confianza Crear Arequipa Crear Cusco Crear Tacna Crear Trujillo Credivisión Edyficar Efectiva Nueva Visión Proempresa Pro Negocios Raiz Solidaridad 109% 121% 155% 161% 141% 98% 126% 144% 138% 138% 104% 112% 94% 78% 20,95% 10,66% 11,51% 14,90% 13,06% 28,24% 27,76% 15,39% 29,60% 15,20% 19,42% 41,29% 16,29% 19,24% ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND 207 325 270 330 359 108 211 332 11 130 189 113 224 256 4,83% 4,56% 5,00% 8,24% 4,51% 9,99% 4,51% 5,50% 20,88% 7,45% 8,76% 13,82 6,05% 18,89% 100,44% 111,43% 104,85% 85,09% 109,14% 80,31% 101,02% 104,66% 174,98% 101,28% 92,49% 92,51% 86,36% 53,46% CMACS Arequipa Cusco Del Santa Huancayo Ica Maynas Paita Pisco Piura Sullana Tacna Trujillo Lima 189,54% 225,52% 142,02% 150,12% 166,01% 154,61% 122,78% 92,35% 141,71% 149,63% 178,86% 155,57% 168,78% 9,58% 6,75% 11,24% 10,44% 11,38% 11,50% 14,29% 25,64% 8,56% 11,98% 7,52% 9,87% 11,19% ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND 129 68 80 69 94 37 96 74 88 74 47 111 9 6,68% 6,98% 10,33% 7,92% 10,54% 9,47% 18,61% 22,30% 11,99% 11,66% 5,56% 5,79% 9,07% 107,47% 101,88% 115,00% 106,60% 84,19% 103,73% 68,40% 76,73% 87,21% 107,73% 104,34% 101,82% 140,35% CRACS Cajamarca Cajasur Chavin Cruz de Chalpón Libertadores de Ayacucho Los Andes Nor Peru Profinanzas Prymera Credinka San Martin Señor de Luren 162,55% 202,62% 146,42% 116,22% 79,06% 124,45% 130,96% 119,13% 136,17% 133,06% 80,93% 166,88% 8,79% 6,29% 10,94% 14,11% 19,08% 12,60% 12,26% 15,56% 5,96% 10,66% 12,75% 9,51% ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND 25 38 43 33 26 99 36 71 8 46 30 56 16,27% 10,60% 9,20% 27,00% 36,41% 14,59% 10,02% 9,63% 20,89% 18,57% 57,20% 12,62% 55,38% 76,20% 84,65% 81,15% 73,24% 91,52% 97,56% 65,11% 43,49% 67,99% 34,11% 79,09% Sustentabilidade operacional = margem financeira / despesas operacionais;Eficiência operacional 1 = despesas operacionais / total de ativos;Eficiência operacional 2 = despesas operacionais / carteira ativa bruta média; Produtividade = n. de clientes / funcionário; Carteira em risco = saldo da carteira dos créditos com pelo menos uma parcela em atraso há mais de 30 dias / carteira ativa; Cobertura do risco = provisões / carteira em risco; Fonte: "Microfinanzas em el Perú - Reporte Financiero de Instituciones de Microfinanzas", COPEME, dic. 2006 34 Para avaliar a qualidade do sistema, o risco das carteiras deve ser ponderado pelo peso de cada instituição. Nas ONGs, EDPYMEs e CMACS, apesar de encontrarmos carteiras em risco (> 30 dias) de microcrédito produtivo que podem se situar acima de 10% e, até mesmo, acima de 20%, as principais instituições mantém índices equilibrados entre 1 e 6%12. A situação é diversa nas CRACS onde as carteiras de microcrédito produtivo têm índices de risco bastante elevados (acima de 10% na média, com picos situando-se entre 30 e 50%). Como o peso relativo das CRACS é pequeno, pode-se concluir que o sistema microfinanceiro peruano tem obtido crescimento expressivo, com relativo controle do risco. Mais do que isso, a existência de Instituições de médio e grande porte, com carteiras controladas, indica a possibilidade de um crescimento sustentado da atividade, dependendo, portanto, da disseminação das melhores práticas de gestão microfinanceira. Do ponto de vista da sustentabilidade operacional (sem ajustes), as Instituições Não Bancárias peruanas se encontram, em geral, numa situação equilibrada. Ressalte-se que as EDPYMES, mas principalmente as CMACs e CRACs tem seus resultados apoiados por uma alta eficiência operacional. Essa maior eficiência comparativamente às ONGs se deve a uma composição de carteira mais ampla que inclui crédito comercial, crédito para microempresas (microcrédito produtivo), crédito para consumo e crédito hipotecário. Para essas instituições, segundo dados da Superintendência de Banca, Seguro y AFP, o microcrédito produtivo representa 54,3% dos créditos das Instituições Não Bancárias em 2006. Por outro lado, as ONGs com melhor performance demonstram uma produtividade melhor, apesar de sua pouca expressividade dentro do mercado13. Resultados do setor bancário O setor bancário no Peru tem investido fortemente em infra-estrutura tecnológica para entrar com agressividade no mercado de financiamento da Microempresa. Embora não tenhamos encontrado, como para o setor não bancário, dados e indicadores consolidados exclusivamente sobre as colocações no mercado de microempresas, sabemos que do total de colocações em 2006, que se aproximaram a US$ 1,61 bilhões de dólares, como acima mencionado, que em torno de US$ 772 milhões foram oriundas de Bancos Comerciais, representando, como acima mencionado, 48% do total. Destes, o BCP 12 Para uma análise mais apurada deveríamos verificar as políticas e indicadores de write off dessas instituições. Para uma análise mais precisa, é preciso dividir as ONGs segundo a metodologia de crédito empregada (créditos individuais, solidários ou Bancos Comunitários). 13 35 foi responsável por aproximadamente US$ 287 milhões, o Mi Banco por US$ 216 milhões, o Banco del Trabajo por US$ 128 milhões e o Scotiabank por US$ 135 milhões. A pujança desse setor está sendo acompanhada por uma queda nos indicadores de risco. Entre 2004 e 2006, a inadimplência do setor passou de 8,88% a 6,59%. Observe-se que como esse indicador é composto da carteira em atraso sobre as colocações brutas, essa queda pode ser fruto do rápido crescimento da carteira de créditos. Assim é que se faz necessário um acompanhamento cuidadoso desse indicador nos próximos anos. i.b. MIBANCO e o programa MICASA. O MiBanco é um banco comercial especializado em microfinanças, tendo iniciado suas atividades como uma ONG (Acción Comunitária del Peru - ACP), apoiada pela ONG ACCIÓN International. Em 1998 a ACP se torna a maior acionista do MiBanco (Banco de la Microempresa), primeiro banco comercial dedicado exclusivamente ao desenvolvimento da microempresa. Crédito médio (balanço)/ PIB per capita (%) Média de crédito por cliente (balanço) (US$) 1600 0,6 1400 0,5 1200 0,4 1000 800 M iB anco 600 0,3 M iB anco 0,2 400 0,1 200 0 0 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Fontes: MIBANCO – The Mix Como se pode observar pelos gráficos acima, entre 1998 e 2005/2006, com a transformação da entidade para uma organização com fins lucrativos, a média de crédito por cliente cresceu de maneira 36 sustentada. O crédito médio de seus clientes representa quase 50% do PIB per capita, o que os caracteriza como microempresários de baixa renda de extrato mediano14 Com 32 agências na área metropolitana de Lima e outras grandes cidades Peruanas, o MiBanco se destaca dentro do contexto das Microfinanças acima descrito devido ao crescimento sustentado e são de sua carteira e, também, graças a seus indicadores de performance financeira. Carteira ativa bruta (em US$) 350.000.000 Número de clientes ativos (.000) 300.000.000 250 250.000.000 200 200.000.000 150 M iB anco 100 MiBanco 150.000.000 100.000.000 50 50.000.000 0 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 0 2006 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Fonte: MIBANCO – The Mix. Entre os anos de 2000 e 2006 o MiBanco passou de 58.088 clientes ativos a 221.802 clientes ativos e de uma carteira de US$ 36.874.797 a uma carteira de US$ 320.419.273, ou seja multiplicou seus clientes por 3,8 e seus ativos produtivos por 8,8. Ainda assim, manteve seus indicadores de risco relativamente equilibrados. Carteira em risco > 30 dias (%) 4,09% 3,42% 3,43% 3,09% 2,65% 1,90% 1997 1998 2,90% 2,65% 1999 2,04% MiBanco 1,65% 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 14 Segundo os critérios utilizados pelo The Mix se o índice que mede a carteira média por cliente (balanço)/PIB per capita < 25%, o público-alvo se situa no extrato inferior; se o índice estiver entre 25% - 100%, o público-alvo se situa no extrato mediano e se o índice for > 100% o público-alvo se situará no extrato superior. 37 Write Off (%) 4,49% 4,18% 3,28% 2,96% 2,87% MiBanco 1,81% 1,04% 1,31% 1,07% 0,00% 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Sua carteira em risco > 30 dias apresentou uma variação normal em situações de rápido crescimento, mas sempre em níveis muito baixos, situando-se em 2,90% em dezembro de 2006. Já o write off, índice que mede os montantes efetivamente baixados como perda da carteira, apesar de também se situar em níveis relativamente baixos, apresentou um crescimento substancial entre 2005 e 2006 que confirma uma tendência de longo prazo a uma maior exposição ao risco em virtude do rápido crescimento. A maior exposição ao risco para fortalecer o crescimento é uma das características de instituições já maduras que conseguem, através dos ganhos de produtividade e eficiência manter altos índices de rentabilidade. Eficiência Operacional (% ) 45% 40% 35% 30% 25% MiBanco 20% 15% 10% 5% 0% 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 38 A eficiência operacional mede o custo operacional da instituição sobre a carteira ativa. O indicador de 15% (Benchmarks internacionais para as melhores instituições se situam em 25%, cf. indicadores internacionais consolidados pelo MicroBanking Bulletin - www.mbb.org) mostra uma altíssima produtividade e os ganhos de economia de escala que mais do que compensam um relativo aumento na exposição ao risco. Esses dados têm um impacto direto na saúde financeira da instituição. Rentabilidade Financeira - ROE (% ) Rentabilidade Econômica - ROA(% ) 40% 8% 35% 7% 30% 6% 25% 5% 20% MiBanco 4% 15% 3% 10% 2% 5% 1% 0% MiBanco 0% 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 O MiBanco possui uma das mais altas rentabilidades do sistema. Seu retorno sobre ativos (ROA) em 2006 foi de 5%, enquanto, o ROA do Banco del Trabajo, por exemplo, foi menor que 1%15. Se retorno sobre o patrimônio líquido, por sua vez, atingiu impressionantes 35%, muito acima dos benchmarks Latino Americanos para bancos (25%, segundo a FELABAN – Federación Latinoamericana de Bancos). O rápido processo de crescimento do MiBanco e sua excelente performance permitiu uma estratégia de implementação de novos produtos, cujo sucesso reforçou sua posição no mercado. Dessa forma, em seu processo de diversificação da carteira, implementou uma experiência bem sucedida de adaptação de seu produto microfinanceiro tradicional às necessidades habitacionais. Apostando na idéia de que a dinâmica de “progressive building” das comunidades de baixa renda permitiria a criação de um produto com montantes pequenos, prazos curtos (mais curtos que os de crédito hipotecário) e taxas próximas das praticadas em empréstimos a microempreendedores, o Mi Banco desenvolveu o MiCasa. Lançado 15 A redução da rentabilidade do Banco del Trabajo tem origem em várias medidas prudenciais tomadas em função da deterioração da qualidade da carteira e do maior rigor de provisões estabelecidas pelas normas prudenciais. 39 em 2000, representava 8% da carteira ativa de créditos do banco em 2002, ou seja, um montante equivalente a US$ 7,7 MM e 13% em 2005, equivalente a US$ 27 MM. Em abril de 2007, segundo informações em entrevistas obtidas junto a responsáveis do MiBanco16, o MiCasa contava com 21.000 clientes ativos e uma carteira de aproximadamente US$ 39 MM (121MM de Nuevos Soles). Também segundo as mesmas fontes, a carteira em risco > 30 dias, excluindo-se a baixa de carteira (montantes em write off) se situava em 2% da carteira ativa e 4%, integrando-se os montantes em write off. O produto MiCasa teria, assim, uma carteira mais saudável que a carteira de microcréditos tradicional. O produto Micasa possui as seguintes características: 1) Montantes máximos de US$ 10 000,00, termos de pagamento de até 36 meses e taxas de juros anuais que variam entre 50% e 70% a.a. (ligeiramente mais baixos que as taxas para os produtos de microempresa – entre 60% e 85% a.a.). No entanto, a média de montantes é de US$ 2 500,00 e o prazo médio, de 18 meses. 2) A análise de crédito é exatamente igual à do microcrédito tradicional, incluindo um levantamento sócio-econômico completo. Em caso de clientes assalariados, a análise é um pouco mais simplificada no quesito rendimentos, mas exatamente igual quanto ás despesas familiares e pessoais. 3) Para obter o crédito, não há necessidade de dispor de um título de propriedade. É preciso apenas apresentar um projeto sumário com um orçamento para a reforma que será integrado no processo de análise de crédito. O crédito é fornecido ao cliente que pode, inclusive, utilizá-lo para financiar a mão-de-obra. 4) O MiBanco também financia projetos coletivos, por exemplo de pavimentação de ruas, etc. Nesse caso, um conjunto de pessoas deve procurar uma construtora que apresentará um projeto completo, aprovado pela Municipalidade e com orçamento detalhado. O crédito é fornecido diretamente ao construtor / lojas de construção e os membros do grupo serão co-responsáveis pelo pagamento das parcelas. 5) Por fim, o MiBanco está iniciando um projeto de distribuição de seus produtos através de lojas de construção para clientes que tenham histórico creditício positivo. A idéia é 16 Entrevista realizada no dia 29 de maio de 2007 com os Srs Fernando Balbuena Favarato (Gerente de la División Marketing) e Sr. Luis O. Caycho Chang (Jefe de Producto de Vivienda). 40 utilizar, no futuro, POS nas lojas e conceder ao cliente um cartão de crédito para a compra de material de construção. Importante notar que, à diferença do Brasil, o Peru dispõe de um bureau de crédito positivo que facilita a avaliação da situação de endividamento do cliente. A experiência do MiCasa se tornou, dessa maneira, um marco, desafiando algumas certezas quanto ao crédito habitacional. Hoje, alguns fatores, que explicam o sucesso do MiCasa, tornaram-se censo comum para o desenho de um produto para melhoria habitacional: 1. A baixa renda está acostumada a um modelo de construção progressivo. Porque seus recursos são escassos, sua situação sujeita a uma alta volatilidade econômica e sua capacidade de pagamento limitada, um produto com montantes elevados e prazos muito extensos pode gerar problemas de gestão financeira para os clientes. Empréstimos múltiplos com prazos e montantes mais curtos são mais eficazes. 2. Empréstimos pequenos, com prazos curtos, destinados a uma necessidade específica e pontual podem ser mais facilmente moldados com taxas de mercado e permitem, assim, a implantação de produtos sustentáveis. A sustentabilidade é condição para a permanência do produto e, portanto, um melhor impacto sócio-econômico. 3. Produtos mais curtos e seqüenciados levam a um pagamento de taxas de juros menores e diminuem o risco do agente financeiro. 4. A autoconstrução feita através do “progressive building” tem demonstrado resultados positivos em termos da qualidade das construções. Ainda assim, a assistência técnica para a construção seria essencial na fase de planejamento da obra, principalmente para reduzir o desperdício de material e o custo final da construção. 5. As taxas de juros não são fatores essenciais no processo de decisão das famílias de baixa renda em tomar um empréstimo e não têm impacto na sua estrutura de endividamento de médio e longo prazo desde que se tenha realizado a avaliação da capacidade de pagamento do cliente, como no microcrédito tradicional. 41 Além dessas características que orientaram o desenho do produto MiCasa, devemos lembrar alguns fatores-chaves próprios ao Peru e que devem ser avaliados com cuidado no desenho de um programa em outro contexto sócio-econômico: 1) Alta incidência da posse da terra, mas não da propriedade: apesar dos esforços e bons resultados obtidos pela COFOPRI, segundo estimativas realizadas pela ACCIÒN International17, 2/3 da população das áreas de atuação do MiBanco não possuem título de propriedade, o que limita o acesso a fontes públicas subsidiadas de empréstimos, sobretudo o TECHO PROPIO; 2) Ainda segundo esse estudo, a demanda por crédito para melhorias habitacionais está diretamente correlacionada com o crescimento da renda. Dessa constatação duas considerações chave: por um lado, o produto MiCasa é essencialmente fornecido para clientes dos produtos de microcrédito tradicional. A expansão para não-clientes é feita com muito cuidado. Isso porque a instituição já dispõe de um histórico positivo da clientela e o microcrédito tradicional serve para alavancar o nível de renda, permitindo os investimentos em moradia. Por outro lado, devemos lembrar que o aumento do ticket médio do MiBanco acima mencionado faz com que ele se aproxime de uma clientela mais estruturada, mais apta a realizar os investimentos habitacionais financiados pelo MiCasa. 3) Ainda há uma demanda represada: estima-se18 que 60% das famílias demonstram desejo de melhorar suas habitações nos próximos 12 a 18 meses, mas apenas 10% a 15% tiveram avesso a créditos formais ou informais para essa finalidade. Por fim, ressalte-se que o Banco de Crédito do Peru (BCP), maior banco comercial peruano está se voltando ao segmento explorado pelo MiBanco e pretende entrar no mercado de crédito para melhoria habitacional. O BCP já dispõe de uma carteira de microcrédito convencional de US$ 267 MM, crescendo a uma taxa de 30% ao ano e é o principal repassador do crédito MIVIVIENDA. Seu projeto é de alcançar uma carteira de microcrédito para melhoria habitacional de US$ 200 MM até 2011. ii. DESCO: uma proposta inovadora de apoio à melhoria habitacional. 17 18 Building the Homes of the Poor – One Brick at a Time, ACCIÓN Insight, January, 2003. Ibid. 42 A DESCO – Centro de Estúdios y Promocion de Desarrollo é uma instituição sem fins lucrativos que tem por objetivo desenvolver estudos e propostas de políticas públicas de urbanização. A DESCO defendo uma visão radicalmente diferente da exposta pelo governo sobre a questão da habitação. Para a DESCO não basta se pensar na regularização de lotes, compra, construção ou melhoria de habitação. É preciso pensar o processo de urbanização dos “pueblos jovenes” como um todo. Num processo de urbanização convencional, primeiramente se urbaniza e depois se habita. Com a pressão demográfica descrita na introdução do presente estudo, deu-se uma ocupação espontânea que têm, em regra, as seguintes características: a) baixo (ou nulo) preço dos terreno; b) baixa densidade; c) uma família por lote; c) posse de um terreno próprio e baixo índice de aluguéis. Como referido acima, as políticas de habitação nova em novos solos estão esgotadas. Seus custos seriam muito elevados e face a um déficit habitacional estimado em 1,3 MM de habitações no Peru, a proposta de DESCO é a de utilizar o potencial de habitação em áreas já urbanizadas onde existem equipamentos públicos, infra-estrutura e integração à malha urbana. Tipicamente, um processo de densificação se apresentaria dessa forma: Fonte: “Nuevas Unidade y Ampliación de la Vivienda / Mejoramiento de Barrios. Desco, 2002 Esse processo, interessante no contexto peruano, caracterizado pela baixa densidade urbana, apresentou uma série de desafios à DESCO: a) desafios de ordem jurídica na repartição da propriedade dos lotes; b) desafios técnicos: como promover a construção de unidades “en aires” com segurança, atendendo a normas e regulamentações de construção civil; c) como avaliar exatamente o custo financeiro deste projeto e demonstrar sua viabilidade econômica; d) por fim, como financiar o projeto. 43 Para responder a esses desafios, a DESCO desenvolveu uma série de programas cujas fases e resultados estão detalhadamente relatados no documento “Densificación Habitacional: una propuesta de crecimiento para la ciudad popular”. Estes projetos procuraram integrar diferentes dimensões dos processos de melhoramento das habitações de baixa renda e de densificação – assistência técnica, marco institucional e crédito. Para efeito do presente relatório concentraremo-nos na descrição dos mecanismos de crédito, de seus resultados e lições. Antecedentes (1989): Envolve os estudos preliminares sobre as formas de construção de moradias em bairros populares e a escolha de Vila el Salvador (VES) como região para implementação do programa. Vale dizer que o período entre 1985-1990 foi marcado por uma hiperinflação no Peru e conseqüente deterioração do Sistema Financeiro. As políticas de crédito existentes para baixa renda eram essencialmente dirigidas por entidades públicas, dentro de um modelo clientelista o que foi responsável pela desenvolvimento de uma cultura em que dívidas não honradas seriam sempre perdoadas. Projeto Piloto de Autoconstrução Assistida até a Densificação Habitacional (1990 a 1993): Nessa fase, a DESCO foi a entidade responsável pela linha de organização e aspectos legais da propriedade (lote / moradia). A fase de planejamento e estudos de campo em VES (1990 até dezembro/1991) focava principalmente o desenho do sistema de crédito que acompanharia a proposta urbanística. A etapa piloto propriamente dita ocorreu de 1992 a 1993, apoiado financeiramente pela Cooperação Descentralizada Francesa, pelo Programa Habitat Solidaridad e pela cidade de Rezé na França, irmanada com Villa El Salvador. Um dos objetivos fundamentais dessa etapa do projeto era identificar qual entidade financeira apoiaria os projetos de densificação. Cabe ressaltar aqui que o objetivo dessa fase não era a massificação, mas, em primeiro lugar, garantir que os projetos de densificação fossem realizados dentro das normas técnicas e com todos os cuidados arquitetônicos e, em segundo lugar, testar um modelo de crédito tendo por financiador um Banco Comercial interessado em abordar o mercado de baixa renda. Finalmente, o Banco Wiese foi escolhido para operar esta etapa. 44 O produto desenvolvido tinha prazo de 36 meses e taxas de juros de mercado (19% a.a.) sendo que os montantes oscilavam entre 1200 e 2400 dólares. O crédito podia ser utilizado para a compra de material de construção, contratação da mão-de-obra e da assistência técnica exigida. Era exigido que os clientes assinassem uma letra de câmbio em favor do banco, que apresentassem um avalista com reconhecida capacidade de pagamento, além de fornecer uma declaração juramentada de bens próprios ou de seu negócio. Além de todas essas garantias o Banco Wiese exigiu a constituição de um fundo de garantia para os empréstimos. Dois fundos foram criados: o Fundo de Garantia Solidário e o Fundo de Garantia de Densificação. O primeiro exigia que os clientes depositassem 10% do total dos créditos concedidos em nome da Asociación de los Beneficiários del Proyecto. Esse fundo constituiria a primeira garantia líquida em caso de inadimplência. O segundo fundo foi constituído a partir de um aporte realizado pelo Município de Rezé. Era um mecanismo de garantia que, de fato, respaldava 50% dos créditos outorgados. Os resultados / lições do piloto foram os seguintes: 1) 41 créditos foram outorgados no valor de US$ 85 000 em duas etapas: um primeiro grupo de 18 créditos e um segundo grupo de 23 créditos, com níveis de alavancagem dos fundos de1/2 e 1/3 respectivamente. 2) O crédito médio foi de US$ 1.960 o que permitiu a construção de 90,5m2 de lajes por moradia, totalizando 8.462 m2. 3) Não obstante, a operacionalização dos créditos apresentou vários problemas: em primeiro lugar não havia uma definição clara dos papéis. O Banco supôs que o conhecimento de campo da ONG garantiria bons clientes e que sua proximidade a estes fazia com que ela fosse a instituição mais indicada para cobrar créditos inadimplentes, embora não tivesse qualquer experiência na gestão de créditos. Em segundo lugar, o Banco, coberto pelos fundos, não se interessou em apoiar ou realizar uma cobrança efetiva. Em terceiro lugar, os sistemas de informação do Banco não estavam preparados para gerenciar esse tipo de produto, o que gerou a necessidade, em muitos casos, de 45 reprogramar créditos em dia, o que trouxe custos desnecessários e não previstos nos contratos. 4) A inadimplência foi bastante elevada, chegando a representar para o segundo grupo 44% da carteira ativa. Com muito esforço, Desco trouxe essa inadimplência para 12% da carteira ativa, mas a sustentabilidade do programa ficou comprometida. PROVIPO (1993-1998): Para desenvolver as linhas de ação com relação a crédito e assessoria técnica, foi criada a PROVIPO (Programa de Vivienda y Desarrollo Popular S.R. Ltda.), formada por uma pequena equipe: um gerente, um engenheiro civil, um promotor e um arquiteto. Com a PROVIPO, a DESCO desvinculavase da administração direta da construção, podendo dedicar-se a estudos financeiros e de habitação, a atividades de capacitação e, finalmente, à sistematização da experiência do programa, que incluía propostas de políticas apropriadas para habitação popular no país. No que concerne os mecanismos de crédito a etapa PROVIPO foi concebida como uma etapa para se gerar um processo massificado de crédito. O elemento chave para essa massificação seria a alavancagem de 1/3 conforma a segunda etapa do projeto piloto. Anos 1995, 1996 1997, 1998 Total Créditos concedidos 1995-1998 Número Valor USD Cooperação externa 110 1200 a 2400 Governo dos Países Baixos 150 1200 a 3600 Misereor 260 Fonte: documentação interna DESCO - Provipo No total, 260 créditos foram concedidos em três anos. O Banco Wiese, para continuar operando, exigiu a permanência de um fundo de garantia para os créditos desta etapa e a adição da carteira do Projeto Piloto. O mecanismo de crédito, com relação ao estabelecido no projeto piloto era muito mais simples: o cliente deveria demonstrar capacidade e vontade de pagamento através de uma avaliação sócioeconômica e o seu imóvel ficaria penhorado. 46 Os montantes dos empréstimos oscilaram entre US$ 1.800 e US$ 7.000, com um prazo máximo de reembolso de cinco anos e uma taxa de juros de 20% a.a., optando-se, assim, por não subsidiar o crédito (embora, nessa fase, tenha-se subsidiado a Assistência Técnica na ordem de 15% dos recursos mobilizados). A estrutura de custos para o cliente seguia a seguinte forma: Uso do montante de crédito aprovado – custos para o tomador. Montante aprovado US$ Gastos adm. Provipo Gastos adm. Banco Saldo Fundo de Garantia 1.200 88 25 1.087 120 2.400 122 25 2.253 240 Com essa estrutura, o negócio parecia ter uma estrutura financeira sólida, mas, em meados de 1996, em plena fase de ampliação, o Banco paralisou os desembolsos, porque a taxa de inadimplência estava acima do limite permitido no convênio entre ambas as instituições – devido à soma da carteira da fase Piloto, que tinha um alto índice de atraso. Isso diminuiu a credibilidade das famílias na PROVIPO, que tardava nos desembolsos, além de acarretar perdas econômicas à empresa, cuja rentabilidade estava vinculada ao número de intervenções realizadas. O grande obstáculo da PROVIPO foi ter nascido com uma herança inconveniente: resolver os problemas gerados na fase anterior do projeto, isto é, com a obrigação de recuperar a carteira inadimplente e funcionar usando o fundo de garantia do Projeto Piloto. Isto diminuiu o número de clientes e produziu um forte atraso no cumprimento das metas. Outra lição importante: a utilização de um fundo de garantia dificilmente incentiva o intermediário financeiro a estabelecer políticas claras e efetivas de cobrança. Em resumo, o programa de densificação possibilita, a quem já tenha construído um andar em sua casa, acesso a crédito de uma instituição financeira tradicional a preço de mercado, e proporciona uma assistência técnica subsidiada aos autoconstrutores. A experiência demonstrou que é possível um 47 convênio entre uma ONG e um grande banco privado do país, e este pode oferecer uma linha de crédito com montantes pequenos. A principal dificuldade encontrada foi a cobrança dos devedores. Programa Passo a Passo (2002-2005): O intervalo de tempo entre essa etapa e a anterior deve-se, em parte, pela carência de recursos, em razão da conjuntura política do Peru nesse período. Passo a Passo contou com o apoio financeiro da União Européia e foi executado em parceria com a ONG Ciudad de Ecuador. Além de processar e formalizar a experiência da DESCO até o momento, essa etapa teve como um de seus objetivos gerar um sistema de crédito adequado às necessidades das famílias autoconstrutoras. Em 2002, com o ressurgimento do Ministério de Vivienda, Saneamiento y Construcción, houve o lançamento de uma política de aquisição de moradia nova, chamada “chave na mão”, com um alto índice de subsídios, sob o típico esquema impulsionado pelo BID, denominado ABC (ahorro, bono y crédito) do Programa Mi Vivienda, desenhado para as classes B e C. A equipe do Passo a Passo analisou, então, as instituições financeiras que concediam crédito na zona sul de Lima e apenas uma oferecia uma linha especializada para produtos relacionados à moradia (com taxas de 35% a 40% a.a. em soles). Buscou-se alternativas com outras filosofias, como cooperativas e ONGs de crédito. Na nova etapa de ampliação do projeto em escala nacional, concluiu-se que a opção mais apropriada era o modelo fiduciário: DESCO fornecia recursos a uma instituição financeira intermediária (fiduciária) e esta os alavanca em até dez vezes (ex: Fundo DESCO = R$ 20 mil, Fundo da IFI = R$ 200 mil, fundo total = R$ 220 mil). Diferentemente do sistema anterior de fundo de garantia, nesse caso os recursos deveriam ser reembolsados em sua totalidade à DESCO no final do projeto, ou seja, as IFI passavam a ser totalmente responsáveis pela recuperação dos fundos emprestados. O princípio que sustentou o programa de créditos Passo a Passo é o apoio à família promotora da construção progressiva de sua moradia, por meio de pequenos financiamentos sucessivos para cada etapa. Finalidade do crédito Materiais e acabamento Ampliação de moradia (densificação) Saneamento físico da moradia ou bairro Quota inicial requerida por programas de subsídio estatal Valores (US$) 160 a 636 637 a 5.573 Conforme projeto aprovado 120 a 900 Fonte: DESCO – documentação Paso a Paso; OBS.: Câmbio 31.12.2005: 1,00 USD = 3,426 novos soles/Peru 48 Montante concedido (novos soles) 500 a 2.000 2.001 a 10.000 Mais de 10.000 Garantia solicitada Sem avalista, mas com comprovação de renda Avalista e comprovação de renda Hipoteca da moradia em favor da cooperativa Fonte: DESCO – documentação Paso a Paso Instituição parceira Coop. Santa Rosa de Lima* Coop. San Isidro Progreso Fondesurco Coop. María Magdalena** % juros a.m. % juros a.m. (soles) (dólares) 2,00 2,00 2,75 1,30 2,08 3,00 0,87 * Reduzida de 4% para 2% devido à baixa inadimplência (menos de 1%). ** Mesma taxa dos programas estatais = 11% a.a. em dólares. Até abril de 2005, foram concedidos 759 empréstimos, com as seguintes características: • • • • • 41% dos clientes eram mulheres; Com relação à garantia, 35% eram por avalista e 30% hipotecária; Prazo de pagamento: 58% entre 1 e 2 anos e 27% até um ano (o prazo máximo é de 5 anos); Valor total liberado: US$ 604.005,50; Valor médio do crédito: US$ 796,00. Segundo a equipe DESCO esse mecanismo obteve sucesso e somente não ganhou escala por falta de recursos para realizar a alavancagem dos empréstimos junto às Instituições Financeiras. Hoje, a DESCO procura desenvolver parcerias com instituições microfinanceiras que tenham objetivos sociais aliados a Edyficar Cobertura Geográfica PIURA Piura Chulucanas CAJAMARCA Cajamarca Celendin expressivos resultados financeiros (a sustentabilidade e LA LIBERTAD Trujillo AYACUCHO rentabilidade são pré-requisitos para expansão). Buscam-se entidades que tenham capacidade para alavancar recursos, com abrangência Ayacucho ANCASH Huaraz Caraz Chimbote Casma operacional em âmbito nacional. Arequipa Nesse sentido, um parceiro muito promissor é a EDPYME EDYFICAR. AREQUIPA LIMA PuentePiedra LosOlivos San Juan de Lurigancho Santa Anita San Juan de Miraflores Villa El Salvador PUNO Juliaca Puno 49 Com abrangências nacional a EDPYME, EDYFICAR foi fundada pela CARE PERU e ganhou autonomia como uma entidade de desenvolvimento da pequena e micro empresa. Esse status legal lhe permite somente operar com um tipo de serviços financeiro, o crédito. A EDYFICAR possui uma linha de créditos essencialmente voltados para microempreendedores, mas deseja, a partir da modificação de seu status legal para uma financeira, passar a oferecer um maior valor agregado com novos produtos: crédito ao consumo, cartão de crédito, micropoupança, crédito para habitação (que ainda se encontra em fase piloto, etc.). Indicadores financeiros19 da EDPYME EDYFICAR comparados com os indicadores do MiBanco20. Carteira ativa (in US$) Núm ero de clientes ativos 350.000.000 250 300.000.000 200 250.000.000 150 200.000.000 M iBanco M iB anco 150.000.000 EDP YM E EDYFICA R EDP YM E EDYFICA R 100 100.000.000 50 50.000.000 0 0 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 ROE (%) ROA (%) 8% 40% 7% 35% 6% 30% 5% 25% 4% 3% 2% M iB anco 15% EDP YM E EDYFICA R 5% 0% -1% 0% -2% -5% 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 20 20% EDP YM E EDYFICA R 10% 1% 19 M iB anco 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Para uma definição dos indicadores financeiros, cf. anexo I. Fonte: dados publicados pelas Instituições Microfinanceiras no site: www.themix.org. 50 Portofolio at Risk > 30 days Ratio (%) Write Off Ratio (%) 12% 7% 10% 6% 5% 8% M iB anco 6% EDP YM E EDYFICA R 4% 4% M iB anco EDP YM E EDYFICA R 3% 2% 2% 1% 0% 0% 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 1997 Eficiência Operacional (%) 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Crédito médio por cliente (US$) 45% 1600 40% 1400 35% 1200 30% 1000 25% M iB anco 20% EDP YM E EDYFICA R M iB anco 800 EDP YM E EDYFICA R 600 15% 400 10% 200 5% 0 0% 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Comparando seus resultados com o Mibanco, vemos claramente as limitações de crescimento geradas pelas limitações legais, mas observamos também que EDYFICAR possui uma excelente base para crescimento sustentado nos próximos anos: alta rentabilidade dos ativos e do patrimônio, carteira em risco equilibrada, inclusive com write off sensivelmente menor que o do MiBanco e, sobretudo, uma alta eficiência operacional apesar do crédito médio ser mais baixo que o proposto pelo MiBanco. Dessa maneira, EDYFICAR, por compatibilizar sua missão social com resultados financeiros ótimos aparece como um parceiro ideal para que a DESCO desenvolva um produto de microcrédito habitacional voltado para as camadas mais pobres da população peruana. CONCLUSÕES A experiência peruana possui algumas particularidades em seu modelo que a tornam dificilmente replicáveis, embora tenham se tornado referência internacional, tanto no que concerne os processos de urbanização participativos, quanto no desenvolvimento das microfinanças e, em particular do 51 microcrédito habitacional. Algumas lições podem, não obstante, servir como referência para o desenho de projetos que tenham por objetivo construir processos sustentáveis de urbanização. 1. Políticas públicas de regularização são importantes para garantir a segurança jurídica necessária à consolidação da poupança que representa o investimento em habitação para as famílias de baixa renda. A regularização somente se torna interessante a partir do momento que o seu custo é menor do que o da informalidade e o custo, por sua vez, está diretamente ligado ao tempo e à burocracia dos processos de regularização. 2. Todavia, a formalização da propriedade não tem os esperados efeitos no mercado imobiliário, na alavancagem do crédito e no incremento dos processos de urbanização. Para as populações de baixa renda, a urbanização já representa um sinal de estabilidade e é ela que agrega valor à habitação, permitindo investimentos mais consistentes em melhoria habitacional. 3. Os processos de construção de habitação popular são, em regra geral, autogeridos e progressivos. Créditos de longo prazo, com montantes elevados, como o crédito hipotecário não são adaptados à dinâmica do mercado de baixa renda. Qualquer produto de crédito desenhado para essa finalidade deve oferecer montantes pequenos e prazos curtos que, ademais, são mais facilmente gerenciados por uma população submetida a uma maior volatilidade econômica. 4. Programas públicos subsidiados de crédito habitacional somente serão eficazes se atuarem em segundo piso e se não houver subsídios indiretos ou diretos. a) Programas de primeiro piso, como o BANMAT tendem a ser utilizados em processos políticos e não são suficientemente rigorosos na cobrança dos seus clientes. Tendem a ser vistos pela população como doações governamentais; b) Os subsídios indiretos de segundo piso aos intermediários financeiros, apresentam uma tendência à regressividade: a escolha de clientes com perfil mais elevado para uma oferta de taxas de juros menores e taxas mais altas para clientes mais arriscados. Funcionam, portanto, melhor no caso de clientes de classe média, como no caso do Fundo MiVivienda; c) Os subsídios diretos, complicados pela burocracia exigida, também promovem uma confusão entre crédito e políticas de transferência de renda. Os resultados em termos de escala e inadimplência não são satisfatórios. 52 5. A atuação de programas públicos ou não-governamentais é mais eficiente quando focada no incentivo à poupança que permita a construção de um mecanismo de garantia para a alavancagem dos créditos. Não obstante, a garantia nunca deve substituir a responsabilidade dos intermediários financeiros na recuperação dos créditos. 6. As políticas públicas deveriam subsidiar aquilo que o mercado não pode atender: assistência técnica e assistência social. Todavia, a intervenção deve ser estrutural e não impositiva (por exemplo, a Assistência Técnica obrigatória para a concessão do crédito). As populações de baixa renda interpretam este tipo de ação como uma ingerência desnecessária e acabam por abandonar os projetos. Assistência técnica e social são processos educativos que levam anos e, talvez, gerações para produzir efeitos e esses processos, muitas vezes, não apresentam resultados positivos porque são descontinuados em virtude da rapidez dos ciclos e das agendas políticas. 7. Programas privados de microcrédito habitacional com escala somente são possíveis a partir do desenvolvimento de um setor microfinanceiro convencional (ou seja, baseado no crédito ao microempreendedor e sua família) sólido e pujante. O crescimento das carteiras de microcrédito produtivo (destinado ao fomento de negócios e à geração de renda) proporciona a constituição progressiva de históricos creditícios da clientela alvo, bem como o desenvolvimento de processos de gestão do crédito que, num segundo momento, permitem a diversificação dos produtos e da finalidade do crédito para o atendimento de necessidades não diretamente vinculadas aos negócios e à geração de renda. 53 Bibliografia e referências GUERINONI, Felipe Morris. Develando el misterio – La formalización de la propriedad en el Perú. PDPU/ Cofopri. 2004 RAMIREZ CORZO, Daniel ; RIOFRÍO, Gustavo. Formalización de la propriedad y mejoramiento de barrios: bien legal, bien informal. Lima: desco. Programa Urbano, 2006 - 64 p. ZOLEZZI, Mario ; TOKESHI, Juan ; NORIEGA, Carlos. Densificación habitacional. Una propuesta de crecimiento para la ciudad popular. Lima: desço. Programa Urbano, 2005 – 136 p. 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Não estão incluídos os juros de empréstimos. Return on Assets - ROA (%) : (Receitas operacionais líquidas)/ Ativos médios no período. Return on Equity – ROE (%) : (Receitas operacionais líquidas)/ Patrimonio Líquido médio no período. Eficiência Operacional (%) : (Despesas operacionais)/ Carteira ativa bruta média no período. Portfolio at Risk > 30 days – PAR (%) : Carteira em risco > 30 days/ Carteira ativa bruta bruta. Write Off (%) : Créditos baixados nos últimos 12 meses / Carteira ativa bruta média. Número de clients ativos : Número de pessoas que têm um crédito em aberto com a Instituição Financeira Carteira media por cliente : Carteira ativa bruta / Número de clientes ativos. 57