O Jornalismo Literário em García Márquez e
Vargas Llosa: do narcotráfico à guerra santa –
uma reflexão sobre livros-reportagens
André Silva∗
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas
Índice
Introdução
1
1 Jornalismo e Literatura na Contemporaneidade
2
2 Jornalistas-Escritores:
García
Márquez e Vargas Llosa
4
3 Livros-Reportagens: do Narcotráfico
à Guerra Santa
8
4 Considerações Finais
12
Referências Bibliográficas
13
Resumo
O presente artigo analisa aspectos da construção narrativa do Jornalismo Literário a
partir das obras: Notícia de um seqüestro, de
Gabriel García Márquez, e Israel Palestina:
paz ou guerra santa, de Mario Vargas Llosa.
Tais autores, entre o Jornalismo e a Literatura, contribuíram para o desenvolvimento
do subgênero livro-reportagem. A partir
de aspectos característicos do Jornalismo
Literário, observa-se nas obras elementos
∗
Jornalista e pós-graduando em Comunicação
pela PUC Minas.
que proporcionam uma quebra da atualidade em contemporaneidade, suscitando a
humanização do fato, a impregnação de subjetividade e uma maior abertura de sentido
para a descoberta de possíveis realidades em
um mesmo acontecimento.
Palavras-chave: Jornalismo Literário,
Gabriel García Márquez, Mario Vargas
Llosa, livro-reportagem.
Introdução
A relação entre Jornalismo e Literatura suscita debates acadêmicos. Para alguns autores, ocorre um processo de justaposição
entre os gêneros, sendo o Jornalismo reputado como parte integrante da Literatura.
Esta é a posição defendida por Amoroso
Lima (1968). Para o crítico, se pensar a Literatura enquanto fala, escrita e manifestação
do pensamento; ou como fim, dando valor
secundário à palavra, o Jornalismo torna-se
subgênero da Literatura.
Doutro modo, visões como a de Pena
(2008), são indicativos de um processo de interseção entre Jornalismo e Literatura. Esta
relação Jornalismo-Literatura é reciprocamente benéfica desde o século XIX. Inicial-
2
André Silva
mente, o Jornalismo populariza a Literatura
com os folhetins e as críticas literárias publicadas nos periódicos.
Posteriormente, no século XX, a Literatura amplia a noção de Jornalismo, propondo novas maneiras de construção da notícia, tanto na estética quanto no conteúdo.
Por último, há aqueles autores resistentes
à junção ou aproximação dos gêneros. Necchi (2007) vê o termo Jornalismo Literário
como algo inviável. Primeiro porque o uso
do literário no jornalístico, segundo Necchi,
atribui ao Jornalismo uma necessidade da
Literatura para tornar-se “elevado”; segundo,
pois o termo literário pressupõe ficção, invenção, propostas inviáveis para o conceito
de Jornalismo.
Opta-se, neste artigo, pelo estudo da presença da Literatura no Jornalismo, culminando com os livros-reportagens. Nesta
perspectiva, busca-se a maneira como o fato
é pensando enquanto pauta, sua captação
e seu texto. Esta proposta amplia o debate sobre a interdisciplinaridade entre Jornalismo e Literatura, especificamente, para
a hibridização destes dois gêneros, o Jornalismo Literário. Parte-se de dois livrosreportagens flutuantes entre o Jornalismo e a
Literatura: Jornalismo, pois parte-se do fato
(sequestros na Colômbia e proposta de paz
no Oriente Médio) e Literatura, porque são
semeados elementos literários (descrição dos
personagens, das histórias; os detalhes; e a
ampliação dos acontecimentos).
1
Jornalismo e Literatura na
Contemporaneidade
Parte do Jornalismo contemporâneo busca
a perpetuação pelo texto. Neste sentido,
o jornalista-literato, usando de procedimentos tanto do Jornalismo quanto da Literatura, constrói um produto para a posteridade, algo para a explicação da contemporaneidade e não da atualidade instantânea. E
desta maneira, o livro tem se mostrado “a
mais adequada opção” (BULHÕES, 2007:
192).
Segundo Bulhões (2007), esse movimento
dos jornais para os livros, iniciado na década
de 70, tem criado um jornalismo de livros. A
dúvida de alguns autores sobre se isso ainda
é Jornalismo, parece, pelo menos para este
trabalho, afastada, pois, o que está em jogo é
a escolha do tema, como se dá a captação,
e os elementos usados para construção do
texto, e não critérios do Jornalismo cotidiano
como periodicidade, factualidade, atualidade
etc.
Alguns pontos prós e contras são suscitados da relação jornal x livro. Enquanto
no livro a atualidade se dilata em contemporaneidade1 , dando uma dimensão elástica
para o tema abordado; os jornais, ao contrário, antes mesmo do dia seguinte estão enrolando peixe na feira, dando a dimensão da
sua factualidade. Doutro modo, o imediatismo dos jornais proporciona o debate urgente. No livro, a repercussão suscitada leva
um período mais longo para se disseminar.
Segundo Lima (2004), os livrosreportagens são publicações não periódicas
mais verticais e horizontais em relação às
reportagens do Jornalismo diário. Horizontais no sentido da ampliação das abordagens
e verticais em função da profundidade como
são tratadas:
1
Essa dilatação no espaço e no tempo se dá em
função de um mergulho no passado para a compreensão das origens do fato.
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O Jornalismo Literário em García Márquez e Vargas Llosa
O aprofundamento extensivo, ou
horizontal, quando o leitor é
brindado com dados com dados, números, informações, detalhes que ampliam quantitativamente sua taxa de conhecimento
do tema. O aprofundamento é intensivo, ou vertical, quando o leitor
é alimentado de informações que
lhe possibilitam aumentar qualitativamente causas e conseqüências, de efeitos e desdobramentos, de repercussões e implicações
(LIMA, 2004: 40).
Os livros-reportagens são diferenciados
dos livros comuns em três aspectos: o conteúdo embasado no fato, na realidade; o
tratamento jornalístico do acontecimento2 ; e
a funções3 . Cidade partida, de Zuenir Ventura; O abusado, de Caco Barcellos; são exemplos de livros-reportagens.
Desta forma, tanto Notícia de um seqüestro quanto Israel Palestina: paz ou guerra
santa são publicações características dos
livros-reportagens, pois os três elementos
diferenciadores estão presentes em ambas: o
acontecimento – os sequestros simultâneos
de jornalistas e a proposta de retirada das
colônias israelenses da Faixa de Gaza e dos
territórios ocupados da Cisjordânia; abordagens jornalísticas – apuração, texto claro e
preciso, uso de fotojornalismo etc.; e visões
2
Isto é: uso de outros símbolos (fotografia, infográficos, ilustrações etc.) e em relação ao texto (preciso, claro, exato, a narrativa em terceira pessoa, combinações entre a fala cotidiana e a formal).
3
Ademais da informação, da orientação e da explicação como as reportagens do Jornalismo diário, os
livros-reportagens têm como funções os tratamentos
horizontais e verticais, as visões multiangulares etc.
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3
multiangulares (uso de várias fontes, de documentos etc.) e ampliação do fato horizontalmente e verticalmente.
Enquanto o Jornalismo diário, em função
da periodicidade, está limitado à informação
do fato, os livros-reportagens são mais detidos às interpretações e opiniões dos fatos.
De acordo com Lima (2004), o jornalista
busca nos livros-reportagens o espaço para
aprofundamento no fato, ausente das páginas dos jornais em função do próprio espaço
do veículo. Outro atrativo é a liberdade para
abordagens de temas4 . No Jornalismo diário,
muitas vezes, a ideologia do veículo impede
a liberdade temática. No caso brasileiro,
esses dois motivos são somados a um terceiro, fruto da história recente. Com a ascensão da ditadura, a publicação do AI-5 e
a censura, os livros-reportagens tornaramse produtos de denúncia. Reflexos do baile,
de Antônio Callado, e O que é isso companheiro, de Fernando Gabeira, são exemplos
desse período.
Os livros-reportagens, como mostra Lima
(2004), são subdivididos em várias perspectivas: aqueles originados de uma série
de reportagens ou aqueles pensados como
livros desde o início; aqueles preocupados
na explicação de um acontecimento recente,
ou aqueles atentos para outros períodos da
história; há ainda os baseados somente em
fatos, em relatos, aqueles chamados de ação,
calcados na investigação, e aqueles apoiados
em documentos. Essas divisões todas, comumente, são trabalhadas em conjunto nos
livros-reportagens.
Em Notícia de um seqüestro e Israel
4
A isso, Lima (2004) chama de universalidade.
De acordo ele, essa característica se dá tanto na quantidade de tema abordados pelos livros-reportagens
quanto na dimensão dada a cada tema.
4
Palestina: paz ou guerra santa, por exemplo, aquele foi pensado essencialmente como
livro, enquanto este é oriundo de uma série
de grandes reportagens publicadas no jornal
espanhol El País, em 2005. Doutra forma,
ambos os livros-reportagens estão preocupados com a compreensão de fatos recentes
(os sequestros de jornalistas e a proposta de
paz entre israelenses e palestinos) sem, no
entanto, esquecer do processo histórico por
trás dos acontecimentos (as origens do grupo
de narcotraficantes colombianos conhecidos
como Extraditáveis, e o histórico conflito entre israelenses e palestinos). Tanto em um
como noutro, a pluralidade de depoimentos
e a investigação são artifícios utilizados pelos jornalistas-escritores.
Outra divisão proposta por Lima (2004)
é a classificação dos livros-reportagens pelo
objetivo contido na informação e a “natureza do tema” tratado pela obra. Neste
aspecto, Notícia de um seqüestro e Israel Palestina: paz ou guerra santa são
enquadrados em mais uma classificação,
pois os objetivos dos livros-reportagens perpassa um único propósito: No livro de
García Márquez vê-se o livro-reportagemdepoimento, pela reconstituição dos sequestros com base na visão dos envolvidos, sobretudo de Maruja Pachón (uma dos sequestrados) e o marido dela, Alberto Villamizar, um dos negociadores; como livroreportagem-instantâneo, por tratar-se de um
acontecimento recente, ocorrido no início da
década de 90, e com discussões e projeções
sobre o futuro do narcotráfico colombiano.
Em Vargas Llosa, por outro lado, encontrase o livro-reportagem-antologia, por tratarse de uma reunião de reportagens publicadas no El País; e o livro-reportagemviagem, em função do deslocamento do pe-
André Silva
ruano até o Oriente Médio e da contextualização histórica, humana e sociológica da
região e do cotidiano dos habitantes.
2
Jornalistas-Escritores: García
Márquez e Vargas Llosa
2.1
García Márquez:
essencialmente jornalista
A relação de Gabriel García Márquez com
Jornalismo e a Literatura iniciou-se em 1947,
então com 19 anos, quando cursava o segundo ano de Direito, na Universidade Nacional de Bogotá5 . Embora sejam textos de
cunho decididamente ficcional, pois se trata
de contos6 , estas prematuras letras do colombiano de Aracataca, marcam as primeiras
publicações periódicas de García Márquez.
Um ano após os primeiros textos em El
Espectador, Gabo mudou-se para Cartagena
de Índias, após a onda de violência que assolou a capital colombiana com o assassinato
do “líder político populista Jorge Eliécer
Gaitán” (RODRIGUES, 2005: 1). A ida para
Cartagena culminou com a transferência do
curso para a universidade local, além de um
emprego como aprendiz no jornal El Universal.
Esta passagem da vida de Gabo evidencia
as primeiras lições de escrita que a prática
jornalística proporcionou ao ganhador do
5
De 1952 a 1974, Gabo publicou cerca de dez
contos na seção intitulada Fim de Semana do diário
El Espectador. Cf. RODRIGUES, Joana. Literatura e
Jornalismo em Gabriel García Márquez: uma leitura
de crônicas. Dissertação (Letras) – FFLCH/USP: São
Paulo, 2005.
6
Segundo Moisés (2000), o conto é inerente à
prosa literária e caracteriza-se por contar uma história
fictícia permeada de conflito.
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O Jornalismo Literário em García Márquez e Vargas Llosa
Prêmio Nobel de Literatura de 1982. A imprensa como meio de lapidar as letras foi
e continua sendo o caminho percorrido por
muitos escritores, vide Vargas Llosa, Julio
Cortázar, Octavio Paz, Machado de Assis,
Euclides da Cunha, Carlos Drummond, entre outros. Em relação ao início de carreira
de Gabo, Santamaría (1999) comenta: “[...]
(As) 37 colunas Punto y Aparte que publicaria em sua primeira etapa em El Universal de Cartagena demonstraram que García
Márquez sempre alcançou a medida perfeita
entre a ficção e o fazer jornalístico”, (SANTAMARÍA, 1999: 44-45 – tradução livre)7 .
Durante os um ano e oito meses em que
esteve em El Universal, García Márquez exerceu outras atividades jornalísticas além
da coluna Punto y Aparte. A participação no
editorial do periódico e a função de redator
e titulador das matérias internacionais, que
chegavam à redação do jornal, estavam entre
as funções exercidas pelo autor de Ninguém
Escreve ao Coronel (1961).
Ademais, como descreveu Santamaría
(1999), se aprofundou em leituras básicas de
autores como “Faulkner, Hemingway, Satyron, Capote, Virgina Woolf, e incluindo autores, então, quase desconhecidos, como
Borges e Cortázar. Ao mesmo tempo incorporava aprendizado diário outros elementos básicos, como o cinema, as tiras cômicas
[...]” (SANTAMARÍA, 1999: 47 – tradução
livre).
A expressiva passagem de García
Márquez pelo El Universal rendeu-lhe o
convite para ir trabalhar em Barranquilla,
no jornal El Heraldo, em 1950.
Pela
7
In.: CRISTÓBAL, Juan (Org.). García Márquez
y los medios de comunicación. Lima: San Marcos,
1999.
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5
frente, mais uma coluna, La Jirafa8 : “A
manutenção de uma coluna de opinião em
um periódico que, naquele momento era o
segundo maior jornal do país, alcançando
tiragem de 65 mil exemplares diários,
representou uma atividade de fundamental
importância na trajetória jornalística de
García Márquez” (RODRIGUES, 2005: 8).
Outro fator fundamental para o desenvolvimento da escrita, da formação políticoliterária e do senso crítico de García
Márquez se deveu aos chamados Grupo de
Cartagena e Grupo de Barranquilla, isto é,
eram grupos formados por jornalistas, escritores, artistas com os quais Gabo convivia
e compartilhava a vida pelos cafés, cinemas
e galerias de arte das cidades colombianas.
Assim como o Grupo de Cartagena havia
fundado a revista Mundial quando García
Márquez havia por lá passado9 , os integrantes do Grupo de Barranquilla fundaram
a revista Crónica, na qual Gabo foi redatorchefe, entre outras tarefas . De cunho
jornalístico-literário, a revista deu a García
Márquez a oportunidade de exercer a reportagem, o grande sonho desde quando decidira pelo Jornalismo em detrimento do Direito.
Há quem acredite, como é o caso de Santamaría (1999), que desde o início da carreira
jornalística, ainda em El Universal, García
Márquez trabalhou em função do aperfeiçoamento da escrita literária: “[...] desde a
primeira notícia, García Márquez trabalhou
8
“Como o silencioso mamífero, de sua coluna olharia e comentaria tudo ou quase tudo, com pouquíssimo ruído, e, a exemplo da girafa, a coluna seria a
mais vistosa, graças ao seu estilo e à sua imaginação”
(SALDÍVAR, 2000: 211).
9
Este grupo também fundou o suplemento
literário do jornal La Nación.
6
em função da criação literária” (SANTAMARÍA, 1999: 44).
Esse movimento entre Jornalismo e Literatura começa a ser evidenciado com a escrita do primeiro romance, La Hojarasca,
em 1950, que foi publicado em 1955. Segundo Rodrigues (2005), o primeiro capítulo, inclusive, chegou a ser publicado em
El Heraldo, em 1952, sob o título El invierno. Daí por diante, a trajetória de García
Márquez caminharia ininterruptamente entre
Jornalismo e Literatura.
Para Santamaría (1999), García Márquez
foi um dos poucos que conseguiu utilizar
de maneira precisa os elementos da ficção
aliados à precisão jornalística: “Esta dualidade foi tão exata e tão proveitosa, que hoje
em dia, com um Prêmio Nobel conquistado,
cabe perguntar: No caso de Gabriel García
Márquez, é o escritor que deve mais ao jornalista, ou é o jornalista ao escritor?” (SANTAMARÍA, 1999: 42 – tradução livre).
Ao longo da bem-sucedida carreira jornalística, García Márquez ainda trabalhou
na Europa, em outros periódicos colombianos e da América Latina. Paralelamente, o colombiano escreveu diversas obras
literárias. Neste processo, as reportagens
foram um importante processo de aprendizagem desde o início no Jornalismo. E é justamente nesta práxis que o desenvolvimento
de uma escrita híbrida, fruto da junção do
Jornalismo e da Literatura, se dará nos textos de García Márquez, com uma linguagem
que “[...] misturava de forma magistral os
dados de toda ordem com palavras de cunho
mais poético, imprimindo a tais matérias jornalísticas um estilo diferenciado de contar
uma história baseadas em fatos reais” (RODRIGUES, 2005: 29). Vê-se aí características comuns dos livros-reportagens, que se-
André Silva
riam exercitadas a fundo por Gabo em Relato
de um náufrago (1970)10 , Crônica de uma
morte anunciada (1981) e Notícia de um seqüestro (1996) – objeto deste estudo.
2.2
Vargas Llosa: um literato
seduzido pelo Jornalismo
Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936,
Mario Vargas Llosa como García Márquez
desde cedo enveredou pelos caminhos do
Jornalismo e da Literatura. Todavia, diferentemente do colombiano, Llosa dedicou-se
inteiramente à Literatura, tendo sido o Jornalismo e os outros afazeres apenas atividades secundárias, muitas vezes para a complementação da renda, sobretudo quando
adolescente.
Ainda com 16 anos iniciou a carreira jornalística no periódico peruano La Crónica:
“Os três meses em que trabalhei no La
Crónica, entre o quarto e o último ano do
secundário, provocariam grandes transtornos
em meu destino. Com efeito, no La Crónica
fiquei sabendo o que era, afinal, o jornalismo, conheci uma Lima até aquele momento ignota [...]” (LLOSA, 1994: 142).
Embora tenha ficado pouco tempo trabalhando em La Crónica, Llosa teve experiências significativas no periódico. Quando foi
contratado, Vargas Llosa tornou-se um dos
redatores da página de notícias locais. Algumas semanas depois foi convidado para integrar a equipe de notícias policiais, para subs10
Livro que é a compilação dos 14 textos da reportagem La verdad sobre mi aventura, publicados
em El Espectador, em 1955. O livro conta a respeito
do naufrágio do marinheiro Luis Alejandro Velasco,
que ficou à deriva no mar caribenho por 10 dias e revela o envolvimento da marinha colombiana no contrabando de eletrodomésticos.
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O Jornalismo Literário em García Márquez e Vargas Llosa
tituir um dos redatores que estava doente.
Nesse período, Llosa foi um assíduo frequentador de bordéis, delegacias e outros lugares do submundo de Lima.
Em 1955, então com 19 anos casou-se
com cunhada do tio, Júlia Urquidi Illanes11 .
Nos três anos seguintes, Vargas Llosa dividese entre o trabalho na Rádio Central (atual
Rádio Panamericana), o envio de artigos
para o El Comercio e para a revista Cultura
Peruana, e o término do projeto de tese sobre
o poeta nicaraguense Rubén Darío, que pretendia inscrever para ganhar a bolsa Javier
Prado para fazer um doutorado na Universidad Complutense de Madri, o que de fato
ocorreu.
Na Espanha, Llosa doutorou-se em Letras
e Filosofia. No ano seguinte mudou-se para
Paris, onde esteve em 1957, quando ganhou
o concurso de contos da revista La Revue
Française. O início da vida em Paris não foi
das mais fáceis para Llosa, a falta de dinheiro
o obrigou a exercer outras atividades paralelas à Literatura, entre elas na agência France
Press e na Rádio e Televisão Francesa como
jornalista.
Em 1964, regressou ao Peru parcialmente, quando se separou de Júlia e, no
ano seguinte, se casou com Patricia Llosa.
Nesse mesmo ano, Vargas Llosa foi para Havana onde foi jurado do prêmio Casa de las
Américas. Dois anos depois, em 1967, trabalhou para a Unesco na Grécia como tradutor. Durante os anos seguintes até 1974,
quando regressou definitivamente ao Peru,
Vargas Llosa viveu entre as cidades de Londres, Paris e Barcelona.
Ao longo desse processo histórico, Llosa
11
Desta relação Llosa criou uma de suas principais
obras: Tia Julia e o Escrivinhador (1985).
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7
escreveu inúmeros livros nos quais o Jornalismo e a Literatura foram evocados. Esta
apareceu na criação dos personagens e na
narrativa do texto, aquele se mostrou uma
vez que os romances, os contos de Vargas Llosa tiveram, assim como o Jornalismo, a realidade como origem. Ademais,
o peruano, do mesmo modo que um jornalista, documentou-se e viajou a lugares que
serviriam de inspiração para a criação dos
personagens.
Um dos maiores exemplos dos livros escritos por Llosa é A guerra do fim do
mundol (1981), que reconta, de forma fictícia, a Guerra de Canudos, ocorrida no fim
do século XIX no sertão baiano. “[...] a
todo mundo eu explicava que não estava escrevendo um romance fiel à história, mas
que queria realmente conhecer a história
para, digamos, mentir com conhecimento
de causa” (VARGAS LLOSA apud SETTI,
1986: 41).
Por este e por outros livros escritos em que
ficção e realidade se esbarram, e pelas intermitentes contribuições com o Jornalismo,
sendo até hoje colaborador assíduo de publicações como o jornal espanhol El País,
no qual escreve a coluna Pedra de Toque
quinzenalmente, Llosa insere-se na categoria
de jornalista literário. Não pelo trânsito entre os gêneros, mas, e principalmente, pelos
trabalhos mais recentes.
Em 2003, a serviço do El País, Llosa fez
uma viagem ao Iraque por 12 dias, tempo no
qual publicou uma série de reportagens sobre a intervenção norte-americana. Posteriormente, esta série foi compilada e publicada
em livro, Diário do Iraque (2007). O trabalho de Vargas Llosa perpassa pelo cruzamento do Jornalismo e da Literatura. Do
mesmo modo, aparece Israel Palestina: paz
8
André Silva
ou guerra santa (2007), que é a compilação
de reportagens publicadas em 2005, sobre a
decisão de Ariel Sharon de descolonizar os
israelenses da Faixa de Gaza e dos territórios
ocupados da Cisjordânia. Vargas Llosa foi à
região e conversou com israelenses e palestinos.
3
Livros-Reportagens: do
Narcotráfico à Guerra Santa
Para análise de Notícia de um seqüestro
e Israel Palestina: paz ou guerra santa,
toma-se alguns atributos, segundo Lima
(2004), necessários para considerar uma
obra como sendo característica do Jornalismo Literário e, mais especificamente dos
livros-reportagens. Ao todo três pontos são
observados na análise das obras: os critérios
levados em consideração na pauta, na captação e no texto.
3.1
Notícia de um Seqüestro: a
voz do outro em primeiro
plano
Dividido em 12 capítulos, Notícia de um seqüestro narra o dia-a-dia de dez sequestros
ocorridos na Colômbia, no início da década
de 1990, pelos Extraditáveis12 com o intuito
de pressionar o governo colombiano a reformular a lei que previa a extradição dos narcotraficantes para os EUA, onde seriam julgados.
12
“A aprovação [da lei que previa a extradição de
narcotraficantes para os EUA] mudou radicalmente
o panorama das drogas na Colômbia, implicando
reação violenta dos autodenominados ‘extraditáveis’,
os chefes de grupos que controlavam o tráfico de drogas” (FRAGA, 2007: 79-80).
Entendendo-se a pauta como o processo
da práxis jornalística de direcionamento das
reportagens, Lima (2004) ressalta a característica de liberdade da pauta em se tratando
de livros-reportagens. A liberdade temática,
liberdade de angulação, liberdade de fontes
e a liberdade de propósito são as principais.
Pertencendo Notícia de um seqüestro a todas elas, foi escolhida a liberdade temática
para a análise. Segundo Lima (2004), a
liberdade temática refere-se à possibilidade
de tratamento de temas não abordados pela
imprensa cotidiana ou tratados superficialmente.
Neste sentido, Gabo aprofunda e relaciona
os sequestros de maneira única, não feita
pela a imprensa colombiana na época dos
acontecimentos, primeiramente em função
da periodicidade e segundo pois o fato ainda
desdobrava-se13 :
Escobar exigiu através de seus
advogados que a não-extradição
fosse incondicional, que os requisitos da confissão e da delação
não fossem obrigatórios, que a
cadeia fosse invulnerável e que
suas famílias e seus seguidores recebessem garantias de proteção.
Para conseguir tudo isso – com o
terrorismo em uma mão e a negociação na outra –, iniciou uma
escalada de sequestros de jornalistas para forçar o governo na
queda-de-braço. Em dois meses
haviam seqüestrado oito. Portanto,
o seqüestro de Maruja e Beatriz
13
Cf. Diana Turbay: Está em Manos De Escobar.
El Tiempo. Disponível em: www.eltiempo.com/
archivo/documento/MAM-55918. Acesso em
15 mai. 2010.
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O Jornalismo Literário em García Márquez e Vargas Llosa
parecia explicar-se como mais um
movimento daquela escala fatídica
(GARCÍA MÁRQUEZ, 1996: 2829).
Para Lima (2004), os modos de captação
dos acontecimentos é outro elemento importante para a quebra da atualidade em contemporaneidade. Desta maneira, a coleta
das informações para a composição do texto
passa pela captação de informações em “[...]
livros, matérias de imprensa, gravações em
fitas cassete, sonoras, ou audiovisuais, documentos etc. –, de entrevistas, pesquisas
de tipo sociométrico e observações” (LIMA,
2004: 87).
No caso de Notícia de um seqüestro, a
captação está centrada nos depoimentos dos
envolvidos tanto nos sequestros quanto nas
negociações, das famílias dos sequestrados
e dos narcotraficantes e do governo colombiano. Diferentemente da imprensa cotidiana e suas entrevistas pergunta-reposta,
Gabo prima pelo diálogo, havendo, inclusive, a possibilidade de classificá-lo como
entrevista calcada na história de vida14 .
Como último aspecto de análise está o
texto15 . Dentre os pontos característicos do
texto dos livros-reportagens, segundo Lima
(2004), elencou-se três: a narração, a descrição e o ponto de vista. O texto neste
subgênero do Jornalismo Literário propõe
a fuga das amarras do Jornalismo diário,
não somente informando os leitores, mas
“[...] conduzindo-os para um novo patamar
de compreensão do mundo que os rodeia e,
tanto quanto possível, de si mesmo, pelo espelho que encontra nos seus semelhantes retratados pelo relato” (LIMA, 2004: 138).
A descrição prima pela riqueza de detalhes. Trata-se da descrição particularizada
de seres, lugares, objetos etc. Esse processo aproxima os leitores dos ambientes,
dos personagens, humanizando o fato. No
caso de Notícia de um seqüestro há a descrição indireta, isto é, aquela reconstituída
com o auxílio dos envolvidos. Isto fica claro
quando García Márquez apresenta um dos
lugares escolhidos como cativeiro:
A luz dentro do quarto era tão escassa que precisaram de um momento para acostumar a vista. O
espaço não tinha mais do que
dois metros por três, com uma
única janela tapada. Sentados num
colchão de solteiro colocado no
chão, dois encapuzados como os
da casa anterior viam televisão, absortos. Tudo era lúgubre e opressivo. No canto à esquerda da porta,
sentada numa cama estreita com
cabeceira de ferro, havia uma mulher fantasmagórica com o cabelo
branco e opaco, os olhos atônitos, a pele grudada nos ossos. Ela
14
“[...] a professora Dulcília Schroeder Buitoni exerga nas histórias de vida, as entrevistas livres acompanhadas de observação participante, desenvolvidas
pelas ciências sociais, e sobretudo pela antropologia, poderoso recurso para a melhoria dos processos
de captação dos jornalistas, reconhecendo que alguns
profissionais se utilizam, de alguma forma, desse instrumental. Não há uma definição muito rigorosa, mas
“[...] uma entrevista de tipo aberto se define como
história de vida uma vez que utiliza a vivência do
entrevistado de maneira longitudinal, buscando encontrar padrões de relações humanas e percepções
individuais, além de interpretações sobre a origem
e o funcionamento dos fenômenos sociais”” (LIMA,
2004: 93 – grifo do autor).
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9
15
Sabe-se da existência de outros, como a edição;
mas estes não são objetos deste estudo.
10
André Silva
não deu sinais de haver notado
que elas entraram; não olhou, não
respirou. Nada: um cadáver não
teria parecido tão morto (GARCÍA
MÁRQUEZ, 1996: 19).
3.2
Israel Palestina: paz ou
guerra santa: a presença do
eu repórter
Fruto de um trabalho jornalístico publicado
no jornal espanhol El País16 e em outros periódicos mundo afora, Israel Palestina: paz
ou guerra santa é a compilação de oito reportagens sobre o processo de paz empreendido pelo então primeiro-ministro israelense,
Ariel Sharon, de retirar as colônias israelenses dos territórios ocupados na Faixa de
Gaza e na Cisjordânia.
Diferentemente do livro-reportagem escrito por Gabo, o qual é escrito a partir dos
depoimentos dos envolvidos nos acontecimentos, Israel e Palestina prima pela presença do jornalista em meio ao fato: “Estive
quinze dias em Israel/Palestina, entre 30 de
Agosto e 15 de Setembro de 2005, para escrever esta reportagem” (VARGAS LLOSA,
2007: 7).
Se em Notícia de um seqüestro optou-se
pela análise da liberdade temática no quesito pauta, e tendo, do mesmo modo, Israel Palestina todas as liberdades de pauta,
opta-se pela análise da liberdade de angulação. Segundo Lima (2004), esta liberdade de pauta prima pela presença do jorna16
Cf. VARGAS LLOSA, Mario. Israel /Palestina:
Paz o guerra santa. El País. Disponível em: www.
elpais.com/articulo/internacional/
Israel/Palestina/Paz/guerra/santa/
elpporint/20051008elpepuint_4/Tes.
Acesso em: 13 fev. 2010.
lista em meio ao fato e este realiza um trabalho fora dos padrões comumente estabelecidos pelos media convencionais, escapando
às formulas pré-estabelecidas:
Para minha surpresa, a primeira
vez que fui a Israel, em 1974 ou
1975, descobri que eu, apesar de
tudo, continuava a ser de esquerda.
Já há muitos anos que vinha criticando o sectarismo a obstinação
ideológica dessa esquerda hemiplégica latino-americana que condenava os ditadores se estes eram
de direita mas que os adulava e
envolvia em incenso quando se
proclamavam comunistas como Fidel Castro que defendia o populismo e se negava a aceitar que
o estadismo e o dirigismo não só
arruinavam a economia e condenavam uma sociedade à pobreza,
como também faziam proliferar
a corrupção, instalavam a censura intelectual e da imprensa, e
acabavam por eliminar até a última liberdade. [...] Mas, naquele
mês que passei em Israel, descobri
uma esquerda que carecia das taras
dogmáticas, anacrônicas e renhidas com a liberdade, da esquerda
na América latina e na Europa. [...]
Devido às características particulares da história de Israel, ali, a
esquerda, que denunciava os abusos contra os árabes e militava a
favor da paz e o abandono dos
territórios ocupados, e pela democratização do Estado israelita,
tinha conservado aquele idealismo
de liberdade e o sentido ético da
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O Jornalismo Literário em García Márquez e Vargas Llosa
política que, a mim, desde jovem,
tanto me tinham seduzido (VARGAS LLOSA, 2007: 63-64).
Vargas Llosa se coloca no texto, e ademais, expõe sua opção política de direita
e critica abertamente as esquerdas latinoamericanas e europeias. Em pouquíssimas
publicações jornalísticas mundo afora, um
jornalista teria tanta liberdade para abordar tão claramente suas opções políticas
e criticar a oposição para explicar de que
maneira determinada ideologia política age
ou deixa de agir.
Como meio de captação para romper com
a atualidade, Llosa utiliza a entrevista de
compreensão e a história de vida, como García Márquez em Notícia de um seqüestro;
mas outro modo de coleta utilizado em Israel e Palestina é a observação participante.
De acordo com Lima (2004) essa modalidade de captação surgiu com o novo jornalismo, na década de 1960, e avança com os
livros-reportagens.
Trata-se modo de captar o fato a partir da
sensação, da experiência. Tudo se resume à
presença do repórter no local onde os fatos
são suscitados. Para Lima (2004), o jornalista, assim, tenta viver o ambiente e o clima
de seus personagens. Em Israel Palestina,
Llosa narra a participação em um protesto
de palestinos e israelenses pacifistas contra a
construção de um muro para acesso à Israel:
Fui ao parque Liberty Bell Garden
de Jerusalém às onze da manhã e
ali estava a camioneta que levaria
os pacifistas israelitas até à aldeia
de Bilín para se manifestarem, em
conjunto com os palestinianos do
local, contra o muro de Sharon,
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chamado por este «a vala de proteção» e pelos seus adversários
«o muro do apartheid». [...] É
para protestar contra este estado de
coisas que os pacifistas da velha
e nova geração entraram no autocarro que deve levá-los até Bilín.
Eu sigo-os [...] Foi traçado um itinerário que evita a linha recta, com
a ingênua ilusão de escapar às barreiras militares. É inútil, porque
antes de chegarmos ao colonato
de Upper Modiin, somos interceptados por uma patrulha que nos
obriga a tomar um novo caminho.
[...] Bilín parece uma miragem
que se desvanece cada vez que nos
aproximamos. [...] Chegámos a
uma colina vizinha àquela em cuja
ladeira se espalham as casitas de
Bilín e até ali se ouve o eco dos disparos. Uns policiais à civil, irritados, avisam-nos que foi declarado
estado de sítio em Bilín e que de
forma alguma nos podemos aproximar da aldeia. Mas as pessoas
saíram do autocarro e começaram
a avançar através dos campos para
chegar a pé a Bilín, descendo e
subindo os montes. É um espetáculo bastante comovedor ver
as velhas e velhos pacifistas, ajudados por bastões e lenços amarrados
à cabeça, avançando com dificuldade, mas com convicção, por entre os montes (VARGAS LLOSA,
2007: 31; 35-37).
Do mesmo modo que a análise empreendida em Notícia de um seqüestro, para concluir o terceiro movimento da práxis jornalís-
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André Silva
tica, o texto, analisam-se as presenças da
narração, da descrição e do tipo de ponto
de vista utilizado por Vargas Llosa na composição de Israel Palestina. Ao contrário,
todavia, da abordagem feita para análise no
livro de García Márquez, utilizam-se outros
subitens do texto.
Neste sentido, Vargas Llosa descreve detalhadamente uma das pessoas com as quais
conversou ao longo dos 15 dias de estada no
Oriente Médio. Trata-se da israelense Pnina,
que perdeu a filha e a mãe no mesmo atentado terrorista.
Pnina, nascida em Jerusalém durante a guerra dos Seis Dias, em
1967, filha de um casas de judeus
religiosos lituanos com vocação de
pioneiros, sempre gostou do espanhol. Por isso, mal acabou os
seus dois anos de serviço militar,
foi para Salamanca para aprender
a língua e depois fez um viagem
pela Argentina, Brasil e Chile, ante
de regressa a Israel.[...] Pnina
fala um espanhol perfeito, com entoação colombiana, e é, com 38
anos, uma mulher muito bonita;
mas nos seus grandes olhos e rosto
muito pálido existe algo gélido, um
tristeza que parece a sua segunda
natureza. [...] era, sem dúvida,
uma criança muito bonita: caracóis
dourados, olhos verdes, sorrisos
maroto, alegria de viver. Aprendia
ballet e gostava de se mascarar de
Rato Mickey (VARGAS LLOSA,
2004: 23).
Em meio a milhares de vítimas do conflito
israelo-palestino, de ambos os lados, Vargas
Llosa, com essa descrição, propõe a humanização dos sujeitos, mostrando aos leitores
o sofrimento de pessoas, que muitas vezes,
não estão engajadas em nenhuma causa. Em
virtude da periodicidade e do próprio formato do Jornalismo diário, esta humanização é inviável. O máximo que se faz quando
ocorre algo semelhante é dizer o número
de pessoas mortas e feridas no atentado
e, quando muito, se havia crianças, idosos
e mulheres. A descrição de pessoa feita
por Llosa em Israel Palestina, de acordo
com Lima (2004), denomina-se como prosopografia.
4
Considerações Finais
Por meio da pesquisa bibliográfica sobre a
relação contemporânea do Jornalismo para
com a Literatura e vice-versa, sobretudo
dos chamados livros-reportagens; e da trajetória biográfica de Gabriel García Márquez
e Mario Vargas Llosa entre o jornalístico e
o literário é possível confirmar que ambos
escritores, a partir de aspectos característicos do Jornalismo Literário, proporcionam
uma quebra da atualidade em contemporaneidade, suscitando em Notícia de um seqüestro e Israel Palestina: paz ou guerra
santa a humanização do fato, a impregnação
de subjetividade e uma maior abertura de
sentido para a descoberta de possíveis realidades em um mesmo acontecimento.
Percebe-se assim a existência de subgêneros plurais, nos quais a ficção permeada de elementos da realidade e a realidade está impregnada de características ficcionais. Esta mistura, para Resende (2002), é
oriunda da fragmentação suscitada pela pósmodernidade. A hibridização, neste caso, é
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O Jornalismo Literário em García Márquez e Vargas Llosa
um processo presente em todos os discursos
contemporâneos.
Outro ponto fundamental da pesquisa
refere-se à quebra da agenda de notícia
dos meios de comunicação diários proporcionada pelos livros-reportagens. Em tempos de mega fusões midiáticas, em que são
formados conglomerados de comunicação e
a informação está nas mãos de menos pessoas, os livros-reportagens e seus aspectos
autorais estão na contramão desta tendência de “fabricação de consensos” e homogeneização da informação. Como mostra
Lima (2004), os livros-reportagens produzidos contemporaneamente têm como característica abordagens de temas não tratados
pelos media ou por eles tratados de maneiras
superficiais.
Desta maneira, o ímpeto libertário, característico dos livros-reportagens, propicia aos
leitores “visões multiangulares” do cotidiano; não só pela escolha do tema (da pauta),
mas pela captação ou coleta de dados mais
abrangente e, principalmente, pela escrita do
texto, a ponte entre leitores e escritores, onde
os leitores são convidados para um cotidiano mais holístico. Nesta medida, a interpretação, a explicação e a contextualização do
acontecimento é o mais importante.
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