Recensão Crítica O Trono do Altíssimo, de João Aguiar Nascido em 1943, na cidade de Lisboa, João Aguiar frequentou o curso de Filosofia e licenciou-se em Jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas. Cumpriu serviço militar durante a Guerra Colonial e, depois de desmobilizado, exerceu Jornalismo em Angola. Em 1984, editou o seu primeiro romance, A Voz dos Deuses, até hoje a sua obra mais aclamada, posteriormente traduzida para diversas línguas. Ao longo da sua carreira, João Aguiar não se dedicou somente à escrita, colaborou também com vários programas de rádio e televisão, entre eles a adaptação, para português, dos textos da série infantil Rua Sésamo. Em 1995, foi galardoado com o Prémio Eça de Queirós, na categoria de Literatura, e em 2004 distinguido pela Casa da Imprensa com o Prémio Bordalo da Literatura. A par de obras como A Voz dos Deuses e A Hora de Sertório, O Trono do Altíssimo é fruto de um vasto processo de investigação. Contudo, o autor faz uma advertência para o facto de algumas datas carecerem de exactidão. Os acontecimentos militares, políticos e religiosos da época, descritos no livro, fazem parte do cenário histórico na medida do possível, pois não era sua intenção desempenhar o papel de historiador, mas sim o de contador de uma história com fundamento Histórico. João Aguiar é de tal modo exímio em fundir a narrativa histórica com a ficcional, que cria no leitor a sensação de que estes dois universos são unos. Na primeira parte de O Trono do Altíssimo, que tem por nome Dos passos esquecidos – Livro I -, João Aguiar apresenta-nos um romance dialógico. Aqui, é-nos dado a conhecer Quintiano, personagem fictícia, que contribui para o enquadramento sócioreligioso do Império Romano, destacando a actual Península Ibérica, no século IV. Nascido no seio de uma família nobre, Quintiano Célico Frontão desde cedo iniciou a formação religiosa, tal como o pai havia prometido ao Bispo que o casara. Licenciatura em Ciências da Comunicação 09/10 Cultura Literária Ana Pereira 39300 Ana Marques 39301 André Faleiro 28205 Luís Timóteo 39 318 Ainda no Livro I, surge Prisciliano, personagem que se vai revelar determinante para o desenrolar da história. Prisciliano existiu de facto. Foi um homem que, através da pregação de ideais cristãos, tentou demonstrar que os comportamentos da Igreja da época não coincidiam com os ensinamentos de Jesus Cristo. A verdade é que a tendência era que se desse mais valor à ostentação e ao luxo em detrimento da doutrina. Por esta razão, Prisciliano foi considerado um hereje e, consequentemente, condenado à morte. No Livro II o autor reúne a correspondência trocada entre Quintiano e Restituto, entre os anos de 390 e 409. É através do discurso epistolar que o leitor fica a saber que durante os anos 384 e 385 o Império Romano viveu um período de crise já que o poder estava repartido por três Augustos, o que tornou mais fácil as perseguições aos partidários da doutrina priscilianista. Toda esta conjuntura levou à execução do seu mentor – Prisciliano – e de alguns dos seus companheiros. Deve-se ainda salientar a importância deste Livro, na medida em que consciencializa o leitor para o perigo que os seguidores de doutrinas contrárias à do Império enfrentavam. Muitas vezes, este facto fazia com que não se pudessem corresponder durante largos períodos de tempo. A voz do narrador faz-se ouvir de novo no Livro III – Dos actos e reflexões -, onde é introduzida na história uma nova personagem, Vitimer, um noviço do Mosteiro do Dume. Devido à curiosidade própria da sua idade, o jovem, enquanto desempenha as suas funções, descobre um armário com um cofre fechado à chave. Perante aquela situação, Vitimer vive um dilema: abrir a caixa e satisfazer a sua curiosidade ou resistir à tentação, respeitando as regras de boa conduta. Por fim, acaba por ceder ao seu impulso e abre o cofre. É nesta fase da narrativa que são desvendados os atentados à vida de Quintiano que ao longo da história criam no leitor um crescente suspense. O título da obra poderá ser susceptível de várias interpretações. No entanto, após a leitura é clarificada a ideia do autor: chegar ao “Trono do Altíssimo” é alcançar o patamar máximo, é a recompensa de uma vida pautada pelos ideais Cristãos, é enfrentar as provações da vida terrena para alcançar o reino dos céus. No que diz respeito às notas prévia e finais, o leitor tira partido destas para situar a história geográfica e temporalmente. Esta obra dirige-se tanto ao leitor comum como ao leitor conhecedor de temas e factos históricos intimamente relacionados com o período Licenciatura em Ciências da Comunicação 09/10 Cultura Literária Ana Pereira 39300 Ana Marques 39301 André Faleiro 28205 Luís Timóteo 39 318 em questão recorrendo a uma linguagem acessível, embora inclua alguns termos “ (...) utilizados no seu primitivo significado (pertenciam ao vocabulário da administração civil romana) ”. A literatura portuguesa carece de autores como João Aguiar, ou de mais obras que tenham a capacidade de entreter e, simultaneamente, de transmitir conhecimento. O Trono do Altíssimo é uma obra complexa que suscita no leitor uma dúvida que o deixa preso à trama envolvendo-o de tal modo que o leva a ler com um interesse cada vez maior. No nosso ponto de vista, quem lê pela primeira vez João Aguiar vê crescer em si uma vontade de ficar a conhecer algo mais da sua bibliografia. Licenciatura em Ciências da Comunicação 09/10 Cultura Literária Ana Pereira 39300 Ana Marques 39301 André Faleiro 28205 Luís Timóteo 39 318 Ficha técnica/bibliográfica Autor: João Aguiar Obra: O Trono do Altíssimo Categoria/género: Romance histórico Colecção/série: Finisterra Edição: 4.ª edição Local de edição e Editora: Porto, Edições ASA Ano de edição: 1997 Nota prévia: João Aguiar Número de páginas: 364 Licenciatura em Ciências da Comunicação 09/10 Cultura Literária Ana Pereira 39300 Ana Marques 39301 André Faleiro 28205 Luís Timóteo 39 318