1 Contos de Machado de Assis I. O Movimento Literário • Racionalismo; • Linguagem culta e direta; • Visão crítica, denúncia; • Infidelidade, adultério; • Comportamento fraco, covarde; • Volta-se para o Psicológico; • Universalismo; • Contemporâneo. II. O Autor • Em plena vigência do Romantismo, escola literária adorada pela burguesia, o autor lança Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), que não só rompe como zomba desses ideais românticos, chegando a ridicularizá-los. • Nessa ruptura, o autor substitui a fraca trama folhetinesca romântica por obras que se mostram como verdadeiras teses sobre o comportamento humano. • Enredo não segue uma ordem cronológica (de tempo em linha reta: presente-passado e futuro), antecipando a forma moderna de escrever literatura. • Os aspectos externos (tempo cronológico, espaço, paisagem) são apenas pontos de referência, sem merecerem maior destaque. • A ação, até então baseada em pequenas intrigas, namoricos adolescentes e personagens sem profundidade psicológica, é suplantada pela análise do comportamento humano e pela denúncia da hipocrisia social. • Cria um novo estilo de narrar, que se caracteriza pelas digressões: interrupções constantes, ora para conversar com o leitor, ora para divagar sobre assuntos alheios ao enredo; introduz ainda a técnica dos capítulos curtos. • O mundo interior das personagens é sondado até transparecerem seus desejos mais recônditos, muitas vezes sórdidos e mesquinhos: a condição entre parecer e ser, entre a máscara e o desejo, entre a vida pública e os impulsos escuros da vida interior, desembocando sempre na fatal capitulação do sujeito à aparência dominante. • Análise psicológica profunda das contradições humanas na criação de personagens imprevisíveis, jogando com insinuações em que se misturam a ingenuidade e a malícia, a sinceridade e a hipocrisia. • Crítica irônica das situações humanas, das relações entre as pessoas e dos padrões de comportamento: casamento, família, religião (idéias burguesas) são envenenados pelo interesse, pelas segundas intenções e pela malícia. • O ritmo pausado da narrativa é acompanhado de perto pelo fluxo da consciência do narrador e/ou de suas personagens. • Sua obra apresenta humor sutil, visão relativista de todos os valores, uma preciosa e constante ironia, e um implacável pessimismo sobre as relações humanas. • Citação de autores clássicos e da bíblia (cultura e intertextualidade). • Reflexão sobre a mesquinhez humana e a precariedade da sorte humana. • Atitude de escárnio diante do poder. • Fazem parte da criação machadiana mulheres dissimuladas, mulheres ambíguas, mulheres muito sensuais e, principalmente, astuciosas. • Não são nem um pouco frágeis como as mulheres românticas, pois Machado via a mulher como um ser dominador. • Linguagem: estilo conciso, sentenças curtas, equilíbrio entra a linguagem e o conteúdo. • Envolvimento do leitor pela oralidade da linguagem, pelas surpresas de que suas histórias (contos e romances) estão cheias e pelas “conversas” que o narrador estabelece freqüentemente com o leitor, transformando em cúmplice e participante do enredo (metalinguagem). • Microrrealismo: o menor detalhe, o menor gesto são significativos na composição psicológica • Abre as portas para a modernidade literária através de seu estilo anti-retórico, digressivo e metalingüístico. III. Diferença entre conto x romance e Temas “O romance procura representar o mundo como um todo: persegue a espinha dorsal e o conjunto da sociedade. O conto é a representação de uma pequena parte desse conjunto. Mas não de qualquer parte, e sim daquela especial de que se pode tirar algum sentido [...]” ⇒ E é um profundo sentido da flutuação dos valores éticos, da predominância de valores gastos e hipócritas, da acomodação do homem a interesses falsos, da irredutível passagem do tempo, das perdas morais, da decadência física, da presença da morte, da proximidade da loucura. Nos contos machadianos, revela-se uma sociedade habitada por seres solitários capazes de alcançar tão somente uma felicidade mesquinha. 2 A vida desenrola-se como alguma coisa que escapa ao controle dos personagens, alheia a suas vontades. A sociedade de convenções a todos esmaga e a eles impõe vidas inautênticas, vazias. Senso de observação, pessimismo, ironia, sensualidade e um inegável senso de humor com que equilibra o pessimismo Quanto à execução formal dos contos de Machado de Assis, apresenta Sônia Brayner as variantes seguintes: 1. desenvolvimento de um incidente marcante, com cronologia linear 2. análises de motivações psicológicas 3. adoção de formas literárias, com intenção filosófico-moralizante 4. análise de um caráter IV. Enredos 1. O Espelho • Narrador em 3ª pessoa. ⇒ Jacobina, protagonista, narra em 1ª pessoa. • Ambiente: Morro de Santa Tereza • Quatro ou cinco homens, numa pequena sala debatem. • Jacobina: entre 40 e 45 anos, inteligente, não discutia. • Indagado sobre o tema: natureza da alma. “ Cada criatura traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação.(...) Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência;(...)” • Jacobina conta uma história para exemplificar “Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia.” • Aos 25 anos foi nomeado alferes da Guarda Nacional. • Família chamava-lhe: Alferes. • Tia D.Marcolina, viúva do capitão Peçanha, pediu-lhe que passasse uns dias no sítio / Ganhou o espelho “ – Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala: era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o “ senhor alferes” merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocinha ajudou e completou. Imaginam, creio eu? - Não. - O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. (...)” • Após três semanas, D. Marcolina recebeu uma triste notícia: doença da filha • Jacobina ficou tomando conta do sítio “Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil.” • Escravos o chamavam de Alferes / Fuga dos escravos / Solidão total “ Tinha uma explicação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior.” • Sonhos: vestia-se de alferes e recebia elogios “ – Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois.” 3 • Vestido normalmente, resolveu vestir-se de alferes “ Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. (...) Daí em diante, fui outro. Cda dia, a uma certa hira, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir... Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.” ⇒ Alma interior: corresponde a todos os nossos sentimentos, emoções e pensamentos mais íntimos e pessoais. ⇒ Alma exterior: representaria o modo pelo qual interiorizamos a imagem que os outros fazem de nós. ⇒ Crítica aos riscos de desestruturação da personalidade que o ser humano enfrenta ao se desligar de sua existência interior. 2. A causa secreta • Este é um dos contos mais fortes de Machado de Assis. • Sua estrutura narrativa lembra um pouco a de “A Cartomante”, com início abrupto, flashback e retomada do eixo em direção ao desfecho. • Começa-se com a informação de três pessoas, uma calma (Fortunato), outra intrigada (Garcia) e ainda uma terceira, tensa (Maria Luísa). • Garcia havia visto pela primeira vez Fortunato durante a apresentação de uma peça de teatro, um “dramalhão cosido a facadas”. • Fortunato dava uma atenção especial às cenas, quase como se se deliciasse. • Vai embora justo quando a obra entra em sua 2ª parte, mais leve e alegre. • Mais tarde, Garcia volta a vê-lo quando do episódio de um esfaqueado, para o qual Fortunato dedica atenção especial durante o seu estágio crítico, tornando-se frio, indiferente quando a vítima melhora. • Fica, portanto, seduzido pelo mistério sobre a explicação, a causa secreta de um comportamento estranho. Não se deve esquecer que a postura de Garcia assemelha-se, guardadas as devidas proporções (já que não é dotado de onisciência), aos santos de “Entre Santos”, pois é dotado da capacidade de prestar atenção à personalidade humana. É, pois, quase um alter ego de Machado de Assis. • Tempos depois, passam a se encontrar constantemente no mesmo transporte, o que solidifica uma amizade. • É a oportunidade para que o homem misterioso convide o amigo para conhecer casa e esposa. • Estreitada a relação, duas conseqüências surgem daí. • A primeira é a identificação entre Garcia e Maria Luísa, mulher do amigo. • A sorte é que não se desenvolve nada mais do que isso. A segunda é a clínica que os dois homens vão abrir em sociedade. • Nela, Fortunato vai-se destacar como um médico atencioso, principalmente para os doentes que se encontram no pior estágio de sofrimento. • E para aprimorar suas técnicas, pelo menos é o que confessa à cônjuge, o personagem dedicase a dissecar animais. • Chocada com o sofrimento dos bichos, Maria Luísa pede intervenção a Garcia, que faz com que Fortunato não praticasse mais tal ato, pelo menos, ao que parece, na clínica, tão perto da esposa. • A narrativa torna-se mais crítica quando Fortunato é flagrado vingando-se de um rato que supostamente teria roído documentos importantes: de forma paciente vai cortando as patas e rabo do bicho e aproximando do fogo, com cuidado para que o animal não morresse de imediato, possibilitando, assim, o prosseguimento do castigo. ““Castiga sem raiva”, pensou o médico,”pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é os segredo desse homem.” • Maria Luísa havia pedido para Garcia interromper aquela cena, que foi a que justamente provocou o início do conto. • A partir daí, encaminhamo-nos para o desfecho. A mulher desenvolve tuberculose. É quando seu marido dedica-lhe atenção especial, extremada no momento terminal, ao qual ela não resiste. • O final do texto é crucial para a total compreensão da história. Velando o corpo fica Garcia, enquanto Fortunato dorme. • Em certa hora da noite, este acorda e vai até o local onde está a defunta. • Vê Garcia dando um beijo naquela que amou. Ia dar um segundo beijo, mas não agüentou, entregando-se às lágrimas. • Fortunato, ao invés de ficar indignado com a possibilidade de triângulo amoroso, “saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.” 4 • Descobre-se, assim, o seu caráter sádico. É interessante notar como o autor deslinda aqui um comportamento doentio que norteia ações que aos olhos da sociedade podem parecer da mais completa bondade e dedicação ao próximo. É uma temática muito comum em Machado de Assis a idéia de que a aparência opõe-se radicalmente à essência. 3. Missa do galo • Narrador 1ª pessoa “Nunca pude a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.” “A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas.” Meneses ia ao teatro uma vez por semana (eufemismo). Descrição de D. Conceição. “Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos.” “Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.” • • Nogueira que iria à Missa do Galo, lê “Os três mosqueteiros”, de Dumas Conceição acorda e travam um diálogo / Ele imagina estar incomodando “- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu... - Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?” • • Repetição de algumas conversas: “Estreito era o círculo de suas idéias (...)” Conceição muda de posição, fincando os cotovelos no mármore. “Não estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderia supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande.” • • Constantemente, Conceição pede para que fale baixo / Pausas no diálogo “Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite que me parecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima.” • Conversa sobre quadros: Cleópatra / Santos “Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos.” • Longo silêncio / Nogueira é chamado para ir à missa “Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se méis de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei de missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição.” “Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.” • O Conto mostra como desejo pode abrir brechas em situações de opressão Nada acontece objetivamente entre os dois O autor nos quer dizer que, onde nada acontece, tudo pode estar acontecendo subjetivamente. 4. A Cartomante “Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é o que o fazia por outras palavras.” • • • Visita de Rita a cartomante: gosta de alguém e tem medo Juras de amor / Camilo julga imprudente essas visitas: Vilela podia sabê-lo Rita afirma não ter perigo e que agora estava “ tranqüila e satisfeita” . 5 Camilo também recebera formação supersticiosa, mudando aos vinte anos “Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e lê não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.” • Separação dos amantes: casa dos Barbonos / Flasback “Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. O dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formos e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado.” • Vilela apresenta Camilo à esposa “Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.” • Tornaram-se íntimos / Morte da mãe de Camilo “Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.” • • • Camilo e Rita apaixonam-se: lêem os mesmos livros, idas ao teatro e visitas ao passeio público, jogam dama e xadrez Aniversário de Camilo: bengala de Vilela / Bilhete de Rita “Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas.” Tornam-se amantes. “ Adeus, escrúpulos!” Camilo recebe carta anônima / Cessam as visitas / Rita vai a cartomante “Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser de advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: - a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.” • • Vilela tornou-se sombrio / Rita avisa Camilo Passam-se os meses, Rita julga prudente que Camilo volte a freqüentar a casa Bilhete de Vilela: “ Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Camilo atende, mas passa em sua casa antes “Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil.” • • • • Rua da Guarda Velha impedida / Próximo da casa da cartomante “A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas.” • Entra na casa da cartomante “Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceir, ignorava tudo. Não obstante era indispensável muita cautela; ferviam invejas e despeitos. (...)” • Camilo paga dez mil réis: normal, era dois mil réis Chegada na casa de Vilela “ – Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma sala interior. Entrando, Camilo não pode sufocar um grito de terror: - ao fundo, sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.” • • O conto mostra a busca das personagens em ter conhecimento pleno a respeito de suas próprias situações, recorrendo ao além (superstição) Ao leitor resta a possibilidade de conviver com o não resolvido, com o fato de não poder conhecer a totalidade de algum personagem 6 5. Um apólogo • Famoso conto que narra o desentendimento entre a agulha e a linha. • A primeira vangloriava-se por ser responsável pela abertura do caminho para a segunda. • Tudo isso ocorre enquanto a costureira ia preparando o vestido de uma baronesa. • No final, com a ida da nobre para a festa, a linha joga na cara que, se a agulha abrira caminho, agora iria voltar para a caixa de costura, enquanto o fio iria no vestido freqüentar os salões da alta sociedade. • A frase final do conto, de alguém que ouvira essa história (um professor de melancolia) – “Também tenho servido de agulha a muita linha ordinária” –, é bastante sintomática. Faz lembrar um aspecto muito comum na obra machadiana que é, na busca por status, as pessoas acabarem sendo usadas e depois descartadas. • É o que ocorre, por exemplo, em Quincas Borba, na relação entre o casal Palha e Rubião. Ou mesmo em Memórias Póstumas de Brás Cubas, na conveniência do casamento entre Eulália Damasceno de Brito (linha) e Brás Cubas (agulha). Primeiras Estórias (1962) I. O Movimento Literário • O movimento representa um retrocesso em relação às conquistas de 22. • Propõe um volta ao passado, com a revalorização da rima, da métrica, do vocabulário erudito e das referências mitológicas. • Tendência para o intelectualismo. • Preocupação existencial e universalidade temática. • Consciência do caráter metalingüístico e intertextual da literatura. II. O Autor • Permanência realista do testemunho humano. • Universalização do Regionalismo; • Mundo de fantasia e realidade do sertão (místico) mineiro; • Sondagem do mundo interior de personagens com poder generalizante; • Grande preocupação em manter o enredo e o suspense; • A natureza, além de cenário, é um agente ativo, participante, diretamente ligado aos destinos do homem; • Revitalização dos recursos da expressão poética, tais como ritmo, rima, aliterações, cortes e deslocamentos de sintaxe, vocabulário insólito, erudito e arcaico, neologismos, a fim de captar e imortalizar os valores espirituais, humanos e culturais de um povo; • A lírica e a narrativa fundem-se, abolindo os limites entre ambos. “O Sertão é o mundo”-“O Sertão está em toda a parte” “As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim são minha maior aventura... Escrevendo descubro sempre um novo pedaço do infinito.” III. A Obra • Variedade de tons: lírico, sarcástico, erudito e popular. • Composto por vinte e um contos curtos. • Conforme a organização dos enredos e dos núcleos temáticos, as estórias pode ser classificadas em cinco categorias. 1. Loucura • Sorôco, sua mãe e sua filha • A benfazeja • Nada e a nossa condição • Darandina • O cavalo que bebia cerveja • Tarantão, meu patrão 2. Infância • As margens da alegria • Partida do audaz navegante • A menina de lá • Os cimos • Pirlimpsiquice 3. Violência • Famigerado • Os irmãos Dagobé 4. Fatalidade/ Misticismo • A terceira margem do rio • O espelho • Nenhum, nenhuma • Um moço muito branco 7 5. Amor • Seqüência • Luas-de-mel • Substância IV. Foco narrativo As indicações feitas a seguir são pontuadas com os algarismos que indicam a ordem de publicação de cada estória no livro. Terceira pessoa: I – “As margens da alegria”, VIII – “Nenhum, nenhuma”, II – “Famigerado”, X – “Sequência”; III – “Sorôco, sua mãe, sua filha”; XIV – “Um moço muito branco”; IV – “A menina de lá”; XIX – “Substância” e XXI – “O espelho”; V – “Os iramos Dagobé”; Primeira pessoa: VI – “A terceira margem do rio”; VII – “Pirlimpsiquice”; IX – “Fatalidade”; XI – “O espelho”; XII – “Nada e a nossa condição”; XIII – “O cavalo que bebia cerveja”; XV – “Luas-de-mel”; XVI – “Partida do audaz navegante”; XVII – “A benfazeja”; XVIII – “Darandina” XX – “Tarantão, meu patrão”. • Dessas onze estórias, apenas duas apresentam o narrador como protagonista: “O espelho” e “Pirlimpsiquice”; nas outras, o relato e feito por um espectador privilegiado, que presencia a ação e registra suas impressões a respeito do que assiste. • O narrador pode ser também uma personagem secundária da estória, com laços de parentesco ou de amizade com o protagonista. • Quanto ao emprego dos tempos verbais, nota-se que, na maior parte das estórias, o relato se faz através de uma mistura do pretérito perfeito com o pretérito imperfeito do indicativo. IV – Espaço • A maioria das estórias se passa em ambiente rural não especificado, em sítios e fazendas; algumas têm como cenário pequenos lugarejos, arraiais ou vilas. • Os ambientes são apresentados com poucos, mas precisos toques: moldura de altos morros, vastos horizontes, grandes rios, pasto extensos, escassas lavouras. • Duas estórias, no entanto – “O espelho” e “Darandina” -, transcorrem em cidades, pressupostas até como grandes centros urbanos, pelo fato de mencionarem a existência de secretarias de governo, hospício, corpo de bombeiros, jornalistas, parques de diversões, prédios de repartições públicas e outros serviços tipicamente urbanos. • Os espaços, geralmente, identificados como paisagens de Minas Gerais, transcendem o limite do local, do geográfico e têm dimensões universais. V – Personagens • Embora variem muito quanto à faixa etária e experiência de vida, as personagens se ligam por um aspecto comum: suas reações psicossociais extrapolam o limite da normalidade, da lei, da ordem e da razão. • Os protagonistas entregam-se a uma idéia fixa: o sonho, a magia, a paixão ou a intuição parece guiá-los. • O irracional transforma-se em fonte inesgotável de criação literária. • São crianças e adolescentes superdotados, santos bandidos, gurus sertanejos, vampiros e, principalmente, loucos: sete estórias apresentam personagens com este traço. VI – Linguagem → Em Primeiras Estórias, conforme a pesquisa levantada por Paulo Ronai (publicada na introdução da obra, quando esta era editada pela José Olympio) e a de Mary Lou Daniel (em João Guimarães Rosa: travessia literária), destacam-se os seguintes processos de invenção verbal: → Aglutinação de palavras: “equiparado”(=equus, em latim, cavalo+parado); “descrevivendo”(= descrever + escrever + vivendo); “beladormeceu”(= bela + adormeceu); “tutanico”(= tutano + titânico); “terrivorosos”(= terríveis + vorazes + horrorosos); “personagente”(= persona, máscara, em latim + personagem + gente); “pensamor”(= pensamento + amor); enxadachim”(= enxada + espadachim). → Palavras que permutam de classes gramaticais: “Desço em pulos passos” (substantivo usado como advérbio) “A gente pensava num logo luar” (advérbio usado como adjetivo) 8 → Ênfase através de repetição de palavra: “Infância é coisa, coisa?” “Porque eu desconheci meus Pais – eram-me tão estranhos; jamais poderia verdadeiramente conhecê-los, eu, eu?” → Permutação de tempo e modo verbais: “Nem, olhasse mais a paisagem” (olhasse, imperfeito do subjuntivo usado como presente do indicativo, conhece) → Uso do artigo definido antes de pronomes indefinidos: “as muitas pessoas”; “a alguma alegria”; “o parente nenhum” → Associação som e sentido - aliterações e assonâncias: “Miúdo, moído...”; “leigos, ledos, lépidos” “chiquetichique” → Desarticulasse ou desvios sintáticos: “A gente fica quase presos, alojados na cozinha” (silepse d número, o predicativo concorda com a idéia de plural contida, pressuposta no sujeito) → Uso do anacoluto: “Tia Liduina, que durante anos de amor tinham-na visto sorrir sobre sofrer [...]. Tia Liduina, que já fina música e imagem”. → Desdobramento de palavras através de sufixos pomposos: “furibundância”; “circunspectância”; “blasfemífero” → Palavras de efeito grandiloqüente e pedante: “Só vivo no supracitado”; “Aquele senhor provisoriamente impoluto” → Inversão de lugares-comuns ou frases feitas: “a menos não poder”; “com nrnhum titubeio”; “com cara de nenhum amigo”; “E era o impasse da mágica”; Um deu-nos-sacuda (deus-nos-acuda); prevenido para valer por quatro; “o feio está ficando coisa...” → Citação ou criação de provérbios sertanejos: “De pobre não me sujo, de rico não me emporcalho.” “Eu ponho a mesa e pago a despesa.” “Aroeira de mato virgem não alisa.” “Herói e no que dói.” “Para o pobre, os lugares são mais longe.” “Quem sou eu, quati, para cachorro me latir?” → Prosa rimada na forma de pares justapostos: “E entrou – de peito feio”; “Moço esporte de forte.” → Repetições múltiplas para provocar intensidade emocional: “... ele me pareceu vir: da parte do além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.” “Mato o Magrinho, é hoje mato e mato, mato, mato!” → Mistura de vocabulário coloquial e erudito: “Nosso homem, ignaro, escalara dela o fim, e fino. Susteve-se. [...] ao topo se encarapitava, safado, sabiá, no páramo empíreo. Paravam os de seu perséquito, não menos que eu surpresos, detidos, aqui em nível térreo, ante a infinita palmeira.” → Criação de novos substantivos abstratos: “eu já declinava para nãoezas?” (derivado do advérbio não) “De roda, na vislumbrança, o que dos vales e serros vem e o que o horizonte é – tudo em tudo.” (derivado do verbo vislumbrar = ver indistintamente, ao longe) “Mas o tucano, sem falta, tinha sua soência de sobrevir... no pintar da aurora.”(derivado do verbo soer = costumar, ter por hábito). → Flexão de palavras invariáveis: “Ah... e quase, quasinho... quasesinho, quase... Era de horrir-me o pêlo.” → Verbos formados a partir de adjetivos: “Cabisbaixara-se. Tio Man`Antônio, no dizer essas palavras...” “- `Falsa a beatinha e tu!` - Brejerinha se mal-criou.” → Abrasileiramento de palavras estrangeiras: “Eu, Reivalino Belarmino, capisquei.” (do italiano capice = compreender) “Li se ia, se fugia, o meu esmarte patrão.” (do inglês smart- astuto, esperto, sagaz, ladino) 9 VII. Enredos das Primeiras Estórias 1. As Margens da Alegria • A estória desdobra-se em cinco movimentos, que alternam ciclos de Alegria/tristeza, deslumbramento/depressão. • Rito de iniciação para a vida de um “Menino”. • 1º Movimento – viagem de avião (Brasília – planalto brasileiro) • O menino cresce intimamente, nesse aprendizado inicial dos mistérios da vida. • 2º. Movimento – chegada ao destino, amplia a relação de prazer com o mundo, propiciada pela visão exótica de um peru. • 3º. Movimento – Passeio de jipe pelo sítio do Ipê – crescimento da alegria. • Morte do peru \ O menino cai em depressão. • 4º. Movimento – visita ao lago, espaço de lazer da futura cidade. • Derrubada de uma árvore \ Ampliação da tristeza. • 5º. Movimento – visão de outro peru – atenua decepção • O peru bica “com ódio” a cabeça degolada do outro. • Chegada da noite: Libertação da angústia = visão de um vaga-lume. ⇒ Os cinco movimentos lembram as idéias platônicas sobre a ascensão espiritual, caracterizada pelo desejo de um mundo mais perfeito, por uma visão espiritualista da vida e pela fé inabalável na verdade absoluta. ⇒ A trajetória de ascensão do menino lembra a noção de harmonia entre os contrários: escuridão e luz, desilusão e alegria, morte e vida, etc. “O menino não entendia. A mata, as mais negras árvores, era um montão demais; o mundo. Para o menino, o mundo parece estar mergulhado em uma profunda e indecifrável escuridão.” 2. Famigerado • Damázio dos Siqueiras chega a um arraial, dirigindo-se a farmácia. • Procura o médico dizendo que “viajara seis léguas, expresso direto pra mor lhe preguntar a pregunta: o que significava “faz-migerado ... faz-me-gerado ... falmisgerado ... familhasgerado?”. • Resposta do médico: importante • Partida de Damázio • Narrativa de caráter metalingüístico. • Representa o processo de revitalização de linguagem, trabalhando na desconstrução de um significado cristalizado e na exploração das potencialidades do signo. • Desmascaramento do cunho ideológico da linguagem. 3. Sorôco, Sua mãe, Sua filha • Sorôco leva a mãe e a filha para a estação de trem, onde seriam embarcados para Barbacena. • A população acompanha o triste acontecimento • Canto da moça e da velha “(...) a filha moça levanta os braços e entoa uma cantiga que não vigorava certa, nem no tom nem no dizer das palavras. (...) punha os olhos no alto, que nem os santos e espantados (...)” • Embarque das mulheres \ Canto de Sorôco “(...) todos, de uma vez de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão (...) A gente, com ele, Íé: Úionde ia aquela cantiga.” • O canto de Sorôco possui o dom de sensibilizar, multiplicando o efeito da compaixão (mito de Orhpeu-flauta) • Retorna o mito bíblico de Jó, símbolo da paciência e do despojamento. • Questiona os limites entre a razão e a loucura. 4. A menina de lá • “Temor de Deus”, localizado atrás da “Serra de Mirim” vivia a menina Nhinhinha, com seu pai, sua mãe e a Tiantônia. • O traço estranho da menina residia na linguagem: dizia palavras ininteligíveis e cultivava o gosto de contar histórias: “(...) da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de meninas e meninos sentados a uma mesa de doces; (...) ou da precisão de se fazer lista das coisas boas todas que no dia por dia a gente vem perdendo.” • A menina começa a fazer milagres. • Nhinhinha anuncia sua própria morte: “Vou visitar eles...” • A menina representa aquele que usa a palavra como matéria – prima para criar. • Personagem alegórica, que simboliza o lirismo puro da mágica inocência infantil. 10 5. Os irmãos Dagobé • Velório de Damastor, o mais velho dos irmãos, que foi morto por um bom rapaz chamado Liojorge. • Descrição dos irmãos: “(...) gente que não prestava. Viviam em estreita desunião, sem mulher nem lar, sem mais parentes, sob a chefia despótica do recém-finado. Este fora o grande pior, o cabeça (...) • Expectativa de vingança \ Visita de Lijorge. • Caminhada do enterro - Anticlímax “- Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso irmão é que era um diabo de danado...” • O impacto da morte de Damastor desperta nos irmãos a reflexão do que tinham sido até então e da tentativa de resgatar sua urbanidade. ( Evolução Espiritual) 6. A terceira margem do rio “Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais um coisa de nossos grandes rios: a eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar a eternidade.” • A estória (1ª. Primeira pessoa singular) envolve uma família: o pai, a mãe, três filhos • O pai resolve morar em uma canoa \ A mulher reage: “Cê vai, ocê fica, você nunca volte!” • O pai não retoma mais “Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo agente.” • Análise do desenho: → Flecha – sagitário. Simboliza o pensamento criador, de natureza divina. Traz a idéia de ultrapassagem das condições nonnais da existência (Bus!” a da individualidade) → Libra , indica equilíbrio (harmonizar conflitos) → Canoa – decisão do pai parece ser a de aluem que procura alcançar um novo estágio de percepção. Seria o retomo do homem de Deus. → 00 – em linguagem matemática, simboliza o infinito, “o lado de lá”. Também é o símbolo do princípio básico do espiritualismo Kardecista. “Nosso pai nunca se surgia a tomar a terra, em ponto nem canto, da forma como cursava no rio, solto solitariamente.” ⇒ A terceira margem, por não ser possível no mundo lógico, pode significar o elemento transcendente à matéria ou às leis da física. Para a literatura, serve para conduzir o leitor para o plano do fantástico e dar visibilidade ao pensamento. ⇒ A gradação “Cê vai, ocê fique, você nunca volte” é possível ler visualmente tanto o afastamento do pai como o crescimento da mágoa e da raiva da mãe. 7. Pirlimpsiquice • “Pirlim” – nome de um pó mágico usado por Emília • “Psiquice” – “psique” – relaciona-se com a “alma, mente, espírito”. • Grupo de alunos é escolhido para ensaiar “Os filhos do Doutor famoso”, sob a coordenação do Dr. Perdigão. • Pacto entre amigos que inventam outra estória para despistar os colegas que não foram escolhidos para o teatrinho por serem “Mal-comportados incorrigíveis”. “Representar é aprender a viver além dos levianos sentimentos, na verdade dignidade” • Espetáculo \ Ausência do protagonista \ Fala do Zé Boné (Gamboa) “(...) Cada um de nós se esquecera de seu mesmo, e estávamos transvivendo, (...) disto: que era o verdadeiro viver? (...) Depois, no outro dia, eu são e glorioso, no recreio, então o Gamboa veio, falou assim: - Eh, eh, hem? Viu como era que a minha estória também era a de verdade? Pulou-se, ferramos fera briga” • Questionamento a respeito da própria concepção de literatura. • Reflexões acerca do que é ou não original e a possibilidade permanente de inventar e reinventar histórias. 11 8. Nenhum, nenhuma • Trata-se de uma história, contada por um único sujeito, um homem adulto que volta, através da memória, para o seu tempo de menino. • Dois Procedimentos: → ato de contar a história (cenário, personagem) → ato de registrar o trabalho de sua memória que se esforça para resgatar o passado nebuloso, distante. • Dois procedimentos – não são opositivos – fornecem os nexos lógicos do conto. • Conta com certo grau de consciência e lucidez, ora fala da necessidade de lembrar daquilo que ficou perdido na memória. • Personagens / enredo “(...) uma pessoa só uma só vida fossem: ele, a moça, o moço, o homem velho e a Nenha, velhinha.” • Alusão à diferentes fases da existência • Retomo à casa e diz para os pais: - “Vocês não sabem de nada, de nada, ouviram? Vocês já se esqueceram de tudo o que um dia sabiam!” • Reafirmação da idéia de uma criança sábia • Título: “Nenhum, Nenhuma” – nenh (latim-ingênul): questionamento sobre a ingenuidade que geralmente é atribuída à infância e à velhice. 9, Fatalidade • Narrador – observador (3ª. Pessoa singular) • Episódio que envolve o delegado de polícia (meu amigo), um lavrador (Zé Centeralfe) e um valentão desordeiro Herculinão Socó. • Perseguição e morte. “Seguimo-lo. Ele ia, e muito. Tinha-se de dobrar o passo. E – de repente e súbito – precipitou-se a ocasião: lá vinha, fatalmente, o outro, O Herculinão, descompassante. Meu amigo soprou um semi-espirro, canino, conforme seu vezo e uso, em essas, em cheirando a pólvoras. E ... foi: fogo, com rapidez angélica: e o falecido Hercuilnão, traduz, já com algo entre os próprios e infra-humanos olhos, lá nele – tapando o olho-da-rua. Não há como o curso de uma bala; e – como és bela e fugaz, vida!” • Vigorosa crítica ao uso da força, do arbítrio por parte daqueles que atuam em nome da lei. “A vida de um ser humano, entre os outros seres humanos, é impossível. O que vemos, é apenas milagre: salvo melhor raciocínio.” 10. Seqüência • Fuga de uma vaquinha vermelha da fazenda da Pedra, de “Seo Rigério”, em busca de sua antiga morada: a fazenda do Pandalhão (Major Quitério) • Em seqüência viajam: o narrador, a vaquinha, o moço e seu cavalo e o leitor. • Atravessam morros, fazendo, brejos, colinas, etc. – a vaca é portadora de sabedoria. • Chegada a fazenda de seu Quitério. “O rapaz e a vaca se entravam pela porteira-mestra dos currais. O rapaz desapeava. Sob o estúrdio atontamento, começou a subir a escada. Tanto tinha de explicar. Tanto ele era o bem-chegado! A uma roda de pessoas. Às quatro moças da casa. A uma delas a Segunda! Era alta, alva, amável. Ela se desescondia dele. Inesperavam-se. O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecimento. Da vaca, ele a ela diria: “É sua!” Suas duas almas se transformavam (...) Amavam-se. E a vaca-vitória, em seus ondes, por seus passos.” • Vitoriosa, a vaquinha une a moça e o moço, simbolizando o amor (presente). • Também simboliza a força bruta e primitiva do universo, o instinto, a coragem, o vigor dos movimentos e energia necessária para vencer os desafios de qualquer travessia ou viagem. 11. O espelho • Marca o meio do livro, dividindo-o em dois grupos de narrativas • Jogo de espelhos (recursos gráficos): → tipo normal – registra acontecimentos → tipo itálico – espaço para as digressões e reflexões. • Relação entre a personagem e o leitor: narrador não se identifica nominalmente e o leitor é chamado de “Senhor” 12 • Desafio para o leitor: participar de uma experiência insólita: acompanhar o narrador numa devassa de SUA alma. • Banheiro público: “descoberta do eu por detrás de mim” “Num lavatório de edifício público por acaso. Era moço, comigo contente, vaidoso. Descuidado, avistei... Explico-lhe: dois espelhos – um de parede, o outro de porta lateral, aberta, aberta em ângulo propício – faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi um figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, casava-me ódio e susto, eriçamento, espavoro e era – logo descobri ... era eu mesmo – O senhor acha que algum dia ia esquecer essa revelação?” • Metáfora: a alma divide-se em duas faces: a inferior, voltada para o corpo, e a superior, voltada para a inteligência. • Após uma fase de “sofrimentos grandes”, o narrador novamente se vê no espelho e depois desafia o leitor: “Você chegou a existir?” 12. Nada e nossa condição • Mais uma história em que Guimarães Rosa explica o tênue limite que se estabelece entre sanidade mental e demência. • “Tio Man’Antônio”, fazendeiro, rico e bondoso, após a morte da esposa, “Tia Liduína”, torna-se uma pessoa ainda mais estranha do que já era. • Festa para comemorar o aniversário da falecida. • Distribuição da sua fortuna e suas terras aos empregados. • Pedido expresso em documento: incendiasse a casa com o corpo dele dentro. • Esta estória restaura elementos da fábula tradicional. • Final do tio Man’Antônio é bíblico e se constitui no despojamento total. 13. O cavalo que bebia cerveja • Geovânio, italiano, morava numa chácara. • Reivalino Belarmino o odiava, apesar de ser funcionário e ter sido ajudado por ele, na doença e morte da mãe. • A casa é um mistério: toda fechada. • Seo Priscílio, delegado, e os funcionários do Consulado decidem entrar na casa duas vezes, contando com a mediação do narrador-protagonista. • Cavalo branco empalhado e o corpo de seu irmão Josepe. • Reivalino vai embora: leva o cão Mussulino e o cavalo bebedor • Tornam-se amigos : bebem cerveja. ⇒ O conto trata da mudança de mentalidade do empregado em relação ao patrão: rejeita o estranho e passa a aceitá-lo. 14. Um moço muito branco • Visita de um sujeito de aparência excêntrica e poderes sobrenaturais na região do Serro Frio, MG. • Foi na fazenda de Hilário Cortes, homem cordial e religioso. • Os negócios de seu anfitrião prosperam. • Um cego ganha uma semente e vê nascer um pé de flor azulado. • Viviana, constantemente triste, passa a ter o Dom da alegria. • Duarte Dias, indivíduo ambicioso, torna-se um homem generoso e bom. • Branco – cor da transpiração, reveladora da graça transcendente. • Mistura de O.Y.N.I. com religião – espiritualismo ocultista. 15. Luas-de-mel • Joaquim Norberto, um velho fazendeiro, hospeda um jovem casal que decidira fugir porque o pai da donzela, o Major Dioclécio, não apreciava o rapaz. • Casamento – proteção dos capatazes de Joaquim e de fazendeiros vizinhos • Seo Seotaziano \ Pluralidade dos títulos: • O casal se retira para o quarto • Joaquim olha, todo feliz, para a esposa: “Fogo de amor, verbigrácia. Mão na mão, eu lhe dizendo-na outra, o rifle empunhado: - Vamos dormir abraçados...” • Aparece na fazenda o irmão da noiva, avisando que o pai mudara de idéia. ⇒ O conto trata da exploração de EROS, deus do amor... • Outro aspecto: amizade. 13 16. Partida da Audaz Navegante • Três irmãs: “Pele, a mais velha, é diligentil e beatinha. Ciganinha, a do meio, vive e estado de graça, embalada pelo namoro com o primo Brejeirinha, a caçula, menina levada e espertíssima.” • Primo Zito – viera passar férias • Brejeirinha, imaginosa, inventa uma estória dobre um “audaz navegante” • Cessa a chuva \ Brincadeira no riachinho cheio. • Bosta de vaca com cogumelo (grande abstração) é transformada em Audaz. • Acrescenta ao cogumelo “florinhas amarelas (...) folhas de bambu, raminho e gravetos (...)” “Zito põe uma moeda. Ciganinha, um grampo. Pele, um chicle. Brejeirinha, um cuspinho.” • Uma estória dentro de outra estória: uma menina com uma extraordinária capacidade de livre associação de idéias/imagens e de brincar com as palavras (surrealismo) • A metamorfose da bosta da vaca é uma audácia, pois transformar um material tão apoético em fonte que faz jorrar a beleza. “As crianças precisavam de ter: coragem com juízo.” 17. A benfazeja • A trama volta-se para o misterioso e o sobrenatural. • BENFAZEJA – aquela que pratica o bem. • Mula Marmela parece ter vindo ao mundo para purificá-lo • Assassinato de Mumbungo, um sujeito que se excita com o sangue de suas vítimas. • Cegueira de Retrupé, com o intuito de refrear a atuação pervertida do rapaz. • Morte de Retrupé. • Mumbungo e Retrupé estão no estágio de caverna (Platão) • A comunidade não a compreende, porque não estava preparada, era incapaz de reconhecer a atitudes de uma pessoa iluminada. 18. Darandina • O conto tematiza a loucura • O narrador, irônico e mordaz, é um médico-residente que faz plantão no Instituto • Um sujeito vem vestido, acusado de roubar uma caneta, é perseguido por pessoas. • Sobe no alto de uma palmeira-real • Hipótese de ser o “Secretário das Finanças Públicas”: engano • Chegada: Diretor do Instituto, polícia, corpo de bombeiros, o capelão, os enfermeiros, etc. • Desnudamento do Homem \ Vergonha \ Povo resolve linchá-lo • Descida da palmeira: “Viva a luta! Viva a liberdade!” • Reverte a opinião pública: ao chegar ao chão. O homem “nu, adão, nado, psiquiartista” foi colocado nos braços do poço e carregados em passeata. • Estudo de Psicologia social: o autor comenta, ironicamente, o comportamento coletivo, lançando as seguintes indagações: → Quem é mais louco? O homem ou o povo, que transforma aquilo num espetáculo e muda de opinião com espantosa facilidade? → Ou seriam as impotentes autoridades? → Ou os médicos, que se refugiam no biombo do jargão psiquiatrês? → O autor responde, sugerindo nas entrelinhas, que a saída está na descoberta pessoal. 19. Substância • História de amor: fazendeiro Sionésio e sua empregada Maria Exita • Ela, abandonada pela mãe “leviana, desaparecida de casa”, pelos irmãos perversos e pelo pai “razoável bom homem”, porém leproso, fora recolhida pela velha Nhatiaga • Sionésio, homem trabalhador, propõe-lhe casamento • A história concebe o amor como um alimento, uma matéria essencial para o sustento da vida. • Referência à alvura do polvilho e a dificuldade de extraí-la metaforizam o processo de depuração a que se deve submeter o sentimento amoroso para fortalecê-la. 14 20. Tarantão, meu patrão • João Dosmeupés Felizardo é o verdadeiro nobre de Vaga-Lume, narrador-personagem da história, incumbido de cuidar de “um senhor de tanta idade, já sem o escasso juízo na cabeça” • João-de-Barros-Diniz-Robertes resolve ir para a cidade matar o Magrinho, seu sobrinho-neto, que era médico. • O velho, que estava tomado pelo Diabo, vai arrebanhando um exército por onde passa: “VagaLume, Dosmeuspés, o Sem-Medo, Curucutu, Felpudo, Cheira-Céu, Jiló, Pé-de-Moleque, BarrigaCheia, Corta-Pau, Raspa-Pé, o Bobo, o Gorro-Pintado, e o sem-nome nosso amigo.” • Chegada na cidade: batizado da filha do Doutor Magrinho • Discurso emocionado do velho \ Morte na fazenda • O velho encarna, nesse sentido, o papel daquele que ganha o mundo para pelejar o esmo • Representa os descaminhos da loucura, a proximidade da morte. 21. Os Cimos • Reaparece o Menino do conto “As Margens da Alegria” • Tomado pelo intenso sofrimento pelo fato de sua mãe se achar enferma e distante, o menino amadurece, resistir a insegurança é a descoberta de um tucano, que vinha todas as manhãs em uma árvore próxima: Tucaneira. • Unificam-se na imagem desse pássaro, o sol, o dia e a luz, tudo para constituir energia necessária para diferenciar as coisas boas das más. • A criança percebe que os opostos constituem uma unidade, uma totalidade ⇒ A narrativa-poema procura preparar o espírito do leitor para voltar à vida real: Beleza Absoluta. Poesia Marginal – Introdução I. De Marginal a Herói O emprego e a aceitação da expressão “Poesia Marginal” para se definir parte de uma produção literária dos anos 70 sempre foi algo polêmico, tendo em vista a abrangência de autores, de posturas e de motivos para se classificar como “marginal” determinado artista ou certa obra. De qualquer forma, o termo foi cunhado e consagrado, apesar de tantas considerações, exceções ou contestações. Os estudiosos do assunto, assim como os próprios poetas em seus depoimentos, apontam alguns caminhos que explicariam a condição de “marginalidade” de uma produção dos anos 70. Vejamos alguns. 1. Uma das acepções de “marginal” está vinculada à postura ideológica e transgressora dos autores no plano cultural, principalmente em relação a uma atitude mais livre, praticada por uma “sociedade alternativa”, que quebrava com os tabus e os valores da sociedade convencional e moralizante. Essa postura libertadora, tanto no aspecto literário, quanto no sexual, no corporal, nas relações com as drogas, no trânsito entre as culturas (principalmente a oriental), foi denominada de Movimento da Contracultura. Mas antes mesmo dos anos 70, a Contracultura já se anunciava nos anos 50 em todo o mundo com a produção underground (que nos Estados Unidos foi representada pela beat generation), e nos anos 60 com o movimento hippie, que desencadeou mais ainda o apreço por uma postura literária que fez a juventude dos anos 70 “transar” outros valores e viver “sem lenço e sem documento”, numa típica postura do “desbunde”. “Os desbundados” seriam esses autores “marginais” que produziam uma poética do “descompromisso”, do “gozo”, da “libertação”, poesia essa que se encontrava não apenas no papel, mas no modo de viver e no próprio corpo. Portanto, contra o clima de sufoco gerado na época, principalmente no caso do Brasil, pela política ditatorial, os poetas apontavam como solução o caminho da “marginalidade” estética, utilizando o humor e o prazer para driblar a realidade opressora e moralista. • O poema “Rápido e rasteiro”, de Chacal, exemplifica bem essa postura “marginal” do “desbunde”, pois como bem salientou Carlos Alberto Pereira, na obra de Chacal “quem dignifica o homem não é o trabalho, mas o lazer”: “vai ter uma festa que eu vou dançar até o sapato pedir pra parar. aí eu paro, tiro o sapato e danço o resto da vida” 2. Outro aspecto de julgamento de “marginalidade” em relação aos autores da época é não só a ideologia da libertação, mas a sua expressão por meio de uma linguagem libertária. Os poetas dos anos 70 não tinham um projeto estético, nem mesmo faziam política literária, apenas viviam a poesia, “libertamente”, o que justifica a presença dos versos livres, da linguagem coloquial, das palavras em minúsculas quando gramaticalmente deveriam ser grafadas em maiúsculas, de uma transgressão em relação às regras de concordância e de regência, além da própria libertação gráfica do texto – da conciliação entre a linguagem verbal e não-verbal -, assim como a rasura entre os textos narrativos e poéticos. 15 Como exemplo dessa “marginalidade” gráfica e lingüística, que permite à poesia se apropriar de diferentes gêneros literários como a fábula, a filosofia e os quadrinhos, conciliando o verbal e o visual, merece destaque o trabalho de Carlos Saldanha (Zuca Sardam), um dos autores incluídos em 26 poetas hoje, obra com organização de Heloísa Buarque de Holanda: O Binóculo - Carlos Saldanha “Abaixando o copázio / Empunhando o espadim Levantando o corpanzil / Indiferente ao poviléu O homenzarrão abriu a bocarra / fitando admirado a naviarra do capitorra” • Toda essa liberdade estética e lingüística, associada ao fato de os livros serem publicados em folhetos mimeografados, fez com que essa produção fosse classificada de “lixeratura” pelo professor Affonso Romano de S’antanna, o que evidencia o preconceito e a resistência de uma crítica literária que não compreendia a vitalidade e a relevância daquele movimento poético criado longe do universo acadêmico e das posturas “potilizantes” da época. 3. Como se não bastasse a linguagem e a postura ideológica, os poetas dos anos 70 negavam uma filiação intelectual, um programa estético coerente, um apego aos cânones literários. Isso os deixava também “marginais” em relação ao saber erudito, à tradição formal. As referências e fontes de seus trabalhos estavam na música popular, nos provérbios, nos quadrinhos e na cultura de massa. A ausência de “paradigmas” literários propiciava a criação de um grupo avesso à escolas literárias, a enquadramentos formais, a qualquer tipo de vínculo programático, a citações retóricas que quisessem demonstrar erudição. Assim, os marginais promoveram um processo de “desliteratização” da escrita, de desmistificação dos clássicos, que muitas vezes são retomados apenas de forma anedótica e humorística, como exemplifica o fragmento a seguir de Isabel Câmara: “Ninguém me ama ninguém me quer ninguém me chama de Baudelaire” 4. Outra “condição de marginalidade” apontada pelos críticos é de ordem social: “marginal” é aquele que vive à margem do mundo político, exilado no próprio país (isso quando não é obrigado a deixálo), é alguém que passa pela experiência do sufoco implantado com o golpe militar. Principalmente depois de 68, a condição insustentável da intelectualidade brasileira e de vários poetas traduz essa postura de um grupo “marginal” em relação ao discurso ufanista e à crença de que os anos da ditadura propiciariam o verdadeiro “milagre brasileiro”. Os poetas marginais ironizavam a “estabilidade” e o “desenvolvimento tecnológico” da nação, pois tinham conhecimento das conseqüências e seqüelas desse processo: perseguições, torturas, exílios, assassinatos, censura e entreguismo ao capital estrangeiro. O poema seguinte, de Charles, por meio de uma linguagem metafórica, ilustra bem o clima pesado e o ambiente de sufoco vivenciado por todos: Colapso Concreto “vivo agora uma agonia: quando ando nas calçadas de copacabana penso sempre que vai cair um torço na minha cabeça” 5. Mas tanto os teóricos literários quanto aos próprios poetas do período reconhecem como o principal argumento utilizado para se definir o movimento marginal da década de 70 está relacionado à produção e à veiculação dos textos. “Marginal” era, portanto, estar à margem do mercado: não ter acesso às grandes editoras, não ter os livros expostos nas livrarias de todo país, não ter nenhum tipo de apoio ou patrocínio institucional. Diante disso, os autores buscaram modos alternativos de confeccionar e vender seus “livros”, que estavam mais próximos da condição de “folhetos” – pois eram feitos de modo precário, como um formato de cordel, confeccionados de modo artesanal em um papel barato no qual o texto era mimeografado, daí o nome também de geração-mimeógrafo para o grupo. Mas se por um lado havia a ausência de um apoio governamental ou de uma editora que bancasse o livro, por outro, isso possibilitava ao autor uma extrema liberdade, uma publicação sem qualquer censura, sem qualquer “controle” de ordem política ou moralizante. Sendo assim, por trás de uma aparente pobreza dos livros-folhetos realizados nos anos 70, há toda uma construção estética livre que quaisquer amarras. Além disso, os autores tiveram que providenciar também a divulgação de suas obras, por meio de eventos que eles denominavam de “artimanhas”: encontros festivos, como declamação de poesia, música, performances, etc. Todo esse clima eufórico e criativo para a venda dos livros deixava o autor cara-a-cara com o público. Desse modo, o leitor passou a ter contato, simultaneamente, com a obra poética e com o próprio poeta. Assim, de marginal, o autor se transformava em “herói” do cotidiano, em alguém que bancava não só os seus livros, mas bancava uma postura de não se enquadrar em grupos literários coercitivos, em um universo editorial impositivo e “careta”. 16 A teus pés, de Ana Cristina César ⇒ A Teus Pés, de 1982, é o último livro de Ana Cristina César, e único publicado por editora, reúne os três livros anteriores de edição independente: Luvas de Pelica, Correspondência Completa e Cenas de Abril. ⇒ Retrata com dor e elegância as vivências urbanas e as impressões cotidianas de uma poeta ao mesmo tempo densa e delicada. ⇒ Nesta obra, além de utilizar formas que nos remetem a escritas “íntimas”, a autora ousa mais, fragmenta mais, como se fizesse uma verdadeira colagem cifrada de frases vindas de diversos lugares. ⇒ O que se tem no fim são textos aparentemente desconexos, cheios de saltos, de versos que parecem não se encaixar. ⇒ E muita coisa ainda com cara de diário, de correspondência. ⇒ Resultado: a impressão de que há segredos escondidos nas entrelinhas, símbolos a serem decifrados, silêncios que suspendem o entendimento e aguçam a curiosidade: o que ela está querendo dizer? ⇒ Entretanto, parece não ser bem essa a pergunta a ser feita. ⇒ Segundo Ana Cristina, não se trata de fazer uma literatura de entrelinhas. ⇒ Esses vazios, saltos, silêncios, espaços em branco seriam o que ela define como o “não-dito” do texto literário, algo que difere bastante do que usualmente se entende por “entrelinha”. Acompanhemos Ana Cristina: “A entrelinha quer dizer: tem aqui escrito uma coisa, tem aqui escrito outra, e o autor está insinuando uma terceira. Não tem insinuação nenhuma, não. (...) Eu acho que, no meu texto e acho que em poesia, em geral, não existe entrelinha. (...) Existe a linha mesmo, o verso mesmo. O que é uma entrelinha? Você está buscando o quê? O que não está ali?”.(16) ⇒ Deve-se destacar que, na “poesia marginal” dos anos 70, a autora atualiza dois gêneros usualmente considerados literatura menor: a carta e o diário. ⇒ Resgata, dessa forma, não só o coloquialismo da linguagem, mas também a profunda interação entre o sujeito lírico e seu leitor implícito. ⇒ Tal preocupação pode ser observada nesta obra. ⇒ A forma de dizer desdizendo, que é, em última instância, uma forma de manipular a linguagem, nos chama a atenção nos textos de Ana Cristina, como neste que abre A teus pés: “Trilha sonora ao fundo (...) Agora silêncio (...) Eu tenho uma idéia. Eu não tenho a menor idéia. (...) Muito sentimental. Agora pouco sentimental. (...) Esta é a minha vida. Atravessa a ponte.” (CESAR, 1998a, p.35) ⇒ Misto de poesia e prosa, um primeiro olhar sobre os textos presentes nesta obra já indica ao leitor que este não está diante de produções que pretendam se ater aos procedimentos da lírica tradicional. ⇒ Pelo contrário, os textos objetivam redimensionar a produção poética por meio da desconstrução e da reconstrução do cotidiano – transfigurado em literatura – e das formas tradicionais da poesia – pulverizadas em textos que recriam gêneros literários, como já citado. ⇒ Na poesia de Ana Cristina César, a tentativa de apreender a fragmentação do sujeito lírico por meio de instantâneos do cotidiano se apresenta como mecanismo de criação de uma grande proximidade entre autora e leitor, uma vez que tenta inserir este último em uma atmosfera de intimidade, a partir da apresentação de acontecimentos que supostamente têm relação direta com a vida daquela que escreve. ⇒ A exposição do eu não se dá apenas em termos de emoções, sentimentos ou aspirações pessoais, mas constitui procedimento para a escrita literária, em poemas nos quais, reflexivamente, problematiza-se a própria inserção de aspectos pessoais na poesia. ⇒ Inserida em seu contexto, a autora também se vê às voltas com a problemática do texto confessional, da autobiografia inscrita nos limites entre a confissão e a literatura”, e faz dos acontecimentos cotidianos e corriqueiros sua principal matéria poética, seu principal ponto de partida para a compreensão da existência e da própria poesia. ⇒ Outro poema da obra: 17 Casablanca “Te acalma, minha loucura! Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados! Este som de serra de afiar facas não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardías... Estas molas a gemer no quarto ao lado Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema... As chaminés espumam pros meus olhos As hélices do adeus despertam pros meus olhos Os tamancos e os sinos me acordam depressa na madrugada feita de binóculos de gávea e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano.” ⇒ A Poesia Marginal valorizava as temáticas chocantes e agressivas, com o intuito de que elas passassem a serem consideradas normais e triviais pela sociedade, livre de preconceitos. • Se a estrutura dos poemas-diários de Ana Cristina tornou-se um mecanismo para essas revelações de caráter particular, para essas temáticas extremamente pessoais, por outro lado, esse pessoal se amplia, já que pertence a todo universo feminino de leitoras que antes não tinham, tais temas de caráter íntimo tornados públicos. • Com isso, as leitoras tornam-se cúmplices desses relatos sobre algo que aparentemente é trivial e insignificante para uma ótica masculina, mas que para elas é de extrema relevância. • Nesse aspecto, o banal é elevado à categoria de essencial, pois é a síntese de uma realidade perpassada por preocupações do universo feminino: a saúde dos órgãos sexuais, a falta de compreensão dos homens, os desejos reprimidos, a vida sufocada pelos valores patriarcais. • Desse modo, as leitoras se vêem nos textos ao passo que os homens começam a tomar conhecimento e a compreender melhor o universo das mulheres. • Nos textos de Cristina as lacunas são muitas e o interdito diz mais que o dito, como exemplifica o fragmento do poema “Simulacro de uma solidão (28 de agosto)”: “Dia de festa e temporal. Aniversário da Tatiana. Abrimos os armários de par em par. Não sei por que mas sempre que se comemora alguma coisa titio fica tão apoplético. Acho que secretamente ele quer que eu...(Não devia estar escrevendo isto aqui. Podem apanhar o caderno e descobrir tudo.)” • O fragmento anterior é constituído mais por um não-dizer. O leitor-espião sedento por tudo enxergar e ouvir, é barrado por reticências e vocábulos completamente vagos como: coisa, isto e tudo. • Portanto, nos textos de Ana Cristina, o que era proibido continua proibido, interditado, mesmo porque, em vários momentos de seus poemas, aparece sempre uma voz salientando que ela tem consciência de que o diário que escreve pode ser lido, achado, violado e desvendado. • Essa consciência faz com que, por meio de reflexões metalingüísticas, o eu - lírico confesse a sua condição de observado, reconheça como seu diário é uma vitrine, o que faz com que ele se comunique com o interno e o externo, se faça íntimo e público. • Como vitrine o texto mostra e esconde, exibe e protege, diz e oculta informações sobre uma voz poética que, conscientemente, sabe que deve se exibir e se proteger: “Jornal íntimo – 27 de Junho (...)Binder diz que o diário é um artifício, que não sou sincera, porque desejo secretamente que o leiam...” 28 de Junho “Cantei e dancei na chuva. Tivemos uma briga. Binder se recusava a alimentar os corvos. Voltou a mexericar o diário. Escreveu algumas palavras. Recurso mofado e bolorento. Me chama de vadia para baixo. Me levanto com dignidade, subo na pia, faço um escândalo, entupo o ralo com fatias de goiabada.” Créditos: Annita Costa Malufe, doutoranda da IEL-Unicamp | Anélia Montechiari Pietrani, Periódicos UFSC | Luciana Borges, Professora Assistente de Literatura Brasileira na UFG, doutoranda em Estudos Literários pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da UFG. 18 Observação Final: Importante ressaltar que os resumos acima não têm a intenção (ou pretensão) de resolver as possíveis questões acerca das obras. Eles apenas servem de referência para localizar as obras em seus contextos literários. Nada substitui a leitura integral das obras. Peço-lhes desculpas por não ter conseguido, apesar do esforço, terminar os resumos. Ficou faltando o de Paulo Leminsky, o que de certa maneira, em alguns aspectos, se aproxima da obra de Ana Cristina. Abaixo coloquei dois links que poderão dar uma noção das características da obra do citado autor. Boa prova!!!! Qualquer dúvida, escreva-me: [email protected] http://www.coladaweb.com/resumos/distraidos-venceremos-paulo-leminski http://www.solrebuzzi.com/entrevistas6hojeemdia.htm