_____Psicologia &m foco Vol. 1 (1). Jul./Dez 2008 Um encontro com Tanatos: Anotações sobre a morte e o sobrenatural na Obra “Incidente em Antares” de Érico Veríssimo* _________________________________________________________ Leconte de Lisle Coelho Junior1 Universidade Federal do Espírito Santo Resumo: Este estudo de cunho teórico busca explorar à luz da psicologia analítica, o desenvolvimento da temática da morte e sobrenaturalidade em um texto clássico da literatura brasileira: Incidente em Antares de Érico Veríssimo. A morte comumente é vista como algo ruim que deva ser afastada e até mesmo enganada na literatura brasileira. Examinam-se ainda de maneira geral os aspectos psicológicos envolvidos nas personagens desta obra, concernentes à morte e ao mundo do sobrenatural. Conclui-se que tanto a morte como a sobrenaturalidade ainda que tragam emoções tidas como negativas podem ser manejadas com bom humor e positividade utilizando os próprios aspectos simbólicos e sociais inerentes a estes fatos. Palavras-chave: Morte, psicologia analítica; literatura; sobrenatural. An encounter with Tanatos: Notes about death and supernaturalism in “Incidente em Antares” of Erico Veríssimo Abstract: This theorical study aims to expectation the light in analytical psychology, the development of the theme of death and supernaturalism in one classical text from Brazilian literature: “Incidente em Antares” of Erico Veríssimo. Death is commonly seen as something bad which must be kept away and even deceived in Brazilian literature. The psychological aspects of the characters in this text regarding death and the world of supernaturalism have been carefully general. We conclude that death as well as supernaturalism although brings negative emotions, they can be managed or led with good humor and positivity through symbolic and social aspects inherent to these facts. Keywords: Death; Analytical psychology; literature; supernaturalism. _____________________ 1 Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (CAPES/PDEE). Endereço eletrônico: [email protected] 1 Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 1, n. 1, jul./dez. 2008 _____Psicologia &m foco Vol. 1 (1). Jul./Dez 2008 Introdução Talvez a única certeza que os humanos tenham em suas vidas é de que eles vão morrer. Neste sentido, tamanha convicção de que tudo um dia se acaba pode produzir insegurança, medo e angústia. Tendo como base tal pressuposto é essencial desvendar os simbolismos inerentes ao evento em si. Este sentimento de finitude que é provocado pelo fato da interrupção dos laços vitais com a realidade, desde a muito, foi encarado como um incômodo pelas pessoas (ÁRIES, 1977). Pode ser daí que tenha sido originada a crença de um mundo sobrenatural, de uma além-vida (KOVÁCS, 2003). Esta concepção de que há uma pósexistência, para Morin (1997) é importante, pois faz com que antes de tudo se guarde a lembrança da pessoa em questão, do seu lugar na sociedade. Este último autor afirma que uma decorrência disto pode ser comprovada desde o período paleolítico (cerca de 400.000 anos atrás), quando os mortos começaram a ser acompanhados por utensílios que mostravam seu status social. O posicionamento do corpo na direção do nascer do sol, também é um indicativo de que já se acreditava numa vida pós-morte. Outro exemplo é a tinta de ocra vermelha que poderia simbolizar o sangue durante o ritual funerário. Áriès (1977) percebe que o entendimento sobre a morte está ligado quase sempre a uma perspectiva religiosa. Parece que o impacto de romper com os vínculos do que foi realizado ou não-realizado na vida presente das pessoas começou a gerar um receio do que poderia ocorrer no além-túmulo. De Portugal recebeu-se a herança greco-romana que era evidenciada pela inicial representação iconográfica de que a morte (Tanatos) era filho de Nyx (“a Noite”), e irmão gêmeo do deus do sono (Hipnos) daí uma fortuita analogia como a morte sendo uma espécie de “sono profundo” (DEL PRIORE, 1997). Na medida em que o cristianismo expandiu-se por toda a civilização ocidental, Tanatos tornou-se uma figura moribunda e temerária. No que concerne ao conceito de morte, na mesclada cultura brasileira, as pessoas sempre estavam unidas ao mundo sobrenatural a partir de seus antepassados (SÁEZ, 1996). Atualmente, várias pesquisas vêm sendo desenvolvidas com o tema do viés final da vida (BARROS–OLIVEIRA & NETO, 2004; RODRIGUES & KOVÁCS, 2005). No território da análise subjetiva literária, Galvão (2006) estudou a religiosidade em textos de Antônio Calado e Darci Ribeiro, por exemplo. Assumpção (1992) produziu um estudo teórico onde explora as questões do sujeito-personagem na fecunda obra de Machado de Assis. Seu trabalho tem como base a psicanálise. Em outro momento, Serra (2006) utiliza-se da psicologia analítica sobre o processo de individuação para esquadrinhar a obra de Guimarães Rosa: “Grande sertões: veredas”, mostrando a possibilidade de obter algumas considerações sobre diversas temáticas a partir deste procedimento. Inspirado nestes, o estudo aqui desenvolvido visa discutir a partir da psicologia analítica o entendimento sobre a morte em um dos textos modernistas da literatura brasileira que aborda justamente este tema: Incidente em Antares (VERÍSSIMO, 1971/2005). Tentar examinar o processo de desencadeamento do fim da vida e de como isto afeta o mundo das personagens como um reflexo da dimensão da realidade onde as pessoas se encontram é um outro objetivo que no decorrer do texto tentará ser alcançado. Tanatos e o sobrenatural em um caso da literatura brasileira No livro em questão, Veríssimo (1971/2005) descreve uma reservada e típica comunidade interiorana do sul brasileiro e ao mesmo tempo, consegue dar vida de forma quase cômica à situação no Brasil pré-golpe de Estado, durante os idos de 1963/64. Esta descrição da sociedade gaúcha e brasileira sob uma forma microscópica serve como pano de fundo para a exposição do tema da morte. O texto de Veríssimo (1971/2005) foi escolhido justamente por que ele faz um relato geral de praticamente toda a história política, da povoação e do embate de forças oligárquicas, ocorridas no Rio Grande do Sul. Misturando fantasia e fatos verídicos, o autor expõe de maneira divertida os mandos e desmandos dos caudilhos gaúchos. Assim fica construído todo um cenário 2 Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 1, n. 1, jul./dez. 2008 _____Psicologia &m foco Vol. 1 (1). Jul./Dez 2008 tipicamente brasileiro onde a finitude da vida acaba por tornar-se o ponto fulcral do seu livro, sendo esta a condição para tê-lo como alvo de uma série de conjecturas. Neste ambiente de disputas, a morte acaba por ser abordada, não menos jocosamente sob a forma do insepultamento de sete cadáveres durante uma greve de coveiros. A partir disto, tudo ou quase, é horror, quando aqueles “morto-vivos” tentam resolver seu problema: “Retornam a marcha, mas tornam a estacar. O terror lhes contorce subitamente as faces e aperta-lhes aos peitos e gargantas. É que todos vêem os setes defuntos erguerem-se um a um de seus caixões, com uma lentidão de quem desperta com relutância dum sono natural” (VERÍSSIMO, 1971/2005, p. 230). O escritor sulista não se furta em indicar que a visão da não-morte dos sete insepultos é algo de aterrorizante para aqueles que estão vivos. O autor habilmente faz representar as várias camadas sociais na figura desses personagens moribundos, moradores de uma cidadezinha rural, sem se comprometer muito com a descrição do ritual funerário. As personagens principais afora os mortos também são destacadamente os representantes das classes sociais abastadas e humildes e que posteriormente irão ser o alvo das verdades alheias expostas pelos defuntos. Estes por sua vez são melhor descritas no quadro 1 que se segue ao final do artigo. O autor embora deslinde suas personagens na medida em que vai desenrolando a trama, prefere expô-las mais a partir do obtuso evento que se apresenta. De qualquer forma, está ali estampado o paradoxo da morte em vida. No romance modernista, as lembranças do que se passou com os indivíduos são sobrepostas aos eventos históricos da comunidade. Transportar a morte para o contexto da vida significa entre outras palavras eliminar a limitação de ambas, anular as fronteiras entre dimensões díspares. Pode ser tido como uma espécie de aberração também, fato que somente as artes têm condição de expôr. No caso da literatura isto parece óbvio. Simbolicamente, as personagens morrem em substituição das pessoas reais. O tamanho impacto que este deslocamento produz, serve como uma maneira de amparar a idéia da mortalidade. O que não é suficiente para eliminar o medo deste fato. A morte simbólica é constantemente retomada também como sendo um confronto com a vida e os seres viventes: “Afora os defuntos no coreto (...) o largo da praça está completamente deserto de humanidade. Sente-se, porém, que nas casas em derredor, por trás de venezianas e postigos cerrados ou entrecerrados, vultos humanos esquivos espiam para fora, seus espíritos como petecas numa partida incerta que a curiosidade joga contra o medo. Cada uma dessas fachadas sugere a face duma pessoa que, com o coração acelerado pelo pavor, finge dormir quando um ladrão lhe penetra no quarto na calada da noite: pálpebras exageradamente apertadas sobre os globos nervosos dos olhos, músculos faciais indisfarçavelmente contraídos” (VERÍSSIMO, 1971/2005, p. 297). Então no âmbito da psicologia analítica, Jung (1991/1958, 2002/1964) entende que os símbolos congregados e ligados à idéia de mortalidade seriam resquícios de um passado anterior que estariam no âmago da vida interna, ou seja, no inconsciente individual e no inconsciente coletivo. Jung (1995/1967; 2002/1964) compreendia, quando criou a sua teoria da psicologia analítica que as pessoas passam por um contínuo processo de desenvolvimento envolvendo toda a psique. É mais uma fase em que os seres humanos têm que se permitir ultrapassar a fim de continuar sua jornada de desenvolvimento pessoal, a qual ele denomina de “processo de individuação”. Por outro lado, os arquétipos seriam os nomes destas grandes estruturas mentais que estariam compostas por símbolos e que os emitiriam conforme o estágio de individuação à qual a pessoa estivesse passando. Então Jung (1978/1937, p. 55-56) afirma o seguinte: “Do mesmo modo que os sonhos são constituídos de um material preponderantemente coletivo, assim também na mitologia e no folclore dos diversos povos certos temas se repetem de forma quase idêntica. A estes temas dei o nome de arquétipos, designação com a qual indico certas formas de natureza coletiva, 3 Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 1, n. 1, jul./dez. 2008 _____Psicologia &m foco Vol. 1 (1). Jul./Dez 2008 que surgem por toda parte como elementos constitutivos dos mitos e ao mesmo tempo como produtos autóctones individuais de origem inconsciente”. Estes arquétipos seriam então uns conjuntos de vários agrupamentos de experiências, de práticas cotidianas que também se perderam com o passar dos tempos e que se enraizaram no psiquismo das sociedades. Se os arquétipos que são formadores dos símbolos, tão antigos quanto eles, estão “soterrados” no registro do inconsciente, do mesmo modo não têm como serem identificados em sua forma completa. Apesar disto, como ambos possuem algum significado, os arquétipos estão sempre, a todo o momento, emitindo os símbolos. Isto também promove o surgimento das culturas. Porque eles demandam padrões de comportamento através das significações, ainda em um nível inconsciente. Segundo Jung (1937/1978) a dificuldade do confronto com o evento da morte, como expresso no romance, é decorrente de uma obstaculização criada pelo inconsciente coletivo sob a forma da “sombra”. Esta é um arquétipo que faz parte da estrutura da personalidade como observa Jung (1964/2000). Embora inicialmente pareça ser algo temerário e obscuro, o que está contido ali além de ser muito privado da psique, constitui a identidade do individuo. É simbolicamente o “reverso da moeda”. Outro fato interessante sobre este modelo psíquico é que o mesmo geralmente passa a ser eclipsado pela “persona”. Este último também é uma estrutura psíquica como a sombra, isto é, um arquétipo. Sua função, ao inverso da outra é justamente fazer parecer ao mundo exterior o que é desejável, ou ao menos assumir papéis sociais definidos. Jung (1991/1958) entende que o inconsciente está dividido em duas partes, o individual, que é portado pela pessoa, e o coletivo que é partilhado pela coletividade. O primeiro teria aspectos próprios da personalidade da pessoa, já o segundo teria guardado em si, conteúdos ancestrais de todos que participam de um grupo social. Algumas das bases teóricas da psicologia analítica seriam os símbolos e os arquétipos, que por sua vez podem ser considerados conteúdos de ambos os tipos de inconscientes. Os primeiros seriam: “(...) um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além de seu significado evidente e convencional (...). Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem aspecto ‘inconsciente’ mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. E nem podemos ter esperanças de definí-la ou explicá-la (JUNG, 2002/1964, p. 20)”. Assim sendo os símbolos como um todo, e mais precisamente os símbolos religiosos possuem um elemento de congregação, ou seja, de união entre os indivíduos (GALVÃO, 2006). É como se fossem um elo que serve para manter a coesão grupal, ou melhor, é o próprio sentido de unificação coletiva e social. Os símbolos são poderosos e não há maneira de identificar expressamente sua origem, e todo seu significado. Por serem uma representação forte, eles impeliriam as condutas individuais. E por terem inusitadamente um sentido que transcende a realidade presente, as pessoas não teriam como entendê-los. Estas estruturas possuem um aspecto mágico que também seriam responsáveis pela criatividade humana. Tal simbolismo pode repercutir em outros aspectos também e como visto anteriormente, os personagens de casta mais humilde não chegam a aterrorizar os seus entes mais próximos. No entanto, a morte estampada em Quitéria Campolargo e Cícero Branco trazem o horror aos familiares mais abastados. Veríssimo (1971/2005) mostra aí a hipocrisia das pessoas que vivem sob a máscara da persona. Na sombra, os conteúdos são renegados e represados ao máximo para que não venham à tona na realidade, como por exemplo, a usura ou a inveja. Já a persona se apresenta como uma máscara do ego fazendo expressar comportamentos que sejam bem quistos, como uma quase idolatria à vida. O aspecto do cadáver também suscita ideações, a imagem da personagem Eortildes arrefece o ideal da morte maculada, do fim de uma 4 Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 1, n. 1, jul./dez. 2008 _____Psicologia &m foco Vol. 1 (1). Jul./Dez 2008 vida sofrida que acaba por espelhar-se no alémtúmulo. Por outro lado, segundo Vernant (1991), as representações dos morimbundos podem ser consideradas também como algo divinatório. Afinal, o jacente foi o humano que passou para o território dos deuses. O sentimento deixado entre os entes queridos fortalece a mitificação do sujeito morto petrificando também as representações sobre as entidades divinas. Isto está baseado nos simbolismos derivados dos arquétipos. De certa forma o que acontece é uma disputa pelo domínio do ego. Como este é a parte mais centrada da mente humana, ou também se pode dizer que é o centro consciente da psique, os arquétipos se substituem ao longo do processo de individuação. Isto pode acabar por produzir um gasto de energia razoável do ego, muitas vezes provocando variados sintomas como o póthos, isto é, o desejo enlutado (VERNANT, 1991). Neste sentido o ego do indivíduo afoga-se na multidão da coletividade como uma forma de proteger-se contra o fato derradeiro. Embora possa parecer paradoxal a sombra serve neste caso para proteger o psiquismo do indivíduo da morte (von FRANZ, 1990). Outro fato interessante é que o processo de individuação neste caso literário, não se consome com a morte das personagens. Em verdade, a condição da não-morte delas é ainda um estágio neste processo. A ótica do fenômeno por parte dos defuntos é de que eles devem resolver ainda este problema para enfim terem o direito ao descanso eterno. A greve dos coveiros age como sendo uma espécie de ritual mágico que detém o fim da vida, mas que ao mesmo tempo os fazem ficar em uma dimensão “entre vidas”, pois que sendo mortos, a passagem não se deu completamente. Conforme Holm e Bowker (1994), a morte também deve ser considerada um rito de passagem, e como tal imprime um estatuto de transformação da pessoa em algo inacessível. O desejo enlutado propicia a ativação de diversos arquétipos e símbolos que conforme Vieira (2006) visam a conformação das pessoas enquanto membros de uma coletividade organizada. Tais arquétipos estariam representando a vitória da cultura sobre o instinto e por conseguinte a greve dos coveiros pode ser considerada também como um símbolo desta prevalência. Enquanto o póthos seria todo o poder instintual que representa o impedimento no estatuto da pessoa em jacente. Paradoxalmente, os grevistas detêm o curso normal da vida, que óbvio, é transformar-se em morte. A implicação advinda da criatividade do autor caracteriza o poder arquetípico como algo mágico o que vem a impedir a finitude da vida daquelas personagens. O processo transitivo de mudança dimensional é estancado pela cultura, que para Vieira (2006) é uma das mais consistentes versões arquetípicas existentes. O procedimento da greve é um mecanismo típico da histórica luta de classes e como tal, simboliza o desenvolvimento da civilização impondo o controle dos desejos ao sujeito social. Portanto, seguindo o seu póthos invertido, já que são seres jacentes os moribundos avançam pela cidade a fim de passar mais alguns momentos com as pessoas que lhes são caras. No caso dos membros mais ricos do grupo (Quitéria Campolargo e Cícero Branco) sua aparição causa horror e repugnância. Demonstrando o quanto as pessoas ligadas a estes personagens estão encobertos pela persona arquetípica. Para o antigo pároco da cidade, isto é o sinal do fim dos dias. No caso, das personagens que tem uma origem mais humilde, o terror não é um foco central para com aqueles aos quais eles estavam acostumados à viver em outros tempos. Retirando o caso de Menandro Olinda que era um solitário professor de piano, o “Barcelona” faz uma visita ao delegado da cidade a fim de acertar contas pela morte de João Paz. Aí a sombra se perfaz de maneira aterrorizante e violenta. A origem da idéia de que a morte é algo inefavelmente sujo e que deve ser repelida pode ser de fonte arquetípica a ser considerada na seguinte passagem: “(...) ‘os embuçados da alvorada’ – executaram a segunda parte de seu assalto à pequena cidadela dos mortos. Formando uma linha, a uns quinze metros do coreto, tiraram dos sacos pedras, garrafas vazias e pedaços de madeira pesada e começaram a arremessá-los como projéteis contra os sete cadáveres” (VERÍSSIMO, 1971/2005, p. 392). A hostilidade contida no arquétipo da sombra determina a negação da sobreposição entre a dimensão 5 Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 1, n. 1, jul./dez. 2008 _____Psicologia &m foco Vol. 1 (1). Jul./Dez 2008 sobrenatural e a da realidade dos viventes. E por mais que se pregue uma “cristã” amabilidade e piedade para os jacentes, o que é estranho ao gênero humano, em vias gerais é comumente agredido. O que é sobrenatural embora possa ser entendido com certo esforço, não deve ser jamais palpável. A decisão de que não deva ocorrer o entrecruzamento entre os dois planos não compete à humanidade. Mas promover o sentido de estranhamento contra algo que é natural do que é ser humano, produzindo artificialismos pode também ser considerada uma espécie de sintoma social de desagregação do ego, de fragilização do sentido do “eu” de cada pessoa, descrito tão interessantemente por Veríssimo (1971/2005). Embora o individualismo atual seja evidente, a sombra conduz a pessoa de volta ao grupo de maneira à partilhar este pavor da morte. Mas ao mesmo tempo evita dos indivíduos teremna como um processo natural, seguindo o ideal higienista trazido pela medicina (ver BELLATO & CARVALHO, 2005; RODRIGUES, 1999). De certa forma, os arquétipos são paradoxais. Pode-se afirmar que este ideal seria uma das materializações da sombra em sociedade. No que tange à psicologia analítica sobre o tema da morte, para Jung (1978/1937) o assunto se desenvolve juntamente como parte do sentido de religiosidade comum à espécie humana enquanto um comportamento social. A Psicologia Analítica: A morte como símbolo A religiosidade é uma das formas mais complexas de conduta social que os seres humanos possuem. Talvez os conjuntos de crenças em um ou mais seres sobrenaturais, com poderes além da capacidade mediana de compreensão, faça com que haja certa depreciação sobre este tema tão comum, por parte das ciências. Toda a religião é baseada numa mítica (ELIADE, s/d; JUNG, 1978/1937). Por isso Eliade (s/d, p. 107) afirma que “O mito conta uma história sagrada, quer dizer um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. (...) O mito é, pois a história do que se passou in illo tempore, a narração daquilo que os Deuses ou os seres divinos fizeram no começo do tempo”. Isto significa dizer que os humanos quase nunca estarão a par do real início da vida, nem das verdadeiras razões que fizeram com que as divindades decidissem pelo surgimento da espécie humana. De maneira interessante, Veríssimo (1971/2005) não desloca para um primeiro plano alguma discussão sobre a religiosidade. Embora seja algo que esteja implícito entre as personagens, o humor negro é que vai preencher este espaço. No encontro entre João Paz e o padre Pedro-Paulo, que é quem vai fazer a intermediação entre ele e sua esposa, percebe-se que o pároco não possui nem um temor, somente sente-se confuso com a presença da moribunda personagem. Por outro lado, o padre Gerôncio Albuquerque veterano na cidadezinha de Antares, tem uma reação que poderia ser a mais comum em se tratando de um evento sobrenatural como este: medo. A diferença entre ambos pode ser notada entrelinhas. No caso do padre Pedro-Paulo que é jovem e foi formado na concepção das lutas de classe o advento da não-vida pode ser visto como uma evidência do processo individuativo da coletividade. Isto é, um marco sobre a mudança do grupo sobre a percepção da morte, que aos poucos vai deixando de ser algo terrificante. No caso do antigo pároco Gerôncio, este é a representação de um processo de individuação ainda paralisado em uma ideação antiga e apavorante. São duas faces de uma mesma moeda, no primeiro caso, a persona (padre Pedro-Paulo) e no segundo exemplo, a sombra (padre Gerôncio Albuquerque). Pode-se ainda ir mais longe nesta idéia. O jovem, também pode idealizar a capacidade de flexibilização, de tentar entender o que até então é mal compreendido. Como expõem alguns autores (ÁRIES, 1977; FREITAS, 1992; KOVÁCS, 2003; MORIN, 1997) as concepções deste evento nunca foram estáticas. Isto demonstra que embora os arquétipos sejam estruturas milenares eles são também um pouco flexíveis e, outrossim, o sentido de religiosidade que é perpetrado, produz nas pessoas um plano idealizado de velada sacralidade. Assim coloca Jung (1978/1937, p. 131): “os esquemas dos arquétipos de iniciação - conhecidos desde a antigüidade como ‘mistérios’ - são elaborados na mesma textura de todos os rituais eclesiásticos que 6 Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 1, n. 1, jul./dez. 2008 _____Psicologia &m foco Vol. 1 (1). Jul./Dez 2008 exigem cerimônias especiais nos momentos de nascimento, casamento ou morte.” De início a morte era algo suportável, depois passou a ser como um fardo. Uma representação evocada por Kovàcs (2003) é de Tanatos como uma velha esquelética e putrefata. Tal imagem representa a insuportável idéia de que tudo termina um dia. Em contraposição ao dia e ao sol, ele é visto como a noite e como a lua. Ele pode ser estranhamente idealizado sob o formato da dimensão onírica. Geralmente nos sonhos, a sombra aparece como um ser do mesmo sexo, mas que tem uma atitude hostil (von FRANZ, 1990). Já Freitas (2002) diz que os sonhos de morte de pessoas que estejam, por exemplo, com problemas de saúde, podem ser uma maneira de preparar o sujeito para o que está por vir. O corpo geralmente é a matéria que trás a idéia de algo que está para ser descartado, daí a condição de indiferença para com ele. Isto está também no escopo da sombra. No mundo dos sonhos, onde nada é concreto, o fim de tudo que existe pode ter várias facetas (von FRANZ, 1990). Na psicologia analítica, o aviso dos fins dos dias pode vir sob o formato de sonho. Isto porque o arquétipo pode determinar um estado de alerta sobre algum procedimento que venha a estar ocorrendo durante o processo de individuação. Sonhar com temas que representem simbolicamente o fim, pode ser então um aviso de si para si, que ocorre de maneira inconsciente. Conteúdos culturais, não estranhos à pessoa podem vir à tona junto com os sonhos e mostrar que o sujeito está passando por um momento difícil, ou mesmo exibir que ela está chegando ao fim de uma ocasião e que alguma mudança ocorrerá. Isto pode significar a “morte” de uma seqüência de eventos, de uma parte da sua vida. Como os mitos também são arquétipos segundo afirma Jung (1978/1937; 2002/1964) então algumas vezes fica claro para as pessoas do que se trata, mas a probabilidade nunca chega à total certeza. A morte como símbolo permite o surgimento da necessidade do desenvolvimento do sentido de numinosidade. É o fiel da balança para as superações do cotidiano e do bem-estar social. Considerações finais Finalizando, ao se tentar buscar uma melhor explicação sobre a morte através da psicologia analítica, encontrou-se na obra de Érico Veríssimo um texto que pode em parte traduzir o pensamento e ações humanas referente a este assunto delicado. Tanto morte como sobrenaturalidade são aspectos necessários para que a vida seja mais suportável, embora por sua vez tragam uma ancestral temeridade. Como visto na teoria de Carl Gustav Jung, quanto mais se rechaça a única real certeza da vida, a permanência nesta realidade torna-se cada vez mais angustiante e simtomática. Na obra Incidente em Antares, o arquétipo da sombra entrou em atividade no psiquismo das personagens moradoras de Antares, ao passo em que a morte em vida se tornou algo viável. Mostra dessa maneira que ao menos no ocidente não se consegue ainda aceitar outra idealização que somente a que predomina pela ciência e religião cristã, dificultando uma melhor compreensão de um conjunto de fatos historicamente tão corriqueiros. Os mortos desta estória acabam por representar não somente a sombra arquetípica mas também o pavor deste evento para a maior parte dos seres humanos Quanto mais se barra a elaboração dos sentidos sobre a morte, mais angústia ela provoca. A dispersão do arquétipo pode se dar na tentativa gradual de compreendê-lo, tornando o psiquismo criativo e facilitando o fluxo do processo individuativo. Referências ÁRIES, P. História da morte no ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1977. ASSUMPÇÃO, M. L. S. O projeto inconsciente de Machado de Assis. O morto na vida e obra de M.A. – Mito e fantasma. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 44(1/2): 121-134. 1992. BARROS-OLIVEIRA, J. & NETO, F. 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Submetido em Dezembro de 2007 Aceite final em Fevereiro de 2008 8 Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 1, n. 1, jul./dez. 2008 _____Psicologia &m foco Vol. 1 (1). Jul./Dez 2008 Quadro 1- As Personagens Representantes da Morte Os sete mortos Características Dona Quitéria Campolargo Mulher orgulhosa de pertencer à uma família poderosa e antiga na região e que morre por ataque cardíaco. Não foi enterrada com as suas jóias como queria, pois os genros as pegaram para dividiremnas entre si. A sua família fica repugnada com a sua presença do além-túmulo. Seu aspecto cadavérico não é dos piores. Cícero Branco Advogado das tramóias políticas da classe alta de Antares, tem conhecimento de muitos segredos daqueles que comandam a região. Morreu por uma hemorragia cerebral. Flagra a mulher na cama com um dos amantes apavorando-os. Torna-se porta-voz dos defuntos. João Paz Era um ativista político. Jovem e idealista que organizava comícios acabou sendo preso e morto sob tortura. Não assusta à sua esposa, mesmo estando morto. Erotildes Prostituta que morreu tísica. Foi uma das mulheres mais procuradas no bordel da cidade. Seu aspecto era o mais deplorável entre os defuntos. Mesmo com uma aparência muito funérea, não assusta sua melhor amiga quando a visita. Pudim de Cachaça Alcoolista que morreu envenenado com arsênico pela própria companheira. Não causa muito espanto que tenha voltado à vida, ao menos para seu companheiro de boêmia. Sente certa piedade pela sua assassina José Ruiz Mais conhecido como o “Barcelona”, era o sapateiro da cidade, e um dedicado anarco-socialista. Veio a morrer por ruptura do aneurisma Professor Menandro Olinda Era um professor de piano. Cometeu suicídio, ao cortar os próprios pulsos, por um “trauma” da infância. 9 Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 1, n. 1, jul./dez. 2008