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Debaixo de pivôs centrais, o pastejo rotacionado permite
aos pecuaristas produzir mais leite na seca que na época
das chuvas na região do Semiárido cearense
Darlan Moreira | Fotos Jarbas de Oliveira, de Maranguape (CE)
A técnica
de pastejo rotacionado irrigado, introduzida no Ceará em meados da década passada, está
revolucionando a pecuária de leite no Estado. Com esse sistema, a produção já é maior no
período de estiagem que na época das chuvas, invertendo uma lógica secular na região. A
irrigação dos pastos também trouxe a certeza da produção independentemente de o ano ter
boas chuvas ou não. Essa segurança deu ânimo para que os pecuaristas investissem na
atividade, resultando em aumento da oferta de leite. Também atraiu para o Estado
fornecedores de insumos, empresas de genética bovina, laticínios e mais produtores de leite.
Todos miram os benefícios que o Estado pode oferecer em um futuro próximo com seus mais
de 200.000 hectares de áreas irrigáveis, boa parte delas com toda infraestrutura instalada, mas
parcialmente ociosa, como é o caso dos perímetros do Departamento Nacional de Obras
Contra as Secas (Dnocs). Tudo começou em 2000, quando o governo cearense resolveu
apostar no Projeto Pasto Verde, que consistia em repassar para pequenos produtores as
vantagens do pastejo rotacionado irrigado. Cinco anos depois, mais de 1.400 pecuaristas já
haviam adotado o sistema. “Quando vinha uma seca, o pecuarista deixava de produzir o leite e
ainda precisava comprar alimento para o rebanho durante meses. O Pasto Verde mudou essa
realidade”, observa o zootecnista e consultor Raimundo Reis, que esteve à frente da
implantação do projeto no Estado. “Hoje, a gente trabalha e tem lucro o ano todo”, diz o
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produtor Carlos Augusto Paiva, da Fazenda Flôr da Serra, de Limoeiro do Norte, a 194
quilômetros de Fortaleza.
O pastejo
rotacionado irrigado é adotado em mais de 5.000 hectares e responde por cerca de 25% da
oferta de leite no Ceará. O mais importante não é o volume, mas sim a segurança de que o
leite está disponível o ano inteiro, faça chuva ou sol. Essa oferta segura – e com potencial de
expansão - é que permite aos laticínios planejar a médio e longo prazos. A Danone, por
exemplo, investiu no ano passado R$ 60 milhões para reativar uma fábrica em Maracanaú, a
20 quilômetros da capital cearense, a partir da qual trabalha para abastecer os mercados do
Norte e Nordeste. O laticínio Sabor e Vida, em Maranguape, a 50 quilômetros de Fortaleza,
também está apostando no crescimento do setor. “Concluímos um investimento que triplicou
nossa capacidade de produção, que passou para 20.000 litros ao dia”, diz Osvaldo Vieira, da
área comercial da empresa. Além dos laticínios, o potencial da região tem despertado o
interesse de outros segmentos. Em 2009, a Tortuga, empresa de suplementos para
alimentação animal, investiu R$ 90 milhões para instalar uma unidade no Complexo Industrial e
Portuário do Pecém, a 60 quilômetros da capital. A fábrica foi concebida para suprir o mercado
nacional e também exportar, mas é a demanda regional que tem ocupado mais a linha de
produção. é difícil encontrar uma fazenda que utilize o pastejo rotacionado e não trabalhe com
inseminação artificial. Em Quixadá, a 160 quilômetros de Fortaleza, em pleno Sertão Central, o
técnico agrícola Francisco Rodrigues fala com orgulho do plantel de vacas da Fazenda São
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João, formado com sêmen importado de grandes touros da raça holandesa. “Temos vacas
aqui com produção acima de 60 litros ao dia.” Em 8 hectares irrigados, a fazenda mantém 125
animais em lactação em sistema de semiconfinamento. Durante o dia, quando o tempo é mais
quente, os animais comem no cocho um volumoso que inclui cevada. à noite, são soltos nos
piquetes com capim irrigado. A média de produção por animal chega a 24 litros de leite por dia
e o custo total por litro é de R$ 0,66, repassado a R$ 0,79 para a indústria.
Os pecuaristas
inseridos nesse sistema vivem uma espécie de lua de mel com os laticínios, pois, além de um
preço razoável – que costuma incluir bônus por qualidade –, contam com assistência técnica. A
Danone, por exemplo, relata casos em que produtores que seguiram as recomendações dos
especialistas conseguiram aumento real de até 273% na renda por ganhos em qualidade e
produtividade. Em termos de assistência, no entanto, é difícil encontrar algo parecido com o
que faz o laticínio CBL-Betânia, o segundo maior do Ceará. Em sua unidade de Limoeiro do
Norte, a empresa fornece aos parceiros terra, gado, pivô central para irrigação, insumos,
orientação técnica e ainda garante a compra do leite a R$ 0,80. Entrando somente com a
“administração” do negócio, oito parceiros têm lucro líquido de até 30%, o que pode
proporcionar para alguns deles até R$ 45 mil por mês. “Se a pessoa se dedicar, o leite hoje dá
uma renda muito boa”, observa Carlos Maia, do Sítio Fazenda, em Limoeiro do Norte, no qual
está produzindo 450 litros diários com suas 27 vacas criadas em sistema semi-intensivo
(pastejo rotacionado mais suplementação no cocho). Segundo ele, na época da estiagem, a
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produção de leite aumenta em 30%. “Meu capim irrigado é mais bonito no verão que na época
das chuvas. Tendo água à disposição, o Sertão é o melhor lugar para produzir leite, porque
podemos controlar o clima”, diz Maia. Em 2010, a Agência de Desenvolvimento Econômico do
Estado do Ceará (Adece) resolveu traduzir em números o que muitos pecuaristas de áreas
irrigadas já sabiam: é possível produzir leite com lucro no Ceará. Mais que isso: seria possível
produzir com indicadores econômicos iguais ou superiores às mais destacadas bacias leiteiras
do mundo. “Hoje, produzimos leite a US$ 0,30 por litro, enquanto o custo médio nos Estados
Unidos é de US$ 0,38. Quando o real estava menos valorizado, chegamos a produzir por US$
0,22, que é o preço conseguido pela Nova Zelândia, referência mundial em produção leiteira”,
diz o consultor Raimundo Reis, um dos responsáveis pelo estudo Projeto Leite Ceará,
elaborado pela Adece. O estudo lançou ainda um novo olhar para áreas dos perímetros
irrigados do Dnocs – que só no Ceará chegam a 40.000 hectares. “São áreas com oferta de
água, energia, comunicação, estradas, bons solos e preço baixo – média de R$ 2,5 mil por
hectare – e que não estão plenamente ocupadas”, conta Francisco Zuza, presidente da Adece.
O estudo
da Adece, que considerou todas as variáveis econômicas para a implantação de projetos em
módulos de 8 a 210 hectares, chegou a resultados surpreendentes – é possível obter até mais
lucro com gado leiteiro nas áreas irrigadas que com a produção de frutas – e sem o perigo das
oscilações de demanda e preço do mercado internacional. De acordo com o estudo, a
implantação de um módulo de 8 hectares - que comporta a criação de até 100 vacas e requer
investimento total de R$ 279 mil – proporciona uma receita de R$ 51,9 mil por ano, com lucro
de 30%. O estudo aponta ainda que, quanto maior o módulo, mais vantajoso é o investimento.
Para uma área de 210 hectares, o lucro estimado é de 40% e o investimento necessário, de R$
6,1 milhões, se paga em seis anos e dois meses. Pecuaristas tradicionais de Minas Gerais e
São Paulo já compraram lotes no Perímetro Irrigado de Tabuleiro de Russas, do Dnocs, como
o paulista José Junqueira Júnior. Junto com outros pecuaristas de Ribeirão Preto (SP), ele
formou a empresa Vale do Castanhão, que está investindo mais de R$ 2 milhões em 50
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hectares. O plano da empresa é utilizar 50 hectares do perímetro irrigado para criar 350 vacas
em lactação, com a meta de obter diariamente mais de 100 litros de leite por hectare. “Isso é
possível porque a região tem 300 dias de sol por ano e água abundante para irrigação, o que
resulta num ciclo muito reduzido de crescimento da pastagem. Na região, o capim irrigado se
recompõe entre 18 e 21 dias, o que coloca o Semiárido cearense entre os mais produtivos do
mundo, sem o incômodo de doenças e problemas típicos de regiões de muita chuva, clima
muito frio ou geadas,” diz. O nome da empresa de Junqueira Júnior é uma referência ao Açude
Castanhão, um reservatório gigantesco que é o coração de um arrojado sistema de
transposição de águas e que garante abastecimento à população, indústrias e grandes projetos
de irrigação da região. Concluído em 2003, o Castanhão tem potencial para acumular até 6,7
milhões de metros cúbicos de água e responde sozinho por mais de 30% dos 18 bilhões de
metros cúbicos de capacidade total de armazenamento do Ceará. “Em relação à oferta de
água, estamos à frente dos demais Estados da região”, comenta Henrique Prata, presidente
da Associação dos Produtores de Leite do Ceará, para quem a gestão correta dos recursos é a
chave para viabilizar a produção no Semiárido. “Temos visto experiências bem-sucedidas de
produção de leite até onde a sobrevivência humana é difícil. O importante é dispor de
conhecimento, tecnologia e gestão nas propriedades”, diz. O mercado interno – que está em
franco crescimento na Região Nordeste – impulsiona o negócio. O Ceará importa um terço de
tudo que sua população consome. E a utilização de 5.000 hectares para a pecuária de leite nos
perímetros irrigados poderia elevar em pelo menos 300.000 litros a oferta do produto.
O nome do
sistema que está permitindo aos pecuaristas cearenses produzir leite o ano inteiro é pastejo
rotacionado irrigado. A técnica não é nova e consiste em práticas muito simples: fazer com que
a cada dia os animais se alimentem de volumoso (capim) em uma área diferente, oferecendo
assim pasto sempre novo e nutritivo o ano inteiro. Esse sistema representa muito para os
pecuaristas do Sertão cearense. Para se ter ideia, com o pasto natural da Caatinga são
necessários cerca de 20 hectares para manter apenas uma vaca de leite. Com o pastejo
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rotacionado irrigado, pode-se criar até 12 animais em lactação em cada hectare. “O pastejo
irrigado assegura capim verde o ano inteiro”, diz o consultor Raimundo Reis. E o capim cresce
com vontade no Ceará, por conta da quantidade de sol disponível por ano (300 dias) e da
temperatura média constante elevada (30 ºC). Sem muito esforço, quem adota o pastejo
rotacionado irrigado está obtendo mais de 100 litros de leite diários por hectare – e a custos
bem razoáveis. Na Flôr da Serra, alimentar uma vaca com capim irrigado, utilizando pivô
central, custa R$ 1 por dia. O custo por litro é de R$ 0,40. O proprietário da fazenda, Luiz
Girão, é um nome reverenciado no setor pelas suas investidas visionárias e corajosas. Foi dele,
há alguns anos, a iniciativa de fazer “leasing” de vaca: um empréstimo para ser pago com
leite, no qual quem recebia o animal tinha a possibilidade de comprá-lo por um valor pequeno
ao final de três anos. Girão, que também é proprietário do laticínio Betânia, chegou a alugar
4.700 vacas. Foi ele também que, de maneira pioneira, começou a utilizar os perímetros
irrigados do Dnocs para produzir com pivô central milho e leite. Hoje, com seus 1.300 hectares,
a Flôr da Serra desenvolve outra experiência que desperta atenção: toda a estrutura da
fazenda foi disponibilizada a “parceiros”, que têm como única obrigação vender ao laticínio o
leite produzido. E não é uma estrutura qualquer. São 200 hectares irrigados com quatro pivôs,
3 mil animais (1.300 em lactação), currais, ordenhas mecânicas, insumos, inseminação
artificial, além da garantia de aquisição do leite a R$ 0,80 o litro.
Nordeste
multiplica a produção e o consumo de lácteos com investimentos em genética e
tecnologia Texto Sebastião Nascimento No leite, o Nordeste cresce a um ritmo chinês.” A
frase, que pode parecer exagerada, é de Raimundo Reis, diretor da Leite e Negócios, empresa
de consultoria do Ceará que lança há duas temporadas um anuário e exibe dados completos
sobre produção e consumo em toda a região. O Nordeste imprime maior velocidade em relação
a outros Estados brasileiros nos quesitos consumo per capita, produção total de leite, aumento
do rebanho e apuro na qualidade das vacas. No rastro da expansão – a população nordestina
é de 50 milhões de pessoas e muitas estão sendo incorporadas agora ao mercado –, grandes
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indústrias como a Nestlé, a BR Foods, a Danone e a Bom Gosto inauguraram filiais no Ceará e
em Pernambuco. Lá se instalaram também empresas de inseminação artificial e redes de
varejo, informa Reis. A locomotiva é Pernambuco. Segundo o analista, em 2004, o Estado
captava 397,5 milhões de litros ao ano. Fechou 2010 com 877,4 milhões de litros. “Em seis
anos apenas, houve um incremento de 480 milhões de litros”, ressalta Reis. Segundo ele, a
cada ano, o volume coletado em Pernambuco sobe 20%. Na Bahia e no Ceará, entre outros, a
expansão segue sem pausa. Ainda baixa, a demanda per capita de leite líquido e seus
derivados como iogurte é de 27,47 quilos no Nordeste – são 47,6 quilos na média nacional.
“Apesar de reprimido, o consumo dobrou na última década e reflete a melhora no bolso da
população nordestina”, diz Reis, informando também que iogurte e outros industrializados são
os preferidos nas gôndolas. Segundo números da Leite Brasil, a produção leiteira nordestina
dobrou desde a virada do século, de 2 bilhões de litros para 4 bilhões de litros. Para Reis, além
da melhoria do poder aquisitivo da população, contribuíram para o avanço do leite os
programas oficiais de fomento à produção, investimentos no padrão genético do gado e a
maior capacidade de processamento da matéria-prima. Já em praças tradicionais, como a de
São Paulo, espremida pela concorrência da cana e pelo alto preço das terras, a produção de
leite engatou marcha a ré. Nos últimos anos, liquidações barulhentas de rebanho fecharam a
porteira de fazendas que exploravam secularmente a atividade. Especialistas explicavam, na
ocasião, que boa parte das vacas férteis ofertadas era adquirida por fazendeiros do Nordeste
para aprimorar o plantel pouco produtivo do Sertão. Eles anteviam que a pecuária brasileira
estava mudando de mão e de região. “Acertaram”, confirma Raimundo Reis, registrando ainda
que, analisados pontos específicos, como produção e demanda, a pecuária de leite no
Nordeste mostra similaridade com o crescimento da economia da China. Em 2011, por sinal, a
Embrapa Gado de Leite levou ao Nordeste, pela primeira vez, o Congresso Internacional do
Leite, realizado há dez anos. Segundo Duarte Vilela, diretor-geral da Embrapa, o evento foi
promovido em reconhecimento à importância crescente da cadeia produtiva do leite para a
economia da região. “O Nordeste produz próximo de 4 bilhões de litros de leite por ano,
representando 13% da produção nacional.”
Fonte:
matéria original da Revista Globo Rural Núcleo de Comunicação Fortaleza - CE 28/02/2012 11h32min
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