Causas e Conseqüências da mastigação unilateral e
métodos de diagnóstico do lado mastigatório com enfoque
na reabilitação neuroclusal.
RAFAEL FERREIRA*
*CURSO
EXTENSIVO
EM
ORTOPEDIA
FUNCIONAL
DOS
MAXILARES
(SOBRACOM).
RESUMO
O propósito deste artigo é mostrar para o ortopedista funcional dos
maxilares assim como clinico geral, a importância do diagnóstico precoce
da mastigação unilateral, para que possamos evitar uma série de
alterações das estruturas que se relacionam com a mastigação. Devemos
também comp reender as possíveis causas e alterações para o sistema
estomatognático da mastigação unilateral viciosa.
ABSTRACT
The aim of this review is to show to the specialist in Orthodontic
and Dento-facial Orthopedics the importance of earlier diagnostic of the
unilateral chewing to avoid damage to the oral structures. We also should
understand the possible causes and alterations to the Stomatognatic
System done by unilateral chewing.
UNITERMOS
Mastigação unilateral – Reabilitação Neuroclusal – Leis de
desenvolvimento.
KEYWORDS
Unilateral mastication – Neuro-oclusion Rehabilitation – Laws of
development.
INTRODUÇÃO
Para que possamos fazer um correto tratamento em ortopedia
funcional dos maxilares, é de fundamental importância sabermos o lado
que preferencialmente o paciente mastiga, isto porque de acordo com as
leis planas de desenvolvimento, com o aparecimento da mastigação
unilateral teremos alterações no desenvolvimento da face, como
assimetrias (alterando a correta mastigação), mordida cruzada (no lado da
mastigação viciosa), fonação e respiração além de ter um aumento da
placa bacteriana no lado oposto à mastigação como conseqüência
adensamento da doença periodontal, em decorrência da mastigação
unilateral, como um maior acumulo de tártaro e grande perda óssea no
lado oposto a mastigação( LARATO 4 , 1970).
Para que possamos ter um correto desenvolvimento da mandíbula
e maxila devemos ter uma mastigação bilateral alternada, multidirecional,
para o correto estímulo das estruturas de suporte, estabilidade da oclusão
e higiene dos dentes RAMFJORD E ASH7 (199.) (livre de interferências
oclusais, com o maior número de contatos dentários durante os ciclos
mastigatórios).
Também se deve compreender que um dos motivos de recidivas
de casos tratados com ortopedia ou mesmo ortodontia ocorre devido à
falta de mastigação bilateral (SIMÕES 12 , 1998).
Existem vários métodos de identificação do lado mastigatório,
serão citados os métodos mais usados na odontologia e áreas afins.
CAUSAS DA MASTIGAÇÃO UNILATERAL
PLANAS 6 (1997) em seu livro cita a disfunção unilateral,
patologia apresentada como lei diagonal de Thieleman, esta lesão ocorre
devido a um contato prematuro no lado de trabalho, pela erupção do
terceiro molar, causando deslocamento para vestibular do incisivo lateral
do lado oposto. Ainda segundo Planas dor causada por cárie, restauração
incomoda, prótese em desequilíbrio no mesmo lado da lesão, é descrita
como “lesão periodontal por disfunção unilateral” também é causa de
mastigação unilateral.
A falta de uma mastigação vigorosa pode causar uma deficiência
no desenvolvimento do sistema estomatognático, podendo levar a uma
mastigação unilateral pela falta de desgaste dentário fisiológico,
ocasionando
contatos
prematuros,
impedindo
um
correto
ciclo
mastigatório bilateral alternado. Se analisarmos a dieta moderna, iremos
verificar a falta de consistência dos alimentos, pela ótica da reabilitação
neuroclusal (RNO) não teremos um correto desenvolvimento do órgão
mastigatório, ou seja, não alcançaremos a correta excitação neural. De
acordo com Simões uma alimentação branda reduz a movimentos
horizontais; um alimento duro e seco aumenta este movimento, citando
ainda que a eficiência mastigatória depende do estado da dentição; língua;
tecidos orais e periodontais; hábitos alimentares; tempo para comer;
deglutições sucessivas durante a mastigação; saliva.(SIMÕES 11 , 1989).
LIMA3 (1999) Os alimentos devem ter textura correta para exercer
sua função estimulatória, os alimentos devem ter dureza mastigatória,
para o correto desenvolvimento facial.
CONSEQÜÊNCIAS DA MASTIGAÇÃO UNILATERAL
Teremos como conseqüência direta da mastigação unilateral
viciosa uma desarmonia facial como alterações verticais, transversais e
horizontais nos ossos maxilares e ainda modificações no padrão muscular,
propiciando alteração do órgão mastigatório, fonação, respiração.
MARQUES JÚNIOR E LENCI5 citam em seu artigo as alterações
ocorridas nos osso da face, devido à mastigação unilateral, temos como
exemplo o Diagrama Marques das Leis Planas (figura1) pode observar
nesse diagrama as possíveis alterações de uma mastigação não alternada.
.
Figura 1.
De acordo com as Leis Planas de desenvolvimento, a mandíbula é
dividida (conforme o seu desenvolvimento embrionário) em duas porções,
hemi mandíbula esquerda e direita. Se o paciente mastigar apenas do lado
direito, teremos como conseqüência a distalização de todos os dentes
deste lado direito e a mesialização do lado esquerdo. Ficara evidenciado
em crânio seco que teremos uma mandíbula mais espessa no lado de
balanceio e mais delgada no lado de trabalho. Teremos modificações
também nos côndilos, no lado de trabalho ficara mais volumoso e no
balanceio delgado. Como conseqüência dessas alterações teremos uma
rotação da mandíbula para o lado de trabalho causando uma assimetria
facial.
A maxila é dividida de acordo com o seu desenvolvimento
embrionário em três setores, dois posteriores e um anterior (ARAGÃO2 ,
1992), se fizermos trabalho apenas no lado direito, haverá a mesialização
dos dentes do lado trabalho e distalização no balanceio, evidenciando um
giro da maxila para o lado de balanceio. No lado de trabalho notaremos
uma elevação da maxila (em relação ao plano de Camper) causando o
deslocamento superior também da órbita, alterando a posição do olho
ficando mais alto, como os olhos devem ficar paralelos em relação ao
solo, o paciente se obrigara a promover um giro compensatório do
pescoço, causando uma alteração no padrão muscular de equilíbrio do
crânio. No lado de balanceio notaremos que em relação a Camper,
ocorrera um afastamento para inferior.
Essas alterações citadas acima ocorreram devido a uma mudança
no padrão mastigatório ocasionada pela alteração do modelo muscular,
então como lógica a mastigação unilateral causa mudança nos padrões
musculares que como conseqüência alterações nas bases ósseas gerando
um desequilíbrio em toda a face.
Deslocamentos de disco, dores articulares são evidenciadas no
lado de trabalho, devido a uma sobrecarga da musculatura e articulação.
Em um estudo foi observado, em animais, que com a remoção da
musculatura e inervação de um dos lados, o crânio desenvolve-se só do
lado não removido, demonstrando a relação entre musculatura facial,
mastigação e crescimento ósseo(SÁ FILHO 9 , 1999).
De acordo com SANTOS8 (1998) o crescimento harmônico da
face será indicador da função mastigatória equilibrada, já se notarmos
uma diferença na altura entre a hemiface esquerda e direita, poderá
indicar mastigação viciosa predominante do lado de menor altura de face
média.
METODOS DE DIAGNÓSTICO:
OBSERVAÇÃO
DIRETA
DA
MASTIGACAO
DE
ALIMENTOS
Essa técnica é a utilizada normalmente pelas fonoaudiólogas e
consiste em dar um alimento (normalmente pão) ao paciente para que este
o mastigue. Durante a mastigação o profissional observa se há ou não
preferência por algum lado. Essa técnica tem a vantagem de mostrar o
lado atual da mastigação do paciente.
PARALELAS
FUNCIONAIS
E
ÂNGULO
CRÂNIO-
ESCAPULAR
Idealizado por SCARLATI10 (1998), essa técnica consiste em
através de uma foto, traçar uma tangente a cada ombro do paciente e
medir o ângulo formado com o plano sagital mediano. O ângulo menor é,
normalmente o lado onde o AFMP é menor e como conseqüência o lado
da mastigação.
ÂNGULO
FUNCIONAL
MASTIGATORIO
PLANAS
Descritas pelo professor Pedro Planas e modificado por José Lázaro, essa
técnica consiste em traçar diretamente na superfície dos dentes anteriores
o movimento da mandíbula dos pacientes. Para tanto se coloca uma
caneta de retroprojetor entre as mesiais dos incisivos superiores e a seguir
pede-se para o paciente fazer movimentos de lateralidade para a esquerda
e direita. Observa-se o ângulo formado. Sendo os ângulos iguais, o
paciente apresenta condições mecânicas de mastigar de ambos os lados.
Caso um dos ângulos seja menor, do lado oposto é que o paciente
apresenta condições mecânicas de executar a mastigação.
CIRCUITO DAS FORÇAS
De acordo com a teoria do circuito das forças descrita por
ALMEIDA1 , (1998) durante a mastigação, ocorre um golpe da mandíbula
na maxila, deflagrando, no lado de trabalho, uma força nos dentes
superiores, de distal para mesial e nos inferiores, por ação e reação, de
mesial para distal. Essas forças atuando sobre os dentes promovem
crescimento ósseo e alterações na posição dentária. Quando a mastigação
se processa durante um período de tempo suficientemente longo,
podemos ter modificações nos seguintes parâmetros; desvio da linha
média: a linha média se desvia para o lado de trabalho, uma vez que, pela
decomposição de forças, ocorre um movimento dos dentes maxilares para
o lado de trabalho e dos mandibulares para o lado de balanceio;
crescimento ósseo: ocorre um crescimento nos sentidos vertical e
transversal na maxila no lado de trabalho e um crescimento longitudinal
da mandíbula no lado de balanceio. Ainda na mandíbula, observamos um
espessamento ósseo no lado de trabalho. Essas assimetrias podem ser
facilmente observadas quando usamos um modelo gnatostático.Desvios
de maxila e mandíbula: devido a esse crescimento ósseo assimétrico, a
mandíbula tende a desviar para o lado de balanceio, enquanto que a
mandíbula tende a desviar para o lado de trabalho. Assimetrias faciais:
essas alterações ósseas podem ao longo do tempo provocar assimetrias
faciais. No lado de trabalho, elas tendem a fazer com que as estruturas
estejam mais perto do plano sagital mediano e numa posição mais acima
do que as mesmas estruturas, no lado oposto. Dessa forma, por exemplo,
o olho no lado de trabalho pode se apresentar um pouco acima do lado de
balanceio.Movimentações dentárias: de acordo com o circuito das forças,
nos casos de perdas dentárias, os dentes maxilares apresentam uma
tendência a mesialização no lado de trabalho e a distalização no lado de
balanceio. O oposto ocorre na mandíbula, com os dentes do lado de
balanceio tendendo a mesialização e os do lado de trabalho a distalização.
Ocorre também uma tendência à extrusão dos dentes maxilares no lado de
trabalho e dos mandibulares no lado de balanceio.
MODELOS GNATOSTÁTICOS
Se tivermos em mãos modelos gnatostáticos, devemos lembrar
que a base do modelo é paralela a Camper, deve-se pegar o modelo
superior e observar qual lado está mais perto da base do modelo, este será
o lado predominante da mastigação.
CONCLUSÃO
Ao final deste estudo podemos concluir que é de extrema
importância o diagnóstico precoce da mastigação unilateral, isto porque
quando mais cedo o for, menor serão as seqüelas. Não só a ortopedia
funcional dos maxilares deve estar ciente dessas alterações, mas todos as
especialidades da odontologia, ao examinarmos nossos pacientes durante
a primeira consulta de anamnese, devemos perguntar qual o lado
mastigatório, e após isto conferir esta afirmação, e caso identificado, o
problema, tratar ou encaminhar para um profissional habilitado,
prevenindo assimetria faciais, mordidas cruzadas, disfunções articulares
como dor e deslocamento do disco, alterações nos padrões mastigatórios,
fonação e respiração.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. ALMEIDA, D. A , LINDBERGUE . M.C.A. Circuito das
forças: escultura da arquitetura facial através dos
movimentos fisiológicos. Revista Brasileira de Postura e
Movimento2, n. 4, p.121-9.1998.
2. ARAGÃO,
WILSON.
Ortopedia
funcional
dos
maxilares.São Paulo: Pancast, 1992. p.58.
3. LIMA, Maurício Vaz; SOLIVA, Humberto. Reabilitação
Dinâmica e Funcional dos Maxilares Sem Extrações. 3ª
ed. Rio de Janeiro: Pedro Primeiro, 1999. p.21.
4. LORATO, D.S. Efects of Mastigation. Journal of Oral
Medicine , n. 3, jul/sep. 1970.
5. MARQUES JUNIOR, J.A.; LENCI, P. R. Conseqüências
da Mastigação Unilateral no Desenvolvimento e Equilíbrio
do
Sistema
Estomatognático.
Disponível
em:
http://www.ortodontiaemrevista.com.br/artigos/mastig_uni
lat.htm Acesso em 12 mar. 2003.
6. PLANAS, PEDRO. Reabilitação Neuroclusal. São Paulo:
Medsi. 1997. p.102 a 103.
7. RAMFJORD,
S;
ASH,
Panamericana. p. 106-109.
M.M.
Oclusão.
3ª
ed.
8. SANTOS, J. L. B. Como resolver Pequenos problemas
Ortodônticos sem o Auxílio do Especialista. Atualização
na Clínica Odo ntológica-XVII Congresso Paulista de
Odontologia. Artes Médicas. 1996.
9. SÁ FILHO, Floriano Peixoto. Bases Fisiológicas da
Ortopedia Maxilar. 2ª ed. São Paulo: Santos, 1999. 71p.
10. SCARLATI, A. Paralelas funcionais e ângulo crânioescapular: novos métodos de diagnóstico para disfunção do
sistema estomagnático. J. Bras. Ortodon. Ortop. Facial,
n.3,p.65-70, mar.-abr. 1998.
11. SIMÕES, WILMA A. Ortopedia funcional de los
maxilares, vista através de la Rehabilitación NeuroOclusal. Caracas: Isaro. 1989. p. 111.
12. SIMÕES, W. Visão do crescimento mandibular e maxilar.
J. Bras. Ortodon. Ortop. Facial, n. 3, p.9-18, maio.-jun.
1998.
Download

Causas e Conseqüências da mastigação unilateral e