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.SUMÁRIO
Capítulo
01- Considerandos
02- EU
03- ELES
04- NÓS
05- LÁ
06- Escaramuças e um Plano
07- Marchas e Contramarchas
08- As Coisas Podem Ser o Que São, ou Não
09- Desenvolvimentos de Uma Situação Impossível
10- A Paralaxe do Equinócio
11- A Gênese da Realidade
12- Complicações e Soluções Mas Nada de Graça
13- A Verdadeira Complexidade da Simplicidade
14- As Complicações do Ofício de Rei
15- Discussões Dentro da Água e Decisões Sobre o Que Fazer
16- Sustos e Suspiros
17- Atos de Braxl
18- Onde se Vê Que a Liberdade Não é Prática Universal
19- Conhecendo o Inimigo
20- A Batalha do Incrível
21- Interações Domésticas
22- Encontro Com o Perigo
23- A Mão de Obra Continua
24- De Volta á Guerra Chata
25- A Outra Face da Moeda
26- Pompa e Circunstância
27- Coda- Só Para Não Terminar Como Novelas que finalizam tudo
Em Uma Folha de A4
28- Coda da Coda- Ou Seja Não é Fácil Terminar
PAG
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477
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Memórias
Do Amanhã
ou
O Aqui e o Lá
O’Aranha
Editora PerSe
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Capítulo 1-Considerandos
A memória é uma coisa engraçada, pois precisa ser
exercitada para funcionar como se espera. Isto é, sua
principal função é manter na lembrança os fatos da
maneira como aconteceram. Mas como este processo sofre
certo enfraquecimento ao longo do tempo e, se não fosse
para vencer o tempo trazendo os fatos sempre presentes,
para que então teríamos memória? Então é necessário
preservar esta faculdade, ou seja, o trabalho necessário
para a manutenção da mesma se torna importante.
Tentando assim fugir a este efeito existe o recurso de
escrever, pois quando escrita a lembrança fica mais viva e
mais detalhes podem ser anexados a uma realidade
mantendo-a nítida na lembrança. Sendo então possível
aumentar sua proximidade cada vez mais e aproximar de
um estado que se encaixe no ideal a ser resguardado,
formando um quadro de complexidade crescente. É
também importante nos lembrarmos, que recriar a
realidade é um passatempo muito interessante, ou então
não existiriam tantos escritores neste mundo.
...
Há coisas que devem ser escritas, mas nunca
foram, há coisas que podem ser escritas, mas não devem e
há coisas, que poderiam ser escritas, mas são demasiado
aborrecidas para merecer a distinção, mas o que estou
escrevendo agora, não se encaixa em nenhuma das
categorias acima. É tão inacreditável, que pode ser escrita e
descrever toda uma realidade e mesmo assim, nem mesmo
ser considerada como uma vaga possibilidade de verdade,
no entanto esta deve ser resguardada para os que
entendem. É também tão terrivelmente verdadeira que
não deveria ser escrita, mas ainda assim a escrevo, pois não
fará nenhum efeito no tempo nem nas pessoas, mas ao
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contrário da terceira categoria não é nem um pouco
aborrecida mesmo não sendo absolutamente crível. Toda
esta pseudo-bagunça entre verdade, realidade e
credibilidade é uma componente inseparável, de um
acontecimento real, mas que sendo tão fantasticamente
inacreditável, pelo menos para a imensa maioria das
pessoas que o mundo considera como sérias, não pode ser
considerado como verdade, então não pode ser aceito
como real e assim ninguém pode acreditar nele.
Mas como aconteceu e aconteceu comigo escrevo
a história nem que seja para mim mesmo, não dando
nenhuma atenção aos que pensam que sabem mais e que
se contentam em espojar-se em seus pensamentos auto
animadores, meros auto perpetuantes da própria
importância auto concedida... Vê-se que não dou muito
valor a estes tipos, que substituem a realidade por seus
próprios pensamentos e por aquilo que pensam que seja
sua grande sabedoria.
A realidade é muito maior que estes pensamentos
e muito maior que qualquer pretensa ciência, já que a
ciência é a verdade, pois a percepção do homem está em
perpétua mutação e nenhum quadro da realidade pode ser
estático o suficiente para ser verdadeiro, assim a verdade
não se enquadra em nenhum padrão fixo, mas é expansível
como o próprio universo.
Assim aconteceu e aconteceu comigo! Por quê?
Não sei. Não foi por mérito, mas por algo deve ter
sido desde que como místico não creio no acaso e a
própria teoria do caos, demonstra que o acaso é a
expressão de uma lei que nosso intelecto ainda não
alcançou. O universo é um imenso campo de
possibilidades e por estarmos presos a apenas uma delas,
negamos a existência das outras, perdendo assim a
qualidade da diversidade da manifestação, pois criamos
uma prisão para o pensamento que não consegue
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examinar outras qualidades da realidade. Eistein iniciou
um imenso mergulho da imaginação disciplinada pela
matemática, por estes imensos rios que cruzam os campos
da realidade, seguido e seguindo muito de perto a Max
Planck, Heisemberg e tantos outros, assim a realidade se
viu expandida quase à força. Mas o homem comum não
emprestou sua energia a esta visão muito maior que a sua
própria, assim estas descobertas ficaram limitadas a uns
poucos milhares de pessoas, entre os bilhões de seres
humanos existentes, não encontrando ainda sua plena
energia para manifestar-se como uma descoberta real, de
grande importância para o conjunto terra/homem. Esta
descoberta ainda não tem força para mudar o homem em
seu dia a dia, assim passa como que despercebida para a
imensa maioria das pessoas.
Mas no presente, a difusão e disseminação do
computador pessoal, está criando condições para que os
limites da realidade sejam finalmente expandidos e vistos
como ilusões impostas pelo homem a si mesmo. Assim
talvez finalmente sejam ultrapassados, para que o homem
possa penetrar na imensa maravilha que é o Universo e a
natureza, livre da escravidão do intelecto mal informado
que forja imagens determinantes. Um intelecto
verdadeiramente livre, não suporta as peias de qualquer
determinismo. Mas os fatos que aconteceram são tão
fantásticos, que sua ordem e sucessão normal correm o
risco de se embaralhar de uma maneira muito complexa na
memória, perdendo assim coesão. É por isso que vou
escrever antes que a idade me leve o melhor da memória e
assim termine sem os marcos que me fazem eu mesmo,
para me tornar em uma massa vivente amorfa e sem
referências, vivendo do presente, sem nada de passado,
como tantos que vivem nesta época de maravilhas, que é
de onde estou escrevendo estas linhas.
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Capítulo 2- EU
Aos vinte e seis anos de idade, estava em uma
situação muito peculiar, em relação aos outros rapazes da
mesma idade, pois não conseguia uma interação efetiva
com as outras pessoas, andando pelo mundo como que
mergulhado em um oceano de melado grosso, que me
dificultava os movimentos até não restar vontade de ir a
parte alguma. Eu vivia é claro, falava com os outros, comia,
lia, praticava esportes, namorava, ria das piadas dos outros,
mas não fazia piadas me parecendo que a vida deveria ser
outra coisa, talvez melhor dimensionada para produzir
interesse, faltando claramente algum tipo de cimento de
integração em meu caráter. Viver deveria ser mais do que
tudo que estava fazendo, mesmo do que me aparecia como
alternativa para o futuro. Tinha alguns amigos que poderia
dizer que eram verdadeiros e mais ainda, dois primos que
viviam na cidade de Curitiba, que eram Tite e Nando, com
sua família nada padrão, ou seja, Tite tinha seis esposas e
Nando duas!
Eram meus amigos e meus instrutores, pois fui
aluno deles durante praticamente toda minha vida,
aprendendo realmente muita coisa com estes malucos,
conforme vai ficar bem evidente durante esta narrativa.
Desde que me lembrava e por uma determinação especial
do destino me lembrava de coisas que me aconteceram
bem cedo, era um tanto diferente dos outros. Não de uma
maneira agressiva, nem de uma maneira muito evidente,
ou então seria candidato certo a uma terapia, que se não
repudiava também não desejava nem um pouco, pois não
via porque me aproximar das outras pessoas, ou se isso
seria algo tão compensador que merecesse o esforço de
longos anos com um terapeuta. Afinal não era tão infeliz a
ponto de achar que o mundo estava errado ou mesmo
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injusto, simplesmente era assim e pronto, os outros é que
se virassem, não eu, que era e continuaria sendo do jeito
que estava acostumado a ser; quem não me quisesse que se
lixasse.
Assim estava céptico quanto ao homem e algo
solitário, mas não infeliz.
Gostava
de jogar xadrez, um prazer
verdadeiramente solitário, pois você se recolhe no interior
mais escondido do seu ser e espera a maravilhosa
oportunidade de enfiar uma faca nas costas do adversário,
que se for verdadeiramente jogador, estará esperando
gostosamente a mesmíssima oportunidade. Tinha
alcançado certo nível no jogo a ponto de ser respeitado a
nível estadual. Tinha acabado de encontrar o jogo de
tabuleiro mais interessante do mundo, o jogo do GO, que
possui não mais que nove regras muito simples, que
tomam cerca de vinte minutos para aprender e a vida toda
para aperfeiçoar.
Este jogo possui a verdadeira sutileza da estratégia,
onde cada movimento exprime uma visão da arte do
conflito, onde o pensamento indireto é o ápice de uma
concepção da realidade e a tática o resultado do bem
pensar. É um jogo verdadeiramente maravilhoso para o
estudo do ser humano, principalmente sob tensão, pois
atinge como o xadrez, mesmo que de uma maneira
diferente, todo o contexto de aprendizado das relações
humanas sob os mais diferentes aspectos. Ou seja, como
agir quando preso a um contexto limitado por regras, mas
ilimitado para a imaginação, como agir frente a um
adversário que não pode tratar como inimigo, como criar
sob os aspectos da possibilidade de ser contrariado e como
reagir quando se é efetivamente contrariado.
Estes jogos me possibilitaram o estudo prático da
arte de planejar.
Como recreio eu e alguns amigos estávamos
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escrevendo um opúsculo sobre a estratégia de outro jogo,
chamado Diplomacia, onde as regras da guerra se
misturam com o mais puro Maquiavelismo e você não
pode confiar nem mesmo em si próprio. O estudo da
estratégia indica um temperamento dirigido a solucionar
os conflitos da maneira mais econômica possível, usando a
lei do menor esforço, sempre sem esquecer que o menor
esforço para se fazer algo, pode envolver quantidades de
energia maiores que o máximo disponível, assim o esforço
ser real na maior parte das vezes. Para coroar isso, sempre
tive a maior fascinação pelas artes marciais orientais,
portanto sou um praticante de Kon-Fu e por contraditório
que seja de Ai Ki Do já a mais de dezesseis anos, junto com
a esgrima, tanto ocidental como oriental, pois diferenciar
neste nível é ilusão, nesta altura meus primos eram muito
importantes desde que eram mestres nestas artes.
Quando cumpri meu tempo como oficial da
reserva do exército, tinha treinado muito tempo com
armas de fogo, principalmente as curtas, me aprimorando
na arte do tiro ao alvo, tanto estático como dinâmico ou
tiro à silhueta. Tudo isso indica um temperamento algo
dirigido para a paranóia e não nego que houvesse uma
presença marcante de idéias persecutórias em meu
temperamento, sendo que isso somente reduzia minha
vida social aos amigos mais indispensáveis e a pouca gente
mais. Nessa época graças a uma herança não esperada, mas
bem vinda, havia construído a casa de meus sonhos em um
terreno quase de meus sonhos. Logo de início briguei com
a Prefeitura assim construí a casa com a fachada para
dentro, isso é virada para o quintal e não para a rua, sendo
que a parte virada para este lado era simplesmente um
paredão, sem janelas nem portas.
Assim vivia e estava pronto para eles e eles vieram,
não com um estrondo, mas sim com um pequeno suspiro
e a vida se tornou cheia e maravilhosamente completa
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depois de tudo. Mas isso não foi percebido de imediato,
instalando-se lentamente na minha consciência até me
mostrar que a vida valia a pena ser vivida, que o viver é
uma coisa boa e que a felicidade até existe, para quem
souber procurá-la em si mesmo e não perder
oportunidades. Vieram e fui com eles, embora sem querer
muito ir mas indo mesmo assim e não encontrando o
arrependimento no fim do túnel.
11
Capítulo 3- ELES
Eles chegaram como chega o verão, isso é sem
alarde, mas de maneira que se pode sentir como definitiva.
Depois disso não mais poderia argumentar que a vida era
chata e aborrecida, nem que carecia de valores ou de
objetivos. Por um lado foi muito bom, por outro me
obrigou a procurar outros processos mentais para justificar
minhas atitudes, já não sendo mais possível me esconder
atrás da saia da mamãe, ou de minhas psicoses sociais para
espiar o mundo como espectador. A coisa começou muito
simplesmente com um acontecimento altamente estranho
e assustador.
Estava lendo em meu quarto em um sábado de
preguiça, onde o tédio levava o melhor de meu
temperamento e deixava a vida passar languidamente.
Escutei subitamente um zumbido forte, firme, contínuo,
percebendo que este fora se insinuando lentamente em
minha consciência, até se tornar uma presença indiscutível
e me forçar a tomar conhecimento dele. É claro que quem
vive só, no subúrbio de uma cidade grande, tem que
investigar tudo que acontece ao seu redor se não quiser
acordar com uma arma bem no nariz, assim, espantei a
moleza de meu corpo e fui examinar o que estava
acontecendo.
Encontrei a fonte do ruído na minha sala de estar.
Era uma coisa com a forma de um portal, bem no
meio da sala, feita de luz/energia azul, vibrando
fortemente e emitindo o zumbido que ouvia. Fiquei
admirado, pois aquela sala sempre fora o mais normal
possível e nada me poderia fazer imaginar o que faria uma
porta de energia ou de luz, zumbindo bem no meio dela,
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pois a forma indiscutivelmente era de porta. A coisa não
me assustou já que nunca tive medo do que não conhecia,
sendo o desconhecido fonte de prazer e alegria, não origem
de perigos ou problemas, me assustava muito mais o que
conhecia principalmente gente.
Mas mesmo assim me aproximei da estante de
livros, onde no interior de uma falsa Divina Comédia, São
Dante que me perdoe desde que o livro foi escolhido pela
espessura não pelo conteúdo, estava minha Colt .45
armada e engatilhada, um dos resquícios de minha
paranóia, mas que considerava como preocupação com a
sobrevivência. Mais perto da arma e com o falso consolo
ou impressão de segurança que me transmitia, pus-me a
observar o fenômeno, certo de que não se limitaria a uma
mera porta zumbidora.
Dito e feito.
No fundo da aparência de profundidade que
produzia houve uma modificação, como que uma falta de
nitidez, um ponto que se movia e se aproximava, uma
forma
saltitante
com
movimentos
imprecisos,
imprevisíveis, que ora encolhiam completamente e outra
vez tomava toda a largura e altura da porta em
movimentos espasmódicos sem sequência discernível, mas
que se movia indiscutivelmente e se aproximava.
A coisa toda durou cerca de três minutos, até se
tornar a forma de um ser humano e um rapaz
aproximadamente de minha idade como que saltou da
porta para o interior da sala, levou alguns segundos para se
orientar então me viu e ficou imóvel. No fundo da porta
azul, recomeçou o ciclo e me lembro de pensar que se o
fenômeno fosse em série eu estava em apuros, só que desta
vez saltou da porta bem para minha sala, um sonho feito
realidade, a mulher que sempre imaginei como sendo
minha, a perfeição em forma feminina, uma garota
verdadeiramente maravilhosa. Era alta, da altura que gosto
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em uma mulher, cabelos castanhos, olhos castanhos,
enormes e profundos como o pecado. Seios altos, com os
mamilos rosados e não muito grandes, cintura pequena
que explodia em um quadril maravilhoso, com o centro do
corpo coroado por um embigo mimoso, redondinho....
Espera aí... Seios... Embigo? Raios, ela estava
Pelada... !
Ela não, ambos, não que fosse notar ou descrever
o cara, mas era poderosamente musculado como eu
mesmo, aliás. Tenho certeza que reconheceria
imediatamente uma garota nua em qualquer ajuntamento
de pessoas, mesmo se estivesse só, mas no caso estes seres
humanos saíram de uma porta de energia azul, bem no
meio da sala de estar de minha casa, assim esta percepção
teve prioridade, só vindo a descobrir que não estavam
vestidos, quando me pus a examinar os atributos de minha
visão de sonhos em forma de uma garota. Aliás, percebi
logo a seguir não estavam simplesmente nus, estavam
vestindo um halo transparente de luz, trazendo
pendurados neste halo uma série de objetos que pareciam
flutuar ao seu redor, que imediatamente tratei de
classificar para ver se pareciam com armas.
Classifiquei
alguns
como
potencialmente
perigosos e voltei minha atenção para os dois, que estavam
bem ali parados sorrindo para mim. Eu é claro estava de
boca aberta sorrindo idiotamente também, mas uma
situação tão ridícula não possui substância para ser estável,
assim se moveram e vieram em minha direção. Como não
exibissem nenhuma atitude de agressão simplesmente
permiti sua aproximação. A um metro e meio de mim
pararam e o rapaz levantou a mão e pegou um dos objetos
que a mim pareciam potencialmente perigosos. Em um
movimento longamente treinado, fluido e sem
interrupções deitei o livro e dele saquei o Colt 45 e
quando o rapaz alertado pelo meu movimento se virou
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para mim, estava frente a frente ao cano, a extremidade
errada da arma, o que mesmo para quem não entenda
verdadeiramente o que está acontecendo não é uma
situação nem um pouco cômoda, o cano parece grande e
fundo como a eternidade.
O rapaz gelou, ficou com um ar um pouco vago
dando a impressão de que não sabia exatamente o que
fazer. Foi a moça que salvou a situação, falou calmamente
em uma língua fluida, com bastante vogais e veio em
minha direção o que era uma prova de bravura. Chegou
perto do moço pegando sua mão e a direcionou para longe
de mim. Fez tudo isso com um sorriso brilhante e
maravilhoso. O rapaz mantendo a direção do objeto que
tinha em sua mão pegou outro em sua aura de luz, o
transformou em uma espécie de tripé bem pequeno onde
montou o primeiro. Para fazer isso a garota ficou de costas
para mim e vi seu traseiro, mais um ponto de admiração
para ela. Era verdadeiramente perfeito, redondo,
arrebitado, forte, com um buço ralo, brilhante e discreto
em alguns segmentos, ele tinha personalidade, uma
verdadeira maravilha se é que já não disse isso antes.
Apontou uma das extremidades do objeto para ela e
dedilhando um pequeno painel de controle, que se
destacou repentinamente do mesmo fez uma manobra.
Saiu pelo alto do objeto uma folha de algo que me parecia
papel que o moço pegando o estendeu para mim.
Era uma fotografia em três dimensões dela, mas
impressa de uma maneira incompreensível já que era uma
folha, me parecia de metal bem flexível, algo assim como
uma folha de aço inox se comportando como uma folha
de plástico flexível de um negativo de fotografia e a
imagem estava impressa como um holograma, pois se você
a inclinasse, via claramente as costas da moça e aquele
monumental traseiro. Bem, raciocinei, quem me dá um
presente desses não pode estar com más intenções a meu
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respeito, assim joguei as precauções para longe, guardei o
raio da pistola, a Colt seus maliciosos, indo a seguir até à
gaveta de um móvel que estava por trás de mim, onde
peguei algumas fotos em relevo, dessas que comportam
diversos planos e que são usadas em livros e brinquedos
infantis. Dei as fotos para eles que se deliciaram com a
coisa, guardando-as no final em seu halo de luz, o que não
era um prejuízo muito grande e a mim parecia uma troca
justa pela foto dela "pelada".
Tudo era maravilhoso, eram sem dúvidas muito
interessantes, mas havia ainda uma pequena questão
aberta, ou seja, quem eram e principalmente o que
queriam, pois gente que sai pelada de portas de
luz/energia tremeluzente bem na sala da gente, tem que
ter um objetivo. Não consigo nem mesmo imaginar o que
queriam, de onde vieram e não sei que mais, pois a
situação mesmo que ainda sob controle, podia tomar
qualquer rumo e até mesmo ser perigosa. Neste momento
começaram a lidar com seu halo de luz e o rapaz tirou
algumas coisas e ela também de sua própria, assim
montaram outro negócio sobre o tripé, que parecia uma
máquina fotográfica dos antigos fotógrafos lambe-lambe
em miniatura, misturada com um rifle de caçar elefantes
para o uso do menor pigmeu que houvesse na face da
terra.
Estava longe da Divina Comédia, mas não me
importei, pois se você entra de cabeça em uma aventura,
aceita o que está acontecendo e assim não há como ficar
retornando o tempo inteiro aos seus antigos hábitos de
defesa e coisas assim. Já havia decidido que eram amigos,
assim amigos seriam até me desintegrarem em uma nuvem
de elétrons, ou seja, lá o que se forme depois que você é
transformado em seus elementos primários. Pediram-me
que sentasse em uma cadeira me apontando o cano do
negócio, mas fizeram rindo cordialmente e achei que não
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me fariam mal rindo assim, pois não pareciam
maquiavélicos, mas antes inocentes.
A garota me piscou e fez um gesto que não
entendi enquanto o cara ligou um minúsculo botão, ou o
que poderia ser um botão, mas poderia não ser e a coisa se
transformou em um túnel sem fim com uma espiral
girando no fundo. A coisa parecia que sugava a atenção da
gente para um local que não tinha fim, parecendo que
você estava girando com o mundo. Haviam luzes lá dentro,
muitas luzes, de todas as cores, que piscavam, se esticavam,
contorciam e pulsavam sem um padrão discernível e
comecei a sentir um adormecimento no corpo,
imaginando em um momento de pânico que estavam me
matando, mas agora não poderia fazer mais que curtir o
que estava acontecendo, se fosse a morte era muito
gostosa, morrer assim era muito bom. De repente abri os
olhos e estava deitado no chão, com a cabeça no colo da
garota maravilhosa e me senti no céu:
_ Morri ...! Isto tem que ser o céu.
Falou alguma coisa que me pareceu:
_ Tá bommmmmm!? Chique chique. Pelo menos
foi o que entendi...
_ Mas você é maravilhosa, nunca vi uma pessoa
tão linda como você...
Senti como que um estalo no cérebro, como se
uma cena se focasse de repente em minha mente e ela
estava falando:
_ ... mas você é muito gentil, esperava outro tipo
de procedimento da gente daqui, mas fico muito
agradecida pelo elogio.
_ Isso não é elogio querida me apaixonei no
instante que a vi, você é maravilhosa mesmo... E depois
como se tivesse percebido algo de novo, continuei, mas
este troço que vocês me deram é forte mesmo, até parece
que estou entendendo o que você está falando...
17
faz...
_ Mas você está, é exatamente isso que o Zólux
_ Zólux? Então o nome deste troço é Zólux? Mas o
que é que faz?
_ Analisou sua rede neural, estudou sua sintaxe
semântica, a ligação particular a você entre o som e seu
significado e inseriu em sua memória a língua que falamos,
o Universal.
_ Universal? Então vocês vêm das estrelas?
_ Sim... Isto é, mais ou menos, ainda não temos
elementos para explicar de onde viemos e um destes
elementos é você quem vai fornecer.
_ Eu?! Mas como...
_ Vamos cara levante daí e vamos conversar, pois
temos alguns assuntos muito importantes para falar com
você, disse o rapaz, mas não parecia autoritário nem estava
sendo antipático era um sujeito muito simpático.
É claro que me levantei apesar de achar que
poderia ficar mais um pouco naquele pequeno paraíso que
era o colo da moça, mas haviam assuntos a resolver e tinha
que dar prioridade à sua solução. Mas, pensando bem...
Que problema?
_Que problema temos que resolver? Perguntei
logo que me levantei.
Os dois pareceram constrangidos ou pelo menos
assim me pareceu, assim falei:
_Gente já que o assunto além de sério é um tanto
difícil, vamos resolver o mesmo na mesa da cozinha em
frente a uma garrafa de dois litros de refrigerante e
comendo alguns salgadinhos.
_Refrigerante? Salgadinhos? Será que o Zólux está
funcionando corretamente? Perguntou o sujeito.
_Vamos lá gente, também não entendo metade do
que vocês falam e nem por isso estou reclamando e
falando, assim fui em direção à cozinha.
18
Não tiveram outro remédio e vieram atrás, se
sentando onde lhes indiquei e quando pus a garrafa e
algumas coisas que estavam na geladeira ficaram olhando
admirados para o que estava fazendo. Quando abri a
garrafa e deu um pequeno estouro do gás quase se jogaram
debaixo da mesa, para então quando servi o refrigerante de
guaraná que tinha aberto, ficaram ainda mais admirados
ao me ver tomando o troço. A garota mais corajosa ou
mais desmiolada, depois vim saber que era muito corajosa
mesmo e nem um pouco desmiolada, levou o copo aos
lábios e sorveu um gole.
_ Nossa que coisa estranha disse, borbulha na
boca, tem um gosto ácido doce, desce muito fria pela
garganta e para mim para que serve?
Que pergunta mais estranha, para que serve um
refrigerante, na verdade nunca havia pensado nisso, mas
para que serve um refrigerante? No entanto tinha que dar
uma resposta, pois isso de ficar bebendo uma coisa que
não serve para nada, não parece muito racional:
_ Um refrigerante é uma bebida refrescante que se
toma para tornar uma conversa mais interessante, é
ligeiramente estimulante, é gostoso e parece que dá ao
tempo uma dimensão mais acentuada, assim também é
bebido quando estamos sós e prossegui. Também se toma
depois de um esforço físico para repor a água perdida pelo
suor, possuem eletrólitos que ajudam a recompor o físico.
Sabe gente beber refrigerante é um hábito tão difundido e
considerado tão normal que nunca me perguntei por que
o faço. A melhor resposta talvez seja que bebo por que
gosto.
_ Nesta época era muito difundido o uso de
inebriantes com álcool etílico, este é um deles?
_ Não amigo, não é um deles, não gosto de
bebidas com álcool pois atuam na consciência e diminuem
a acuidade cerebral. Não bebo álcool desde que fui a um
19
casamento, onde colocaram bebida demais em meu copo e
bebi sem perceber. Depois aconteceu que perdi uma
namorada de quem gostava um pedaço e junto com ela
três amigos. Isso mostrou que o álcool não é meu amigo,
pois no fim e ao cabo amigos de verdade não abundam por
aí.
_ Interessante pensei que tivesse que contornar
muito convite para tomar bebida alcoólica, pois me
ensinaram que recusar uma bebida aqui é um insulto
muito grave, disse o rapaz.
_ Talvez a alguns anos atrás, vamos dizer uns
cento e poucos e em outro lugar, como por exemplo o
velho oeste americano ou outros lugares pitorescos assim,
isso pudesse ser verdade, mas aqui caro desconhecido
somos mais civilizados...
_ Isso me leva a um ponto muito importante, meu
nome é Vish, o de minha irmã é Káa, e o seu é Vítor,
assim ficamos nos conhecendo e não precisamos mais ficar
falando amigo, cara, desconhecido uns para os outros.
_ Como é que vocês sabem meu nome? Aliás,
quem são vocês e de onde vieram?
_ O que é que você imagina...
_ Absolutamente nada Káa, nunca vi ninguém
saindo de portas de luz/energia azul bem na sala de minha
casa, não sei o que pensar nem o que dizer só que vocês
me parecem boa gente...
_ Parecemos é?! Depois explica como é isso, tá
bem? Mas vamos aos fatos, para poder explicar de onde
viemos e para quê...
Quando começam a falar desse jeito ao meu lado
começo a ficar nervoso, pois isso me soa como uma missão
e não gosto de missões, não gosto também de quem
assume que tem missões, pois isso significa que a pessoa
está pronta para sacrificar tudo de bom que tem, em prol
de uma idéia, sacrificar o concreto em troca do abstrato,
20
ou seja, o que existe pelo que não existe só está em sua
cabeça. Não sou materialista se é esta a idéia que estou
transmitindo, acredito que haja pessoas que realmente têm
uma missão, mas esta não sacrifica vidas, não oprime os
outros e se impõe naturalmente pelo tempo e pela
verdade.
_ Procure prestar atenção, pois o que vamos falar
não é muito fácil para alguém de seu tempo entender, mas
somos do futuro e viemos de um planeta mutíssimo
distante da terra.
_ Mas são humanos? Ou possuem outra linha de
evolução...(?)
_ Definitivamente somos humanos, somos
descendentes dos pioneiros que abandonaram a terra em
busca de vida melhor pelo universo e colonizaram uma
parte bem considerável da Galáxia.
_ Não posso nem mesmo imaginar isso, se bem
que esteja acostumado a ler ficção científica, mas a quanto
tempo estão à minha frente no futuro ?
_ Estamos oito mil anos à sua frente no tempo...
_ Oito mil anos? Mas... A Suméria, o Egito, estão
mais próximos de nós que vocês, isso é inimaginável, para
vocês sou pior que o homem de Neandertal é para mim,
talvez pior não seja o adjetivo, o adjetivo correto deve ser
primitivo...
_ Vítor foi desta fase que surgiram os elementos
básicos da civilização, ou seja, a Física Quântica e a
Relatividade, com estas duas concepções do universo as
viagens espaciais puderam ser feitas, atingir as estrelas
ficou mais fácil, foi daqui desta época que surgiu o
impulso contra o preconceito, não de maneira muito
visível para agora, mas com reflexos muito fortes no
futuro, não menospreze o seu aqui e agora.
_ Vish temos sempre a tendência de não dar valor
ao que temos, é aquela história de que a grama do vizinho
21
é mais verde.
_ Grama? Grama do vizinho mais verde? E por
que seria? É de uma espécie diferente?
_ Vish isto quer descrever um comportamento
animal e transportá-lo como exemplo para os humanos, ou
seja, a tendência da vaca é sempre passar para o pasto ao
lado, assim dizemos que a grama do vizinho é mais verde,
quanto aos seres humanos descreve a tendência de achar
que as coisas do outro são maiores e melhores que as
nossas.
_ Ah! Interessante...
_ Bem gente, mas como é que vocês vieram para
cá e por quê?
Um olhou para o outro de um jeito cauteloso que
poderia até mesmo parecer manhoso, que não gostei nem
um pouco, pois me informou que queriam alguma coisa
de mim que possivelmente não ia querer ceder, mas como
ainda não havia acontecido, continuaria como se nada
estivesse acontecendo até acontecer, então... Aí veria o que
fazer. Não estava desconfiando deles, ou seja, não pensava
que queriam me matar ou coisa parecida, mas talvez não
gostasse do que queriam de mim, o que pelo trabalho de
viajar todo este tempo, talvez não estivessem com
disposição de receber um não como resposta. Mas
antecipar problemas era uma segunda natureza de meu
temperamento paranóico, no entanto mesmo eu nesta
altura dos acontecimentos, encantado pelas possibilidades
do momento, já não prestava muita atenção aos cuidados
que exigia de mim mesmo.
_Vítor você vê, a tecnologia do futuro avançou até
um ponto quase inconcebível para pessoas desta época,
mas ainda é uma simples questão de energia e como
utilizar esta energia em proveito de algum trabalho que se
deseje realizar, nada mais que isso. É claro que a definição
de trabalho e energia mudaram com o avanço do
22
conhecimento humano, mas a descrição continua a
mesma. Então se tivermos a energia suficiente, podemos
harmonizar dois pontos no universo até a centésima parte
da harmonia total possível, então é possível se transportar
até mesmo no tempo e muito facilmente no espaço.
_Mas para fazer isso é preciso que vocês conheçam
o local de minha sala de jantar o suficiente para conseguir
esta harmonia.
_De certo modo sim, mas a harmonia que falamos
é uma questão de energias, vibrações e mesmo outras
coisas que não conseguimos transmitir, pois falta o
vocabulário e o conhecimento para falarmos com você a
respeito, pode ser estimada da seguinte maneira. Sabíamos
a exata localização de sua casa, assim a harmonia do local
podia ser conhecida até duzentas partes do total possível e
isso é mais que suficiente. Tínhamos a descrição de sua
sala, ou seja, o chão é feito de madeira de pinho, depois
me conta o que é sobre uma laje de cimento, as paredes
são de tijolos de argila cobertos por uma massa de
proteção, há móveis de madeira e pano, com algum metal
em algumas posições, assim tivemos perto de setenta
pontos da harmonia total necessária, sendo que isso foi
compensado pelo que sobrava da localização.
_ Mas isso é inconcebível, como teriam a descrição
de minha casa a tanto tempo no futuro? Mandaram
espiões?
_ Não! Que idéia, a energia para produzir este
deslocamento é tão grande que está sendo utilizada uma
estrela azul de segunda grandeza, para fornecer a força
necessária, isso só pode ser usado em questões de grande
necessidade e uma vez somente, pois então teria que
refazer todas as conexões, toda a estrutura e a coisa seria
tão cara que nenhum mundo poderia pagar.
_ Então como explicam este conhecimento da sala
de minha casa?
23
_ Vítor, nós viemos até aqui exatamente para falar
com você.
Arrepiei todo, pois isso é uma coisa totalmente
impossível, ou seja, eu não tinha feito absolutamente nada
para permanecer no tempo e me fazer lembrado oito mil
anos na frente, o que será que o cara está querendo me
dizer?
_ Mas Vish isso não é plausível...
_ Escute Vítor e depois me diga... Vou te contar
uma longa história que vou lhe pedir que ouça com
atenção, então tudo vai ficar muito claro para você.
Chééééééé’! Só guaraná não vai resolver isso,
assim falei:
_ Espera um pouco Vish, vou fazer café.
_ Café...(?!) Ótimo sempre quis provar um pouco
desta delícia de que todo mundo fala, mas ninguém
conhece..
Assim fervi a água e fiz um destes cafés do jeito
que meu avô falava que deveria ser, quando servi houve
alguns trejeitos de revolta e coisa e tal, com gestos de bocas
queimadas, mas então falei:
_ Meu avô sempre disse que o único café digno de
ser bebido tem que ser negro como o demônio, quente
como o inferno e doce como o pecado e que quando posto
na boca, se cuspido em um cachorro o mesmo se afasta
ganindo!
_Nossa... Então o seu está bem assim...
_Vou colocar nesta garrafa térmica para
podermos repetir durante sua história e vamos lá meu
caro, solta a franga!
_ O que é franga? Perguntou Káa...
Já se viu que minhas conversas com estes dois não
iam ser muito fáceis.
_ Isto é uma expressão idiomática meu amor, se
escapa uma galinha do galinheiro, franga, é o maior
24
trabalho para recolher de novo, assim quando uma
história é muito longa dizemos solta a franga, que não é o
mesmo que dizer que fulano soltou a franga, que então
quer dizer que ele desmunhecou.
_ Vítor procure entender, temos que compreender
o que você está falando, assim me explique em primeiro
lugar o que é uma galinha, o que é um galinheiro, por que
estas excelentíssimas galinhas tinham que ser colocadas em
um e por que gostavam de fugir, depois, por favor, fale em
desmunhecar, pois nunca ouvi nada parecido com isso.
_ Suspiro! Bem galinha é uma ave doméstica que é
mantida nas residências para nos fornecer proteína animal,
pois são abatidas e se transformam em excelente comida,
sendo mantidas em um galinheiro, ou seja, um lugar
próprio para elas. Fogem do galinheiro, pois são irracionais
e não pensam...
_ Bem, se eu estivesse presa em um lugar para ser
abatida e comida eu também fugiria do galinheiro ora essa,
disse Káa.
_ Isso por que você pensa e sabe fazer uma
conexão entre causa e efeito minha cara, elas, as tais
galinhas não...
_ Bem e por que é necessário cortar a munheca de
pessoas quando soltam uma galinha do galinheiro? Isso
não um tanto drástico, mesmo considerando o período em
que estamos?!
_ Vish não se deve levar tudo à risca e
literalmente, desmunhecar realmente significa cortar a
munheca de alguém, mas também significa um homem
afeminado, pois este torce o punho de maneiras bastante
inconveniente para um homem.
_ Ah! Então desmunhecar é um homem com
trejeitos femininos!? Interessante e isso aqui não é bem
aceito?
_ Olha Vish, isso já foi olhado como muito
25
inconveniente e um comportamento anti-social, não sendo
bem aceito pela sociedade, mas hoje em dia é olhado como
um comportamento de eleição, ou seja, a pessoa faz sua
definição sexual e ninguém tem nada a ver com isso.
Alguns têm preconceito outros nem tanto e outros não.
_E qual a sua opinião sobre o assunto?
_Káa, se não se metem comigo não me importo
com o que os outros façam, se o cara quer ser homossexual
é um problema único e exclusivo dele, não me importo
nem um pouco.
_Ah! Bem... Qual sua tendência geral? Perguntou
Káa.
_Sou heterossexual se é isso que você quer saber...
_Isso é uma das coisas, mas digo em política e
outra coisas.
_Káa sou individualista e me defino como
nexialista, ou seja, uma pessoa que procura o nexo em
todas as coisas e a tendência principal de meu caráter, é
que sou místico.
_Interessante, depois vamos voltar a este assunto,
mas agora, por favor, vamos nos concentrar no que Vish
tem a dizer.
_Mas se foi ele mesmo quem provocou este hiato
minha cara...
_Sei, sei meu querido, mas agora vamos nos
concentrar tá bem?
_Bem Vítor, o homem abandonou a terra, no
meio dos anos dois mil, mas eram astronaves fotônicas,
que se rápidas para a época eram muito lentas para se
chegar às estrelas, até que um cientista criou ou descobriu
a teoria Espacial, ou seja, um vínculo mais estreito entre a
Física Quântica, o Relativismo e o espaço físico. Veja você
que tanto a física quântica como a relatividade tinham um
defeito muito constrangedor, já que tinham teses e
postulados que dificilmente eram provados ou que eram
26
provados com experimentos muito difíceis, como a
curvatura da luz ao passar pelo planeta Mercúrio,
provando a teoria corpuscular pela ação da gravidade
curvando o facho da luz e coisas assim. Pelos postulados
da Teoria Espacial, era o espaço que se movia e muitas
outras coisas que não é necessário dizer agora. Isso em
pouco menos de duzentos anos possibilitou a construção
de motores quânticos/relativistas, que podiam voar muito
mais rápido que a velocidade da luz, pois não eram as
naves que se movimentavam, era o próprio espaço quem se
movimentava e a nave com ele, mesmo que esta descrição
não descreva realmente o processo, só o ilustra.
Continuando:
_A humanidade é muito impaciente, assim antes
mesmo da descoberta deste tipo de motor, havia enviado
muitas naves com tripulação em estado de suspensão
animada, ou hibernação. Pode-se imaginar que muitas se
perderam e foram destruídas, mas houve uma proporção
surpreendentemente grande que conseguiu chegar a um
destino aceitável, assim quando começamos realmente a
nos expandir, encontramos já alguns sistemas habitados
por homens como nós. Depois de algum tempo uma
guerra eclodiu, pois todos os sistemas eram independentes
e cada um se julgava no direito de fazer o que bem queria
isso é claro não era bem visto por outros, pois o direito de
um colide bem no começo do outro e haviam constantes
invasões do espaço vital, uns dos outros. Esta guerra durou
muito tempo sendo mortas muitas pessoas, mesmo
sistemas inteiros foram obliterados completamente, até
que se chegou a um consenso, um governo central
controlador e governos em cada sistema ou grupos de
sistemas, subordinados a este. Isso funciona muito bem,
pois houve uma época de alguns milhares de anos em que
progredimos e formamos o que se chamou então de
civilização real, pois o progresso é contínuo e a vida chegou
27
a um nível muito bom, mas...
Ah! Surgiu finalmente o tal de mas que estava
esperando já a algum tempo, então até mesmo daqui a oito
mil anos ainda há um mas no horizonte...
_Mas... Instei o rapaz a falar.
_Você sabe que o ser humano tem uma tendência
para o fanatismo, bem no início isso era mais comum que
hoje em dia em nosso tempo, assim houve grupos de
fanáticos que se reuniram e fretaram ou mesmo
construíram naves para si, para procurar um planeta em
que lhes fosse permitido praticar sua forma de fanatismo
sem interferência, nem mau exemplo dos outros. De
tempos em tempos um destes grupos abandonava o
sistema em que estava e saía para procurar seu próprio
mundo onde pudessem fazer as coisas como achavam que
era correto. Isso era permitido e até mesmo encorajado,
pois isso levava embora os maiores perturbadores da paz e
dos outros homens, pois fanáticos perturbam os não
fanáticos. É claro que na expansão que já falei
encontramos alguns destes mundos, que depois das
guerras, se integraram e agora não aborrecem.
Continuando:
_Durante as guerras haviam mundos menos
avançados, que eram normalmente formados por gente
intransigente e não tinham um contato muito grande com
os outros e assim suas astronaves não eram tão avançadas
como as outras. Para encurtar a história, alguns dos
primeiros fanáticos que saíram da terra em suspensão
animada pelo efeito de aceleração contínua no espaço,
terminaram por imprevisivelmente se defrontar com o
Paradoxo dos Eixos.
_Paradoxo dos Eixos... Nunca ouvi sobre isso.
_Bem é um paradoxo ou uma coisa que contraria
as leis normais do espaço/tempo, ou parece contrariar,
pois nossos cientistas conseguiram evitar o efeito, mas não
28
explicá-lo, parece que quando se atinge determinada
velocidade, ou fração da velocidade da luz, existe a
possibilidade, somente uma possibilidade veja bem, de que
o espaço o encaminhe para um dos eixos de difusão que se
formam em função deste mesmo deslocamento, pois não
são estruturas estáveis no universo, então você é
transportado para um local tão longe que você não tem a
menor possibilidade de descobrir onde é ou de como
voltar. Assim neste local houve uma acumulação de gente
fanática ou extremistas, sem o colchão do povo comum
para diminuir seu ímpeto. É claro que a grande maioria
das pessoas que foram nesta direção, vieram das naves
menos equipadas dos mundos mais intransigentes, assim
acumulou-se na verdade um grupo enorme de gente com a
mesma tendência aos extremos, em um único lugar,
mesmo que uma proporção menor de gente comum tenha
também se encontrado nos confins que é como chamamos
agora este local. É claro que não sabíamos disso, nem
mesmo imaginávamos o que acontecera com as
espaçonaves que entravam no vórtice dimensional e
desapareciam para sempre. Mesmo depois que se
descobriu o Paradoxo dos Eixos, não se imaginou para
onde teriam ido estas naves. O efeito foi corrigido, pois o
que ocasiona o efeito é uma coisa bastante abstrata, ou
seja, há uma impressão de que em um eixo a velocidade da
luz é ligeiramente diferente do que no outro. A afirmação
de Eistein continua correta, a velocidade da luz é uma
constante universal, mas no eixo dos “Y” a velocidade
parece diferente, de uma maneira quântica, isto é uma
aparência de realidade que é quase nada, mera
possibilidade, assim é só evitar este ponto que o Paradoxo
é evitado ao mesmo tempo. Agora continuou
veementemente:
_Você percebe Vítor que estou falando de
maneira bem simplificada, quase uma descrição infantil do
29
que acontece na verdade, pois a verdade matemática pode
ultrapassá-lo bastante.
Bondade dele, a descrição matemática certamente
me ultrapassa completamente, pois não consegui ainda me
tornar proficiente na matemática de meu tempo, bem
próximo ao ano dois mil, imagine então como deve ter se
desenvolvido em oito mil anos, lá por dez mil.
_Mas continuou Vish, aconteceu uma coisa
completamente inesperada, eles nos encontraram...!
_Imagine a galáxia Vítor como uma enorme
espiral, nós ocupamos uma parcela da parte que envolve a
terra, pois essa foi nossa referência para a expansão e eles
uma parte pelo menos igual em tamanho no braço
imediatamente a seguir ao nosso a uma distância muito
grande, mas nos últimos anos, vieram colonizando
sistemas em nossa direção e de repente encontraram um
braço de expansão do Império.
_Isso parece ótimo, pois agora vocês têm o dobro
de planetas que pensavam, o dobro dos habitantes e muito
mais recursos, isto é dobraram de tamanho por um simples
encontro no espaço.
_Isso foi o que pensamos quando o contato se deu
e nos congratulamos bastante com isso, mas logo depois
veio o ultimato.
_Um ultimato?
_Sim, já o li tantas vezes que sei seu texto de cor:
“ Escutem degenerados do assim chamado
Império, quem vos fala é o chefe do Plano do Homem,
sua Divindade o Apóstolo Azul, o único e verdadeiro
governo que pode dirigir um ser humano, ouçam com
atenção. Somos os verdadeiros governantes da
humanidade, somos os únicos que podem se arrogar o
título de puros e por conseguinte os únicos verdadeiros
governantes a existir. Como somos os verdadeiros todos
30
os outros são falsos, assim exigimos a imediata rendição
do assim chamado Império, para que possamos tomar
conta dos homens da maneira que é assim designada pelo
Apóstolo Azul. Se nosso pedido não for obedecido
imediatamente isso significa a guerra imediata que
somente terminará quando o último homem do assim
chamado Império for exterminado, pois quando uma
alma fica em contato com a podridão por muito tempo,
carrega dentro de si todas as sementes da mesma. Não
queremos matar, não queremos destruir, nossa ação é
pacificadora e purificadora, assim convidamos os
governantes do assim chamado Império para uma
conferência para tratar dos aspectos da rendição imediata
em Lucir 2 em ...
_Depois vem a data e a hora, pois é Vítor alguns
embaixadores foram ao encontro e nunca mais se ouviu
falar a respeito deles. Em resumo a conferência foi um
golpe, pois enquanto tínhamos a atenção para lá,
desfecharam um ataque de quatro direções contra nós que
só foram contidos depois que perdemos alguns sistemas
planetários.
_Mas na verdade não são os sistemas planetários
que nos importa, há tantos que um a mais ou a menos não
tem a menor importância, são as pessoas que moram neles
que realmente nos entristecem, pois são vítimas da mais
cruel ditadura. Conseguimos informações sobre os
sistemas marginais do Plano do Homem, onde todos
vivem uma vida totalmente controlada, sem liberdade nem
para pensar nem para fazer nada fora de um rígido
esquema de planejamento e controle mental.
Continuando pesaroso:
_É uma das maiores crueldades que jamais se
supôs existir. Depois de perdermos quatro batalhas,
começamos a procurar informações sobre estratégia, pois
31
vimos que a superioridade das forças do Plano do Homem
não é tática, pois somos iguais em forças e armas, a
diferença é estratégica, assim procuramos informações
sobre grandes estrategistas. Alexandre da Macedônia foi
contatado, mas não conseguiu superar seus medos e
condicionamentos, assim foi abandonado depois de
convenientemente condicionado para esquecer o que
havia visto e falado. Depois descobriu-se que isso não
poderia ser feito, pois alteraria o rumo da história de
maneira total e completa. Continuando apologético:
_Assim descobrimos uma referência, em um dos
primeiros mundos que foram colonizados fora do sistema
solar, a um conceito estratégico emitido por um tal de
Vítor Aranha, que nunca foi citado em nenhum local
como general ou militar de espécie alguma. Esta pista foi
seguida cuidadosamente, mas muito cuidadosamente
mesmo e descobrimos algumas citações mais completas em
outro livro e até mesmo o nome de um livro de estratégia
que você escreveu juntamente com dois amigos. Viemos
para os campos arqueológicos da terra e em uma biblioteca
achamos um exemplar de seu livro que foi julgado muito
bom, pois não é uma teoria de aplicação direta a nada
material, ou seja, a alguma arma em particular, mas sim
uma ampla visão da própria essência da estratégia.
Estudamos você e sua vida e encontramos pontos
importantes para que fosse recomendado para esta visita,
havia até mesmo uma descrição da sua sala de visitas, em
uma carta que um senhor de nome Henrique escreveu a
outro de nome Alfredo.
_E aqui estamos nós...
_Bem Vish, muito interessante esta história, mas o
que tenho a ver com isso? Ou seja, o que desejam de mim?
_Mas é óbvio, queremos que você vá para nosso
tempo nos comandar nesta guerra vital para a
sobrevivência da civilização como a conhecemos.
32
_O QUÊ? Gritei eu de espanto, mas... Mas... Isso
é impossível não tenho qualquer experiência de comando
militar, pois meu serviço militar foi cumprido em uma
escola de formação de oficiais da reserva e cheguei a
segundo tenente, oficial subalterno, na ativa, mas sem
nenhuma experiência de combate ou mesmo de comando,
mesmo então não era possível me chamar de militar, mas
sim de estudante aprendendo os rudimentos da vida no
quartel.
_É exatamente isso que o recomenda meu amigo,
se você tivesse concepções presas a uma especialidade seria
totalmente inadequado. Você tem a condição de ver as
possibilidades abertas em todos os casos... Você é
exatamente o que necessitamos.
_Mas e meus dois amigos que me ajudaram a
escrever o livro a que vocês se referem?
_Em um esforço muito grande de investigação,
descobriu-se que ambos seguiram suas vidas e cumpriram
seus destinos...
_Ué e eu?
_Você simplesmente desapareceu como que no ar
e nunca se descobriu nada à respeito do que aconteceu...
_Ah! Então é isso, se não aceitar vão me raptar e
levar à força, pensei em um rápido relance e falei o que
pensava.
_Vítor nós não o levaremos à força de maneira
alguma, quem procede assim é o Plano do Homem, nós
respeitamos em todas as circunstâncias a liberdade de
escolha inerente a cada um de nós...
_Então meus caros, vocês vão ser derrotados e
escravizados.
_Por que você falou isso? Perguntou Káa que
ficara calada por um longo momento enquanto durara a
explicação do irmão.
_Para se vencer uma guerra é necessária a
33
Estratégia e esta não é moral, assim no curso dos combates
vamos ter que contrariar vontades, impor condições,
ludibriar, enganar, mentir enfim tudo que em tempo
comum não se deve fazer.
_Caramba Vítor é então este o elemento que nos
falta?
_Esse é um dos elementos que faltam a vocês, mas
não é o menos importante...
_Por que você diz isso? A estratégia é assim tão
má?
_Em um contexto sim, pois trata do engano, da
mentira e de como vencer o adversário a qualquer custo, é
o contrário da moral, o governo tem que ser moral tem
que ver o bem do povo, tem que se ater à verdade, então
uma coisa é diferente da outra como a água do fogo.
_Bem, Vítor e como esta observação se aplica à
situação atual?
_Se vocês realmente quiserem vencer a guerra,
devem estar em condições de me levar com vocês de
qualquer maneira e em qualquer situação.
_É por isso que precisamos de você, não sabemos
nem fazer isso...
_É... Vocês estão encrencados mesmo...
Neste momento em uma súbita iluminação vi que
tinha que aceitar, era o desconhecido que estava sendo
oferecido, era a fuga da rotina que sempre me sufocou, era
o encontro do que nem mesmo sabia que precisava, mas
cuja falta estava me transformando em um ermitão, em
um sociopata sem remédio que me levaria para a mais
completa solidão.
Eu era infeliz e não sabia!
Quando você está mais apegado a coisas do que a
pessoas, a pensamentos do que à realidade então é o
momento de examinar sua vida e ver onde você está
falhando, para descobrir onde está o ponto que precisa
34
melhorar e corrigir. Se você ultrapassar este ponto,
dificilmente poderá regressar e penso que mesmo cedo
ainda em minha vida já havia atingido e mesmo
ultrapassado o ponto de não retorno, atingindo o local em
que não mais conseguia me fazer amigo da raça humana e
me integrar em uma vida que me parecia vazia. Sabia
muito bem que eu é quem estava vazio, a vida é a vida e é
sempre plena, desde que permitamos a plenitude e minha
desesperança havia fechado todas as portas. Meu primo
Tite junto com Nando em Curitiba tinham conseguido
preencher suas vidas de uma maneira muito interessante,
não eu. Havia mergulhado em uma fase de crise, de crítica
a tudo e a todos achando que só eu estava certo em todo o
universo, mas não tendo a coragem de Nando de seguir o
que achava que era o certo para sua vida, saindo de sua
casa e indo morar com Tite, mergulhei neste tipo de autopiedade onde eu mesmo justificava todos os pontos
escuros da existência, como estes filósofos que tiram suas
conclusões de suas próprias premissas e assim se julgam
sempre certos, em um círculo vicioso que sempre nos traz
ao mesmo lugar.
35
Capítulo 4- Nós
Devo ter ficado algum tempo pensando,
ensimesmado e respeitaram minha reflexão, até que de
repente como quem descobre no último momento o
antídoto para um veneno que o estava matando, exclamei:
_É claro que vou com vocês, sou como o Tite que
é de ir, contem comigo não com a certeza de vencer a
guerra, mas com a certeza de que farei todo o possível para
isso.
_Ótimo nós sabíamos que você ia concordar, disse
Káa contentíssima.
_Sabiam é? E como é que sabiam disso?
_Pela maneira como você nos recebeu, cauteloso,
mas não apavorado que era o que nós não estávamos
antecipando, pois nesta época o estranho e o desconhecido
não eram bem recebidos. E continuou:
_Mas quando nos recebeu daquele jeito, tive a
certeza de que ia aceitar, mas é maravilhoso, assim agora
podemos gozar um pouco esta época e ver o que os
especialistas só conjeturaram, isto é a pré-história da
civilização.
_Pré-história? Mas estamos no tempo moderno, a
pré-história está muito tempo atrás de nós, houve todo um
avanço para que chegássemos até aqui e agora. Sua
cronologia está um tanto atrapalhada.
_Pois é Vítor no entanto faltam tantos elementos,
pois você imagina que livros pesados não eram prioridades
em viagens com motores fotônicos onde o peso era uma
grandeza a ser considerada, assim temos muito que
aprender e coletar antes de voltarmos...
_Antes de voltarmos? Mas pensei que tivessem
36
pressa...
_Pressa? Claro que temos, mas entenda uma coisa
chegaremos lá exatamente cinco minutos depois que
partimos, assim o tempo que passarmos aqui não é muito
importante, temos muitas tarefas a cumprir agora que você
aceitou...
_Tarefas? Que tipo de tarefas?
_Ora arqueologia prática é claro, você já imaginou
se pudesse coletar objetos no Império Sumério, por
exemplo? Ou no Egípcio, ou coletar cronologias
diretamente dos sacerdotes dos templos? Agora é
permitido para nós com sua ajuda é claro, levarmos livros e
artefatos legítimos desta fase da história do homem, que
do ano dois mil e setecentos para trás é um mistério
coberto de lendas, que maravilha.
Tinham elementos mais completos à partir do ano
dois mil e setecentos, que era onde a história realmente
começava para a humanidade do Império, sendo deste
ponto que sua cronologia iniciava à partir de datas e fatos
reais e documentados. Quem estava mais entusiasmada
era Káa, que tinha na arqueologia seu passatempo mais
querido. Ela se sentia mais excitada que Lorde Carnavon e
Clark quando descobriram o túmulo de Tut Ank Amon,
ou que Schillemann quando descobriu Tróia, para ela
tudo era uma preciosidade. Levei-os para a sala e liguei a
TV só para ver a reação dos dois, que se decepcionaram
muito quando souberam que as pessoas do outro lado do
vídeo não nos viam também. Perguntaram como nos
comunicávamos verbalmente quando toca o telefone e a
campainha os assusta pelo inesperado, mas então me
viram falando coerentemente pelo fone e entenderam que
era um comunicador verbal, mas acharam muita graça do
primitivo equipamento. Tudo para eles era alegria e
surpresa assim os instruí como se portar em público no
glorioso século vinte, final dos sombrios anos noventa. A
37
primeira lição foi sobre a nudez, pois descobriram um
exemplar do Kama Sutra com ilustrações, que era uma
preciosidade para mim, mas as gravuras estavam em
terceira dimensão, sendo necessário usar os óculos de duas
cores, verde e vermelho, para então revelar sua
profundidade. Era um exemplar com inúmeras ilustrações
das estátuas do famoso templo do amor hindu, que eram
muito realistas, muito ilustrativas e muito explícitas.
Pratico o cultivo dual tanto do Tantra, como o do
Taoísmo que aprendi com meu primo Tite que tem
erudição e prática sobre estas coisas, assim queria um
manual bem ilustrativo e este era. Os dois em primeiro
lugar não entenderam por que as figuras não estavam
claras e eram fora de foco, mas logo que aprenderam a
usar os óculos, se encheram de óhs e de uhs, ficando um
bom tempo estudando as figuras.
_Vítor precisamos levar um desses como exemplo
para nossas equipes de estudo, disse Káa, e se interessou
por outros assuntos.
Isso queria dizer que não tinham tabus sexuais por
lá de onde vieram, isso é ótimo, pois também não os
tenho, isto é, acho que não tenho. Quando vou a Curitiba
em visita aos meus primos, primeiro tinha uma impressão
de encantamento e achava que tinha alcançado o lugar de
todos os pagodes, pois lá dentro de casa todos andam nus,
mas depois de algum tempo se notava que havia ordem
naquela aparente bagunça. Cada um sabia onde cabia não
ocupando o lugar dos outros, assim tinha que arranjar
minhas próprias garotas, mas ia lá para estudar Kon Fu, Ai
Ki Do, Kendô e uma sucessão de outras armas. Não me
tornei um especialista em nenhuma destas disciplinas, mas
cheguei a ser muito bom em todas elas, pois todos naquela
casa sabiam tudo e eram senseis perfeitos. Mas lá também
não há tabus sexuais, no entanto há um respeito enorme
pela dignidade do ser humano, assim ninguém em são
38
juízo ia se meter com uma das garotas, pois ia perder a
amizade do grupo e isso não era desejável, pois assim você
perdia a convivência com todos eles.
Mas eu estava atolado até o pescoço em meus
problemas atuais e não creio que quisessem levar mais de
um desta época, pois Tite, mesmo com possibilidades de ir
comigo nunca iria só, assim era eu e mais ninguém, ou
seja, esta encrenca era minha, só minha e só eu poderia
resolvê-la, o que queria dizer que ia para não mais voltar.
Assim a primeira coisa foi fazê-los se vestirem para andar
em público, pois quando informei que havia um
preconceito contra a nudez por aqui, levaram a mão até
um ponto do pescoço e se vestiram imediatamente.
Estavam com uma roupa brilhante do tipo que a gente vê
os astronautas de cinema usarem, mas bem adaptada ao
corpo, foi então que percebi que os objetos que vira
flutuando no espaço estavam na verdade em bolsos e
presilhas deste uniforme invisível. Quando viram minha
consternação por ver Káa esconder suas delícias de mulher,
quiseram voltar a fazer o traje invisível outra vez, mas não
permiti já que não era somente minha apreciação nada
estética que ia importar, mas sim um comportamento que
teria que ser aprendido e condicionado para não
terminarem na prisão por atentado ao pudor.
O tal de Zólux parece que funcionava em dois
sentidos, ao mesmo tempo em que me ensinara a tal de
língua dele, ensinara a eles o português só para melhorar as
possibilidades de comunicação e dar uma base de
comparação semântica para nós, pois no futuro a
comunicação seria da maior importância para que nós
pudéssemos atuar como uma cadeia de comando.
Estabeleceram um padrão, onde saíamos pelas manhãs
para fazer compras de eletrodomésticos e todo tipo de
coisa, à tarde percorríamos as livrarias, onde compravam
absolutamente de tudo, desde livros de história como de
39
psicologia, sociologia, física e química e livros das séries de
encadernados que mostravam coisas e as explicavam, sobre
tudo, desde arte, geografia, arqueologia, paleontologia, e
tudo mais que caísse em suas mãos, até mesmo bricolagem.
Compraram vídeos cassetes, CD de música e de programas
de computador e centenas de DVD’s, em suma
compraram tudo que havia no mercado sobre quase todos
os assuntos. Eram arqueólogos mesmo assim não deixavam
nada para trás, eu por minha parte, me preparei com
minha biblioteca e uma série de coisas que não queria
deixar para trás, como minha coleção de CD de músicas
clássicas e as populares que gostava, e os filmes que não
poderia deixar de ver outra vez.
Minha coleção completa de armas antigas e
modernas, que se concentravam mais em armas brancas do
que de fogo, mas havia de tudo. Levei os livros que me
pareceram mais importantes para cumprir minha missão,
ou seja “A Arte da Guerra” de Sun Tzu, “O Livro de
Cinco Anéis”, de Myiamoto Musashi, as "Guerras que
Mudaram o Mundo" de Lidell Hart, "Estratégia" do
General Beaufre, e alguns outros que poderiam me
interessar. Levei também uma coleção de livros sobre
armas de guerra, que possuíam esquemas de como
funcionavam. É claro que selecionei para levar algumas
caixas de meus refrigerantes prediletos, de algumas balas
que gostava desde que havia abandonado o vício do fumo,
em suma levei tudo que ia me fazer ficar com menos
saudades de casa em minha estada por lá, que deveria ser
de toda minha vida. Como não sou a mais sociável das
pessoas, isso para mim não interessava muito, os únicos
parentes que gostava moravam em Curitiba com uma vida
própria e não iam sentir falta de mim, mesmo que sentisse
falta deles.
Meus amigos tinham cada um seu rumo, isso é,
haviam casado e eu estava só mesmo que fosse por opção,
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mas estava só assim mesmo. Gastei toda a grana da tal
herança com eles (os visitantes) e comigo, mas depois de
quatro meses, se declararam fartos de minha era querendo
voltar para a própria, não deixando, entretanto, de
perceber que já haviam feito tudo que se poderia fazer em
nossa situação. Houve alguns incidentes engraçados
durante esta estada, nada que fosse realmente bizarro, mas
isso não precisa de um destaque especial na narrativa que é
principalmente informativa. Quando se declararam
prontos, já havíamos empurrado pela tal porta, todos os
engradados que nos interessavam que não eram
absolutamente poucos. Quiseram levar até mesmo boa
parte da mobília de casa assim tudo foi sugado pela porta,
na verdade sugado não era bem o termo, tudo tinha sido
empurrado pela porta, descreve melhor o que acontecia.
Chegou nossa hora, então vesti uma das tais
roupas que me entregaram que era confortável e mantinha
meu corpo fresco mesmo com o medo que sentia, que me
fazia suar bastante, que tinha até mesmo um capacete de
um material tão fino e transparente que não era visto a
olho nu. Deixei prezo a uma parede um envelope, doando
a casa e o terreno para meu primo Tite, enviando a ele
uma carta explicando que saía deste mundo, mas não da
vida e nunca mais voltaria, dando assim meus pertences
para quem gostava. Tite adorava demais o mistério para
não apreciar minha saída do palco do século vinte, só me
ficando a pena de não ter visto o ano dois mil espocando
no ar, com fogos de artifícios e desmentindo toda a mística
da síndrome do fim do milênio, mas ia deixar um mistério
mais interessante ainda. Então de frente para a porta, com
um aperto no coração e uma contração dolorosa no
estômago, cada um me segurou por um braço e entramos
por ela no... No quê?
Entramos no Aun, isto é, no tudo e no nada como
se fosse a tessitura básica do universo. Aun era o nada
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intermediário entre o espaço, tempo e matéria. Era o nada
mas um nada feito de outros nadas, como se o nada fosse
povoado por outras coisas que também eram nada, pois o
nada pode ser a ausência de tudo, ou a sensação da
ausência do essencial para caracterizar um local como
alguma coisa, o tudo por sua vez era impensável. A cor era
cinzenta, mas não um cinza monótono e quase morto, mas
sim um cinza vivo um cinza que não era a mistura do preto
e do branco, mas sim a mistura de todas as cores em
proporções que não formavam um branco completo,
havendo nuances indefiníveis de coisas que até poderiam
ser cores, mas que eram as cores do nada, assim não eram
exatamente cores. As sensações assombravam pela
impossibilidade do lugar, eram assaltos de ânsias que não
se definiam, no entanto agoniavam e como o local não
tivesse nem começo nem fim, as percepções se
desvaneciam em pura confusão sensitiva. Como era
mesmo que o Tite falou um dia? “O infinito pode ser o
que não tem fim ou o que não tem definição, o instante é
eterno pois é atemporal, o caminho é sem fim pois é
circular, o dia se segue à noite, uma inspiração por uma
expiração e tudo acontece como se fizesse sentido para a
mente.” Bem este infinito que me cerca não tem definição,
mas se tivesse um fim discernível traria algum conforto
para o espírito.
Mas o homem está acostumado a fitar o
insondável, pois é exatamente isso que se faz toda vez que
olhamos para um céu estrelado, para o infinito, mas este
tem coisas nele, as estrelas e onde eu estava, no Aun, não
havia nada... Aliás, havia sim, havia meus dois amigos me
suportando um por cada braço, havia um risco de cor que
corria à nossa frente e de repente vi um caixote que
havíamos empurrado pela porta a pelo menos um mês,
que deslizava à nossa frente. O tempo não tinha nenhum
significado aqui, assim como o espaço, pois este lugar não
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tinha nem espaço nem tempo, era a essência deles e a
única impressão que perdurava era a aflição do abismo, o
medo do insondável. Sentia-me como uma pessoa que
tivesse passado uma eternidade na borda de um abismo
me segurando precariamente, com medo de cair e de
repente acordasse e descobrisse que estava na borda do
mesmo abismo, com os mesmos terrores e na mesma
situação.
Eram nuvens cinzentas que não eram feitas de
vapor, mas sim de algo que a mente se recusava a definir,
pois na verdade não eram nuvens, eram outra coisa que
não podia ser nada, mas sim feitas de nada. De repente
uma luz no horizonte... Horizonte? A luz estava bem na
frente, mas não havia pontos de referência para poder
avaliar a distância, se bem que não se possa falar de
distância onde não há realmente nada. A luz azul,
tremeluzente me engolfou e saí para um lugar que havia
tudo que precisava para me fazer sentir que estava vivo.
Desmaiei misericordiosamente, para evitar a dor de tornar
o universo uma coisa coerente outra vez.
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Capítulo 5- Lá...
Lá é um lugar que não existe, não sei onde ouvi
esta frase que ficou martelando meu ouvido, mas este lá
aqui existe isso posso garantir. Acordei e estava flutuando
no ar, em um lugar que mesmo depois de alguns milênios,
qualquer ser humano ia reconhecer como um hospital. As
paredes eram brancas, havia um homem vestido de branco
com um troço na mão que me intrigou. Era um treco
como uma pistola, mas não era uma pistola, parecia...
Parecia, ah!... Parecia com estas coisas que estavam sendo
usadas em meu tempo para injetar coisas no corpo dos
outros, através de injeções de ar comprimido.
E era, o cara se aproxima de mim dá um tiro em
meu braço e tudo escurece outra vez. Isso aconteceu mais
algumas vezes, mas houve uma vez que acordei livre de
dores, sem muita ansiedade e ao meu lado estavam Vish e
Káa sorrindo:
_Oi vocês aí falei, não vão me pôr para dormir
outra vez?
_Vítor isso foi necessário, pois você teve que
enfrentar o Aun sem treinamento ou experiência prévia,
isso pode até mesmo levar um espírito mais fraco à loucura
furiosa, eu e Vish tivemos que treinar meses para fazer isso,
assim você repousou e seu sistema nervoso foi se
recompondo lentamente por si mesmo.
_Bem e agora?
_Ora saia daí e vamos começar a conhecer seu
novo lar.
_Sair daqui? Mas como? Não estou em lugar
algum...!
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_Há! Há! Há! Você está em um acomodável, um
móvel que serve para tudo, ou seja, é uma cadeira, uma
poltrona, uma cama e até mesmo uma mesa se você quiser.
_Ótimo, então estou em um acomodável e como é
que saio dele?
_Exatamente da maneira que você sai de uma
poltrona em sua casa.
Bem se é assim então é fácil, então levantei o
corpo e a impressão que havia alguma coisa me segurando
no local cedeu levemente, então quando girei o corpo para
sair do treco que não era nada algo aconteceu, não sei se
foi insegurança ou o que, mas me vi de ponta cabeça
olhando o chão a uns quarenta centímetros do meu rosto.
A gargalhada dos dois foi estrondosa, mas me ajudaram a
sair do aperto em que me meti, ensinando os movimentos
para não me atrapalhar mais. Então descobri que não
estava em um hospital, estava no palácio do Imperador
Xóltum a sede do governo da nossa parte da galáxia. Tinha
recebido um apartamento no local, que tinha um quarto,
uma sala de banho que seria muito útil assim que
aprendesse a usar tudo aquilo, uma sala social e um local
onde poderia comer, assim que aprendesse a usar a
girosqueta que distribuía comida a todos os locais, se não
aprendesse podia até mesmo morrer de fome, pois não
havia nem mesmo uma mísera lanchonete naquele lugar.
No entanto haviam restaurantes como percebi depois, não
que esta percepção fosse de qualquer utilidade para mim
no momento, não sabia como ir até eles.
_Vítor você está em sua casa e deve se pôr a par da
situação geral, pois nós temos que voltar a nossos postos de
trabalho, mas estaremos ao seu dispor sempre que for
preciso, pode contar conosco.
_Espera um pouco vocês vão me largar aqui, em
um lugar que nem mesmo sei como é que se vai ao
banheiro e lá fazer o que for necessário, não sei nem
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mesmo como pedir comida e comer aqui, como é que
posso me pôr a par de tudo? Continuando:
_Preciso conversar com os generais da frente, ter
uma descrição dos materiais que se usa em uma batalha,
não sei nada! Absolutamente nada, vocês não podem se
afastar e me deixar assim jogado aos lobos.
_Caro Vítor aqui em Valéria não existem lobos,
assim não tenha medo...
_Káa não disse isso literalmente, disse que não
estou pronto ainda para ficar sozinho neste lugar que
ainda não conheço.
_Mas você não vai ficar só, disse Vish, o Hans vai
tomar conta de você.
_ Hans? Quem é Hans? Nem o conheço, onde está
ele e quando virá para cá? Preciso começar a trabalhar
urgentemente...
_O Hans está aqui, ora esta... Disse Káa muito
suavemente...
_Aqui? Então o cara é invisível para piorar um
pouco a confusão, pois não vejo ninguém aqui além de
nós...
_Vítor, Hans é o nome dos computadores pessoais
aqui em Valéria...
_Computador pessoal? Mas não sei quase nada de
informática, como é que vou me dar com um computador?
_Vítor trouxemos alguns PC de seu tempo como
curiosidade arqueológica, estamos muito à frente em
tecnologia, hoje em dia os computadores são autoconscientes.
_Auto-conscientes? Então podem pensar?
_Sim podem e no módulo lógico ainda melhor
que um ser humano, só não podem vencer a primeira
diretriz da info-robótica, ou do pensamento artificial como
preferem outros, pois como são fabricados pelos homens
para as finalidades dos homens, não devem pensar nem
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