A GESTÃO ECONÔMICA DO TRATAMENTO DE RESÍDUOS
SÓLIDOS
Maria da Paz Medeiros Fernandes
Universidade Federal da Paraíba - Departamento de engenharia de produção
Bloco “G”- Sala 1 - CEP. 58051-970 - João Pessoa-PB
Maria Silene Alexandre Leite
Universidade Federal da Paraíba - Departamento de Engenharia de Produção
Bloco “G”- Sala 1 - CEP. 58051-970 - João Pessoa- PB.
Abstract
The way of management of processment usines of domiciliary garbage has protecting
their keeping jus by publics, assistances so it’s necessary action’s strategics that improve their
manager’s business sight because, they are an intelligent option sor transforming garbage in
a selling product through his recycling avoiding the extreation of news natural resources end
eliminating stage of prodution that create poluttion end more costs.
Key-words: management, processment usines, garbage
01. Introdução
A cada dia a opção por usinas de processamento de lixo vem assumindo uma maior
importância no cenário de saneamento básico brasileiro, sendo apontada como uma solução
sanitária e ambientalmente correta para o tratamento dos resíduos sólidos domiciliares.
Sob o ponto de vista da Engenharia de Produção, essas usinas apresentam um singular
significado, pois reintegram ao ciclo produtivo os resíduos que ordinariamente ficariam
descartados causando poluição e desperdício. Desta forma, uma usina apresenta duas
categorias de produtos para comercialização: os materiais recicláveis ( vidro, plástico, papel,
metais ) a serem vendidos às indústrias e o composto orgânico para a utilização na agricultura.
No estado da Paraíba muitas prefeituras do interior juntamente com a Fundação
Nacional de Saúde vêm investindo nesse tipo de solução para os resíduos domiciliares de suas
cidades. Entretanto, embora essas usinas sejam de fato unidades produtivas, elas ainda
dependem totalmente dos cofres públicos para continuarem em funcionamento pois seus
produtos são vendidos a preços irrisórios ou doados, o que vem desestimulando esse tipo de
empreendimento.
Nesse sentido, a pesquisa teve como objetivo apresentar estratégias de ação que
alarguem a visão empresarial dos dirigentes de usinas de processamento de lixo domiciliar.
02. O empresário e o estudo do mercado
Baseados em estudos feitos por BUARQUE (p.54, 1991) comenta-se: os empresários
antes de iniciar qualquer projeto, seja ele público ou privado, devem realizar um estudo de
mercado que possui a finalidade básica de estimar em que quantidade, a que preço e quem
comprará o produto a ser produzido pela unidade de produção em estudo. Além de ser uma
etapa determinante, o mercado tem uma importância particular pela quase impossibilidade de
ser corrigido, depois do projeto ser executado. Dentro de certos limites, os erros em outras
etapas, podem ser corrigidos, mas o erro no mercado pode ser crítico para o funcionamento da
empresa se o estudo projeta uma procura superior a realidade. No caso de projetar uma
procura bastante inferior o estudo de mercado será o responsável por uma redução do lucro
possível, caso fosse utilizada uma maior escala de produção.
Observa-se pelo exposto, que o empresariado tem uma tarefa difícil ao decidir pela
implantação de qualquer projeto, levando o mesmo a execução de uma série de etapas como:
estudo de mercado, formas de comercialização, tamanho, localização, engenharia, programa de
produção, receitas, etc., sendo o estudo de mercado a etapa decisiva na aprovação do projeto.
03. Mercado dos materiais recicláveis e do composto orgânico
Em estudos preliminares foi constatada que a estimativa do custo operacional mensal de
cada usina é de R$ 2.550,00 que corresponde às seguintes despesas: salário e encargos sociais
da folha de pessoal, incluindo a insalubridade em grau máximo; fornecimento de refeição diária;
água, luz, manutenção e depreciação do prédio e dos equipamentos. Assim, estima-se um
custo operacional diário de R$ 116,00.
Em relação à receita, o quadro I fornece a quantidade diária e o preço de venda dos
produtos da usina, caso os mesmos fossem devidamente comercializados.
MATERIAL
QUAN. DIÁRIA(Kg) PREÇO Kg (R$)
RECEITA \DIA (R$)
Composto orgânico 1.800,00
0,10
180,00
Papel e papelão
163,43
0,02
3,27
Plástico
69,14
0,02
1,38
Vidro
65,34
0,01
0,65
Metais
61,49
0,08
4,92
Outros(*)
36,59
0,02
0,73
Total
190,95
(*) ossos, garrafas plásticas e de vidro
Quadro I. Receita estimada com a venda do composto orgânico e materiais recicláveis
Portanto, a usina poderá apresentar um lucro diário estimado em: R$ 190,95 - R$
116,00 = R$ 74,95. Este lucro poderá ser revertido em melhoramentos para a usina, para os
trabalhadores e|ou destinado á educação ambiental da comunidade, visando à futura
implantação da coleta seletiva de resíduos sólidos.
Vale salientar que a usina necessita de um período de carência de cento e vinte dias,
após o qual poderá ser iniciada a venda do composto orgânico.
Os materiais recicláveis têm ampla utilização nas indústrias, onde são beneficiados como
matéria-prima pré-processada. Evitando-se, assim, a extração de novos recursos da natureza e,
na maioria das vezes, eliminando-se etapas onde há grande consumo de energia e utilização de
produtos químicos poluidores.
“Restos de alumínio, vidro, plástico, madeira, tecido ou cobre... está atraindo investimentos de
milhões de dólares de algumas empresas brasileiras. Com pelo menos duas décadas de atraso
em relação aos países desenvolvidos, elas estão percebendo que a reciclagem de materiais
representa não apenas um bom negócio mas também uma forma de reduzir custos e criar uma
imagem favorável para seus produtos e para si próprias perante o consumidor.”ARRUDA (
1990, p.64 )
Para fortalecer o mercado de recicláveis, é importante que as prefeituras busquem
atrair, através de incentivos econômicos, a exemplo da redução de impostos sobre imóveis e
propriedades, indústrias que reciclam esses materiais. Tais indústrias, além de garantirem o
mercado de recicláveis, geram empregos e fortalecem a economia local.
Com relação ao composto orgânico produzido, este tem ampla utilização na agricultura
e na jardinagem, situação que lhe garantirá uma boa demanda, devido ao grande número de
áreas agricultáveis em nosso país. O próprio rejeito do peneiramento do composto orgânico
poderá se triturado e comercializado como composto restaurador de terrenos sujeitos à erosão.
3.1. Acondicionamento de produtos
Os produtos das usinas precisam ter boa qualidade para serem bem aceitos no mercado.
Portanto, o processo de compostagem deve ser rigorosamente executado dentro dos padrões
exigidos (temperatura, oxigenação, umidade e tempo). Já os materiais recicláveis devem estar
devidamente separados e adequadamente acondicionados para comercialização e transporte.
Para usinas de pequeno porte, não devem ser adquiridos equipamentos caros, pois
encareceria o processo produtivo na sua implantação e manutenção, além de exigir mão-deobra qualificada. O quadro a seguir apresenta equipamentos mais econômicos que podem ser
adquiridos pelas usinas de pequeno porte, ao longo do tempo.
MATERIAL
Papel
e
papelão
Plástico
Vidro
Lata
ACONDICIONAMENTO
Comprimido e enfardado
EQUIPAMENTO UTILIZADO
Enfardador de curso descendente
Comprimido e enfardado
Triturado
Compactada e enfardado
Enfardador de curso descendente
Moenda -martelo de baixo custo
Enfardador de curso descendente
Composto
Triturado, peneirado e ensacado
Triturador tipo forrageira, peneira
orgânico
rotativa e ensacamento manual
Diversos(*)
Ensacados
Ensacamento manual
(*) Garrafas de vidro ou de plástico, osso, metais, etc.
Quadro II. Forma de acondicionamento dos produtos e equipamentos recomendados
É aconselhável que o vidro e o plástico sejam separados pela cor. Além disso todos os
materiais comercializados devem ser pesados em balança eletrônica, a qual favorece a
visibilidade e a credibilidade com relação à exatidão do peso.
3.2. Promoção perante as empresas
A participação e credibilidade da população e das indústrias são fundamentais para que
as usinas de reciclagem e compostagem de lixo tornem-se uma realidade permanente. Por isso,
a usina deverá ter uma política de marketing que demonstre sua utilidade para a sociedade e a
boa qualidade de seus produtos junto às empresas. Além disso, deverá desenvolver um
processo produtivo seguro e eficiente que garanta, além de benefícios sociais, ergonômicos e
ambientais, boa qualidade, pontualidade e preços competitivos.
Para facilitar a comercialização do composto orgânico, é importante que o marketing
divulgue sua importância para fertilização do solo. Afinal, essa fertilização não pode ser
alcançada apenas com fertilizantes químicos e água, mas necessita do composto orgânico, para
que o solo possa conservar a umidade, resistir à erosão e manter suas propriedades
fundamentais de absorção de nutrientes. O adubo orgânico é, ainda, indicado devido a sua
resistência a determinadas condições climáticas e pragas. Devem ser aplicadas entre cinco e
quinze toneladas de composto por hectare\ano, o que garantirá uma demanda para esse
produto.
04. Trabalho junto à população
É sabido que o apoio e a participação do público são fundamentais não apenas para
aceitar a implantação de usinas de lixo, mas também para garantir o seu funcionamento e o
sucesso de futuros programas de reciclagem. Esses programas têm por objetivo diminuir os
custos e aumentar a qualidade dos recicláveis, através da coleta seletiva de lixo urbano, onde a
própria população separaria o lixo orgânico do inorgânico, e\ou do sistema de caixas de coleta,
onde as próprias pessoas depositariam seus recicláveis.
Nesse sentido, concorda-se com REINFELD (1994, p.137) quando afirma que as
mensagens devem passar para o público as seguintes idéias:
- a reciclagem é algo urgente; qualquer papel, plástico, vidro ou lata que reciclamos é muito
importante;
- o tempo gasto com a reciclagem nos oferece uma auto-imagem mais forte e positiva, pois
estamos contribuindo efetivamente para um meio ambiente mais saudável e garantindo uma
melhor qualidade de vida para essa e para as futuras gerações;
- é importante não apenas separar o lixo inorgânico do orgânico, mais também procurar sempre
comprar artigos com conteúdo reciclado, a fim de manter seu mercado e evitar o consumo de
produtos virgens.
“A educação pública e a promoção da reciclagem exigem um plano detalhado e um
significativo investimento financeiro. O planejamento e o financiamento da educação e da
promoção devem ser considerados em cada detalhe e são tão importantes como o sistema de
coleta e processamento do lixo.”REINFELD (1994;p.137)
Na educação ambiental é necessária uma linguagem clara e objetiva que reflita
características próprias da comunidade e contenha informações básicas sobre a importância de
reciclar, reduzir e reutilizar resíduos. As mensagens devem transmitir idéias que motivem as
pessoas a superarem suas próprias objeções ou inércia, até que atividades como reciclar,
reduzir e reutilizar sejam assimiladas como um hábito.
Vale salientar que qualquer mensagem tem mais aceitação, quando é transmitida por
alguém conhecido e respeitado. Por isso, é fundamental que os primeiros contatos, mesmo
antes da implantação de qualquer usina, sejam feitos com as lideranças comunitárias e que
algumas de suas idéias sejam aproveitadas. Isso fará com que esses líderes sintam o projeto
como algo também deles, apoiando-o plenamente. Nesse sentido, concorda-se com REINFELD
(1994,p.135) quando afirma que a maioria dos programas de reciclagem bem sucedidos reflete
características únicas de suas comunidades de origem.
Entretanto, é importante lembrar que o lixo, por ser comumente sujo, feio e de odor
desagradável, pode levar ao fracasso programas comunitários que normalmente apresentam um
grande entusiasmo inicial, mas que, por não refletirem a realidade, desgastam-se rapidamente.
Esse erro pode ser evitado, usando-se um sistema educativo e promocional, de acordo com as
características da comunidade e suficientemente dinâmico para vencer o desgaste da realidade
diária.
05. Conclusão
O objetivo principal de uma usina de reciclagem e compostagem de lixo é a melhoria da
qualidade de vida da população. Entretanto, devem ser considerados os aspectos econômicos
que poderão determinar a continuidade ou não desse empreendimento. Por isso, torna-se
urgente a mudança de paradigmas no tocante ao tratamento dos resíduos sólidos domiciliares,
pois estes não são um investimento sem perspectiva de retorno mas podem e devem ser
gerenciados como uma unidade produtiva auto-sustentável.
Nesse sentido, o tipo de gerenciamento parece ser fundamental, pois tradicionalmente o
poder público “acomodou-se”a ter apenas gastos com o lixo das cidades o que denota a falta de
interesse quanto a comercialização dos produtos de usinas de lixo. Esse quadro poderia
apresentar uma nova dinâmica se fosse tentado o sistema de cooperativa ou a iniciativa privada
para gerenciar as usinas. Vale salientar que atualmente, várias indústrias vêm processando seus
produtos, a partir de materiais reciclados, a medida que diminui o custo da matéria-prima e da
etapa inicial de processamento industrial do material. Aliado a isso, deve ser estimulada a
conscientização do consumidor que cada dia, começa a dar preferência a produtos com
conteúdo reciclável e alimentos sem produtos químicos. Caso esse comportamento se consolide
e se transforme em hábito, ensejará uma nova postura de nossas empresas para uma ampla
utilização de materiais recicláveis e reciclados e uma forte utilização do adubo orgânico nas
plantações, o que significará uma gradativa ampliação do mercado de recicláveis.
Em todo caso, torna-se necessário realizar-se uma contínua pesquisa de preços,
exigências e facilidades na compra e transporte de recicláveis para a obtenção de preços mais
elevados.
06. Bibliografia
01.ARRUDA, Roldão. O lixo não é mais um lixo. Revista Exame, 3 de outubro de 1990, p.
64-67.
02.BUARQUE, Cristovão.
1991.p.264.
Avaliação econômica de projetos. Rio de Janeiro: Campus,
03.FERNANDES, Maria P.M. Proposta para reciclagem e compostagem dos resíduos
sólidos urbanos da cidade de João Pessoa: uma abordagem segundo o princípio da
produção segura. Dissertação de Mestrado apresentada ao Mestrado em Engenharia
de Produção da UFPB, campus I.1995.177p.
04.KOYASHIKI, Rosemary. Lixo: o problema que dá lucro. Revista Tecnologia, 1989,
p. 9-12.
05. ONUKI, M. Mutsuo. REIS, R. N. Nunes et. al. Projeto integrado: sistema de coleta,
remoção e destino final do lixo. Ministério da Saúde, Fundação SESP, Diretoria
Regional da Paraíba, Esperança, PB,1989, 40p.
06.REINFELD, Nyles V. Sistema de reciclagem comunitária. Tradução: José C. B.
dos Santos revisão técnica, Rogério R. Ruschet. Makron Books, São Paulo, SP, 1994.
285p.
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