ANOREXIA: SINTOMA CLÍNICO OU FATO SOCIAL?
Alan Braga de Paula
“Duzentos e cinqüenta casos descritos até 1950, mais de
cinco mil casos clínicos em 1981 e a progressão do
número
de
casos
publicados
é
quase
exponencial”. (Raimbault, 1989, p. 11)
1. DADOS E PRIMEIRAS DESCRIÇÕES.
A anorexia, como pode-se observar, especialmente a partir da segunda
metade do século passado, tem apresentado um vertiginoso crescimento do
número de casos na população geral. De acordo com a Associação
Psiquiátrica Americana (2002), esta escalada chega atualmente a atingir uma
prevalência de 0.5% a 1% entre adolescentes e mulheres jovens. Com estes
números, a anorexia nervosa já é considerada como a terceira doença mais
comum entre adolescentes nos Estados Unidos. A taxa de morte para mulheres
jovens com anorexia é 12 vezes maior do que para mulheres com a mesma
idade sem anorexia e duas vezes maior do que para mulheres com a mesma
idade e com outros problemas psiquiátricos diferentes de anorexia. Junto com
a bulimia, a anorexia é a principal causa de morte de mulheres jovens - entre
11 e 20 anos - em todo o mundo, sendo que, de cada dez casos, dois são fatais.
No entanto, curiosamente, apesar da inquestionável atualidade e
gravidade deste grupo de patologias, clinicamente, tanto sua ocorrência,
quanto a busca de sua descrição, entendimento e forma de intervenção são
antigas. Pinel (1813), a partir de um importante estudo sobre, entre outras
coisas, a extravagância das pequenas ceias de Nero e sobre os jejuns religiosos
e abstinências dos faquires, dos brâmanes e dos antigos anacoretas da
Tebaida, mostra como os eventos de compulsão e recusa alimentar são
encontrados na antiguidade. Neste estudo, ele considera estes comportamentos
alimentares como “neuroses das funções nutritivas”, que englobam a anorexia
e a bulimia, e se encontram numa dimensão social e cultural, onde as práticas
alimentares participam de um conjunto de regras, de rituais e de interdições
que convém serem re-situadas no contexto de cada época.
Da mesma forma, Bell (1994), mostra-nos a presença de sinais claros
de anorexia em mulheres que, oficialmente, foram reconhecidas pela Igreja
Católica Romana como santas, bem-aventuradas ou servas de Deus, e que
viveram no período de 1200 até os dias atuais na península italiana.
Enquanto descrições de sintomas patológicos ou patologias singulares,
os relatos dos transtornos alimentares também não são muito recentes,
remontando, mais precisamente, ao século XVII. Segundo Bidaud (1998), o
inglês Richard Morton, em 1689, no seu livro Tisiologia sobre a doença da
consunção já relatava, ao descrever “a consunção ou atrofia nervosa”,
sintomas que, nos dias de hoje, representam os principais sinais de anorexia
nervosa: perda do apetite, amenorréia e emagrecimento importante. Já o termo
“anorexia histérica”, e em seguida “anorexia nervosa”, de acordo com Bidaud
(1998), é introduzido desde 1868-73, por William Gull, que a define como
uma privação do apetite, sendo este considerado a partir do grego orexis o
desejo em geral.
Também é importante apresentar as contribuições do trabalho clínico de
um contemporâneo de Gull, o francês Lasègue, a quem é creditado, segundo
Bidaud (1998), ser o primeiro a situar a anorexia no campo da histeria. O
caráter de pioneirismo e atualidade das contribuições clínicas de Lasègue à
compreensão da anorexia é realmente um fato incontestável. Entre estas
contribuições, que se mantêm presentes até os dias atuais, destacam-se a
relação que ele estabelece entre a anorexia e a depressão, a influência do meio
ambiente no desenvolvimento da anorexia e a advertência aos médicos do
perigo e da ineficácia em se tratar os sintomas anoréxicos como caprichos
passageiros ou sem importância; ou, ainda, destes fazerem uso obstinado e
exclusivo de medicamentos, “conselhos amigáveis” e/ou intimidação.
É, ainda, creditado a Lasègue, o mérito de ter sido o primeiro a
descrever a dimensão de prazer como fundamental na organização psíquica da
anoréxica; descrição, esta, que ainda é validada por aqueles que tratam e
estudam estas pacientes nos dias atuais. O prazer em questão é oriundo de
experiências de controle: autocontrole, controle do terapeuta e de uma espécie
de controle acerca da ingestão do alimento e da prorrogação da sensação de
fome, gerando uma “forma de auto-erotismo”; sendo, portanto, a anoréxica
toda poderosa em sua anorexia.
2. A ANOREXIA SOB A ÓTICA PSICANALÍTICA.
Na psicanálise, o que se observa é que desde os seus primórdios
Sigmund
Freud,
já
nas Publicações
Pré-psicanalíticas (1886-1889),
direcionava sua atenção ao assunto, em função, como em grande parte de sua
produção teórica, de questões surgidas a partir de suas observações clínicas. A
partir destas, o que se verifica, percorrendo as citações encontradas em seus
escritos, desde Um Caso de Cura pelo Hipnotismo(1892-3) até História de
uma Neurose Infantil (1918), é que a análise de Freud acerca desta síndrome,
à semelhança de Lasègue, centra-se em três pontos: considera-a como uma
forma de histeria(1), relaciona-a com a depressão (que, em Freud, encontramos
sob o nome de melancolia) e adverte-nos acerca das dificuldades quanto ao
seu tratamento.
No que se refere ao primeiro ponto, encontramos esta relação que ele
estabelece com a histeria já em Um Caso de Cura pelo Hipnotismo (1892-3).
Neste trabalho, Freud apresenta o caso de tratamento de uma jovem paciente
histérica que começa a mostrar sintomas de anorexia, depressão e vômito, a
partir do nascimento de seu primeiro filho, o que vem a gerar uma interrupção
na produção de seu leite materno, e uma conseqüente impossibilidade de
amamentá-lo. Após duas sessões de hipnose, os sintomas desaparecem,
voltando a se fazerem presentes quando dos nascimentos do segundo e do
terceiro filhos, sendo novamente eliminados por sessões de hipnose a cada
ressurgimento.
Neste caso, Freud refere-se a estes sintomas de anorexia como uma
“histeria ocasional” e, assim como Lasègue, os compreende como uma
“perversão da vontade”. Merece destaque também, neste caso, a relação que
Freud estabelece entre o surgimento destes sintomas de anorexia e a
problemática de uma relação mãe-filho onde se capta a equação simbólica:
comer = amamentar.
_______________________
(1) Entendida por Freud, de acordo com Laplanche & Pontalis (1998), como uma “classe de neuroses que
apresentam quadros clínicos muito variados” e se manifestam sob duas formas mais bem identificadas,
que são a “histeria de conversão, em que o conflito psíquico vem simbolizar-se nos sintomas corporais
mais diversos, paraxisticos (exemplo: crise emocional com teatralidade) ou mais duradouros (exemplo:
anestesias,paralisias histéricas, sensação de bola faríngica, etc.), e a histeria de angústia, em que a
angústia é fixada de modo mais ou menos estável neste ou naquele objeto exterior (...)” (Laplanche,
1998, p. 211), como, por exemplo, as fobias. Nasio (1991) nos lembra que em Freud a histeria tem como
causa principal a atividade inconsciente de uma representação superinvestida, causada ou por efeito de
um evento traumático ou por uma fantasia angustiante com efeito equivalente a um evento traumático.
Encontram-se, ainda, menções de Freud acerca da anorexia como uma
forma de histeria em: Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos
Histéricos (1893), no Caso Emmy Von N. (1895), na Carta 105 aFliess (1899)
e no Fragmento da Análise de Um Caso de Histeria (1905). No caso de
Emmy Von N., segundo Freud, a “abulia” desta paciente em relação aos
alimentos representava um sintoma de conversão histérica, onde a paciente
evitava se alimentar em função de tal ato lhe remeter a “lembranças
repugnantes” de sua infância, relacionadas a refeições frias que tinha que
comer e ao “pavor” em ter que partilhar de refeições com seus irmãos doentes.
Em Fragmento da Análise de Um Caso de Histeria, a repulsa a alimentar-se
de Dora, mesmo não sendo considerado por Freud como o sintoma principal,
está ligada a um recalque de uma fantasia de felação: ligada, portanto, à zona
labial e vivenciada na fase oral do desenvolvimento psicosexual(2).
Esta concepção de Freud da anorexia enquanto um sintoma oriundo a
partir de uma fixação da libido(3) na fase oral também é encontrada no Caso
do Homem dos Lobos, em História de uma neurose infantil(1918), onde o
“distúrbio de apetite” deste paciente é relacionado à problemas no
desenvolvimento psicosexual do mesmo.
Por outro lado, a anorexia relacionada à melancolia, por Freud, é
encontrada em seu Esboço G. (1895), onde o fundador da psicanálise afirma
que a anorexia é a uma neurose de nutrição paralela a melancolia.
Já
nos
escritos O
Método
Psicanalítico (1904)
e Sobre
a
Psicoterapia (1905), ele discorre acerca das dificuldades em se tratar a
anorexia através do método psicanalítico, sendo que neste texto de 1905,
chega a advertir que este método não é indicado para o tratamento da anorexia
em seu estado grave, pois, neste estado, a paciente necessita de intervenções
clínicas que gerem resultados rápidos, o que não é o caso da psicanálise.
_______________________
(2) De acordo com Laplanche & Pontalis (1998), é a primeira fase de evolução da libido, onde o prazer
está ligado à excitação da zona labial e da cavidade bucal, e onde se estabelece uma forma de relação
específica de objeto com a mãe.
(3) Segundo Laplanche & Pontalis (1998), é definida como a energia oriunda das transformações da
pulsão sexual, sendo sexual entendido não como ato sexual genital, mas como uma energia que se origina
no somático.
Ainda em relação à contribuição psicanalítica para a compreensão
clínica da anorexia, é fundamental citar a ajuda oferecida por Jaques Lacan
para este propósito. Sua distinção entre as noções de necessidade, demanda e
desejo é de grande utilidade no entendimento desta patologia. Ele nos fala
que:
“... a criança nem sempre adormece assim no seio do ser, sobretudo
quando o Outro, que tem suas idéias sobre as necessidades dela, se intromete
nisso e, no lugar daquilo que não tem, empaturra-a com a papinha sufocante
daquilo que ele tem, ou seja, confunde seus cuidados com o dom do seu amor.
É a criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa sua
recusa como um desejo (anorexia mental). Limites em que se apreende, como
em nenhuma outro lugar, que o ódio retribui a moeda do amor, mas onde a
ignorância não é perdoada. Afinal de contas, a criança, ao se recusar a
satisfazer a demanda da mãe, não exige que a mãe tenha um desejo fora dela,
porquanto é essa a via que lhe falta rumo ao desejo?”(Lacan, 1966, p. 634)
Desta forma, com Lacan, percebe-se que a anorexia está relacionada a
um excesso no suprimento da necessidade alimentar, por parte da mãe zelosa,
porém, sob o preço de um déficit em satisfazer a demanda de amor. É
justamente pelo fato de um excesso em suprir a necessidade, que não sobra
espaço para a demanda advir; sendo os sintomas anoréxicos de recusa da
comida uma busca para reiterar a demanda, já que é a comida – que foi
fornecida em excesso – a responsável pelo desconhecimento da demanda.
E este olhar de Lacan, assim como o de Freud, para a anorexia, passou
a servir de ponto de referência para todos aqueles da psicanálise que optaram
direcionar seus esforços para a compreensão deste tipo de fenômeno.
Neste sentido, destaca-se a atenção dada, especialmente, por E.
Kestemberg et al. (1972) e Bruch (1975) a relação que as anoréxicas
apresentam com a repulsa alimentar. Segundo estes autores, esta relação, já
descrita desde Lasègue, é de extrema ambigüidade, e serve como o principal
sintoma que caracteriza um quadro de anorexia.
Quanto aos primeiros, seus trabalhos destacam principalmente o
caráter de erotização da sensação de fome, chegando a considerar este “um
signo específico da anorexia mental da adolescência” (p. 128). O aspecto
erótico aí presente é justificado pelo fato de que a busca da fome, através da
repulsa ao alimento, causa nas anoréxicas sensações de intenso prazer, o que
leva os autores a considerarem esta busca pela fome como uma busca por “um
orgasmo”.
Já Bruch (1975), seguindo este caminho, atenta para o aspecto
contraditório da repulsa alimentar: ao mesmo tempo em que as anoréxicas
apresentam este prazer oriundo da sensação de controle da fome, também
apresentam um enorme desejo pela comida, levando-as a vivenciarem de
forma torturante este combate ambivalente. Contundo, apesar deste conflito,
elas mantém-se em seu propósito de negação da fome como forma de alcançar
um estado de graça, plenitude e poder. E é justamente esta busca de poder, a
partir da negação da fome, juntamente com a ausência de angústia frente a um
emagrecimento deplorável e perigoso e a recusa verdadeira de reconhecer-se
doente, que para Bruch, caracteriza verdadeira e essencialmente o quadro da
anorexia.
Paralelamente, outro ponto de referência que tem sido muito pincelado
pelos autores atuais da psicanálise, com o intuito de aprofundar suas
pesquisas, refere-se à influência de um tipo específico de relação entre mãe e
filha sobre a gênese da anorexia. Nesta corrente, merece destaque o trabalho
desenvolvido por Bidaud (1998), que considera que no núcleo do drama da
anoréxica, encontra-se um tipo de relação em circuito fechado, entre mãe e
filha, relação a qual ele dá o nome de Laço Demeteriano. Segundo o autor, o
que acontece neste tipo de “laço” é que a mãe não olhando para o pai, não
favorece à sua filha o acesso a este, retedo-a num entre-dois fascinante, numa
aliança de domínio.
Por outro lado, alguns pesquisadores no campo da psicanálise, apesar
das referências apresentadas por Freud e Lacan acerca do assunto, optaram
por acrescentar novas perspectivas de se abordar a anorexia. Apenas para citar
dois destes, destaca-se Jeammet (1999), que aproxima as condutas alimentares
– entre estas, a anorexia - às condutas adictas. E os já citados E. Kestemberg
et al. (1972), que apesar de seguirem em parte as linhas de pesquisa iniciadas
por Freud e Lacan, também apresentam novidades ao assunto, ao
considerarem, a partir do estudo de Freud acerca da perversão, a anorexia
como uma espécie de “perversão fria” aproximando-a da psicose.
De forma similar, Bidaud (1998), numa outra e importante linha de
estudos, passa a descrever a anorexia a partir do que ele define como seu
inverso - a bulimia – sendo estas, dois momentos mais ou menos alternados de
uma mesma síndrome. Em suas palavras:
“A anorexia seria o par inverso e negativo de uma apetência tímida. O
abandono a excessos incontroláveis de consumo alimentar é realmente o que
aterroriza a anoréxica: o temor de não poder mais parar, de não poder mais
passar sem isso, de sossobrar.” (p. 24)
Assim sendo, ao percorrer sucintamente uma parte das contribuições
psicanalíticas para a compreensão da anorexia, percebe-se um movimento de
manutenção, aprimoramento e subversão de concepções. E nesse percurso,
Bidaud (1998) considera que a pesquisa psicanalítica avançou em relação à
concepção originária, que inscrevia a anorexia na histeria, chegando, nos dias
de hoje, a considerá-la como uma problemática autônoma. Neste sentido, a
anorexia passou a ser definida como uma entidade, e não mais como um
sintoma. Contudo, mesmo enquanto problemática autônoma, a anorexia
continua a ter seu enigma estrutural não decifrado. Ela se encontra no
entrecruzamento de quatro ordens psicopatológicas: neurótica, psicótica,
psicosomática e perversa. Sendo, portanto, definida como estrutura em
equilíbrio ou cruzamento.
E este “caráter de cruzamento” da anorexia não se refere apenas à sua
posição em relação as principais estruturas psíquicas psicanalíticas, mas, é
mais amplo, chegando a ocupar o posto de ser uma das principais
características da própria patologia. Jeammet (1999) comentando acerca desta
“posição de cruzamento” da anorexia, nos fala que:
“Os transtornos das condutas alimentares ocupam uma posição de
cruzamento entre a infância e a idade adulta, como ilustra sua ocorrência
eletiva na adolescência; entre o psíquico e o somático; entre o individual e o
social, tendo entre os dois o grupo familiar cuja importância é agora
admitida. Esta posição de cruzamento revela a ligação provável entre estes
transtornos e os processos de mudança: sensibilidade às mudanças
pubertárias e ao acesso à autonomia; sensibilidade às mudanças
socioculturais, mas também impossibilidade de uma expressão puramente
psíquica e representacional destas dificuldades, e necessidade de um recurso
a uma expressão atuada comportamental e a uma inscrição corporal” (p. 30)
Portanto, é inegável que apesar da enorme contribuição que os estudos
psicanalíticos da anorexia enquanto sintoma clínico tem dado para a
compreensão da etiologia desta síndrome, eles atendem apenas a parte do
problema, já que, como “estrutura em cruzamento”, faz-se essencial que o
olhar investigativo também assuma este caráter de cruzamento, chegando ao
pólo social desta patologia. Esta posição é reforçada ao consideramos a
ligação, apontada acima por Jeammet, entre a anorexia e os processos de
mudança, pois, não só as mudanças psíquicas influenciam a gênese e o
desenvolvimento desta patologia, mas também as mudanças sociais.
3. ASPECTOS SOCIAIS: PÓS-MODERNIDADE E ANOREXIA.
Não parece surpreendente, nem tão pouco coincidência, que no mesmo
pedaço de século que abrigou o enorme boom da anorexia, presenciou-se o
que Birman (1999) denomina de “uma nova cartografia do social”, a partir
da passagem da modernidade para a pós-modernidade. Esta passagem se deu
no momento em que os ideários revolucionários de transformação e
reinvenção do sujeito coletivo foram sepultados pelo conservadorismo
dominante. E a partir deste sepultamento e do advento da pós-modernidade,
ocorre, também, que a forma de subjetividade baseada nos preceitos de
“interioridade” e de “reflexão sobre si mesma”, característica da modernidade,
teve que ceder lugar a outra forma de subjetividade, baseada nas idéias de
“exterioridade” e de “autocentramento”.
Surge, então, um processo que foi muito bem descrito por Lasch (1979)
como “cultura do narcisismo”, na qual o eu vem a ocupar uma posição
privilegiada, estando o mundo centrado no eu da individualidade, sendo esta
sempre auto-referente. Neste sentido verifica-se uma forma de estetização da
existência, onde o que importa para o indivíduo é a exaltação gloriosa do eu.
Contudo, este “inflacionamento do eu” vai produzindo um esvaziamento da
intersubjetividade e um desinvestimento de trocas inter-humanas, com a
alteridade tendendo a sumir, o que vem a representar o traço fundamental da
cultura do narcisismo.
O autor acrescenta que através da estetização do eu, o sujeito busca
atrair o olhar do outro apenas para promover a exaltação ainda maior de si–
próprio, polindo seu brilho pelo cultivo infinito da admiração do outro. Assim,
o sujeito realiza polimentos intermináveis para alcançar o brilho social,
utilizando a mídia para tanto, já que esta oferece recursos bastante úteis para
tal intento, como: o poder de comunicação em massa e o culto intenso a
celebridades, cercando-as de encantamento e excitação. Porém, esta busca por
exposição e olhar apreciativo do outro, acaba por gerar uma sensação de
grande “vazio”, que se almeja preencher com as desejadas experiências
vivenciadas restritamente pelos “poucos escolhidos” – as celebridades. Sobre
este aspecto, ele comenta:
“A ‘mídia’ dá substância e, por conseguinte, intensifica os sonhos
narcisistas de fama e glória, encoraja o homem comum a identificar-se com
as estrelas e a odiar o “rebanho”, e torna cada vez mais difícil para ele
aceitar a banalidade da existência cotidiana.” (Lasch, 1979, p. 43)
Logo, faz-se necessário, um esforço contínuo para estar sempre na
mídia, o que dá origem ao culto a imagem, que juntamente com a primazia
pela auto-satisfação, o temor exacerbado da velhice e da morte, o senso
alterado de tempo, o fascínio pelas celebridades, a escassez do espírito lúdico,
o medo da competição e as relações deterioradas entre homens e mulheres,
representam os padrões característicos da cultura pós-moderna, segundo
Lasch(1979).
E em relação a esta forma de cultura, as formulações de Debord (1997)
acerca do que ele denomina de “sociedade do espetáculo” representam uma
contribuição de imenso valor para o entendimento destas novas formas de
subjetivação. De acordo com ele, neste tipo de sociedade, a hegemonia da
aparência define o critério do ser e da existência. O sujeito vale não pelo que
é, mas pelo que parece ser mediante as imagens produzidas para se apresentar
na vida social. Logo, a exibição se transforma no lema essencial da existência
e sua razão de ser – vive-se para a exibição, para se exaltar o eu. A
subjetividade passa a ser, então, baseada no exibicionismo, na exterioridade,
na exaltação do eu e na estetização. Com isto, a imagem ocupa sempre o papel
de personagem principal, sendo a exigência do espetáculo o catalisador dos
laços sociais. Nas palavras dele: “O espetáculo não é um conjunto de
imagens,
mas
uma
relação
imagens” (Debord, 1997, p. 14).
social
entre
pessoas,
mediada
por
Para este autor, a hegemonia da aparência nas trocas sociais se dá em
tal grau, neste tipo de sociedade, que a própria vida humana, na sua forma
visível, passa a existir apenas como aparência. A verdade do espetáculo, ele
afirma, promove “a negação visível da vida; como negação da vida que se
tornou visível.” (Debord, 1997, p. 16)
Com isto, para Debord (1997), o mundo real foi transformado em
simples imagens, e estas em seres reais, já que o espetáculo apresenta uma
tendência a fazer ver o mundo que já não se pode tocar diretamente; tornando,
para tal intuito, a visão o sentido privilegiado da pessoa humana, e não mais o
tato, como ocorria em épocas anteriores. O mundo sensível, então, é
substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele, a qual passa a
se fazer reconhecer como o sensível por excelência.
Uma outra característica desta sociedade pós-moderna é, segundo
Fischler (1995), a “lipofobia”, ou seja, sua obsessão pela magreza e rejeição
quase maníaca à obesidade. Segundo a autora, os significados sociais de
gordura e magreza sofreram uma enorme mudança durante o século passado.
Até por volta da metade do século XX, enquanto a magreza era referência
social de pobreza, doença e antipatia, o corpo gordo carregava consigo
justamente os significados sociais opostos: saúde, riqueza e simpatia.
Contudo, a partir da segunda metade do século - especialmente a partir da
década de 70 – o “corpo magro” foi aos poucos adquirindo qualificações
positivas, chegando, nos dias atuais, a tornar-se praticamente uma exigência
para aqueles que buscam destaque social.
Em contrapartida, a obesidade passou a ser negativamente significada
em nossa cultura. Atualmente, os obesos são constantemente descritos como:
descontrolados, preguiçosos e doentes. De acordo com Brusset (1977), os
gordos são socialmente descritos como transgressores que desrespeitam a todo
instante as leis que governam o comer, o prazer, o esforço e o controle de si.
Eles são referidos como aqueles que comeram mais do que os outros, e mais
do que sua parte na partilha social. Logo, estão sob a acusação de ameaçar os
próprios fundamentos da organização social, remetendo-os a condição de
animalidade.
Verifica-se, também, a partir do fenômeno da “lipofobia”, o surgimento
de empresas especializadas em produtos que atendam a esta crescente
demanda por magreza. E com o passar do tempo, a “indústria da magreza”,
como passou a ser chamado este conjunto de empresas, foi alcançando um
grau cada vez maior de especialização e sofisticação. Apenas para citar alguns
exemplos, surgiram na área alimentar os alimentos de baixo valor calórico e
os suplementos alimentares. Na farmacêutica, medicamentos que inibem o
apetite, outros que eliminam a gordura consumida, e, ainda, os que prometem
eliminar a gordura já presente no organismo. Na prática cirúrgica da medicina,
a lipoaspiração e a gastroplastia. Na atividade física, cadeias de academias
com instrumentos e atividades cada vez mais diversificadas. E na nutrição e
no senso comum, uma infinita oferta de dietas. Tudo para atender a ânsia
desta sociedade por magreza.
Portanto, ao analisar as formas de subjetivação que encorpam esta nova
cartografia do social – especialmente, a primazia da imagem, o autocentramento, a estetização do eu, a hipervalorização da aparência e a lipofobia
– verifica-se que estes aspectos também são características fundamentais do
funcionamento psíquico das anoréxicas. Logo, na anorexia, parece existir uma
espécie de transbordamento entre os aspetos psíquicos e sociais.
Uma interessante ilustração deste tipo de transbordamento refere-se a
um fenômeno não só brasileiro, mas mundial, onde as anoréxicas parecem
abandonar a solidão – e, porque não, a exclusão social – de sua doença,
reunindo-se em grupos organizados sob a forma de sites e comunidades
na internet, sob o nome de “pró-anas”(4).
Observando as Pró-Anas, é possível verificar que elas se utilizam deste grupo
principalmente para: fazer apologia à prática anoréxica e bulímica, assim como, ao culto
à magreza, admirando e venerando pessoas que sejam, ao mesmo tempo, muito magras
e famosas - especialmente modelos e atrizes – e demonstrando repulsa às pessoas
obesas; trocar informações acerca de remédios para emagrecer; vender e comprar
ilegalmente estes remédios, já que necessitam de prescrição médica e que são de difícil
acesso a elas, por serem, normalmente, proibidas pela família e por seus médicos de
comprar e fazer uso dos mesmos; trocar informações acerca de outras práticas para
emagrecer – como dietas, tipos de alimentos menos calóricos, prática de atividades
físicas, entre outras; dar dicas de como vomitar, e como esconder tanto os vômitos
quanto a própria doença da família e dos outros grupos sociais; discutir e opinar acerca
de seus relacionamentos pessoais – especialmente os de namoro; só para citar alguns.
É importante mencionar que as Pró-Anas dizem possuir uma clara
filosofia(5), chegando, em alguns destes grupos, a verificar-se a existência de
um conjunto de mandamentos que discorrem acerca de como ser e manter-se
uma Ana, assim como, da importância de ser uma Ana(6). E sobre este aspecto,
encontra-se disponível nestes sites ao leitor que tiver interesse, pseudo-estudos
que justificam a “causa anoréxica”(7).
____________________
(4) Ver: http://ana.makeupyourmind.nu/ e http://www.porquechorasbundchen.weblogger.terra.com.br/ind
ex.htm
(5) Ver: http://www.plagueangel.net/grotto/id5.html.
(6) Ver, por exemplo: http://www.victoriasproana.com/2comm.html.
(7) Ver: http://www.plagueangel.net/grotto/id5.html.
Verifica-se, portanto, a partir da existência destes grupos, indícios de
que a anorexia possa já não ser apenas um sintoma clínico, que deva somente
receber um olhar teórico sobre a singularidade de cada paciente; mas,
também, que ela possa já ser, algo mais amplo - um fato social.
4. REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO*:
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BRUSSET, B. L’Assiette et le miroir. Toulouse: Privat, 1977.
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Alan Braga de Paula, Anorexia: sintoma clínico ou fato social?