A EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA MOVELEIRA E SUA IMPORTÂNCIA NO
CRESCIMENTO DA REGIÃO NORTE DO ESPÍRITO SANTO
Hermes Renato Pessotti
Mestrando em Engenharia de Produção – Univila/UNIMEP
Professor do Curso de Administração das Faculdades Integradas Norte Capixaba – FANORTE
Av. Filogônio Peixoto, s/nº - Bairro Aviso – Linhares – ES
e-mail: hpessotti@hotmail.com
Abstract
The objective of this paper is to describe the present evolution stage of the furniture industries in
the Linhares furniture production center and its function in the contribution to the development
on the north region of the Espirito Santo State. It also concern to the growing process of these
industries, where the synergy of this evolution is shown according to its productive activities and
with the market that each one is inserted on. From the research involving the industries of the
furniture business in case, also denoted the great predominance of small industries, spotted by its
great importance to the developing of the furniture business to the city of Linhares.
Key words: Industrial evolution, Furniture industry, Espírito Santo.
Resumo
O presente trabalho tem por objetivo descrever o atual estágio de evolução das indústrias
moveleiras do pólo de Linhares e o seu papel na contribuição para o desenvolvimento na região
norte do estado do Espírito Santo. Nele é abordado também, o processo de crescimento destas
empresas, onde a sinergia desta evolução se apresenta de acordo com as suas atividades
produtivas e com o mercado ao qual cada uma está inserida. A partir do estudo envolvendo as
empresas do pólo moveleiro em questão, percebeu-se também, uma grande variabilidade de
empresas, onde a predominância ainda é de pequenas e micro empresas, que se destacam pela sua
elevada importância para o desenvolvimento do próprio setor e para o município de Linhares.
Palavras – chave: Evolução industrial, Indústria moveleira, Espírito Santo.
Introdução
A crescente busca pela competitividade leva as empresas a buscarem o desenvolvimento como
forma de sua sustentabilidade no mercado. De acordo com Serrão e Dalcol (2001), no contexto
industrial atual, as empresas têm experimentado influências generalizadas oriundas de seu
ambiente competitivo e isso tem gerado em muitas delas a necessidade de estarem continuamente
considerando e respondendo à dinâmica dos mercados nos quais estão inseridas.
No entanto, para poderem competir no mercado globalizado, as empresas apostam no
desenvolvimento de seus processos de produção, sua forma de gestão e nas oportunidades de
mercado como sendo as suas maiores fontes de sobrevivência.
Neste aspecto, Pessotti e Souza (2004) apontam que, de uma forma ainda um pouco tímida,
percebe-se que algumas indústrias do pólo moveleiro de Linhares no Espírito Santo, estão
buscando tirar proveito da globalização e apostam neste novo mercado como a saída para a sua
sobrevivência. Diante disso, estas empresas buscam serem competitivas neste emergente
mercado, onde algumas delas estão apresentando elevado desenvolvimento tecnológico e os mais
ofertando os mais variados tipos de produtos.
No entanto, com a evolução deste setor, a busca pela competitividade se destaca e passa a ser
caracterizada como particular e estratégica de cada organização, onde a abertura dos novos
mercados e a queda de muitas barreiras comerciais proporcionou, além de diversas
oportunidades, a necessidade de modernização e de crescimento dessas empresas. A seguir,
apresenta-se como a competitividade pode influenciar no desenvolvimento das empresas.
O Fator Competitividade para as Empresas
A competitividade entre as empresas cresce a cada dia e uma das necessidades de quem procura
ser competitivo é entender o que o termo significa. Assim, “ser competitivo é ter condições de
concorrer com um ou mais fabricantes e/ou fornecedores de um produto/serviço em um
determinado mercado” (MARTINS; LAUGENI, 2002, p. 09).
Da mesma forma, Davis et al (2001, p. 41) destacam que “a competitividade de uma empresa ou
de uma UEN – Unidade Estratégica de Negócios – refere-se à sua posição relativa no mercado
consumidor, em termos de como ela compete com as outras empresas em seu mercado”.
Assim, pode-se destacar que esta condição só é satisfeita se não houver um fornecedor que
domine totalmente o mercado. Contudo, Corrêa et al (2001, p. 26) descrevem que “ser
competitivo é ser capaz de superar a concorrência naqueles aspectos de desempenho que os
nichos de mercado visados mais valorizam”.
Apesar de conseguirem serem competitivas, as empresas devem também manter essa
competitividade e esse é o desejo e o objetivo de toda organização. Desta forma, uma empresa
somente consegue sobreviver no mercado se mantiver alguma vantagem competitiva sobre seus
concorrentes, onde Martins e Laugeni (2002, p. 09) destacam que:
“para ser competitiva, uma empresa deve estabelecer uma estratégia de ação para atuar em
mercados locais, regionais ou globais. Quanto maior o raio de sua atuação, tanto maior deverá
ser sua capacidade competitiva ou, vale dizer, suas vantagens competitivas”.
Para alguns autores, a competitividade como fenômeno relacionado às características de um
produto ou de uma empresa e também, referem-se ao seu desempenho, em termos de participação
no mercado de uma empresa ou um conjunto de empresas, ou à sua eficiência técnica expressa
por indicadores internos como produtividade e práticas da organização do trabalho.
Os fatores competitivos atuais afetam as empresas em qualquer nível que elas se encontram.
Neste aspecto, para se discutir a competitividade de uma forma generalizada é importante que se
apresente a forma de classificação das empresas, pois todas elas se mostram importantes para o
desenvolvimento das regiões onde estas estão inseridas.
A Classificação das Empresas
É consenso na literatura que tanto para as comunidades locais quanto para a economia nacional,
as micro, pequenas e médias empresas desempenham um papel fundamental para o seu
desenvolvimento, onde correspondem atualmente como as maiores geradoras de empregos e
receitas para a nação.
Para Pelissari (2002) “as pequenas empresas representam atualmente 90% da economia nacional
e correspondem a mais de 4/5 da oferta total de novos empregos”. Esse autor aponta também, que
de acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE e com o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, que levam em consideração o número de
pessoas ocupadas, as empresas podem possuir uma classificação diferentes.
Para estes órgãos, os critérios oficiais para a classificação das empresas são apontados onde as
microempresas se apresentam como aquelas que possuem até 19 empregados para o caso de
indústrias e até 09 empregados no caso dos setores de comércio e de serviços, as pequenas
empresas se mostram aquelas que possuem de 20 a 99 empregados para o caso de indústrias e
entre 10 e 49 empregados no caso dos setores de comércio e de serviços, as médias empresas se
caracterizam por possuírem de 100 a 499 empregados para o caso de indústrias e entre 50 a 99
empregados no caso dos setores de comércio e de serviços e as grandes empresas são aquelas que
possuem acima de 500 empregados para o caso de indústrias e acima de 100 empregados no caso
dos setores de comércio e de serviços.
Por sua vez, uma forma mais criteriosa, Kassai (1996) apud Pelissari (2002) apresenta na tabela
01 as principais características de diferenciação entre as pequenas e grandes empresas.
Tabela 01 – Principais características de diferenciação entre as pequenas e grandes empresas.
Características
Adaptabilidade
Administração
Capacidade de Interpretar e Utilizar
Políticas e Dispositivos Legais
Capacidade de Utilização de Especialistas
Capacitação Profissional
Capital
Concentração de Recursos
Decisão
Estrutura
Flexibilidade
Forma Jurídica
Ganhos de Escala
Idade Média
Níveis Hierárquicos
Nº de Funcionários
Nº de Produtos
Recursos Financeiros
Sistemas de Informação
Utilização da Tecnologia
Grandes Empresas
Pequenas Empresas
Pequena
Profissional
Grande
Grande
Pessoal ou Familiar
Pequena
Grande
Especializada
Dissolvido
Capital
Descentralizada
Organizada
Pequena
Sociedade Anônima
Grandes
Alta
Muitos
Grande
Grande
Abundantes
Complexos, Formalizados e
Informatizados
Alta
Pequena
Não-especializada
Concentrado
Trabalho
Centralizada
Informal
Grande
Limitada
Pequenos
Baixa
Poucos
Pequeno
Pequeno (Único)
Escassos
Simples, Informais e Manuais
(Mecanizados)
Baixa (Artesanal)
Fonte: Kassai (1996, p. 81) apud Pelissari (2002)
Quanto à classificação das empresas pelo número de funcionários, vale lembrar que esta é a
classificação mais utilizada atualmente no Brasil, principalmente pelos órgãos de financiamento.
Existem também, outras formas de classificação das empresas, como o caso do Ministério do
Trabalho e do BNDES, porém esta classificação é muito pouco utilizada.
Em forma de valores financeiros, Paula (2001) salienta que o novo Estatuto da Micro e Pequena
Empresa, de 05 de Outubro de 1999, Capítulo II, Artigo 2º, classifica as microempresas como a
pessoa jurídica e a firma mercantil individual que tiver receita bruta anual igual ou inferior a R$
244.000,00 (duzentos e quarenta e quatro mil reais) e as pequenas empresas como a pessoa
jurídica e a firma mercantil individual que, não se enquadra como microempresa, tiver receita
bruta anual superior a R$ 244.000,00 (duzentos e quarenta e quatro mil reais) e igual ou inferior a
R$ 1.200.000,00 (um milhão e duzentos mil reais).
As empresas de um modo geral sejam elas de qualquer porte, possuem formas de diferenciação
que vão além das classificações abordadas. Isso fica evidente até mesmo quando são feitas
comparações entre localidades diferentes.
Nesta abordagem, as indústrias moveleiras de Linhares no Espírito Santo, apresentam os mais
variados portes, onde de acordo com os dados do Sindicato das Indústrias da Madeira e do
Mobiliário de Linhares – SINDIMOL (2005) existe atualmente neste pólo cerca de 150 empresas,
sendo 01 (uma) grande empresa, 10 (dez) médias e as restantes são classificadas entre pequenas e
microempresas.
Para se chegar a essa quantidade de empresas, houve durante um determinado período de tempo
um processo de evolução para este setor, onde a formação deste pólo de desenvolvimento se
caracteriza de grande importância para a região em questão.
O Surgimento da Indústria Moveleira no Brasil e a Formação de Pólos Moveleiros
A produção de móveis no Brasil surgiu juntamente com o seu descobrimento. Com a chegada dos
primeiros colonos europeus, houve a necessidade deste tipo de atividade, pois a maioria deles que
aqui desembarcou não tinha móveis e isso proporcionou com que eles buscassem produzir seu
próprio mobiliário dando início assim, as primeiras extrações de madeira nativa para utilização
neste processo.
A abundância de madeira nativa e de boa qualidade fez com que eles não encontrassem
dificuldades nesta atividade e que pudessem desenvolver seu próprio mobiliário que era de forma
puramente artesanal e para utilização própria. Assim, em princípio, eram produzidos todos os
tipos de móveis necessários, onde toda a produção era desenvolvida de forma manual, rústica e
com uso de ferramentas pouco apropriadas.
Este tipo de produção, tipicamente artesanal, se distendeu durante muitos anos e somente no
início do século XX, com o crescimento das principais grandes cidades, como São Paulo e Rio de
Janeiro, foi efetivamente iniciado como processo de produção seriada e em larga escala.
Este aspecto levou Coutinho et al (2001, p. 14), a descrever que:
“[...] no começo do século 20, a cidade de São Paulo e seus municípios limítrofes – Santo
André, São Caetano e São Bernardo – assistiram ao surgimento de pequenas marcenarias de
artesãos italianos, gerado pelo grande número de fluxo migratório. A indústria moveleira surgia,
então, agregada ao primeiro estágio de desenvolvimento da indústria em São Paulo, com a
maior parte da produção voltada para o mercado popular em formação”.
Nessa mesma época, surgiam também, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, os primeiros
pólos moveleiros impulsionados pelos mesmos motivos do surgimento na região de São Paulo.
Durante muito tempo as empresas localizadas nestas regiões obtiveram pouco crescimento e
trabalhavam em grande parte para atender o mercado sob encomenda e na própria região, onde
segundo Delabianca (2002, p. 13), somente a partir da década de 50, ocorreu o surgimento de
pólos moveleiros nos estados de São Paulo (Mirassol, Votuporanga e São Paulo), Rio Grande do
Sul (Bento Gonçalves), Santa Catarina (São Bento do Sul), Paraná (Arapongas), Minas Gerais
(Ubá) e Espírito Santo (Linhares), onde este processo de produção, em virtude da demanda, foi
migrando gradativamente do processo artesanal para o processo de produção seriada.
Com o crescimento das cidades, o mercado de móveis foi se tornando cada vez mais promissor e
algumas regiões do país foram impulsionadas para a formação de pólos moveleiros, onde cada
uma apresentava as suas próprias particularidades, apresentando necessidades e características
diferentes.
Tal fato leva Coutinho et al (2001, p. 15) a ressaltar que “a formação desigual da cultura
industrial do setor moveleiro deve ser considerada na elaboração das estratégias de mercado, de
modo a possibilitar uma complementaridade interpólos”. Estes autores destacam ainda, que este
processo não se trata de uma característica inconveniente para o desenvolvimento do setor, pois a
experiência dos pólos mais avançados poderá se articular ao dinamismo verificado nos pólos em
desenvolvimento.
Como forma de atender o mercado, as empresas moveleiras, inicialmente eram chamadas de
marcenarias e produziam tipicamente por encomenda, sendo que a maioria destas empresas
produzia todo o tipo de mobiliário sem especialização alguma. Porém, com o aumento da
demanda e a necessidade de se produzir em grandes quantidades, esta foram levadas a migrar
gradativamente para o processo de produção em série, no qual algumas empresas conseguiram
altos índices de crescimento e produtividade.
No que diz respeito à cidade de Linhares no Espírito Santo, Villaschi Filho e Bueno (2000, p. 31)
destacam que de forma pioneira, “em 1979 a Movelar passa a produzir móveis em série, mais
baratos, para populações de menor renda, especializando-se em dormitórios para atender
basicamente os estados do ES, MG e BA”. Assim, como estratégias de mercado, algumas
empresas passaram a produzir apenas o tipo de móvel que lhe era mais viável estrategicamente,
deixando de atender a produção por pedidos.
Com isso, as empresas que foram surgindo posteriormente nesse ramo de atividade, vinham em
geral, para suprir uma necessidade de mercado que as empresas atuais não conseguiam ou não era
viável economicamente atender e assim, foram se complementando na própria região e formando
os chamados pólos moveleiros, que serão apresentados no próximo item.
Apresentação dos Principais Pólos Moveleiros do Brasil
De acordo com Gorini (2000) a produção moveleira no Brasil é regionalmente concentrada,
sendo que os Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná respondem por
cerca de 82% da produção nacional. Destes, São Paulo é estado que concentra o maior volume de
produção, sendo responsável por 42% do volume produzido, seguido do Rio Grande do Sul com
18% da produção nacional. Desta forma, uma característica das empresas moveleiras é que as
mesmas são agrupadas em pólos regionais.
Os principais pólos moveleiros do Brasil, bem como as suas características principais podem ser
visualizadas na tabela 02.
Tabela 02 – Principais pólos moveleiros do Brasil
Pólo
Estado
Nº de
Empresas
Empregos
Principais
Mercados
Principais Produtos
Votuporanga
SP
350
7000
Todos os Estados
São Bento do
Sul e Rio
Negrinho
Ubá
SC
210
8500
MG
153
3150
Arapongas
PR
145
5500
Exportação, Paraná,
Santa Catarina e
São Paulo
Minas Gerais, São
Paulo, Rio de
Janeiro e Bahia
Todos os Estados
Cadeiras, armários, estantes,
mesas, dormitórios, salas,
estofados e móveis sob
encomenda em madeira maciça.
Móveis de Pínus, sofás, cozinhas
e dormitórios.
Bento
Gonçalves
Linhares e
Colatina
RS
130
7500
ES
150
4000
Bom
Despacho e
Martinho
Campos
Mirassol, Jaci,
Bálsamo e
Neves Paulista
MG
117
2000
SP
80
3000
Lagoa
Vermelha
RS
60
1800
Tupã
SP
54
700
Moveleiro
Todos os Estados e
Exportação
Espírito Santo, São
Paulo e Minas
Gerais
Minas Gerais
São Paulo, Minas
Gerais, Rio de
Janeiro, Paraná e
Nordeste
Rio Grande do Sul,
São Paulo, Paraná,
Santa Catarina e
Nordeste
São Paulo
Cadeiras, dormitórios, salas,
estantes e móveis sob
encomenda.
Móveis retilíneos, estofados,
móveis de escritórios e
tubulares.
Móveis retilíneos, móveis de
pínus e metálicos (tubulares).
Móveis retilíneos (dormitórios e
salas) e móveis sob encomenda.
Cadeiras, dormitórios, salas,
estantes e móveis sob
encomenda.
Cadeiras, dormitórios, salas,
estantes e móveis sob
encomenda em madeira maciça.
Dormitórios, salas, móveis de
pínus, estantes e estofados.
Mesas, racks, estantes, cômodas
e móveis sob encomenda.
Fonte: Adaptado a partir de Gorini (2000)
Os dados apresentados na tabela 02 mostram que a grande maioria dos móveis produzidos nos
principais pólos moveleiros se concentra no segmento de móveis residenciais, sendo que existe
uma grande produção especializada voltada para a linha de dormitórios, armários e rack’s.
Para Gorini (2000) o segmento de móveis de madeira para residência é o mais importante, com
60% da produção total, seguido pelo mesmo segmento de móveis de madeira para escritórios,
com 25% e da produção de móveis institucionais para escolas, consultórios médicos, hospitais,
restaurantes, hotéis e similares, com 15%.
A formação destes pólos propicia uma série de vantagens para as empresas, pois além de
conseguirem adquirir matérias primas em melhores condições de preço, prazo e pelo alto volume
adquirido, incentiva a instalação de empresas fornecedoras específicas na própria região, devido
ao grande número de empresas potenciais compradoras de um determinado produto.
Assim, diversos pólos possuem empresas fornecedoras instaladas nas suas proximidades e este
fato proporciona rapidez no atendimento, confiabilidade nos prazos de entrega, melhor qualidade
nos serviços prestados e ainda grande redução nos tempos e custos de transporte, proporcionada
por uma eficiente logística de distribuição. Todos estes aspectos representam algumas das
estratégias utilizadas por essas empresas para poderem competir no mercado.
As Estratégias da Indústria Moveleira e as Tecnologias de Produção
O setor moveleiro nacional vem apresentando um grande crescimento nos últimos anos e o
processo de produção de móveis no Brasil vem evoluindo significativamente. Atualmente, já se
possui tecnologia que são comparadas aos níveis internacionais, com qualidade para competir em
qualquer parte do mundo.
Gorini (2000, p. 11) explica que:
“ao longo dos últimos anos, alguns segmentos da indústria brasileira de móveis têm
experimentado mudanças significativas em sua base produtiva e uma rapidez muito grande em
se ajustar às novas condições de abertura comercial da economia brasileira e de globalização de
mercados em nível mundial”
Por sua vez, Coutinho et al (2001, p. 15), destacam que “a concorrência do nosso setor moveleiro
atual é com o móvel estrangeiro, não mais entre empresários nacionais”, nos levando a crer que a
tecnologia utilizada na produção, a mesma matéria-prima e a informação sendo acessível a todas
as empresas, não existem mais diferenças significativas no mobiliário brasileiro.
Esse fator de similaridade entre os produtos é fortemente ligado à evolução do setor, que cresceu
muito na última década e que, com a abertura dos mercados internacionais, as empresas
moveleiras se viram obrigadas a crescer e se modernizar, pois da mesma forma que as mesmas
passaram a ter capacidade de introduzir seus produtos no mercado externo, as empresas
estrangeiras também tiveram acesso ao mercado nacional.
Isto fez com que as empresas brasileiras buscassem a modernização de seus processos industriais
para poderem competir com essa ameaça do mercado externo. Assim, produzir seus produtos
com rapidez, qualidade e baixo custo, se tornou uma questão de sobrevivência para as empresas
de móveis brasileiras nos últimos tempos e modernizar foi a tônica das empresas moveleiras nos
últimos anos, pois do contrário, estariam fadadas ao insucesso.
As mudanças nos mercados, as necessidades dos clientes e a necessidades de maiores volumes de
produção e melhores índices de produtividade não proporcionaram outra escolha e a mudança, no
contexto atual, passou a ser a única certeza para as empresas que competem em um mercado
amplamente globalizado.
Rigoni (1998) apud Delabianca (2002) chama atenção para o fato de que o setor moveleiro
nacional, embora tendo passado por um período de modernização no início da década de setenta,
não privilegiou a competição no mercado internacional. Estimulado pelo crescimento do mercado
interno durante este período, o setor buscou direcionar sua produção para o atendimento desta
demanda.
Com a crise da década de oitenta e a retração do mercado interno, o que naturalmente estimularia
a busca pelo mercado internacional, as estratégias de produção viram-se frustradas pelo nível de
desatualização tecnológica. Com isso, a única saída foi a modernização dos parques industriais,
mediante aquisição de equipamentos de outros países e a formação de profissionais capacitados
para gerir o setor, pois as empresas ainda possuíam uma administração tipicamente familiar.
Na década de noventa ocorreu uma considerável renovação no parque de máquinas, com a
aquisição de equipamentos provenientes, a maior parte, da Itália e Alemanha. Contudo, essa
realidade está longe de ser predominante no universo das empresas nacionais, principalmente em
virtude da composição do setor ser majoritariamente de pequenas e médias empresas, sendo que
as mais modernas geralmente estão mais focadas no comércio internacional (GORINI, 1998).
Com efeito, Santos (1999, p. 19) afirma que “a atualização tecnológica tem se mostrado um fator
indispensável para se atingir os níveis de produtividade e competitividade exigidos atualmente
pelo mercado”. No entanto, o setor moveleiro, assim como diversos outros ramos de atividade
produtiva, ainda é caracterizado pela grande quantidade de pequenas e médias empresas, com
isso, apenas algumas delas detém alta tecnologia para a produção seriada e isso permite uma
grande variabilidade dos produtos ofertados, conforme apresentado na tabela 03.
Tabela 03: Os principais pólos moveleiros do Brasil e a tecnologia de produção.
Pólos
Grande São Paulo (SP)
Noroeste Paulista (SP)
(Votuporanga e Mirassol)
Tecnologia
Atualização
Heterogênea:
Seriados: Alta Tecnologia
Sob Encomenda: Artesanal
Escritórios: Elevada Complexidade
Diferenciada:
Rápida (Incremental)
Lenta (Cópias)
02 anos (Full Line)
Líderes (Móveis Retilíneos e Metálicos):
Alta Tecnologia
PME’s: Intensivas em Mão-de-Obra
Rápida
Em Andamento
Itatiaia: Alta Tecnologia
PME’s: Níveis Inferiores
Rápida
Ritmo Lento
Arapongas (PR)
Líderes: Média Capacitação
PME’s: Níveis Inferiores
Em Andamento
Em Andamento
Bento Gonçalves (RS)
Maior Capacidade Nacional
Similar às Empresas
Estrangeiras
Líderes: Entre Média e Alta Tecnologia
PME`s: Níveis Inferiores a Médios
Rápida
Em Andamento
Ubá (MG)
Linhares (ES)
Fonte: Adaptado a partir de Santos et al (1999, p. 19)
Atualmente, muitas dessas empresas ainda trabalham de forma artesanal e com sistemas de
produção sob encomenda, pois necessitam de pedidos para produzir, uma vez que a produção
para estoque pode ser prejudicial devido ao fato de se trabalhar com as incertezas do mercado e
com as dificuldades em se obter uma reserva de capital de giro.
A Evolução da Indústria Moveleira no Espírito Santo e a Competitividade do Setor
Villaschi Filho e Bueno (2002) descrevem que a indústria de moveleira na região norte do
Espírito Santo iniciou-se com o surgimento de grupos populacionais próximos à região de
Linhares e Colatina. Esse contingente advindo da região Sul do Estado, buscava terras devolutas
para o cultivo do café. Em conjunto com a produção agrícola, também se desenvolvia a produção
artesanal de roupas, alimentos e móveis. Assim, as pequenas marcenarias surgiram como
produção temporária objetivando a complementação da renda familiar.
Outro fator preponderante para o crescimento das empresas, foi a instalação de inúmeras serrarias
na região, principalmente em Linhares, com o objetivo de utilizar a madeira que era desmatada
em função do avanço do plantio de café e da formação de pastagem para a pecuária.
Segundo Villaschi Filho e Bueno (2002, p. 23) o ciclo mata-café-pastagem era facilmente
visualizado, onde as matas nativas eram derrubadas para o plantio de café e posteriormente, com
a degradação do solo, o mesmo era transformado em pastagens para a criação de gado. Como o
café foi perdendo preço no mercado e conseqüentemente, espaço para a pecuária, iniciou-se um
novo ciclo: o ciclo mata-pastagem, com retirada de grandes quantidades de madeiras para dar
lugar a pecuária extensiva.
A retirada da madeira impulsionou o grande avanço da indústria moveleira na região de Linhares
que aconteceu no início dos anos 70, com os trabalhos da família Rigoni, que se instalou na
cidade e começou a trabalhar com móveis sob encomenda para atender o próprio mercado.
Atualmente, esta família é proprietária das três maiores empresas do setor, que são: a Movelar, a
Rimo e a Delare, que atuam no ramo de móveis seriados para dormitórios e estofados em geral e
essas empresas são, atualmente, responsáveis pela grande maioria dos produtos que são
exportados para outros países. No entanto, Pessotti e Souza (2004) descrevem que a fatia de
mercado conquistada por essas empresas ainda é muito pequena e a quantidade de produtos que
chega ao mercado externo ainda é muito restrita.
Como fonte de competitividade, deste o início de seu surgimento, o setor moveleiro sempre se
caracterizou como um ramo de atividade onde existem poucas barreiras de entradas, onde a cada
ano, a quantidade de empresas varia consideravelmente. Este crescimento deve-se à facilidade de
aquisição de matéria-prima, treinamento, baixo custo da mão-de-obra de produção e baixo valor
dos equipamentos e, segundo Gorini (1998) apud Villaschi Filho e Bueno (2002, p. 09):
“o setor moveleiro nacional é caracterizado pela grande presença de pequenas e médias
empresas, tendo a participação de inúmeras informais, em razão das baixas barreiras à entrada,
o que dificulta, entre outras coisas, a introdução de normas técnicas que atuariam na
padronização dos móveis e de suas partes intermediárias”.
De forma contrária, se as barreiras de entradas são poucas, as pressões competitivas são elevadas.
Assim, da mesma forma que aumenta o número de empresas, a quantidade de empresas que saem
do mercado a cada ano também é muito elevada. Segundo dados do Sindimol (2005), o número
de empresas moveleiras na região de Linhares é praticamente estável, pois a quantidade de novas
empresas que surgem a cada ano é compensada pelas empresas que também deixam o mercado.
Essa alternância de empresas é caracterizada pelo fato de que são, geralmente empresas de
pequeno porte e que iniciam suas atividades produtivas com pouco ou nenhum planejamento e
que mais tarde, acabam sendo sufocadas pelas maiores.
O que chama atenção neste ramo de atividade é a diversidade quanto ao porte e estruturação das
empresas, onde as maiores são mais estruturadas e consolidadas, enquanto que as menores
buscam espaço copiando os produtos das maiores e tentando buscar competitividade com
produtos mais baratos.
Por outro lado, uma vantagem competitiva que se apresenta para as pequenas e médias empresas
moveleiras, reside no fato de que a flexibilidade nos processos produtivos é muito maior em
empresas menores, pois as mesmas geralmente trabalham em forma de célula de manufatura e
estão preparadas para produzir qualquer tipo de produto, uma vez que produzem sob encomenda
e os seus produtos não são padronizados. A seguir procura-se discutir a relevância destas
empresas para o setor e para a região norte do estado do Espírito Santo.
A Importância da Indústria Moveleira para a Região de Linhares
A questão econômica que envolve as empresas também é relevante quando se analisa o pólo
moveleiro de Linhares. De acordo com os dados do Sindimol (2005), existem na região, cerca de
150 empresas atuando nesta atividade, produzindo os mais variados tipos de móveis. Destas
empresas, 01 (uma) é de grande porte, 10 (dez) se apresentam como médias e as demais estão
divididas entre pequenas e microempresas.
Ainda segundo o próprio Sindimol (2005), o pólo moveleiro de Linhares é um dos segmentos
mais tradicionais e de maior destaque do Espírito Santo. Além do município de Linhares, este
abrange ainda os municípios de Rio Bananal, Sooretama, Jaguaré, Boa Esperança, Pinheiros,
Pedro Canário, Mucurici, Montanha e Conceição da Barra. Por sua vez, em nível de Espírito
Santo, em conjunto com Vitória e Colatina, o pólo de Linhares é classificado como o 5º maior do
Brasil e no ano de 2004 alcançou um faturamento de 520 milhões de reais, contribuindo para o
faturamento alcançado no Brasil, que foi de 11,4 bilhões de reais no mesmo ano.
Em conjunto, as empresas do pólo de Linhares geram cerca de 4000 (quatro mil) empregos
diretos sendo que cerca de 70 a 75% desse pessoal, está alocado em pequenas e médias empresas.
Outra consideração importante é que “o total da renda desta atividade para a região de Linhares,
corresponde a um percentual de 23 a 24 % da renda total do município” (SINDIMOL, 2005).
Apesar de todas as características apresentadas, é nítida a diferença competitiva entre essas
empresas, pois ficam evidentes as limitações de cada empresa dentro do seu contexto produtivo,
tanto na capacidade de produção quanto nas tecnologias empregadas, enquanto as maiores
buscam comercializar e distribuir seus produtos para todo o território nacional e até para o
mercado externo, enquanto as menores buscam competir na própria região ou até mesmo na
própria localidade.
Considerações Finais
Procurou-se destacar neste trabalho, a evolução da indústria moveleira no Estado do Espírito
Santo, mais precisamente no município de Linhares, onde esta evolução retrata o potencial de
crescimento nesta região. Percebe-se também, neste estudo, que a grande maioria das empresas
que formam o pólo em discussão são classificadas como empresas de micro e pequeno porte,
onde a sua relevância para o setor passa a ser bastante elevado.
Nestes termos, não se pode desprezar a importância destas empresas para o setor, pois sem elas,
as grandes empresas teriam dificuldades em competir no mercado globalizado, pois elas fazem
parte de uma malha competitiva que proporciona suporte para as maiores se destacarem. Esta
malha competitiva está diretamente relacionada ao processo de que as menores fazem as grandes
crescerem em competitividade, ou como forma de suporte em terceirização ou como forma de ser
uma concorrente em potencial.
Na verdade, com todas essas considerações apresentadas, quem ganha com todo esse processo é o
próprio município de Linhares, pois o crescimento destas empresas alavanca também o
crescimento da região, na medida que as mesmas proporcionam grande fonte de renda e ajudam
na resolução de problemas sociais do município, criando inúmeras oportunidades de empregos e
impulsionado o desenvolvimento sócio-econômico para a região.
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Artigo Revista Ensino & Ação 2005