A PROBLEMATIZAÇÃO NO ENSINO DE MATEMÁTICA:
RELATO DE UMA INTERVENÇÃO*
Geovânia dos Santos
Universidade Federal do Pampa
[email protected]
Christian Dias Azambuja
Universidade Federal do Pampa
[email protected]
Bianca Silveira
Universidade Federal do Pampa
[email protected]
Lidiane Garcia Pereira
Universidade Federal do Pampa
[email protected]
Resumo
Este relato tem como objetivo descrever uma situação didática em matemática na qual se fez
uso da problematização no processo de ensino-aprendizagem. A situação que potencializou o
conflito cognitivo gerado pela problematização em alunos de uma turma de oitava serie do
Ensino Fundamental foi uma intervenção em sala de aula, realizada por um grupo de bolsistas
participantes do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação a Docência (PIBID). O grupo de
bolsistas é formado por quatro alunos de um Curso de Licenciatura em Ciências Exatas, que
atua em uma escola pública, no município de São Sepé. A metodologia utilizada durante a
situação didática foi à apresentação de uma situação problema envolvendo as Unidades e
Conversões de Medidas. Essa problematização proporcionou aos alunos da turma uma revisão e
reorganização dos seus conceitos, pois os questionamentos provocaram conflitos cognitivos e,
consequentemente, a busca por novas respostas que dessem conta de solucionar os problemas
que surgiram durante a aula. A intervenção mostrou que o ensino por meio de problematizações
instiga os alunos a (re)formularem conceitos acerca das Unidades de Medidas, retirando-os da
sua inércia intelectual.
Palavras-chave: Ensino Fundamental; problematização; Pibid.
Introdução
A aprendizagem de matemática, muitas vezes, é encarada como uma prática
tediosa, em que há apenas reprodução de métodos de ensino, como uma aula ordenada
para repetir etapas, uso fiel do livro-texto, cópia e repetição de algoritmos, que na
maioria das vezes são sempre os mesmos, não havendo espaço de criação por parte dos
*
O presente trabalho foi realizado com apoio do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência
– PIBID, da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil.
alunos. Pensando assim, quatro bolsistas, participantes do Programa Institucional de
Bolsa de Iniciação a Docência (PIBID), de um Curso de Licenciatura em Ciências
Exatas, consideraram importante promover uma situação didática, visando a construção
do conhecimento a partir da interação entre aluno-problema-professor. Uma situação
didática “consiste, fundamentalmente, em criar condições suficientes para que o aluno
se aproprie de conteúdos matemáticos específicos” (FREITAS, 2008, p. 78).
Bachelard (1977) apud Delizoicov (2001) tem uma contribuição significativa
nesse contexto, dando destaque à importância que se deve atribuir para a compreensão.
Segundo ele, o conhecimento se origina de problemas, ou melhor, da busca de soluções
para problemas consistentemente formulados. Contudo, é preciso saber formular tais
problemas, tendo em vista que eles não se apresentam por si mesmos. Nessa
perspectiva, promover uma situação didática que visa uma aprendizagem a partir da
problematização é:
Uma metodologia de ensino na qual o professor propõe aos alunos a
realização do estudo de um ou mais temas que devem dirigir o olhar para a
observação de situações de seu meio, de modo a levantar dúvidas e
problemas (GODEFROID, 2010, p. 4).
Assim sendo, os bolsistas realizaram uma intervenção em aulas de Matemática de uma
turma de 8ª série do Ensino Fundamental do turno vespertino, de uma escola pública
estadual da cidade de São Sepé, RS. O objetivo da intervenção era problematizar o
conhecimento dos alunos de forma que eles (re)construíssem seu conhecimento sobre
Unidades de Medida e suas Conversões. A turma em que os bolsistas realizaram a
intervenção é composta por dezenove alunos, sendo apenas um repetente, estando todos
na faixa etária dos 13 aos 17 anos.
Situação Didática
Para refletir sobre suas práticas, os bolsistas fazem uso de uma ferramenta de
pesquisa e de desenvolvimento profissional: o diário de aula. Nele, os bolsistas
registram suas ações e reflexões, o que os ajuda nos processos de ensino-aprendizagem.
Segundo Zabalza (2004), no diário se pode examinar não apenas o transcorrer da ação
como a evolução do pensamento dos professores, conservando a sequência, a evolução e
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a atualidade dos dados recolhidos. O diário de aula é voltado especificamente para o
estudo e reflexão dos dilemas enfrentados pelos docentes. Os diários de aula produzidos
pelos bolsistas são registrados, periodicamente, de duas maneiras, uma em seus
cadernos individuais, outra compartilhada com os demais bolsistas do grupo, de forma
virtual no Google Docs.
Para introduzir o tema escolhido, os bolsistas apresentaram um pouco da história
das medidas, chamando atenção para algumas curiosidades sobre as formas de medir na
antiguidade. No decorrer da aula, eram feitas perguntas com relação ao “por que
acontecem mudanças nos padrões de medidas ao longo do tempo?”. Do mesmo modo,
os alunos também começaram a questionar entre si e, também, aos bolsistas. Conforme
relato:
O interessante desta aula foi que os alunos começaram a levantar mais
questões do que o esperado, mostrando que esse método provocou o
interesse deles, fazendo com que eles se envolvessem na dinâmica proposta
na aula (BOLSISTA A).
Após essa parte introdutória, foi proposto o seguinte questionamento: “O que é
medir?”. A reação dos alunos perante esse questionamento foi peculiar, pois ao mesmo
tempo em que eles acreditavam que aquela questão era trivial, não conseguiam chegar a
um consenso sobre o significado de “medir”. Assim, este questionamento fez com que
os alunos começassem a envolver-se intelectualmente com a situação apresentada. Os
bolsistas, por sua vez, começaram a formular perguntas que produziram conflitos
cognitivos em relação às hipóteses levantadas previamente pelos alunos. Como defende
Delizoicov (2001), o ponto culminante de uma problematização é fazer com que o aluno
sinta necessidade da aquisição de outros conhecimentos, que ainda não detém. Ou seja,
ao problematizar um conhecimento procura-se configurar a situação em discussão como
um problema que precisa ser enfrentado.
Para que os alunos construíssem uma resposta para o problema, ou seja, o
enfrentassem, foram deixados alguns questionamentos ainda sem respostas, para que
durante o andamento da aula, os alunos refletissem e chegassem às soluções, de maneira
que essas não fossem simplesmente respondidas pelos bolsistas. Com relação a essa
postura dos bolsistas, Carvalho (2009) afirma que quando o professor leva seus alunos a
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pensarem por si mesmos e a cooperarem sem coerção, ele os ajuda a construir suas
próprias razões morais e, portanto, sua autonomia. Dessa maneira, criam-se condições
para que os alunos digam o que pensam com convicção, argumentem com precisão e
exponham suas ideias com persuasão e não, apenas, repetindo o que o professor disse.
Nessa perspectiva, os bolsistas acreditam que a reflexão por parte dos educandos é
importante, tendo grande relevância no processo de ensino-aprendizagem, conforme
relato:
Deixamos as perguntas em aberto, para que eles pensassem um pouco sobre
o que era medir, pois não tinham um conceito próprio, tendo o cuidado de
não darmos a resposta pronta a eles, pois nosso objetivo era fazer eles
pensarem (BOLSISTA B).
Posteriormente, ainda com os alunos instigados com tal tema, apresentaram-se
as principais Unidades de Medida do Sistema Internacional de Medidas (SI) e as
Conversões entre elas. Nesse momento da aula, os alunos puderam expor suas ideias e,
ainda, fazer algumas perguntas sobre o assunto. Para ilustrar, fizeram-se alguns
exercícios de conversão, que foram propostos pelos próprios alunos. Houve algumas
dúvidas com relação aos cálculos de conversão de medidas, mas que após alguns
esclarecimentos foram sanados.
A atitude de deixar os alunos proporem as situações a serem resolvidas é de
extrema importância, pois, como ressalta Godefroid (2010), nesta proposta
metodológica, o professor abre mão do controle de aulas com conteúdos programáticos.
Sua função passa a ser de orientador e de colaborador na investigação, auxiliando os
alunos nas suas indagações e dúvidas e explorando conteúdos da Matemática levantados
por eles. Tal concepção é compartilhada pelos bolsistas, pois:
Acredito que foram muito válidas essas contribuições dos alunos sugerindo
os exemplos, pois eles sentiram necessidade dessas resoluções e, também,
porque nem nós sabíamos que seria preciso; o que tornou a aula bastante
dinâmica e construtiva (BOLSISTA C).
Tendo problematizado a situação e realizado os questionamentos cabíveis,
visando fazer aflorar os conhecimentos prévios dos alunos e colocá-los em contradições
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cognitivas, os bolsistas propuseram uma atividade prática. A tarefa proposta consistia na
verificação do comprimento do corredor da escola, sendo que os alunos não poderiam
usar nenhum instrumento de medida convencional (régua, fita métrica), mas algum
objeto escolhido por eles. Os bolsistas propuseram, ainda, que os alunos sugerissem
uma maneira de essa medida ser reconhecida posteriormente, por qualquer pessoa que
não possuísse o mesmo instrumento. A turma, entusiasmada com o trabalho, dividiu-se
em dois grandes grupos, e cada grupo escolheu o seu próprio objeto para medição: o
grupo 1 escolheu um chinelo como instrumento de medida; já o grupo 2 utilizou um
pedaço de madeira como sua ferramenta para medir o corredor da escola.
Após a escolha de cada instrumento, a turma mediu o corredor rapidamente. A
grande dificuldade foi com relação à questão de padronizar essas medidas, pois segundo
eles somente com o mesmo instrumento seria possível alguém reconhecer tais
dimensões. Deparados com essa situação, os bolsistas resolveram intervir, e começaram
a questionar os estudantes sobre as diferenças das extensões de um mesmo objeto, pois
um chinelo pode não ter o mesmo tamanho de outro, por exemplo. Assim, não demorou
muito, para eles entenderem que o mais coerente seria equivaler as medidas dos
instrumentos usados com uma medida padrão, tendo em vista que só assim outras
pessoas poderiam reconhecer os dados obtidos. Esse fato de haver dificuldade em
comparar medidas foi considerado interessante pelos bolsistas, conforme:
Achei que os alunos não teriam problemas nessa parte do trabalho, mas
quando percebi que havia dificuldades tentei os ajudar com questionamentos
que pudessem aclarar suas dúvidas, mostrando que as dificuldades
apresentadas não atrapalham, pelo contrário, ajudam o desenvolvimento do
trabalho (BOLSISTA D).
Para encerrar essa atividade, foi proposto para os alunos que expressassem as
medidas do corredor, obtidas através de cada objeto não convencional (chinelo, pedaço
de madeira), em quilômetros. Para isto, os alunos mediram os instrumentos com uma
régua (graduada em centímetros). Consequentemente, tiveram que fazer as devidas
conversões entre as medidas para expressar o resultado na unidade solicitada.
Em um segundo momento da aula, foi solicitado aos alunos que calculassem a
área da sua sala de aula, utilizando apenas uma régua, graduada em centímetros, e o
resultado deveria ser expresso em metros quadrados. Com relação à realização das
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medidas da sala não houve problemas, mas, curiosamente, o obstáculo surgiu quando
eles não conseguiram calcular a área, pois não “lembravam” como se efetuava esse
cálculo. Tal obstáculo proposital se faz importante no processo de ensino-aprendizagem,
pois:
O aluno deve estar sempre sendo estimulado a tentar superar, por seu próprio
esforço, certas passagens que conduzem o raciocínio na direção de sua
aprendizagem [...] Surge, então, para o aluno, a necessidade de uma
superação intelectual de algumas condicionantes e de informações que não
lhe foram passadas. Poderíamos dizer que esses procedimentos de raciocínio
são cruciais no desenrolar de uma aprendizagem mais autêntica (FREITAS,
2008, p. 90).
Para finalizar a intervenção, os bolsistas retomaram o questionamento inicial,
perguntando aos alunos se, neste momento, eles teriam condições de responder “O que
era medir?”. Ainda revisando os conceitos apresentados durante a aula, e retomando-os
juntamente com os alunos, os bolsistas realizaram provocações para que eles chegassem
a um conceito plausível sobre o ato de medir. Assim, depois de tais articulações, os
alunos conseguiram expressar verbalmente esse conceito como sendo o ato de
comparar a um padrão.
A reflexão dos alunos durante a aula se mostra interessante, pois foi alcançado o
objetivo de fazê-los pensar sobre a atividade que estavam realizando. Esse fato mostra
que uma intervenção que enfatize a problematização, sendo um convite a refletir, é
eficiente para que os alunos reorganizem suas estruturas cognitivas e, assim,
(re)construam seu conhecimento.
Considerações finais
A partir da reflexão sobre a intervenção, pôde-se observar que, quando o
professor se preocupa em levar uma problematização, que busque estar articulada com
conhecimento prévio dos alunos, o processo de ensino-aprendizagem se baseia na
(re)formulação de conceitos e na construção de conhecimentos, e não apenas na sua
memorização. Durante a situação didática, os alunos interagiam intensamente com os
bolsistas e com o conteúdo, procurando responder os questionamentos e, também,
devolvendo-os em forma de dúvidas. Tal posicionamento dos alunos deve-se à
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utilização desta prática diferenciada, em que se possibilitaram espaços para que eles se
manifestassem, ocorrendo as trocas de ideias.
No viés da problematização em sala de aula, pôde-se observar que aos poucos,
os alunos foram se envolvendo na discussão e, dessa forma, desprendendo-se de um
comodismo adquirido ao longo da aplicação de metodologias tradicionais.
Metodologias pelas quais o professor apenas apresenta o assunto, e que o estudante, sem
muito esforço, absorve as informações transmitidas. A finalidade deste momento de
discussões e reflexões é propiciar um distanciamento crítico do aluno ao se defrontar
com as interpretações das situações propostas para discussão (DELIZOICOV, 2001).
Tal distanciamento só é possível se houver o abandono da acomodação cognitiva, que
por sua vez, só é alcançado através de problematizações que instiguem o intelecto dos
alunos.
Um fator significante observado foi que, a implicação dos alunos durante a aula
é fundamental para o rumo que esta irá tomar. Ainda é ressaltado, o fato de que cada
problematização está intimamente ligada à personalidade de cada turma, como ressalta
Mendonça apud Godefroid (2010):
Não é possível fixar as regras da problematização. “Ela está subordinada a
um conjunto formado de desejo, de simpatia e de ação própria”. Cada diálogo
professor/aluno tem características próprias e depende das necessidades e
curiosidades de cada participante, do conhecimento matemático, da vivência
de cada um e dos planos do professor (MENDONÇA, 1993, p. 307).
Nessa perspectiva, o professor deve preparar sua intervenção pensando em
enfatizar um tipo de problematização, porém ele não necessita permanecer arraigado
unicamente a sua proposta de conteúdos programáticos. É interessante que ele esteja
preparado para o surgimento de novas ideias, tanto por parte dele quanto dos alunos,
podendo tomar, a sua aula, um caminho dinâmico e inesperado. Tal fato foi vivenciado
durante a intervenção, quando os alunos sugeriram que fossem exemplificados, por
meio de cálculos aritméticos, os conteúdos apresentados e, também, quando eles
mesmos preferiram formar grupos para realização da tarefa.
Para concluir, constata-se com a experiência relatada que a problematização tem
papel importantíssimo no processo de ensino-aprendizagem, pois ela abre espaço para a
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reflexão e a criação a partir de uma temática sugerida, criando condições para que o
aluno externalize suas concepções e suas dúvidas, tornando a aula interativa. Assim, o
caráter interacionista, pelo qual estudante e professor trabalham juntos para o
andamento da aula, em que os conteúdos e as pesquisas são trazidos para o contexto
educacional, transforma a aula em um ambiente de investigação. Sendo assim, fica
visível a necessidade de haver um questionamento, que instigue o pensamento dos
alunos, para que a aula de Matemática deixe de ser um processo cansativo e previsível,
ancorado em métodos que enfatizem a reprodução de procedimentos.
Referências bibliográficas
CARVALHO, A. M. P.; VANNUCCHI, A. I.; BARROS, M. A.; GONÇALVES, M. E.
R.; REY, R. C. et. al. Ciência no ensino fundamental: o conhecimento físico. 1. ed. São
Paulo: Scipione, 2009.
DELIZOICOV, D. Problemas e Problematizações. In: PIETRECOLA, M. (org.). Ensino
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Florianópolis: Ed. UFSC, 2001.
FREITAS, J. L. M. Teoria das Situações Didáticas. In: MACHADO, S. D. A. Educação
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GODEFROID, V. L. A. Problematização: outro olhar à Educação Matemática. 2010.
Dissertação (Mestrado em Educação Matemática). 20f. Universidade Federal de Ouro
Preto, Ouro Preto, 2010.
ZABALZA, Miguel A. Diários de aula: um instrumento de pesquisa e desenvolvimento
profissional. Porto Alegre: Artmed, 2004.
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