Espaço Público. Lugar de Vida Urbana
Francisco M. Serdoura1,†
Universidade Técnica de Lisboa, Departamento de Urbanismo
Rua Sá Nogueira, Pólo Universitário Alto da Ajuda – 1349-055 Lisboa, Portugal
F. Nunes da Silva2
Instituto Superior técnico, Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura
Avenida Rovisco Pais, 1 – 1049-001 – Lisboa, Portugal
RESUMO
Este trabalho pretende contribuir para a compreensão das condições que permitem ou
favorecem a ocorrência de vida urbana no espaço público da cidade. O trabalho realizado teve
por objectivos o estudo da vida pública das pessoas no espaço e a análise do modo como o
desenho urbano interfere na forma e intensidade de utilização do espaço público. Investigouse assim a afinidade que parece existir entre a configuração da malha urbana, dada pela rede
de espaços públicos, a localização das funções urbanas e os padrões de vida urbana que se
observam nesses espaços. Para o efeito estudou-se o papel da estrutura urbana e funcional no
sucesso da vida urbana, no caso particular do Parque das Nações, tendo em conta informação
quantitativa relativa ao espaço urbano, aos movimentos pedonais e às permanências das
pessoas no espaço.
INTRODUÇÃO
A vida urbana observada e estudada no espaço urbano do Parque das Nações, em
Lisboa, reflecte uma visão integrada sobre o modo como as pessoas usaram aquela parte da
cidade. Desse modo, teve-se em conta não só o entendimento que estas fazem da forma
urbana, como também dos aspectos sócio-culturais inerentes à população que o utilizou e do
potencial (ambiental e funcional) que a estrutura urbana apresenta.
O estudo de caso permitiu ainda demonstrar como a qualidade do desenho urbano se
manifestou determinante para que o Parque das Nações apresentasse afluências elevadas de
pessoas à área. Por sua vez, procurou-se demonstrar que foi essa mesma qualidade que
permitiu que as pessoas aí desenvolvem-se padrões diferenciados de actividades, que
sustentaram a vida urbana naqueles espaços.
1
Professor Auxiliar
fs@fa.utl.pt
2
Professor Catedrático
†
Número 27, 2006
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1. ASPECTOS TEÓRICOS DE REFERÊNCIA NO ESTUDO DA VIDA URBANA
1.1 Espaço Urbano
Kevin Lynch (1981), no seu trabalho ‘Good City Form’, sustenta a importância do
processo de desenho urbano na construção da cidade moderna, onde o espaço urbano público
pode propiciar uma intensa vida urbana desde que contenha “vitalidade”; “sensação”;
“adequação”; “acesso” e “controlo”.
Também Jacobs e Appleyard (1987) se referem a estes conceitos no manifesto sobre
desenho urbano, que marcou a viragem entre os ideais modernose as novas ideias sobre o
modelo de cidade que procurava reabilitar a cidade tradicional. Considera-se, no âmbito dos
ideais modernos, o modelo urbanístico justificado na “Carta de Atenas” como reflexo e
veículo de uma nova vida social, em que se acreditava que a conformação dos espaços
determinaria os comportamentos e mudaria as mentalidades. Entenda-se cidade tradicional,
onde os edifícios não devem continuar a ser entendidos como o “positivo” colocado sobre um
espaço livre (negativo), mas antes onde o espaço exterior público (ruas e praças) volta a ter
um papel ordenador e não de sobrante, amorfo e insignificante (Portas, 1987). Os dois autores
enunciam sete objectivos para a construção de espaços públicos de qualidade: a vivência; a
identidade e o controle; o acesso a oportunidades, imaginação e distracção; a autenticidade e
significado; a vida pública e comunitária; a auto-confiança urbana e o bom ambiente para
todos.
Tibbalds (1988), por outro lado, faz a síntese entre a visão tradicionalista e as
necessidades humanas no espaço urbano público, considerando que o desenho do espaço
urbano, para que nele venha a ocorrer vida urbana, deve respeitar as heranças do passado e
inserir as novas intervenções no contexto existente, encorajar a diversidade de funções
urbanas no espaço colectivo, encorajar a liberdade de circulação das pessoas no espaço
público, satisfazer as necessidades de fruição do espaço colectivo por todos os sectores sociais
e evitar promover transformações em grande escala e em simultâneo. Deve ainda ser dada
prioridade ao planeamento do espaço público e só depois às construções; os novos espaços
urbanos deverão ser desenhados à escala do homem e satisfazer as suas necessidades, e terão
de ser construídos com legibilidade e “durabilidade”, possibilitando interacções entre as
pessoas e o espaço público e vice-versa.
1.2 A Vida Urbana
A teoria do ‘Movimento Natural’ de Hillier (1984, 1988, 1993 et al., 1996) explora a
relação entre os movimentos essencialmente pedonais e a configuração do espaço urbano,
bem como entre fluxos pedonais e usos do solo. Temáticas como a acessibilidade e o carácter
dos espaços urbanos são importantes: por exemplo, um fluxo pedonal num ambiente pouco
amigável pode ser significativamente aumentado se o espaço se tornar mais amigável do
ponto de vista pedonal (Hass-Klau et al., 1999; Gehl e Gemzöe, 2000). Gehl (1986)
acrescenta que, em espaços públicos de qualidade reduzida, só ocorrem as actividades
estritamente necessárias (ex. caminhar).
Pelo contrário em espaços de grande qualidade, as actividades necessárias ocorrem
aproximadamente com a mesma frequência, embora as pessoas escolham despender mais
tempo na sua prática, mas, mais importante, também tem tendência a ocorrer um maior
número de actividades opcionais (sociais). O desejo próprio do indivíduo em praticar
determinadas actividades, condicionado pela qualidade do ambiente urbano existente ou pelas
condições climatéricas que se verificam no momento, leva a que o sujeito realize actividades
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de tipo opcional no espaço público (Gehl, 1986). Quando os indivíduos interagem entre si no
espaço público, desenvolvem ‘actividades sociais’. O carácter das ‘actividades sociais’ no
espaço colectivo depende do contexto em que ocorrem, podendo dar-se em áreas residenciais,
áreas centrais multi-funcionais e nas dominadas pelo emprego.
O papel do espaço público, assim como a natureza e o conteúdo da interacção social
que nele tem lugar varia com a classe, grupo étnico, idade, estruturas e tipo de especialização
funcional do bairro onde se localiza (Levitas, 1986). Ellin (1996) lembrou como o aumento da
especialização e compartimentação das actividades contribuíram na sociedade actual para a
deslocação para o interior do edifício muitas das actividades que antes tinham lugar na rua.
Por outro lado, deve-se recuperar a razão de que a cidade, enquanto sistema, promove o
contacto humano. Nessa medida, as zonas centrais da cidade assumem-se como importantes
pólos, dado que proporcionam a oportunidade das pessoas se encontrarem (Tibbalds, 1992).
Por isso, os espaços públicos devem ser acessíveis a todos, independentemente da idade,
capacidades, origens ou rendimento.
Gehl e Gemzøe (2000) consideram por sua vez que o uso do espaço público, como
espaço social e recreativo, tem vindo a crescer gradualmente. Deste modo, o planeamento
urbano reconhece como cada vez mais importante para a vida urbana as formas de vida
pública no espaço público. Os anos noventa (século XX) foram marcados por mudanças na
condição institucional, política e social, que conduziram a uma nova mentalidade urbanística.
Estabeleceram-se objectivos estratégicos para o desenvolvimento sustentado e sustentável da
cidade, passando estes pela necessidade de aproximar o centro da cidade às periferias, pela
melhoria da qualidade do espaço público, pela integração de dinâmicas sociais e pelos
acabamentos cuidados do próprio espaço que, por sua vez, se relacionam com preocupações
não só de ordem estética, mas igualmente de disposição funcional.
A percepção da qualidade do espaço público surge como consequência das imagens
que se têm do local (onde se fundem aspectos de ordem formal e funcional) e de como e por
quem essas imagens são apreendidas. A interacção entre a forma urbana e o comportamento
humano pode ser concordante ou conflituosa com as exigências humanas da vida urbana, mas
não pode ser delas separada. As alterações e substituições das actividades humanas
relacionadas com o uso do espaço são consequência da percepção individual e social sobre
esse espaço, mas é distinta em cada caso.
Em síntese, pode-se dizer que, para satisfazer melhor as pessoas que usam
quotidianamente o espaço público, há que tentar relacionar os espaços públicos com o
contexto urbano em que estes se inserem, de forma a analisar as mudanças culturais e da vida
urbana que as pessoas promovem individualmente e em grupo, já que são essas mesmas
mudanças que produzem novas necessidades e novos espaços. Por isso, será desejável
incentivar processos de desenho do espaço público no sentido de oferecer a cidade a todos; ou
seja, devem ser ultrapassadas as barreiras físicas que condicionam o acesso e movimentação
de determinados segmentos da comunidade, quer estas decorram da sua situação no ciclo de
vida (crianças e idosos), quer estejam incapacitadas (permanente ou temporariamente) de se
movimentarem normalmente.
2. A FORMA URBANA
2.1 Análise da Cidade de Lisboa
No início dos anos 90, a prioridade dada ao Plano Director Municipal (PDM) foi a de
estabelecer as regras para a ocupação, uso e transformação do território municipal, traduzindo
as opções e os conceitos urbanísticos considerados no âmbito do Plano Estratégico de Lisboa.
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O PDM propôs o reforço do centro funcional (concentração de serviços) nas Avenidas Novas
e em localizações mais descentralizadas, como a área central de Chelas, o centro dos Olivais e
a ‘Zona de Intervenção da EXPO’98’ (na parte oriental da cidade), no Aterro da Boavista e no
núcleo industrial de Alcântara, bem como em pólos dispersos na coroa Norte da cidade.
A localização dos serviços prevista na planta de ordenamento parece contribuir para
justificar a dimensão da zona central do centro da cidade, as Avenidas Novas (Figura 1). As
acessibilidades privilegiadas entre o centro geográfico –Avenidas Novas– e a nova expansão
urbana da cidade –EXPO’98– contribuíram para justificar o surgimento de uma nova
centralidade naquela área da cidade. A expansão do centro para Norte da Avenida General
Norton de Matos (2ª Circular) sugere que o crescimento da cidade se apoiou no
preenchimento de vazios existentes, tornando a estrutura urbana da Coroa Periférica mais
densa.
Figura 1 – Integração (int rn) de Lisboa em 2001.
A nova expansão urbana de cidade, localizada junto ao rio e resultante da intervenção
urbanística subsequente à Exposição Mundial de 1998 – actual Parque das Nações – , é uma
das centralidades importantes em Lisboa. A concentração de eixos de forte integração global
na zona Oriental da cidade oferece uma condição estabilizadora àquela zona da cidade, quer
pela consolidação das malhas urbanas propostas, quer pela hierarquização da estrutura de
espaços públicos que foi planeada. É de salientar que o centro da cidade é coincidente com
áreas urbanas cujos padrões espaciais assentam em quadrículas, morfologias que demonstram
possuir um bom grau de permeabilidade.
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O Parque das Nações –nova centralidade de Lisboa– gerou uma nova dinâmica
funcional no centro da cidade, tendo por isso contribuído para a estabilização morfológica da
zona Oriental de Lisboa, através da construção de uma estrutura urbana coesa e fortemente
articulada com a sua envolvente imediata (ex. Olivais e Moscavide) e com o centro da cidade
(ex. Avenidas Novas). As qualidades morfológicas da quadrícula, que configura a estrutura
urbana do Parque das Nações, permite que as partes possuam identidade própria, sem afectar
o todo (globalidade da área).
2.2 Análise do Parque das Nações
A análise sintáctica da malha urbana do Parque das Nações contribuiu para a
compreensão de como a estrutura urbana pode potenciar a mobilidade das pessoas no espaço
urbano. A forte integração (rn) da zona central da área (Figura 2), reforçada pelo desenho
urbano cuidado parece demonstrar que o espaço público possui condições favoráveis ao uso e
apropriação por parte das pessoas.
Figura 2 – Integração (rn) do Parque das Nações.
A importância do Parque das Nações enquanto pólo de centralidade em Lisboa, é
demonstrada pela dimensão da sua estrutura urbana. Este facto ajuda a compreender porque o
centro da cidade se orientou na direcção da periferia Oriental de Lisboa. A acessibilidade que
a malha do Parque das Nações evidencia é um factor importante para se perceber a relação
entre o indivíduo e o espaço público, no desenrolar da vida urbana.
3. O MÉTODO AEM (ANÁLISE ESTATÍSTICA MULTIVARIADA)
3.1 A análise estatística multivariada
O estudo simultâneo de múltiplas variáveis ou indivíduos, sustentado em técnicas
estatísticas, é considerado como parte integrante da Análise Estatística Multivariada (AEM),
porque utiliza a estatística e tem uma incidência multi-dimensional. Os dados sobre as
actividades desenvolvidas pelas pessoas foram estudados consoante o modo como ocorreram.
Por exemplo, o estudo das semelhanças ou das diferenças entre actividades realizadas pelas
pessoas no espaço público, em diferentes períodos, era um dos objectivos da análise.
Considerou-se que se grupos diferentes de indivíduos realizavam o mesmo tipo de actividades
em ambientes diferentes, era possível fazer essa análise recorrendo a um método factorial que
representasse graficamente estas proximidades entre grupos de pessoas.
Por outro lado, foi desejável agrupar os indivíduos em classes homogéneas,
recorrendo-se a um método de classificação. No estudo das relações entre as variáveis
considerou-se que duas variáveis estão correlacionadas se variarem da mesma forma para os
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diferentes indivíduos (Ribeiro, 1999). Deste modo foi possível privilegiar-se uma ou mais
variáveis e procurar explicitar a sua variação em função das outras. Em analogia com a ideia
subjacente à análise bivariada, recorre-se à ‘Análise em Componentes Principais (ACP)’
enquanto ferramenta para estabelecer correspondências que ajudem a explicar as correlações
entre as diferentes variáveis, encontrando um modo de as combinar, tomando em conta a sua
totalidade. O conhecimento das variáveis pode não ter sido suficiente, nem ter sido capaz de
explicitar alguma da informação que está ‘escondida’ neste conjunto de dados. A estatística
multivariada foi um precioso auxiliar neste campo, possibilitando a descrição e análise dos
dados como um todo, e a extracção de informações que de outro modo permaneceriam
camufladas.
Para cada período de tempo foi construída uma matriz “aij” em que cada elemento
representa o número de pessoas que realiza determinada actividade (coluna j) em determinado
espaço público (linha i) e que foi explorada com o recurso à ACP para permitir a análise, em
termos descritivos, das relações existentes entre as actividades desenvolvidas e os espaços
públicos em que elas ocorreram. As coordenadas das variáveis nos eixos factoriais
correspondem ao coeficiente de correlação com os factores associados, ou seja, com os eixos,
estando portanto contidos no intervalo [-1;1] (Figura 3). Deste modo, é usual considerar que
não estão explicadas as variáveis que se projectam no interior da circunferência centrada na
origem e com raio 0,5. As variáveis projectadas fora desta circunferência são aquelas que se
consideram explicadas pelos eixos factoriais.
Figura 3 – Diagrama de projecção das variáveis nos planos factoriais F1/F2.
Na Figura 4 ilustram-se as relações entre os espaços públicos utilizados, onde a
concentração de pontos em torno da origem dos eixos projecta espaços públicos sem grandes
destaques de vivência urbana, enquanto os espaços projectados fora da circunferência
centrada na origem e com raio 0,5, revelaram diversidade e intensidade de uso e de vida
urbana por parte das pessoas.
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Figura 4 – Diagramas de projecção de espaços (indivíduos) nos eixos factoriais F1/F2.
3.2 As Variáveis Analisadas
Para o estudo da vida urbana no Parque das Nações, foi considerado um conjunto de
variáveis representativas dos usos urbanos, das características de desenho do espaço público,
das características ambientais desse espaço e das actividades desenvolvidas pelas pessoas no
espaço. De referir ainda que as variáveis deduzidas da análise sintáctica da malha urbana
foram igualmente consideradas na análise à vida urbana no Parque das Nações.
Por serem potencialmente geradores de movimentos pedonais intensos, os serviços, o
comércio, a restauração e os equipamentos colectivos, constituem o principal conjunto de
variáveis funcionais utilizadas no estudo. Foram também considerados outros usos que, não
sendo em geral geradores de movimentos muito intensos, podem apresentar picos de
concentração de fluxos, a saber: habitação, equipamentos de proximidade, equipamentos
turísticos, logística.
As variáveis ambientais consideradas foram: alinhamentos de árvores e elementos
artificiais de projecção de sombra, espaços verdes (jardins, parques, áreas verdes e passeios
ribeirinhos) e elementos de água. As variáveis de desenho urbano consideradas no estudo
foram: largura dos passeios, área útil dos passeios, balizadores e estacionamentos à superfície.
Os elementos de mobiliário urbano no espaço público, que promovem condições à ocorrência
de actividades humanas, também foram assumidos como factores de atracção à deslocação
pedonal ou ao recreio e convívio públicos. Mencionam-se, como variáveis analisadas neste
âmbito: bancos para descanso / pausa, elementos estéticos, arte pública, alinhamentos de
árvores e elementos artificiais de projecção de sombra, espaços verdes (jardins, parques, áreas
verdes e passeios ribeirinhos) e elementos de água.
A utilização de mapas axiais, como representação do sistema de espaços lineares e não
lineares, permitiu calcular e medir diferentes propriedades do sistema urbano. Um conjunto
dessas propriedades (medidas) foi testado pela sua importância relativamente à informação
empírica utilizada neste trabalho, designadamente, usos, factores ambientais, nº. de pessoas
presentes no espaço público e nº. de pessoas a realizar actividades nesse espaço. Mencionamse como variáveis analisadas neste âmbito: integração (rn), profundidade média da linha axial,
raio 3 (r3), controlo, conectividade, comprimento das linhas.
As variáveis humanas consideradas no estudo foram, em primeiro lugar, os diferentes
grupos de utilizadores do espaço público, distribuídos por grupos de idade (crianças, jovens,
adultos, idosos) e por género. Foram ainda consideradas pessoas com dificuldade de
locomoção ou incapacitados motores, turistas, operários da construção civil, seguranças
(funcionários da PARQUE EXPO’98, S.A.) e fornecedores (pessoas que apoiam o
funcionamento das actividades comerciais). Em segundo lugar, consideraram-se diferentes
grupos de actividades desenvolvidas pelas pessoas no espaço público, por serem
potencialmente geradoras de vida pública, e que foram agrupadas em: estritamente
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necessárias (andar/caminhar), opcionais (comer, apanhar sol, ler, sentar e fumar) e sociais
(conversar /falar ao telemóvel, correr / jogging, andar de bicicleta, patinar / andar de skate e
passear o cão).
4. ESTUDO DE CASO – A VIDA URBANA NO PARQUE DAS NAÇÕES
A vida urbana no Parque das Nações nos primeiros momentos do dia (8:00 – 10:00)
foi dominada pela necessidade das pessoas em acederem aos seus locais de emprego, ou pela
opção de visitarem os espaços comerciais localizados na área para adquirirem bens ou
serviços. Esta vivência urbana teve maior expressão em espaços como a Avenida D. João II
(1), eixo com maior concentração de serviços na área, e a Avenida do Pacífico (2) no seu
princípio (Figura 5).
Figura 5 – Distribuição da concentração dos padrões de vida urbana no espaço público do
Parque das Nações, 8:00 – 10:00 dias úteis.
Ainda ao princípio da manhã, a vida urbana foi marcada pela presença significativa de
crianças. A sua presença no espaço público teve mais impacto no Passeio de Ulisses (3), por
ser este o melhor acesso ao Oceanário [4]. Para além daquele grupo aceder ao referido
equipamento, também utilizou o espaço público para realizar outras actividades, com
evidência para o estar e o lazer urbano, ao fazerem aí o lanche da manhã, tirando partido da
dimensão do espaço, para realizarem breves brincadeiras em segurança.
Ainda neste período do início do dia, os idosos protagonizaram uma vida urbana mais
individualizada, orientada para a permanência. Escolheram locais onde existiam bancos ou
muros para se sentarem, passando algum tempo em privacidade, mas na proximidade de
outras pessoas, dedicando-se sobretudo a observar as actividades das outras pessoas. Essas
actividades ocorreram preferencialmente nos espaços ribeirinhos, Passeio das Tágides (5) e
Rua da Pimenta (6) (Figura 5). Por outro lado, grupos de jovens e de adultos utilizaram os
dois espaços anteriores para praticarem um recreio convencional, apoiado na prática de
corrida/jogging, e um recreio não convencional, ao usarem o espaço para andar de bicicleta.
As características ambientais e de desenho urbano do espaço, caracterizado por uma dimensão
generosa, onde a divisão em sub espaços (jardins Garcia de Horta [7]) é subtil mas clara,
proporcionam diversidade na utilização por parte dos diferentes grupos (adultos, jovens e
idosos), e mostraram-se adequadas à ocorrência de actividades de carácter ocasional e de
sociabilização. Também pelas mesmas características, alguns indivíduos escolheram a
Alameda dos Oceanos (8) (espaço central) para realizarem algumas actividades de estar e
lazer urbanos (Figura 5).
No período do meio da manhã (10:00 – 12:00) a actividade necessária (deslocação) foi
observada segundo padrões fluidos, onde as pessoas de passagem na área aproveitaram a sua
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presença no espaço para desfrutar o ambiente envolvente, procurando tirar partido da
agradabilidade do espaço e ambiente paisagístico que as rodeava (Figura 6).
Figura 6 – Distribuição da concentração dos padrões de vida urbana no espaço público do
Parque das Nações, 10:00 – 12:00 dias úteis.
O período de almoço (12:00 – 14:00) registou padrões de deslocação orientados para o
aproveitamento da pausa no trabalho, de acordo com os diferentes grupos etários presentes no
espaço público. As pessoas que saíam dos empregos e se deslocavam até aos locais onde
faziam regularmente as suas refeições (Centro Comercial [12], bares e restaurantes junto ao
rio, [13]) caminhavam de forma descontraída em grupo (2-4 pessoas), aproveitando para
conversar entre si, fumar ou falar ao telemóvel. O espaço mais utilizado nessas deslocações
foi a Avenida D. João II (1), onde os passeios têm uma dimensão confortável (4,00 metros),
permitindo às pessoas circular lado a lado, e por ser o trajecto mais directo para o Centro
Comercial [12] (Figura 7).
Figura 7 – Distribuição da concentração dos padrões de vida urbana no espaço público do
Parque das Nações, 12:00 – 14:00 dias úteis.
Para aqueles que preferiram fazer a refeição ao meio-dia nos bares e restaurantes junto
ao rio [13], tiveram que atravessar a área no sentido Nascente/Poente, necessitando de mudar
de direcção pelo menos duas vezes, por isso essa deslocação configurou um padrão sinuoso.
Neste caso, as pessoas procuraram tirar partido da agradabilidade ambiental e estética da
zona, por escolherem espaços com arborização ou com planos de água. As pessoas, ao
tomarem a opção de permanecerem neste espaço, fizeram-no por sentirem segurança (pela
presença de mais indivíduos), e conforto (pela presença de mobiliário urbano adequado às
necessidades dos utentes, por exemplo bancos).
Ao princípio da tarde, no período após o almoço (14:00 – 16:00) as pessoas que
usaram o espaço público no Parque das Nações mostraram disponibilidade para
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permanecerem nele por períodos mais longos. Dos grupos presentes na área foi o conjunto
‘adultos’ aquele que registou maior número de presenças no espaço. Verificou-se também que
as ‘crianças’ e os ‘jovens’ se assumiram como grupos activos na área. O Passeio das Tágides
(5), a Rua da Pimenta (6) e os Jardins de Água (14), foram os espaços onde se concentraram
mais pessoas, em consequência, por um lado, do desenho urbano e conforto ambiental e, por
outro, pelas dimensões generosas que possuem, proporcionando diversidade no uso a todos os
seus diferentes utilizadores (Figura 8).
Figura 8 – Distribuição da concentração dos padrões de vida urbana no espaço público do
Parque das Nações, 14:00 – 16:00 dias úteis.
A meio da tarde (16:00 – 18:00) a observação da vida urbana no Parque das Nações
permitiu o registo de diferentes tipos de deslocação pedonal (Figura 9). Entre as 17:00 e as
18:00 registou-se novamente um padrão de deslocação directa, muito relacionada com o
primeiro período de saída dos empregos. Essa deslocação foi registada novamente ao longo
do eixo onde se concentram os serviços (Avenida D. João II (1)).
Figura 9 – Distribuição da concentração dos padrões de vida urbana no espaço público do
Parque das Nações, 16:00 – 18:00 dias úteis.
No final da tarde, 18:00 – 20:00, observaram-se de novo padrões de vida urbana
associados à concentração de emprego na zona. As pessoas entre as 18:00 e 19:00 usaram o
espaço público como ligação entre o emprego e os modos de transporte (público ou privado)
(Figura 10). Este padrão directo de deslocação foi observado na Avenida D. João II (1)
(espaço onde se localizam os serviços), em direcção à estação intermodal (Gare do Oriente
[16]), fazendo da Praça do Oriente [17], do princípio da Avenida do Índico (18) e Avenida do
Pacífico (2), espaços de convergência (Figura 10). Esta actividade necessária (andar) esteve
sempre associada a três outras: ‘conversar’, ‘fumar’ e ‘falar ao telemóvel’, o que permitiu
associar à deslocação o convívio entre indivíduos.
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Figura 10 – Distribuição da concentração dos padrões de vida urbana no espaço público do
Parque das Nações, 18:00 – 20:00 dias úteis.
Mais tarde, entre as 19:00 e as 20:00, o padrão de vida urbana observado reflectiu uma
maior diversidade, tendo sido identificadas vivências relacionadas com o estar urbano (ex.
fazer refeições), o lazer (ex. estar sentado a observar o pôr do sol) ou o recreio não
convencional (ex. andar de bicicleta e passear o cão). A observação de tanta diversidade de
actividades num só espaço (Passeio das Tágides (5)), valida a qualidade do desenho urbano, a
identidade do local, o controlo que as pessoas têm sobre o espaço e a diversidade de
oportunidades que elas têm em apropriá-lo.
5. CONCLUSÃO
O estudo da vida urbana no Parque das Nações permitiu avaliar o modo como as
pessoas interagiam com o espaço urbano (público e privado) e como este estimulou as pessoas
a realizarem as mais variadas actividades. A análise das variáveis sintácticas permitiu
confirmar a existência de espaços públicos com menor vivência, onde a vida urbana foi
escassa ou ocorreu esporadicamente (a que correspondem espaços de menor acessibilidade e
por isso menos integrados) e a existência de espaços com boa acessibilidade, onde a vida
urbana foi mais intensa e diversificada, assumindo-se como espaços de passagem obrigatória.
O estudo corroborou ainda a convicção de que a zona central do Parque das Nações é uma
zona onde as pessoas gostam de estar no seu dia a dia ou em lazer. A permeabilidade do
sistema espacial revelou-se muito boa, particularmente nos períodos de maior afluência e
concentração de pessoas no espaço público (8:00-10:00, 12:00-14:00 e 18:00-20:00).
O estudo permitiu ainda conhecer quais as funções urbanas que mais contribuíram
para a ocorrência de vida urbana no Parque das Nações. Embora a zona estudada possua uma
diversidade de funções urbanas, apenas algumas (serviços, comércio/restauração e
equipamentos) revelaram a existência de relações de dependência com o número de pessoas
presentes no espaço público. A qualidade do desenho urbano (largura dos passeios, área de
espaço público pedonal), a presença de mobiliário urbano na maioria dos espaços públicos
(bancos, balizadores, etc.), a qualidade ambiental do espaço (áreas de sombra, elementos de
água), foram factores que permitiram atestar a agradabilidade do espaço e a dinâmica das
relações entre o espaço e as pessoas, tendo-se verificado que o primeiro estimulou as
segundas a permanecerem na zona durante mais algum tempo.
A análise estatística realizada permitiu concluir existir uma correlação importante
entre as variáveis caracterizadoras da agradabilidade do ambiente urbano e da diversidade de
funções existente no espaço urbano e o número e tempo de permanência das pessoas no
espaço público, bem como com as actividades que estas aí desenvolveram. Com efeito,
obtiveram-se correlações positivas superiores a 0,60 entre as seguintes variáveis: o total de
pessoas ‘TP’, o total de adultos ‘TA’, o total de crianças ‘TC’, o total da área de construção
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‘TAC’, os usos especiais ‘EU’, serviços ‘ser’; comércio/restauração ‘C/R’, comprimento útil
das ruas ‘LUt’, largura dos passeios ‘pass’, espaços verdes ‘EVerd’, bancos ‘Banc’, elementos
de água ‘H20’, andar ‘And’, sentar ‘sent’, beber ‘bebe’, comer ‘come’, conversar ‘Conv’,
fumar ‘fumo’, integração (rn) ‘TInt’ e conectividade ‘Conn’. Deste modo, pode-se concluir
que não só a qualidade do espaço público e a mistura de funções que ocorre no espaço urbano
influenciam o modo como este é utilizado pelas pessoas, como, por outro lado, também se
observam diferentes comportamentos destas em função do tipo de actividade que pretendem
realizar no espaço público, o que, por sua vez, conduz à maior utilização desses espaços em
detrimento de outros, em função das suas características físicas e urbanas e da posição que
ocupam na rede de ligações urbanas que asseguram.
REFERÊNCIAS
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(1996).
Gehl, J., Life Between Buildings. Using Public Space, Arkiteltens Forlag, The Danish
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Gehl, J. e Gemzøe, L., Novos espaços urbanos Tradução de Carla Zollinger, Editorial
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Engenharia Civil • UM
Número 27, 2006
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Espaço Público. Lugar de Vida Urbana