UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO ALESSANDRA MARIA DOS SANTOS ALVES A VIDA NA ESCOLA E A ESCOLA DA VIDA CAMPINAS 2005
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO ALESSANDRA MARIA DOS SANTOS ALVES A VIDA NA ESCOLA E A ESCOLA DA VIDA Memorial apresentado ao Curso de Pedagogia – Programa Especial de Formação de Professores em Exercício nos Municípios da Região Metropolitana de Campinas, como um dos pré­requisitos para conclusão da Licenciatura em Pedagogia. CAMPINAS 2005
2 “E voltou então à raposa:
­ Adeus, disse ele...
­ Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com
o coração. O essencial é invisível para os olhos.
­ O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se
lembrar.
­ Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez tua rosa tão importante...
­ Foi o tempo que perdi com minha rosa... Repetiu o principezinho a fim de se
lembrar.
­ Os homens esquecem essa verdade, disse a raposa. Mas tu não deves
esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és
responsável pela rosa...
­ Eu sou responsável pela minha rosa... Repetiu o principezinho, a fim de se
lembrar.”
(trecho extraído de: “O Pequeno Príncipe”, de
Antoine de Saint­Exupérie)
A cada dia um novo encontro...
A cada encontro, uma nova descoberta.
Momentos para refletir.
Espaços para partilhar.
Aprender é dividir.
Partilhar é se doar.
Cada um trouxe a si mesmo.
Levamos um pouco de todos nós.
Bons momentos...
Boas perguntas...
Algumas respostas...
Fica desde já a saudade.
E a certeza de que sempre há mais para saber.
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Exclusivamente ao meu querido filho, Felipe, que inúmeras vezes pediu que eu ficasse com ele, deixando lágrimas correrem pelo seu rosto...
4 ÍNDICE APRESENTAÇÃO......................................................................................................... 04
1 EU E A ESCOLA: o começo de tudo!........................................................................ 05
2 EU E O MAGISTÉRIO.............................................................................................. 11
3 EU E MINHA PROFISSÃO ...................................................................................... 14
4 EU E A UNICAMP: realização de um sonho! .......................................................... 17
REFERÊNCIAS ............................................................................................................ 30
5 APRESENTAÇÃO Quando mencionado, no primeiro semestre do Curso de Pedagogia, confesso que fiquei apreensiva ao ouvir Memorial de Formação e não Trabalho de Conclusão de Curso. Memorial de Formação. Algo tão novo e exigente para alguém que está preste a tomar medicamentos para memória. Naturalmente, pensei eu, deixarei várias páginas em branco que simbolizariam os lapsos de memórias que constantemente estavam ocorrendo comigo – e ainda acontecem, acredite – constantemente! O tempo foi passando... A preocupação aumentando. No decorrer do curso pouco se falava sobre o Memorial de Formação. A agonia me tomava conta. Já nos últimos semestres, questões foram sendo levantadas, informações foram norteando e, quando mal percebi, aqui estou eu: escrevendo sobre minhas memórias! Aqui então deixo as memórias de meu passado, que se limitam a minha vida escolar desde a infância até minha formação acadêmica – universidade. Descrevi, sucintamente dividindo em capítulos para melhor entender meu processo de formação, a saber: Eu e a Escola: o começo de tudo! – no qual relato sobre minhas experiências da 1ª a 8ª série –; Eu o Magistério, através do qual coloco como foi esta vivência; Eu e minha Profissão, no qual consta todo meu trabalho como professora de educação infantil; e por último, Eu e a Unicamp: a realização de um sonho!, que como o próprio nome diz, relato como foi
6 experimentar vivências na universidade e trazer a teoria para minha prática, colocando­a como complemento no desenvolvimento de minhas aulas. A VIDA NA ESCOLA E A ESCOLA DA VIDA 1 Eu e a Escola: o começo de tudo! Minhas recordações têm início no primeiro dia de aula, primeira série (1983): eu sentada na penúltima carteira, na segunda fila, caderninho aberto... um lápis... uma borracha... olhos atentos à porta. A professora entra na sala, diz bom dia. Vira­se para lousa, escreve algo e pergunta: “quem sabe uma palavra que começa com A?”. Um silêncio percorreu a classe até que eu, com o coração batendo muito forte e apressado, respondi: “aio”. Uma voz dura me corrige imediatamente, me deixando muito envergonhada: “NÃO É AIO, É ALHO! NÃO SABE FALAR?”. Pobre professora, ela talvez não soubesse que aquela menininha, que pensou muito, em várias palavras e que escolheu a ‘melhor’ para dizer, era uma criança de fazenda, que vivia cercada de “caipiras”, que não conhecia a norma culta da língua portuguesa e que se esforçou ao máximo para responder corretamente. Talvez também, ela não havia percebido que estava numa escola rural, que todas aquelas crianças estavam apreensivas e ansiosas pelo primeiro dia na escola. E, talvez, nem imaginou que sua resposta poderia causar um trauma naquela menina – e causou, porque hoje esta menina tem receio em falar em público por medo de falar errado, muitas vezes dá resposta só no pensamento com receio de estar equivocada.
7 Contudo, não é somente este fato que ficou marcado nos meus primeiros anos na escola. Muitas coisas boas aconteceram. E agora, pensando nesta fase vivida, consigo voltar ao tempo e enxergar a escola, os meus colegas, as professoras (que vinham da cidade para lecionar ali), a merendeira, as brincadeiras. Consigo sentir novamente o gosto daquela bolachinha com leite, da sopa de fubá, do arroz doce... Consigo ouvir minha mãe dizendo “fais” tudo certinho na “iscola”, obedeci a professora, não respondi ela, “vorta” direto para casa” ... Consigo me ver tomando banho cedinho, colocando a roupa, calçando o chinelo, pegando a mochila e indo contente para escola... Consigo me ver tentando ensinar minha vó, minha querida vó ‘analfabeta’, a fazer pelo menos bolinhas e tracinhos no papel (mas era muito difícil, ela mal conseguia segurar o lápis, e logo desistia)... Consigo sentir o perfume da professora, a mais querida, que por sinal, se tornou minha madrinha de Crisma, por ter sido tão significativa pra mim, por ter me respeitado como criança, por ter me dado atenção, por ter falado baixinho comigo, por ter levado os filhos dela na escola para nos conhecer, por ter me deixado entrar em seu carro para ver o velocímetro enquanto o carro andava, por me incentivar a escrever histórias, por ter sido um exemplo de professora e por sempre me elogiar e dizer que eu seria uma ótima professora. Foi esta mesma professora, que ficou comigo por dois anos seguidos (terceira e quarta série) que me apoiou a seguir a sua profissão. Mas onde será que esta menina do campo está com a cabeça? Ninguém daquela fazenda havia estudado mais que a quarta série, pois a escola oferecia somente o primário, ficava longe da cidade e todos depois disso tinha que ir para roça, ou plantar tomate, ou cortar cana. Vontade eu me lembro que todos tinham. Minhas tias sempre falavam que queriam estudar mais, uma queria ser desenhista, outra queria ser modelo, outra só queria estudar, casar e ter filhos...
8 Esta menina estava com a cabeça longe, sonhava em ser professora, sonhava em ser dançarina, sonhava em ser médica, sonhava que no futuro tinha uma casa igual a do patrão da fazenda, sonhava que tinha um carro, sonhava alto! E junto comigo sonhavam meus pais. Eles sonhavam igualzinho a mim e me diziam que iriam fazer o possível para que eu estudasse e tivesse tudo o que eles não puderam ter. Quando ouvia isso ficava feliz, e ainda pequena ficava preocupada em como eles conseguiriam isso se meu pai trabalhava na lavoura, minha mãe era dona casa, ambos sem estudos e com dinheiro somente para despesas da casa, da humilde casa. Mesmo pensando nessas impossibilidades, preferia acreditar que um dia iria conseguir com a força e determinação de meus pais. Eu sentia confiança quando eles falavam. No final da quarta série recordo que meu pai estava procurando emprego na cidade, uma casa para alugar, para que eu não ficasse nenhum ano sem ir à escola. Via meu pai voltar desanimado quando não encontrava, via meu pai sair confiante, outra vez à procura. Aquele ano terminou, o outro começou e nada. A solução foi eu morar com minha tia, numa cidade próxima. A escola ficava a dois quarteirões de sua casa. O combinado era eu ficar lá e a cada quinze ou vinte dias meu pai ir me buscar no final de semana. Mas eu sentia muita saudade dos meus pais, do meu único irmão, da fazenda, das vacas, dos porcos, das galinhas, das árvores, das panelinhas de barro, da minha vó – eu queria de novo, tentar ensiná­la a escrever, agora, pelo menos o seu nome – e então meu pai ia me buscar todas as sextas­feiras, no seu horário de almoço e me levava de volta, na madrugada de segunda­feira, para ainda dar tempo de voltar ao trabalho. Esta rotina teve duração de apenas três meses, pois logo meu pai conseguiu emprego e então mudamos para outra cidade – na qual moro até hoje e pretendo morar sempre: pequena Monte Mor.
9 Não foi muito fácil para eu me adaptar com a vida da cidade. O cotidiano na fazenda era muito diferente daquilo tudo: todos os dias eu ajudava tocar as vacas para o curral; todos os dias, depois da aula, eu pegava um copinho com açúcar e ia para a cocheira esperar a hora de ordenhar as vacas, colocava­o debaixo da teta e via aquele leitinho cremoso encher o copo, eu tomava com gosto; todos os dias eu brincava de balançar no cipó das árvores; todos os dias eu escorregava no barranco com pedaços de papelão; todos os dias eu brincava de fazer objetos com barro (panelinha, sofá, caminhão, fogãozinho, televisão...) e com legumes (nos quais eu enfiava palitos como se fossem pernas dos bichos que eu imaginava); todos os dias eu subia em árvores para lá em cima ficar comendo frutas (manga, goiaba...); todos os dias eu ajudava a minha vó a molhar as plantas da horta, ajudava a dar comida aos porcos e às galinhas; todos os dias eu brincava muito de amarelinha desenhada na terra, de pular corda, de pega­pega, de esconde­esconde, de balança­caixão, de equilibrar no tambor imaginando estar no circo, de pedrinhas; de casinha, de boneca de pano (pois de plástico só tive uma única, com nove anos de idade); todos os dias eu assistia televisão por pouco tempo, somente a noite com minhas tias e logo adormecia; todos os dias eram sempre assim e eu não me cansava. Já na cidade, mesmo ela sendo considerada pequena, eu mal podia ficar na rua para brincar, era perigoso – assim dizia minha mãe. Ao invés de animais, eram carros “soltos” nas ruas. A rotina se baseava em ir para escola, ficar dentro de casa ajudando minha mãe na limpeza, assistir televisão e só. Esgotava minhas energias somente nas atividades de educação física (vôlei e queimada – que “maravilha!”). Tive dificuldade também em enfrentar o preconceito das outras crianças em relação às minhas roupas simples (feitas pela minha mãe), ao meu jeito de falar “errado”. Sentia vergonha de estar perto daquelas menininhas “bem vestidas”, que levavam todos os dias dinheiro para comprar lanche e que jamais comiam a merenda da escola; eu tinha vergonha de puxar conversa e de falar, pois às vezes percebia risos e cochichos sobre mim. Esta situação
10 foi a mais difícil de enfrentar. Não ter a rotina da fazenda era pouco perto da vergonha que eu passava. Mas com o tempo fui me acostumando, prestando atenção na maneira como as pessoas falavam para então aprender. Prestava também atenção na escrita dos livros, principalmente nos de Língua Portuguesa, na conjunção dos verbos... Eu não queria errar mais. Recordo­me que eu tentava corrigir minha mãe quando ela dizia palavras “incorretamente” (segundo a norma culta), mas ela nunca aceitou, então com o tempo fui deixando­a falar de sua própria maneira porque ficava muito brava e eu com muito medo, pois não entendia o porquê de sua negação para “aprender” a falar. As lembranças que tenho da época do ginásio, são mínimas. Quando penso nesta fase sinto um vazio de informações. Poucos episódios emergem de meu pensamento: vários professores, muitas matérias (disciplinas), muitas equações, resumo de livros (dos quais nem sabia do que se tratava o conteúdo), memorização de verbos, classificação de palavras, “decoreba” de palavras em inglês, história do Brasil, aulas de Educação Moral e Cívica, mapas, frações, micróbios, bactérias, citoplasma, regras de gramática... Mas também algo de bom: as excursões ao Play Center, ao Zoológico de São Paulo... Minhas participações nas aulas de Educação Física – nas quais eu fazia apresentação de danças, de ginástica, com coreografias criadas por mim e por uma colega – e nas aulas de Educação Artística, em que eu adorava fazer teatro e dramatizações de piadas, imitação do programa Chaves, exibido na TV. Lembro­me também que eu sempre questionava os professores dos textos e atividades passados na lousa, sendo que coisa igual estava no livro, das vezes em que eu e outros alunos escrevíamos as “lições” na lousa enquanto eles ficavam sentados, sem fazer nada. As respostas que tinha eram sempre as mesmas: “você gosta, e isso vai te ajudar para quando for professora”. E eu respondia sem medo de ser punida: “quando eu for professora vou dar aula,
11 não vou ficar sentada!”. E realmente nunca fui punida por questionar e falar desta forma. Por quê? Porque, creio eu, estes professores achavam melhor me ignorar do que dar conversas a uma “aborrescente”, que embora estivesse falando a verdade, não sabia o que estava falando. Verdadeiramente naquela época, com treze ou quatorze anos, não sabia mesmo o que eu estava querendo com aquelas interrogações e comentários. No entanto hoje me vejo, lá no passado, sendo uma adolescente crítica, procurando ver e analisar “erros” e “acertos” dos professores, dos diretores, dos adultos de convivência – para tomar cuidado quando estivesse no lugar deles – embora não fosse levada muito a sério. Não somente estas preocupações permeavam meus pensamentos, mas a preocupação com a minha família. Pois nesta época meu pai, assim que mudamos para a cidade, pode trabalhar por apenas oito meses. Devido a uma doença adquirida através de seu trabalho na roça – artrite reumatóide – ficou impossibilitado de exercer qualquer função. Esta situação nos abalou muito, passamos por necessidades, mas graças à força e determinação de meus pais conseguimos superar: minha mãe virou costureira, e meu pai fazedor de tudo – chinelo, cortina de fitas de plástico, cadeiras de fio de conduíte, carteiras e cintos de couro, bonecas de pano, sacolas de nylon e bonés promocionais – estes dois últimos produtos resistiram e é nossa sobrevivência nos dias de hoje. Eu e meu irmão brincávamos com os colegas e vizinhos todos os dias na rua (contra a vontade de minha mãe pois ainda achava perigoso) de taco, de queimada, bem de tardezinha, ao escurecer, pois quando chegávamos da escola ajudávamos meu pai na sua pequena confecção. Muitas vezes o presenciei arrastar sua perna de tanta dor, sem forças para levantar uma colher, mas nunca o vi deitado em horário de trabalho. Isso ficou marcante pra mim. Tão marcante que por vários momentos me ausentei para não vê­lo naquela situação. Tão doloroso que também hoje procuro estar longe para não vê­lo neste estado. Mas tenho orgulho disso.
12 Orgulho de ter pais trabalhadores, honestos, humildes, solidários, num mundo onde os princípios da moral e os valores estão se perdendo. Nesta época de adolescência, com tanta coisa para se pensar, eu nem me dava conta de que a realização de meu sonho estava sendo iniciada. A menina da roça estava terminando o ginásio. Deixou pra trás a fazenda, os colegas – que diferente dela, pararam de estudar e trabalhavam intensamente na colheita de tomate e de cana – e já estava prestes a cursar o magistério. Restava­me cursar o magistério, pois as práticas de docência faziam parte do meu cotidiano desde a infância, quando tentava ensinar minha vó a escrever, quando brincava de escolinha com os amigos, em que eu era sempre a professora, quando ensinava meu irmão nas suas tarefas de casa, quando liderava as apresentações de dança e de teatro, quando era auxiliar da professora de catequese, quando com apenas treze anos ensinava datilografia a minha vizinha e a minha tia, em casa – pois eu havia iniciado o curso com nove anos de idade, quando ainda morava na fazenda e meu pai me levava à cidade, todos os sábados – e também ensinava minhas colegas a tocar violão, o qual aprendi a tocar assim que me mudei para cidade. Hoje apenas arranho suas cordas, mas já toquei muito em missas e celebrações. Ou seja, o ato de aprender e ensinar já estavam impregnados em mim. 2 Eu e o Magistér io Assim que o ano de oitava série estava terminando, o assunto e a dúvida da turma era “o que fazer no ano que vem?”. Havia muitos alunos indecisos, eu pensava no magistério, mas confesso que ficava indecisa quando algumas colegas diziam coisas negativas sobre a
13 função do professor: salário baixo, levar trabalho pra casa, agüentar aqueles alunos rebeldes e descompromissados; quando outras, porém elogiavam outros cursos como processamento de dados, técnico em contabilidade, que valiam como o colegial (na época). Cheguei a comentar com meus pais sobre o fato de eu cursar processamento de dados. Eles, no entanto, disseram que não era má idéia, mas que infelizmente não poderiam me ajudar pois se tratava de um curso caro, além de ser em outra cidade. O que eles poderiam fazer era conseguir o dinheiro do transporte para a cidade vizinha para que eu pudesse cursar o magistério, e que com a profissão de professora, tendo o meu dinheiro, poderia estudar o que eu quisesse. Talvez eles nem precisassem dizer aquilo pra mim, pois acho que sozinha faria a escolha pelo magistério. Algo dentro de mim me forçava a optar em ser professora. Eu tinha um desejo grande em lecionar – pensava que iria aprender uma técnica de “como ensinar”. E ainda mais, todos os professores que por mim passaram diziam que eu levava jeito. Jeito? Que jeito? “Então tem que ter jeito?” Pensava eu. O tempo que cursei o Magistério valeu a pena mais pelas amizades, pelos professores, pela rotina (viajar de ônibus, ficar o dia todo em outra cidade...), ou seja, pelo convívio social do que pelo conteúdo adquirido. Digo isso, lamentando é claro, pois somente depois de algum tempo, vivenciando a prática, é que consegui refletir sobre as disciplinas e os conteúdos do magistério. Talvez pela idade que tinha, dos quinze aos dezenove anos (adolescência!), não soube aproveitar bem. Apesar de querer “aprender” a dar aula, os pensamentos viajavam... Havia outros interesses também! Contudo, pude observar que foi um curso oferecido muito limitado perto das inúmeras situações que a profissão de professor nos propõe. Eu ficava esperando algo mais, a cada ano, a cada disciplina. No final do curso não conseguia enxergar em mim própria uma profissional e tinha receio em ter uma classe para dar aula. Sentia medo. Achava que não daria conta.
14 Neste período de estudos havia uma polêmica nos métodos de ensino: transição do método tradicional para o tão famoso “construtivismo” – mesmo este não sendo um método, na década de 90 era considerado como tal, e até hoje por alguns leigos. O que assistia em aula, no meu pensamento era normal (características do construtivismo, Jean Piaget...), estava recebendo tudo como se fosse a “técnica” que eu esperava, embora não fosse esta experiência que havia tido nos meus oito anos de escola como aluna. A polêmica, eu percebia durante os estágios que fazia: as professoras, com quinze anos ou mais de profissão, perguntavam para nós, estagiárias, se as didáticas estavam corretas, se estavam sendo construtivistas... era cômico. Durante um momento de observação de aula, numa segunda série, uma professora chegou a dizer para seus alunos registrarem no caderno: “escrevam o que eu digo... ABACATE, SOFÁ, LIMÃO...” Dirigiu­se a mim justificando­se: “agora não pode dar mais ditado, não é?”. Estas professoras sofreram muito com isso, foi marcante para mim. Meu curso também tinha momentos de contradição. Ora pedia­se que fizéssemos pasta de moldes de desenhos (datas comemorativas), de atividades de prontidão (bolinhas, cobrir traçinhos, onda vai­onda vem...); ora nos propunha planejamento de aula e exposição de trabalhos baseados no interesse da criança. Na minha regência – momento do estágio em que tinha que dar aula, sendo observada pelo professor da disciplina – por exemplo, fui solicitada a dar aula com base no construtivismo, sobre o assunto família numa primeira série, por 2 horas/aulas. Sem experiência nenhuma pedi aos alunos que observassem a obra de Picasso “Família de Saltimbancos”, discutimos a obra, cada criança teve a oportunidade de falar sobre sua família da forma que desejasse e depois desenharam suas próprias famílias, comparando uma com a outra – na verdade apenas reproduzi a aula da qual eu havia participado, e adorado, quando estava na sétima série, com minha professora de Educação Artística; ela tinha fascinação por artes visuais e transmitia isso; fazíamos diversas pesquisas sobre os
15 artistas e suas obras. No entanto, meu professor, me avaliando, disse que a aula foi boa, mas poderia ter sido melhor se eu tivesse dado um texto sobre família em que os alunos deveriam fazer cópia e responder perguntas sobre o mesmo. Ao ouvir isto me senti péssima. Como não havia pensado nisso antes? A resposta a minha pergunta veio com anos de experiência em sala de aula: meu professor me solicitou algo que ele próprio não sabia o que era. Contraditório o que ele fez não? Mas não o recrimino pois ele se encontrava na situação de mudanças, de transições – não que a aula serviu de modelo, mas por ter sido melhor do que ele sugeriu. Como sentir medo do futuro já era habitual, para não errar demais se por ventura terminasse o curso e tivesse uma classe para dar aula (ilusão de todas recém formadas!) eu fazia substituições nas escolas estaduais e também municipais sem remuneração alguma. Não recebia pelo trabalho porque não tinha o diploma e também porque não tinha idade suficiente (menor de dezoito anos), mas não me importava com isso. O que queria mesmo era poder ganhar experiência, saber um pouco mais, conhecer a vida escolar sob o olhar de professor e não mais como aluna. Não ganhar dinheiro não era empecilho, pelo contrário, me sentia feliz, uma quase professora! Ganhei muito com isso. 3 Eu e minha Pr ofissão Enfim me formei! E junto com minha formatura veio a confirmação de que eu estava grávida. Tudo isso me causou certa preocupação, pois tinha o desejo de lecionar e estando grávida ficaria mais difícil. Mas nenhum transtorno aconteceu.
16 No ano seguinte a minha formatura, participei de um concurso público, municipal, em que consegui me classificar. Um ano após, 1996, já estava com minha primeira classe de Educação Infantil. Dificuldades surgiram... foram muitas. Me via repetindo atitudes das minhas professoras primárias. Por mais que eu tivesse estudado uma teoria diferente (concepção construtivista), por vários momentos tomava base pelas experiências como aluna. Não conseguia, no início, liderar as atividades direcionadas à pré­escola, até porque não tive o prazer de freqüentar uma. Vivência de pré­escola foi somente como estágio – poucas vezes. Como a Secretaria de Educação sempre esteve preocupada com a capacitação de seus professores, logo consegui tirar dúvidas, ampliar meus conhecimentos, mudar minha didática, minhas atitudes, melhorar a relação com os alunos, procurando sempre atender os objetivos da educação.
Sempre tive ansiedade em buscar outros conhecimentos, aprofundar mais sobre os assuntos relacionados à Educação Infantil, e isso fez com eu participasse de vários cursos e palestras oferecidos pelas editoras e outras instituições. Isto deu uma contribuição muito grande para minha prática. Com o tempo fui ficando mais segura do desenvolvimento do meu trabalho. A cada dia, a cada curso, a cada leitura, a cada experiência com os alunos sentia que sempre havia algo de novo como começar, algo para modificar, algo para refletir. Somente atuando como professora pude fazer reflexões sobre os métodos e concepções de ensino, sobre as contribuições que os autores podem nos oferecer com suas teorias. Um deles, o qual o respeito pela pesquisa que desenvolveu, é Jean Piaget. Toda leitura que fiz de suas pesquisas foi válida, principalmente nas relações com meus alunos e na garantia de seus desenvolvimentos. Outros nomes também podem ser citados como contribuintes da minha prática de docente – Emília Ferreiro,Vygostky, Paulo Freire,
17 Constance Kamii entre outros – e são os mais considerados como subsídios da Educação Infantil. Enfim, não só bons momentos vivenciei trabalhando como professora, mas também momentos difíceis. Cuidar e propiciar o desenvolvimento do ser humano não é uma tarefa fácil. Desilusão são muitas: com o não atendimento dos objetivos; com uma aula que não foi bem sucedida; com a falta de recursos; com a falta de participação e apoio dos pais; com alunos de necessidades especiais; com falta de reconhecimento. No entanto, são desagrados que foram e continuam sendo superados por um sorriso, por um gesto de carinho, por uma demonstração de aprendizagem, por atitudes positivas de cada criança. Mesmo sendo idealista da educação, nunca deixando a esperança se acabar, defensora de uma educação mais justa, digna e humana, me senti abalar pela falta de reconhecimento na questão financeira. O baixo salário e a necessidade de criar um filho praticamente sozinha, depois que me divorciei, fizeram com que eu pensasse em desistir da profissão de docente e procurar outras áreas de trabalho. Por esse motivo, iniciei então, a faculdade de Administração de Empresas. Minhas expectativas com este curso era mudar radicalmente, fugir da educação, ter um emprego com boa remuneração. Caí feito um pára­quedas naquela classe com noventa e dois alunos, onde todos, exceto eu, tinham experiência em comércio e empresas. Por ser da área humana, eu acreditava que não iria sentir tantas dificuldades no curso de Administração. Quanta ilusão. A maioria do conteúdo estudado foi contra meus princípios. Nunca vi tanta ambição, egoísmo e ganância juntos. Eu mesma queria tentar me enganar mas o óbvio estava a minha frente: todos ali estavam querendo saber em como tirar mais dinheiro do próximo, em como conquistar o cliente do outro, em como enganar para poder ganhar, em como fazer capital. Naturalmente, uma empresa sobrevive com lucros! Mas não era exatamente isso que eu queria. Eu queria mudar de emprego para poder ter um salário maior, sem ter que contrariar
18 meus princípios. Mesmo não estando satisfeita com o curso, resolvi terminá­lo, pois todos os conhecimentos, com ele adquiridos, foram válidos – se não para experiência, para então me fazer refletir e questionar. Como tudo não é perdido, assim diz o ditado, esta faculdade me proporcionou uma experiência riquíssima em minha vida. Primeiramente fiz parte do Núcleo de Pesquisa da Cnec Capivari – da própria faculdade – onde auxiliava professores em suas pesquisas de mestrado. Graças a esta participação, com apoio de um professor doutor da faculdade, fui integrante de um grupo de estudos do CenPRA (Centro de Pesquisas Renato Archer), no qual realizei também pesquisas científicas. Graças a estas vivencias percebi que realmente sou da educação. 4 Eu e a Unicamp: r ealização de um sonho! Como então optei por continuar na área da educação não pude, em hipótese alguma, perder o curso de Pedagogia oferecido pela Unicamp, pela “famosa” Unicamp – o tão cogitado PROESF (Programa Especial para Formação de Professores em Exercício da RMC). Na semana em que fiquei sabendo sobre a possibilidade de fazer um curso em uma das melhores Universidades, eu mal dormia. Só pensava nisto e ao mesmo tempo morria de medo de fracassar no vestibular. Lembro­me que tinha uma grande chance devido ao número de vagas destinado a minha cidade, mas assim mesmo o coração batia forte em pensar nisso tudo. Nunca havia sentido tanta tensão como no dia da prova: a cabeça doía muito, minhas pernas estavam bambas, meu pensamento era mais negativo do que positivo por causa da exigência das perguntas. Era pouco tempo para responder aquilo tudo!
19 Toda a tensão foi recompensada ao ver meu nome e de minhas amigas na lista de classificação. Quanta emoção! “Será que é verdade?” Pensava eu. As expectativas eram muitas. Toda minha família estava feliz por mim. Era um sonho sendo realizado. Quantos gostariam de estar no meu lugar! O sorriso transpassava de uma orelha a outra, era engraçado de ver! O primeiro dia de aula chegou. Vi que a alegria não estava só em mim, mas em todas que ali estavam que passaram pela tensão do vestibular, que tinham o mesmo sonho. A recepção dos professores também foi marcante. Era um curso novo, uma proposta ousada! No início eu nem pensava no que estava por vir, acho que as outras professoras alunas também. Estávamos todas esperançosas, com vontade de buscar mais conhecimentos, de conhecer os professores doutores da universidade, de levar as novidades para escola. Pensamentos negativos nem se quer passavam por minha mente. Tudo era alegria! Achava que três anos seriam pouco tempo para desfrutar de tudo aquilo. Somente o tempo me daria garantia disso. E o tempo foi passando. As novidades desaparecendo. As dificuldades surgindo. O cansaço servindo como obstáculo (também, uma faculdade seguida da outra, que loucura!). Entre uma risada ali, uma distração lá, um comentário novo, uma disciplina nova, outros professores, novas exigências... Não vi o tempo... Três anos passam rápido mesmo! No final do curso a exaustão era geral! Minha história se repetia por toda a turma: não foi fácil se manter no curso – família e lazer deixados de lado; dar aula em dois períodos; falta de tempo para os trabalhos exigidos; falta de tempo para tanta leitura; falta de tempo para planejar aulas, para comer, para conversar, para dormir; medo da violência; medo dos riscos do trânsito; vontade de desistir; sentimento de angustia, de stress, de culpa por abandono do filho, da casa, da família. Tudo isso estava estampado nos nossos olhares, no nosso modo de comunicarmos uma com a outra. Tudo isso refletiu em mim um desgaste físico inconcebível:
20 hiperglicemia, estafa, stress, nervosismo à flor da pele, TPM trinta dias por mês, falta excessiva de memória! Muitas vezes me perguntava: “Será que valerá a pena?” “Será que valerá prejudicar minha saúde, meu filho, por mais uma formação que talvez não me trará recompensas?” Essa dúvida vinha constantemente em meus pensamentos quando via acidentes na rodovia, quando deixava meu filho chorando pedindo minha companhia, quando via meu filho indo para escola sem fazer a tarefa porque eu não havia tido tempo de ajudá­lo, quando me decepcionava com alguns professores ou até mesmo com a universidade, quando sentia ânsia, dores de cabeça, tremores, tordoações, esgotamento físico... Somente o tempo poderia me dar garantias. E me deu! Desde as primeiras disciplinas sentia que este não era um curso igual aos demais. Sentia que havia muito para eu aproveitar e que muito me acrescentaria. Bastava paciência e sabedoria para usar todos os benefícios, que o curso estava me propondo, no momento certo. Eu estava diante de descobertas, prestes a transformar minha prática docente, prestes a crescer como pessoa e como profissional. Era tudo isso que me fazia, inúmeras vezes, não desistir. O descarregamento de informações foi constante. A cada aula eu me sentia ora completamente leiga e ignorante ora satisfeita com o trabalho que eu já desenvolvia com meus alunos – muitos assuntos discutidos serviram para me mostrar que eu estava no caminho certo. No decorrer deste curso houve muito mais aproveitamento do que descontentamento com os textos. Todo o conteúdo veio ao encontro do que eu necessitava, servindo como complemento a minha prática. Percebi que o PROESF não estava somente cumprindo uma determinação de Lei, mas esteve, o tempo todo preocupado com a nossa formação, sendo responsável pelo resultado que estes “novos” professores produzirão na sala de aula. Apresentou elementos constitutivos da
21 compreensão da prática docente enquanto dimensão social da formação humana. Compromissou­se em formar, do que meramente treinar seus professores. Foram neste três anos que pude entender a verdadeira ligação da teoria – que surgiu, segundo Luiz Carlos de Freitas (em uma de suas palestras), porque a ‘prática’ não bastou para analisar e compreender a sala de aula – com a prática. Os conceitos que eu havia concretizado fazendo o magistério e depois exercendo a função de professora tornaram­se mais verdadeiros, tomaram forma, a partir do momento em que comecei a enxergar com outros olhos – mais críticos e atentos à realidade – esta relação de cumplicidade. Refletindo sobre isso, percebo que abordava a teoria (nos primeiros anos de trabalho) como se fosse uma verdade a ser seguida. Agora a vejo como fonte inspiradora, sobre al qual eu tomo as rédeas, analisando­a primeiramente para então saber onde e como aplica­la. Olho para a teoria e a considero como apoio de significação a minha prática, sem endeusá­la. Uma teoria apenas não basta, é preciso antes de tudo desfrutar de várias, para poder fazer uma análise e comparação. Sinto­me numa busca constante, hábito que adquiri na universidade e faço das palavras de Freire (1997) as minhas: “ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade.” Freire ainda diz que o educador não deve ensinar apenas os conteúdos, mas também ensinar a pensar certo, que nada mais é que a capacidade de intervir no mundo, de conhecer o mundo, é não estar demasiado certo de nossas certezas. Aprender criticamente é possível, basta ter educadores que vivenciam na prática incentivando seus educandos a serem criadores, investigadores, inquietos, curiosos, humildes e persistentes. O fato de eu ter conhecido isso somente na universidade prova que não foram estes educadores que tive. Os meus professores foram aqueles que não me ensinaram a pensar
22 certo, que não colaboraram para que eu aprendesse a intervir no mundo, que não praticaram a criticidade – talvez pela época, pela falta de conhecimento e de má formação, ou até mesmo por reproduzirem o que vivenciaram, por não terem vivenciado a autonomia. E isso me leva aos conhecimentos que adquiri com a Política Educacional: onde é preciso investir em leitura, em teorias, reflexões, para saber diferenciar os conceitos, para não reproduzir o que o Governo deseja que reproduzamos, para não reproduzir discursos, para não contribuir na formação dos cidadãos que o nosso sistema (capitalista) deseja, ou seja, escolarizar os cidadãos para serem pobres felizes. Enfim, como todos os conteúdos estiveram entrelaçados, fazendo todo momento com que nós – professoras­alunas – estivéssemos o tempo todo refletindo sobre nossa vida pessoal e profissional, o que mais me fez lamentar sobre a educação de nosso país foi conhecer os reais objetivos políticos que estão camuflados aos nossos olhos. A cada semestre de aula, em cada disciplina pude entender e questionar o porque de muitas coisas, o porque de eu ser quem eu sou, o porque de meus pais serem como são, o porque da situação em que nossas escolas se encontram, o porque da defasagem escolar, o porque a massificação, o porque de tudo estar institucionalizado, o porque de meus alunos se comportarem de tal forma, o porque de falta de recursos, o porque de autoritarismo, o porque de sim para o “ter” e não para o “ser”, o porque da miséria, da pobreza, da violência, do tráfico de drogas, o porque de tudo! Com as aulas de Pensamento Histórico da Educação consegui abrir os olhos para os reais objetivos e conseqüências do neobileralismo e a globalização. Resumindo: é fato que na globalização a política econômica consiste na utilização de meios que convencem que o outro é melhor, e assim diminuem o poder de uma cultura, que relacionada à educação mostra que aquele que “lutar” para conseguir mais “conhecimentos” (inteligências múltiplas) terá uma posição melhor na sociedade, fazendo disso um incentivo a exclusão, pois aquele que não é capaz de atingir o sucesso não teve “sorte” suficiente na vida”.
23 Graças a estes estudos, consegui fazer reflexões entre a educação e os contextos econômicos, político social no Brasil, percebendo as transformações ocorridas desde o período colonial até os dias atuais. Consegui ter uma visão crítica sobre a utilização das tecnologias de informação e comunicação no contexto da realidade educacional brasileira. Em palestra, o professor doutor José Luis Sanfelice, confirma isso dizendo que olhando para a história, descobre­se que a escola pública tem seu momento de surgimento. Ela surge por razões determinadas, com características que define e redefine seus objetivos. É preciso então acompanhar essa história para entender o porque das ‘coisas’: avaliação, métodos, currículo. No percurso do pensamento histórico deve­se estar claro que a escola pública é um produto histórico, da história do homem, com raiz política, ideológica, com base material que a sustenta. E foi pensando nessa história de forma crítica e reflexiva que entendi a natureza desse processo. Consegui, então, interferir melhor na minha realidade, ou seja, na minha sala de aula, no meu convívio familiar e social: posicionando­me contra a concorrência individual, contra o consumismo, contra a propagação de idéias, contra os textos de auto­ajuda, contra as políticas compensatórias (bolsa escola, vale­leite, amigos da escola), contra a ausência de direitos sociais, contra a qualidade total e competências múltiplas, contra a desigualdade. A conquista desses conhecimentos exigiu de mim uma nova postura como professora e como cidadã, diferente da que eu tinha antes. Exijo, de mim mesma, atitudes que não promovam o neoliberalismo. Infelizmente a proposta neoliberal acaba por ser o pior golpe da educação porque todos (inclusive os professores) estão engolindo, reproduzindo e formando. O sistema neoliberal coloca nos dominados a responsabilidade do fracasso, da má situação: se é pobre ou fracassado, a culpa é de quem o é. Contudo, já que tal proposta é fazer uso da educação um instrumento massificador de idéias por atingir mais pessoas, eu, como
24 professora tenho o poder em minhas mãos para combatê­la e é nisso que penso quando me relaciono com alunos, pais e funcionários. Um fato marcante em minha vivência na universidade foi assistir ao filme “Mera Coincidência”. Após tê­lo assistido minha visão sobre a televisão e o poder da mídia mudou radicalmente. Não consegui mais assistir programas, jornais e telenovelas sem ter uma postura crítica. Melhor que isso, ao assistir com outras pessoas, familiares e alunos principalmente, faço comentários e questionamento instigando­os a ter também um pensamento crítico sobre o que estão assistindo. Contudo, torna­se um desafio, pois quanto mais a escola se amplia é claro que ela vai trabalhar cada vez mais com classes distintas. Quanto mais se diversifica a clientela, maiores são os desafios para o professor. Tantas diversidades – culturas, hábitos e valores – dificultam o trabalho do professor, já que o aluno ideal não existe. Na questão da educação brasileira ligada à diversidade cultural em que a própria se encontra, inúmeras reflexões podem ser feitas. As aulas de Multiculturalismo deram foco a isso e me ajudaram muito, principalmente depois da leitura do texto “A cultura enquanto suporte de identidade, de tradição e de memória”, de Cassiano Reimão, sobre a qual fiz uma análise do meu cotidiano social. Os “erros” que cometemos enquanto adultos, os quais as crianças reproduzem, “erros” que vão se difundindo a cada geração, sem fim, como por exemplo: chamando uma pessoa de certa idade de velho, fazendo comentários banais como, por exemplo “isto é coisa de velho”, “ele não sabe de nada, está caducando”; ignorando pessoas de classe social inferior quando esta está mal vestida, com odor; elogiando uma pessoa de “linda”, “maravilhosa”, “perfeita”; chamando alguém de “baiano”, “caipira”, “Zé Mané”, “baleia”, “magricela”, “burro”, “preguiçoso”, “negrinho”, “fedido”. Estes e muitos mais exemplos poderiam ser citados, pois fazem parte da rotina diária no convívio em sociedade.
25 Levando esse conhecimento a minha prática docente, procurei desenvolver trabalhos que conscientizem os demais de que as diferenças existem sim, mas precisar haver o respeito a essas diferenças. Comecei então a fazer a soma dos diferentes – não dos iguais – fazendo uma conexão de trocas de conhecimentos, de culturas, de etnias, através de projetos e de pequenas atitudes, principalmente no modo de falar, para não reforçar o preconceito. Diante das palavras de Ribeiro (1995), “ uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra” , acredito e procuro colocar em prática a construção do conhecimento na diversidade cultural, criando novas identidades, propiciando aos alunos a condição de serem sujeitos do conhecimento e instituidores de sua própria cidadania. Com esta disciplina pude verificar as práticas pedagógicas não convencionais que promovem o convívio das diferenças étnico­culturais; pude constatar os mecanismos de inclusão e exclusão dos sujeitos e como as características raciais e sociais estão ou não contempladas nas políticas educacionais. Mais uma vez me recordo dos preconceitos que vivenciei ao sair da “roça” e ir para cidade. Meus professores da época não percebiam as diferenças ressaltadas entre os alunos. Como eles poderiam ver se eles próprios estavam carregados de preconceito. Lembro­me que assuntos como estes não eram discutidos nem mencionados; tudo era tratado dentro das normalidades. Respeito era uma palavra descartada do vocabulário escolar, por isso sofri com o sentimento de rejeição e desvalorização da minha identidade. Hoje consigo entender o porque daquele sofrimento apenas dez anos de idade: falta de conscientização dos professores, falta de busca de conhecimento, falta de investimento, proposital (por parte do governo) em formação continuação de profissionais. Mas para não repetir “erros”, hoje enxergo e respeito
26 meu aluno como ele é, partindo de sua origem, valorizando sua cultura e não permitindo que demais o desconsidere por causa de sua cor, raça ou condição social. Neste momento me recorre o respeito que tenho, depois de cursar o PROESF – mais especificamente as aulas de Teoria Pedagógica e Produção em Língua Portuguesa – pela linguagem que minha mãe utiliza para se comunicar. Minha triste experiência no primeiro dia de aula, mencionada no início do memorial, fez com que sentisse vergonha da linguagem utilizada pelos “caipiras” e carreguei isto por muitos anos. Felizmente percebi que não há certo ou errado, e sim diferentes variações de linguagem. Existe sim uma forma culta de se falar e um padrão para escrever, mas isso não interfere na valorização do indivíduo. Minha mãe, ao se recusar em modificar sua forma de falar estava apenas dando importância a sua identidade, que foi construída com suas experiências de vida, trabalhando na roça desde os quatro anos de idade, passando fome, não tendo oportunidade de freqüentar a escola e de conhecer a outra ‘forma’ de se falar. Estas mesmas aulas me fizeram entender as contradições pelas quais passei enquanto cursava o magistério. O conflito na transição das propostas metodológicas e concepções de ensino­aprendizagem. Assim como com minha prática já havia constatado, tais aulas vieram contemplar meus conhecimentos: não há técnicas para ensinar ler e escrever, mas uma conjunção de orientação com mediação, por parte do professor, no processo de aprendizagem dos alunos. Na verdade, esta mediação do professor é ideológica porque a maneira que ele cria condições para que haja aprendizagem depende de seus conhecimentos, da concepção que tem sobre o mundo, da concepção de sociedade, de justiça, do papel da escrita para o cidadão. Em sala de aula coloco em prática o que as concepções trazem de melhor. Não digo que sou a favor de Piaget ou Vygostky em cem por cento. Há mitos que envolvem ambas as concepções (construtivista e histórico cultural), como por exemplo, o aluno constrói o conhecimento sozinho (postura de que só faz o que a criança quer – bom para professores que
27 não querem se preocupar com o conteúdo a ser dado!), o erro tem ser respeitado (o que gerou criança que escreve errado até a oitava série). E, quanto a estes mitos, a reflexão e a leitura são os melhores instrumentos para se estar no caminho correto. Propicio ao aluno uma aprendizagem significativa, levando a ele o que ele quer e o que tem de interesse, e partir disso, ajudá­lo a construir outros conhecimentos. Freire complementa: “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção” . Concordo com o autor, e ainda digo que ensinar inexiste sem aprender e vice­ versa, ou seja, “quem ensina aprende ao ensinar, quem aprende ensina ao aprender” . Não me refiro, aqui, somente às aulas de português, mas a todas as áreas em que o conhecimento se estende. Até porque não somos partes, somos o todo. Trabalhando na Educação Infantil vivencio a “Transversalidade”: não há separação de disciplinas, não há divisão de partes (história, geografia, matemática, ciências...). E então, o que Freire nos propõe é fácil de colocar em prática, pois não é preciso se prender a um conteúdo. Com apenas um projeto, consigo, na educação infantil, levar meus alunos aos mais diversos conhecimentos em suas variadas áreas. Com projetos, faço a criança buscar e não aceitar o pouco, não aceitar o “arroz” quando se tem uma “torta de morango” para devorar, pois neles estão inclusos a arte, a ciência, as diferentes linguagens, o raciocínio, o espaço, o lugar, a história, a cultura... Proporciono aos meus alunos uma aprendizagem sustentada pela curiosidade. A curiosidade estimula a pergunta, a reflexão crítica sobre a própria pergunta. Estimulo uma prática da curiosidade como sua liberdade, sujeita a limites, pois acredito no fato de que a minha curiosidade não tem o direito de invadir a privacidade do outro e expô­la aos demais. Nestas situações, em constante respeito aos interesses e desenvolvimento de projetos, meus alunos não temem a avaliação, pois ela, ainda, não existe. Não estou ali para fazer juízo de valor sobre meus alunos. Estou ali para ajudá­los a se desenvolverem.
28 Senti­me muito bem ao assistir a palestra de Luiz Carlos de Freitas sobre Avaliação porque me vi no caminho correto, com atitudes positivas em relação aos meus alunos. Quando ele diz que o professor o tempo todo avalia atitudes e valores verbalmente e que a escola é instituída para hierarquizar e excluir, concordo com sua opinião e mais, acrescento dizendo que o professor também é vítima destas condições, mas tem que estar ciente disso para não ser cúmplice desta realidade, tem que agir contra o processo de exclusão, que não opera pela nota, mas pelo juízo de valor que faço do aluno. No decorrer desses três anos, lendo, observando, trocando experiências, analisando, refletindo, me vejo não apenas como objeto da História, mas como sujeito igualmente. No mundo da História, da Cultura, da política, constato não para me adaptar mas para mudar. Quando constato sou capaz de intervir na realidade – e já estou intervindo, colocando em prática tudo o que consegui constatar na universidade, modificando minha maneira de pensar e de agir. O curso me ajudou a saber lidar com a diversidade existente entre alunos, me ajudou a incentivar atividades de enriquecimento cultural, a desenvolver práticas investigadoras, a exercer a organização, coordenação e gestão do trabalho pedagógico, a fazer integração da teoria e prática, a fazer argumentações sobre o quero ou não para com meus alunos, a ter uma posição crítica frente ao nosso sistema capitalista e aos reais objetivos políticos que circundam a educação como um todo. Consegui entender que tudo está relacionado às ideologias. Consegui ver que o Currículo Escolar se esbarra não só nas relações de poder, mas também nas de gênero, de raça. Temos uma história marcada por técnicas e métodos para atingir objetivos da sociedade capitalista. A escola contribui para isso quando produz uma cultura que alimenta a classe dominante. Escola é produção. E hoje, na universidade, questiono: o que eu estudei no ensino fundamental e médio? Por que não consigo me lembrar das leis da física, da história da guerra
29 civil, das regras de gramática, da lei de Newton? Na mesma universidade eu respondo: porque nada foi significativo para mim. Porque estes conteúdos estavam presentes apenas para cumprir o currículo. Ninguém questionou justamente porque a formação não favoreceu o pensar: o interesse político é formar professores que não sabem escrever, que não é crítico, para não derrubarem o poder. Felizmente mudei meu olhar sobre a educação. Mas...que olhar será este que, ao apenas olhar, consigo mudar, transformar muitas coisas? À medida que vivemos, trocamos experiências, nos relacionamos com outrem – em família, na escola, na igreja, na rua, na praça, em qualquer lugar que seja –, a nossa maneira de olhar se modifica. E, então, nossos pensamentos e nossas atitudes também se modificam. Há renovação, há transformação, há evolução. Digo isto porque é assim que sinto e me vejo diante da minha realidade. Sinto que grandes mudanças ocorreram no meu modo de pensar e de agir. Mas tal mudança somente ocorreu devido ao relacionamento que tive com outras pessoas: trocando experiência, questionando, refletindo, buscando algo novo. Enquanto educadora, acredito na hipótese de que transmitimos o conhecimento da mesma maneira em que aprendemos. É assim que acontece: desde bebê aprendemos por imitação a falar, andar e agir. E não seria diferente com a educação. No entanto, se aprendemos de forma “correta”, ensinamos corretamente. Mas se aprendemos de forma “errada”, ensinamos por conseqüência disto. Penso então que, neste caso, devemos estar atentos às nossas atitudes e maneiras de “ensinar”. Para isto servem as pesquisas, as teorias, os relatos de experiências: para nos informar, para nos acrescentar, para nos fazer refletir, para alargar nossos horizontes, para enfim, mudar nossa maneira de olhar.
30 É claro que tais mudanças não iniciaram somente com as aulas. Percebo que desde o início de meu trabalho docente, venho me transformando quanto ao método e conteúdo a ser trabalhado. Não somente isso, mas também à maneira que me relaciono com meus alunos. A maneira pela qual transmitimos os conhecimentos é conseqüência do processo mecanizado pelo qual passamos. Isto é fato. É por isso que então, após ter evoluído muito na minha maneira de pensar, estou mudando também a minha maneira de dirigir minhas aulas, procurando desenvolver meus alunos em todos os aspectos: cognitivo, físico, social, e afetivo. Foi neste sentido que me certifiquei de que não há aprendizagem, não há compreensão do conceito se não há processo do pensamento em movimento. As crianças têm que explorar, questionar, tocar, sentir, interromper, falar, ouvir, para que elas próprias possam chegar ao conhecimento. A transformação que me ocorreu foi algo simples, mas importantíssimo: mudei meu olhar. Agora estou com um olhar crítico e reflexivo.
31 REFERÊNCIAS FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997. REIMÃO, Cassiano. A Cultur a enquanto suporte de Identidade, de Tr adição e de Memória. IN: Revista da Fac. de Civ. Soc. e Humanas. Lisboa: Colibri,1996. RIBEIRO, D. As Dores do Par to. IN:“ O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil” . São Paulo: Cia das Letras, 1995.
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A Vida na Escola e a Escola da Vida