: ARTIGO
João dos Santos:
O milagre do mundo a acontecer...1
Teresa Vasconcelos . Professora coordenadora principal (aposentada) - Escola Superior de Educação de Lisboa
Os adultos podem
desprezar, detestar,
amar ou venerar a criança,
mas a nenhum adulto
a criança pode ser indiferente.
Não se pode ser indiferente
nem à própria infância,
nem à infância dos outros.
O segredo do homem
é a própria infância.
João dos Santos
Podem acontecer,
e então a música
decerto estará lá.
as palavras surgirão então,
o sol, o girassol, a luz
que gira em torno
do eixo feito de outra luz.
Poderia ser Deus, ou paz.
Sentir.
E de repente
o mundo acontecer,
o milagre do mundo
a acontecer
Ana Luísa Amaral
Na1celebração dos 100 anos de um Mestre
que foi meu proponho-me elaborar sobre
o texto acima transcrito – O segredo do
homem é a própria infância –, tecendo-o com fragmentos de um poema de Ana
Luísa Amaral de que gosto especialmente. Que me perdoe o mestre pedagogo e
a poeta se tomo demasiadas liberdades
“literário-pedagógicas”. Mas as metáforas
de um poema são as que melhor podem
ilustrar o que quero dizer sobre o “poema
vivo” que foi João dos Santos. Para iniciar,
relembro as palavras de Sérgio Niza sobre
o sentido da palavra mestre: “Mestres, são
os discípulos que os nomeiam” (comunicação na ESELx, Fevereiro 2013). Deste
modo, eis-me a explicar porquê João dos
Santos é um pedagogo-mestre com quem
volto a estabelecer um diálogo muito pessoal nestas linhas:
(...)
A nenhum adulto
a criança pode ser
indiferente.
Tem razão, caro João dos Santos, nunca
podemos ser indiferentes a uma criança.
Porque ela está ali, a olhar para nós, exigindo-nos atenção, respeito e escuta profunda, como tão bem fez na sua prática de
psicanalista e de pedagogo descrita, entre
outros, nos Ensaios sobre Educação e em
A Casa da Praia. Relembro o título de um
desses ensaios: “A Criança, quem é?”, ensaio esse que inspiraria qualquer um dos
sociólogos da infância, muito antes de se
ter reconhecido a sociologia da infância
como ciência. Eis uma primeira área em que
foi percursor.
Poderia ser Deus. Ou paz. Sentir.
1.E ste artigo foi publicado originalmente em
©2013 joaodossantos.net e é aqui reproduzido com a
devida autorização.
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Cadernos de Educação de Infância n.º 99 mai/ago 13
Sentir-me a mim própria. Analisar-me. Refletir sobre a minha história e sobre a história da minha infância – para poder ser
educadora, pedagoga, formadora de outros
educadores, investigadora das “coisas” da
infância: um ser humano que se interroga
e que interroga a criança. Nessa paz interior
de uma “viagem” revisitada honestamente e
com o possível rigor – será que existe por
completo, esse rigor? – poderei dançar então
a dança da vida com as crianças: as nossas
alegrias e tristezas, as nossas feridas e respetiva integração em quem somos hoje. Pessoalmente tenho procurado ensinar-lhes algo
que foi decisivo na minha própria infância
e juventude: a resiliência, essa maravilhosa
capacidade de, tal como “cana agitada pelo
vento”, me tornar flexível para não quebrar,
balançando-me no movimento de ventos e
tempestades. Ajudar a criar na criança condições e competências de resiliência, isto é:
força física, mental e espiritual; o usufruto
das artes enquanto linguagens da cultura,
mas também de reparação; a interdependência com aqueles em quem confiamos... É
nesse transcender de mim própria, olhando
para a frente e, simultaneamente, para a maravilha de estar viva, que posso colocar “andaimes” para que a criança que trago pela
mão reganhe essa mesma confiança. Assim,
com o mestre que, também, foi precursor
deste conceito de resiliência, reafirmo ser
esta parte da minha filosofia enquanto profissional ligada à educação de infância.
Não se pode ser indiferente nem à própria infância nem à infância dos outros
Revisitar a nossa infância para poder visitar
a dos outros. Ajudar as crianças a nomear
o que se passa dentro de si próprias, para
as poder abordar com um imenso respeito
e cuidado desvelado. Lembra-se de quando falava nos perigos da pré-escolarização
do jardim de infância? Afirmava então: O
Verde é Teu, Respeita-o! Interpelava-nos,
já em 1983: ”aos que agora estão em vias
de lançar o ensino pré-primário a partir
dos instrumentos que se tornarão repres-
sivos; de salas, mesas e cadeiras, papel
e lápis, a promover um terrível estatismo
massacrante, eu diria: acordem em vós a
criança que lá existe e respeitem-na!” (in:
Ensaios sobre Educação II). Mestre, como
sempre, antecipou-se... Se pudesse ver o
que se passa hoje, depois de termos investido tanto numa educação de infância
de qualidade para todos! Posso contar-lhe
um coisa? Há dias telefonou-me uma educadora, a exercer num jardim de infância
num agrupamento público de escolas, a
quem a diretora tinha exigido (assim mesmo, textual!) que elaborasse uma avaliação quantitativa de cada criança na base
da escala de 1 a 5 (!!!). Caro João dos Santos: como o feitiço se volta contra o feiticeiro! Como tinha razão em nos mandar
respeitar o verde!
As palavras surgirão então, o sol,
o girassol
As suas palavras inspiraram durante muitos
anos os meus alunos/as da Escola Superior
de Educação de Lisboa. Enquanto futuros
educadores/as de infância ou professores
do 1º e 2º ciclo, todos eles estudavam a sua
obra de pedagogo e a denominada “pedagogia terapêutica”. Eles aderiam a esta proposta de alma e coração: sabe porquê? Pela
identificação profunda que sentiam com o
seu pensamento à medida que se preparam
para se tornarem no educador/professor
que desejariam ser. Essa experiência de estudo – qual “girassol orientando-se para o
sol” – terá tido um papel “fundador” que
orientará a sua vida para sempre: a atenção
às crianças, a cada criança individualmente,
ao seu sofrimento, às suas questões e formulações, à descoberta do papel que um/a
educador/a atento e disponível pode ter
nas suas vidas ou na vida daquela criança
em particular que os preocupa.
[Os adultos podem desprezar, detestar,
amar ou venerar a criança, mas] “não
tenham medo de frustrar as crianças!”
Professor João dos Santos, como soube in-
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tuir os tempos que aí vinham! Tempos da
criança ao centro qual “principezinho” entronado e tirano, imaginando que o mundo
todo gira em volta de si: a criança (tão condicionada ela está...) que precisa de “ter” e não
de ser, um “reizito” engordado à força de
comida cheia de químicos e de açúcares ou,
mesmo, engordado à força de tantos objetos e coisas que mal lhe dão tempo e espaço
para olhar para si própria em interação com
os outros... Tenho vindo a falar e a escrever sobre esta questão: com o “colonialismo
anglo-americano” da “child centered education” – espero que esta formulação não o
choque – ,que fizemos dos outros prováveis
“centros” do processo educativo? As famílias, os irmãos, os amigos e colegas de escola, os/as profissionais que cuidam das crianças e promovem a sua educação? Não será a
infância tecida numa rede de interações em
que a criança é central mas não o centro?
Como o senhor se antecipou também a esta
verdadeira doença do século XXI... Em que
curva da história deixámos a perspetiva de
educação transformadora de Paulo Freire?
A luz que gira em torno do eixo feito
de outra luz
Caro Mestre, o senhor foi uma das figuras
fundadoras da minha vida e da minha “profissionalidade.” Relembro as colunas que ia
publicando no saudoso Jornal da Educação
– no tempo em que refletir sobre educação
justificava uma edição semanal de um jornal
de enorme qualidade, conduzido pelo também saudoso Afonso Praça. Esperávamos
sofregamente a saída do jornal para nos
apropriarmos do sentido que emprestava às
suas crónicas. Enquanto jovem profissional
sentia-me “iluminada” pelas palavras que ia
escrevendo; como a minha prática e o meu
modo de olhar a criança girava em torno do
seu eixo inspirador! Estive consigo face a face
numa formação para as primeiras educadoras
de infância da rede pública. Dizia-nos então:
“Antes de sentarem as crianças em mesas e
cadeiras e lhes darem papel e lápis para a mão
(ou marcadores... ou lápis de cera, pincéis...),
sentem-se com elas no chão. Conversem com
elas, ouçam-nas, tentem entender o mundo
que está por trás de cada criança”, ouçam os
seus pontos de vista sobre o mundo (como diria hoje Jerome Bruner). “A partir daí é possível
provocar o seu desenvolvimento e entrar, com
elas, num processo educativo”.
O milagre da vida a acontecer
Educar com autenticidade, “a partir de dentro”. Obrigada, João dos Santos, por este
“raro e luminoso momento” que foi a sua
vida entre nós (Graça Vilhena, in Cadernos
de Educação de Infância). O milagre da uma
vida – 100 anos! – continua a acontecer apesar de o Mestre já não estar entre nós. Ou
está? Acredito que o seu exemplo fundador
e a obra escrita que deixou nos continuam a
ajudar a ser vigilantes, educadores vigilantes
“em tempos sombrios” (H. Arendt). Acredito,
com Rilke, que “a morte é apenas o lado da
vida que não iluminamos” e, por isso, o “raro
e luminoso momento” permanece, estendendo-se, renovando-se, reconstruindo-se
... por nós e entre nós!
Perdoe-me o excesso de metáforas, mas sei
que me entenderia, meu saudoso João dos
Santos, pelo que deposito nas suas mãos,
qual girassol, este poema final:
Essa pequenina luz
bruxuleante
Luz que (...) brilha
Não na distância
Aqui
No meio de nós
Brilha.
(Jorge de Sena)
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