PATRIMÓNIO
estudos
CADERNO
INTERPRETAÇÃO DE MONUMENTOS E SÍTIOS
5
Interpretação de monumentos e sítios
6
“Lugares de passagem” e o resgate do tempo
Manuel Lacerda
N.º 1 – 2001
Publicação semestral
Paulo Pereira
17
Mémoire et nouvel usage: du monument au projet
NA CAPA
Richard Edwards
Alcalar, monumento n.º 7
PRODUÇÃO EDITORIAL
25
IPPAR – Departamento de Estudos
Sobre el necesario vínculo entre el patrimonio y la sociedad
Reflexiones críticas sobre la Interpretación del Patrimonio
DIRECTOR
Marcelo Martín
Luís Ferreira Calado
38
Patrimonio y Territorio: una reflexión sobre los proyectos de
COORDENAÇÃO EDITORIAL
IPPAR/DE
Manuel Lacerda
Miguel Soromenho
Ana Luísa Quinta
Maria de Magalhães Ramalho
puesta en valor del patrimonio – Manel Miró Alaix y Jordi Padró Werner
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO
E ALGARVE
COLABORAM NESTE NÚMERO
Ana C. Dias (DRE/IPPAR), Carlos Severo, Cláudia
Umbelino, Deolinda Folgado (DE/IPPAR), Ditza Reis,
Elena Móran, Elvira Rebelo (DRP/IPPAR), Eugénia Cunha,
Fernanda Garção (DPG/IPPAR), Fernando Galhano,
Fernando Marques (DRC/IPPAR), M. Filomena Barata
(DRE/IPPAR), Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva,
Irene Frazão (DCR/IPPAR), Isabel Melo (DC/IPPAR),
João M. Ribeiro, João Marques (DRE/IPPAR),
João Santa Rita, Joaquim Sampaio, Jordi P. Werner,
Jorge Croft, M. Antónia Amaral (DRC/IPPAR), Manel
M. Alaix, Manuel Lacerda (DE/IPPAR), Marcelo Martín,
Margarida Lencastre (DRP/IPPAR), Maria M. Ramalho
(DE/IPPAR), Miguel Soromenho (DE/IPPAR), N. Bruno
Soares, Nuno Simões, Paula Santos, Paulo Pereira
(IPPAR), Paulo S. Pinto, Pedro S. Alves, Rafael Alfenim
(DRE/IPPAR), Richard Edwards, Rita Gonçalves
(DRL, DOCR/IPPAR), Rosa Vouga, Rui Parreira (FS/IPPAR),
Sofia Salema (DE/IPPAR), Susana Correia (DRE/IPPAR),
Teresa Marques (GIF/IPPAR), Teresa Tavares,
Vasco Freitas, Victor Mestre
DESIGN GRÁFICO
Artlândia
43
Estruturas de Acolhimento e Interpretação
Programa Itinerários Arqueológicos do Alentejo e Algarve
Manuel Lacerda e Maria Filomena Barata
46
O Sítio Arqueológico de Miróbriga – Maria Filomena Barata
49
Centro de Acolhimento e Interpretação de Miróbriga – Paula Santos
53
Circuito Arqueológico da Cola
Susana Correia e Rafael Alfenim
55
Centro de Acolhimento e Interpretação do Circuito da Cola
Sofia Salema
59
Conjunto Arqueológico do Escoural – João António Marques
61
Centro de Interpretação da Gruta do Escoural – Carlos Severo
65
Centro de Acolhimento da Gruta do Escoural – Nuno Simões
68
O Sítio Arqueológico de São Cucufate – Rafael Alfenim
70
Centro de Acolhimento e Interpretação de São Cucufate
REVISÃO
A. Miguel Saraiva
PRÉ-IMPRESSÃO E IMPRESSÃO
Nuno Bruno Soares
73
Textype
TIRAGEM:
ISSN:
Povoado Pré-Histórico de Santa Vitória (Campo Maior)
Ana Carvalho Dias
3000 exemplares
76
1645-2453
Depósito legal n.º 170 293/01
79
82
Estudos/Património
Publicação do IPPAR – Instituto Português
do Património Arquitectónico
Palácio Nacional da Ajuda
1349-021 Lisboa
Tel.: +351-21 361 4336
Fax: +351-21 362 8472
www.ippar.pt
e-mail: [email protected]
Estrutura de observação do Povoado Pré-Histórico
de Santa Vitória (Campo Maior) – Jorge Croft
Villa Romana de Torre de Palma – Ana Carvalho Dias
Centro de Acolhimento e Interpretação de Torre de Palma
Victor Mestre e Sofia Aleixo
86
Ruínas de Milreu – Rui Parreira
87
Centro de Acolhimento e Interpretação de Milreu
Ditza Reis e Pedro Serra Alves
90
Villa Romana de Cerro da Vila
91
Núcleo Museológico da Villa Romana de Cerro da Vila
Fernando Galhano
94
Alcalar: estudo, salvaguarda e valorização de uma paisagem
cultural do III milénio a.C. – Elena Morán e Rui Parreira
99
Centro de Acolhimento e Interpretação de Alcalar – João Santa-Rita
S A LVA G UA R D A
103
Falando com franqueza: a salvaguarda do Património
e os seus (enormes) problemas
Luís Ferreira Calado, Paulo Pereira e Joaquim Passos Leite
108
A Protecção do Património Paisagista – 1.ª parte
Rita Maria Theriaga Gonçalves
116
A pessoa, as comunidades e os patrimónios: reflexões em torno
da história de uma necessidade – Elvira Rebelo
MEMÓRIA
123
Segunda “pedra de traçaria” do Convento de São Francisco
de Santarém – Paulo Pereira e Maria de Magalhães Ramalho
129
A Necrópole de São Pedro de Marialva. Estudo arqueológico
Maria Antónia de Castro Athayde Amaral
139
A Necrópole de São Pedro de Marialva. Dados antropológicos
Eugénia Cunha, Cláudia Umbelino e Teresa Tavares
INTERVENÇÕES
145
Igreja de São Pedro de Marialva: intervenção de conservação
e restauro 1995-2001, o ressurgir de um novo templo...
Fernando Marques e Maria Antónia Athayde Amaral
151
Intervenção na pintura a fresco da Igreja de São Pedro de Marialva
Irene Frazão
153
Restauro do retábulo da capela-mor, do tecto e dos retábulos
da nave da Igreja de São Pedro de Marialva – Rosa Vouga
156
Conservação e restauro das pinturas do tecto
da capela-mor da Igreja de São Pedro de Marialva (século XVIII)
Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva
159
161
O Mosteiro de São Salvador de Grijó – Margarida Lencastre
O Mosteiro e a Igreja de São Salvador de Grijó
Intervenção de consolidação estrutural – Joaquim C. Sampaio
166
Rebocos à base de cal em edifícios antigos. Uma experiência
no Mosteiro de São Salvador de Grijó
Vasco P. Freitas e Paulo da Silva Pinto
173
Projecto para uma Casa de Chá no Castelo de Montemor-o-Velho
João Mendes Ribeiro
A C T UA L
181
Sistema de Informação do IPPAR. Acesso ao Património Cultural
Digitalizado – Teresa Marques
183
Acção-Piloto de Cooperação Portugal-Espanha-Marrocos
Miguel Soromenho
185
Projecto de levantamento da Arquitectura Industrial Contemporânea
em Portugal (1920-1965) – Manuel Lacerda e Deolinda Folgado
186
Inventário do Património Industrial da Covilhã – Deolinda Folgado
187
A actividade editorial do IPPAR – Manuel Lacerda
189
Implementação da rede de lojas do IPPAR – Isabel Melo
190
Candidaturas do IPPAR a Fundos Comunitários
Fernanda Garção
editorial
A
intervenção em património é hoje um
processo complexo que congrega uma
soma de conhecimentos técnicos altamente
especializados, nas mais variadas áreas do saber.
A fundamentação científica de trabalhos desta
natureza não se limita, porém, à sua informação
prévia. De facto, ela continua no decurso das
intervenções e, até que monumentos e sítios
estejam completamente aptos para a divulgação
pública, há ainda um longo caminho a percorrer.
A publicação periódica que o IPPAR agora inicia
pretende dar a conhecer os esforços multidisciplinares no conhecimento do património, bem
Claustro Principal do Convento
de Cristo, Tomar
como responder à exigência de proporcionar uma
Arquivo IPPAR
informação actualizada sobre as tarefas que
incumbem a este Instituto, consignadas nas suas
os Itinerários Arqueológicos são apresentados
múltiplas atribuições funcionais de classificação,
neste número, fundamentalmente através da
salvaguarda, recuperação, valorização, e gestão dos
documentação de projectos e obras das estruturas
principais monumentos e sítios classificados.
de acolhimento e interpretação, realçando-se que
A atenção, neste primeiro número, concentra-se
esta é apenas uma das componentes mais visíveis
privilegiadamente na temática da Interpretação de
de todo este Programa.
monumentos e sítios, divulgando um conjunto de
A vocação reflexiva e teorética da publicação
reflexões que foram apresentadas em Encontro
revela-se também em artigos ligados à área da
promovido pelo
e no Programa Itinerários
salvaguarda, da História e da História da Arte, ou
Arqueológicos do Alentejo e Algarve, mercê dos
ainda em contributos científicos do mais largo
importantes trabalhos que têm decorrido nalguns
espectro sobre intervenções em curso, pressupondo
dos mais relevantes sítios arqueológicos daquelas
a continuidade de um projecto aberto, capaz de
regiões, no sentido de proporcionar as condições
acolher a diversidade de entendimentos sobre o
de acolhimento e interpretação indispensáveis a
património construído.
IPPAR ,
Luís Ferreira Calado
um público crescente. É nesta perspectiva que
Presidente do IPPAR
3
Centro de Acolhimento de Miróbriga
IPPAR/H. Ruas
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
Interpretação de monumentos
e sítios
Manuel Lacerda
Arquitecto
Director do Departamento
de Estudos do IPPAR
A
crescente importância dos bens culturais no mundo
contemporâneo conduz a novas exigências nas
formas de gestão do património, de forma a responder eficazmente às múltiplas solicitações que a sociedade impõe.
O desenvolvimento do Turismo Cultural, a maior consciencialização do Património enquanto recurso para o
desenvolvimento, a exigência de rigor no conhecimento
do passado, implicam também novas formas de gestão desses valores, onde a articulação e contratualização entre diferentes actores assume cada vez maior
importância.
Cruzando três tarefas fundamentais e indissociáveis,
Conhecer/Investigar, Proteger/Conservar, e Valorizar/
/Divulgar, o IPPAR, no âmbito das suas atribuições,
1. Monumento n.º 7 de Alcalar
desenvolve formas de mediação entre o património e
IPPAR/H. Ruas
o seu público, através da criação de estruturas de
2. Villa Romana de Pisões
Acolhimento e Interpretação, qualificação de percur-
IPPAR/H. Ruas
sos de visita, instalação de sinalética interpretativa, e
divulgação em diferentes suportes.
Com o intuito de promover a reflexão e o debate,
em particular acerca de uma das componentes deste
complexo processo – a Interpretação (e toda a
problemática que lhe está associada) – o
IPPAR
promo-
veu em Évora, em Julho de 2000, um Encontro sobre
Interpretação de Monumentos e Sítios, largamente
participado, do qual se publicam aqui algumas das
comunicações.
Torna-se especialmente oportuno associar a apresentação destas reflexões com a apresentação de projectos para os Centros de Acolhimento e Interpretação
previstos no Programa Itinerários Arqueológicos do
Alentejo e Algarve, cuja abertura e entrada em funcionamento possibilita desde já uma avaliação dos conceitos que estiveram na base e no desenvolvimento
das estruturas de Acolhimento.
5
CADERNO
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
“Lugares de passagem” e o resgate
do tempo
Paulo Pereira
Historiador de Arte
Vice-Presidente do IPPAR
[email protected]
1. Os “lugares de passagem”
gens” se dão – que são “passagens no tempo” e “pas-
Considero que o património cultural, e em especial o
sagens no espaço” – poderemos todos perceber que
património imóvel, seja ele constituído por monumentos
o que está aqui em causa é uma “saída” da ordem
“clássicos” (como por exemplo, os palácios ou os
reconhecível das coisas – ou seja, da ordem quotidiana,
grandes conjuntos monásticos), seja ele constituído
comum e banal das coisas que nos rodeiam e que
por monumentos e sítios arqueológicos (como por
constituem o nosso quadro de vida –, e uma “entrada”
exemplo, as ruínas, paisagens monumentalizadas ou
numa espécie de falha ou cesura temporal e espacial,
arqueopaisagens), possuem uma capacidade de evo-
por vezes inesperada e insólita, muitas vezes estranha –
cação que motivam uma espécie de experiência de
dentro da categoria daquilo que em alemão se diria o
“passagem”, uma experiência não apenas estética mas
uneimlich e em inglês o uncanny2.
existencial1.
Quero dizer com isto que a nossa experiência perante
Sei que estas palavras podem soar um tanto ou quanto
um monumento arquitectónico ou um sítio arqueoló-
filosóficas em excesso, senão mesmo poéticas, talvez
gico nos obriga a um exercício racional, de abstrac-
mesmo denunciadoras de um romantismo eventual-
ção, de tentativa de entendimento e de procura de
mente descabido. Mas creio que, se analisadas as
uma espécie de objectividade perdida mas que seria
circunstâncias fenomenológicas em que tais “passa-
possível reconstituir. Simultaneamente, obriga-nos
a um exercício de afectividade, de entrega do
sujeito pela estesia (pela sensação), isto é, de pura
subjectividade.
Entre estes dois pólos situa-se a “coisa”. A “coisa”,
neste caso, é o objecto patrimonial e aquilo que o
rodeia. E quanto mais esta “coisa” se afasta de um
padrão reconhecível, ou seja, quanto menos “clássico”
é o monumento, maior é a dimensão da nossa experiência de “passagem”, maior a estranheza, maior o
abismo que nos separa dessa “coisa”, maior também
o eventual sentimento de incómodo que se experimenta, maior a “aura” do monumento ou do sítio
arqueológico. Maiores e muitas mais serão, também,
as nossas interrogações sobre o objecto3.
Daí a necessidade de o interpretarmos e de acedermos, porventura, às diversas possibilidades e discursos
interpretativos que o mesmo motiva. Assinale-se que
1. Edgar-Pierre Jacobs,
Les Aventures de Blake
& Mortimer, SOS Météores
não nos encontramos perante um discurso em que o
© Editions Blake et Mortimer
tado e reutilizado, nem perante um discurso museo-
edifício ou o imóvel se encontra plenamente resga-
6
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
gráfico em que os objectos se encontram agrupados,
sagem”. Esses lugares de passagem constituirão como
sistematizados, passando a fazer parte de uma nova
que pequenas “máquinas do tempo”, capacitadas para
ordem, de uma espécie de taxinomia das coisas do
nos darem conta de que é possível entender e ler o
mundo – e que muitas vezes não deixam de induzir a
passado, perceber um objecto, com a certeza porém
sua dose de confusão, tal é a acumulação de tempos
que desse objecto que nos é oferecido ao entendimento,
diferentes e de objectos díspares que se encontram no
desse objecto apenas iremos perceber um segmento,
espaço-museu.
uma fracção dele, uma infinitésima fracção aliás.
Encontramo-nos, isso sim, perante monumentos, objec-
Esses “lugares de passagem” constituem, por fim, essas
tos, coisas, a meio caminho entre o nosso “real” e
pequenas e singelas “máquinas do tempo”, muito
uma nova “realidade”, sabendo nós que essa nova
imperfeitas como é evidente, mas que nos permitem
“realidade” terá que ser construída – note-se que eu
olhar o passado, e passar dele para o presente, sem
não escrevi reconstruída –, apoiada em sistemas expli-
o desproporcionado esforço das coisas secretas e
cativos que nos subtraiam do desconhecimento, que
obtusas: abrindo uma pequena porta ou lançando
nos subtraiam do medo em conhecer mais e em saber
uma ténue pista, por pequena que seja, mas que por
melhor os “porquês” que uma larga e quase inson-
isso mesmo seja suficiente para o encaminhamento
dável distância instaurada pelo tempo – instaurada
do sujeito para o conhecimento. Com a subtileza
entre cada um de nós e aquela coisa que ali esperou
possível.
por nós –; algo, enfim, que consiga extrair-nos de uma
mera e desorientada interrogação desapossada, e que
2. Os monumentos “clássicos”
por persistir, nos desapossa do objecto e nos aliena.
Com os monumentos ditos “clássicos” os problemas
Um monumento ou um sítio de carácter patrimonial
que se colocam à sua interpretação têm essencialmente
coloca-nos portanto, “fora” deste mundo e situa-nos
a ver com os diversos estados em que se encontram.
noutro “mundo”. Nós passamos para esse outro
Para o caso português podemos desde logo tipificar
“mundo” através dessa aparente falha do espaço e do
três circunstâncias patrimoniais, relativas a grandes
tempo que o monumento instaura. Esta condição de
monumentos ditos “clássicos”, que são absolutamente
exterioridade do monumento ou do sítio resulta do
distintas e que se situam, até, em pólos opostos no
facto do monumento ou do sítio – da “coisa” em si –
que respeita à interpretação que motivam:
se situar completamente fora da ordem contemporânea, isto é, fora da nossa ordem económica (no sen-
• Os Palácios Nacionais, por essência lugares de pres-
tido de oikos ou oikomene): não serve para nada, a
tígio, mais ou menos equipados e mobilados, em que
não ser para ser fruída, caso a saibamos fruir. O que
a fruição do espaço arquitectónico, por este se encon-
é, em suma, a interpretação de um monumento de
trar completo e homogeneizado, se faz de forma
um sítio? Nada mais nada menos do que o primeiro
passo para reintegrar, sem perda de “aura”, sem
alienação do objecto, o monumento ou o sítio nessa
ordem contemporânea: conservando o monumento,
valorizando o monumento, explicando e interpretando
o monumento, para lhe conferir apenas esta pequena
dose de utilidade e de interacção. Uma pequena dose
de utilidade, que se esgueira em filigrana perante a
inutilidade absoluta de qualquer ruína, de qualquer
sítio que já foi.
2. Edgar-Pierre Jacobs,
Les Aventures de Blake
& Mortimer, Le Mystère
de la Grande Pyramide, vol. 1
Como resgatar o tempo? Como vencer a distância?
Insisto que a única forma de o fazer é através da interpretação, através da constituição de “lugares de pas-
© Editions Blake et Mortimer
7
CADERNO
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
relativamente simples, porque se impõe por si mesma
no sentido de melhorar a sinalética desses espaços e
(são quase que museus informais; e eis os exemplos
de, em casos seleccionados, iniciar a construção de
dos Palácios de Sintra, da Pena, da Ajuda, de Queluz,
pequenos pólos explicativos – por vezes, mesmo, como
de Guimarães, etc.).
uma componente museológica “light”, de modo a
enquadrar o visitante na história arquitectónica do
• Os grandes conjuntos monásticos, desafectos das
imóvel, e na sucessão de património móvel que cons-
suas funções por força da extinção das ordens reli-
titui o seu acervo. Os casos mais críticos são os que
giosas em Portugal e em grande parte desapossados
se detectam nos palácios, que são objecto de uma
dos seus bens que se extraviaram, salvando-se apenas
erosão turística mais evidente (como são os casos da
os respectivos templos, que mantiveram afectação paro-
Pena e de Sintra). Aí resolveu-se instalarem-se espaços
quial ao culto (os casos de Tibães, Rendufe, Pombeiro,
de “retenção de públicos” – como sejam as cafetarias,
Tarouca, e muitos outros, a maior parte dos quais em
restaurantes ou lojas, que contêm a virtude não só de
IPPAR ).
aumentar a receita própria da entidade gestora, mas
Distinguem-se de entre estes os conjuntos que mere-
também a virtude de encaminharem público e de o
ceram há mais tempo o seu reconhecimento em ter-
reorientar em termos de fluxos de visita, o que se torna
mos de estatuto de excepcionalidade e que, por isso
extremamente importante na melhoria da oferta.
mesmo, sem se encontrarem melhor explicados ou
No caso dos conjuntos monásticos desafectos partiu-
passíveis de interpretação, nos surgem como as gran-
-se, a mais das vezes, de uma situação praticamente
des e maiores evidências do património arquitectónico
inerte, ou seja, de uma situação de devassa quase total,
no seu estado “mais puro” (e eis os casos dos mega-
em que imperava a repartição de propriedade e de
monumentos, ou supermosteiros, da Batalha, de Tomar,
ocupações indevidas. O
de Alcobaça ou dos Jerónimos). Trata-se, só por si, dos
ao resgate de partes do monumento e dos edifícios
monumentos mais visitados de Portugal, o que diz bem
ocupados e usados (ou abandonados) por diferentes
da sua fortuna pública, que foi naturalmente prece-
proprietários de modo a conceder homogeneidade
dida de uma grande fortuna crítica e científica que
ao conjunto. Sempre que possível avançou para a
remonta, como bem o sabemos, a meados do século XIX
aquisição de parcelas de partes rústicas de modo a
e ao romantismo. São, em si mesmo, os símbolos da
resgatar, igualmente, a zona de interacção económica
“ideologia do património” em Portugal.
e social, produtiva e de modelagem paisagística que
vias de recuperação e resgate por parte do
IPPAR,
nestes casos, procedeu
constitui a antiga cerca monástica e conventual. Ainda,
• Os castelos e fortalezas, essas velhas máquinas de
por se tratar de monumentos literalmente escanca-
poder, hoje obsoletas, sem qualquer função, esque-
rados que a pouco e pouco foram ganhando a sua
letos abandonados ou ruínas puras, algumas delas
dignidade perdida (o caso de Tibães é paradigmático
apropriadas e habitadas no seu interior, outras
do trabalho neste domínio), vão adquirindo, gradual-
completamente isoladas e à espera de um visitante
mente, componentes explicativas, como seja pequenos
curioso que procure desentranhar a sua história. Nestes
pólos ou mesmo áreas museológicas “abertas” (consti-
casos haverá que entender que muitos castelos se
tuídas por percursos, reconstruindo nexos entretanto
encontram isolados dos centros históricos, sem qual-
perdidos desde que devidamente equipados).
quer conexão com essas partes habitadas da cidade –
Os supermonumentos têm merecido outro tipo de
que, esperemos, não se encontrem desertificadas
preocupações: trata-se, também aqui, de reforçar a
por qualquer programa de reabilitação demasiado
sinalética e de fornecer informação ao público. Muito
profilático.
se encontra por fazer, e nestes monumentos coloca-se
desde já o mesmo problema que se identifica para
8
No caso dos palácios, os próprios percursos encerram
os palácios, ou seja, a necessidade da criação de espa-
em si uma componente explicativa. O esforço do tra-
ços públicos, de fruição e consumo – bilheteiras,
balho em termos interpretativos tem sido endereçado
cloakrooms, lojas, cafetarias – que retenham e
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
reencaminhem os fluxos de visita. As carências expli-
devido à sua importância em termos patrimoniais,
cativas ainda subsistem, especialmente em monumentos
a saber5:
como Tomar e Alcobaça, mas encontram-se já em fase
• Programa “Itinerários Arqueológicos do Alentejo
de projecto muitas das componentes acima enuncia-
e Algarve”, co-financiado pelo ex-Fundo de Turismo e
das, ou até parte delas já executadas.
pelo
Os castelos e fortalezas representam modalidades dife-
• Programas de valorização dos imóveis arqueo-
rentes entre si, consoante o monumento se encontra,
lógicos afectos ou adquiridos pelo IPPAR (em regra,
como se referiu atrás, mais ou menos integrado na
exteriores às regiões abrangidas pelo programa refe-
cidade ou no centro histórico. O importante, evidente-
rido no ponto anterior);
mente, é manter o imóvel com capacidade de merecer
• Outros programas pontuais, em regime de parce-
a atenção do público, naturalmente a espaços, refor-
ria com autarquias e entidades diversas.
IPPAR
mediante protocolo de colaboração;
çando a sua capacidade evocativa e introduzindo-lhe,
controladamente (o que nem sempre foi feito, desig-
3.1. A condição patrimonial.
nadamente no ciclo de trabalho que vai de 1990 a
A titularidade dos bens
1995 e com resultados nem sempre bem-vindos), novas
Naturalmente que estes programas levam em linha de
valências de utilização (espaços explicativos, cafeta-
conta um dos aspectos fundamentais para a valoriza-
rias), tudo, como é natural, com uma preocupação
ção do património arqueológico nacional: a respectiva
suplementar mas decisiva: a da viabilidade de gestão
titularidade.
destes equipamentos novos, que têm que ver assegu-
Muitos dos imóveis intervencionados são propriedade
radas a sua dignidade e capacidade de funcionamento.
do Estado ou das autarquias, garantindo, mediante
Diria, sem medo de errar, que estes monumentos
esta sua condição patrimonial, o envolvimento de pode-
impõem estratégias perfeitamente consolidadas, conhe-
res públicos na sua conservação, restauro e valoriza-
cidas e experimentadas, com uma maior ou menor
ção em nome do interesse público.
margem de variação e de inovação.
Outros imóveis, porém, não são propriedade do Estado
Os problemas maiores colocam-se, quase sempre, numa
e, por isso, encontram-se em condições bastante mais
diversa tipologia de património imóvel, por se tratar
precárias de conservação, pese embora o facto de mui-
de bens eventualmente mais frágeis, mais difíceis de
tos deles se encontrarem classificados e dotados de
reconhecer, por conterem residualmente apenas
zonas de protecção (ou seja, dotados de uma servidão
uma condição arquitectónica mais ou menos diluída:
administrativa que os protege e reserva).
trata-se dos monumentos e sítios arqueológicos.
Assinalo, todavia, que os problemas da real eficácia
A maneira de resolver as questões de entendimento e
das servidões administrativas é muito maior nos imó-
de interpretação decorrem, naturalmente, do salva-
veis arqueológicos tendo em conta as características
mento, da conservação, do restauro e da valorização
próprias desta tipologia patrimonial, que é frágil
desses monumentos e sítios. E para tal é necessário
(ou potencialmente mais frágil que as demais) e, muitas
conhecer as diversas frentes de trabalho que se nos
vezes, não revelada, o que pode conduzir à sua
apresentam, caracterizando-as mediante aquele
destruição por desconhecimento, negligência ou
que é o entendimento e a experiência do
IPPAR
neste
domínio .
4
má-fé.
Podemos assim discriminar os seguintes tipos de
imóveis arqueológicos consoante a sua titularidade:
3. Os monumentos e sítios arqueológicos
De facto, a valorização dos sítios arqueológicos
• Sítios arqueológicos propriedade do Estado
compõe-se de duas vertentes principais, que decorrem
e afectos ao
da aplicação de programas a médio e longo prazo
Trata-se da parte mais significativa de monumentos e
destinados a conferir dignidade de fruição a imóveis
sítios arqueológicos identificados e adquiridos pelo
arqueológicos afectos ao IPPAR, ou resgatados pelo IPPAR
Estado (ou que se situam em terrenos na sua posse).
IPPAR
9
CADERNO
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
Têm vindo, gradualmente, a ser afectos ao
10
IPPAR
de
3.2. A política de aquisições
modo a assegurar a sua integridade, inviolabilidade,
como “política de resgate”
reserva, conservação, restauro e, eventualmente, a sua
Daqui é fácil de concluir que a política de valorização
valorização.
dos sítios arqueológicos deve ser flexível atendendo a
• Sítios arqueológicos propriedade do Estado,
todas estas categorias. Porém, quando o que se encon-
afectos a outras entidades
tra em causa são avultados investimentos ou quando
São escassos os exemplos, uma vez que na maior parte
é necessário optimizar, inclusivamente, o quadro de
dos casos se trata de sítios ou lugares com potencial
financiamento, garantindo simultaneamente uma actua-
arqueológico que se encontram em zonas protegidas
ção mais substantiva e célere em termos de interven-
ou em terrenos afectos a entidades do Estado com
ção patrimonial, é necessário assegurar que os sítios
tradições no domínio da ocupação e regramento do
arqueológicos, se possível na sua totalidade, estejam
território, geralmente na dependência do Ministério
na posse de entidades públicas, ou seja, do Estado ou
da Agricultura (DGF, designadamente) ou do Ministério
das autarquias. A experiência neste domínio dita as
do Ambiente (ICN, nomeadamente). Incluem-se neste
suas razões, uma vez que no caso dos monumentos e
lote os terrenos com potencial arqueológico que
sítios arqueológicos, poucas vezes o interesse privado
integram instalações do Estado. Exceptuam-se os casos
ou individual coincide com o interesse público.
de instalações públicas e equipamentos a executar
É por isso que nos sítios arqueológicos afectos ao IPPAR
em partes contíguas de imóveis classificados ou em
que possuam ainda significativas parcelas do seu
vastas áreas de protecção, mormente as que compreen-
território arqueológico (ou do seu potencial), bem como
dem sectores salvaguardados de cidades (o que recai
envolventes próximas ou distantes em posse de
nessa peculiar categoria que é a da “arqueologia
particulares, se tem levado a cabo uma política de
urbana”).
aquisições (e/ou de expropriações). Somente deste
• Sítios arqueológicos propriedade das autarquias
modo se poderá garantir que a intervenção a efectuar
São inúmeros os casos que se inscrevem nesta cate-
seja, efectivamente, global, completa e destinada a
goria, de resto, muito generalizada.
um futuro de fruição pública logo que a oportunidade
• Sítios arqueológicos (ou monumentos)
de gestão se nos apresente. Nos casos em que é
propriedade do Estado, ínsitos em domínio
possível interessar a autarquia ou que a mesma já dili-
público, dotados de um regime mais “flutuante”
genciou no sentido de adquirir essa parcela patrimo-
em termos de responsabilidade
nial, o
O seu estatuto é em muito semelhante (ou de carác-
de modo a estabelecer parâmetros de intervenção
ter misto) se comparado com os casos atrás descritos,
e a fomentar o financiamento das operações (o que
embora a tutela jurisdicional se cinja ao facto de se
o leva a ter em conta, também, a oportunidade de
encontrarem ou não classificados. Se não o estiverem,
gestão).
a tutela indirecta desses mesmo sítios compete ao
Diga-se, em abono da verdade, que não existe, pra-
Instituto Português de Arqueologia, que pode propor
ticamente, um único exemplo em que o imóvel
IPPAR
estabelece protocolos de colaboração
a sua classificação.
intervencionado (mesmo sendo, à partida, afecto ao
• Sítios arqueológicos propriedade de associações
IPPAR)
São raros os casos que se encontram nestas circuns-
especial desta natureza, pelo que vale a pena relem-
tâncias e, em rigor, não fosse pela componente asso-
brar, entre outros, Miróbriga, Escoural, Santa Vitória
ciativa, em pouco ou em nada se distinguiriam dos
de Campo Maior, Santa Vitória do Ameixial, Pisões,
casos descritos no ponto seguinte.
São Cucufate, Castro da Cola, Milreu, Alcalar, Castelo
• Sítios arqueológicos ínsitos em propriedade
Velho de Freixo de Numão, Centum Cellas, Freixo/
privada
/Tongóbriga, São Gião da Nazaré, prevendo-se acções
A maioria dos sítios arqueológicos ou de parte de sítios
deste tipo para imóveis como, por exemplo, a Torre
arqueológicos.
de Almofala.
não tenha sido objecto de um processamento
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
Mas os regimes de tomada de posse ou de aquisição
prospecções arqueológicas, de trabalhos de campo em
e afectação variam, evidentemente, conforme as
extensão e duração, e de trabalhos arqueológicos de
circunstâncias patrimoniais já descritas e consoante as
laboratório e de estudo. Neste interim, e de acordo
disponibilidades e o posicionamento dos proprietários
aliás com as convenções internacionais e com a dou-
ou afectatários originais. Assim temos:
trina mais recente, é indistinto o sítio arqueológico do
a) Aquisições por compra directa (Miróbriga, Milreu,
monumento. Um e outro são a mesma coisa8.
Alcalar, Ameixial, Campo Maior, Freixo);
No entanto, vale dizer que a actividade do
IPPAR
no
b) Aquisições por expropriação (Alcalar, São Gião
âmbito da arqueologia nada tem de excepcional. Trata-
da Nazaré);
-se apenas de dar objectividade às orientações que
c) Aquisições por doação do proprietário (Castelo
devem presidir às intervenções em monumentos e que
Velho, doação da
CELBI);
deveriam constituir uma posição normativa generalizada
d) Posse transitória através de contratos de como-
(e não apenas imposta pelo domínio da salvaguarda,
dato (São Cucufate, Pisões);
como acontece em muitos casos). No
e) Aluguer.
portanto, uma coerência entre as acções do âmbito
IPPAR
existe,
da salvaguarda (que condicionam, tantas vezes, a aproNaturalmente que para levar a bom termo todos estes
vação de projectos à realização prévia de trabalhos
processos é necessária uma máquina administrativa
arqueológicos em zonas classificadas) e as obras de
bem oleada e um relacionamento aberto e límpido
conservação, restauro, reabilitação e valorização que
com outras entidades, entre as quais sobressaem as
o próprio
IPPAR
leva a cabo.
autarquias locais.
3.3. A “arqueologia monumental”
e os sítios arqueológicos
Em bom rigor, para o
IPPAR,
qualquer monumento é,
obviamente, um sítio arqueológico e vice-versa6. Porém,
por razões de nomenclatura, é comum inscrever as
intervenções arqueológicas em monumentos de grande
3. Edgar-Pierre Jacobs,
Les Aventures de Blake
& Mortimer, Le Piège Diabolique
porte no quadro daquilo a que se usa chamar “arqueologia monumental” (os casos, por exemplo, das inter-
© Editions Blake et Mortimer
venções nos grandes conjuntos monásticos ou nas sés).
Ora, a essência do sítio arqueológico tem a ver com
A maior parte das vezes, também, os monumentos do
estruturas e contextos, tal qual qualquer outra obra
IPPAR
do homem que é objecto de intervenção e valorização
leiros de arqueologia, sendo, de entre os maiores, Santa
patrimonial. Ou seja, a componente arquitectónica
Clara-a-Velha, hoje o maior sítio arqueológico medie-
dos sítios (a componente puramente arquitectónica),
val europeu. Registe-se que, a maior parte das vezes,
prevalece sobre o método de revelação do monumento
as intervenções arqueológicas constituem um dado
(a arqueologia)7 o que aqui, mais do que em qualquer
essencial para o prosseguimento e elaboração dos
outro caso, se torna mais agudo, porque a arquitec-
projectos de restauro e conservação de monumentos,
tura se encontra ela própria subsumida na condição
podendo determinar, inclusivamente, o partido pro-
sob intervenção constituem-se em grandes esta-
FRESS,
que
de “arché” do bem a intervencionar. Importa a estru-
jectual adoptado (o caso, por exemplo, da
tura; importa o contexto, o que é igualmente válido
viu o seu projecto totalmente remodelado em função
mesmo nos sítios compostos maioritariamente por
do potencial arqueológico descoberto).
paisagens “construídas”.
Hoje em dia, aliás, prevalece entre os arqueólogos da
Na política de valorização de monumentos do IPPAR não
arqueologia dita “monumental” uma estratégia de tra-
existe, aliás, um único caso que não seja precedido de
balho, de leitura e de registo que amplifica o conceito
11
CADERNO
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
de arqueologia de modo a estendê-lo à arquitectura
mediante uma grelha objectiva de análise periódica ou
propriamente dita ou, melhor dizendo, à “arqui-
“cultural” – diga-se em abono da verdade. Faz-se antes
tectónica”. É o caso da aplicação dos métodos de
por critérios de natureza patrimonial que levam em
arqueologia da arquitectura que constitui, hoje ainda,
linha de conta aspectos de preservação à outrance
uma espécie de especialidade confinada aos monu-
(nalguns casos) ou de gestão global. Assim, são objecto
mentos medievais, mas que tende a ampliar-se para
preferencial de intervenção os sítios arqueológicos que
contextos mais antigos, como o período romano e
apresentem:
mesmo anteriores a este, abrangendo já a pré-história
• Necessidades imperiosas de intervenção de emer-
recente monumentalizada (Idade do Ferro, Idade do
gência de modo a assegurar o seu salvamento
Bronze, Calcolítico, Megalitismo).
(e que podem evoluir depois para um projecto de
Mas é evidente que a valorização dos sítios arqueoló-
valorização).
gicos se prende, essencialmente, com aquilo a que
• Possibilidades de valorização oferecidas pela
poderemos chamar sítios arqueológicos “clássicos” e
característica do bem em causa (monumentalidade,
que, mal ou bem, se definem pela sua expressão arqui-
apresentação e evidenciação na paisagem, memória
tectónica de “ruína”. Uma “ruína” posta a descoberto,
muito activa entre as populações).
revelada, através do método arqueológico. Não pro-
• Condições de valorização por motivos de ordem
priamente residual – como a ruína correntemente
política, uma vez que o IPPAR deve acompanhar o
associada ao ideal “romântico”, tardo-romântico ou
interesse de todos os outros agentes que se lhe
“revivalista” da ruína artística e aurática – mas antes
apresentem, e que tornam os sítios aptos a serem
a ruína “escondida”, desvendada pela escavação.
objecto de programas de trabalho desenvolvidos e
Naturalmente que se alinham no contexto português
consistentes (propostas, que nascem, a mais das vezes,
várias tipologias de ruínas ou de sítios arqueológicos
das autarquias).
mais ou menos reconhecíveis arquitectonicamente.
• “Janelas de oportunidade” que decorrem da
Por exemplo:
existência de condições momentâneas (quase sem-
a) a ruína do período romano, de uma uilla, de um
pre irrepetíveis) para se produzir um programa de valo-
vicus ou de uma cidade (Torre de Palma ou Miróbriga,
rização – como sejam, possibilidades de financiamento,
por exemplo);
conjunturas de condição de titularidade favoráveis,
b) a ruína de um Castro da Idade do Ferro (como por
imperiosidade por motivos de interesse público dada
exemplo a Citânia de Santa Luzia);
a relevância do bem, colocação do bem à venda, etc.).
c) as ruínas de arquitecturas castrejas da pré-história recente ou de paisagens ritualizadas e monu-
Em suma, não há que procurar uma espécie de “objec-
mentalizadas do calcolítico ou do neolítico (como
tividade” técnica – o que constituirá sempre um argu-
sejam o caso do Castro calcolítico de Campo Maior,
mento arriscado, porque quase irracional – para fun-
do Zambujal ou de Vila Nova de São Pedro);
damentar esta ou aquela intervenção de valorização
d) as ruínas (porque de ruínas se trata) de monu-
em arqueologia, mas antes sim uma “subjectividade”
mentos funerários da Idade do Bronze (como Atalaia,
produtiva e dinâmica que pode até resultar da
em Ourique), calcolíticos (como os da necrópole de
convergência dos factores discriminados mais acima:
Alcalar) ou do neolítico tardio – as antas ou dólmens,
a escolha é sempre político-cultural.
reconhecíveis nesse amplo e polimórfico contexto cul-
A única “objectividade” possível – e que temos
tural a que consensualmente se chama megalitismo.
perseguido – decorre, essa sim, da necessidade em
equilibrar em termos regionais o investimento.
12
São obviamente estas – por serem as mais vulgares e
Na valorização dos sítios arqueológicos a distribui-
melhor reconhecidas patrimonialmente –, as tipologias
ção dos sítios intervencionados pelo IPPAR faz eco, tanto
que têm sido objecto de maior atenção por parte do IPPAR.
quanto possível, de uma conjuntura de alargamento
A escolha ou selecção dos sítios não se faz, porém,
territorial das intervenções e da sua desconcentração.
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
3.4. Filosofias de intervenção
• Construção de:
As filosofias de intervenção são sempre melhor
– casas ou facilidades de guardaria permanente;
explicitadas através de exemplos concretos. Mas, em
– observatórios simples;
termos gerais, as intervenções de valorização dos sítios
– observatórios de paisagem;
arqueológicos por parte do IPPAR obedecem aos seguin-
– centros explicativos e de acolhimento;
tes princípios, quase sempre por esta ordem de prio-
– centros interpretativos;
ridades, embora nem sempre necessariamente:
– museus de sítio.
a) Preservação, conservação e restauro;
b) Pesquisa arqueológica, efectuada em regime de
Esta graduação reflecte a faceta multimodal das
continuidade, sem esgotamento do potencial se for
intervenções.
caso disso, mantendo-se reservadas áreas sem pros-
A guardaria parece ser, para uma grande parte dos
pecção por escavação);
exemplos, uma condição sine qua non para a preser-
c) Oferta à fruição pública, asseguradas que foram
vação do sítio. De facto, somente através de uma
as etapas anteriores;
presença que tutele em permanência estruturas e
d) Constituição de “bases” para acolhimento do
contextos por essência vulneráveis é que a disponibli-
público;
zação pública desses bens pode ser assegurada. Falta,
e) Inserção dos sítios arqueológicos na ordem econó-
porém, dar um salto qualitativo nesta área, e que se
mica contemporânea como recurso cultural (turismo).
prende, quase que exclusivamente, com a formação
profissional da guardaria – a que preferimos chamar
procede
recepcionistas –, o que não tem sido facilitado pelas
a acções como as que se descreveram, uma grande
conjunturas de emprego, pese embora a exploração
parte das quais é preparada antes de qualquer traba-
exaustiva, por parte do
lho de valorização propriamente dito (por exemplo, a
no Instituto de Emprego e Formação Profissional ou
aquisição precede a valorização, o mesmo acontecendo
no Fundo Social Europeu.
com o fomento da investigação, a consolidação das
A existência de observatórios permite estabelecer com
condições de titularidade, a eventual contratualização
o sítio arqueológico uma relação contextual, quer de
Para se conseguirem estes desiderata, o
IPPAR
IPPAR
, de programas sediados
que tais condições podem acarretar). Desenvolve depois
programas individuais e autónomos em que cada caso
é um caso.
Todavia, percebe-se uma linha geral, já firmada, no
que respeita à valorização dos sítios, consoante a sua
graduação em termos monumentais e em importância científica cultural, comunicacional e informativa
(e formativa):
• Protecção das estruturas;
• Salvaguarda do espólio;
• Tratamento do espólio;
• Estudo do espólio;
• Restauro das estruturas;
• Recomposição científica, por anastilose ou outros
4. Ted Benoit/Van Hamme
(d’après Edgar-Pierre Jacobs)
Les Aventures de Blake
& Mortimer, L’Affaire Francis
Blake
métodos, das estruturas para assegurar a sua leitura
e entendimento;
• Arranjo paisagístico das estruturas visitáveis;
• Vedação, em termos qualificados das estruturas;
© Editions Blake et Mortimer
13
CADERNO
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
dentro para fora (ou seja, para observação e escrutí-
cidade continuada de trabalho, gerando, por isso, a
nio da paisagem circundante, em si mesma contextual
instituição de “serviços dependentes” (eis os casos de
apesar de alterada – como se pensa fazer em Vila Nova
Tarouca, Miróbriga, Freixo do Marco [Tongobriga] e,
de São Pedro), quer de fora para dentro (para leitura
presumivelmente, outros lugares).
e interpretação do sítio arqueológico-ele-mesmo – o
Os museus de sítio, de que se possui apenas, por
caso da “torre helicoidal” de Campo Maior, por exem-
enquanto, o exemplo de Conímbriga (gerido pelo
plo). Trata-se de uma opção de maior “leveza” arqui-
constitui obviamente uma mais-valia, mais-valia esta
tectónica – mas que não deixa de ter os seus desafios,
que tem vindo a ser recentemente ultrapassada pela
precisamente por isso –, mas que é conceptualmente
maior flexibilidade dos modelos anteriormente descri-
mais pesada – nos termos em que um observatório de
tos – mas que se impõe em circunstâncias de grande
paisagem obriga necessariamente ao cruzamento de
monumentalidade, como será o caso de Santa Clara-
diversas disciplinas aparentemente extrapatrimoniais,
-a-Velha.
IPM)
que conduzem à explicação global do sítio, tais como
a antropologia, a biologia, a ecologia ambiental, etc.
Conclusão
A instalação de centros explicativos e de acolhi-
Esta passagem em revista da política patrimonial rela-
mento impõe-se sempre que existam preexistências
tiva aos monumentos e sítios arqueológicos do
que possam acolher um conjunto de material infor-
na sua componente interpretativa não se cingiu, natu-
mativo, que capacite o visitante a perceber o lugar e
ralmente, à arqueologia ou aos seus avatares.
as sucessivas fases de transformação por que passou
Efectivamente, porque a circunstância do património
(como é o caso de Panóias), encaminhando-o. Note-se
imóvel é transversal e não exclusora, especialmente
que a maior parte das vezes os centros explicativos e
quando se afirma com cada vez maior ênfase a
de acolhimento são constituídos por adaptações de
interdisciplinaridade das acções naquele domínio.
pequenas casas de arquitectura vernacular já existente
Claro está que são as intervenções em sítios (prefe-
– que assim se preservam – ou de casas ou endereços
riria chamar-lhes “lugares”) arqueológicos que se
que constituam parte integrante de um tecido urbano
5. François Schuitten/Benoit
Peeters
consolidado, ajudando, inclusivamente, à sua salva-
© Editions Casterman
guarda e à sua fruição, uma vez que atrai e fixa
públicos, não apenas em função do monumento ou
sítio “nuclear”, mas também em função do território
habitado circundante, animando-o.
A construção de centros interpretativos acumula as
características dos centros explicativos com a possibilidade, amplificada, de melhor interagirem com os
visitantes: explica, procede a (ou oferece) uma interpretação, mas também regula e disciplina os fluxos de
visita, associando-se-lhe uma componente científica
uma vez que estes centros se encontram dotados de
gabinetes de trabalho, de centro de documentação e
de reservas. Trata-se quase sempre de “obra nova” de
raiz (o caso de Miróbriga, Milreu, Alcalar, São Cucufate)
ou de adaptações de edifícios antigos (o caso de
São Cucufate-villa ou do Escoural-gruta e do Freixo).
A escala das intervenções é substancialmente maior,
e a sua responsabilidade também, uma vez que implica
uma estrutura de gestão mais forte, com uma capa14
IPPAR
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
recortam com maior nitidez neste contexto, contexto
(antes, durante, e depois dos trabalhos de recuperação).
em que fazemos a “interpretação” depender do res-
Motiva, ainda, uma interpretação permanente, que é
gate das coisas e do resgate do tempo.
dinâmica em si mesma, e que nos coloca a todos em
Concebemos cada monumento e cada sítio como um
contacto com aquilo a que costumamos chamar a
“lugar de passagem” entre dimensões. E acreditamos
quarta dimensão do património. É essa, obviamente,
na capacidade regeneradora do património, pelo que
a “passagem” mais importante: a ”passagem” de um
as intervenções não se esgotam em acções pontuais ou
mundo tridimensional e reconhecível, relativamente
na resolução “estreita” de um problema. Pelo contrá-
codificado e físico, para esse outro mundo, feito de
rio, a intervenção no património implica sempre uma
memória, e conhecimento, muitas vezes imaterial e incor-
projecção do futuro, uma perspectiva de gestão global
póreo, o da cultura, simbolizado pela “aura” do lugar.
1
As experiência de passagem através de lugares qualificados ou considerados “mágicos” constitui um leitmotif da literatura antiga e contem-
porânea, podendo alinhar-se, para os tempos mais recentes e num elenco forçosamente restrito, autores como Júlio Verne, Jorge Luis Borges,
Bloy Casares ou Italo Calvino, mas também, no domínio do ensaísmo, Walter Benjamin (esta lista é, em rigor, inesgotável e estende-se, claro
está, ao cinema, assumindo papel de relevo filmes como A Zona, de Andrei Tarkovsky; em rigor é bem possível estabelecer uma espécie de topografia sobre os “lugares de passagem” no imaginário ocidental, não fosse a tarefa considerada eventualmente pueril). Naturalmente, merece
uma chamada de atenção toda a literatura de banda desenhada, ficcionada e com referentes literários e visuais muito recortados, como seja a
obra do tandem Luc Schuiten/Benoit Peeters com o ciclo “As Cidades Obscuras” (vide também www. urbicande @ be). Aí se teorizam os “lugares de passagem”; e aí se colocam ao serviço da ficção e da estética (vide ainda Schuiten/Peeters, Le Guide des Cités, Paris, 1999).
2
Neste domínio, veja-se a obra de Anthony Vidler, The Architectural Uncanny, MIT, 1996, que descreve com a clareza possível esta categoria estética,
que se encontra aquem da ordem do sublime, mas que dele se aproxima para logo se afastar atendendo à estranheza dos fenómenos ou das coisas
observadas. O que estará em causa não é a “beleza” mas antes a percepção de uma fundura psíquica latente em determinados objectos que fogem
a uma definição mais estável do ponto de vista axiológico, para se revelarem na sua fundura psicológica (senão mesmo psicanalítica).
3
Sobre a “aura” dos monumentos vide a obra clássica de Françoise Choay, L’allégorie du patrimoine, Paris, 2.ª ed., 1997; também Paulo Pereira,
“(Re)trabalhar o passado”, in Arquitectura. Portugal, Frankfurt (catálogo da exposição); “Cidade como Património”, in A Cidade Portuguesa
(dir. Walter Rossa), Círculo de Leitores (em preparação).
4
Vide a este respeito, e sobretudo em termos da definição das políticas de intervenção do
Perspectivas, 2000-2006, Lisboa,
IPPAR,
IPPAR,
a obra Intervenções no Património. Balanço e
2000.
5
Uma versão mais sintética deste texto aparece in op. cit.
6
Adoptamos os conceitos correntes. Citando o n.º 1 do art.º 37.º da Lei 13/85 obtém-se, no âmbito do “Regime específico do património arqueo-
lógico” (Capítulo IV): “Para os efeitos do presente diploma, entendem-se por trabalhos arqueológicos todas as investigações que tenham por
finalidade a descoberta de bens de carácter arqueológico, no caso das investigações implicarem uma escavação do solo ou uma exploração
sistemática da sua superfície, bem como no caso de se realizarem no leito ou no subsolo de águas interiores ou territoriais”. Naturalmente que
esta definição dos trabalhos arqueológicos e, concomitantemente, a noção de bens arqueológicos – em termos gerais, enquanto bens imóveis
ou móveis – não contende, pelo contrário complementa, o “Regime específico dos bens imóveis” (Capítulo II, no âmbito do Subtítulo I, “Dos
bens materiais”) contemplado no mesmo diploma. Esta filosofia foi igualmente adoptada na Proposta da Nova Lei de Bases do Património Cultural.
7
A Convenção de Londres, revista em La Valetta, subordinada ao tema “A Protecção do Património Arqueológico”, Conselho da Europa, 16 de
Janeiro de 1992, ao discriminar o que é património arqueológico, parte de um pressuposto (na nossa opinião) inverso ao da actual proposta de
Decreto-Lei, visando integrar e incluir (e não desintegrar e excluir) os bens arqueológicos face a outras tipologias de bens culturais. Leia-se o
n.º 2 do art.º 1: “A cette fin, sont considerés comme élements du patrimoine archéologique tous les vestiges, et bien autres traces d’existence
de l’humanité dans le passé, dont à la fois: / i. la sauvegarde et l’étude permettent de retracer le développement de l’histoire de l’humanité et
la rélation avec l’environnement naturel; / ii. Les principaux moyens d’information sont constitués par des fouilles ou des découvertes ainsi que
par d’autres méthodes de recherche concernant l’humanité et son environnement; / iii. L’implantation se situe dans tout espace relevant de la
jurisdiction des Parties”. Leia-se, ainda, o n.º 3 do mesmo artigo, que precisa o alcance do que acima se expende: “Sont inclus dans le patrimoine archéologique les structures, constructions, ensembles architecturaux, sites aménagés, témoins mobiliers, monuments d’autre nature, ainsi
que leur contexte, qu’ils soient situés dans le sol ou sous les eaux”. O carácter deste artigo é, repetimo-lo, inclusivo e não exclusivo, uma vez
que o que importa é salvaguardar a informação arqueológica, assim como os bens arqueológicos, independentemente da sua natureza física.
Ou seja, o património arqueológico integra categorias mais vastas de bens culturais imóveis e móveis, mas não exclui uns em termos de gestão,
em benefício dos outros, não os entende desintegradamente do contexto em que vêm à luz. Isto não impede que desde 1992 até hoje,
passados mais de sete anos, outros critérios de avaliação patrimonial não tenham feito o seu próprio caminho, obrigando a uma reflexão crítica
sobre os dispositivos instalados pela Convenção de Londres/La Valetta, mormente o que diz respeito às paisagens culturais e à extensão ambiental, ou à distinção artificial entre património corrente e património arqueológico, como se este fosse, apenas, aquele que se encontra à cota – 0;
hoje em dia, os métodos de arqueologia da arquitectura fundem o contexto “enterrado” com o contexto revelado, puramente arquitectónico,
15
CADERNO
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
o que é válido não apenas para a arqueologia do período moderno e medieval, mas também para a arqueologia da pré-história recente. Ignorar
este facto é insistir num entendimento, a nosso ver, redutor da arqueologia. Refira-se ainda que a noção de “património arqueológico” não
recobre a noção de “bens imóveis”: sendo realidades distintas, encontram-se porém intimamente interligadas.
8
Discordamos claramente da afirmação de carácter corporativo – mesmo que involuntária – que se detecta por detrás desse novo (e, a nosso
ver, insólito) conceito, segundo o qual tudo é “arqueologia” – o que no limite é verdade, como tudo o que existe feito pelo homem é,
também, “antropologia”. O que há que distinguir é a natureza física do bem e não o seu método de percepção científica, sempre dependente
de contributos interdisciplinares. E se assim é para o entendimento puramente “científico” do bem arqueológico, ainda o é mais quando o que
está em causa é condição patrimonial (e cultural) do bem – não propriamente reduzida à sua dimensão de objecto puro de aplicação de uma
putativa cientificidade tendente para a exactidão –, o que também pode muito legitimamente ser posto em causa, sobretudo para a arqueologia, que colocamos decididamente no âmbito das ciências humanas e sociais e for a da esfera das ciências aplicadas ou “da natureza”, contendo dados presumivelmente mensuráveis. As tendências pós-estruturalistas no âmbito da arqueologia e a própria arqueologia pós-processual
e os seus praticantes e críticos (Shanks, Tilley, Sherratt, Thomas) – para não falar da escolas, ainda frágeis é certo, como as da, algo radical,
“arqueologia teórica” – reconduzem a disciplina a horizontes bastante mais profícuos do que aqueles que decorrem de pretensas “objectividades”,
“objectividades” que não são senão formas inteligentemente disfarçadas de neopositivismo. Acresce, ainda, a deformação que decorre de visões
estritas como as da existência, nunca confessada, de especialidades dentro da própria disciplina, que distingue arqueólogos “pré-historiadores”
e os arqueólogos “historiadores”, o que alimenta a “falha” ou o “fosso” entre tipologias patrimoniais com processamento arqueológico.
16
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
Mémoire et nouvel usage:
du monument au projet
Richard Edwards
Autor, realizador e editor
de projectos culturais
no domínio do património
e do ordenamento do território
Avertissement:
Conseiller culturel, concepteur, maître d’œuvre, spécialisé dans l’usage contemporain du patrimoine bâti
et non bâti, en milieu rural et urbain, j’interviens, en France et en Europe, auprès des maîtres d’ouvrage,
pour d’abord poser la question du projet: quel avenir choisir, comment et pourquoi. Ni architecte,
ni urbaniste, historien ou ingénieur, j’exerce en structure privée, au service des élus, État et collectivités
territoriales, un métier nouveau, à la jonction de plusieurs mutations, qui enrichit les missions des
conservateurs, des architectes, des historiens… J’y suis venu en ayant eu, pendant sept ans (1983-1990),
la direction de la Fondation Claude-Nicolas Ledoux dans l’ancienne Saline Royale d’Arc-et-Senans1, où j’ai
mené une réflexion particulière sur le nouvel usage des monuments, influencé autant par le traité de
C.-N. Ledoux: “L’Architecture considérée sous le rapport de l’Art, des Mœurs et de la Législation”, paru en
1804, que par cette immense architecture. Ma démarche de passeur et de praticien se nourrit de
rencontres, de recherches et d’études2; elle privilégie le regard et l’écoute, en choisissant de tenter
d’inventer la suite.
Lorsqu’un monument connaît un projet de ré-usage,
il peut devenir un acteur contemporain de la mémoire
en devenir, le monument prenant alors tout son sens
à partir du moment où l’usage le rend quotidien et
accessible.
Trois réflexions guident mon travail sur le terrain: celle
d’André C HASTEL invite “à relier l’œuvre au lieu,
l’architecture au site, le site à l’espace du vivant”; celle
de Pierre NORA enracine la mémoire dans le concret,
dans l’espace, le geste, l’image et l’objet; celle de Paul
V IRILIO commande de “penser le passé à partir du
futur”.
Trois questions se posent alors:
1. La question du
RÉEMPLOI
1. Vue aérienne de la Saline
Royale d’Arc-et-Senans
d’un édifice devenu
Monument Historique, en se gardant de deux
© Georges Fessy
pour redonner du
extrêmes (“mortels” s’ils sont exclusifs): la stricte
2. La question d’un
conservation (embaumement, sans valeur d’usage),
sens là où la fonction d’origine ne peut plus être
la vulgarisation (forme de cannibalisme virtuel et
reproduite.
collectif). Cette question est la première parce
3. La question de l’ EXPÉRIENCE
qu’elle subordonne la protection et la sauvegarde du
organiser les conditions du parcours initiatique.
monument.
Informer, témoigner et former pour donner à voir
NOUVEL USAGE
ESTHÉTIQUE ,
à savoir
17
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
et à vivre: “à la valeur pratique d’usage correspond
3
la valeur esthétique de nouveauté” .
les termes d’Emmanuel Kant dans Observations sur
le sentiment du beau et du sublime paru en 1764:
“Le sublime émeut, le beau charme, l’âme se sent
Aller du Monument au Projet: d’abord traiter le
émue à la représentation du sublime dans la nature,
monument, le monument historique, avec la mémoire;
alors que le jugement esthétique sur le beau lui
ensuite concevoir le projet, en inventant la suite.
donne le calme de la contemplation”), référence
réservée à quelques privilégiés, tant les vicissitudes
I. La Mémoire: le monument
et le monument historique
l’avaient marquée: usine déchue, ainsi que son
“Il y a deux choses dans un monument,
dynamitée, jusqu’à faire tenir ce propos à Julien
son usage et sa beauté.
Green dans son carnet de voyages en 1922: “Une
Son usage appartient au propriétaire,
des merveilles de la France va bientôt devenir un
sa beauté appartient à tout le monde”.
nom dans un livre d’architecture et peut-être un
Victor Hugo
lieu-dit sur une carte”.
architecte, architecture abandonnée, foudroyée,
Et le Convento de Nossa Senhora da Saudação,
Avant le monument historique existe le monument :
couvent de la Salutation (début
un édifice en rapport avec la mémoire et le temps
le château de Montemor-o-Novo (XIIème siècle)6 allait-il
vécu; selon Riegl “par monument, au sens le plus
rester une curiosité dominant la ville et attirant le
ancien et véritablement originel du terme, on entend
touriste, dans une région en pleine expression, alors
une œuvre créée de la main de l’homme et édifiée
que l’équipe de créateurs mise en place offre de faire
dans le but précis de conserver toujours présent et
vivre, à l’aune de l’Europe, ce monument endormi?
vivant dans la conscience des générations futures, le
Et le Domaine de Randan 7 , ancienne propriété
souvenir de telle action ou telle destinée (ou des
( XIX ème siècle) d’Adélaïde, sœur de Louis-Philippe
combinaisons de l’une et de l’autre)”.
(Roi des Français de 1830 à 1848), œuvre majeure de
Cette référence au souvenir, à la mémoire, est devenue
Pierre-François Léonard Fontaine (1762-1853)8, allait-il
aujourd’hui moins évidente alors même que sa
rester comme une ruine, un domaine à l’abandon,
nécessité est plus grande car on tend à lui préférer la
alors qu’il offre d’être l’incroyable siège de l’expression
valeur esthétique (la valeur d’art), valeur relative,
de la naissance de la modernité en Europe?
moderne, qui peut lui faire perdre la valeur de
Ces édifices étaient-ils, sont-ils restés Monuments,
remémoration du monument au profit d’une valeur
Monuments Historiques?
actuelle déconnectée du concept de monument.
La lecture de l’ouvrage d’Aloïs Riegl (1806-1905) est
Comment s’engager dans un monument atypique
d’un apport capital dans cette relation qui nous occupe
comme l’ancienne Saline Royale, bâtiment industriel
entre mémoire et projet et que Françoise Choay a
siècle, installé dans une campagne, saline
remise à jour: “on ne peut se pencher sur le miroir du
sans sa mine de sel, architecture unique: “on n’avait
patrimoine ni interpréter les images qu’il nous renvoie
pas d’exemple à opposer, point de comparaison à
à présent sans chercher, au préalable, à comprendre
donner” nous dit Ledoux (1736-1806) dans son
comment la grande surface lisse de ce miroir a été
traité . Cette usine semblait ne plus pouvoir être
peu à peu constituée par l’addition et la fusion de
autre chose qu’un monument intentionnel pour sa
fragments d’abord appelés antiquités, puis monuments
valeur de commémoration, selon l’analyse qu’en fait
historiques”9.
Riegl dans “le culte moderne des monuments”, ou
Pour Riegl, le monument est une création délibérée
même, poursuit l’auteur, un monument ancien
(gewollte) dont la destination a été assumée a priori et
“création de l’homme ayant subi l’épreuve du
d’emblée, alors que le monument historique n’est pas
temps”. Ou ne garderait-on qu’une référence
immédiatement voulu (ungewollte) et créé comme tel:
sublime (ce sublime “qui conduit à l’émotion”, selon
il est constitué a posteriori par les regards convergents
4
du
XVIII
ème
5
18
XVIème
siècle), logé dans
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
de l’historien et de l’amateur qui le sélectionnent
Pierre Nora écrit: “la mémoire s’accroche à des lieux
dans la masse des édifices existants. Françoise Choay
comme l’histoire à des évènements” 10. Le projet se
renforce ce propos quand elle écrit: “un édifice ne
conçoit à partir du monument, contrairement à un
devient «historique» qu’à la condition d’être perçu
porteur de projet qui le fonde sur sa propre démarche;
comme appartenant à la fois à deux mondes, l’un
son projet pourra se déplacer, être déplacé selon les
présent et immédiatement donné, l’autre passé et
rencontres, les opportunités (celles des institutions, des
inappropriable” (à noter qu’au Moyen-Âge, les
publics, des volontés, etc…). Ici nous interrogeons
créations de l’Antiquité ne jouent pas le rôle de
d’abord l’édifice: quel est-il? que raconte-t-il? Son
monument historique: l’homme du Moyen-Âge en
histoire fixera une part majeure, préalable, des
prend possession sans en prendre nécessairement
conditions du projet, histoire signifiante qui devra être
connaissance, car, comme Philippe Ariès l’a montré,
signifiée. Concrètement, cette nécessité entraîne une
leur passé n’est jamais considéré comme mort).
réflexion sur les limites de l’intervention, pose la
Les gens d’aujourd’hui ont-ils à prendre connaissance
question du choix d’imiter, d’inventer, de reproduire,
du passé du monument historique dans lequel ils sont
de représenter…
de passage? Doit-on leur faire adopter un statut
Beaucoup de monuments restent figés car ils sont
d’habitant, même provisoire pour les impliquer, s’ils
considérés comme objets de culte à valeur de relique:
doivent l’être? Et comment, dans le même temps rester
la valeur d’origine. Cela peut se concevoir peut-être
en distance par rapport à celui-ci?
pour un monument érigé spécifiquement pour “se
Passer du monument à son nouvel usage, c’est passer
souvenir» (Arc de Triomphe), mais pas pour un édifice
du monument au projet, c’est permettre, par un
pour lequel “le passé acquiert une valeur de
nouvel usage dans un monument devenu historique,
contemporanéité au regard de la vie et de la création
d’inscrire la mémoire dans l’action contemporaine.
moderne” nous dit encore Riegl. C’est réellement après
la seconde guerre mondiale, qu’en Europe se pose ce
II. Du monument au projet
qu’on appellera la réhabilitation des monuments
“Le monde de l’art n’est pas celui de l’immortalité,
historiques; La Charte d’Athènes, en 1931, fait état de
c’est celui de la métamorphose”.
propositions, mais c’est la convention culturelle
André Malraux
européenne du Conseil de l’Europe, en 1954, qui fait
entrer cette question dans la responsabilité des états
S’engager dans une telle démarche, passer du
membres: restaurer, pour quoi faire, au-delà des
monument au projet, c’est chercher à conjuguer
mesures nécessaires à la sauvegarde et à la protection,
l’inappropriable et le disponible: l’INAPPROPRIABLE – le
au-delà de la conservation.
passé représenté par l’édifice qui est là aujourd’hui, ou
L’engagement culturel viendra plus tard, à la fin des
– le nouvel usage qui
années 60, en même temps que va se poser la
peut en être fait, là où la reprise de l’usage d’origine
question de la “démocratisation”11 de la culture. Il faut
n’est pas possible ou envisageable.
souligner que, ni le Traité de Rome, en 1957, ni le
Quatre exigences structurent un projet conçu et mis en
Traité de Maastricht, en 1992, ne développent
œuvre dans un monument:
d’ambitions sur ce terrain là.
1. Le projet se conçoit à partir du monument, du
Cet engagement pour “la remise en vie” des
monument historique.
monuments se fera d’abord sous la forme de musées:
2. Le passé du monument fait partie du projet: il doit
il faut montrer, exposer ce qui a été et justifier les
être signifié et représenté.
travaux de conservation et de restauration entrepris par
3. L’aménagement (les investissements) qui sert le
ceux qu’on appelle justement les conservateurs et les
projet n’occulte pas l’édifice, il s’en nourrit.
architectes des monuments historiques. Pour les
4. Toute intervention dans le monument doit garder un
collectivités publiques, plus que pour l’Etat, l’ouverture
caractère de réversibilité.
aux publics est une manière de prouver le bien fondé
ce qu’il en reste – et le
DISPONIBLE
19
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CADERNO
de l’engagement à maintenir et à sauvegarder ce
nourrie de mémoire: faire de l’argent le plus rapi-
patrimoine bâti; nous sommes loin de la démarche de
dement possible!
projet mais c’est pourtant comme cela qu’on en parle.
La fin des années 60 et les années 70 ont vu s’épanouir
siè-
ce qui était considéré comme un excellent moyen
cle, tellement bien repéré grâce aux oppositions qui
d’animation des monuments: les sons et lumières, avec
s’affirment avec John Ruskin (1819-1900) d’une part,
ou sans reconstitution historique, de préférence en
pour l’école anglaise, et Eugène-Emmanuel Viollet-le-
période touristique, mettant à nu des lieux et des
Duc (1814-1879) d’autre part, pour l’école française,
bâtiments dont on sait que, lorsqu’on les a construits,
débat pour savoir s’il faut restaurer ou (et) conserver
tout n’était pas fait pour être montré; l’on tend à
(débat arbitré par l’italien Camillo Boito (1814-1914)
ramener le monument historique au monument, c’est
dans un dialogue célèbre ) va progressivement se
à dire un objet commémoratif.
déplacer vers celui de sauvegarder ou (et) animer.
Depuis, ce triste privilège perdure, s’amplifie: les
Ce débat est d’autant moins clos aujourd’hui que l’on
monuments ne sont plus qu’un prétexte d’enjeux
assiste à un déplacement des fonctions des profes-
financiers, colorés culturels: coller à la demande
sionnels concernés: tel conservateur ne souhaite-t-il
prédomine, nous retrouvons les lois du marché: c’est
pas s’engager dans une démarche de projet con-
ainsi que l’on peut parler de “tourisme culturel”,
temporain, tel architecte en chef des monuments
“managé” ou conçu par “les ingénieurs culturels” que
historiques ne cherchera-t-il pas à engager des travaux
l’on laisse occuper le terrain, tant est forte l’absence de
destinés à servir une action contemporaine? Les
réflexion des politiques et des responsables dans ce
propriétaires ne cherchent-ils pas, en leur qualité de
domaine, tant est flagrant le manque de professionnels
propriétaires de monuments à vouloir des projets
de la culture pour concevoir et conduire des projets
directement utilisables in situ, au profit de projets plus
échappant à ces bourrasques. La mondialisation, la
exactement touristiques?
perte de repères, les inquiétudes, ne sont sans doute
Mais il reste que ces réutilisations ne sont pas
pas étrangers à cet activisme culturo-patrimonial.
considérées, dans bien des cas, comme suffisantes.
Il nous semble donc que la mise en œuvre d’un projet
Comment donner une nouvelle valeur d’usage qui
contemporain doit être engagée dans et à partir du
puisse être perçue comme cohérente avec la valeur
monument considéré: nous appelons cela le choix du
historique? Comment faire du monument historique
“Bernard l’ermite”13. A cela s’ajoute la durée, comme
non plus une finalité, mais l’objectif ou le moyen d’un
existe la durée de l’histoire du monument, comme doit
projet directement agissant aujourd’hui?
exister la durée du projet culturel.
Pour l’ancienne Saline d’Arc-et-Senans, chacun s’était
Partir du monument, c’est s’interroger sur le pourquoi
employé à vouloir remplir des bâtiments vides, selon
de la création de l’édifice, sur le comment de sa
des opportunités immédiates: haras, silos à grains,
construction. Quels effets y a-t-il eu du temps de son
foyer rural, caserne, entrepôt, résidences secondaires.
fonctionnement, effets directs, indirects, induits,
Ni château fort, ni abbaye, ni résidence de prince, donc
pervers…? pourquoi, quand la ou les fonctions
au fond, sans “mémoire obligatoire”, l’ancienne usine
premières ont-elles disparues? comment cela s’est-il
n’avait d’autre dignité que son architecture dite “monu-
modifié, sous quelles influences? Il ne s’agit cependant
mentale”. Rien ne permettait de parler de projet.
pas de rechercher les causes originelles qui pourraient
Pour l’ancien domaine de Randan, rien de plus simple
reproduire aujourd’hui les mêmes effets, mais de
que de se dire que 100 hectares de propriété
repérer les conditions d’une remise en vie qui pro-
pourraient faire un lieu touristique facile, avec de la
duiraient des effets semblables.
forêt à parcourir (et après tout qu’importe qu’elle ait
Se dispenser de ces préalables, de cet état des lieux,
fait l’objet d’une savante composition) et “un village
c’est aller au devant de difficultés de cohérences entre
du cheval” (sic) installé là puisque des chevaux, il y en a
le monument et le projet, lorsque se poseront les
dans la région: le marketing au détriment d’une offre
questions d’occupation des lieux, d’aménagements,
Le débat de la fin du XIX
ème
siècle et du début du XX
ème
12
20
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CADERNO
d’organisation des espaces et de transformation
valeur de signe attachant […], la
du bâti.
ferme, l’atelier, la boutique
Être en mesure de sortir de la stricte contrainte
d’autrefois, deviennent mainte-
conservatrice d’un monument devient, particuliè-
nant ce qu’avaient été, pour les
rement aujourd’hui, un atout du devenir du
générations antérieures, l’église,
monument, par le projet. En effet, “la manie con-
le site, le château”18.
servatrice – cette mortelle vitrinification du musée […]
Ce retour aux sources, aux
ne se développe qu’au moment où une civilisation
origines, aux valeurs fondatrices,
devient consciente de son impuissance à inventer le
à sa propre identité passée, coupée du présent, est
présent” précise Pierre Ryckmans (dans Su Rensham, 1970).
dangereux: les thèses développées par l’extrême-
Nous assistons, aujourd’hui, à la généralisation de ce
droite, les nationalistes, sur maintenant tous les
phénomène de “vitrinification” dans les centres villes
continents montrent combien cela conduit aux
en Europe qu’elle soit occidentale, centrale ou orien-
ruptures, à la “fracture”.
tale: le centre-ville se vide au profit de façades, de
Mais la rupture a déjà eu lieu, nous sommes entrés
bâtiments et de monuments restaurés: le cœur de ville
dans le temps instantané, “le live” précise Paul Virilio,
disparaît et se déplace dans les centres commerciaux
ce temps qui fait perdre la mesure de la distance et qui
en bordure des villes15.
provoque la perte de la mémoire (ce qui peut donner
Cet état des lieux, cet état des incertitudes nous
toute facilité pour réécrire l’histoire), et d’autre part
permet d’envisager avec ouverture cet usage
nous sommes aussi entrés dans une démarche
contemporain, ce nouvel usage dont parle Françoise
substitutive, une métamorphose, un changement de
Choay, usage que le premier inspecteur français des
forme. Cette métamorphose se manifeste dans la prise
monuments historiques rejette violemment: “l’usage
en compte du monument: si la protection n’est plus
est un genre de vandalisme lent, insensible, inaperçu,
une exigence, son usage doit être utile et le monument
qui ruine et détériore autant qu’une brutale
devient un prétexte.
dévastation”16. Le nouvel usage, plutôt que de craindre
L’édifice parfaitement circonscrit se substitue au profit
l’usure, revient à s’interroger sur quelle production de
du seul espace culturel reçu ou présenté comme
sens engager, dans une époque où il est plus question
nouvel espace vital: “relier l’œuvre au lieu,
de chercher à survivre individuellement, en restant
l’architecture au site, le site à l’espace du vivant…”
politiquement correct, face au virtuel, nouvelle
nous dit pourtant André Chastel (Le Monde, 1974).
panacée, nouvelle réalité, “grande illusion élec-
Substitution du vrai pour le faux et le faux vrai. Il ne
trooptique et acoustique” annonce Paul Virilio , dans
s’agit pas ici de mettre en cause la démarche de
un contexte où l’on cherche obstinément et sans cesse
Viollet-le-Duc, qui avec son travail de restauration du
à se référer à “La mémoire” (même Disney): “on ne
château de Pierrefonds, en Picardie (nord de Paris)
parle tant de mémoire que parce qu’il n’y en a plus”
par exemple, nous conduit plutôt, à force de vérité
nous dit Pierre Nora. Ce n’est pas tant qu’il n’y en ait
créatrice vers un vrai faux magistral: “restaurer un
plus, mais plutôt que la mémoire est artificiellement
édifice, ce n’est pas l’entretenir, le réparer ou le refaire,
déconnectée de notre présent et qu’on la regrette
c’est le rétablir dans un état complet qui peut n’avoir
plutôt qu’on ne la vit, qu’on la met à portée de main
jamais existé à un moment donné”19. Alors de quel
pour se souvenir, d’où cette inflation de musées où
faux s’agit-il? Les Américains sont de ceux qui le
l’on va regarder des objets à la recherche de sa propre
maîtrisent avec talent, par nécessité sans doute, et
histoire, de sa propre image. Le succès des éco-
souvent jusqu’à l’incohérence: construire un faux vrai
musées, des musées d’arts et traditions populaires, des
en Europe, en exportant des États-Unis un produit
“centres d’interprétation du patrimoine” est, à ce titre,
importé et nourri de la culture européenne, un comble
significatif. André Chastel et Jean-Pierre Babelon
que ce Disneyland Paris. “Utopie dégénérée” selon
l’expliquent ainsi: “l’objet visuel désaffecté prend une
les termes du sociologue Louis Marin, quintessence de
14
17
2. Vue arrière du château
de Randan
© Atlante/R. Edwards
21
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l’idéologie de la consommation. Il est admis que tout
de cette mémoire “prospective”. Cela peut devenir très
est faux mais doit être pris pour vrai (l’offre) afin de se
sensible lorsqu’il faut intervenir dans une ville nouvelle,
connecter à l’envie de consommer du consommateur
de surcroît celle qui accueille Disneyland: quel est
(la demande) qui, elle, est vraie. Ainsi la boucle est
le patrimoine porteur d’une mémoire capable de
bouclée: l’offre est conforme à la demande et la
continuer à devenir? Paul Delouvrier, grand amé-
rejoint; tel est le but.
nageur, disait qu’une ville n’existe que lorsque son
Ainsi en est-il de Lascaux II par exemple, ou de la
cimetière entre en activité. Comment concevoir un
Vénus de Milo au Palace of living arts de Buena park
projet culturel, sans d’abord “avoir été”? Disney a
près de Los Angeles, dont la philosophie est: “nous
résolu le problème de la mémoire: il la fabrique…
vous donnons la reproduction pour que vous n’ayez
évidemment à partir de ce qui l’intéresse. Lorsqu’on
plus besoin de l’original”; “Vénus de Milo portée à la
leur pose la question de l’absence au générique du film
vie comme elle l’était du temps où elle posa pour le
“Le Bossu de Notre-Dame” du nom de Victor Hugo,
sculpteur inconnu, en Grèce, à peu près deux cents
la réponse vient sans délai: combien cela rapporterait-il
ans avant J.C.” dit la légende inscrite dans le cartel ;
de plus?
et que dire du pavillon de Mies van der Rohe (1886-
Quelque soit le projet engagé et installé dans un
1969) à Barcelone, construit en 1929 pour l’exposi-
monument historique, son passé sera signifié et
tion universelle, détruit ensuite, puis reconstruit
représenté, pas de façon accessoire mais dans le projet
“à l’identique” avec de nouveaux matériaux, au même
lui-même. S’inscrire dans la durée, suppose pour le
endroit, plus d’un demi-siècle après?
projet et le projet culturel d’en porter, d’en transporter
Si nous insistons sur ce dernier point liant le vrai et le
la mémoire en permanence. Les raisons de la
faux, c’est qu’il nous semble que la mise en œuvre
transformation d’un édifice seront d’autant mieux
d’un projet engageant le nouvel usage dans un
comprises que l’on pourra faire le lien entre édifice et
monument historique est un enjeu posant la question
projet. Il est donc utile de comprendre comment se
du continuum entre le passé et le présent. Engager le
lient ou se rompent la valeur d’usage originelle et la
monument historique vers un nouvel usage, c’est faire
nouvelle valeur d’usage que l’on a choisi de donner au
de la mémoire un moteur de la production de sens
monument. Le risque est grand de faire du monument
et permettre au monument d’être un acteur con-
un accessoire, utile et prestigieux sans doute, mais un
temporain de la mémoire en devenir. Pierre Nora, à
accessoire secondaire eu égard à un objectif qui en est
nouveau: “la mémoire est la vie, […], elle est en
déconnecté. Il devient alors tentant et facile d’occulter
évolution permanente, […], susceptible de longues
tout ou partie du lieu s’il gêne le projet que l’on
latences et de soudaines réalisations, […], la mémoire
veut mettre en place (Mac Donald’s, Paradores,
est un phénomène toujours actuel, un lien vécu au
Pousadas...). Comment traiter la signalétique, les
présent éternel […]. La mémoire s’enracine dans le
parkings, les circulations, les aménagements extérieurs
concret, dans l’espace, le geste, l’image et l’objet”.
en lien avec la cité, l’environnement, les activités
Dans Eupalinos, Paul Valéry (1871-1945) fait dire à
agricoles, commerciales ou industrielles…
20
3. Intérieur du cloître
du couvent de
Montemor-o-Novo
Socrate: “un temple, joint à ses abords, ou bien à
l’intérieur de ce temple, forme pour nous une sorte de
Il nous semble que la force d’un projet contemporain
grandeur complète dans laquelle nous vivons… Nous
dans un monument historique est celle capable de
sommes, nous nous mouvons alors dans l’œuvre de
générer un nouvel édifice conservé, reconnu et
l’homme” .
réappropriable dans ses nouvelles fonctions par celles
Le monument pour le monument n’offre pas ici
et ceux qui le côtoient, l’occupent, l’utilisent ou le
d’intérêt: son architecture va compter autant dans sa
visitent.
représentation que dans son bâti lui-même, la
De monument, l’édifice a pu devenir monument
représentation offerte, celle que chacun se fait, sont
historique parce qu’il a été choisi, “regardé”: la mise
porteuses de sens dans le projet en train de se faire,
en avant, délibérée, de sa valeur d’origine fait sa
21
22
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CADERNO
reconnaissance. Le projet culturel que l’on y implante,
et caractéristiques historiques, socio-économiques,
que l’on y greffe délibérément, apporte une nouvelle
touristiques…
valeur d’usage qui supplée celle de l’origine,
3. associer les acteurs et partenaires engagés
manquante, en intégrant, sans l’occulter, le passé,
sur d’autres projets et réalisations, en d’autres lieux,
signifié.
dont l’impact sur le projet à venir est à prendre en
Ne pourrait-on supposer que la réussite de la mise en
compte…
vie d’un monument historique est celle qui permet
4. analyser (situation et possibilité) les données
d’acquérir, par le projet, une valeur contemporaine qui
financières existantes…
deviendra indissociable de son support?
Conception et mise en oeuvre du projet
Et le monument, comme tel, réintégrant la mémoire,
1. conception du projet, rencontres, débats…
cèdera alors la place à une nouvelle entité perçue
2. mise en relation des porteurs du projet avec les
consciemment ou inconsciemment par celles et ceux
acteurs socio-économiques, socio-culturels locaux;
qui en ont la responsabilité ou l’usage, comme
constitution de comités techniques, vérification de la
constitutive de la mémoire à venir.
faisabilité technique et financière du projet, actions de
sensibilisation…
Sous forme de conclusion
3. établissement des moyens de mise en œuvre du
Cette analyse, ce manifeste, conduit à un “mode
projet: préfiguration, programmation, expéri-
d’emploi” qui, après discussions avec les maîtres
mentation…
d’ouvrage, sert à réussir la remise en vie du patrimoine,
4. assistance auprès du maître d’ouvrage dans la
au service des habitants, dans un esprit servant le
réalisation du projet, constitution d’un comité de
développement et l’aménagement du territoire.
pilotage, concertation et validation des propositions
Si cet article n’a pas ici pour objet d’exposer la
et des actions mises en œuvre, communication…
méthodologie de la démarche retenue, on peut
Suivi et évaluation
cependant en présenter ce qui la structure:
Depuis dix ans que nous parcourons les villes et
Etat des lieux
les régions 22, cette “remise en vie” du patrimoine
1. identifier et analyser les constituants et les différents
que nous pratiquons, à la demande de l’État ou des
enjeux du projet à partir, d’une part, des études
collectivités territoriales, aura permis que le monument,
existantes ou à mener et d’autre part, des entretiens
par un nouvel usage, réintègre la communauté des
conduits auprès des partenaires, des experts et des
vivants et participe fortement de l’identité d’un
acteurs concernés…
quartier, d’un village, d’une ville, d’une région, en
2. révéler la spécificité des différents monuments, sites,
même temps que de son développement, et de
de l’offre culturelle, des initiatives locales, des données
l’aménagement du territoire.
1
La Saline Royale, construite de 1773 à 1778, se situe à Arc-et-Senans dans le Doubs, en Franche-Comté, entre Dole, Besançon et Salins-les-Bains;
Monument historique, elle est inscrite sur la liste du Patrimoine mondial de l’UNESCO depuis 1983.
2
Mon travail d’éditeur, au sein des Éditions de l’Imprimeur (maison que j’ai créée en 1994, spécialisée en architecture, patrimoine, arts urbains,
jardins et paysages, design et arts graphiques), ainsi que celui de formateur nourrissent également la démarche présentée.
3
Aloïs RIEGL, in Le culte moderne des monuments (Der modern Denkmallkultus, texte de 1903), introduction de Françoise CHOAY, Seuil, 1984.
4
Le monument sera entendu ici selon le sens qui lui est donné dans la “charte internationale sur la conservation des monuments historiques”, dite
Charte de Venise, Icomos, Venise 1966 et celui de la “charte relative à la sauvegarde des jardins historiques”, dite Charte de Florence, Icomos,
Florence, 1982.
5
Claude-Nicolas LEDOUX, in L’Architecture considérée sous le rapport de l’Art, des Mœurs et de la Législation, Paris, 1804.
6
Le couvent et son château sont installés au dessus de la ville sus-nommée, entre Lisboa et Évora, dans l’Alentejo au Portugal; on parle ici de ce
monument parce que l’État et la municipalité ont proposé à Rui HORTA, chorégraphe, assisté d’Eva NUNES, de s’installer là: ce qui ne devait être qu’un
lieu parmi d’autres pour un projet d’artistes est devenu, en l’habitant, un projet artistique nourri de l’esprit du lieu.
7
L’ancien Domaine royal de Randan, construit et aménagé à partir de 1831 sur le site d’une ancienne propriété d’origine médiévale (à l’état de
traces), est situé entre Vichy et Clermont-Ferrand, en Auvergne.
8
Pierre-François Léonard Fontaine est, entre autres, l’architecte de la rue de Rivoli, du Caroussel, à Paris.
23
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9
Françoise CHOAY, in L’allégorie du patrimoine, Seuil 1999 (nouvelle édition, revue et augmentée).
10
Pierre NORA (sous la direction de), in Les lieux de memoire, Gallimard, à partir de 1984.
11
Démocratisation: mot que nous gardons ici comme tel, mais qui suscite une forte suspicion de notre part; il mérite un important débat et ce, avec
d’autant plus d’urgence que nos politiques aiment à abuser de l’usage de ce mot pour justifier un renoncement à la recherche de l’excellence dans
les disciplines qui sont les nôtres; à démocratisation nous préférons: se donner les moyens de rendre accessible au plus grand nombre.
12
Camillo BOITO, in Conservare o Restaurare (paru en 1893 dans Questioni Pratiche di Belle Arti), en français Conserver ou restaurer, les dilemmes du
patrimoine, introduction de Françoise CHOAY, Éditions de l’Imprimeur, 2000.
13
Du nom d’un crustacé qui se loge dans des coquilles vides.
14
Ce terme de “vitrinification” est un mot formé en contractant les mots vitrification et vitrine.
15
C’est de plus en plus le destin des centres villes pourvus de monuments, monuments historiques, figés parfois sur la liste du patrimoine mondial de
l’UNESCO: d’abord on déshabille les monuments pour dégager des points de vue aux visiteurs d’un jour, puis la ville vide son centre de sa vie
quotidienne au profit de stationnements en forme d’autobus, de distributeurs de “hamburgers” et de distributeurs de “cash”, et enfle ses pourtours
d’une population “exilée” qui ne tardera pas à être perçue comme indésirable pour le nouveau centre.
16
Ludovic VITET, in L’archiecture du moyen-âge en Angleterre, 1836.
17
Richard EDWARDS (sous la direction de), in Nouveaux createurs, regards d’ecoles, Atlante/CNAP puis Les Éditions de l’Imprimeur, 1993.
18
André CHASTEL et Pierre BABELON, in La notion de patrimoine, Éditions Liana Lévi, 1994 (première parution in revue de l’Art, n.° 49/1980).
19
Eugène-Emmanuel VIOLLET-LE-DUC, in Dictionnaire raisonné de l’architecture française du XIème et XIIème siècles, Nobele, 1967.
20
Cité par Umberto ECO, in La guerre du faux, Grasset, 1985 (textes publiés en italien en 1973, 1977, 1983).
21
Paul VALERY, in Eupalinos, Gallimard, 1994.
22
Parmi la trentaine de projets réalisés, on peut ici souligner:
• FRANCE: à partir d’une mission de conseil et d’assistance auprès de la Caisse nationale des monuments historiques (aujourd’hui Centre des
monuments nationaux), expertise de cinq monuments dans leurs rapports aux publics (visiteurs, tourites): sites archéologiques de Montcaret en
région Aquitaine, de Montmaurin en région Midi-Pyrénées, le château de Chateaudun et le domaine de George Sand en région Centre, l’abbaye de
La Sauve-Majeure en région Aquitaine; conception d’un projet de monument pour le château de Pierrefonds en région Picardie.
• BELGIQUE: conseil et assistance pour la transformation en centre culturel d’un ancien bâtiment industriel, Le Grand Hornu (monument historique)
dans la province de Hainaut.
• FRANCE: analyse et propositions de projet culturels sur douze grands monuments historiques dans les huit départements de la région Midi-Pyrénées,
dont les abbayes de Moissac, de Souillac, La Chartreuse de Villefranche-de-Rouergue, la Commanderie des Templiers de Sainte-Eulalie-de-Cernon,
l’Ecole Militaire de Sorreze…
• ITALIE: réflexion avec les élus et les professionnels de la ville de Modena (Emilie-Romagne) sur la réutilisation des monuments.
• FRANCE: élaboration d’un projet culturel d’envergure, face à Disneyland Paris, pour révéler une ville nouvelle en devenir, Marne-la-Vallée en région
Ile-de-France, à la recherche d’une identité forte.
• POLOGNE: réalisations culturelles dans les mines de sel de Wieliczka (XIIIème siècle) dans la région de Cracovie.
• FRANCE: conception, création et installation du centre national du paysage dans l’ancien prieuré de Lavoûte-Chillac en Auvergne.
• FRANCE: conception et mise en œuvre d’un projet culturel et touristique à partir des jardins de Vallery (monument historique) en région Bourgogne.
• ALLEMAGNE: conseil auprès des responsables de la création du centre culturel installé dans le château de Schloß-Solitude dans le Bad-Wurtemberg.
• FRANCE: dans un couvent de Dominicains, le couvent de la Tourette (construit par Le Corbusier) en région Rhône-Alpes, conception d’un projet
culturel capable de cohabiter avec l’activité religieuse.
• ROUMANIE, à Bucarest, à Cluj, à Timi∫oara: proposition, avec des étudiants en mastère, de projets culturels pour chacune des villes, à partir de leurs
patrimoines et de leur histoire, dans le but de favoriser l’identité et le développement urbain.
• FRANCE: construction, à partir de son patrimoine bâti et non-bâti, de l’identité et de la politique culturelle de Coulommiers en Ile-de-France.
• FRANCE (cités dans le texte): l’ancienne Saline d’Arc-et-Senans en Franche-Comté, l’ancien Domaine Royal de Randan en Auvergne.
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CADERNO
Sobre el necesario vínculo entre
el patrimonio y la sociedade
Marcelo Martín
Arquitecto, gestor cultural,
responsable del Departamento
de Comunicación del Instituto
Andaluz del Patrimonio Histórico
(Sevilla, España)
[email protected]
Reflexiones críticas sobre la Interpretación
del Patrimonio
El que no sabe lo que busca no interpreta
apropiada como actitud común a los arquitectos
lo que encuentra.
implicaba por definición, la exigencia de la diversidad
Alberto Rex González
para cada realidad”1.
Esta experiencia, que sigue viva en mis reflexiones
¿Quién dijo que todo está perdido?
acerca de lo que sucede en el mundo de la cultura y en
Yo vengo a ofrecer mi corazón.
particular del patrimonio donde me muevo, viene a
Fito Paez
cuento al pensar en una forma apropiada de vincular al
patrimonio con la sociedad. Apropiada en su triple
Hace unos veinte años, un destacado grupo de
concepción:
arquitectos latinoamericanos, del que tuve el privilegio
• en cuanto adecuada, a la realidad de que se trate,
de formar parte, reflexionaba acerca de muchas de las
útil a ella, a su servicio y consistente y armónica con
que hoy son certezas respecto de la globalización, la
ella;
pérdida de las identidades culturales por la imposición
• en cuanto hacerla propia, a condición de que
económica y tecnológica, y la urgente necesidad de
hagamos discriminaciones previas y un esfuerzo crítico
buscar soluciones acordes para dar respuesta a las
por saber lo que es conveniente a nuestra realidad y
demandas de nuestra profesión.
que sepamos adaptar e incorporar pertinentemente
Del cúmulo de encuentros y textos que se produjeron a
todo aquello que nos llega;
lo largo de varios años me es grato y oportuno traer
• en cuanto propia es decir en tanto forma parte
aquí el concepto de lo que entonces denominábamos
indisoluble de nuestra identidad, idiosincrasia y
la modernidad apropiada, un intento consciente de
tradicional forma de expresarnos.
crear una categoría de análisis de nuestra realidad
que, por un lado, no nos permitiera evadirnos en
Portugal, el sur de España e Italia y Grecia comparten
la nostalgia y, por otro, nos comprometía con un
no sólo un espacio vital mediterráneo y una cultura
presente y un futuro concretos, a la hora de buscar
básica subyacente sino también una forma de
respuestas válidas a las exigencias sociales y culturales,
supervivencia cultural a la colonización que tiene
y que no tuvieran repercusiones en el medio natural y
muchos puntos en común frente a los conceptos, hoy un
cultural de la región.
tanto dejados de lado pero no por eso menos vigentes,
No pretendíamos crear un ismo arquitectónico más, ni
de centro y periferia. Relativizando, somos periferia
siquiera un modo estilístico de producción sino una
europea, pero también centralidad mediterránea.
actitud frente al hacer, una forma de reflexión que nos
Por extensísimas razones que no vamos a desarrollar
facilitara hacer propio lo que nos llegaba de la
aquí, el concepto de progreso asociado al de
globalidad pero al mismo tiempo ejerciendo una
modernización, más propio de culturas septentrionales,
actitud crítica que nos permitiera comprender qué era
fue aceptado como tal por la masificación de las
lo apropiado y qué no lo era, de cara a la diversidad
aspiraciones a una vida libre y mejor; primero por
cultural y espacial de nuestro continente, “de modo
efecto de demostración y luego por desarrollo interno,
que la proposición de búsqueda de una modernidad
pero casi siempre de forma imperativa: adoptamos los
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CADERNO
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desafíos de la modernización en forma acrítica y en
conservacionistas y un contexto absolutamente nuevo.
muchos casos mimética.
Muchos de los que pertenecían a las categorías técnicas
Esta situación se ha visto modificada substancialmente
ligadas a la elaboración de proyectos y a la ejecución de
con la incorporación a la superestructura política y
las intervenciones en el Patrimonio se encontraron
económica de la Unión Europea, pero claro está, sin
inmersos en una especie de desestabilización.
abandonar nuestros particularismos meridionales, que
“La restauración de un objeto o de un monumento no
son mucho más destacados en el ámbito cultural.
será ya, como lo era antes, una operación que ataña a
Nuestra región no comparte el mismo concepto de
un círculo reducido de intelectuales, a unos usuarios
patrimonio que el norte de Europa, prueba de ello son:
cualificados y restringidos desde el punto de vista
la presencia del Estado como figura tutelar del legado
numérico y, por tanto, sustancialmente indiferente a
histórico y natural; nuestros “bienes culturales” frente
los parámetros socioeconómicos (no sólo los
al heritage anglosajón, la catalogación, la protección
monetarios). Es una operación que dará lugar a
y la conservación-restauración como materias tron-
consecuencias inéditas. La primera de ellas es el nuevo
cales de la gestión de esos bienes frente a los de
uso del bien restaurado y, por consiguiente, su
comercialización y rentabilidad; son éstas, entre otras,
inserción en el circuito económico. Esto cambia su
las diferencias que hasta estos últimos años definen
naturaleza íntima – y en ello aparece una novedad
dos modelos y concepciones de nuestra herencia
explosiva para cuantos trabajan en el sector –,
natural y cultural.
convirtiéndola en algo parecido a una intervención
Deseo comentar aquí unos párrafos que el profesor
normal (pública o privada) en el territorio, encaminada
Sandro Bianchi, del Istituto Centrale per il Restauro,
a perseguir objetivos de desarrollo en el campo
incluyera en su conferencia hasta ahora inédita, con
industrial o en el de los servicios. Por poner un ejemplo
motivo del encuentro “Los Institutos de Patrimonio y
de sus consecuencias se puede citar la necesidad, ya
su papel en el próximo milenio” .
hoy fuertemente sentida, de profundizar y racionalizar
Desde los años ochenta, han hecho su aparición unos
las relaciones entre quien tutela el patrimonio
cambios aún más profundos que han modificado una
(la administración estatal) y quien gestiona el territorio
vez más las referencias generales sociales y culturales.
(los entes locales territoriales) desde la fase de
El primero fue la masificación del uso del patrimonio
planificación y de proyección de las intervenciones,
cultural. De objeto de goce por parte de una élite
precisamente para garantizar una inserción armónica
culta, como había sido especialmente hasta los años
en el contexto socioeconómico. Planificar, proyectar y
sesenta, con la explosión del turismo de masas, el
ejecutar un trabajo sobre un bien cultural que hoy
patrimonio se volvió accesible para capas mucho más
pertenece de pleno derecho a un cuadro complejo y
amplias de usuarios que dieron vida a un potencial
lleno de variables no puede ya ser lo mismo que hace
económico casi desconocido que se ha convertido en
veinte o treinta años”3.
un componente fundamental para el marco económico
Tengo mis dudas, en general y salvo el caso italiano,
europeo en general y meridional en particular. Esta
que por parte de la ciencia económica el problema sea
transformación ha sido, obviamente, muy bien recibida
estudiado desde hace tiempo con la seriedad y la
gracias a los beneficios generales que ha producido
atención que merece un nuevo protagonista de la
(pensemos en el desarrollo del sector turístico) pese
economía nacional.
a que en la región a la que me refiero, la gestión
En asociación a estas ideas tienen lugar otras
aplicada a este fenómeno deja todavía bastante que
vicisitudes de carácter programático como la
desear, especialmente en las administraciones de
consideración de la comercialización del patrimonio,
cultura que se han visto superadas en gran medida por
el marketing cultural, etc. Comienza a suceder que
este fenómeno. Podemos concluir parcialmente con
también nuestros países encargan su patrimonio a
Bianchi en que se ha producido un alejamiento entre
gestores empresariales que introducen los conceptos
una operatividad anclada en aquellos presupuestos
de la mercadotecnia al patrimonio. Aunque para
2
26
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CADERNO
muchos políticos y administradores de la cultura esto
orientado por criterios de rentabilización, proceso que,
puede parecerles acientífico, y a veces hasta vulgar, sin
en definitiva, creemos que se debe situar en la estela
embargo recomiendan a sus gestores culturales que
de uno más amplio (en el que estamos inmersos y por
aprendan de ellos, alegando que se corre el riesgo de
ello aún no se vislumbran con claridad sus límites y
“perder audiencia”. La gestión del patrimonio cuenta
rasgos) de transición de un modelo de Estado moderno
de este modo con el respaldo de profesionales de
centrado en la administración de personas a un Estado
comercialización, financiación y estudios sobre
postindustrial centrado en la administración de
preferencia de los visitantes, lo cual de por sí, no nos
recursos y servicios5.
resulta totalmente inadecuado, en tanto y en cuanto
El patrimonio tiene necesariamente dos límites: los
no abandonemos nuestro patrimonio en manos de una
derivados de la propia capacidad de acogida y el riesgo
concepción generalista, abonada de todas las técnicas
de convertir el binomio espacios naturales-patrimonio
del mercado que sean necesarias sino, por el contrario,
en el eje de una economía, cualquiera sea la escala
aboquémonos a una plena concepción humanista de
territorial por considerar, en detrimento de las eco-
nuestro patrimonio, aún a riesgo de no parecer progre-
nomías productivas posibles6.
sistas o “vernos de lleno lanzados a la bancarrota”4.
comienza a desembarcar acríticamente en estas
¿Cuál puede ser entonces
el vínculo apropiado entre el patrimonio
y nuestra sociedad?
latitudes. La necesidad de la puesta al día del debate
El hombre de la sociedad mediática está condenado a
patrimonial desde todas sus perspectivas: investigación,
perseguir simbólicamente la realidad que los simulacros
documentación, intervención y difusión no puede dejar
le ocultan. De ahora en adelante lo único que podrá
de lado esta problemática. Cuando el mercado se
hacer la humanidad es renunciar al deseo moderno de
coloca por encima de las necesidades, la cultura,
dominar el mundo de los objetos. Mientras más
entendida como parte de ese mercado, hace inútiles
información, menos significado. Es de temer que en
todas aquellas empresas que no sean eficaces; así
esta época, la creación de simulacros patrimoniales,
sucede que la investigación histórica pierde valor frente
al introducir nuevos conceptos en la difusión del
a una historia como supermercado de imágenes;
patrimonio dentro de estrategias más ligadas a la
las restauraciones cobran interés en la medida del
comunicación que englobadas en procesos de tutela,
marketing cultural y los centímetros de prensa que
interrumpa o condicione, de forma hasta ahora no
generan; la documentación sólo importa cuando se
evaluada, el necesario contacto del ciudadano con su
digitaliza y puede convertirse en productos interacti-
patrimonio, destruyendo así la dimensión cultural del
vos de distribución masiva, y las disciplinas como
contexto patrimonial.
la museología y las técnicas expositivas ingresan
Desde nuestro trabajo cotidiano y en la planificación de
definitivamente en el campo de la comunicación.
nuestra proyección futura queremos establecer un
Lo que da en llamarse el pensamiento único o el
nexo intelectual con un previsible giro que se viene
proceso de globalización sitúa en primer plano un
produciendo en las instituciones y las políticas
predominio absoluto de la mercantilización de todo
patrimoniales, que supone centrarse en la comunidad
aquello que puede ser mercancía (recordemos lo del
frente al interés por los objetos. Del objeto al sujeto.
“producto patrimonial” tan en boga) como un modo
Ello implica una mayor tendencia hacia la des-
imperativo y que muchas veces queda encubierto por
centralización y territorialización de la difusión del
el concepto de eficacia (donde quizá fuera más
patrimonio, hecho que comienza a tener sus con-
apropiado la eficiencia o lo apropiado). Pero sobre
creciones en nuestra región.
todo ha surgido como consecuencia de esa transición
El patrimonio cultural es la síntesis simbólica de los
paulatina de un modelo de gestión del patrimonio
valores identitarios de una sociedad que los reconoce
guiado por el imperativo conservacionista, a otro
como propios. El Patrimonio constituye un documento
El proyecto de la aplicación de la gestión empresarial
al patrimonio, con todas sus vertientes positivas,
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CADERNO
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excepcional de nuestra memoria histórica y, por ende,
parte misma de su historia y por tanto de su identidad,
clave en la capacidad de construcción de nuestra
y mediadora, porque requiere de una estrategia, de un
cultura, en la medida que nos posibilita verificar
programa y de una técnica y un soporte independiente
acumuladamente las actitudes, comportamientos y
del objeto y ajena al sujeto que la recibe.
valores implícitos o adjudicados de la producción
El tercer peldaño estaría representado por todas
cultural a través del tiempo. Junto a estos testimonios
aquellas herramientas conceptuales y prácticas que
de pasadas espiritualidades, recibimos otra serie de
permiten establecer vínculos afectivos, educativos,
documentos procedentes del campo teórico, filosófico,
lúdicos e identitarios entre el patrimonio y la sociedad.
literario, etc. que complementan tal perspectiva de
Aquí cabe la interpretación, la museografía, la
análisis y comprensión. La espiritualidad de la época
escenificación histórica, las técnicas expositivas, la
que nos toca vivir implica la imposibilidad de definir la
animación cultural, las técnicas educativas no formales,
realidad, producto ésta del resultado de infinitos cruces
la presentación, la puesta en valor y todos aquellas
y contaminaciones de imágenes e interpretaciones
herramientas mediadoras que sirvan a los fines de la
que nos llegan de los medios de comunicación, sin
vinculación del patrimonio y la sociedad.
coordinación y en permanente competencia.
Desde esta perspectiva la interpretación es una
Nos enfrentamos al reto futuro de mantener la difusión
herramienta más dentro de la tarea de vincular el
del patrimonio, en una permanente actualización
patrimonio con la sociedad. Sin embargo el término
ideológica donde prevalezcan los valores humanísticos,
va cobrando peso y protagonismo cada vez más
el compromiso con un desarrollo que no ponga en
destacado dentro de la gestión del patrimonio cultural.
peligro nuestra herencia cultural y que las actividades
que se desarrollen en torno del patrimonio sean un
¿Qué es la interpretación?
factor más de desarrollo social y económico.
Coincidimos con Jorge Morales 8 en que sobran
Si tuviéramos que definir una escala de jerarquías
definiciones al tiempo que existe una marcada ausencia
semánticas en torno a la vinculación del patrimonio y la
de su aplicación concreta por nuestras latitudes.
sociedad estableceríamos primero una política de
Como ya es sabido el término tiene su origen en los
difusión patrimonial vinculada en dos aspectos:
Estados Unidos a finales del siglo
1. Reconocimiento y subordinación a un modelo
declaración de los parques nacionales, y que se hace
territorial.
patente en 1957 con la publicación del libro
2. Reconocimiento y potenciación de una red
Interpreting our heritage, de Freeman Tilden. La
compuesta por: museos, conjuntos históricos y
Interpretación del patrimonio natural y cultural debe de
arqueológicos, archivos y bibliotecas, de la que a su
ser tan antigua como los seres humanos. El hechicero,
vez depende otra en la que se ordenan centros de
los contadores de cuentos, y los ancianos de los grupos
visitantes y de interpretación, espacios expositivos,
tribales transmitían oralmente la historia de su pueblo
oficinas turísticas y puntos de información cultural.
de generación en generación. Antes de que existiesen
XIX
a raíz de la
los libros y otros métodos modernos para grabar
28
El segundo paso sería definir la difusión del patrimonio
historias, estas tradiciones orales eran la base para la
como una gestión cultural mediadora 7 entre el
supervivencia y la evolución de las culturas. En el
patrimonio y la sociedad. Gestión porque implica un
contexto moderno, interpretación es el término usado
proceso complejo que abarca documentar, valorar,
para describir las actividades de comunicación
interpretar, manipular, producir y divulgar no ya el
destinadas a mejorar la comprensión en parques, zoos,
objeto en si, sino un producto comprensible y
museos, centros naturales, y acuarios, con objeto de
asimilable en relación con su pasado histórico y su
crear una actitud favorable a los rasgos que son
medio presente; cultural, porque se opera con la obra
interpretados. La definición proporcionada por Tilden
del hombre, tangible e intangible, pasada y presente,
en su libro clásico, Interpretando Nuestro Patrimonio,
que rodea e influye en el ciudadano de hoy hasta ser
es contemplada por la mayoría de los intérpretes como
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
la definición: “Una actividad educacional (luego dijo
El objeto patrimonial (obras de arte, documentos,
recreativa) que pretende revelar significados y
instrumentos, simples objetos o incluso monumentos)
relaciones a través del uso de objetos originales, por
«expuesto» no habla por sí solo. Hemos tenido que
medio de experiencias de primera mano y de medios
constituirlo (interpretarlo) como objeto patrimonial,
ilustrativos, en lugar de simplemente comunicar
museográfico, de exposición. La interpretación
información basada en hechos”.
interviene en todos los niveles de la investigación
Después del Primer Congreso Mundial de Interpretación
científica y de la comunicación.
en Banff (1985) se consolida el término interpretación del
La mirada sobre el objeto patrimonial suscita siempre
patrimonio frente al de interpretación ambiental hasta
una reacción, una emoción en la persona que lo mira.
entonces utilizado. De todas ellas nos quedamos con
La reacción y la emoción pueden ser positivas – por
la propuesta de la Asociación (Española) para la
ejemplo la admiración – o negativas – la indiferencia.
Interpretación del Patrimonio: “La interpretación del
Más allá de la reacción inmediata, el objeto patrimonial
patrimonio es el arte de revelar in situ el significado del
puede dar pie a un interrogante, a una reflexión, a una
legado natural, cultural o histórico, al público que visita
contemplación que puede potenciar o desencadenar el
esos lugares en su tiempo de ocio”.
contexto y el modo de la presentación. De hecho, la
Esta es la vertiente original de la que luego se derivan
simple exposición es de por si una práctica de interpre-
todas aquellas “interpretaciones de la interpretación”
tación del objeto presentado.
que hoy se evidencian en nuestros territorios y que,
Los instrumentos a través de los cuales podemos
con mejor o peor acierto, han producido una infinidad
entender los objetos patrimoniales, los dispositivos de
de situaciones, muchas de ellas de interesante valor,
presentación y de interpretación son las denominadas
que van desde la señalización de carácter interpretativo
«teorías materializadas». Estas teorías funcionan como
hasta los parques temáticos, pasando por una gran
fichas de lectura que pueden ser revisadas.
variedad de casos que, para ser franco, no terminamos
El pensamiento interpretativo interviene cuando nos
de definir acabadamente y que por extensión son
encontramos en presencia de signos. Estos signos son
denominados centros de interpretación.
ambiguos, a veces por torpeza, aunque en la mayoría
Una segunda vertiente de carácter más teórico pero
de los casos por exceso de riqueza. El pensamiento
con una fuerte componente de fundamentos es la que,
interpretativo se desarrolla entrelazando una presencia
entre otros, nos aporta el profesor Christian Carrier.
y una ausencia – en particular en ausencia, la mayoría
Personalmente considero que es una lúcida aportación
de las veces, del contexto original.
sin dogmatismos y cargada de direcciones claras
Dentro de la realización de los mecanismos de
y concisas que, “bien interpretadas”, nos aportan
exposición, la dificultad principal reside en la diversidad
líneas precisas de actuación en la indefinida tarea
de las tradiciones a las que se refieren los que
de interpretar. Es el mismo Carrier quien, en su
«producen» la interpretación del objeto patrimonial;
conferencia en Baeza , llama la atención sobre los
confrontándolas con las tradiciones de los profanos: los
excesos en los límites del concepto de interpretación y
visitantes...
que son, en parte, el fundamento de mis reflexiones.
El pensamiento interpretativo supone la existencia de
Dice el profesor Carrier: “Interpretar es para el hombre
una cierta tradición”10.
la manera más común de producir un significado.
La democratización de los bienes culturales, las
El presente es siempre el punto de partida para la
demandas de ocio cultural y la necesaria protección del
interpretación del pasado lo que refuerza el vinculo
legado histórico frente a las políticas de comercia-
con el pasado: el objeto patrimonial. Con razón
lización y explotación turística y la decadencia en la
podemos hablar de historicidad de la interpretación.
que se ven sumidas las instituciones del patrimonio
El lenguaje es el «medio» fundamental de la
(al menos desde el punto de vista de la difusión), ha
experiencia interpretativa. Cuando no se utiliza el
favorecido a la interpretación como una alternativa
lenguaje, se hace necesario encontrar un sustituto.
valiosa para la comunicación y el disfrute del patrimonio.
9
29
CADERNO
30
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
Ante ello cabría preguntarnos, ¿qué es entonces un
el tener que encender el audiovisual cada veinte
centro de interpretación? ¿Es correcta esta deno-
visitantes.
minación? ¿Podemos decir que un centro de inter-
La interpretación es una magnífica herramienta de
pretación es, como vínculo patrimonio-sociedad,
vinculación patrimonio-sociedad pero no puede
la materialización del espíritu de la época y la mani-
anteponerse a todas las estrategias de difusión
festación del fracaso de la institución museo?
del patrimonio. Porque el exceso de sus límites
Nuestros países no acabaron de vincular a sus museos
conceptuales y de aplicación desembocan en
en redes territoriales de difusión del patrimonio; no
“productos patrimoniales” no siempre deseables o en
aciertan totalmente a generar políticas de captación de
injerencias en otras disciplinas más apropiadas (orde-
públicos ni se hace factible que todas las técnicas
nación del territorio, planificación, museología, etc).
didácticas, comunicativas e interactivas (que hoy
Esta posición, aparentemente crítica, no tiene de
reclamamos para la interpretación) llegaran a esos
ninguna manera la intención de echar por tierra todos
mismos museos; ni siquiera concluimos una serie
los magníficos aportes que la interpretación aplicada
importante de musealizaciones in situ de yacimientos
a la presentación y difusión del patrimonio trae
arqueológicos, sitios y centros históricos ni, entre otras
aparejados, simplemente que, a raíz del trabajo
acciones, dedicamos todos los esfuerzos necesarios
compartido con un grupo de profesionales del campo
para aggiornar la museología en general cuando, sin
del diseño y realización de productos expositivos y
más, adoptamos el centro de interpretación, la red de
divulgativos y de mi particular situación laboral en
centros de interpretación, el plan de interpretación, a
la administración de cultura en Andalucía, es una
mi entender sin toda la necesaria reflexión crítica sobre
necesidad imperiosa la de reflexionar acerca de las
las consecuencias que tal proceso traerá aparejado
consecuencias de nuestro trabajo (consecuencias que
para la difusión de nuestro patrimonio.
no son todavía bien evaluadas en cuanto a receptividad
Plantear una complementariedad apropiada entre
y respuesta de los visitantes) y la necesaria vinculación
nuestro museo tradicional y un centro de interpre-
de estas ideas con las instituciones del patrimonio por
tación es deseable, pero no deja de ser también una
las que no termina de apostarse como piezas claves en
especie de competencia, algo así como una carrera
la difusión patrimonial.
entre dos hombres con excelentes ideas pero que uno
Merece un párrafo especial el papel de la etnografía en
de ellos (el museo) lleva puesta una armadura.
un proceso de difusión. La presencia de un repertorio
¿Cuál es la escala apropiada de un Centro de
etnográfico de elementos no materiales como los
Interpretación, cuál debe ser su vinculación deseable a
cuentos, las leyendas, las danzas, las costumbres
una institución del patrimonio que oficie de red básica
consuetudinarias, etc., tan interesantes y sugestivos
de difusión?
como pueden serlo las obras artesanales, las casas
El Centro de Interpretación podrá tener la actualiza-
tradicionales o los trajes populares y, del mismo modo,
ción adecuada en materia expositiva, comunicativa
el escaso valor económico de la mayoría de estas
e interactiva y además la ventaja que produce el
últimas piezas, son hechos que establecen una posición
descompromiso frente a la investigación posterior al
de desventaja respecto a su conservación, si las
montaje y la conservación de las piezas (muchas, sino
comparamos con los bienes pertenecientes al
todas, serán reproducciones); tendrá la seguridad de
patrimonio histórico y más aún al artístico.
no poseer una colección que catalogar, investigar,
Dos son, al menos, los factores que no deben olvidarse
conservar, restaurar y contextualizar; la tranquilidad
a la hora de comprender y proteger dichos bienes: de
de no poseer fondos, de carecer de gabinetes
una parte, su pertenencia a un contexto, a un entorno,
pedagógicos, departamentos varios y una admi-
a un conjunto de manifestaciones diversas secular-
nistración presupuestaria que no supone más que la
mente establecido; de otra, su carácter funcional,
problemática del mantenimiento y el cobro de entradas
su “servir para algo”. Cuando desaparece alguna de
(suponiendo que no sea gratuito) y probablemente
estas circunstancias, y más aún si coinciden las dos,
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CADERNO
su pérdida es casi siempre segura e irreversible. De aquí
requisitos básicos e imprescindibles en cualquier
que el apoyo a los oficios y actividades artesanales
proyecto museográfico que raras veces se toman en
repercuta directamente en la conservación de los
cuenta en el caso de las colecciones etnográficas.
utensilios propios de esos laboreos; que los incentivos a
Un museo no es sólo un lugar donde se exponen
la vivienda rural (por supuesto, bien planificados)
piezas valiosas: las actividades encaminadas a su
redunden en la salvaguarda de las construcciones
difusión como actividades temporales, publicaciones,
tradicionales y los conjuntos rurales; por último, que el
debates, conferencias, etc. son igualmente indispen-
impulso a las manifestaciones populares festivas y
sables. Como anillo al dedo nos viene, para terminar, la
rituales promuevan los valores solidarios y colectivos de
célebre frase que sentencia: “la verdadera riqueza del
una Comunidad.
patrimonio de un pueblo no está en sus monumentos,
Cuando, por diversos motivos, ocurre una lenta
sus obras artísticas o su saber colectivo, sino en la
desaparición de los factores citados (y algún otro),
capacidad de ese pueblo en saberlo valorar”11.
los testimonios materiales de esa cultura en vías de
El exceso en los límites de la interpretación produce
extinción pasan a ser objetos susceptibles de formar
también propuestas de ocio recreativo teñidas de
parte de las colecciones de un museo. En este sentido,
“cultura”, luego, “las transgresiones que se pueden
la proliferación de lugares de recogida y exhibición de
realizar por la vía de la simulación, son más graves que
piezas pertenecientes al mundo rural es, últimamente,
las violencias materiales, que sólo afectan a lo real.
más que notoria. Toda población, por pequeña que
La simulación es infinitamente más poderosa, ya que
sea, aspira a tener su propio “museo” – mal llamado
permite ir más allá de la realidad y hacer imaginar que
etnográfico – donde mostrar una colección de objetos
«el orden y la ley mismos podrían muy bien no ser otra
antiguos y pintorescos a los ojos del visitante, sin
cosa que simulación». Disneylandia, valga el ejemplo,
mayor pretensión que atraer su curiosidad. Esto, que
es para Baudrillard un modelo perfecto de todos los
en principio puede ser considerado como algo legítimo
órdenes de simulacros entremezclados. Su carácter
y, en muchos casos, digno de elogio, plantea varias
infantil es lo que permite ocultar que el verdadero
cuestiones que deben hacernos reflexionar.
infantilismo está en todas partes. Es en la ausencia de
Generalmente, las colecciones a que nos referimos
lo real donde está el problema del mundo. En una
son reunidas por personas que, sin las debidas
hiperrealidad sin referentes, lo peligroso es la implosión
orientaciones, planean, realizan y, casi siempre,
del sentido que provoca la simulación. La pérdida de
mantienen a su costa las necesidades básicas de la
realidad que conlleva la precesión de los simulacros
instalación. También, en muchas ocasiones, esta buena
envuelve en su sombra aniquiladora todos los
voluntad adolece de una falta de criterio en la
acontecimientos imaginables”12.
catalogación y exhibición de piezas, que unido a una
“Repentinamente me pareció comprender. Creí
absoluta ausencia de documentación sobre el contexto
comprender el atractivo seductor que tenía ese
de las mismas nos lleva, en el mejor de los casos, a
espectáculo en su conjunto, creí comprender el secreto
comprender la infortunada frase acerca de estos y
de la fascinación que ejercía sobre aquellos que se
otros denominados “museos”, que asegura que “visto
dejaban atrapar por él: el efecto de realidad, de
uno, vistos todos”. Cada vez se hace más necesaria la
sobrerrealidad que producía aquel lugar de todas las
promoción de instituciones debidamente dotadas de
ficciones. Vivimos en una época que pone la historia en
personal cualificado y medios técnicos, que asesoren a
escena, que hace de ella un espectáculo y, en ese
quienes presenten propuestas serias. Una cuidada
sentido, desrealiza la realidad, ya se trate de la Guerra
selección de piezas a la hora de formar colecciones
del Golfo, de los castillos del Loira o de las cataratas
permanentes, un montaje que acentúe el lenguaje
del Niágara. Esa distancia para crear el espectáculo
callado que siempre se entabla entre el espectador
nunca es tan notable como en los anuncios publici-
y la obra, así como una atención especial a las
tarios de turismo, los cuales nos proponen tours una serie
características peculiares de cada una de ellas, son
de visiones «instantáneas» que nunca tendrán más
31
CADERNO
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
realidad que cuando, al regresar del viaje, las «volvemos
plan al que ya dijimos que debía subordinarse una
a ver» a través de las diapositivas cuya vista y exégesis
política de difusión del patrimonio en el territorio.
impondremos a unos circunstantes resignados” .
No deberíamos creer que la interpretación aplicada
En otro orden también me preocupa todo posible
a un yacimiento o un conjunto de bienes cultura-
alejamiento de la participación efectiva del ciudadano
les en un territorio dado puede generar per se una
respecto de su patrimonio y que la generación de
oferta de servicios “complementarios” como hote-
productos mediadores no aleje y descomprometa aún
les, restaurantes, locales comerciales, transportes,
más a la sociedad de su responsabilidad frente a la
comunicaciones. Quizá sea más correcto pensar que la
conservación de su legado cultural y natural y que, de
ordenación del territorio vendrá a por nosotros y nos
por sí, ni un museo ni un centro de interpretación
dirá dónde será más apropiado generar una oferta
pueden lograr si no se acompaña de políticas de
patrimonial, teniendo en cuenta objetivos generales de
vinculación, concienciación y difusión de propuestas
desarrollo y cohesión social del territorio.
participativas.
Debemos comprender la necesaria relación con el
13
territorio como base de la organización espacial de la
32
Interpretación y territorio
cultura. Para ello es prioritario:
Paralelamente también comienza a asociarse la
• Desarrollar la articulación física del territorio.
interpretación con propuestas de desarrollo regional
• Servir de referencia y favorecer un desarrollo
que tienen al patrimonio como eje de su actividad: el
económico solidario, equilibrado y sostenible.
plan estratégico de interpretación. ¿Qué es un plan
• Contribuir al incremento de la calidad de vida, el
estratégico de interpretación? ¿Puede hablarse de un
bienestar social y el uso sostenible de los recursos
plan estratégico de interpretación, cuando muchas
naturales y culturales.
veces se alude a una red de centros de interpretación
• Contribuir al desarrollo y aprovechamiento de las
vinculados temáticamente?
capacidades y valores propios del conjunto de la región
Quizá sería apropiado adoptar lo que se denomina
y de cada una de sus partes.
planificación interpretativa14, se trata de un proceso
La generación de un modelo territorial es una
racional de formulación de objetivos, análisis del
interpretación de la realidad que tiene una finalidad
recurso y sus potencialidades (y limitaciones), análisis
utilitaria muy concreta: servir de guía orientadora para
de los virtuales usuarios, definición de los mensajes a
la formulación de estrategias específicas de actuación
transmitir, elección de los medios de interpretación
en cada parte del territorio. No es esta la misma
y definición de los equipamientos y servicios
interpretación que aplicamos a la necesaria difusión del
interpretativos necesarios, recomendaciones para la
patrimonio.
ejecución de programas (personal, obras), y sugeren-
Un modelo territorial se basa sobre todo en la historia
cias para evaluar la efectividad de la intervención. El
reciente del territorio y se sustenta en experiencias,
resultado de este proceso es un Plan de Interpretación.
interpretaciones y propuestas diversas ubicadas en
Que puede ser aplicado para un territorio como para un
parámetros temporales anteriores. Pone el acento en
yacimiento o un parque natural.
identificar estructuras territoriales tanto de escala
La interpretación es un proceso interdisciplinar para
intermedia o supramunicipal como regional. Parte del
dar a conocer, hacer accesible y explicar el sentido y
reconocimiento de la diversidad del territorio y que
el significado de procesos naturales o culturales
dicha diversidad no debe ser entendida como un factor
complejos. Por tanto no puede ser nunca un
negativo para la consolidación de un espacio común e
instrumento de planificación dentro de estrategias de
integrado, sino como una cualidad que debe ser
desarrollo territorial.
valorada y aprovechada para el logro de los objetivos
Creemos que es quizá demasiado ambicioso estirar el
propuestos.
término de interpretación hasta los límites claros de lo
Caben algunas preguntas de orden estructural para la
que se denomina Plan de ordenación del territorio,
comprensión de qué lugar ocupa la política cultural en
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
un modelo territorial: ¿está presente la administración
Este es, a mi entender, el marco apropiado para
cultural en el proceso de ordenación del territorio?
insertar una política de difusión cultural asociada al
Si la respuesta fuera negativa: ¿es que se la margina
desarrollo y que sin duda tendrá, en la interpretación
por parte de otros sectores competenciales, o
una metodología y una forma de actuar comple-
sencillamente no participa ni exige tal participación?
mentaria a otras muchas acciones y metodologías del
Tres términos interrelacionados, configuran una
mundo de la cultura.
correcta política de ordenación del territorio: principios
(orientación), referencias (estructuras territoriales) y
La interpretación y la administración local16
estrategias.
Hemos decidido prescindir de las habituales definiciones y adentrarnos en cuestiones de una índole
Principios
que, en general, no trascienden más allá del ámbito de
• Consideración de la diversidad natural y cultural y
la realidad cotidiana de aquellos que nos enfrentamos
aprovechamiento de los potenciales endógenos.
al reto de pensar, programar y producir un centro de
Identificación de oportunidades de relación e inte-
visitantes, un centro de interpretación, un ecomuseo,
gración.
una exposición temporal o cualquier otro producto
Formas de organización territorial.
patrimonial que tenga por objetivo brindar al visitante
Capacidad de los territorios para afrontar sus propias
una explicación más o menos científica de un proceso
estrategias de organización interna.
natural o cultural muy complejo.
• Uso sostenible de los recursos.
El grupo de profesionales, siempre heterogéneo, que
Identificación de relaciones ecológicas que sustenten el
es contratado para la resolución de un centro de
orden territorial propuesto.
interpretación (tanto más heterogéneo como
Reflejar las relaciones e implicaciones ambientales
importante sea la envergadura del proyecto) se
globales de cada elemento y cada sistema.
enfrenta a una serie de vicisitudes que será importante
Repercusión de ambos en los ciclos de renovabilidad
exponer y clarificar para hacer de nuestra práctica
de los recursos naturales y en la preservación del
laboral un motivo de reflexión y debate que sirva al
patrimonio cultural.
conjunto de profesionales, estudios y empresas
Reconocimiento de la dependencia que tienen los
abocadas a estas tareas.
procesos de desarrollo económico respecto de la
El primer tema que abordaremos es la ausencia, en
gestión de recursos naturales y patrimoniales.
nuestro país, de una tradición de reflexión teórica que
Orientación hacia la reutilización y reciclaje de recursos.
obliga a los profesionales que trabajamos en el tema, a
Compatibilización entre los procesos de desarrollo
una búsqueda empírica de modelos teóricos y pautas
urbano y de las actividades productivas y la gestión
metodológicas e instrumentales, sustentados
sostenible de los recursos naturales y patrimoniales.
generalmente, además de una prolífica bibliografía en
• Cohesión social.
inglés y francés, en la lectura y visita de proyectos
• La cooperación como base del desarrollo y dicha
realizados en países con mayor tradición en este arte
cohesión social.
de dar a conocer, hacer accesible y explicar el sentido
Mayor eficacia en la gestión territorial.
y el significado de nuestro patrimonio natural y cultural.
Estrategias de cooperación para la superación de
Debemos comprender que las técnicas de interpre-
desigualdades.
tación en nuestros medios, y aclaramos que no nos
Cooperación entre componentes con mayor opor-
referimos aquí a las estrategias de educación ambiental
tunidad de integración competitiva en el exterior.
no formal, son disciplinas híbridas, carentes hasta
Cooperación entre sistemas intermedios para articular
ahora de formación curricular específica, basadas en
y equilibrar el todo (red de ciudades medias).
una actitud posmoderna de fragmentaciones científicas
Cooperación supramunicipal para su integración en el
diversas y recompuestas en un collage metodoló-
resto del espacio regional15.
gico donde se dan cita, entre otras, la semiótica,
33
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
34
la comunicación, la museografía, el diseño, el
natural y cultural con la sociedad es una tarea que no
marketing cultural, pero sobre todo ello un profundo
atañe a un solo agente cultural sino a una gran
espíritu de renovación y buenas intenciones.
diversidad de agentes tanto de la esfera pública como
Lo preocupante no es la sana y reflexiva expe-
de la privada. Valga este intento de sistematización de
rimentación, sino las carencias en materia de con-
esos agentes:
textualización de nuestro trabajo a las pautas sociales
• Agentes Interpretativos: son los principales
y culturales locales producto de una rápida y acrítica
agentes culturales en la materia y extremadamente
adscripción a todo lo que nos llega desde fuera en esta
específicos – y por ende insustituibles – ya que es a
materia. Sobre todo cuando esa ausencia de reflexión
través de ellos donde el proceso de encuentro, mediato
de la que hablamos se motiva en el mero hecho de no
o inmediato, entre el Patrimonio y el ciudadano se
resultar suficientemente progresistas y actualizados de
hace efectivo. Son los museos, conjuntos históricos o
cara a nuestros medios profesionales.
arqueológicos y los centros de interpretación.
Deberíamos poner en duda o al menos confrontar
• Agentes Educadores: son quienes en el proceso de
modelos de acción entre los ejemplos que se realizan
contacto entre el ciudadano y el Patrimonio median a
en otros países y nuestra realidad socio-cultural, tanto
través de técnicas o representaciones y que tienen
a nivel nacional como para cada una de nuestras
siempre como principal objetivo el carácter didáctico
comunidades autónomas.
de ese encuentro. Son los museos, archivos,
La poca actividad de crítica y debate sobre la inter-
bibliotecas, colegios, centros asociativos, gabinetes
pretación aplicada al patrimonio cultural y natural
pedagógicos, etc.
implica también un pobre trabajo de discusión inter-
• Agentes Mediáticos: son principalmente agentes
disciplinar
diseñadores,
culturales que pueden o no tener una dedicación
arqueólogos, etnólogos, museógrafos, historiadores,
exclusiva al mundo del Patrimonio pero que en su
biólogos, geógrafos, etc. lo que se traduce en colocar
definición básica se incluye el proceso mediático de
a la técnica en sí por delante de toda otra
espectador-espectáculo. Son las salas de exposiciones,
problemática, idealizándola como panacea de la
museos, parques temáticos, cines, teatros, bibliotecas,
difusión cultural, situación que se refleja en frases
sectores de la ciudad, espacios públicos, etc.
del tipo: “la interpretación es un instrumento
• Agentes Informativos: Son agentes de divulgación
fundamental para la definición de políticas de
del Patrimonio en sí y de todas aquellas actividades
intervención y uso social del patrimonio, y la base
de difusión que pudieran realizarse. Tienen la
para el desarrollo de políticas de comercialización y
particularidad de ser siempre mediáticos y tener la
explotación turísticas”.
posibilidad de acceso prácticamente a toda la sociedad.
A nuestro entender la interpretación es una técnica
Son la televisión, radios, prensa, carteles y folletos,
más de una serie importante entre las que se incluyen
oficinas de información pública, etc.
la presentación, la nueva museografía, la puesta en
• Agentes Participativos: son agentes culturales
valor, las técnicas expositivas, la animación y hasta el
concretos o acciones diversas que permiten no tan sólo
marketing cultural. No podemos poner el carro delante
el disfrute del Patrimonio por el ciudadano sino que lo
del caballo: primero están las políticas culturales, las
involucran y lo animan a participar activamente en el
de investigación, documentación y difusión del
acto de difusión. Son los gabinetes pedagógicos, visitas
patrimonio, su planificación y gestión y luego, en los
guiadas, monitores socioculturales, fiestas, concursos,
casos adecuados, la interpretación.
debates, manifestaciones y protestas públicas, jornadas
Es necesario ubicarnos en una correcta posición dentro
de puertas abiertas, etc.
del amplio campo del patrimonio para no arrogarnos
• Agentes Comercializadores: son aquellos que, al
tareas y decisiones que corresponden a instancias de
margen del proceso de interpretación, comunican
gestión patrimonial en su conjunto. Debemos
y comercializan el “producto patrimonial” que consiste
reconocer que la tarea de vincular el patrimonio
en dar a conocer y facilitar el acceso a la oferta
entre
arquitectos,
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
cultural. Son las oficinas de turismo, agencias de viaje,
Cabe exigirnos prudencia, actitud crítica y con-
tiendas especializadas, publicidad, etc.
textualista frente a nuestros particularismos culturales; responsabilidad, predisposición docente y
Otro tema por tratar es el de nuestras relaciones como
sentido crítico frente a nuestras administraciones.
expertos con las administraciones para las cuales
Sobre todo porque históricamente han sido las
solemos trabajar. En el más alto rango (ministerios,
periferias – en aras del “progreso” – campos de
consejerías) nos encontramos con interlocutores con
experimentación de nuevas ideas surgidas, a veces con
un alto nivel teórico, una actualizada información y un
demasiada prisa, en los centros de producción cultural
manejo de casi todas las claves de un léxico y una
y no suficientemente contrastadas.
ideología fuertemente impregnada de los últimos
La aplicación de estas “nuevas” disciplinas a un sector
conocimientos de la materia, y por tanto con niveles de
cada vez más significativo de nuestro patrimonio
exigencia teórica muy altos. Niveles que comienzan a
(al menos en la redacción e intenciones de los
ser conflictivos a la hora en que, una vez publicado el
proyectos) es una realidad tangible. Un poco
concurso o realizada la invitación a participar en el
irreflexivamente y con más voluntad de actuar que
desarrollo del proyecto, son confrontados con la
debatir modelos y reflexionar pautas de adecuación, un
necesaria viabilidad que todo proyecto tiene que tener
potencialmente creciente número de profesionales
para cumplir con sus fines sociales y culturales.
intentan procesos interpretativos en cultura y medio
Muchos técnicos de nuestras administraciones saben
ambiente.
de, pero ignoran cómo.
En este proceso será necesario, primero, tender un
En otro extremo del espectro de las relaciones
puente entre la museología y estas renovadas formas
contractuales para la definición de un proyecto
de comunicación, segundo, generar un espacio
encontramos a la administración local, figura que en
dedicado a la crítica, que permita ajustar, corregir,
muchos casos se personifica en el alcalde y una serie
evolucionar desde el punto de vista discursivo y técnico
de progresistas y avanzados asesores que impulsan la
expositivo y, sobre todo, recrear para dar respuestas
realización de centros de interpretación por muchos
acordes y viables desde el punto de vista teórico,
más motivos que los necesarios para su fin social. En
ideológico y económico. Si se presume de innovación,
este ámbito el grupo profesional se encuentra ante una
integración, complejidad, emotividad, se debería estar
demanda muy concreta, con necesidades de orden
atento, dentro de la misma dinámica disciplinar, a los
social, cultural y hasta político concretas, reconocidas y
mecanismos de producción donde pretenda inscribirse
sufridas a veces desde hace años. Es el caso entonces
la interpretación del patrimonio.
de técnicos y políticos que saben el qué, pero
La escala de un proyecto de interpretación y su relación
desconocen, y mucho, el cómo.
con la oferta cultural del contexto en el que se inscribe
El grupo profesional se ve en muchos casos atrapado
(barrial, municipal, comarcal, regional) es, a nuestro
entre estas dos realidades, muy exigido a nivel teórico
entender, un tema clave, no ya para el éxito de nuestro
pero huérfano de ideas claras y concretas de qué
trabajo, sino para una correcta vinculación del patri-
demanda y cómo satisfacerla por un lado, y muy
monio y su comunidad.
acotado en cuanto a necesidades y concreciones
Existe un denominado proceso interpretativo que va
pero imposibilitado de mantener un diálogo sobre
desde la contextualización de un objeto (original o
cuestiones que es imprescindible compartir.
copia) en el marco de la nueva mueseografía hasta la
Desde una perspectiva profesional debemos actuar a
propuesta de un plan de interpretación de un territorio
partir del análisis y debate conjunto entre profesionales
o una comarca geográfico-cultural. Es imposible
y los diferentes rangos de nuestras administraciones
pretender generar programas metodológicos unitarios
acerca de la complejidad de estrategias aplicables a
que abarquen toda esta problemática.
la difusión e interpretación del patrimonio natural
¿Qué lugar ocupa la participación ciudadana en todo el
y cultural.
proceso de difusión del patrimonio?, ¿sólo existe un
35
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
proceso unidireccional?, ¿qué opinan los protagonistas
podían o no descubrir su patrimonio para arribar a
del vínculo patrimonio – sociedad? Democratización
propuestas superadoras donde la gestión cultural
cultural no es lo mismo que democracia cultural. No se
muestre, interprete y eduque desde el patrimonio a
trata de promover la participación de la gente para
una sociedad que reclama cada vez más un ocio
asegurar el éxito de la ejecución de un plan de difusión
creativo y gratificante. La vinculación del patrimonio y
del patrimonio, sino de que participe porque este es un
la sociedad requiere de un entramado de esfuerzos
derecho en una democracia viva y real. Una auténtica
tanto de gestión como de innovación, un proceso de
participación se configura, no a partir de un hacer o
carácter territorial y coordinado que supere las barreras
intervenir sugerido o manipulado desde afuera, sino
impuestas por los históricos desencuentros entre las
haciendo y sugiriendo en todo aquello que le
administraciones en todos sus niveles.
concierne.
Para ello se hace imprescindible una tarea abierta
El éxito a largo plazo de una política de conservación
en más de un frente: el conocimiento y valoración
del patrimonio se basa antes que nada en la educación
de nuestra herencia, a través de un inventario de
del público. Cuando el público está bien informado e
recursos patrimoniales; el conocimiento de las
interesado, todo se hace posible: los políticos se
demandas de nuestra sociedad, reconociendo pautas
muestran sensibles, las políticas adquieren flexibilidad
de conducta y hábitos culturales ligados al patri-
y nuestro ambiente histórico/natural aparece lo sufi-
monio; la generación desde ambos conocimientos de
cientemente valioso para merecer protección.
una serie de indicadores patrimoniales, como
herramientas de planificación y diseño de las políticas
Final
y las estrategias globales para abrir, incitar y facilitar
Andalucía, como casi toda el área mediterránea puede,
de forma democrática el patrimonio a todos sus
sin lugar a dudas, presumir de raíces, de historia, de
ciudadanos.
herencia cultural excepcional. El reto que nos espera a
Al final de este camino se encuentra la posibilidad
las puertas del nuevo milenio no es ya legislar y
de generar un modelo, científicamente válido y
conservar, sino hacer que ese legado y sus gentes y las
socialmente adecuado, de vinculación entre la sociedad
gentes que nos visitan (muchas de ellas justamente
y su legado patrimonial. Modelo amplio, flexible,
por eso), disfruten y comprendan el patrimonio,
ajeno a dogmatismos y manipulaciones ideológicas
para sí mismos y como sustento invalorable de su
que favorezca la comprensión, la asimilación y la
preservación. Para ello se necesita más innovar que
identificación del ciudadano con su herencia cultural,
“progresar”. Porque innovación implica un cambio
pero sin estrecheces históricas ni imposiciones
sin romper con el pasado, frente a un puro ir hacia
mediáticas que lo alejen de su propia interpretación del
delante, que muchas veces no nos lleva a ningún sitio.
pasado. Una tarea compleja que ayude a enamorar y
Nos sobran raíces y nos faltan alas. Alas para despegar
disfrutar del patrimonio como premisa indiscutible de
de situaciones anquilosadas en las que los ciudadanos
una genuina defensa y preservación.
1
En particular pueden consultarse: AA.VV., Modernidad y Posmodernidad en América Latina. Estado del debate, Ed. Escala, Bogotá, Colombia,
1991. FERNÁNDEZ COX, Christian, Arquitectura y Modernidad Apropiada. Tres aproximaciones y un intento, Taller América, Santiago de Chile, Chile, 1990.
2
Seminario Internacional “Los Institutos de Patrimonio y su papel en el próximo milenio”, Sevilla, 12 al 14 de abril del 2000, Instituto Andaluz del
Patrimonio Histórico.
36
3
Sandro Bianchi, párrafo extraído de la transcripción hecha por el autor de su conferencia. En prensa.
4
RODRIGUEZ TEMIÑO, Ignacio, “La tutela del patrimonio histórico de la modernidad a la posmodernidad”, PH Boletín del IAPH, n.º 23, junio de 1998.
5
CRIADO BOADO, Felipe, “Manifiesto a favor de un programa de I+D en patrimonio cultural”, en www.seui.mec.es
6
RUBIO DÍAZ, Alfredo, “El patrimonio como laberinto y paradoja”, PH Boletín del IAPH, n.º 25, diciembre de 1998.
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
7
CADERNO
MARTÍN, Marcelo, “Reflexiones en torno a la difusión del patrimonio histórico”, en AA.VV., Difusión del Patrimonio Histórico, Colección Cuadernos,
Vol. VII, Junta de Andalucía, Consejería de Cultura. IAPH, “Sobre el necesario vínculo entre el patrimonio y la sociedad. Difusión del Patrimonio y
otros conceptos”, en Areté, n.º 8, Asociación Española de Gestores de Patrimonio Cultural, Madrid, 1999. “El espíritu de la época. Modernización o
posmodernización del vínculo entre el patrimonio y los ciudadanos”, en PH Boletín del IAPH, n.º 25, diciembre de 1998.
MORALES MIRANDA, Jorge, “La interpretación del patrimonio natural y cultural: todo un camino por recorrer”, en PH Boletín del IAPH, n.º 25,
8
diciembre de 1998. Guía práctica para la interpretación del Patrimonio, Junta de Andalucía, Consejería de Cultura, Sevilla, 1998.
9
IV Jornadas Andaluzas de Difusión del Patrimonio Histórico, organizadas por el Servicio de Investigación y Difusión del Patrimonio Histórico,
DGBC,
Consejería de Cultura, Junta de Andalucía, Baeza, de 18 al 20 de noviembre de 1998.
10
11
CARRIER, Christian, “Teoría y prácticas de la interpretación”, en PH Boletín del IAPH, n.º 25, diciembre de 1998.
SANCHEZ
DEL
B A R R I O , Antonio, Subdirector del Centro Etnográfico Joaquín Díaz, “Patrimonio etnográfico y museos”, en
www.dunet.es/webs/ical/asbarrio.html
12
MAFFESOLI, Michel, “La socialidad en la posmodernidad”, en AA.VV., En torno a la posmodernidad, Ed. Anthropos, Barcelona, 1994.
13
AUGÉ, Marc, “Un etnólogo en Disneylandia”, en El viaje imposible, Ed. Gedisa, Barcelona, 1998.
14
MORALES MIRANDA, Jorge, “La interpretación del patrimonio natural y cultural: todo un camino por recorrer”, en PH Boletín del IAPH, n.º 25,
diciembre de 1998.
15
Servicio de Planificación Regional y Grupo Entorno, SL, Plan de Ordenación del territorio de Andalucía. Bases y Estrategias, Junta de Andalucía,
Consejería de Obras Públicas y Transportes, Sevilla, 1999.
16
Este apartado fue redactado originalmente para la ponencia “Un proceso de creación de nueva oferta de Centros de Interpretación en Andalucía:
once proyectos en la provincia de Cádiz” presentada por Grupo Entorno SL y Marcelo Martín en las I Jornadas de Centros de Interpretación,
organizadas por el Museu de la Ciencia i de la Tecnica de Catalunya, Terrasa (Barcelona), 28 al 30 de octubre de 1999.
37
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
Patrimonio y Territorio: una reflexión
sobre los proyectos de puesta
en valor del patrimonio
Manel Miró Alaix
Jordi Padró Werner
Stoa, propuestas culturales
y turísticas (Barcelona)
[email protected]
s evidente que el patrimonio cultural y natural no
E
Ante este conflicto y en relación con los proyectos
está aislado del contexto socioeconómico y terri-
de puesta en valor del patrimonio, caben diferentes
torial, sino que está absolutamente interrelacionado
posicionamientos. En la Península Ibérica no existe una
con el resto de actividades humanas. Por ello, hay que
tradición de reflexión teórica sobre los modelos de
huir de las actuaciones en patrimonio que se planteen
puesta en valor del patrimonio, lo que no significa que
de forma aislada y descontextualizada, al margen de la
no existan o que no se apliquen diferentes modelos.
sociedad.
En la actualidad podemos encontrar ejemplos de,
Desde este punto de vista, una de las principales
básicamente, tres modelos:
cuestiones a las que se enfrenta hoy en día el patrimonio
1. El modelo “hagamos tabla rasa del pasado” parte de
cultural y natural en la Península Ibérica tiene que ver con
la idea que el crecimiento y el desarrollo del territorio
el cambio en los usos de ese patrimonio y, como
no puede estar hipotecado por unos vestigios del
consecuencia de ello, con la transformación experi-
pasado que han perdido su utilidad, en este escenario
mentada en su valor simbólico, social, cultural...
aquello que no sirve puede ser aniquilado. Muchas
Hoy en día, por ejemplo, la pregunta cómo conservar
zonas costeras son un claro ejemplo de este modelo de
el patrimonio entendemos que debe ser sustituida
desarrollo hecho a base de quemar territorio y destruir
por otra más dinámica, más relacionada con el
recursos. En este modelo el patrimonio, como mucho,
verdadero problema del presente que es el cambio, la
llega a ser considerado un elemento decorativo.
transformación. Dicho de otra manera, la pregunta a
la que nos enfrentamos es ¿qué papel debe jugar
2. Existe un segundo modelo que podemos denominar
el patrimonio cultural y natural en una sociedad
“joya de la corona” porque plantea la puesta en valor
cambiante como la nuestra? La respuesta a esta
del patrimonio desde una óptica de “prestigio”. Este
pregunta pasa, primero, por interrogarse sobre la
modelo, muy utilizado, implica una visión “estrecha” y
función de la interpretación del patrimonio y el papel
“anticuarista” del patrimonio. Por ejemplo, si se trata
del intérprete-planificador en un escenario plagado de
de desarrollar el turismo cultural en un centro histórico,
tensiones sociales a escala planetaria debido a la
se elige el monumento más famoso y conocido y se
globalización de la economía: consumismo frente a
actúa sobre él, sin tener en cuenta el entorno social en
pobreza, desarrollismo frente a sostenibilidad, escaso
el que está inmerso. También, dentro de este modelo,
desarrollo del pensamiento crítico, crecimiento de la
podríamos citar los numerosos proyectos de puesta en
xenofobia, profundización en las diferencias entre
valor del patrimonio que obedecen a una lógica de
un norte cada vez más desarrollado y un sur más
prestigio político. Por ejemplo, los proyectos que sirven
empobrecido...
sólo para ganar unas elecciones.
Todas estas tensiones sociales con que inauguramos
38
el siglo XXI se reflejan, en el que se plantea como uno
3. Finalmente, existe un tercer modelo que debido a la
de los principales conflictos actualmente de nuestro
incertidumbre sobre sus verdaderas posibilidades
mundo: el del uso y abuso de la ocupación del
(es un modelo joven, por desarrollar) hemos bautizado
espacio.
con el nombre de “terra incognita”, una expresión
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
latina utilizada por los cartógrafos medievales para
habitado, en continuo movimiento y transformación,
designar aquellos territorios cuya existencia se suponía
compuesto de centros de interpretación, monumentos,
pero no habían sido explorados. “Terra Incognita” es
itinerarios señalizados... A diferencia, no obstante, de
una metáfora que ilustra la vocación de explorar
muchos museos al aire libre, el Territorio-Museo no
nuevas vías de conocimiento y uso del territorio, es
está situado en un recinto de uso exclusivo, delimitado
decir, de descubrir nuevos valores en la relación con el
por una barrera física (no es un parque acotado), sino
territorio que habitamos y explotamos, desde una
que pretende integrar la vida cotidiana del territorio y
perspectiva de desarrollo sostenible.
de sus habitantes. Por tanto es fundamental facilitar al
1
usuario (sea visitante o residente) los instrumentos que
Ligado a este tercer modelo y para responder de
le ayudarán a situarse, a ver y aprender aquello que le
manera concreta a la pregunta que nos formulába-
ofrece el territorio.
mos anteriormente, es decir, ¿qué papel debe jugar
• Por otro lado, y esta es la novedad metodológica
el patrimonio cultural y natural en una sociedad
más importante, lo utilizamos para designar a una
cambiante como la nuestra? hemos desarrollado el
“estructura organizativa”, capaz de liderar un
concepto de “territorio-museo”.
proceso de desarrollo sostenible, encargada de la
Este concepto, heredero de los planteamientos
gestión del uso del patrimonio y dedicada a la
originales de los ecomuseos franceses y de la tradición
aplicación de una estrategia de interpretación del
anglosajona de la interpretación del patrimonio, parte
territorio cuya elaboración debe ser el aspecto
de una reflexión previa sobre los valores que puede
metodológico central de cualquier proyecto de puesta
aportar el patrimonio a la sociedad contemporánea:
en valor del patrimonio.
• Valor identitario: el patrimonio puede actuar o actúa
como elemento generador de imagen y de identidad
Como espacio de ocio cultural, el Territorio-Museo
territorial.
sirve para articular bajo un marco conceptual común,
• Valor económico: la puesta en valor del patrimonio
el concepto clave de interpretación, las diferentes
puede generar nuevas oportunidades de negocio y, por
temáticas y recursos presentes en todos los territorios.
tanto, convertirse en un yacimiento de empleo y una
El despliegue temático de un concepto interpretativo
nueva fuente de ingresos para el territorio.
sobre el territorio da como resultado una especie de
• Valor social: el desarrollo de un proyecto de puesta en
museo abierto en el que los objetos y los conceptos se
valor del patrimonio puede contribuir a mejorar la
presentan en su contexto social y en su entorno físico
calidad de vida de la población.
original.
Entendemos que el concepto de “territorio-museo”
Fruto de esta reflexión desarrollamos el concepto
puede ser especialmente atractivo en una propuesta
“territorio-museo”, no con la intención de concebir el
que pretende difundir la idea de “marca-territorio”
territorio como una reserva, sino al contrario, lejos del
en diferentes mercados (ocio, turismo, cultura,
espíritu enciclopedista, entenderlo como un espacio
gastronomía...) al permitir optimizar el conjunto de
vivo de la memoria, de una memoria que debe ser
servicios y productos ofrecidos por el territorio,
conocida por sus actuales herederos y debe
posibilitar una mayor competividad de los agentes
ser accesible a todos aquellos que sientan curiosidad
económicos del territorio ligados a estos mercados y
por conocerla. De una memoria entendida como la
priorizar el tipo de inversiones a realizar. Para que ello
base imprescindible del desarrollo.
sea posible, debemos caminar hacia un modelo de
El concepto territorio-museo tiene un doble signifi-
presentación del territorio relacionado con una idea
cado:
integral de paisaje y de respeto al mismo, que cuente
• Por un lado, lo aplicamos en un sentido físico, para
con los testimonios originales (ya sean tangibles o
designar un espacio de consumo cultural que se
intangibles), que utilice las construcciones existentes,
manifiesta como un gran museo al aire libre abierto y
es decir, los lugares de la memoria.
39
CADERNO
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
De acuerdo con esta filosofía, algunos planteamientos
Uno de los retos que plantea esta propuesta es el
fundamentales a tener en cuenta para proyectar un
hecho de que tanto el residente como el visitante sea
“Territorio-Museo” pueden ser los siguientes:
capaz de percibir, sin dificultad, los límites y los
• Es preciso explicar el territorio a través de la
contenidos del “Territorio-Museo”, ya que, como
adecuación de sus recursos patrimoniales in situ, y
hemos dicho, no se encuentra situado en un recinto de
mediante la estructuración de una serie de servicios
uso exclusivo sino que comparte la vida cotidiana del
para la presentación del patrimonio, de acuerdo con
territorio y de sus habitantes. Por tanto es fundamental
unos contenidos y ejes temáticos que nunca deben ser
facilitar al visitante los instrumentos que ayudarán a
un corsé intelectual.
situarse, a ver y aprender aquello que le ofrece el espacio.
• Al mismo tiempo, los servicios y actividades
Una estructura modelo de un “Territorio-Museo”
patrimoniales deben constituir una puesta en escena
podría ser la siguiente:
que permita diversificar la oferta a lo largo de todo el
• La puerta del territorio-museo: es el primer lugar de
año. El “Territorio-Museo” debe disponer, alrededor
contacto entre el usuario y el territorio, por ello debe
de los servicios patrimoniales, de una oferta de
ser como el espejo de Alicia, un espacio que permita al
servicios complementarios (alojamiento, oferta
usuario la inmersión en el universo desconocido del
gastronómica, comercialización de productos...). Debe
territorio. Su principal misión es dar a conocer la
favorecer, por tanto, la implantación de actividades
estructura y los servicios del Territorio Museo y ejercer
productivas entre la población local.
de lanzadera para el descubrimiento del territorio que
• Debe constituirse como una atracción turística capaz
presentan.
de estimular un turismo cultural y ecológico, de romper
• Las ventanas del territorio-museo: A diferencia de las
el fenómeno estacional y de canalizar flujos turísticos
puertas que ofrecen una panorámica general,
hacia periferias poco frecuentadas.
las ventanas temáticas focalizan su discurso sobre uno
• Tiene que incentivar la coordinación territorial y dejar
de los temas que configuran el árbol temático del
de lado las dinámicas localistas. En la promoción del
concepto general de interpretación. Su misión
territorio como un todo es necesaria la participación de
fundamental es la de dar las claves para disfrutar de un
todas las partes implicadas.
recurso o conjunto de recursos del territorio vinculados
a la temática de la ventana.
40
El “Territorio-Museo”, en definitiva, aspira a ser un
• Los caminos del territorio-museo: Se trata de
proyecto innovador en su concepción y en sus
itinerarios señalizados a modo de “exposiciones
propuestas. Debe dar una visión dinámica y
temporales al aire libre” que permiten explicar una
enriquecedora de la adaptación humana al medio, que
infinidad de pequeñas temáticas. Al tratarse de una
aporte nuevas visiones de aprovechamiento del
experiencia de carácter temporal, favorecen la
patrimonio, con proyección de futuro. Asimismo, es
repetición de la visita. Es interesante vincular estos
fundamental plantearse la interpretación de los
caminos temáticos a las actividades de investigación
recursos culturales y naturales de forma descen-
sobre el patrimonio del Territorio-Museo.
tralizada, partiendo siempre que sea posible de la
• Los evento del territorio-museo: La programación
percepción del patrimonio en su contexto original.
continua de eventos es una de las funciones básicas
Para dar cuerpo al hilo argumental del “Territorio-
del órgano de gestión del Territorio-Museo. Dentro de
-Museo”, será necesario crear unos equipamientos
este ámbito se incluirían la realización de Jornadas
básicos en relación con los elementos patrimoniales.
Gastronómicas, Ferias de Artesanía, Festivales de
Estos equipamientos pondrán a disposición del público
Música o Teatro, etc...
unos contenidos expositivos. A pesar que cada una de
• Servicios del territorio-museo: La utilización del
las interpretaciones tenga sentido per sí misma, será el
Territorio-Museo como marca o distintivo de calidad
recorrido por todas ellas lo que nos permitirá obtener
permite vincular a su imagen la promoción de aquellos
una idea global del conjunto.
servicios que sean útiles, necesarios o interesantes en la
I N T E R P R E TA Ç Ã O D E M O N U M E N T O S E S Í T I O S
CADERNO
configuración de la experiencia global del usuario del
Frente al proceso de globalización que vive
Territorio-Museo, como el transporte, los alojamientos
actualmente la sociedad europea y especialmente sus
y restaurantes, los comercios o las hípicas.
áreas rurales, entendemos que estos territorios-museo
pueden convertirse en un punto de referencia para
Conviene señalar que cualquier decisión que afecte la
todos aquellos que quieran reivindicar la principal
planificación del patrimonio en su contexto territorial
riqueza de la civilización europea: la diversidad cultural.
es fundamental que se sustente en una adecuada
Sólo el conocimiento y el respeto de esa diversidad
programación y sobre la base de un amplio consenso
nos permitirá enfrentarnos a los fantasmas de la
institucional, político y social. Por lo tanto, antes de
globalización, del empobrecimiento cultural y de sus
adoptar una determinada opción, será preciso identificar
dramáticas secuelas, es decir, la intolerancia, la
y conocer la multiplicidad de intereses y requisitos de
xenofobia y la pérdida del espíritu crítico humanista.
una acción de este tipo y deben establecerse los
Para finalizar, es preciso insistir en la necesidad de
mecanismos necesarios para poder asegurar el control y
colocar el respeto al patrimonio cultural y natural, en el
la coordinación óptimos en todas y cada una de las fases
centro de las preocupaciones para mejorar la calidad de
del proceso. El proceso de planificación y desarrollo de
vida de nuestras poblaciones. En este sentido, de la
un “territorio-museo”, que se lleva a cabo mediante la
aplicación de la metodología del “territorio-museo”
elaboración de un plan de interpretación, debe estar
esperamos la implementación de unas políticas de
íntimamente relacionado con la conservación y mejora
desarrollo sostenible, y la creación de unos mecanis-
del entorno natural, cultural y humano, y con la
mos de gestión que permitan, de una manera eficaz,
recuperación de las señas de identidad, para garantizar
la participación de la sociedad civil y de los agen-
por una parte, el bienestar de la población y, por otra,
tes económicos en los procesos de ordenación del
para asegurar a los visitantes una experiencia de calidad.
territorio.
1
Terra Incognita es el título de un proyecto transnacional desarrollado entre los años 1997 y 2000 dentro del marco del programa europeo
TERRA.
En este proyecto han participado los municipios de Alghero (Cerdeña, Italia) y Peralada (Cataluña, España), las mancomunidades del Prepirineo y
Somontano (Aragón, España) y la Comarca del Garraf (Cataluña, España).
41
Ruínas de Miróbriga
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Estruturas de Acolhimento
e Interpretação
Manuel Lacerda*
Maria Filomena Barata**
Programa Itinerários Arqueológicos
do Alentejo e Algarve
A
través do Programa Itinerários Arqueológicos do
genericamente dois grupos de objectivos: 1) estudar,
Alentejo e Algarve foi possível desenvolver, pela
recuperar e divulgar um conjunto de sítios arqueoló-
primeira vez e em simultâneo, um conjunto articulado
gicos; fomentar o aproveitamento de recursos culturais
de projectos na área do Acolhimento e Interpretação
para o desenvolvimento, e integrar os sítios arqueoló-
de sítios.
gicos em circuitos turísticos; e, a um outro nível:
Esse desenvolvimento, por ter decorrido em paralelo,
2) enriquecer o conhecimento dos visitantes relati-
permitiu uma sistematização e um maior aprofunda-
vamente ao património; despertar a necessidade de
mento do estudo dos programas funcionais a aplicar,
salvaguardar e proteger o património; e capitalizar os
por via do confronto com as necessidades específicas
recursos patrimoniais para as comunidades.
que cada situação colocava, ao mesmo tempo que veio
Desde o lançamento do Programa, em 1994, até à
a possibilitar o início de uma avaliação dos conceitos
fase de implementação das acções mais “pesadas”,
que estiveram na base de diferentes opções tomadas.
como é o caso da construção dos Centros de
Importa evidenciar que a introdução das estruturas de
Acolhimento e Interpretação, veio a tornar-se gra-
acolhimento no âmbito deste Programa, e que aqui se
dualmente mais evidente a necessidade de aprofun-
apresentam, é corolário de fases preliminares e com-
dar as formas de mediação entre o património em
plementares de estudos e investigações no campo da
geral, e este património em particular, por vezes de
arqueologia, de escavações, operações de consolida-
tão difícil “aproximação” e compreensão pelo público
ção e restauro, tal como de operações de resgate de
não iniciado nestes domínios.
terrenos para o domínio público, acções de crucial
Daí veio a resultar um incremento na actividade crí-
importância nestes processos mas obviamente sem a
tica desenvolvida em todo o período preparatório das
correspondente visibilidade.
intervenções, com a participação de numerosos técni-
Os elementos que são apresentados cingem-se ape-
cos de diferentes áreas disciplinares na definição de
nas a projectos de arquitectura dos Centros de
programas funcionais, na discussão de critérios de inter-
Acolhimento e Interpretação, e a obras concluídas ou
venção, na construção de conteúdos de informação,
em curso, oportunamente associados neste número a
e na programação, no acompanhamento e gestão de
um conjunto de textos reflexivos sobre Interpretação
todas as acções integradas em cada sítio, criando-se
de Monumentos e Sítios, correspondentes a comuni-
a oportunidade singular de confrontar experiências a
cações apresentadas no Encontro promovido em Julho
decorrer em paralelo.
1
em Évora, sendo intenção vir a
Os critérios gerais que se encontram na base de todo
publicar, futuramente, sínteses das outras vertentes de
este processo de mediação com o visitante, que se foi
trabalho de arqueologia desenvolvidas nos diferentes
desenvolvendo, passam por: 1) fundamentar a apre-
locais, designadamente de arqueologia, sinalética e
sentação dos sítios no seu conhecimento técnico-
exposições.
-científico rigoroso, transmitindo o essencial sobre o
Para que se possa entender todo o alcance do Programa
sítio e o seu contexto, relacionando-o com o território,
e enquadrar o resultado físico de muitas das suas
procurando dar uma visão relacional com outras rea-
acções, interessa reter que o mesmo apresentava
lidades patrimoniais; 2) sempre que possível, focalizar
de 2000 pelo
IPPAR,
*
Arquitecto
Director do Departamento
de Estudos do IPPAR
**
Arqueóloga, Chefe da Divisão
de Salvaguarda da Direcção
Regional de Évora do IPPAR
43
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
a apresentação dos sítios num tema chave que o possa
e complexidade em função das necessidades e dos
particularizar no contexto do universo patrimonial;
objectivos definidos para cada sítio arqueológico, reves-
3) possibilitar a comunicação de conteúdos sem afectar
tindo-se sempre da adopção de critérios de actuação
a autenticidade dos monumentos e o “espírito” dos
rigorosos e constituindo-se como exemplos de inter-
lugares, através da adopção de uma filosofia de inter-
venção patrimonial;
venção que valorize a preexistência, procurando uma
4) desenvolvimento de projectos de arquitectura e pai-
adequada articulação física e visual com a obra nova;
sagismo para os Centros de Acolhimento e Interpretação
4) introduzir valores de modernidade, sempre que se
e respectivas envolventes, quer da responsabilidade de
verifique a necessidade de novas construções nos sítios,
técnicos do
e através de formas apelativas e inovadoras na apre-
panhamento próximo do
sentação de conteúdos de informação, procurando
gramas funcionais e termos de referência previamente
quer de equipas externas com acomIPPAR,
tendo por base pro-
assim responder, por um lado, a novas exigências de
definidos pelo IPPAR, em função das necessidades e dos
funcionalidade na recepção de visitantes e, por outro,
objectivos apontados para cada sítio; os diferentes pro-
assumindo a presença dos valores da arquitectura qua-
jectos seguiram uma matriz funcional similar (zona de
lificada como um meio de aproximação do público a
estacionamento automóvel, zona de recepção/bilhe-
estes monumentos; 5) procurar relacionar recursos
teira/loja, zona de informação/exposição, zona de bloco
patrimoniais de proximidade, designadamente através
sanitário, zona de gestão, zona de tratamento de
dos materiais de divulgação próprios, ultrapassando
materiais arqueológicos), seguindo uma avaliação de
um conceito estático de roteiros temáticos, na prática
valências (acolhimento, interpretação, manutenção,
ineficazes, e remetendo os visitantes para outros patri-
investigação). Os critérios adoptados na introdução dos
mónios mais articulados geograficamente; 6) procurar
novos edifícios nos sítios passam pela avaliação prévia
integrar o sítio arqueológico, como recurso cultural
da possibilidade de incorporação da nova estrutura no
precioso para o desenvolvimento, com o território em
sítio, pela avaliação da dimensão e tipo de estrutura
que se encontra, com as suas comunidades e com a
mais adequada em função das características do sítio,
sua dinâmica sócio-cultural, adaptando conceitos de
pela ponderação de factores de proximidade, salvaguarda
base às realidades e especificidades de cada local.
da autenticidade do ambiente e integração paisagística,
Nos onze dos treze sítios integrados inicialmente no
e pela adopção de conceitos arquitectónicos distintos
Programa e que vieram a ser intervencionados de uma
em função das particularidades dos sítios, em oposição
forma mais completa, foram efectuadas centenas de
à adopção de projectos tipificados, e pela afirmação clara
acções dentro de uma programação plurianual, enqua-
da contemporaneidade nas novas intervenções.
dradas nos respectivos Programas de salvaguarda e
5) desenvolvimento de projectos de requalificação de
valorização:
percursos de visita, integrada com os princípios adopta-
1) acções de aquisição e expropriação de terrenos,
dos para a construção das estruturas de acolhimento e
tendo em vista resgatar para o domínio público as
com a sinalética de percurso, procurando “organizar” a
necessárias áreas de enquadramento ou mesmo os
visita e resolver alguns problemas de acessibilidades
próprios monumentos (Alcalar, Escoural, Miróbriga,
(como a transposição de estruturas arqueológicas
Santa Vitória de Campo Maior), medida tão funda-
através de passadiços, por exemplo) ou questões de
mental para a salvaguarda do património quanto com-
tratamento de solos, escoamento de águas pluviais,
plexa e morosa;
revestimentos vegetais...;
2) acções de investigação e estudo apoiadas em
6) desenvolvimento de projectos de conteúdos desti-
trabalhos de escavação arqueológica, por equipas do
nados à interpretação dos sítios, a integrar nos Centros
ou por equipas externas com supervisão do
de Interpretação, envolvendo a definição prévia de
2
IPPAR
44
IPPAR
IPPAR,
em todos os sítios abrangidos pelo Programa;
guiões e o respectivo desenvolvimento pelos respon-
3) acções de vedação, limpeza, recuperação, restauro
sáveis científicos, e a sua tradução em projectos expo-
e manutenção dos monumentos, diferindo em escala
sitivos incorporando diferentes formas de comunica-
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
ção, com recurso a projectistas e produtores externos;
elementos gráficos e lettering, dimensões e materiais,
prevalece a perspectiva de deixar em aberto a possi-
entretanto já aplicado ou produzido para todos os sítios
bilidade de reapresentações que possam acompanhar
do Programa, e permitindo ainda uma identificação
novas exigências de comunicação, conferindo um carác-
institucional dos monumentos;
ter claramente efémero a estas instalações. Os objec-
9) por fim, a produção de materiais de divulgação
tivos implícitos na definição de conteúdos passam por
(Guias de visita em diferentes idiomas, com uma expli-
fornecer informação mínima indispensável – explicando
cação sucinta e com elementos gráficos de interpre-
o que normalmente não é compreensível pelo público
tação, Roteiros de apoio mais desenvolvidos e com
leigo –, suscitar o interesse pelo assunto, potenciar a
maior aprofundamento científico, um guia e um CDRom
reflexão sobre as diferentes dimensões dos contextos
bilingue comum a todos os sítios) e materiais de pro-
em que se situa o património, criar uma experiência
moção (para venda nas recepções e lojas dos Centros
que permita ao visitante visualizar o que não vê no
de Acolhimento e Interpretação – T-shirts, postais, blo-
objecto patrimonial; os critérios estabelecidos passam
cos, Pin’s...., com características individualizadas por
pela definição do âmbito da interpretação a realizar –
cada sítio arqueológico).
em função do estado de conhecimento do sítio, a defi-
Com a apresentação de uma síntese das intervenções
nição dos públicos-alvo preferenciais, com adopção
já efectuadas, ou ainda em curso ou em projecto,
eventual de níveis diferenciados de informação (adultos
centradas neste número nas estruturas de Acolhimento
e crianças, grupos e individuais, escolas e turistas...);
e Interpretação, pretende-se dar a conhecer a diversi-
7) produção de um projecto de sinalética para aplica-
dade de soluções que a particularidade de cada sítio,
ção comum a todos os sítios integrantes do Programa
pelas características das anteriores ocupações, pela
(aplicação entretanto alargada a outros sítios e outros
sua topografia, pela sua envolvente paisagística, e
tipos de património, como os castelos), normalizando
pelas necessidades da sua própria gestão, vieram a
o tipo e qualidade da informação a prestar, os
configurar.
1
Programa de Valorização Cultural e Divulgação Turística, desenvolvido em parceria entre o Ministério da Cultura/IPPAR e o Ministério da
Economia/IFT, iniciado em 1994; abrange treze sítios arqueológicos, situados dez no Alentejo e três no Algarve, cobrindo uma cronologia
alargada, do Megalítico ao Medieval, e estruturado em três Itinerários – Megalitismo, Romano e Islâmico. Com um investimento global inicial
previsto de 650 000 contos, actualmente o valor investido é de cerca de 1 400 000 contos, dos quais 500 000 contos suportados pelo IFT e o
restante do investimento pelo
IPPAR.
O Programa envolveu a colaboração de todas as Câmaras Municipais onde se situam os sítios arqueológicos seleccionados, através de Protocolos
de colaboração celebrados com o IPPAR, bem como a colaboração com muitas outras entidades públicas e privadas, como o Campo Arqueológico
de Mértola e a Lusotur. A prossecução deste Programa envolveu centenas de acções, envolvendo a participação de numerosos técnicos dos
serviços centrais e regionais do IPPAR e a colaboração de dezenas de equipas externas, cobrindo-se um vasto leque de áreas técnico-científicas
exigíveis para a diversidade de acções necessárias.
A coordenação técnica do Programa é assegurada pela D.ra Filomena Barata (Direcção Regional de Évora do
(Departamento de Estudos do
do
IPPAR)
IPPAR),
IPPAR)
e Arq.to Manuel Lacerda
e a coordenação na área da Gestão pela D. Fernanda Garção (Departamento de Planeamento e Gestão
ra
em articulação com as Direcções Regionais de Évora (Arq.to Miguel Lima) e Faro (Arq.ta Teresa Pimpão); são responsáveis e gestores
dos diferentes sítios arqueológicos abrangidos o Dr. Rui Parreira (Monumentos Megalíticos de Alcalar e Ruínas de Milreu, tendo sido responsável pela definição de conteúdos da exposição permanente na Villa Romana do Cerro da Vila), Dr. Rafael Alfenim, Direcção Regional de Évora
(Circuito Arqueológico da Cola, Ruínas de São Cucufate – inicialmente assegurados pela D.ra Susana Correia), D.ra Filomena Barata (Ruínas Romanas
de Miróbriga, inicialmente com a D.ra Susana Correia), D.ra Ana Carvalho Dias (Povoado Pré-Histórico de Santa Vitória de Campo Maior e
Villa Romana de Torre de Palma), Dr. João Marques (Conjunto Arqueológico do Escoural, com colaboração científica da D.ra Ana Cristina Araújo,
e Villa Romana de Pisões).
2
Sítios arqueológicos englobados no Programa: Ruínas Romanas de Miróbriga, Santiago do Cacém; Circuito Arqueológico da Cola, Ourique;
Conjunto Arqueológico do Escoural, Montemor-o-Novo; Ruínas de São Cucufate, Vidigueira; Conjunto Monumental de Mértola, Mértola; Povoado
Pré-Histórico de Santa Vitória, Campo Maior; Villa Romana de Pisões, Beja; Villa Romana de Torre de Palma, Monforte; Ruínas de Milreu, Faro;
Villa Romana de Cerro da Vila, Loulé; Monumentos Megalíticos de Alcalar, Portimão; Villa Romana de Abicada, Portimão; Villa Romana de Santa
Vitória do Ameixial, Estremoz (nos dois últimos não se verificaram condições para a implementação das acções previstas inicialmente).
45
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
O Sítio Arqueológico
de Miróbriga
Maria Filomena Barata
Arqueóloga, Chefe da Divisão
de Salvaguarda da Direcção
Regional de Évora do IPPAR
1. Miróbriga, vista aérea
IPPAR/M. Ribeiro
s ruínas da Miróbriga romana, que se estendem
A
de decadência de outras cidades num império já
por mais de 12 ha, incluem restos de edifícios de
conturbado. No entanto, os materiais arqueológicos
habitação, calçadas pavimentadas, um hipódromo,
comprovam que Miróbriga foi ocupada, pelo menos,
balneários, uma ponte e um forum.
até aos séculos V-VI.
A ocupação romana do oppidum deve ter-se dado no
Assentando num aglomerado anterior fortificado, a
a.C. Miróbriga deverá ter sido promovida
urbanização romana deve ter-se adaptado à ocupa-
d.C, durante a
ção anterior e à topografia do local, pelo que não
dinastia flaviana, quando a política de fomento
apresenta as características ortogonais do modelo ideal
económico e de desenvolvimento urbanístico na
de urbanismo romano. No entanto, a construção dos
Hispânia recebeu novo impulso. Nessa altura já
templos do forum, no terceiro ou quarto quartel do
controlaria um vasto território.
século I d.C., bem como a edificação dos balneários
As razões que motivaram o seu abandono não foram
conferem a Miróbriga um cariz marcadamente latino.
ainda determinadas, mas os vestígios arqueológicos indi-
Um templo, provavelmente dedicado ao culto imperial,
ciam uma gradual desactivação a partir do século IV d.C.,
detém uma posição privilegiada e centralizada no
correspondendo, possivelmente, ao fenómeno similar
forum. Este templo foi, nas campanhas de D. Fernando
século
II
à categoria de município no século
46
I
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
de Almeida, nos anos 60 e 70, objecto de restauro
e reconstrução apresentando, nos nossos dias, um
aspecto cenográfico que domina toda a praça pública.
Esta praça era ladeada de inúmeras construções, cuja
função deverá corresponder às comuns a um forum
provincial de pequenas dimensões – basílica e cúria.
Nos declives que contornam o forum desenvolvem-se
as zonas comerciais com as respectivas lojas –
termopolia ou tabernae.
Os balneários de Miróbriga são compostos de dois
edifícios distintos: Este e Oeste, que se deveriam
destinar respectivamente a homens e mulheres.
Os compartimentos que os compõem são os comuns a
todo o mundo romano: zona da entrada, com salas
para massagens, vestiário – apodyterium; zona fria –
frigidarium; zona aquecida – tepidarium e caldarium.
As salas aquecidas das Termas Oeste apresentam, para
além do sistema subterrâneo, paredes duplas para
circulação do ar quente. Uma latrina, implantada nas
Termas Oeste, deve ter servido os dois edifícios.
2. Templo centralizado no forum,
século I d.C.
Nas proximidades das termas situa-se uma ponte de
um só arco quase perfeito, construída em opus
IPPAR/M. Ribeiro
incertum, aparentemente regularizado por fiadas de
xisto.
uma cafetaria, salas de trabalho e um laboratório,
O Hipódromo de Miróbriga é, até ao presente, o único
e que se encontra concluída e aberta ao público desde
exemplo de planta totalmente conhecida de uma
Maio do corrente ano, tem como finalidade apoiar
construção deste tipo, em Portugal. Medindo
os trabalhos arqueológicos a desenvolver no Sítio
aproximadamente 369 75 m, poderia ter bancadas
Arqueológico e ainda servir de local de acolhimento
de madeira.
aos visitantes.
O “Programa de Valorização”
2. Sinalização das estruturas visitáveis
Desde o início da década de 90 que se vêm a
desenvolver trabalhos arqueológicos promovidos pelo
IPPAR
e que haviam sido contemplados no “Projecto de
3. Arranjo paisagístico das ruínas
e sua envolvente
Valorização de Miróbriga”. Este foi um dos Sítios
O Sítio Arqueológico tem sido objecto de vários
Arqueológicos integrados no protocolo assinado entre
estudos de fauna e flora, como o coordenado pela
a Secretaria de Estado da Cultura e a Secretaria de
empresa Mãe d´Água e ainda da qualidade visual da
Estado do Turismo “Itinerários Arqueológicos do
sua envolvente efectuado pela empresa Topiaris. Estes
Alentejo e Algarve”, tendo sido consideradas prioritárias
estudos visavam, fundamentalmente, conhecer as
as seguintes intervenções:
características da biodiversidade do local, que possui,
de facto, peculiariades ambientais únicas, e valorizar
1. Criação de um centro de Acolhimento
essa componente.
e Interpretação
Está também em curso um estudo do arranjo paisa-
Esta infra-estrutura, que contempla uma sala de
gístico global de Miróbriga, tendo já sido implemen-
exposições, um pequeno auditório, uma recepção,
tada uma primeira fase do mesmo.
47
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
3. Termas Este e Oeste,
séculos II-IV d.C.
IPPAR/M. Ribeiro
4. Aquisição de imóveis, terrenos
6. Escavações arqueológicas e trabalhos
e sua vedação
de conservação e restauro
Uma vez que existiam estruturas arqueológicas numa
As escavações têm sido efectuadas com carácter sis-
zona mais extensa da que anteriormente se conhecia,
temático ao longo destes anos, prioritariamente para
adquiriu mais
delimitar o local onde se poderá implantar o “Núcleo
8 ha de terreno, onde se situavam também dois imó-
Interpretativo” e também em zonas onde se previa
veis em estado de degradação. Esses imóveis, já
efectuar os trabalhos de conservação e restauro, como
recuperados, funcionam como apoio para os trabalhos
por exemplo na ponte romana e nos taludes limite dos
arqueológicos, estando previsto que um deles possa vir
balneários (Este e Oeste).
o Estado Português, através do
IPPAR ,
a albergar os investigadores que se desloquem futuramente a Miróbriga.
7. Acções de divulgação e de sensibilização
Toda a área adquirida foi vedada.
junto da comunidade local e do público em geral
Têm vindo a ser feitas acções de formação junto dos
5. Execução de material promocional
professores e alunos das escolas da região, bem como
e de divulgação
para a comunidade local.
Foi editado um roteiro e um desdobrável bem como
48
um conjunto de postais dedicado ao Sítio Arqueológico
8. Arranjos na Capela de São Brás
e à sua fauna e flora.
A Capela de São Brás funciona actualmente como
Foi ainda executado um conjunto de outros materiais
serviço educativo de Miróbriga, que tem desenvolvido
promocionais do sítio arqueológico que poderão ser
um conjunto de iniciativas de sensibilização aos alunos
adquiridos no local.
que visitam Miróbriga.
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Centro de Acolhimento
e Interpretação de Miróbriga
Paula Santos
Arquitecta
A natureza do sítio/princípios de concepção
O projecto do edifício e arranjos exteriores para o
Centro de Acolhimento das Ruínas Romanas de
Miróbriga, em Santiago do Cacém, no Litoral Alentejano,
pretendeu fazer uma interpretação do extraordinário
sítio arqueológico, da paisagem e da natureza do local,
extremamente sugestivos e condicionantes pela sua
extrema delicadeza e beleza.
O projecto diz respeito à organização do lugar e sobretudo à forma como uma construção nova – o edifício
de recepção de visitantes – pode contribuir e organizar uma intervenção qualificada.
A área que foi destinada pelo IPPAR para a construção do edifício, uma colina adjacente à estação arqueológica, orientada a nascente, mostrou-se sob esse ponto
de vista a mais adequada, tendo sobre esta uma perspectiva sobranceira que o edifício proposto reforça
com a construção de uma “varanda” ao longo de toda
a fachada principal.
O edifício, de carácter pavilionar, implanta-se linearmente funcionando num só piso.
Os arranjos exteriores procuram ordenar o espaço de
entrada, qualificar e valorizar a área de recepção exterior dos visitantes e tornar todo o conjunto mais apro-
1. “Varanda” do Centro
de Acolhimento
priado a uma maior frequência de visita.
IPPAR/H. Ruas
2. Fachada principal do Centro
de Acolhimento
Os muros, construídos em pedra romana, resultante
de ruínas/escavações não reconhecidas, criam a con-
IPPAR/H. Ruas
tenção necessária à construção de uma plataforma
para aparcamento e delimitam a área de intervenção
exterior. Para além disso orientam o visitante para a
entrada do edifício de recepção.
49
CADERNO
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
3. Vista sobre zona habitacional dos séculos I - IV d.C.
4. Acesso ao Sítio Arqueológico de Miróbriga
IPPAR/H. Ruas
IPPAR/H. Ruas
Planta de implantação
1. Acesso principal ao recinto
2. Estacionamento automóvel
3. Estacionamento de camionetas
de passageiros
4. Acesso automóvel eventual
à Capela de São Brás e área de apoio
5. Acesso pedonal à Capela
de São Brás e área de apoio
6. Acesso à estação arqueológica
para funcionários
7. Percurso automóvel ao Centro
Interpretativo e de Acolhimento
8. Entrada principal de visitantes
9. Rampa de acesso ao Centro
Interpretativo e de Acolhimento
10. Início do percurso de visitantes
11. Passerelle elevada
12. Percurso de acesso à Capela
de São Brás e área de apoio
50
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
9
8
7
CADERNO
3
6
10
10
5
5
5
5
5
4
10
1
2
Planta
1. Átrio
2. Exposição permanente
3. Sala polivalente
4. Bar
5. Gabinete de trabalho
6. Laboratório
7. Arquivo
8. Sala para reserva
9. Sala polivalente
10. Arrumos
Fachada principal
Corte 14
51
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
5. Átrio
6. Exposição permanente
IPPAR/H. Ruas
IPPAR/H. Ruas
Corte
10
Corte 12
Corte
Corte
11
13
Ficha técnica
COORDENAÇÃO DA INTERVENÇÃO
DRE/DE
ARQUEÓLOGA RESPONSÁVEL (IPPAR)
Filomena Barata
Saibro e calcário e madeira são os materiais que revestem os acessos e percursos, desde a chegada dos visitantes até ao encaminhamento de visita às ruínas.
Basicamente, o edifício proposto apresenta as áreas
principais (públicas e não públicas) do programa, sobre
o alçado principal nascente, e as áreas exclusivamente
de serviço sobre o alçado poente.
O volume edificado, de um só piso, eleva-se do solo,
balançado sobre a paisagem e protegido no alçado
ARQUITECTURA
PAULA SANTOS, arquitectos, Lda.
Paula Santos
Colaboração
Sofia Costa, Joaquim Santana, Joana Delgado, Nuno Silva
ARRANJOS EXTERIORES/PAISAGISMO
APARTE – Consultores de Arquitectura Paisagista, Lda.
FUNDAÇÕES E ESTRUTURAS
ETECLDA – Esc. Técnico de Engenharia Civil, Lda.
INST. EQUIPAMENTOS ELÉCTRICOS, SEGURANÇA E TELECOMUNICAÇÕES
OHM-E – Gabinete de Engenharia Electrotécnica, Lda.
INST. EQUIPAMENTOS MECÂNICOS
PROTERMIA – Proj. Térmicos e de Ambiente, Lda.
INST. EQUIPAMENTOS DE ÁGUAS E ESGOTOS
VÍTOR ABRANTES – Cons. e Proj. de Engenharia, Lda.
CONSTRUÇÃO
LISTORRES, Lda. e Reimidas, Lda.
principal por grandes portadas de lâminas de madeira
PROJECTO EXPOSITIVO
para sombreamento.
52
Paula Santos/Francisco M. Providência Designer, Lda.
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Circuito Arqueológico da Cola
Susana Correia*
Rafael Alfenim**
*
Arqueóloga, IPPAR/Câmara
Municipal de Beja
**
Arqueólogo, Direcção
Regional de Évora do IPPAR
N
uma área relativamente restrita – cerca de 15 Km2 –,
em torno do importante povoado que é o Castro
da Cola, são hoje conhecidos cerca de trinta sítios
arqueológicos que cobrem diversos períodos cronológicos, desde o Neolítico até à Idade Média, atestando
uma permanente ocupação deste território por sociedades dedicadas, essencialmente, à agricultura e
pastorícia – constituindo a caça e pesca importantes
complementos alimentares – e, também, à exploração,
em pequena ou média escala, dos recursos mineiros
da região. Como em qualquer sociedade, podemos
aqui observar os locais de habitação dessas populações e, igualmente, as zonas por elas escolhidas para
perpetuar as suas memórias, através dos monumentos erigidos para sepultar os seus mortos.
O Circuito Arqueológico da Cola resulta de uma selecção de quinze sítios que, pelo seu estado de conservação e inserção na paisagem, reúnem as melhores
condições para uma visita: monumentos megalíticos de
1. Castro da Cola (vista aérea)
IPPAR/M. Ribeiro
Fernão Vaz 1, Fernão Vaz 2 e Nora Velha, povoado
calcolítico do Cortadouro, necrópoles da Idade do
2. Necrópole de Fernão Vaz
IPPAR/M. Ribeiro
Bronze de Alcaria 1, Alcaria 2 e Atalaia, povoados da
Idade do Ferro de Porto das Lajes e Fernão Vaz, necrópoles e monumentos funerários da Idade do Ferro de
Fernão Vaz, Nora Velha 2, Vaga da Cascalheira, Casarão
e Pego da Sobreira, e povoado fortificado islâmico e
medieval/cristão da Cola (Castro da Cola).
A ideia da criação deste Circuito surgiu do desejo de
mostrar como uma paisagem, na aparência agreste,
foi, desde épocas recuadas, profundamente marcada
pelo Homem. A selecção dos locais a visitar não foi
ditada por critérios de monumentalidade – a ideia-chave é, pelo contrário, contribuir, através da mostra
da diversidade – morfológica, funcional e cronológica –
para o desvendar de uma paisagem organizada
em torno de um “fio condutor” – o rio Mira – que
53
CADERNO
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
3. Povoado de Fernão Vaz.
Vista parcial das estruturas
habitacionais
Arquivo IPPAR
4. Nora Velha 1
(monumento funerário
megalítico).
Aspecto da câmara
do monumento,
mostrando o esteio decorado
com covinhas
funcionou, desde sempre, como elemento determinante para a fixação de populações neste território.
O visitante é, assim, convidado para um percurso que
o levará, através desta paisagem, a uma viagem a
alguns dos momentos mais remotos da nossa História.
Arquivo IPPAR
No Centro de Acolhimento e Interpretação do Circuito,
instalado num pequeno edifício próximo da Ermida de
Nossa Senhora da Cola e do Castro da Cola, recolherá
a informação necessária para partir à descoberta
dos sítios e dos espaços onde estes foram, um dia,
construídos.
Com excepção da Necrópole da Atalaia e do Povoado
do Cortadouro, o acesso aos monumentos está
devidamente sinalizado a partir das estradas nacionais
e municipais que, na maior parte dos casos, é necessário abandonar, não sem antes verificar atentamente
as indicações contidas no desdobrável editado pelo
IPPAR
referentes ao grau de facilidade de acesso a cada
local.
54
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Centro de Acolhimento
e Interpretação
do Circuito da Cola
Sofia Salema
Arquitecta, Direcção Regional
de Évora do IPPAR
1. Edifício preexistente
adaptado a Centro
de Acolhimento
IPPAR/H. Ruas
O
Castro da Cola está classificado como Monumento
Nacional desde 1910; a ocidente (sudoeste)
do Castro situa-se o Santuário de Nossa Senhora da
Cola, a Igreja e o complexo da casa dos romeiros.
2. Perspectiva
A situação deste complexo é única na sua envolvente
paisagística.
O edifício destinado à instalação do Centro de
Acolhimento e Interpretação do Circuito da Cola era
uma pequena construção vernácula em mau estado
de conservação que se encontra localizado junto à
Igreja do Santuário. Após uma análise do edifício e do
programa ressalvou-se a necessidade de uma pequena
ampliação. A filosofia de intervenção teve como objectivo a preservação das qualidades do edifício e da sua
envolvente, tendo-se optado por uma ampliação para
55
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
sul de modo a garantir a correcta integração deste edifício nesta extraordinária envolvente paisagística. Como
filosofia de intervenção a ampliação não pretendeu
sobressair ou destacar-se do edifício existente mas sim
integrar-se na envolvente, num enquadramento à escala
do edifício.
Sendo objectivo deste projecto a manutenção e
preservação da construção existente, arquitectónica
e construtivamente modesta, mas de significativo valor
plástico e cultural, optou-se por, relativamente ao
aspecto exterior do edifício, manter a textura dos
paramentos de caiação sobre a alvenaria de pedra de
xisto, propondo-se uma ligeira diferença, ao nível da
textura, entre as paredes existentes e as novas que
foram rebocadas e caiadas. Em termos de metodologia de projecto, essencialmente por motivos peda-
2
gógicos, optou-se por utilizar um sistema constru1
tivo, perfeitamente compatível e semelhante com o
existente, em paredes autoportantes construídas em
tijolo maciço.
Na fachada principal foram abertos dois vãos para
iluminação e ventilação natural, justificando-se, ainda,
a localização de um deles para controlo da entrada no
3
Castro por parte dos funcionários do Centro de Acolhimento e Interpretação. Ao nível dos arranjos exteriores foi prevista uma área de estacionamento, a noroeste
4
do Centro Interpretativo, em que o estacionamento
de veículos, nomeadamente pesados, não constitui
Planta de localização
1. Santuário de Nossa Senhora da Cola
2. Complexo da casa dos romeiros
3. Centro de Acolhimento
4. Estacionamento
56
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
4. Igreja e Centro
de Acolhimento
IPPAR/H. Ruas
um obstáculo à leitura e compreensão da paisagem,
nomeadamente a partir do Castro.
Funcionalmente, o Centro Interpretativo está organizado como uma zona de acolhimento, em relação
directa com o exterior, tendo sido eleita a localização
da porta existente, a norte, que teria melhor visibilidade ao nível da chegada do visitante. Articulado
com este espaço situa-se a zona de exposição, que
exibe informação de elementos de apoio ao itinerário
arqueológico e uma sala de audiovisual para divulga5. Axonometrias do Centro
de Acolhimento
ção e/ou exposição do circuito.
Criou-se igualmente uma área de sanitários e arrumos, localizada na parte do edifício a ampliar e organizada em dois espaços distintos: um directamente
relacionado como a sala polivalente, destinado a uma
pequena copa e uma instalação sanitária de apoio
aos funcionários do Cento Interpretativo, e outro com
acesso pelo exterior onde funcionam instalações sanitárias de apoio aos utentes e visitantes do Circuito e
do Santuário.
57
CADERNO
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
7. Sala de exposições
IPPAR/H. Ruas
8. Recepção
IPPAR/H. Ruas
9. Sala de exposições
IPPAR/H. Ruas
7
Ficha técnica
COORDENAÇÃO DA INTERVENÇÃO
DRE/DE
ARQUEÓLOGO RESPONSÁVEL (IPPAR)
Rafael Alfenim
ARQUITECTURA
PROJECTO GERAL
Sofia Salema (DRE)
PROJECTO DE EXECUÇÃO
Sofia Salema (DRE)
Colaboração
José Sousa Macedo
INST. ELÉCTRICAS E TELEFONES
Manuel Melgão
ÁGUAS E ESGOTOS
António Eliseu
PAISAGISMO
Cláudia Giões (DRE/IPPAR)
CONSTRUÇÃO
Silvério e Melro, Lda.
PROJECTO EXPOSITIVO
Aresta
9
.
58
8
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Conjunto Arqueológico
do Escoural
João António Marques
Arqueólogo, Direcção Regional
de Évora do IPPAR
1. Colina onde se situa
a entrada da gruta
Arquivo IPPAR
Gruta do Escoural fica situada na freguesia
A
estalagmítico que constituíam uma necrópole do
do Escoural, concelho de Montemor-o-Novo,
Neolítico Final, reconhecendo o mesmo investigador
constituindo a única cavidade conhecida no actual ter-
posteriormente as primeiras pinturas. Foi este mesmo
ritório português onde foram descobertos vestígios das
arqueólogo que promoveu as primeiras medidas con-
primeiras manifestações artísticas do Homem, pintu-
cretas de protecção e salvaguarda que levaram ao fim
ras e gravuras, produzidas durante o Paleolítico Superior,
da exploração da pedreira e que culminaram com a
num período que remonta a cerca de quarenta mil
classificação da gruta como Monumento Nacional pelo
anos, a chamada Arte Rupestre Paleolítica. A raridade
Decreto 45 327 de 25 de Outubro de 1963.
destes achados atraiu ao local, nas últimas três déca-
Posteriormente, as escavações aí efectuadas permi-
das, elevado número de investigadores e interessados
tiram identificar vários períodos de ocupação da gruta,
que constantemente a visitam.
desde o Paleolítico Médio (há cerca de cinquenta mil
Com a sua descoberta a 17 de Abril de 1963,
anos) e Superior (35 000-8000 a.C.) até ao Neolítico
que ficou a dever-se a circunstâncias ocasionais
Médio e Final (5000 a.C.-3000 a.C.), tendo sido encon-
relacionadas com a exploração de uma pedreira na
trado no exterior, no monte que coroa a gruta, um
Herdade da Sala, o arqueólogo Farinha dos Santos
Santuário Rupestre Neolítico composto por várias
tomou contacto com numerosas ossadas humanas e
gravuras. No mesmo local foi escavado parcialmente
restos de cerâmica, consolidados por espesso manto
um pequeno povoado fortificado da Idade do Cobre
59
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
a numerosos símbolos de interpretação complexa.
No caso da Gruta do Escoural foram identificadas duas
fases que representam cronologias de há cerca de vinte
e cinco mil a treze mil anos atrás, sendo representados sobretudo bovídeos e equídeos além de diversos
signos, actualmente de difícil interpretação.
Com a aquisição em Setembro de 1998 do terreno da
Gruta do Escoural, criaram-se as condições para a
implementação de um conjunto de iniciativas tendentes
à valorização deste importante conjunto arqueológico.
Iniciou-se um processo de consultas a arquitectos que
levaram à selecão do Arquitecto Nuno Simões que
elaborou um estudo prévio e o projecto de execução
do Centro de Acolhimento a construir junto à Gruta.
Foi endereçado um convite à D.ra Ana Cristina Araújo
2. Interior da gruta
(IPA) para elaboração de um guião de conteúdos para
IPPAR/M. Ribeiro
o Centro de Interpretação situado na vila do Escoural,
3. Pormenor de representação
de uma cabeça de equídeo –
pintura a negro
com projecto de adaptação e expositivo do Arquitecto
Carlos Severo.
Em Janeiro do corrente ano foi inaugurado o Centro
IPPAR/M. Ribeiro
de Interpretação do Conjunto Arqueológico do Escoural.
Presentemente, a Divisão de Conservação e Restauro
do IPPAR irá iniciar um processo de avaliação da influência das condições ambientais da cavidade e os seus
reflexos na arte parietal, pelo que foi solicitada a
deslocação do Professor Jacques Brunet, conservador
responsável em França pelos mais importantes sítios
pré-históricos ornamentados, nomeadamente as grutas de Lascaux, Font de Gaume (Les Eyzies), Niaux,
(2000 a.C.) que se relacionará com o tholos, sepulcro
Henri Cosquer, Arcy/Cure, dirigindo, neste momento,
megalítico de falsa cúpula, situado a cerca de seis-
um grupo de investigação multidisciplinar, que estuda
centos metros da gruta.
o impacto das condições ambientais na degradação
É igualmente de salientar que nesta zona existem impor-
das decorações parietais das grutas e os meios de solu-
tantes monumentos megalíticos, salientando-se a Anta
cionar esses problemas.
Grande Comenda da Igreja, e já no concelho de Évora,
A sua importância, apesar de não ser o único sítio
o Cromeleque dos Almendres e a Anta Grande do
conhecido em território nacional com Arte Paleolítica,
Zambujeiro.
faz deste conjunto arqueológico um lugar à parte no
A Arte Rupestre Paleolítica é uma arte animalística
contexto da arqueologia pré-histórica portuguesa, a
produzida por comunidades de caçadores, que repre-
exigir uma atenção reforçada do ponto de vista da
sentam realisticamente cavalos, auroques, veados, renas,
investigação, da conservação, apresentação pública e
cabras, mamutes, rinocerontes, felinos, etc., associados
divulgação.
Bibliografia
ARAÚJO, Ana Cristina e LEJEUNE, Marylise, A Gruta do Escoural (Necrópole Neolítica e Arte Rupestre Paleolítica), Trabalhos de Arqueologia, n.º 8,
IPPAR,
1995.
GOMES, Mário Varela, Gruta do Escoural, l, Arte Parietal,
IPPAR,
2001.
SILVA, António Carlos (coordenação), Gruta do Escoural, Roteiros da Arqueologia Portuguesa, n.º 4,
60
IPPAR,
1995.
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Centro de Interpretação
da Gruta do Escoural
Carlos Severo
Arquitecto
O
projecto teve como primeiro objectivo a recuperação e reconversão de uma habitação tradicio-
nal na Vila do Escoural, para Centro de Interpretação,
funcionando como equipamento de apoio à gruta do
Escoural.
O segundo objectivo foi a concepção, para instalação
no espaço reconvertido, da exposição “Escoural, uma
paisagem com 50 000 anos de história” da autoria da
D.ra Cristina Araújo.
De acordo com o programa do
IPPAR,
a intervenção no
edifício deveria preservar as características da construção primitiva, sendo no entanto necessário alterar-lhe a funcionalidade.
Nesse sentido, propôs-se a abertura da porta principal
directamente para o pátio exterior, transformando-o
em antecâmara do Museu, assegurando a relação com
a rua e integrando este novo equipamento no tecido
urbano envolvente. Com a abertura das paredes interiores, criou-se um espaço único, uma sucessão de
salas, permitindo a circulação e permanência de pequenos grupos de pessoas, e mantendo inalteradas as
características da construção, que foi consolidada e
restaurada.
A recuperação incluiu também a construção de uma
nova cobertura, com isolamento térmico, construção
1. Pátio exterior do Museu
de escada para o gabinete no piso superior, o reves-
IPPAR/H. Ruas
timento de pavimentos em pedra (xisto), bem como a
instalação de todas as infra-estruturas (redes de água
2. Zona de entrada
e esgotos, eléctrica e de segurança) necessárias ao
IPPAR/H. Ruas
desempenho de Núcleo Museológico.
O espaço concebido pretende, através da cor, materiais e iluminação, recriar o ambiente da gruta, tendo
como conceito expositivo a criação de um percurso ao
longo do qual são expostos os conteúdos museológicos.
Este percurso é materializado com a construção de
uma estrutura metálica linear, que suporta o material
61
CADERNO
3. Espaço museológico
IPPAR/H. Ruas
4. Espaço museológico
IPPAR/H. Ruas
5. Recepção
IPPAR/H. Ruas
62
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
6. Espaço museológico
IPPAR/H. Ruas
gráfico e vitrinas, concebida de forma a criar dois
7. Recepção
corredores, de ida e volta, encaminhando a visita.
IPPAR/H. Ruas
O percurso proposto inicia e termina na zona de entrada,
a recepção, apoiada por um balcão e expositores de
vendas.
8. Pormenor da estrutura
dos painéis
No sentido de dotar este Núcleo de maior versatilidade,
IPPAR/H. Ruas
a sala das projecções, a meio do percurso, foi tratada
acusticamente, permitindo desenvolver aí diferentes
actividades, apoiadas pelo equipamento informático
instalado, transformando-a numa sala mais polivalente,
não impedindo em simultâneo a circulação dos
visitantes na exposição.
63
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
>
>
Corte
Planta
Ficha técnica
COORDENAÇÃO DA INTERVENÇÃO
DRE/DE
ARQUEÓLOGO RESPONSÁVEL (IPPAR)
João Marques
APOIO CIENTÍFICO
Ana Cristina Araújo (IPA)
ARQUITECTURA
Carlos Severo
ESTABILIDADE, ÁGUAS E ESGOTOS
Miguel Marques – Eurogil, Gestão Imobiliária, S.A.
INSTALAÇÕES E EQUIPAMENTOS ELÉCTRICOS
Silvino Maio – SM&LM Engenheiros Associados, Lda.
CONDICIONAMENTO ACÚSTICO
Luís Santos Lopes – Acústiprojecto, Gabinete de Engenharia Acústica, Lda.
CONSTRUÇÃO
Sociedade de Construções Carvalho & Martinho, Lda.
PROJECTO EXPOSITIVO
Carlos Severo
DESIGN GRÁFICO
Luís Moreira – TVMdesigners
64
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Centro de Acolhimento
da Gruta do Escoural
Nuno Simões
Arquitecto
A
proposta baseia-se na forte impressão causada
pelo lugar da Gruta do Escoural. A Gruta situa-
-se dentro de uma colina rasgada por uma pedreira
ganhando um forte valor o contraste entre as formações rochosas e a suave topografia natural. Dentro da
mais expressiva destas formações situa-se a Gruta.
Os valores presentes no local remetem-nos para uma
experiência de envolvimento em que História e Natureza
se envolvem e fundem.
A visita à Gruta tem dois momentos: aquele composto
pela viagem de carro (a paisagem é muito bela), passa
pela descoberta do local e termina no estacionamento.
E o que começa quando se tanspõe a vedação. A minha
proposta visa enfatizar esta experiência a dois “tempos”,
reforçando o carácter “iniciático” da visita à Gruta.
Estes dois momentos corporizaram-se no projecto
através da existência de um muro de aparelho de pedra
(recolhida no local), baixo, extenso e horizontal, paralelo à estrada e do percurso de acesso à Gruta, que
tem o desenho de uma serpente feito de calçada
irregular. Estes dois elementos dialogam formando um
contraste ao qual o Centro vai buscar o seu valor
expressivo. O Centro assume uma presença exterior
minimal e misteriosa.
65
CADERNO
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
Planta de implantação
Encostadas a este muro surgem adossadas as instalações do Centro, escavando ao longo do seu perímetro o espaço necessário para as suas áreas. Este espaço
é coberto, no caso das áreas públicas, por uma laje de
betão, solta e pousada numa leve estrutura metálica
e limitada por uma cortina de vidro e por uma estrutura de ensombramento. As restantes áreas estão
contidas num volume duro de betão que se funde com
o terreno, assumindo-se como mais uma formação
rochosa. A circulação faz-se sempre ao longo do muro,
que tem uma presença interior destacada.
COORDENAÇÃO DA INTERVENÇÃO
DRE/DE
ARQUEÓLOGO RESPONSÁVEL (IPPAR)
João Marques
APOIO CIENTÍFICO
Ana Cristina Araújo (IPA)
ARQUITECTURA
Nuno Simões
Joana Barbosa
PAISAGISMO
João Gomes da Silva
ESTRUTURAS
Artur Pinto Martins
INSTALAÇÕES E EQUIP.
Elisabete Maia
ELÉCTRICOS E TELECOMUNICAÇÕES
INSTALAÇÕES MECÂNICAS
A área de estacionamento é pavimentada com gravilha,
Pedro da Palma Campos
estabilizada por faixas de pedra, mantendo-se, na
Luís Manuel Cisneiros Frazão
medida do possível, o carácter “natural” do espaço actual.
66
Ficha técnica
INSTALAÇÕES DE SEGURANÇA
INSTALAÇÕES E EQUIPAMENTOS DE ÁGUAS E ESGOTOS
Hélder Tiago
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Planta
Alçado norte
Alçado sul
Perfil pelo eixo do caminho
Corte pela sala comum
Corte pelo escritório
67
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
O Sítio Arqueológico
de São Cucufate
Rafael Alfenim
Arqueólogo
Direcção Regional
de Évora do IPPAR
1. Ruínas do Templo,
em primeiro plano, e da
fachada principal da villa áulica
IPPAR/M. Ribeiro
E
m local pouco elevado, mas dominando visualmente
nal casa de peristilo, fechada sobre si mesma, centrada
a paisagem a sul, até Beja, se instalou em época
sobre um ou mais pátios interiores, substitui-se por
d.C., uma villa, centro de uma
uma arquitectura aberta ao exterior, de desenvolvi-
exploração agrícola; aí poderia residir o proprietário
mento linear, em que as fachadas são valorizadas, pela
e se organizavam os trabalhos necessários à produção e
multiplicação dos vãos, como elemento de ligação entre
se armazenavam e transformavam os produtos da terra
os espaços interiores e o exterior. São desta fase os
que lhe pertencia. Foi no decurso deste período, até
vestígios que, ainda hoje, e conservando apenas parte
romana, no século
que a “casa” da primeira instalação se
do piso térreo, testemunham a grandiosidade e opu-
foi progressivamente monumentalizando, tendo
lência de uma época que se aproximava do seu fim.
passado por duas grandes campanhas de obras, a
Sem dúvida, foram as realizações do período romano
primeira, no século II, mais tímida, vinca o carácter
que, de forma indelével, marcaram este sítio, contudo,
“urbano” da residência, e a segunda, nos meados do
alguns milhares de anos antes do início desta história,
ao século
século
IV ,
IV,
I
de ruptura com o modelo arquitectónico
seguido no decurso dos séculos anteriores; a tradicio68
por volta de finais do
IV
milénio, já os nossos ante-
passados do neolítico final o tinham escolhido como
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
2. São Cucufate (vista aérea)
IPPAR/M. Ribeiro
local de habitat, talvez temporário, uma vez que não
foi encontrada qualquer estrutura associada aos materiais arqueológicos dessa época aí recolhidos. Mas não
foi ainda o fim do Império, nos inícios do século V,
que ditou o abandono definitivo deste sítio, com algumas descontinuidades, transformações e adaptações,
a ocupação deste mesmo espaço prolongou-se até aos
finais do século
XVIII
3. Vista exterior dos celeiros
(utilizados posteriormente
como igreja)
e, em área contígua, a poente,
para aproveitar a qualidade dos solos e a abundância
de água, instalou-se, em época contemporânea, a horta
IPPAR/M. Ribeiro
de São Cucufate e a sua pequena casa.
4. Pintura da igreja
Os trabalhos que, neste momento, estão em curso em
IPPAR/M. Ribeiro
São Cucufate marcam o início de um novo período na
vivência daquele espaço; no intervalo que medeia entre
a agricultura e a cultura pretende-se que a produção
se mantenha, que o sítio se torne presente, que
um quotidiano activo se aproprie de novo do lugar.
Bibliografia
ALARCÃO, J., S. Cucufate, Roteiros da Arqueologia Portuguesa, 5, IPPAR,
Lisboa, 1998.
A LARCÃO , J., É TIENNE , R. e M AYET , F., Les villas romaines de
S. Cucufate (Portugal), E. De Boccard, Paris, 1989.
69
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Centro de Acolhimento
e Interpretação de São Cucufate
Nuno Bruno Soares
Arquitecto
N
o arranjo do conjunto das Ruínas de São Cucufate
prevê-se a construção de um pequeno edifício de
apoio localizado junto ao acesso à área do Monumento
e que albergará espaços destinados a recepção/bilheteira, venda de publicações, bar, sala polivalente, arrecadações, instalações sanitárias.
A opção fundamental na concepção desta construção
foi a de que ela não fosse, na sua aparência e implantação no local, uma presença excessiva e inadequada
1. Centro de Acolhimento
(obras em curso)
em confronto com o edifício antigo mas constituísse
IPPAR/H. Ruas
antes uma construção discreta sem evidência no meio
envolvente e não visível do interior do recinto das
ruínas.
Este espírito insere-se na concepção geral do arranjo
paisagístico de toda a área envolvente do monumento,
da autoria do Arquitecto Francisco Caldeira Cabral,
Plano Geral
1. Vila
2. Capela
3. Templo
4. Termas
5. Lagar
6. Pátio de lavoura
7. Tanque
8. Miradouro
9. Entrada viveiro/Estaleiro
10. Prado
11. Prado de sequeiro e olival
12. Orla arbórea e arbustiva
de enquadramento
13. Percurso de visita
14. Estacionamento
15. Edifício de acolhimento
70
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Planta
1. Recepção/bilheteira
2. Bar
3. Sala polivalente
4. Arrecadação
5. Instalação sanitária
6. Gabinete de trabalho
Alçado principal
Alçado tardoz
corte AA’
corte DD’
71
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
8. Alçado Sudeste
IPPAR/H. Ruas
9. Paramento da villa aúlica
IPPAR/Paulo Oliveira
que procura definir a acessibilidade ao recinto e a aproximação às ruínas de forma a conduzir os visitantes à
descoberta destas, num percurso que se inicia no Edifício
de Acolhimento, e progride “entalado” entre este e
um talude, até um ponto mais elevado (mirante) que
constitui o primeiro local de observação da edificação
antiga.
O edifício é constituído por um conjunto de espaços
Pormenor de construção
da cobertura abobadada
e volumes distintos que se articulam funcionalmente
e de forma orgânica ao longo desse percurso.
A fim de acentuar a sua ligação a uma modelação de
terreno que o abraça e esconde, utilizou-se para cons-
Ficha técnica
COORDENAÇÃO DA INTERVENÇÃO
DRE/DE
ARQUEÓLOGO RESPONSÁVEL (IPPAR)
Rafael Alfernim
PROJECTO DE ARQUITECTURA
trução dos muros e paredes envolventes a alvenaria
de xisto, nalguns casos travada com fiadas de tijolo
burro, como referência à técnica presente nas ruínas
romanas.
BRUNO SOARES/arquitectos
Nuno Bruno Soares
Patrícia Marques
O átrio de entrada é um espaço amplo, que permite
PROJECTO DE ARRANJOS EXTERIORES
a largura dos vãos, o que possibilita a sua abertura
Francisco Caldeira Cabral
PROJECTO DE INSTALAÇÕES TÉCNICAS
FSP – Projectos e Fiscalização de Instalações Especiais
Fraústo dos Santos
PROJECTO DE ESTRUTURA
Álvaro Varanda
receber grupos de visitantes, com fenestração em toda
total para o exterior e fácil ventilação e atravessamento.
Ao átrio segue-se um pátio sobre o qual abrem
também a sala polivalente e um pequeno bar. O espaço
central da sala é acentuado por uma abóbada exe-
CONSTRUÇÃO
Edicon, Lda.
72
cutada em técnica tradicional com tijolo ao cutelo.
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Povoado Pré-Histórico
de Santa Vitória
(Campo Maior)
Ana Carvalho Dias
Arqueóloga, Direcção Regional
de Évora do IPPAR
1. Vista do povoado
IPPAR/M. Ribeiro
1. Breve historial
Campo Maior. Entre 1997 e 2001 desenvolveu-se um
O povoado calcolítico de Santa Vitória foi descoberto
conjunto de acções com o intuito de disponibilizar
em 1986, tendo sido objecto de várias escavações
os resultados de dez anos de investigação e o
arqueológicas entre esse ano e 1993, no âmbito de
imediato usufruto por parte do visitante/turista do
um Projecto de Investigação.
investimento público realizado.
Um longo e complexo processo de resgate constituiu
sificação, e com um processo de aquisição a decorrer,
2. Castelo de Campo Maior – pólo dinamizador
dos sítios arqueológicos
o sítio sofreu em 1996 significativos danos e esteve
A visita e compreensão do Sítio Arqueológico de
na iminência de ser destruído pelo antigo proprietário
Santa Vitória será articulada a partir do Castelo de
e só um embargo administrativo e a aquisição de
Campo Maior. A este caberá o papel de pólo dinami-
a sua única garantia de salvaguarda: em vias de clas-
tra-
zador e de incentivo ao conhecimento do património
varam definitivamente esses atentados. Com esta aqui-
concelhio onde devem estar concentradas as estrutu-
sição deu-se início ao Projecto de Estudo, Recuperação
ras de apoio ao visitante, que nos próximos anos serão
e Valorização do Povoado Calcolítico de Santa Vitória –
implementadas.
terrenos pelo Estado Português, através do
IPPAR,
73
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
• Estruturas de apoio logístico – recepção/balcão de ven-
interessa interpretar e respeitar como força da natu-
das, instalação de uma cafetaria e sanitários.
reza e como produto cultural das vivências humanas
• Estruturas culturais – centro interpretativo sobre os
ao longo de milénios.
principais vestígios arqueológicos, nomeadamente
É esta filosofia de intervenção minimalista que norteia
sobre o Povoado Calcolítico de Santa Vitória; centro
toda a actuação em Santa Vitória.
interpretativo sobre o Castelo de Campo Maior, outras
Assim, foi seleccionada uma vedação de gado – pos-
áreas expositivas de carácter temporário; circuito interno
tes de madeira e rede ovina –, para cercar toda a área
de visita.
arqueológica adquirida pelo Estado. Este tipo de veda-
• Reserva de materiais arqueológicos em estudo, com
ção diluiu-se na paisagem e pode assemelhar-se, em
área de armazenamento, laboratório de tratamento
termos actuais, às paliçadas pré-históricas que acom-
primário dos materiais, área de inventário.
panhavam os fossos e muralhas de adobe.
As estruturas arquitectónicas e mobiliário a construir
O Castelo dinamizará os sítios arqueológicos classifi-
e montar, de forma a garantir as condições elemen-
cados, nestes serão instaladas as estruturas de apoio
tares de apoio à visita, foram todas colocadas no lado
ao visitante, de impacte mínimo, que facilitem a sua
sul da elevação de Santa Vitória, uma vez que aí já se
leitura cronológico-cultural. Estas estruturas serão
situavam os depósitos de água municipais. Por esta
variáveis respeitando as características de cada sítio
razão, o parque de estacionamento fica na continui-
arqueológico.
dade dos depósitos de água e a estrutura metálica de
observação localiza-se no canto SE da área vedada,
3. Sítio Arqueológico de Santa Vitória
próxima dos referidos depósitos. Isto permite que quem
3.1. Caracterização
suba à estrutura de observação, situada a 4 m acima
Numa elevação bem evidenciada na paisagem e com
do solo, possa envolver-se nos 360º de paisagem que
uma boa plataforma propícia à ocupação humana
o rodeiam. Simultaneamente, observar e analisar as
foi identificado um recinto central cercado por um
estruturas arqueológicas com a respectiva interpreta-
sistema de fossos, datado da primeira metade do
ção fornecida num painel de cerca de 180º, colocado
terceiro milénio a.C.
na estrutura de observação. A partir desta, a visão das
As evidências arqueológicas são exclusivamente estru-
estruturas arqueológicas incide apenas sobre a paisa-
turas escavadas na rocha – fossos, fossas e buracos de
gem natural, uma vez que as construções actuais se
poste. Numa segunda fase de ocupação, mais recente
situam por detrás do visitante, ou seja, no lado sul da
e ainda do período calcolítico, um conjunto de larei-
elevação de Santa Vitória.
ras e de vestígios de cabanas foram implantadas sobre
O parque de estacionamento também foi marcado por
as estruturas mais antigas.
uma intervenção minimalista – construção de um muro
rústico que sustém um talude, e ausência de modela-
3.2. Valorização
ção dos terrenos, de forma a preservar a morfologia
O Sítio Arqueológico de Santa Vitória, pela sua loca-
original do cabeço.
lização, donde se domina uma paisagem cultural de
Num futuro próximo e, em colaboração com a autar-
grande beleza, e pelas características das estruturas
quia, pretende-se requalificar os depósitos de água,
arqueológicas – todas escavadas na rocha –, levou-nos
possivelmente cobri-los de terra para melhor preser-
a optar por minimizar toda a intervenção arquitectó-
vação da imagem natural.
nica e paisagística actual.
74
Interessava-nos valorizar o conjunto das estruturas
3.3. Conteúdos da sinalética
arqueológicas que, por serem negativas, se diluem no
A informação fornecida neste importante povoado cal-
seu meio envolvente e dar todo o realce ao impacto
colítico é efectuada a dois níveis:
que o visitante pode sentir com a paisagem circun-
Nível 1 – Painel de apresentação do Sítio Arqueológico,
dante, uma vez chegado ao local. Paisagem esta que
situado na entrada, junto a uma passagem pedonal
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
(típica porteira de caça), que permite o acesso livre.
para quem as vê do alto da estrutura metálica, mas
Este nível está caracterizado pela informação elemen-
cuja compreensão funcional é difícil de apreender.
tar (espaço/tempo) – nome do sítio, protecção legal,
A par de informação escrita e da apresentação de plan-
planta e barra cronológica.
tas, facilmente entendidas pelos especialistas, dedicá-
Nível 2 – Painel instalado numa estrutura metálica de
mos especial atenção à apresentação de reconstitui-
observação, com 4 m de altura. Funciona como leitor
ções que permitissem visualizar as estruturas positivas
de paisagem e leitor das estruturas arqueológicas. Este
construídas com terra/adobes, produtos vegetais e que
nível é caracterizado por uma informação mais exaus-
estavam associadas às estruturas negativas, as únicas
tiva, através de fotografia, plantas, reconstituições e
que sobreviveram até aos nossos dias.
textos.
Foi também dado apontamento sobre o espólio arqueo-
CADERNO
lógico exumado. A segunda fase de ocupação foi dada
Como leitor de paisagem foi trabalhado o conceito de
a conhecer através de textos. Optou-se pela sua
Sítio Alto – seleccionado como local para viver e, por
apresentação gráfica futura no Centro Interpretativo
isso mesmo, para defender –, que marca a paisagem
do Castelo de Campo Maior, porque no local são só
cultural envolvente, entre o período calcolítico e o
visíveis vestígios da Fase 1. A fase mais recente foi des-
– observam-se o Povoado Calcolítico de
montada durante os trabalhos arqueológicos, pelo que
Santa Vitória, o Castro de Segóvia, o Castelo de Elvas,
a sua apresentação só tem sentido numa exposição
o Forte da Graça e o Castelo de Campo Maior.
sobre o Sítio Arqueológico de Santa Vitória.
O leitor das estruturas arqueológicas constituía o grande
O estudo deste povoado irá continuar, a par das inter-
desafio, uma vez que estas restringem-se a evidências
venções de conservação de que o Sítio irá ser objecto
negativas, bem visíveis no conjunto, e com impacto
nos próximos anos.
século
XVIII
75
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Estrutura de observação
do Povoado Pré-Histórico
de Santa Vitória (Campo Maior)
Jorge Croft
Arquitecto
1. Plataforma de observação
Jorge Croft
1. Programa
instalação de uma estrutura superior de observação,
O povoado calcolítico de Santa Vitória foi identificado em
de onde o visitante pudesse visualizar globalmente as
1986, estando o IPPAR a desenvolver um Projecto de Estudo
evidências arquitectónicas e compreender a articula-
e Valorização deste Sítio Arqueológico.
ção dos espaços deste povoado pré-histórico; obser-
Este projecto visa a continuação da investigação cien-
var os sítios arqueológicos e históricos situados na
tífica deste povoado, a conservação das estruturas
paisagem envolvente, nomeadamente povoados pré-
arqueológicas e a preparação de condições de visita,
-históricos ou, ainda, algumas das fortificações das
através da instalação de infra-estruturas de apoio ao
“linhas de Elvas”.
percurso de visita e da disponibilização de conteúdos
Jorge Croft
76
que facilitem a transmissão deste legado cultural, junto
2. Proposta
de um público diversificado. Para o grande público
Adoptados, procurou-se dar continuidade aos princí-
torna-se necessário facilitar ou melhorar a compreen-
pios predefinidos no Programa, ou seja: minimizar a
são destas estruturas, bem como transmitir a leitura
intervenção arquitectónica actual para não compro-
da paisagem envolvente desde a pré-história até aos
meter quer as estruturas arqueológicas existentes a
nossos dias. Este facto levou a propor a concepção e
nível do subsolo, quer a integração no sítio. Assim, no
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
77
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
4. Estrutura de observação
local predefinido e em termos de reversibilidade, pro-
IPPAR/M. Ribeiro
pôs-se uma fundação mínima para ancoragem da
9. Painel de conteúdos
“estrutura” superior, sendo que a primeira não com-
Jorge Croft
promete qualquer vestígio e a segunda, pré-fabricada,
10. Vista sobre o povoado
poderá ser desmontada e removida quando se enten-
Jorge Croft
der, com a facilidade e rapidez com que foi colocada.
11. Pormenor da estrutura
de observação
Ficha técnica
COORDENAÇÃO DA INTERVENÇÃO
DRE/DE
ARQUEÓLOGA RESPONSÁVEL (IPPAR)
Ana Carvalho Dias
Formalmente, optou-se por uma construção integral-
Jorge Croft
mente metálica que, para além de responder a outros
ARQUITECTURA
Jorge Croft
condicionalismos, permitiria aligeirar o impacto visual
DESENHO
implícito em qualquer adição de construção neste sítio.
FUNDAÇÕES E ESTRUTURAS
Nesta sequência, optou-se pela metalização da generalidade da construção como acabamento geral, dado
Nuno Cunha
Mário J. Leitão
INSTALAÇÃO ELÉCTRICA
José M. Coutinho Lopes
CONSTRUÇÃO
quer o efeito atenuante da presença desta peça
permitido pela cor cinza mate obtida, quer ainda pelo
Tetocivil – Soc. Construções Civis, Lda.
PROJECTO PARQUE DE ESTACIONAMENTO
Mário Fortes (DRL/IPPAR)
aligeiramento de custos visando a integração no
DESIGN GRÁFICO DOS PAINÉIS E SINALIZAÇÃO
orçamento.
78
Ideia i Lda.
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Villa Romana
de Torre de Palma
Ana Carvalho Dias
Arqueóloga, Direcção Regional
de Évora do IPPAR
1. Vista geral da Villa Romana
IPPAR/M. Ribeiro
A
s Ruínas de Torre de Palma estão classificadas como
ou de milho e as searas que se estendem para Sul, até
Monumento Nacional pelo Decreto n.º 241/70
Estremoz. Com esta envolvente resta descobrir o signi-
de 3 de Junho e situam-se no concelho de Monforte,
ficado daquelas pedras que aqui e ali sobressaem nas
distrito de Portalegre.
suaves colinas que ladeiam uma pequena linha de água.
desenvolve um Projecto de Valorização e
Estas Ruínas ocupam uma vasta área e são constituí-
Recuperação destas Ruínas, com o co-financiamento
das por diferentes núcleos, com funções específicas e
dos Programas Interreg II e Itinerários Arqueológicos
com cronologias distintas (séculos
do Alentejo e Algarve.
maioria das vezes, se sobrepõem.
Com este projecto propõe-se ao visitante um longo e
Torre de Palma representa um espaço organizado e
calmo passeio no campo, usufruindo uma paisagem
pensado para a vivência rural; sendo bem estruturada
ímpar, de um colorido variável ao longo das estações
para a exploração agrícola, era também local de recolhi-
do ano. Neste ambiente poderá visualizar-se, para
mento e de lazer do proprietário. Em torno de um
Norte, o monte da Herdade de Torre de Palma, nas
grande pátio, ao qual se acedia por um portão principal,
outras direcções os campos de oliveiras, de girassóis
organizavam-se as construções ligadas à exploração
O
IPPAR
I
a
XIII)
e que, na
79
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
2. Trabalhos arqueológicos
IPPAR/M. Ribeiro
agrícola – o grande celeiro, o lagar de azeite, os arma-
• áreas residenciais – casa do proprietário, casa
zéns de alfaias agrícolas e os estábulos. Sucedia-lhe um
do administrador, casas dos serviçais, hospedaria(?);
pátio porticado, mais pequeno e reservado, ladeado
• higiene e lazer – balneários Este e Oeste;
pelos alojamentos de serviçais e por uma residência
• locais de culto – templo romano, pequeno templo fami-
que pode ter pertencido ao villicus. O lado Norte foi
liar, basílica paleocristã, necrópoles romanas e cristãs.
ocupado por uma requintada residência habitada pelos
Alguns destes espaços, embora estando na proximi-
proprietários.
dade da villa e coexistindo com algumas das suas fases
A basílica paleocristã, construída sobre um templo
de ocupação, deverão ser entendidos num âmbito mais
romano, objecto de várias restruturações e acrescen-
alargado do que uma unidade agrícola. Como a basí-
documenta
lica paleocristã, e talvez o balneário Oeste, se este for
o esforço e a consolidação do cristianismo nesta região.
entendido como espaço semipúblico ou público, pos-
A sua importância cultual perdurará até à Idade Média,
sivelmente associado a uma hospedaria que servia
com o reaproveitamento de parte das paredes da antiga
viajantes em negócios ou crentes que veneravam algum
basílica para a edificação da Capela de São Domingos.
mártir sepultado na basílica.
Através do percurso de visita que está a ser prepa-
Estão a ser realizadas várias acções de conservação e
rado, o visitante poderá conhecer a vivência de uma
restauro das estruturas arqueológicas, de forma a per-
unidade agrícola romana, através dos diferentes espa-
mitir a sua preservação e uma melhor leitura e compreen-
ços de:
são por parte do público. Está concluído o projecto
• trabalho – lagar de azeite, lagar de vinho, forjas,
de execução do Centro de Acolhimento e Interpretação
horta;
e do parque de estacionamento automóvel.
• armazenamento de produtos e de alfaias agrícolas –
Este edifício reunirá condições de acolhimento – áreas
armazéns, granjas ou celeiros...;
de lazer, descanso, bloco de sanitários –, de apoio à
tos, entre finais do século
80
IV
e o século
VII,
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
interpretação das Ruínas – sala expositiva –, promoção e divulgação – balcão de vendas. Haverá ainda
espaços reservados à gestão do Sítio e de apoio à guardaria e aos trabalhos de arqueologia, conservação e
restauro.
O parque de estacionamento terá espaço para veículos automóveis ligeiros, autocarros de turismo e um
espaço para cavalos. Este último foi previsto considerando a possibilidade da organização de passeios culturais a cavalo. Este espaço poderá constituir um registo
de memória, uma vez que um dos mosaicos encontrados em Torre de Palma representa cinco cavalos que
ostentam palmas que eram, geralmente, atribuídas aos
vencedores do circo.
3. Casa do Peristilo
IPPAR/M. Ribeiro
81
CADERNO
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
Centro de Acolhimento
e Interpretação
de Torre de Palma
Victor Mestre
Sofia Aleixo
Arquitectos
1. Monte da Herdade de Torre
de Palma e zona de implantação
do futuro Centro
de Acolhimento
Arquivo IPPAR
82
Apontamentos de intenções
expressas em projecto
é algo de verdadeiramente extraordinário e será sem
A implantação da “Villa Basilii” terá sido criteriosa, tal
valores desta civilização através dos tempos.
como a sua construção, que reproduz as técnicas roma-
Ainda sobre a leitura genérica do sítio gostaríamos de
nas da arte de bem construir. Esta denota ainda aspec-
sublinhar que entendemos o local como um campo
tos de grande apuro, nomeadamente nos aspectos
arqueológico dinâmico. Ou seja, a sua importância pas-
hidráulicos. As técnicas de drenagem de encaminha-
sará pelos aspectos físicos já revelados por outros e a
mento das águas para uso nas termas e na vida domés-
detectar através de cíclicas escavações, mas também
tica revelam um saber tecnológico complexo, perfei-
por um processo de “legibilidade do território”
tamente dominado. É particularmente notável a forma
enquanto unidade de produção e de fruição, que terá
como se resolvem os problemas das águas exceden-
constituído a razão de ser das actuais ruínas.
tárias que envolvem as termas a Sul, onde um con-
Neste sentido, gostaríamos de introduzir neste Programa
junto de drenos escoa as águas para um canal de
Preliminar e no futuro Projecto de Arquitectura uma
descarga na linha de água.
ambição maior do que apenas a de museolização das
Aspectos como este são em nosso entender sinais
ruínas. Ou se quisermos, o denominado Centro Interpre-
claros da importância que o território tinha para a
tativo poderá ser induzido a interpretar o território, a
cultura romana, que apesar da distância do local de
paisagem, os aspectos da natureza e o espaço cósmico.
origem mantinham os seus critérios civilizacionais inal-
O usufruto da paisagem próxima e distante permitirá ao
teráveis. Esta cultura de respeito pelo saber adquirido
visitante adquirir uma leitura de enquadramento do
dúvida um dos principais pilares que fará perdurar os
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
11
Plano Geral
1. Necrópole
2. Cemitério Noroeste
3. Basílica paleocristã
4. Cemitério Sudoeste
5. Casa do Peristilo
6. Termas Este
7. Cozinha da Villa
8. Casa do pórtico
9. Lagar de azeite
10. Termas Oeste
11. Centro de Acolhimento
83
CADERNO
Planta
1. Átrio/Bilheteira/Loja
2. Sanitários femininos
3. Sanitários masculinos
4. Sanitário (def.)
5. Gabinete do gestor
6. Museu
7. Exterior coberto com grelhagem
8. Pátio dos arqueólogos
9. I.S./vest. masculinos
10. I.S./vest. femininos
11. Sala de trabalho
A. Espaço aberto com vista
panorâmica sobre campo
arqueológico
B. Início de percurso de visita
às ruínas
C. Vedação (1.º nível)
84
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
conjunto arqueológico e simultaneamente recriar-se num
Num meio tão agressivo quanto o que se verifica em
ambiente de envolvimento de paisagem cultural.
Torre de Palma, onde a amplitude térmica torna as
Quanto ao futuro edificado consideramos que deverá
condições atmosféricas difíceis de suportar, é aconse-
formar um conjunto de “paredes e pavimentos
lhável criar zonas de recolhimento. Estas poderão ser
cobertos” numa disposição sem aparente atitude de
associadas à contemplação, leitura e pequenas pausas
composição, ou seja uma saudável antimonumentali-
para uma refeição improvisada. Neste sentido se pro-
zação. Procurar-se-á a “serialidade” de módulos repe-
põe um módulo logo à entrada onde o visitante
titivos, desmaterializados de formalismos e sobrele-
desfrutará de bancos e mesas devidamente abrigados.
vados relativamente ao pavimento. A estrutura base
A paisagem que daí se poderá contemplar terá em
permitirá a reversibilidade caso o chão arqueológico
primeiro plano o Campo Arqueológico e sobre este a
venha a exigir a sua deslocação. Considera-se a zona
paisagem de perder de vista. Também um sistema de
a Nascente do actual portão como a localização mais
palas em aço e madeira a Sul do átrio irá garantir o
adequada para os módulos, ficando o estacionamento
ensombramento desejável de modo a permitir um
na área envolvente dissimulado por um ligeiro declive
tempo de espera resguardado para grupos numerosos
de modo a atenuar o impacto dos veículos.
de visitantes.
A disposição de “muros módulos”, a que nos referi-
Dos materiais de revestimento retemos o uso, em quase
mos anteriormente como não tendo uma aparente
exclusividade, da tijoleira manufacturada que pelo seu
atitude de composição, deverá ser entendida antes
carácter artesanal terá uma presença homogénea e
como tratando-se naturalmente de uma abstracção.
simultaneamente irregular na textura e na tonalidade.
O que se pretende é não criar sobre o território uma
A sua escolha deve-se ao uso sistemático deste mate-
intenção proeminente na expressão arquitectónica e
rial pelos Romanos.
na monumentalização do sítio para se evitar que esta
Tão-somente se procura uma ideia de “não interven-
venha a competir com a zona das ruínas. Antes se pro-
ção”, ou melhor, intervir pela ausência de “marcos
põe a implantação de um conjunto de módulos aber-
simbólicos”, pretendendo-se qualificar o lugar das
tos e cobertos que formarão um edificado em redor
ruínas por aquilo que elas são capazes de expressar,
de um espaço exterior aberto onde se poderá usufruir
pela força do seu relacionamento com o território, e
de apontamentos de passagem enquadrada e refe-
deste para com elas, e ainda construindo na paisagem
rencial, como sejam, a Norte, a Herdade de Torre de
uma estrutura abstractizante que se quer integrada
Palma, a Nascente-Sul, as ruínas e respectiva cobertura,
nos materiais e no contexto geográfico.
CADERNO
e a Sul-Poente, uma vista sobre a planície.
O conjunto arquitectónico que apresentamos, quer o
número de módulos “volumétricos” quer os módulos
de pavimento, representa a optimização da sua associação. Neste sentido, teremos como módulos fixos
Ficha técnica
COORDENAÇÃO DA INTERVENÇÃO
indispensáveis aqueles que contemplam o solicitado
DRE/DE
em Programa Preliminar: dois módulos contendo a
Ana Carvalho Dias
zona museológica, dois módulos administrativos con-
ARQUITECTURA
tendo a recepção e o Gabinete do Administrador, dois
módulos de sanitários, e finalmente o módulo de apoio
ao trabalho científico dos arqueólogos. Ou seja, um
total de sete. Os restantes módulos, totalmente ou
parcialmente cobertos com os respectivos estrados,
bem como os módulos só de ensombramento, permitirão a fruição e a circulação exterior ao núcleo museo-
ARQUEÓLOGA RESPONSÁVEL (IPPAR)
Victor Mestre/Sofia Aleixo, Arquitectos, Lda.
Colaboração
Nuno Gaspar e António Eguerev Silva
FUNDAÇÕES E ESTRUTURAS
A2PConsult Lda. – João Appleton/Pedro Ribeiro
INST. CLIMATIZAÇÃO, ÁGUAS, ESGOTOS
Termifrio, Lda. – Serafin Granã
INSTALAÇÕES ELÉCTRICAS, COMUNICAÇÕES, SEGURANÇA
Quanti Lda. – Fernando Gravito/Luís Alegra
PAISAGISMO
Proap Lda. – João Nunes/Carlos Ribas
CONSTRUÇÃO
lógico, complementando-o.
Edicon, Lda.
85
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Ruínas de Milreu
Rui Parreira
Arqueólogo do IPPAR
Director da Fortaleza de Sagres
2
1. Edifício religioso, século
IV
S
ituadas junto a Estoi, 9 Km a Norte de Faro, perto
IPPAR/M. Ribeiro
da estrada que segue para São Brás de Alportel,
2. Villa Romana de Milreu
(vista aérea)
as ruínas da Villa Romana de Milreu apresentam a descoberto um complexo edificado do século III, consti-
Arquivo IPPAR
3. Termas do lado Poente, século
III
tuído por uma casa senhorial, de grandes dimensões,
instalações agrícolas, balneário e um templo. Do lado
IPPAR/M. Ribeiro
oriental, pouco afastados da área residencial, reco-
4. Tabela informativa sobre
a Villa
nhecem-se dois mausoléus. A residência, erguida sobre
IPPAR/H. Ruas
3
construções anteriores, organiza-se em torno de um
5. Pormenor do mosaico da
parede do podium do edifício
religioso do século IV
peristilo central. São frequentes representações de
IPPAR/H. Ruas
cente do peristilo, como nos das termas. O templo,
fauna marinha, tanto nos mosaicos localizados a nasconstruído no século IV, e dedicado às divindades aquáticas, foi posteriormente islamizado, adaptado a igreja
cristã e abandonado no século X. Só nos inícios do
século XVI o sítio de Milreu voltou a ser ocupado sobre
os vestígios romanos, com a construção de uma casa
de carácter rural, constituindo, por esse facto, um interessante exemplo de sobreposição de estruturas de
ocupação de diferentes épocas.
5
86
4
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Centro de Acolhimento
e Interpretação de Milreu
Ditza Reis*
Pedro Serra Alves**
Cenários Urbanos
*
Arquitecta
**
Arquitecto
N
1
2
3
1. Entrada do Centro de Acolhimento
IPPAR/H. Ruas
4
5
1. Casa rural século
XVI-XIX
2. Casa com peristilo
2. Percurso de acesso às ruínas
3. Termas
IPPAR/H. Ruas
4. Edifício religioso
5. Centro de Acolhimento
R
ecordar a memória deste lugar através do percurso
de visita é o objectivo deste programa.
O edifício do Centro Interpretativo e de Acolhimento
funcionará como “porta” do recinto da estação arqueológica, e como espaço de atendimento dos visitantes,
disponibilizando publicações e objectos de divulgação,
como “museu narrativo” fornecendo informações sobre
a história do local, e como apoio às pesquisas arqueológicas.
O percurso de visita estrutura o edifício em dois eixos:
o sul/norte que o liga à estrada e o nascente/poente
87
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Planta
1. Entrada coberta
2. Átrio
3. Arrumos
4. Sala de exposições
5. Circulação
6
6. Rampas/degraus
7. Instalações sanitárias masculinas
8. Instalações sanitárias deficientes
9. Instalações sanitárias femininas
10. Gabinete de trabalho
6
6
13
6
11. Arrec. mat. conservação
12. Arrec. mat. jardinagem
4
13
13. Compart. ar condicionado
6
5
6
12
1
2
11
10
9
8
7
3
6
perfil do terreno natural
perfil do projecto
perfil do terreno natural
88
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
5. Acesso ao Sítio Arqueológico
6. Loja/recepção
que contém o caminho romano. No cruzamento o
Ficha técnica
COORDENAÇÃO DA INTERVENÇÃO
Centro Interpretativo e de Acolhimento faz a charneira.
Aproveitando a topografia adossa-se ao terreno pelo
DRF/DE
ARQUEÓLOGO RESPONSÁVEL (IPPAR)
Rui Parreira
lado nascente e abre-se a sul, pelo átrio de entrada,
ARQUITECTURA
espaço com grande transparência que o liga visualmente à envolvente (estrada, ponte, cruzamento e
ribeira) e que distribui os restantes compartimentos.
Ditza Reis
Pedro Serra Alves
DESENHO
Paulo Correia e Luís Gomes
MEDIÇÕES
A ortogonalidade da Villa e os materiais utilizados na
sua construção (a pedra e o tijolo) foram as referências para a forma e composição do edifício. O Centro
articula-se com a área arqueológica respeitando as existências documentadas e o seu baixo perfil, o encosto
Maria Emília
PAISAGISMO
Cenários Urbanos, Lda./José Brito
ESTRUTURAS, ÁGUAS E SANEAMENTO
Concepes – Estudos Eng.ª Lda.
ELECTRICIDADE – INSTALAÇÕES MECÂNICAS
Vivaldo Gonçalves
CONSTRUÇÃO
ao terreno, o preenchimento da laje de cobertura com
Jorge Santos Construções, S.A.
terra vegetal, os muros revestidos a pedra e os
PROJECTO EXPOSITIVO
alçados a tijolo, absorvem esta construção nova
Carlos Severo
continuando a conferir à estação arqueológica o protagonismo no território.
89
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Villa Romana de Cerro da Vila
1. Vista parcial da Villa
IPPAR/M. Ribeiro
S
90
ituadas junto a Vilamoura, distrito de Faro, as ruí-
grande sala de recepção e de refeições de Verão, os
nas integravam o território de Ossonoba. A primi-
quartos, a cozinha e as áreas de serviços, que incluíam
tiva ocupação da villa remonta à primeira metade do
um cryptoporticum.
século I d.C.
Pouco se sabe sobre a economia produtiva local, mas
A sua localização favoreceu o aproveitamento dos
várias oficinas com tanques indiciam o fabrico de pre-
recursos marítimos e o tráfico de mercadorias, ates-
parados de peixe, ou, mais provavelmente, a tintura-
tado pela existência de um porto.
ria de tecidos a partir da púrpura.
No século II, e particularmente a partir do século III,
Os senhores de Cerro da Vila fizeram-se sepultar em
a área residencial adquiriu uma expressiva dimensão.
mausoléus com columbarium, uma cripta com peque-
A água era um elemento sempre presente, jorrando das
nos nichos laterais para a colocação das urnas con-
bicas e das estátuas para o lago do jardim, espaço cen-
tendo cinzas. Em época tardia, foi crescendo um vasto
tral em torno do qual toda a casa se desenvolvia: uma
cemitério com sepulturas de inumação.
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Núcleo Museológico
da Villa Romana
de Cerro da Vila
Fernando Galhano
Arquitecto (Lusotur)
U
m dos elementos estruturantes da proposta que
conduziu à construção do Centro de Acolhimento
do Cerro da Vila, em Vilamoura, acabou por ser a
pequena edificação de apoio existente no local.
Casa do guarda, arrecadação e oficina, as modestas
instalações de apoio acompanharam o desenvolvimento
quer do sítio arqueológico em si, quer do empreendimento turístico envolvente.
Aquando da elaboração do presente projecto, desde
logo se avaliou se a construção existente se manteria,
se seria demolida ou absorvida.
Razões de funcionamento e de contenção de custos
apontaram claramente para a sua recuperação/
/ampliação.
Tornou-se assim necessária a sua articulação com
as restantes funções previstas para o Centro de
Acolhimento – controlo, recepção e exposição, bem
como, e essencialmente, com a própria via de acesso
e percurso pedonal.
1. Área de recepção
O novo corpo construído funciona como “muro” ou
IPPAR/M. Ribeiro
barreira separadora entre a via pública e o recinto
2. Alpendre
arqueológico, criando a curiosidade natural para “esprei-
IPPAR/M. Ribeiro
tar” e ver o que se esconde por detrás. A entrada
ampla, e no alinhamento visual de todo o percurso de
aproximação, demarca-se como a única abertura convidando o público a penetrar no interior do edifício.
Tentou-se fortalecer esta noção de “convite à entrada”
através de duas situações distintas:
• a instituição de alpendre, a cota ligeiramente inferior à do passeio, criando um recanto mais intimista
na própria zona pública;
• a abertura de vão rasgado, olhando sobre as ruínas
– em contraponto às portas de entrada em vidro
temperado –, permitindo uma transparência entre o exterior (público) e o exterior (privado), funcionando a recepção/átrio como mero espaço interior de transição.
91
CADERNO
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
3. Sala de exposição
4. Sala de exposição
IPPAR/M. Ribeiro
IPPAR/M. Ribeiro
Planta
1. Entrada
2. Átrio/Espera/Exposição
3. Bilhetes, material informativo
4. Átrio/leitura/pausa
5. Instalações Sanitárias Deficientes
6. Instalações Sanitárias Senhoras
7. Instalações Sanitárias Homens
8. Circulação/Distribuição/Exposição
9. Sala de exposição
10. Arrecadação de apoio/Sala de exposição
11. Pátio/Anfiteatro/Aulas e Escola
12. Trabalho/Conservação
13. Gabinete Coordenador
14. Desenho
15. Arrecadação de peças
16. Instalação Sanitária
17. Coberto exterior
18. Hall+pequena bancada kitchenette
19. Quarto
20. Instalação Sanitária
21. Cozinha
22. Sala
23. Arrecadação material de jardinagem
92
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Corte EF
Corte LM
Corte IJ
No restante, e como atrás referido, privilegiou-se sem-
Ficha técnica
COORDENAÇÃO DA INTERVENÇÃO
pre um certo recolhimento nos espaços, uma certa
DRF/DE
privacidade de ambientes.
Rui Parreira
ARQUEÓLOGO RESPONSÁVEL (IPPAR)
A sala de exposições não tem janelas, apresentandoPROJECTO DE ARQUITECTURA
-se como simples cubo mergulhado na escuridão, sobres-
Fernando Galhano
saindo apenas as peças iluminadas.
PROJECTO DE ESTABILIDADE
O pequeno anfiteatro de apoio às visitas escolares
PROJECTO DE ELECTRICIDADE
nasce num pátio interior resguardado, tendo apenas
PROJECTO DE PAISAGISMO
como companhia um limoeiro existente.
Tratando-se no fundo de estrutura simples e de peque-
Martiniano Leal
Victor Silva
Ana Rosado
AR CONDICIONADO
Climalgarve, Lda.
CONSTRUÇÃO
nas dimensões, procurou-se essencialmente um equilíbrio em termos de materiais – pedra, madeira, e argilas tradicionais (tijolo burro e telha) e sua articulação
P. Sequeira Construções, Lda.
PROJECTO EXPOSITIVO
Carlos Severo
coerente com a flora e arborização local –, oliveiras,
ciprestes, limoeiros, buganvílias, contrastes de luz e
sombra (pórticos, alpendres e pérgulas), como forma
de respeitar a memória do sítio e a coerência do local.
93
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Alcalar: estudo, salvaguarda
e valorização de uma paisagem
cultural do III milénio a.C.
Elena Morán*
Rui Parreira**
*
Arqueóloga
Colaboradora do IPPAR
**
Arqueólogo do IPPAR
Director da Fortaleza de Sagres
oferecia materiais de construção e matéria-prima para
o fabrico de artefactos, não despiciendo o cobre,
extraído nos “chapéus-de-ferro” da faixa xistosa, e o
ouro que os aluviões carreavam.
Um “lugar central”: o povoado pré-histórico
de Alcalar
No
III
milénio a.C., este território tinha como “lugar
central” um povoado que se estendia por uma
superfície de quase dez hectares, sobre uma elevação
amesetada junto à actual localidade de Alcalar – hoje
em dia um modesto aglomerado de casas rurais, a
uns cinco quilómetros da Mexilhoeira Grande, cabeça
de freguesia do concelho algarvio de Portimão.
Os trabalhos de pesquisa efectuados neste sítio
arqueológico evidenciaram a existência de um sistema
1. Alcalar, monumento n.º 7,
interior da cripta
de cercas, com fossos de traçado sinuoso, ao abrigo
das quais se albergavam habitações de planta circular
IPPAR/M. Ribeiro
cobertas com tabique de barro e canas, cisternas e silos
Uma paisagem cultural do
milénio a.C.
de armazenagem de produtos agrícolas. Os restos de
A paisagem que se estende para norte de Alvor até aos
fauna, as sementes e os carvões recuperados nas
contrafortes da Serra de Monchique constitui um
escavações arqueológicas evidenciam um sector
território de charneira entre a montanha e o mar que,
primário de economia mista, onde a agricultura de
proporcionando uma ampla gama de recursos de
sequeiro e a horticultura de regadio conviveram com a
subsistência, teve, no
III
III
milénio a.C., uma intensa
pastorícia, a caça, a pesca e a apanha de marisco.
ocupação humana. A ria de Alvor era então um vasto
94
lençol de água que, com as Ribeiras de Odeáxere,
A necrópole megalítica de Alcalar: a fase antiga
Arão, Farelo e Torre – outrora navegáveis – funcionou
Em redor desse povoado, sobre as pequenas colinas
como via de transporte de bens e de gentes e como
circundantes, foram sendo edificados, ao longo de
fonte de recursos alimentares. Junto às margens da ria
várias gerações, cerca de duas dezenas de templos
encontravam-se estabelecidas comunidades de
funerários monumentais – alguns deles explorados, nos
pescadores e marisqueiros. O interior, com abundantes
finais do século
nascentes de água, tinha então um coberto vegetal
por Nunes da Glória, Estácio da Veiga, Pereira Jardim,
mais frondoso que na actualidade, proporcionando
Santos Rocha e José Formosinho. Esse conjunto
caça abundante mas também solos férteis para a
constitui uma necrópole configurada por uma
agricultura e pastos para o gado. A riqueza do subsolo
estratégia de organização da paisagem vinculada às
XIX
e na primeira metade do século
XX
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
2. Planta e alçado
do monumento n.º 7,
segundo Estácio da Veiga, 1889
Desenho de Nunes da Glória
condições de produção: sacralizando o espaço e
(uma delas com “clarabóia” tapada por uma lage),
delimitando o núcleo central do território.
unidas por uma estreita passagem e com acesso ao
O chamado Monumento 1 representa o edifício
exterior através de uma rampa. Os restos humanos
sepulcral mais antigo desta necrópole. Trata-se de um
recuperados correspondem a sucessivas deposições de
enorme túmulo, constituído por um cairn de pedras
pelo menos cento e setenta e um indivíduos, a maioria
calcárias que envolve uma anta de corredor comprido.
reduzidos a ossuários, colocados junto às paredes
O monumento ocupa o ponto mais elevado da colina
laterais das criptas, alguns ainda em posição primária,
onde foi edificado e, à sua volta, levantaram-se cinco
ocupando a parte central das câmaras e depositados
outros túmulos de menor porte que confirmam a
em posição fetal, conservando elementos do traje
continuidade no ritual e a complexificação do espaço
(colares de contas de pedra, alfinetes de cabelo em
funerário.
osso), componentes de pedra de instrumentos (enxós,
À mesma fase – atribuível cronologicamente à
machados, lâminas de sílex) e ídolos-placas de ardósia.
milénio a.C. – corresponde
Nalguns casos, a disposição dos alfinetes e furadores
o hipogeu aberto nos calcários brandos do Monte
de osso sugerem a existência de mortalhas, tanto para
Canelas, cerca de um quilómetro a norte do “lugar
envolver os cadáveres como as deposições secundárias.
central” e aparentemente associado a um pequeno
Chama a atenção a quase ausência de recipientes de
núcleo habitacional. Desconhece-se se se trata de
cerâmica completos (apenas um, esférico) e a escassez
um sepulcro isolado ou se – como outros hipogeus
de fragmentos de vasos.
transição do
IV
para o
III
contemporâneos – fazia parte de um conjunto, ainda
efectuada em 1992-1994 por uma equipa do IPPAR e do
A necrópole megalítica de Alcalar:
a fase recente
Departamento de Antropologia da Universidade de
O período recente da necrópole monumental atribui-
Coimbra, revelou uma estrutura escavada na rocha, de
-se ao Calcolítico pleno. Constituiu-se ao largo de
enterramento colectivo, com duas criptas abobadadas
várias centúrias do
não localizado. Mas a sua minuciosa escavação,
III
milénio a.C. e corresponde à
95
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
densificação da ocupação do espaço em torno do
uma área do subsolo, limpo de sedimentos e nalguns
“lugar central” e junto a povoados periféricos, como
pontos cortado na horizontal, cujos limites em planta
Monte Velho e Poio. Caracteriza-se pela edificação de
correspondem grosso modo ao traçado da mamoa,
túmulos envolvendo construções do tipo tholos com
colocou-se terra embalando numerosos fragmentos de
grande diversidade de soluções arquitectónicas.
cerâmica (esféricos e taças carenadas), por forma a
obter uma superfície nivelada. A este estrato
O Monumento 7
pertencem também duas fogueiras postas a
Do lado nascente da necrópole de Alcalar foi
descoberto pela desmontagem do cairn nas sanjas sul
milénio a.C. um templo
e oeste. Trata-se de fogueiras possivelmente com
funerário megalítico conhecido como Monumento 7
carácter ritual, colocadas directamente sobre uma
(a numeração atribuída pelo seu primeiro escavador,
depressão aberta no subsolo, para faciltar a disposição
Estácio da Veiga). Como resultado das escavações
das pedras que formavam a base da pira e que eram
construído em meados do
III
efectuadas entre 1997 e 2000, por iniciativa do
IPPAR
e
pedaços de dormentes de mós de granito.
sob a direcção dos arqueólogos Elena Morán e Rui
Acompanhando esta operação de terrapleno abriu-se
Parreira, observaram-se no terreno diversas fases
um poço no subsolo, no centro geométrico da mamoa,
construtivas com correspondência estratigráfica.
destinado a implantar a cripta, e uma sanja perpendicular, no local destinado ao corredor; o fundo do
poço foi então revestido por um lajeado de calcário
que forma o chão da cripta; depois, esta abertura na
rocha natural foi revestida de lajes de xisto mediante a
técnica de aproximação de fiadas, construindo-se assim
um tholos com uma câmara com 3 m de diâmetro na
base provida de três nichos laterais; a construção
revelou-se como um maciço de lajes de xisto imbricadas, colocadas em fiadas na horizontal e ligadas
por barro amassado. Na estrutura do maciço de
alvenaria de xisto se inserem as soleiras e os lintéis
dos nichos laterais, que possuem jambas de alvenaria
de xisto, bem como as tampas e as ombreiras que
definem os distintos tramos do corredor. Na sua parte
superior, a partir da cota de topo do estrato de
3. Alcalar, fachada e entrada
com corredor intratumular,
monumento n.º 7
terraplanagem, previamente preparado com um
IPPAR/Elena Morán
96
A primeira operação realizada pelos construtores do
nivelamento visível nos perfis e a base do contraforte,
monumento consistiu na minuciosa escolha da
a cripta funerária é contrafortada mediante o
implantação do túmulo, a cavalo numa dobra do
alargamento em tronco de cone da estrutura para a
terreno, de tal modo que a fachada, voltada a
periferia da construção. Sobre este contraforte, a
nascente, ficasse a uma cota mais baixa que o restante
estrutura arranca com uma largura de cerca de 1,80 m
túmulo. Desse lado, onde existe uma vasta plataforma
com elevação em falsa cúpula, demarcando um
capaz de suportar a aglomeração de um “público”,
escalão uma “face” exterior, seguindo a aproximação
obtinha-se assim a perspectiva mais monumental do
de fiadas da face interior; esta falsa cúpula era rema-
edifício, com uma mamoa de quatro metros de altura e
tada no topo por duas grandes lajes, documentadas
uma fachada que deveria funcionar como cenário de
nos desenhos publicados por Estácio da Veiga e hoje já
liturgias evocativas dos antepassados.
desaparecidas.
A segunda operação foi o aplanamento e a
Delimitando a estrutura de xisto, pelo exterior da
terraplanagem de toda a área da construção. Sobre
cripta, do lado sudoeste, localizou-se uma estrutura de
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
blocos subrolados em calcário, de tamanho médio e
por outras fiadas de blocos de
grande, ao modo de contraforte adicional.
calcário, situadas a diferentes
O acesso ao interior da cripta fazia-se através do
distâncias da cripta.
corredor, estreito e comprido, construído com dois
No nicho aberto na parede
grossos muros de alvenaria de xisto de uma só face
poente da cripta – sem soleira
encaixados na sanja aberta no subsolo, coberto por
mas igualmente coberto por
tampas de grandes lajes de calcário e que ia abrir a
grandes lajes – foi praticada
eixo na fachada, orientado a nascente. Com um claro
uma liturgia que incluía rituais
dispositivo de inibição do acesso à cripta, este corredor
de fogo. Verificou-se que,
apresentava-se cada vez mais estreito no sentido desta,
aparentemente após a derro-
segmentado em troços demarcados por ombreiras de
cada do seu tecto, este nicho
lajes de arenito, colocadas na vertical, inseridas no
veio a ser entaipado, segura-
maciço de alvenaria de xisto, e por soleiras de xisto,
mente em época pré-histórica,
dispostas transversalmente em cutelo.
reconstituindo a face interior
Articulado com esta estrutura interna e sobre a
do muro da câmara e empre-
superfície já preparada, construiu-se um murete de
gando uma técnica de cons-
contenção periférico de 1 m de espessura que delimita
trução mais expedita, com um
toda a mamoa numa planta de traçado regularmente
murete substancialmente mais estreito, apoiado, pelo
circular com quase 27 m de diâmetro, cortado, pela
tardoz, nos escombros acumulados no interior do
linha da fachada, em secante perpendicular ao eixo do
nicho.
corredor. A escavação pôs de manifesto a existência
O acesso ao interior do monumento foi selado em
deste muro, baixo mas que se eleva a mais de 1 m de
época pré-histórica por uma “estrutura de con-
altura na fachada do monumento, implantada a uma
denação” que cobriu a boca exterior do corredor.
cota mais baixa. Para além de uma função estrutural,
Sobre ela encontrou-se um estrato de terra adossado
de contenção e delimitação do cairn, este muro tinha
em cunha contra a fachada do murete de contenção,
uma função ornamental e possivelmente ritual, dado
sobreposto por um nível de lajes de xisto que podem
prolongar-se sobre o cairn numa “calçada proces-
interpretar-se como uma cobertura deliberadamente
sional” com cerca de 2 m de largura que rodeava toda
executada sobre a periferia do monumento, dando-lhe
a mamoa, demarcando uma orla que contrastava com
um aspecto ruinoso e funcionando, assim, como mais
o calcário branco do túmulo.
um elemento de “condenação” do edifício funerário.
Toda a área delimitada pelo murete periférico se
Na sanja ocidental identificou-se uma antiga violação
preencheu, sobre a terraplanagem da base e
do monumento; esta anomalia fora já suspeitada por
envolvendo a construção de xisto central, com um
Estácio da Veiga e pôde agora confirmar-se pelo
estrato de pedras calcárias de dimensões irregulares e
radiocarbono a sua datação na antiguidade tardia ou,
colocadas sem terra de embalagem, alcançando uma
mais provavelmente, em época islâmica.
potência que varia entre um mínimo de 0,6 m junto ao
O monumento comporta ainda um espaço ritual,
murete periférico e um máximo de 1,2 m na maior
evidenciado junto à fachada, com a forma de um
potência conservada. Este cairn tem uma forma de
alinhamento de pedras irregulares, acumuladas a uma
calote de esfera, formando a mamoa propriamente
distância de cerca de 3 m do murete periférico e
dita. Esta é travada por estruturas intermédias de
integrando um pequeno menir, quebrado mas quase
reforço que apresentam a forma de segmentos de
completo. Aparentemente, este dispositivo articula-se
círculo de grandes blocos calcários, observáveis logo na
com uma lage de calcário que se pensara tratar-se
parte superior do cairn, a cerca de 1 m de distância do
da tampa em falta no corredor mas que surge agora
degrau conservado a maior altura na estrutura de xisto
como uma estela colocada horizontalmente e travada
da câmara sepulcral e a uma cota idêntica à deste, e
por lajetas de xisto e grauvaque. Parecendo sobrepor-se
CADERNO
4. Alcalar, monumento n.º 7,
contraforte da cripta
e arranque da cobertura
em falsa cúpula
(durante as escavações)
IPPAR/Elena Morán
97
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
estratigraficamente ao dispositivo de “condenação”
O projecto só conheceu um apreciável incentivo a
da mamoa este dispositivo litúrgico comprova
partir do momento em que, na sequência de um
uma alteração do sentido de utilização do edifício
protocolo de cooperação estabelecido entre o
funerário.
Instituto de Financiamento e Apoio ao Turismo, foi
IPPAR
eo
possível integrar as acções de estudo e valorização no
Conservação e restauro do Monumento 7
âmbito do programa Itinerários Arqueológicos do
Todos os trabalhos de pesquisa tiveram o seu natural
Alentejo e Algarve. A articulação com os órgãos locais
complemento nas intervenções de conservação,
– designadamente com a Câmara Municipal de Portimão
restauro e valorização do monumento megalítico,
e com a Junta de Freguesia da Mexilhoeira Grande –
visando apresentá-lo de uma forma didáctica. Sendo
é um dos mais interessantes aspectos do projecto de
uma primeira preocupação garantir a observação e
intervenção em Alcalar, promovendo a participação e
documentação rigorosas dos processos construtivos,
integração dos moradores, utentes e visitantes do
isso foi conseguido através de uma pesquisa
conjunto pré-histórico, com vista à salvaguarda e
arqueológica, cuja fase final foi integrada na própria
utilização permanente do sítio.
empreitada de reabilitação do edifício pré-histórico,
Não dispondo de colecções próprias, o Centro
como factor de informação e de minimização de
aproxima-se dos chamados “museus narrativos”, na
impactes provocados pela adopção de soluções de
medida em que procura transmitir mensagens
estabilização e recuperação do monumento que
articuladas num discurso museográfico coerente,
lançaram mão de materiais e tecnologias actuais.
recorrendo a imagens, textos curtos (em dois idiomas),
A reintegração dos elementos originais da construção
apresentações multimédia, maquetas analíticas e
foi, evidentemente, efectuada por forma a mantê-los
mapas e fotografias aéreas. O acolhimento aos
sempre em evidência relativamente aos elementos
utentes, com fornecimento de informação, completa-
novos mas necessários à continuidade de leitura do
-se com a organização de actividades específicas no
edifício pré-histórico, tal como seria originalmente,
âmbito dos chamados serviços educativos, havendo
bem como à percepção do espaço funerário
pontualmente visitas comentadas por especialistas para
“megalítico”. Percepção essa tão aproximada quanto
grupos de utentes, bem como outras acções de
possível daquele que foi outrora idealizado pelos seus
divulgação e educativas.
milénio antes da nosssa era mas
De uma forma sucinta e compreensiva, o Centro
para ser relido e percebido pelos nossos espíritos,
fornece a imagem do quadro ambiental e do
construtores do
III
quiçá profanos, deste limiar do
III
milénio que é o
nosso.
povoamento do lugar no
III
milénio antes da nossa era
e oferece pistas para uma explicação plausível das
mudanças operadas até ao tempo presente. É também
98
O Centro de Acolhimento e Interpretação
de Alcalar
disponibilizada documentação de acompanhamento
A necessidade de acolher os visitantes e de dis-
observadas, através de publicações, réplicas e objectos
ponibilizar-lhes informação sobre os monumentos
de divulgação que os utentes podem adquirir numa
megalíticos de Alcalar e sítios conexos, conduziu o IPPAR
pequena loja. Procura-se assim fomentar o respeito
à criação, no sítio, de um Centro de Acolhimento e
pela identidade local, incentivar a aceitação das
Interpretação. Com uma população alvo constituída
diferenças e apoiar a capacidade criativa dos utentes,
por públicos locais e regionais, principalmente
através da componente lúdica e educativa do chamado
estudantes, professores e idosos, o Centro é
“turismo cultural”. Para atingir estes objectivos, cons-
igualmente dirigido aos utentes de fora da região,
truiu-se no local um edifício de raiz, situado junto aos
nacionais e estrangeiros, inserindo-se assim numa
monumentos e dispondo de fácil acesso, que funciona
da visita, bem como uma lembrança das realidades
política de incentivos ao turismo, como complemento
como “antena museológica” dependente do
cultural ao tradicional turismo do tipo “sol-e-mar”.
articulada com o Museu Municipal de Portimão.
IPPAR
mas
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
Centro de Acolhimento
e Interpretação de Alcalar
João Santa-Rita
Arquitecto
1. Fachada principal
IPPAR/H. Ruas
Arquitectura da paisagem
A paisagem é uma realidade dinâmica – transformada
Em Alcalar a nova marca do Homem – um abrigo para
pelo tempo, pela natureza e redefinida pelo Homem.
recepção – ambiciona ser, parte paisagem parte
O valor da paisagem é definido pela sua história, pelo
arquitectura – uma arquitectura que prossiga a rede-
seu carácter, pela sua “singularidade” – pela relação
finição da topografia do terreno e que antecipe
entre natural e construído.
a experiência espacial (subterrânea) das câmaras
A arquitectura é uma constante na paisagem – reve-
megalíticas.
lando-se pela sua ausência – “paisagem natural” – ou
Arquitectura e paisagem, equivalem-se assim nas suas
pela sua existência – “paisagem construída”.
ambições – a sua fronteira é definida por uma laje
A arquitectura ambiciona “Ser”, na paisagem.
de cobertura –, forma e suporte da paisagem e abrigo
Em Alcalar as criações decorrentes do culto e da reli-
da arquitectura.
gião dos homens moldam a paisagem – uma cintura
Em Alcalar, tal como o camaleão algarvio, as constru-
de câmaras megalíticas que redefinem a topografia –
ções do presente adquirem a expressão do terreno que
câmaras funerárias sagradas sob o solo.
as encobre.
99
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
CADERNO
2. Vista lateral e cobertura
3. Vista da cobertura do Centro de Acolhimento
IPPAR/H. Ruas
IPPAR/H. Ruas
4. Recepção
IPPAR/H. Ruas
5. Galeria de exposição
IPPAR/H. Ruas
100
ITINERÁRIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALENTEJO E ALGARVE
2
CADERNO
1
3
4
3
3
Planta
1. Recepção/Loja
O Centro Interpretativo de Alcalar é composto por um
2. Galeria de exposição
Ficha técnica
3. Instalações sanitárias
pequeno edifício, um circuito exterior e uma câmara
COORDENAÇÃO DA INTERVENÇÃO
megalítica.
ARQUEÓLOGO RESPONSÁVEL (IPPAR)
O edifício consta de uma recepção, posto de vendas
e ainda de uma galeria destinada à apresentação,
sob o ponto de vista da sua história, do conjunto das
ruínas megalíticas que constituem o núcleo histórico
local.
4. Gabinete de trabalho
DRF/DE
Rui Parreira
ARQUITECTURA
José Santa-Rita, João Santa-Rita
Colaboradores
Alda Negrão, Pedro Guedes Lebre, Pedro Delgado Henriques
DESENHO
Alberto Marques, Paulo Pinto
PROJECTO DE ESTRUTURA
Aquilino Ribeiro Machado
Os materiais são: o betão à vista no exterior como contraponto à utilização da pedra em muros existentes e
no revestimento do cairn da mamoa. A cobertura,
revestida em terra vegetal, propondo a continuidade
do prado existente, e a câmara (centro de acolhimento)
PROJECTO DE INSTALAÇÃO DE AVAC
CPIE – Joaquim Nunes Serra
PROJECTO DE INST. TELEFÓNICAS,
Artur Pedro
ELÉCTRICAS E DE SEGURANÇA
PROJECTO DE ÁGUAS E ESGOTOS
EQUATRO – Helder Tiago
PAISAGISMO
ARPAS, Lda./Luís Cabral
PROJECTO DE RESTAURO
com o pavimento revestido com material autonivelante
com coloração idêntica à da terra do território em que
Joaquim Garcia
CONSTRUÇÃO
Brera, Lda.
se localiza.
PROJECTO EXPOSITIVO
de VISU – Estudos e Projectos de Design, Lda.
101
Lisboa
S A LVA G UA R D A
Falando com franqueza 1:
a salvaguarda do Património
e os seus (enormes) problemas
Luís Ferreira Calado*
Paulo Pereira**
Joaquim Passos Leite**
*
Presidente do IPPAR
Vice-Presidente do IPPAR
**
A
salvaguarda do património cultural edificado2 é
uma das áreas-chave da acção do
IPPAR.
Convém dizer que a preservação do património, em
termos genéricos (aquilo que o cidadão geralmente
identifica com a recuperação de imóveis e a preservação da paisagem), parece ser uma matéria consensual,
porque, em bom rigor, ninguém põe em causa a importância da defesa e valorização do património. Mas já
o mesmo não se pode dizer dos actos que estão na
base da sua salvaguarda, especialmente em termos
daquilo a que chamamos “disciplina urbana”.
Este trabalho de manutenção da “disciplina urbana”
em contexto patrimonial encontra-se em grande medida
baseado na emissão de pareceres vinculativos por parte
do
IPPAR,
pareceres estes que são parcialmente idênti-
cos em termos de efeitos (mas não na forma) aos licenciamentos de obras que as autarquias normalmente
A emissão de cada parecer tem que ser produzida no
efectuam.
prazo de tempo estipulado por lei – sensivelmente em
Os pareceres incidem sobre imóveis classificados ou
vinte dias para projectos avulso. E assim acontece, ape-
situados em zonas de protecção (ou em zonas “espe-
sar de se ter difundido esse autêntico mito que é o da
ciais” de protecção de imóveis classificados – estas mais
“demora do IPPAR” na emissão de pareceres – em bom
alargadas que aquelas). Ora, neste momento existem
rigor, um mito sem fundamento uma vez que o
cerca de três mil e quinhentos imóveis classificados e
desrespeito dos prazos implica a aprovação tácita dos
cerca de outros quinhentos em “vias de classificação”.
projectos4. Naturalmente que nos casos em que o IPPAR
Cada um destes imóveis encontra-se provido de uma
emite um parecer desfavorável ou condicionado, o pro-
zona de protecção (ou de uma zona especial de
cesso em causa fica prejudicado em termos temporais
protecção), abrangendo, nos casos dos aglomerados
uma vez que haverá que reformular o projecto em
urbanos, uma significativa quantidade de imóveis.
causa até obedecer aos critérios que fundamentam
é obrigatoriamente
a reprovação ou o condicionamento da aprovação.
chamado a emitir pareceres sobre um vasto universo
Mas a sensibilidade desta área de trabalho pode, sobre-
(potencial) de cerca de mais de quinze mil imóveis, o
tudo, avaliar-se pelas reacções que estes actos – na
que implica a existência de equipas técnicas sediadas
essência, administrativos – provocam. De facto, o IPPAR
regionalmente nas Divisões de Salvaguarda de cada
é muitas vezes criticado porque reprova; mas também
uma das Direcções Regionais do Instituto, aptas a res-
é criticado quando aprova5. Quebram-se os consensos,
ponder a todas as solicitações provenientes das autar-
porque o que passa a estar em causa é, não já um
quias ou de requerimentos particulares.
interesse social difuso (a “defesa do património”), mas
Pode assim dizer-se que o
IPPAR
3
1. Atlas do Património Cultural
Edificado Classificado
na Cidade de Lisboa (IPPAR):
imóvéis classificados
e respectivas zonas
de protecção
103
S A LVA G UA R D A
a ser cada vez mais ágeis e precisos – decorrerão do
aperfeiçoamento das instâncias do ordenamento do
território e da existência de uma “cultura arquitectónica” e de uma “política da arquitectura”7 que se generalize, quer nas instâncias “de governo” da cidade
(a administração central, as autarquias), quer na opinião pública.
Ora, o que muitas vezes acontece é que na ausência
desses instrumentos e dessa cultura arquitectónica, o
IPPAR
é obrigado a assumir o papel militante de último
reduto “defensivo” (que é o mesmo que dizer, “passivo”) do património cultural em função da existência
de um objecto classificado ou em “vias de classifica2. São João de Tarouca
ção”, o que obriga a uma filtragem administrativa mais
IPPAR/Alexandre B. Mimoso
104
antes um interesse singular concreto de um privado
cerrada das intenções de projecto.
ou de uma colectividade. Nesta altura parece então
Embora o
que todos se desinteressam do exercício de cidadania –
assumindo todos os riscos e todos os erros que dele
e a palavra, infelizmente, esvazia-se.
decorrem (e muitas vezes, não poucas, assumindo os
O que quer isto dizer?
erros dos outros...), o facto é que esta circunstância
Que são eventualmente insuficientes ou não foram
tem que ser corrigida. Não cabe ao IPPAR, naturalmente,
devidamente consolidados os instrumentos necessá-
o papel de “Asterix”, e ao imóvel classificado o papel
rios que regulem e clarifiquem a priori a disciplina
da “aldeia dos irredutíveis... lusitanos”8. Esta perver-
urbana em áreas protegidas, ou seja, “o que se pode
são de procedimentos tem causado vários dissabores,
ou não fazer” nas zonas de protecção dos imóveis.
apesar das tentativas de correcção e disciplinamento
Carecemos, territorialmente, de uma planificação rigo-
que o
rosa que incida sobre áreas de interesse cultural.
clareza, o que queremos dizer é que é cada vez menos
E, quando ela existe, é muitas vezes suspensa e desde
defensável aquilo a que chamamos “classificações
logo ultrapassada por voluntarismos certamente bem
oportunistas”9 que se traduzem, afinal, na tentativa
intencionados mas quase sempre prejudiciais a médio
de proteger a todo o custo uma determinada área
e longo prazo para o património, sabendo todos nós
partindo de um ponto singular na paisagem, que é o
que quando se fala de património fala-se de uma
imóvel, quando a responsabilidade de protecção e
dimensão temporal abrangente. De facto, um erro pra-
disciplinamento dessa área deveria ser assegurada
ticado hoje no âmbito da disciplina urbana não é facil-
por uma prática corrente de gestão urbana ou
mente corrigível. Pelo contrário, exige um tempo de
territorial.
“saturação” e contaminação que leva a que só mais
Pelo contrário, a tendência actual é a de fazer inver-
tarde (só muito mais tarde) se identifique a doença e
ter este estado de coisas – um estado de coisas que
os seus efeitos perversos. É por isso que nascem tem-
não é obviamente nem salutar nem claro para as admi-
pos depois as medidas excepcionais ou os programas
nistrações e para os administrados. Assim, em vez da
“verticais”, extremamente dispendiosos – mas neces-
zona de protecção gerada centrifugamente, ou seja,
sários –, como seja por exemplo o actual conjunto de
a partir do imóvel que serve de mero pretexto, o que
operações POLIS6, para proceder à requalificação de tudo
há que adoptar é a geração de efectivas zonas de pro-
o que entretanto – teimosamente, e evitavelmente –
tecção de áreas salvaguardadas em função do seu inte-
foi sendo... desqualificado.
resse global e não episódico – ou seja: o ideal de
Os instrumentos de disciplina urbana e patrimonial
trabalho é a geração de zonas de protecção de um
e de “governo da paisagem” – que se deseja venham
ponto de vista centrípeto, ou, como costumamos dizer,
IPPAR
IPPAR
desempenhe este papel de resistência,
tem introduzido. Como há que falar com
S A LVA G UA R D A
“de fora para dentro”. É aqui que um planeamento
ou de periurbanização. Ou mais ainda, em corredores
adequado e o recurso a figuras de gestão urbana mais
de instalação de acessos viários e ferroviários. Este facto
descentralizadas (mas propiciamente atravessadas por
faz-se sentir de uma forma mais aguda, como é óbvio,
uma racionalidade de carácter cultural) devem passar
nos arredores das grandes e médias cidades, cada
a intervir.
vez mais devassadas por malhas de estradas e auto-
Diga-se que, a abonar esta realidade futura, a Nova
-estradas e vias rápidas e vias férreas quadriplicadas
Lei de Bases do Património Cultural prevê ou reinstala
(e a breve trecho sextuplicadas).
um dispositivo que consideramos essencial para o
Será que aqui não joga também uma estratégia de
desempenho destas tarefas: a promoção de Planos de
desenvolvimento para a qual o património cultural tem
Pormenor de Salvaguarda (PPS) para as zonas de pro-
que ser chamado a pronunciar-se (e a fazer parte) sob
tecção dos imóveis classificados.
pena de se vitimizar injustamente todos aqueles que
Do mesmo modo, encontram-se em estudo formas
o defendem? David e Golias? Ainda?
mais “leves” de gestão urbana, tais como a produção
Ora, pergunte-se a um cidadão, habituado na sua
de “programas de gestão de área” ou de “projectos
mágoa infeliz a esperar uma hora numa fila de auto-
urbanos”, que não se confinando à figura de plano
móveis, se prefere uma estrada mais ampla e confor-
permitem, mesmo assim, uma definição de regras
tável ou “aquele-casarão-velho-que-está-para-ali-
mínimas a adoptar e que passam a ser do conheci-
-abandonado-e-que-não-serve-para-nada-só-serve-para-
mento dos cidadãos e dos agentes com interesses nas
-empecilhar-bolas-que-chatice”10. Prefere a estrada.
áreas abrangidas, clarificando o exercício da adminis-
E lá se quebra o consenso outra vez. Claro que o
tração e dos administrados. Mas para que estes ins-
mesmo cidadão quando percorre os campos verdes da
trumentos existam é fundamental uma vontade polí-
Inglaterra, ou as paisagens plácidas e tranquilas da
tica (no sentido mais abrangente da palavra) e um
França, não deixa de se manifestar da forma habitual:
comprometimento franco e aberto de todos os cida-
“aqui-é-que-é-olha-como-estes-têm-tudo-bem-
dãos. Assim postas as coisas, percebe-se logo onde
-arranjadinho”.
queremos chegar: a salvaguarda do património não
Pois é. “Eles” andam há mais de meio século a “arran-
deve ser um caso de polícia (ou de policiamento), mas
jar” (ou seja, a disciplinar a paisagem urbana e rural)11,
antes um caso de esclarecimento, de regulação e
enquanto que em Portugal se preferiu o imediatismo12.
– nos casos mais arriscados – de prevenção. Para
É por isso que, muitas vezes (felizmente nem sempre)
evitar desastres.
os consensos se quebram nesta área de trabalho a que
Todas estas matérias são especialmente sensíveis em
chamamos salvaguarda do património. O que defen-
áreas que, por virtude do crescimento económico e do
demos é que os cidadãos têm que saber as regras do
desenvolvimento (que não são bem a mesma coisa,
jogo. Os cidadãos têm que saber (e poder) escolher.
como sabemos), passaram a ser urbanizáveis ou a ser,
Naturalmente, também, que qualquer atitude funda-
potencialmente, atravessadas pelas (agora tão em moda)
mentalista, de preservação a todo o custo de valores
“acessibilidades”.
decaídos, já sem possibilidade de resgate para a ordem
Neste aspecto, Portugal vive desde os inícios dos
económica e social contemporânea, pouco ajuda a um
anos 90 um ciclo que o resto da Europa desenvolvida
argumentário racional e rigoroso que sirva a salva-
já viveu, de facto, durante os anos 60 (numa altura
guarda do património. Esta atitude, o
em que eram muito mais fáceis, convenhamos, os atro-
Mas não pode o
pelos ao património). Com a visão alargada que hoje
campo aberto a toda e qualquer especulação ou a
temos do património imóvel – integrando paisagens
agressões mais ou menos disfarçadas sob a capa do
urbanas e rurais, conjuntos e estações arqueológicas
“progresso”.
e até valores de carácter “atmosférico”, “pneumático”
Pelo contrário. Existe, hoje já, uma tradição de traba-
IPPAR,
IPPAR
refuta-a.
sob pena de laxismo, deixar o
e imaterial – torna-se virtualmente impossível não inter-
lho que une os dois campos – o do consenso genera-
ferir em valores culturais em áreas de expansão urbana
lizado e do interesse singular. É que, contrariamente
105
S A LVA G UA R D A
e ao “governo da paisagem” através de casos de estudo
e de propostas vindas de especialistas.
Coloquem-se, para já, as seguintes questões, como
aconselháveis para um debate alargado e aberto:
a) A necessidade de promoção de uma cultura arquitectónica e urbanística consentânea com a defesa da
"qualidade da arquitectura" como construção do património futuro, na perspectiva actualmente defendida
pelos fora internacionais, nomeadamente os que têm
tido lugar na
UE
no quadro das "Políticas Europeias de
Arquitectura" e nas quais Portugal tem participado e
tido voz activa.
b) A necessidade de promoção de conhecimento
crítico relativamente ao tratamento a dar às áreas inters3. Lamego
ticiais das cidades, mormente no que respeita aos
IPPAR/Alexandre B. Mimoso
ao que muitas vezes é proposto ou entendido, a “inter-
espaços públicos e arranjos paisagísticos, num enten-
venção” no património não é matéria que se possa
dimento alargado do território e dos seus propósitos
reduzir à intervenção “física” de recuperação e res-
de sustentabilidade em função de recursos culturais.
tauro de um ou outro imóvel e da sua envolvente
c) O conhecimento das formas de salvaguarda do
imediata. Pelo contrário, a intervenção no património
património urbano e dos problemas de gestão que
abrange todas as componentes em presença, sejam as
levantam no quadro de uma política não apenas de
obras de restauro propriamante ditas, a classificação
"reforma" da cidade, mas também no quadro das polí-
ou a protecção administrativa dos bens, mas também
ticas de habitação, através de propostas de reinserção
a sua gestão em termos latos do ponto de vista
económica e social dos sistemas patrimoniais em
territorial e de usos (ou reafectação de usos) – como
presença (centros históricos, centros urbanos polinu-
também a gestão no sentido mais estrito, ou seja, em
cleados, áreas monumentais, etc.).
termos económicos e financeiros.
d) As novas formas de gestão patrimonial no que res-
Não admira que sejam muitas as horas de aflição por
IPPAR.
peita à salvaguarda e valorização de monumentos,
Por todas as razões
considerados estes não apenas na sua componente
acima expostas – e outras que serão explicadas nou-
física e nuclear, mas também na sua dimensão terri-
tra ocasião. Sendo certo que a pressão da comunica-
torial mais abrangente (cercas monásticas, aglomera-
ção social – pouco apetrechada, na maior parte dos
dos urbanos, património vernacular, quintas, área rurais
casos, para ver mais além da “cacha” – pouco ajuda
desafectas, etc.).
que passam os serviços do
a clarificar as regras do jogo. Porque se trata de um
jogo de argumentos e de acção. De políticas, em suma.
Cremos que tais questões podem suscitar um agen-
Ora, esta secção da revista Estudos pretende, por isso
damento ideal de matérias na área da salvaguarda,
mesmo, e sem quaisquer receios, abrir o debate sobre
com um enfoque para os problemas da cidade.
estas matérias, visando dar relevo à “disciplina urbana”
De futuro outros serão sugeridos.
1
2
Com “franqueza”. Não com fraqueza. Esgote-se já o trocadilho!
Chamamos “salvaguarda” a todos os actos de carácter essencialmente técnico-administrativos que estão na base dos pareceres sobre obras em
imóveis classificados e protegidos. Esta designação encontra-se consagrada no Decreto-Lei 120/97 de 17 de Maio (Lei Orgânica do
3
São as seguintes as Direcção Regionais do
IPPAR:
IPPAR).
Porto, Coimbra, Castelo Branco, Lisboa, Évora, Faro. Encontra-se em fase de instalação a
Direcção Regional de Vila Real. Todas as Direcções Regionais são dotadas de uma Divisão de Obras, Conservação e Restauro (DOCR’s) e de uma
Divisão de Salvaguarda. A actual distribuição respeita os princípios gerais de ordenamento do território consagrado na criação de Comissões de
Coordenação Regional (CCR’s) ou nos NUTS II.
106
S A LVA G UA R D A
4
Os processos /projectos (pedidos de viabilidade /informações prévias, pedidos de pareceres vinculativos, pedidos de pareceres consultivos, pedi-
dos de pareceres sobre planos e unidades de gestão de teor diverso, direitos de preferência sobre imóveis classificados) são endereçados pelas
autarquias e outras vezes directamente pelos próprios requerentes ao
5
IPPAR.
Casos recentes? Veja-se por exemplo o problema do Monumento à Cidade do Porto, à ilharga da Sé do Porto; a reprovação de um centro comer-
cial “holywoodesco” junto a Santa Catarina, também no Porto; a viabilização do loteamento nas imediações do Palácio da Ajuda (terrenos a Sul);
ou a polémica (inflacionadíssima) em torno do traçado da A 10. Poderíamos, obviamente, recensear mais cem exemplos. Ou mais duzentos...
6
Trata-se, a nosso ver, de um programa de carácter exemplar da tutela do Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território e com efei-
tos que se crêem extremamente pedagógicos. Ambicioso, este programa visa requalificar zonas degradadas do ponto de vista do ambiente
urbano. À data da redacção deste artigo haviam sido abrangidos pelo programa
POLIS
os núcleos citadinos de Viana do Castelo, Vila do Conde,
Matosinhos, Porto, Vila Nova de Gaia, Coimbra, Viseu, Castelo Branco, Leiria, Almada (Caparica), Sintra (Cacém e centro histórico), estendendo-se ainda a Vila Real, Bragança, Guarda, Aveiro, Covilhã e Beja.
7
Hoje em dia, ao nível da administração, encontram-se envolvidos em matérias nacionais relacionadas directamente com a arquitectura os
Ministérios do Equipamento Social (obras no património classificado, produção de novos equipamentos), do Ambiente e do Ordenamento do
Território (planeamento territorial), da Educação (ensino da arquitectura) e o da Cultura (obras e protecção do património classificado), para além
das autarquias. Haverá, pois, que elaborar um documento de referência que sirva de base à discussão a levar a cabo sobre esta matéria internamente
e nos fora internacionais, onde se jogam de resto importantes cartadas diplomáticas com consequências reais no mercado da arquitectura.
As ideias abundam.
8
O
IPPAR
não é o culpado por opções erradas e por decisões unilaterais e autoritárias de promotores com responsabilidades acrescidas como (por
exemplo) as que levaram à construção (nunca sancionada) das célebres Torres do Técnico (o culminar de uma agressão continuada a um campus modernista, cuja preservação deveria de ser factor de prestígio e não um empecilho a um putativo alargamento de “programa” de
utilização).
9
Para que fique claro, chamamos classificações oportunistas aos pedidos de classificação de autênticos “territórios” pretensamente homogé-
neos por força da ameaça, real ou não, de urbanizações, construções em altura, rasgamento de redes, etc., sob o pretexto da existência de um
imóvel nuclear que congrega e aglutina uma lógica cultural há muito esbatida ou mesmo inexistente. Uma vez mais, encontramo-nos perante
áreas cuja administração caberá, por maioría de razão, às autarquias. Não cabe ao
IPPAR
zelar por elefantes patrimoniais absolutamente ingerí-
veis do ponto de vista das prioridades do âmbito da salvaguarda – uma vez que o que tais processos arrastam são quase que exclusivamente
problemas de carácter ambiental e urbanístico. Ou seja: a capacidade de intervenção do
IPPAR
tem limites – e o
IPPAR,
contrariamente ao Asterix,
não tem um “goudron” com a poção mágica! É pena, bem o sabemos.
10
Casos típicos mais recentes: o IC 19 ou a futura A 13.
11
Aqui não confundimos a tradição consuetudinária do Norte da Europa (em especial da Inglaterra e dos países escandinavos) com a tradição
legiferativa dos países latinos. Mas a verdade é que a distinção de valores, conforme nos encontramos em território nacional ou estrangeiro,
é gritante.
12
Naturalmente que existem circunstâncias históricas que explicam a situação: cerca de (pelo menos) trinta anos de contracção económica em
contraciclo (ruralista, por oposição à industrialização) correspondente aos anos de Ditadura do Estado Novo; cerca de três anos de desregulação
imediatamente posteriores ao 25 de Abril de 1974; a chegada, desde 1960, das receitas da emigração portuguesa; a consequente desertificação do interior; o afluxo dos primeiros fundos europeus, sensivelmente, a partir de 1987; a entrada em vigor dos sucessivos quadros comuntários de apoios (QCA I, QCA II, QCA III), e a evidente explosão que tal acarretou em termos de investimento e de crescimento exponencial da
economia do país, numa tetantiva de minimização de atrasos congénitos. Acrescente-se a isto a rápida industrialização do país e a desafectação brusca (em cerca de quinze anos) de 50% dos solos agrícolas, e temos uma radiografia, simplista é certo, mas instantânea da modificação
do tecido social e económico do país, com todas as consequências que daí advierem para a gestão.
107
S A LVA G UA R D A
A Protecção do Património
Paisagista – 1.ª parte
Rita M. Theriaga Gonçalves
Arquitecta Paisagista
Direcção Regional de Lisboa
do IPPAR
1. Planta baixa e planta do
Palácio Nacional de Queluz
e jardins (meados do século
Desenhos aguarelados,
não assinados, não datados
XVIII).
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
108
O património paisagista e a necessidade
de conservação
No sentido físico, as paisagens são, portanto, o
Na sua origem a paisagem é o resultado dos proces-
Homem atribui a cada parte do planeta.
sos naturais sobre os elementos e organismos.
Através da sua actividade, o Homem moldou a
A determinada altura da evolução, o Homem
paisagem e, por sua vez, os atributos geográficos e
distinguiu-se do resto da natureza, permanecendo no
naturais moldaram a história e a vida das sociedades
entanto parte dela. Tornou-se, assim, uma força
humanas.
particularmente significativa e, como resultado da sua
A natureza e o Homem são então os dois factores
acção no planeta, a maioria da paisagem tem vindo a
mais importantes na determinação do carácter das
ser alterada, não se limitando apenas ao resultado dos
paisagens. Estas reflectem, assim, os compromissos ou
referidos processos naturais.
as relações que o Homem estabelece com o ambiente
resultado dos fenómenos naturais e dos usos que o
S A LVA G UA R D A
natural, podendo assumir formas distintas. Estas
As paisagens podem então fornecer informação acerca
relações podem ser traduzidas pelas actividades
das relações que se estabeleceram ao longo do tempo
desenvolvidas pelo Homem para assegurar a sua
entre as sociedades e o meio natural, podendo como
sobrevivência (actividade industrial, comercial ou
tal contribuir para a compreensão da história, da
agrícola). Podem corresponder à sua curiosidade
ciência, da antropologia, da técnica, da literatura, etc.
científica acerca do meio, levando-o à investigação
É nesta perspectiva que faz sentido designar paisagens
sobre o seu funcionamento e a sua história. Por último,
como património cultural, na medida em que se trata
podem assumir a forma de experiências religiosas ou
de bens em constante evolução que se herdam, se
artísticas.
utilizam e se legam às gerações vindouras.
O relacionamento do intelecto e da imaginação do
Homem com o meio pode estabelecer-se por duas vias:
este pode ser estimulante para a inteligência humana,
ou, por outro, lado podem a inteligência e imaginação
humanas projectar ideias no meio que o envolve, ou
mesmo interpretá-lo de uma forma particular. Desta
forma, o resultado desta interacção, tanto pode ser a
realidade física de uma paisagem, como um retrato
pictórico, uma carta topográfica, uma peça musical ou
2. Cabo Espichel, Sesimbra,
Casa da Água
uma obra literária.
Para avaliar o carácter de uma paisagem é pois
necessário ter em consideração todas as formas de
A paisagem, enquanto objecto físico, é constituída por
relacionamento do Homem com a natureza. Assim,
ambas as componentes, natural e cultural, e, como tal,
para a compreensão do maior ou menor grau da
constitui um recurso importante para o Homem, pois
intervenção do Homem numa determinada paisagem,
preenche algumas das suas necessidades materiais
da natureza desta intervenção, bem como da forma
mais primárias, bem como necessidades relativas à sua
como actuaram os elementos e processos naturais, é
curiosidade própria, às suas experiências intelectuais,
necessário atender aos seguintes aspectos:
religiosas e estéticas, bem como à necessidade de
• localização geográfica, que descreve não só onde
períodos de recriação essenciais à sua vida. Neste
podemos encontrar a paisagem, como também a
sentido, a conservação deste recurso deve englobar
localiza no contexto climático, ecológico, histórico,
tanto a dimensão natural como a dimensão cultural.
político e administrativo;
E justifica-se, na medida em que o prolongamento da
• atributos naturais, que cobrem os recursos tais como
sua existência tem, ou poderá vir a ter, usos e valores
a atmosfera, o clima, a geologia, a pedologia, a geo-
que beneficiarão as gerações actuais e futuras da
morfologia, a hidrologia, os organismos vivos, os seus
humanidade, bem como das outras formas de vida, ou
hábitos e os seus habitat;
ainda por motivos étnicos, morais ou religiosos
• ambiente administrativo, que se refere aos mecaafectam a paisagem;
Cartas e convenções internacionais relativas
à salvaguarda do património paisagista
• densidade populacional, relativa aos humanos e às
Na conservação do património cultural, os organis-
restantes espécies vivas;
mos internacionais tiveram e têm um papel muito
• ambiente intelectual ou imaginário ligado à
importante. O interesse pela identificação e divulgação
paisagem;
do património tem sido crescente nas últimas décadas.
• uso da paisagem, isto é, o uso para o qual o Homem
Em relação ao património natural este crescimento é
destinou aquela parcela de espaço; condições e história
muito mais evidente, desde o começo da década de 70
da evolução de uma determinada paisagem.
e, relativamente à arte paisagista, desde a década de 80.
nismos legais, políticos, económicos e sociais que
109
S A LVA G UA R D A
Para a melhor compreensão da evolução, no que
respeita à protecção do património paisagístico, é
importante conhecer e compreender os factos
ocorridos a nível internacional nesta matéria.
As distintas cartas internacionais promovidas pelas
diversas instituições, e as conclusões das reuniões de
peritos havidas na última década, levaram-nos a um
novo conceito do património. Estas mudanças não
foram repentinas, mas são o resultado da evolução dos
conceitos e filosofias de conservação do património.
Na Carta de Restauro (Carta de Atenas, 1931) refere-se
já a protecção das áreas envolventes dos monumentos
históricos. Em 1962, nas Recomendações para a
salvaguarda da beleza e carácter das paisagens e sítios
apresentadas pela Organização das Nações Unidas
para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o Homem
é já considerado como principal responsável pela
deterioração do meio natural e a sua obra na paisagem
3. Mosteiro de Santa Maria
de Alcobaça, Claustro D. Dinis
é reconhecida, afirmando-se que não é somente
importante proteger as paisagens e o sítios naturais,
mas também aquelas construídas em parte ou na
em torno da conservação de jardins e sítios com valor
totalidade pelo Homem.
histórico e cultural. O Comité
Na Carta Internacional para a Conservação (Carta de
responsável pela elaboração da Carta de Jardins
Veneza, 1964), é referido no artigo sexto a importância
Históricos em 1981 (Carta de Florença), como adenda
da conservação no seu enquadramento geográfico
à Carta de Veneza (1964). O jardim histórico é
tradicional.
considerado nesta Carta como monumento com
Em 1970, o Conselho Internacional para os
interesse público devido ao seu valor histórico ou
Monumentos e Sítios ( ICOMOS ), estrutura oficial do
artístico. Nela encontram-se definidos os princípios
Comité do Património Mundial, com categoria de
mais apropriados para a conservação e recuperação do
jardim histórico no âmbito temporal em que se inseria.
Federação Internacional dos Arquitectos Paisagistas
As definições e princípios da Carta de Florença (1981)
(IFLA) formando-se o Comité
o qual tem
constituíram a base do actual e mais amplo conceito
como objectivo promover a conservação, recuperação
de jardim como parte do património cultural.
e investigação dos jardins históricos e das paisagens
A importância desta Carta reside no facto de nela ter
culturais.
sido considerada a especificidade dos jardins e sítios
Na Convenção para a Protecção do Património
com valor histórico, no que respeita aos seus aspectos
Mundial, Cultural e Natural (Convenção de Paris)
conceptuais ou artísticos e materiais, na medida em
em 1972, o património natural
que grande parte dos elementos de composição do
passa a ser considerado como parte integrante do
espaço são seres vivos, as plantas. A Carta apresenta o
património da humanidade e fica estabelecida a sua
jardim como um “monumento vivo” produto da
inclusão na Lista do Património Mundial, dentro das
criação do Homem. No entanto, não faz nenhuma
seguintes tipologias: importantes elementos naturais,
referência à ligação do jardim ao seu contexto físico ou
formações geológicas e fisiográficas e sítios naturais.
social. Este facto é relevante, na medida em que não
É, no entanto, a partir dos anos 80 que em todo o
permite situar o jardim no seu meio, dado que este
mundo se notou um crescente interesse e actividade
não existe isoladamente, mas enquadrado pelos
aprovada pela
110
foi
une-se à
corpo assessor independente da
UNESCO ,
ICOMOS-IFLA
UNESCO
ICOMOS-IFLA,
S A LVA G UA R D A
factores físicos e sociais que lhe deram origem e o
mantêm.
Uma carta muito importante para protecção do
património paisagístico, sobretudo após as revisões
de 1981 e de 1988, é a Carta para a Conservação dos
Lugares com Significado Cultural (Carta de Burra,
1979, adendas dos anos 1981 e 1988) elaborada pelo
Comité australiano do
ICOMOS,
como adenda à Carta
de Veneza.
A sua importância advém do facto de definir uma série
4. Palácio Nacional da Pena
e Parque, Sintra
de vocabulário relativo à conservação do património,
enunciar os princípios de conservação, bem como os
seus processos. Torna-se, assim, num instrumento
com proposta elaborada conjuntamente pelo Comité
valioso, tanto na definição dos princípios teóricos como
ICOMOS-IFLA
na sua tradução prática, em termos de metodologias
Conservação da Natureza ( UICN ). Até aqui, eram
de trabalho.
classificados separadamente os bens naturais e os bens
Por outro lado, a Carta de Burra (1979-1988), para
culturais. A partir da reunião do grupo de peritos em
além das características já atrás referidas, propõe a
paisagens culturais realizada em La Petite Pierre, sob o
substituição das designações de monumentos, conjuntos
auspício da UNESCO (La Petite Pierre, 1992), fica definido
e sítios, por sítios apenas (podendo estes referir-se
pela primeira vez o conceito de “paisagens culturais”
a jardins, edifícios, espaços arqueológicos, etc.).
como sendo “as obras conjuntas do homem e da
Esta designação apresenta vantagens relativamente às
natureza... abrange a diversidade de manifestações
anteriores, uma vez que é mais abrangente e portanto
resultantes da interacção entre o Homem e o ambiente
facilita a abordagem do património cultural como um
natural”.
todo, quer do ponto de vista dos conceitos, quer das
Conforme os parágrafos 35 a 39, dos novos critérios
metodologias para a sua protecção.
para a classificação de sítios na lista do Património
Em 1985, o Conselho da Europa aprova a Convenção
Mundial da
para a Salvaguarda do Património Arquitectónico
em três categorias:
Europeu (Convenção de Granada, 1985). Nela,
• Paisagens desenhadas e criadas intencional-
consideram-se três categorias no património arqui-
mente pelo Homem – Esta categoria compreende
tectónico: monumentos, conjuntos e sítios, sendo sítios
jardins e parques construídos, os quais estão muitas
definidos como “obras conjuntas do homem e da
vezes associados a edifícios monumentais ou religiosos
natureza”1.
e a conjuntos.
Por outro lado, a Carta internacional para a
• Paisagens que evoluíram organicamente – São o
conservação das povoações e das áreas urbanas
resultado de imperativos iniciais de tipo sócio-
históricas (Carta de Washington, 1987) estipula ainda
-económico, administrativo e/ou religioso e que
como valores a conservar nas cidades e bairros
desenvolveram a sua forma actual em resposta ao
históricos “as relações entre os diversos espaços
ambiente natural. Estas paisagens reflectem o processo
urbanos: espaços construídos, espaços livres e espaços
evolutivo através da sua forma e dos componentes que
e pela União Internacional para a
UNESCO2,
as paisagens culturais dividem--se
plantados” e ainda “as relações entre a área urbana e o
integram. Dentro desta categoria distinguem-se:
seu enquadramento natural ou criado pelo o Homem”,
– Paisagem fóssil ou relíquia – É aquela na qual o
nos seus “Princípios e Objectivos” pontos 2b e 2d,
processo evolutivo chegou ao fim, numa determinada
respectivamente.
altura do passado, de forma abrupta ou durante um
Em 1992, a
UNESCO
fez a revisão dos critérios de
inclusão na Lista do Património Mundial, de acordo
período. As distintas componentes que a caracterizam
continuaram visíveis e materializadas.
111
S A LVA G UA R D A
mantém um papel social activo na sociedade
Protecção e Conservação do Património
Paisagista em Portugal
contemporânea, estreitamente associado a modos de
“Sem nunca terem alcançado a influência e fama dos
vida tradicionais e cujo processo evolutivo se encontra
jardins de Itália ou de França, os jardins peninsulares
ainda em curso. Ao mesmo tempo deve ainda exibir
não deixaram de ser conhecidos e de ter justa
evidências do seu processo evolutivo ao longo do
nomeada. E dentro da Península, Portugal gozou
tempo.
sempre de um lugar privilegiado pela beleza e abun-
• Paisagem cultural associativa – A inclusão desta
dância das suas flores e dos seus frutos, que Filipe
categoria justifica-se pelo valor de fortes associações
descrevia maravilhado a suas filhas e que na corte de
religiosas, artísticas ou culturais a elementos naturais,
Luís
ainda que o material cultural evidente seja insig-
descritas por Molière. “Portugal jardim da Europa” é
nificante ou ausente.
lugar-comum tão batido que já mal se pode ouvir.
– Paisagem em continuidade – É aquela que
XIV
II
figuravam nas grandes festas de Versailles,
É por isso tanto de estranhar, que ao abrir qualquer
112
A introdução destas novas categorias constitui uma das
livro de história de arte pouco se encontre sobre os
mudanças mais significativas para a protecção do
jardins do nosso país.
património paisagístico, sobretudo devido à aceitação
Terão desaparecido todos os nossos jardins?
da necessidade de protecção de paisagens como
A destruição dos jardins não tem consistido apenas no
entidades em evolução permanente, portanto
seu abandono ou na sua modificação, por vezes sem
dinâmicas, quer como resultado dos fenómenos
critério e sem atender ao valor artístico da sua traça
naturais, quer da acção do Homem e não como um
primitiva; têm sido sobretudo sacrificados à construção
objecto estático e/ou pictórico.
civil. O prejuízo é tanto mais para lamentar que não há
Está implícito nas definições apresentadas um conceito
praticamente nenhuns estudos feitos sobre jardins em
mais abrangente da paisagem, tendo em conta não só
Portugal e que é portanto impossível saber se alguns
os processos relativos à sua construção (humana e
jardins destruídos irremediavelmente não seriam, quem
natural), como também o valor que lhe é atribuído
sabe?, a solução de problemas da história de arte que
pelo Homem.
o estudo viesse a formular”3.
O conceito da paisagem cultural, tal como ficou
Estas são afirmações do Professor Francisco Caldeira
definido na reunião de La Petite Pierre (1992), foi
Cabral, extraídas de uma lição proferida em 1943.
antecedido pela definição do conceito de sítio como
Deve referir-se que as palavras do Professor Francisco
sendo “obras conjuntas do Homem e da natureza” na
Caldeira Cabral produziram efeitos imediatos, logo
Convenção de Granada (1985). A Convenção associa
no primeiro grupo de alunos formados no Curso Livre
ao sítio os seguintes valores: históricos, arqueológicos,
de Arquitectura Paisagista. Assim, em 1960, no
artísticos, científicos, sociais e técnicos. A estes
âmbito da então Direcção Geral de Serviços de
somaram-se, depois da reunião de La Petite Pierre, os
Urbanização foi realizado um inquérito geral sobre as
valores etnológicos e antropológicos.
áreas verdes aos municípios portugueses, orientado
A partir desta análise das cartas e convenções
pelo Engenheiro Silvicultor e Arquitecto Paisagista
internacionais, na perspectiva da protecção do
A. Facco Vianna Barreto e do qual surgiu uma primeira
património paisagista, pode concluir-se que a evolução
listagem de jardins com valor histórico e cultural a
dos conceitos e valores associados ao património
preservar, bem como a publicação do volume
paisagista tem vindo a ocasionar rápidas modificações
Arte paisagista e Arte dos Jardins em Portugal da
na avaliação e protecção do património cultural.
autoria do Engenheiro Agrónomo e Arquitecto
De forma geral, o olhar sobre o património cultural é
Paisagista Ilídio Alves de Araújo, o qual continua a
cada vez mais abrangente, aceitando novos valores
constituir uma importante obra para a história da arte
e dinâmicas que permitem uma salvaguarda e
paisagista em Portugal, mas que ficou infelizmente
conservação mais eficazes.
incompleta.
I
da
S A LVA G UA R D A
É no entanto nas últimas duas décadas que maior
recuperação de jardins históricos e a formação de jovens
número de estudos e trabalhos têm sido produzidos no
profissionais de arquitectura paisagista nesta área da
âmbito da história da paisagem e da arte paisagista
conservação e recuperação e ainda de jardineiros. Para
em Portugal, a maioria dos quais no âmbitos das
além dos efeitos que o protocolo
licenciaturas de Arquitectura Paisagista da Universidade
promoção do debate dos conceitos subjacentes à
Técnica de Lisboa, Instituto Superior de Agronomia
conservação de jardins e sítios, na sensibilização para a
e da Universidade de Évora. Se por um lado estes
defesa e conservação deste património e no trabalho
trabalhos têm contribuído para um maior e melhor
prático em jardins com valor histórico e cultural,
conhecimento das paisagens e da arte paisagista em
outros efeitos foram sentidos, nomeadamente a nível
Portugal, também reflectem o interesse crescente no
institucional. Destaca-se neste campo a integração de
conhecimento e conservação deste património.
arquitectos paisagistas nos quadros do
Ao nível das instituições com responsabilidade na
ocorreu pela primeira vez ao nível de instituições
salvaguarda e conservação do património cultural
governamentais com responsabilidades na conservação,
também se pode afirmar que as últimas duas décadas
protecção e recuperação do património cultural.
têm sido de mudança face às perspectivas traçadas
O Instituto Português do Património Arquitectónico
em 1943.
(IPPAR), que conserva muitas das funções para as quais
foi criado o
IPPC ,
IPPC / APAP
IPPC,
teve na
facto que
tem vindo a prosseguir com os
trabalhos relativos à protecção do património
paisagista. Em 1997 foi definida a protecção de jardins
como um dos desafios a enfrentar pelo
IPPAR
para os
próximos anos, a par da valorização do património
paisagista não apenas como espaços verdes ou pelo
seu valor histórico ou artístico, mas devido a valores
mais profundos que têm a ver com a sua génese e com
a sua relação com as restantes áreas patrimoniais.
No entanto, ao analisar o grau de protecção que é
5. Jardim do Príncipe Real,
Lisboa
conferido actualmente ao património paisagista,
verificamos a necessidade de intensificar o esforço por
Nos anos 80 foi iniciado um novo ciclo no que respeita
forma a aumentar a sua eficácia quer em termos do
à protecção do património cultural com a criação do
número de imóveis classificados, quer relativamente à
Instituto Português do Património Cultural ( IPPC ).
forma de classificar.
No decreto-lei pelo qual é criado o
IPPC
pode ler-se no
artigo 2.º, alínea a), que entre outras funções o
A classificação do património paisagista tem vindo a
IPPC
ser levada a cabo de acordo com os diferentes critérios
deverá “Planear e promover a pesquisa, cadastro,
gerais que têm vindo a ser aplicados ao longo do
inventariação, classificação, protecção e salvaguarda de
tempo a todas as tipologias patrimoniais, desde as
bens móveis e imóveis que pelo seu valor histórico,
primeiras classificações patrimoniais em 1910, não
artístico, arqueológico, bibliográfico e documental,
tendo nunca sido aplicados critérios específicos ao
etnográfico ou paisagístico constituam elementos do
património paisagista.
património cultural do país”. A referência à protecção
Como resultado deste facto, uma grande parte do
do património paisagista nesta data é tanto mais
património paisagista ou não se encontra ainda
relevante quanto acontece ainda antes da redacção e
avaliado com vista à sua possível classificação ou, nos
aprovação da Carta de Florença.
casos em que já se encontra classificado, apresenta
Em 1988 é estabelecido um protocolo entre este Instituto
deficiências quanto à caracterização do objecto
e a Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas
classificado, aos seus limites físicos e às tipologias
(APAP) o qual visava a instituição de um programa de
abrangidas pela classificação.
113
S A LVA G UA R D A
No que diz respeito ao número de bens imóveis
classificados do património paisagista, devem fazer-se
dois tipos de observações. A primeira é a comparação
entre o número total de imóveis classificados e o
número de imóveis classificados que incluem
património paisagista. A Arquitecta Paisagista Teresa
Marques, na sua tese de MPhil da Universidade de
Sheffield, conclui, num levantamento efectuado a
partir da publicação do Património Classificado de
6. Convento de Cristo, Tomar.
Aqueduto
1993, que apenas 3% dos imóveis classificados
referem explicitamente jardins, parques ou outras
paisagens desenhadas, quer isoladamente quer em
Este facto, é ainda de maior relevância se se considerar
conjunto com edifícios (excluindo os claustros).
que usualmente estas estruturas se localizam fora do
De um levantamento semelhante efectuado pelo
114
IPPAR
perímetro do espaço do jardim, podendo mesmo
em 1998, no âmbito da elaboração de um parecer,
situar-se a vários quilómetros de distância, e como tal
conclui-se ser esta aproximadamente a percentagem
dificilmente poderão beneficiar da classificação do
das classificações que apresentavam interesse
próprio jardim ou do edifício. Por outro lado, devido à
patrimonial na área da arte paisagista. No entanto,
sua importante função no contexto do jardim, a sua
se considerarmos o número daqueles imóveis já
conservação é, de forma geral, um factor determinante
classificados que potencialmente possuem valor
para a preservação do conjunto.
patrimonial paisagístico, mas que não foram
Um outro aspecto que, até há bem pouco, não foi
considerados ou não foram avaliados na classificação,
considerado, foram as zonas agrícolas ou de mata das
o valor percentual será bastante mais elevado, de
quintas e cercas. Durante muito tempo, não esteve
aproximadamente 6%.
claro que na quase generalidade dos espaços das
A segunda observação a fazer será a comparação entre
quintas e cercas, as hortas, os pomares e as matas
o património paisagista classificado e as listagens e
faziam parte da sua estrutura, da estética e do
inventários de património paisagista com interesse
ambiente dos mesmos, pelo que, considerar a sua
histórico e cultural disponíveis. Convém referir que ainda
classificação sem incluir estes espaços de produção
não existe nenhum inventário que abranja toda a área
seria a mesma coisa que classificar uma igreja
do território nacional e todas as tipologias do patri-
excluindo um portal.
mónio de arte paisagista. No entanto, a partir dos dados
Outro dos problemas relativos à classificação do
disponíveis, estima-se que apenas 6% do total de
património paisagístico com valor histórico e cultural
imóveis do património paisagista com potencial
é o que se prende com a categoria dada em cada
valor histórico e cultural esteja actualmente classificado.
classificação. Normalmente, e porque a classificação,
Embora a quantidade seja um factor importante na
mesmo que se incluísse nela um jardim, era feita com
avaliação do grau de protecção que o Estado
base na avaliação do edifício ou mais raramente das
português actualmente confere ao património de arte
peças decorativas do próprio jardim e nunca com base
paisagista, este aspecto não constitui por si só um
no valor do próprio jardim quando considerado dentro
indicador claro da situação actual.
do contexto da arte paisagista, o seu valor não estava
Na realidade, muitas das classificações não abrangem
reflectido no grau de classificação atribuído ao conjunto.
a globalidade do objecto que se pretende proteger.
Com isto, não se defende que num determinado
O caso mais comum são as obras de arte de
conjunto, de que façam parte obras de arte de diversa
engenharia hidráulica, associadas a quase todos os
natureza, se deva classificar de modo diferente cada
jardins, as quais, raramente são consideradas como
uma das peças componentes do conjunto, mas sim
parte integrante da estrutura do jardim, cerca, etc.
que deverá ser tido em conta o valor de cada uma
S A LVA G UA R D A
De facto, estes jardins, concebidos como áreas de lazer
no meio urbano, começaram a surgir nos finais do
século
XVIII
e constituem um importante elemento da
história da arte paisagista e a sua conservação reveste-se de particular interesse na salvaguarda da qualidade
de vida dos centros urbanos.
Neste contexto, tornou-se necessário desenvolver uma
metodologia de avaliação do património paisagista,
com base em critérios que se apoiem nos valores
actualmente reconhecidos ao património paisagista e
7. Praça da Alegria, Lisboa
de acordo com as convenções e cartas internacionais
das peças no contexto de que emanam, por forma a
que Portugal subscreveu, como forma de dar uma
ponderar de forma equilibrada a categoria a atribuir ao
resposta mais adequada às questões relacionadas
conjunto.
com a sua protecção. Esta metodologia, no entanto,
Um outro aspecto a realçar consiste na ausência de
embora já testada numa amostragem casuística, ainda
jardins públicos urbanos ou municipais classificados.
não se encontra a ser aplicada de forma sistemática.
1
Convenção de Granada, 1985, Artigo 1.3.
2
UNESCO,
3
CALDEIRA, F. C., Fundamentos da Arquitectura Paisagista, Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa, 1993, p. 115.
Operational Guidelines, Revisão de 1997.
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http://www.unesco.org/whc/archive/europe7
EXPERT MEETING ON EVALUTION OF GENERAL PRINCIPLES AND CRITERIA FOR NOMIATIONS OF NATURAL WORLD HERITAGE SITES (1996)
http://www.unesco.org/whc/archive/vanoise
UNESCO. OPERATIONAL GUIDELINES
115
S A LVA G UA R D A
A pessoa, as comunidades e os
patrimónios: reflexões em torno
da história de uma necessidade
Elvira Rebelo
Historiadora
Direcção Regional
do Porto do IPPAR
S
ombras e luz: eis os elementos que pontificam no
caminho que congrega a pessoa, as comunidades
e os patrimónios em torno da superação de uma
mesma necessidade. Se a clarificação do sentido em
que tomamos a necessidade é uma condição
fundamental do percurso a que ora nos abalançamos,
não terá, contudo, menos premência a exposição da
nossa verdade no que concerne ao crepúsculo e
à claridade que incidem sobre o
IPPAR
nesse curso
que faz as pontes entre o eu, o nós e as coisas – vale
por dizer, entre a pessoa, as comunidades e os
patrimónios.
Não será, seguramente, pouco rigoroso afirmar que
a parceria estabelecida entre indeferimentos e
condicionalismos emanados pelo
IPPAR
propiciam o
ambiente de um anoitecer sempre prematuro, o qual
embarga o entendimento do fim último a atingir
por via do cumprimento das tarefas e competências cometidas ao Instituto 1 no âmbito da sua Lei
Orgânica 2 , ou seja, o de cooperar na efectiva
implementação de uma lídima ética de salvaguarda3.
Com efeito, é no desafio da salvaguarda que
se abrigam as centelhas de luz que, mormente nos
actos praticados pelo
IPPAR ,
encontram veículo de
expressão e, desejavelmente, implementação.
Num esforço de sistematização, poderíamos afirmar
1. Mosteiro de São João de Tarouca
IPPAR/Alexandre B. Mimoso
que não existe real possibilidade de salvaguarda sem
efectivo risco de resistência, uma vez que a ética de
salvaguarda aparenta opor-se à ética de mudança
e modernização que, desde há duzentos anos, vem
atingindo a sociedade moderna a ritmo vertiginoso.
Na ânsia de alcançar a modernização a todo o custo,
o homem moderno impôs uma equação enganosa
segundo a qual a novidade equivale a desenvolvimento 4. O ideal de modernização, reduzido a
neomania, foi esvaziado de conteúdo, ficando o
116
S A LVA G UA R D A
único valor do ser limitado à sua capacidade em
do processo de articulação entre tradição e
favorecer a eclosão do novo. O tempo moderno,
modernidade; o património enquanto ideal emerge,
prenhe de promessas de aventura, poder, gozo,
por conseguinte, das contradições do presente –
crescimento, autotransformação e transformação
tempo de vidas consumistas, individualistas, em que
das coisas em redor, contém em si a ameaça de
já nada – ou quase nada – interpela à transcen-
“[...] destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos,
dência... Numa certa interpretação, é do confronto
tudo o que somos. [...] Ser moderno é fazer parte de
do Homem moderno com a incapacidade de gerir a
um universo em que, como disse Marx, «tudo o que
perda e a morte que resulta a necessidade de tudo
é sólido se dissolve no ar»”5.
– virtualmente –, tudo pretender conservar.
Colocado na senda da implementação de uma
Não pensemos, contudo, que o afã que hoje nos
autêntica ética de salvaguarda, o Instituto não pode,
congrega em torno do património – e dos
naturalmente, ser alheio à dialéctica intrínseca ao
patrimónios – constitui, em si mesmo, um elo de
paradoxo da modernidade; mas pode, certamente,
união com o número incontável que compõe essoutra
cuidar da implementação de uma ética que não se
Humanidade dos nossos predecessores. A este
funda num passadismo avesso ao mundo contem-
propósito, ouçamos Marc Guillaume, na sua exemplar
porâneo, antes, que se assume como caminho para o
alusão à indiferença aos restos materiais nas práticas
desenvolvimento autêntico – aquele que tem por
arquitectónicas até ao fim do século
desiderato o aperfeiçoamento da nossa humanitas;
exemplo é a decisão de Júlio
um desenvolvimento que, para se tornar efectivo,
Igreja de São Pedro, construída por Constantino doze
reclama tudo aquilo que humaniza o Homem,
séculos antes. O monumento representava para ele
portanto o património ou, numa expressão mais
uma entidade indestrutível, cuja aparência física
congruente com os vínculos que, paulatinamente,
podia ser modificada sem que a sua essência fosse
este tem vindo a estabelecer com a pessoa e as
alterada. Quem ousaria hoje propor o mesmo
II
XVIII :
“Um
de destruir (1505) a
comunidades, os patrimónios .
tratamento para a Catedral de Chartres ou o Castelo
O património, enquanto realidade de dimensão plural
de Versailhes?” 9, para o Mosteiro de São João de
e vocação identitária, tem vindo a adquirir visibili-
Tarouca ou para o Castelo de Bragança, poderíamos
dade por via da necessidade: não fora esse estado
nós questionar.
de carência, cuja manifestação ocorre através de
Se a necessidade patrimonial que decorre da
sensações desagradáveis de falta, não poderíamos
circunstância eminentemente paradoxal da vida
justificar a invasão patrimonial ao tempo presente.
moderna tem vindo a tornar-se um recurso de fácil
O património conquistou a intimidade das nossas
utilização no âmbito das campanhas de defesa do
casas, ocupou os espaços públicos, chamou, ao seu
património – referimo-nos aos patrimónios enquanto
serviço, os meios de comunicação social... Para o
argumento identitário –, já a assunção das respectivas
homem do presente, ele apresenta-se como uma
consequências, isto é, das responsabilidades inerentes
verdadeira necessidade: necessidade coeva de um
à intenção ou vontade de salvaguarda, constitui
tempo pejado de possibilidades, já que o património
matéria nublosa... Cumpre, por isso, abordar – ainda
é uma construção social, se preferirmos cultural,
que sumariamente – o binómio necessidade-
que nasce do paradoxo da vida moderna; necessi-
-responsabilidade; aquela em perspectiva, esta em
dade decorrente da enorme ausência de valores
prospectiva.
com que a Humanidade moderna se vê “a braços” e
No que respeita à necessidade, e de um ponto de
da qual resulta a urgência de encontrar referenciais
vista cronológico, podemos fazer remontar as
seguros .
invenções de ordem teórica, jurídica e técnica 10 ,
O Homem moderno olha o património edificado
em torno das quais o campo do património se
como garante de solidez e estabilidade e,
estruturou, ao contexto revolucionário francês que, a
concomitantemente, como objecto mediador 8
partir dos finais do século
6
7
XVIII,
transforma o estatuto
117
S A LVA G UA R D A
dos monumentos nacionais uma vez integrados
Ora, o crescimento do campo patrimonial produziu
no património da Nação sob o efeito das
um equivalente alargamento dos processos de
nacionalizações: de bens materiais que, a todo o
patrimonialização; a produção patrimonial – entenda-
custo, importa manter sob pena do desastre
-se a publicitação do valor patrimonial de um dado
financeiro...; a partir de imperativos de conservação
objecto, tendo em vista a vinculação a práticas que
que decorrem de razões práticas – o interesse
têm por escopo assegurar a sua sobrevivência do
utilitário – vai-se consolidando a noção de que
devir do tempo – rompeu a sede institucional-legal, e
identidade não existe senão na duração e pela
incorporou os processos afectivos: com Jean Michel
memória e que romper com o passado, aquilo a que
Leniaud compreendemos que, no momento actual,
se convencionou chamar “antigo regime”, não
uma das especificidades do conceito de património
significa nem abolir a memória nem destruir os seus
reside no facto deste não existir a priori. Hipote-
símbolos, antes conservar uns e outros num processo
ticamente, todo o objecto é susceptível de enqua-
dinâmico que, alternadamente, assume, integra
dramento no campo patrimonial no termo de um
e ultrapassa o significado histórico original – eis,
processo de apropriação patrimonial ou, por outras
em síntese, o sentido integrador do tempo que
palavras, patrimonialização. O objecto, uma vez
atribuímos ao património –, ele é a chave para
patrimonializado, muda de natureza e função:
compreender o tempo nas suas três dimensões,
o processo tornar-se-á mais claro se olhado a partir
passado, presente e futuro.
de um exemplo: pensemos numa fonte pública no
No contexto português, o processo desamortizador
centro da praça de uma pequena vila. Depois de ter
emerge como factor primeiro da constituição do
sido mantida com cuidado durante décadas, ela é
património monumental da Nação, se entendermos
deixada ao abandono, a partir do momento em
que foi a nacionalização dos bens das ordens
que a chegada da água canalizada a torna inútil.
religiosas e da Coroa que suscitou a metamorfose do
No termo de um período de ruína ela é redescoberta
património de sentido económico em cultural, isto é,
pela população que, por intermédio dos seus
que criou as condições para uma reflexão sobre o
representantes municipais, a faz restaurar, trans-
significado desse novíssimo património nacional .
formando-a em canteiro de flores13.
A vocação expansiva do fenómeno patrimonial,
Traduzamos para o domínio patrimonial. O patri-
11
tornado ideal e ideologia da modernidade, decorre,
mónio não existe a priori, hipoteticamente, todo o
justamente, desta sua natureza identitária: o seu
objecto é susceptível de enquadramento no campo
percurso de vida é caracterizado por um notável
patrimonial. Ao processo que apropria um deter-
alargamento – ampliação aos níveis tipológico,
minado objecto para o campo patrimonial chamamos
cronológico e geográfico .
patrimonialização. Trata-se, no caso vertente, de
No decurso do século que findou, o aprofundamento
uma apropriação que parte da dimensão afectiva – a
do conceito de identidade suportou um crescimento
sua constituição decorre dos olhares convergentes de
exponencial do campo patrimonial: já não estamos,
uma comunidade que elege determinado objecto
unicamente, perante a necessidade de símbolos de
como representativo da sua identidade.
referência nacional mas, também, regional, local e,
Numa certa dimensão, poderíamos até dizer que a
até, vicinal...; as nossas identidades alimentam-se
apropriação afectiva do património é condição da
– no que a materialidades diz respeito – do castelo,
sua legitimação institucional-legal. Ouçamos Carlos
do pelourinho, da arquitectura românico-gótica, mas
Alberto Ferreira de Almeida: “O Património, como tal,
também da fonte, do cruzeiro, da cruz de homem
tem de ser assumido. Só o é, verdadeiramente,
morto...
quando tal acontece. A tomada de consciência sobre
O conceito de património engloba, hoje, todas as
o valor patrimonial que um qualquer imóvel possua é
formas da arte de construir, característica a que se
fundamental, e a sua «classificação legal» é uma das
vem chamando “complexo de Noé”.
melhores vias para que isto aconteça. «Classificar
12
118
S A LVA G UA R D A
para salvaguardar» é um bom meio jurídico, mas é
respeito e enriquecimento da diversidade cultural do
pouco, ao passo que classificar por respeito e para
mundo. Mais uma vez, como quase sempre na
tornar notório um imóvel é uma aconselhável
história da tomada de consciência patrimonial, é a
via de alcance cultural. Classificar bem é uma con-
Perda (real ou iminente) que apela à redefinição das
tínua chamada de atenção para a reflexão. [...]
identidades culturais em torno do valor fundamental
O Património tem de ser aceite e estimado e não
da pessoa. É que o verdadeiro progresso, aquele que
apenas protegido. Ele não é uma simples reserva mas
visa o desenvolvimento da nossa humanitas,
deverá ser, antes, uma abraçável aceitação” .
é inseparável de uma fidelidade às humanidades e
Por conseguinte, é necessário olhar realisticamente
à cultura da alma, cara aos humanistas desde Cícero,
para as possibilidades da classificação: compreendê-
e necessita de se alimentar do património.
-la, primeiramente, na sua qualidade de instrumento
Nesta visão – a um mesmo tempo humanista e
jurídico da produção institucional dos patrimónios;
humanizadora –, a identidade cultural e o diálogo
atender, ainda, à relatividade da sua eficácia, já que
entre as culturas encontram-se intimamente
esta depende da consentaneidade com outros modos
articulados com os direitos do homem e das
de apropriação – modos afectivos que têm por
entidades colectivas, independentemente da escala
agentes as comunidades.
destas – local, regional, nacional, internacional...16.
Aliás, a classificação, mais do que um imperativo
Finalmente, no que concerne à responsabilidade,
legal, pode ser actualmente percebida como
tendo por horizonte uma abordagem prospectiva do
fenómeno revelador da necessidade de “ilhas” em
fenómeno patrimonial, releva sublinhar, antes de
que o espaço tenha uma dimensão de justa medida
mais, que a condição desta é a de um profundo
humana; é da idiossincrasia do humano que radica a
sentido crítico, já que a aproximação ao conjunto de
necessidade de um direito ao património cultural.
bens – talismã que permite ao homem e ao grupo
Com efeito, importa ter presente que o património é
social compreender o tempo nas três dimensões
um participante de pleno direito da cultura que torna
(passado, presente e futuro) – deverá ser feita a partir
o homem mais humano, ou seja, da cultura no seu
da consciência de que o património é uma constru-
sentido subjectivo , perspectiva que lança luz sobre a
ção social, se preferirmos, cultural; por outras palavras,
na comemoração
o património não existe na natureza, não é um
do 50.º aniversário da Declaração dos Direitos do
fenómeno social universal, não se produz em todas
Homem, em que afirma o carácter fundamental, para
as sociedades em todos os períodos históricos;
a pessoa humana, do direito ao património cultural.
ele é susceptível de actualização em função de
Lembrando a natureza insubstituível do património
circunstâncias concretas e necessidades específicas.
cultural, tanto na sua dimensão material como
A necessidade que, na modernidade, o homem
imaterial; tendo presente as constantes ameaças a
moderno enfrenta de instituir valores sólidos,
que o património cultural se encontra sujeito num
referências literalmente sólidas – diríamos de pedra e
declarou o
cal – no contexto de uma existência frequentemente
direito ao património cultural parte integrante dos
paradoxal, resulta de uma relação dicotómica entre
direitos do homem. Do conteúdo da noção de direito
modernidade e tradição. Apesar das incontáveis
ao património como direito do homem emergem
possibilidades da modernidade – a industrialização da
dois conceitos que, no âmbito da Declaração, são
produção, o crescimento urbano, o aperfeiçoamento
perspectivados em complementaridade: são eles
dos sistemas de comunicação, o desenvolvimento da
autenticidade e diversidade. A Declaração do
ICOMOS
sociedade de informação, ou, ainda, as grandes
orienta-se no sentido da urgência em assegurar a
descobertas no domínio das ciências físicas, bem
autenticidade do testemunho que o património
como o desenvolvimento científico e tecnológicos, o
cultural constitui enquanto expressão de identidades
qual logrou operar a transformação da nossa ima-
culturais no seio da Família Humana, caminho para o
gem do universo e do lugar que nele ocupamos –,
14
15
Declaração produzida pelo
ICOMOS
mundo em constante mutação, o
ICOMOS
119
S A LVA G UA R D A
os indivíduos e os grupos sociais parecem padecer de
identidade e de memória de uma comunidade e,
uma angústia existencial... da qual emerge a
sobretudo, o de Património como qualidade de
necessidade patrimonial. Pede-se que o património
vida que ele será cada vez mais falado e se lhe
seja o aplacador da ansiedade associada ao ani-
dará, futuramente, uma muito maior importância
quilamento dos antigos contextos de vida em favor
e atenção [...]” 17 – mais uma vez a expressão de
de novos ambientes, que seja o tranquilizante
sabedoria de Carlos Alberto Ferreira de Almeida.
necessário às angústias inerentes à aceleração do
Afigura-se-nos, por conseguinte, que o discurso que
ritmo de vida e ao desordenado crescimento urbano,
tende a opor o património ao desenvolvimento terá
enfim, que torne significantes os sistemas de
de ser, necessariamente, ultrapassado: o desafio que se
comunicação os quais, ao rés do anúncio intrínseco
coloca à gestão do património – essa administração de
de comunhão, mais dividem do que aproximam.
recursos tendente à consecução de objectivos sociais
Por outro lado, também os processos da produção
que reportam ao património cultural18 – é, justamente,
dos patrimónios se alargaram, extrapolando as sedes
o da reconciliação entre esse passado que já não existe
institucionais-legais e passando a envolver as
e esse futuro que ainda não chegou. Para tanto,
comunidades... Sendo sustentáculo das identidades,
precisam-se de pontes – esse sugestivo leitmotiv da
os patrimónios são, igualmente, argumentos da
Sociedade Porto 2001 – entre o passado e o futuro.
qualidade de vida: “Património é tudo o que tem
Mas estas só poderão ser construídas quando o
qualidade para a vida cultural e física do homem e
homem modernizador do presente deixar a sua
tem notório significado na existência e na afirmação
ditadura da mudança e decidir fazer das suas imensas
das diferentes comunidades [...]. É neste duplo
possibilidades tecnológicas serviço em prol da
aspecto, isto é, o de Património como valor de
construção dos patrimónios do futuro.
1
Por Instituto dever-se-á entender, sempre,
2
Decreto-Lei n.º 120/97, de 16 de Maio.
IPPAR.
3
A tomada de consciência atinente à necessidade de uma ética de salvaguarda encontra-se exemplarmente condensada nesse acontecimento
ocorrido em Julho de 1969 – a chegada do homem à Lua: olhando a Terra a partir da Lua, a Humanidade pode deleitar-se com a infinita beleza
da pérola azul mas, também, tomar conhecimento da precariedade do planeta que é a nossa casa comum, afinal um mero ponto perdido no
espaço. Cf. LACROIX, Michel, O Princípio de Noé ou a Ética da Salvaguarda, Lisboa, Instituto Piaget, 1999, p. 116.
4
Idem, ibidem, p. 72.
5
Idem, ibidem, pp. 74-78.
6
Os patrimónios são, afinal, os instrumentos que civilizam o próprio homem: tanto o território humanizado como os grandes monumentos;
assim as cidades de verdadeira escala humana como as aldeias em que o espaço propicia um tempo para ser...; em síntese, os patrimónios são
meios que permitem salvar o próprio ser humano. Nesta perspectiva se insere o já citada trabalho de LACROIX, Michel, O Princípio de Noé (...),
1999.
7
PEREIRA, Paulo, “O Património como Problema e como Ideologia”, in Intervenções no Património, 1995-2000, Lisboa,
8
Para Eduardo Jorge Esperança, o objecto – tudo aquilo que se materializa como foco de atenção do sujeito – constitui o elemento central e
MC/IPPAR,
1995, p. 11.
grande mediador na lógica da patrimonialização. Cf. ESPERANÇA, Eduardo Jorge, Património e comunicação, política e práticas culturais, Cruz
Quebrada, Assírio Bacelar, 1997, p. 126.
9
10
ESPERANÇA, Eduardo Jorge, Património e política (...), 1997.
Do ponto de vista teórico, tratou-se de perguntar o que define o monumento; já na perspectiva jurídica, houve que clarificar as estratégias de
protecção, enquanto que, do ponto de vista técnico, tiveram de começar a ser definidas metodologias de conservação. Cf. CHOAY, Françoise,
L’Allégorie du Patrimoine, Paris, Seuil, 1992.
11
BARREIROS, Maria Helena, “DGEMN 70 anos depois”, in Revista História, Ano XXI (Nova Série), n.º 20, Dez. 1999, p. 69.
12
Do ponto de vista geográfico: em matéria de protecção dispensada ao património em termos de geografia mundial há que ter bem presente o
fenómeno da exportação europeia do conceito. Assim, refira-se: a primeira conferência internacional para a preservação dos monumentos
históricos, reunida em Atenas em1931 não contou com a presença de qualquer país não europeu; na segunda conferência, realizada em Veneza
120
S A LVA G UA R D A
em 1964, participaram três países não europeus: a Tunísia, o México e o Perú; em 1979, a Convenção do Património Mundial contou com a
participação de vinte e quatro países pertencentes aos cinco continentes...
13
LENIAUD, Jean-Michel, L’Utopie Française. Essai sur le patrimoine, Paris, Mengès, 1992, pp. 4-7.
14
ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Património. O seu entendimento e a sua gestão, Porto, ETNOS, 1998, p. 17.
15
Entendido enquanto componente cultural do território, o património possui um significado culturalmente activo, na medida em que participa
desse universo em que a cultura é tudo aquilo que o homem adquire para se tornar mais humano.
16
REBELO, Elvira, “Quo vadis, Classificação?”, in Revista Encontros de divulgação e debate em estudos sociais – Património, n.º 4, 2.º Semestre,
1999, pp. 5-11.
17
ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Património. O seu entendimento e a sua gestão (...), 1998, p. 4.
18
“La Gestión de Patrimonio Cultural es la eficiente administración de recursos (patrimoniales, humanos, económicos y de todo tipo) ordenada a
la consecución de objetivos sociales que afecten al Patrimonio Cultural. [...]”. Cf. “Código Deontológico”, in Areté documenta, n.º 8, Madrid,
AECPC,
1999 , p. 97.
121
Claustro do Convento de São Francisco, Santarém
IPPAR/M. Ramalho
M E M ÓR I A
Segunda “pedra de traçaria”
do Convento de São Francisco
de Santarém
Paulo Pereira*
Maria de Magalhães Ramalho**
*
Historiador de arte
Vice-Presidente do IPPAR
**
Arqueóloga, Departamento
de Estudos do IPPAR
[email protected]
E
m artigo recente chamámos a atenção para a
descoberta de uma “pedra de traçaria” no
Convento de São Francisco de Santarém, tendo
contextualizado o achado e proposto, então, a sua
interpretação 1 . Insistimos na importância de
testemunhos deste tipo, não só porque são
(ou parecem ser) muito escassos em Portugal, mas
também pelo que eles nos revelam das práticas dos
mestres pedreiros e dos respectivos oficiais na
construção dos edifícios do período em que foi
adoptado o chamado estilo gótico2.
Efectivamente, a existência destes traçados, gravados em pedra ou em reboco, aproximam-nos das
metodologias empregues no planeamento e execução
de peças de construção. Uma proximidade que não é
apenas física – e que ultrapassa os dados descritivos
das fontes documentais – mas também conceptual –
1. Interior da igreja e coro alto
de D. Fernando
uma vez que tais testemunhos se reportam a gestos e
IPPAR/G. Bordino
a actos que tendem para a sua inserção num sistema
lógico e de gestão mais global.
As traçarias surgem assim como um decisivo
Sabemos hoje que para além da pedra de traçaria de
aprovisionamento de dados para os estudiosos da
São Francisco de Santarém (na qual surgem repre-
arquitectura antiga. E ajudam ao gradual e – quanto a
sentados dois arcos apontados em escala reduzida, um
nós – sempre saudável desprendimento da pesquisa
de “cinco centros” e outro de “três centros”, com
dos caminhos estritos da análise formal, comparativa e
ornamentação polilobada e assentes na respectiva
estilística, procedimento consabidamente importante
régua matriz), existem outros exemplos de traçaria no
mas, até certo ponto, imaterial nos seus pressupostos.
Mosteiro dos Jerónimos (na parede norte da nave,
Nas traçarias pressente-se a presença efectiva do
junto ao transepto)3, no Mosteiro de Santa Clara-a-
tracista, do pedreiro e do carpinteiro. Pressente-se,
-Velha, em Coimbra (na parede exterior norte,
ainda, a presença do mestre ou do oficial que, partindo
tratando-se, até ao momento, do mais extenso e
da referência riscada na pedra chegou à execução
importante conjunto do género identificado entre
objectiva do material de construção, do material de
nós) 4 , no Mosteiro da Batalha (traçaria incisa e
talhe, ou do elemento decorativo, num processo
esgrafitada)5 e noutro conjunto (claustro D. Afonso
tradicional, que vai do global ao particular, e do
no Mosteiro de Alcobaça, mais tardio ), deixando
particular ao global, um e outro inscrevendo-se na
pressupor a existência de muitos mais, à medida que
mesma atitude projectual.
as prospecções se alarguem.
VI
6
123
M E M ÓR I A
A descoberta e a valorização destes achados contribui
verificada no coro, nos finais do século
para o desenvolvimento desse sector de investigação
sobretudo, à necessidade sentida pelos frades de
– vasto em perspectivas de trabalho mas, infelizmente,
devolver alguma luz ao templo, obscurecido pela
pouco aprofundado entre nós –, a que os historia-
pesada estrutura que cobria quase por completo a
dores de arte e arqueólogos chamam hoje em dia,
nave principal da igreja11.
mais correntemente, “arqueologia da arquitectura” .
Durante as várias intervenções de restauro levadas a
O estudo dos traçados directores ou das redes
cabo pela
matriciais de geração das plantas dos monumentos, o
encontravam reaproveitados nos muros foram, como já
escrutínio das diversas siglas que capeiam as paredes
tivemos ocasião de referir, sistematicamente apeados.
dos monumentos (que não são todas, contrariamente
Quando se procedia à inventariação destas peças,
ao que se julga, “siglas de pedreiros”), o respectivo
espalhadas um pouco por todo o monumento,
estudo tipológico, topológico-posicional e diacrónico,
identificaram-se algumas que deveriam ser originárias
bem como a leitura dos paramentos murários (ou
do tramo desmontado pelos frades.
7
DGEMN 12 ,
XVI,
deveu-se,
muitos dos elementos que se
“face-reading”) em conjugação com os dados da
arqueologia de campo, revelam-se elementos
essenciais para o correcto entendimento da história de
um edífício mas não só: constituem matéria essencial
para o exercício da conservação e restauro científicos.
Este artigo serve para dar conta da descoberta de mais
uma “pedra de traçaria” em São Francisco de
Santarém. De facto, no final de 1996, quando se
procedia ao levantamento fotográfico dos trabalhos
arqueológicos efectuados na nave central da igreja8
detectou-se, na fachada Este do coro alto de
D. Fernando, uma segunda laje com traçaria.
Esta peça, com 55 cm de altura por 48 cm de largura,
assenta directamente na cornija de remate do coro que
é composta por vários elementos de pedra talhados
com arquinhos apontados, ligeiramente trilobados.
O coro alto de D. Fernando, que hoje apresenta apenas
dois dos três tramos originais em abóbada de cruzaria
de ogivas, terá sido construído nos anos 70 do século
2. Pormenor da pedra de traçaria
XIV,
com o objectivo de servir de capela funerária9.
Mais tarde, já nos finais do século
XVI
(1588), esta
estrutura sofreu grandes alterações, desmontando-se
IPPAR/M. Ramalho
um dos seus tramos e ligando-se o outro à fachada da
124
igreja. O sector central, no qual estaria colocado o
O facto das duas lajes serem bastante semelhantes
túmulo do rei, permaneceu, até hoje, no local original.
quer ao nível da pedra, do acabamento de superfície,
Na sequência de uma das intervenções de restauro a
do desenho ou da própria dimensão, levam-nos a
cargo da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos
colocar a hipótese de terem servido ambas para a
Nacionais 10, abriu-se uma sondagem no pavimento
mesma finalidade, ou seja, constituíam o pavimento do
superior do coro, sendo hoje possível observar a
piso superior do coro onde poderia ter funcionado a
composição original da fachada ostentando de um
“sala de risco” do convento, na época das grandes
lado o brasão real, e do outro, o dos Teles. Segundo
obras da iniciativa de D. Fernando13. Apesar de não
Frei Manuel da Esperança, a grande alteração
sabermos a origem exacta da primeira peça estudada,
M E M ÓR I A
3. Levantamento da traçaria
sobre o original
IPPAR/Ivone Tavares
colocamos como hipótese que tenha sido retirada pela
quadrados, e dentro de cada quadrado adivinha-se o
DGEMN,
cruzamento de duas réguas em cruz, sendo que estes
durante a abertura da sondagem realizada no
coro para a detecção da fachada original.
elementos rectos se encontram definidos por dois
Apesar do tempo e das vicissitudes por que passa-
traços paralelos. Seis semicírculos mais pequenos,
ram, o traço em ambas as lajes é ainda bastante visí-
precisamente com aproximadamente 3,3 cm de raio,
vel, admitindo-se assim que, apesar de colocadas
ou seja, cerca de um quarto do diâmetro do círculo
no pavimento, estariam longe das zonas mais
maior dispõem-se radialmente no seu interior, criando
frequentadas .
um desenho que se pode identificar, facilmente, como
A pedra de que aqui damos notícia, de forma
um óculo ou uma rosácea. Originalmente deveriam
originalmente rectangular, encontra-se ligeiramente
ser oito os semicírculos inscritos, identificáveis caso a
amputada em duas das suas extremidades, por força
pedra não se encontrasse desgastada.
da sua (eventual) deslocação ou da degradação. Serve
Do ponto de vista técnico e de “formação” do
actualmente, como se viu já, de laje de pavimento
desenho ou do risco, não se vislumbram dificuldades
do chamado “coro alto”, situando-se na fieira mais
de maior. Os traços rectos inscritos dentro do círculo
próxima do beirado que deita para a nave da igreja.
maior – ou seja, os dois quadrados rodados – serviram
A traçaria que nela se inscreve é, aparentemente, de
para definir os centros dos semicírculos dispostos
fácil descrição. Trata-se de um círculo, desgastado em
radialmente, harmonizando-os.
cerca de dois terços do seu perímetro. Possui 23,4 cm
Para que serviu a traçaria em causa? Não o sabemos.
de diâmetro. No interior do círculo inscrevem-se dois
Não existe qualquer elemento idêntico para efeitos
14
125
M E M ÓR I A
comparativos, a não ser o que decorre das suas
Como facilmente se percebe, atendendo ao desenho
pequenas dimensões – mas não da forma.
propriamente dito e às suas dimensões reduzidíssimas,
Efectivamente, verificámos já que a outra pedra de
a quarta hipótese parece ser, naturalmente, a mais
traçaria encontrada no mesmo monumento era de
razoável.
pequena escala e, inclusivamente, avançou-se a
Não devemos perder de vista o facto do Convento de
hipótese de se tratar de um desenho “de ensaio” ou
São Francisco ter sido um importante repositório de
“de prova”. Porém, neste caso, encontramo-nos
tumulária, provavelmente parte dela fabricada in situ,
perante um desenho corrente, sem as características
e mais especificamente no período fernandino, quando
de esboço e de preparação técnica que o primeiro
o “coro” se encontrava em construção ou já finalizado.
exemplo testemunhava (e no qual parecem ser
Ora, para o caso concreto, encontramos um para-
patentes as operações geométricas que deram ori-
lelismo imediato na arca tumular de D. Fernando,
gem ao desenho e a sua função, por assim dizer,
concluída já em 1382, e que ficou precisamente
“abstracta” – ou seja, puramente geométrica).
instalada no chamado “coro alto” ou “capela”
Neste caso concreto, todavia, caberá colocar quatro
funerária – de configuração inédita – onde a “pedra de
hipóteses de interpretação. Assim:
traçaria” em análise foi encontrada. Por uma feliz
1. Poderá tratar-se – embora tal seja pouco provável –,
conjunção, não só o “coro alto” fernandino mostrava
de um outro desenho “de prova”, semelhante em
sinais de originalidade no contexto da arquitectura de
função ao da primeira pedra de traçaria por nós
então: também o seu túmulo passou a ser o primeiro
noticiada em outro artigo , desenho este que servia de
a exibir uma tipologia inédita entre nós. Trata-se de
base preparatória “geométrica” para o fabrico de
uma grande arca sepulcral com cerca de 3 m de
moldes de óculos ou rosáceas, a executar em escala
comprimento, sem imagem jacente. Cobre-a uma
maior.
tampa “em forma de pirâmide truncada”17 debruada
2. Poderá, ainda, constituir um desenho à escala real
na base por uma inscrição gótica. A ornamentação
(1:1) para um gabarito aplicável no talhe de pedra para
dominante é heráldica, pese embora a cena historiada
a fabricação de óculos de pequenas dimensões que
na face anterior e cefálica, em que foi figurada a
viessem a ser, depois, dispostos nos tímpanos de
estigmatização de São Francisco. A restante decoração,
arcadas do claustro, por exemplo, ou de qualquer
minuciosa e precisa, ocorre nos interstícios da
outra decoração acessória de grilhagem.
ornamentação heráldica e é composta por pequenas
3. Poderá tratar-se – o que é pouco provável, também –
cenas historiadas de difícil decifração (entre as quais a
de risco preparatório para a fabricação de uma estela
célebre figura “do alquimista” ou “físico”, que também
funerária – ou o seu reaproveitamento, sendo que
podemos interpretar como uma característica figura-
a deposição como pedra de pavimento a teria
ção alegórica do “Inverno”) e inúmeras cabeças
posteriormente desgastado até quase se perder o
representando diversas personagens-tipo18.
motivo simbólico (refira-se que as estelas sepulcrais
No entanto, o que importa reter, no que a esta análise
medievais são comuns desde o século XII até ao século XV,
diz respeito, são os medalhões e molduras da
existindo inúmeros exemplares, nomeadamente de
ornamentação heráldica, nos quais se inscrevem os
formato quadrangular em Santarém, muitas delas com
escudos de armas. Efectivamente, nesta arca tumular
símbolos – pentalfas, “calvários” – inscritos em
encontram-se diversas modalidades de medalhões, de
círculos ) .
desenho tipicamente gótico (ou tardo-gótico): meda-
4. Poderá, por fim, tratar-se do desenho à escala 1:1
lhões quadrilobados (composto por um quadrado com
de um motivo ornamental para fabrico de gabarito,
quatro lóbulos); medalhões circulares dentro dos quais
tendo este como destino a sua aplicação na
se inscrevem escudos de armas assentes num plano
ornamentação em relevo de um “produto” de pedra-
decorado por seis lóbulos radiantes; e um medalhão
ria de dimensão reduzida e não propriamente
circular semelhante aos atrás descritos mas em que o
arquitectónica, como por exemplo uma arca tumular.
escudo de armas (o escudo de Portugal encimado por
15
16
126
M E M ÓR I A
coroa real) assenta num plano decorado por oito
de aplicação directa; o desenho da “pedra de
lóbulos radiantes (este situado em lugar de destaque,
traçaria” é de dimensões inferiores – em cerca de
na face posterior da tampa e sustentado por anjos-
metade – em relação ao do motivo da arca feral
-tenentes).
de D. Fernando. Mas parece evidente que o “risco”
É evidente a semelhança de todos estes motivos em
serviu de modelo a outras intervenções ou a esboços
termos de geração geométrica do desenho e os
de ornamentação de um túmulo – eventualmente, o
riscos da pedra de traçaria que aqui analisamos –
próprio túmulo de D. Fernando o qual, a ser assim,
sendo absoluta a coincidência entre o último dos
terá sido acabado no próprio mosteiro, constituindo
exemplos descritos e o círculo de oito lóbulos
a sua fabricação um empreendimento de carac-
da pedra de traçaria. Naturalmente que uma vez
terísticas tão assinaláveis quanto a de qualquer
mais não nos encontramos perante um “risco”
outra obra arquitectónica.
1
Paulo Pereira e Maria de Magalhães Ramalho, “Pedra de Traçaria do Convento de São Francisco de Santarém”, in Arqueologia Medieval, n.º 5,
Mértola, 1998.
2
Quanto aos métodos de construção nos estaleiros góticos e às diversas formas de interacção entre cliente e mestre-pedreiro, bem como no que
respeita à promoção social do arquitecto e às tradições de construção e direcção de obras, o trabalho mais acessível continua a ser Les Batisseurs
de Cathédrales (catálogo, dir. Roland Recht), Estrasburgo, Musées de Strasbourg, 1989. Remetemos, igualmente, para a bibliografia contida nas
notas do nosso artigo “Pedra de Traçaria”. Naturalmente que existe bibliografia esparsa – muito especialmente publicada em língua alemã –,
e alguns textos de síntese, de entre os quais destacamos, para além do já mencionado catálogo, a obra de Roland Recht, Le Dessin d’Architecture,
Adam Biro, 1997.
3
Identificada por Rafael Moreira. Mediante novos levantamentos realizados pelo Departamento de Estudos do
IPPAR
conduzidos por um dos
signatários (M.M.R.), é hoje possível dispor de um plano integral da traçaria dos Jerónimos já conhecida, tendo-se, ainda, identificado segundo
núcleo de traçaria no mesmo mosteiro. Os signatários preparam, neste momento, a edição crítica destes elementos acompanhada do estudo de
enquadramento e interpretação.
4
Em Santa Clara-a-Velha, conforme se assinalou já, um dos signatários (P.P.) identificou um amplo conjunto de “riscos” de construção na parede
norte da igreja, junto à porta da igreja “de fora”, após os grandes trabalhos de escavação arqueológica e de drenagem das águas integrados na
empreitada de resgate e valorização do monumento empreendidos pelo
IPPAR
IPPAR.
O Departamento de Estudos e a Direcção Regional de Coimbra do
procederam ao levantamento exaustivo destes testemunhos, os quais aguardam estudo assim se ache concluída a primeira frente de trabalhos
estruturais naquele excepcional monumento.
5
Vide Saúl Gomes, Vésperas Batalhinas. Estudo de História e Arte, Leiria, Magno, 1997.
. Identificada por Emanuel Carvalho (Direcção Regional de Lisboa do IPPAR) encontrando-se em fase de estudo.
6
7
A definição mais corrente desta metodologia – conhecida correntemente como “arqueologia da arquitectura” – deve-se a Riccardo Francovich e
Roberto Parenti, Archeologia e restauro dei monumenti, Siena, Universidade de Siena, 1988. Para um conhecimento disciplinar mais alargado
remetemos para a revista especializada neste campo, Archeologia dell’Architettura, que se publica desde 1996 como suplemento à revista científica
Archeologia Medievale, editada em Florença: vide Archeologia dell’Architettura, vol. I, 1996; vol II, 1997; vol. III, 1998; vol. IV, 1999, Florença. Na
aplicação deste método veja-se também The Archeology of Cathedrals (Tim Tatton-Brown e Julian Munby), Oxford, University Commitee for
Archeology, Monograph n.º 42, 1996. Sobre as potencialidades deste método e a sua aplicação na Península Ibérica vide Arqueologia de la
Arquitectura, Actas, Burgos, Junta de Castilla y Léon, 1996, mas muito em especial os artigos e as monografias da responsabilidade de Luis Caballero
Zoreda e da sua equipa (vide entre outros Luis Caballero Zoreda,“El análisis estratigráfico de construcciones históricas”, in Arqueologia de la
Arquitectura, 1996, pp. 55-74; Luis Caballero Zoreda e Santiago Feijoo Martinez, “La Iglesia Altomedieval de San Juan Bautista en Baños de Cerrato
(Palencia)”, in Archivo Español de Arqueología, 71, sep. n.os 177-178, 1998; Luis Caballero Zoreda e Fernando Sáez Lara, La Iglesia Mozárabe de
Santa Lucía del Trampal, Alquescár (Cáceres). Arqueologia y Arquitectura, Memorias de Arqueologia Extremeña, 2, Mérida, 1999. Entre nós existem
exemplos de apontamentos metodológicos deste tipo nos trabalhos de Manuel Real (M. Real e Pedro Sá, O Mosteiro de Roriz na arte românica do
Douro Litoral, Santo Tirso, 1982). Jorge Custódio (J. Custódio [coord.], São João de Alporão na história, arte e museologia, Santarém, 1994) e de
Virgolino Jorge (vide V. Jorge, Der Dom von Evora, Friburgo, 1984). Do ponto de vista do estudo das estruturas arquitectónicas o
IPPAR
tem
empreendido trabalhos preliminares de arqueologia da arquitectura, a maior parte dos quais se encontram em curso, de entre os quais se destacam
a Igreja de São Gião da Nazaré (pesquisa dirigida pela equipa de Luis Caballero Zoreda), o Mosteiro de São Franscisco de Santarém e Santa Clara-a-Velha de Coimbra (a aprofundar). Outros estudos encontram-se em preparação.
8
No âmbito dos trabalhos de pesquisa promovidos pelo
IPPAR
(dirigidos por um dos signatários, M.M.R.) e que contribuem para a reprogramação da
intervenção de recuperação a levar a cabo.
9
AN/TT, Convento de Santa Clara de Santarém, Maço 8, Doc. 417-418, cópia de 24 de Novembro de 1781.
127
M E M ÓR I A
10
Durante os anos 50-70. Foram estas obras que permitiram a Gérard Pradalié produzir a sua monografia sobre o monumento, através da sua
observação atenta (vide G. Pradalié, O Convento de São Francisco de Santarém, Santarém, Câmara Municipal de Santarém, 1997 [reed.]). Sobre o
“coro alto” ou capela funerária de D. Fernando I é fundamental a leitura do artigo de Leonardo Charréu, “O Coro Alto de D. Fernando no Mosteiro
Franciscano de Santarém”, in Almadan, n.º 5, II série, Outubro 1996, pp.148-154, para além do trabalho de referência de G. Pradalié.
11
F. M. Esperança, ob. cit., p. 447. As obras em causa transformaram assim a antiga “galeria” num coro alto de funções litúrgicas mais convenientes
às normas tridentinas.
12
A intervenção desta entidade foi longa e complexa – e ficou incompleta. As obras foram iniciadas obedecendo aos critérios típicos das intervenções
da
DGEMN,
com desmontagens de edificações consideradas espúreas e a reconstrução e remontagem de trechos arquitectónicos de modo a
compatibilizar as alterações sofridas com a forma (ideal) daquele mosteiro gótico. O arrastamento da intervenção levou a que, durante os anos 80
(e numa altura em que as intervenções de restauro se pautavam já por critérios mais sensíveis), esta viesse a ser culminada por uma das mais
desastradas acções de restauro de que há memória em monumentos portugueses, com a aplicação de uma cobertura de vigotas de betão nas naves
central e laterais e nas capelas funerárias, desrespeitando por completo a métrica das mesmas. De tal modo esta intervenção foi desajustada que
hoje mesmo qualquer restauro dependerá do futuro “desrestauro” do monumento, o que tem sido factor agravante quanto à definição dos futuros
trabalhos, implicando atrasos e dificuldades várias e pressupondo um investimento avultadíssimo.
13
Estas obras incluíram, segundo Frei Manuel da Esperança, para além da capela funerária, a construção da sacristia, entrada do refeitório e
colocação de vidraças com as quinas reais (F. M. da Esperança, ob. cit., p. 447).
14
Recentemente, quando se procedia a uma análise mais rigorosa dos elementos originais que ainda subsistem no piso superior do coro, foi-nos
possível detectar a existência de uma passagem marcada por duas soleiras bastante desgastadas. Esta passagem, que se situava entre o claustro e a
antiga torre do sino, localizada por cima da Capela de Nossa Senhora, seria percorrida várias vezes por dia, justificando-se desta forma o acentuado
desgaste da pedra. Estes elementos passaram despercebidos a Leonardo Charréu (ob. cit., vol. II, p. 44), não se observando, na reconstituição
conjectural feita pelo autor, a marcação dessa passagem que teria forçosamente que existir de modo a funcionalizar a tribuna superior, ainda na sua
formulação trecentista, original.
15
16
Cf. P. Pereira, M. M. Ramalho, op. cit.
Apesar da semelhança formal entre o círculo da “pedra de traçaria” que aqui analisamos e as pedras ou estelas sepulcrais correntes, não
conhecemos nenhuma oriunda de Santarém que possua lóbulos, ou sequer uma organização formal idêntica (vide a este propósito, de Jorge
Custódio, “O Convento de São Domingos de Santarém: memória, espaço e arquitectura”, in São Frei Gil de Santarém e a sua época (catálogo),
Santarém,
CMS,
pp. 117-137. Porém, a dimensão do motivo é parcialmente equivalente aos motivos que encontramos nas estelas. Posto isto, vale
dizer que é no entanto muito improvável a reutilização destes materiais numa edificação como a do “coro alto” – uma edificação religiosa que
dificilmente absorveria um elemento com uma carga simbólica ainda presumivelmente intensa –, a menos que se tratasse de mera matéria-prima
disponível, nunca antes usada e por isso aplicável em contexto construtivo.
17
Cf. Pradalié, op. cit., p. 108.
18
Mais uma chamada de atenção, desta feita para outra realidade da criação gótica, designadamente relacionada com a ornamenação escultórica da
tumulária (e não só): a existência de cadernos de desenhos, ou “livros de modelo” com cenas e figuras diversas e que serviam de base aos lapicidas
(como aos iluminadores..). O “desenho” deste tipo de livros não constituía ainda uma realidade autónoma ou um género artístico emancipado, o
que só virá a acontecer mais tarde – e a partir de meados do século
XV.
Era a sua aplicabilidade e capacidade de “circulação” que interessava.
Voltaremos a esta questão noutra ocasião. A este respeito vide Robert W. Scheller, Exemplum. Model-Book Drawings and the practice of Artistic
Transmission in the Middle Ages (ca. 900-ca. 1450), Amsterdão, Amsterdam University Press, 1995.
128
M E M ÓR I A
A Necrópole de São Pedro de Marialva
Estudo arqueológico
Maria Antónia de Castro
Athayde Amaral
Arqueóloga, Direcção Regional
de Coimbra do IPPAR
A
necessidade de elaborar um projecto de arranjo
exterior do adro inserido na intervenção global
de restauro e conservação da Igreja de São Pedro de
Marialva obrigava a uma escavação arqueológica
prévia1.
Da necrópole aqui existente pouco se sabia para além
de uma breve referência bibliográfica2 mas bastaria um
olhar curioso para identificar os contornos de inúmeras
sepulturas escavadas no afloramento granítico ou
as tampas de alguns sepulcros espalhadas em redor
do templo.
A igreja já existia nos inícios do século
XIV 3.
A sua
posição topográfica entre a zona alta fortificada4 e a
antiga cidade romana dos aravi, a confluência de vias
neste ponto ou a existência de outros núcleos de
sepulturas cavadas na rocha nas imediações fazem
1. Sepultura que serviu
de alicerce à parede Sul
da Igreja (QA4)
pensar na existência de um templo mais antigo, coevo
da primeira fase de ocupação da necrópole que pode
pela numeração árabe 1, 2, 3... (Estampa I). Deixou-se
remontar aos séculos XI-XII.
sempre uma banquete de 1 m de largura nos lados
A continuidade de ocupação deste cemitério ao longo
Oeste e Sul. A identificação das sepulturas pode
dos séculos
XV
e
5
XVI
– sobejamente comprovada nesta
escavação arqueológica e pela documentação existente –
exemplificar-se da seguinte maneira: A1.1 referindo-se
A1 ao quadrado e 1 à sepultura.
explicam a sua dimensão, cujas oitenta e seis sepulturas
escavadas correspondem a cerca de um quarto da sua
2. A necrópole
área total...
O conjunto caracteriza-se por um grande número de
sepulturas polarizadas em torno e sob a igreja. O seu
1. A escavação arqueológica de 1996
núcleo inicial é indubitavelmente anterior ao templo
1.1. Metodologia
que chegou até nós. Algumas sepulturas serviram
A campanha arqueológica efectuada em Março de
de alicerce à igreja, nomeadamente à sua parede
1996 incidiu sobre o adro da Igreja de São Pedro,
sul (B2.5 e A.9, ver Est. II Perfil C-C´ e Foto 1) ao
numa área de cerca de 240 m , dividida por uma
campanário (A. 13) e à sacristia (B2.7) o que
quadrícula de 5 m por 5 m traçada paralelamente à
documenta um hiato cronológico talvez de séculos
parede sul da igreja e a partir de um ponto marcado
entre o enterramento primitivo e a construção do
sobre a esquina sudoeste. O eixo vertical foi
edifício actual explicando-se, desta forma, o
identificado, de Este para Oeste, pelas letras do
distanciamento emocional dos autóctones face ao
alfabeto A, B, C..., e o horizontal, de Norte para Sul,
antepassado aqui sepultado.
2
129
M E M ÓR I A
Estampa I
130
M E M ÓR I A
Estampa II
Marialva
Igreja de São Pedro
2.1. A área da necrópole
época, extravasava a área do actual adro da igreja.
A área da necrópole não parece ter sido sempre a
Assim obtivemos a informação de que teriam
mesma nem coincide com o limite murado do actual
aparecido muitas sepulturas quando o município
adro da igreja.
procedeu ao calcetamento da rua que separa o templo
O alargamento deste espaço pode justificar-se pela sua
dessas habitações bem como aquando da abertura, na
XVII .
zona de cota mais elevada, dos alicerces das novas
Constituem provas dessa utilização os novos sepulcros
construções da banda Este. Se tal não bastasse, esse
abertos na rocha da zona mais a sul do adro e da zona
prolongamento estaria contudo documentado do
norte da igreja (QA6 e QB6) bem como o aprofun-
ponto de vista arqueológico pelo aparecimento da
damento de que muitos foram alvo (QA, QB, QB2 e
sepultura n.º 5 do QA6.
QC2 – Estampa II, Perfil E-E´ e Estampa III perfil N-N´).
A sepultura n.º 17 do QB6 documenta, por sua vez, o
Ficou documentado, através de declarações dos
extravasamento da cintura que constituem os muros
habitantes das casas localizadas a Este da igreja, mas
da igreja e a expansão da necrópole para Sul.
também através de dados arqueológicos inequívocos,
Resta saber se a essa área alargada corresponde
que a área da necrópole, não sabemos precisar a
efectivamente uma ampliação da necrópole ou se
sucessiva utilização até pelo menos ao século
131
M E M ÓR I A
Estampa III
PP’
0. Camada vegetal composta por
terra castanha escura, pedras
e materiais de construção.
1. Terra de cor castanha, compacta,
com bastante pedra miúda,
cerâmica de construção
e material osteológico disperso.
2. Terra de cor castanha escura que
corresponde ao nível superior dos
enterramentos.
3. Terra negra dentro das sepulturas.
4. Areão amarelado.
estamos face a diferentes épocas de ocupação a que
perfil N-N´ com a sepultura C2.4 à cota original e a
corresponderão zonas diferentes de inumação.
sepultura C2.3 depois do rebaixamento de cota); ou,
Se assim for, poderíamos afirmar que, com o surto
para finalizar os exemplos, o caso constatado no lado
em
norte, em que a sepultura inicial foi afundada e aí se
Marialva, a que corresponde um considerável aumento
voltaram a depositar defuntos; mas por outro lado,
demográfico , houve necessidade de, quem sabe,
uma vez repleta, a sepultura vai voltar a ser utilizada,
deslocar o templo e consequentemente reduzir a área
em tempos mais recentes, à cota original, com
do adro.
marcação da cabeça por pedras de médias dimensões
urbanístico dos finais do século
XV
e do
XVI
6
QQ’
1A. Terra de cor acinzentada,
arenosa, com material de construção
moderno.
2A. Terra de cor creme, compacta,
com muito material cerâmico.
2B. Terra idêntica à anterior com
grande concentração de brita
moderna.
3A. Terra de cor castanha clara,
de grão muito fino, compacta.
4A. Terra de cor creme sem material.
5. Terra muito negra, arenosa,
de grão médio, que corresponde
aos enterramentos C2.1, C2.2, C2.3
e C2.4.
6. Terra de cor castanha clara com
grande concentração de pedra.
6A. Terra castanha clara, arenosa,
sobre pedra.
7. Areão de cor creme.
e soltas!
2.2. As sepulturas e a sua orientação
Enfim, modificações, a que o tempo obrigou, e que em
É bastante difícil determinar com exactidão o número
última instância dificultam presentemente a contagem
de sepulcros que escavámos. E isto porque a sucessiva
exacta dos sepulcros. Optámos, na tentativa de
reutilização obrigou a inúmeras alterações à estru-
simplificar esta questão, por considerar o sepulcro,
tura inicial da necrópole que passaram pelo
com as suas posteriores alterações, como um só
reaproveitamento por exemplo da cabeceira de uma
monumento, permitindo-nos desta forma afirmar que
sepultura devoluta e os pés de outra para proceder a
escavámos um total de cerca de oitenta e seis
uma reescavação de um terceiro sepulcro com um cor-
monumentos funerários.
respondente rebaixamento da cota inicial (Estampa I,
Todas as sepulturas seguem uma orientação
A4.1); ou ainda a inscultura sepulcral podia processar-
Oeste/Este, paralela aos muros da igreja, com a cabeça
-se dentro de uma sepultura inicial (ver Estampa
132
III ,
para Poente.
M E M ÓR I A
crianças as sepulturas A4.10 (120 30 cm) e a sepultura A4.19 (114 30 cm).
As outras pertencem possivelmente a elementos do
sexo feminino com comprimentos na casa do 154/160 cm
e largura a rondar os 50 cm.
O segundo grupo será pois a regra, embora possamos
denotar algumas variações relativamente à cabeceira.
As cabeceiras variam da forma rectangular/quadrangular à forma semicircular – arco ultrapassado
(B4.11, B5.3, A4.12, B6.1, etc.); arco abatido (B4.13,
A6.5, B6.18); arco peraltado (A6.8).
Algumas sepulturas apresentam rebordo (B6.4 e B6.18)
e um caso apresenta uma das parede (a parede norte)
estruturada por pedras encostadas dispostas na vertical
(vide Estampa III, corte P/P´ – sepultura B6.14). Temos
identificados dois casos de sepulturas geminadas –
a sepultura B5.3/5 e a sepultura B5.6/7.
Pertencem a crianças pequenas as sepulturas 14
(90 30 cm), 18 (100 40 cm) e 22 (116 28 cm)
do quadrado A4; a n.º 8 do A6 e a n.º 7 do B6.
Algumas foram, depois de uma intervenção que pode
2. Quadrado A4 com sepultura
de criança.
ser de aprofundamento, transformadas em ossários –
sepulturas 5 e 10, 13 do quadrado A6; as sepulturas 1,
2.3. A tipologia dos monumentos funerários
14 e 18 do B6 e as 3, 4 do B2.
Foram detectados na necrópole de São Pedro,
seguindo a proposta de Barroca7, dois grandes grupos
2.4. A reutilização das sepulturas
tipológicos:
O estudo desta necrópole demonstra bem a frequência
1. Sepulturas que não adoptam a configuração do
da reutilização das sepulturas. A partilha do mesmo
corpo inumado;
local de sepulcro estará possivelmente relacionada com
2. Sepulturas antropomórficas.
a pertença a membros da mesma família. Parece-nos
Em relação ao primeiro grupo há ainda que considerar
ser esse o caso dos dois exemplos registados de
que a ausência de antropomorfismo pode em vários
sepulturas geminadas, possivelmente pertencentes
exemplos corresponder tão-só ao facto da cabeceira,
a marido e mulher. Temos ainda uma referência
por desgaste do granito, ter desaparecido. Os exem-
documental ao fenómeno desta partilha relativamente
plos localizam-se todos junto da parede sul da igreja
a um enterramento de finais do século
numa zona, porque zona de acesso à porta de entrada
da Igreja de São Pedro em que se refere um menor
e à torre sineira, que apresenta um desgaste
sepultado dentro da igreja na sepultura de seu avô8.
XVI
no interior
considerável do granito (vide Estampa II, perfil C-C´
onde se detecta bem a profundidade original da
2.5. O ritual funerário
sepultura A4.7 que serviu de alicerce à parede da igreja
Nos casos em que tal foi possível verificou-se que os
observando as cotas dos seus lados).
defuntos foram colocados em posição decúbito supino,
Dentro do primeiro grupo temos então sepulturas de
ou dorsal, ou seja com o ventre virado para cima e a
forma rectangular (A4.19 e A4.17, exemplos que não
cabeça vertical olhando o céu. Os braços apresentam-se
deixam dúvidas), de forma trapezoidal (A4.10, A4.11,
sempre flectidos sobre a bacia (C2.1 e C2.2, ver Foto 3)
B4.15) e de forma oval (B2.7). Dentre estas são de
com as pernas dispostas em paralelo ou sobrepostas9.
133
M E M ÓR I A
não sabemos até que ponto corresponde a posteriores revolvimentos muitas vezes com o objectivo da
reutilização das lajes de cobertura. Um grande número
de sepulturas apresenta, ainda, alterações justificadas,
por exemplo, pela plantação de árvores no adro.
Outro facto importante no ritual funerário que
interessa relevar é o que diz respeito às inumações
acompanhadas de objectos (Estampa IV e Fotos 6 a 10).
Foram inventariadas dezasseis moedas11 dentre as quais
catorze foram encontradas dentro das sepulturas e
duas, um ceitil de Afonso
V
e um dinheiro de D. Dinis,
no segundo estrato (B6.2 e B2 [2]). Dessas catorze, a
mais antiga é um AS Julio-claudiano, emissor de Roma,
encontrado na sepultura A4.8. São atribuíveis à época
medieval quatro moedas: dois dinheiros de D. Afonso III
(A6.10 e B4.9), um dinheiro de D. Pedro (B5.2,
numisma encontrado junto ao crânio), e um dinheiro
3. Sepultura n.º 1 com
esqueleto quase completo
(QC2.1)
castelhano de Afonso
4. Laje de cobertura
identificada no quadrado B6.14
XI.
Oito são ceitis atribuíveis a:
Este tipo de inumação não comportava caixão. A quase
D. Afonso
inexistência de alfinetes (ao todo inventariámos dois,
em Ceuta, e B6.2); a D. Manuel (C2.5 dois numismas),
B4.12, B6.10) ou de outros elementos associados a
a D. João
vestuário (apenas identificámos um colchete na sepultura
possivelmente). Por último, temos três réis de
B6.16) permite-nos afirmar que o corpo era depositado na
D. Sebastião (B6.5).
cavidade pétrea envolvido no sudário . Depois, a sepultura
Os objectos em vidro dizem respeito a pequenos
seria coberta por terra e receberia finalmente a tampa.
recipientes tipo jarras ou a objectos de adorno:
A cobertura do tipo laje única foi a mais documentada
quarenta e oito contas de colar e um anel em vidro
na necrópole. Disposta longitudinalmente, com a
para a sepultura B4.15 (onde se encontrou ainda uma
10
V
III
(C2.4, A4.24 possivelmente cunhado
(A6.11) e D. Sebastião (QC2.5 e B6.4
forma rectangular ou subrectangular, um pouco mais
conta amuleto[?] em azeviche) (vide Estampa IV e Foto 6).
comprida e larga que o próprio sepulcro (Foto 4, B6.14)
Um material muito utilizado nas denominadas jóias de
pode, em alguns casos, assentar no rebordo da
luto é o azeviche. Encontrámos uma placa (A4.19 e) e
sepultura (B6.18). Num único caso (B6.17) a cobertura
oito contas de colar (B4.3, B4.14 [Foto 7], B5.3 e B6.4
é políptica ou seja foi estruturada por um conjunto
[quatro]).
de pedras trapezoidais dispostas em paralelo e
Outros objectos, nomeadamente em metal, foram
perpendicularmente à sepultura. A cobertura com terra e
identificados um pouco por todo o lado. Alguns são
pedra miúda foi também utilizada com frequência mas
completamente informes, outros são pregos, outros
dão uma cronologia aproximada. Uma cruz grega, com
5. Quadrado B6 onde foi
detectada uma laje de
cobertura, a cabeceira e zona
alterada pela plantação
de árvores
remates flordelizados e semicírculos nos cruzamentos
dos braços, rematada por perfuração na haste superior,
foi encontrada no quadrado A6 no nível 2 (Foto 8); um
anel em trabalho liso com mesa oval jazia dentro de
um maxilar depositado na sepultura A6.10; um botão
(A6.11); dois alfinetes (B4.12; B6.10 – Foto 9); um
colchete (B6.16); uma medalha de forma oval
ostentando no anverso a Virgem com o Menino sobre
uma meia-lua e no reverso uma imagem indecifrável
134
M E M ÓR I A
6. Conjunto de contas em vidro
encontrado na sepultura 15
do quadrado B4
7. Conta em azeviche,
da sepultura B4.14
8. Cruz de remates
flordelizados encontrada
no nível 2 do quadrado A6
9. Alfinete e agulha
encontrados no nível 2 do
quadrado B6 e alfinete (B6.10)
10. Medalha (B5.5)
Estampa IV, n.º 1, 4-9, 11
e 12 contas de vidro e anel de
bebé, 2, 3, 10 contas de azeviche
(B4.15), 13 e 14 contas em
azeviche (B6.4), n.º 15 copa
em vidro (B6.10) e n.º 16 conta
em azeviche (B6.4)
135
M E M ÓR I A
3. Aspectos cronológicos da necrópole
A utilização desta necrópole como espaço de
enterramento paroquial ao longo de tantos séculos
provocou profundas alterações estratigráficas agravadas ainda pelos revolvimentos actuais (Foto 5), o
que, em última análise, dificulta a classificação cronológica inicial bem como a identificação precisa de
fases posteriores.
Balizá-la cronologicamente é tarefa difícil já que não
existem provas materiais ou documentais suficientemente seguras. É possível que esta necrópole já
existisse no século
XII
quando D. Afonso Henriques
concedeu foral à povoação. O templo vai precisamente
erguer-se numa zona intermédia entre a fortificação e
o núcleo urbano romano que terá uma ocupação até
pelo menos aos inícios da reconquista. Da primeira
fase de ocupação poderiam datar as sepulturas não
11. Cabeceira de sepultura
encontrada no quadrado A6,
junto à laje de cobertura
antropomórficas e estaria relacionado algum espólio
numismático como o As romano encontrado na
sepultura n.º 8 do quadrado A4 ou as moedas
(B5.5 – Foto 10); um objecto de forma triangular
atribuíveis à primeira dinastia.
perfurado ao centro que pode corresponder a
A segunda fase de ocupação é por excelência o
cantoneira de livro (B6.4) e um terço com elos de
período abrangido pelos séculos
cadeias lisos e contas de matéria vegetal em formato
de grandes transformações sociais e políticas, de
geral esférico (B6.15).
grandes obras no castelo, na povoação e também a
XV
e
XVI.
É um período
época da remodelação da própria igreja 13. Nele se
136
2.6. A sinalização dos enterramentos
inscreve a maior parte do mobiliário numismático ou
Foram apenas encontradas duas cabeceiras de
cultual em azeviche e vidro. O termo de encerramento
sepultura insculturadas no QA6 (A6.1 e A6.5) e uma
é de novo difícil de precisar com exactidão. Esta última
terceira, lisa, no QB6. A primeira encontrava-se tom-
fase aparece-nos muito mal representada seja em
bada paralelamente à tampa de sepultura (Foto 11) e a
termos materiais seja em termos documentais. O único
segunda tinha o espigão in situ e a parte superior
espólio que aparece atribuível aos séculos XVI ou XVII diz
tombada. Assinalava esta, indubitavelmente, um ossário.
respeito a algumas faianças surgidas em contextos
A cabeceira lisa foi encontrada numa zona muito
estratigráficos iniciais (camada 1 e 2) e poucos dentro
remexida.
das sepulturas (a maior parte já sem laje de cobertura).
A sinalização do espaço de enterramento, mesmo
Por outro lado, só temos um Livro dos Defuntos de
crendo que tenham desaparecido algumas cabeceiras
São Pedro de Marialva com registos entre 1591 a 1603.
de sepultura e ponderando o facto desta necrópole ter
São ao todo noventa e seis assentos, vinte e quatro dos
sido, apenas, parcialmente escavada, é percen-
quais dizem respeito ao enterramento dentro da igreja
tualmente muito diminuta. A este respeito é muito
e cinquenta e três, no adro, fora da igreja. Dos
pertinente a questão levantada por Barroca12 quando
dezanove restantes, catorze registos não determinam
refere a existência de uma orgânica interna dos
o local do sepulcro, três são dúbios 14 e dois foram
cemitérios rupestres bem conhecida de todos ou, pelo
efectivamente processados noutro local15. Como não
menos, de quem estava encarregado de abrir as
dispúnhamos de mais elementos acerca de São Pedro
sepulturas.
optámos por analisar, comparativamente, os registos
M E M ÓR I A
de óbitos da Igreja de São Tiago de Marialva, intra-
actualmente se denomina Adro da Igreja. Pretende-
muros, respeitantes aos anos de 1606-1676 e 1712-1774 .
-se definir com exactidão a área da necrópole e, por
Observámos, desta forma, uma evidente tendência
outro lado, tentar perceber até que ponto o seu
para a diminuição dos enterramentos fora da igreja
comportamento se repete – com as reutilizações,
a favor dos enterramentos dentro da igreja. No sé-
redefinições e construções de novos sepulcros – ou
temos para São Tiago cento e setenta e dois
não. Parece, de facto, que este cemitério terá sofrido
registos, dos quais, cento e onze referem-se a
uma retracção em consequência da renovação do
16
culo
XVII
e
enterramentos realizados dentro da igreja e apenas
núcleo urbano extramuros nos séculos
vinte e três fora, no adro. O número de registos dúbios
que terá englobado a construção do novo templo,
– vinte e oito – aumenta, bem como aumenta o
de novas habitações e o reordenamento dos eixos
número de registos relativos a enterramentos noutro
viários.
XV
local – seis . Na centúria seguinte o quadro é o
Há indícios, com o aproximar do século
seguinte – duzentas e dez menções a sepulturas dentro
alterações profundas no ritual funerário que tende a
da igreja e apenas uma fora.
efectuar-se no interior da igreja. A leitura dos Livros
Parece, pois, bastante provável que o mesmo tenha
dos Defuntos deixa igualmente a impressão de um
sucedido em São Pedro de Marialva. O espaço exterior
espaço que em breve se torna sobrelotado tornando-
do templo terá funcionado como cemitério até pelo
-se necessário o registo cada vez mais pormenorizado
menos ao século XVII (meados? finais?).
do local de enterramento18. Esta sobrelotação tornar-
17
XVII ,
XVI
de
-se-á possivelmente um problema com o passar dos
Conclusão
anos que só será ultrapassado com a construção do
Seria do maior interesse proceder, num tempo
cemitério público inaugurado no dia 13 de Janeiro
futuro, a algumas sondagens fora do local a que
de 1862.
As escavações da necrópole de São Pedro de Marialva são da responsabilidade do Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra e foram
1
orientadas por Maria Antónia Amaral, técnica superior do
IPPAR.
O desenho da planta das sepulturas é da autoria do Dr. José Luís Madeira e o
desenho dos objectos da autoria da D.ra Lília.
2
Costa, 1977.
3
Almeida, 1971, pp. 117-118.
4
É possível que esta fortificação já existisse na II Idade do Ferro e que continuasse a ser ocupada quer durante a época romana quer posteriormente
sendo, como sabemos, o habitat acastelado no século X, fenómeno sobejamente documentado nesta zona geográfica.
Nas centúrias seguintes a necrópole deve ter continuado a ser ocupada se não no exterior pelo menos no interior da igreja até ao seu desfecho em
5
1862, ano do primeiro enterramento no cemitério público de Marialva.
Gomes, 1995. A uma situação de rarefacção demográfica característica do século XV sobrepõe-se em finais da centúria uma recuperação a que não
6
deve ser alheia a instalação de uma comunidade judaica organizada dedicada às actividades comerciais e artesanais. São muitas as referências a
mercadores, rendeiros, sapateiros, alfaiates e tecelães.
7
Barroca, 1987, pp. 129-130.
8
Livro de Óbitos de São Pedro, 1591-1603, f. 66. Nos Livros de Óbitos de São Tiago de Marialva, 1606-1676 e 1712-1774 documentaram-se ainda
outros registos que para além de comprovarem a partilha do sepulcro por membros da mesma família acrescentam ainda a ordem de deposição dos
cadáveres. Em 1634 temos dois óbitos: de uma mulher – Beatriz da Fonseca – sepultada no meio da igreja – e de um homem, António Pais, freguês
de São Pedro – sepultado junto ao altar de Nossa Senhora; ela, diz-se, por baixo de seu marido, ele, debaixo do avô. Diogo Pais Borges, que faleceu
em 1678, foi sepultado na sepultura de seu pai, e, para finalizar, três casos em que a deposição é feita junto ao familiar: Egas da aseca Juíz dos
orfãos está enterrado por cima dos bancos peguado a sua mulher, João Pereira... junto a seo genro ou ainda Diogo Botelho... enterrrado no
Convento dos Villares de baixo do arco da capella mor junto a sua mulher Bárbara Botelho.
9
As pernas sobrepostas representam uma inovação em termos de ritual funerário deposição essa posteriormente documentada noutras necrópoles,
nomeadamente em Santa Maria de Aguiar situada na mesma área geográfica.
10
Num documento de 1690 apresentado por Gonçalves da Costa, 1984, vol. IV, p. 191, referem-se a propósito das receitas da Igreja de Longroiva os
gastos com o funeral de um lavrador abastado que abarcavam a covagem (uma das duas grandes fontes de receita), o lençol em que foi envolvido
(avaliado em 700 mil réis), o acompanhamento das confrarias, a bandeira das almas e irmãos, clérigos e ofertas da missa de corpo presente. Não se
refere a existência de caixão.
137
M E M ÓR I A
11
Agradecemos o estudo e classificação destes dezasseis numismas à D.ra Isabel Pereira.
12
Barroca, 1987, p. 120.
13
Gomes, 1995.
14
Descreve-se no Livro dos Defuntos relativamente ao enterramento que é na Igreja de São Pedro, o outro no alpendre de São Pedro à porta
principal e o último refere apenas a porta principal.
15
Um teve lugar na Igreja de São Tiago de Marialva e o outro em Longroiva.
16
É de crer que os rituais fossem os mesmos.
17
Cinco pessoas terão sido sepultadas no mosteiro franciscano dos Vilares e um no convento dos Regulares(?).
18
Esta tendência aparece logo nos registos do início do século (1607) e dela se depreende também que havia um local privilegiado de enterrramento
dentro da igreja para os grandes da vila. Em 1632 e 1634 faleceram respectivamente Cristóvão da Fonseca e Rui de Castro, alcaides-mores, e foram
sepultados na capela-mor, um junto a parede peguado a capellla, o outro no meo por baixo dos degraos. Na capela-mor foram ainda enterrados
familiares do alcaide e os abades Celestino de Lima de baixo da campa grande e na mesma sepultura enterraram, em 1646, doze anos depois, o
sucessor, o Abade Francisco de Sobral de Almeida.
Fontes manuscritas
Livro de Registos de Óbitos de São Pedro, 1591-1603.
Livro de Registos de Óbitos de São Tiago de Marialva, 1606-1676.
Livro de Registos de Óbitos de São Tiago de Marialva, 1712-1774.
Bibliografia
ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, vol. IV, Lisboa, 1971.
BARROCA, Mário Jorge, Necrópoles e Sepulturas Medievais de Entre-Douro-e-Minho (séculos
V
a
XV),
Porto (Provas de Aptidão Pedagógica, texto
policopiado), 1987.
COSTA, Manuel Gonçalves da, História do Bispado e Cidade de Lamego, vol. I, Idade Média, Lamego, 1977.
COSTA, Manuel Gonçalves da, História do Bispado e Cidade de Lamego, vol. III, Renascimento, I, Lamego, 1984.
COSTA, Manuel Gonçalves da, História do Bispado e Cidade de Lamego, vol. IV, Renascimento, II, Lamego, 1984.
COSTA, Rita, Marialva, estudo histórico sobre a vila, Lisboa (Texto policopiado apresentado ao IPPAR em 1995).
138
M E M ÓR I A
A Necrópole de São Pedro de Marialva
Dados antropológicos
Contextualização cronológica
cabeceira da sepultura foi cortada pela construção de
A Necrópole da Igreja de São Pedro em Marialva foi
uma outra.
objecto de uma intervenção arqueológica, em 1996,
Ainda no campo da Antropologia Funerária, foi possível
da responsabilidade do Instituto de Arqueologia da
determinar a frequência de indivíduos por sepultura.
Universidade de Coimbra e orientada pela arqueóloga
Assim, do total de cento e quarenta indivíduos exu-
Maria Antónia Amaral, durante a qual foram escavadas
mados, trinta e seis provinham de sepulturas individuais
oitenta e seis “sepulturas” ou, adoptando a termino-
(Fig. 1). De referir que dezasseis
logia do texto da arqueóloga, monumentos funerários.
sepulcros estavam já vazios.
Tratou-se de uma intervenção arqueológica de vulto
Através das dimensões das
que resultou na obtenção de uma das maiores
sepulturas que se encontravam já
necrópoles medievais rupestres portuguesas (Cunha e
vazias, foi possível inferir o grupo
Crubézy, 2000). Não obstante, o elevado número de
etário dos indivíduos que ali teriam
sepulturas já escavadas não deverá corresponder a
estado albergados (Fig. 2). Partimos do princípio que
mais de um quarto da necrópole.
as sepulturas com uma dimensão inferior a 100 cm
A cronologia tardo-medieval foi confirmada através da
corresponderiam a indivíduos não adultos. Esta
datação de ossos humanos por radiocarbono, a qual
inferência pôde ser feita porque todas as outras
(ver anexo). Esta
sepulturas com restos ósseos com menos de um metro
apontou claramente para o século
1
XV
datação foi obtida para uma sepultura localizada na
de comprimento tinham, efec-
parte norte da igreja, tendo outras datações sido
tivamente, restos de não adultos.
tentadas para a zona sul que se revelaram, no entanto,
É, no entanto, impossível saber
infrutíferas dado que os ossos não preservavam
quantos indivíduos teriam sido
colagénio em quantidade suficiente de modo a per-
inumados por sepultura.
mitir a leitura do C.
Relativamente à reutilização das
Outras informações sobre a cronologia relativa desta
sepulturas, os dados de Marialva enquadram-se,
necrópole, designadamente, a tipologia das sepulturas,
perfeitamente, no panorama das necrópoles ibéricas
podem ser encontradas no artigo de M. A. Amaral.
coevas. Os cento e quatro indivíduos provenientes de
Poderemos inferir, sempre num campo hipotético, que
sepulturas reutilizadas encontram-se distribuídos, por
a Necrópole da Igreja de São Pedro poderá ter cerca de
sepulturas, do seguinte modo (Fig. 3):
14
Eugénia Cunha
Cláudia Umbelino
Teresa Tavares
Antropólogas do Departamento
de Antropologia
Faculdade de Ciências
e Tecnologia
Universidade de Coimbra
[email protected]
Fig. 1
Frequência de sepulturas
individuais, reutilizadas
e vazias na Necrópole
de São Pedro (Marialva)
Fig. 2
Inferência dos grupos
etários dos indivíduos
inumados nas sepulturas
agora vazias
trezentas sepulturas que corresponderão a cerca de
quinhentos anos de ocupação. Esta hipótese é feita
Fig. 3
Frequência de indivíduos
nas sepulturas
reutilizadas
partindo da suposição que a densidade de sepulturas
nos restantes três quartos da necrópole seria idêntica.
N
A densidade de sepulturas era considerável, havendo
inclusivamente sobreposição parcial destas, o que
levou, inevitavelmente, à sobreposição do material
osteológico. Há também muitos casos em que a
139
M E M ÓR I A
O caso mais frequente é um mesmo sepulcro albergar
denominador comum é o mau estado de preserva-
dois indivíduos, sempre inumados em alturas distintas.
ção. Com efeito, os ossos exumados estão muito mal
Nestes casos era possível identificar o último corpo a
preservados e incompletos, o que condicionou
ser depositado já que este ainda preservava algumas
seriamente a análise antropológica. Este aspecto
articulações in situ, enquanto que o primeiro corpo a
requer uma abordagem mais aprofundada das alte-
ser inumado se encontrava reduzido aos pés e ao lado
rações tafonómicas responsáveis.
do ocupante mais recente. A questão, legítima e
Terá havido uma conjugação de factores tafonómicos
pertinente, que se coloca é saber a razão da partilha de
adversos que modificaram bastante o aspecto dos
um mesmo local de enterramento. Tratar-se-ia de
ossos e dos dentes. Entre os mais importantes está a
indivíduos pertencentes à mesma família? Estando-se
acidez do solo, a acção de raízes e de microfauna.
num período de morte anónima, sem qualquer
Enquanto que o primeiro factor terá contribuído para o
identificação do local de enterramento, há apenas três
desaparecimento dos ossos, as raízes terão, não só
cabeceiras de sepulturas (ver texto M. A. Amaral) – só
provocado fracturas nos ossos como, através do ácido
análises paleobiológicas específicas, designadamente
que segregam, terão também contribuído para uma
paleogenéticas, poderiam permitir conhecer as
grande corrosão da superfície óssea. Já a microfauna,
eventuais relações de parentesco entre os indivíduos
entre outros, levou à formação de pequenos orifícios
que foram enterrados numa mesma sepultura. Esta
arredondados que, à primeira vista, poderiam ser
suspeita é fundamentada com base na documentação
confundidos com patologias (Fig. 4). Aliás, um dos
pesquisada para a Igreja de Marialva (ver texto M. A.
objectivos de uma cuidada análise tafonómica dos
Amaral). De qualquer modo, pode acrescentar-se que
ossos humanos é, precisamente, fazer a despistagem
para São Pedro de Marialva, na maior parte dos casos
de pseudopatologias que não são mais do que
em que foram recuperados restos de dois indivíduos
alterações sofridas pelos ossos após a morte dos
de uma mesma sepultura, tratava-se de um adulto e
indivíduos.
de um não adulto. No que concerne às sepulturas
geminadas, nem sequer foi possível, devido ao mau
estado de preservação do material, confirmar que se
trataria de um homem e de uma mulher.
Já os casos em que os restos de seis e oito indivíduos
estão depositados numa mesma sepultura, poderão
corresponder a uma situação distinta, na qual o
sepulcro tenha sido utilizado como ossário. A sepultura A6.5 constitui um dos raros casos com cabeceira,
4. Alterações tafonómicas
na diáfise de um fémur direito
exumado da sepultura B5.1
onde foram inumados quatro indivíduos. É legítimo
conjecturar que esta cabeceira tenha servido como
um indicador da localização para a família.
O número máximo de indivíduos detectado para uma
A presente amostra osteológica é constituída
mesma sepultura fica ainda muito aquém do verifi-
maioritariamente por ossos fragmentados e,
cado para outras necrópoles medievais portuguesas.
sobretudo, dentes. Até mesmo estes últimos, não
Por exemplo, para São Pedro de Canaferrim (Sintra),
obstante serem caracterizados por uma maior
foram contabilizados vinte indivíduos na sepultura 1
resistência à passagem do tempo, estão muitas vezes
(Antunes-Ferreira et al., s.d.).
incompletos, o que demonstra bem a adversidade
tafonómica do ambiente que serviu de última morada
140
Análise paleobiológica. Aspectos tafonómicos
aos indivíduos em análise. O facto de praticamente
A caracterização do estado de preservação dos restos
não se possuir qualquer osso longo completo ou,
humanos recuperados desta necrópole é evidente: o
obviamente, qualquer esqueleto completo, obriga
M E M ÓR I A
necessariamente a uma abordagem antropológica
índole sócio-cultural – o costume de se enterrarem os
diferente e mais limitada no que se refere a ilações a
bebés fora dos cemitérios, no átrio das casas, por
retirar. No entanto, por outro lado, os fragmentos
exemplo –, mas sobretudo pelas condições ambientais
ósseos e/ou dentários podem ser também uma
adversas que levaram a uma grande deterioração
importante fonte de informação, sendo que muito
óssea. Não podemos, no entanto, excluir a pos-
mais erro é introduzido pela sua omissão do que pela
sibilidade de algumas das sepulturas já vazias, com
sua análise.
menos de 100 cm, terem albergado bebés.
A título de exemplo, houve sepulturas, como a A4.3,
O grupo etário mais bem representado entre os não
em que só foi recuperada uma coroa dentária e um
adultos é o que inclui as crianças que morreram com
fragmento de osso longo de reduzidas dimensões,
mais de 6 e menos de 12 anos (vinte e cinco indi-
mas, apesar disso, foi possível dizer-se que se tratava
víduos) (Fig. 5).
de um adulto jovem.
Caracterização demográfica da amostra
Os resultados paleodemográficos foram obtidos,
sobretudo, com base nos dentes, que permitiram,
Fig. 5
Distribuição etária dos
indivíduos não adultos
exumados da Necrópole
de São Pedro (Marialva)
entre outros aspectos, a identificação de setenta e três
adultos, cinquenta e três não adultos e catorze
indeterminados.
A detecção de cerca de 40% de não adultos é um
dado antropológico significativo. No contexto das
necrópoles ibéricas, esta percentagem está entre
Para os adultos foi praticamente impossível especificar
as mais altas, comparável a Fão (Cunha, 1997) ou
o grupo etário. Efectivamente, só para os adultos
San Juan de Momoitio (Arenal e la Rua, 1987), cerca de
jovens (20-30), em que a falta de desgaste do terceiro
10% superiores (Cunha e Crubézy, 2000). Claramente
molar é sintomática, foi possível atribuir uma classe
mais elevada, só a recentemente estudada Necrópole
etária provável. Por outro lado, nos casos em que o
de Serpa, também comprovadamente da Baixa Idade
desgaste dentário era muito acentuado, com exposi-
Média, que é composta por 80% de não adultos
ção da dentina secundária, é também legítimo supor
(Ferreira, 2000).
que se trataria de adultos mais velhos. Contudo,
Foi fundamentalmente com base na calcificação e
a influência de outros factores no desgaste,
erupção dentária (Ubelaker, 1989) que se conseguiu
nomeadamente a dieta, não nos permitem ser
estimar a idade à morte dos não adultos. Os dentes, ou
conclusivos. Em suma, só podemos afirmar que
fragmentos destes, estavam maioritariamente soltos,
deverão existir adultos de várias idades, desde
tendo sido inclusivamente recuperadas muitas coroas
20-30 anos até mais de 50 (esta última inferência pode
de molares não erupcionados. Particularmente úteis
também ser corroborada pela detecção de lesões
foram sobretudo os graus de desenvolvimento da
degenerativas pontuais).
coroa e da raiz. Casos houve, também, em que a
Atendendo ao mau estado de preservação do material
grande fragmentação e deterioração inviabilizaram
ósseo, logicamente que a diagnose sexual ficou
qualquer estimativa, o que é raro quando se lida com
praticamente inviabilizada. Estamos certas que existem
não adultos.
indivíduos de ambos os sexos, mas nunca tal inferência
No que respeita às idades à morte dos não adultos, a
foi feita com base no osso mais credível para esse
criança mais nova não teria menos de, sensivelmente,
efeito: o osso coxal (ausente). Pelo contrário, foram as
2 anos de idade. A não detecção de crianças mais
dimensões de extremidades proximais de ossos longos
novas, que é aliás um dado comum nas populações do
assim como ossos dos pés, que nos permitiram inferir
passado, pode ser explicada não só por motivos de
acerca deste parâmetro.
141
M E M ÓR I A
6. Fémur esquerdo de um
indivíduo adulto da sepultura
B2.3 com reacção infecciosa,
resultado de uma provável
fractura
7. Úmero esquerdo do indivíduo
adulto inumado na sepultura
C2.1 onde é visível uma exostose
óssea
8. Rótula direita do indivíduo
adulto inumado na sepultura
C2.1 com entesopatia
Abordagem paleopatológica
lação, há duas constatações de nível mais geral basea-
No campo paleopatológico, não obstante o mau
das em observações dentárias.
estado de preservação, foram ainda assim detectados
Por um lado, o forte desgaste dentário observado
casos que merecem ser aqui referidos.
(Fig. 9) permite supor uma dieta abrasiva, onde
Um primeiro caso diz respeito a uma forte reacção
itens tais como cereais mal cozidos, entre outros,
infecciosa ao nível do fémur esquerdo de um indiví-
desempenhariam um papel importante. Pelo menos
duo adulto da sep. B2.3 (Fig. 6) cujo calo ósseo,
bem evidente, denota a presença de uma fractura.
9. Mandíbula pertencente ao
indivíduo inumado na sepultura
C.2.1 com acentuado desgaste
dentário
O engrossamento ósseo, por seu lado, poderá ter a ver
com uma eventual osteomielite já que há indícios de
uma eventual cloaca. Este mesmo indivíduo, um adulto
não idoso, apresentava também um engrossamento ao
nível do frontal compatível com hiperostose frontalis
interna.
Refira-se, também, que outras reacções infecciosas não
específicas, menos graves, detectáveis através da
reacção ao nível do periósteo, foram observadas
noutros indivíduos adultos.
Um outro indivíduo adulto, desta vez da sepultura
C2.1, exibe uma exostose óssea no úmero esquerdo
142
de dimensões consideráveis (Fig. 7). Para o mesmo
oitenta e dois indivíduos apresentavam desgaste
indivíduo há a assinalar as entesopatias (lesões na
dentário. Ou seja, mais de metade da amostra
zona de inserção ligamentar) nas duas rótulas (Fig. 8).
(58.5%), incluindo adultos e não adultos, apresen-
Este esqueleto é, aliás, um dos mais completos de
tavam desgaste dentário de mediano a forte.
toda a série. Trata-se de um indivíduo masculino,
A baixa incidência de cáries obtida, 11% (catorze
provavelmente com mais de quarenta anos na altura
indivíduos em doze indivíduos apresentavam, pelo
da morte. A sua robustez é evidente pelo desen-
menos, uma cárie), deverá ser interpretada com
volvimento das zonas de inserção muscular. Quanto à
cuidado já que a maior parte dos dentes estavam
estatura, teria cerca de 1,74 m, valor obtido pela
soltos, o que dificultou a identificação dos dentes de
aplicação da função discriminante desenvolvida por
um mesmo indivíduo. Para além disso, muitos dos
Byers et al. (1989) a partir do comprimento do primeiro
dentes estavam danificados ou mesmo ausentes.
metatarsiano esquerdo, um osso do pé.
Finalmente, a frequência de hipoplasias lineares do
Para além destes casos particulares, e ainda no campo
esmalte dentário é considerável, não sendo fidedigno
da avaliação do estado geral de saúde desta popu-
avançar com um valor para a respectiva incidência.
M E M ÓR I A
Com base nas hipoplasias, detectou-se um período de
logias várias – períodos de fome, doenças infecciosas
crescimento particularmente susceptível ao stress entre
de repetição, uma maior susceptibilidade ao stress, uma
os 2 e os 6.5 anos. Ou seja, foi possível inferir que
mudança alimentar derivada da fase do desmame –,
durante esse período do crescimento, devido a etio-
os indivíduos passaram por mais adversidades.
1
2 s 1409-1484 cal AD (Instituto Tecnológico e Nuclear).
Bibliografia
ARENAL, I., LA RUA, C. (1987), “Antropologia de una población medieval vizcaina San Juan Momoitio”, Cuadernos de Antropologia-Etnografia, 7,
Garai, Sociedad de Estudos Vascos.
BYERS, S., AKOSHIMA, K., CURRAN, B. (1989), “Determination of adult stature from metatarsal length”, American Journal of Physical Anthropology, 79,
pp. 275-279.
CUNHA, E. (1997), “Populações medievais portuguesas (séculos XI- XV). A perspectiva paleobiológica”, Arqueologia Medieval, 5, pp. 57-83.
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Problematics and perspectives”, Journal of Iberian Archaeology, 2, pp. 145-164.
FERREIRA, M. T. (2000), As crianças Moçárabes de Serpa. Análise paleobiológica de uma amostra de esqueletos exumados da necrópole do
Loteamento da Zona Poente de Serpa, Coimbra, Relatório de Estágio, DAUC.
UBELAKER, D. (1989), Human skeletal remains. Excavation, analysis and interpretation, 2nd ed., Washington, Taraxacun Washington.
Glossário
Entesopatias – Lesões ósseas na região de inserção dos ligamentos e tendões ao nível do osso (região designada por entese) que resultam de uma
reacção inflamatória caracterizada pela calcificação ou ossificação dos ligamentos. No osso é visível a formação de espículas ósseas e superfícies
rugosas e irregulares.
Hipoplasias lineares do esmalte dentário – Redução da espessura de esmalte na sequência de distúrbios que ocorrem durante o desenvolvimento
dentário, como sejam carências nutritivas, doenças infecciosas e distúrbios metabólicos.
Hiporostose “frontalis interna” – Espessamento anormal do osso frontal.
Osteomielite – Inflamação supurativa, aguda ou crónica, da parte cortical de um osso, provocada pelo estafilococo áureo.
Periósteo – Membrana fibrosa que reveste a superfície externa do osso.
143
Marialva
IPPAR/Alexandre B. Mimoso
INTERVENÇÕES
Igreja de São Pedro de Marialva:
intervenção de conservação
e restauro 1995-2001,
o ressurgir de um novo templo...
Fernando Marques*
M. Antónia Athayde Amaral**
*
Engenheiro, Chefe de Divisão
de Obras, Conservação e Restauro
da Direcção Regional de Coimbra
do IPPAR
**
Arqueóloga, Direcção Regional
de Coimbra do IPPAR
A
Igreja de São Pedro de Marialva situa-se no centro
do arrabalde que se desenvolveu a norte do
Castelo e do seu núcleo urbano murado, num ponto
tradicional de confluência das vias que se dirigiam à
zona da Meda e de Val Flor.
O edifício teve, por certo, e como aliás indicia o
cemitério rupestre que se desenvolveu em seu redor,
uma fundação muito antiga.
A instituição da paróquia parece remontar ao século XIII
1. Igreja de São Pedro
de Marialva
sabendo-se que em 13201 pagava uma taxa de 150 libras.
A quantia assemelhava-se à taxa paga pela paróquia de São João, situada também ela fora do
relacionar a remodelação do templo com o facto da
perímetro muralhado , e era curiosamente quase o
Ordem de Cristo aqui ter estabelecido uma comenda
dobro da quantia taxada a São Tiago, a única das três
em 15155.
paróquias de então que se erguia dentro do perímetro
As paredes externas da igreja, seguindo o modelo da
muralhado. Deste facto, e da posterior integração de
época, são de boa cantaria de granito rematadas por
São João na paróquia de São Pedro (situação vigente
uma cachorrada biselada e lisa cujos testemunhos
2
se depreende uma tendência precoce
originais subsistiram na parede norte. A desmontagem
para a concentração da população no arrabalde e o
parcial do edifício está patente na análise das paredes
progressivo esvaziamento do castelo e da zona urbana
do lado sul, onde, na face interna, se encontram
no século
XV),
murada .
dispersos fragmentos deslocados e mal posicionados
Do templo românico de então poucos resquícios
das composições pictóricas que a ornavam, e na
subsistiram para além de uma possível implantação
fachada principal voltada a Oeste.
geral que sucessivas remodelações mal deixam
Pela parte do interior as paredes da nave até à zona do
percepcionar.
coro eram revestidas por pintura. Identificou-se do lado
O edifício actual de planta rectangular, nave única,
do Evangelho uma série de pinturas de que relevamos
sem transepto, e cobertura de madeira, segue uma
um fresco de excepcional qualidade representando
tipologia assaz documentada na região . Remonta, por
São Sebastião a ser martirizado por um mouro, loca-
3
4
o mais
lizado à sua esquerda. Este quadro apresenta uma
tardar, num tempo em que se processavam amplas
moldura, feita com estampilha, de laçarias brancas
obras de restruturação e conservação na vila.
sobre fundo azul delimitadas por filetes vermelhos,
Ao Infante D. Fernando, casado com a última
inspirada por certo nos repertórios ornamentais de
descendente dos Condes de Marialva, coube a ini-
sabor mudéjar, e um remate superior constituído por
ciativa das obras no castelo mas talvez devêssemos
um friso de motivos lombardos de filiação classicista
certo, aos finais do século
XV
inícios do
XVI
145
INTERVENÇÕES
sabemos mas parece-nos muito pertinente, a este
respeito, quer a hipótese lançada Pedro Dias, da
existência em Torre de Moncorvo de uma oficina de
escultura e pintura que terá participado, a mando do
comendador da Ordem, nas obras de Longroiva
realizadas em 1507 9, quer a hipótese de Joaquim
Inácio Caetano que, a propósito do seu estudo das
pinturas murais de Santa Maria de Trevões, em
São João da Pesqueira, identificou o pintor Bhaltesar
Fernandes nomeado por D. Manuel I, em 1515, para
receber as sisas de Trevões e Várzeas10. Não será de descurar qualquer destas pista para encontrar o autor das
pinturas de São Pedro de Marialva uma vez que o templo
estaria em obras exactamente nesta mesma altura.
O horror vacuis que caracteriza este tipo de decoração
será ainda complementado pela pintura do tecto em
madeira da nave principal com temas vegetalistas em
tons vermelho e azul, com formulação gorda, que
fazem lembrar a decoração típica de arquitectura e
escultura do manuelino11.
2. Pintura no altar da parte
do Evangelho
O século
XVII
foi o século da ampliação da Igreja de
São Pedro. Construíram-se, de certeza, dois volumes
autónomos. A sacristia erguida em 1659, como demonse italianizada. A composição, ignoramos o motivo, foi
tra a pedra cronografada da parede oeste, situada no
substituída, pouco tempo depois, por outra decoração
lado norte do templo e em zona contígua à capela-mor,
pictórica, a seco, composta por grandes arquitecturas
e o interessantíssimo cruzeiro encostado à parede sul.
projectadas em tromp d´oeil e representação dos
Datará ainda dessa época o remate de dois coruchéus
apóstolos em grande escala, na parte superior da
do campanário de duas sineiras que, a crer nas
parede, e uma decoração geométrica, na parte inferior,
descrições das visitações da Ordem de Cristo, já deveria
sobre a qual surge a representação de uma sereia .
existir nos inícios do século XVI.
Uma outra pintura representando um Santo Bispo,
Outra grande fase de remodelação, sobretudo dos
possivelmente São Pedro, foi identificada na parede do
interiores do templo, situar-se-á no século
altar lateral.
Um mestre pintor desconhecido executou, nessa
6
O grande incremento dado à decoração do interior do
edifício pode ser documentado noutras igrejas da
mesma área geográfica de que nos ficaram registos7
ou às quais há alusão através das visitações da Ordem
de Cristo. Na Igreja de São Bento, na Meda, estavam
pintadas a fresco, de huum cabo e do outro as paredes
da nave com muytas imagens atee as portas travesas,
os altares laterais e o arco de cabeceira sobre o qual
estava representada a cena do Calvário. O comendador
D. Garcia de Melo teria mandado fazer de novo as
pinturas de Nossa Senhora e São Bento da parede
3. Pedra cronografada
na parede externa da sacristia
do altar-mor8. Sobre a autoria destas pinturas nada
146
XVIII .
INTERVENÇÕES
altura, uma empreitada no tecto da capela-mor.
A primeira fase previa basicamente a intervenção na
A composição estruturava-se em oito molduras-
cobertura, o restauro do tecto e do altar-mor.
-caixotões duplos de forma rectangular, em madeira
Programou-se a instalação de uma cobertura provisória
de carvalho, decoradas com talha – óvulos e dardos
que protegesse todo o edifício. Pela sua dimensão, esta
dourados a ouro brunido – e restante superfície
cobertura era constituída por uma estrutura metálica
pintada com motivos marmoreados em tons claros
revestida com chapa ondulada galvanizada com uma
ocre e verde. As molduras albergam conjuntos de dois
altura tal que permitisse a laboração dos operários e, por
painéis pintados a têmpera à base de óleo com
outro lado, a protecção de todo o recheio da igreja.
representações figurativas de santos: São Salvador/
A cobertura da igreja era revestida a telha de canudo
/São Mateus; São Matias/São Filipe; São Bartolomeu/
disposta em canal e coberta, assente num guarda-pó
/Santo André; São Tomé/São Luís, Rei de França;
de tabulado em castanho, sendo o suporte estrutural
São Simão/São Bernardo de Claraval; São Paulo/São Tiago
constituído por vigamento em castanho disposto
o Maior; São João/São Pedro; São Judas/São Tiago
transversalmente ao eixo da nave. O terço mais
o Menor . O retábulo-mor e os altares da nave são
elevado da tesoura apresenta um elemento em
obras características do barroco nacional e talvez
madeira, equivalente à linha de uma asna, mas
a arrematação da obra possa ser atribuída a Manuel
funcionando como escora. O vigamento descarregava
Machado, entalhador e imaginário, natural de Entre
nas paredes através de um frechal em madeira onde
Douro e Minho. Segundo escritura lavrada a 19 de Junho
também eram amarrados os tirantes em varão de ferro
de 1734 terá arrematado a obra na capela-mor da Igreja
antes de mergulharem no coroamento das paredes.
de Marialva da tribuna, retábulo, sacristia e Capela de
Os trabalhos iniciaram-se com a desmontagem do
São João e que assistia na Torre do Terranho, a cerca de
tecto abobadado de madeira, datável do século
quatro quilómetros de Marialva, na mesma altura .
que forrava a nave principal. Ao retirar uma parte do
12
13
XIX,
Outras intervenções, como o alongamento das pare-
tabuado verificou-se que o guarda-pó, assente no
des da nave principal para receber o coro alto ,
travejamento do tecto, era constituído por uma série
a cobertura do tecto abobadado em madeira pintada
de tábuas pintadas numa composição vegetalista de
de verde ostentando ao centro o Escudo Real donde
motivos túrgidos.
pende a Cruz da Ordem de Cristo , ou ainda as pinturas
A pintura estendia-se pela face externa do
sobre cal das paredes da capela-mor representando uma
travejamento perfazendo uma composição única.
cena de caça e lembrando uma chinoiserie, motivos
Ficava assim definitivamente documentada a existência
14
15
4. Desmontagem da cobertura
abobabada de madeira sendo
visíveis, no canto superior
esquerdo, as tábuas do guarda-pó
temáticos pouco comuns na decoração de um edifício
religioso, comprovam o novo incremento do templo no
século XIX. A abertura da porta lateral, hoje usada como
porta principal, deve ser obra deste século.
Acções de conservação e restauro do edifício
O estado de conservação da igreja apresentava sinais
preocupantes de degradação, quer nos seus elementos
de construção quer no recheio artístico.
A forte presença do recinto exterior – o adro –, cenário
belo de rudeza e simplicidade, vivido pela população
em horas de lazer, impunha cuidados especiais de
intervenção (intervenção mínima) de modo a não
perturbar aquela vivência que constituía de per si um
vector importante da preservação, salvaguardando a
autenticidade de todo o conjunto.
147
INTERVENÇÕES
de um tecto original e contemporâneo da construção
Registava-se ainda um
remontagem do tecto, o que de facto aconteceu com
pormenor de execução muito interessante. A pintura
excepção de alguns casos em que era manifestamente
ter-se-ia processado a posteriori, ou seja, após a
impossível a sua recuperação.
montagem de toda a estrutura em madeira.
Relativamente à nova cobertura foi nosso propósito
Manteve-se a estrutura mestra do telhado e procedeu-
utilizar ao mínimo, em termos estruturais, a resistência
-se, após numeração, ao apeamento de todas as tábuas
do vigamento preexistente, aliviando-o da carga das
e vigamento do guarda-pó por forma a submetê-las
telhas16 numa primeira fase e, após a descoberta do
a fixação e pré-consolidação. O seu estado de
guarda-pó policromado, aliviá-lo também do tecto
conservação era manifestamente mau. A degradação
abobadado. Pretendia-se não penalizar os barrotes
da madeira não permitia, por vezes, sequer a
originais bastante degradados, tanto mais que a carga
recuperação da tábua nem da policromia quase
iria sofrer um aumento com a introdução da subtelha.
desaparecida devido ao apodrecimento do suporte
Como solução estrutural, foi previsto um novo
base. Foram preenchidas as falhas de madeira com
vigamento por cima do original, a descarregar na alma
castanho velho, em todas as tábuas, sem reintegração
de perfil metálico em I colocado no coroamento das
da policromia por manifesta falta de leitura da
paredes, de que falaremos em seguida e que, desta
composição tal qual se nos apresentava.
forma, permite um comportamento estrutural inde-
Defende-se contudo uma posterior reintegração
pendente do tecto policromado.
cromática das lacunas feita não através da
Este lintel frechal tem uma tripla função interpe-
reconstituição dos motivos e dos temas, o que é
netrante: por um lado, fazer uma distribuição uniforme
impossível, mas através da minimização do impacte da
das cargas em cima das paredes, receber a carga do
forte mancha provocada pelas superfícies repostas,
vigamento e, por fim, recuperar a função dos tirantes
mesmo prevendo um lento escurecimento provocado
dada a facilidade em os soldar no perfil metálico.
pela oxidação natural do castanho.
Os tirantes existentes estariam chumbados na parede,
Ainda quanto ao vigamento original, e como já foi
situação essa que já não se verificava à data do início
referido, as faces visíveis mostravam a continuação dos
da obra. O comportamento natural das paredes em
motivos pintados nas tábuas. Sendo necessário
alvenaria em blocos de pedra em dois panos implica,
remover aquelas tábuas para recuperação, limpeza e
como sabemos, descontinuidades na função estrutural
fixação da camada policroma, havia todo o interesse
que desempenha originando, entre outras patolo-
em não deslocar o vigamento, suporte físico das
gias estruturais, a perda de função dos elementos
da igreja, ou seja, do século
Estampa I
Planta geral da igreja
com localização
dos frechais e tirantes
148
XVI.
pinturas, a fim de servir como referencial à posterior
INTERVENÇÕES
por forma a permitir que o comportamento estrutural
da parede mobilizasse os dois panos na zona de apoio
ao arco de cabeceira.
Estampa II
Corte parede e cobertura
eixo Norte/Sul
1. Telha
2. Subtelha (onduline)
3. Vigamento de madeira novo
4. Guarda-pó pintado
5. Vigamento de madeira existente
6. Tirante existente
7. Ligação do tirante existente
ao frechal metálico
8. Frechal metálico IPN24
9. Argamassa de preenchimento
Houve também necessidade de uma correcção idêntica
no cunhal sul-poente cujas paredes apresentavam já
grande desaprumo. De referir que a parede poente
apresentava uma tipologia construtiva idêntica à do
lado sul mas com maior espaço de preenchimento
interno entre os panos.
O arco de cabeceira apresentava um ligeiro abatimento
e uma junta bastante aberta na pedra de fecho com
contraventantes. Era pois necessário conferir maior
estabilidade aos elementos estruturais que são as
paredes evitando, com esta intervenção, futuros
desalinhamentos provocados, inevitavelmente, pelos
esforços horizontais transmitidos pela cobertura, pelo
assentamento das fundações ou mesmo por causas
meramente naturais como os sismos e os ventos.
Foi precisamente o que aconteceu à parede sul na
zona do arco de cabeceira. Era visível um desalinhamento vertical significativo acompanhado de juntas
abertas com alinhamento bem definido, visível no
paramento exterior. O pano de alvenaria foi cuidadosamente desmontado, com cuidados acrescidos de
Estampa III
Arco de cabeceira
escoramento do pano interior que ostentava as
pinturas sobre cal com cenas de caça que se pretendia
preservar, e remontado com a correcção possível dos
sinais de anteriores tentativas de refechamento. Neste
alinhamentos e reforço estrutural acrescido. Este foi
caso foi também executado um reforço estrutural
conseguido através da aplicação de varões de aço
idêntico com simultânea correcção de abatimento
colocados na face interior dos blocos de alvenaria
através de escoras reguláveis, utilizando também o
para amarração a um enchimento entre os panos,
sistema de varões de aço para, neste caso, suspensão
enchimento esse constituído agora por argamassas,
das pedras do arco.
1
Almeida, 1971, pp. 117-118. “Catálogo de todas as igrejas, comendas e mosteiros que havia nos reinos de Portugal e Algarves, pelos anos de
1320 e 1321, com a lotação de cada umas delas. Anos de 1746”.
2
Desta igreja resta apenas o campanário – hoje parte integrante da muralha oeste do castelo, à esquerda da Porta do Anjo, e uma necrópole de
sepulturas antropomórficas cavadas na rocha que limpámos aquando da intervenção arqueológica de 1995.
3
Não podemos deixar de referir que, mau grado a tendência para a concentração de fregueses na paróquia de São Pedro de Marialva, a Igreja de
Santiago mantém-se como local de prestígio, ao longo de muitos séculos, prestígio esse materializado, sem dúvida, na escolha das altas
individualidades – os alcaides e seus familiares – como local de enterramento.
4
As Visitações da Ordem de Cristo na zona da raia transmontana e beirã, efectuadas entre 1507 a 1510, documentam a existência de inúmeros
templos, alguns situados a escassos quilómetros de São Pedro de Marialva, como Nossa Senhora do Torrão de Longroiva e São Bento da Meda
(ou ainda Nossa Senhora do Pereiro, na Reigada, e Santa Maria Madalena, na Muxagata, ambos situados nos concelhos contíguos, de Figueira de
149
INTERVENÇÕES
Castelo Rodrigo e Vila Nova de Foz Côa, respectivamente, as igrejas do distrito de Bragança, Guarda e Viseu) em obras, que seguem exactamente a
mesma tipologia. Em termos gerais, compõe-se de nave única, com cobertura em madeira, arco de cabeceira e capela-mor simples, paredes de
cantaria e alvenaria rebocadas, muitas vezes pintadas a fresco, portal principal, duas portas travessas e campanário com dois sinos (vide Dias, 1979,
pp. IX a XXXII ou 3 a 53).
A comenda de São Pedro de Marialva foi criada por bula, a pedido de el-rei D. Manuel, em 1515. Durante as escavações encontrámos duas cruzes
5
de sagração na parede norte da igreja: uma da parte de fora, do lado esquerdo da porta lateral, hoje entaipada, e outra no interior da igreja. Uma
terceira cruz de sagração foi posta a descoberto quando se picou a pequena mancha de reboco existente no exterior da parede este da capela-mor.
D. Manuel deu ainda amplos privilégios a esta vila com a concessão de foral novo em 1512, sendo de realçar a venda de todos os direitos reais aos
seus moradores por 100 libras.
6
Agradecemos à D.ra Irene Frazão a consulta do relatório Pinturas Murais da Igreja de São Pedro de Marialva elaborado em 1998.
7
Caetano, 2001, p.122.
8
Dias, 1979, p. 17. A Igreja de Santa Maria Madalena da Muxagata, por exemplo, era ornada com pinturas murais do Calvário, sobre o arco triunfal
e na capela-mor, altares laterais e paredes do corpo com cenas da Paixão de Cristo.
9
Dias, 1979, pp. XV e 14.
10
Caetano, 2001, p. 122.
11
Agradecemos à Doutora Dalila Rodrigues toda a disponibilidade na análise destas composições e as sugestões daí resultantes.
12
Estes painéis foram intervencionados pelo IPPAR em 1997 numa obra executada pela Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva.
13
Correia, 1923, pp. 39 a 43. Foi também este entalhador que arrematou à Irmandade de Nossa Senhora do Desterro, em Lamego, a obra do altar
principal.
14
O portal original terá sido destruído nesta época.
15
Rodrigues, 1983, p. 112. O tecto da Igreja Matriz de Longroiva, do mesmo tipo, foi igualmente obra do século
XIX.
Ostenta a Cruz da Ordem de
Cristo inscrita em moldura circular em redor da qual se distribui uma inscrição com a data de 1856.
16
150
A telha foi igualmente toda levantada, tratada – limpa e hidrofugada – no estaleiro para mais tarde ser de novo assente.
INTERVENÇÕES
Intervenção na pintura a fresco
da Igreja de São Pedro
de Marialva
Irene Frazão
Conservadora Restauradora
Divisão de Conservação
e Restauro do IPPAR
E
m deslocação efectuada para estudar o programa
de restauro das pinturas murais da Igreja de
São Pedro de Marialva, foram detectados em vários
pontos da nave fragmentos de pintura a fresco. Após
limpeza superficial, esta pintura revelou ter bastante
qualidade. Verificando-se também que a composição
monumental da nave, pintada a seco, cobria parcialmente este fresco, foi necessário fazer uma pequena
intervenção no local com o fim de apurar a extensão
de fresco existente e as zonas de sobreposição.
As sondagens e remoção de depósitos de cal e sujidade apenas foram feitas onde não existia (ou já se
tinha perdido) a pintura a seco. Foi ainda assim possível
pôr a descoberto quase toda a superfície da pintura,
excepto no canto superior direito, em que uma
filactera e figura da composição a seco recobre os
frisos decorativos superiores do fresco.
Ao contrário do que inicialmente se tinha suposto,
pôde-se apurar que se trata apenas de um painel
isolado, com cerca de 310 cm de altura e 190 cm de
1. Aspecto geral do painel a fresco
após sondagens iniciais
largura, sendo que todos os fragmentos de fresco
dispersos noutros locais e paredes da nave pertencem indubitavelmente a esta mesma composição.
Estes elementos deslocados testemunham grandes
Examinando os bordos da pintura que permaneceram
transformações no edifício ocorridas entre a feitura
na posição original é possível também concluir que
do fresco e o da composição a seco, uma vez que
a argamassa aplicada rematava ali, não havendo
esta recobre não só parte da pintura a fresco,
qualquer sinal de corte posterior. As pedras que
como também outras pedras sem argamassa
suportam a fina camada de argamassa pintada foram
que substituíram as pedras originais do suporte.
em boa parte deslocadas, quer sofrendo rotações, quer
Contrastando com o apuro técnico do painel a fresco,
sendo transportadas para reconstrução de zonas da
a reconstrução pouco cuidadosa do suporte em que a
nave. Infelizmente, isto deixa-nos sobretudo perante
colocação de novas pedras não respeita o plano da
uma colecção de fragmentos da mesma pintura,
parede, o grosseiro preenchimento das juntas com
grande parte deles sem estarem na posição original.
barro, e a própria qualidade técnica da curiosa
Por este facto, é impossível dar-lhes alguma
composição a seco que cobre as paredes da nave,
continuidade que permita melhorar a leitura desta
fazem imaginar uma época de decadência em relação
composição.
à da pintura a fresco.
151
INTERVENÇÕES
2. Parte central – após intervenção
3. Parte inferior – após intervenção
Como já referimos, trata-se de técnica a fresco feita
sobre fina camada de argamassa, de espessura inferior
a 5 mm. Foram detectadas juntas horizontais e
verticais, acompanhando os frisos decorativos que
enquadram a cena do Martírio de São Sebastião.
Os frisos e painel inferior de decoração geométrica
são feitos com o auxílio de um molde ou estampilha;
não se conseguiu detectar sinais de transferência do
desenho nas barras superiores com grotescos (apenas
subsistem pequenos fragmentos de uma delas).
A intervenção no local, realizada em Julho de 1998 por
dois técnicos da Divisão de Conservação e Restauro,
consistiu apenas na limpeza e conservação dos
fragmentos a fresco não subjacentes à composição
a seco; foram refeitas as juntas mais irregulares
aproximando-as ao tom da pedra circundante para que
não interferissem demasiado na leitura da pintura; com
este fim também foram escurecidas com uma velatura
a aguarela as múltiplas lacunas claras resultantes da
picagem do reboco.
152
INTERVENÇÕES
Restauro do retábulo da capela-mor,
do tecto e dos retábulos
da nave da Igreja de São Pedro
de Marialva
D
Rosa Vouga
Técnica do Centro
de Conservação e Restauro
de Viseu, IPPAR
ado o avançado estado geral de deterioração do
A intervenção realizada foi no sentido de preservar
edifício e do seu património integrado, procedeu
toda a superfície dourada e policroma, através da sua
à sua recuperação total. No que diz respeito ao
limpeza e fixação; a desmontagem total com prévia
património integrado, a intervenção levada a cabo
execução de levantamento fotográfico e gráfico e
incidiu no tratamento do retábulo e tecto da capela-
marcação das peças; execução de novos elementos
-mor, retábulos laterais e tecto da nave, tecto da
estruturais, bem como da base de assentamento do
entrada e balaustrada do coro-alto.
trono da tribuna; a montagem de todo o conjunto
O retábulo da capela-mor é em talha dourada e
respeitando a ordem e colocação das peças, na sua
policromada da época barroca. Este reveste totalmente
forma original, e utilizando, para tal, parafusos de aço
a capela-mor, sendo a parte central ocupada com
inox e cavilhas de madeira tendo estes sido colocados,
funda tribuna que alberga um trono destacado, em
sempre que possível, nos orifícios anteriormente
cujo primeiro patamar se insere o sacrário.
ocupados pelos pregos, evitando, desta forma, a
Cada um dos lados tem três colunas pseudo-
abertura de novos orifícios (a utilização de parafusos
-salomónicas de fuste em espiral decorado com
de aço inoxidável é extremamente importante, não só
pássaros, parras, cachos de uva, etc., bem carac-
pelo facto de estarmos perante um material não
terísticos do estilo. Duas destas colunas são
oxidável, para além de que, mais tarde, poderá ser
interrompidas ao centro por um painel em talha com
retirado sem afectar quer o suporte, quer a superfície
mísula destinada a albergar uma escultura. Sobre as
dourada e policroma).
colunas desenvolve-se o entablamento e a partir deste
Para além destes trabalhos, con-
o arco de remate, que é constituído por três aduelas
siderados imprescindíveis para a
em espiral que partem do mesmo ponto das colunas,
preservação da peça, foram feitos
possuindo a mesma decoração destas.
outros considerados de natureza
Relativamente ao seu estado de conservação, verificou-
secundária, nomeadamente, a
-se que apresentava várias deficiências quer ao nível
colmatação de lacunas ao nível de
estrutural quer ao nível da superfície dourada e poli-
elementos decorativos, sempre que
croma. Esta última, para além de se apresentar escure-
existissem dados quanto à sua
cida devido à presença de pó e sujidade de natureza
forma. Esta operação não era de
diversa, também apresentava destacamentos e lacunas.
todo necessária, pelo menos de uma
Ao nível estrutural verificou-se a existência de desníveis,
forma tão significativa, a sua opção
quer devido ao desligamento parcial dos elementos
teve em conta o facto de a igreja
estruturais em relação aos seus pontos de apoio, quer,
estar aberta ao culto. É de salientar,
também, ao desligamento de alguns elementos
no entanto, que estes elementos
decorativos em relação aos elementos estruturais de
decorativos não foram reintegrados
1. Sacrário
suporte, situação esta originada pelo enfraquecimento
ao nível cromático, tendo sido apenas aplicada uma
IPPAR (CCR-V)
dos elementos de fixação utilizados (pregos); existência
pátina de escurecimento, para que tanto no presente
de lacunas ao nível de elementos decorativos, etc.
como no futuro se tenha a noção clara dos elementos
o
IPPAR,
153
INTERVENÇÕES
2. Tecto colocado
posteriormente sobre
o primitivo
IPPAR (CCR-V)
3. Pormenor do tecto, após
a sua montagem, onde é bem
patente o trabalho realizado
na colmatação de lacunas
e reforço do suporte
originais e dos que foram colocados posteriormente.
lacunas) e também muito desligado dos elementos
Tecto da nave, tabuamento corrido com decoração
de apoio;
IPPAR (CCR-V)
floral estilizada, e que serve também de cobertura da
Quanto à superfície cromática, esta apresentava-se
igreja, assentando sobre ele as telhas. Pelo interior,
muito manchada, devido à humidade (são visíveis
são visíveis os elementos estruturais sem qualquer
manchas e escorrências derivadas da presença
decoração pictórica. Em tempos, e talvez devido ao seu
constante, outrora, das águas pluviais).
avançado estado de deterioração, foi colocado sobre
O tratamento efectuado foi iniciado com a remoção
este um outro tecto do mesmo tipo do original, mas
do tecto colocado sobre o original e a recuperação
em arco, e monocromático quase no seu todo (apenas
deste último, tendo sido realizadas, para tal, várias
com alguns apontamentos decorativos à volta). Para
operações: como a desmontagem, tratamento de
a sua colocação fizeram-se algumas modificações
desinfestação curativo e preventivo da madeira;
nos elementos estruturais, para conseguir a forma
tratamento de consolidação do suporte; restauro do
pretendida.
suporte (colmatação de fendas, de lacunas, e seu
O tecto primitivo apresentava-se em mau estado de
reforço), limpeza, remoção de manchas, fixação da
conservação, tanto ao nível do suporte como da
superfície cromática e montagem do tecto.
A fase do restauro do suporte foi a mais morosa e
criteriosa, dado que se tornava necessário preservar, na
sua totalidade, os elementos que ainda possuíam
policromia.
Apesar do avançado estado de conservação, conseguiu-se preservar a quase totalidade dos elementos
que subsistiram até nós. Sendo assim, o resultado final
é um “rendilhado de emendas”, ficando bem patente
a dificuldade e a morosidade que tal operação acarretou. Também aqui se optou pela não reintegração cro-
4. Tecto da nave observado
do exterior, onde é bem
notório o estado de
deterioração do suporte
mática das lacunas de suporte que foram colmatadas.
Retábulos da nave, situam-se junto ao arco cruzeiro e
inserem-se na mesma época e tipologia do da capela-
IPPAR (CCR-V)
-mor. O do lado do Evangelho apresentava-se em
154
superfície cromática. No que diz respeito ao suporte
razoável estado de conservação, se se comparar com o
verificou-se que estava muito lacunado e enfraquecido
do lado oposto (lado da Epístola), que devido, quer à
(cerca de 50% da superfície estava coberta por
acção de insecto xilófago (térmitas – Reticulitermes
elementos em madeira sem qualquer cromatismo e
Lucifugus), quer à da humidade, perdeu parte dos
mesmo os que subsistiram tinham grandes zonas de
elementos decorativos bem como o douramento.
INTERVENÇÕES
5A
5. Retábulo da nave (lado da Epístola).
A e B – Pormenores onde estão bem patentes a deterioração do
suporte de alguns elementos decorativos e a falta de alguns deles
IPPAR (CCR-V)
5B
5
Os tratamentos efectuados seguiram a mesma
metodologia dos anteriormente apresentados, no
entanto, no retábulo do lado da Epístola, foram
executados alguns elementos decorativos em falta17,
segundo cópia dos do retábulo oposto, e execução de
outros que apresentavam o suporte muito enfra-
6A
quecido e cuja forma esculpida se tinha perdido na
quase totalidade.
A opção da substituição destas peças, residiu no facto
de estas serem elementos decorativos com uma forte
função estrutural (a consolidação, dada a sua função,
6C
não se mostrava eficaz, pelo que não se iriam obter
peças com a resistência necessária para a função
desempenhada: suporte e estética).
Apesar desta questão, alguns elementos decorativos
cujo estado de conservação se assemelhava ao
já referido, foram recuperados, através, não só
da consolidação do suporte mas também do
preenchimento interior das “galerias ocas” e reconstituição da sua forma esculpida, dado que a sua
função, no retábulo, não era estrutural, mas apenas
decorativa. O processo aplicado é delicado e moroso,
mas permite a recuperação de elementos originais,
factor este bastante importante e a ter em conta, em
situações análogas.
6
6B
6. Aspecto geral do retábulo da nave (lado da Epístola), após o seu tratamento.
A e B – Elementos decorativos em falta e executados segundo cópia dos do retábulo oposto
C – Elemento decorativo executado, em substituição do mesmo, que se encontrava em mau
estado de conservação
IPPAR (CCR-V)
155
INTERVENÇÕES
Conservação e restauro das pinturas
do tecto da capela-mor
da Igreja de São Pedro
de Marialva (século XVIII)
Fundação Ricardo
do Espírito Santo Silva
1. Aspecto geral da moldura
n.º 1 antes da intervenção.
2. Moldura n.º 1,
São Mateus e São Salvador
do Mundo após a intervenção
1
Identificação
156
2
Molduras
Painéis
Estrutura decorativa, correspondente ao tecto da
1
São Salvador/São Mateus
capela-mor, composta por oito molduras-caixotões
2
São Matias/São Filipe
duplas de forma rectangular de 165 cm 100 cm,
3
São Bartolomeu/Santo André
alinhados paralelamente 4-4, com uma configuração
4
São Tomé/São Luís
em área.
5
São Simão/São Bernardo
Cada moldura é constituída por dois painéis pintados a
6
São Paulo/São Tiago o Maior
têmpera à base de óleo com representações figurativas
7
São João/São Pedro
de santos, respectivamente:
8
São Judas/São Tiago o Menor
INTERVENÇÕES
3. São Pedro antes e depois
da intervenção
As molduras em madeira de carvalho são decoradas
3. Análise macroscópica da estabilidade da camada
pela frente com talha: óvulos e dardos dourados a
pictórica.
ouro brunido, não sendo a douragem uniforme.
A observação macroscópica directa das superfícies foi
A restante superfície da moldura está pintada com
acompanhada de levantamento fotográfico e gráfico
imitação de marmoreado em tons claros ocre e verde.
em escalas 1:10-1:5.
Os painéis pintados são constituídos por duas tábuas
4. Análise por testes directos para a definição do tipo
alinhadas na horizontal e fixas por parafusos e
de têmpera na decoração pictórica.
tramelas à moldura, tendo cada painel sensivelmente
5. Limpeza de todas as poeiras com trincha macia.
0,78 cm 0,65 cm.
Nas zonas com maior índice de sujidade utilizou-se
detergente neutro Bycrocx dissolvido em white spirit
Fases de intervenção
à percentagem de 10%, bastonetes com algodão,
1. Investigação iconográfica sobre as representações
pincéis macios e papel absorvente.
figurativas das pinturas.
6. Consolidação da camada pictórica junto às lacunas e
A pintura figurativa apresentava-se protegida com um
zonas de intervenção no suporte.
facing para evitar perda ou destacamento da camada
Nalguns casos existe madeira à vista.
pictórica.
Utilizou-se Beva 8 diluída em white spirit à per-
2. Remoção do facing.
centagem de 40%, aplicada com pincéis macios.
Humedecimento com água desmineralizada morna.
7. Nivelamento e preenchimento de lacunas.
Retirou-se manualmente com trinchas macias, só se
Foi utilizado Aquaplast, aplicado com espátulas
recorrendo, pontualmente, à ajuda de pinças.
pequenas. Após a sua secagem, para uniformizar
Limpeza a húmido dos resíduos da clecta e retirado
o betume foram utilizados bisturis e lixas de água
com papel absorvente.
n.º 400 e 600.
4. São Tiago o Menor
antes e após a intervenção
157
INTERVENÇÕES
O isolamento do betume foi feito com gelatina: uma
Na integração cromática das lacunas utilizou-se
folha de gelatina em 2,5 dl de água a 36/40º. Aplicada
gouaches-têmpera extra fine marca Talens.
a frio com pincéis macios.
Cores: Sépia, Série 1; Ocre 227; Amarelo 200 ; Sierra
8. Reconstituição de partes/pormenores com auxílio de
Natural 234; Verde 65, Série 2; Verde Esmeralda 616;
papel vegetal para decalque.
Carmin 318; Azul Ultramarino 506; Branco 100;
Utilização de slides.
Vermelho 311.
9. Aplicação a pincel da cor base neutra em todas as
11. Aplicação de duas demãos de isolante à base de
lacunas preenchidas com betume e isoladas com
gelatina a pincel (processo reversível).
gelatina.
12. Protecção final com verniz acrílico mate, da marca
10. Integração cromática das lacunas através da
Favrel, diluído em essência de terebentina a 20%,
utilização da técnica de tracejado/tratégio, textura com
aplicado com compressor/pistola em duas demãos.
linhas na vertical, utilizando uma tintometria mais clara
Todos os produtos aplicados nas várias fases são
comparativamente ao original.
reversíveis.
Bibliografia
ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, vol. IV, Lisboa, 1971.
CAETANO, Joaquim Inácio et al., “Igreja Matriz de Santa Marinha de Trevões, São João da Pesqueira”, Monumentos, n.º 14, 2001.
CORREIA, Vergílio, Artistas de Lamego, Coimbra, 1923.
COSTA, Manuel Gonçalves da, História do Bispado e Cidade de Lamego, vol. I, Idade Média, Lamego, 1977.
COSTA, Manuel Gonçalves da, História do Bispado e Cidade de Lamego, vol. III, Renascimento, I, Lamego, 1984.
COSTA, Manuel Gonçalves da, História do Bispado e Cidade de Lamego, vol. IV, Renascimento, II, Lamego, 1984.
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COSTA, Manuel Gonçalves da, História do Bispado e Cidade de Lamego, vol. V, Barroco, II, Lamego, 1992.
DIAS, Pedro, Visitações da Ordem de Cristo de 1507 a 1510. Aspectos artísticos, Coimbra, 1979.
RODRIGUES, Adriano Vasco, Terras da Meda. Natureza e cultura, Meda, 1983.
158
INTERVENÇÕES
O Mosteiro de São Salvador
de Grijó
Margarida Lencastre
Engenheira, Chefe de Divisão
de Obras, Conservação
e Restauro, Direcção Regional
do Porto, IPPAR
L
ocaliza-se em Vila Nova de Gaia, a escassa distância do Porto. Apesar da proximidade a grandes
centros urbanos, o Mosteiro goza de uma situação
privilegiada, mantendo a coesão física dos limites que
lhe foram conferidos aquando da edificação dos muros
da sua cerca em 1579.
O ano de 922 surge como a data provável da fundação do primitivo cenóbio, transferido em 1112 para a
actual localização que ocupa. Em 938 toma regra e
hábito de Santo Agostinho. O século
XVI
é o culminar
de um período com início no século
XII,
de aumento
progressivo da importância do Mosteiro.
Em 1574 regista-se o lançamento da primeira pedra
do corpo do dormitório e inicia-se a construção da
nova igreja, cujo projecto é da autoria de Francisco
Velasques.
A celebração da primeira missa virá a acontecer em
1626, decorridos cinquenta e quatro anos sobre a data
de início das obras.
1. Fachada da igreja
do Mosteiro de São Salvador
de Grijó
No interior do templo existe um valioso espólio, que
enriquece o ambiente religioso, dos séculos
XVII
e
XVIII.
No século XIX o Mosteiro é usado como hospital, albergando os feridos da batalha do Picoto, sendo depois
vendido em hasta pública (1835). Tal como em tantos
dar as questões de conservação mais prementes, na
outros casos, esta situação conduziu a um progressivo
qual se realizou a primeira campanha de escavações
desmembramento da propriedade monástica, ficando
arqueológicas, o levantamento rigoroso da parte edi-
pertença do Estado o conjunto da igreja e do claustro
ficada e o relatório diagnóstico do conjunto.
e a restante área na posse de um particular, situação
Na sequência dos resultados obtidos, surgiu como
que ainda hoje persiste.
necessidade primordial a execução da reconsolidação
Em 1974 propaga-se um incêndio no Mosteiro, pro-
das fundações das paredes do Mosteiro e da igreja.
vocando danos avultados.
Este reforço estrutural foi particularmente interessante,
O processo de reabilitação do imóvel foi iniciado pela
atendendo a que a metodologia a utilizar deveria
DGEMN.
desenvolve um con-
permitir ultrapassar uma condicionante relevante que
junto de intervenções com vista à reabilitação global
consistia na inacessibilidade à base das paredes inte-
do Mosteiro, planeadas em duas fases distintas.
riores da igreja, já que se encontravam revestidas com
Uma primeira fase, que já terminou, visou salvaguar-
retábulos em acentuado mau estado de conservação.
A partir de 1990 o
IPPAR
159
INTERVENÇÕES
A descrição desse trabalho é apresentada no texto
de cal, de modo a seleccionar o mais adequado ao
do Prof. Eng.º Joaquim C. Sampaio, professor catedrá-
revestimento das fachadas exteriores do conjunto. Com
autor do respectivo projecto.
esta investigação pretende-se ainda aprofundar os
O Prof. Joaquim C. Sampaio, além da docência nas
conhecimentos científicos sobre os rebocos exteriores
escolas de Engenharia Universitárias, nas áreas dos
de edifícios antigos e a compatibilidade entre o novo
betões (patologias e durabilidade), tem feito parte de
e o tradicional. Esta acção foi dirigida pelo senhor
várias comissões nacionais e internacionais relativas à
Eng.º Vasco P. Freitas, Professor Associado com Agre-
regulamentação de cimentos e betões. Com vários
gação da Faculdade de Engenharia da Universidade
trabalhos científicos nestas áreas, recebeu, em 1992,
do Porto, responsável pelo Laboratório de Física das
o prémio Manuel Rocha, concedido pelo Laboratório
Construções, membro da Subcomissão do regulamento
Nacional de Engenharia Civil. Dirigiu o Laboratório de
das condições térmicas em edifícios e da Comissão
tico jubilado da
160
FEUP ,
Ensaios de Materiais da
FEUP
de 1965 a 1994. Tem
Técnica 151 – “Térmica de Edifícios”, que enquadra
prestado colaboração ao
IPPAR
no reforço e reconstru-
a participação portuguesa no Comité Europeu de
ção de vários monumentos.
Normalização. É autor ou co-autor de mais de setenta
A segunda fase, actualmente em curso, respeita à
publicações científicas no domínio da higrotérmica e
reabilitação e valorização do monumento. Inclui o
consultor nas áreas da higrotérmica, patologia e rea-
projecto geral de reabilitação, a conservação e restauro
bilitação de edifícios.
do recheio artístico e recuperação da cerca.
O artigo que a seguir se apresenta, da autoria do
Inseridos nesta segunda fase, desenvolveram-se alguns
Prof. Vasco Freitas e do seu colaborador Eng.º Paulo
trabalhos de investigação, de que se destaca o estudo
da Silva Pinto, descreve a primeira fase da experiência
dos rebocos exteriores do Mosteiro. Ensaiaram-se dife-
realizada nas fachadas do Mosteiro, visando testar o
rentes tipos de composições para os rebocos à base
comportamento de rebocos à base de cal.
INTERVENÇÕES
O Mosteiro e a Igreja
de São Salvador de Grijó
Joaquim C. Sampaio
Engenheiro
Professor Catedrático Jubilado
da Faculdade de Engenharia
da Universidade do Porto
Intervenção de consolidação estrutural
História
No interior da Igreja há a referir o arco cruzeiro, excep-
Nos princípios do século X, portanto em época ante-
cionalmente alto, apoiado em pilares simples, havendo
rior à da fundação da nacionalidade, dois clérigos,
ainda outros arcos de vão médio nas padieiras das por-
Guterre e Ausindo Soares, fundaram em local das
tas. Outras abóbadas, atravessadas por arcos mistos,
antigas terras de Santa Maria um cenóbio de frades
aparecem na organização da cobertura.
agostinhos. D. Teresa concedeu-lhe a categoria de
O Mosteiro, hoje transformado, ocupa a parte poente
couto, que foi ampliado por D. Afonso Henriques.
do edifício, fechando o claustro; do lado norte, o claus-
Em 1093, D. Soeiro Fomarigues aumentou a Igreja e
tro é fechado pela sala do capítulo, pela sacristia e
o Mosteiro, tendo mandado também construir o claustro.
outras dependências, estas abraçadas pelas escadas de
Em 1536, os clérigos de Grijó, alegando que o local,
acesso aos pisos superiores.
conhecido pelo nome de Egrejoo, era doentio, resol-
O claustro possui duas galerias sobrepostas e é
veram transferir o Mosteiro para Quebrantões, na Serra
dividido em cada um dos quatro lados por onze tramos,
do Pilar. Como nem todos os clérigos concordaram,
limitados por pilares circulares; os cantos são fechados
o Papa Pio V, em 1566, separou os dois mosteiros dis-
por pilares encostados entre si, formando L.
tribuindo por ambos os rendimentos. Em 1574 a velha
A galeria inferior do claustro tem estrutura constituída
Igreja de Grijó, cujo projecto foi atribuído a Diogo de
por uma abóbada cilíndrica e a galeria superior, que em
Castilho, foi apeada, erguendo-se a actual. Em 1770,
1972 sofreu um incêndio, por uma laje aligeirada.
supõe-se que por influência do Marquês de Pombal,
Os pavimentos sobre a galilé, as traseiras da capela-
o Papa Clemente
XIV
extinguiu o convento.
-mor e os muros anexos da sacristia e da sala do
capítulo têm estrutura de madeira, que nalgumas das
Descrição geral do edifício
suas zonas, porém, devido ao incêndio, foram substi-
O edifício mais importante do conjunto é a Igreja,
tuídas por lajes aligeiradas de betão com elementos
com planta de forma rectangular, medindo 61 m de
pré-fabricados de pré-esforçado.
comprimento e 20 m de largura na nave e 13 m no
As coberturas são de telha cerâmica.
transepto e na capela-mor.
Como motivos arquitectónicos e monumentais mais
A nave e o transepto têm a altura da Igreja, que é de
relevantes podem apontar-se, no centro do claustro,
18 m. Na galilé e no camarim sobre o altar-mor existe
um chafariz de pedra, desenhado por Gonçalo Vaz, e
um sobrado intermédio.
o sarcófago de D. Rodrigo Sanches, filho bastardo de
As paredes do edifício são de alvenaria de granito refor-
D. Sancho I e de D. Maria Pais (a famosa Ribeirinha).
çadas por contrafortes marcados com cantaria pelo
Este sarcófago é uma obra românica do século
exterior, havendo na transição da galilé para a nave
pedra de Ançã; o infante caiu morto em local assina-
uma fiada de pilares.
lado pelo Cruzeiro Velho, existente à entrada da cerca
O alçado interior da Igreja é formado por três arcos de
fronteira à Igreja, numa peleja travada em 1245.
volta perfeita, em correspondência com as capelas late-
No interior da Igreja há a assinalar, na capela-mor,
rais, as quais se apoiam em pilares simples que supor-
azulejos do século XVIII e na sacristia tectos de madeira
tam a arquitrave e a cornija, esta saliente e recortada.
em caixotões.
XIII,
em
161
INTERVENÇÕES
Patologias
Igreja, no Mosteiro e no Claustro de São Salvador de
Todo o edifício sofria de uma degradação significativa, tanto
Grijó, vários factores.
dos materiais de revestimento como das próprias estru-
Em primeiro lugar, e conforme ficou confirmado durante
turas. Assim, podem referir-se as seguintes patologias:
a realização das obras, há a apontar o facto das cons-
• Existência de diversas fendas nas paredes exteriores da
truções terem sido feitas sobre uma zona húmida.
Igreja e dos anexos do Claustro, a toda a altura, nalguns
A presença, de humidade em vários pavimentos, sobre-
casos muito abertas, com alguns milímetros de espessura;
tudo na Sacristia e parte da Igreja, a alteração dos
• Desaprumo da parede poente do corpo do Claustro
materiais, vêm assim explicadas. Verificou-se ser a gale-
com cerca de 7 cm;
ria em alvenaria abobadada de tijolo, galeria que se
• Juntas de cantaria com abertura e deslizamento das
encontrava cheia de entulho, impedindo o escoamento
pedras dos arcos e das paredes nas zonas confinantes
da água e a ventilação.
com as juntas;
Outro facto que muito terá contribuído para o mau
• Separação das juntas sob as soleiras e das contíguas
estado dos pavimentos da Sacristia, Galilé e Claustro é
às ombreiras das portas e das janelas;
a existência de sepulturas interiores, com alteração dos
• Abertura das juntas de cantaria das forras da capela-
volumes dos corpos e materiais de enchimento devida
-mor (alguns testemunhos aí colocados, com a data
à decomposição e pouca compactação conferida aos
de 1962, encontram-se partidos);
enchimentos. É um fenómeno que ainda não se encon-
• Enchimentos dos tímpanos dos arcos sobre as padiei-
tra estabilizado, como se verificou com o desalinha-
ras partidos ou desaparecidos;
mento e reassentamento das tampas das sepulturas
• Fracturas e supressão de pilares das galerias do
ocorridos entre o início e o fim das obras agora feitas.
Claustro e do frontão da Igreja;
Um outro facto, este sobretudo, é a consequência do
• Desagregação do granito das colunas do Claustro
movimento das fundações das paredes, estabelecidas
com redução de secção muito importante numa delas;
sobre solos com insuficiente capacidade de suporte e
• Pedras dos pavimentos com a superfície completa-
grande deformabilidade.
mente húmidas, nalgumas zonas da Igreja e da Sacristia;
A má qualidade dos solos foi confirmada pela realiza-
• Placas de revestimento fendidas no pavimento do
ção nos trabalhos de prospecção feitos logo antes do
coro alto sobre a galilé;
início das obras.
• Rebocos fissurados e caídos, com alteração de cor,
A prospecção consistiu na abertura de sete poços, com
em paredes exteriores;
profundidades entre 1,30 m 2,10 m, e quatro sonda-
• Fractura, desalinhamento e desaprumo das pedras
gens de penetração dinâmica com comprimentos variá-
da cornija;
veis entre 3,50 m e 9,10 m. Foram realizados, durante
PDL,
• Lajetas de cantaria dos pavimentos da Igreja, da
a furação, ensaios de penetração dinâmica ligeira
Sacristia e do Claustro, que serviam de tampas de
em quatro dos ensaios inicialmente previstos, para a
túmulos, desniveladas uma com as outras e relativa-
área do Claustro, por dificuldades de acesso do equi-
mente aos muros que lhes serviam de apoio.
pamento necessário para a realização dos ensaios previstos inicialmente.
Conforme já foi referido, em época relativamente
Durante a furação realizaram-se ensaios de penetra-
recente, um incêndio produziu alguns danos nas cober-
ção dinâmica SPT, a intervalos de 1,50 m e sempre que
turas do Mosteiro e do Claustro. A Direcção Geral
se verificaram mudanças significativas das característi-
dos Edifícios e Monumentos Nacionais procedeu, em
cas do terreno. O comprimento das sondagens variou
1980, a obras pontuais de reconstrução e reabilitação.
entre 4,80 m e 9,40 m, tendo sido de vinte e oito o
número de ensaios
162
SPT.
Causas das patologias
Foi medida a profundidade do nível de água freática,
Resumindo, podem apresentar-se como contribuições
que variou entre 3,10 m e 5,00 m. Em três das son-
mais prováveis para as avarias que se observam na
dagens foram efectuados ensaios de permeabilidade
INTERVENÇÕES
Lefranc, tendo sido determinados, para coeficiente de
dades variáveis entre 5 e 9 m, travados por lintéis.
permeabilidade horizontal, valores compreendidos entre
A transmissão das cargas vindas das paredes seria feita,
3,93 10 e 1,54 10 . Na vertical, o coeficiente de
por exemplo, com o emprego de perfis de aço, intro-
permeabilidade foi suposto ser menor.
duzidos previamente à execução dos lintéis, em aber-
Concluiu-se assim que o terreno, na sua generalidade,
turas feitas nas alvenarias que seriam seladas com calda
se podia considerar ligeiramente permeável (permea-
de cimento ou resinas epoxy.
bilidade elevada nas camadas superiores, mas que se
A execução de poços é uma técnica tradicional, que
reduzia com a profundidade para valores correspon-
embora esquematicamente simples não deixa de apre-
dentes a média e baixa permeabilidade.
sentar algumas dificuldades de execução. Para que haja
-7
-7
espaço suficiente para a movimentação dos operários
A partir das amostras recolhidas na furação e dos resul-
e dos equipamentos, quando da execução, as dimen-
foi possível identificar as seguin-
sões dos poços deveriam ter a dimensão de cerca de
tados do ensaio
SPT
tes camadas e formações geológicas:
2 m 2 m. Face aos valores das cargas transmitidas
• camada superficial de terreno vegetal areno-siltoso
pelas paredes, tornar-se-ia necessário abrir um número
e aterros heterogéneos, por vezes com pedras, com
relativamente elevado de poços, de um e de outro lado
espessura ente 0,80 m e 2,30 m;
das paredes. Com o terreno firme a profundidades
• camadas de solos residuais xistosos de espessura e
entre 5 e 9 m, poderiam levantar-se algumas dificul-
compacidade variável, aumentando com a profundidade.
dades do ponto de vista da estabilidade, quer em rela-
A partir dos resultados de prospecção foi possível dese-
ção às paredes, de altura relativamente elevada, que
nhar cortes geológico-geotécnicos. Até uma profundi-
durante a execução ficariam parcialmente descalças,
dade de 2,50 m a 7 m o terreno apresenta característi-
podendo exigir escoramentos, quer quanto aos pró-
inferiores a
prios poços para a execução dos quais poderia ser
cinquenta pancadas; porém, as características melhoram
exigida entivação. Feito o poço, a transmissão das
consideravelmente a partir destas profundidades, com
cargas desde a parede poderia fazer-se com enchi-
sempre superiores a cinquenta pancadas.
mento de betão simples ou muito pouco armado
As fundações existentes, constituídas na generalidade
colocado em todo o poço, o que exigiria o emprego
por alvenaria de granito, com pedras de dimensão
de volumes razoáveis de betão e contribuiria, pelo
média de 30 a 40 cm de comprimento, assentam
seu próprio peso, para o agravamento das pressões
directamente no terreno, havendo zonas em que a
aplicadas na base do poço. Por outro lado, estando o
alvenaria está assente em blocos de cobertura de sepul-
nível freático a profundidades entre os 3 e os 5 m,
turas anteriores à construção do edifício.
os trabalhos de abertura e execução dos poços seriam
A capacidade de carga ao nível das fundações foi
feitos na presença da água, o que eventualmente exi-
estimada em 0,3 a 0,4 MPa, segundo o alinhamento
giria a sua retirada por bombagem. Com a escavação
central, 0,2 a 0,3 MPa e 0,4 a 0,5 MPa segundo os
dos poços também se originaria uma descompressão
alinhamentos exteriores.
dos solos, o que poderia ter consequências gravosas
Quanto à deformabilidade, ela será elevada no
sobre as paredes, possibilitando o aparecimento de
alinhamento central e menor nas faixas contíguas.
novas fendas em paredes que já se encontram forte-
Isto indica que a fendilhação das paredes terá sido
mente fendilhadas.
cas menos favoráveis, com valores do
valores do
SPT
SPT
devida à elevada deformabilidade das camadas de terreno, tornando-se necessário reforçá-las para as esta-
Obras de reconsolidação realizadas
belecer a maior profundidade.
Eliminadas, pelas razões expostas, as possibilidades de
A alta permeabilidade da camada de cobertura
se proceder à execução de injecções do terreno ou de
desaconselhava a execução de injecções no terreno.
poços de betão simples, foi decidido adoptar uma outra
Poderia pensar-se no recurso à execução de poços de
solução, que consistiu no reforço com o emprego de
betão simples descidos até ao firme, com profundi-
micro-estacas.
163
INTERVENÇÕES
1. Reconsolidação
das fundações das paredes.
Implantação das micro-estacas
164
Os inconvenientes apontados na solução dos poços
As estacas foram solidarizadas superiormente por
são evitados.
lintéis de betão armado, com aço e betão das classes
Em conclusão, por todas as razões, foi prevista para o
A400 e C25/30. Os linteis recebem largura igual à da
reforço das fundações a execução de micro-estacas,
primeira fiada das fundações (0,60 cm) contra as quais
com o diâmetro de 15 cm, construídas ao longo das
foram betonadas depois das limpeza e escarificação
paredes, de ambos os lados, com espaçamentos em
das superfícies laterais da fiada.
conformidade com as cargas mobilizadas. As micro-
A transmissão das cargas das paredes aos lintéis foi
-estacas penetrarão 9 m no terreno considerado firme,
obtida pela rugosidade da superfície destas e ainda
sendo o tubo metálico provido de válvulas anti-retorno
pelo atirantamento dos lintéis entre si, feito por varões
para a realização do respectivo bolbo de selagem. Na
de aço A500 introduzidos em furos feitos na alvenaria.
selagem, recomendou-se o emprego de uma pasta de
Após a cravação foi feito um ensaio de carga sobre
resistência mínima de 30 MPa, com razão água-ligante
uma das micro-estacas, considerando a reacção das
não superior a 0,50, com adjuvante plastificante e não
micro-estacas adjacentes. A penetração medida para
retráctil.
as 60 t de carga foi de apenas 1,2 mm.
INTERVENÇÕES
2. e 3. Execução de trabalhos
de consolidação estrutural
Notas complementares
A duração total das obras foi de cerca de dez meses
(desde 5 de Janeiro até fins de Outubro de 1999),
tendo o reforço das fundações sido executado desde
11 de Janeiro até 3 de Setembro. O período inicialmente previsto para as obras foi ampliado em relação
ao previsto, em virtude de ter sido necessário interromper os trabalhos para garantir a manutenção dos
serviços religiosos na Igreja; devido ao aparecimento
de vestígios arqueológicos que se tornava necessário
pesquisar, ao aparecimento de restos de fundações da
Igreja primitiva, ao escoramento, por exemplo, das
galerias da parte inferior do Mosteiro e à realização
das drenagens e instalação da rede eléctrica. Há ainda
a referir os arranjos dos retábulos, em que houve a
intervenção de pessoal com experiência vindo do
Mosteiro de Tibães.
A realização dos trabalhos decorreu praticamente sem
acidentes, à parte o deslizamento de algumas das paredes e o desmoronamento das terras de uma das valas
abertas para a execução das novas fundações.
Referências bibliográficas
Sant’Anna Dionísio, Guia de Portugal.
Opca – Projecto de Reconsolidação das Fundações e Drenagem de Águas Periféricas (Obra de Reconsolidação das Paredes do Mosteiro e Igreja
de São Salvador de Grijó).
Relatórios técnicos da Fiscalização (Obra de Reconsolidação das Paredes do Mosteiro e Igreja de São Salvador de Grijó).
165
INTERVENÇÕES
Rebocos à base de cal
em edifícios antigos
Vasco P. Freitas*
Paulo da Silva Pinto**
Uma experiência no Mosteiro
de São Salvador de Grijó
*
Engenheiro, Professor Associado
com Agregação da Faculdade
de Engenharia da Universidade
do Porto, responsável pelo
Laboratório de Física
das Construções
**
Engenheiro, colaborador
do Laboratório de Física
das Construções/Faculdade de
Engenharia da Universidade do Porto
1. Introdução
as variações dimensionais face às solicitações de carác-
A crescente preocupação com a conservação do patri-
ter higrotérmico;
mónio, nomeadamente dos edifícios históricos, tem
• A permeabilidade ao vapor destas argamassas deverá
suscitado alguma reflexão sobre os princípios que deve-
ser mais elevada, por forma a facilitar a secagem do
rão orientar tais intervenções.
suporte e a difusão de vapor;
Questões relacionadas com a autenticidade dos edifí-
• O maior risco de humidificação dos suportes antigos
cios, na qual se inclui a autenticidade dos materiais e
aumenta a importância do teor de sais solúveis exis-
processos construtivos, e com a compatibilidade entre
tentes nas argamassas, que poderão contribuir para a
novos e antigos componentes levam a que, de um
deterioração dos diferentes materiais;
modo geral, seja recomendável o recurso a tecnolo-
• Para os edifícios antigos é necessário atender a
gias tradicionais.
exigências de aspecto, nomeadamente em termos
Contudo, o conhecimento destas tecnologias tem
de acabamentos, e de autenticidade face à sua
diminuído consideravelmente, não só pelo forte desen-
história;
volvimento de novos materiais, mais adaptados às
• No caso específico da conservação do património
necessidades actuais da indústria da construção, mas
histórico, é necessário que os materiais utilizados tenham
também pela falta de formação que os diferentes inter-
um carácter reversível, isto é, deverão ser susceptíveis
venientes no processo construtivo têm relativamente
de serem removidos sem causarem danos aos com-
às soluções tradicionais.
ponentes originais. Além disso, as exigências de
Um dos exemplos deste panorama diz respeito aos rebo-
durabilidade que lhe são impostas são superiores às
cos exteriores de edifícios antigos. Nesse sentido, foi rea-
dos edifícios correntes, face à sua maior “esperança
lizada uma experiência no Mosteiro de São Salvador
de vida”.
de Grijó, com o objectivo de testar o comportamento
de rebocos à base de cal. Embora se trate de uma
experiência ainda incompleta entendemos que seria
2.2. Argamassas de cal aérea versus argamassas
interessante a divulgação do trabalho já realizado.
de cimento
As argamassas à base de cal aérea não colocam grandes problemas de compatibilidade com os suportes
166
2. Revestimentos de paredes
de edifícios antigos
antigos (alvenarias de pedra), na medida em que são
2.1. Principais exigências
Contudo, apresentam alguns problemas difíceis de con-
As paredes dos edifícios antigos apresentam determi-
tornar, como por exemplo o tempo de presa muito
nadas especificidades que é necessário ter em conta
elevado e dependente das condições ambientes.
na escolha dos seus revestimentos, quando compara-
Actualmente os aplicadores não estão sensíveis a este
dos com os dos edifícios correntes, nomeadamente:
tipo de problemas.
• O módulo de elasticidade dos revestimentos de
As argamassas à base de cimento, além de serem
edifícios antigos deverá ser mais baixo, assim como
mais fáceis de aplicar, apresentam tempos de presa
semelhantes às soluções inicialmente utilizadas.
INTERVENÇÕES
reduzidos e pouco dependentes das condições ambi-
Além disso, a ligação entre estas pinturas e os rebo-
entes, qualidades que contribuíram para o gradual
cos à base de cal garante uma maior consolidação do
abandono das argamassas à base de cal. No entanto,
conjunto, permitindo uma maior protecção do suporte.
apresentam alguns inconvenientes quando aplicadas
em paredes de alvenaria antigas, tais como:
nais face às solicitações de carácter higrotérmico são
3. A experiência no Mosteiro de São Salvador
de Grijó
elevados;
3.1. Objecto
• As quantidades de sais solúveis libertados são supe-
Tendo em atenção os pressupostos anteriormente referi-
riores às das argamassas tradicionais;
dos, é de grande importância o desenvolvimento de estu-
• A sua baixa porosidade e permeabilidade ao vapor
dos que permitam elaborar um conjunto de recomen-
de água dificultam a secagem e transferência de humi-
dações para a execução de revestimentos à base de
dade para o exterior dos edifícios;
cal nos trabalhos de conservação de edifícios históricos.
• Constituem “soluções irreversíveis” e de aspecto
Nesse sentido, está em curso um trabalho de inves-
significativamente distinto das soluções tradicionais,
tigação no Mosteiro de São Salvador de Grijó (ver
factores particularmente importantes na conservação
Fig. 1), no qual se estão a testar algumas composições
do património histórico edificado.
de argamassas e pinturas à base de cal, para o reves-
• O módulo de elasticidade e as variações dimensio-
timento das paredes exteriores.
2.3. Coloração dos acabamentos
A coloração dos rebocos pode conseguir-se através da
aplicação de uma pintura ou pela coloração das próprias argamassas de revestimento, recorrendo-se, para
tal, à utilização de pigmentos ou de agregados especiais. A coloração das argamassas permite evitar as
operações de pintura, mas exige maiores cuidados de
aplicação, por forma a garantir-se uma homogeneidade de aspecto.
Os pigmentos são substâncias coloridas e insolúveis no
meio em que são utilizados, conferindo-lhe assim uma
determinada coloração.
Com este estudo pretende-se avaliar o comportamento
Podem ser adicionados às pinturas ou às próprias arga-
de várias composições de argamassas à base de cal,
massas, devendo garantir um revestimento estável, sem
assim como diferentes soluções de acabamento, nomea-
que as cores sofram alterações ao longo do tempo
damente a pintura à base de cal e a coloração das
(por exemplo por reacção química com outros com-
próprias argamassas.
ponentes).
Para além de ensaios sobre amostras de argamassa pre-
1. Aspecto da fachada principal
do Mosteiro de São Salvador
de Grijó
paradas em laboratório, pretende-se também o estudo
das argamassas aplicadas in situ em pequenas superfí2.4. Pinturas à base de cal
cies de fachada (ver Fig. 2), com diferentes orientações,
As pinturas tradicionais à base de cal revelam-se como
por forma a avaliar-se a influência da exposição.
as mais apropriadas para aplicação sobre rebocos à
base de cal em edifícios antigos, não só por questões
estéticas, como textura, brilho e homogeneidade, como
3.2. Composições em análise
também pela sua “elevada” permeabilidade ao vapor
Os rebocos tradicionais deverão ser realizados em múl-
de água.
tiplas camadas de pequena espessura, devendo o teor
167
INTERVENÇÕES
tendam utilizar na camada de base (emboço) dos respectivos rebocos;
• Chapisco, Créspido ou Salpico – Camada que garante
a aderência do reboco ao suporte. A argamassa deve
ser bastante fluida e rica em ligante, deixando-se a
sua superfície rugosa, para garantir a aderência das
camadas seguintes;
• Camada de Base ou Emboço – Camada que garante
as principais funções do revestimento, nomeadamente
a sua impermeabilização, planimetria, etc. Se necessário, pode ser executado em diferentes camadas,
respeitando também a regra da diminuição do teor em
ligante;
• Camada de Acabamento ou Reboco – Camada que
2. Aspecto de uma das áreas
em estudo – fachada principal
tem, sobretudo, funções estéticas.
em ligante diminuir progressivamente (do suporte para
A composição das argamassas estudadas tem como
o acabamento). Cada uma destas camadas terá uma
base a utilização de cal aérea como principal ligante.
função específica no conjunto do revestimento, com
No Quadro 1 encontram-se os traços volumétricos das
a seguinte designação:
argamassas em análise.
• Encasque – Executado sempre que seja necessário
A escolha das três primeiras composições teve como
regularizar o suporte, consiste na aplicação de frag-
base as recomendações da “École d’Avignon”. Existe
mentos de pedra ou tijolo nos vazios existentes nas
ainda uma quarta composição em estudo, idêntica à
alvenarias, com vista a proporcionar enchimentos está-
composição 1, mas com uma pequena percentagem
veis. Deve ser executado por camadas de pequena
de cimento e “areia fina”, com vista a avaliar a sua
espessura, com argamassas idênticas às que se pre-
influência neste tipo de trabalhos.
Quadro 1 – Traços volumétricos das argamassas em estudo
Ref.ª
1
2
3
4
Cal aérea
Cal hidráulica
Cimento
Chapisco
5
2
–
–
10
Base
5
–
–
–
10
Acabamento
4
–
–
–
10
Chapisco
5
2
–
–
10
Base
3
2
–
–
10
Acabamento
3
1
–
–
10
Chapisco
5
–
–
–
10
Base
3
2
–
–
10
Acabamento
4
–
–
–
10
CAMADA
Areia fina
Meia-areia
Chapisco
4
–
0,25
2
8
Base
4
–
0,25
2
8
Acabamento
4
–
0,25
10
–
Para todas as composições estudadas acrescentou-se cerca de 15 a 20% ao volume de areias, por forma a corrigir
o efeito de “inchamento” das areias com a humidade.
168
INTERVENÇÕES
3.3. Ensaios de caracterização pretendidos
A avaliação experimental deste tipo de argamassas
apresenta algumas dificuldades, uma vez que a generalidade dos métodos de ensaio foram desenvolvidos
para argamassas à base de ligantes hidráulicos, o que
se deverá ter em conta na interpretação dos resultados.
As características que, numa primeira fase, se pretendiam avaliar eram as seguintes:
3. Preparação do suporte
Características dos materiais
• Granulometria das areias;
• Composição química e mineral das areias;
• Existência de sais solúveis;
na metade inferior se acrescentou sabão alcalino de
• Massa volúmica aparente.
sódio e potássio a essa água, com o objectivo de
reduzir a capilaridade e permeabilidade líquida das
Características das argamassas
argamassas. Este tipo de sabão reage com a cal, dando
• Trabalhabilidade;
origem a sabões cálcicos que conferem propriedades
• Variação dimensional (com a formação de presa
hidrófugas aos revestimentos.
e sob acções térmicas);
Nas composições cuja camada de acabamento é exclu-
• Porosidade;
sivamente à base de cal (referências 1 e 3), foi apli-
• Porometria;
cada uma pintura à base de cal, em duas demãos, na
• Massa volúmica aparente;
zona central de cada painel, de modo a abranger as
• Módulo de elasticidade;
composições com e sem sabão. A primeira demão de
• Absorção/Capilaridade;
pintura foi realizada com um leite de cal ao traço volu-
• Permeabilidade ao vapor de água;
métrico de 1 de cal para 2 de água, enquanto que na
• Permeabilidade à água;
segunda demão a cal foi mais diluída, ao traço 1:3.
• Aderência ao suporte – Arrancamento por tracção.
Para a composição 1 foi ainda realizado um painel com
1 1 m2, no qual se utilizaram pigmentos ou inertes
É possível que no decurso dos trabalhos seja neces-
especiais na camada de acabamento para permitir a
sário introduzir algumas alterações a este plano
coloração na massa.
de estudos, tendo em atenção as dificuldades que
possam surgir.
3.5. Materiais utilizados
3.5.1. Ligantes
3.4. Amostras realizadas in situ
Os ligantes que foram utilizados são todos de produ-
Cada uma das composições em estudo foi aplicada em
ção nacional, tendo-se solicitado aos fabricantes as
três fachadas do Mosteiro, voltadas a Norte, a Sul e a
respectivas características.
Poente, em painéis com 2,5 m por 2,0 m de altura
(ver Fig. 2). Em cada um dos painéis, numa faixa com
3.5.2. Inertes
cerca de 0,5 m de largura, foi aplicada uma folha de
Nas amostras de reboco realizadas in situ utilizaram-
alumínio sobre o suporte (ver Fig. 3), para evitar a total
-se dois tipos de areia, uma “areia fina” proveniente
aderência do reboco, com o objectivo de se retirarem
de São Jacinto e uma “meia-areia” proveniente de
algumas amostras do reboco aplicado in situ para
Entre-os-Rios.
realização de ensaios laboratoriais.
Uma análise laboratorial, realizada pelo Instituto Pedro
A água de amassadura utilizada na metade superior
Nunes, permitiu a recolha dos dados apresentados no
dos painéis foi água da rede pública, enquanto que
Quadro 2.
169
INTERVENÇÕES
Quadro 2 – Resultados da análise laboratorial das areias, efectuada no Instituto Pedro Nunes
Areia fina
PARÂMETRO
Análise porosimétrica
Meia-areia
Diâmetro médio do poro (mm)
88
Densidade Bulk (g/ml)
1,91
2,39
Densidade aparente (g/ml)
2,61
2,62
Porosidade
27%
9%
Identificação de minerais
61
Quartzo
Quartzo
Moscovite
Moscovite
Biotite
Biotite
Magnetite
Berilo
Búzios
Ferro
Conchas
–
Rocha
–
Ferro
–
Foi ainda utilizada uma areia colorida para a realização de um dos painéis com coloração na massa, misturada com “areia
fina” à razão de 1:3.
3.5.3. Água
Este ensaio consiste na colagem de uma pastilha
A água utilizada na amassadura das argamassas foi
metálica sobre o revestimento e no seu posterior arran-
água da rede pública local, que foi deixada a repou-
camento através de um dinamómetro, que fornece os
sar em reservatórios durante um período não inferior
valores da força de arrancamento por tracção.
a vinte e quatro horas antes da sua utilização.
As pastilhas metálicas cilíndricas dispõem, numa das
Nas composições com sabão alcalino de sódio e potás-
suas faces, de uma rosca perfeitamente centrada para
sio procedeu-se à sua dissolução na água de amassa-
fixar o dinamómetro com um parafuso de cabeça esfé-
dura, na proporção de 40 g/l.
rica. A outra face, lisa, deve ser colada ao revestimento
a ensaiar com colas de alta resistência, à base de resi-
3.5.4. Pigmentos
nas epoxy.
Os pigmentos que se utilizaram para permitir a colo-
Em torno das pastilhas metálicas é necessário furar
ração na massa foram um óxido de ferro amarelo
previamente o revestimento, com uma broca especial
e um ocre proveniente de França – referência
de coroa, com diâmetro interior igual ao diâmetro das
“Ocre Jaune pigment naturel/Couleur Locale 84220
pastilhas, para que o esforço de tracção se exerça
Roussillon-en-Provence”.
apenas na área da pastilha metálica (ver Fig. 4). A cola
Em ambos os casos a quantidade utilizada corres-
utilizada na colagem das pastilhas deverá ser de alta
pondeu a 2% do peso do ligante incorporado na
resistência e o arrancamento apenas deverá ser reali-
argamassa.
zado após a conveniente secagem da cola.
4. Estudos experimentais em curso
4.1. Ensaios de arrancamento por tracção
O objectivo dos ensaios de arrancamento por tracção
de revestimentos é determinar a força necessária para
4. Princípio de realização
dos ensaios de arrancamento por
tracção (Dicobat – Dictionnaire
géneral du bâtiment)
170
provocar o arrancamento, por tracção, de uma determinada área do revestimento, sendo depois calculada
a respectiva tensão de rotura.
INTERVENÇÕES
4.2. Ensaios de absorção/capilaridade
4.4. Ensaios de permeabilidade ao vapor de água
O ensaio de absorção/capilaridade consiste em colo-
Para se conhecerem as características de permeabili-
car os provetes do revestimento com uma das suas
dade ao vapor dos revestimentos, incluindo eventuais
faces em contacto com uma lâmina de água (ver
acabamentos (como por exemplo pinturas), deverá
Fig. 5), medindo as variações de peso em função do
proceder-se à realização de ensaios que consistem na
tempo, devidas à ascenção capilar.
colocação de provetes do revestimento num ambiente
estável e controlado, com valores de Humidade Relativa
distintos de cada um dos lados dos provetes (ver
Fig. 7). Deste modo instala-se um fluxo de difusão de
vapor através dos provetes (que se pode avaliar através da variação de peso ao longo do tempo das tinas
de ensaio), a partir do qual se podem determinar as
suas características de permeabilidade ao vapor de
água.
5. Esquema de princípio
de realização de ensaios
de absorção/capilaridade
4.3. Ensaios de permeabilidade líquida
O ensaio de permeabilidade líquida de um elemento
tem como objectivo determinar a quantidade de água
7. Esquema de princípio
de realização de ensaios
de permeabilidade ao vapor
de água de materiais
de construção
que atravessa uma determinada área desse elemento
em função do tempo, sob acção de uma pressão
constante.
O ensaio pode ser realizado in situ ou em laboratório
(ver Fig. 6), e consiste em colocar a superfície do revestimento em contacto com uma coluna de água com
5. Comentários preliminares
altura constante, medindo a quantidade de água que
As amostras de revestimento realizadas no Mosteiro
se fornece ao equipamento ao longo do tempo, para
de São Salvador de Grijó foram concluídas no final de
manter a pressão constante.
Novembro de 2000, sendo desde já possível apresentar alguns comentários preliminares ao seu comportamento.
O primeiro destes comentários prende-se com a utilização
de sabão na água de amassadura das argamassas, com
vista a diminuir a sua capilaridade e permeabilidade
líquida. Foram realizados alguns ensaios de capilaridade,
sobre amostras de reboco aplicado sobre prismas de
tijolo, parte dos quais incluíam sabão. Nesses ensaios,
as amostras de reboco com sabão apresentaram valores
do coeficiente de absorção de água [A – kg/(m2.h1/2)]
cerca de setenta vezes inferiores aos das amostras de
6. Princípio de realização
dos ensaios de permeabilidade
líquida – à esquerda ensaios
in situ e à direita ensaios
em laboratório
reboco sem sabão.
Na realização das amostras in situ também se
registaram algumas diferenças na aplicação das
171
INTERVENÇÕES
8. Diferença de textura
de uma das zonas revestidas.
Na metade inferior as
argamassas foram amassadas
com água com sabão
argamassas com diferentes tipos de água de amassa-
6. Conclusões
dura, nomeadamente:
O estudo que está em curso no Mosteiro de São
• Na aplicação da camada de acabamento das com-
Salvador de Grijó encontra-se numa fase intermé-
posições 2 e 3 (ver Quadro 1) em que se utilizou sabão,
dia, que não permite ainda tirar conclusões signifi-
só foi possível proceder à regularização da superfície
cativas. Contudo, podemos desde já afirmar o
no dia seguinte ao da aplicação, pois a aderência das
seguinte:
argamassas frescas não foi suficiente;
• É difícil encontrar mão-de-obra especializada para
• As superfícies de revestimento em que se incorporou
executar este tipo de trabalhos, o que poderá ter
sabão nas argamassas, apresentam-se com uma textura
condicionado o comportamento das amostras rea-
mais homogénea, influenciando também a coloração
lizadas;
• Os resultados experimentais obtidos revelam que a
dessas superfícies (ver Fig. 8).
utilização de sabão pode melhorar a capacidade de
Alguns ensaios de arrancamento já reali-
impermeabilização das argamassas;
zados no final de Maio/princípio de Junho
• O comportamento mecânico dos rebocos estudados
de 2001 nas fachadas norte e poente do
constitui motivo de preocupação;
Mosteiro revelaram valores da tensão
• A percentagem de pigmentos utilizados na colora-
de arrancamento por tracção da ordem
ção de argamassas revelou-se insuficiente;
de 0,05 MPa, o que suscita alguma preo-
• O sabão influencia fortemente o aspecto final dos
cupação.
rebocos e até das pinturas, com excepção das pintu-
Para além deste facto, observou-se tam-
ras brancas com leite de cal.
bém alguma falta de aderência da camada
de acabamento à camada de base, em
7. Agradecimentos
particular nos revestimentos com refe-
Os autores agradecem a colaboração da Eng.ª Margarida
rência 3. Refira-se que durante a execução,
Lencastre, do Eng.º José Manuel Sousa, do Eng.º Nuno
a rugosidade da superfície da camada de
Ferreira, do Eng.º Nuno Machado e do Eng.º Nuno
base foi aumentada, através da realiza-
Rafael na informação fornecida, indispensável para a
ção de sulcos (ver Fig. 9).
elaboração do presente trabalho.
9. Exemplo dos sulcos realizados
na camada de base
dos revestimentos
Bibliografia
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Symposium – “Spanning the Centuries”, Fredericton, University of New Brunswick, Canada, 4, 5 e 6 de Junho de 2001.
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SEDIMA,
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1993.
CSTB,
Enduits aux Mortiers de Ciments, de Chaux et de Mélange Plâtre et Chaux Aérienne, Document Technique Unifié – DTU 26.1. Cahier 2413
CSTB
des Enduits Monocouches d’Imperméabilisation. Modalités d’Essais, Cahier 2669-4 du
du Centre Scientifique et Technique du Bâtiment, Livraison 309, Paris,
CSTB,
CSTB ,
Livraison 341. Paris,
1990.
École d’Avignon, Techniques et Pratique de la Chaux, 3.ª tiragem, 1997, Paris, Éditions Eyrolles, 1995.
GOMES, Abdias Magalhães, Caracterização de Argamassas Tradicionais Utilizadas nos Revestimentos Exteriores de Edifícios, Versão provisório da
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HENRIQUES, Fernando M. A., “A Conservação do Património Histórico Edificado”, Ingenium, Revista da Ordem dos Engenheiros, Fevereiro de 1991,
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HENRIQUES, Fernando M. A., Caracterização de Revestimentos de Paredes para Edifícios Antigos – Plano de Investigação, Relatório 69/91 – NCCt.
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VEIGA, M.ª do Rosário da Silva, Comportamento de Argamassas de Revestimento de Paredes. Contribuição Para o Estudo da sua Resistência à
Fendilhação, Dissertação para a obtenção do grau Doutor em Engenharia Civil, Lisboa,
172
LNEC/FEUP,
1997.
INTERVENÇÕES
Projecto para uma Casa de Chá
no Castelo
de Montemor-o-Velho
João Mendes Ribeiro
Arquitecto
1. Inserção da Casa de Chá
nas ruínas do Paço
João M. Ribeiro
1. Carácter do espaço
A implantação de uma Casa de Chá no espaço envol-
2. Vista geral
João M. Ribeiro
vente da ruína do Paço da Alcáçova, no Castelo de
Montemor-o-Velho deveria, em primeiro lugar, recorrer à interpretação do monumento, para que, através
da utilização contemporânea, se possa clarificar a sua
leitura histórica.
No entanto, dada a inexistência, até ao momento presente, de um estudo arqueológico que forneça com
rigor os dados relativos à análise da ruína, cingir-nos-emos ao que ainda lá é bem legível, física e
documentalmente.
Tentamos, assim, enfrentar uma leitura coerente da
ruína, salvaguardando-a quer de excessos afirmativos,
quer de fantasiosas especulações.
173
INTERVENÇÕES
Planta de localização
2. Opções de implantação
As opções de implantação revelam, por um lado, a
intenção de sublinhar os perímetros noroeste, nordeste
e sudeste da ruína, abrindo a sudoeste uma frente de
esplanada.
Por outro lado, pretende-se sugerir a antiga entrada
principal do Castelo, assumindo um percurso de ligação ao Paço, adoçado à cortina de muralha sudeste.
Sabe-se que, ao entrarmos no Castelo pela Porta da
Peste, hoje assumida como entrada principal, estamos
a entrar numa simples porta de barbacã. A antiga porta
principal, definida pelo desfasamento entre os planos
da parede sul da torre de menagem e o da muralha,
dava acesso a um percurso que abria em direcção
ao Paço, cingido a Norte pela cortina do Castelejo,
e a Sul pela da cerca principal. Hoje, o percurso de
calçada que existe, atravessa diagonalmente este espaço
174
INTERVENÇÕES
3
5
4
3. Esplanada
6
João M. Ribeiro
4. Espaço fronteiro à esplanada
João M. Ribeiro
5. Acesso à esplanada
João M. Ribeiro
6. Espaço fronteiro à esplanada
João M. Ribeiro
175
INTERVENÇÕES
Planta
Corte
176
INTERVENÇÕES
de entrada, privilegia o acesso à Igreja de Santa Maria
3. Opções de concretização material e espacial
7. Mobiliário
da Alcáçova e ao Castelejo, e passa indiferente e altivo
É, assim, nossa intenção ocupar a parte central da ruína
João M. Ribeiro
pelo espaço das ruínas. Sem querer alterar esta situa-
do Paço das Infantas com uma edificação leve, tor-
8. Pormenor da entrada lateral
ção, pretende-se, isso sim, reforçar o eixo da muralha,
nada perfeitamente inócua pelo modo geometrizado
João M. Ribeiro
reactivando o percurso que se lhe adoçava como acesso
como se solta das paredes das referidas ruínas.
9. Lavatório
directo à futura Casa de Chá, e deixando que a serena
Essa edificação é marcada por alguns elementos maci-
João M. Ribeiro
axialidade do edifício proposto sirva como momento
ços, a saber: dois planos horizontais substancialmente
flector de chamamento para a sua própria utilização.
fortes – cobertura e pavimento –, unidos por um para-
Estas são, em síntese, as preocupações que influíram
lelepípedo cromaticamente distinto, que corresponde
na implantação do pequeno edifício, das quais emer-
às áreas de serviço da Casa de Chá. O pavimento pro-
gem, por um lado, a afirmação intencional de clarifi-
longa-se a Sudeste num estrado em madeira tratada,
car renovadas interpretações da envolvente edificada
que constitui a esplanada.
e, por outro, a certeza de deixar em aberto a leitura
Os paramentos verticais serão em vidro simples, modu-
actual da ruína.
lado e liberto de prumos de caixilharia, com excepção
15. Interior da Casa de Chá
João M. Ribeiro
177
INTERVENÇÕES
Corte
Corte
178
INTERVENÇÕES
16. Interior da Casa de Chá
João M. Ribeiro
das portas, que assim ficarão marcadas por aro e
disponíveis em programa – 80 m2. O já citado parale-
caixilho de ferro. Os vidros serão suportados por
lepípedo englobará os sistemas de infra-estruturas de
perfis horizontais, superior e inferior.
climatização, bem como as instalações sanitárias
Os pilares da estrutura de suporte das lajes de pavi-
– de utentes e empregados –, e a copa de preparação
mento e de cobertura serão perfis de ferro e funcio-
de refeições frias. No restante espaço coberto organi-
narão pelo interior. Por um lado, para os afastar da
zar-se-á a sala propriamente dita. O estrado da espla-
ruína, e, por outro, para que a imagem desmateriali-
nada será um rectângulo, de escala dialogante com a
zada e abstracta da caixa de vidro possa prevalecer.
do espaço coberto.
A laje de pavimento e o estrado da esplanada ficarão
levemente erguidos, reforçando, ainda mais, a imagem de estrutura que não se prende a nada do existente, nem, tão-pouco, ao solo.
Tentar-se-á, deste modo, criar uma estrutura cuja autonomia geométrica e material revalorize a própria imagem
da ruína, integrando-a num contexto mais compreen-
Ficha técnica
ARQUITECTURA
João Mendes Ribeiro
Colaboradores
Carlos Antunes, Cidália Silva, Desirée Pedro, José António Bandeirinha,
Manuela Nogueira, Pedro Grandão
sível, pela entreposição da estrutura da Casa de Chá.
ESTRUTURAS
Por outro lado, e sob o ponto de vista técnico e arqueo-
ELECTRICIDADE
lógico, o referido afastamento das estruturas existen-
Marcos Pinguinha
INSTALAÇÕES MECÂNICAS
Isabel Sarmento
a manutenção da leitura e a consequente conserva-
João Mendes Ribeiro
Internamente, a distribuição dos espaços é necessariamente simplificada pela minimalização das áreas
João M. Ribeiro
Raimundo Mendes da Silva
tes será forçosamente vantajoso, uma vez que permite
ção desta parte do monumento.
17. Acesso às instalações sanitárias
ARRANJOS EXTERIORES
CONSTRUÇÃO
A. Ludgero Castro
DATA DE PROJECTO
– 1997
– 1999/2000
DATA DA CONSTRUÇÃO
179
Instalação de Sulfato de Amónio, CUF, Seixal
Arquivo da CUF
A C T UA L
Sistema de Informação
(Palácio Nacional da Ajuda, Biblioteca da
mento da informação referente a todo o
Ajuda, Mosteiro dos Jerónimos, Torre de
tipo de património fixo: monumentos,
Belém, Palácio Nacional de Queluz, Palácio
conjuntos arquitectónicos e sítios arqueo-
Nacional de Sintra, Palácio Nacional da
lógicos.
Pena, Mosteiro de Alcobaça, Palácio
Este Sistema foi concebido de raiz como
1. Responsabilidades do IPPAR
Nacional de Mafra, Mosteiro da Batalha
um sistema geo-referenciado, associando
Ao Instituto Português do Património
Convento de Cristo, Mosteiro de São Mar-
a cada imóvel as respectivas coordenadas
Arquitectónico compete o dever de
tinho de Tibães, Paço dos Duques de
e, nalguns casos, um polígono delimitando
conhecer, conservar, salvaguardar e
Bragança, Panteão Nacional e Fortaleza de
o imóvel.
valorizar o património arquitectónico
Sagres).
Este problema foi alvo de uma análise
do IPPAR
Acesso ao Património Cultural
Digitalizado
português, especial e directamente os
exaustiva para determinar que tipo de
monumentos e sítios classificados –
2. A criação de um sistema
operações seriam realizadas e que dados
segundo as leis em vigor, e de acordo
de informação geo-referenciado
geográficos adicionais seriam necessários.
com a acepção do n.º 1 do art.º 1.º da
Ciente de que sem inventário não é
O sistema implementa soluções diferentes
Convenção de Granada de 1985,
possível preservar e gerir o património
consoante o grupo de utilizadores pre-
vem desenvolvendo
integrada na ordem jurídica portuguesa
cultural, o
através do decreto do Presidente da
esforços desde o início da década de 90
Assim, para o público em geral o
República n.º 5/91 de 23 de Janeiro –
para a constituição de um inventário
disponibiliza um acesso via Internet, onde
ou em vias de classificação, propriedade
nacional, primeiro para o património
é possível localizar todos os imóveis
do Estado, no âmbito das atribuições e
arqueológico e, posteriormente, para o
classificados e em vias de classificação,
competências conferidas pelo Decreto-Lei
património edificado.
fazer pesquisas simples (por exemplo
n.º 120/97 de 16 de Maio.
A primeira etapa do processo consistiu na
Monumentos Nacionais do concelho de
Compete-lhe ainda organizar o inventário
recolha e organização da informação,
Aveiro), obter informação sobre um
e o cadastro dos imóveis classificados e
combinando fichas em suporte de papel
determinado imóvel (incluindo informa-
em vias de classificação, bem como definir
com um primeiro sistema desenvolvido
ção geral e imagem) e fazer operações
filosofias de intervenção nos monumentos
sobre filemaker. Rapidamente a expe-
correntes de zoom. Como dados adi-
e no território, através de pesquisa e
riência concreta demonstrou as limitações
cionais apenas se incluem os limites de
reflexão na área do património arqui-
desta abordagem, salientando-se dois
concelho e o traçado dos rios principais.
tectónico de valor cultural, quer pela
aspectos fundamentais: por um lado as
Para o utilizador comum do IPPAR o sistema
criação de um intercâmbio de acom-
limitações de um sistema não relacional
disponibiliza uma interface específica,
panhamento entre os Departamentos
e sem gestão de múltiplos utilizadores
permitindo trabalhar a várias escalas,
Centrais e as Direcções Regionais – Porto,
simultâneos, por outro a necessidade im-
dependendo do tipo de análise em
Vila Real, Coimbra, Castelo Branco,
periosa de uma componente geográfica.
questão, tendo sido adquirida a car-
Lisboa, Évora e Faro –, quer através da
Para suprir estas limitações o
celebração de protocolos de cooperação
conjunto com a
IPPAR
IPPAR
em
tografia digital 1:200.000 ao Instituto
desenvolveu
Geográfico do Exército, que inclui a rede
co m div e r sa s e n ti d a d e s p ú b l i c a s e
um Sistema de Gestão do Património
viária, toponímia, rede hidrográfica e
privadas no sentido de complementar
Arqueológico (1) que, com as alterações
relevo como elementos fundamentais de
esf or ç os que r e s u l te m n u m co n h e -
orgânicas ocorridas no Ministério da
trabalho.
cimento mais aprofundado sobre o
Cultura, nomeadamente com a criação do
Para uma análise mais complexa utiliza-se
património.
IPA
CHIRON,
cedeu a base
uma ferramenta baseada em ArcView,
IPPAR
de dados até então desenvolvida), viria
com as extensões spacial analyst e
incluem a gestão de um conjunto de
a evoluir para um Sistema Integrado de
network analyst. Foi este tipo de utili-
monumentos instituídos como serviços
Gestão do Património Imóvel, baseado
zação que se aplicou na candidatura do
dependentes, bem como das colecções de
nas recomendações do Conselho da
Parque Arqueológico do Côa a Património
património móvel que lhes pertencem
Europa, possibilitando o armazena-
Mundial (1998).
Por outro lado, as competências do
(Instituto ao qual o
IPPAR ,
viamente definido.
IPPAR
181
A C T UA L
Recentemente realizou-se a geo-refe-
tal com a distribuição espacial dos
de regras claras de actualização dos
renciação de todos os imóveis classifi-
monumentos).
dados, nomeadamente a aceitação
cados e em vias de classificação, 33% ao
Saliente-se que toda a informação
do princípio da necessidade do esta-
nível do topónimo, 58% ao nível do
geográfica associada ao património
belecimento de acordos que permitam
concelho e 9% ao nível da freguesia, num
nacional é armazenada na própria base
uma troca e enriquecimento da infor-
total de cerca de três mil e trinta e seis
de dados, tornando assim o sistema
mação considerada elementar, da
imóveis classificados e mil e sessenta e nove
independente do tipo de visualizador
convergência institucional, da existência
em vias de classificação (disponível na
utilizado.
GIS
dos meios técnicos necessários, de
Internet).
formação adequada para utilização
3. Objectivos prioritários do inventário
desses meios e, sobretudo, na possibi-
do património imóvel classificado
lidade de contratualização de pessoal
Relativamente aos objectivos a curto prazo
técnico especializado, que percorra o
(2001) e a médio prazo (2002-2006),
país com o objectivo de confirmar
pretende-se assegurar a montagem de um
informações já existentes sobre os bens
processo de inventariação tomando por
patrimoniais, descobrindo novos elemen-
base a actualização da informação já
tos informativos (2).
recolhida, de modo a enriquecer a base de
dados sobre o património arquitectónico
4. Inventariação e digitalização
da responsabilidade do IPPAR.
O processo de implementação do
Para tal torna-se ainda necessário
inventário passa pela necessidade de
trabalhar com base num sistema de
contratação de inventariantes, o recurso
ligação em rede entre os vários locais
a serviços externos ou a protocolos de
onde os dados irão ser recolhidos e
colaboração com outras entidades, tais
O ArcView constitui, assim, uma poderosa
tratados e onde a informação irá ser
como Igreja, Autarquias, Universida-
ferramenta para, através de pesquisas
produzida, designadamente as Direcções
des, etc., que permitam um cruzamento
à base de dados e análises geográ-
Regionais do
f i cas realizadas a vários níveis, gerir
Coimbra, Castelo Branco, Lisboa, Évora,
O carregamento da base de dados deverá
ou consultar eficientemente todo o
Faro) e os Serviços Centrais.
ser conduzido mediante contratação de
património imóvel nacional. Paralela-
A obrigação de um Instituto do Património
equipas de campo e de gabinete com
mente, permite ao utilizador visualizar no
é, antes de mais, conhecer os bens que,
conhecimentos específicos de arquitec-
espaço geográfico os dados presentes na
pelo seu interesse histórico ou artístico,
tura, história de arte, arqueologia,
base de dados.
constituem a herança cultural do res-
administração do património, entre outras
Está prevista a execução de um site
pectivo país criando, simultaneamente,
áreas, e baseia-se num sistema de redes
construído com base no projecto acima
as condições necessárias para gerir e
de comunicação, que permite a integração
descrito, que permitirá ao utilizador, não
proteger esses bens.
sistematizada de toda a informação
só visualizar os imóveis espacialmente,
A definição e implementação de uma
recolhida, tendo-se iniciado a aquisição de
como pesquisar alguns dos objectos da
política adequada que permita a garantia
equipamentos específicos aos trabalhos de
base de dados, disponibilizando-se ao
da propriedade da informação, em
campo e de gabinete.
utilizador dois tipos de informação:
simultâneo com a responsabilidade da sua
Uma das áreas em que se perspectiva um
informação textual relativa ao monu-
partilha e divulgação, obriga à adopção
maior desenvolvimento diz respeito à
mento, em que se descreve o monumento
de novos critérios sobre as possibilidades
digitalização e cartografia das servidões
e todas as características consideradas
reais de recolher e validar a informação já
administrativas geradas pelos monumen-
relevantes, e informação visual relativa
existente, dispersa por várias entidades
tos classificados, em vias de classificação
à localização espacial do monumento
singulares e colectivas. Tais critérios
e sua combinação com inventários
(imagem do mapa de Portugal continen-
baseiam-se, a nosso ver, na adopção
municipais de património.
Fig. 1. Interface do software ArcView
182
IPPAR
(Porto, Vila Real,
de informações já recolhidas.
A C T UA L
Trata-se de um instrumento de trabalho
III Quadro Comunitário intitulada “Inven-
de classificação, publicitação de editais,
ao serviço das autarquias, da admi-
tariação e Digitalização do Património
acesso à base de dados, etc.) (3).
nistração central, dos promotores e dos
Histórico Cultural”, prevendo-se que as
• Prevê-se, igualmente, uma versão em
profissionais da arquitectura e do
maiores dificuldades para a sua concre-
inglês da página da Internet, paralela-
património.
tização se resumam a duas questões:
mente à respectiva remodelação gráfica e
O trabalho deverá ser desenvolvido
falta de recursos humanos especializados
de conteúdos, recorrendo às constantes
mediante contratualização com as autar-
e morosidade no recrutamento dos
inovações temáticas.
quias, uma vez que a escala e lógica
mesmos.
de constituição desta cartografia digi-
De facto, embora se constate a existência
O
talizada deverá ser “concelhia” e, nesta,
de demasiados funcionários públicos, a
institucional desde 1999, tendo sido criados
devendo dirigir-se aos conjuntos de
verdade é que não existem na adminis-
endereços electrónicos para os funcionários
objectos e de contextos de mais difícil
tração pública, nomeadamente no
IPPAR,
dos serviços centrais e direcções regionais,
gestão e que se encontram invariavel-
técnicos especialistas em número sufi-
bem como um endereço electrónico por
mente nos centros urbanos.
ciente para o trabalho de investigação e
serviço dependente.
A constituição destas bases de dados, que
actualização da informação sobre o
Teresa Marques, GIF/IPPAR
são por essência dinâmicas, abrem uma
património cultural, sendo indispensável
linha de trabalho permanente com os
recorrer a várias aquisições de serviço de
municípios, no sentido da sua actualização
pessoal técnico externo. As dificuldades
permanente no que respeita aos suportes
burocrático-administrativas do respectivo
sítios arqueológicos portugueses”, Informação
electrónicos.
modo de recrutamento, caso não sejam
& Informática, 19, Lisboa, 1997.
De resto, com base nesta cartografia
rapidamente ultrapassadas, poderão pôr
digitalizada, poder-se-á descer a níveis
em risco a concretização do projecto
política”, comunicação apresentada na XIII Semana de
de trabalho de pormenor, tais como os
enunciado.
Estudos-Património Edificado, Novas Tecnologias,
IPPAR
possui um endereço electrónico
Referências bibliográficas
MARQUES, T., COSTA, J. R., “Endovellicus: um Sistema de
Informação Geográfica aplicado ao inventário dos
M ARQUES , T., “Inventário do Património Cultural: a
política da necessidade e a necessidade de uma
Inventários, Angra do Heroísmo, 2000.
que contemplam escalas de 1:2000 ou
MARQUES, T., “Sistema de Informação Integrada”, Patri-
1:1000, nos casos em que seja possível
5. Desenvolvimento da Internet
mónio Balanço e Perspectivas, 2000-2006 , Lisboa,
cartografar.
Encontra-se em curso o desenvolvimento e
IPPAR,
Dever-se-á proceder, assim, quer à
incremento das possibilidades da Internet,
aquisição de serviços especializados na
com diversas aplicações que assegurem a
utilização das novas tecnologias, para uma
comunicabilidade com demais organismos
geo-referenciação rigorosa do património
e entidades, o que permitirá, a curto
Acção-Piloto de Cooperação
Portugal-Espanha-Marrocos
edificado, quer à aquisição da cartografia
prazo, um reforço da componente de
Através do Fundo Europeu de Desenvol-
digital, considerada necessária.
transparência de informação e da rapidez
vimento Regional e ao abrigo do art.º 10.º
Pretende-se assegurar a montagem de um
de comunicação.
do
processo de inventariação a partir da
Uma das linhas de trabalho a desenvolver
a realização da Acção Piloto Portugal-
actualização da informação recolhida,
diz respeito à abertura de linhas temáticas
-Espanha-Marrocos, com os objectivos de
2000.
FEDER ,
a Comissão Europeia aprovou
enriquecendo a base de dados sobre
no âmbito da página da Internet do
IPPAR,
lançar intervenções de valorização patri-
património arquitectónico da responsa-
de modo a sensibilizar o público para
monial e contribuir para uma perspectiva
assegurando, desta
novas realidades patrimoniais, de que se
de ordenamento do território, envolvendo,
forma, a respectiva divulgação, quer
destacam exemplos já aplicados, relativos
em Portugal, as regiões de Lisboa e Vale
através de novas tecnologias de infor-
aos programas Itinerários Arqueológicos
do Tejo, do Alentejo e do Algarve.
mação (Internet, CDRoms, Sistema de
do Alentejo e Algarve, Património de
O Instituto Português do Património
Informação Geográfica), quer através de
Cister e Património Industrial.
Arquitectónico, prosseguindo as atribui-
sistemas tradicionais (edições).
• Num futuro próximo, poderão ser
ções que lhe são cometidas pela sua Lei
Este projecto enquadra-se no âmbito
incluídos na Internet dados que sejam de
Orgânica, está envolvido em cinco projec-
de uma candidatura apresentada ao
interesse público (abertura de processos
tos de parceria com Espanha e Marrocos
bilidade do
IPPAR
183
A C T UA L
em áreas diversas de intervenção, com
levantamento sumário das edificações mais
Nacional de Arqueologia, no dia 6 de
importantes resultados ao nível do apro-
importantes.
Novembro de 2001. A acompanhar a apre-
fundamento dos conhecimentos sobre a
Uma exposição itinerante sobre o projecto,
sentação pública dos resultados organi-
herança cultural comum.
que inclui uma maqueta do conjunto
zou-se uma exposição itinerante que será
muralhado, esteve recentemente patente
apresentada no Museu de Cáceres e no
A construção de Mazagão
no Porto, apresentando-se depois em
Museu Nacional de Arqueologia.
no século XVI – Cartas inéditas
Marrocos.
da Biblioteca Nacional de Lisboa
Urbanismo Islâmico no Sul da Península
Materiais Arqueológicos provenientes
Ibérica e Norte de África
de Fortificações e Sítios Islâmicos
Com este projecto, o
do Sul da Península Ibérica
Direcção Regional de Évora e em colabo-
Desenvolvido em parceria com a Junta de
ração com a Consejería de Cultura da Junta
Extremadura, pretende-se com este pro-
de Extremadura, pretende estudar, valori-
jecto estudar um conjunto de materiais
zar e divulgar um conjunto de monumentos
– maioritariamente constituídos por cerâ-
e sítios islâmicos do Sul da Península Ibérica,
micas – provenientes de contextos arqueo-
nomeadamente Mesas do Castelinho e
lógicos islâmicos da região de Lisboa
Castro da Cola, no Alentejo, e a Alcáçova
e bacias do Tejo e Sado – Castelos de
e Área Arqueológica da Mouraria de
São Jorge de Lisboa e de Alcácer do Sal,
Mérida. A abordagem aos monumentos
Sé de Lisboa e Convento de São Francisco
far-se-á considerando a sua dimensão
de Santarém – bem como dos sítios de
arqueológica/arquitectónica, a sua inser-
Este projecto, em parceria com o Cen-
Morerías, em Mérida, Convento de San
ção urbana no território e os materiais
tro de Património Luso-Marroquino de
Vicente Ferrer, em Plasencia, Hospital Militar
arqueológicos das escavações realizadas.
El-Jadida, visa dar a conhecer um conjunto
e Rua de Montesinos, em Badajoz. Os resul-
No final do projecto será criada uma base
de cartas inéditas sobre a construção de
tados dos estudos realizados estão já publi-
de dados sobre tecnologias construtivas
um complexo
cados em edição bilingue e serão discuti-
de época islâmica e serão publicadas mono-
abaluartado que pôs em prática, fora da
dos, publicamente, em Lisboa, no Museu
grafias científicas sobre os sítios envol-
Aspecto geral das muralhas da Mazagão
Mazagão no século
XVI ,
Europa, algumas das mais importantes inovações técnicas da arte fortificatória do
Renascimento.
A edição das cartas, a cargo do Doutor
Rafael Moreira e do Arquitecto Pedro Cid,
contará com uma síntese introdutória
trilingue (português, francês e árabe) e
resumos, igualmente traduzidos, de todos
os documentos compilados.
Inventário do Património Edificado
de Origem Portuguesa em Mazagão
Igualmente em parceria com o CPLM, e através de um Protocolo estabelecido pelo IPPAR
com a Faculdade de Arquitectura do Porto,
procedeu-se ao levantamento topográfico e arquitectónico da antiga cidade
portuguesa, incluindo a inventariação e
184
Aspecto geral da escavação do Castelo de Álcacer do Sal
IPPAR ,
através da
A C T UA L
vidos, além da implementação de acções
pontuais de valorização.
Investigação e Valorização
sobre Fortificações e Sítios Islâmicos
do Sul da Península Ibérica
A Direcção Regional de Faro do
IPPAR
inte-
gra este projecto, em parceria com as
2. DIALAP. Arquitectos Carlos Ramos
e Teixeira Guerra, 1960
3. KODAK. Casa das máquinas.
Projecto – Profabril, 1968
jeria de Cultura y Educación de Murcia.
ocorresse entre os anos de 1920-1965 –,
do universo da salvaguarda patrimonial.
Câmaras Municipais de Silves, Tavira
e Castro Marim, e ainda com a Consecom-
enquadrado num projecto mais amplo de
A sua hermética linguagem formal ou esté-
preenderam o levantamento fotogramé-
levantamento da arquitectura contem-
tica contribui, muitas vezes, para uma
trico do Castelo de Paderne e a análise
porânea em Portugal. A diversidade da
menor sensibilidade aos valores neles con-
das argamassas dos Castelos de Paderne
criação arquitectónica cingida a esta
tidos, originando demolições sistemáticas
e de Aljezur, encontrando-se em prepara-
cronologia extravasa largamente o âmbito
destes edifícios ou estruturas, dando lugar
ção uma exposição evocativa do tema e
do Movimento Moderno, permitindo reco-
a grandes operações imobiliárias. Sem uma
um seminário consagrado à história e à
lher com maior abrangência as constru-
análise apriorística de um efectivo valor
metodologia das intervenções em curso.
ções industriais ocorridas no território
patrimonial, imóvel ou móvel, dos sítios
Alguma da informação sobre estes dois
português numa época de profundas muta-
industriais que permita a sua reconversão
singulares monumentos será, de igual
ções culturais e políticas.
num novo uso, permitindo uma leitura do
modo, colocada à disposição numa página
O pioneirismo deste levantamento prende-
território também com estas valências patri-
da Internet.
-se tanto com o objecto de estudo como
moniais mais recentes, perder-se-á uma
com a sua cronologia. Numa época de
das produções materiais mais importantes
grandes alterações tecnológicas e produ-
da nossa contemporaneidade.
tivas os arquitectos, muitas vezes em cola-
Um dos objectivos deste levantamento
Projecto de levantamento
da Arquitectura Industrial
Contemporânea em Portugal
(1920-1965)
boração com os engenheiros, conceberam
prende-se precisamente com a emergên-
projectos de vanguarda e de rasgada
cia de uma consciência colectiva sobre o
modernidade maioritariamente concebidos
interesse patrimonial desta tipologia cons-
para programas produtivos de ponta, regis-
trutiva que urge acautelar e salvaguardar.
No âmbito da participação no Grupo de
tando-se, contudo, uma presença de
A identificação, o registo, a pesquisa e a
As acções coordenadas pelo
Miguel Soromenho,
IPPAR
DE/IPPAR
IPPAR ,
sectores como o dos têxteis, indústria líder
caracterização sobre os edifícios ou estru-
através do Departamento de Estudos,
da Revolução Industrial. A análise desta
turas técnicas constituem vários momen-
encetou um projecto de levantamento da
materialidade industrial contribuirá, decerto,
tos de uma apreensão que se estendeu às
arquitectura industrial – cuja produção
para uma revisão do descrédito histórico
principais áreas industriais do país, como
de um Portugal sem indústria, agora sim
o distrito de Lisboa ou Porto, ou a terri-
em franco processo de desindustrialização.
tórios onde estas construções difusamente
O conhecimento do património industrial
implantadas definiram categoricamente
Trabalho do
DOCOMOMO
Ibérico o
1
desenvolvido neste projecto
o espírito do lugar – barragens, centrais
através da sua vertente arquitectónica, é
eléctricas, cimenteiras ou a inquestionável
de uma urgência extrema. Os espaços
Siderurgia Nacional.
industriais caracterizados pelas suas gran-
Encontram-se neste momento selecciona-
des áreas de edificação, de difícil desco-
dos cerca de cinquenta imóveis ou con-
dificação, dado o seu carácter funcional
juntos considerados como exemplares
produtivo, não se têm reconhecido dentro
significativos, quer da qualidade intrínseca
do século
1. Siderurgia Nacional. Alto forno. Projecto – Firma
DEMAG, 1959
XX,
185
A C T UA L
da produção arquitectónica (como os diferentes elementos componentes da
UEP
Inventário do Património Industrial da Covilhã
–
União Eléctrica Portuguesa, a Diamang, a
Casa da Moeda, a Oliva ou os conjuntos
das Barragens do Douro Internacional),
quer da importância industrial e técnica
(como a Maceira-Liz, a
CUF
– Companhia
União Fabril, a Siderurgia Nacional, os
Nitratos de Portugal ou o Arsenal do
Alfeite), que requerem uma atenção
especial na óptica da sua salvaguarda.
Este levantamento, que decorreu sensivelmente durante um ano e contou com
a colaboração de inúmeras Câmaras
Municipais e outras entidades públicas e
privadas na disponibilização de elementos,
irá ter a sua divulgação através de uma
publicação conjunta do DOCOMOMO Ibérico,
1. Conjunto industrial. Início da Ribeira da Carpinteira
prevista para 2002, e também através da
O inventário do património industrial da
voragem económica dos tempos. Destaque-
sua inclusão numa exposição de carácter
cidade da Covilhã está a decorrer no âmbito
-se que este foi um lugar eleito tanto pelo
itinerante, destinada à sensibilização do
de um protocolo assinado entre o
IPPAR
Conde da Ericeira como pelo Marquês de
público para a necessidade do conheci-
e a Universidade da Beira Interior (UBI) , no
Pombal para aí instalarem métodos, pro-
mento e salvaguarda do nosso património
ano de 1999. A decorrer há cerca de um
cessos e mentalidades inovadores face a
mais recente.
ano e meio este inventário caracteriza-se por
hábitos de produzir confinados a saberes
um levantamento exaustivo de todas as uni-
oficinais próximos de uma realidade medie-
dades industriais existentes na cidade, encon-
val. A própria industrialização da cidade
trando-se neste momento noventa edifícios
da Covilhã é extremamente singular no
ou conjuntos em fase final de trabalho
panorama do país, assumindo um papel
num total de cento e trinta identificados.
paradigmático ao nível da mono-industria-
O trabalho de inventariação das unidades
lização de uma região.
industriais na cidade da Covilhã reveste-
O património industrial da Covilhã é assim
-se de uma importância extrema para a
entendido na sua abrangência e na sua
dos Colégios de Arquitectos e Instituições similares das
história da indústria em Portugal. Ainda
diversidade. Registam-se tanto os aspec-
diferentes províncias espanholas.
hoje a paisagem cultural da cidade é mar-
tos arquitectónicos ou aedificandi, como
cada por um proliferar de chaminés e de
o património integrado, vulgarmente
Manuel Lacerda, Deolinda Folgado,
1
O
DOCOMOMO
DE/IPPAR
Ibérico é um Grupo de Trabalho
filiado no DOCOMOMO Internacional, que tem por objectivo o estudo, documentação e salvaguarda da arquitectura moderna.
O
IPPAR
(Instituto Português do Património Arquitec-
tónico) e a
AO
(Ordem dos Arquitectos) constituem os
dois parceiros nacionais no
O
DOCOMOMO
DOCOMOMO
Ibérico, a par
Ibérico prossegue, neste momento, o
levantamento da arquitectura industrial referida ao
1
Movimento Moderno, estando em curso os trabalhos
oblongos edifícios fabris ajustados a uma
de rastreio em Portugal, através de um projecto espe-
morfologia do terreno que se conformou
cífico do
IPPAR ,
que tem contado com a valiosa
colaboração de inúmeras Câmaras Municipais e
Entidades Públicas e Privadas.
à passagem de leitos de água tão prementes a uma fabricação há muito instalada nesta encosta da Serra da Estrela.
Este trabalho parece, assim, extravasar o
simples registo material ainda hoje existente, procurando também salvaguardar
uma memória de gerações e de culturas
materiais e técnicas já desaparecidas na
186
2. Conjunto industrial. Ribeira da Carpinteira
A C T UA L
maior significância patrimonial. Em con-
Dando continuidade a colecções já sedi-
formidade definiu-se a criação de uma
mentadas, ou iniciando novos temas, e
carta do património industrial da Covilhã,
acompanhando a evolução da problemá-
instrumento que deverá ser articulado
tica associada às novas exigências que se
com a gestão da própria cidade4, a classi-
colocam no domínio do património, o IPPAR
ficação de conjuntos ou de edifícios,
apresenta neste momento um quadro
prevendo-se também a futura publicação
editorial com um espectro alargado, pro-
deste inventário.
curando dar resposta a diferentes níveis
Deolinda Folgado,
de necessidades:
DE/IPPAR
• Num nível vincadamente didáctico, com
1
O inventário está a ser coordenado, por parte do
IPPAR ,
pela signatária e, por parte da
UBI ,
pela
D.ra Elisa Pinheiro. A realizar o trabalho de levanta-
mónio e da sua salvaguarda, apresentando
equipa de quatro elementos recrutados no Instituto
e explicando os aspectos fundamentais dos
despacho conjunto do Ministério da Cultura e do
pelos motores energéticos ou pelas ferramentas, consultam-se os arquivos de
empresa existentes ou de obras, realiza2
monumentos mais importantes sob tutela
IPPAR;
Ministério do Emprego e Solidariedade Social. Esta
do
equipa recebeu uma breve formação inicial na área
• Num nível intermédio de divulgação, quer
do património industrial e do património em geral.
através de colecções de carácter estrita-
Actualmente, mantêm-se duas técnicas (Cristina
conhecido pelas máquinas operadoras,
não especialista para as questões do patri-
mento constituiu-se, num primeiro momento, uma
de Emprego e Formação Profissional ao abrigo de um
3. Nova Penteação e Fiação de Lãs, !935-1998.
Ribeira da Carpinteira
o objectivo de sensibilizar o grande público
Carvalho e Florbela Conceição) a desenvolver a última
mente técnico, quer através de colecções
fase do trabalho de campo e do próprio inventário.
mais abrangentes, cobrindo diferentes
No âmbito do trabalho de campo do Inventário do
dimensões da realidade patrimonial;
2
Património Industrial já se salvaram dois arquivos de
empresa de extrema importância – por exemplo a
• Num nível de apresentação de trabalhos
-se o registo fotográfico. Esta metodolo-
Fábrica Velha ou Campos Melo. O espólio deu entrada
científicos especializados na área do
gia é extensível, tanto quanto possível, ao
no Centro de Documentação do Museu de Lanifícios
património.
da
UBI.
território envolvente que integra um rico
3
e diverso património difuso intimamente
modelos já aplicados em trabalhos similares no estran-
reformulada, vocaciona-se sobretudo para
ligado ao labor dos lanifícios, é o caso das
geiro e em Portugal e as recomendações do Conselho
a divulgação de intervenções efectuadas
râmolas de sol, das condutas, tanques e
Para a elaboração destas fichas consultaram-se vários
da Europa.
4
O
IPPAR,
através do grupo de inventário, tem cola-
A Colecção “Cadernos”, recentemente
pelo
IPPAR,
no âmbito da recuperação de
represas.
borado com a equipa do programa
na permuta
imóveis e património integrado, através
Para o trabalho de inventariação criou-se
de informações e pareceres, na medida em que a sua
das respectivas memórias técnicas con-
um conjunto de fichas de lavan-
área de intervenção se prende fundamentalmente com
no
IPPAR
3
tamento de campo que reflectem o con-
POLIS,
as Ribeiras da Covilhã – local de instalação, por excelência, da maioria das fábricas.
ceito de património acima exposto.
O tratamento dos dados recolhidos será
feito numa base de dados específica, tam-
A actividade editorial do IPPAR
bém elaborada pelo IPPAR, que deverá come-
Um dos instrumentos essenciais para atin-
çar a ser preenchida assim que o trabalho
gir os objectivos gerais de salvaguarda do
de campo finalizar e posteriormente inte-
património, através da sensibilização e da
IPPAR.
divulgação de matérias de caracter técnico
Os objectivos mais prementes estabeleci-
e científico na área patrimonial, é a edi-
dos aquando do início deste projecto pren-
ção, quer em suporte tradicional, quer
deram-se sem dúvida com o conhecimento,
com o recurso a novas tecnologias, de
mas também com a salvaguarda e valora-
diferentes conteúdos, organizados em
ção necessária e urgente para os conjun-
diferentes colecções, consoante os seus
tos industriais que se considerarem de
objectivos específicos.
grada no Sistema de Informação do
187
A C T UA L
textualizadas por estudos de enquadra-
territorial, apre-
de actividades nas áreas da salvaguarda,
mento de diferentes disciplinas, e também
sentando infor-
estudos, formação, intercâmbio, entre
para a divulgação de estudos especializa-
mação técnico-
outros, exigem, por um lado, uma maior
dos em temáticas distintas no domínio do
-científica numa
divulgação de práticas exemplares, pro-
património. Entre os últimos números
linguagem aces-
movendo o alargamento do público inte-
editados contam-se Torre de Belém –
sível, foram mais
ressado e interveniente, e potenciando uma
Intervenção de conservação exterior;
recentemente
maior discussão nos meios especializados;
História e restauro da pintura do retábulo-
publicados, no
o Instituto dispõe, a partir de agora, de
-mor do Mosteiro dos Jerónimos; e
âmbito das acções
uma publicação com periodicidade regu-
As rochas dos monumentos portugueses –
do Programa Itine-
lar, Estudos/Património, que dará resposta
Tipologias e patologias, estando prevista
rários Arqueológicos do Alentejo e Algarve,
a estas necessidades, e onde são apre-
a próxima publicação de números dedica-
São Cucufate e Miróbriga – Ruínas
sentados, de uma forma sintetizada, obras,
dos à Igreja de Santa Cruz de Coimbra –
Romanas, estando em preparação a apre-
projectos, trabalhos de pesquisa pontuais
História, conservação e restauro da fachada
sentação dos Roteiros dedicados ao
ou articulados com intervenções, textos
e arco triunfal; A Real Fábrica de Vidros de
Circuito Arqueológico da Cola e Ruínas de
de carácter teórico relativos a filosofias de
Coina – Aspectos históricos, artísticos e
Milreu; noutro âmbito, foi publicado nesta
intervenção e reflexões sobre a prática
arqueológicos; e Alcalar 7 – Estudo e rea-
mesma colecção Antas de Elvas – Circuitos
da acção de salvaguarda, entre outros.
bilitação de um monumento megalítico.
Arqueológicos, prevendo-se a possibili-
Ainda ao nível da divulgação do patri-
A Colecção “Arte e Património” constitui já
dade da saída regular de novos números
mónio para o público não especialista, e
um referencial da linha editorial do Instituto
à medida do avanço de acções em dife-
tendo em atenção o conjunto de imóveis
destinando-se, fundamentalmente, à divul-
rentes sítios arqueológicos.
afectos ao Instituto, está em preparação
gação de estudos especializados no âmbito
A Colecção dos “Guias”
uma nova colecção (“Guias Temáticos/
do conhecimento do património urbano,
de monumentos, destinada
/Monumentos”) de pequenas brochuras
arquitectónico e integrado, privilegiando-
ao apoio à visita e à divul-
temáticas, em pequeno formato, que tem
-se as perspectivas da História, da História
gação dos monumentos
como objectivo apresentar, de forma didác-
da Arte, da História da Arquitectura e do
e sítios mais significati-
tica, diferentes tipologias arquitectónicas
Urbanismo; depois do último número
vos sob tutela do
IPPAR,
monumentais (Castelos, Fortalezas abaluar-
editado, Para além da Baixa, encontram-
veicula informação indis-
tadas, Conventos/Mosteiros, Sés e Igrejas,
-se em preparação A Escultura de Mafra;
pensável de carácter
Villas Romanas, Vias e pontes romanas e
Castelos da Raia, vol. II, Trás-os-Montes;
histórico, arquitectónico
medievais), com a explicação do respec-
e a reedição de Paços Medievais Portu-
e arqueológico de orien-
tivo modelo teórico, sistemas construtivos,
gueses e Castelos da Raia, vol. I, Beira.
tação para visita, informações úteis relativas
localização de imóveis visitáveis no terri-
Depois de Visitações a Mosteiros Cister-
a horários de funcionamento, acessibili-
tório, enquadramento histórico, glossário
XVI ,
dades, actividades educativas e contactos,
e noções sobre a salvaguarda do património.
na Colecção “Documenta”, dedicada à
cobrindo já uma grande parte do mais
A Colecção “Monografias/Monumentos”,
publicação de fontes documentais para a
importante património nacional; publicam-
a iniciar com Memórias de Pedra – Escultura
história dos mais importantes monumen-
-se regularmente, de forma a dotar o maior
Tumular
tos portugueses, prepara-se a publicação
número possível de monumentos visitáveis
Medieval da
de Fontes históricas e artísticas do Mosteiro
com a informação essencial para visita e
Sé de Lisboa,
cienses em Portugal – séculos
da Batalha, séculos
e
XV
e
XVI.
procede-se à sua actualização sistemática.
destina-se
Na Colecção “Roteiros da Arqueologia
O crescente número de intervenções em
a publicar
Portuguesa”, dedicada à divulgação de
que o
se encontra envolvido, corres-
estudos
sítios, conjuntos ou circuitos arqueológi-
pondendo a uma diversificação de expe-
m o n o grá-
IPPAR,
numa perspectiva
riências e de meios técnicos envolvidos,
ficos reali-
do respectivo entendimento num contexto
bem como um alargamento da quantidade
zados sobre
cos sob tutela do
XV
188
IPPAR
A C T UA L
alguns dos mais importantes monumentos sob tutela do
Implementação da rede de lojas do
IPPAR
IPPAR.
Outras publicações, não enquadradas em
colecções, correspondem à divulgação de
contributos técnico-científicos apresentados
em Congressos, Colóquios, Encontros e projectos promovidos pelo
IPPAR,
ou pelo
IPPAR
em articulação com outras entidades, abrangendo um espectro alargado de temas
(temas teóricos e práticos no domínio do
conhecimento e da intervenção sobre
o património, temas de História e de História da Arte, Arquitectura, Urbanismo e
Património integrado). Mais recentemente
foram publicadas as Actas dos Colóquios
Loja do Mosteiro de Alcobaça
Internacionais Arte e Arquitectura nas
Abadias Cistercienses nos séculos
XVI ,
A ideia de implementar uma rede de lojas
As receitas próprias permitem manter aber-
do IPPAR não é totalmente inovadora, tendo
tos certos monumentos, cobrindo parcial
outros países vindo a adoptá-la com resul-
ou totalmente os custos de funcionamento,
tados positivos, nomeadamente países que
aliviando o peso no erário público e pro-
têm o seu património mais directamente
piciando uma melhoria da qualidade da
relacionado com o turismo. Com efeito,
oferta cultural (recepção e acompanha-
podemos constatar que o turismo cultural
mento).
incentivou e quase obrigou ao desenvol-
Há porém neste domínio que salvaguar-
vimento desta vertente comercial. Os objec-
dar a qualidade dos produtos, o rigor
tivos desta actividade são fundamental-
histórico, artístico, e estético e o seu carác-
mente dois:
ter pedagógico.
• divulgação do património;
As lojas estão localizadas nos principais
• criação de receita.
monumentos e sítios: Palácios, Mosteiros,
e Cister – Espaços, Territórios,
A divulgação através de publicações,
Castelos, Fortalezas e
Paisagens, prevendo-se proximamente a
réplicas ou outros produtos que perpe-
Sítios Arqueoló-
co-edição das Actas do Simpósio Interna-
tuem no tempo a recordação/informação
gicos. A dimen-
cional sobre Castelos e da XIII Semana de
da visita efectuada,
são e o perfil des-
Estudos subordinada à temática das Novas
é um imperativo
tes espaços está
tecnologias no conhecimento do patrimó-
cada vez mais
directamente rela-
XVII
e
XVIII
nio e à Inventariação do Património.
marcante.
cionado com o tipo
Para além deste conjunto de colecções
Por outro lado, a receita
de monumento,
salienta-se a publicação, em suporte
é, hoje em dia, um dos
sendo que normal-
CD-Rom, do Inventário Artístico de Portugal
aspectos que em maté-
mente os projectistas
(Academia Nacional de Belas Artes).
Manuel Lacerda, DE/IPPAR
Taça/lava frutos
Réplica
Baralho de cartas
Papel
ria de política cultu-
das lojas são os mesmos que têm a seu
ral (gestão cultural)
cargo a intervenção global no monumento.
é incontornável.
Isabel Melo, DC/IPPAR
189
A C T UA L
Candidaturas do IPPAR
a Fundos Comunitários
infra-estruturais, execução de trabalhos de car-
CENTRO
pintaria, pedra, iluminação, reabilitação de ele-
Mosteiro de Santa Maria de Aguiar
I. No âmbito do III Quadro Comunitário de
mentos decorativos e restauro de património
1.ª fase
móvel.
Restauro e conservação da igreja, estrutura de
Apoio (2000-2006) e ao abrigo do
POC
Programa Operacional da Cultura, o
–
madeira da cobertura, conservação e restauro de
IPPAR
tem já um conjunto significativo de can-
Mosteiro de Vilar de Frades
didaturas aprovadas que serão objecto de
Realização de obras de consolidação geral, re-
comparticipação por Fundos Comunitários
cuperação, restauro e prospecção arqueológica,
Conservação e Restauro
– Fundo Europeu de
execução de trabalhos de carpintaria, pedra,
da Sé da Guarda – 1.ª fase
Desenvolvimento Regional, com uma taxa
reabilitação de elementos decorativos e restauro
Obras de conservação e restauro, limpeza das
de comparticipação de 75%, à excepção da
de património móvel.
fachadas, limpeza e consolidação de juntas,
através do
FEDER
Região de Lisboa e Vale do Tejo onde a taxa
vitrais, limpeza do retábulo.
degraus, restauro de vitrais.
é mais reduzida, situando-se em 62%.
Mosteiro de Tibães – 2.ª fase
Faz-se seguidamente o enunciado das mes-
Realização de estudos e projectos, prospecção
LISBOA E VALE DO TEJO
mas com indicação das Medidas e Acções
arqueológica, reabilitação de elementos deco-
Palácio Nacional de Sintra – 2.ª fase
em que se enquadram, bem como da sua
rativos e restauro de património móvel e inte-
Valorização de circuitos de visita e de zonas de
descrição.
grado, obras de reordenamento do terreiro,
acolhimento ao público, recuperação e restauro
conservação e restauro da fachada da igreja,
de património móvel, obras de conservação e
instalação da loja/posto de multimédia.
restauro do imóvel.
Históricos e Culturais
Mosteiro de São João de Tarouca
Mosteiro de Alcobaça – 2.ª fase
ACÇÃO 1
1.ª fase
Realização de obras de consolidação geral,
Obras de Recuperação e de Valorização
Realização de estudos de base às intervenções,
recuperação e restauro e prospecção arqueo-
de Monumentos, Sítios Históricos
prospecção arqueológica, intervenções no inte-
lógica, beneficiação e remodelação de infra-
e Arqueológicos
rior da igreja nomeadamente reabilitação de ele-
-estruturas básicas, execução de trabalhos de
mentos decorativos e restauro de património
carpintaria, pedra, iluminação, segurança, rea-
móvel e integrado.
bilitação de elementos decorativos e restauro
MEDIDA 1.1
Recuperação e Animação de Sítios
NORTE
Monte Latito – 1.ª fase (Paço dos Duques
de património móvel.
de Bragança, Castelo de Guimarães
Sé do Porto – 1.ª fase
e Capela de São Miguel)
Acções de recuperação e valorização do monu-
Convento de Jesus – 1.ª fase
Primeira fase de intervenção no conjunto arqui-
mento, da envolvente e do património inte-
Levantamento fotográfico, estudos geológicos
tectónico implantado no Monte Latito, com-
grado; obras de carácter estrutural, actualiza-
e geotécnicos, diagnósticos, levantamento e
posto pelo Paço dos Duques de Bragança,
ção de infra-estruturas técnicas e serviços de
controlo de estruturas e fundações, projecto de
Castelo de Guimarães e Capela de São Miguel,
apoio.
recuperação.
consistindo em estudos preparatórios das inter-
Nota: O projecto é desenvolvido em resultado
venções, instalação da loja e remodelação da
Mosteiro de Santo André
do contrato celebrado com a Câmara Municipal
zona de acolhimento, projecto e produção de
de Rendufe – 1.ª fase
de Setúbal figurando o
sinalética interior, restauro de peças decorati-
Acções de recuperação e valorização do
co-financiadora do mesmo.
vas, mobiliário e vitrais, aquisição de equipa-
Mosteiro, da envolvente e do património inte-
A recuperação será objecto de uma nova fase
mento, pequenos melhoramentos.
grado.
de candidatura.
Mosteiro de Pombeiro – 1.ª fase
Igreja do Mosteiro
Capela Visigótica de São Gião (Nazaré)
Realização de obras de consolidação geral,
de São Pedro de Cete
Conjunto de acções preparatórias das inter-
recuperação, restauro e prospecção arqueoló-
Realização de estudos, acções de recuperação
venções; estudos e preservação de estruturas,
gica, beneficiação e remodelação das instalações
do Mosteiro, aquisição de terrenos.
prospecções arqueológicas.
190
IPPAR
como entidade
A C T UA L
Casa-Estúdio Carlos Relvas – 1.ª fase
sinalética, realização de estudo de estabili-
zação de exposições (exemplo Arquitectura do
Execução de sondagens e realização do pro-
dade, relatório de inspecção e levantamento
Movimento Moderno com carácter itinerante),
jecto de conservação e restauro.
arquitectónico.
iniciativas de promoção/animação cultural e edi-
Nota: Com base no projecto encontra-se aberto
ção de material promocional; respeita às várias
concurso público para realização da empreitada,
Sé de Évora – 1.ª fase
a qual deverá dar origem a nova fase de can-
Estudos e levantamento arquitectónico, mon-
didatura.
tagem de plataforma no zimbório, recuperação
Palácio e Convento de Mafra – 2.ª fase
zonas do país (à excepção de Lisboa).
do zimbório, restauro de vitrais, recuperação do
ACÇÃO 3
pavimento.
ACONTECIMENTOS CULTURAIS
LIGADOS À DIVULGAÇÃO
Conjunto de pequenas intervenções de restauro,
beneficiação e valorização do imóvel, projectos
Recuperação e Valorização
de iluminação das capelas laterais, iluminação
do Castelo de Elvas – 1.ª fase
dos órgãos e iluminação exterior, restauro de
Reparação e consolidação de panos de mura-
Comemorações Jerónimos 500 Anos:
dois órgãos – Órgão do Santíssimo Sacramento
lha, iluminação monumental, recuperação de
1501-2001
e Órgão de São Pedro de Alcântara – integrando
coberturas, arranjo de espaços exteriores, ins-
Realização de um conjunto de eventos – con-
um conjunto de seis (dos quais dois já foram
talação da loja, centro interpretativo, serviço
certos, ciclos musicais, actividades educativas,
intervencionados).
educativo e musealização da Torre de Menagem,
exposições, conferências, edição de publicações –
intervenção arqueológica, beneficiação em
destinados à comemoração dos 500 anos do
espaços de acolhimento ao público.
Mosteiro dos Jerónimos.
de fachadas, arranjos exteriores e limpeza da
ACÇÃO 2
Ciclo Internacional de Órgão
encosta, abate e limpeza de árvores, conserva-
EDIÇÃO DE PUBLICAÇÕES
no Palácio Nacional de Mafra
ção e restauro de mobiliário.
E OUTROS SUPORTES DOCUMENTAIS
1.ª fase: 2002-2003
E DIGITAIS COM CONTEÚDOS
Organização de um ciclo internacional de órgão
RELATIVOS AO PATRIMÓNIO
no Palácio Nacional de Mafra articulado com o
Convento de Cristo – 1.ª fase
E ANIMAÇÃO DO PATRIMÓNIO
Conjunto de pequenas intervenções de restauro
Convento de Santa Maria de Almoster
Projecto e intervenção de restauro do imóvel
restauro dos órgãos históricos nele existentes
(pedra, caixilharias, instalação eléctrica, etc.);
Divulgação e Animação
conservação e restauro de património integrado
do Património – 1.ª fase
(retábulos, azulejos, vitrais, pinturas murais,
Região de Lisboa e Vale do Tejo
Exposição Comemorativa Alfredo Keil
sinos, etc.), restauro de património móvel.
Acções de promoção e divulgação, organização
(1850-1907)
de encontros científicos, edição de publicações
Retrospectiva Monográfica
que têm vindo a ser desenvolvido.
(roteiros, desdobráveis, guias, catálogos, livros),
Projecto e montagem da exposição, edição de
ALENTEJO
iniciativas de promoção/animação cultural (exem-
catálogo, desdobráveis, cartazes e roteiros, divul-
Sé de Elvas
plo, Festival de Música de Mafra, Jornadas
gação da exposição, serviço educativo para apoio
Realização de estudos, obras de conservação
Europeias do Património) e edição de material
às visitas de escolas.
e restauro (drenagens, coberturas, rebocos,
promocional.
caixilharias, juntas), instalação de sinalética,
melhoramentos na instalação eléctrica interior,
Divulgação e Animação
MEDIDA 2.2
restauro (pinturas, azulejos, talha).
do Património – 1.ª fase
UTILIZAÇÃO DAS NOVAS TECNOLOGIAS
Regiões Norte, Centro, Alentejo
DA INFORMAÇÃO
Pontes Históricas – 1.ª fase
e Algarve (e não regionalizável)
PARA ACESSO À CULTURA
Pontes Romanas: Vila Ruiva, Monforte,
Acções de promoção e divulgação, organiza-
ACÇÃO 1
Brenhas e Vila Formosa
ção de encontros científicos, participação
INVENTARIAÇÃO E DIGITALIZAÇÃO
Limpeza de vegetação e recuperação das
em seminários, edição de publicações (roteiros,
DO PATRIMÓNIO IMÓVEL,
quatro pontes identificadas, instalação de
desdobráveis, guias, catálogos, livros), organi-
MÓVEL E A SUA DIVULGAÇÃO
191
A C T UA L
Inventariação e Digitalização
Sé de Vila Real
Desconcentrada da Cultura, aplicável a
do Património Histórico
Reabilitação física do Monumento, realização
todas as Regiões, à excepção de Lisboa e
e Cultural
de estudos.
Vale do Tejo, têm vindo a ser formaliza-
Criação de um sistema de informação assente
Mosteiro de São Paulo de Arouca
das candidaturas aos Programas Opera-
no inventário do património, carregamento de
Reabilitação física do Monumento, realização
cionais Regionais, através das Comissões
base de dados relativa a imóveis, recurso a
de estudos, aquisição de equipamento.
de Coordenação respectivas, encontrando-se já aprovadas:
cartografia e digitalização, aquisição de equipamentos, divulgação através das novas
CENTRO
tecnologias de informação e dos sistemas
Mosteiro de Santa Clara-a-Velha
NORTE
tradicionais.
3.ª fase
• Área Arqueológica do Freixo;
Projecto e obra de construção da cortina de
• Santuário de Panóias;
Foram entretanto apresentadas, encon-
contenção periférica, estudos, intervenções
• Citânia de Santa Lúzia;
trando-se em análise na Unidade de Gestão
arqueológicas, aquisição de equipamento diverso
• Castelo de Santa Maria da Feira;
as seguintes:
para estudo e acondicionamento de materiais
• Castelo Velho de Freixo de Numão;
recolhidos, aquisição de imóveis.
• Casa de Ramalde – Centro de Recursos
MEDIDA 1.1
do Património;
RECUPERAÇÃO E ANIMAÇÃO
LISBOA E VALE DO TEJO
• Castelo de Montalegre;
DE SÍTIOS HISTÓRICOS E CULTURAIS
Palácio Nacional de Queluz – 3.ª fase
• Castelo de Ansiães.
ACÇÃO 1
Beneficiações diversas no Palácio (exemplo, re-
OBRAS DE RECUPERAÇÃO
cuperação da Sala da Música e da Sala do Trono),
CENTRO
E DE VALORIZAÇÃO
restauro de património móvel, estudos e inter-
• Castelo de Marialva.
DE MONUMENTOS,
venções de beneficiação dos jardins (exemplo,
SÍTIOS HISTÓRICOS E ARQUEOLÓGICOS
estudo da água).
NORTE
Estão em preparação outras respeitantes
• Castelo de Évoramonte;
Mosteiro de Grijó
designadamente a Monumentos Religiosos
• Castelo de Viana do Alentejo.
Reabilitação física do Monumento e acções
localizados nas Regiões Norte (Igreja do
de conservação e restauro do património inte-
Mosteiro de Santa Maria do Bouro) e
ALGARVE
grado.
Centro (Mosteiro do Lorvão, Mosteiro
• Castelo de Aljezur.
ALENTEJO
• Castelo de Alcácer do Sal;
de Santa Cruz de Coimbra, Igreja das
Convento de Ferreirim
Carmelitas e Capela das Barrocas em
Continuam em fase de instrução outras
Realização de estudos, acções de recuperação
Aveiro), para além de Pontes Históricas,
candidaturas neste domínio da Compo-
do Mosteiro, aquisição de terrenos.
Divulgação e Animação de Castelos e
nente Desconcentrada da Cultura, desig-
Recuperação e Valorização da Charola do
nadamente no que respeita a Assistência
Igreja Matriz de Caminha
Convento de Cristo em Tomar, não se
Técnica.
Reabilitação física do Monumento, realização
esgotando todavia o universo potencial.
Julho de 2001
de estudos.
Por outro lado, no âmbito da Componente
Fernanda Garção,
192
DPG/IPPAR
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estudos - Direção Geral do Património Cultural