MARX 2014| Seminário Nacional de Teoria Marxista – Uberlândia, 12 a 15 de maio de 2014
Em torno da publicação e do significado de A Ideologia Alemã
Leon Allein Tonatto
Rafael Watanabe1
Resumo: O presente trabalho busca analisar o significado conceitual e as publicações
dos manuscritos de Karl Marx e Friedrich Engels redigidos nos anos 1845-1846 e que seriam
postumamente denominados de A Ideologia Alemã, permanecendo inéditos durante a vida dos
autores, levando em consideração as diferentes organizações da obra ao longo de distintas
conjunturas históricas, desde o projeto da MEGA, (Marx Engels Gesamtausgabe); da MEW
(Marx Engels Werke); e culminando na proposta, iniciada na década de 1970, das publicações
perpetuadas pela MEGA-2, que como diferencial, tem por objetivo demonstrar de forma
fidedigna e por ordem cronológica o conjunto das obras originais, dos manuscritos e da
correspondência dos autores. A partir da análise das distintas traduções brasileiras da obra em
questão (referimo-nos a edição da Boitempo e Civilização Brasileira).
Referente aos seus significados em especifico será abordado, em primeiro lugar o
marco de ruptura, o acerto de contas, que a obra determina, entre Marx e Engels com suas
antigas concepções filosóficas, representadas pelos jovens hegelianos, aos quais Marx
criticava, sobretudo, por combaterem fraseologias. E em segundo momento será analisado o
significado conceitual, pois nesta obra, ainda que de uma forma inacabada, já são assinalados
os pressupostos constitutivos de um modelo de interpretação que solidifica suas bases em
pressupostos materiais e históricos.
Palavras-chave: Marxismo; A Ideologia Alemã; Materialismo Histórico.
[...] e quando ele [Friedrich Engels], na primavera de 1845, veio também
instalar-se em Bruxelas, decidimos elaborar em comum nossa oposição
contra o que há de ideológico na filosofia alemã; tratava-se de fato, de
acertar as contas com a nossa antiga consciência filosófica. O propósito
tomou corpo na forma de uma crítica da filosofia pós-hegeliana. O
Manuscrito, dois grossos volumes in octavo, já havia chegado há muito
tempo à editora em Westfália quando fomos informados de que a impressão
fora impedida por circunstancias adversas. Abandonamos o manuscrito à
1
Leon Allein Tonatto e Rafael Watanabe são graduandos do curso de Licenciatura em História da Universidade
Tuiuti do Paraná e alunos do programa institucional de Bolsas de Iniciação Científica - PIBIC/UTP. Email para
contato: leon.1853@hotmail.com e w.rafa77@gmail.com.
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crítica roedora dos ratos, tanto mais a gosto quanto já havíamos atingido o
fim principal: a compreensão de si mesmo.2
Entre 1845 e 1846, Karl Marx e Friedrich Engels, redigiram em conjunto diversas
notas e manuscritos, expondo críticas às suas antigas concepções filosóficas, representadas na
época pelos chamados “Jovens Hegelianos”, (Bruno Bauer, Edgard Bauer, Max Stirner, Karl
Grün, Moses Hess e sobretudo Ludwig Feuerbach), que por sua vez destacavam-se não só
como idéia hegemônica no meio operário alemão bem como representavam, de certa forma, a
concepção filosófica dominante entre os alemães.
Houve necessidade de Marx e Engels, com suas idéias cada vez mais aprofundadas,
de exprimirem suas novas posições e evidenciarem como estas divergiram das defendidas
pelos Jovens Hegelianos, os quais para os autores combatiam tão somente fraseologias,
mantendo-se no campo teórico em detrimento da vida real dos homens.
O presente trabalho analisará a constituição da “Idelogia Alemã”, os meios que
levaram a Marx e Engels romperem filosoficamente com os jovens Hegelianos, a situação
econômico-social alemã que veio a contribuir para o desenvolvimento de determinados
conceitos e teses pelos autores, sobretudo da concepção materialista da História.
O conhecimento histórico, também ganha moldes mais precisos para Marx, ele é
fundado na realidade. Compreendendo as relações sociais a partir destas, o materialismo tem
seu inicio com uma análise, a principio, empírica de mundo, constatando existência de
indivíduos humanos vivos e de que os homens produzem seus meios de subsistência, o fato de
produzir já distingui os homens dos animais. Produção, que ganhou ênfase no seu estudo e
está determinada por condições materiais precisas, sobretudo do modo de produção, ou seja, o
modo pelo qual os homens manifestam a sua vida, que é legado pelas gerações anteriores:
O que eles são coincide, pois, com sua produção, tanto com o que produzem
como também com o modo como produzem. O que os indivíduos são,
portanto, depende das condições materiais de sua produção.3
Inicialmente, há de destacar, dois aspectos iniciais, o primeiro refere-se aos
manuscritos que acabaram sendo deixados de modo inacabado e está ligada com a situação
das publicações das obras; e o segundo refere-se, ao acerto de contas que Marx e Engels
realizam com as suas antigas concepções filosóficas.
2
MARX, Karl. Prefácio Para a Critica da economia Política. In: Karl Marx Manuscritos econômico filosóficos e
outros textos escolhidos. São Paulo: Nova Cultural, 1987, (Os Pensadores), p. 30-31.
3
MARX, Karl; ENGELS Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p.87.
2
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Como já citado anteriormente, os manuscritos redigidos entre 1845-1846, compondo
dois volumes, foram postumamente denominados de A Ideologia Alemã, houvera tentativa
para publica-los, mas não se logrou êxito, devido a problemas editoriais, deixando como Marx
referia-se de “bom grado”, pois já haviam chegado ao resultado de compreensão de si
próprios, os manuscritos que haviam sido enviados a Westfália, ficaram a mercê da “critica
roedora dos ratos”, sendo encontrados posteriormente, ainda que os documentos não
possuíssem uma forma reservada a publicação, é relevante destacar que possuíam um caráter
inacabado, no entanto, na obra há presença de elementos, que evidenciam as bases sob as
quais Marx e Engels estruturariam o a teoria materialista da história, como veremos na
sequência da nossa exposição. Os documentos mantêm-se inéditos, até a publicação, que
ocorrerá somente em 1933, no entanto, Engels já em 1885, vai referir-se sobre estes
manuscritos:
Quando nos voltamos a encontrar em Bruxelas na Primavera de 1845, Marx
tinha já extraído dessas bases uma teoria materialista da história, completada
nas suas grandes linhas, e propusemo-nos elaborar em pormenor e nas mais
diversas direções a nossa recém-adquirida maneira de ver.4
Levando em consideração o caráter inacabado dos manuscritos (não foram
destinados à publicação e muitas páginas e termos fragmentados e incompletos), bem como
sua característica inédita, havia um grande desafio para aqueles que organizaram estes textos.
Durante o século XX a ordenação do manuscrito foi diversificada, iniciando na década de
1920, sob os auspícios da MEGA (Marx Engels Gesamtausgabe), editada inicialmente por
David Riazanov posteriormente por V. Adoratski5, Riazanov fora diretor do Instituto Marx e
Engels (IME), cuja criação data de 1921 e já em 1924, o IME em conjunto com o Instituto de
pesquisas sociais em Frankfurt e apoio da Socialdemocracia Alemã iniciam as publicações da
MEGA, com objetivo inicial de publicar 42 volumes, divididos em três partes: a primeira,
referente aos escritos de Marx e Engels; a segunda, os manuscritos de Karl Marx até, 1957,
bem como, o projeto da Crítica da Economia Política; e a terceira, as correspondências entre
Marx e Engels, no entanto, não foram publicados e organizados todos os textos e obras,
devido a situação interna da URSS, com a consolidação de Josef Stalin no poder, e o
“marxismo-leninismo” como bandeira oficial do partido, bem como a externa, levando-se em
conta a subida de regime de Adolf Hitler na Alemanha.
4
BOTTIGELLI, Émilie. A gênese do socialismo cientifico. Lisboa: Estampa, 1971, p. 172.
David Riazanov, ficou sob direção da MEGA até 1931, quando foi preso e por iniciativa política, sendo
substituído por Vladimir Adoratski.
5
3
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Referente aos manuscritos que foram organizados, dentro da primeira parte da
MEGA, como a “Ideologia Alemã”, estes não foram publicados seguindo a disposição
original, sendo organizados, com objetivo expresso de oferecer uma sistematização dos
conceitos do materialismo histórico para a difusão do pensamento marxista, tendo em vista, a
conjuntura, após a Revolução Russa de 1917, que tornou ainda mais necessária a ordenação
da obra.
Foi novamente publicado, na década de 1950, na “Marx Engels Werke” (MEW),
pelos Institutos Marx e Engels de Berlim e Marx, Engels e Lenin de Moscou. Já nos anos 70
com o inicio do projeto, de uma nova edição da Marx Engels Gesamtausgabe, conhecida por
“MEGA-2”, houve um crescente compromisso de romper com as edições mais politizadas da
obra, para obter uma óptica mais voltada à reprodução dos manuscritos originais voltada a
publicação do conjunto das obras, dos manuscritos e da correspondência de Karl Marx e
Friedrich Engels.
No Brasil, a recente publicação (2007) de duas novas e distintas traduções brasileiras
dos manuscritos constitutivos da obra de Karl Marx e Friedrich Engels, A Ideologia Alemã,
demonstram os diferentes critérios de edição e da herança literária dos fundadores do
materialismo histórico. Presente nas edições da Editora Civilização Brasileira (tradução de
Marcelo Backes) e da Editora Boitempo (tradução de Rubens Enderle, Nélio Schneider e
Luciano Marttorano) e que, de determinado modo, distinguem-se entre si, devido aos critérios
utilizados para à publicação.
A comparação das diferentes edições torna-se ainda mais importante, tendo em vista
a atual conjuntura de debates que caracterizam a Marx-Renaissance, a análise das publicações
e organizações das obras de Marx e Engels, tornam-se latentes. A MEGA-2, a qual se propõe
a uma análise mais fidedigna ainda assim deixa algumas lacunas em aberto, pois,
[...] supor que a pesquisa filológica sobre a obra de Marx e Engels
forneceria, por si só, a garantia ultima de uma cientificidade é um
procedimento ingênuo, que desconsidera que numa empreitada desta
natureza torna-se necessária uma atividade interpretativa de âmbito mais
geral. Esta ultima vai reunir conhecimentos históricos, econômicos,
políticos, filosóficos e filológicos para buscar o maior grau possível de
aproximação à obra de Marx e Engels, mas sabendo de antemão que uma
objetividade plena (...) é meta impossível de ser alcançada..6
6
MARTINS, Vieira Maurício. Sobre a nova Edição da obra de Marx e Engels: só a filologia salva?. Marx e o
Marxismo,
Rio
de
Janeiro,
v.1,
n.1,
2013.
Disponível
em:
<marxeomarxismo.uff.br/index.php/MM/article/view/1/23> . Acesso em: 20 abril 2014.
4
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Daí a distinção, levantada no artigo, já supracitado de Maurício Vieira Martins
publicado na Revista Marx e o Marxismo, evidenciando, as leituras tanto objetivas como
objetivadas, nas quais a primeira, busca uma “objetividade plena”, para que consiga-se uma
análise do sujeito como ele está apresentado; a objetivação, se diferencia, pois permite a
utilização dos melhores recursos de um campo do conhecimento afim de corroborar para uma
análise mais cientifica, levando-se em conta toda a conjuntura histórica na qual determinada
obra está imersa, daí a problemática que se levanta no que concerne a MEGA-2 e sua
“fidedigna” análise das obras.
Estabelecendo uma pequena comparação das obras em suas distintas edições
brasileiras, refiro a da Boitempo e da Civilização Brasileira, temos na primeira, o texto,
conservando e indicando o estado original dos Manuscritos, sendo organizada com esta
função de manter determinada fidedignidade; no segundo há indicações, mas mantem-se um
texto preservando a coerência textual, ou seja, um modo que o texto seja mais objetivo que
objetivado, como podemos, por exemplo, observar no seguinte trecho, sob a edição da
Civilização Brasileira:
Esse “estranhamento” [Entfremdung] para nos expressarmos em termos
compreensíveis aos filósofos, só pode ser supra-sumido caso se parta de duas
premissas práticas. A fim de que se converta em um poder “insuportável”,
quer dizer, em um poder contra o qual se revoluciona, é necessário que se
engendre uma massa da humanidade como absolutamente “sem posses” e, ao
mesmo tempo, em contradição com um mundo de riquezas e de educação
existente, o que pressupõe, em ambos os casos, um grande incremento da
força produtiva, um alto grau de seu desenvolvimento [...]7
O presente trecho começa por esboçar os pressupostos necessários para o comunismo
se estabelecer efetivamente, com o desenvolvimento das forças produtivas e do intercambio
mundial, para que transcenda de um fenômeno local, no entanto, este mesmo trecho, na
edição da Boitempo, possui uma organização distinta, se na Civilização Brasileira, ele é
expresso de modo, que o texto seja objetivo, na edição da Boitempo, este mesmo trecho, como
anotação de Marx, está configurado como nota de rodapé, a fim de possibilitar uma análise
mais objetivada da obra.
Além da configuração de determinadas passagem do texto, como a exemplo,
determinadas supressões do manuscrito e anotações dos autores, há também uma diferença
nas traduções de alguns termos, como neste exemplo: Entfremdung, que na Edição da
Boitempo é traduzido como “Alienação” e na versão da Civilização Brasileira como
“Estranhamento”, é mais um exemplo do caráter diverso das organizações, o que demonstra
7
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p.57-58.
5
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mais uma vez o caráter inacabado da obra e a configuração de que a Ideologia Alemã foi uma
obra de transição no pensamento marxiano, que se complexaria no decorrer dos estudos.
No entanto, para que Marx e Engels desenvolvessem uma concepção materialista da
história, houvera necessidade de entrarem em contato com os problemas reais aos quais estava
inserida a então Alemanha. Marx como redator da Gazeta Renana, entrou em contato com as
situações envolvendo os “interesses materiais”, as questões sociais e econômicas, o que
serviria para impulsionar seus estudos a posteriori, pois devido a grande pressão política
exercida, sobretudo por Frederico-Guilherme IV, acabaria se demitindo deste jornal e se
retirando aos seus gabinetes de estudos, com destaque para sua estadia na França, localidade
em que entra em contato com o pensamento socialista utópico Frances. Engels por sua vez já
estava em contato com a situação política e com o pensamento econômico Inglês, ainda em
1845, como expresso em sua obra: A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, que
exerceu grande influencia nos estudos posteriores de Marx.
O pensamento marxiano, no entanto, ainda estava embebido de influência Hegeliana,
e com a profundidade de seus estudos foi cada vez mais se distanciando deste, chegando ao
ponto em que fora necessário romper com as concepções filosóficas dominantes na
Alemanha, que influenciaram seu pensamento, especificamente aqueles perpetuadas, pelos
chamados “Jovens Hegelianos”, esboçaremos de modo geral, o que representou os hegelianos
de esquerda para a história da filosofia alemã.
Para entender de forma mais lúcida a influencia na qual a filosofia dos Jovens
Hegelianos, é necessário voltar à importância de Hegel, para a filosofia alemã. Hegel tem por
orientação em sua filosofia, aplicar o movimento e a história, buscando expor que o
conhecimento do Homem pode ascender ao saber absoluto8, a consciência em um
determinado momento, em um movimento dialético, supera-se a si própria e progride até
chegar à consciência de si, deste modo o Homem toma consciência pela sua elevação até o
saber absoluto, Hegel atribuiria a razão como motor da história, e a liberdade como seu fim
especifico, em sua filosofia da história, demonstra que durante o desenvolvimento humano, o
homem tende a libertar-se cada vez mais.
Em seu pensamento, Hegel introduz o conceito de negação, que levou a resolver
determinada contradição, embora, na resolução desta há determinações da coisa e do seu
oposto,
[...] uma flor só tem sentido porque parece e dá origem a um fruto. Ela traz
já em si a sua própria contradição, o seu contrário o fruto, mas o fruto
8
Estado, no qual o homem, reencontraria o mundo, o caminho da sua própria razão.
6
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manteve o que era a promessa de fecundidade da flor, pois comporta, por sua
vez, sementes que hão-de-germinar e desabrochar em novas flores,9
Este exemplo natural demonstra o que levaria a Hegel determinar, que a negação da
negação é o motor da dialética, aspecto que influenciaria Marx no decorrer de seus estudos.
No entanto Hegel segue constituindo-se como um Idealista, pois transfigura a
dialética do real para o filosófico, transformando-a na dialética da Idéia Absoluta, e que
configurara na premissa de que o movimento do mundo é o movimento da idéia, constituindoa como a origem do movimento.
O Estado para Hegel, também tinha uma função, importante, pois representava a
forma revestida da Idéia Absoluta no domínio do governo dos homens, por isso ele é racional,
e o monarca representa a encarnação da idéia absoluta, sendo Hegel um dos defensores de
uam monarquia constitucional aos moldes da restauração na França, pois os homens, ainda
não haviam chegado ao estágio da consciência de si elaborada, daí a força que o
Hegelianismo arregimentou durante o inicio do século XIX, chegando a ser favorecido pelo
ministro da cultura da Prússia, a que seu sistema fosse implantado nas universidades.
Após a morte de Hegel, sua filosofia se mantém intacta por um determinado tempo,
seus discípulos, no entanto, mantinham ou se esforçavam por manter o concilio entre filosofia
e religião, que para o mesmo, a primeira era a explicação racional da segunda, que destacavase por ter a mesma percepção que a filosofia, mas por meio da imaginação, a realidade era a
mesma em ambas.
Apesar do caráter incontestável, que percebiam a filosofia de Hegel, como o ponto
máximo do campo filosófico, no qual seus discípulos apenas deveriam desenvolver
determinadas implicações, aumentam-se os debates referentes à “Imortalidade da Alma” e a
“Personalidade de Deus”, o que seria o inicio da divisão dentro do seio do grupo hegeliano,
sendo aprofundado por David Strauss em sua obra Vida de Jesus (1835), que em linhas gerais,
chegou a seguintes considerações, sobretudo no campo teológico, de que,
Los Evangelios eran para él imaginaciones de hechos producidos por la
conciencia colectiva de un pueblo que há llegado a una determinada fase de
desarollo. Esto implicaba que la revelación y la encarnación de la esencia
divina no podía reducirse a una dimensión individual y que su único campo
adecuado era el conjunto de la humanidad.10
9
BOTTIGELLI, Émilie. op. cit,. p. 52
“Os Evangelhos eram para ele imaginações de feitos produzidos pela consciência coletiva de um povo que
chegou a um determinado estágio de desenvolvimento. Este implicava que a revelação e a encarnação da
essência divina não poderia reduzir-se para uma dimensão individual e seu único campo adequado era todo o
conjunto da a humanidade”. MCLELLAN, David. Marx y lós jovenes hegelianos. Barcelona: Martínez Roca
S.A, 1971, p. 15.
10
7
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Strauss tenta resolver, uma das lacunas deixadas em aberto sobre Hegel, que era a
forma infinita e perfeita de Deus e a natureza finita e imperfeita do homem, levando-se em
conta a encarnação de Jesus Cristo, chegando à conclusão de que a humanidade é a unificação
de duas naturezas, Deus encarnado, o espírito infinito que aparece como uma forma finita;
bem como, o espírito finito que tomou consciência de sua infinidade, Jesus portanto, poderia
ser um mito, reflexo do qual a humanidade almeja chegar a infinidade, daí a obra de Strauss
causar polêmica e aprofundar o racha entre os hegelianos de direita (Marx denominaria de
Velhos Hegelianos), esquerda (Jovens Hegelianos) e centro.11
Com o passar dos estudos acentua-se ainda mais a divisão entre ambos os grupos,
sendo distinguidos, por Marx, da seguinte forma:
Os velhos-hegelianos haviam compreendido tudo, desde que tudo fora
reduzido a uma categoria da lógica hegeliana. Os jovens-hegelianos
criticavam tudo, introduzindo furtivamente representações religiosas por
debaixo de tudo ou declarando tudo como algo teológico. Os jovenshegeliano concordam com os velhos-hegelianos no que diz respeito à crença
no domínio da religião, dos conceitos, do universal no mundo existente. Só
que uns combatem como usurpação o domínio que os outros saúdam como
legitimo.12
Os jovens-hegelianos, portanto, constituíam-se como um grupo de discípulos de
Hegel, que preocupavam-se de inicio com assuntos religiosos, após ascensão de FredericoGuilherme IV, e o abrandamento da censura, puderam arregimentar-se em jornais, e propagar
suas idéias, acreditavam que a razão estava em progresso, e eles eram os mensageiros de todo
este processo. Os mesmos acabaram por influenciar O Jovem Marx, que herdou da crítica
religiosa de Bruno Bauer, o molde para sua crítica da economia e política.
Outros jovens-hegelianos, também influenciaram o pensamento de Marx, como
Ludwig Feuerbach, no seu humanismo radical em detrimento da supremacia da idéia
hegeliana e também de Moses Hesse, na aplicação da teoria na economia.
De forma geral, Karl Marx, no decorrer dos manuscritos de A Ideologia Alemã,
revelaria que a transformação, perpetuada com Strauss intensificar-se-ia, mas adverte que a
crítica de Strauss a Stirner fica limitada a critica das representações religiosas, em realidade
não passavam de uma decomposição do sistema idealista13 desenvolvido por Hegel, na qual
11
O Próprio Strauss delimitou esta divisão, em 1837, com base nas críticas que recebeu após a obra, inspirandose na organização do parlamento francês.
12
MARX, Karl; ENGELS Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p.84.
13
O Idealismo Hegeliano, em linhas gerais se caracteriza por transformar o mundo material real em um mundo
do pensamento, na qual as idéias e conceitos exerceriam influencia na vida dos homens.
8
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os mesmos se sustentavam e em seguida partiam do próprio questionamento hegeliano para
encontrar determinadas respostas, perpetuando uma critica ao mundo das idéias para assim
imaginar estar alterando a realidade.
Desta forma, Marx concluiria que os jovens hegelianos apenas combatiam
fraseologias, nada que implique diretamente na alteração do mundo real sensível. Marx
estenderia o debate para fora do campo teológico, religioso, que detinha determinada
importância na Alemanha, e aplicaria a discussão para o campo político e, sobretudo, o
econômico. O autor questionou, em sua obra, aos jovens hegelianos, no sentido de que estes
não teriam observado a coerência entre a filosofia e a realidade que era vivenciada na
Alemanha, olvidando de relacionar a critica com seu próprio meio real de vida.
Este combate a fraseologias e componentes do mundo idealista, é por sua vez
também criticado em relação a Ludwig Feuerbach, a quem, Marx elaborou 11 teses em sua
crítica, ainda que tenha reconhecido determinado progresso no pensamento. As observações
referentes a Feuerbach estão centradas no fato de que o mesmo, inverteu a relação entre
sujeito e objeto do Idealismo, não fora Deus quem criou o homem, mas o homem quem criou
Deus, com isso ele, segundo Marx, fica retido em uma abstração, pois a concepção de homem
em Feuerbach não contempla o homem real, pois desconhece as relações humanas, do homem
para com o homem.
Vê-se então nas teses de Marx sobre Feuerbach, a diferença entre as suas
concepções:
A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que induzem a
teoria ao misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na
compreensão dessa prática.14
Em Feuerbach, o mundo sensível não é considerado como uma prática humana, mas
como um simples dado, não percebendo que este mundo material, real que tem por base a sua
filosofia se transforma no decorrer do tempo devido à atividade dos homens.
Passamos agora para uma breve análise de algumas teses desenvolvidas por Marx e
Engels na obra em tela.
Um dos aspectos característicos d’A Ideologia Alemã é a ruptura com a então vigente
produção filosófica idealista; por outro lado, esta obra assinala os pressupostos constitutivos
de um modelo interpretativo que firma suas bases em pressupostos materiais e históricos.
Acerca da história, Marx observa:
A história nada mais é do que o suceder-se de gerações distintas, em que
cada uma delas explora os materiais, os capitais e as forças de produção a ela
14
Id. Ibid. p.539
9
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transmitidas pelas gerações anteriores; portanto, por um lado ela continua a
atividade anterior sob condições totalmente alteradas e, por outro lado,
modifica com uma atividade completamente diferente as antigas condições
[...].15
Portanto as premissas das quais partem não são arbitrárias nem dogmáticas, como
casuística à construção de um modelo de interpretação histórica, Marx e Engels, baseiam-se
nos indivíduos reais, em sua atividade prática e nas condições materiais de vida, tanto as já
dadas, ou seja, as condições de inserção no conjunto social que independe da vontade
individual, tanto quanto as conjunturas produzidas pela práxis dos indivíduos16.
O axioma, de que para existência da história humana, é necessária a existência de
indivíduos vivos, leva, para tanto que estes últimos devem produzir e reproduzir sua vida de
forma material para que possam existir. A forma pela qual os homens reproduzem sua
existência é condicionada pela forma constitutiva dos meios de vida já existentes na natureza,
o que por sua vez, pressupõe uma articulação inextrincável entre a história natureza e a
historia da humana; entre o individuo e as propriedades do meio social ao qual àquele se
insere.
Ao contrário das alegações da filosofia especulativa alemã, os homens, segundo Marx,
não se diferenciam dos animais pela sua consciência, religião, filosofia, moral etc., mas sim
pela sua produção. Este conceito, de produção, servirá como eixo sob o qual se fundamentará
a construção do materialismo histórico. Ainda que de forma incipiente, uma vez que os
conceitos não se encontram ainda, plenamente desenvolvidos nos manuscritos que formam A
Ideologia Alemã. Todavia a obra em questão constituirá uma das poucas exposições
sistemáticas do materialismo histórico.
Esta produção da vida é determinada, pois independe da vontade dos indivíduos e
estrutura-se segundo o conjunto das condições materiais existentes e, é ao mesmo tempo
determinante, na medida em que, o que os indivíduos são “coincide, pois, com sua produção,
tanto com o que produzem como também com o modo como produzem. O que os indivíduos
são, portanto, depende das condições materiais de sua produção”, nos informa Marx17.
A produção, segundo A Ideologia Alemã, é intrinsecamente relacionada com uma
divisão do trabalho. Esta última condiciona as disposições dos sujeitos junto à produção,
concomitantemente em suas relações sociais e, consequentemente, no maior ou menor
desenvolvimento das forças produtivas; uma alteração na divisão do trabalho pressupõe,
15
Id. Ibid. p.40
Id. Ibid. p.86-87.
17
Id. Ibid. p.87 e 94-95.
16
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portanto, diretamente nas relações entre os indivíduos sociais e, engendra uma alteridade na
maneira em que estes estabelecem as relações comerciais (Verkehr), relações estas, que
ulteriormente Marx denominará como relações de produção.
O conceito de divisão do trabalho, em A Ideologia Alemã assume um importante papel
quanto à estruturação teórica, a partir dela Marx poderá definir o limiar dos interesses sociais
antagônicos. Sobre a divisão do trabalho e dos nexos por ela estatuídos, os autores observam
que:
A divisão do trabalho no interior de uma nação leva, inicialmente, à
separação entre o trabalho industrial e comercial, de um lado, e o trabalho
agrícola, de outro, e, com isso, à separação da cidade e do campo e à
oposição entre os interesses de ambos. Seu desenvolvimento posterior leva à
separação entre trabalho comercial e trabalho industrial. Ao mesmo tempo,
por meio da divisão do trabalho no interior desses diferentes ramos,
desenvolvem-se diferentes subdivisões entre os indivíduos que cooperam em
determinados trabalhos. A posição dessas diferentes subdivisões umas em
relação às outras é condicionada pelo modo como são exercidos os trabalhos
agrícola, industrial e comercial (patriarcalismo, escravidão, estamentos,
classes). As mesmas condições mostram-se no desenvolvimento do
intercambio entre as diferentes nações.18
Ainda no tocante a concepção da história, A Ideologia Alemã apresenta uma
genealogia das formas sociais, cuja expressão concreta é inteligível através da análise das
formas pelas quais os indivíduos produzem sua vida material, ou seja, tanto as formas de
organização social, quanto às formas pelas quais se desenvolveu a propriedade, visto que estas
são dialeticamente articuladas, distinguem-se, segundo Marx, pelo desenvolvimento da
produção.
No materialismo histórico, as formas da propriedade privada constituem as
representações que correspondem à determinada divisão do trabalho. Produção que é,
portanto, a expressão objetiva, concreta, sensível, enfim, real, da interação recíproca das
forças produtivas e a tipologia especifica que a divisão do trabalho assume em cada distinto
estágio da história.
Desde a propriedade e exploração coletivas do solo, onde as forças produtivas e os
instrumentos são pouco desenvolvidos, à latente escravidão no interior das famílias
(Antiguidade Clássica), passando pelas corporações de ofício, manufaturas, até o
desenvolvimento e instituição da grande indústria, as antíteses sociais desenvolvem-se, de
maneira progressiva, o que fomenta um antagonismo, a saber, existência de explorados e
exploradores.
18
Id. Ibid. p.89
11
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A dominação de uns indivíduos por outros, pressupõe a alienação. Esta alienação
enquanto estranhamento do e no trabalho, ou seja, da atividade que transforma e produz, em
relação à apropriação do produto engendrado pelo trabalho, produto que por não pertencer ao
seu produtor direto, faz com que os indivíduos o apreendam como um poder objetal externo e
alheio a si mesmos. Este conceito de alienação serve para uma rápida demonstração da
supracitada incipiência do materialismo histórico na obra em questão, pois expressa a
transição do pensamento de Marx e Engels, uma vez que a aplicação do termo difere do
sentido em que era empregado pela filosofia idealista hegeliana, contudo delineia e imprime
as dificuldades inerentes à formação de uma teoria que rompe com as epistemologias
precedentes.19
Se se considera a atividade sensível, ou seja, o trabalhar e o constante criar que
resultam na produção da vida material deve-se, igualmente, considerar as formas segundo as
quais os indivíduos estabelecem o intercâmbio, que formam, segundo Marx, a sociedade civil:
A sociedade civil abrange o intercâmbio material conjunto dos indivíduos no
interior de um determinado estágio de desenvolvimento das forças de
produção. Ela abrange a vida comercial e industrial completa de um estágio,
e nesse sentido vai além do Estado e da nação, ainda que por outro lado volte
a se fazer valer para o exterior na condição de nacionalidade, ao passo que
para o interior tenha de se organizar como Estado. O conceito de sociedade
civil surgiu no século XVIII, quando as relações de propriedade já haviam se
diferenciado da essência comum típica da Antiguidade e da Idade Medieval.
A sociedade civil (bürgerliche Gesellschaft) como tal se desenvolve apenas
com a burguesia20.
Portanto, ao ponderar-se acerca de um contexto histórico universal, os indivíduos que
atuam como produtores diretos encontram-se dominados por um poder estranho a eles, o que,
por sua vez resulta em um antagonismo de classes, que segundo os autores, somente poderá
ser resolvido mudança total, que regule a produção e a distribuição, ao mesmo tempo, em que
suprime a exploração dos indivíduos. Tal revolução somente será possível sob dois
pressupostos práticos, a saber, a dicotomia entre uma ampla massa humana sem propriedade e
uma classe cuja ostentação não se limita a nada, e por outro lado um desenvolvido e coeso
estágio das forças produtivas;21 para que desta maneira, não se recaia em uma generalização
da escassez e pobreza, o que somente levaria á um retorno e não a um movimento real que
suprassume o estados de coisas.22
19
Id. Ibid. p.38-39
Id. Ibid. p.40-41.
21
Id. Ibid. p.38
22
Id. Ibid. p.49-50; 67.
20
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MARX 2014| Seminário Nacional de Teoria Marxista – Uberlândia, 12 a 15 de maio de 2014
REFERENCIAS
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BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2001.
COSTA NETO, Pedro Leão. Notas introdutórias sobre a publicação das obras de Marx e
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MARTINS, Vieira M. Sobre a nova Edição da obra de Marx e Engels: só a filologia salva?.
In:
Marx
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v.1,
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2013.
Disponível
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MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2007.
MARX, Karl. Prefácio Para a Critica da economia Política. In: Karl Marx Manuscritos
econômico filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Nova Cultural, 1987, (Os
Pensadores).
MCLELLAN, David. Marx y lós jovenes hegelianos. Barcelona: Martínez Roca S.A, 1971.
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