Cristina Camargo Banks Leite
Conservação da comunidade de aves de sub-bosque em paisagens fragmentadas da Floresta Atlântica
RESUMO
Florestas tropicais comportam dois terços de todas as espécies existentes no mundo, mas a perda de habitat,
fragmentação e alteração na qualidade do habitat estão levando esta biodiversidade à extinção. Apesar de haver
uma extensa literatura sobre este assunto, há um consenso geral de que o conhecimento gerado por muitos
estudos é dependente do contexto e permeado por dificuldades metodológicas, como a alta correlação entre os
fenômenos ocorrentes em paisagens alteradas pela ação humana e a miríade de respostas biológicas
encontradas entre espécies. Desta forma, há ainda muita incerteza sobre a generalidade dos padrões
observados e sua efetiva aplicação para a conservação de áreas naturais. Assim, nesta tese o objetivo foi de
contribuir para esta discussão ao responder as seguintes perguntas: (i) Qual papel que bordas ecossistêmicas e
efeitos de borda desenvolvem em comunidades naturais? (ii) A comunidade de aves é afetada pela
fragmentação do habitat de maneira semelhante em matas primárias e secundárias? (iii) Seriam os efeitos de
área e de borda análogos, e estariam estes associados em uma relação causal? (iv) Como a comunidade de
aves se comporta com relação à variação na cobertura florestal, configuração do fragmento e qualidade do
habitat, e será possível separar o efeito de cada variável? (v) Diferenças no protocolo amostral poderiam alterar
as estimativas de atributos da comunidade e mudar a magnitude dos padrões ecológicos observados assim
como a probabilidade de detectá-los? E (vi) qual estratégia é mais eficiente em identificar locais com alta
integridade da comunidade, espécies indicadoras ou métricas indicadoras, como métricas da paisagem? Para
responder estas perguntas foram usados dados provenientes de mais de 7000 aves capturadas com redes de
neblina em 65 pontos amostrais localizados em seis paisagens de diferentes proporções de cobertura florestal e
graus de perturbação na Mata Atlântica do Planalto Atlântico Paulista. Os resultados mostram que: (i) bordas
estão presentes tanto em habitats naturais quanto alterados pela ação humana e produzem grandes efeitos
sobre espécie e comunidades; (ii) apesar de matas secundárias possuírem uma comunidade de aves
empobrecida, a forma como as aves são afetadas pela fragmentação nestes habitats é semelhante a matas
primárias; (iii) efeitos de borda não são apenas análogos, mas podem ser a causa dos efeitos de área de
fragmento; (iv) os efeitos de mudanças na cobertura florestal, configuração do fragmento e qualidade do habitat
são altamente correlacionados e só podem ser separados com o uso de técnicas estatísticas que controlem
explicitamente esta correlação; (v) a forma como o protocolo de amostragem é estruturado temporalmente afeta
os padrões encontrados da relação espécie-área em paisagens fragmentadas; e por fim, (vi) métricas
indicadoras, produzem resultados mais fortes e consistentes do que espécies indicadoras na identificação de
áreas com alta integridade da comunidade. Assim, conclui-se que as aves de sub-bosque na Mata Atlântica são
fortemente afetadas pela perda de habitat, fragmentação e mudanças na qualidade do habitat, mas esta
influência é muito dependente do contexto temporal e espacial em que o estudo é realizado. Ainda, devido à
baixa consistência dos resultados obtidos com amostras de curta duração, aliado ao grande poder explicativo
dos modelos contendo métricas da paisagem, métricas indicadoras devem ser consideradas como a melhor
estratégia para a identificação de áreas com alta integridade da comunidade.
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