Daniel Sampaio
Lições do Abismo
2.a edição
Lições do Abismo
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Sobre uma bala dirijo-me ao meu deus, alguém criado
pela minha própria ilusão. Gostaria de lhe dizer que estou
no inferno e que grito todos os dias, talvez porque viva
apenas com a esperança de alguém me olhar.
Não durmo, não consigo tirar tempo ao que me resta
para conhecer os meus pensamentos, certezas não tenho.
Apenas sei que a morte vai surgir de repente e, a sorrir,
oferecer-me a paz.
Desejaria rezar para sobreviver, mas sei que não basta
fechar os olhos para fugir à própria tragédia. Afinal estou
morto de mais para poder morrer, acreditei ter força suficiente para não me asfixiar, apenas pude suspirar quando
quis soltar um grito. Morri no instante em que pensei ter
começado a viver, porque não era possível continuar vazio
por dentro. Desconhecia (talvez) ter nascido para não viver, cortei-me e a felicidade foi a primeira coisa a sair de
dentro de mim. Fiquei mais quente, sofrimento físico em
vez de espiritual. Incerteza ou alucinação? A verdade é que
ontem tentei ficar mais puro, mas continuei sujo, a dor não
me deixa existir dentro do sonho que criei. Fui ao médico
e afogo-me agora em antidepressivos, haxixe e álcool, não
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para saber quem sou, apenas para alcançar o mais depressa
possível um futuro de incerteza. Desta vez não admito falhar,
nunca como agora desejei matar-me se o meu futuro não
for diferente, e ao mesmo tempo quero adiar para sempre
esse instante supremo em que sairei do meu corpo odiado e
ficarei a ver-me partir. Deve desprender-se de mim um olhar
e um cheiro de morte. As pessoas com quem me dou talvez
pressintam que o fim está próximo, por isso abraçam-me
sempre como se da última vez se tratasse.
O tempo passa depressa, o dia esvai-se dentro de mim,
os primeiros traços de escuridão de há uns meses ocupam
cada vez mais espaço. Na mais profunda solidão espero ser
livre, desesperado e abandonado choro, não tenho forças
para lutar por muito mais tempo.
(A morte é a minha vida)
Pode ter sido em vão o momento em que pedi ajuda,
hoje parece-me apenas o adiar de alguma coisa inevitável.
Apreciei os breves momentos em que surgiu alguém capaz
de me dedicar uns minutos do seu tempo, na tentativa frustada de explicar que eu não estava só no mundo. Passei a
ter a convicção de que a minha tristeza também se abate
sobre os outros, os tais que parecem ligados a mim por
sentimentos que não conheço, aqueles que embora não me
compreendam dedicam parte do seu tempo a olha-me com
atenção. Amam a infinitude das coisas, ainda acreditam
na humanidade e talvez queiram ajudar a viver a minha
pobre pessoa, por isso choram. Tenho de tornar claro que
não desejo ser preocupação para ninguém, não quero que
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sofram por minha causa, gostaria apenas de um pouco de
calma neste corpo tão cansado.
Invoco um sonho e deixo-me levar pela sua aparência,
anseio por um destino e deixo-me morrer na sua subtileza.
Tenho pouco tempo, muito pouco tempo para mudar
o mundo, não chegam os minutos em que vivo para me
abstrair da terra e vencer a inércia que me atormenta.
Tudo o que quero é atingir a minha apoteose final, alcançar o meu zénite, mas não sei se serei capaz, ignoro se
morrerei pelo caminho.
Agradeço aos meus pais terem sabido tomar conta do
meu corpo. A culpa de o detestar não é da sua responsabilidade. Tudo surgiu de repente.
Em criança vivia os dias sem pensar, amparado pela
minha mãe e pela minha avó. Lembro-me pouco do meu
pai, mas por certo a culpa também não será dele. Os pais
não sabem ensinar a viver o amor neste mundo a morrer,
transmitem apenas a cegueira necessária à sobrevivência
diária. Agradeço-lhes a escuridão que lançaram sobre mim
até aos dezoito anos.
Todas as manhãs sinto as veias dos braços a querer
explodir, por isso me corto. Apesar da minha raiva continuo
a ser ninguém. Caminho por entre os sonhos e procuro a
serenidade, busco a ilusão de que este momento vai passar
e vou surgir de novo, no espelho, sem vergonha de mim.
Com os olhos vazios, passo algum tempo a sobrevoar
o conhecimento da escuridão. Como uma criança nascida
na chuva, condeno-me a ficar para sempre gelado por
dentro.
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Apenas me interessa procurar o brilho da minha sepultura. Ouço-me mas não me escuto. Quero o isolamento, o
medo da morte e a sua derrota, ao mesmo tempo o meu
corpo e o meu espírito.
De repente, num sonho, sou capaz de deslocar o sol e
moldar-me em forma de pentagrama, depois abraço a lua,
toco nos meus lábios e sangro a vida. Parto num beijo, esqueço por momentos a minha tortura e os meus espasmos
de dor, renasço sem saber para quê. Fico à espera do recriar
do sonho, talvez consiga permanecer acordado, afinal também estou ansioso por experimentar novas formas de vida.
Quem sabe a minha queda não me deu força para continuar,
quem sabe se estive no paraíso da solidão ou no limbo que
precede a felicidade.
Sei, por outro lado, que denunciei a minha dor, o medo
foi capturado pelo pecado, a viagem eternizada pelas minhas
lágrimas, aquilo que nunca esperei está neste momento a
abraçar-me. Estou também consciente de que a minha existência ainda não foi apagada. Talvez uma insignificante dor
me impeça de me arrastar, os meus olhos brilham um pouco
mais, mas não posso libertar-me de pensamentos de morte.
Preso a um caminho, seguindo sempre a mesma questão,
anseio pelo fim do meu terrível aspecto.
Tudo o que de sagrado existe, tudo o que de profano
me abraça, é apenas amor sem dor, dor sem amor. Hipnotizado pelos olhos da escuridão, quero procurar a penumbra
e conhecer o sonho da vida. A minha alma leva-me para
demasiado longe, apodreço dentro do meu próprio caixão,
o céu puro arde e une-se ao inferno. Um estranho circuito
nasce e cobre a humanidade.
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Como é possível unir corpos e procriar? Lançar ao
mundo gerações criadas numa ilusão, tentar unir pessoas
numa vertigem que as conduzirá à morte?
Quem sou eu para mandar, tenho apenas dezoito anos,
não quero ditar regras, desejo apenas que me escutem um
bocadinho.
Oiçam: o que sinto realmente é a fúria, raiva por um
demónio (ou deus?) que destrói e treme com as suas próprias palavras. Um vento forte enche os meus olhos de um
pó de destruição, podem estar certos de que não desistirei
de me libertar desta decadência em que me encontro. Tenho pena que me ouçam gritar e pensem que são suspiros,
vejo o meu funeral e tu estás lá, toda de negro e com um
cachecol branco a esvoaçar, podes observar a minha pose
finalmente pronta para a imortalidade, o meu olhar ainda
pergunta o porquê do teu sorriso gélido.
Caio no abismo de alguém morto, por dentro ainda não
sinto a revolução que está prestes a começar. Quero arrastar-me pela dor daquilo que considero ser imortal, um infinito
fragmento que pressinto bem no interior de mim, por isso
as lágrimas caem num corpo flagelado por tantos cortes.
Nem sempre desisti. Durante algum tempo denunciei a
minha revolta, gritei liberdade, mostrei alguns caminhos que
pensava ter descoberto, mas a realidade à minha volta não
se alterou. Gostava que tivessem percebido que naqueles
momentos eu queria uma solução para os meus problemas,
uma resposta para o meu mau momento. Eu estava lá. Agora
é tarde, mas continuo a desejar mais clemência face ao meu
modo de ser. Posso não brilhar durante o dia, talvez consiga
que não me ouçam à noite, mas permaneço no mesmo sítio.
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Não devo nada a ninguém, lamento apenas que não tenham
entendido o abismo em que mergulhei.
Questiono-me sobre se vou ser amado, por um dia que
seja, se alguém sentirá a minha falta. Sei, contudo, que
nada se inventa, nada se altera. Apenas poderei chorar
mais uma lágrima se notar o esboço de um abraço, se
pressentir um rosto que se volta quando passo. Tal não
acontecerá, por isso vou continuar o sofrimento, a perda
desenhada na eternidade. Quero ficar naquele lugar indefinido onde o conhecimento busca novos horizontes,
naquele instante em que o pôr do sol parece exigir ao
mar uma nova maré.
Levanto a minha sombra antes de mim, atravesso o tempo e deixo o meu rasto intacto, vou tentar que me procurem,
vou deixar iludir-me pelo orgulho que me resta. Alguém me
pode explicar o fim? Alguém sobrevive à própria morte?
Alguém voou até ao infinito?
Quero conhecer tudo. Corto os braços para saber o
limite, para ter a certeza de que não é engano a raiva que
sinto, nem miragem o local onde o meu corpo habita. Anseio mergulhar num mundo onde nada de errado irei fazer,
num universo onde nada de contraditório me fará sofrer.
Não sei se conseguirei. Apesar de me agradar morrer não
tenho forças para me matar, não tenho capacidade para
vencer a próxima luta, não sei como agir quando confrontado com a possível derrota. Por isso volto sempre ao
mesmo assunto, nem só por um momento me concentro
noutro tema. Desprezo as recomendações que fazem, como
hei-de concentrar-me no 12.o ano se o fim está próximo?
Por isso me obrigo a ficar com frio, apenas com as minhas
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Lições do Abismo
mãos como agasalho. Não quero continuar a existir por
impulsos, não mais pretendo desejar aquilo que desejo,
não mais poderei existir na minha existência. Quero que
seja eterna esta subtil cumplicidade com a mágoa, oxalá
permaneça em mim esta profunda crença na paz da minha
morte. Não sou ingrato, por isso não quero abandonar de
repente quem ainda me abraça, nem sou capaz de submeter
alguém a um hipotético caos.
Como pode o eterno ser fugaz? Como me posso tornar
a causa da minha existência? Apenas tenho a certeza que
não poderei continuar assim por muito tempo. Embora sem
forças para acabar com a vida, sei que se poderá tornar
inevitável o destino assinado por mim. O meu grito por
liberdade não tocou ninguém por dentro.
Sinto-me a um pequeno passo da imortalidade, um
simples corte e o sangue escorre, a dor da minha alma ir-se-á embora muito lentamente. As feridas dos meus braços
doem, mas dão-me uma mudança de dor que espero se
perpetue. Estou só no infinito do tempo, existo para me
consumir, espero apenas que o inverno passe e se faça
o degelo deste meu corpo. Como posso viver ajoelhado
perante uma bala? Estou demasiado cego e mudo para
morrer, demasiado morto para enfrentar a morte. Sou eu a
dor, a causa da existência, o ruído do coração a perder-se
no meu peito. Mesmo que não possa sair desta imensidão, a memória não se há-de apagar. Morto já devo estar,
porque não consigo fazer com que acreditem que escolhi
o meu trilho final.
Violento é o meu acordar, os cortes são a minha salvação
momentânea.
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Talvez uma simples promessa de alguém me convença
a ficar aqui. Se a escutar em algum momento, tentarei que
a noite não me rasgue o coração. Pode ser que então sinta
ao longe o olhar daqueles que querem que eu sobreviva.
Mortal criatura, começa aquilo que deixaste por fazer,
estás morto. O sol falta-te, a terra aspira-te, corta-te e
vence a dor que te provocas! Desprezível mortal incapaz
de combater, sem teres coragem para mudar o mundo e
acabar com a tua vida! Deslizas sem admitir que tens asas
para voar, matas-te a tentar viver. No fundo, não olhas para
ti, guardas a dor com saudade, escondes as lágrimas com
espasmos que abalam o teu corpo odiado. Não mudarás o
desejo de não voltar a acontecer, não determinarás o caminho que irás seguir. Acreditem ou não naquilo que choras,
não te compreenderão!
Sinto o corpo a decair e a alma a rebentar. Consigo
esculpir o falecimento do meu abandonado ser, ao mesmo
tempo que sou capaz de desenhar a minha salvação. Vejo-te no dia seguinte ao meu funeral. Apagas com cuidado
todos os mails que te enviei na semana anterior, tenho a
certeza de que percorres todos os [email protected]
com e destróis mais um elo do nosso amor. Que me importa,
se atingi a eternidade? Agora estás frente ao espelho com
aquelas calças justas que te encorajei a usar, estou atrás de
ti a olhar-te com ternura, mas afastas-te e é como se não
me conhecesses, mergulho outra vez na minha escuridão.
Morto, o sol desaparece, a chuva cai, as memórias afogam-me. Sufoco só por saber que não conseguirei sobreviver,
nem eu nem ninguém sabe que gostaria de ser moldado
por um sorriso, que desejo salvar-me deste caos. Fúria ou
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Lições do Abismo
raiva entorpecidos ao longo de anos, fome absoluta, quero
finalmente abraçar a minha morte e a minha vida. Quero
desaparecer e ao mesmo tempo começar com força um
novo destino.
E porquê? Só porque me traíste? Por te saber mais distante? Pelo facto de os meus pais nada terem percebido?
O porquê de não obter os porquês, talvez um dia caia em
mim e seja capaz de enfrentar o mundo à minha volta.
Promessa quebrada, juramento fugaz e sem qualquer
sentido, impossível foi não cortar as correntes de palavras
que antes nos uniam. Desejo a mudança, uma ansiada reacção, um rumo que tarda em definir-se, não posso continuar
a esconder o que me rodeia com suspiros incompreensíveis para os outros. Deixarei alguém em lágrimas, talvez
a minha mãe fique abandonada num abismo, sem asas
para se poder salvar. Tenho pena de causar sofrimento,
agora ou mais tarde terei de enfrentar a morte, a vida, a
solução, escolher em definitivo o trilho a perseguir, não
suporto mais séculos de espera por uma vitória, tortuosos
momentos sem prazer.
Consigo em esforço esculpir a minha queda. Talvez me
sinta amado como nunca o fui. Quando imagino beijar os
meus lábios e poder finalmente amar-me também, quando
desejo fazer parte de todos os sorrisos e secar todas as lágrimas, o meu corpo fica limitado à dor que afinal me abraça
e sei que não posso continuar a hesitar. Sabes bem que dei
todo o meu ser, dei tudo de mim, fiz o impossível, que era
acreditar no possível, poder amar-te para sempre com todas
as minhas forças, esperar um novo dia com a certeza de te
encontrar. O silêncio, contudo, tomou conta de mim. Por
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isso me detesto e me mutilo. Se soubesse como reagir à
indecisão, se ousasse enfrentar o ódio por mim mesmo...
mas o meu silêncio desespera-me, submeto-me a tanto, às
vezes deixo criar tanta ilusão, deixo o colapso aparecer e
tomar conta deste corpo...
Como é possível alguém ter amado e agora ganhar
ódio, tratam-me como lixo sem se dar conta, vejo-me agora
como um despojo do mundo, ser solitário imobilizado pela
tentação. Como esquecer a promessa desfeita, a mentira,
a injúria, a traição, como não lembrar a construção de um
amor intenso e partilhado, feito de inquietações e promessas
renovadas?
Agora sinto repulsa, numa simples metamorfose a minha
cara já não está triste e a raiva surge em toda a força. Para
quem um dia sobreviveu através do amor que por mim
sentia, não posso compreender como hoje deseja tanto a
morte dentro do meu ser.
Amigos, preciso que, antes que algo aconteça, me
demonstrem que existem, necessito de um pequeno sinal
vosso, oxalá cheguem antes de eu fechar os olhos, não
tardem em fazer-se sentir, espero tê-los no meu coração a
lutar contra a minha dor. Quero que me limpem as lágrimas,
para me ser permitido continuar a testemunhar a minha
queda e a minha angústia.
Disse que amava e talvez não sentisse o amor, os meus
olhos não souberam olhar-me, no fundo queimei as coisas
boas que ainda existiam em mim. Digo-o sem reservas, este
nunca foi o meu mundo, a minha casa não é o meu refúgio.
Nasci para morrer cedo, estou só num vale, olho em volta
e não distingo. Se morrer onde não estiver ninguém, os
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Lições do Abismo
espasmos deixarão de existir e serei esquecido. Se morrer
matando-me, se me abraçar aniquilando-me, se me insurgir desprezando-me, se tentar nascer outra vez, não terei
piedade pelos meus sentimentos, tudo irei perdoar, do nada
irei recomeçar, nada irá mudar.
Tenho a certeza de que posso desenhar a minha salvação,
mas morro em cada vez que acordo, de que serve querer
amar-me, o meu falecimento é apenas uma ânsia sobre o
meu direito de morrer. Estou só. Admito que por vezes
quero sobreviver, adiarei a minha morte enquanto pensar que ainda existe alguém capaz de me amar, mas estou
tão cansado de nada obter que não lutarei por muito tempo.
Lutar para nunca mais lançar o caos à minha volta, será que
isto é apenas um sonho ou o simples desejo de acordar?
Assassino convicto, negro ser que não admite ordens, de
que estás à espera? Não te iludas, a salvação que às vezes
desejas não chegará tão cedo!
Olho para o colar do Miguel e fico à espera. Tinha ido
à Consulta de Triagem do Núcleo de Estudos do Suicídio
do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, por sugestão da
directora de turma da escola. Frequentava o 12.o ano e
queria seguir Economia.
Veste de negro, usa ténis sem atacador e uma mochila esverdeada, sorri, mas em breve ficamos presos na
angústia dos seus olhos escuros. Não é muito alto e os
ombros largos, um pouco encurvados, parecem pertencer
a outra pessoa. O pescoço mostra um colar largo, de metal brilhante, a suportar uma série de picos agressivos,
à primeira vista desajustados no seu aspecto inofensivo
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