A MARgem
evista
Revista Eletrônica de Ciências Humanas, Letras e Artes · ISSN 2175-2516
O UNIVERSAL E A HETEROGENEIDADE NO POEMA
“TODAS AS VIDAS”, DE CORA CORALINA
O
Lucas Martins Gama Khalil (IC-FAPEMIG/UFU)[1]
presente texto objetiva realizar algumas reflexões sobre a constituição
da instância autoral em textos perpassados por atravessamentos
autobiográficos. Considerando o arcabouço teórico utilizado na
produção desse trabalho – a Análise do Discurso –, concebe-se o
autor de obras literárias como uma categoria de sujeito e, por
isso, trabalha-se com noções referentes a essa problemática,
principalmente no que diz respeito à heterogeneidade constitutiva
do sujeito.
Tendo como objeto específico um texto de origem
literária, o poema Todas as vidas, da escritora goiana Cora
Coralina, faz-se recorrentes referências à Teoria da
Literatura, não como ferramenta para aplicação, mas sim
como um terreno de possíveis questionamentos.
É a partir justamente de conceitos um tanto
“estabilizados” em algumas formulações, exemplificadas no
decorrer do texto, dentro do que se define Teoria da Literatura
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que serão desenvolvidas algumas indagações. Os enunciados
relativos às noções de particular e de universal, por exemplo, são
reproduzidos e reformulados desde a Poética de Aristóteles e parecem constituir um
conjunto de enunciados recorrente em se tratando do estudo do texto literário. Ao se
falar de textos com atravessamentos biográficos, ou seja, que remetem a certa
“empiricidade” vivenciada, tais noções se confundem, perdendo sua força
discriminatória.
Em textos cujo autor deixa transparecer elementos autobiográficos, a escrita da
literatura e a escrita da história, duas formas aparentemente imiscíveis, são fadadas a
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coexistir em um mesmo espaço de construção de sentidos. Consequentemente, a
função-autor se insere nessas fronteiras já disformes, trazendo à tona a possível relação
de identidade ou de afastamento entre o sujeito autor e o sujeito representado na obra.
Recorre-se, durante esse percurso, a reflexões teóricas de estudiosos como Michel
Foucault, Michel Pêcheux e Mikhail Bakhtin a fim de entender, de forma geral, como
se dá o funcionamento do sujeito em suas características fundamentais.
Abaixo, encontra-se o texto a partir do qual serão desenvolvidas as discussões
propostas no presente estudo:
TODAS AS VIDAS
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
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Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
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Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
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Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
O sujeito autobiográfico: a obra coralineana entre o universal e o particular
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A produção literária da escritora goiana Cora Coralina faz um constante
percurso de oscilação entre o escrever sobre si mesmo e, nas palavras da própria
escritora, o escrever “que possa sobreviver à Autora” (CORALINA, 2001, p. 24). Com
a análise do poema Todas as vidas, busca-se refletir sobre essa figura movente da autoria
e, sobretudo, acerca da constituição do sujeito nos variados entre-lugares em que ele se
inscreve.
Em diversos enunciados relativos à Crítica ou à Teoria da Literatura, como será
demonstrado, a relação do “sujeito representado” com os “sujeitos do mundo” é
fundamentada pela dicotomia particular/universal, fator que implica inclusive o caráter
literário de uma obra. Questiona-se, então, a aplicação de tal dicotomia na obra de
Cora Coralina a partir do lugar teórico da Análise do Discurso, ou seja, concebendo o
sujeito como heterogêneo, coletivo e ideológico.
Na medida em que se desenvolve a problemática acima proposta, o cerne da
discussão perpassa constantemente a questão kantiana “Quem somos nós?”, dirigida
por Foucault à esfera do sujeito. O conhecimento sobre o ser do sujeito,
principalmente no que se refere à sua unidade em relação a outros sujeitos, é
articulado de diversas formas nas situações discursivas. No senso comum,
por exemplo, são recorrentes enunciados do tipo: “Todos nós somos
iguais” ou, de maneira inversa, “Você é único”, “As pessoas são
diferentes, especiais”. As variações são muitas, cada uma delas
adequada a uma situação, na maioria das vezes com tom
moralizante ou de sentido compensatório.
Na literatura, a busca constante por uma unidade
dos sujeitos é verificada principalmente nas proposições que
apóiam a “transcendência em relação ao individual”, o
“alcance do universal”, proposições essas que não poucas
vezes atuam como verdadeiros dogmas na construção do
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modelo da “verdadeira” literatura. O poema introdutório do
livro Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, por exemplo,
suscita inclusive um questionamento sobre o lugar da literatura como
instituição: “Este livro/ Versos... Não/ Poesia... Não/ Um modo diferente de contar
velhas estórias” (CORALINA, 2001, p. 27).
Ainda no poema introdutório do livro, chamado Ressalva, a escritora goiana
explicita o caráter biográfico que atravessa a sua obra: “Este livro foi escrito/ por uma
mulher/ que no tarde da Vida/ recria e poetiza sua própria/ Vida” (CORALINA, 2001,
p. 27, grifos nossos). Ao mesmo tempo em que o “pano de fundo” de sua criação
poética torna-se cada vez mais evidente, ela começa a elaborar um caminho inverso, isto
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é, mostrar que a sua obra não se fecha em si mesma e na figura de um Autor empírico.
O excerto “Este livro pertence mais aos leitores do que a quem o escreveu”, para citar
um exemplo, denota justamente a abertura da obra literária no processo não só de
produção, mas também de circulação e recepção de sentidos vários.
A escrita autobiográfica não é, na perspectiva teórica adotada, uma prática que
gira em torno de um sujeito individualizante, mesmo porque a noção de autor para a
Análise do Discurso retorna necessariamente à questão do descentramento do sujeito.
De acordo com Michel Pêcheux (1997), o sujeito tem a ilusão de ser a origem e o
centro do seu dizer, desconsiderando as práticas exteriores a si, assim como a relação de
alteridade inerente às situações discursivas. Essa presença do outro na “escrita de si” é
focalizada por Michel Foucault quando conclui que “escrever é, portanto, se mostrar, se
expor, fazer aparecer seu próprio rosto perto do outro” (FOUCAULT, 2006, p. 156).
Isto é, o sujeito construído pela obra autobiográfica marca seu lugar não de
forma isolada, mas sim em relação a um grande complexo de diferentes
construções identitárias.
Cora Coralina constrói o poema em análise focalizando
características de diferentes posições-sujeito, como se pode
observar no seguinte trecho: “Vive dentro de mim/ uma
cabocla velha/ de mau olhado/ acocorada ao pé do borralho/
olhando para o fogo”; “Vive dentro de mim/ a lavadeira do
Rio Vermelho/ Seu cheiro gostoso/ d’água e sabão”
(CORALINA, 2001, p. 31). A cada estrofe, as identidades
postas são reforçadas por meio de atributos e ações descritas
pela autora em uma escrita de “fragmentos”, na qual o
conteúdo imagético sobrepõe-se à linearidade de uma
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sequência lógica referencial (“Pimenta e cebola. / Quitute bem
feito. / Panela de barro. / Taipa de lenha.”).
Ao realçar bem as práticas e características de cada uma de suas
“facetas”, o texto alerta-nos para uma constituição necessariamente heterogênea do
sujeito. O conceito de heterogeneidade contrapõe-se à visão de sujeito homogêneo, no
interior do qual não existem contradições, dominâncias, subordinações originárias do
interdiscurso. Authier-Revuz (2004) descreve da seguinte forma alguns tópicos
constituintes do funcionamento da heterogeneidade:
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O pertencer das palavras e das sequências de palavras ao discurso em curso;
em todas as formas de remissão a outro discurso já dito, campo muito vasto
de citação integrada, da alusão, do estereótipo, da reminiscência, quando
esses fragmentos são designados como 'vindos de outro lugar'. (AUTHIERREVUZ, 2004, p. 16-7)
A afirmação de uma exterioridade constitutiva do sujeito é atravessada por esses
retornos ao já-dito, alusões, pré-construídos etc, fatores que negam a idéia de sujeito
como centro de seu dizer. É importante citar a função do estereótipo, citada no trecho
acima pela teórica francesa, dentro do poema em análise. Cora Coralina utiliza as
imagens estereotipadas para delinear a figura de cada uma de suas posições-sujeito
postas durante o poema.
Aliada à noção de descentramento do sujeito, faz-se presente o fundamental
papel da heterogeneidade, visto que “o jogo complexo das fronteiras móveis, que
constituem, atravessando-as esses “falares”, é o de práticas linguageiras socialmente
diversificas e contraditórias, inscritas historicamente” (AUTHIER-REVUZ,
2004, p. 30).
É importante salientar que, ao posicionar-se em certas
formações discursivas, o sujeito deixa de participar de algumas
outras formações discursivas. Ou seja, no processo de formação
de subjetividade, destaca-se a seleção de lugares dos quais o
sujeito pode ou não dizer algo em uma determinada situação
espaço-temporal. No poema em análise, por exemplo, a
questão do gênero é de grande importância, visto que um
lugar comum entre as tantas posições ocupadas pelo sujeito
autobiográfico é o lugar da mulher: a cabocla velha, a
lavadeira do Rio Vermelho, a mulher cozinheira, a mulher do
povo, a mulher roceira, a mulher da vida.
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Na última estrofe do poema (“Todas as vidas dentro da
minha/ Na minha vida – / a vida mera das obscuras”), percebe-se
também como ponto de intersecção entre as posições-sujeito acima citadas o discurso
de uma classe desfavorecida, oprimida. As palavras “mera” e “obscuras”, por exemplo,
fazem forte alusão a fatores de condição social.
Quanto à relação da instância autoral com o sujeito constituído na obra literária,
depara-se novamente com a dicotomia particular/ universal. O conceito de particular
usado no contexto de tal oposição provém da noção de autor como marca da
individualidade; já o conceito de universal é proveniente do pensamento clássico, no
qual uma obra se torna literária se o autor usar artifícios para sua obra alcançar o
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homem como totalidade, tendo em vista três preceitos básicos: beleza, bondade,
verdade (SILVA, 1988). A chamada “ruptura” do padrão clássico não deve ser entendida
como uma súbita troca de valores, mas sim como um fato descontínuo, do qual ainda
restam resquícios na constituição dos conceitos em parte das teorias acerca da literatura.
Um desses resquícios é justamente o papel da universalização como fator de
literariedade.
Ao se falar de autobiografia, como na obra de Cora Coralina, tende-se na
maioria das vezes a “optar” por um juízo de valor ligado ao particular e,
consequentemente, marcado pela diminuição da literariedade. Entretanto, utilizar-se-á
aqui as noções de autoria para a Análise do Discurso, com o intuito de refletir tal
dicotomia instituída antes de retornarmos à análise do poema em si.
Um dos preceitos básicos para esse percurso ser realizado é abandonar a
concepção de autor como entidade empírica, passando a entendê-lo como um
sujeito, inscrito em determinados contextos e interpelado por formações
discursivas e ideológicas. O nome do autor, característica de sua
individualidade, tem praticamente uma função classificatória:
permite reagrupar e demarcar um conjunto de textos:
O nome como marca individual não é
suficiente quando se refere à tradição textual.
Como, pois, atribuir vários discursos a um
único e mesmo autor? Como fazer atuar a
função autor para saber se se trata de um ou
de vários indivíduos? (FOUCAULT, 2001,
p. 277)
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Outra consideração importante para se entender a
autobiografia dentro do lugar teórico adotado é a noção de memória
discursiva. Para a Análise do Discurso, a memória não é vista como as
lembranças de um ser individual, mas sim como elementos que se constituem
historicamente e são solidificados por meio das relações enunciativas. Na autobiografia,
a concepção da individualidade parte principalmente do princípio de transposição da
memória de um sujeito empírico. Em contrapartida, quando se fala em memória
discursiva, pensa-se em um sujeito plural, fator que reafirma a cisão da identidadeespelho entre autor e obra.
É também relevante incluirmos no nosso horizonte teórico o conceito de
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exotopia, formulado por Mikhail Bakhtin. Segundo Bakhtin, não se encontra na escrita
a transcrição literal do “real”, mas sim a criação de algo novo, fora do tempo e do
espaço relativo ao acontecimento exterior:
Se narro (ou relato por escrito) um acontecimento que me acaba de
acontecer, já me encontro, enquanto narrador (ou escritor), fora do tempo e
do espaço onde o episódio ocorreu. A identidade absoluta do meu “eu” com
o “eu” de que falo é tão impossível quanto suspender-se a si próprio pelos
cabelos. Por mais verídico, por mais realista que seja o mundo representado,
ele não pode nunca ser idêntico, do ponto de vista espaço-temporal, ao
mundo real, àquele que representa, àquele onde se encontra o autor que
criou essa imagem. (BAKHTIN apud AMORIM, 2006, p. 105)
A constituição de um sujeito “outro” por meio da aparente via do
“mesmo” explicita a alteridade constitutiva do sujeito, que se materializa na
relação descontínua entre o fato empírico e o conteúdo da escrita.
No poema Todas as vidas, a construção poética de Cora
Coralina é direcionada para uma multiplicidade de constituições
subjetivas, como se pode visualizar na análise da estrofe
transcrita a seguir: “Vive dentro de mim / a mulher roceira. /
- Enxerto da terra, / meio casmurra. / Trabalhadeira. /
Madrugadeira / Analfabeta. / De pé no chão. / Bem
parideira. / Bem criadeira. / Seus doze filhos, / Seus vinte
netos” (CORALINA, 2001, p. 33). O verso inicial da
maioria das estrofes (“Vive dentro de mim”), especialmente a
palavra “mim”, funciona de maneira análoga a um dêitico, na
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medida em que localiza o leitor num ambiente inicialmente
autobiográfico. A leitura dos versos seguintes, por sua vez, desloca a
constituição do sujeito dentro do poema, visto que as características
dadas a cada posição-sujeito funcionam como marcadores de pluralidade.
Expressões como “trabalhadeira”, “analfabeta”, “meio casmurra”, têm caráter
essencialmente plural em se falando da “mulher roceira”. Recorre-se então à distinção
entre a proposição relativa explicativa e a proposição relativa determinativa, um dos
pontos de partida de Michel Pêcheux no livro Semântica e Discurso. “A relação
explicativa... intervém como uma incidência do pensamento sobre a ordem das essências”
(PÊCHEUX, 1997, p. 44), isto é, diferentemente da relativa determinativa, que
individualiza um objeto, a relativa explicativa toma o objeto nas suas características de
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conhecimento comum. Esses conceitos da gramática de Port-Royal são refletidos por
Michel Pêcheux quando da formulação do conceito de pré-construído.
Cora Coralina, no poema Todas as vidas, trabalha as diversas posições-sujeito
com base justamente no pré-construído, ou seja, o “sempre-já-aí da interpelação
ideológica que fornece-impõe a “realidade” e seu “sentido” sob a forma da
universalização” (PÊCHEUX, 1997, p. 164). Isso significa que a imagem da cabocla
velha – “Vive dentro de mim/ uma cabocla velha/ de mau olhado/ acocorada ao pé do
borralho/ olhando para o fogo. Benze quebranto/ Bota feitiço/ Ogum. Orixá/
Macumba, terreiro/ Ogã, pai-de-santo” - , por exemplo, sempre está ligada a outras
palavras, enunciados, sentidos; por isso, a apresentação da cabocla velha do poema é
seguida de versos-imagens como “Macumba, terreiro.”; “Ogum. Orixá.”; “Ogã, pai-desanto”.
Portanto, segundo Pêcheux, toda articulação discursiva:
Corresponde, ao mesmo tempo, a: “como dissemos” (evocação
intradiscursiva); “como todo mundo sabe” (retorno ao
Universal do sujeito); “como todo mundo pode
ver” (universalidade implícita de toda situação
“humana”). (PÊCHEUX, 1997, p. 171)
Em se tratando de questões relativas ao préconstruído, o “universal”, no sentido usado por Pêcheux,
torna-se bastante recorrente. No decorrer do poema,
entretanto, depara-se com os seguintes versos: “Vive dentro
de mim/ a lavadeira do Rio Vermelho”. A inclusão da relativa
determinativa “do Rio Vermelho” faz avançar a nossa discussão.
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É nesse ponto que se começa a problematizar o conceito de
“universal” dentro de certas formulações teóricas acerca da Literatura,
através das leituras acerca da noção de sujeito para a Análise do Discurso e
também por meio da concepção de “universal” nos estudos de Pêcheux.
Em algumas formulações de estudos abarcados pela Teoria Literária, o atributo
“universal” é considerado recorrentemente parte essencial do texto literário, como se
observa na seguinte proposição:
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A transcendência e a acausalidade da escrita dispensam qualquer simulacro
do autor, pois todo o fragmento textual é uma parcela atualizada do texto
infinito que não cessa de se escrever, uma manifestação particular da escrita
universal e ilimitada... (SILVA, 1988, p. 224)
Ao afirmar o universal em detrimento do particular, Silva (1988) afasta
fortemente o autor empírico e a obra. Os dois tornam-se, nessa perspectiva,
incompatíveis, pois a obra apenas “abre-se” ao leitor quando tal entidade
particular/individual (autor) deixa de “existir”.
A articulação entre a noção de universalidade em Pêcheux (1997), a noção de
autor em Foucault (2001) e em Bakhtin (2006) e a noção de autor/ universalização na
literatura é tranquila e pouco conflituosa quando se trata do apagamento da idéia da
individualidade, do fato particular. Essas concepções teóricas entram em tensão quando
se depara com a questão da escrita literária específica, visto que a noção de
universalização para parte considerável das vertentes da Teoria da Literatura
(fundamentadas, em alguns aspectos, com base na Poética de Aristóteles) é
característica determinantemente exclusiva do texto literário. Trabalha-se, desse
modo, com essa tensão, procurando problematizar/ questionar a
diferenciação entre o texto considerado literário e o texto considerado
não-literário, entre o texto que se universaliza e o que
supostamente não se universaliza.
Aristóteles propõe a diferenciação entre Literatura e
História no sentido de que a primeira caracteriza-se pela
busca do universal através do particular e a segunda
privilegia exclusivamente o particular, o fato empírico. Tal
concepção, recorrente até hoje em alguns estudos da
literatura, propõe uma divisão perfeita e fechada entre essas
duas “formas” de escrita. Essa teoria dicotômica falha
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principalmente quando se pensa numa Literatura isenta de
atravessamentos históricos, assim como quando se concebe a
História como a transposição literal de uma empiricidade
indiscutivelmente verídica.
As fronteiras que “separam” o particular e o universal, a História e a Literatura,
tornam-se mais tênues ainda quando se trata de autobiografias, e mesmo de biografias
em geral. Pergunta-se, então: toda e qualquer biografia, por se remeter a uma dada
empiricidade “particularizante”, estaria fadada a ocupar um lugar fora do que se
considera Literatura?
Retornando ao poema de Cora Coralina, observa-se a figura do Rio Vermelho
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(rio que banha o Estado de Goiás) como um marcador que diz respeito à autobiografia
da autora, além de constituir uma proposição relativa determinativa, aparentemente
deslocando o padrão universal do poema. Ao indagarmos o possível caráter particular
de uma obra literária biográfica, muitas das repostas frequentemente postas, geralmente
baseadas na dicotomia aristotélica supracitada, apresentam-se aparentemente
indiscutíveis, mas trazem imprecisões em alguns aspectos. Antonio Tosta, em artigo
sobre a escritora, afirma: “Cora universaliza o particular, possibilitando, a partir da base
local de sua voz, a reflexão sobre alguns valores e condições que são comuns a todos os
seres humanos” (TOSTA, 2006, p. 28). A afirmação do estudioso, apesar de descrever o
resultado da universalização de maneira bastante eficiente, deixa de tocar numa questão
fundamental: que fator permite ler textos de Cora Coralina sob um ponto de vista
universalizante e ler uma biografia de Getúlio Vargas, por exemplo, de um ponto de
vista particular (sendo que ambos os tipos de escrita apresentam “situações
humanas”)? Sinteticamente, o que potencializa a tão requerida transcendência
do sujeito representado face à sua individualidade?
As verdades, para Michel Foucault, são nada mais que
vontades de verdade, veiculadas em diferentes épocas, espaços,
situações. Quando a(s) Teoria(s) da Literatura propôs
constituir-se como ciência, foram estabelecidas algumas
vontades de verdade. Na delineação do objeto, por exemplo,
precisava-se “decantar” o texto literário e o texto nãoliterário. Desse modo, a “literariedade”, conjunto de fatores
que “identificam” uma obra como literária, foi tomando
formas cada vez mais acentuadas. É interessante salientar que
mesmo as chamadas ciências não conseguem se manter fora da
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ideologia, isto é, as verdades difundidas pela ciência também são
condicionadas por fatores sócio-históricos, como explica Michel
Pêcheux:
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O momento histórico do corte que inaugura uma ciência dada é
acompanhado necessariamente de um questionamento da forma-sujeito e da
evidência do sentido que nela se acha incluída. Em outros termos, a
especificidade de todo corte é, parece-nos, a de inaugurar, num campo
epistemológico particular, uma relação do “pensamento” com o real...
(PÊCHEUX, 1997, p. 193)
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Considerando que os conhecimentos científicos, tal como a universalização, são
produzidos em sociedade e na história, pode-se desenvolver mais a fundo o
questionamento sobre o conceito de universalização na obra de Cora Coralina.
A parte inicial do livro Poemas dos becos de goiás e estórias mais é repleta de
pequenos “prefácios” que antecedem a obra poética em si. Tais textos são comentários
de outras pessoas (editores, estudiosos) e da própria Cora Coralina sobre o livro. É
importante a análise desses outros textos porque a obra não se constitui de forma
isolada, mas sim em relação com uma rede de enunciados anteriores e coexistentes. Isso
quer dizer que os valores e sentidos atribuídos a um texto são decorrentes
necessariamente do que lhe é exterior. Para Michel Foucault:
As margens de um livro jamais são nítidas nem rigorosamente determinadas:
além do título, das primeiras linhas e do ponto final, além de sua
configuração interna e da forma que lhe dá autonomia, ele está
preso em um sistema de remissões a outros livros, outros textos,
outras frases: nó em uma rede... Por mais que o livro se
apresente como um objeto que se tem na mão; por
mais que ele se reduza ao pequeno paralelepípedo
que o encerra: sua unidade é variável e relativa.
Assim que a questionamos, ela perde sua
evidência; não se indica a si mesma, só se
constrói a partir de um campo complexo de
discursos. (FOUCAULT, 2000, p. 26)
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Na introdução do livro Poemas dos becos de goiás e
estórias mais (2001), feita pelos editores, é fortemente
presente a idéia de uma poética voltada para a “ambiência
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tipicamente goiana”, “uma moldura de terra-mãe de Cora
Coralina”. Do mesmo modo, os outros “prefácios” também afirmam
uma escrita que fala de certa “vivência empírica”. Simultaneamente, são
encontrados outros tipos de enunciado que aparecem com o objetivo de sustentar a
questão da universalização e, consequentemente, afirmar o caráter literário da obra que
será lida. Alguns exemplos podem ser visualizados: “Este livro tem o horizonte humano
sem fronteiras... o livro assume a dimensão do universal” – comentário dos editores (CORALINA, 2001, p. 8); “Com a mesma humildade meta-humana dos seres criados
para povoar o infinito espacial” – comentário de J. B. Martins Ramos – (CORALINA,
2001, p. 9); “sem deixar... de restabelecer o tráfego com a universalidade do humano” –
comentário de Oswaldino Marques (CORALINA, 2001, p. 15); “que possa ultrapassar
as cidades”, “possa ser lido nas prisões e levar ao presidiário a última página deste livro
num apelo de regeneração e na minha oferta de fraternidade humana” – comentário
introdutório da própria autora (CORALINA, 2001, p. 23).
Os textos citados acima constituem uma rede de enunciados na qual se esboça
uma imagem sobre a obra poética de Cora Coralina. O leitor, instância essencial na
reprodução e transformação de sentidos, depara-se com a obra de Coralina recorrendo a
uma pré-construção imaginária, um complexo discursivo que gira em torno desse
objeto. A leitura, portanto, passa de certa forma por um processo de determinação
histórico-ideológica.
É através dessa concepção de leitura como um grande emaranhado de sentidos
produzidos pelo intradiscurso, funcionamento do discurso em relação a si mesmo (o
que se diz, o que já foi dito e o que será dito dentro de uma determinada
formação discursiva), ao lado do interdiscurso que se observa o processo pelo
qual a instância da universalização é atribuída aos textos de Cora Coralina e
da literatura stricto sensu de uma forma geral.
A leitura literária, assim como a leitura jornalística, a
leitura da História etc; são práticas específicas na medida em
que se instituiu historicamente uma maneira de ler
“adequada” a cada uma delas. Para entender tal processo, de
funcionamento predominantemente inconsciente, utiliza-se
aqui a denominação leituras “institucionalizadas”: conjunto
de artifícios anteriores e exteriores ao ato de leitura que
colaboram efetivamente na produção de sentidos. Não se
objetiva negar que a escrita literária possui suas especificidades,
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mas sim tratar a produção e a reprodução de sentidos,
principalmente referente à universalização, como algo produzido
pela exterioridade.
Quando Cora Coralina “aproxima” o leitor para uma perspectiva autobiográfica
(“Vive dentro de mim”) e mesmo quando “desloca” esse leitor para uma visão
“universalizante” (“Todas as vidas dentro de mim”), não é o movimento intrínseco do
texto que permite ao leitor “relacionar-se” com o texto de modo universal ou particular,
mas sim um conjunto de regras que definem o lugar institucionalizado da literatura.
Assim como no texto da História, no qual existem também situações humanas (lembrase que, para Pêcheux, toda situação humana contém uma “universalidade” implícita), a
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leitura voltada para o particular é um fator essencialmente instituído. Em outras
palavras, o atributo “literário”, concedido a um texto qualquer, estabelece a marcação de
uma prática de leitura, uma construção específica de sentidos.
Considerações finais
Em decorrência das concepções de leitura adotadas e demonstradas no presente
trabalho, observa-se que a inferência dos conceitos de universal e particular não parte
de uma relação de identificação de certa forma idealizada entre leitor e obra. A
constituição dos sentidos de um texto não é somente restrita ao chamado ato de leitura,
mas é também proveniente de um complexo discursivo, de uma rede de enunciados que
preexiste ao acontecimento discursivo.
As conclusões desse trabalho são advindas de diversas afirmações e
observações teóricas formadoras de um ambiente propício para a inferência
destas. Parte-se do pressuposto de que as verdades são construídas
historicamente e, em consequência disso, foi-nos permitido constatar
o funcionamento das formas de leitura (no que diz respeito à
questão da universalização) como um tipo de
“institucionalização”. A grande alavanca dessa inferência
localiza-se no fato de que toda situação humana, como diz
Michel Pêcheux, é interpelada por uma universalidade
implícita, permitindo-nos iniciar uma desconstrução da
oposição particular/ universal.
A consciência de um caráter ideológico, contraditório
e relativo no processo de produção/ reprodução de conceitos
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torna-se fundamental na medida em que foi possível analisar as
descontinuidades existentes na separação entre História e Literatura,
possibilitando assim deslocar tal visão dicotômica cristalizada quando se
desenvolveu a análise do poema de Cora Coralina.
É também de fundamental importância destacar o estudo de descrição do sujeito
na obra coralineana tendo como ponto de referências as teorias sobre autor e sujeito na
teoria da Análise do Discurso. Pôde-se concluir que as relações entre autor e instância
subjetiva escrita no poema analisado são atravessadas pelas retomadas de préconstruído, pela constituição heterogênea do sujeito e por uma relação
fundamentalmente exotópica, haja vista a construção disforme de uma imagem que é
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aparentemente única, homogênea e idêntica.
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