DAS LETRAS DE RAP À LITERATURA DE FICÇÃO: OS TRÂMITES DA
DISSEMINAÇÃO DE UM DISCURSO POLÍTICO-IDEOLÓGICO
Henrique Ranieri da SILVEIRA - Graduando em Letras UNI-BH
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Resumo
Conscientes de sua condição social, os raps utilizam a denúncia na composição de suas
mídias e, principalmente, nas letras de suas músicas temperadas por palavras e vozes que
retratam a violência nos presídios, nas favelas e a atuação da polícia. Alguns grupos passam a
reelaborar estratégias para se fazer notar junto à opinião pública. Assim, surgem livros de
ficção retratando a realidade nas periferias urbanas de forma a corroborar o discurso difundido
nas letras de rap e demais manifestações do hip-hop. Desse modo, resistem e negociam com
setores do campo social, cultural e político em nosso país.
Palavras-chave: periferias urbanas, RAP, discurso político-ideológico.
Abstract
FROM RAP’S LIRYCS TO FICTION LITERATURE: THE LEGAL PROCEEDINGS
OF THE DISSEMINATION OF A POLITICIAN–IDEOLOGICAL DISCOURSE.
With the conscience of your social condition, the raps work the denunciation element in your
artistic composition of your medias and, principally, in the lyrics of your songs intensified by
words and voices that figurate the violence into the prisons, in the favelas, and the cops'
action. Some groups start to elaborate again your strategies with the purpose to be showed
together the public opinion. So, it appear fiction's books portraying the reality in the urban
suburb likes to confirm the discourse diluted in the rap's lyrics and other ones hip-hop
manifestation. In this mode, they resist and they discuss with the sector in the social area,
cultural and politics in our country.
Key words: urban suburb, RAP, politician–ideological discourse.
Introdução
Novos desafios abarcam a interpretação de significados associados à perspectiva
geográfica. Considera-se para esta afirmação tanto aspectos concebidos como vivenciados,
espontâneos como planejados, objetivos como intersubjetivos inerentes a uma coletividade
que ocupa determinada área. Há a constante construção de símbolos entre os que
compartilham valores, crenças, atitudes, rituais e outros aspectos da cultura, e os mesmos
apresentam similaridades.
Dentre os mecanismos de comunicação, em especial, a língua, passa a ser considerada
como ingrediente crucial de qualquer cultura e deste modo, importante objeto de análise.
Neste campo de investigação agregam-se elementos tais como as músicas, a dança, os gestos,
as exclamações, as expressões faciais e corporais, além de objetos e pinturas que possuem um
significado embutido também são considerados “linguagens”.
Nesta perspectiva, trazemos à tona o rap como elemento integrante do hip-hop. O hiphop surgiu na periferia dos bairros pobres de Nova York, nos Estados Unidos, na década de
1970. Trata-se de um empreendimento coletivo, e abarca manifestações artísticas nos campos
da música (RAP, sigla derivada de rhythm and poetry – ritmo e poesia, uma espécie de canto
falado ou fala rítmica), das artes plásticas (graffiti) e da dança (break).
O movimento chegou ao Brasil em meados de 1980, época de sensível aumento da
população de baixa renda do país, conseqüência do agravamento da crise econômica que
marcou o período da redemocratização. O hip-hop atinge maior notoriedade na sociedade com
o passar do tempo, e manifesta-se principalmente em comunidades que vivem nas áreas
marginalizadas de grandes centros urbanos (SCANDIUCCI, 2005).
Em São Paulo, o hip-hop teve início no fim dos anos 1980. Na região central da cidade,
na estação São Bento do Metrô e na Praça Roosevelt, os jovens da periferia se encontravam
para dançar break e ensaiar os primeiros raps. Começavam a falar em posses1. Estiveram
presentes nesses encontros pessoas que hoje são referências para o rap nacional, como Mano
Brown, KL Jay, Thaíde, DJ Hum, entre outros.
Os compositores de rap enfatizam nas letras de suas músicas o sofrimento vivenciado
nas comunidades marginalizadas nos centros urbanos, a desigualdade social, as dificuldades
econômicas, a repressão policial, o tráfico de drogas e o envolvimento da comunidade, o
sincretismo religioso, a necessidade de uma conscientização contra a acomodação e alienação
social, e propõem medidas para afastarem os jovens carentes da criminalidade.
1
As posses, dentro do movimento hip-hop, são agrupamentos de jovens a ele pertencentes (comunidades que se unem
geralmente pela proximidade geográfica – bairros ou regiões metropolitanas – e de idéias).
Conscientes de sua condição social, os rappers2 utilizam a denúncia na composição de
suas mídias e, principalmente, nas letras de suas músicas temperadas por palavras e vozes que
retratam a violência nos presídios, nas favelas e a atuação da polícia. Um discurso de
resistência aos estereótipos que associam periferia e criminalidade, de desconstrução de
preconceitos e de afirmação da negritude, numa verdadeira constituição da identidade negra
por meio da música. Desse modo, resistem e negociam com setores do campo social, cultural
e político em nosso país.
Neste contexto, interessa-nos saber como a literatura de ficção de Ferréz (2003)
transforma os personagens musicados em personagens de ficção, apropriando-se de um
discurso político-ideológico antes difundido apenas em letras de rap.
Fundamentação Teórico-Metodológica
Os estudos sobre a relação existente entre o homem e a cultura trouxeram à tona
reflexões sobre a cultura como contexto e não como determinante das escolhas do homem. O
homem não é um ser passivo, ele possui autonomia sobre as escolhas que estabelece para si e
a cultura funciona como contexto para o movimento seja este de restrição, de liberdade, de
manipulação ou de coesão de um indivíduo para outro.
Há pessoas que permitem que algumas restrições culturais ditem seu comportamento por
acreditarem que determinada atitude é intrínseca ao seu povo. O contato de um indivíduo com
outros de sua comunidade possibilita a troca de vivências, o amadurecimento de convicções, a
construção de valores e princípios de conduta, “portanto, o indivíduo é em parte, um produto
desse contexto, bem como produtor e um sustentador desse contexto” (DUNCAN, 2003:88).
O homem que é submetido a vários contextos (culturais, sociais e institucionais) no
decorrer da sua vida, se vê cercado de possibilidades e de escolhas.
O acesso ao poder e as mais variadas fontes de informações, à medida que forem
preponderantes, podem ampliar a capacidade do homem de organizar e modificar estes
diferentes contextos a partir da sua capacidade de mudança pessoal. Isto é, a partir do acesso a
vários contextos o homem estabelece para si, escolhas e comportamentos que irão direcionar
suas atitudes perante os outros e o ambiente que o cerca, deste modo, ele acaba por
proporcionar uma faísca de mudança, quando cada indivíduo pertencente ao seu grupo social
começa a atentar para o que pode modificar em si.
2
Rapper é o cantor e na maioria das vezes o compositor das músicas do movimento hip-hop.
Esses contextos frequentemente se originam no passado distante, fazendo com
que pareçam remotos para as pessoas que agora o aceitam, muitas vezes sem
contestá-los, como regras de ação. No entanto, isso não é evidência para a
autonomia de processos em larga escala; simplesmente reflete a opacidade de
interações complicadas e a alienação do homem em relação às suas criações
coletivas (DUNCAN, 2003: p. 88).
As relações que se estabelecem entre os homens ou entre o homem e a natureza apóiamse numa mediação cultural. É importante estar alerta para as relações estabelecidas entre
indivíduos e grupos no sentido destes definirem normas e comportamentos a serem
assimilados e incorporados pelo restante das pessoas dentro de um determinado contexto
cultural. Há toda uma atmosfera política na qual a cultura está inserida, há relações de poder
implícitas que garantem a reprodução cultural.
Os espaços vividos irão refletir diferenciações por conta do exercício de dominação por
parte dos que modelam o espaço com base em seus valores e, por parte de outros, de
reivindicação de valores que divergem dos valores pré-estabelecidos.
Segundo Gramsci apud Cosgrove (1996), esta luta de classes ocorre no nível ideológico,
quando a classe dominada pretende assumir o controle dos meios de produção simbólica para
então em torno de seus próprios interesses, reconstituí-los.
Gorczevski (2002) aponta quatro elementos característicos do hip-hop: o graffiti, o DJ, o
rap e o break. O graffiti caracteriza-se por desenhos e mensagens feitos com spray. O DJ é o
responsável por produzir diferentes sonoridades com o uso de aparelhos específicos e junto a
eles desenvolveram-se os Mestres-de-Cerimônia (MCs)3, que somaram ao hip-hop mais uma
característica e deram origem à música rap. Completando a identidade do hip-hop, temos a
dança dos B. Boys e B. Girls, caracterizada por acrobacias de chão, aéreas e movimentos
robotizados. No hip-hop os jovens usam as ex pressões artísticas como uma forma de luta e
resistência política, ao possibilitar denúncias quanto à desigualdade social e racial.
O rap, por sua vez, é a expressão que mais difundiu (e difunde) este movimento,
inclusive na mídia. Traz à tona o preconceito racial e social, a pobreza e a violência presentes
no cotidiano dessas comunidades.
Segundo Pinto (2004), uma leitura mais atenta das letras de rap revela o uso de
expressões que se apresentam como “códigos” decifrados com maior naturalidade pelos que
vivenciam no cotidiano o que é retratado nas canções. Este estilo musical é caracterizado pela
palavra misturada aos sons sampleados, os movimentos corporais do Mestre-de-Cerimônias,
3
MC: Abreviatura de master of ceremony (mestre-de-cerimônias). São os rappers que cantam e animam os bailes.
as vestimentas tais como roupas largas e desajustadas, a voz ritmada sobre uma batida
instigante e a flexibilidade sonora produzida pelos arranhões da discotecagem.
Os elementos centrais do rap, por exemplo, podem ser interpretados como reelaborações
de práticas culturais de origens africanas, ligadas à tradição oral e à música. Questões
relativas à etnicidade estavam presentes nas letras de rap feitas por jovens paulistanos a partir
do início dos anos 1990. Buscava-se compreender a história da população negra no país e
resgatar símbolos internacionalizados de origem africana e afro-americanos, os quais passam
a ser interpretados como parte de uma história comum às pessoas da diáspora negra (SILVA,
1995).
Abramo (1998) destaca que o rap se propagou fora dos esquemas formais de
comunicação de massa, porque os artistas preferiam lançar seus trabalhos em gravadoras
independentes. Talvez nesse ponto se encontre a força de suas letras, as quais não se deixam
perverter pela indústria cultural de consumo, legitimando-se como a voz da periferia.
De acordo com Carril (2003),
As letras [de rap] contendo denúncias e recuperando a voz do negro na
periferia repercutem na elevação da auto-estima do jovem da periferia, uma
vez que lhe permitem elaborar uma interpretação sobre a sua realidade
social, de se ver e se compreender parte de uma história e de se territorializar
no espaço de forma representativa, dada pela recuperação da auto-estima,
pelo sentimento de pertencer a algo, de forma concreta por fazer parte de
uma posse, e transmitir a sua mensagem a outros pares, o que lhes permite
ser ouvidos (CARRIL, 2003, p. 196-197).
O hip-hop busca resgatar as culturas africanas e afro-brasileiras – seja através do
trabalho das “posses” em suas comunidades, seja através dos ritmos e das letras presentes nas
diversas músicas de rap. Há uma mensagem que transita entre o desabafo dos rappers, que
discutem histórias de vida muito próximas as vividas pelos jovens da periferia ou pelos
detentos em instituições e prisões, podendo ser visto tanto como um “grito de alerta”, mas
também, como identificação com seus personagens, de forma a dar o exemplo de conduta a
ser seguida. Nesse reconhecimento das letras dos raps como forma de mostrar seu mundo é
possível dizer que alguns cresceram em meio a uma ordem social oculta e, em seus atos
infracionais, construíram uma representação alternativa e própria, através da qual tentam se
sobrepôr à difícil realidade em que vivem. Toda a liberdade criativa que é dada ao autor é
bem aproveitada e poderemos analisar todas essas formas neste trabalho.
Este trabalho propõe fazer um contraponto entre as letras das músicas dos rappers
Racionais e o drama vivido pelos personagens de Ferréz (2003). A análise estará centrada na
forma como Ferréz (2003) apropria-se do discurso político-ideológico para fazer de seu texto
uma variação do que antes podia apenas se ouvir em músicas de raps.
Procedimentos Metodológicos
Propôs-se a analisar e interpretar a peculiaridade quanto à descrição e à criação dos
personagens de Ferréz (2003) e os das letras de rap, tendo como referência Bosi (2003), que
também discursa sobre esta questão em sua obra. Para isto, alguns trechos da obra de Ferréz
(2003) foram comparados com os versos das músicas dos rappers Racionais, que evidenciam
os aspectos relacionados com a construção dos personagens.
Após esta seleção realizou-se uma análise das ocorrências na literatura de Ferréz (2003)
as quais caracterizam a apropriação de um discurso político-ideológico advindo das letras das
músicas de rap, para posterior sistematização das estratégias discursivas utilizadas para
disseminação de ideologias e práticas do exercício do poder.
Para esta discussão há a importante contribuição de autores, tais como, Carril (2003),
Gorczevski (2002), Scandiucci (2005) e Silva (1995) que realizaram estudos acadêmicos
sobre o movimento hip-hop e suas manifestações, dentre elas, o rap. Estes estudos
contemplaram a questão em uma escala ampla. No entanto, verifica-se a ausência de estudos
específicos quanto à inter-relação entre as músicas de rap e a literatura de ficção. Este
trabalho inova ao trazer à tona questões relacionadas às vivências de jovens excluídos das
periferias urbanas, manifestadas na música e na literatura ficcional, e a disseminação de um
discurso político-ideológico.
Resultados alcançados
Ao priorizar as percepções, representações, imagens, atitudes e valores dos homens para
com o mundo vivido, a Geografia alia-se a literatura e as letras de músicas, em busca de
respostas sobre como uma coletividade relaciona-se com as formas urbanas e quais os seus
desejos e anseios em termos de qualidade ambiental e urbana.
Para Tuan (1983, p. 183) “uma função da arte literária é dar visibilidade a experiências
íntimas (...) chamar a atenção para áreas da experiências que de outro modo passariam
despercebidas”.
Na literatura de ficção as histórias vividas ganham fôlego devido à descrição dos
personagens, diálogos e ambientes urbanos. Vários elementos relatados oferecem subsídios
para reconstruir a experiência nos lugares, valorizando a relação homem-lugar.
As experiências retratadas nas letras de rap são compartilhadas por uma coletividade “a maioria por aqui se parece comigo" (Periferia é Periferia - Racionais, 1998) e no âmbito do
indivíduo há uma relação singular deste com os códigos implícitos no “grito” de resistência às
normas e convenções sociais.
O rap é cantarolado pelos jovens que se apropriam do discurso difundido através da
música. Este discurso funciona como código de conduta ao propor possíveis estratégias de
reação às dificuldades vivenciadas e um alerta sobre mecanismos de manipulação utilizados
pela mídia.
O sistema manipula sem ninguém saber.
A lavagem cerebral te fez esquecer,
que andar com as próprias pernas não é difícil.
Mais fácil se entregar, se omitir.
(Periferia é Periferia – Racionais, 1998).
Há um sentido de coletividade que percorre a alma de cada simpatizante do rap . No ato
individual da adesão ao ritmo musical há a procissão da sua “fé” no discurso, ele não está
sozinho porque há um grupo de pessoas que possuem em comum com ele os mesmos ideais e
princípios de vida. Isto tem a importância singular de assegurar a sensação de pertencimento.
Mas, aí, minha área é tudo o que eu tenho
A minha vida é aqui e eu não preciso sair
É muito fácil fugir mas eu não vou,
Não vou trair quem eu fui, quem eu sou
Eu gosto de onde eu tô e de onde eu vim,
ensinamento da favela foi muito bom pra mim
Cada lugar um lugar, cada lugar uma lei, cada lei uma razão e eu
sempre respeitei.
(Fórmula Mágica da Paz – Racionais, 1998).
Esta sensação de pertencimento garante o conforto emocional e psíquico de estar entre
os que professam o mesmo discurso; os que acreditam e prezam por princípios de vida
similares; os que vivenciam preconceitos; dificuldades financeiras - os quais encontram na
música a possibilidade de reivindicar seus direitos. Há o fortalecimento dos laços que unem os
simpatizantes do rap através do compartilhar de experiências, da filiação aos clubes, da
freqüência aos bailes e do estreitamento das histórias de vida.
Considerações finais
Os espaços da mídia são utilizados pelos raps para difundir as suas mensagens e obter
visibilidade. A mídia, nesse processo, passa a ser um dos importantes intercessores de um tipo
de inserção social. Através da imagem e de seus dispositivos audiovisuais, constitui-se uma
estrutura que alimenta e é alimentada pelo cenário público.
Para atender a difusão dos ritmos musicais da periferia, as rádios comunitárias exercem
um papel fundamental quando possibilitam que grupos musicais da própria comunidade
divulguem seu trabalho. Neste contexto, a ligação afetiva do ouvinte com o programa da rádio
comunitária representa mais do que o ato de ouvir as músicas veiculadas, aponta para uma
continuidade em atividades sociais, encontros, festas e shows, além da convivência solidária
entre amigos. Os laços de solidariedade são enriquecidos no cotidiano do lar ou na vizinhança
e deste modo são consolidadas as relações nos grupos culturais e sociais.
De acordo com Santos “uma rádio local não pode mentir muito sobre o lugar. Ela tem
que estar atenta ao que as pessoas de cada lugar necessitam” SANTOS (2000: p.64). É o caso
da rádio FAVELA FM 104.5 criada numa favela de Belo Horizonte - MG, na década de 1980,
para ser porta-voz da população carente do local. De rádio pirata à rádio legalizada o caminho
percorrido foi de reivindicações e enfrentamento perante as mais diversas dificuldades para
manter a audiência frente à concorrência desleal com as demais rádios comerciais, o
pagamento de taxas referentes às instalações, dentre outras adversidades. O programa
veiculado pela rádio, “Robertão e os problemas de cada um”, possibilita que as inquietudes do
cotidiano e as dificuldades vivenciadas pelos ouvintes tenham uma abrangência maior do que
os limites da própria residência.
Alguns grupos de rap passam a reelaborar estratégias para se fazer notar junto à opinião
pública. Assim, surgem livros de ficção retratando a realidade nas periferias urbanas de forma
a corroborar o discurso difundido nas letras de rap e demais manifestações do hip-hop.
Os livros de ficção passam a ter um espaço privilegiado na mídia ao retratarem a
realidade vivida em áreas periféricas das grandes cidades. O discurso político-ideológico
difundido pelos personagens das letras de rap é apropriado e adaptado aos personagens de
literatura ficcional, tal como no livro intitulado Manual prático do ódio, quando Ferréz (2003)
privilegia as relações que são estabelecidas entre os personagens e o crime.
Ferréz (2003) conta a história de um grupo - Régis, Lúcio Fé, Celso Capeta, Aninha,
Mágico e Neguinho da Mancha na Mão - que planeja um assalto, e atrelado a este eixo
principal ele também fala de medos, inseguranças, complexos de inferioridade, baixa autoestima, dúvidas e vivências destes personagens que cultivam razões para matar, amar ou
morrer.
Há uma peculiaridade quanto à descrição dos personagens do livro de Ferréz (2003) e os
retratados nas letras de rap. Nos dois contextos há a descrição da realidade vivenciada por
pobres, negros, moradores da periferia e de vida sofrida, entretanto os personagens do texto
são descritos de forma mais extensa, já que na letra de rap o tempo é escasso (mesmo que
algumas músicas tenham até nove minutos de duração).
O autor do texto utiliza o livro como se este fosse uma seqüência do que antes era
retratado na música, cria espaços para os personagens tomarem maior fôlego, construindo,
assim, uma interligação mais perceptível nas histórias dos personagens do que em relação às
letras de rap. Temos que ressaltar também que a periferia ganha vida no livro, sendo
detalhada de forma ampla, por exemplo, suas vielas são como veias na história transformando
todas as ações. Ações que quando nas letras de rap eram dois ou três versos, agora ganham
dedicação em páginas.
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