Identidades musicais juvenis nos chats de música da Internet — um ensaio de análise
Elisabete Maria Garbin 1
Palavras-chave: juventude, identidade, música, Internet, chats, Estudos Culturais.
Esse trabalho é parte de tese de doutorado em andamento e nossa intenção não tem
sido somente pesquisar sobre uma nova mídia tecnológica chamada Internet, mas, sim,
chamar atenção pela via dos Estudos Culturais, para as suas questões identitárias.
A tentativa nesse ensaio de análise é mostrar como os/as internautas “levam” aos chats
de música, através de suas enunciações, algumas das representações que são constituídas do
lado de fora dos chats, em suas audiências, mídia, conversas e algumas das condições de
possibilidades para tais representações sobre música.
Alguns esclarecimentos iniciais julgo necessários. As ofertas de chats sobre música
nos principais portais brasileiros 2 são as seguintes. No portal da Universo Online — UOL —
podem ser encontradas quatro salas de bate-papo sobre música chamadas de “MTV” e uma
sala chamada “Música” disponíveis 24 horas por dia. No portal TERRA (antigo ZAZ) as salas
destinadas às discussões sobre música encontram-se no site “cult”, são em número de duas e
denominam-se salas de "Música". No total foram gravados 33 chats com uma média de
duração de uma a duas horas ininterruptas, sem um horário específico para as gravações.
Minhas visitas aos chats foram arbitrárias e acabaram acontecendo sempre à noite e nos finais
de semana, devido à maior disponibilidade de tempo e redução de custos com provedor. Nos
chats gravados, uma primeira análise nos mostra uma alta prevalência de episódios de
conversa que apontam para uma identidade de consumidores e produtores de música, e para a
emergência ocasional de outras marcações identitárias, como as de lugar de origem, gênero e
idade. As três grandes dimensões identitárias que emergem nos chats são a de jovens como
“consumidores” “apreciadores” e “críticos” de músicas, a de jovens como “produtores”,
“fazedores” e “executores” de músicas” e uma mistura de outras marcações identitárias de
lugar, idade, gênero, etc. A seguir, apresento tais dimensões e seus desdobramentos
oferecendo aos/as leitores/as alguns insights sobre a temática do estudo em andamento Identidades musicais juvenis.
1. Jovens como “consumidores”, “apreciadores” e “críticos” de música
1
Docente na Universidade Federal de Santa Maria, Doutoranda em Educação na Linha dos Estudos Culturais do
Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Orientadora: Profª. Dr.ª Rosa Maria Hessel Silveira.
Email: [email protected]
2
Segundo a Revista “Veja Digital” de abril 2000, n.16, o portal UOL recebe 400.000 visitas por dia nos chats,
com 2.176 salas de bate-papo e 67.900 lugares disponíveis. No portal TERRA, o número de visitas nos chats é
de 260.000 internautas por dia. O Terra oferece 800 salas e 32.000 lugares disponíveis. Nos dois portais onde
foram coletados os dados para este estudo, os horários de pico se dão entre onze da noite e duas da madrugada,
aos sábados, e as salas mais visitadas no UOL são as divididas por idade, nas faixas de 15 a 20 anos e 20 a 30
anos. No TERRA, as salas mais visitadas são da faixa de 20 a 30 anos e “no escurinho”, de “paquera” pela rede.
Shuker (1999) exemplifica o consumo de bens materiais e culturais pelas atividades de
“adquirir discos, assistir a apresentações ao vivo, ver videoclipes, escutar rádios e fazer
compilações” (p.77) — gravações domésticas de música.
Essas diferentes audiências de rock ou consumidores nos levam a crer que existe
obviamente uma considerável sobreposição e movimento entre elas. Um/a adolescente
freqüentemente é visto como da “juventude em geral”, mas ao mesmo tempo também ele/a
pode ser um membro de uma subcultura e mostrar um conhecimento mesmo factual sobre
suas músicas em nível de fã ou “aficionado/a”. É difícil estabelecer o que leva um/a jovem a
comprar este ou aquele CD, a freqüentar este ou aquele concerto de rock, a assistir dezenas de
vezes o mesmo videoclipe, assistir por horas a fio a MTV, bem como determinar as
representações que influem na construção de um consumo individual e/ou coletivo de música
popular. Os achados nos chats nas discussões sobre as idas aos shows de rock, comentários
sobre estes, bem como as preferências musicais dos/as internautas que os/as levam a escrever
“eu odeio pagode” e/ou “eu amo heavy metal”, chamam nossa atenção para dificuldades que
temos para analisar por que os sujeitos investem mais em uma ou outra identidade.
Inspiro-me em Hall (1998) quando observa que os processos de fragmentação de
identidades produzem um sujeito com uma identidade “móvel”, “formada e transformada
continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos
sistemas culturais que nos rodeiam” (p.13). Para Hall “a identidade é realmente algo formado,
ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na
consciência no momento do nascimento” (Ibid., p.38). Essas diferenças e descentramentos
emergem num mesmo chat, com adolescentes praticamente da mesma idade, com os mesmos
acessos (computador em casa, acesso a Internet, televisão a cabo, aparelhagem de som, acesso
a shows de vários estilos, dentre outros). Como afirmou Hall: “psicanaliticamente, nós
continuamos buscando a “identidade” e construindo biografias que tecem as diferentes partes
de nossos eus divididos numa unidade” (Ibid., p.39).
Pôde-se constatar, pelos discursos dos/as internautas adolescentes, que a maioria
deles/as conhece os diferentes gêneros e é capaz de escutar, localizar histórias de seus ídolos,
influências e fontes musicais, como também muitos deles/as estudam música, tocam um tipo
de instrumento, e em sua maioria buscam aproximar-se do repertório de sua preferência
musical, como que para dizer a si mesmo/a e aos outros/as: “eu já toco duas músicas “deles”!
Estes/as jovens não hesitam em emitir seus juízos de valor sobre a música que consomem, de
que gostam e sobre as de que não gostam. Seus padrões de consumo são também complexos e
envolvem busca de informações sobre o seu estilo musical preferido.
O que leva um/a jovem a “curtir” um gênero musical ou um grupo que não existe já há
uma década? Encontramos, por exemplo, um grande número de referências a bandas ou
cantores/as que morreram há décadas, como Janis Joplin (nascida em 1943 e falecida por
overdose de heroína em 1979, com 27 anos), The Beatles (1959 a 1969), The Doors (que
terminaram pela morte de seu cantor, Jim Morrison, aos 27 anos de idade, por excessos com
drogas e álcool — 1967 a 1971), Led Zeppelin (1968 à 1982), Jimi Hendrix (morto aos 27
anos) 3 dentre muitos/as outros/as que são conhecidos dos/as internautas somente através de
gravações, fotos, vídeos e lendas? O que leva os/as jovens a, muitas vezes, atravessarem o
país atrás de sua banda preferida, acompanhando-a em seus shows? O que leva um jovem a
dizer: “Cara estou feliz , comprei o Death to the Pixies hj” ou então: “eu AMO essa música ,
fico fora de mim qndo ela tá tocando !”(sic). Quais seriam as experiências estéticas inscritas
3
Maiores informações sobre astros e estrelas do rock em Herring, 1989).
nessas duas falas? Não temos respostas. Queremos apenas mostrar como essas e outras
temáticas identitárias ocorrem entre jovens ao discursarem sobre suas músicas na Internet.
Para fins puramente de apresentação, trabalhei todos os chats separando as
intervenções pelos assuntos abordados e compondo “novas” seqüências em que alinhei os
diálogos sobre determinados assuntos. Dessa maneira, de um mesmo chat retirei mais de um
excerto, para corresponder às diferentes temáticas.
1.1. “Vc foi/vai ao show?”
Excerto nº1 4
jorge 20:11:59 fala com metallica: o show do metallica ontem foi legal. eles tocaram mais os
classicos.
Metallica 20:12:32 fala com jorge: tu é de sp?
Metallica 20:14:02 fala com jorge: eu sou de Porto Alegre.. aqui foi muito irado os dois!!!
jorge 20:13:04 fala com metallica: rj. o show aqui foi ontem. o sepultura detonou tb.
Metaleira! 20:14:20 fala com metallica: eu tbm sou de POA!!! E fui Quinta no sepultallica
metallica 20:14:51 fala com Metaleira!: Muito afudê!! Né?
Quanto à questão das audiências aos shows, o que encontramos nestes excertos são
narrativas de episódios dos/as internautas que denotam expectativas, frustrações, prazeres,
sentimentos, enfim, misturados aos preparativos para uma ida a um show de seus/as ídolo(s).
As narrativas se tornam interessantes à medida em que os/as jovens relatam uns aos outros/as
o planejamento e esforços que às vezes são feitos para poderem comprar um ingresso, por
exemplo, e assim, terem acesso ao show eleito. Há toda uma troca de informações muitas
vezes entre pontos distantes, onde fica claro que os/as interessados em determinados eventos
acompanham o itinerário da banda e, à medida que estas se apresentam, seus/as fãs já
“antecipam” às próximas audiências “como foi o show aqui e lá”, etc. Avaliam a qualidade do
som, a escolha do repertório, parecem “consagrar” determinadas músicas e, se estas se fazem
ausentes nos shows, fazem críticas a respeito. Outras manifestações são de pura indignação,
decepção em relação aos eventos dos quais participaram, com a organização, a infra-estrutura,
as manifestações da própria platéia, e sobretudo, os/as jovens internautas descrevem seu
prazer em terem desfrutado o som de sua banda preferida. Encontramos referências a
performances que ocorreram em contextos diversos, improvisadas ou domésticas, bem como
em mega shows internacionais. Estes, sim, parecem ser os mais comentados e disputados,
alvo dos discursos nos chats. Os cenários das narrativas vão de concertos em turnês a clubes,
bares, pubs, e todos eles parecem se constituir como formas importantes de mediação entre
artistas e público, no caso, nosso/as internautas. As discussões denotam uma espécie de
relação entre ritual e prazer, muito prazer [!], bem como deixam entrever preocupações de
ordem econômica, com o preço dos ingressos, onde buscá-los, comprá-los, etc.
Há uma valorização mais forte para as performances ao vivo, que parecem ser
consideradas pelos/as jovens como um momento em que finalmente estão fisicamente
próximos de seus ídolos. Aqui entra a questão dos/as fãs e da tietagem. Segundo Shuker
(1999), “para muitos fãs, seus ídolos funcionam quase como amuletos guiando suas vidas e
emoções. Essa forte identificação com o ídolo torna-se uma fonte de prazer e inspiração. O
desconsolo ou até mesmo o sofrimento é uma parte importante desse processo, já que sua
resolução — ou pelo menos, essa possibilidade — é que proporciona prazer” (p.128).
4
Chat do portal TERRA, site Cult, sala de Música.
Enfim, parece-nos que os/as jovens, ao fazerem parte da “tietagem”, ao revelarem uma
intensa adesão às suas bandas preferidas, constróem identidades para si.
1.2. “Que tipo de música você curte????” 5
Excerto n.º 2 6
Metaleira! 20:11:09 fala com metal: iae! q curte?
KarenShadowDeP 20:11:18 fala com metal: d !!! o que vc curte (de bandas)? de onde tc???
CLARA 20:13:21 fala com Ta-152Cn:V.c gosta de Hoover?
Metaleira! 20:19:04 fala com metallica: ozzy, iron., sabbath, metallica antigo, pantera,
helloween, megadeth, machine
immolation 21:23:29: ALGUEM CURTE BLACK METAL 7 AQUI??
(00:01:01) PIRIM fala para TwiggyRamirezFuck*: NUM SEI SE VC ACHA IRADO MAS
EU ME AMARRO EM LED ZEPLIN 8
Freqüentemente, a pergunta “que tipo de música vc curte?”, é uma das primeiras
manifestações feitas pelos/as internautas entre si, nos chats sobre música. É como se
funcionasse como “senha” para então se estabelecer um diálogo. A freqüência dessa pergunta
sinaliza a importância do “gosto” para a identidade e a noção de pertencimento.
Os/as internautas mostram-se, muitas vezes, como “colecionadores” de CDs de seus
estilos preferidos, comentando a trajetória musical de suas bandas preferidas. A variação dos
estilos gira em torno do heavy metal. Sobre esse achado, Shuker (1999) afirma que a moda é
fundamental para a música e “as preferências musicais e o status estão sujeitos às variações de
popularidade crítica e comercial. Essas “mudanças de moda” estão relacionadas a alterações
nas estruturas de estilo, do seu público, da indústria fonográfica e das tendências sociais”
(p.189). Ao se referirem às bandas preferidas, eles/as contrapõem músicas de consumo
imediato versus músicas mais “elaboradas”, “genuínas” (heavy metal) elaborando uma
espécie de “linhagem” de estilos, remetendo sempre às subculturas musicais existentes entre
os/as adolescentes. Acontece, por vezes que mesmo sobre grupos detestados os/as jovens
revelam bastante conhecimento factual como que para dissuadir o “outro/a” a da preferência e
“trazê-los” para sua tribo.
Outros achados referem-se às seqüências de insultos fortes, palavrões acompanhados
de aversões sobre gostos musicais.
Concordo com Shuker (1999) quando este afirma que “a música popular é um
elemento do processo da construção da identidade ou da subjetividade do indivíduo” (p.164).
Logo, a escolha de um ou mais gêneros musicais pode servir para separar ou aproximar um/a
adolescente da autoridade imaginária da cultura, da comunidade e da sociedade. Chamo a
atenção aqui para o fato de que a grande maioria dos estilos de heavy metal citados pelos/as
internautas não são reproduzidos em rádios ou programas de alcance de um grupo grande de
audiência, de formas que só assim podemos verificar subculturas dentro de subculturas. Só
5
Frase de um internauta extraída de um chat sobre música dirigida a outro já presente no chat.
Chat do portal TERRA, site Cult, Sala de Música.
7
Black metal está inserido no classic metal, surgido nos anos 70, apresenta um vocal gritado, muitas vezes
lamentoso, além de longos solos de guitarra. As bandas Black Sabbath e AC/DC são exemplos de bandas de
black metal.
8
Led Zeppelin — banda britânica de heavy metal da década de setenta. Lançou seu último disco em 1982 e
teve seu forte mercado nos EUA. Teve como guitarristas e cantores os célebres Jimmy Page e Robert Plant,
tendo sido o primeiro o fundador da banda em 1968 (Herring, 1989).
6
conhecem determinados estilos de música aqueles/as que freqüentam a mesma loja de CDs
por exemplo, sintonizam o mesmo canal de televisão por onde videoclipes são veiculados ou
vão aos mesmos shows.
1.3 “De onde veio a inspiração para este belo nick?” 9
Excerto nº 3 10
KarenShadowDeP 20:09:44 fala com metal: belo nick!!! o que vc curte??? 11
† Burton † 20:45:59: entra na sala
sepultura 20:46:17 fala com † Burton: † entrou o baixista!!!!
VaneAlanis 21:20:23: Olá!!!!!! A fã da MARAVILHOSA Alanis chegoU!!!!!
(23:36:54) Nirvana: 12 entra na sala...
(23:37:01) RANCID: 13 entra na sala...
(23:38:49) Kurt Cobain: 14 entra na sala...
Como se pôde ver nos excertos acima apresentados, a escolha e utilização dos nicks é
de grande importância para os/as internautas. Diferentemente dos nomes que levamos —
escolhidos por nossos familiares — que não representam uma escolha pessoal, os nicks dos
chats e, em especial, dos chats de música revelam escolhas, paixões e desejos (de se
diferenciar, de mostrar habilidade ou audácia por exemplo). Nesse contexto, ocorre que os
próprios nicks são entendidos pelos internautas como “expressando intenções”, de tal forma
que seu significado, sua originalidade e seu poder podem se tornar assunto das próprias
conversas dos chats.
1.4 “Viva o metal!!! Fora pagodeiro!!!!!” 15
Excerto nº 4 16
W.A.S.P 20:12:28 fala com MOR†ICIA: TEMOS DOIS PAGODEIROS NA SALA !
MOR†ICIA 20:23:46 fala com W.A.S.P: MOR†E AOS PAGODEIROS!!!!!!!!!FUCK
W.A.S.P 20:19:57 fala com Saxon: MEU .....VAMO ENSINAR PRA ESSE BANDO DE
PAGODEIRO O QUE É HEAVY METAL DE VERDADE !!!!!!!!!!!!!!!!!!
(23:40:31) Kurt Cobain fala para dave grohl: Ai mano tambem curte nirvana
(23:47:54) [email protected] fala para dave grohl: É VC QUE ODEIA O FOO
FIGHTERS?
(00:16:50) Pagodeiros: VIVA O PAGODE!!!!!!
(00:17:22) [email protected]: PAGOEIROS SAI PRA LÁ BALANÇA A BUNDINHA, SEUS
BICHAS>>
(00:20:25) TwiggyRamirezFuck* grita com Pagodeiros: DEVE SER PRETOS SEM
DUVIDA
9
Frase extraída de um chat que faz referência aos nicks, onde nomes e apelidos de ídolos são assumidos
pelos/as internautas, para entrarem nos chats.
10
Chat do portal TERRA, site Cult, sala de Música.
11
metal — provável referência ao estilo de música preferido que o nick denota: heavy metal.
12
Nirvana — banda grunge americana já extinto desde a morte de seu cantor, Kurt Cobain. O Nirvana ainda é
uma banda bastante comentada entre os/as internautas.
13
Racid — banda americana de heavy metal.
14
Kurt Cobain — cantor da extinta banda grunge Nirvana que se suicidou em 1994.
15
Frase extraída de um chat sobre música na Internet, que faz referência às preferências de gêneros musicais
entre os internautas.
16
Chat do portal TERRA, site Cult, sala de Música.
(00:21:29) BRUTAL TRUTH grita com Pagodeiros: SEU PRETO DE CABELO
TINGIDO E OCULOS NA CABEÇA !!!!!!!VAI SE FUDER!!!!
(00:21:52) Billy Corgan grita com BRUTAL TRUTH: Cara tem que existir o pagode, por
que se naum existir as coisas ruins, como vamos saber que o rock eh o melhor estilo de
musica que existe, deixa esse pagodeiros ...
A marcação identitária dos jovens internautas não passa apenas pelo estabelecimento
de suas preferências, mas também pela expressão de sua repulsa a alguns gêneros, cantores
(Terrasamba × Backstreet Boys × Heavy Metal, por exemplo). Nos chats que gravamos isso se
manifestou de maneira nítida em relação ao gênero musical 17 do “pagode”, em discussões
com bastante agressividade, incluindo ofensas diretas e pessoais aos “outros” (os apreciadores
de pagode). Nos excertos podemos notar que esse repúdio tanto pode ser justificado por
questões de estilo musical como pode acontecer a associação dos “pagodeiros” com outras
identificações que o internauta que tecla julga negativas: “mané”, “pretos”, “bicha”.
Preconceitos de classe, raciais e contra homossexuais são acionados — mas também
contestados nas conversas — nesta marcação de fronteiras entre “nós” e os “outros”.
2. Jovens como “produtores”, “fazedores” e “executores” de música
Nesta seção, ilustro, através de trechos de chat os achados da dimensão identitária de
jovens como "produtores", "fazedores" e "executores" de suas músicas. Encontramos aqui
aqueles/s que querem formar sua própria banda, aqueles/as que tocam instrumentos, os/as
jovens que estão querendo saber mais sobre aquilo que tocam ou cantam, em todos os estilos e
gêneros.
2.1. “Tenho uma banda! Toca algum instrumento?” 18
Excerto nº 5 19
(23:34:28) Slash® grita com 27/08/1984: TOCA ALGUM INSTRUMENTO?
(23:35:13) 27/08/1984 grita com Slash®: NAUM CARA...........ÀS VEZES TENTO DAR
UMA DE VOCALISTA MAS SEMPRE ME FERRO EJHHEHEE
(23:41:46) Punk Skater fala para perdida: eu toco e to formando bandda
(23:42:28) Slash® grita com Punk Skater: JA TEM GUITARRISTA?
(23:42:33) PIRIM fala para TwiggyRamirezFuck*: Aí eu tbm toco baixo tu toca a quanto
tempo
(23:42:53) Slash® grita com TwiggyRamirezFuck*: PQ QUERO FORMAR UMA
BANDA..........
Observo nestes excertos de chat que os/as jovens se colocam ora como produtores de
suas músicas, compositores, ora como aprendizes, ora como dominando algumas técnicas, etc.
Encontramos produtores em diversas áreas como guitarristas, vocalistas e letristas. Suas
descrições como “instrumentistas” excluem “virtuosismos”, já que se dedicam a relatar as
técnicas dominadas por seus ídolos e como buscam imitá-las. Não observamos, por exemplo,
comentários sobre tocar ou fazer pagode; achamos sim, muitas comparações deste/as jovens
17
A abordagem para definir gênero musical, estilo moda e subculturas jovens nessa proposta é a mesma
sugerida por Frith , 1987 (apud Shuker 1999) , que é “seguir as instruções feitas pela indústria fonográfica, as
quais, por sua vez, refletem tanto a história musical como as categorias de marketing” (p.147).
18
Frases extraídas de um chat sobre música na Internet, que faz referência à busca por internautas “produtores”
“fazedores” e “executores” de música”.
19
Chat do portal TERRA, site Cult, sala de Música.
com os guitaristas e baixistas mais famosos do mundo e o que já estão “tocando” do
repertório destes. Há também uma espécie de “classificação” em termos de execução musical
— do mais fácil ao mais complexo — e repertórios que “podem” ou não serem tocados pelas
“dificuldades” que parecem trazer. Quanto às letras das músicas, poucas são as referências,
demonstrando que elas parece não ter muita importância na seleção do repertório para
execução musical.
2.2 “Tem algum guitarrista por aqui? É que eu queria umas dicas, tô começando
agora...” 20
Excerto nº 6 21
(23:40:13) perdida grita com TODOS: tem algum (a) guitarrista por aqui ? é que eu queria
umas dicas , tô começando agora ...
(23:40:55) TwiggyRamirezFuck* grita com perdida: Toquei GUITARRA a dois anos, mas
parei toco agora é BAIXO, acho mais massa
(23:41:46) Punk Skater fala para perdida: eu toco e to formando bandda
(23:42:40) perdida grita com TODOS: bom, q músicas vc sugere p\ eu começar a 'tentar"
tocar ?sou super écletica ! mas no meu sangue tem 80% METAL....
(23:43:52)
Slash®
grita
com
perdida:
COMECE
TOCANDO
PARALAMAS........GUNS....LEGIAO ....ESSAS COISAS
(23:45:01) TwiggyRamirezFuck* grita com perdida: nada a ver garota, começa tocando
escalas, dai vc fica rapida no braço e pega musicas de ouvido
(23:46:26) Slash® grita com perdida: ENTÃO..................TEM MUSICAS DO GUNS QUE
É FEITA DE TRES NOTAS......
(23:53:27) Slash® grita com perdida: DAQUI A POUCO VC VAI ESTAR TOCANDO
MAIS QUE O HENDRIX 22
Nas ilustrações que apresentamos acima, emerge “uma aula de música” através dos
discursos dos/as jovens internautas, que trazem todos os ingredientes que a “utopia” educativa
prescreve: interesse, vontade de aprender, diáologos, informações relevantes, ou seja, uma
aula de música, mesmo. A eleição de instrumentos tido como “melhores” para se começar a
tocar, as indicações de repertório mais adequado ao aprendizado do tipo: “Slash® grita com
perdida: COMECE TOCANDO PARALAMAS........GUNS....LEGIAO ....ESSAS
COISAS”, bem como o estímulo demandado à iniciante de nick “perdida” como: “Slash®
grita com perdida: DAQUI A POUCO VC VAI ESTAR TOCANDO MAIS QUE O
HENDRIX”, são indícios de cumplicidades, trocas, sobretudo, vontade de aprender e de certa
forma a busca de ficarem mais próximos de seus ídolos e bandas, tocando seu repertório.
3. Outras marcações identitárias — lugar, gênero, idade e novos aspectos a serem
considerados
Antes de discutirmos a marcação identitária de lugar, faço algumas considerações
sobre a questão do espaço na Internet. É consensual que a rede revolucionou as noções
20
Frase extraída de um chat sobre música na Internet, que faz referência ao aprendizado informal de música.
Chat do Portal UOL, site bate-papo, sala de Música.
22
Referência a Jimi Hendrix (James Marshall Hendrix), guitarrista da década de sessenta, famoso por quebrar
suas guitarras após os seus shows. Em 67, no Festival de Monterey, incendiou uma guitarra, literalmente.
Faleceu em um quarto de hotel em Londres, em 70, após uma apresentação numa turnê européia, devido à
inalação de vômito seguida de uma intoxiacação por barbitúricos. Tinha 27 anos. Há dúvidas até hoje se sua
morte foi suicídio ou apenas descuido (Herring, 1989).
21
tradicionais de “distância” entre as pessoas. A situacionalidade geográfica entre os/as
internautas parece não importar, em princípio. Atribui-se este fenômeno à globalização, que é
muitas vezes associado a imperialismo cultural. O’Sullivan et alii (1997) observam: “o
processo de globalização deve distinguir-se do processo de imperialismo cultural pois se trata
de um conceito mais complexo e totalizante, organizado e previsível em seus efeitos” (p.168).
Os autores registram que o desenvolvimento de uma “cultura global” tem resultado de
“grandes trocas entre mercados e corporações multinacionais, de tecnologias de comunicação
e midiáticas bem como os sistemas mundiais de produção de consumo” (Ibid., p.168). Hall,
por sua vez, argumenta que o termo “globalização” remete a processos de escala global que
atravessam fronteiras, integrando-se e interconectando-se em comunidades, combinando
espaços e tempos, provocando um “distanciamento” da idéia clássica de sociedade ordenada e
delimitada. As comunidades virtuais estabelecidas através da Internet são resultado dessa
globalização onde jovens de culturas distintas tornam-se onipresentes do sul ao nordeste, no
caso do Brasil, falando sobre músicas de todo mundo e esses “fluxos culturais, entre as
nações, e o consumismo global, criam possibilidades de “identidades partilhadas” (Hall, 1998,
p.74). Entretanto, independentemente dessa onipresença, é preciso considerar a busca de
identificação da origem geográfica (cidade, bairro, etc.) dos internautas nos chats, assim como
a importância dada à questão da idade. As freqüentes perguntas “de onde vc é?”, “onde vc
mora?”, parecem revelar, além da curiosidade dos/as jovens internautas para ver a extensão da
Internet, a intenção de checarem as possiblidades de se conhecer ao vivo o outro/a. Porto
(1999) observa que “a principal motivação de acesso à Internet é buscar informação e
diversão, ocorrendo, portanto, em alto grau, o diálogo técnico” (p.17). Mas em se tratando de
chats, parece esse não ser o único objetivo dos/as jovens internautas, pois estes/as revelam
interesses genéricos motivados em conhecer pessoas e asssuntos novos.
3.2. “Vc é home ou mulher?” 23
Valdivia (1999) inscreve em suas pesquisas sobre a política de identidades juvenis,
preocupações com as questões do gênero feminino. A autora chama a atenção dentro dessa
temática, para os estudos sobre a música popular que “têm tradicionalmente enfocado a
masculinidade” (p.62). Assim, não se questiona que o rock'n’roll seja um campo
predominantemente masculino. De acordo com Valdivia, alguns estudos estão começando a
chamar atenção para a participação e intervenções do gênero feminino no campo do rock. Nos
chats, essas “presenças” se manifestam através de nicks, de expressões, da linguagem, das
atuações de meninas como produtoras e fazedoras de rock, também.
Nos chats emergem questões de gênero nos bate-papos entre internautas, às vezes
provocadas pelos nicks que adotam, outras, pelos próprios discursos dos/as mesmos/as.
3.3. Outros aspectos a serem considerados...
As dimensões identitárias que apresentamos provisoriamente não esgotam as
possibilidades de análise dos chats e sua relação com as identidades juvenis. Questões que
apenas citarei aqui também parecem ter sua importância nessa constituição. Tal é o caso do
uso de um humor “pesado”, expresso, mais uma vez, através de gritos, tanto representados por
23
Frase extraída de um chat sobre música na Internet, que faz referência a questões de gênero.
interjeições alongadas (IOUUUUUUUUUUU... AEEEEEEEEEEEEEE) quanto pelo uso de
maiúsculas ou pela escolha do verbo “gritar”, quanto por afirmações e questões de teor
“absurdo” ou estranho: ALGUÉM AQUI MORA EM ZAN-ZAN-BLETAN...?
A leitura destes excertos nos motiva a dialogar com alguns autores sobre a questão das identidades
musicais.
De acordo com Hudak (1999), os Estudos Culturais nos informam que a música
popular tem um número importante de funções sociais nas vidas das crianças, adolescentes e
adultos. Frith (1987), por exemplo, discute que as funções sociais da música popular incluem
a formação de identidade, o desenvolvimento de um senso de lugar e de contexto social e o
gerenciamento de sentimentos. Segundo Hudak “aquelas pessoas que ouvem música popular
freqüentemente se identificam com um gênero particular e acabam se apropriando, adotando
certos modos de vestir e modos de estar-no-mundo, baseados na cultura que os rodeia ou que
rodeia um particular tipo musical, um gênero musical” (p.448). A identificação musical dos/as
jovens está freqüentemente ligada com um grupo em particular, uma tribo, assim como a
música popular está relacionada a estilos de roupas, expressão de sexualidade e, mesmo,
identificação racial. Entretanto, enquanto os Estudos Culturais abriram um terreno das suas
investigações para incluir dimensões variáveis de “consumo” musical e “uso” da música na
vida dos/as adolescentes, investigações sobre as relações entre “fazer” música, formação de
identidades individuais e coletivas, de acordo com Hudak (1993, 1994), permanecem ainda
pouco desevolvidas. Hudak (1999) refere-se à escola como um espaço primário de
relacionamento entre “fazer” música com outros/as e a formação do que define como
“identidade sonora” e como um “nós musical”. Hudak estabelece uma relação direta entre
“fazer” música e formação de identidade e a justifica pelo fato de que a música provocaria um
alinhamento de tempos interiores entre produtores e ouvintes de música. O autor chama nossa
atenção para a importância de se “fazer” música na escola, das identidades e a conseqüente
coordenação de um tempo comum vivido pelos alunos.
Não ocorre diferente no ato de “fazer” música nos chats. Retomo o exemplo da
personagem que usa o nick “perdida”, quando entra no chat pedindo ajuda para tocar sua
guitarra e há literalmente uma enxurrada de ajuda coletiva, simultânea e a aula se prolonga
por mais de uma hora em tempo real, ali, num espaço virtual, que se configura como uma
comunidade musical na medida em que há interesses coletivos sobre o mesmo objeto, onde as
informações, impressões e técnicas são reais, de quem toca, de quem curte, de quem tem
efetivas aulas de música.
Vimos nos chats formações de tribos, estabelecimentos de fronteiras entre um
determinado grupo ou cantor/a num jogo de forças e até de ocupação de espaços nas
conversas. O que nos parece é que isso é, sem dúvida, uma atividade cultural onde, além do
prazer de compartilhar com os seus pares o “conhecimento” sobre determinados artistas e
gêneros, os/as fãs têm em seus ídolos e bandas uma fonte de inspiração, talvez para
enfrentarem circunstâncias insatisfatórias da vida cotidiana, talvez para desafiarem os/as
“outros”, talvez para se afirmarem como diferentes.
3.4 Dúvidas e inquietações
Hall (1997a) afirma, em relação às identidades, que precisamente “por estarem
constituídas por dentro, e não fora do discurso, precisamos compreendê-las no contexto
especificamente histórico e institucional no seio das formações e práticas discursivas
específicas, produzidas por determinadas estratégias discursivas” (p.4). O autor observa ainda
que “as identidades são construídas através, e não fora da diferença (...) são o resultado de
uma bem sucedida articulação ou ‘encadeamento’ do sujeito no fluxo discursivo” (p.4). Estas
afirmativas ratificam nossos achados: há deslocamentos, deslizamentos, “influências” do
grupo, resistências...
Neste sentido, os próprios chats constituem internautas apreciadores de música que se
expressam de uma forma X, que cumprem normas implícitas de conversa naquele tipo de sala,
que insultam, “gritam”, defendem ou odeiam ardorosamente os ídolos e os dos “outros” ... e
tudo isso vai forjando essas identidades, “dentro” e “fora” desses espaços “virtuais reais”.
3.5 Referências bibliográficas
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e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro, DP&A, 1998.
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identity. London: SAGE, 1997a. p. 1-17. (Trad. Ricardo Uebel).
HERRING, Peter. Os Clássicos Rock Stars: A História Ilustrada do Rock. Rio de Janeiro: Ao
Livro Técnico, 1989.
HUDAK, Glenn. The “Sound” Identity: Music-Making & School. In: Mc CARTHY,
Cameron et all. Sound Identities — Popular Music and the Cultural Politcs of Education.
New York: Peter Lang Publishing, 1999. p.447-474.
FRITH, Simon. Music and Identity. In: HALL, Stuart e DU GAY, Paul (ed.). Questions of
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PORTO, Sérgio (Org.). Sexo, afeto e era tecnológica: um estudo de chats na Internet. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 1999.
O’SULLIVAN, Tim et. alii. Conceptos Clave en Comunicación y Estudios Culturales. Trad.
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SHUKER, Roy. Vocabulário de Música Popular. Trad. Carlos Szlak. São Paulo: Hedra,
1999.
VALDIVIA, Angharad. Repensando a pedagogia para o século XXI: garotas adolescentes,
cultura popular e a política de identidades juvenis. In: SILVA, Heron (Org.). Qual
conhecimento? Qual Currículo? Petrópolis: Vozes, 1999. p.62-73.
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Identidades musicais juvenis nos chats de música da Internet