DIMIL
SIED
SECRETÁRIO-GERAL
INFORMAÇÕES
(SIRP)
GNR
PSP
SEF
SIS
SECRETÁRIO-GERAL
GABINETE COORDENADOR SEGURANÇA
DCCB
PJ
MINISTRO
DA JUSTIÇA
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MINISTRO DA
ADMINISTRAÇÃO
INTERNA
PRIMEIRO-MINISTRO
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MINISTRO
DA DEFESA
PRESIDENTE
DA REPÚBLICA
SISTEMA DE SEGURANÇA NACIONAL PORTUGUÊS
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INTRODUÇÃO
Já passaram quase duas décadas, mas ainda hoje é célebre na
comunidade dos espiões portugueses a história do director de serviços do Banco de Portugal1.
Resumida em poucas palavras, reza a lenda que um funcionário
dos Serviços de Informações de Segurança (SIS), a entidade de espionagem portuguesa responsável pelas informações internas, telefonou
para o Banco de Portugal, solicitando uma série de dados públicos
de macroeconomia, necessários para um relatório geral. Passaram-se alguns dias até que alguém lhe indicasse o interlocutor autorizado, e outros mais até que conseguisse estabelecer contacto com
este último. Confrontado com o teor do pedido, o representante do
Banco de Portugal informou o funcionário de que este tinha de
enviar um ofício certificado, e mostrou-se inflexível perante os argumentos do agente do SIS, que realçava a necessidade urgente da
informação. Só quando o analista do SIS perdeu a cabeça, relembrando ao burocrata do banco que ambos trabalhavam para o Estado,
é que o director de serviços abriu o jogo:
– Sim, sim, mas olhe que em patamares muito diferentes. Não
achamos muito correcto estarmos a fornecer dados a serviços do
tipo do seu.
1
Recolha de informação realizada pelo autor junto de funcionário superior do
SIS, Março de 1990.
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Os serviços secretos portugueses estão amaldiçoados por fantasmas de um passado a que não pertencem, são impotentes para romper a manipulação executada pelos governos que os tutelam, lidam
sem sucesso com a extrema desconfiança do poder representativo, o
ódio dos cidadãos, a animosidade dos instrumentos do Estado, para
além de aturarem o desprezo das empresas, e não podem disfarçar
a ausência de memória e a imaturidade operacional que marca as
suas investigações.
Este carinhoso quadro de referência é completado por uma realidade geopolítica e de segurança, local e global, ou seja o quadro
de trabalho primário dos espiões, que raramente foi tão complexa e
mutável.
Como é de esperar, numa época em que deles muito se necessita,
os serviços pouco conseguem dar.
Nada disto seria especialmente grave e original, dada a insignificância económica e geoestratégica de Portugal a partir do século
XVII, se não vivêssemos um tempo, todos nós, que tenderá a ser longo, em que a espionagem é o escudo essencial de protecção de todos
e de cada um dos cidadãos, para além de ser uma das ferramentas
fundamentais de um Estado, se este último desejar adquirir, manter
e implantar poder, e proteger devidamente os seus cidadãos.
É nesta profunda esquizofrenia entre o papel vital que teoricamente deviam desempenhar e a baixa capacidade que efectivamente
possuem que trabalham os serviços secretos portugueses.
Os fantasmas de passado são, em grande parte mas não exclusivamente, os provocados pela existência da PIDE-DGS, o braço
repressivo do regime salazarista, entre 1933 e 1974. Usando largamente os muitos poderes que lhe foram conferidos, que lhe permitiam ser simultaneamente um serviço de informações e uma polícia
política, a polícia de defesa do regime, na verdade, a PIDE-DGS
tinha como seu principal inimigo a resistência ao poder ditatorial,
assumido pelo Partido Comunista Português e por uma série de grupos e movimentos de ideários de esquerda e republicano, a que deve
ser acrescentada a corrente social-democrata, a partir dos anos 70.
O facto da perseguição, vigilância, tortura e prisão empregue pela
PIDE-DGS ter tido como alvo principal os opositores do regime
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levou a que estes, detentores do poder em democracia, a partir de
1974, transportassem consigo uma ideia de serviços de informações
que não corresponde à natureza fundamental deste tipo de entidades.
Apesar disto, o preconceito instalou-se e reproduziu-se entre as
várias gerações de políticos, cunhando uma relação do poder executivo português com os seus serviços que é singularmente opaca e
prejudicial a estes últimos.
No entanto, o preconceito histórico por si só não é suficiente
para explicar a complexa relação dos políticos portugueses contemporâneos com os serviços de espionagem que deles dependem. Uma
ideia muito incompleta das necessidades do Estado, que tem as suas
origens na extrema instabilidade e conflitualidade da política portuguesa nos últimos dois séculos, e a desconfiança por parte de uma
classe que receia poderes que possam competir com o seu, e com os
processos como este é obtido, financiado, negociado, disseminado e
mantido, são factores essenciais para uma análise do problema que
queira escapar aos enquadramentos óbvios.
A relação viciada tem consequências para os serviços de informações a vários níveis, criando um quadro estrutural que os impede de atingir a eficácia desejada. Em primeiro lugar, o poder político
revela, numa linha coerente que vem de 1974, especial preocupação
em limitar legalmente os poderes dos serviços, ao ponto de, optando
pelo primado dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos,
impedir os espiões de usarem ferramentas decisivas, como a intercepção de comunicações, uma capacidade que todos os governos
ocidentais garantem aos seus organismos de espionagem. Por outro
lado, essa postura de desconfiança, e por vezes de desprezo, leva o
poder executivo a não estabelecer políticas e prioridades exactas
e duradouras para os serviços, bem como a não avaliar o trabalho
destes com rigor, permitindo a sua deriva operacional, sempre perigosa e alienante.
Por último, a desconfiança leva os sucessivos Executivos, quando
tomam posse, a recorrerem sistematicamente ao tradicional selo de
garantia, que não é mais do que a nomeação de um director da sua
confiança, tornando a espionagem propriedade conjuntural de um
Governo, e não património permanente de um Estado.
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Esta prática política inquinada determina, como não podia deixar de ser, o comportamento em relação aos serviços dos mais
diversos poderes da sociedade portuguesa, da administração pública
às empresas, passando pela comunicação social e pelos cidadãos,
gerando sentimentos que oscilam entre a animosidade, nos momentos mais graves, e a distância, num caso como no outro mais instrumentais do que genuínos.
Esta expulsão dos serviços do sistema a que pertencem, efectiva
mas não formal, é completada pela competição gerada pelo papel
das polícias na segurança nacional de Portugal. No campo da segurança interna, a Polícia Judiciária (PJ), especialmente a sua Direcção
Central de Combate ao Banditismo (DCCB), a quem cabe a investigação criminal do crime organizado e do terrorismo, o Serviço de
Estrangeiros e Fronteiras (SEF), através do seu departamento de investigação, a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Guarda Nacional
Republicana (GNR), usando os respectivos núcleos de informações
e investigação, tendem a disputar o espaço puro das informações,
por uma necessidade credível de atingirem os seus objectivos de
combate ao crime, mas também por uma luta pelo controlo de uma
área onde, mais uma vez, a indefinição, não legal mas real, de fronteiras e competências, gerada pela ambiguidade política, provoca
uma permanente conflitualidade e falta de cooperação que acaba
por ter reflexo no produto operacional dos serviços secretos, e também no lugar que conseguem ocupar.
Por sua vez, o SIS e o Serviço de Informações Estratégicas de
Defesa (SIED), os serviços de espionagem portugueses, criados em
1986 e 1997, respectivamente, não conseguem escapar a uma imaturidade operacional, própria de todos os serviços sem um passado
longo e sólido, que se reflecte, numa percentagem considerável, na
qualidade deficiente das suas redes de informadores, e nos métodos
pouco profissionais das suas pesquisas.
Infelizmente para os serviços, mas principalmente para todos nós
cidadãos, o mundo pós-guerra fria não trouxe uma diminuição da
ameaça. O que produziu realmente foi um mundo simultaneamente
globalizado, interligado e fragmentado, de múltiplos poderes conflituais, responsáveis, directos ou indirectos, conforme o ângulo de
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análise, pela emergência de duas ameaças sólidas, de uma letalidade
extrema, e com uma presença no tempo que se prevê duradoura.
A primeira é a do terrorismo fundamentalista islâmico, capaz, em
rede ou pela utilização de células autónomas, de atacar com uma
violência até 2001 inimaginável, todos aqueles que considera os seus
inimigos. A segunda é a criminalidade organizada, habilitada, com
o único objectivo do lucro, a minar os fundamentos essenciais da
democracia e da economia.
A esmagadora maioria dos Estados ocidentais, da qual Portugal
não faz parte, entendeu rapidamente que as organizações terroristas
e criminosas, pelo seu profissionalismo, obrigam à existência de serviços de informações, polícias e magistraturas com um grau de
conhecimento específico e profundo, e de ferramentas de trabalho,
legais e operacionais, distintas das que são normalmente utilizadas.
A este propósito, Efraim Halevy, ex-director da Mossad, o serviço externo israelita, defende, na sua biografia1, publicada recentemente, que o terrorismo islâmico e o crime organizado obrigam os
espiões a desempenharem actualmente um papel que nunca tiveram
na história, já que «estão destinados a serem parceiros com o mesmo
estatuto, ou quase, dos seus responsáveis políticos na tomada de
decisões e na formulação de políticas».
E Michael Herman, considerado a maior autoridade teórica no
campo da espionagem, refere2 que «a espionagem é um elemento
fundamental no novo, turbulento e globalizado mundo de diversas
e permanentemente mutáveis ameaças [...]; um mundo progressivamente consciente que [...] um governo não pode tomar as decisões
certas a não ser que conheça o filme completo».
Como não poderia deixar de ser, são estes os elementos essenciais
de um livro sobre os serviços secretos portugueses. O objectivo principal é o de desocultar uma actividade que em Portugal permanece, em
larga medida, desconhecida e cercada de mitos. O método escolhido
1
Halevy, Efraim, Man in the shadows: Inside the middle east crisis with a man
who lead the mossad, Weidenfeld&Nicolson, 2006.
2
Herman, Michael, Intelligence Services in the information age, Frank Cass,
2001.
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é o do recurso a investigações concretas dos serviços, que permitam um
melhor conhecimento dos espiões portugueses e respectivos alvos.
Neste campo, é dada uma especial atenção ao combate ao terrorismo islâmico e ao crime organizado.
No entanto, é tentada, como não poderia deixar de ser, uma história interpretativa das várias formas da espionagem portuguesa, da
fundação à actualidade. Os períodos mais controversos, como o
relacionado com a PIDE-DGS, são analisados com a profundidade
permitida pela investigação histórica existente.
As competências, os métodos, os poderes, e principalmente os
saberes dos serviços de informações portugueses, bem como o
alcance destes na sociedade portuguesa, são analisados em capítulos específicos.
Indo directo ao que importa, o objectivo deste livro é dar um
modesto contributo para a eliminação de algumas das demasiadas
sombras que envolvem permanentemente a espionagem portuguesa.
JV
Julho de 2006
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CAPÍTULO I
O TERRORISMO ISLÂMICO
CONTEMPORÂNEO
Uma operação interminável
O jovem tenente da GNR, agente de pesquisa do serviço português
de espionagem há escassos meses, seleccionou a opção «imprimir» no
seu computador, e esperou pelo sussurro familiar criado pelas folhas
a saírem. Estava ali o seu primeiro relatório operacional. O trabalho
sobre uma complexa rede nacional de segurança ilegal, violenta, tinha
corrido «menos mal», como costumava dizer o seu avô, sargento da
Guarda toda a vida, e um alentejano de uma cepa cujo molde deixou
de existir. O agente levantou-se, agrafou as folhas e entregou-as ao seu
director de serviço, ocupado a olhar para o computador. O agente
preparava-se para sair em silêncio, mas o director fez-lhe um gesto
para ele esperar um pouco. Informou-o de que o responsável pelo
departamento de terrorismo queria falar com ele. E mais não disse.
Intrigado, o agente parou no corredor, para tirar um café, o último,
jurava a si próprio, da mais de uma dezena diária. De repente, um dos
veteranos do serviço aproximou-se dele.
– Boa malha o teu trabalhinho, para um GNR, quero eu dizer.
Vocês afinal conseguem pensar – atirou-lhe, à queima-roupa.
O agente deixou a máquina esgotar o jorro de café para o copo
de plástico. Virou-se com um sorriso, e bebeu um gole.
– Até parece mentira, não é? Sabe qual é o segredo? Lá no curso,
injectam-nos um daqueles genes modificados, carregado de inteligência a 100 por cento, e nós até uivamos de tanto pensar. Parece
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que vocês aqui também os iam receber, mas descobriu-se uma
incompatibilidade genética geral no vosso efectivo, segundo dizem
as putas das más-línguas.
O veterano ficou de boca aberta.
– Meteram-te o violino no saco, Pereira, para não usar uma
daquelas expressões horrendas que tu adoras – comentou uma analista que estava na fila para a máquina.
O agente bateu à porta do responsável pelo terrorismo. Após a
autorização, entrou e sentou-se. O homem à sua frente era conhecido por não gostar de perder tempo.
– Quero que venha trabalhar para aqui. A emoção é permanente,
existem grandes hipóteses de um contínuo, íntimo e fraterno diálogo intercivilizacional, há várias oportunidades de aprender línguas
fascinantes, a psicoterapia é por conta da casa, e partilhamos da
convicção oficial de que podemos contribuir para a destruição do
mal que nos ameaça, embora tenha de lhe confessar, se prometer
não dizer nada a ninguém, que na minha opinião isso faz parte de
uma daquelas ilusões inventadas pelo departamento de marketing
da CIA. Então o que me diz? – perguntou o director de serviços.
– Posso começar já, ou aqui também tenho de preencher os formulários do costume? – respondeu o agente.
O director sorriu. Estendeu ao agente uma pasta que tinha em
cima da mesa em frente ao ecrã plano do computador.
– Sempre que entra alguém para aqui, costumo aconselhá-lo a ler
isto. É um digest da teoria mais relevante do tema, feito pelos nossos queridos analistas. Nesta área, convém conhecer a teoria, embora muitos acreditem que não.
O agente agarrou na pasta.
– Com certeza, meu director – disse o agente.
O responsável voltou a sorrir.
– Senhor doutor chega, se não se importa – disse-lhe, e voltou a
olhar para o computador.
O agente saiu, furioso consigo mesmo por não conseguir abdicar
do «meu» castrense, e dirigiu-se em passo acelerado para a sua
secretária. Voltou a tirar o casaco, colocou música no computador
e começou a ler a primeira página.
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Horas depois, quando terminou o digest, sozinho no piso deserto da
sede, o jovem operacional ficou sem saber bem o que pensar. Lembrou-se da sanduíche que de manhã tinha feito em casa, carregada de verduras como lhe ensinara a irmã, e uma fatiazinha muito fininha de pluma de porco disfarçada na erva, para honrar as origens, e recostou-se
na cadeira. Tinha encontrado muita coisa que o impressionara no relatório de referência, mas o que mais o preocupava era a distância.
O jovem tenente sabia que a distância é o pior inimigo do espião,
e do polícia1. Ganhara esta convicção à custa das madrugadas e das
noites passadas com o avô, que recordava sempre que estava no terreno. As horas perdidas nas tabernas, nas sociedades recreativas e
nos centros do povo, as noites geladas nos trilhos das planícies e das
serras tinham sido a sua grande escola. «Não se apanha bandidos se
não se pensar como eles», ensinara-lhe o velho. «Olha-lhes nos
olhos, escuta-lhes as conversas, vê o que eles fazem, por onde andam,
e como andam. Descobre o que lhes anima a alma, e o que lhes mete
medo. Um dia, vais saber o suficiente para os conheceres melhor que
os marafados a si próprios. ’Inda eles não mexeram um dedo, e já tu
estás a dar-lhes uma porretada na cabeça.»
E agora, pensava o agente, estava a lidar com um inimigo que não
conhecia. Era essa enorme distância que a teoria mostrava sem rodeios.
Estava a lidar com homens que vinham de um mundo distante, formados num sistema do qual ele nunca tinha sentido os cheiros, as
regras, os hábitos e os valores. O agente conseguia perceber a missão
do inimigo, e até as razões que o levavam a lutar. Mas nada mais. Estava a lidar com homens que pensavam de uma maneira controlada por
códigos que desconhecia completamente, o pior pesadelo do caçador.
Recordou um texto do escritor americano John Updike, a propósito do 11 de Setembro2. «Homens determinados que transpuse1
A dificuldade do trabalho de pesquisa de informações está bem expressa em
vários manuais especializados, alguns de divulgação pública. No entanto, Kim de
Rudyard Kipling, edição portuguesa Europa-América, continua a ser o melhor
texto sobre a matéria.
2
Updike, John, ensaio, The New Yorker, secção «The Talk of the Town»,
Outubro de 2001. Updike publicou recentemente Terrorist, uma ficção inspirada
nos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 e no fundamentalismo islâmico.
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ram as suas próprias vidas para o pós-vida de um mártir podem infligir uma quantidade de destruição que suplanta a crença. A guerra é
conduzida com uma fúria que exige abstracção – que transforma um
avião cheio de passageiros, incluindo crianças, num míssil que o inimigo sem rosto merece. O outro lado tem as abstracções; nós temos
apenas os deveres mundanos dos sobreviventes.»
Para o agente, o facto de «o outro lado» ter «as abstracções»
abria um pavoroso abismo onde o conhecimento era engolido pela
escuridão da distância. Sem conhecer o longo processo de vida que
levava o inimigo a ser determinado por uma abstracção tão maligna,
não era possível combatê-lo de igual para igual. Quando o caçador
não consegue reduzir a abstracção às partes concretas que a criam,
a caçada é um fracasso.
O agente sentiu o desconforto a instalar-se. Fazia agora parte de
uma guerra absurda, onde a sua única missão era a de eliminar o
acto do inimigo, não tendo capacidade para o desarmar no seu território, na sua origem, no seu ambiente. Nunca conseguiria desactivar a abstracção deste em tempo útil. Desligou o computador, e foi
para casa.
Na manhã seguinte, perto do meio-dia, o responsável adjunto
do terrorismo fez-lhe sinal da porta de uma das salas de reuniões.
O agente avançou. No compartimento, estavam já, para além do
adjunto, dois homens do terrorismo e o coordenador da vigilância
e do seguimento.
O adjunto carregou numa tecla do computador, e um rosto árabe
apareceu no ecrã. Era de um homem relativamente novo, de cabelo
curto, mas sem barba.
– A informação é de ontem à noite, dos nossos amigos italianos.
Salim Aziz, 32 anos, marroquino, imigrante ilegal desde 1993. Espanha, França, Reino Unido, Milão desde 2003. As informações disponíveis garantem que tem um longo passado de fanatismo e ligações a uma possível célula com actividade suspeita em Bruxelas.
Chega hoje ao fim da tarde a Lisboa, num voo da TAP, se as informações baterem certo.
– Algum motivo identificado? – perguntou um dos homens do
terrorismo.
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– Negativo, os italianos não escreveram nada. Pedem vigilância e
que os informemos – respondeu o adjunto, acrescentando: – Vigilância vinte e quatro horas.
O coordenador da vigilância e do seguimento montou rapidamente a operação. Ao agente calhou a recepção no aeroporto.
Logo na zona das chegadas, o marroquino foi detectado pelo
agente e pelo resto da equipa. Não trazia bagagem, apenas uma
mochila de tamanho razoável. Meteu-se num táxi, e dirigiu-se para
uma zona da cidade perto do rio, onde entrou numa pensão barata.
No carro, o agente preparou-se para uma noite fora de casa.
Nos dois dias seguintes, o marroquino parecia apostado em ser
figurante num filme monótono. Segundo o relatório dos vigilantes,
não se passava nada. O alvo pouco saía da pensão, aparentemente
não recebia visitas, embora os agentes tivessem fotografado vários
indivíduos muçulmanos que entraram na pensão e não mostrara
qualquer actividade suspeita.
Na tarde do terceiro dia, calhou ao agente o seguimento mais próximo. Por volta das 14 horas, o marroquino saiu da pensão, levando
na mão esquerda o que parecia uma mochila pequena e vazia. Em
passo acelerado, meteu-se por uma rua. O agente seguiu-o mantendo
a distância regulamentar. O marroquino mostrava estar pouco à-vontade na cidade. Hesitou por várias vezes, perdeu-se numa ocasião, procurava sinais indicativos, e chegou a consultar um papel que trazia no
bolso. A meio do percurso, o agente trocou com uma colega sua.
Esta, ao fim de uns minutos, comunicou que o marroquino tinha
entrado numa estação de metro, e que o ia seguir.
Um quarto de hora mais tarde, a mesma agente deu indicação do
local onde estava. Informou também que o marroquino entrara
numa dependência de uma empresa de transferência internacional
de valores monetários. Quando o agente, respondendo a uma ordem
do coordenador da operação, avançou para o local, o marroquino
estava ainda dentro da dependência.
Os membros da equipa debateram rapidamente entre si a hipótese de um deles entrar na agência. Mas o coordenador decidiu jogar
pelo seguro, e voltaram a posicionar-se na rua, à espera. Mais de
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meia-hora depois, o marroquino saiu. O agente seguiu-o de volta à
estação de metro. Quando a composição chegou, e o marroquino se
preparava para entrar, o agente, por acaso, olhou para as mãos dele.
Ficou gelado. O marroquino já não trazia a mochila. Sem conseguir
dominar o pânico, entrou também na carruagem. Só minutos depois,
já fora do metro, ao mesmo tempo que prosseguia no seguimento,
conseguiu comunicar com a equipa. Ficou à entrada da pensão, vendo
o marroquino subir para o quarto, sabendo que existia uma hipótese mínima de a operação escapar ao pior.
Na manhã seguinte, o marroquino apanhou um avião, desta vez
para Roma. À tarde, já no serviço, o agente confirmou as suas piores expectativas. A negociação com os responsáveis da agência, que
não fora simples, revelara o mais temido dos cenários. O marroquino levantara 25 mil euros. Mostrando um alto profissionalismo,
pusera-os na mochila, e, ainda dentro da agência, num ângulo não
coberto pelo sistema de imagem de vigilância, passara-os a alguém.
Alguns dos especialistas do serviço estavam agora a rever as imagens
da agência, tentando identificar alguém dentro das dezenas de pessoas que tinham estado na dependência naquele período de tempo.
Segundo o agente fora informado, estavam a isolar indivíduos com
aparência árabe, à procura de uma cara conhecida.
Horas mais tarde, um dos veteranos passou pela sala, com um ar
pesado. O jovem operacional dirigiu-se a ele:
– Então? – perguntou.
– Nada – adiantou o veterano, todos uns ilustres desconhecidos.
O jovem agente puxou de uma cadeira, sentando-se junto do
veterano.
– E agora? – O veterano olhou para ele, tirou os óculos, e coçou
a barba aparada.
– Agora, é uma chatice do caraças. Vamos imprimir as caras dos
gajos que lá estavam, fazer um relatório a dizer que fizemos merda,
e mandar para todo o lado, a ver se alguém conhece uma das personagens.
O rookie inclinou-se para a frente, colocando os cotovelos nos
joelhos e olhou para a alcatifa que devia estar cheia de ácaros. Não
conseguiu conter a pergunta:
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– Para que é que achas que são os 25 mil pacotes?
O veterano pegou numa caneta, e olhou para o tecto.
– Queres que seja sincero? Quase de certeza, nunca vamos saber.
Pode ser para financiar um atentado em Florença, para comprar
explosivos em Lyon para rebentar alguma coisa em Berlim. Mas
também pode ser só para uma transa qualquer de «heroa», ou para
comprar uns passaportes em Banguecoque, que hão-de chegar ao
Paquistão. É como a base de dados da Amazon que dá para tudo o
que o cliente queira.
O rookie deve ter feito uma cara miserável, porque o veterano
deu-lhe uma palmada amigável nas costas.
– Não desanimes, meu caro, nesta guerra estamos sempre a levar
na cabeça. Foi a tua primeira, mas não vai ser a tua última. Não
durmas com a culpa, senão vais-te abaixo.
E desapareceu no corredor.
O espião voltou à sua secretária. Durante toda a tarde andou por
ali, a inventar. Por uma ou duas vezes foi saber se tinha chegado
alguma informação de fora, mas os canais estavam silenciosos. Ao
fim da tarde, o piso começou a esvaziar-se. Mas o jovem tenente já
tinha decidido que não tinha nada para fazer em casa. Começou a
seleccionar a informação que tinha guardado nas últimas semanas,
violando algumas regras internas.
Depois, horas mais tarde, sozinho no gabinete deserto naquela
hora nocturna tão desagradável aos burocratas, o jovem operacional do SIS introduziu no sistema uma palavra de acesso fornecida
pelo seu superior, e vasculhou lentamente as secções que mais lhe
interessavam. Bastante tempo depois, olhou para os ficheiros informatizados de arquivo abertos à sua frente, tentando decidir por
onde começar.
No ecrã estava despejada uma quantidade incontrolável de informação. Metodicamente, como quem entra num mundo que não
domina, o agente foi abrindo as pastas relacionadas com os assuntos que lhe eram mais familiares.
Como muitos outros dos seus pares do mundo inteiro tinham
feito em anos anteriores, achou prudente encetar a análise pelo rescaldo operacional do 11 de Setembro. Afinal, foi a partir daí que o
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terrorismo jihadista se transformou de ameaça assustadora em inimigo principal dos Estados Ocidentais. Quando deu por si, já de
madrugada, não conseguia sequer saber de que ficheiro digital tinha
retirado os pedaços de informação que ia acumulando na pasta que
criara. Entre informação teórica, informação operacional geral, e
informação relacionada com a actividade terrorista em Portugal, os
dados acumulavam-se, sem que ele conseguisse dar-lhes uma ordem.
O jovem agente gravou na sua «USB» o documento que criara,
que continha de forma desordenada os dados que recolhera, e desligou o computador. Quando saiu para a rua e se enfiou no carro,
com uma multa bem visível no vidro por falta de pagamento do
estacionamento, não conseguiu impedir o desalento que o invadia.
Detestava admitir a si próprio uma inocência tão grande, mas acreditara que uma análise cuidada dos arquivos operacionais poderia
servir-lhe para construir um modelo eficaz, para ganhar a dianteira
dos acontecimentos, em lugar de ir sempre atrás deles. Mas a análise deitara-lhe por terra qualquer ilusão. Seria sempre, como os seus
pares, um reactivo, a pior coisa que um espião pode ser.
Percebia agora, ao fim de tantas horas de leitura, que o seu
modelo seria sempre uma construção imaginária. Restava-lhe, tal
como a todos os outros espiões e polícias, usar com eficácia as poucas armas de que dispunha, das quais a imaginação era uma das mais
importantes.
Após ter dado a volta ao bairro pela quarta vez, incapaz de
encontrar um lugar de estacionamento, atirou com o carro para
cima do passeio, a umas dezenas de metros da entrada do apartamento alugado. Entrou no prédio, e, talvez devido ao cansaço, não
conseguiu impedir a porta de bater com estrondo.
– Palhaço, vadio, vê lá se entras no prédio a horas de gente
decente – gritou imediatamente o velho insomaníaco do rés-do-chão
esquerdo.
– Só quando a tua filha me deixar – respondeu-lhe o agente, arrependido do que dissera no momento seguinte a ter gritado. Entrou
em casa, comeu um iogurte fora de prazo, e deitou-se vestido no colchão, encostado a um canto do chão.
O telemóvel acordou-o.
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– Então, senhor oficial, o senhor é que decide quando é feriado? –
perguntou-lhe a voz da secretária do serviço. O jovem tenente olhou
para o relógio. Passava do meio-dia.
– Vou já para aí – respondeu. A chamada desligou-se de imediato.
O agente tomou banho, evitou olhar para o fato cinzento amarrotado, e descobriu que as camisas estavam todas no «5 à sec», para
passar a ferro. Vestiu um pólo e umas calças caqui, e arrancou. Já no
serviço, ainda não tinha ligado o computador, e já um dos seus colegas do departamento, olhando para o pólo azul, lhe perguntava:
– Sim senhor, estás lindo, pareces o ministro ao fim-de-semana.
Então, vais para o golfe ou pensas que estás undercover numa festa
da socialite?
«Burocratas de uma figa, vão à Zara e pensam que trabalham
num banco», resmungou o agente em silêncio, ao mesmo tempo que
verificava o correio electrónico. Momentos depois, recebeu uma
mensagem na sua caixa da rede interna do serviço, convocando-o
para uma reunião, meia-hora mais tarde.
Na sala, estavam vários operacionais do terrorismo, dois analistas, três homens do crime organizado, e os dois responsáveis de serviço respectivos.
O responsável do terrorismo fez uma longa introdução, partilhando
alguma informação vinda da Europol e da Interpol. Basicamente, a
informação reciclava e dava ordem a uma série de dados dispersos
recentes. A perícia que as células revelavam no uso das telecomunicações aperfeiçoava-se a um ponto inimaginável. Em relação à internet,
dizia o director, em voz monocórdica, os terroristas utilizavam todas
as capacidades ao seu dispor, para difusão de propaganda, e para
comunicação, na maior parte das vezes coberta e cifrada.
As comunicações por aparelhos móveis eram outro drama, considerou o orador, fazendo uma pausa para acender um cigarro. A liberalização do mercado, a profusão de cartões pré-pagos, e os acordos
transnacionais de roaming faziam com que um volume enorme de
chamadas fosse indetectável, acrescentou.
Um dos funcionários presentes na reunião, aparentando mais de
quarenta anos, que tinha sido roubado à PJ, olhou para o tecto com
ar sonhador, afagando a gravata de riscas.
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– Ah, que saudades dos tempos das redes fixas. Ligava-se para o
nosso amigo engenheiro da Marconi, o tipo descobria logo qual era
a linha que os paquistaneses tinham martelado ali no Martim
Moniz, e punha-se o grilinho1 a escutar tudo.
– Pois é – interrompeu o responsável pelo crime organizado –,
mas tristezas passadas não pagam dívidas. O que é que podemos
fazer para ganhar algum controlo disto aqui para os nosso lados?
Fez-se um silêncio à volta da mesa. Quando a falta de sugestões
começou a ser embaraçante, o homem do crime organizado voltou
à carga:
– Caramba, não há ideias?
Um dos agentes do seu departamento chegou-se à frente, colocando os cotovelos na mesa.
– Bem, podemos sempre ir apertar os suspeitos do costume, os dealers dos cartões, pode ser que eles cantem alguma coisa. Ora, deixa cá
ver, temos o Rashid, o Hamad, o Ansumane... Ah, e já me esquecia,
aquele puto novo chinês, o Chang, ou como é que ele se chama. Fora
os outros que a DCCB não nos diz quem são, e ainda os outros que
o SEF esconde.
Voltou a fazer-se silêncio.
– Bem, é um começo, e como é que declaramos o namoro? – perguntou o director de serviços do terrorismo, sem esconder a falta de
entusiasmo.
O jovem tenente estava a fazer um esforço enorme para se manter calado, mas havia algo nele que, de facto, traía periodicamente
as suas origens alentejanas. Recostou-se na cadeira, libertou o ar dos
pulmões, e disse:
– Ou podemos talvez tentar de outra maneira.
Todos os presentes olharam para ele.
– Diga lá – incentivou o director.
O espião pegou na caneta, e fez uns rabiscos na folha em branco
à sua frente. Depois, olhou para os responsáveis, sentados lado a
lado no topo da mesa.
1
O «grilo» é o termo de calão policial que designa os aparelhos capazes de
efectuar intercepções de comunicações.
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– Porque não compramos os cartões e não os passamos a um dos
intrujas que possamos controlar?
Um analista do crime organizado quase que deu um salto.
– Mas isso não é permitido por lei. O que você está a dizer substancia um acto de agente provocador, e isso é ilegal no nosso país,
como creio que sabe.
O agente aguentou o embate.
– Sei, sei, mas um atentado também é proibido por lei e não é só
no nosso país.
Uma das veteranas do terrorismo riu-se, mas o analista do crime
organizado, que tinha vindo da função pública, reagiu de imediato.
– Os fins não justificam os meios, como devia saber.
O agente ia responder, mas a veterana do terrorismo, com os
olhos em brasa, antecipou-se.
– Olha lá, meu menino, és um infiltrado do Bloco de Esquerda
ou quê? Se tirasses o rabinho da secretária e andasses lá fora a ser
enrabado pelos maus, se calhar não dizias asneiras.
O analista levantou-se, com o rosto vermelho, mas o director do
terrorismo deu um berro.
– Chega, e você mantenha-se sentado até ordem em contrário.
Recordo a todos que somos pagos para produzir, não para discutir
à mesa da esplanada.
O director voltou a acender um cigarro.
– Ninguém desconhece o que eu penso da lei no nosso país. Ela
continua a passear no passado, e o crime acelera da maneira que
todos sabemos, rindo-se dela. – Virou-se para o funcionário indignado: – Quem se sentir incomodado, pode sair. – De seguida, interpelou o tenente: – Qual é a sua ideia?
O agente explicou o seu esboço de plano em cinco minutos. O responsável do terrorismo olhou para o seu par do crime organizado,
que fez uma expressão de concordância.
– Escuso de recordar aos presentes o princípio da necessidade de
saber. Vamos a isso – disse o director.
A sala esvaziou-se rapidamente. A veterana do terrorismo colocou-se ao lado do tenente, junto à máquina do café.
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– Estiveste bem, miúdo, embora sejas um atrevido numa casa que
adora burocratas. Quando estiveres a sentir-te abandonado, liga para
o meu telemóvel, que eu atendo – disse com um sorriso que, de um
modo estranho, embelezava o seu rosto envelhecido. O agente estava
a esgaravatar uma resposta à altura quando viu o director a chamá-lo. Dirigiu-se a ele.
– Você tem noção que se isto der merda, é a sua sanita que fica
entupida, não tem? – O agente fez um gesto de assentimento. O director voltou para o seu gabinete.
No dia seguinte, por volta do meio-dia, o agente entrou na esquadra da PSP. O seu amigo da brigada de investigação estava à secretária, de botas Timberland, calças de ganga, t-shirt e colete desportivo sem mangas.
– Porra pá, pareces mesmo um bófia à paisana – disse-lhe a rir.
– Pois, pois, brinca com a lei, brinca, espiãozinho. Diz-me lá aqui
ao ouvido que ninguém nos ouve, desde que lá estás, quantos é que
meteste dentro? Um, dois? Desgraçado.
Os dois homens riram-se. Saíram para uma tasca ali perto. Ao
balcão, o homem da PSP pediu meio Cutty Sark em balão, com
gelo.
– Mas o que se passa contigo? – perguntou o agente. Desta vez,
o polícia não sorriu.
– Isto não perdoa, sabes como é. Mas deixa lá isso. Então de que
precisas?
O agente explicou o seu plano ao polícia, que o ouviu com atenção. No fim, perguntou:
– O que tens para a troca?
O homem do SIS sorriu, já esperava a pergunta.
– Para ti ou para o intruja?
Foi a vez de o polícia sorrir.
– Não, para mim toco-te à porta quando estiveres a tirar o wonderbra à Marisa Cruz. Estou a falar do intruja.
O agente pensou por um momento.
– O que ele quiser, se for razoável. Mas acho que o que me dá
mais jeito é uma legalização em território nacional.
O polícia bebeu o que restava do uísque num gole.
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– Isso é capaz de não ser mau. Vamos à procura do Boris, a esta
hora deve estar na loja da namorada.
Meteram-se no carro do polícia, e subiram às Avenidas Novas.
Numa rua perto de Entrecampos, o polícia parou em frente a uma
loja de fast-food com ar manhoso. Um sujeito com ar eslavo estava
sentado a uma mesa. O polícia fez-lhe sinal. Com um ar contrariado, o eslavo saiu para a rua. Quando o viu de corpo inteiro, o
agente descobriu que tinha à sua frente o típico cavalão de Leste,
alto e entroncado.
– Boris, como é que é? – saudou o polícia. O eslavo fez novamente uma cara de desagrado.
– Eu já ter dito ao senhor agente que eu não chama Boris. Eu Vladimir, como o senhor presidente da Rússia. Que coisa, pá.
O polícia riu-se.
– Pois, Boris, desculpa lá. Olha, entra aí que o meu amigo tem
uma proposta para te fazer. E já agora pede aí umas sandes à tua
namorada, que a conversa é coisa para demorar.
O eslavo voltou para dentro. Minutos depois, saiu com três
baguetes metidas num saco. Trazia um papel na mão, que entregou
ao polícia.
– A Carla diz que ter de pagar – anunciou.
– Foda-se, ó Boris, estás a brincar? – disparou o polícia. – Olha,
a vida estar má para todos. Tu fala com ela – e apontou para uma
jovem de ar feroz, de mão na anca, à porta da loja. Vendo o caso
mal-parado, o agente pegou na conta, saiu do carro e pagou.
O trajecto de carro durou apenas uns minutos. Entraram num
parque de estacionamento subterrâneo e estacionaram.
– Boris, ouve com atenção, e apaga a merda do cigarro, que não
se consegue respirar aqui – disse o polícia.
Com um suspiro, o eslavo baixou a janela, e deitou a beata fora.
O agente começou por falar da legalização, mas o Boris não pestanejou. De seguida, o operacional do SIS explicou com todo o pormenor o que queria, falando muito devagar. O eslavo ouviu tudo
com grande concentração.
Quando o agente acabou de falar, Boris acendeu um segundo cigarro, sem olhar para o polícia. Pareceu reflectir durante uns segundos.
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– Tu dar-me os cartões de graça, eu vender baratinho para ter
muito cliente, dinheiro para mim, e única coisa que tu quer é que eu
aponte o número de cartão que vendo a monhé, da?
– Da, amigo – disse o agente.
– Boris faz esquema contigo – e, para surpresa do agente, estendeu-lhe a mão enorme. – Ah, desculpa – disse para o polícia, depois
de lhe injectar uma baforada de fumo na cara, antes de apagar o
cigarro no cinzeiro do carro.
– Boris, Boris, ganda maluco, que ainda te mando para o gulag –
respondeu-lhe o polícia.
Nos dias seguintes, o agente começou a ficar nervoso com o
atraso no envio dos cartões. Acabou por meter o seu director ao
barulho, mas este também pouco conseguiu.
– Umas merdas duns formulários quaisquer – explicou.
Numa tarde, uma semana depois, mandaram-no descer à garagem. Um funcionário dos serviços administrativos estava a segurar
uma pilha de caixas de cartões pré-pagos, daquelas que se vendem
nas lojas de telecomunicações.
– Mas o que é esta merda? – perguntou o agente.
O funcionário mostrou-se surpreendido.
– Então, são os cartões requisitados – informou. A veterana do
terrorismo apareceu por trás, com a mão na barriga, de tanto rir.
O agente virou-se para ela:
– Mas tu estás a ver esta cena? E agora? Meto isto tudo numa
carrinha a dizer serviços secretos e descarrego com requisição?
O funcionário administrativo interrompeu-o.
– E está com muita sorte de ter os cartões. Os tipos da operadora
obrigaram-nos a pagar, e foi uma nota do caraças. O director administrativo até trepa pelas paredes, e se não fosse o director-geral,
vocês ficavam a arder. Isto é uma vergonha, ninguém tem respeito
por nós. Se fosse para um futebolista ou um jornalista, davam tudo
e até com um telemóvel 3G. E depois querem resultados. Isto é uma
vergonha.
Resignado, o agente começou a tirar os cartões das embalagens.
– Calma, filho, que eu ajudo. Com um bocado de sorte, saímos
daqui amanhã – disse a veterana.
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À noite, passaram os cartões ao Boris, e combinaram os pormenores operacionais. Dias depois, Boris telefonou, avisando que
estava a começar a vender. A equipa de vigilância avançou para os
lugares previstos. O Boris era um profissional. Nunca saía do lugar
combinado, e mantinha um horário de trabalho rígido. Ao fim da
jorna, entregava uma folha ao agente. Os clientes estavam numerados por ordem de chegada, e a cada número correspondia um cartão de telemóvel, que por sua vez, no serviço, era juntado a uma
fotografia tirada pela vigilância. Entre os clientes fotografados pela
equipa de vigilância, apareceram algumas caras conhecidas dos
agentes e outras que poderiam vir a ser conhecidas.
Semanas depois, o agente telefonou ao seu amigo polícia.
– Ouve lá, mas onde arranjaste aquele Boris? O gajo é cinco
estrelas. Imagina que escreve tudo certinho e até faz aquilo numa
folha de Excel.
– É, há gajos do caraças. O tipo era engenheiro informático,
depois meteu-se aí nuns esquemas de fraude com computador, e a
«Judite» fechou os olhos para o ter à mão. Devido a umas coisas
que não te vou contar, conheci o gajo – explicou o polícia.
– Bem, pá, obrigado – disse o agente.
– Obrigado o caraças, que hei-de bater à tua porta na altura que
te disse, quando estiveres mesmo com a mão no fecho do soutien da
Marisa, não te preocupes – advertiu o polícia.
Semanas depois, o Boris esgotou o stock, e pediu logo mais. No
serviço, o director chamou o agente ao seu gabinete.
– Bom trabalho – disse-lhe. O agente hesitou por segundos, mas
acabou por perguntar:
– E agora?
O director tirou os óculos, e fixou o agente.
– Bom, agora vamos rezar para que os sacanas andem pelo
menos umas semanas com os cartões. Vamos passar os números à
DCCB e a alguns serviços amigos e rezar para que se apanhe alguma conversa de valor, ou alguns números de telefone desconhecidos
para onde eles falem. E vamos puxando o fio, até um dia o peixe
sair das profundezas.
O agente cruzou os braços.
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– É um bocado esquisito, não é? Parece que nunca se consegue
fechar o processo, como era dantes.
O director sorriu, acendendo um dos seus cigarros.
– Pois e como a gente gosta de fechar processos... Não, meu caro,
é exactamente isso que muita gente não percebe no terrorismo.
Nunca se fecha nada. Estamos no meio de uma operação interminável, e você tem de aprender a viver com isso.
O agente saiu para o corredor, em direcção à sua secretária.
Abriu o ficheiro que tinha criado, com a informação sobre terrorismo, e começou a usar o copy e o paste para lhe dar a ordem possível. «Tenho de pagar um shot ao Boris», pensou.
Um desejo de apocalipse em nome de Deus
Apesar da sua intensa e mortífera presença no mundo, o terrorismo não é de definição simples, exactamente porque o que para
uns, normalmente Estados, é considerado violência armada criminosa, para outros, grupos terroristas e seus apoiantes, é assumido
como uma arma política legítima1.
O termo tem origem nos conflitos políticos desencadeados durante o período da revolução francesa, e foi pela primeira vez usado em
1790, para designar o «reino de terror» imposto pelo partido jacobino de Robespierre, que envolveu execuções em massa e o recurso
a outras formas de violência extrema.
A caracterização teórica mais consensual é a de que o terrorismo
implica o «uso sistemático de violência para criar um clima generalizado de medo numa população, com o objectivo de concretizar um
determinado fim político»2.
O medo é geralmente conseguido pelo emprego de tácticas de
grande impacto, como são os atentados com armas e explosivos, des1
A este respeito, um bom começo de leitura é Terrorism, a very short introduction, Townshend, Charles, Oxford, 2002, bem como The Terrorism Reader,
Whittaker, David J., Routledge, 2003.
2
Encyclopedia Britannica, DVD, 2005, «Terrorism».
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tinados a causar um número elevado de vítimas, ou os raptos e sequestros. A selecção dos alvos obedece normalmente ao objectivo de causar o maior impacto possível junto dos cidadãos, podendo envolver o
ataque a pessoas de grande notoriedade ou especialmente indefesas,
como as crianças, os ataques aleatórios, destinados a mostrar que qualquer cidadão a todo o momento pode ser uma vítima, gerando assim
o pânico generalizado, ou os ataques dirigidos directamente ao Estado, destinados a mostrar a sua incapacidade para proteger os funcionários e estruturas especialmente representativos do seu poder.
O emprego de métodos terroristas tem sido uma constante ao
longo da História, começando nas guerras entre populações gregas,
em 431 a. C., referidas pelo historiador Xenofonte.
No entanto, após o período da Revolução Francesa, o terrorismo
só se torna sistemático a partir da segunda metade do século XIX, através das operações realizadas por anarquistas, especialmente na Europa, contra os regimes instalados. Daí para cá, o terrorismo torna-se
uma arma de eleição de grupos e partidos políticos, independentemente da sua ideologia ou programa. Os tipos de conflitos políticos e
militares onde foram, ou são, empregues tácticas terroristas têm as
naturezas mais diversas. A acção de regimes totalitários contra grupos
de cidadãos do seu país, as lutas anticoloniais, as disputas entre
nações, Estados ou organizações pelo mesmo território ou pela independência, os conflitos religiosos entre populações ou nações com credos diferentes, o separatismo, a oposição política interna ao regime
estabelecido, e o combate a Estados considerados imperialistas pelos
seus inimigos, são aqueles onde o terrorismo marca uma presença
decisiva, por vezes constituindo o instrumento fundamental da acção
de algumas das organizações ou Estados em conflito1.
O vazio geoestratégico e mediático criado pelo fim da Guerra
Fria, em 1989, cria visibilidade, ou em alguns casos gera o aparecimento, para novos tipos de terrorismo, que desde o início provocam
igualmente controvérsia sobre os termos mais correctos para definir
tanto as suas tipologia e ideologia, como a prática que adoptam.
1
De entre as boas sínteses publicadas sobre esta vertente do fenómeno, uma
boa opção é Sinclair, Andrew, An Anatomy of Terror, Pan, 2003.
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A maior parte dos teóricos considera que estes são motivados, com
algumas excepções, por temas políticos específicos, por crenças apocalípticas e por razões religiosas.
O primeiro tipo é normalmente praticado por grupos fechados ou
cultos, cuja «agenda» é determinada pela luta radical contra o
Estado, as corporações empresariais e a sociedade, acusados de crimes nunca penalizados, e isentos de condenação pela maioria da
população. Nesta categoria, encontramos os opositores ao poder do
Estado, como os responsáveis pelo atentado de Oklahoma, nos
EUA, em 1995, que provocou a morte de 168 pessoas, mas também
os militantes ecológicos, ou os da defesa dos direitos dos animais.
No segundo tipo, são incluídos especialmente os cultos ou as seitas, cuja ideologia, que muitas vezes não tem uma vinculação a religiões consagradas, visa não a imposição de uma nova ordem ou
alteração da existente, mas a destruição total dos inimigos ou excluídos, quaisquer que estes sejam, em nome de valores «metafísicos»,
como a crença de que os membros do culto possuem ordem divina
para eliminar os pecadores, ou o direito exclusivo de habitar o mundo. A aplicação máxima de uma ideologia deste tipo foi executada
pela seita japonesa Aum Shinrikyo, que desencadeou, em 1995, um
ataque com gás venenoso no metro de Tóquio.
O terrorismo religioso tem como principal característica, segundo
Bruce Hoffman1, um dos teóricos mais respeitados no tema, a subordinação a «objectivos e motivações que reflectem uma influência ou
natureza predominantemente religiosa».
Hoffman define o corpo identitário essencial do terrorismo religioso como a submissão a uma «dimensão transcendental» e não
política – o que liberta os terroristas de qualquer restrição moral ou
prática – fazendo com que a «violência seja antes e acima de tudo
um sacramento ou um dever divino executado como resposta
directa a uma exigência ou a um imperativo teológico», e o emprego
1
Hoffman, Bruce, Inside Terrorism, Victor Gollancz, 1998, capítulo «Religion
and Terrorism», pp. 87-131. Hoffman actualizou recentemente este seu trabalho,
incluindo uma análise detalhada do cenário terrorista pós-11 de Setembro.
A edição, com o mesmo título da original, é da Columbia University Press, 2006.
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desta «em larga escala não só é justificado moralmente, mas considerado também como um expediente necessário para a concretização dos objectivos» dos terroristas.
Hoffman, que dirige actualmente o centro de pesquisa de terrorismo da Rand Corporation, inclui no quadro de referência dos terroristas religiosos a vontade de «eliminar inimigos definidos segundo
critérios muito amplos», a ausência de controlo por parte de qualquer entidade exterior à organização, bem como uma inexistência
da intenção de ganhar o apoio de uma população específica ou
geral, já que os terroristas consideram responder apenas perante
Deus. O objectivo final, escreve o autor, é a eliminação do infiel, e
não a persuasão e eventual conversão deste.
A história, e o mundo contemporâneo, contêm vários exemplos
de actos terroristas praticados por grupos de origem religiosa católica, judaica, hinduísta ou budista. No entanto, o predomínio da
execução por parte de movimentos muçulmanos de operações de
luta armada determinadas principalmente por motivos religiosos,
faz com que haja uma identificação generalizada entre uns e outros.
No caso dos movimentos muçulmanos, o terrorismo praticado é
teoricamente suportado por várias correntes ou doutrinas do islamismo1, as quais no Ocidente tendem a ser indistintamente arrumadas na categoria de fundamentalismo2, que consideram, em
1
No caso da comunidade islâmica sunita, a que pertencem 80 por cento dos
muçulmanos, as principais correntes ou doutrinas que apoiam diversas expressões
da Jihad são o salafismo, o wahhabismo, e o movimento iniciado pelo teólogo
egípcio Sayyd Qutb, o qutbismo. No caso da comunidade xiita, a escola Usuli é a
mais representativa.
2
A limitação da visão ocidental dominante em relação ao activismo islâmico, especialmente a redução de todas as suas expressões ao fundamentalismo, está expressa
em várias obras publicadas recentemente. Um bom trabalho de síntese, procurando
contextualizar correctamente os vários movimentos, doutrinas e tendências islâmicas
é o do International Crisis Group, publicado em Março de 2005, com o título de
«Understanding Islamism». O estudo pode ser encontrado em www.icg.org. Um
outro bom estudo, «Islam and the West», foi publicado pela revista The Economist,
em 11 de Setembro de 2003. Para uma análise mais profunda, devem ser tidos em conta os ensaios «Globalised Islam: Fundamentalism, De-territorialisation and the Search
for a New Ummah» de Olivier Roy, publicado pela C. Hurst, em 2003, e «Jihad: The
Trail of Political Islam» de Gilles Kepel, publicado pela I. B. Tauris em 2002.
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termos latos, que uma obediência rígida aos ensinamentos do
Corão, o livro sagrado do Islão, contempla o dever do fiel muçulmano de combater através da violência os que não aceitam a palavra de Deus e limitam o poder e expansão do islamismo.
Sendo o Islão uma religião com intervenção essencial na vida
pública e política, isto é com influência directa em todas as dimensões da vida do fiel e da comunidade, a obediência tem obrigatoriamente de se manifestar na vida pessoal e social, daí o papel central
das escolas islâmicas (madrassas), mesquitas e da literatura religiosa,
na vida política, o que leva a que as regras e negócios do Estado
devam ser submetidos à lei corânica, e não criados a partir de princípios seculares ou ocidentais, e no dever de todo o muçulmano,
cumprindo o comando divino, se empenhar na imposição da vontade de Deus no mundo, e na protecção da «umma», a comunidade
global dos crentes.
Fazendo tábua rasa das especificidades das várias correntes e
movimentos islâmicos, e dos seus princípios doutrinários actuais,
é possível distinguir três formas maiores de aplicação deste empenhamento: pela via doutrinal e missionária, espalhando a palavra de
Deus, pela via política, procurando submeter as nações e os países
à obediência islâmica, e pela via da Jihad, que representa, simultaneamente, uma busca pessoal do aperfeiçoamento da prática da fé,
e a luta armada pela eliminação do infiel e defesa e triunfo do Islão.
No mundo muçulmano resultante dos impérios coloniais, terminados durante a década de 60 do século passado, a Jihad foi-se
materializando através de um processo complexo e difuso, especialmente no Egipto, a partir dos anos 70 do século passado, no Irão,
onde um movimento xiita islâmico iraniano desencadeou uma revolução triunfante em 1978, e por vários movimentos, fundados nos
anos 70, com prática de violência armada. Obviamente, a guerra no
Afeganistão contra o invasor soviético foi determinante para a
difusão da «luta jihadista». Isto porque, teoricamente, consideram
os jihadistas, a «Luta» deve ser feita contra o «inimigo próximo»,
os Estados muçulmanos seculares, mas também contra o «inimigo
longínquo», os Estados do Ocidente e os seus valores seculares e
democráticos, principais obstáculos à existência de uma sociedade
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islâmica absoluta e aceite em todo o mundo. «A violência e a coacção não só são permitidas para que se atinja a disseminação em todo
o mundo da Lei Islâmica, como são consideradas meios para se chegar a este fim sancionado divinamente», reforça Hoffman1.
Apesar de entre os teólogos islâmicos o debate sobre as várias
expressões da Jihad –, ancoradas nas três principais correntes islâmicas sunitas, o salafismo, o qutbismo e o wahhbismo – nunca ter
sido encerrado, o facto é que esta prosperou, servindo de princípio ideológico fundamental a várias organizações terroristas
muçulmanas.
Uma das organizações que acolheu alguns dos princípios do salafismo e do qutbismo, foi a Maktab al-Khidamat («Gabinete de Serviços»), fundada, no princípio dos anos 80, em Peshawar, no Paquistão, por Abdullah Azzam, um veterano da guerra do Afeganistão,
contra as forças soviéticas2. Azzam exortou os muçulmanos a aderirem à «al-qaeda al-sulhah» (vanguarda dos fortes), formada por
crentes independentes, dispostos a lutar contra o opressor, o Ocidente, e dando o exemplo à «umma», a comunidade global dos
crentes islâmicos.
Escassos anos depois, o saudita Osama Bin Laden, secundado
pelos egípcios Ayman Al- Zawahiri e Mohammed Atef, ex-membros
da Irmandade Muçulmana, obtiveram o controlo do «Gabinete», e
transformaram-no na «Al Qaeda», que significa «a base», mas também «o método». Bin Laden juntou ao salafismo e ao qutbismo o
wahhbismo3, de que era praticante, mas, mais importante, fixou
para o seu grupo um preceito estratégico sedutor, ancorado na sua
leitura da Lei islâmica: o do retorno à grandeza desaparecida do
Islão, concretizado através de uma Jihad global contra o Ocidente,
1
Op. cit, p. cit.
De entre a inúmera literatura publicada sobre «A Base», destacam-se Gunaratna, Rohan, Inside Al Qaeda, Berkley, 2002, pp. 74-77, Burke, Jason Al Qaeda,
a História do Islamismo Radical, Quetzal, 2004, Burke, Jason «Al Qaeda»,
Foreign Policy, Maio/Junho de 2004, pp. 18-26, e claro «The 9/11 Comission
Report», Norton, um monumento de pormenor analítico.
3
O extremo sincretismo e ambiguidade da ideologia da Al Qaeda são referidos pela maior parte dos estudiosos da organização.
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não defensiva, isto é, que levasse o Ocidente a terminar a sua influência no mundo islâmico, mas ofensiva, atacando-o no seu território,
diminuindo o seu poder, e a atracção universal pelos valores que
defende. Ou seja, Bin Laden, por motivos religiosos ou instrumentais,
potenciou o conceito radical de Jihad a um ponto nunca antes atingido, personificando aquilo que o filósofo português Fernando Gil
classificou como «uma vontade de destruição [...] apocalíptica»1.
A primeira aplicação da estratégia foi o atentado contra o World
Trade Center de Nova Iorque, em 1993, mas só a operação do 11
de Setembro, com o carácter de destruição apocalíptica referida por
Gil, provocou o efeito de pânico global desejado pelos «guerreiros
sagrados».
Numa contextualização eficaz do terrorismo islâmico contemporâneo2, Yoram Schweitzer, do Centro de Estudos Estratégicos Jaffee,
da Universidade de Telavive, considera que o 11 de Setembro foi o
«evento formativo» do terrorismo deste tipo, que classifica como
não-convencional.
Schweitzer pensa que o número elevado de vítimas do atentado,
e o efeito psicológico que causou, teve como primeira consequência
o desencadear de uma «confrontação directa» entre o Ocidente,
liderada pelos EUA, e aquilo que ele chama os «graduados de Bin
Laden», formados nas escolas que este criou no Afeganistão, que
lideram algumas das organizações terroristas actuais, ou que com
elas mantêm ligações. Ou seja, o fenómeno terrorista passou a constituir o objecto de um conflito bélico global não visível, mas prioritário e contínuo, algo que nunca tinha acontecido antes em relação
ao terrorismo, considerado como um problema político e policial.
Por outro lado, refere o académico israelita, a influência de Bin
Laden nas redes terroristas levou estas últimas a «uma mudança
fundamental de consciência», doutrinando-as no sentido de que «o
caminho de Deus», iluminado nos ensinamentos do Corão e na Lei
Islâmica, admite um confronto cultural-religioso com os infiéis
1
Gil, Fernando, entrevista à revista Pública, sem data, pp. 34-42.
Schweitzer, Yoram, «The age of non-conventional terrorism», ensaio, RUSI
Journal, Royal United Services Institute, RU, Junho de 2003.
2
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ocidentais, com o objectivo de garantir primeiro a libertação e
depois a supremacia muçulmana no mundo, no qual é legítimo utilizar «mega-ataques de terror». Schweitzer aponta que estes megaataques podem ser concretizados a dois níveis. No primeiro, estão
os «ataques monumentais» usando armas convencionais, como as
empregues em 11 de Setembro e 11 de Março. No segundo, estão
aqueles com armas não-convencionais, como as nucleares ou biológicas, que têm como objectivo não só atingir um elevado número de
vítimas, mas também causar «um golpe moral de uma dimensão até
agora desconhecida».
Considerando que vivemos já na fase inicial da era do terrorismo
não-convencional, o perito garante que acontecimentos como a
guerra do Iraque poderão ter como consequência o «aceleramento
da formação de uma consciência de apoio aos graduados de Bin
Laden» que lhes garanta suporte moral para «realizarem ataques
terroristas com armas não-convencionais».
Magnus Ranstorp, director do Centro para o Estudo do Terrorismo e da Violência Política da Universidade de St. Andrews, na
Escócia, onde se começou a estudar o fenómeno do terrorismo não-convencional antes de este se tornar num tema estratégico, não só
contextualiza como aprofunda as linhas fundamentais da identidade
do terrorismo islâmico contemporâneo1. Ranstorp defende que
o terrorismo jihadista inaugurou uma nova era de conflito, definiu
«o horizonte de segurança global futuro» e materializou aquilo que
se pode chamar de «guerra de 4.ª geração».
O belicismo de 4.ª geração, definido por Ranstorp, é protagonizado por organizações terroristas, com um dispositivo assimétrico
em relação ao seu inimigo, os Estados, envolvidas numa «missão
determinada e mortal» a desempenhar «em operações de pequena
escala, num campo de batalha global, sem fronteiras definidas, e
sem fim anunciado».
Ranstorp sublinha a motivação destes combatentes, recorrendo
ao testemunho de Al-Qurashi, um dos adjuntos de Bin Laden:
1
Ranstorp, Magnus, «Al-Qaida – An Expanded Global Network of Terror»,
ensaio, RUSI Journal, Royal United Services Institute, Junho de 2005.
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«Como podem ser paradas pessoas que desejam a morte acima de
tudo?»
Para Ranstrop, a Al-Qaeda evoluiu vertiginosamente, a partir da
reacção americana em 2001, de uma formação «clássica», com uma
hierarquia vincada e vertical, para uma «galáxia assimétrica, fluida,
e auto-organizadora da subversão salafita global».
Ranstorp revela que os líderes da Al-Qaeda, escondidos no
submundo dos territórios tribais afegãos ou das urbes paquistanesas, reagruparam-se e atribuíram a si próprios o papel de agirem
como «o eco do movimento jihadista». Para este académico, os
membros da Al-Qaeda «privilegiam a estratégia em lugar da táctica, executando planos de subversão multianuais, assentes no planeamento operacional requerido para a execução de atentados
espectaculares e complexos contra o inimigo maior, o Ocidente,
desencadeados a partir de directivas que partem do topo da organização para as bases», espalhadas pelo mundo.
O académico de St. Andrews revela que o interrogatório dos
membros da «Rede» já capturados demonstra que «medidas de segurança, planeamento meticuloso e uma paciência extraordinária
comandam a concepção deste tipo de operações extremamente complexas».
Ranstorp revela ainda que o interrogatório permitiu saber que
o objectivo estratégico do terrorismo islâmico não é só o de atingir o
inimigo maior, os EUA, mas também o de «expandir o campo de
batalha e espalhar o medo» globalmente.
Como objectivos instrumentais, os terroristas pretendem diminuir a capacidade de combate do Ocidente, e destabilizar os regimes
árabes que mantêm laços de cooperação com os países ocidentais,
especialmente os do Afeganistão, Paquistão e Arábia Saudita.
Embora reconhecendo que constitui uma ameaça grave o facto de
alguns elementos da liderança da Al-Qaeda, a começar por Bin
Laden, continuarem livres, Ranstorp prefere sublinhar que aquela
organização foi «sempre mais uma ideologia que um grupo hierárquico», cuja composição assenta «numa ameaça polimórfica, formada por células semiautónomas que se reconfiguram» segundo as
necessidades operacionais.
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Por outro lado, acrescenta o perito, é preciso atentar nas características nucleares destas células terroristas. «Elas adaptam-se, reagrupam-se, geram nova liderança, mudam o seu foco geográfico e as
suas tácticas», criando «um número de vários centros de gravidade
complexos, com uma matriz desenhada por múltiplos laços de
envolvimento».
Apesar desta configuração quase viral, no sentido da sua reprodução e mutabilidade constantes, Ranstorp detecta, a partir das informações que os serviços de espionagem obtiveram, alguns padrões nas
características essenciais do movimento, e das suas células.
O primeiro é que as células no Médio-Oriente são formadas por
membros de famílias sauditas consideradas.
Um segundo é que o recrutamento na Europa está a funcionar, a
partir de jovens radicalizados nas mesquitas, principalmente em
Londres e Paris, que são depois enviados para «teatros de guerra»
como o Iraque, ou instrumentalizados para realizar atentados na
Europa, como prova a operação em Londres, em Julho de 2005, ou
a abortada, também em Londres, em Agosto de 2006.
Um terceiro é desenhado pelos referidos «múltiplos laços de envolvimento». Ranstorp recorre ao atentado de Madrid, executado por
várias «células» jihadistas com ligações muito ténues entre si, para
defender que, segundo as análises produzidas até ao momento, os
laços são criados «em 70 por cento por muçulmanos que têm relações de amizade entre si, e em 30 por cento por relações de conhecimento». Estes laços são forjados especialmente nas mesquitas e nas
prisões, e os que aderem ao movimento, fazem-no por uma mistura
de motivos, desde «expiação por pecados do passado, especialmente
crimes» até «alienação social, crises pessoais, e influência de elementos mais politizados» exercida a partir de «sermões, literatura, DVDs
e chats na internet».
Em relação ao ciberespaço, Ranstorp não se limita a debitar
dados simplistas. Afirma que o mundo virtual é, antes de mais, um
meio activo de propaganda, e que elementos da Al-Qaeda, estabelecidos na Arábia, criaram várias revistas online, onde são transmitidas directivas e recomendações da liderança. Em 2005, um livro de
113 páginas, publicado numa destas revistas, com o título de A Ges-
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tão da Barbárie causou especial preocupação no Ocidente, já que
delineava a estratégia futura do movimento e anunciava os próximos alvos dos terroristas, entre eles a Nigéria e o Paquistão.
Ranstorp diz que a internet e as telecomunicações, inclusive por
satélite, são usadas como «uma infinita estrada de comunicação
pelos terroristas», e que embora isto permita a monitorização dos
serviços de espionagem, as células dominam o meio utilizando ficheiros encriptados, cartões de telemóvel pré-comprados, mensagens de
spam sinalizadas, e chats comuns. Uma das tácticas de cobertura utilizadas é a abertura de contas no Yahoo e no Hotmail, com nomes e
códigos, permitindo a escrita, na caixa de mensagens, de rascunhos
de mensagens, que nunca são enviadas, mas se tornam acessíveis para
os membros da célula que conhecem o código de acesso. Para Ranstorp «é claro que a Al-Qaeda investiu fortemente no conhecimento e
no uso das infinitas vias criadas pelo ciberespaço».
Um quarto padrão encontrado por este especialista é o engenho
e a adaptabilidade conseguidos para captar o dinheiro necessário
para os atentados. Ranstorp diz que o financiamento vem na sua
quase totalidade de «fontes ilícitas» como «o roubo e fraude de cartões de crédito, falsificação de documentos e tráfico de seres humanos» e que pode ser obtido «por membros individuais das células
com capacidades específicas, em períodos de tempo curtos».
Um quinto padrão é o recrutamento através de entidades religiosas difusas, como a Takfir wal-Hjira, especialmente atractiva para
jovens nascidos residentes na Europa de etnia norte-africana. A Takfir, segundo Ranstorp, funciona como uma «força ideológica unificadora» mas não tem uma hierarquia definida, sendo iniciada, localmente, por muçulmanos com prestígio religioso ou estatuto dentro
da comunidade. Ranstorp diz que a Tafkir não só age como entidade «congregadora e de recrutamento» como pode servir de base para
o planeamento de atentados.
Todos estes padrões, garante Ranstorp, permitem algum conhecimento da morfologia do novo terrorismo, mas, paradoxalmente,
reforçam a certeza de que apenas «conhecemos os desconhecidos».
Para o académico escocês, esta é a principal ameaça das células operacionais islâmicas, já que são formadas por elementos e entidades
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de «natureza amorfa», geradas por «constelações assimétricas de
pequenos grupos desterritorializados e de redes transnacionais determinadas por uma subcultura ideológica de exclusão». Ranstorp
admite que perante tal inimigo, «continuamos em perigo de perder a
guerra».
De forma ainda mais categórica, Rohan Gunaratna, um dos mais
conceituados peritos internacionais em terrorismo, defende, num
ensaio em Janeiro de 2006, que o terrorismo jihadista faz já parte
das sociedades e economias ocidentais1.
Para Gunaratna, «dado que as economias subterrâneas providenciam oportunidades nunca antes registadas para gerar recursos,
os terroristas e criminosos do Sul global procuram penetrar ideológica e operacionalmente as suas comunidades migrantes e da diáspora residentes no Norte global». Assim sendo, garante Gunaratna,
os «grupos terroristas, geridos por recrutas, estabeleceram infra-estruturas subterrâneas e à superfície na América do Norte, na
Europa, e na Austrália. Estas redes não só desenvolvem planos, treinam combatentes e compram armamentos nos seus países de residência; de igual modo, atraem financiamentos, apoio ideológico e
força de trabalho através de vastos mecanismos de apoio no Ocidente. O terrorismo em si mesmo implica oferta e procura. O mercado para o terrorismo irá manter-se vibrante [...]».
Gunaratna defende a tese, cada vez mais apoiada pela realidade, de
que o terrorismo islâmico surge na época da história do mundo que
proporciona mais condições para o seu desenvolvimento. O perito
considera que as organizações terroristas pós-guerra fria beneficiam
de fronteiras porosas, padrões acentuados de migração, uma revolução nas formas de comunicar, graças à internet, um acesso ilimitado
aos mercados de armamento, que não conseguem escoar os seus
excessos, e da privatização da segurança.
Gunaratna defende que os terroristas exploram a seu favor estas
constantes do mundo global contemporâneo. Na procura de armas,
e de outras capacidades fundamentais, afirma o perito, as organiza1
Gunaratna, Rohan, The Terror Market, Harvard International Review, Inverno 2006, pp. 66-70.
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ções terroristas tendem cada vez mais a criar sinergias com os grupos de crime organizado, «já que os seus motivos diferem, mas os
meios são os mesmos».
Os mercados ilegais de armas na ex-União Soviética e no Leste
da Europa, os mercados subterrâneos de explosivos, e o tráfico de
drogas, para a obtenção de financiamento, são algumas das áreas
imediatas de cooperação. A estas, Gunaratna acrescenta o tráfico
de pessoas e a fraude.
O perito considera que este é o lado mais visível do terrorismo
jihadista, o da oferta, e aquele que tem sido mais combatido pela
espionagem e pela Lei.
No entanto, Gunaratna chama a atenção para a face mais oculta do terrorismo, a da procura. Escreve ele que «na aldeia global, o
apoio que um grupo terrorista tem, irá determinar a sua vitória ou
derrota. Assim, a sobrevivência de um grupo terrorista não depende
da sua força, mas sim da força da sua rede de suporte».
Deste modo, considera que as organizações terroristas estão cada
vez mais dependentes das comunidades de emigrantes transnacionais, residentes no Ocidente, que por sua vez manterão o seu apoio
«desde que os conflitos persistam no Sul global» dado que «os laços
emocionais entre as redes emigrantes no Ocidente e as zonas de conflito no Sul não podem ser cortados».
O académico garante que as comunidades emigrantes no Ocidente, «politizadas, radicalizadas e mobilizadoras» funcionam como
«testas de pontes» para os grupos terroristas, tendo estabelecido
células, subterrâneas ou abertas, em Nova Iorque, Londres, Paris,
Roma e Madrid. As células secretas, considera Gunaratna, são usadas para reconhecimento, vigilância e captação de recursos. As abertas – com fachadas de grupos religiosos, culturais e de desenvolvimento – para obter apoio e influência política.
Mas, relembra o académico, as células de apoio podem transformar-se em «células de ataque», como aconteceu em Madrid, em 11
de Março de 2004, ou em Londres, em Julho de 2005.
Perante este cenário, Gunaratna garante que o combate não deve
estar centrado nas «células operacionais clássicas», estabelecidas nos
países de origem, mas sim nas de «apoio», criadas no Ocidente,
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dado que são estas que conhecem o terreno nos países ocidentais, e
as que estão mais radicalizadas. O perito considera que se os governos ocidentais não reduzirem «a ameaça de violência política criada pelas comunidades emigrantes muçulmanas, vigiando e eliminando a propaganda, recrutamento e captação de fundos que estas
actualmente praticam», o terrorismo irá persistir, e até aumentar, já
que os membros destas células «são motivados pela crença persistente de que têm o dever de actuar em nome dos muçulmanos sofredores em todo o mundo».
A dimensão da ameaça em Portugal
A frente portuguesa da guerra mundial em curso contra o terrorismo islâmico foi activada com Eddin Barakata Yarkas, também
conhecido por Abou Dahda, um espanhol de origem síria, há muito
vigiado pelas autoridades do seu país, devido à suspeição de que
pertencia a organizações jihadistas islâmicas1.
Logo após o atentado de 11 de Setembro de 2001, os EUA, numa
atitude inédita, começaram a libertar muita da informação disponível sobre organizações extremistas islâmicas, especialmente sobre a
complexa organização da Al Qaeda, que, já na altura, era muito
mais uma referência para os jihadistas do que propriamente uma
cúpula de uma hidra global.
Yarkas estava referenciado como o contacto de topo da organização em Espanha. Os serviços de informações espanhóis juntaram
esta informação à que tinha sido armazenada em anos anteriores, e
apertaram a malha de vigilância. Logo em Novembro de 2001, Yarkas foi preso, juntamente com outros seis muçulmanos, também
acusados de cooperarem com a rede global inspirada por Bin Laden.
Pouco tempo depois, foi a vez de os espanhóis começarem a soltar informação. Umas das fontes primordiais de recolha de dados
1
Os dados revelados neste trecho do livro foram obtidos a partir de recolhas
de informação efectuadas pelo autor junto de funcionários superiores do SIS, da
PJ, do SEF e do aparelho de segurança interna português, entre 1998 e 2006.
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tinham sido as chamadas telefónicas de Yarkas, registadas nos seus
vários cartões de telemóvel, e uma preciosa agenda de contactos,
que incrivelmente foi recuperada intacta. A partir dos registos telefónicos e da lista de números da agenda, foi possível reconstituir o
organigrama, ou parte dele, da célula, ou células, a operar em Espanha, no Sul da Europa e no Norte de África.
A fatia de informação libertada para Portugal, entregue ao Serviço
de Informações de Segurança (SIS) e à Direcção Central de Combate
ao Banditismo (DCCB) da Polícia Judiciária (PJ), foi ao mesmo tempo tranquilizante e preocupante. Yarkas nunca tinha falado para Portugal. Mas tinha em sua posse vários números de telemóvel de norte-africanos fixados no nosso país, especialmente marroquinos e
argelinos, quase todos eles residentes na grande Lisboa1.
O processo de interrogatório de Yarkas e dos outros elementos
começou logo após a sua detenção, e continua actualmente. Aliás,
foi a partir da informação obtida em interrogatórios, que os espanhóis começaram, com mais vigor a partir do atentado de 11 de
Março, a desmantelar sistematicamente as várias células islâmicas
espalhadas no seu território que conseguiram identificar, algumas
delas com uma década de existência.
Alguma da informação conseguida pelos serviços espanhóis foi considerada relevante para Portugal, e igualmente transmitida às entidades portuguesas, juntamente com outra proveniente dos serviços italianos, alemães, ingleses e franceses, para referir os mais cooperantes.
A partir desta informação, a que juntaram alguma interna, os serviços e as polícias iniciaram os primeiros trabalhos no terreno.
Mantendo a tradição, o SIS e a DCCB, cada um por seu lado, conseguiram isolar os primeiros alvos a investigar, e iniciaram as suas
próprias pesquisas.
Em 2003, surgiu em Portugal Abu Salem, muçulmano de nacionalidade indiana, conotado com uma rede terrorista muçulmana, e
acusado pela polícia do seu país de vários atentados na região de
Caxemira. Salem foi monitorizado pelos homens da DCCB que,
1
Entrevista do autor a funcionário superior do SIS, Março de 2004.
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após um período de vigilância e a obtenção de dados de serviços
estrangeiros, certificaram que este não tinha nenhuma ligação directa
conhecida a células da Al Qaeda, estando apenas relacionado com
redes locais de Caxemira, e a rivalidades na indústria cinematográfica indiana. No entanto, considerou a DCCB, poderia ser útil deixá-lo à solta em território nacional, para ver quem seriam os seus
contactos. Infelizmente para os homens da DCCB, e contra o seu
parecer, o alto perfil de Salem, e da sua namorada Mónica Bedi,
actriz de cinema, levaram rapidamente à sua detenção.
Antes, em 2002, foram encetadas as investigações mais aprofundadas, que ainda hoje prosseguem, sobre as redes de magrebinos,
egípcios e paquistaneses que vivem ilegalmente em Portugal. A visibilidade pública deste trabalho de contraterrorismo foi a detenção,
em Março de 2003, numa operação conjunta entre o SIS e o SEF,
realizada em Lisboa e na Quarteira, Algarve, de parte de uma rede
de argelinos, constituída por 13 indivíduos, que se dedicava, entre
outras actividades criminosas, à falsificação e utilização de documentos falsos, especialmente passaportes, bilhetes de identidade e cartões de crédito. No entanto, consideram hoje alguns investigadores,
a detenção foi precipitada, já que teria sido mais proveitoso deixar
os argelinos à solta por mais algum tempo, para avaliar da totalidade das suas ligações. É que alguns dos argelinos detidos ou referenciados na altura, nomeadamente os que davam pelos nomes de
Oulhaj e Sassi, tinham já um longo passado de ligação a grupos terroristas em toda a Europa, e estavam referenciados pelas autoridades inglesas e alemãs1.
Do trabalho de investigação sobre parte da rede identificada pelo
SIS e SEF, prosseguido criminalmente pela DCCB, resultou a detenção, mais tarde, e depois a condenação, em 2004, do cidadão argelino Sofiane Laib, de 25 anos, a três anos e meio de prisão, apenas
por falsificação e utilização de documentos falsos.
Não foi provada qualquer das acusações de terrorismo ou pertença a organização terrorista. No entanto, o que mostram claramente os ficheiros deste processo elaborados pelo SIS e pela DCCB,
1
Entrevista do autor a inspector-coordenador da PJ, Março de 2004.
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alimentados também por informações resultantes da colaboração
das autoridades inglesa e alemã, é que Laib tinha residido em Hamburgo entre 1998 e 2001, tendo privado com Atta e outros magrebinos envolvidos na preparação e execução do atentado de 11 de
Setembro de 20011. Atta, que funcionava como uma espécie de dínamo da célula de Hamburgo, foi um dos pilotos suicidas.
Laib e Atta viveram juntos em Hamburgo, num apartamento arrendado por Atta, entre 1998 e 2000, onde durante esse período habitaram mais 29 muçulmanos.
Aliás, os ficheiros indicam que Laib conhecia e tinha uma relação próxima com um dos muçulmanos que privou intimamente com
Atta, o tunisino Ben Yamin Issak. Nos anos seguintes, Laib e Issak
mantiveram a relação, inclusivamente em Lisboa, onde o tunisino
residiu em várias ocasiões2.
Em Janeiro de 2003, Issak foi preso na casa de outro argelino, em
Londres, juntamente com mais 25 muçulmanos, em outros pontos
do Reino Unido, acusados de conspiração terrorista. Aquando da
sua detenção, Issak tinha consigo um passaporte francês falso, um
bilhete de identidade português também falso, para além de sementes de rícina, que podem ser usadas como veneno, e planos para
atentados. Mais tarde, durante os interrogatórios, o próprio Issak
confirmou que, depois de Hamburgo, tinha voltado a ter contactos
com Laib, em vários países europeus. Aos ingleses, Issak confessou
ter mantido uma relação com Mohameed Atta.
Laib, por sua vez, nos dias anteriores à sua detenção em Lisboa,
tinha feito telefonemas para o Reino Unido, para França, para Hamburgo e para o Líbano.
Publicamente, a investigação dos argelinos em Portugal fechou
com a condenação de Laib. Mas a vigilância manteve-se, pela simples
razão de que alguns dos argelinos e marroquinos acusados de pertencerem à suposta rede flexível – de geometria variável, como gostam
1
A actividade da célula de Hamburgo está documentada em várias obras abertas. No entanto, pela minúcia da pesquisa, é obrigatória a consulta de The 9/11
Comission Report, Norton, pp. 160-169.
2
Entrevista do autor a funcionário superior do SIS, op.cit.
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de dizer os teóricos – onde se integrava Laib, continuam a residir em
Lisboa, ou pelo menos a passar largas temporadas na cidade.
A informação contida nos relatórios produzidos posteriormente,
assegura que o desmantelamento temporário da rede argelina em
2003 é apenas uma reduzida parte da hipotética actividade terrorista islâmica em Portugal.
De 2002 para cá, a análise das informações recolhidas indica que
o terrorismo jihadista não esqueceu o território nacional, tendo-se
registado uma presença do mesmo tipo em várias capitais europeias.
O problema dos serviços de espionagem e das polícias portuguesas é que, revelando um padrão comum a todas as células islâmicas
espalhadas pela Europa, os membros das que circulam ou permanecem no nosso país revelam um comportamento que nada tem a
ver com a lógica que antes de 2001 determinava o comportamento
dos terroristas. Ou seja, até agora, segundo o saber vertido nos relatórios, nenhum muçulmano vigiado esteve envolvido na preparação
de atentados em território português.
Mas o planeamento directo é apenas uma componente da manifestação de actividade terrorista deste tipo. O roubo ou falsificação
de documentos de identificação também pode ser, se estes se destinarem a terroristas que necessitam deles em Roma. Como a doutrinação feita numa mesquita clandestina de Portimão pode servir para
recrutar marroquinos que irão executar um atentado em Bruxelas.
Como também a «clonagem» de um cartão de crédito no Porto pode
destinar-se ao financiamento da compra de uma arma em Sevilha.
Finalmente, nada impede que uma rede, como aquela em que se
integrava Laib, desenvolva actividades criminosas durante anos, e,
de repente, cometa um atentado.
Como gostam de dizer os espiões portugueses, parafraseando
uma frase dita por uma personagem de um filme americano recente sobre rock: «Tudo está ligado.»
Com o trabalho de terreno bem clarificado por esta matriz, que
fornece uma espécie de cola a investigações soltas, o SIS e a DCCB
foram investigando, desde 2001, vários sinais preocupantes1.
1
Entrevista do autor a funcionário superior da PJ, Janeiro de 2006.
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Em Maio de 2004, nas vésperas do campeonato europeu de futebol, foram expulsos de Portugal onze magrebinos, dos quais alguns
são suspeitos de ligações à célula responsável pela morte do realizador holandês Theo Van Gogh, em 2003, em Amesterdão. Efectivamente, o marroquino Noureddine estava nesse grupo e foi, depois
do atentado que vitimou mortalmente Van Gogh, preso pela polícia
holandesa. Em Amesterdão, antes do atentado, Noureddine partilhava um apartamento com o principal acusado pelo homicídio de
Van Gogh, Mohamed Bouyeri.
A PJ realizou a operação minuciosa numa pensão do Porto, tendo prendido Noureddine e mais dez magrebinos, devido a informações provenientes do serviço secreto holandês, que garantiam ter
sido transferido dinheiro da Holanda para o Porto, para uma possível conta do marroquino. A hipótese de um atentado, levou a polícia a realizar uma operação preventiva, apesar de, mais uma vez,
esta opção não ter sido do agrado de alguns dos investigadores, que
preferiam vigiar durante mais tempo os magrebinos, para avaliarem
da possibilidade, também mais uma vez, de possíveis ligações.
Aliás, na Primavera de 2004, foram investigados em Portugal
nove casos relacionados com possíveis ligações de muçulmanos a
redes terroristas. Já em Outubro de 2004, as autoridades espanholas libertaram a informação de que uma célula terrorista pretendia
adquirir explosivos na zona de Bragança, para serem utilizados
num atentado contra a Audiência Nacional de Madrid, o tribunal
encarregue da investigação do terrorismo.
Ainda em 2004, a DCCB investigou uma série de transferências
bancárias de Lisboa para Madrid, que podem ter servido para um
financiamento parcial do atentado de 11 de Março.
Já em Maio de 2005, o Estado português extraditou para a Bélgica
o bielorrusso Serguei Malischev, nascido em 1975, e suposto perito em
armas químicas, acusado de pertencer ao movimento terrorista islâmico internacional. Malischev esteve preso dois meses em Portugal,
por ter desrespeitado uma ordem de expulsão do país, decretada após
a sua detecção no Algarve, onde circulava sem documentos. Foi extraditado para a Bélgica, porque o Estado belga tinha emitido um mandato de captura internacional em seu nome. No nosso país, Malischev,
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apesar de interrogado pelo serviço, não revelou qualquer ligação ao
terrorismo, nem foi possível descobrir qualquer actividade suspeita da
sua parte.
Mas em Dezembro de 2005, Malischev foi preso em Espanha,
perto de Palma de Maiorca, acusado de pertencer a uma célula jihadista liderada por um iraquiano, Abu Sufian.
São fragmentos de informação como os acima referidos, e o
conhecimento adquirido desde os anos 90 dos complexos e emaranhados fios da teia elaborados pelos extremistas islâmicos, que
levam à crença, no SIS e na DCCB, de que existem actividades
importantes de células de terrorismo jihadista em Portugal. O serviço
arriscou mesmo em escrever recentemente1 que «as redes jihadistas
transnacionais representam hoje para Portugal uma ameaça real. No
nosso país foi detectada a presença de indivíduos aparentemente
com ligações às redes jihadistas europeias, suspeitos de integrarem
células terroristas noutros países europeus e de estarem envolvidos
em recrutamento e preparação de atentados». O SIS garante ainda
que «continua também a verificar-se a possibilidade de actividades
de apoio logístico a indivíduos suspeitos de estarem envolvidos em
actividades terroristas e que se deslocaram ao nosso país em busca
de documentos falsos, de financiamento e de recuo temporário. Uma
parte significativa dos indivíduos suspeitos de envolvimento no apoio
logístico dedica-se simultaneamente a actividades criminosas, tais
como tráfico de estupefacientes, roubo e furto de documentos, cartões de crédito e telemóveis, bem como auxílio à imigração ilegal».
O serviço de espionagem portuguesa, com uma franqueza rara,
alerta também para o problema mais complexo, o do financiamento,
escrevendo que «foram também detectados novos indícios de actividades de financiamento para organizações radicais e grupos extremistas a actuar fora de território nacional, designadamente na região
indo-paquistanesa. A recolha de fundos resulta tanto de donativos
como de actividades ilegais realizadas a coberto de pequenas empresas comerciais. Refira-se que as transferências desses fundos são
1
Relatório de Segurança Interna 2005, capítulo SIS, Ministério da Administração Interna.
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maioritariamente realizadas através de sistemas informais ou da utilização de correios humanos»1.
Daquela data até hoje, a ameaça não só se manteve, como
aumentou, asseguram as informações dos relatórios mais recentes
entregues pelo serviço aos decisores políticos.
A informação reservada produzida pelo SIS e pela DCCB garante
que Portugal, à semelhança da Espanha, tem uma série de redes criminosas que partilham a crença radical islâmica de que a qualquer
momento podem receber ordem para cometer um atentado. Estas
redes, que estão já na semiclandestinidade, devido às actividades criminosas que praticam, podem desaparecer de repente, circulando na
Europa, o que é aliás um padrão de comportamento muito comum
dos terroristas muçulmanos, e realizar aquilo que decidem, ou para
que foram mandados, ou seja, o referido atentado.
Em relação à comunidade islâmica portuguesa, que pode constituir uma outra linha de hipotética ameaça, principalmente através
de elementos desta que professem ideais extremistas, os dados obtidos são até ao momento mais tranquilizantes.
A um primeiro nível, a comunidade islâmica portuguesa de raiz
não provocou até ao momento grandes preocupações. Com cerca
de 30 mil membros – muito menos que os milhões residentes em
França, Reino Unido e Alemanha –, na sua maior parte sunitas,
espalhados maioritariamente pela grande Lisboa, e com 30 locais
de culto conhecidos, os muçulmanos portugueses, cuja primeira
geração tem origem em Moçambique, e a segunda nasceu no nosso país, nunca mostraram grande apego ou simpatia pelas ideias
extremistas.
As preocupações dos serviços centram-se nos residentes que formaram a última vaga de migração, iniciada nos anos 90, constituída
por homens e mulheres oriundos do Paquistão, Egipto, Norte de
África e Bangladesh, sem qualquer ligação a Portugal, disseminados
em todo o território, embora predominantemente na periferia das
grandes cidades, e sem ligações à comunidade central.
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Relatório de Segurança Interna, 2005, capítulo SIS, Ministério da Administração Interna.
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Para estes, qualquer quarto serve para criar uma mesquita. E é,
na maior parte dos casos, nas mesquitas que se organizam muitas
ligações perigosas, que se catequizam iniciados, e que se espalham
os ideais radicais. É também às mesquitas clandestinas que vão os
criminosos, os imigrantes ilegais, os explorados profissionalmente,
os alvos de racismo, e os desprezados dentro da própria comunidade. Numa palavra, os desenquadrados, que são os mais perigosos,
os mais sensíveis ao recrutamento.
O problema para a investigação é que quem não for conhecido
das autoridades religiosas no local, não entra na mesquita, aponta
com alarme um dos relatórios, referindo o facto de, recentemente,
terem sido detectadas mesquitas deste tipo no Algarve, em Odivelas
e na Margem Sul de Lisboa1.
Um grupo, especialmente, tem direito a uma atenção específica.
O Tabligh Jamaat, uma organização largamente disseminada no
mundo muçulmano, e que se atribui a si própria um papel missionário activo, tem suscitado as atenções dos serviços, mas sem que
até agora tenha sido detectado nenhum sinal perigoso. No entanto,
a pureza defendida pelo Tabligh pode ser muito cativante para um
muçulmano desenquadrado e solitário numa cidade europeia, e
pode hipoteticamente levar, por decisão própria, um muçulmano a
outro tipo de crenças e acções, relacionadas com o extremismo ou
com uma prática terrorista validada pela Jihad.
Um antigo director do SIS, José António Teles Pereira, faz a síntese pública possível: «O nosso país situa-se numa espécie de “zona
cinzenta”, da qual o máximo que se pode dizer é que não está tão
“próxima” do problema para que a ocorrência de atentados se situe
a nível da grande probabilidade, mas que também não está tão “longe” em termos de essa possibilidade ser considerada negligenciável2.»
Uma correcta avaliação da ameaça terrorista em Portugal não
pode ser concluída sem que se refira a eficácia dos serviços e das
polícias nacionais neste domínio. O SIS tem uma escola de especia1
Entrevista a funcionário superior PJ, op. cit.
Pereira, José António Teles, revista Atlântico, 29 de Setembro de 2005,
pp. 38-43.
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listas no fenómeno do terrorismo islâmico, embora com um número
escasso de operacionais, e tem mesmo algum domínio de línguas
árabes. A DCCB conta há duas décadas com bons analistas e
homens do terreno. O problema que se põe é que a competição pelo
poder e pelo domínio do território impede que se consiga uma coordenação eficaz. O SIED, por enquanto, limita-se a processar informação pesquisada por outros organismos, apesar de já ter «estações» no Magrebe.
A medida posta em prática pelo Governo, a activação da Unidade
de Coordenação Anti-Terrorista (UCAT), a funcionar agora na
dependência do Gabinete Coordenador de Segurança (GCS) do
Ministério da Administração Interna (MAI), já estava pensada desde 2001, mas demorou a ser executada exactamente porque se colocava o problema de saber quem ia liderar. A UCAT está actualmente
operacional, mas apenas para informações conjunturais.
Um outro problema, por fim, é a atitude da tutela dos serviços.
Por tradição, os ministros da Administração Interna, da Defesa e da
Justiça, independentemente da sua cor política, dos quais dependem
o SIS, o SIED e a PJ, respectivamente, não têm qualquer estratégia
de investigação nem um interesse directo no trabalho operacional.
Quase tudo o que é produzido pelas entidades de segurança interna,
garantem os conhecedores, tem origem na iniciativa própria dos serviços ou surge como resposta a situações avulsas, o que é a pior
maneira de trabalhar.
Durão Barroso, enquanto foi primeiro-ministro, ainda mostrou
alguma iniciativa, especialmente porque foi o primeiro chefe de
governo em democracia a despachar frequentemente com os directores dos serviços, com o objectivo de ter conhecimento directo do
terrorismo e dos nossos interesses em África.
No Governo em funções em 2006, o primeiro-ministro, José
Sócrates e o ministro da Administração Interna, António Costa, têm
mostrado alguma sensibilidade para a área da investigação do terrorismo, mas, até ao momento, sem qualquer consequência para o
aumento da eficácia operacional.
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O encaixe das rodas dentadas como modelo de investigação do
terrorismo jihadista
No combate ao terrorismo islâmico actual, o modelo de trabalho
dos serviços de espionagem e das polícias – SIS, SIED e DCCB, no
caso português – utilizado em todo o mundo é o de «encontrar e
perseguir os sinais para conseguir encaixar todas as rodas dentadas
do mecanismo»1.
Qualquer comportamento de um muçulmano, de origem étnica
árabe ou europeia, de nacionalidade ocidental ou não, que indicie a
ligação a uma actividade directa ou indirecta de terrorismo, em
qualquer lado do mundo, deve ser monitorizado.
A prática adoptada é a de investigar até que uma roda dentada,
o propósito de uma acção suspeita de um muçulmano, encaixe na
outra, o propósito da acção anterior ou posterior do mesmo muçulmano, ou de outros muçulmanos, também vigiados, ou que o passem a ser.
Apesar do estabelecimento contínuo de prioridades operacionais
por parte dos investigadores, a realidade quotidiana no terreno acaba
por criar um cenário demasiado volátil, quase esquizofrénico, que
esmaga qualquer racionalidade, ou um padrão rotineiro, na tentativa de eliminação da ameaça enfrentada pelos serviços.
Os múltiplos exemplos de acções investigadas nos últimos tempos
mostram que não há sequer a mínima hipótese de alguém responsável poder dizer que é possível ter uma segurança total. As variáveis
são múltiplas, os alvos são muitos, o desenrolar permanente dos
acontecimentos ultrapassa sempre a capacidade de investigação e
detenção. Assim sendo, a única coisa que resta aos espiões e polícias
é trabalhar by the book, como ironizam os ingleses. Traduzindo, não
há nada para inventar, os padrões de actividade são os clássicos,
aprendidos com o combate ao crime organizado.
Assim, o modelo de trabalho compreende a investigação de um
conjunto de actos, com ligação permanente entre si, ao ponto de,
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Entrevista a funcionário superior da PJ, Novembro de 2005.
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por vezes, por acção da prática terrorista, formarem um «novelo»
difícil de destrinçar.
À cabeça, estão os «crimes instrumentais», isto é aqueles que servem directamente alguns dos interesses operacionais dos terroristas:
compra ilegal ou roubo de armas e explosivos, roubo e falsificação
de documentos de identificação e cartões de crédito, imigração ilegal.
Depois, estão uma série de operações essenciais para a formação
de uma célula ou a concretização de um atentado, abrangendo a criação de locais de culto religioso de frequência seleccionada, a difusão
de propaganda ou ideais extremistas, o recrutamento de iniciados, o
financiamento das actividades e as comunicações, por internet ou por
redes de comunicação de voz, imagem e dados.
Em relação aos crimes instrumentais, o propósito máximo dos
investigadores está não só em detectar um acto daquele tipo – por
exemplo, a aquisição de um número de passaportes roubados ou falsos – e descobrir que este indica a preparação atempada de um acto
terrorista, e não somente o desenvolvimento de uma actividade criminosa, como em identificar os agentes da oferta, isto é os criminosos que possam fornecer meios essenciais aos elementos de uma
célula terrorista, em formação ou já definida.
Em relação às operações essenciais, o mais importante é sempre
a pesquisa das fontes do financiamento e dos canais da sua distribuição. Onde está o dinheiro, estão os líderes, para onde vai o
dinheiro, vão os operacionais.
Deste modo, o esforço das autoridades concentra-se na monitorização do circuito do dinheiro que financia o terrorismo islâmico,
que se concretiza por vias bastante complexas.
Actualmente, as principais tipologias de financiamento do terrorismo e de branqueamento de dinheiro, que são acções distintas,
estão teoricamente assinaladas1.
Nesta matéria, o desvio programado de verbas de organizações
de caridade islâmica, a criação de empresas fictícias, e a canalização
1
As tipologias do financiamento do terrorismo, e do branqueamento de dinheiro, são o objecto de vários relatórios exaustivos do FTF-GAFI, a entidade de liderança neste sector. A informação pode ser encontrada em www.fatf-gafi.org.
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de quantias provenientes do crime, são as principais fontes. Os canais
de distribuição assentam em sistemas alternativos internacionais de
envio de dinheiro, legais ou não, na «invenção» de documentação
proveniente de actividade comercial fictícia, no sistema financeiro, e
no uso de correios humanos. Os mecanismos usados são múltiplos,
e vão da sobrefacturação comercial ao tradicional branqueamento,
usando paraísos off-shore1.
Nesta área extremamente técnica, os serviços americanos são os
mais avançados, mantendo um sistema electrónico de vigilância de
transacções financeiras com alcance mundial, com a colaboração das
instituições bancárias dos principais países europeus, ligadas pelo sistema SWIFT de transferência global de dinheiro, que tem permitido
a monitorização de «dezenas de milhares de transacções»2. O Reino
Unido tem também uma unidade especial de vigilância do financiamento do terrorismo, responsável pelo início da investigação que
abortou o plano de atentado revelado em Agosto de 20063.
No campo das comunicações, é convicção assente entre os serviços de que o ciberespaço é um terreno de eleição para os terroristas,
dado a confidencialidade, alcance e rapidez que garante aos contactos, feitos com múltiplas intenções. Vários sites, blogues e chats têm
sido detectados pelos serviços secretos ocidentais, de 2003 para cá,
e alguns dos seus autores detidos em capitais europeias.
Mais uma vez, são os americanos que detêm a liderança neste sector, através da National Security Agency, que desenvolveu um programa de monitorização de comunicações, telefónicas e de correio electrónico, com alcance global, através de algoritmos e palavras-chave.
1
Mais uma vez o FATF-GAFI disponibiliza informação detalhada sobre estes
processos, em www.fatf-gafi.org.
2
Uma síntese objectiva sobre este programa é feita pelo Financial Times, 24 de
Junho de 2006, p. 3.
3
A unidade (UK National Terrorist Financial Investigation) detectou, a partir
de Março de 2006, o envio anormal de dinheiro de uma ONG islâmica de Londres para o Paquistão, para as contas bancárias de três dos principais suspeitos de
autoria do plano do atentado, que foram detidos. Um bom relatório sobre esta
investigação foi produzido pelo Institute of Defence and Strategic Studies de Singapura, disponível em www.idss.edu.sg.
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Uma linha de trabalho que tem sido desenvolvida com grande
intensidade é a da descoberta e vigilância de sites e chats, já que os
serviços chegaram à conclusão de que, por um lado, estes têm sido
fundamentais na divulgação dos ideais da Jihad e na captação de
novos fiéis, mas que, por outro lado, são criados, ou geridos, por
elementos importantes da comunidade radical, por vezes conhecidos apenas de um pequeno grupo de iniciados ou com um perfil
discreto.
A difusão de ideais e o recrutamento de militantes é a última zona
prioritária dos serviços. Neste universo, como já referimos, as autoridades seguem com especial atenção as mesquitas ou locais de culto
de dimensão reduzida, que por vezes podem ser apenas um quarto de
uma pensão, e todos os actos que possam indicar uma adopção
de um ideário radical, ou a exibição de atitudes extremistas por
parte de um muçulmano. O facto de os atentados de Madrid e Londres, bem como do abortado em Londres, em Agosto de 2006,
terem sido protagonizados por elementos da comunidade muçulmana residente no Ocidente, faz com que esta componente da investigação receba cada vez mais preponderância.
Esta linha de pesquisa e análise incide sobre três tipos de alvos.
O primeiro forma-se com muçulmanos nascidos no Ocidente,
mas que, por vários motivos, que vão da prática de crimes a vazios
existencialistas, não se sentem integrados nas respectivas sociedades.
O segundo é composto por muçulmanos «volantes», normalmente imigrantes ilegais oriundos de países do Médio-Oriente, do
Magrebe e da Ásia. Uma célula terrorista pode surgir do nada em
qualquer país ocidental, levantada por elementos que emigram para
o nosso país de um momento para o outro, totalmente desconhecidos, consequentemente, não referenciados, e que, habitualmente,
permanecem num «submundo» situado entre o trabalho precário, a
ilegalidade e a criminalidade. Estes muçulmanos podem desencadear
uma acção por razões próprias, ou podem ser contactados por
alguém residente em outro país, que considera que eles estão no sítio
certo, no momento certo.
Neste «mundo de trevas» o problema para os espiões e polícias
é descobrir a tempo o momento em que estas redes decidem ou rece-
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bem uma ordem para passar a um nível superior, para a execução
de uma operação de destruição.
A perda do timing é uma fatalidade a que muitas vezes serviços
e polícias não conseguem escapar, por muito eficientes que sejam,
devido a uma dificuldade de análise inultrapassável: o universo a
vigiar é demasiado lato.
Se forem lidos com atenção os pormenores do atentado de 11 de
Março em Madrid, percebe-se que Jamal Zougan, o marroquino de
30 anos que aparentemente teve um papel importante na coordenação da operação, há muito tempo que estava referenciado pelos
espanhóis, como traficante de droga, e elemento de apoio de extremistas islâmicos. Conhecia-se perfeitamente a sua ligação à célula
marroquina de terrorismo islâmico, o Grupo Islâmico Combatente
Marroquino (GICM), que efectuou o atentado de Casablanca, a sua
ligação a Yarkas, chegou a ser interrogado após o 11 de Setembro,
e foi descoberto um vídeo em sua casa onde apareciam outros elementos do GICM. No entanto, nunca se detectou que ele estivesse
a preparar o atentado. De repente, desapareceu, recebeu ordem
para passar a um nível superior, e fez o que fez. Mas antes do atentado, Zougan tinha uma vida igual à de 300 outros muçulmanos.
Nenhum serviço tem capacidade para vigiar milhares de muçulmanos com os mesmos ideais, o mesmo tipo de vida, e a aparente falta
de importância de Zougan, que estão a viver na Europa.
O terceiro integra os adormecidos1, os sleepers inventados pelo
KGB. São elementos perfeitamente integrados nas comunidades
onde residem, por vezes há décadas, cultos, muitos são quadros
superiores, extremamente discretos, por vezes nem frequentam mesquitas ou locais de encontro da comunidade, e que não manifestam
qualquer sinal de intolerância ou de advogarem os princípios da
Jihad. No entanto, referem insistentemente os relatórios, um dia
recebem uma indicação e fornecem todo o apoio, ou organizam eles
mesmos um atentado. Quando, retrospectivamente, os serviços investigam o passado destes homens, descobrem sempre um sinal que é
óbvio. Ou tiveram um familiar que cometeu um atentado suicida, ou
1
Entrevista a inspector-coordenador da PJ, op. cit.
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frequentaram uma escola fundamentalista, ou tiveram um pequeno
deslize. Por exemplo, desde 2001 é muito célebre entre os serviços
secretos ocidentais o facto de que Atta recusou apertar a mão da reitora da universidade alemã em que se licenciou, e de que escreveu
uma tese de licenciatura sobre a ocupação ocidental de terras muçulmanas.
Para os serviços, os «adormecidos» são o alvo mais difícil de
investigar, exactamente porque todo o seu comportamento é inocente. Mais ainda, revelam os padrões estudados, são homens preparados para esperar anos ou décadas, porque se alimentam do
sonho da glorificação pela morte, uma das crenças da Jihad.
Para além do uso dos procedimentos específicos mais eficazes no
combate aos actos de terrorismo jihadista até agora referidos, as técnicas usadas, no geral, pelos serviços e polícias, são também aquelas consagradas by the book, com uma excepção.
Contra as organizações terroristas islâmicas, o uso de infiltrados
há muito que está afastado. Salvo raros exemplos, garante a experiência, não há qualquer hipótese de utilização deste recurso, já que
as células são organizações impenetráveis por natureza, e os ocidentais não conseguem quebrar a barreira de desconfiança criada
pelo abismo cultural, religioso e linguístico.
Com os informadores, é diferente. Alguns êxitos têm sido obtidos em vários países ocidentais, inclusive em Portugal, porque a lealdade e a crença na Jihad não é universal. Os muçulmanos que aceitam informar, falam por ódio, por dinheiro, mas muitas vezes
porque não querem problemas para a sua comunidade e para o seu
dia-a-dia, pessoal e profissional.
Segue-se o seguimento e a vigilância de alvos directos de uma
investigação no terreno, em busca das suas intenções e ligações.
Depois, a utilização do saber dos analistas dos serviços de espionagem e das polícias, os funcionários com formação especializada
em terrorismo islâmico e islamismo, com um domínio cultural do
fenómeno e dos seus protagonistas.
Por último, o que funciona, cada vez mais, pela primeira vez na
história dos serviços de espionagem em todo o mundo, é a cooperação intensa, efectiva e permanente. Portugal, por exemplo, tem
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beneficiado consideravelmente das informações dos seus pares.
Também a União Europeia, através da Europol, tem já a máquina
bem oleada e alimentada, fazendo o recorte e a análise da informação que recebe dos países membros, e enviando-a depois sem restrições para os destinatários a que esta interessa, Portugal incluído.
Mas, a verdadeira cooperação eficaz, pelo que se sabe, tem sido
encetada por americanos, ingleses, franceses e alemães, que têm procurado estabelecer laços íntimos e úteis com os serviços que lidam
com a «origem» da ameaça, isto é, os paquistaneses, sauditas, jordanos, egípcios e iranianos. Não esquecendo o papel cada vez mais
relevante que os serviços secretos israelitas desempenham neste conflito global, como fornecedores de elite de informação.
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