ISSN 1982 - 0283
PREVENÇÃO AO USO
DE DROGAS: A ESCOLA
NA REDE DE CUIDADOS
Ano XXIII - Boletim 23 - NOVEMBRO 2013
Prevenção ao uso de drogas: a escola na rede de cuidados
SUMÁRIO
Apresentação........................................................................................................................... 3
Rosa Helena Mendonça
Introdução............................................................................................................................... 4
Carla Dalbosco
Ana Luzia Dias Pereira
Texto 1: O professor e a prevenção do uso de drogas: em busca de caminhos....................... 10
Helena Maria Becker Albertani
Texto 2: As situações-problema relacionadas ao uso de álcool e outras drogas
presentes na escola............................................................................................................ 18
Carla Dalbosco
Texto 3: Prevenção do uso de drogas: a construção de uma política pública a partir da
formação de educadores.......................................................................................................25
Profa. Dra. Maria Fátima Olivier Sudbrack
Profa. Dra. Maria Aparecida Gussi
Prevenção ao uso de drogas: a escola na rede de cuidados
Apresentação
A publicação Salto para o Futuro comple-
A edição 23 de 2013 traz como tema Preven-
menta as edições televisivas do programa
ção ao uso de drogas: a escola na rede de
de mesmo nome da TV Escola (MEC). Este
cuidados e conta com a consultoria de Carla
aspecto não significa, no entanto, uma sim-
Dalbosco, psicóloga, mestre e doutora em
ples dependência entre as duas versões. Ao
Psicologia Clínica e Cultura pela Universida-
contrário, os leitores e os telespectadores
de de Brasília – UnB. Os textos que integram
– professores e gestores da Educação Bási-
essa publicação são:
ca, em sua maioria, além de estudantes de
cursos de formação de professores, de Fa-
1. O professor e a prevenção do uso de dro-
culdades de Pedagogia e de diferentes licen-
gas: em busca de caminhos
ciaturas – poderão perceber que existe uma
interlocução entre textos e programas, pre-
2. As situações-problema relacionadas ao uso
servadas as especificidades dessas formas
de álcool e outras drogas presentes na escola
distintas de apresentar e debater temáticas
variadas no campo da educação. Na página
3. Prevenção do uso de drogas: a constru-
eletrônica do programa, encontrarão ainda
ção de uma política pública a partir da
outras funcionalidades que compõem uma
formação de educadores
rede de conhecimentos e significados que se
efetiva nos diversos usos desses recursos nas
escolas e nas instituições de formação. Os
textos que integram cada edição temática,
Boa leitura!
além de constituírem material de pesquisa e
estudo para professores, servem também de
Rosa Helena Mendonça1
base para a produção dos programas.
1
Supervisora Pedagógica do programa Salto para o Futuro (TV Escola/MEC).
3
Introdução
PROPOSTA PEDAGÓGICA
Carla Dalbosco1
Ana Luzia Dias Pereira2
Falar sobre drogas é sempre delica-
Nas últimas décadas, a preocupação
do. Geralmente as discussões são infladas
com o consumo dessas substâncias vem au-
por juízos de valor, pré-julgamentos ou pre-
mentando, principalmente quando se pensa
conceitos que nos levam a perceber a pro-
em crianças e adolescentes, e a discussão
blemática sem, no entanto, conseguirmos
sobre estratégias possíveis para o enfren-
dominá-la eficientemente. E essa temática
tamento dos problemas decorrentes deste
deve ser adequadamente debatida e traba-
uso, aliadas a ações preventivas, têm sido
lhada no ambiente escolar, para que tenha-
fomentada no âmbito do governo e da so-
mos condições de enfrentar este problema
ciedade. Mas este não é um debate simples.
4
de modo a preveni-lo, promovendo a saúde
de todos os sujeitos que vivenciam o dia a
dia escolar, sejam educadores, colaborado-
pergunta: quem está apto a fazer preven-
res, alunos ou familiares.
ção? É preciso pensar se há algum campo de
Iniciamos esta proposta com uma
atuação que possua a prerrogativa de liderar
O uso de drogas psicotrópicas é en-
estas ações: profissionais de saúde, assistên-
contrado em diferentes civilizações e, desde
cia social, lideranças comunitárias, educado-
a história antiga, há relatos de consumo em
res... Afinal, quem é o principal responsável?
contextos religiosos, rituais, festas ou cele-
Ou será que todos estes atores possuem sua
brações. Podemos, sem sombra de dúvida,
parcela de contribuição, além, é claro, de ou-
dizer que drogas e cultura sempre andaram
tros segmentos e membros da sociedade?
juntas. O que muda, ao longo dos diversos
momentos históricos, são as questões con-
ceituais entre, por exemplo, o que é lícito e
do tema drogas foi considerada tabu nas es-
o que é ilícito, quais drogas serão toleráveis
colas brasileiras. As poucas ações existentes
Durante muito tempo, a abordagem
socialmente e quais não.
1
Doutora em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília – UnB. Consultora desta Edição Temática.
2
Doutora em Lingüística pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
eram focadas no modelo do amedrontamento
em uma escola saudável é dialogar com todos
e havia a crença de que somente especialistas
os atores que fazem parte de seu contexto de
na área poderiam propor estratégias preventi-
inserção, valorizando os recursos disponíveis
vas para este contexto. Todavia, a medida que
e as parcerias possíveis com os diversos pon-
as políticas públicas iam avançando e sendo
tos da rede social e comunitária.
consolidadas no país, inúmeras mudanças na
visão sobre o consumo e os usuários de álcool
O programa Uso de drogas no ambien-
e outras drogas foram introduzidas.
te escolar: ações integradas para prevenção
apresentará o tema em suas diferentes face-
Nos últimos anos, foi inaugurado
tas. Por um lado, teremos um olhar voltado
um debate mais pragmático sobre a temá-
para dentro dos muros da escola, valorizan-
tica, pautando-a como uma questão social
do ações possíveis, educadores capacitados
complexa que demanda intervenções, não
e engajados em projetos, além do protago-
apenas de segurança pública, mas também
nismo dos próprios alunos, sejam crianças
preventivas e de cuidado com o usuário, a
ou adolescentes, na proposição de ações. No
partir da perspectiva da intersetorialidade.
segundo foco proposto, o programa deixará
Passou-se de um modelo focado unicamen-
evidente um olhar que precisa voltar-se para
te na repressão do uso para um modelo que
fora da escola, para o território, para a co-
privilegia ações de saúde e educacionais pre-
munidade que a cerca, para a relação com as
ventivas em geral. Assim, a escola passou a
famílias, para as boas práticas identificadas
ser considerada um espaço fecundo para a
e para a rede de proteção a ser construída e
realização de atividades de prevenção do
fortalecida, tanto no âmbito governamental
uso de drogas e de promoção à saúde arti-
quanto não-governamental.
culadas, pois está inserida em contextos e
comunidades específicos, que possuem suas
É preciso pensar em ações de caráter
peculiaridades históricas, culturais, muni-
preventivo universal, mas também não pode-
cipais e regionais. O espaço escolar não é
mos esquecer de falar daquelas escolas reais
isolado do conjunto maior da sociedade e
que, muitas vezes, já enfrentam problemas
é preciso construir pontes que aproximem,
muito concretos de consumo ou tráfico nas
ainda mais, a escola e sua rede.
suas imediações ou, até mesmo, dentro da
própria escola, e trabalham com adolescen-
Além do mais, a prevenção não é uma
tes que já se encontram em situação de risco
prerrogativa apenas dos especialistas, pois
e vulnerabilidade social. Transitar entre es-
todos nós, cidadãos, somos aptos a realizar
ses diferentes olhares tem como objetivo fo-
ações preventivas em algum âmbito. Pensar
mentar um espaço para reflexão e revisão de
5
práticas, para que os educadores sintam-se
é tarefa simples, dada a própria complexi-
fortalecidos para enfrentar este assunto que,
dade que envolve o fenômeno. Em primeiro
muitas vezes, é gerador de medos, preconcei-
lugar, é preciso levar em consideração a trí-
tos e dificuldades para abordar o tema junto
ade “substância, indivíduo e meio ambien-
aos jovens, nosso principal público-alvo.
te”, pois, embora problemas como o abuso
de drogas sejam pessoais por natureza, eles
TEMAS GERADORES
não podem ser entendidos sem consideração ao contexto interpessoal dentro do qual
Com base nestas reflexões, iniciamos
ocorrem. É preciso também avaliar os fato-
a problematização de algumas questões sobre
res de risco presentes na vida do adolescente
a escola e os educadores. Para tal, formulamos
que podem aumentar a probabilidade dele
perguntas que podem nos ajudar a refletir:
vir a consumir drogas.
- Que problemas reais relacionados ao consu-
OBJETIVOS DO PROGRAMA
mo de drogas são enfrentados no cotidiano escolar e quais estratégias e encaminhamentos
geralmente são utilizados para sua resolução?
tencialidades existentes na própria escola e
Com o objetivo de valorizar as po-
na comunidade que a cerca, são enfocados
- Que conhecimentos os educadores consi-
três principais eixos para debate:
deram importantes para um bom desfecho
de situações-problema?
A escola como espaço para sensibi-
lização e construção de potenciais preven- Com que parcerias na rede interna e exter-
tivos, a partir de capacitações específicas
na da escola os educadores podem contar?
e disseminação de projetos de prevenção e
promoção da saúde, tornando os educado-
- Os educadores se sentem preparados
res e os alunos os protagonistas das ações
para lidar com o tema drogas e realizar
de caráter coletivo.
ações de prevenção?
A escola como espaço de educadores
- Qual é a visão que predomina nas escolas
preparados para lidar com diferentes situa-
em relação aos modelos de prevenção exis-
ções de risco identificadas e como um espa-
tentes? O que falta?
ço de acolhimento e não de exclusão.
Além do mais, responder à pergunta
“o que leva os jovens a usarem drogas?” não
Articulação com as diferentes re-
des e atores para corretos encaminhamen-
6
tos quando necessário e enfrentamento
O texto aborda diferentes posturas
de desafios de forma conjunta: saúde, se-
diante do uso de drogas, fatores pessoais e
gurança, educação, assistência social, ju-
sociais que favorecem a vulnerabilidade, a
ventude, garantia de direitos, conselhos
importância de conhecer as drogas que es-
municipais, famílias, os próprios alunos,
tão mais presentes na vida dos alunos e as
educadores, funcionários da escola, gesto-
diferentes formas como a escola pode se or-
res, técnicos, as lideranças comunitárias,
ganizar para enfrentar os desafios.
lideranças religiosas, conselheiros municipais, entre tantos outros.
Texto 2 – As situações-problema relacionadas ao uso de álcool e outras drogas presen-
TEXTOS DO PROGRAMA
tes na escola
Os textos que acompanham este programa
foram elaborados de forma complementar
panorama sobre as diferentes situações-
e pretendem ajudar na reflexão sobre os te-
-problema que afetam o contexto escolar
mas e projetos já existentes em âmbito go-
e que envolvem o consumo de drogas ou o
vernamental e não governamental.
tráfico de substâncias ilícitas, bem como as
O objetivo do texto é apresentar um
estratégias adotadas pelos educadores para
Texto 1 - O professor e a prevenção do uso
enfrentamento destas circunstâncias dentro
de drogas: em busca de caminhos
do ambiente da escola.
O texto traz reflexões sobre o papel da
Para tal, aborda aspectos sobre o
educação frente ao tema e as diferentes ma-
papel do educador e o quanto sua visão de
neiras como os educadores podem contribuir
mundo e as representações sociais sobre o
para ações de prevenção do uso de drogas
tema serão determinantes para que se atin-
voltadas ao contexto escolar, a partir de uma
jam resoluções das situações-problema con-
abordagem realista e despida de preconceitos.
sideradas “boas” ou “más”.
Diante de uma questão tão complexa
O protagonismo do educador é fun-
historicamente, se torna necessário compre-
damental para que se tenha sucesso nesse
ender que o objetivo não é atingirmos o ideal
enfrentamento, ajudando a escola na arti-
de uma sociedade totalmente livre de drogas,
culação com as diversas redes de apoio e a
mas é preciso valorizar o papel protagonista
apostar na reinserção dos alunos usuários.
do educador para auxiliar os estudantes a fa-
Ações e projetos preventivos na escola preci-
zerem escolhas saudáveis em suas vidas.
sam agregar uma visão mais realista do con-
7
texto escolar brasileiro, que leve em conta
Esperamos, com esse Programa,
os fatores de risco já presentes em seu coti-
colaborar para que nós, educadores, consi-
diano, mas sem descuidar da valorização de
gamos encontrar a melhor forma possível
fatores de proteção envolvidos e do protago-
de lidar com o tema “Drogas” no ambiente
nismo dos próprios jovens.
escolar, respeitando divergências, desmitificando pré-conceitos e promovendo a ação
Texto 3 – Prevenção do uso de drogas: a
intersetorial integradora. É importante ja-
construção de uma política pública a partir
mais esquecermos que a ação conjunta fun-
da formação de educadores
damenta a vida em sociedade, principalmente o cotidiano escolar. Sem trabalharmos em
O texto que encerra esta edição
conjunto, a escola não consegue se alicerçar.
aborda a experiência de uma política go-
O conhecimento é construído e transmitido
vernamental centrada na capacitação de
em rede. E essa temática, por mais delicada
educadores, o “Curso de Prevenção do Uso
e problemática que possa ser, também deve
de Drogas para Educadores de Escolas Pú-
ser conhecida e trabalhada por todos e em
blicas”, promovido pela Secretaria Nacional
todos os nós que constituemos esta rede.
de Políticas sobre Drogas do Ministério da
Justiça em parceria com a Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação e
realizado pela Universidade de Brasília.
Por meio do exemplo deste curso a
distância, as autoras abordam a importância de preparar os profissionais das escolas públicas para uma atuação coletiva nas
ações preventivas e de promoção da saúde
no contexto escolar.
É apresentada também a proposta
político-pedagógica e o histórico da consolidação do curso como uma política pública,
que visa, acima de tudo, subsidiar a escola para a elaboração e desenvolvimento de
projetos de prevenção do uso de drogas em
articulação com a rede da escola.
8
LINKS NA INTERNET
Site do programa governamental “Crack, é possível vencer”:
www.brasil.gov.br/crackepossivelvencer
Portal do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas – OBID:
www.obid.senad.gov.br
9
texto
1
O professor e a prevenção do uso de drogas: em
busca de caminhos
Helena Maria Becker Albertani1
O papel de educador envolve muitas
dimensões. Somos chamados a ensinar um
POSTURAS DIANTE DO USO
DE DROGAS
conteúdo programático, a estabelecer boas
relações com os alunos, a auxiliá-los a de-
senvolver habilidades e atitudes e a prepará-
multidisciplinar e envolve ações de prevenção,
-los para continuar a aprender, construindo
tratamento, inserção social, redução de da-
conhecimentos com autonomia e seriedade
nos, estudos científicos, pesquisas, repressão
para ampliar sua visão crítica do mundo e se
ao tráfico. O pano de fundo são as políticas
comprometer com ele.
públicas sobre o assunto. O papel da educa-
A abordagem da questão das drogas é
ção refere-se à prevenção do seu uso indevido.
Não é nada fácil. Muitas vezes nos
sentimos impotentes diante de tantos desa-
fios, numa sociedade plural, universalmente
tam quando se trata de organizar ações pre-
permeada pela comunicação instantânea.
ventivas: a guerra às drogas e a diminuição
Ainda assim, conscientes de nosso papel,
de riscos e danos, diante do consumo.
Duas posturas básicas se apresen-
buscamos dar conta do trabalho educacional que envolve, não apenas o crescimento
intelectual dos educandos, mas seu desen-
tas pessoas, instituições e países, preconiza
volvimento pessoal e social na construção
e defende a erradicação do uso de drogas e
de um projeto de vida.
a adoção do consumo zero. Mesmo com sua
A guerra às drogas, adotada por mui-
pretensa intenção de favorecer uma vida mais
Dentro deste contexto, um dos te-
mas com os quais somos chamados a traba-
saudável às pessoas, esta concepção é, ao mesmo tempo, irreal, injusta e preconceituosa.
lhar é o uso de drogas.
1
Orientadora Educacional, Licenciada em Filosofia.
Coordenadora-Geral
de
Prevenção
da
Secretaria
Drogas - SENAD - (Brasília, 2003-2005).
Mestre em
Nacional
Educação pela PUC SP.
de
Políticas
sobre
10
Sabemos que nem todos os usos de
o álcool, o tabaco e os remédios) ou ilegais,
drogas são prejudiciais, embora possam acar-
embora não mais difíceis de serem adquiridas.
retar riscos. Quando se pretende “eliminar
E, nesta realidade, saber como e por que fazer
qualquer uso”, estamos ignorando os usos
escolhas que impliquem no menor risco possí-
médicos, rituais e sociais.
vel de danos à saúde, à convivência social e à
integridade das pessoas.
A
humanidade
sempre fez uso de substâncias que alteram a
consciência, em busca
de prazer ou de diminuição do sofrimento. A
missão da educação, ao
invés de negar a realidade, é procurar compreendê-la e formar pessoas que saibam conviver
com ela de forma crítica,
A missão da educação,
ao invés de negar a
realidade, é procurar
compreendê-la e formar
pessoas que saibam
conviver com ela de
forma crítica, fazendo
escolhas conscientes e
autônomas.
Na postura de redução de riscos e danos,
o objetivo do trabalho
de prevenção do uso de
drogas não é direcionar autoritariamente os
comportamentos mas,
basicamente, auxiliar as
pessoas a desenvolverem sua capacidade de
decisão para fazerem
fazendo escolhas cons-
escolhas que favoreçam
cientes e autônomas.
o exercício da liberdade
com responsabilidade para uma vida realiza-
O proibicionismo e as metodologias
dora, saudável, segura e feliz. Como uma al-
de caráter autoritário e moralista trabalham
ternativa à guerra às drogas, procura reduzir
contra as possibilidades de opção. Além de
as vulnerabilidades de cada pessoa aos proble-
serem opostos aos direitos humanos que
mas decorrentes do uso indevido de drogas.
proclamam a livre construção da vida pesso-
Neste sentido, configura-se como uma ação
al como inerente ao ser humano, são bastan-
mais pragmática para evitar prejuízos à saúde
te ineficazes como princípios educacionais.
individual e coletiva.
Ao deixarem de ser controlados pelos adultos, os jovens que não desenvolveram sua
Cabe, contudo, mencionar que a me-
autonomia tenderão a agir com critérios me-
lhoria da qualidade dos professores resultan-
nos claros e menos fundamentados e, mui-
te de um nível mais alto na formação, está
tas vezes, bem mais arriscados.
também condicionada, entre outros fatores, à
qualidade na oferta dos cursos e às condições
É preciso aprender a conviver com a
existência de drogas, sejam elas legais (como
dadas aos estudantes que os frequentam.
11
FATORES PESSOAIS E SOCIAIS QUE
FAVORECEM A VULNERABILIDADE
Outros fatores de ordem social são
também importantes na experimentação e
na manutenção do uso de drogas. Entre eles
O fato de uma droga ser proibida,
estão a publicidade, direta ou velada, e a dis-
permitida, ou até ter seu uso estimulado
torção de dados sobre o consumo entre a po-
em uma sociedade, não é, na maioria das
pulação, banalizando a informação, como se
vezes, fruto da percepção dos benefícios,
o uso de algumas drogas fosse um compor-
riscos ou prejuízos que seu consumo traz
tamento adotado pela maioria das pessoas.
consigo. Fatores econômicos, culturais, sociais ou políticos costumam prevalecer so-
Na propaganda, o álcool é associado
bre os de bem-estar social.
à juventude, à beleza, ao prazer, à sexualidade, ao bom desempenho esportivo e ao
Os adolescentes que frequentam as
prestígio social. São apelos que sensibilizam
nossas escolas são também participantes
o adolescente. Na ficção, os personagens be-
de uma sociedade que preconiza o sucesso,
bem, invariavelmente, quando estão estres-
alimenta a competição, favorece a cultura
sados, preocupados, com raiva. E também
do prazer e encoraja a busca de vivências
quando estão felizes, descontraídos, nas
desafiadoras e arriscadas. Tudo isso sem a
ocasiões festivas e nas comemorações.
conscientização da correspondente noção
da responsabilidade pessoal e social pelas
Ao tratar do uso de drogas nos seus
consequências das decisões e ações.
noticiários, no entanto, a mídia não parece
muito crítica diante da constante presença
Neste contexto, torna-se mais difícil
do álcool na telinha, na telona ou na impren-
o desenvolvimento do controle dos impul-
sa. A abordagem sobre o assunto se centra
sos, da tolerância à frustração e mais fácil
prioritariamente nas drogas ilícitas e, hoje
a inserção em ações desconhecidas ou in-
em dia, especialmente no crack. Sem mini-
seguras. As crianças e adolescentes se acos-
mizar os efeitos prejudiciais que esta droga
tumam à recompensa imediata para suas
pode acarretar do ponto de vista pessoal e
ações e à necessidade de supressão da dor
social, é preciso saber onde estão os maiores
física ou mental. Os adultos, muitas vezes,
riscos para o envolvimento de nossos alunos
se sentem responsáveis por “retirar” o so-
em problemas relacionados ao uso de dro-
frimento da criança, mesmo que de forma
gas. No trabalho de prevenção com crianças
provisória ou fictícia, pelo uso de paliativos,
e adolescentes deve-se considerar o uso das
de medicamentos, de álcool ou outra droga.
substâncias que estão mais próximas e que
são as mais consumidas por eles e pelas pessoas com quem convivem.
12
“A mídia peca, e muito, ao insistir em
um moralismo exagerado na discus-
dos os estados brasileiros e no DF, mostra
são do tema, denunciando o usuário
que 60,5% dos estudantes desses níveis de
de drogas ilícitas como o responsável
ensino já haviam experimentado bebidas al-
pela maioria das dificuldades existen-
coólicas e 16,9% já haviam fumado ao me-
tes nas mais diversas sociedades des-
nos um cigarro de tabaco. Os solventes e
te mundo globalizado, e incentivando
inalantes ocupam o terceiro lugar entre as
exageradamente o consumo de outras
drogas usadas pelos alunos, com 8,7% de
substâncias, como o álcool. (...) Muito
experimentadores, seguidos pela maconha,
mais importante do que denunciar ou
que já foi usada, pelo menos uma vez, por
simplesmente criticar o abuso de subs-
5,7% deles. Os remédios mais consumidos
tâncias psicoativas, é buscar soluções
(sem receita médica) foram os ansiolíticos
práticas através de novas abordagens
(5,3%) e os anfetamínicos (2,2%). Entre os
e propostas, como, por exemplo, a re-
estudantes pesquisados, 2,5% já haviam ex-
dução dos danos associados ao uso e
perimentado cocaína e 0,6% o crack (Carlini/
abuso de drogas”. (Gorgulho, 2006)
Cebrid/Senad, 2010).
A ação preventiva na escola deve ser
A pesquisa, feita nas capitais de to-
Estes dados, atuais e preocupantes,
realizada com esta perspectiva. Para isso é
nos apontam que a maior preocupação ao
preciso levar em conta os fatores que tornam
fazer um trabalho preventivo nas escolas
os alunos mais vulneráveis ao uso de drogas
deve se referir às drogas lícitas, especial-
e que dizem respeito ao próprio indivíduo e à
mente o álcool.
sociedade, incluindo as políticas públicas.
QUE DROGAS ESTÃO MAIS PRÓXIMAS DE NOSSOS ALUNOS?
Não se trata, portanto, de fazer uma
“guerra”, procurando afastar os alunos de
qualquer contato com as drogas. Elas estão
aí, fazem parte da nossa vida. O objetivo é
Os dados estatísticos sobre o uso
fazer com que cada pessoa seja capaz de
de drogas por estudantes de ensino funda-
conviver com esta realidade e fazer escolhas
mental e médio de escolas públicas e pri-
adequadas para sua vida.
vadas do país (Carlini/Cebrid/Senad, 2010)
constituem uma base importante para
A prevenção do uso indevido de dro-
nosso ponto de partida. Eles revelam que
gas deveria estar “direcionada em promover,
as drogas lícitas, como o álcool e o tabaco,
nas pessoas, uma formação que possibili-
são as mais usadas pelos alunos.
tasse maior conhecimento dela mesma, de
sua vida e dos problemas do mundo, priori-
13
zando, em última análise, uma redução de
ESTRUTURA DA ESCOLA
vulnerabilidade em relação ao uso nocivo de
drogas” (Sodelli, 2010).
Estudos revelam que a forma como a
escola se organiza pode favorecer a diminui-
TRÊS FOCOS DE PREVENÇÃO
NA ESCOLA
ção da vulnerabilidade das crianças e ado-
Mesmo acreditando na necessidade
lescentes para o uso de drogas (Kraus, 2000).
Entre as características da escola facili-
de incluir a prevenção no trabalho educacio-
tadoras do desenvolvimento de posturas mais
nal da escola, não é fácil conceber um pro-
autônomas e responsáveis pelos alunos, e que
jeto atualizado, eficiente e viável, dentro do
ajudam a prevenir o uso de drogas, estão:
currículo escolar. Este processo, no entanto, está presente na vida escolar, tenhamos
Clima acolhedor e afetivo – ambiente em que
consciência disso ou não.
os alunos se sentem reconhecidos como pessoas e no qual os vínculos são favorecidos;
Cada escola, inclusive aquelas inseri-
das em sistemas públicos, tem sua concep-
Participação, envolvimento e responsabilida-
ção de educação, seus princípios, sua me-
de dos alunos nas tarefas e decisões da escola;
todologia e sua organização institucional.
Estas configurações, ainda que não expli-
Parâmetros de comportamento claros e
citamente, constituem seu projeto político
consistentes – regras definidas, preferen-
pedagógico. É com base nisto que acontece
cialmente com a participação de todos, e
a educação escolar e é concretizada a in-
cobradas com coerência;
fluência que ela exerce na construção da
vida de cada aluno. “É inerente ao processo
Altas expectativas pelos educadores – valo-
educativo, portanto, o desenvolvimento de
rização dos alunos e de sua cultura e crença
atitudes em diferentes áreas da vida, entre
nas suas possibilidades de crescimento e su-
as quais as relacionadas ao uso de drogas.
peração de dificuldades;
Tomando-se como objetivo do trabalho preventivo a adoção de comportamentos livremente assumidos e com menores probabilidades de riscos e danos, as ações da escola
são realizadas por meio de três focos: A estrutura da escola; ações implícitas; ações
explícitas” (Albertani, 2011).
Desenvolvimento de uma educação de qualidade, tanto do ponto de vista dos conteúdos de ensino como da formação pessoal e
social dos estudantes.
14
AÇÕES IMPLÍCITAS
sequências possíveis de suas ações. Para isso
são necessárias habilidades e informações
O desenvolvimento de habilidades
específicas sobre as drogas, seus efeitos e
pessoais e sociais para manejar situações e
riscos, fundamentados em conhecimentos
desafios cotidianos é um fator importante
científicos, atualizados e sem preconceitos.
no desenvolvimento de pessoas autônomas
que possam fazer escolhas responsáveis em
Este terceiro foco do trabalho pre-
qualquer âmbito da vida. Neste foco de ação
ventivo pode incluir:
não se está falando no uso de drogas, mas
favorecendo o fortalecimento de comporta-
Reflexão sobre as diferentes possibilidades
mentos conscientes e a possibilidade de que
de relação com as drogas;
eles sejam assumidos livremente.
Desmistificação do uso e dos usuários de drogas;
Informações sobre os tipos de drogas e seus
Entre estas habilidades e posturas,
efeitos;
que podem ser trabalhadas pelo conjunto
Divulgação de padrões de consumo baseada
dos educadores, podemos citar:
em dados estatísticos atualizados e confiáveis;
Reflexão sobre formas de reduzir riscos e da-
Desenvolvimento e manutenção de víncu-
nos associados ao consumo de drogas;
los interpessoais;
Conhecimento da legislação e das políticas
Fortalecimento da autoestima;
sobre drogas no país e no mundo;
Capacidade de manejar emoções;
Reflexão sobre as relações entre a sexualida-
Desenvolvimento da capacidade de reflexão;
de e o uso de drogas;
Desenvolvimento de uma visão crítica da
Pesquisa sobre os recursos da comunidade
realidade;
relacionados à prevenção, tratamento e inser-
Capacidade de tomar decisões;
ção social;
Habilidade de resolver problemas;
Informações sobre como agir nas emergências
Construção de um projeto de vida.
relacionadas ao uso ou abuso de drogas.
AÇÕES EXPLÍCITAS
O trabalho de prevenção na escola
terá mais possibilidades de eficácia se for
Para que os estudantes tomem de-
construído e realizado de forma coletiva, in-
cisões livres e responsáveis sobre o uso de
serido no currículo e desenvolvido ao longo
drogas, em qualquer momento de suas vi-
da escolaridade, não apenas de forma pon-
das, é necessário que tenham dados de ava-
tual em momentos específicos.
liação suficientes para compreender as con-
15
Com a integração dos três focos de
prevenção, a metodologia deve ter como
fundamentos: a participação ativa dos educandos, a promoção da reflexão e do diálogo,
a facilitação do autoconhecimento e a construção de conhecimentos e de posturas favoráveis a uma vida autônoma e responsável.
O trabalho de prevenção baseado na
perspectiva de redução de riscos e danos é
uma consequência natural e legítima de um
processo educacional lúcido e competente
do qual se beneficiam alunos, professores,
funcionários, famílias e escolas, na construção de uma sociedade mais crítica, saudável, responsável e feliz.Com a integração
dos três focos de prevenção, a metodologia
deve ter como fundamentos: a participação ativa dos educandos, a promoção da
reflexão e do diálogo, a facilitação do autoconhecimento e a construção de conhecimentos e de posturas favoráveis a uma vida
autônoma e responsável.
O trabalho de prevenção baseado na
perspectiva de redução de riscos e danos é
uma consequência natural e legítima de um
processo educacional lúcido e competente
do qual se beneficiam alunos, professores,
funcionários, famílias e escolas, na construção de uma sociedade mais crítica, saudável,
responsável e feliz.
16
REFERÊNCIAS
ALBERTANI, H. M. B. Prevenção na escola: um novo olhar, uma nova prática. In Silva, E.A. e
De Micheli, D. (Orgs.) Adolescência, uso e abuso de drogas: uma visão integrativa. São Paulo: FapUnifesp, 2011.
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17
SODELLI, M. Uso de Drogas e Prevenção. São Paulo: Iglu, 2010.
texto
2
As
situações-problema relacionadas ao uso de
álcool e outras drogas presentes na escola
Carla Dalbosco1
Entre as diferentes áreas que pos-
Percebe-se que a escola não se sente prepa-
suem afinidade com a prevenção do uso
rada para lidar com o fato da socialização de
de álcool e outras drogas, o contexto edu-
uma parcela da juventude brasileira passar
cacional tem merecido destaque pela inter-
pela experimentação, ou mesmo pelo abuso
face cada vez mais próxima entre os temas
de álcool e outras drogas. Este fato gera a
saúde e educação. Nas últimas décadas, a
paralisação dos educadores, que não sabem
escola tornou-se um locus importante para
como agir frente a esta problemática, prin-
a realização de ações de foco preventivo e
cipalmente quando as situações-problema
os educadores adquiriram papel fundamen-
estão presentes no próprio contexto escolar.
tal na formação integral de seus educandos,
ajudando-os a estabelecer ações de autocui-
Diante deste quadro, podemos pen-
dado e a optarem por escolhas saudáveis.
sar que, além da prevenção, os educadores devem estar preparados para lidar com
Todavia, pensar apenas pelo viés pre-
diferentes situações-problema concretas
ventivo, ou mesmo de promoção da saúde,
relacionadas ao consumo de drogas, bem
é insuficiente para dar conta da complexi-
como para a realização de encaminhamen-
dade da questão. Em muitas escolas brasi-
tos quando necessário. Os desafios para a
leiras há relatos de circunstâncias que já
construção de políticas e programas de pre-
envolvem o consumo ou mesmo o tráfico
venção são muitos.
de drogas, com a presença de adolescentes
em situação de vulnerabilidade social, expostos a riscos em função de seu padrão de
consumo ou mesmo de casos de violência.
1
Doutora em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília – UnB. Consultora desta Edição
Temática.
18
CONTEXTOS DE RISCO SOCIAL E USO
tificação de situações-problema relacionadas
DE DROGAS EM ESCOLAS BRASILEIRAS
ao tema drogas , contou com a participação
de mais de 2 mil educadores em todo o Brasil
Adotar o conceito de situação-
(DALBOSCO, 2011). Por meio da aplicação de
-problema é integrador para referenciar
um questionário online que identificou situa-
as ocorrências relacionadas à questão das
ções-problema vivenciadas pelos educadores,
drogas no cotidiano escolar. Considera-se
buscou-se também conhecer o potencial pre-
aqui o emprego deste termo para aquelas
ventivo existente nas escolas, as estratégias
vivências relacionadas ao uso ou tráfico de
adotadas e as parcerias acionadas para a re-
drogas lícitas ou ilícitas na escola, nas quais
solução das questões, além das concepções
o educador, ou seus alunos, são afetados di-
dos educadores sobre a temática.
retamente, seja como protagonistas ou testemunhas (Marques, 2011).
Os resultados foram bastante revela-
dores em relação a diferentes aspectos que
Autores como Santos, Sudbrack e
são motivo de preocupação para os educa-
Almeida (2010), entendem que alguns fato-
dores quando se fala em drogas e que preci-
res presentes no ambiente escolar podem
sam estar presentes na formulação de ações
aumentar o risco da ocorrência de situa-
voltadas para este contexto. Destacaremos, a
ções-problema, entre eles: falta de normas,
seguir, alguns desses achados.
regras e limites claros; relações desrespeitosas; falta de responsabilidade dos agentes
ESCOLA DESPROTEGIDA
educativos (professores, diretores, servidores); ausência de relação entre a família e
O primeiro ponto a ser evidenciado
a escola; ausência de expectativas positivas
é que, na visão dos educadores brasileiros,
em relação ao desempenho dos alunos; falta
nenhum contexto está livre de riscos e as
de atividades que estimulem a participação
escolas não se sentem protegidas. Há uma
juvenil; relações preconceituosas para com
diversidade de questões relacionadas às
os alunos; falta de afetividade nas relações;
drogas com as quais o educador deve estar
autoritarismo ou permissividade. É preciso
preparado para lidar: o consumo de drogas
destacar também, a questão da acessibilida-
pode ocorrer na família ou na comunidade
de a drogas lícitas na escola e nas redonde-
em que o adolescente vive; nos arredores da
zas, como o álcool e o tabaco.
escola; no interior da escola ou mesmo dentro da sala de aula; situações de violência,
Uma pesquisa qualitativa realizada
medo e ameaças pela presença do tráfico de
com o objetivo de conhecer a realidade de
drogas; falta de apoio interno e da rede de
escolas públicas brasileiras, a partir da iden-
serviços; dificuldade de aproximação com
19
os adolescentes e falta de articulação com a
por exemplo. Nesses casos, a escola recorre
rede familiar. Na visão dos educadores, a es-
mais à rede externa, com destaque para a
cola não consegue proteger o aluno e pode
segurança pública, além do encaminhamen-
acabar se tornando mais um espaço “des-
to do aluno para o conselho tutelar, equipa-
truído pela droga”. A situação de risco, dessa
mentos de saúde e de assistência social.
forma, se sobrepõe à própria instituição e a
qualquer ação proposta.
EXCLUSÃO X INCLUSÃO
DROGAS LÍCITAS
Outro ponto que merece destaque
é a ambiguidade em relação ao que é con
Quando se trata de situações rela-
siderada uma “boa resolução” da situação-
cionadas a drogas lícitas, há uma visão mais
-problema. A exclusão/expulsão do aluno da
tolerante. O álcool não é visto como uma
escola é vista como um fracasso por alguns
droga tão prejudicial, muito em função do
educadores e como um alívio/solução por
fato de apresentar inserção cultural e social
outros. Por isso, a visão de mundo do edu-
evidentes, não apenas entre os brasileiros
cador e dos gestores da escola será determi-
mas também, em outras sociedades. Nes-
nante para a escolha do encaminhamento
ses casos, quando surgem problemas re-
adequado: “o maior desafio é encarar o pro-
lacionados ao uso ou abuso de álcool no
blema e tentar ajudar, porém, é muito mais
ambiente escolar, as situações-problema
prático excluir o aluno”.
são resolvidas, na maioria das vezes, com
acionamento de recursos da rede interna da
Alguns educadores acham que é fun-
escola, sem que se recorra a parceiros ex-
damental pensar na reinserção do usuário,
ternos: o próprio educador, a direção e, no
sua inclusão na escola, ao invés da exclusão
máximo, a família do adolescente.
pura e arbitrária, na qual “a escola abandona o jovem”, “repassa responsabilidades” para
DROGAS ILÍCITAS
outras instituições sem formar parcerias reais, gerando falta de compromisso de seus
Nas situações-problema que envol-
profissionais com a resolução da situação.
vem o consumo de drogas ilícitas, há um
Há um desejo de livrar-se rapidamente do
temor maior por parte do educador, seja
problema ou mesmo de ignorá-lo: “sabemos
pela saúde do adolescente, alterações de
que existe, mas não queremos ver”. Percebe-
comportamento, ou, ainda, pela associação
-se uma contradição, pois, ao mesmo tempo
direta com a violência em suas diversas in-
em que há o anseio por ações preventivas e
terfaces e os riscos associados ao contexto
um olhar acolhedor sobre o usuário de dro-
do tráfico de drogas, como assassinatos,
gas, muitos educadores apresentam com-
20
portamentos preconceituosos, excludentes
ação no contexto escolar tenha sucesso, seja
dos alunos usuários, colocando-os como
pela capacidade de dialogar ou pela articula-
bodes expiatórios de todo o mal da escola,
ção com a rede:
que devem ser “extirpados” e afastados sem
“O mais desafiador é despir-se dos pre-
segunda chance.
conceitos, dos julgamentos e assumir
Por outro lado,
apesar de a sensação
em um primeiro momento parecer de alívio, o afastamento do
aluno pode gerar um
incômodo no educador,
que fica com a sensação
de que houve falha em
algum ponto: seja dele
individualmente como
a postura de educador
O educador precisa
desenvolver
competências para as
ações de educação para
a saúde, por exemplo, e
ter acesso a conteúdo
técnico qualificado
sobre o tema
(no sentido mais amplo
da palavra) e não simplesmente de professor
(conteúdo, currículo...).
Assumir a postura do colega que acolhe, entende
e procura ajudar”.
Para atingir estes objetivos, há também a
profissional, ou da es-
necessidade de se cria-
cola como instituição.
rem formas de aprendizagem que valorizem a
Entende-se que o esperado não deve-
produção de sentidos. Isto depende, em par-
ria ser afastar o aluno da escola, mas sim, a
te, da revisão de parâmetros curriculares e
construção do caminho inverso, que logras-
de modelos de ensino-aprendizagem que fa-
se trazê-lo para perto da escola e ajudá-lo na
zem parte da instituição escolar. O educador
construção de seu projeto de vida. Portanto,
precisa desenvolver competências para as
de forma pragmática, lidar com a situação-
ações de educação para a saúde, por exem-
-problema pode vir a ser uma oportunidade
plo, e ter acesso a conteúdo técnico qualifi-
de compreender o papel sistêmico da escola
cado sobre o tema: “enfrentar o preconceito
e desta instituição apropriar-se de seu papel
sobre usuários e a falta de conhecimento espe-
enquanto matriz formadora social.
cífico sobre as drogas”. Uma das razões que
levam ao insucesso das ações de prevenção
O PAPEL DO EDUCADOR
é enfocar os problemas associados ao uso
de drogas a partir de uma única perspecti-
Constata-se que o papel ativo do
va, sem levar em conta a dinâmica comple-
professor no enfrentamento da situação-
xa que os envolve. A experiência de vida e
-problema é fundamental para que qualquer
a maturidade para lidar com as situações-
21
-problema enfrentadas também despontam
Como vimos, o preconceito e a estig-
como competências necessárias a um bom
matização dos usuários apenas dificultam a
encaminhamento da questão e para ajudar
abordagem do tema. Nery Filho (2010) pro-
a “formar os jovens para a vida”.
põe uma ruptura com o discurso reducionista da relação humana com as drogas, ao
A prevenção deve ser pensada a par-
dizer que, fundamentalmente, os humanos
tir da formação do educador, da mudança de
usam drogas porque se tornaram humanos.
paradigma e de suas representações estereo-
Em suas palavras:
tipadas sobre o adolescente. É preciso construir conhecimento a partir da experiência
Não são as drogas que fazem os hu-
concreta, da prática, formulando uma pro-
manos (...), mas são os humanos que
posta de prevenção mais realista. Parece que
fazem as drogas, ou, se dissermos de
é necessário mais preparo que conteúdo, e
outro modo, em função dos buracos/
uma resposta, acima de tudo, “humana”.
faltas que constituem a estrutura de
nossas histórias. Alguns de nossos fi-
ALGUMAS REFLEXÕES
lhos terão pequenos espaços para as
drogas em suas vidas; outros filhos
A escola, sozinha, não “dá conta” de
nossos encontrarão mais facilmente
tudo isso e precisa contar com diversas re-
nas drogas a possibilidade de suportar
des, sendo necessário que “saia do casulo”.
o horror da exclusão pelo nascimento.
Ao mesmo tempo em que as dificuldades
Entre uma história e outra, há todas as
ficam evidentes, a pesquisa demonstrou
possibilidades - a vida é mobile. (Nery
também que já existem experiências no
Filho, 2010, p. 16).
país inclusivas e articuladas, de aproximação com as famílias e de busca de soluções
Percebe-se assim que a preocupação social
conjuntas. Este é um caminho para que
necessita ir além do controle da oferta das
a escola torne-se um ambiente atrativo,
drogas em si, devendo abordar a relação hu-
juntamente com as garantias asseguradas
mana estabelecida com essas substâncias.
pelas políticas públicas voltadas para a ju-
As concepções dos educadores sobre este
ventude e para suas famílias: proteção à
tema delicado serão determinantes para
infância, melhoria da qualidade de vida,
uma boa abordagem do assunto no contexto
educação para a saúde, prevenção, cidada-
escolar, no encaminhamento de situações-
nia, apoio das redes da justiça, saúde, de-
-problema enfrentadas e na visão dos alunos
senvolvimento social e segurança pública.
como sujeitos socioculturais singulares.
Esses parecem ser os elementos que ajudarão a escola no enfrentamento da questão.
Enquanto o educador apresentar
apenas sentimentos negativos em relação às
22
drogas, será quase impossível que consiga
se comprometer com o trabalho preventivo,
pois outras dimensões da relação humana
com as drogas, como a dimensão da busca
pelo prazer, por exemplo, ficam alheias às
ações preventivas e educacionais propostas.
Além do mais, as demandas emer-
gentes para ações preventivas na escola vão
muito além da prevenção em nível universal, ou seja, àquelas voltadas para a população em geral, que não está exposta a riscos
diretos. As situações-problema relatadas, ao
indicarem a existência de problemas relacionados diretamente ao consumo de drogas
por alunos, dão um indicativo da necessidade da formatação de ações preventivas no
nível seletivo, uma vez que, os fatores de risco já se encontram instalados no ambiente
escolar e a instituição deve estar preparada
para enfrentar situações em que já existam
riscos para o consumo e o tráfico.
É importante termos em mente que
o Brasil precisa amadurecer cada vez mais
esse debate, tão precioso ao desenvolvimento humano e social nas nossas escolas. Só
assim construiremos políticas educacionais
permanentes, para além da transitoriedade
dos governos, que efetivamente colaborem
para a prevenção do uso de drogas e a promoção da saúde no âmbito escolar.
23
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Políticas sobre Drogas, DF, 2010.
24
texto
3
Prevenção do uso de drogas: a construção de uma
política pública a partir da formação de educadores
Profa. Dra. Maria Fátima Olivier Sudbrack1
Profa. Dra. Maria Aparecida Gussi2
CONTEXTUALIZAÇÃO, HISTÓRICO E RELEVÂNCIA DO CURSO DE
PREVENÇÃO DO USO DE DROGAS PARA
EDUCADORES DE ESCOLAS PÚBLICAS
A parceria manteve continuidade em
cinco edições do curso e, com a perspectiva
de realização da sexta edição (2013/2014), este
projeto completará uma história de 10 anos,
consolidando-se como uma das ações priori-
Com o objetivo de capacitar profis-
tárias na atual política de prevenção do uso
sionais de escolas públicas para trabalharem
de drogas no país. Dessa maneira, visa con-
coletivamente na prevenção do uso abusivo
tribuir para o fortalecimento da comunidade
de drogas, por meio do fortalecimento da es-
escolar, por meio do aperfeiçoamento e im-
cola na promoção da saúde e da educação
plementação dos projetos de prevenção cons-
integral, foi iniciada em 2004 uma parceria
truídos coletivamente e coordenados pelos
entre os segmentos responsáveis pela pre-
educadores-cursistas. Na edição de 2010/2011,
venção do uso de drogas do Governo Federal
foi integrada à proposta pedagógica um mó-
(Secretaria Nacional de Políticas sobre Dro-
dulo dedicado a subsidiar a implementação
gas-SENAD/MJ e Secretaria de Educação Bá-
de ações preventivas, resultando em um cur-
sica – SEB/MEC) e a Universidade de Brasília
so de aperfeiçoamento (180 horas). O curso
(Programa de Estudos e Atenção às Depen-
também representa um espaço para a rea-
dências Químicas/ PRODEQUI/PCL/IP/UnB e
lização de pesquisas que retroalimentam a
Centro de Educação a Distância/CEAD/UnB),
prática preventiva, num processo dialético de
para oferta de uma capacitação de extensão
construção do conhecimento no contexto de
universitária na modalidade de educação a
formação-intervenção. Diferentes pesquisas
distância. A equipe do PRODEQUI é a respon-
e produções científicas, entre elas, disserta-
sável técnica pela elaboração da proposta
ções de mestrado e teses de doutorado, são
pedagógica do curso e sua execução.
realizadas durante a oferta do curso.
1
Doutora em Psicologia (Université de Paris XIII Villetaneuse, 1987). Professora Adjunta do Departamento de
Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. Professora Titular no Curso de Graduação
em Psicologia e no Curso de Pós- Graduação em Psicologia Clínica e Cultura/PPGPsiCC. Coordenadora do laboratório
PRODEQUI-Programa de Estudos e Atenção às Dependências Químicas.
2
Mestre em Enfermagem Psiquiátrica pela USP. Doutora em Ciencias da Saúde pela Universidade de Brasília.
Professora Adjunta na Universidade de Brasília. Integrante da equipe do Hospital Universitário de Brasília - Programa
de Atendimento ao Alcoolismo.
25
A partir da sua quinta edição
prevenção deve fazer parte do currículo e es-
(2012/2013), o curso passou a atender os ob-
tar presente nas diferentes séries da carreira
jetivos estabelecidos no eixo PREVENÇÃO do
escolar, contemplando o desenvolvimento
Programa Federal “Crack, é possível vencer”.
da cidadania responsável, integrando o pro-
No âmbito do Ministério da Educação, aten-
jeto de educação para a saúde e envolvendo
de metas de implementação das políticas
a rede social da qual a escola é parte inte-
intersetoriais de educação para a saúde do
grante. A complexidade implicada nas ações
Programa Saúde na Escola/PSE, articulando-
de prevenção do uso de drogas no paradig-
-se com outros programas da SEB, como o
ma sistêmico da prática de redes, direcio-
Mais Educação e o Escola Aberta.
na uma política intersetorial com práticas
territorializadas de promoção de saúde, de
A inclusão da temática da drogadi-
defesa dos direitos humanos e da cidada-
ção na formação continuada de educadores
nia. Com estas referências, a formação de
justifica-se pelo crescimento do consumo
educadores implica responsabilidade social
de drogas entre crianças e adolescentes.
na disseminação de conhecimentos atuali-
As pesquisas revelam uma precocidade na
zados e isentos de preconceitos, formas de
idade da primeira experimentação, o que
abordagem e de estratégias de trabalho pe-
aumenta, consideravelmente, os riscos do
dagógico, para subsidiar os educadores no
uso abusivo com os consequentes danos à
cotidiano da prática educativa.
saúde de crianças e adolescentes, problemas
de relacionamento e de violência, queda no
Nas cinco edições realizadas, entre
rendimento escolar e evasão escolar, entre
2004 e 2013, o curso obteve importante re-
outros. Os estudos epidemiológicos sobre a
ceptividade por parte dos educadores, tor-
realidade do uso de drogas pela população
nando-se necessária a organização de um
brasileira apontam para a necessidade de
processo seletivo, mesmo com a ampliação
ações de prevenção e promoção da saúde no
significativa do número de vagas: a primeira
âmbito da comunidade escolar.
edição (2004) foi realizada para 5 mil educadores; a segunda (2006/2007) teve oferta
A realização de ações para minimizar
de 20 mil vagas; a terceira (2009) e a quarta
os fatores de risco, centradas no desenvolvi-
edições (2010/2011) contaram com a partici-
mento da autonomia responsável, é tarefa a
pação de 25 mil educadores em cada uma
ser desempenhada por diferentes instâncias
delas; e a quinta edição (2012/2013) teve o
da sociedade, destacando-se a escola, reco-
quantitativo de vagas ampliado para 70 mil
nhecida enquanto contexto de socialização
em todo o Brasil.
complementar à família na formação de
valores das crianças, adolescentes e jovens
educandos. Neste sentido, a prevenção não
é trabalho de um educador isoladamente. A
26
PROPOSTA POLÍTICO-PEDAGÓGICA
DO CURSO
nhecimento. Ela é, em toda sua plenitude,
formadora de opinião, de valores, atitudes e
capaz de instigar a noção de pertencimento
- Desconstruções para um novo paradigma
a um território dado. Para o alcance dessas
na prevenção
metas, é necessário ressignificar o papel do
educador, incluindo em seu cotidiano novos
No processo de desenvolvimento do
conhecimentos que, resultando em novas
conteúdo do curso, são abordados temas
práticas providas de sentido na missão de-
acompanhados de exercícios, com ferramen-
senhada pela escola, sejam incorporadas ao
tas que subsidiam a construção e a implemen-
seu projeto político-pedagógico.
tação de projeto de intervenção pelo grupo
de cursistas/educadores de cada escola. Estes
- Parcerias e intersetorialidade
projetos podem ser estruturados em referência a 5 eixos metodológicos principais, a saber:
A materialização de ações de promo-
ção de saúde firma-se nos princípios da inter
a) participação juvenil e a formação
de multiplicadores;
setorialidade, em especial, entre segmentos
da educação e da saúde, como também, na
articulação da rede de apoio interna e exter-
b) integração de ações pautadas na
prevenção no projeto político-pedagógico;
na à escola e na compreensão das relações de
complementaridade, à luz da teoria sistêmica
e do pensamento complexo. Nesta direção, a
c) resgate da autoridade na família e
na escola;
drogadição é concebida como um sintoma
sócio-relacional com olhar amiúde nos fatores de risco e proteção que permeiam as
d) fortalecimento da escola na comu-
nidade e como comunidade;
instituições e as pessoas envolvidas, as vulnerabilidades sociais e pessoais, peculiares a
estas mesmas instituições e pessoas.
e) acolhimento de adolescentes em
situação de risco.
Há de se considerar que as ações pre-
ventivas propostas para minimizar os comPara que estes eixos sejam contem-
portamentos de risco ao envolvimento com
plados, busca-se uma mudança de paradig-
drogas estão fundamentadas no desenvolver
ma no que diz respeito a espaços que, por
da autonomia responsável dos educandos,
sua natureza de inserção na sociedade, são
crianças e adolescentes, sendo esta uma ta-
potencialmente estratégicos na incorpora-
refa a ser assumida e desempenhada por
ção da promoção da saúde. A escola em si
diferentes instâncias da sociedade, entre as
mesma é concebida e valorizada como um
quais, a escola, que neste contexto, ocupa lu-
espaço que vai além da transmissão de co-
gar privilegiado.
27
adequadas sobre as drogas; está insatisfeita com
É necessário levar em conta também que
sua qualidade de vida; é pouco integrada na faeste não é um trabalho isolado. A promoção à
mília e na sociedade e tem fácil acesso às drogas.
saúde e a prevenção do uso de drogas são temáticas transversais que devem ser integradas ao cur- Metodologia do curso
rículo no conjunto de disciplinas, como também
devem estar presentes nas diferentes séries da
Durante todo o processo de aprendizacarreira escolar, contemplando o desenvolvimengem o educador-cursista é
to da cidadania responsável,
instigado a realizar “atividaintegrando o projeto de edu“A promoção à saúde e
des colaborativas de aprencação para a saúde e envola prevenção do uso de
dizagem”, como estratégia
vendo a rede social da qual
drogas são temáticas
para facilitar a elaboração
ela é parte integrante. Para
transversais que devem
do projeto de intervenção.
que esta consigna tenha o alser integradas ao
Esta ação tem como objeticance almejado, duas ações
currículo no conjunto
vo a construção do projeto a
devem caminhar par e passo:
de disciplinas, como
ser desenvolvido na escola.
enquanto o currículo integra
também
devem
estar
A proposta político-pedaos conteúdos, a escola dá
presentes
nas
diferentes
gógica coloca-se rumo ao
movimento a estes conteúséries
da
carreira
que, na perspectiva da psidos integrando as pessoas.
escolar, contemplando
cossociologia, denomina-se
o
desenvolvimento
da
A escolha da metoprocesso de formação-intercidadania
responsável
(...)”
dologia de trabalho tem seu
venção. As atividades pedasustentáculo em estudos
gógicas integrantes do curso
epidemiológicos sobre a realidade do uso de drosão tanto de natureza individual, como coletiva,
gas pela população brasileira e, em especial, pedestacando-se os fóruns de conteúdo sobre situalos estudantes das escolas públicas. E vêm conções-problema e as atividades avaliativas colabofirmar, portanto, a importância da prevenção na
rativas que resultam na elaboração processual do
escola. De acordo com a Organização Mundial
projeto de prevenção do uso de drogas da escola,
de Saúde (OMS), uma pessoa está mais vulneránum processo dialético de integração entre teoria
vel a usar drogas quando: não tem informações
e prática, conforme ilustrado na figura abaixo:
28
O primeiro passo deste percurso
cas e ações de proteção como o Estatuto da
metodológico instiga o educador-cursista a
Criança e Adolescente (ECA) e de educação
evidenciar o cenário onde acontece seu coti-
para a saúde.
diano e que vai ser palco do projeto de intervenção. É orientado a efetuar uma espécie
- A escola como contexto de promoção de saúde
de diagnóstico da situação e, a partir deste
desenho, dar os primeiros passos na propo-
sição de uma intervenção preventiva execu-
sas concepções, a escola é posta como con-
tável e calcada nas demandas da escola e,
texto de promoção de saúde com potencia-
em especial, dos estudantes.
lidades que precisam ser fortalecidas. Como
No processo para solidificação des-
possibilidade concreta que leve ao alcance
O processo teórico-reflexivo tem
desta meta, a integração de temas sociais
seu marco na busca do reconhecimento do
que promovam o desenvolvimento do aluno
educando como sujeito em desenvolvimen-
no planejamento das atividades escolares,
to, com pertencimento na família e na es-
a inserção das ações de prevenção do uso
cola e protegido por políticas públicas. Para
de drogas no projeto político-pedagógico da
que esta concepção possa ser consolidada,
escola e o trabalho em rede são essenciais
é fundamental ressignificar a escola para
na condução de um processo cujo ápice é
o educador-cursista, intermediar processos
a conquista de outro lugar para a escola.
para que se possam reconhecer as potencia-
Neste processo reflexivo são apontadas pos-
lidades da escola e seus atores, identificá-la
sibilidades concretas para a mudança do
como contexto de promoção da saúde e in-
paradigma vigente, com a utilização de ins-
tegrar temas sociais que favoreçam o desen-
trumentais conceituais e metodológicos que
volvimento do aluno no planejamento das
permitam o mapeamento das redes sociais
atividades escolares.
da escola, mobilização de parcerias diversas
na consecução do projeto de prevenção
Ressignificada a escola, busca-se avi-
var uma proximidade das representações do
- A gestão da tutoria
educador-cursista com o adolescente como
sujeito transformador, protagonista e cida-
dão no contexto sócio-familiar e os papéis
titativo de oferta de vagas, como pela na-
da escola e família enquanto formadores de
tureza do conteúdo e objetivos do projeto,
valores. Nesta linha de pensamento, é ine-
representa especial desafio à equipe de exe-
xorável trazer à tona as concepções de ris-
cução. No decorrer da experiência e graças
co e proteção, em especial em situação de
aos avanços das tecnologias de EAD, a equi-
risco pelo envolvimento com drogas e no
pe do PRODEQUI desenvolveu uma metodo-
que diz respeito ao papel da escola como co-
logia de gestão de tutoria que vem se mos-
-responsável nas ações protetivas e as políti-
trando efetiva, na medida em que permite um
A gestão da tutoria, tanto pelo quan-
29
acompanhamento sistemático dos tutores, organizados em grupos de supervisão e integrados a coordenações regionais.
Na quinta edição, o projeto teve foi
marcada por de uma organização complexa
e por uma dinâmica de integração dos diferentes atores, envolvidos no acompanhamento do processo de formação dos educadores-cursistas, o que se denominou Sistema
de Apoio à Aprendizagem-SISAP, cuja composição inclui as cinco coordenações regionais
(CRT), seus respectivos grupos de supervisão
de tutoria (GSTs) e as coordenações técnicas
específicas que atuam nesse sistema, como
apresentamos no gráfico a seguir:
Considerações finais: conquistas e desafios
na consolidação da política de prevenção do
uso de drogas junto às escolas
Um curso de tamanha magnitude,
tendo conseguido se manter em continuidade
por meio de profícuas trocas entre a academia
e os principais órgãos de implementação de
políticas públicas do Governo Federal, já deixa
suas marcas no que, sem dúvida, podemos
chamar de implementação de uma política de
prevenção do uso de drogas, através da formação de educadores de escolas públicas.
Dentre as principais conquistas, destacamos a própria continuidade e os avanços na
proposta político-pedagógica. A crescente demanda pelo curso testemunha uma conquista
na mobilização dos educadores como atores
conscientes de seu protagonismo na implementação da política de prevenção do uso de
drogas na escola. A qualidade da participação
dos educadores-cursistas concluintes, que investem e se comprometem com o curso, apesar das tantas dificuldades de toda a ordem
que permeiam o sistema escolar, é o maior
estímulo para a equipe do PRODEQUI aceitar
o desafio de novas edições.
O grande desafio que temos pela frente e que estamos propondo a prosseguir desbravando juntos, sempre em complementaridade entre UnB, MEC e SENAD, é, sem dúvida,
o da territorialização, tanto da formação dos
educadores, através de universidades parceiras em diferentes estados do Brasil, como do
processo de ampliação das atividades preventivas
de promoção de
saúde
para a
escola,
no seu
sentido
mais
amplo
de território educativo aberto. Este processo deve
ocorrer em constante parceria com a comunidade e com a cidade, em busca do fortalecimento de uma política de promoção de
saúde e de cidadania.
Entendemos que a territorialização
da promoção de saúde na escola – meta
fantástica do PSE onde se inserem as ações
preventivas do abuso de drogas - prima por
ações políticas de mobilização nas instituições locais na esfera da gestão estadual,
municipal e direção das escolas contempladas pelo curso, para que assumam o apoio à
implementação do projeto de prevenção da
escola. Temos assim, mais um motivo para
prosseguirmos, além de um compromisso de
superarmos juntos todos os desafios que esta
parceria representa, em si mesma.
30
REFERÊNCIAS
BRASIL. Curso de Prevenção do Uso de Drogas para Educadores de Escolas Públicas. Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, Ministério da Educação. 5 ed. Brasília: Ministério da
Justiça, 2012.
31
Presidência da República
Ministério da Educação
Secretaria de Educação Básica
TV ESCOLA/ SALTO PARA O FUTURO
Supervisão Pedagógica
Rosa Helena Mendonça
Acompanhamento pedagógico
Luís Paulo Borges
Coordenação de Utilização e Avaliação
Mônica Mufarrej
Fernanda Braga
Copidesque e Revisão
Milena Campos Eich
Diagramação e Editoração
Bruno Nin
Valeska Mendes
Consultora especialmente convidada
Carla Dalbosco
E-mail: [email protected]
Home page: www.tvbrasil.org.br/salto
Rua da Relação, 18, 4o andar – Centro.
CEP: 20231-110 – Rio de Janeiro (RJ)
NOVEMBRO 2013
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prevenção ao uso de drogas: a escola na rede de cuidados