GOVERNANÇA E SUSTENTABILIDADE
Junho de 2007
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POR ROBERTO SOUSA GONZALEZ
Diretor de Estratégia de Sustentabilidade da The Media Group – Comunicação de Valor, assessor para assuntos de
Sustentabilidade da Presidência da Apimec-Nacional, membro do Conselho Deliberativo do Índice de Sustentabilidade
Empresarial (ISE) e professor em cursos de pós-gradução e graduação. Melhor profissional de investimentos de 2005 do mercado
de capitais nacional, eleito pelos associados da Apimec ([email protected]).
EMPRESAS REALMENTE SE PREOCUPAM COM QUESTÕES SOCIAIS RELEVANTES?
Muito se tem falado sobre responsabilidade social. Por um lado, é interessante que o tema chegue ao
cotidiano das pessoas e seja comentado com o médico, o dentista, o advogado, o eletricista, o mecânico, o
síndico do prédio onde se mora e com outras pessoas que integram o círculo de conhecimento pessoal. Por
outro lado, nem sempre as empresas e as pessoas que ali tomam decisões estão conscientes sobre questões
fundamentais que devem ser pensadas e para as quais se deve estar preparado, quando realmente se deseja
praticar boa responsabilidade social.
Sem pretender esgotar o assunto, abordaremos aqui três questões que nos parecem cruciais, especialmente
para aqueles que verdadeiramente se interessam pelo tema: responsabilidade histórica social, respeito aos
empregados e posicionamento em eleições políticas.
A primeira questão: a adesão à responsabilidade histórica social, defendida por profissionais como Paulo
Nassar, diretor-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial – Aberje –, preconiza que a
empresa conheça sua história, reflita sobre o seu passado e construa o seu futuro em bases bem assentadas,
das quais as próximas gerações não se envergonharão.
Empresas costumam, realmente, refletir sobre erros e acertos do passado e sobre o que deve e o que não deve ser
legado ao futuro? Exemplificando: uma empresa que tenha hoje mais de 400 anos e que já tenha utilizado trabalho
escravo, ou quase isso, não deveria fazer uma reflexão séria sobre o seu passado? E se esse fato for, um dia,
lembrado, será suficiente dizer que isso faz parte do passado? E se a empresa não estiver preparada para
demonstrar que o presente e o futuro são ou serão bem diferentes? E se a sociedade cobrar explicações?
A segunda questão de responsabilidade social aqui comentada é o respeito aos empregados. Há algum tempo,
ouvimos, em um único dia, duas histórias com finais diferentes e com uma mesma lição a absorver. A
primeira é a de uma profissional que havia sido demitida de uma escola no dia anterior, após 13 anos
dedicados ao crescimento da organização, priorizando compromissos profissionais em relação aos pessoais.
A direção da escola apenas aguardara a apresentação da finalização de um projeto, que somente pudera ser
feita após a recuperação do filho da profissional, que sofrera grave acidade, para comunicar, em reunião
colegiada, a decisão de desligamento. Alegação: a pessoa tinha dificuldades de relacionamento. Somente
após 13 anos se perceberam tais dificuldades?
No mesmo, um taxista nos contou que havia trabalhado 18 anos em um banco. Um dia, recebeu a notícia de
que teria que se deslocar para nova agência, na Moóca, na cidade de São Paulo, onde seria o principal
responsável por alavancar os resultados na região. Mas ele desejava mudar sua vida e tomou a decisão,
naquele momento, de pedir demissão, deixando claro que agradecia à empresa por tudo o que havia
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alcançado: o patrimônio acumulado, os estudos dos três filhos e muito mais. Toda a família tem conta nesse
banco, e ele sempre o recomenda às pessoas que conhece.
Temos aqui duas histórias, as quais remetem a seguinte lição: organizações que respeitam as pessoas que ali
trabalham ganham credibilidade perante públicos relevantes; organizações que desrespeitam as pessoas
perdem credibilidade (e renda!). Se alguém nos pedir uma opinião quanto a matricular seus filhos na referida
escola, é altamente provável que nos lembraremos dessa triste história ouvida.
A terceira questão de responsabilidade social aqui abordada é o posicionamento empresarial em situação de
eleições políticas. Em que os decisores empresariais acreditam? O que fazer em relação àquilo em que se
acredita? Por que apoiar candidatos? Caso isso seja feito, como? Fazendo doações para todos os
candidatos a um cargo? Apenas para alguns? Ou não fazendo doações? Como uma empresa com matriz no
exterior deve agir em relação a eleições em países de suas subsidiárias? Responder bem essas e outras
perguntas pode fazer a diferença entre preservar a reputação e a marca empresarial e permitir que ambas
percam valor considerável perante a sociedade e os mercados.
Situações prejudiciais às empresas podem ocorrer, se não houver responsabilidade no momento de eleições
políticas. Seja o exemplo hipotético de uma empresa sediada em uma cidade do interior, com excelente
ambiente de trabalho, forte presença na comunidade e grande respeito pelas suas iniciativas sociais. Em uma
eleição municipal, o presidente da empresa é procurado por um candidato a prefeito, que tem idéias
interessantes sobre o futuro. Concorda em fazer uma doação para a campanha; afinal, essa pessoa tem
histórico positivo na comunidade e tudo leva a crer que será um bom prefeito. A empresa não busca entender
a fundo o plano de governo, a estratégia para implementá-lo, dando pouca importância ao contexto político
local e ao ponto de vista de correligionários e de outros integrantes do partido ou da coligação.
Dois anos após, denúncias de corrupção se intensificam, o prefeito desaparece, mesmo não sendo culpado por
irregularidades: delegara poder a pessoas que se aproveitaram de sua confiança. A imprensa publica que o
principal financiador da campanha foi a empresa. A população se torna indignada; alguns profissionais
pedem demissão da empresa. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito − CPI − se instala na Assembléia
Legislativa do estado e solicita o depoimento do presidente da empresa. Raciocínio dos deputados: se essa foi
a maior financiadora da campanha, pode estar envolvida no escândalo. Grupos de outras cidades incentivam
boicote aos produtos empresariais. E muito mais pode acontecer, prejudicando pessoas, empregos e a
comunidade. Resumindo: se a empresa tivesse refletido com profundidade sobre o seu apoio político ao
candidato a prefeito, poderia ter evitado muitas conseqüências desagradáveis e muita dor.
Finalizando, acreditamos que a pergunta do título deste artigo deve ser feita pelos dirigentes das empresas a
si mesmos e com foco específico na organização em que exercem suas atividades. A resposta pode revelar
que ainda existe um grande trabalho de responsabilidade social a ser feito, em âmbito interno.
COMENTÁRIO APIMEC-MG
Empresas necessitam ter políticas claras de responsabilidade social, decorrentes da reflexão profunda de seus
dirigentes e, não, meras adaptações das políticas de outras organizações, criadas apenas para fins de dizer:
vejam nossas práticas de responsabilidade social.
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