IMPACTOS DA APLICAÇÃO DO SISU NAS INSTITUIÇÕES FEDERAIS DE
ENSINO SUPERIOR: UMA ANÁLISE BASEADA NOS MODELOS DE NEGÓCIOS
NA ERA DIGITAL
Autoria: Leandro Sumida Garcia, Douglas de Lima Feitosa
RESUMO
Oportunidades de negócios digitais surgem para instituições de ensino não mais apenas no
processo educacional, mas também na seleção. Nas Instituições Federais de Ensino Superior
(IFES), essa situação evidenciou-se com o Sistema de Seleção Unificada (SISU), permitindo a
vestibulandos brasileiros concorrer a vagas nas instituições cadastradas sem sair de sua
localidade. Este trabalho verificou impactos positivos e negativos do SISU na seleção de
alunos em IFES. Com o caso ilustrativo da Universidade Federal do ABC (UFABC),
analisado pelos modelos de negócios na era digital, demonstrou-se que a adoção do agregador
– SISU – proporcionou um aumento na procura dos cursos da UFABC.
Palavras-chave: TI em IFES; Instituição de Ensino Superior; Modelos de Negócio na Era
Digital; Sistema de Seleção Unificada
1
Introdução
A expansão do uso de Tecnologias de Informação nos anos 1990 gerou reações tanto de
organizações privadas quanto públicas, que passaram a rever a forma como poderiam tirar
proveito dessas tecnologias que se tornavam mais baratas e disponíveis. Nesta mesma década,
a Reforma Gerencial do Estado, descrita por Pereira (1997), foi o marco de uma posição
diferenciada da gestão pública, que buscaria mais eficiência e controle de resultados. A TI,
assim, seria uma ferramenta estratégica para esta nova postura.
O advento da internet abriu ainda mais o leque de possibilidades de atuação das
organizações por meio da Tecnologia de Informação, assim como tornou o ambiente muito
mais desafiador e em constante mudança. Empresas encontram diversas oportunidades neste
cenário, tanto as já existentes – procurando novos mercados – quanto outras que surgem para
atender necessidades específicas do ambiente digital (Neff & Stark, 2003). Órgãos públicos
passaram a ter recursos novos para atender uma quantidade maior de cidadãos, oferecendo
serviços e informações confiáveis sem que o indivíduo precise se deslocar, e diminuindo a
necessidade de manutenção de infraestrutura física de atendimento – ao passo em que ganha
novas preocupações com segurança dos dados e disponibilidade dos serviços (Layne & Lee,
2001).
Ao se observar as instituições públicas de ensino superior, nota-se que as chances de
acesso à educação superior gratuita enfrentam barreiras sociais diversas – temas recorrentes
de projetos governamentais que, ao menos idealmente, procuram atingir a igualdade de
oportunidades (Pinto, 2004; Carvalho, 2006), uma prerrogativa do próprio serviço estatal.
Considerada a distância física como um dos obstáculos à ampliação do acesso (Silva, Pinezi,
& Zimerman, 2012), foi proposto pelo Ministério da Educação o Sistema de Seleção
Unificada [SISU], com o intuito de eliminar a necessidade de grandes deslocamentos para que
pessoas pudessem se candidatar a vagas de graduação em instituições federais de ensino
superior apenas por meio da realização do Exame Nacional do Ensino Médio [Enem] (MEC,
2009). Neste sentido, a aplicação do Sistema de Seleção Unificada ao processo seletivo
discente consiste em um fenômeno que gera impactos, que estão ligados às dinâmicas de
relações entre governo, Instituições Federais de Ensino Superior [IFES] e candidatos.
Com isso, este trabalho tem o objetivo de verificar os impactos do SISU no processo de
seleção de alunos em IFES, sob a ótica dos modelos de negócios na era digital de Ticoll,
Lowy e Kalakota (1998). Busca-se, assim, evidenciar fatores contextuais relacionados à
aplicação do SISU, por meio de um estudo de caso, no sentido de fornecer indícios acerca do
alcance do objetivo gerencial, relacionado ao aumento de alcance geográfico das IFES.
Considerando as premissas acima, a contribuição obtida a partir da realização deste
trabalho caracteriza-se como empírica, ao passo que aborda a aplicação da estrutura de
modelos de NED para análise de um fenômeno recente e emergente, que implica em uma
quebra de paradigma no processo de seleção/captação de alunos das IFES.
Assim, este trabalho está dividido em seis seções, sendo a primeira esta introdução; a
segunda seção apresenta o referencial teórico sobre o papel da TI nas empresas e as
dimensões do seu uso; a terceira apresenta a metodologia e os procedimentos adotados nesta
pesquisa; a quarta apresenta os resultados; a quinta seção traz as discussões acerca dos
resultados; e a última seção engloba as conclusões do trabalho.
Revisão Teórica
Modelos de Negócios na Era Digital A visão dos possíveis benefícios de Tecnologia da Informação para a empresa ampliouse com o passar do tempo. Quando surgiu, como uma possibilidade de investimento para as
organizações, seu papel era essencialmente o de automação de processos, ocasionando o
aumento da velocidade das atividades corriqueiras e a diminuição de mão de obra, e assim,
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gerando economia de tempo e pessoal, além de diminuir a taxa de erros. Desse modo, a
utilização de TI era apenas interna, no nível da administração, sem perspectiva de aplicação
estratégica (Meirelles, 2008).
O barateamento, disponibilidade e facilidade do uso de Tecnologias de Informação
levaram à crescente difusão de tais tecnologias, e investir apenas na automação não geraria
nenhum diferencial significativo à empresa. Passou-se, assim, de uma perspectiva em que a TI
deveria se adequar completamente aos processos organizacionais para a visão de que a
empresa precisaria reformular seus próprios processos conforme o que as tecnologias
compradas indicassem (Albertin & Albertin, 2009), acreditando que aquelas eram
necessariamente as melhores práticas existentes.
Atualmente, observa-se a possibilidade de uma visão integrada de tecnologia e negócio.
Muitas organizações mudaram seu comportamento na tentativa de buscar o alinhamento entre
TI e estratégia empresarial, em que se enxergam contribuições mútuas. A internet e seus
serviços, compondo o ambiente digital para troca de informações e realização de transações
(Albertin, 2000), abrem oportunidades para a melhoria do desempenho organizacional e
desenvolvimento de novos mercados. O impacto do uso intensificado e planejado de TI,
assim, é capaz de alavancar ou mesmo viabilizar estratégias da empresa.
Deve-se notar que, para isso, autores como Nevo e Wade (2010), e Weill, Subramani e
Broadbent (2002) destacam o fato de que TI, por si só, não é capaz de gerar valor para a
empresa. Porter (2001) coloca o elemento “Desenvolvimento de Tecnologias” como uma
atividade de apoio, que está envolvida em todo o processo de entrega de valor para o cliente, e
não como uma etapa específica. O benefício efetivo para a empresa, portanto, ocorre quando a
implantação dos recursos de Tecnologia de Informação é gerenciada junto aos processos,
pessoas e a outros recursos envolvidos. Então, a TI torna-se estratégica para a organização
quando a própria estratégia é elaborada e executada em conjunto com o planejamento da
aplicação de tecnologia.
Ticoll, Lowy e Kalakota (1998), ao abordar especificamente as transações pela
interação de sistemas eletrônicos, propuseram quatro classificações de comunidades virtuais
de negócio interconectados. A organização pode atuar em um ou mais tipos de comunidades,
e seu posicionamento pode alterar o relacionamento com seus clientes e fornecedores.
Mercado Aberto: Conforme demonstra a Figura 1, é um modelo auto-organizado de
comercialização pela internet, caracterizado pela concorrência ampla; fornecedores e
consumidores relacionam-se livremente entre si, a um custo baixo, e o poder de negociação e
a competitividade aumentam devido à disponibilidade de produtos e informações a respeito
destes. O desafio dos participantes do mercado aberto é conseguir destaque frente aos demais
concorrentes, principalmente devido ao distanciamento gerado pela relação eletrônica.
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Figura 1. Modelo de Mercado Aberto.
Fonte: Albertin (2010)
Agregador: Conforme demonstra a Figura 2, este modelo representa uma comunidade
virtual em que há um intermediário entre fornecedores de produtos/serviços e consumidores.
Tal intermediário deve efetivamente agregar valor notado pelas duas partes, que do contrário
podem optar por se relacionar diretamente entre si. Assim, a organização que atua como
agregadora precisa identificar os processos que geram benefícios tanto para o fornecedor
quanto para o cliente final. Estes atores, por sua vez, ao encontrarem-se num modelo
regulado, tornam-se dependentes do agregador. Eventualmente, a dependência pode afetar os
custos e o alcance da atuação.
Figura 2. Modelo de Agregação.
Fonte: Albertin (2010)
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Cadeia de Valor: Conforme demonstra a Figura 3, este é um modelo também regulado,
em que uma organização integradora coordena vários fornecedores para entregar um produto
ou serviço aos clientes finais. O integrador, assim, pode controlar os custos, diminuir
restrições de recursos e aumentar a flexibilidade, mas fica dependente de bons níveis de
qualidade dos demais participantes. Os produtores possuem uma figura que se responsabiliza
pela garantia do mercado e de parceiros, e podem se concentrar no negócio principal.
Entretanto, dependem do intermediário para a regulação do mercado, e também dos demais
produtores para a entrega do produto/serviço completo. Os clientes, enquanto possuem a
vantagem do custo e da flexibilidade, ficam também dependentes das determinações do
integrador para preço e especificações do produto ou serviço.
Figura 3. Modelo de Cadeia de Valor.
Fonte: Albertin (2010)
Aliança: Conforme demonstra a Figura 4, este modelo é auto-organizado e prevê que
uma ou mais instituições desenvolvam e mantenham uma infraestrutura denominada “espaço
de valor”, onde fornecedores e clientes possam realizar seus processos sem interferências
diretas ou custos adicionais. Tal tipo de interação possui retornos indiretos e confiabilidade
não garantida, pois a premissa é de que todos os agentes disponham das mesmas informações,
recursos e oportunidades. Entretanto, é uma estrutura altamente flexível.
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Figura 4. Modelo de Aliança.
Fonte: Albertin (2010)
A figura 5 sintetiza os principais aspectos de cada um dos modelos de negócios na era
digital.
Aspectos
Vantagens
Desafios
Controle
Integração
valor
Modelos de Negócios em NED
Mercado
Cadeia de
Agregador
Aberto
Valor
Tendência ao Participantes
Flexibilidade;
“mercado
contam
com diminuição de
perfeito”
mercado maior restrições
de
e
mais produtos
confiável;
escassos
redução
de
custos
Baixa
confiabilidade;
necessidade de
entender novas
regras
de
mercado
Autorregulado
de Baixa
Diminuição da Dependência
liberdade
de do desempenho
atuação
e dos elementos;
decisão
esforços para
atração
de
participantes
Hierárquico
Hierárquico
Baixa
Alta
Aliança
As
contribuições
geradas para o
próprio
mercado
ou
comunidade;
aumento
das
transações
e
informações
Retorno
não
mensurável;
baixa
confiabilidade;
possibilidade
de interferência
Autorregulado
Alta
Figura 5. Síntese das Características dos Modelos de Negócios em NED.
Fonte: Baseado em Albertin (2010)
Com a adoção desses modelos, progressivamente, formam-se as redes de negócio
(Albertin, 2005), que aumentam os desafios do ambiente ao mesmo tempo em que permitem o
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pleno aproveitamento dos seus benefícios. Nota-se que, conforme aumenta a complexidade
dos modelos de negócios na era digital, mais crítica é a importância da informação, até o
ponto em que o modelo de aliança é o principal gerador de dados a respeito de todos os
atores: fornecedores, clientes e concorrentes.
TI nas Instituições de Ensino Superior A maioria das pesquisas em Tecnologia de Informação para a educação superior possui
como foco a sua aplicação no processo de ensino-aprendizagem em si, ou seja, a TI na
condição de ferramenta de apoio ao estudante e/ou ao professor durante a transferência e
retenção do conteúdo. Os trabalhos abordam desde a educação à distância, como o estudo de
fatores críticos para e-learning de Bhuasiri et al (2012), até o uso de ambientes virtuais de
aprendizagem no ensino presencial, tendo por exemplo a pesquisa sobre a aceitação do
ambiente Moodle, de Escobar-Rodriguez e Monge-Lezano (2012), além da própria interação
entre os estudantes fora do ambiente educativo mas ainda dentro do contexto da comunidade
acadêmica – ver Edmunds, Thorpe e Conole (2012).
A TI aplicada em atividades intermediárias nas Instituições de Ensino Superior, como
periféricos de apoio às aulas e sistemas de gestão, parece encontrar mais resistência na sua
implantação, sendo a adoção de inovações tecnológicas algo menos natural para professores e
técnicos do que para alunos (Chang et al, 2011). A cultura organizacional de uma IES tende a
ser difícil de compreender como um todo, por fragmentar-se em subculturas: departamentos,
funções acadêmicas e administrativas, campos de conhecimento. Desse modo, a implantação
de uma ferramenta de Tecnologia de Informação que altera consideravelmente os processos
ou a lógica de negócio precisa ser acompanhada de uma forte conscientização que vise seus
benefícios (Usluel, Askar & Bas, 2008; Lin & Ha, 2009; Waring & Skoumpopoulous, 2012).
Um processo em que existe potencial de colaboração da Tecnologia de Informação é a
influência no processo de decisão do potencial cliente, ou seja, quando o candidato seleciona
a instituição em que ele pretende estudar. A disponibilidade de informações aos candidatos
possui um papel que pode se tornar um diferencial considerável, principalmente em relação a
candidatos de localidades mais distantes. Afinal, o cenário ideal é aquele em que a pessoa
pode escolher a opção que mais se adeque às suas expectativas, de modo a diminuir as
chances de evasão e melhorar o aproveitamento geral da vivência universitária (Bergamo et
al, 2008). Chapman (1981) já afirmava que a localização da faculdade é um fator de baixa
importância na decisão de escolha por uma instituição, e que ações que promovam a
divulgação de uma universidade conseguem gerar mudança em tal decisão. Estudos com
casos do Brasil (Mainardes, Alves & Domingues, 2010) e do exterior (Ford, Joseph & Joseph,
1999) corroboram a disponibilidade do candidato a se deslocar para estudar, admitindo que
haja informações disponíveis a respeito da instituição. O custo, entretanto, apresenta-se como
uma barreira, e a necessidade de deslocamento sem a certeza da admissão aumenta a
percepção de risco do candidato (Hazelkorn, 2012).
Tendo, assim, a Tecnologia de Informação como facilitadora do fluxo de informações,
observa-se a possibilidade de aumentar o alcance de captação dos alunos, visto que o interesse
despertado por uma ação de divulgação não será severamente prejudicado pela distância
geográfica. Aumenta-se, assim, a probabilidade de aceitação do “risco” de buscar a admissão
na instituição.
Metodologia
Este trabalho utiliza uma abordagem qualitativa que inclui a utilização de um caso
ilustrativo. São usados dados quantitativos, extraídos a partir de documentos, e dados
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qualitativos coletados por meio de entrevistas não-estruturadas em uma IFES. A coleta de
dados qualitativos e quantitativos, além do uso de mais de uma ferramenta, permite uma
compreensão mais ampla do cenário e do problema estudado (Eisenhardt, 1989). Foram
realizadas as seguintes etapas:
 Pesquisa bibliográfica e documental para identificação dos indicadores relacionados
ao processo de seleção de discentes, que abrange as séries anteriores e posteriores à
aplicação do Sisu.
 Entrevistas com o gestor de Tecnologia de Informação, com representante da reitoria,
e com representante da Assessoria de Comunicação e Imprensa, questionando sobre
referências históricas a respeito da implantação do Sisu, benefícios observados dentro
da área e da universidade, e requisitos adicionais gerados com a adesão.
 Levantamento das características da IFES estudada, antes e após a aplicação do SISU,
a partir sob a ótica dos modelos de NED.
 Identificação dos modelos de NED utilizados, conforme as premissas apresentadas por
Ticoll, Lowy e Kalakota (1998).
A Universidade Federal do ABC foi selecionada, pois as instituições federais de ensino
superior são as que proporcionalmente oferecem mais vagas pelo Sistema de Seleção
Unificada (MEC, 2010). Assim, a análise desse caso permitirá inferências a respeito dos
benefícios e dificuldades esperados de outras universidades e institutos federais que também
tenham adotado o Sisu.
Descrição do Caso
A Universidade Federal do ABC [UFABC] é uma instituição federal de ensino superior
criada pela lei nº 11.145/2005. Com um campus na cidade de Santo André e outro na cidade
de São Bernardo do Campo (ambas na região do Grande ABC, Estado de São Paulo), a
universidade surgiu com a proposta de um plano acadêmico diferenciado, em que o estudante
tivesse uma formação mais completa e, ao mesmo tempo, mais independente. Possui 462
docentes, 553 funcionários técnico-administrativos, cerca de 7.200 alunos de graduação e 650
de pós-graduação. É dividida academicamente em três centros interdisciplinares: CCNH
(Centro de Ciências Naturais e Humanas), CECS (Centro de Engenharia, Modelagem e
Ciências Sociais Aplicadas) e CMCC (Centro de Matemática, Computação e Cognição), em
que são alocados os professores e os cursos de graduação. Os cursos de pós-graduação não
são ligados a nenhum centro.
Os dois órgãos deliberativos superiores da instituição são o Conselho Universitário e o
Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. Ambos são presididos pelo reitor e possuem em
sua composição, além de dirigentes de departamentos, representantes eleitos dos professores,
funcionários técnico-administrativos e alunos. As diretrizes estabelecidas nesses conselhos
são seguidas pelos demais órgãos – departamentos, comissões e outros conselhos – da
universidade.
O Núcleo de Tecnologia da Informação (NTI) é o departamento responsável pela
gestão, implantação, manutenção e desenvolvimento das políticas de TI da UFABC. É um
setor ligado diretamente à Reitoria, com grande autonomia administrativa e pouca autonomia
financeira. Possui 58 funcionários técnico-administrativos e dois professores em cargo de
chefia (o coordenador de projetos e o coordenador-geral do núcleo), sendo o quarto maior dos
doze departamentos da universidade em número de funcionários. O orçamento da área, para o
ano de 2012, é de aproximadamente R$8,23 milhões, o que corresponde a 5,5% do orçamento
da UFABC – comparativamente, em 2011 esse percentual era de 9,66%.
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A principal atividade do setor envolve a manutenção dos Sistemas de Informação
envolvidos na prática e gestão do ensino. O Sistema de Informações para o Ensino (SIE), que
suporta atividades administrativas relacionadas à matrícula e cadastro de alunos, disciplinas e
lançamento de notas – usado por funcionários e dirigentes para geração de informações
operacionais e tomadas de decisão; e o ambiente virtual do sistema de Tecnologia da
Informação no Desenvolvimento da Internet Avançada (TIDIA), que oferece estrutura para
cursos presenciais e à distância, usado por professores e alunos no decorrer das disciplinas e
compartilhamento de conteúdo didático.
A importância da TI na instituição é reconhecida principalmente no suporte às
atividades rotineiras. Seu papel estratégico sempre foi muito limitado; a demanda por
informações geradas pelos sistemas é pontual, limitando-se às Pró-Reitorias de Graduação e
Pós-Graduação, além de algumas divisões de departamentos específicos. A integração
completa dos sistemas da universidade é algo idealizado, mas tido como prioridade baixa – o
próprio corte orçamentário e repasse de menor quantidade de verba para a área de Tecnologia
de Informação, em 2012, limita ainda mais as ações de crescimento.
Migração dos Modelos de NED em IFES – Antes e depois do Sisu
Os dois primeiros processos seletivos da UFABC (feitos em 2006, 2007 e 2008) foram
realizados por uma organizadora de processos seletivos contratada para desenvolver e aplicar
as provas, e fazer a classificação dos candidatos. Em 2009, o Ministério da Educação alterou
o método e as regras do Exame Nacional de Ensino Médio – que até então era usado
geralmente como uma nota adicional no vestibular – e disponibilizou às Instituições Públicas
de Ensino Superior a opção de usar a nota do exame de quatro formas diferentes: fase única
da seleção; primeira fase, seguida de etapas seguintes pela própria instituição; nota combinada
ao processo seletivo da instituição; ou única fase para vagas remanescentes do vestibular
(MEC, 2009).
As instituições optantes pela primeira alternativa (Enem como fase única) adeririam ao
Sistema de Seleção Unificada – Sisu, um sistema mantido pelo próprio Ministério da
Educação que permitiria às inscrições cadastrar seus cursos, quantidades de vagas, notas de
corte e informações sobre matrícula, seria usado para que os candidatos indicassem seus
cursos de interesse, e faria a seleção automática de tais candidatos, além de gerenciar
chamadas subsequentes. A Universidade Federal do ABC aderiu ao sistema já em 2009, junto
com outras 49 universidades e instituições de ensino públicas (MEC, 2010).
Segundo a reitoria da UFABC, a decisão de adotar o Sisu logo no primeiro ano ocorreu
pela perspectiva de democratizar o processo seletivo: o vestibular incorre em gastos
financeiros e de tempo adicionais para o candidato, que precisa pagar a taxa de inscrição (ou
solicitar isenção, dependendo do caso), preparar-se especificamente para a prova e deslocar-se
de sua residência para o local de prova. A proposta do MEC de modificação do formato do
Enem, conforme a secretária do reitor da época, recebeu comentários favoráveis quando foi
apresentada aos reitores das instituições federais de ensino superior em 2009, e a confiança na
sua avaliação foi positiva para que a UFABC optasse pela adesão.
Com essa adesão, a universidade não necessitou mais de contratação de empresa
organizadora de vestibular, o que desonerou funcionários dos setores administrativos. Em
contrapartida, houve a necessidade de treinamento no sistema para o pessoal da Pró-Reitoria
de Pós-Graduação. Porém, de acordo com a responsável pela Divisão Acadêmica do
departamento, o tempo investido no treinamento (que é fornecido pelo MEC) e o uso do
sistema são menos trabalhosos e estressantes se comparados à necessidade, antes do Sisu, de
se administrar as chamadas de candidatos quando o número de vagas não era preenchido da
primeira vez.
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A figura 1 sumariza algumas das vantagens identificadas conforme trechos das
entrevistas:
Vantagem
identificada
Departamento
entrevistado
Economia
de Divisão de Contratos
recursos e tempo Aquisições (DCA)
de trabalho
do Trecho da entrevista
e “Antes dava trabalho fazer o
processo de contratação da
empresa pro vestibular, depois
ainda tinha que fiscalizar contrato
e fazer o repasse de verba.”
Assessoria de Comunicação “A gente conseguiu manter o
e Imprensa (ACI)
aumento da quantidade de
candidatos sem precisar de tanto
esforço na divulgação.”
Pró-Reitoria de Graduação “Fazer a segunda, terceira,
(PROGRAD)
quarta chamadas é muito mais
fácil pelo sistema do que antes, em
que tinha que consultar as listas
de aprovados, montar e divulgar
tudo no site.”
Democratização da Reitoria
oferta de vagas
PROGRAD
“Primeiro o candidato precisava
pagar a nossa inscrição e, se
quisesse
alguma
vantagem
adicional, pagar o ENEM. Depois
precisava arcar com os custos do
transporte. Caso morasse longe,
nem
tentava,
porque
o
deslocamento seria caro. Pensar
em um vestibular com duas fases
seria quase crueldade com o perfil
de candidato que queríamos
atingir – a pessoa que tinha muito
potencial e não tinha tantos
recursos
para
fazer
uma
faculdade. O Sisu resolveu bem
alguns desses problemas.”
“É até bonito ver o menino
falando que tava (sic) morrendo
de vontade de entrar aqui porque
tinha o curso que ele queria mas
não podia vir pra cá fazer a prova
porque morava numa cidade lá do
Ceará.”
Diminuição
das Núcleo de Tecnologia da “Só tivemos a demanda inicial de
exigências de TI
Informação (NTI)
integrar nossa base à do MEC,
mas depois foi bem mais tranquilo
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que manter a base completa de
candidatos inscritos, aprovados,
por chamada etc.”
ACI
“O problema é que antes [da
implantação do Sisu] na época de
divulgação dos resultados o site
caía porque tinha muitos acessos,
daí o pessoal ficava ligando pra
saber se tinha passado, o jornal e
os cursinhos queriam divulgar a
lista, simplesmente não dava. (...)
O acesso agora é direto no site do
MEC, lá quase nunca cai.”
Figura 6. Evidências de vantagens da aplicação do sistema
Fonte: Autores
A quantidade de interessados nos cursos de graduação da universidade teve um aumento
considerável no ano de adoção ao Sisu. Embora esse número não tenha se mantido no ano
seguinte, a quantidade de inscritos na instituição apresenta tendência de aumento.
Tabela 1:
Inscritos no Bacharelado em Ciência e Tecnologia (curso de acesso)
Ano
2006/2007
2007/2008
2008/2009
2009/2010
2010/2011
2011/2012
Nº de inscritos
12.508
9.202
9.463
16.253
9.384
19.651
Além do aumento do número total de candidatos, nota-se a ampliação do alcance
geográfico do processo seletivo. No vestibular de 2006, 42% dos ingressantes residia na
região do Grande ABC. Esse índice baixou para 31% no processo seletivo de 2009, e a
pesquisa de perfil socioeconômico da UFABC (2010) demonstrou que 27% dos alunos
moram na região. Silva, Pinezi e Zimerman (2012), ao estudar a progressão da inclusão social
na universidade, demonstram que a porcentagem de ingressantes de outros estados aumentou
de menos de 1% em 2009 para 3,1% em 2010. Assim, a maior parte dos ingressantes é
oriunda do litoral ou do interior de São Paulo.
Os dados podem ser vistos como positivos principalmente se for considerado que os
gastos com publicidade diminuíram. Apesar de não possuir dados exatos, a Assessoria de
Comunicação e Imprensa da universidade afirma que os esforços e investimentos para
propaganda da UFABC a candidatos diminuíram pouco mais de 75% entre 2006 e 2010; com
isso, a instituição teve a possibilidade de mudar o foco da divulgação a públicos específicos –
comunidades beneficiadas por ações extensionistas, divulgação científica e eventos
acadêmicos diversos.
O Núcleo de Tecnologia da Informação, antes com a necessidade de oferecer
manutenção frequente a um sistema próprio que gerenciava as chamadas de alunos e
organizava suas informações, passou a precisar apenas oferecer suporte ao módulo que integra
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o SIE ao Sisu, pois os dados dos candidatos (e por consequência dos futuros alunos) já são
recuperados diretamente da base de dados do Ministério da Educação. Isso diminui o tempo
que o ingressante perderia fornecendo várias vezes as mesmas informações para diversas
bases diferentes.
Considerações finais
A mudança da Universidade Federal do ABC de um mercado aberto para um agregador
em seus programas de graduação segue a evolução dos modelos de negócio na era digital
(Albertin & Albertin, 2005). A instituição em geral torna-se muito dependente da organização
agregadora – no caso, o Ministério da Educação. Isso traz riscos à imagem, por exemplo,
como levantado em agências de imprensa; reportagem da Terra (2011) informa que a
Universidade de São Paulo possui ressalvas em relação ao Enem, devido aos seguidos
problemas apresentados desde a implantação do Sisu e que “prejudicaram a credibilidade do
exame” (Terra, 2011). O número de interessados, no entanto, demonstra a princípio não ter
havido prejuízos relacionados a esse aspecto.
Outro aspecto da dependência é a falta de controle sobre o sistema que interage com os
clientes. Algum departamento que necessitasse de determinada informação a respeito dos
candidatos precisaria solicitar ao MEC uma alteração no formulário para que fosse possível
captá-la no momento da inscrição, ou então deveria aguardar o fim do processo seletivo e
obter os dados somente na matrícula.
Sendo um dos objetivos da universidade o acesso à educação superior para a maior
quantidade possível de cidadãos, a adoção do modelo agregador permitiu que a UFABC, que
por enquanto possui recursos para agir apenas localmente – dentro da região do ABC e
proximidades – tivesse sua publicidade aumentada. A concessão de bolsas a alunos completa
as condições para que aprovados de outras regiões possam se mudar para perto da
universidade. Nota-se, dessa maneira, sinergia entre a estratégia institucional e a alteração da
modalidade de negócio digital.
O intuito de economia de recursos públicos também é apoiado, ao passo em que os
custos financeiros e de mão de obra para o processo de seleção diminuíram. Gastos com
propaganda para aumentar a visibilidade, necessidade de manutenção do sistema para
chamadas e dedicação de maior contingente de pessoal para a operacionalização foram
cortados, e os recursos foram realocados ou então direcionados à maior qualidade dos
processos de admissão e matrícula.
A principal contribuição identificada foi a visualização do benefício de adotar um
agente agregador para instituições de ensino – no caso, o Sistema de Seleção Unificada. Seu
formato permitiu uma maior divulgação da universidade ao mesmo tempo em que diminuiu
gastos e quantidade de força de trabalho. Apesar de o método de estudo de caso minimizar as
possibilidades de generalização, os resultados encontrados podem ser confirmados em outras
universidades e faculdades que também tenham adotado a transição abordada neste trabalho.
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