Pensamento do Dia
Economistas analisam a Economia, o Brasil
e o mundo,
mundo, na mídia diária 13 a 17 02 2010
------------------------------------------------------------------Folha de S.Paulo 17 02 2010
ANTONIO DELFIM NETTO
2010?
TEMOS INSISTIDO nestes "sueltos" semanais que, em matéria de crescimento
econômico, 2010 está dado. Por uma fatalidade estatística, registraremos um
crescimento da ordem de 5% ou 6%. O que se discute é a "qualidade" desse crescimento
e a herança que o governo Lula deixará. Será um ano em que as incertezas continuarão:
1) estimativas quase consensuais são de que a economia mundial crescerá em torno
de 3% a 3,5% (os EUA próximos de 3,5%, a Eurolândia menos de 2% e os
emergentes de 5% a 5,5%). A Comissão Europeia decidiu suportar a Grécia, mas
há ainda a possibilidade de um desarranjo no sistema financeiro americano;
2) crescem as preocupações com a bolha imobiliária chinesa e a aceleração da sua
taxa de inflação. A irritação causada pela política cambial na China vai acabar
impondo a cada país uma política defensiva. Isso poderá ampliar o protecionismo,
com graves consequências para o desenvolvimento mundial. A paciência e a
leniência do mundo em relação às "artes" chinesas estão se esgotando;
3) os sinais de uma deterioração das contas externas brasileiras são cada vez mais
visíveis, mas ela não coloca em risco a nossa solvência. O problema é que, cada
vez que se tentou sustentar o crescimento (do consumo, principalmente) à custa
da acumulação de deficits em conta corrente, o final não foi feliz;
4) a "filosofia" do presidente Lula -mesmo dando ênfase ao combate à fome e à
melhoria dos menos favorecidos pela sorte- sempre foi a do respeito aos pilares
da política econômica canônica: metas de inflação executada por um Banco
Central operacionalmente autônomo; construção de superavits primários capazes
de reduzir monotonicamente a relação dívida pública/PIB; câmbio flutuante com
liberdade de movimento de capitais. Foi isso o que permitiu ao país aproveitar-se
da expansão do crescimento mundial de 2003 a 2008.
Diante da crise mundial, alguns desses cânones foram, justificadamente, quebrados.
Parece claro que teria sido preferível dizer isso claramente em relação ao superavit
primário de 2009 do que construí-lo com uma contabilidade imaginativa. O resultado
final, entretanto, foi bastante razoável: saímos da crise à frente da maioria dos países,
mas restou uma dúvida sobre a política fiscal de 2010.
O dilema de Lula em 2010 é que o desejo de eleger o seu sucessor não pode ignorar a
saída correta que é a redução dos gastos correntes. Precisa fazer o prometido superavit
primário de 3,3%. Sem isso, poderemos ter séria volatilidade no câmbio e aumento da
inflação no segundo semestre.
ANTONIO DELFIM NETTO
------------------------------------0 Estado de S.Paulo 17 02 2009
O Brasil e a globalização no pós-crise
Pedro da Motta Veiga
O Brasil acelerava sua trajetória de crescimento quando a crise internacional irrompeu,
no último trimestre de 2008, interrompendo um círculo virtuoso de crescimento do
produto, do investimento e do emprego, reduzindo os fluxos de comércio exterior e de
investimentos externos de e para o País.
Pouco mais de um ano após a eclosão da crise, a importância global do Brasil parece ter
aumentado. Isso se deve certamente ao fato de que, contraposto ao abalo monumental
sofrido pelas economias desenvolvidas e por algumas das grandes economias
emergentes (Rússia e México), o desempenho brasileiro em 2009 gera a percepção de
um upgrading da posição brasileira no cenário internacional. Mas também contribuem
para essa percepção de importância aumentada do País no mundo as perspectivas
positivas da economia brasileira no pós-crise e alguns movimentos importantes feitos
pelo Brasil em diferentes arenas de negociação econômica.
Especificamente ao longo de 2009, três evoluções nas posições negociadoras do Brasil
merecem destaque:
• o compromisso com uma meta voluntária, mas quantificada e monitorável, de
redução de emissões de gases de efeito estufa nas negociações de mudança
climática;
• o deslocamento da prioridade brasileira, no G-20, de temas relacionados ao
comércio internacional (crédito para as exportações e protecionismo) para
questões relacionadas aos desequilíbrios macroeconômicos internacionais, a partir
da Cúpula de Pittsburgh, em setembro;
• e a decisão de fornecer crédito ao Fundo Monetário Internacional (FMI), por meio
da compra de US$ 10 bilhões em títulos emitidos pelo fundo.
Esses três movimentos do Brasil nas arenas de negociação econômica global chamam a
atenção, em primeiro lugar, por serem tipicamente "individuais". Ou seja, traduzem
iniciativas do Brasil como ator individual e autônomo na cena internacional, distanciandose de movimentos feitos em conjunto com outros países, como os Brics ou os "países em
desenvolvimento". A posição brasileira de apoio ao "pacote Lamy" na Rodada Doha da
Organização Mundial do Comércio (OMC), em julho de 2008, já apresentara essa
característica: ao assumir explicitamente sua posição, o Brasil se distanciou de posturas
de coalizão e de fidelidade retórica a blocos, sejam eles os "países em desenvolvimento"
ou o Mercosul.
Os dois primeiros movimentos distanciaram o Brasil da posição negociadora chinesa em
duas áreas-chave da agenda internacional. No caso da mudança climática, o presidente
Lula criticou explicitamente a hipótese de um entendimento bilateral entre China e EUA
às vésperas de Copenhague. No caso da agenda do G-20, a China tentou minimizar a
importância
das
questões
relacionadas
aos
desequilíbrios
macroeconômicos
internacionais e evitar que o tema da avaliação pelo FMI das políticas nacionais de saída
de crise ganhasse prioridade, enquanto o Brasil pôs crescente ênfase nessa questão.
Em segundo lugar, esses movimentos apontam para um maior envolvimento do Brasil
com temas de governança global. Historicamente, na matriz brasileira de formulação de
políticas e posições negociadoras, não há tradicionalmente espaço para agendas de
governança global. A concessão de crédito ao FMI e a evolução da postura brasileira
diante da negociação da mudança climática indicam que há algo de novo aí.
Essas considerações nos levam à seguinte questão: as evoluções ocorridas em 2009
prenunciam mudança mais ampla em benefício dos interesses domésticos ofensivos nas
negociações internacionais e na direção da integração de objetivos sistêmicos
(relacionados à governança global) à agenda brasileira?
No cenário pós-crise vigente no Brasil, esse tipo de evolução tende a ganhar novo
impulso. Isso não significa que as posições brasileiras nas arenas de negociação
econômica global seguirão trajetória linear e definível ex ante. Sua evolução dependerá
principalmente das percepções domésticas dos impactos e implicações da "globalização",
bem como do ambiente político internacional no pós-crise.
Do lado doméstico, há fatores que fortalecem percepções otimistas em relação às
oportunidades que se abrem para o Brasil no cenário global. Entre esses fatores se
destacam o bom posicionamento brasileiro nos ciclos de investimentos internacionais
pós-crise, em que a atratividade da economia brasileira cresce. Além disso, a posição do
Brasil como supridor mundial de alimentos e matérias-primas deve se fortalecer e,
passados os efeitos da crise, os investimentos externos das empresas brasileiras voltam
a crescer.
Por outro lado, porém, a competição chinesa afeta a produção de um número crescente
de setores industriais no Brasil. Preocupações com a globalização tendem a se concentrar
no efeito China e esse efeito deixa de ser um problema de poucos setores industriais
para preocupar um grande número de interesses solidamente estabelecidos no Brasil.
Portanto, a percepção dos riscos associados à globalização e à interdependência também
tende a se intensificar, mas não a ponto de comprometer uma "aposta" brasileira nas
oportunidades da crescente integração ao mundo.
No que diz respeito ao cenário externo, a viabilidade de evolução da posição brasileira ao
longo de trajetória ofensiva e de assunção de responsabilidades globais estará
condicionada pela continuidade dos esforços internacionais de cooperação e negociação
nas diferentes agendas globais. Na falta desse estímulo e em cenário internacional
marcado pela fragmentação e por conflitos econômicos e políticos, é difícil imaginar que
as percepções brasileiras da globalização não venham a ser negativamente afetadas.
Moral da história: um retrocesso (ou mesmo uma interrupção) no movimento de
integração crescente da economia brasileira ao mundo nos próximos anos somente
parece plausível se - como ocorreu nos anos 30 do século 20 - o ambiente político em
que se dão as relações e negociações econômicas internacionais se deteriorar sob o
impacto conjugado das muitas variantes de nacionalismos em circulação hoje no mundo.
Pedro da Motta Veiga é diretor do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento
(Cindes)
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O Estado de S.Paulo 17 02 2010 Editorial
Punição de empresa corrupta
Ao prever sanções financeiras pesadas a pessoas jurídicas envolvidas em atos de
corrupção, o projeto de lei assinado há dias pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva
procura atingir a parte mais sensível das empresas corruptas: seu faturamento. O
projeto - que prevê até a extinção, pela Justiça, de empresas que pratiquem certos atos
contra a administração pública - representa um avanço em relação à legislação em vigor,
que prevê punição rigorosa de pessoas físicas envolvidas em corrupção, mas estabelece
sanções bem mais brandas para as empresas, que não são impedidas de continuar
praticando os atos ilegais.
Seria bom para o País se o governo estivesse interessado em aprovar o projeto com
presteza, a fim de reduzir, já neste ano, o espaço para práticas de corrupção, como
financiamentos ilegais de campanhas e pagamento de propinas a servidores, entre
outros. Infelizmente, porém, o projeto não faz parte das prioridades do Palácio do
Planalto. Somada à reduzida disposição dos congressistas de tratar de temas um pouco
mais complexos em ano de eleição, a falta de empenho do governo deve empurrar a
discussão do assunto para o futuro.
Mas, como argumentou o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge
Hage, o projeto "é do interesse de todos os segmentos que querem um país cuja
administração pública, em suas relações com o setor privado, obedeça a critérios claros,
com regras capazes de garantir o "jogo limpo", necessário à livre concorrência, à sadia
competição, que está no cerne do sistema capitalista em que vivemos".
Fruto de trabalho conjunto da CGU com o Ministério da Justiça e a Casa Civil, o projeto,
com 25 artigos, procura corrigir falhas e lacunas da legislação atual no que se refere à
punição de empresas envolvidas em corrupção. As punições previstas na Lei de Licitações
restringem-se a atos ilegais praticados durante uma concorrência ou na execução dos
contratos, e são brandas. A pena mais pesada é a declaração de inidoneidade da
empresa e a aplicação de multas de baixo valor.
Também é possível punir empresas com base na lei de improbidade administrativa, mas,
para se chegar a isso, é necessário identificar o agente público envolvido na fraude e,
então, processar a empresa que tenha se beneficiado do crime.
O projeto amplia a lista de atos ilegais passíveis de punição. Entre eles estão o
pagamento de propinas, a fraude na licitação pública, a elevação arbitrária de preços, a
utilização de "laranjas" para ocultar a identidade dos beneficiários dos atos ilegais e a
manipulação dos contratos.
As sanções serão rigorosas. Entre as penas previstas na esfera administrativa estão
multas, que variarão de 1% a 30% do faturamento bruto (ou de R$ 6 mil a R$ 6 milhões,
quando não for possível aferir o faturamento); declaração de inidoneidade, que impedirá
a empresa punida de celebrar contratos com o governo, receber subsídios públicos ou
obter financiamentos de instituições financeiras públicas; e a reparação integral do dano
causado ao erário.
O Ministério Público poderá mover ação contra as empresas que praticarem os atos
ilegais e as denunciadas estarão sujeitas a sanções como perda de bens, direitos ou
valores obtidos por meio de corrupção, suspensão ou interdição parcial de suas
atividades e até sua dissolução. A extinção da empresa será determinada quando ficar
comprovado que ela foi constituída deliberadamente para facilitar ou promover a prática
de atos ilegais.
O projeto atende a compromissos assumidos pelo Brasil, que é signatário de três
convenções internacionais contra a corrupção, da Organização das Nações Unidas (ONU),
da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE). Estados Unidos, Itália, Grécia e Chile são países
que já contam com legislação que responsabiliza empresas em casos de corrupção, com
punições semelhantes às que estão no projeto.
Para Hage, não deve haver resistência do empresariado à proposta. "O projeto visa a
reduzir o custo que a corrupção gera para as empresas. A boa empresa vai entender que
esse projeto quer nivelar a livre concorrência", disse.
Eis aí mais uma razão para o governo se empenhar em sua rápida aprovação.
-------------------------------------O Estado de S.Paulo 14 02 2010
O Tea Party
O movimento Tea Party ganha força nos Estados Unidos. É mais sério do que se
imaginava há algumas semanas e já são nítidas as suas repercussões político-eleitorais.
Os americanos que se reúnem e saem às ruas para protestar contra o governo grande e
intrusivo, cada vez mais gastador, mostram como é arraigada nos EUA a noção que
tributaristas chamam de cidadania fiscal. Os contribuintes americanos têm perfeita
consciência de que serão eles, seus filhos ou netos que serão convocados a pagar os
pesados déficits orçamentários que elevam continuamente a dívida pública. O Tea Party,
porém, corre o risco de vir a ser dominado pelo radicalismo de direita, acentuando a
polarização da sociedade americana e abalando a estrutura bipartidária do país.
Que a situação fiscal é grave é indiscutível. O déficit fiscal dos EUA deve fechar neste ano
em US$ 1,5 trilhão e a dívida pública, em expansão, já alcança US$ 12,357 trilhões.
Tendo começado anarquicamente aqui e ali, o movimento Tea Party se espalhou
rapidamente pelos EUA em menos de um ano. Como informou a correspondente do
Estado em Washington, Patrícia Campos Mello, o grupo é bastante heterogêneo. Reúne
desde ativistas anti-impostos e libertários antigoverno, passando por fãs da escritora Ayn
Rand (proponente do "egoísmo racional") e do ex-presidente Ronald Reagan, ícone dos
conservadores, até radicais contra a imigração, cristãos extremistas e pessoas que
acreditam que o presidente Barack Obama nasceu no Quênia. Em comum, o movimento
é "contra tudo o que está aí".
Como seria de esperar, em discurso na sessão de encerramento da primeira conferência
do Tea Party, em Nashville, no último fim de semana, Sarah Palin, ex-candidata a vicepresidente em 2008 na chapa de John McCain, atacou os principais itens do programa de
Barack Obama. Para ela, são absolutamente inaceitáveis a reforma do sistema de saúde,
socorro a Wall Street, pacotes de estímulo de emprego, controle da poluição industrial
(cap and trade) e a decisão de assegurar direitos constitucionais a terroristas, que
deveriam ser julgados por tribunais militares como combatentes inimigos.
Palin não assumiu formalmente a liderança do Tea Party, mas é hoje sua figura mais
expressiva. Desde que renunciou a seu mandato como governadora do Alasca em julho
do ano passado, ela vem-se projetando na cena política principalmente por apresentar-se
como uma pessoa comum, não intelectualizada, em contraste com o elitismo que, em
sua opinião, predomina em Washington.
Diferentemente do Tea Party histórico de 1773, precursor da Revolução Americana, o Tea
Party do século 21 não é um movimento de desobediência civil, mas eminentemente
eleitoral. O ativismo de seus adeptos certamente influiu na vitória de candidatos
republicanos aos governos dos Estados de Virgínia e de Nova Jersey e na escolha em
janeiro deste ano do republicano Scott Brown em Massachusetts, um Estado
tradicionalmente democrata, para suceder o democrata Ted Kennedy no Senado.
A vitória de Brown é interpretada por alguns analistas como uma virada à direita do
eleitorado. Seja como for, o quadro político americano mudou. O Tea Party pode ser
decisivo nas eleições de novembro deste ano, quando estarão em jogo 36 cadeiras no
Senado, todas as cadeiras da Câmara dos Representantes, além de governadores de 39
dos 50 Estados. Mas parece excluída a hipótese de o Tea Party se transformar em um
terceiro partido ou ter um candidato próprio à Casa Branca em 2012. Ao dividir o
eleitorado conservador e independente, um terceiro candidato, com boa penetração no
eleitorado, favoreceria os democratas. O mais provável é que o Partido Republicano
absorva o Tea Party ou seu ideário básico.
O que se nota nos EUA - e não só lá - é uma forte reação contra os efeitos de pacotes de
ajuda para reerguer a economia, com infusão maciça de recursos públicos para salvar o
sistema financeiro e impedir uma recessão mais profunda. Estas medidas podem ter tido
êxito em evitar o pior, mas geraram elevados déficits públicos, ocasionando novos ônus
para os cidadãos. Como os níveis de emprego evoluem muito lentamente, está criado o
ambiente para movimentos de protesto. O grande mérito das democracias é encaminhálos pela via de eleições livres.
-------------O Estado de S.Paulo 14 02 2010
Lula, o PT e suas heranças: 2002 e 2006
Pedro S. Malan
Este artigo foi publicado neste espaço em julho de 2006. É republicado hoje sem
nenhuma alteração. Por duas razões: a primeira, porque como na letra do samba de
carnavais de outrora, "recordar é viver"; a segunda, muito mais importante, porque o
autor acredita que o texto talvez possa reter certo interesse, à luz da insistência do
governo atual num confronto plebiscitário, com foco no passado, em vez de um olhar à
frente, como, creio eu, seria melhor para o País, onde há tanto por fazer. Portanto, peço
ao eventual leitor que adicione, ao título do artigo e onde mais couber, o ano de 2010.
"A opinião que tens de tua importância te porá a perder", dizia uma das inscrições nas
vigas da biblioteca de Montaigne, cujos Ensaios há séculos encantam seus leitores. O
tema da vaidade dos homens lhe era caro. O belo ensaio a ele dedicado começa bem:
"Talvez não haja vaidade maior do que sobre ela escrever de forma tão vã." Afinal,
sempre vale lembrar o Eclesiastes: vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
Não sei bem por quê, estas lembranças por vezes me vêm à mente ao ler os
pronunciamentos de nosso presidente, cada vez mais encantado consigo mesmo e com o
que considera não só como seu superior entendimento das coisas deste mundo, como
sua autoproclamada capacidade de transformá-lo. Em arroubo recente, informou-nos que
"só Deus conseguiria consertar em quatro anos o que não foi feito em 500 anos". Ele
(Lula), por exemplo, precisaria de oito anos para começar a corrigir erros e omissões
seculares e pôr o País no rumo certo, deixando uma extraordinária herança a seu
sucessor.
Mas falemos antes sobre as heranças, já por eles construídas, com que Lula e o PT
chegaram a 2002 - e chegam às eleições de 2006.
Em 2002, Lula e o PT tinham uma história de mais de 20 anos e, portanto, uma herança
que consigo carregavam. Fazia parte dessa herança a ferrenha oposição ao lançamento
do Real em 1994, chamado de "pesadelo", de "estelionato eleitoral" e com duração por
eles prevista para poucos meses. Fazia parte dessa herança a oposição às mudanças
constitucionais que permitiriam ampliar os investimentos privados em infraestrutura.
Fazia parte dessa herança a oposição às privatizações, à redução do número de bancos
estaduais e à abertura comercial. Fazia parte dessa herança o plebiscito pela suspensão
dos pagamentos das dívidas externa e interna e pelo "rompimento" com o FMI. Fazia
parte dessa herança a oposição do PT à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) no
Congresso, a tentativa de derrubá-la no STF e a aprovação, em dezembro de 2000, por
seu Diretório Nacional, de texto em que o PT declarava sua posição: "A LRF precisa ser
radicalmente modificada porque o preço da responsabilidade fiscal não pode ser a
irresponsabilidade social." Fazia parte da herança com que o PT e Lula chegaram a 2002
o programa de governo aprovado em dezembro de 2001 pelo seu congresso nacional, a
mais alta instância decisória do partido, e que tinha como subtítulo A ruptura necessária
com tudo aquilo que ali estava.
Essa herança, como é sabido, teve consequências já em 2002. A taxa de câmbio
desvalorizou-se em mais de 50% nos seis meses que antecederam a eleição de outubro
(de R$ 2,4 em março/abril para R$ 3,7 por dólar em setembro/outubro), o risco País
chegou a multiplicar-se por quatro no período, chegando a 2.400 pontos em outubro, e a
inflação em 2002 alcançou 12,5%, tendo mais da metade deste aumento sido registrada
nos últimos três meses do ano. Como bem notou Armínio Fraga em longa e excelente
entrevista ao jornal Valor (23/6), "a economia estava na UTI, mas isto era a
consequência de expectativas em relação ao que o próximo governo faria". E havia
fundadas razões para essas expectativas.
A gradual desconstrução dessa herança foi um processo, timidamente iniciado em fins de
junho de 2002 com carta-compromisso do candidato e ainda não concluído, porque há
sérias divisões e ambiguidades não resolvidas no PT, no próprio governo e nas forças que
o apoiam, como mostra a experiência pós-Palocci, em particular no que diz respeito à
forte expansão recente do gasto público.
Passados quatro anos, é cada vez mais claro que a gradual desconstrução da herança
construída pelo PT para si próprio em 2002 foi facilitada por três ordens de fatores: um
contexto internacional extraordinariamente favorável no quadriênio 2003-2006 (só
comparável ao quadriênio 1970-1973, afirma estudo recente do FMI); uma política
macroeconômica não-petista (nenhuma das "estrelas econômicas" do PT ocupou
qualquer posição relevante na área mais sensível da política macroeconômica, graças ao
médico Palocci e ao apoio que este recebeu de Lula até o final de 2005); e uma herança
não-maldita de inúmeros avanços institucionais e mudanças estruturais que foram de
enorme serventia ao novo governo, nos mais variados setores, inclusive os sociais, e aos
quais o governo Lula soube dar continuidade, ainda que pretendendo ter inventado a
roda - em alguns casos, com desfaçatez e hipocrisia.
Entretanto, o contexto internacional, que permitiu que o Brasil reduzisse
extraordinariamente a sua vulnerabilidade externa, não será tão favorável nos próximos
quatro anos. O ministro Palocci, assim como pessoas-chave de sua equipe, não mais
emprestam seu concurso ao governo. E, nos últimos quatro anos, houve poucos avanços
institucionais, andamento de processos de reforma e melhoria de contextos regulatórios pelo contrário.
O discurso sobre "herança maldita", que marcou o imaginário petista, era não só
objetivamente equivocado, como trazia seu prazo de validade estampado no rótulo:
afinal, em menos de quatro anos o governo Lula se apresentaria ao eleitorado com sua
própria herança. E, em modernas democracias, o que se pode - e deve - esperar de um
governo é que entregue a seu sucessor um país um pouco melhor do que recebeu de seu
antecessor. Como fez FHC, sem achar que a "verdadeira" História do País começou com
ele e sua gestão.
Qualquer governo, em qualquer país do mundo, não só tem seus próprios erros e
acertos, como também constrói sobre avanços alcançados na vigência de administrações
anteriores. O governo Lula não foi, não é e não será exceção a esta regra. Reconhecê-lo,
difícil como possa parecer para a vaidade humana, é algo que só beneficiaria a
governabilidade futura, qualquer que venha a ser o resultado das urnas de outubro.
Pedro S. Malan, economista, foi ministro da Fazenda no governo FHC E-mail:
[email protected]
--------------------------O Estado de S.Paulo 14 02 2010
Gênios matemáticos erram as contas em
Wall Street
Livro mostra como matemáticos e cientistas da computação quase
destruíram o sistema financeiro
Renato Cruz
A crise financeira que o mercado mundial enfrentou desde 2007 foi causada por modelos
matemáticos falhos adotados pelos fundos de investimento, que levaram a uma avaliação
irrealista de risco, combinados a níveis insustentáveis de endividamento. Tudo isso não
seria possível sem sistemas complexos de computação, que permitiram analisar volumes
imensos de dados em tempo real, e fazer apostas automáticas em alta velocidade,
baseadas em modelos pré-programados.
Pelo menos essa é a visão trazida pelo livro The quants: How a new breed of math
whizzes conquered Wall Street and nearly destroyed it (Crown Business). Em português:
Os quants: Como uma nova raça de gênios da matemática conquistou Wall Street e
quase a destruiu. O livro escrito por Scott Patterson, jornalista do Wall Street Journal, foi
lançado no começo do mês nos Estados Unidos.
Os "quants" são os gênios da matemática que tomaram conta de Wall Street nos últimos
anos. Eles baseiam suas apostas em análises quantitativas (daí seu nome), no lugar de
análises fundamentalistas, como as que são feitas, por exemplo, por Warren Buffett,
segundo homem mais rico do mundo.
Buffett analisa os fundamentos das empresas em que investe, verificando itens como
taxa de crescimento, vendas e lucratividade. Na análise quantitativa, as apostas são
feitas com base em estatísticas, que alimentam modelos matemáticos complexos,
independentes do que cada papel representa fora do mundo financeiro.
CULPADOS
Os fundos de hedge, liderados pelos "quants" do título do livro, perderam bilhões de
dólares a partir de meados de 2007, quando a crise americana das hipotecas atingiu os
mercados. Não seria exagero, no entanto, dizer que eles foram os responsáveis pela
crise? "Quando bancos e fundos de hedge começaram a quebrar em 2007 e 2008, eles
criaram uma contração maciça de crédito por toda a economia global", afirmou
Patterson, em entrevista por correio eletrônico.
O livro conta a história de investidores como Kenneth Griffin, fundador do fundo de
hedge Citadel, em Chicago, que, antes da crise, chegou a pagar US$ 80 milhões por uma
pintura de Jasper Johns e fazer sua festa de casamento no Palácio de Versalhes, em
Paris.
O talento para tecnologia e finanças se manifestou cedo. Quando estava no colegial,
Griffin fez trabalhos de programação para a IBM. Antes de completar 18 anos, criou uma
empresa de software educacional com um amigo. Logo depois de ingressar em Harvard,
criou seu primeiro fundo de investimento, batizado de Convertible Hedge Fund #1, em
seu quarto de estudante, depois de levantar US$ 265 mil de amigos e parentes, incluindo
a mãe e a avó. Para ter cotações em tempo real, instalou uma antena de satélite no
telhado do alojamento, e criou um software para identificar bônus com preços baixos.
A tacada de sucesso veio em 1990, quando Griffin, aos 22 anos, criou o fundo Citadel,
com capital de US$ 4,6 milhões. No fim de 2007, administrava US$ 20 bilhões em ativos.
Ele quase quebrou com a crise. Em um ano, esse montante havia caído para US$ 10,5
bilhões.
Segundo Patterson, a culpa dos "quants" na crise do subprime não se resumiu à
contração de crédito. A engenharia financeira sofisticada desenvolvida por esses gênios
matemáticos permitiu agrupar hipotecas de alto risco em papéis financeiros (derivativos)
classificados como grau de investimento, com chances remotas de não serem honrados.
Simplificadamente, a ideia por trás disso era que, mesmo se o risco individual de calote
de cada hipoteca fosse grande, quando um volume muito grande desses empréstimos
era agrupado em um só papel, o risco acabava diluído pois a probabilidade de um grande
número de hipotecas deixar de ser pago ao mesmo tempo era remoto.
Mas a probabilidade era pequena somente num ambiente econômico estável, em que as
pessoas deixam de pagar os empréstimos por motivos pessoais, como perda de emprego
ou doença. Num momento de crise, muitas pessoas se tornam inadimplentes ao mesmo
tempo, elevando o risco de uma forma que os modelos matemáticos não conseguiam
prever.
Essa análise de risco falha, que não prevê eventos extremos, foi aplicada a todo tipo de
investimento pelos "quants", e a situação foi agravada pela alavancagem. Em linguagem
corrente, eles fizeram seus investimentos com dinheiro dos outros. Alguns chegavam a
empenhar 30 vezes mais capital do que tinham, por acreditar que o risco era
praticamente nulo. Quando o crédito secou com a crise das hipotecas, esses
investimentos viraram pó.
Como pessoas tão espertas, com doutorado nas melhores faculdades americanas,
conseguiram errar tanto? "A resposta mais provável é que, apesar de os "quants"
operarem num nível racional, eles não eram invulneráveis a uma emoção humana
essencial: a ganância", afirmou Patterson. "Ao colocarem de lado a possibilidade de
movimentos abruptos do mercado, eles eram capazes de fazer apostas maiores e usar
mais alavancagem. O que pode ser muito lucrativo por um tempo - até o mercado
alcançá-los."
HISTÓRIA
A crise de liquidez que tomou os mercados financeiros a partir de agosto de 2007 foi
somente o capítulo mais recente de uma história de como a inovação pode trazer efeitos
inesperados. O livro mostra como o mercado acionário americano caiu 23% em um único
dia, na chamada "segunda-feira negra", em outubro de 1987, por causa de um contrato
quantitativo chamado seguro de carteira.
Em 1998, o fundo de hedge Long Term Capital Management (LTCM) quebrou, ameaçando
todo o sistema financeiro global. A atuação do LTCM tinha como base a análise
quantitativa. Seu conselho diretor incluía Myron Scholes e Robert Merton, ganhadores do
prêmio Nobel de Economia de 1997.
Na opinião de Patterson, isso indica que crises como essas vão ocorrer de novo. "Isso
totalmente pode e possivelmente acontecerá novamente", disse. "Acho que os
reguladores precisariam tornar o sistema bem mais transparente. Ainda hoje não
sabemos o que se esconde nos balanços de vários bancos."
Em inglês, "geek" é uma pessoa obcecada por tecnologia e áreas correlatas. Sobre o
papel dos gênios matemáticos na crise, o livro traz um aviso de Warren Buffett: "Cuidado
com os "geeks" que criam fórmulas".
---------------------------------------O Estado de S.Paulo 14 02 2010
''O veneno passou para o setor público''
Armando Castelar, da Gávea Investimentos, diz que crise da Grécia e países ricos repete
o Brasil dos anos 80 - e vai durar
Fernando Dantas
A crise da dívida externa brasileira nos anos 80 é um bom exemplo do que está
acontecendo agora com a Grécia, e que arrisca se alastrar para outros países europeus,
como Espanha, Portugal, Irlanda e Itália - podendo afetar até, embora de forma
diferente, a Inglaterra e os Estados Unidos. A visão é do economista Armando Castelar,
para quem, a exemplo do ocorrido no Brasil do início da década de 80 até meados dos
anos 90, os governos daqueles países ricos devem passar por um longo e sofrido período
de digestão do pesado endividamento contraído com as chamadas políticas anticíclicas
que se seguiram à eclosão da crise financeira global.
Para Castelar, apesar de toda a aclamação que se fez do papel do Estado na saída da
crise global, os governos não são invulneráveis e os efeitos colaterais das políticas
anticíclicas acabam chegando. Agora, ele resume, aqueles países terão a tarefa
politicamente inglória de diminuir gastos e aumentar impostos, para produzir superávits
primários que reduzam suas enormes dívidas - exatamente como o Brasil fez para
superar as "décadas perdidas" e voltar a crescer. Castelar, que trabalha com Armínio
Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC), no Gávea Investimentos, falou com o
Estado na quinta-feira:
O sr. acha a crise grega e de outros países ricos parecida com o ocorrido no
Brasil no início dos anos 80?
A experiência brasileira daquela época tem muito a mostrar sobre a dificuldade que terão
esses países que aumentaram muito o seu endividamento, como Estados Unidos,
Inglaterra, Grécia, Portugal, Espanha e outros. É um problema complicado, com vários
desdobramentos pela frente. Como no Brasil do início dos anos 80, é uma situação em
que o setor privado estava muito endividado, houve uma mudança drástica na economia,
e o setor público assumiu essa dívida que era do setor privado. Isso dá um alívio muito
grande no início, o que ficou claro no ano passado naqueles países, porque a crise
acabou sendo bem mais suave do que se chegou a projetar, evitando-se todos os
cenários catastróficos. Mas agora vem exatamente a digestão desse remédio que foi
dado para o setor privado e, digamos, o veneno passou para o setor público.
O que a lição do Brasil mostra para esses países?
No nosso caso, o País passou mais de 15 anos tentando ver como faria para reduzir o
tamanho da dívida e para ter recursos para pagar os juros que incidiam sobre ela. O
Brasil tentou com inflação, teve uma série de choques heterodoxos que também
embutiam calote na dívida, e só mais à frente fez realmente um esforço forte de ajuste
fiscal, elevando o superávit primário. Mesmo assim, demorou anos para criar
credibilidade.
Então todos esses países terão um problema de endividamento?
Vai ocorrer particularmente quando os bancos centrais como o Fed, dos Estados Unidos,
o Banco da Inglaterra e o Banco Central Europeu interromperem esses programas de
afrouxamento monetário quantitativo e pararem de comprar títulos públicos e os juros
longos começarem a subir. As dívidas que estão se avolumando nesse processo vão
começar a pagar juros num volume bastante elevado. E vai ser parecido com a situação
que o Brasil experimentou desde o início dos anos 80 até 1998, quando finalmente se
elevou bastante o superávit primário.
E como superar esse tipo de crise?
A experiência do Brasil ilustra muito bem que não é uma crise que vai ser superada com
rapidez. Há questões políticas importantes envolvidas. O Brasil combinou todo esse
problema da dívida com a redemocratização. Houve dificuldade de construir um consenso
na sociedade para se elevar a tributação, para se tentar reduzir gastos - esse último
ponto, aliás, nunca se conseguiu no Brasil. Repare que, no caso da Grécia, o problema é
que o governo prometia reduzir o déficit público de 12,7% para 3% do PIB em três anos.
O que obviamente implica um volume de corte de gastos que politicamente é muito
complicado de fazer passar. Todos esses países que ficaram com uma dívida muito
elevada e terão um pagamento de juros muito alto vão ter de começar, em algum
momento, a gerar grandes superávits primários. E não é um problema de um ou dois
anos, está-se falando de quatro, cinco anos ou até mais.
Como fica a visão sobre o papel do Estado depois dessa segunda etapa da crise?
É óbvio que é preciso Estado e que o mercado não funciona da melhor maneira sozinho isso está em qualquer livro-texto de Economia. Agora, com a crise global, houve esse
discurso muito forte do fortalecimento do Estado, do Estado salvador e da sua
importância na economia. Esse segundo ato da crise, no qual o problema chegou ao
Estado, vai mostrar que esses remédios que foram dados tiveram efeitos colaterais.
Foram medidas necessárias na situação a que se chegou, mas só se chamou a atenção
para o lado bom do aumento do gasto público. Na verdade, tem também um lado muito
ruim, e acho que essa é uma lição para o Brasil: sair aumentando o gasto público pode
ser muito bom no curto prazo, mas a conta chega algum dia.
Qual a chance da crise grega se alastrar para as economias ricas?
As agências de rating já vêm alertando que a classificação de triplo A (a mais alta)
desses países não vai necessariamente se sustentar na ausência de medidas fiscais de
redução de déficit. O déficit nos Estados Unidos é algo que vai permanecer durante muito
tempo, mesmo nas projeções mais otimistas, o que significa que a dívida vai crescer.
Mas há diferenças importantes. A primeira é que a Grécia tem a peculiaridade de ter
falseado as estatísticas. Parte da força com que a crise na Grécia está acontecendo é
exatamente porque, de um dia para o outro, o novo governo anunciou que o déficit era
praticamente o dobro daquilo que antes se acreditava que fosse. Além disso, Grécia,
Portugal, Espanha, Irlanda e Itália, ao contrário de Inglaterra e Estados Unidos, estão na
área do euro, e não têm taxa de câmbio para fazer parte do trabalho de ajuste.
E como movimentos no câmbio podem ajudar?
EUA e Inglaterra, quando o problema chegar lá, podem absorvê-lo em parte pela taxa de
câmbio, com um dólar e uma libra mais desvalorizados. Já aqueles países europeus
dependem só da política fiscal, já que estão na área do euro. Num ajuste fiscal com
desvalorização, que é a receita do FMI, tenta-se transferir a demanda que está no setor
público para o exterior. Mas, dentro da área do euro, os países não têm essa alternativa.
Eles não têm nem política monetária autônoma, e não podem afrouxá-la para compensar
o ajuste.
Então a crise fiscal nos países maiores preocupa menos?
Bem, por outro lado, países como Grécia e Portugal são pequenos na economia mundial,
e particularmente no contexto do setor financeiro. Nos Estados Unidos e na Inglaterra,
onde acho que não haverá uma crise nem de longe de dimensões semelhantes ao que se
tem hoje na Grécia, qualquer turbulência pode ter repercussões globais muito mais
fortes.
Um problema mais sério nos grandes países ricos, como o chamado "duplo
mergulho" - uma nova recessão depois da do ano passado - poderia
comprometer o bom desempenho dos emergentes?
Os países emergentes estão bem, mas continuam dentro do mundo, e a economia
mundial ainda é formada em sua maior parte pelos países ricos. Então é muito difícil de
imaginar que, de forma sustentada, os países emergentes consigam crescer rápido
enquanto o resto do mundo cresce devagarzinho. Pode ocorrer durante um ano, dois,
mas é uma situação que certamente afeta o fluxo de capitais, afeta a capacidade de
exportar, afeta a confiança - há uma série de canais pelos quais essa influência se dá, se
houver um problema lá fora. Eu acho que o risco de um duplo mergulho existe. Aliás, os
governos estão preocupados com isso, e parte dessa resposta da União Europeia à crise
na Grécia vem exatamente da preocupação de evitar uma crise de confiança que leve a
uma retração mais forte da economia do continente.
Mas o Brasil corre o risco de ter uma crise fiscal do tipo que a Grécia está
experimentando?
Acho que não. Até pelo fato de que a gente viveu isso no passado, tivemos de tomar os
remédios e fazer as correções necessárias, o que nos deixou numa posição bem mais
confortável. Agora, nos últimos tempos a nossa dívida voltou a subir, de uma maneira
relativamente forte, mas estamos longe da situação em que esses países estão, com
déficits de até 12% do PIB. Mas a crise mostrou que o remédio do Estado, do gasto nãocontido do Estado, acaba resultando nisso. Acho que é bom para lembrar a gente de que
crises fiscais existem e resultam de se gastar mais do que se arrecada.
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O Estado de S.Paulo 14 02 2009
A doença é mais profunda
Celso Ming
Não se discute mais na Europa se virá ou não um plano de resgate da Grécia. O que se
discute é o formato desse plano. Mas, seja ele qual for, será um remedinho para atacar o
sintoma e não a doença, que não é só grega.
A deterioração das finanças dos países da área do euro (e não apenas a deles) foi
agravada com os pacotes fiscais emitidos pelos governos para atacar a crise, mas já
vinha antes dela. Tem de ser vista como a crise inerente a uma transição rápida na
paisagem econômica e política global.
Enquanto havia dinheiro farto e crédito fácil, os países ricos europeus prosperaram com
base na política de defesa social (welfare state) e no grande crescimento do comércio e
do consumo.
O dinheiro fácil foi proporcionado por dois acontecimentos relativamente novos: a
disseminação da Tecnologia de Informação e a enorme oferta asiática de manufaturados
produzidos a baixíssimo custo de mão de obra.
Esses dois fatores derrubaram substancialmente os preços dos produtos industrializados
que, por sua vez, afundaram a inflação. Como entenderam que não havia inflação a
combater, os grandes bancos centrais despejaram volumes nunca vistos de dinheiro nos
mercados e os juros básicos permaneceram por muito tempo próximos do zero.
Num primeiro momento, os países europeus puderam tirar enorme proveito da
prosperidade global graças às suas exportações de bens de capital e de produtos de alta
tecnologia. Mas essa demanda está quase estancada, em consequência da recessão e da
tomada dos mercados pelo produto asiático, mais barato e cada vez com mais qualidade.
Não é à toa que a China já tomou o lugar da Alemanha como maior exportador do
mundo. (Em 2009, exportou US$ 1,2 trilhão enquanto a Alemanha exportou US$ 1,1
trilhão.)
As políticas de bem-estar social da Europa dão sinais de esgotamento. Os governos já
não conseguem sustentar a distribuição de indenizações do seguro-desemprego, das
aposentadorias generosas e dos planos de assistência médica universal.
Uma das primeiras providências da Grécia diante da atual crise de pagamentos foi
endurecer os planos de aposentadoria. E esse é um procedimento que tende a ser
adotado por muitos governos da Europa, dentro e fora da área do euro.
Dá para concluir que a rápida inclusão da mão de obra asiática nos mercados globais de
produção e consumo são fatores que aceleraram a deterioração das condições fiscais e
econômicas dos países centrais, inclusive dos Estados Unidos.
O arranjo que sustenta a economia mundial, baseado na simbiose entre Estados Unidos e
China, é insustentável a longo prazo. Nem os Estados Unidos poderão continuar
expandindo indefinidamente seus enormes rombos (orçamentário e externo) nem a
China poderá continuar expandindo indefinidamente suas exportações e reservas
internacionais.
A economia do planeta está às vésperas de uma nova arrumação cujo formato não está
claro. O problema é que esse é um processo que terá inexoráveis consequências
geopolíticas. O declínio da hegemonia norte-americana é uma delas; a crise da socialdemocracia europeia parece ser outra; e a ascensão de alguns países emergentes,
apenas mais uma.
----------------------------------------------O Estado de S.Paulo 17 02 2010
UE dá ultimato ao governo grego
Bloco pode impor reformas profundas se Atenas não provar em 30 dias eficácia
de seu plano de reestruturação
Jamil Chade
A União Europeia (UE) deu 30 dias para que a Grécia prove que seu plano de ajuste pode
dar resultados, mas já alertou que vai impor reformas profundas se não ficar satisfeita
com os avanços. A UE pôs a economia grega sob tutela. Essa é a primeira vez que isso
ocorre desde a criação do euro.
Mas, atendendo a um pedido de Atenas, Bruxelas indicou publicamente aos mercados
que teria recursos suficientes para resgatar a economia grega. A decisão da UE de
praticamente acabar com a soberania grega em termos financeiros foi bem recebida pelo
mercado. O euro teve a maior alta em um só dia desde julho, de 1,2%. As bolsas
também tiveram resultados positivos. Em Londres, a alta foi de 1,5%, igual à da
Alemanha. Em Paris, a alta foi de 1,7%. A Bolsa de Tóquio já abriu em alta de 1,35%
nesta quarta-feira.
Ontem, ministros de Finanças da UE concluíram dois dias de reuniões onde foi discutida a
crise grega. O apoio político condicionado dos europeus aos gregos, na semana passada,
foi traduzido em um rígido calendário de exigências. "Se os riscos que ameaçam o
cumprimento dos objetivos se materializarem, a Grécia deve anunciar medidas adicionais
ainda em março", disse o comissário de Assuntos Econômicos da UE, Olli Rehn.
A vigilância forçada ainda prevê que, no dia 15 de maio, a Grécia apresente um novo
relatório explicando as medidas que adotou para implementar as reformas. Para os 16
países que formam a zona do euro, medidas adicionais são praticamente inevitáveis. "A
Grécia deve entender que os contribuintes da Alemanha, Holanda ou Luxemburgo não
estão dispostos a corrigir as falhas do país", indicou o presidente da zona do euro, Jean
Claude Juncker.
As medidas adicionais foram apresentadas ontem aos gregos: reformas do sistema
previdenciário e de saúde; reforma da administração pública; do mercado interno; do
clima para investimentos; e o aumento de produtividade e de empregos. Outra proposta
é o aumento de imposto sobre valor agregado e mais taxas sobre bens de luxo.
A Europa foi tomada por uma turbulência nas últimas semanas diante do déficit público
da Grécia de 12,7% e pelo risco de outras economias serem contagiadas. Atenas
prometeu reduzir seu déficit em quatro pontos porcentuais em 2010 e atingir a taxa de
3% em 2012.
Dados divulgados ontem pelo Bank of America Merril Lynch indicam que administradores
de fundos estão retirando suas aplicações da Europa e preferindo investir nos Estados
Unidos e na Ásia. Segundo o levantamento, os investidores estão no momento mais
pessimista desde março de 2009, no auge da crise.
O levantamento também indica que os fundos diminuíram de forma dramática a
exposição à Europa diante da percepção de um risco de calote. "Ha uma perda de
confiança do mercado com a Europa", afirmou Gary Baker, estrategista do Bank of
America. Em janeiro, 74% dos administradores de fundo indicavam que a economia
europeia cresceria em 2010. Agora, são apenas 51%.
Nesta semana, uma missão de técnicos da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e
do Fundo Monetário Internacional viajará a Atenas para garantir que as autoridades
gregas adotarão as medidas de ajuste ainda esta semana.
Entre os ministros, o discurso era claro : a Grécia terá de fazer mais esforços se quiser
contar com o apoio da UE. "O programa da Grécia é insuficiente", afirmou o ministro
sueco de Finanças, Anders Borg. "A pressão sobre a Grécia aumentou para que pensem
até o dia 16 de março sobre o que podem fazer mais", afirmou ministro austríaco de
Finanças, Josef Pröll.
----------------------------------Folha de S.Paulo 14 02 2010
RUBENS RICUPERO
Dois aniversários
Nabuco e Brasília convidam a
refletir sobre a degradação
entre nós da antiga dignidade
da função pública
NÃO PARECE haver nada em comum entre os 50 anos de Brasília e o centenário da
morte de Joaquim Nabuco. Ambas as datas convidam, no entanto, a refletir sobre a
degradação entre nós da antiga dignidade da função pública.
Fui dos primeiros voluntários a trabalhar em Brasília, aonde cheguei em 10 de março de
1961. Éramos um punhado de pioneiros unidos pela ilusão de que vivíamos momento
único: passado a limpo, o Brasil repartia com alma nova e purificada.
No plano cultural, Brasília dava expressão à utopia racional e funcionalista do
modernismo. No político, correspondia à refundação do país. Longe das quarteladas da
Vila Militar e da agitação das ruas, a alva cidade voltava as costas à corrupção da Corte,
simbolizada pela Gaiola de Ouro, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.
Antes de completar quatro anos, o sonho tinha acabado. O golpe de 1964 inaugurou
ditadura que ocupou quase a metade da vida da nova capital. Estava pronta a cena para
a invasão de aventureiros rapaces empenhados no saqueio sistemático do planejamento
urbanístico. O penúltimo governador esmerou-se na irresponsabilidade de semear favelas
monstruosas ao distribuir lotes para comprar votos de miseráveis; o atual é preso por
flagrante de atos pornográficos de corrupção explícita que nos devolvem aos tempos de
governadores coloniais embarcados acorrentados para Lisboa.
Em lugar do Te Deum, a festa dos 50 anos se deveria abrir com um Réquiem pelo
assassinado Plano Piloto de Lúcio Costa e Niemeyer. E prosseguir com o sermão de um
Vieira redivivo mostrando como a corrupção destrói primeiro a capital, isto é, a cabeça,
depois o corpo e a alma da nação. Se a corrupção continuar a ser alentada sob pretexto
de governabilidade, se a Justiça se limitar a espasmos de energia, sem acabar com a
impunidade, talvez haja ainda menos a comemorar em mais meio século. Brasília
confirmará de modo irônico a profecia de Malraux de que seria "a mais bela ruína do
século 20".
Quando morreu Nabuco, cem anos atrás, Domício da Gama se queixou: "Machado de
Assis, Euclides da Cunha, Joaquim Nabuco fazem falta a meu coração de brasileiro
confiado no futuro de uma nação que teve dessas inteligências". Mais que a inteligência,
porém, essa trindade inigualada nos deixou o exemplo da austeridade a serviço do
interesse público, os dois primeiros como funcionários, o último também como político.
Parlamentar incomparável, Nabuco sempre se bateu por ideias, pela Abolição, no início,
pela Federação, mais tarde. Jamais foi ministro no Império ou na República, nunca teve
poder nem dinheiro. Merece nesta hora de cinismo que se lembre o que dele disse
Gilberto Freire na Câmara dos Deputados em 1947:
"Um Brasil que tem (...) um político, um parlamentar da grandeza e da atualidade de
Nabuco, não deve deixar que essa grandeza seja esquecida, principalmente em época
marcada pela desconfiança de que todo político brasileiro seja um politiqueiro, e todo
homem público, um mistificador (...). Nabuco é uma das maiores negações dessa lenda
negra com que se pretende desprestigiar entre nós a vida pública (...). Os brasileiros de
hoje, os moços, os adolescentes, (...) é este o Nabuco que precisam conhecer de perto:
o político que foi também um homem de bem. O político que não separou nunca a ação
da ética".
RUBENS RICUPERO , 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São
Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e
ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.
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Folha de S.Paulo 17 02 2010
ALEXANDRE SCHWARTSMAN
Os 12% de Héracles
A Grécia tem necessidade de
apertar a política fiscal em meio
a forte recessão, desafio digno
do 13º trabalho de Héracles
DIZIA ARISTÓTELES que a tragédia se caracteriza, entre outras coisas, pela mudança da
fortuna do herói, consequência de erro (intencional ou não) cometido no passado, por
meio da qual o herói trágico e a audiência obtêm uma revelação acerca da natureza
humana (ou da vontade dos deuses). Não me escapa a ironia (outra palavra grega) de
essa definição encampar de forma tão completa os desenvolvimentos recentes na
eurolândia.
A Grécia passa por uma mudança de fortuna, resultado de erros passados, e, como na
tragédia,
a
queda
traz
uma
revelação
sobre
a
natureza
da
crise.
O problema se manifesta como um aumento considerável dos prêmios de risco
associados à dívida helênica. Enquanto escrevo este artigo, o custo de proteção contra
um possível calote grego gira em torno de 350 pontos-base (3,5% ao ano para o prazo
de cinco anos), vindo de valores ao redor de 100-150 pontos na segunda metade de
2009. Em comparação, o prêmio de risco no caso do Brasil para o mesmo prazo é
próximo a 140 pontos, enquanto o argentino é de 1.100 pontos. Esses preços sugerem
que mercados consideram haver uma probabilidade razoável de um default grego nos
próximos cinco anos.
A razão para tal desempenho parece clara. Enquanto outros países da eurolândia fizeram
um esforço para reduzir o endividamento do setor público (a dívida média da região
atingiu 66% do PIB no final de 2007), a Grécia entrou na crise com uma dívida próxima a
100% do PIB, ou seja, praticamente sem espaço fiscal para incorrer em novos deficit.
Apesar disso, em 2009 o deficit público alcançou 12% do PIB, valor não apenas elevado
mas, principalmente, muito superior ao divulgado originalmente pelas autoridades gregas
(3,7% do PIB), levando o próprio governo a admitir que, em primeiro lugar, o país sofre
de um "deficit de credibilidade".
Em razão do descaso fiscal anterior, a Grécia enfrenta agora a necessidade de apertar
sua política fiscal em meio a forte recessão, sofrendo ainda com o aumento do custo de
capital associado à elevação do risco-país no contexto de uma taxa fixa de câmbio. Em
outras palavras, o país está condenado a uma política fiscal pró-cíclica, por conta da falta
de cuidado anterior. Nem no Hades, onde Tântalo passa fome e sede em meio à água e
iguarias e Sísifo empurra continuamente sua pedra morro acima, seria possível imaginar
punição mais rigorosa. Reduzir o deficit nessas condições seria um desafio digno do 13º
trabalho de Héracles.
Que o diga a Argentina, que, sob circunstâncias semelhantes, em 2001, tentou
heroicamente ajustar suas contas, embora sua dívida fosse, a bem da verdade,
consideravelmente menor do que a grega. Por outro lado, nossos vizinhos não faziam
parte de um clube exclusivo, disposto, aparentemente, a financiar o país nesse período
delicado, desde que os gregos se comprometam com um pacote duríssimo de
austeridade fiscal.
E, após a catarse, o que se revela para a audiência? Acima de tudo que países ganham e
perdem facilmente os favores do mercado. Quando a fortuna muda, não falta quem
aponte os diversos erros cometidos nos anos de felicidade como motivo para a tragédia
recente. Descuidos fiscais e truques contábeis, que parecem modestos nos anos de
felicidade, têm o mau hábito de voltar para nos assombrar quando a maré vira, fato que
não deveria ser esquecido em nenhum momento por nenhum gestor de política
econômica, mas frequentemente é.
À luz disso, só nos resta concluir, como Ésquilo: "Não considere um homem feliz até que
morra". Os antigos helenos sabiam das coisas.
ALEXANDRE SCHWARTSMAN, 47, é economista-chefe do Grupo Santander Brasil, doutor em economia
pela Universidade da Califórnia (Berkeley) e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central.
-----------------------------------Folha de S.Paulo 15 02 2010
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Especulação contra o euro
Esse ataque especulativo é mais
uma comprovação da
necessidade de regulação
cerrada de bancos e fundos
OS MERCADOS financeiros são incorrigíveis. Agora a especulação se dirige contra o euro,
ou, mais especificamente, dirige-se contra a Grécia, para depois atacar Portugal e, em
seguida, a Espanha -os países mais frágeis da zona do euro.
O preço dos "credit default swaps" visando proteger os credores contra uma possível
quebra da Grécia aumentou do índice 120 em outubro para 419 no dia 9. Quem compra
esses instrumentos a um preço tão elevado aposta na quebra do país, o que
transformará esse alto preço em grande lucro -uma aposta com forte componente
autorrealizador. Quanto mais se aposta, mais dificuldade tem o país de se refinanciar e
maior é a possibilidade de quebra.
Não creio, porém, que os especuladores ganharão desta vez. É verdade que o euro tem
um ponto fraco: faltam à União Europeia, de um lado, uma autoridade federal para
cobrar maior responsabilidade fiscal e maior transparência dos governos, e, de outro,
mais recursos para vir em seu socorro se se veem em dificuldade. Entretanto, embora a
Comissão Europeia não conte com esses recursos, os governos europeus e seus ministros
da Finanças contam.
O governo conservador grego derrotado nas últimas eleições foi irresponsável no plano
fiscal e no plano cambial; endividou o Estado e o país. O deficit público foi a 12,7%, e o
deficit em conta-corrente, a 14% do PIB. E o governo mentiu em relação aos números. O
novo primeiro-ministro, George Papandreou, porém, é economista keynesiano
competente e prudente que já está tomando uma série de medidas de ordem fiscal. E a
União Europeia vai certamente dar o apoio necessário à Grécia.
A alternativa seria a Grécia pedir apoio do FMI, mas não creio que os europeus
concordarão com isso. A Grécia é um país que já está bem inserido na zona do euro -e o
apoio do FMI a ela representaria um apoio à zona do euro, algo que os grandes países da
região não admitirão. Essa alternativa foi adotada para os países do Leste Europeu, mas
esses são países recém-chegados à União Europeia. O grande aumento de capital que o
Fundo aprovou foi justificado pela necessidade de salvar esses países, cujos deficit -o
público e principalmente o deficit em conta-corrente- haviam subido de forma
irresponsável; na verdade, foi aprovado para salvar os grandes bancos ocidentais que de
forma igualmente irresponsável emprestaram para empresas daqueles países com o
apoio do FMI porque estariam "crescendo com poupança externa".
A União Europeia foi duramente atingida pela crise financeira global, porque alguns dos
seus grandes bancos acompanharam a onda de especulação baseada em "inovações
financeiras", e em parte porque as exportações de seus países sofreram com a crise. O
endividamento das famílias, porém, não foi tão grande como nos EUA, e apenas na
Espanha houve uma bolha imobiliária. A zona como um todo não apresentava nem os
deficit públicos e em conta-corrente apresentados pelos EUA. Na crise, depois de uma
breve depreciação em relação ao dólar, o euro voltou a se apreciar, indicando o maior
equilíbrio da economia europeia.
Por tudo isso, estou seguro de que os especuladores acabarão perdendo essa parada.
Mas esse ataque especulativo é mais uma comprovação da necessidade de regulação
cerrada dos bancos e dos "hedge funds". Criar dinheiro é uma capacidade inerente ao
sistema financeiro porque ele cria crédito e financia o desenvolvimento econômico, mas
dinheiro é um bem público poderoso e perigoso que as sociedades democráticas
precisam manter sob controle.
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas,
ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado
(primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de
"Globalização e Competição".
-------------------------------------------Folha de S.Paulo 14 02 2010
VINICIUS TORRES FREIRE
Lula investiu mais que FHC?
Investimento federal foi
equivalente e influenciado por
normas que moldam e
engessam o Orçamento
A CAMPANHA para presidente deste ano será plebiscitária, Lula versus FHC, porque o
petismo-lulismo assim o quer. Mesmo que ainda recuse o engajamento no combate, o
tucanismo já foi obrigado a bater-se no campo escolhido pelo adversário. Será ainda
mais difícil evitá-lo adiante, com ânimos mais extremados. Se o eleitor vai tomar sua
decisão nesses termos, nenhum adulto sensato pode dizê-lo agora. Ainda mais difícil é
julgar governos pela mera contraposição crua de números, sem considerar contextos e
história. Que dirá estimar o desempenho de futuros governantes pelo que fizeram expresidentes. Decerto, o histórico da atuação de partidos, grupos políticos e suas alianças
sociais é relevante para imaginar um novo governo dessas coalizões. Sob esse aspecto, o
temor tucano das comparações, com a exceção de FHC, implica uma desconsideração de
política, partidos e alianças sociais, as quais também dão contornos a um governo.
Isso posto, indicadores econômicos e sociais de um período podem refletir decisões
tomadas faz tempo, talvez em outro governo; talvez em outros países. São influenciados
pela política e pela economia internacionais. Relevante ainda é a inércia institucional.
Arranjos legais herdados e consolidados por acordos ou embates políticos influenciam a
evolução de indicadores que parecem apenas fruto da decisão pontual de um ou outro
governante.
Um exemplo: o investimento do governo em "obras" (sua contribuição à formação da
capacidade produtiva e da infraestrutura). Dados retirados de um estudo do economista
Sérgio Gobetti, do Ipea, revelam que, na média, o investimento como proporção do PIB
foi na prática igual nos anos FHC e Lula (vide gráfico), mesmo se consideradas as
estatais. A diferença maior está em 2009, ano de PIB zero e ativismo maior do governo.
Num trabalho inovador de 2006, Gobetti revelou distorções das estatísticas de
investimento (devidas a problemas técnicos: nada de irregular). Agora, Gobetti publica
série bem arrumada de dados sobre investimento -não trata da polêmica política,
ressalte-se. Num outro estudo, José Roberto Afonso e Gabriel Junqueira notam ainda que
a maior parte do investimento é de Estados e municípios.
Os pesquisadores especificam o que se intuía: o investimento tem sido maior ou menor a
depender do corte de gastos necessário para colocar as contas públicas em ordem.
Investiu-se menos sob FHC 2 e Lula 1, tempos de crise e ajuste fiscal (crises em parte
importadas). Por quê? O Orçamento federal é engessado, com gastos obrigatórios em
saúde e educação, por exemplo. Ou em despesas como salários e aposentadorias de
servidores, além do INSS, todas politicamente sensíveis. Leis e "pactos" políticos colocam
a despesa num trilho algo previsível. Contexto, história e inércia importam.
[email protected]
------------------------------Folha de S.Paulo 17 02 2010
Crise global fortalece Brasil e ensina o que
evitar nas finanças
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Ao mesmo tempo em que governo e setor privado relacionaram os pontos que precisam
trabalhar para tornar o Brasil a referência financeira da América Latina, também listaram
os que querem evitar.
Entre eles, estão: tornar o país um paraíso fiscal, uma zona franca para produtos
bancários e financeiros, ter livre conversibilidade total da moeda, criar uma
superexposição financeira da economia e uma sociedade excessivamente alavancada.
A lição, de acordo com relato à Folha de integrantes das discussões sobre o novo projeto,
veio de exemplos internacionais como Estados Unidos, Islândia e Reino Unido, que
estiveram no centro da crise financeira recente.
A avaliação é que, em vez de atrapalhar, a reviravolta pela qual o mundo vem passando
desde o final de 2008 pode ajudar o projeto brasileiro. Primeiro porque ele já nasceu com
exemplos de sobra do que não se deve fazer. Depois, avalia-se que, como saiu
relativamente bem dessa crise e o sistema bancário está fortalecido, o Brasil tem "um
bom cartão de visitas".
Acredita-se que o interesse de investidores no país tende a crescer, o que é uma
vantagem em relação à concorrência de outros centros regionais.
Além disso, considera-se que alguns passos isolados já foram dados pelo governo e pelo
setor privado na direção de tornar o mercado brasileiro um centro distribuidor de
produtos e serviços financeiros.
Um deles foi a autorização dada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), no final do ano
passado, para os fundos de pensão aplicarem uma parcela maior dos seus ativos no
exterior. O percentual subiu de 3% para 10%.
Além disso, a criação do DDA (Débito Direto Autorizado) -sistema montado pelos bancos
que substitui a emissão de boletos de cobrança impressos por pagamentos eletrônicostambém é considerada iniciativa em linha com o projeto e que poderá ajudar na ideia de
facilitar o pagamento de contas de estrangeiros aqui no país.
Internacionalização
Na semana passada, a BM&FBovespa aumentou sua presença internacional, elevando a
participação que tinha na Bolsa de Chicago, a maior plataforma de negócios de
commodities e derivativos do mundo.
Com a operação, o Brasil deverá ganhar em tecnologia, poderá trazer mais investidores
ao país e levar o dinheiro de brasileiros a outras praças e competirá em preços com
grandes centros financeiros como Nova York.
Paralelamente, será dada continuidade aos eventos do Best, uma iniciativa da
BM&FBovespa com entidades que representam os bancos (Febraban) e o mercado
financeiro e de capitais (Anbima) para promover o Brasil no exterior. Desde a sua
criação, em 2004, já foram realizados mais de 12 seminários nos principais centros
financeiros do mundo.
Neste ano, estão programados eventos na Europa, com participação de representantes
do Banco Central, e nos EUA, com o Tesouro Nacional.
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Folha de S.Paulo 16 02 2010
Dilma faz defesa de Estado presente e
tocador de obras
Ministra explica em livro editado pelo PT o que chama de bem-estar social à
moda brasileira
"O grande desafio é ainda superar o peso dos 25 anos de estagnação da
economia e das políticas sociais", diz a pré-candidata na entrevista
MARTA SALOMON
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Em entrevista editada em livro que será lançado no congresso petista, de quinta a
sábado, a pré-candidata ao Planalto Dilma Rousseff defendeu a presença mais forte do
Estado na economia, não só para induzir investimentos mas também para tocar obras.
"O Estado terá, inexoravelmente, de reforçar seu segmento executor", disse a ministra
ao apresentar proposta que chamou de "bem-estar social à moda brasileira".
A presença mais forte do Estado na economia será necessária, defende Dilma, para
universalizar serviços de saneamento, melhorar a segurança pública, ampliar o número
de unidades de atendimento na saúde e a oferta de habitação a partir de 2011. Mais de
quarta parte da população (26,6%) ainda não dispõe de serviços de esgoto, de acordo
com os dados oficiais mais recentes.
"Muitos diziam que só havia um jeito de as pessoas melhorarem a sua situação, era
através do mercado. E que, se acreditássemos nisso, todos seríamos salvos", observou a
ministra da Casa Civil, defendendo a concessão de incentivos à atividade econômica nos
últimos anos.
"O grande desafio é ainda superar o peso dos 25 anos de estagnação da economia e das
políticas sociais. Nós vamos fazer, sabemos como fazer, aprendemos o caminho no
governo Lula", diz a pré-candidata.
Lula e a ministra já tinham defendido, em eventos públicos, um Estado mais forte. No
início do mês, durante inauguração da primeira fábrica de chips da América Latina, o
presidente disse que "o fracasso do sistema financeiro internacional fez ressurgir o
Estado como único capaz de salvar a economia da crise". Dilma seguiu o raciocínio:
"Achamos que o Estado tem de ter uma presença clara na economia".
Durante a entrevista, Dilma Rousseff concordou com o coordenador do seu futuro
programa de governo e vice-presidente do PT sobre o que Marco Aurélio Garcia chamou
de "retraimento do pensamento crítico", com o avanço de uma "subintelectualidade de
direita". Garcia defendeu a valorização da produção cultural "submersa" pela indústria
cultural.
Dilma acenou com o plano que pretende universalizar o serviço de acesso à internet por
banda larga para ampliar os canais de comunicação.
"Estamos vivendo um momento culturalmente explosivo. Precisamos colaborar com essa
explosão", afirma a ministra no trecho final da entrevista, que ocupa parte do livro
"Brasil, Entre o Passado e o Futuro", organizado pelo cientista político Emir Sader e por
Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Lula. Jorge Mattoso, ex-presidente da Caixa
Econômica Federal, afastado após a quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa,
participou da entrevista.
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ECONOMIA & OUTRAS NOTÍCIAS
Folha de S.Paulo 17 02 2010
TENDÊNCIAS/DEBATES
Preconceito contra o agronegócio
CESÁRIO RAMALHO DA SILVA
Setores atrasados do governo
querem emplacar ideais
pseudossocialistas que já foram
desacreditados no século
passado
O PROGRAMA Nacional de Direitos Humanos proposto pelo governo federal deveria
preservar a sigla PNDH, mas trocar a descrição. Pelo seu conteúdo autoritário,
anacrônico e ideológico, deveria chamar-se Programa Nacional de Discriminação
Humana.
O documento, que já sofreu uma saraivada de críticas de parcelas distintas da sociedade,
ameaça o direito de propriedade, a legitimidade de instituições, a liberdade de imprensa
e o pluralismo religioso, só para destacar alguns pontos.
É um risco à democracia.
Mesmo sendo apenas um conjunto paradoxal de propostas, sem valor legal e chance de
vingar no Congresso, o programa mostra que ideias originais (revolucionárias, por sinal)
de segmentos radicais do partido do governo não estavam sepultadas.
O item relativo ao direito de propriedade é tão absurdo que nos faz imaginar das duas
uma: ou o seu idealizador é imune a constrangimentos, por acreditar que uma ideia
ridícula dessas encontraria abrigo na sociedade, ou é presunçoso ao extremo ao entender
que conseguirá convencer o país a caminhar pela estrada da insensatez. Sábio, o
ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, tachou o PNDH de preconceituoso.
Ao defender audiências públicas como primeira instância para ocorrências de invasão de
propriedades, sejam rurais, sejam urbanas, o PNDH instantaneamente divide a posse do
imóvel entre proprietário e invasor.
Enterra o Judiciário como genuíno agente de decisão da questão e consequentemente
ignora a lei vigente. Dá as costas para a Constituição Federal.
Sem poder contar imediatamente com o recurso do pedido de reintegração de posse ao
Judiciário, o proprietário seria obrigado a ter que sentar à mesa com quem invadiu seu
imóvel para negociar o que já é seu. Uma incoerência, que não passa de mais uma
tentativa ideológica de aniquilação do frágil direito de propriedade. A concretização dessa
situação irracional aumentaria a insegurança jurídica, podendo retrair investimentos
nacionais e sobretudo internacionais.
O documento ventila ainda a adoção de novas tecnologias, como biotecnologia e
nanotecnologia, e a aprovação de licenciamentos ambientais ao crivo de comissões
sindicais, ONGs e movimentos políticos disfarçados de sociais, entre outros, que não têm
qualquer conhecimento para esse tipo de decisão.
O PNDH vai de encontro à ação do próprio presidente Lula, que defende a condução dos
trabalhos da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), com base no
conhecimento técnico-científico.
Para a Sociedade Rural Brasileira, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme
Cassel, mentor do ataque institucional ao agronegócio presente no PNDH, quer debelar o
setor que mais vem contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico do Brasil.
Eficiente, o agro brasileiro gera emprego e renda, produz comida segura e barata,
exporta alimentos, fibras e energia para mais de uma centena de países, garantindo
bilhões de dólares em reservas cambiais à nação -um colchão de recursos, aliás, que deu
forças para o Brasil atravessar a recente crise mundial.
Mesmo assim, o ministro Cassel insiste no dogma que tudo que vem da agricultura
comercial é negativo e que somente a agricultura familiar merece elogios.
A SRB discorda totalmente disso na sua história de 90 anos. O agro é um só. O produto
rural brasileiro é um só, seja do pequeno, seja do médio, seja do grande produtor. Todos
formam e têm seu papel, segundo suas características regionais e perfil de produção.
Pensar de forma diferente é negar o direito do pequeno almejar crescer e tornar-se
grande, como constantemente ressalta o presidente Lula.
Ao apoiar a criação de entraves para a reintegração de posse, o ministro Cassel estimula
a violência. Mais do que destruir o agro e o processo contínuo de transferência de
benefícios socioeconômicos do setor para a sociedade, segmentos atrasados do governo
querem emplacar na agenda pública ideais e vontades pseudossocialistas que já foram
desacreditados no século passado.
Crer que um Estado "todo poderoso" é sinônimo de melhores dias é regredir na história.
O capitalismo não é perfeito, vide a recente crise financeira. Todavia, até o momento, é o
modelo que melhor possibilita a busca pela independência socioeconômica a qualquer
pessoa.
O que cabe questionar agora é se esse tipo de pensamento contaminaria as políticas
públicas de uma eventual continuidade dessa administração.
Queremos ser a Venezuela ou o Chile? Chegará a hora de escolher.
CESÁRIO RAMALHO DA SILVA , 65, é presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e diretor do
Departamento de Agronegócio da Fiesp.
----------------------------------------------Folha de S.Paulo 14 02 2010
Mão de obra qualificada é novo gargalo
Em 2009, 1,7 milhão de vagas oferecidas nas agências públicas de emprego não
foram preenchidas, índice recorde
Engenheiros e nutricionistas estão entre as ocupações com maior sobra de
vagas; baixo nível de escolaridade está entre as explicações
JULIANNA SOFIA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A escassez de mão de obra qualificada levou o Brasil a bater recorde de sobra de vagas
no mercado de trabalho formal em 2009. Dados obtidos pela Folha sobre o desempenho
do Sine -rede pública de agências de emprego- mostram que 1,661 milhão de postos de
trabalho oferecidos pelas empresas no ano passado não foram preenchidos por esse
sistema.
Apesar do estrago causado pela crise global na geração de empregos formais em 2009
(pior saldo anual desde 2003), a oferta de vagas nas agências do Sine foi a maior da
década: 2,7 milhões.
A taxa de preenchimento de empregos apurada pelo Sine ficou em 39%, ante 42% em
2008 e 48% em 2007. Esse indicador considera a relação entre o número de vagas
disponíveis na rede e o total de pessoas que conseguiram colocação no mercado por
meio do sistema público. Em 2008, o excedente de vagas atingiu 1,458 milhão.
O principal motivo para o não preenchimento dos postos é a falta de qualificação da mão
de obra, o que compreende baixo nível de escolaridade, carência de preparo técnico e
pouca experiência.
Apesar da sobra de vagas pelo sistema Sine, a taxa de desemprego no ano passado ficou
em 8,9%, segundo dados do IBGE -percentual pouco acima dos 7,9% registrados em
2008.
A tendência é que a situação se agrave neste ano, quando são esperados aumento da
atividade econômica e maior oferta de emprego. A dificuldade de as empresas
encontrarem trabalhadores qualificados já é considerada um gargalo comparável à falta
de infraestrutura/logística e à elevada carga tributária.
Ranking
O excedente de postos de trabalho captado pelo Sine ocorreu tanto em profissões de
nível superior quanto em atividades com menor escolaridade, mas que necessitam de
conhecimento técnico.
Ranking elaborado pelo Ministério do Trabalho a pedido da Folha revela que entre as
ocupações com maior sobra de vagas estão engenheiros civil e mecânico, nutricionista e
farmacêutico. Também faltaram auxiliares de linha de produção, pedreiros e operadores
de telemarketing. Nas estatísticas oficiais, ainda aparecem eletricistas, torneiros
mecânicos e funções ligadas ao setor naval.
"Isso mostra o aquecimento da economia, que fez com que fossem geradas tantas vagas
em 2009. Mas também traz uma decepção: o Brasil não tem mão de obra qualificada
suficiente", disse o ministro do Trabalho, Carlos Lupi. "Intensificamos os programas de
qualificação, mas não dá para tapar o sol com a peneira. Não é possível atender à
demanda."
Segundo ele, o governo federal investiu no ano passado R$ 600 milhões no conjunto de
programas de qualificação profissional. Para 2010, a previsão é de R$ 800 milhões.
Para o economista Fábio Romão, da LCA Consultores, entre os trabalhadores com nível
superior, a falta de profissionais com especialização foi mais crítica. "A taxa de
preenchimento para nível superior foi de apenas 22%. Para o grupo com menor
escolaridade, o índice foi de 39,2%."
Construção civil
Para o economista, não causou surpresa a sobra de vagas nos principais setores listados
no ranking, pois estaria relacionada à retomada da economia. "Engenheiro e pedreiro são
profissões ligadas à construção civil. O setor cresceu muito nos últimos anos e houve
avanço na formalização. Já o fraco desempenho do setor até 2003 desencorajou a
formação de profissionais. Formar um engenheiro leva algum tempo."
A falta de pessoal qualificado nas carreiras mais técnicas também pode ser associada a
outros fatores, na opinião do presidente do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e
Sociedade), Simon Schwartzman.
"Pode ser que as vagas estejam sendo oferecidas em Pernambuco e os engenheiros
estejam em Minas Gerais, por exemplo. Pode haver um problema de falta de informação
recíproca e de localização", diz.
--------------------------------------Folha de S.Paulo 14 02 2010
Serviços preveem melhor ano da história
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Com 67% de participação no PIB (Produto Interno Bruto), o setor de serviços prevê para
2010 seu melhor ano da história, com expansão de ao menos 10% em relação ao ano
passado, puxada especialmente pela indústria da construção civil.
As obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e os investimentos em
infraestrutura para a Copa de 2014 deverão ser neste ano o principal motor do setor
terciário, de acordo com Paulo Lofreta, presidente da Cebrasse (Central Brasileira do
Setor de Serviços), que representa as empresas desse segmento.
Isso porque a indústria da construção terceiriza uma série de serviços, como os de
refeição coletiva para os funcionários e de limpeza e segurança para as obras. "Neste
ano, o nosso setor vai girar na órbita da indústria e dos investimentos do governo, mas,
quando os projetos estiverem concluídos, aí será a parte de entretenimento e recepção
que terá um dinamismo."
Conforme levantamento da Cebrasse, segmentos diversos apontam crescimento vigoroso
no ano. As empresas de asseio e conservação vislumbram alta entre 5% e 7% no
faturamento. Já o setor de cartões de benefício prevê avanço de 10%, impulsionado por
um maior número de contratações esperadas na construção civil.
Com a entrada de mais trabalhadores formais no mercado, crescem as operações de
cartões de vale (alimentação, refeição, transporte e combustível). Empresas da área de
segurança privada estimam crescimento médio de 4%.
"As construtoras terceirizam muitos serviços. Essa vai ser a mola do nosso crescimento."
De acordo com Lofreta, a expectativa é que o setor contrate entre 2010 e 2011 mais 1
milhão de trabalhadores. Hoje, são 13 milhões. "A demanda está muito aquecida.
Também os serviços ligados ao turismo, como hospedagem e lavanderia, devem ter
dinamismo maior." Segundo ele, o principal gargalo é a falta de mão de obra qualificada.
"Temos pouco tempo para treinar muita gente."
Para Julio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de Política
Econômica, o setor de serviços levou vantagem sobre a indústria durante a crise e
funcionou como um colchão para a economia quando a turbulência cresceu.
------------------------------------O Estado de S.Paulo 14 02 2010
Eleições na democracia esvaziada
Gaudêncio Torquato
Dilma Rousseff foi escolhida candidata à Presidência por Lula porque o PT vivia um
momento de "vazio". Essa foi a explicação do então ministro da Justiça para mostrar
como essa candidatura emergiu como fator de composição dentro de um partido
fragilizado e de alas divididas na onda do mensalão. O ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso deu vazão à expressão usada por Tarso Genro ao dizer que o perfil da chefe da
Casa Civil carece de atributos de liderança. Por trás da explanação de um e da
espinafração de outro reside uma particularidade da vida política contemporânea: um
processo de esvaziamento. Os requisitos clássicos dos quadros políticos - experiência,
liderança, capacidade de mobilizar as massas - nem sempre são considerados para efeito
de escolha de candidatos. E as causas estão na própria crise que assola o sistema
político, cuja feição assim se apresenta: partidos de identidades esgarçadas,
representações apartadas da sociedade, Parlamentos com menos disposição para
legislar; oposições frágeis e com discurso opaco e eleitores desmotivados. Verdade é que
desde a queda do Muro de Berlim o jogo político se tornou menos contrastado. Os atores
políticos reúnem-se num grande centro, onde se opera a clonagem das semelhanças.
O próprio conceito de democracia perde o antigo escopo, abrigando novos elementos. No
século 19, por exemplo, o sufrágio era instrumento da democracia atomizada: os átomos
eram conquistados um a um por candidatos com discursos distintos. Hoje a escolha se
processa dentro de coletividades de pensamento homogêneo e por contendores bastante
assemelhados. O processo atomizado de ontem é substituído por mecanismos impostos
por uma democracia concebida e desenvolvida por uma teia de organizações
intermediárias (sindicatos, associações, movimentos e mesmo alianças passageiras).
Estes constituem os novos polos de poder, dentro dos quais os atores, alguns sem nunca
se terem submetido ao crivo do eleitor, se abrigam para disputar campanhas majoritárias
de envergadura. Sob a malha de interesses circunstanciais, composições artificiais e
conceitos frágeis, os caminhantes de uma jornada eleitoral nem sempre são os mais
treinados ou conhecem os percalços da política. Ingressam na arena a fórceps, são
pinçados do bolso do colete pelos donos do poder ou mesmo dão um jeito de pular do
Polo Norte para a Linha do Equador sem ao menos saberem a distância da rota. O "vazio"
oceânico na política abriga não só a ministra Dilma, mas outras figuras. Veja-se o caso
do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, cuja pretensão de ser candidato ao governo de São
Paulo pelo PSB o deixaria na risível situação de ter de optar pela cartilha da indústria,
que representa, ou pelo socialismo partidário, que defende, por exemplo, a redução da
jornada semanal de trabalho.
Como se pode aduzir, os perfis já não privilegiam parâmetros que, no antigo sistema,
mediam os potenciais de cada qual. Agora, na nova ordem - nomeada de
organodemocracia por Roger-Gérard Schwartzenberg -, os contendores passam a
representar menos o que pensam e mais o conjunto de interesses e a prática de grupos,
siglas amorfas e alianças que os abrigam. Se os ideários fenecem, os adversários
tornam-se mais próximos. O mimetismo é ainda mais acentuado por conta de costumes
que impregnam a agenda cotidiana de nossa política: o gosto pela improvisação, a
flexibilidade para mudar de lado ("o jeitinho brasileiro", a infidelidade), a tendência ao
exagero, a lei da maior vantagem e o usufruto do patrimônio público. Ora, sob essa
leitura, a comparação entre os ciclos FHC e Lula terá mais firulas que diferenças no plano
semântico. Dados a mais alcançados pelo ciclo lulista só foram possíveis em decorrência
da base assentada pelo antecessor. E, quanto a rumos, as diferenças se darão na esfera
do estilo. Quem acha que o País, com inflação domada, juros baixos, braços assistenciais
fortes, tem de mudar a rota? No campo político, os arranjos - seja para a oposição, seja
para a situação - deverão continuar a partir da aliança com o PMDB. O assistencialismo,
simbolizado por programas de redistribuição de renda, será mantido por Dilma e
ajustado pelo candidato da oposição. As grandes pilastras do edifício Brasil, portanto,
serão as mesmas.
Haverá, claro, pontuação sobre os perfis. Em relação à candidata governista, percebe-se
grande interesse em afastá-la do leito do pragmatismo, frequentado por Lula, para
banhá-la nas águas ideológicas. Há núcleos comprometidos com a bolorenta cartilha do
Estado controlador de tudo. Lula, porém, será o mestre de cerimônias dessa liturgia. E
terá o poder para conter o ímpeto de radicais. Até porque imagina Dilma como a
locomotiva a puxar o trem que construiu ao longo de oito anos. Não sendo petista
histórica, teria condições de encarnar o pragmatismo lulista. Já do lado das oposições, o
País poderá ver um candidato mais experiente e de perfil consagrado. Ocorre que a
bagagem pessoal de José Serra, nos termos acima descritos, não terá mais o peso de
outrora, canibalizado que será por paisagem mais abúlica e menos contrastante. A
ressaca geral da política - intensificada por escândalos - abate os entes políticos, físicos e
jurídicos. O desafio do governador será o de mobilizar a atenção do eleitorado para as
diferenças entre ele e a adversária. Esse tipo de apelo, porém, não gera impacto nas
margens eleitorais, funcionando mais como elemento de atração de segmentos racionais,
sediados no meio da pirâmide social. Ademais, nos últimos tempos gigantescos laços
foram jogados para todos os lados por mãos adestradas na arte da mistificação das
massas.
Tanto o perfil de Serra
tecnocrático. Tal imagem
terão chances de mostrar
prossegue: o fator pessoal
quanto o de Dilma se enquadram no território do estilo
será fatalmente percebida pela comunidade política. Ambos
suas qualidades, capacidades e até deficiências. A indagação
prevalecerá sobre a moldura?
Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, é consultor político e
de comunicação
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O Estado de S.Paulo 14 02 2010
Elitizaram o samba
Jovens de classe média encabeçam as
músicas do carnaval
Valéria França
Músicos natos, Ideval Anselmo, de 70 anos, e Zelão, de 60, cresceram nas rodas de
samba e aprenderam a compor do mesmo jeito que as crianças a falar. As letras surgiam
na cabeça e mais tarde naturalmente acabavam consagradas na Avenida São João, no
centro de São Paulo, antigo palco dos desfiles paulistanos. Ideval escreveu 22 músicas,
oito em parceria com Zelão, entre elas, Narainã, de 1977, que ganhou como o melhor
samba-enredo, pela Camisa Verde e Branco, a penúltima escola a desfilar hoje no Grupo
de Acesso no sambódromo do Anhembi, na zona norte.
"Era fácil colocar um samba na avenida. Bastava levar sua música gravada numa fita
cassete para a comissão julgadora", diz Ideval, metalúrgico aposentado, pai de sete
filhos, considerado um dos maiores campeões de sambas-enredo de São Paulo. "A
concorrência era pequena", conta Zelão, funcionário público, pai de dois filhos, que mora
no Limão, zona norte.
O esquema mudou. As escolas transformaram o processo de seleção do samba-enredo
numa disputa acirrada, com até 40 concorrentes. Se Ideval chegava na escola com muito
samba no pé, uma fita cassete gravada na mão e nenhum dinheiro no bolso, hoje a nova
geração de sambistas desembarca nas escolas com disposição de investir alto. "É preciso
ter em média R$ 10 mil só para mostrar a música, que pode ou não virar tema da
escola", diz o arquiteto Aquiles da Vila, de 33 anos, um dos quatro autores do sambaenredo Cacau: Um Grão Precioso que Virou Chocolate e Sem Dúvida Se Transformou no
Melhor Presente!, que a Rosas de Ouro mostrou na madrugada de ontem no Anhembi.
Aquiles representa bem a nova leva de compositores, formada por profissionais liberais,
de classe média, que encaram o samba como mais um hobby, e não como razão de vida.
Pai de dois filhos, casado com uma pedagoga, o compositor do samba-enredo da Rosas
de Ouro começou escrevendo para a X-9 Paulistana, meio sem querer. "Em 2001, fui nas
eliminatórias para apoiar dois amigos compositores." E isso quer dizer torcer na quadra
pelos irmãos gêmeos, Fábio Mattos, publicitário, e Fabrício, advogado, de 33 anos. "Eu
me animei com a história e no ano seguinte viramos parceiros de letra."
Aquiles ficou sete anos concorrendo na X-9 e ganhou apenas em 2007, quando pela
primeira vez uma de suas composições entrou no sambódromo. E, para chegar lá,
aprendeu que é fundamental conquistar a comissão julgadora. "No ano passado, nas
finais da Rosas, para vender o peixe, distribui 5 mil folhetos, mil bexigas e a mesma
quantidade de CDs. Ainda contratei o Fred Viana (intérprete da Tucuruvi)." Aquiles e seus
parceiros fizeram dez apresentações que foram verdadeiros shows nas seletivas.
Ideval estava entre os compositores concorrentes de Aquiles, mas foi eliminado na
terceira apresentação. Ele levou um CD, com o registro do samba, e 2 mil filipetas com a
letra. "Não tinha condições. Eu teria de levar uma torcida da favela, dois ônibus cheios e
pagar o ingresso para todos", reclama.
O custo não é a única queixa dos veteranos. "Hoje, os carnavalescos dão muito palpite
nas letras. Falei uma vez para o Joãosinho Trinta que se ele entendia tanto de samba
deveria escrever música", diz Zelão. "Algumas palavras têm de estar na letra e não
adianta querer escrever a mesma coisa de outro jeito. Não pode. Só que a letra fica
ruim, difícil de cantar e de lembrar."
Seguir as instruções do carnavalesco faz parte das regras das escolas. "Os compositores
não podem viajar muito", diz Emerson Nunes, diretor de Comunicação da Leandro de
Itaquera. "Como o investimento é alto, aconselhamos que as letras sejam escritas por
um colegiado de sambistas." O samba-enredo da Leandro de Itaquera, que se
apresentou no começo da madrugada de ontem, foi escrito por 20 compositores.
"É impossível reunir tanta gente para escrever um samba", diz Zelão. "Alguns entram só
com o dinheiro e não com o talento", explica Raphael Pinópolis Neto, de 29 anos, músico
profissional, que estudou 16 anos em conservatório, e é veladamente um dos
compositores mais recorrentes no carnaval paulistano. A primeira escola de Neto foi a
Mocidade Alegre, onde começou tocando cavaquinho, em 1997. Cinco anos depois, virou
compositor de samba-enredo e passou a escrever para outras escolas com pseudônimo.
"Vale a pena, mesmo que não ganhe o melhor samba-enredo. Se somar a arrecadação
dos direitos autorais, e outros itens, fatura-se cerca de R$ 40 mil por música."
Em 2005, Neto passou para a Império de Casa Verde, e ali ficou quase como se tivesse
um cargo vitalício. "O presidente da escola extinguiu a eliminatória. No ano passado, fui
ameaçado de morte." Neto achou melhor ficar de fora desta vez.
Hoje, o "hitmaker" Ideval comemora 40 anos de samba com um show na Casa de
Francisca (Rua José Maria Lisboa, 190; 3052-0547, às 22h), no Paraíso, zona sul, sem
ter construído patrimônio com o samba. "A minha verdadeira alegria era ver o povo
cantando minha música. Isso me bastava."
--------------------------Folha de S.Paulo 17 02 2010
FERNANDO DE BARROS E SILVA
Meirelles na manga
SÃO PAULO - Eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás em 2002, Henrique Meirelles
trocou o Congresso pelo convite inesperado de Lula para ser presidente do Banco Central
no governo petista. Então debutante na política, ele vinha de uma trajetória exitosa no
mercado financeiro, tendo chegado nos anos 90 ao topo da hierarquia executiva do Bank
of Boston.
O tucano de Anápolis com perfil conservador e carreira de banqueiro internacional foi,
com Antonio Palocci, o fiador da ortodoxia econômica e uma arma de Lula para aplacar a
desconfiança do mercado.
Para muitos companheiros, Meirelles era uma espécie de "alien" a ser extirpado do
organismo do poder. Com seu jeitão de ET no meio da petelândia, ele sobreviveu e se
tornou um dos esteios do lulismo. José Dirceu, Palocci, Luiz Gushiken, muita gente
dançou na cúpula do PT e no primeiro escalão do governo. Meirelles é o único quadro de
elite a permanecer onde estava desde 1º de janeiro de 2003.
O presidente do BC está no PMDB desde setembro passado. E disse a Lula há poucos dias
que num eventual governo Dilma Rousseff gostaria de continuar "colaborando" na "esfera
federal". Sua pretensão, como está claro, seria concorrer na condição de vice-presidente.
Na disputa interna do PMDB, Meirelles hoje é o franco azarão. O partido, que o vê como
forasteiro, armou seu jogo em torno de Michel Temer. O deputado, no entanto, não
inspira confiança ao PT nem tem a simpatia de Lula.
O fato é que, no círculo lulista, Meirelles começa a ser visto seriamente como
coadjuvante útil a uma presidenciável que militou na luta armada. A guerrilheira e o
banqueiro -parece até sessão da tarde.
O vice que patrocinou a estabilidade daria uma espécie de sinal ao mercado contra a
retórica esquerdosa e a inclinação estatizante da candidata. Talvez Meirelles represente
para a campanha de Dilma o que a Carta ao Povo Brasileiro representou para Lula em
2002.
---------------------------Folha de S.Paulo 15 02 2010
Folhainvest
Alugar ações é alternativa para lucrar
também na baixa
Mercado de aluguel de ações bate recorde em janeiro, com R$ 30,7 bi em
negócios
Sistema permite ceder papéis temporariamente a outros investidores, mediante
juros, sem perder direitos como o recebimento de dividendos
FABRICIO VIEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL
O aluguel de ações tem vivido um momento de forte aquecimento. Em janeiro, essa
alternativa de ganhos oferecida aos acionistas atingiu a marca inédita de R$ 30,69
bilhões em volume transacionado. Foram 65.515 operações desse tipo no mês -cifra
21,9% superior à do mesmo período de 2009.
Muito investidor não sabe, mas o proprietário de uma ação pode colocá-la para ser
locada, da mesma forma que ocorre com um imóvel ocioso.
Ao ter sua ação alugada por outro investidor, o proprietário recebe em troca uma taxa de
juros, que varia de acordo com a disponibilidade e o interesse pelo papel que tem a
oferecer.
Levantamento da CBLC (Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia) mostra que a
pessoa física é o segmento de investidor que mais disponibiliza suas ações para locação,
com 34,9% do total em janeiro. Em segundo lugar estão os fundos, com 32,4% do total.
No jargão do mercado, quem oferece suas ações é chamado de doador. E quem
empresta os papéis é o tomador.
Em tese, qualquer um pode alugar suas ações independentemente de quantos papéis
possui. Todavia, alertam os analistas, quantidades muito pequenas de papéis dificultam o
encontro de interessados.
"O melhor caminho para oferecer suas ações para aluguel é procurar a corretora com a
qual costuma trabalhar e avisar da disponibilidade dos papéis. A corretora pode acabar
por juntar os lotes de diferentes pequenos investidores e colocá-los, de forma mais fácil,
no mercado para locação", aconselha Márcia Dessen, consultora de investimentos da BMI
(Brazilian Management Institute).
Depois que a corretora é informada da disponibilidade do papel para ser alugado, entra
em contato com a CBLC, que faz a intermediação entre as partes interessadas. Espécie
de vitrine, o banco de títulos da CBLC serve para que os interessados tenham acesso aos
papéis ofertados e às taxas cobradas para a realização de cada operação de aluguel.
Quem aluga suas ações mantém seus direitos de acionista. Além de seguir como
proprietário do papel, continua tendo acesso a dividendos e outros proventos. O único
inconveniente é a perda de liquidez. Isso ocorre porque enquanto a ação estiver alugada
seu proprietário não pode vendê-la. Dessa forma, a operação costuma ser indicada
apenas para quem planeja manter suas ações por longo tempo.
"Poucos investidores conhecem o aluguel de ações. Ainda falta informação para muita
gente que aplica na Bolsa", afirma Márcia Dessen.
Ganhos com aluguel podem bater Selic
Ações menos negociadas, como Redecard, chegam a render mais de 12% ao
ano quando locadas; como taxa é fixa, não há surpresas
Principal inconveniente é não poder vender as ações enquanto estiverem sendo
alugadas e se arriscar a ver a cotação cair após o negócio
DA REPORTAGEM LOCAL
As taxas que os investidores recebem ao alugar suas ações variam bastante. Tudo
depende do papel que tem para oferecer e do interesse dos tomadores. Algumas ações
dão retorno pouco atrativos; já outras pagam mais que a taxa básica Selic, que está em
8,75% anuais.
Normalmente, os papéis mais negociados apresentam taxas menores. A ação
preferencial do Bradesco é uma das que menos paga, tendo rendido nas últimas semanas
0,35% ao ano para seus doadores. Já Redecard ON oferecia taxa de 12,6% ao ano. Ou
seja, quem colocou uma ação da Redecard para locação lucrou mais do que quem
investiu em um fundo DI ou em um título público que acompanhe a Selic.
Especialmente nesse período de Bolsa de Valores em ritmo muito mais fraco e menos
animador que o vivenciado em 2009, entrar em uma operação de aluguel pode acabar
por se mostrar vantajoso.
Como se trata de uma remuneração de renda fixa, o aluguel de ações não implica em
risco de prejuízos. O único inconveniente é o investidor alugar uma ação que valia R$ 50
e quando a recebe de volta, alguns meses depois, ver que ela está sendo negociada em
pregão a R$ 35. Nesse exemplo, se o investidor vendesse a ação assim que essa fosse
devolvida pelo tomador, receberia 30% a menos do que se tivesse se desfeito dela antes
de a locar.
As ações mais alugadas e procuradas estão entre as que costumam ter maior liquidez na
BM&FBovespa. Entre os dias 21 de janeiro e 11 de fevereiro, os papéis mais contratados
foram Vale PNA, Petrobras PN, Gerdau PN, Itaú Unibanco PN e Banco do Brasil ON.
Os maiores tomadores de papéis alugados são os fundos e os estrangeiros. Esses
investidores alugam as ações dos doadores para realizar operações em segmentos mais
sofisticados do mercado, como o de opções, ou simplesmente para tentar lucrar com
diferenças de preços.
Um investidor poderia, em tese, alugar uma ação da Petrobras por R$ 50. No mesmo dia,
venderia esse papel no pregão por esse preço e esperaria seu valor cair. Se isso ocorre e
a ação atinge, por exemplo, R$ 40, recompra a mesma quantidade que havia vendido,
devolve para o doador e lucra com a diferença entre os preços.
Taxas elevadas
As taxas pagas pelos tomadores variam também de acordo com as expectativas e
momentos vividos pelas ações. Por um papel da Telebrás, que tem sido alvo de forte
especulação há algum tempo na Bolsa, chegou-se a pagar nas últimas semanas uma
taxa de locação de 43,18%. Mas esse é um caso de exceção. Dificilmente paga-se muito
mais que a Selic em uma operação de aluguel de ações.
"Muitos investidores não conhecem nem ao certo como funcionam os dividendos, imagina
o mercado de aluguel de ações. Conversar com as corretoras, informar-se e pensar
seriamente em alugar as ações é um importante passo para entender que o mercado é
mais do que só comprar e vender papéis", diz o professor e educador financeiro Mauro
Calil.
(FABRICIO VIEIRA)
-----------------------Folha de S.Paulo 17 02 2010
salgado
Copa no Brasil custa mais que o dobro da
africana
Gasto previsto no Mundial-14 é R$ 9,5 bilhões maior do que o da África do Sul
Estimativa de despesas do Ministério do Esporte para o torneio tem transporte e
estádios, mas ainda não inclui itens como segurança
RODRIGO MATTOS
DA REPORTAGEM LOCAL
A quatro anos e meio de seu início, a Copa do Mundo do Brasil-2014 já tem previsão de
gastos 120% maior que o investido na África do Sul-2010. Ou seja, o evento brasileiro
tende a custar mais que o dobro do africano. Detalhe: o Mundial no território nacional
tem estimativa de custo incompleta, enquanto o torneio deste ano está próximo da conta
definitiva.
No início de fevereiro, o governo federal divulgou uma primeira lista de projetos para a
Copa-2014. Incluiu 59 obras, sendo 12 delas em estádios. O custo total previsto é de R$
17,52 bilhões, incluindo verba federal, estadual e privada. Desse valor, são R$ 5,343
bilhões para construção e reforma de arenas. O restante é para transporte e obras nos
entornos das praças esportivas.
A Copa da África do Sul tem gasto total previsto de 33 bilhões de rands (R$ 7,968
bilhões), montante informado à Folha pela porta-voz do Tesouro Nacional sul-africano,
Thoraya Pandy. "Esse valor inclui infraestrutura, estádios, comunicação, segurança e
desenvolvimento esportivo", explicou.
O investimento em arenas foi de 13 bilhões de rands (R$ 3,1 bilhões) e, em transporte,
atingiu 14 bilhões de rands (R$ 3,38 bilhões). "Acho que esse valor é muito maior. Tenho
convicção de que é maior que isso", afirmou o ministro do Esporte, Orlando Silva Jr., a
respeito das cifras sul-africanas.
Há dinheiro para reforma de aeroportos que não entra na conta da África do Sul. Mas o
Brasil também não incluiu o setor aéreo em suas obras.
Ressalve-se que o Mundial brasileiro tem número maior de sedes do que a África do Sul:
são 12 contra 9. Também terá mais arenas: 12 contra 10.
Proporcionalmente, isso justificaria aumento de um terço no investimento total e de um
quinto em estádios. A diferença, porém, é de R$ 9,5 bilhões.
E há tendência de alta. Os custos de estádios, únicos que tinham estimativa feita no
projeto da CBF, já mais do que dobraram em relação a 2007.
Mais: ainda não houve previsão sobre os gastos com segurança, tecnologia e
infraestrutura esportiva, como CTs.
Em comum, Brasil e África do Sul tem onipresença estatal para bancar as obras.
Um total de 94% dos custos dos estádios será de responsabilidade dos governos federal
e estadual, segundo documentos do Ministério do Esporte. O restante será pago pelos
clubes - Atlético-PR, São Paulo e Internacional, donos de arenas.
Estados, clubes e União assinaram termo em que foi estabelecida a fatia de cada um.
Todos os gastos em infraestrutura estarão na conta dos governos, sendo dois terços
deles financiados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Na África, a presença estatal é mais forte, já que o governo federal bancou quase tudo.
Houve, em menor porte, aportes privados e de municípios.
Também em comum, Brasil e África do Sul têm renda per capita próxima, em torno de
US$ 10 mil (R$ 18,7 mil). O país africano tem desigualdade social um pouco maior, o que
é indicativo de mão de obra mais barata. O eventual custo menor com salários
dificilmente cobriria a diferença de mais de R$ 2 bilhões entre as obras de estádios no
Brasil e na África do Sul.
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