COLCHA DE RETALHOS:
Alguns Elementos da Cultura
Brasileira
Semira Adler Vainsencher
Recife, 2011
Copyright © 2011 Semira Adler Vainsencher
Revisão
Semira Adler Vainsencher
Editoração Eletrônica
Erivaldo Santos
Capa
Kátia Vainsencher
Impressão
Luci Artes Gráficas Ltda.
Av. Presidente Kennedy, 1539 - Peixinhos - Olinda - PE
Fone: 3241.5729 / 3241.2708
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reprográfico sem autorização do autor ou da editora.
Impresso no Brasil
DEDICATÓRIA
Dedico este livro aos meus quatro netos, crianças
extraordinárias que vieram dar um significado ainda maior à
minha vida:
· Gabriel Adler Costa e Silva, o mais velho dos
rebentos, minha primeira grande paixão, menino belo
e brilhante que me chama de Memema e com o qual
sinto tanta afinidade;
· Clarice Adler Costa e Silva, criança linda, com
um belo olhar, possuidora de imensa inteligência e
carisma pessoal, pela qual nutro um grande amor;
· Camila Adler Vainsencher Amorim, bela e meiga
fofurinha, minha linda morena brejeira, pela qual
expresso muito amor e sempre encho de carinhos e
mimos; e
· Davi Adler Vainsencher Amorim, luz e amor puros
de minha vida, verdadeiro anjo de olhos azuis, que dá
e recebe tantos beijos e mimos de sua avó.
Não poderia deixar de lembrar, aqui, duas outras crianças
lindas, que surgiram em meu caminho, e que eu tanto quero
bem:
· Manassés Ramos da Silva e
· Viviane Ramos da Silva
APRESENTAÇÃO
A Cultura é o élan vital de um povo, seu pulso,
sua alma imortal. É aquilo pelo qual uma nação será
lembrada (ou, esquecida), o conjunto de padrões de
comportamentos, crenças e valores, vivos e pulsantes,
e que caracterizam uma sociedade.
Não é surpreendente que a Cultura, mesmo
quando desvalorizada, em certas ocasiões, ou tenha
seu papel diminuído, volte a ocupar um lugar central
nas decisões de um país. Hoje, é crescente a percepção
da importância da Cultura e de suas relações com as
transformações econômicas e sociais. No processo de
desenvolvimento, ela vem sendo reconhecida como
um elemento chave, e os Governos e instituições
internacionais levam-na em conta, ao incorporar novas
estratégias e programas de trabalho.
No presente, a riqueza da criação cultural (incluindo-se, sob esse rótulo, tanto as manifestações artísticas, de vários tipos, quanto as produções intelectuais e científicas), passou a representar um elemento de
suma relevância na avaliação do desenvolvimento de
um país, sendo reconhecida como um bem econômico
fundamental. O desafio para as nações passou a ser,
além do desenvolvimento econômico, a criação de um
ambiente favorável, também, ao desenvolvimento intelectual das pessoas.
Outro fato, este de mais lenta e difícil aceitação,
é o de que as formas mais intangíveis de desenvolvimento cultural, são como flores raras e de difícil cultivo: não podem ser criadas, de forma artificial, ou por
imposições do mercado e, tampouco, podem surgir
mediante decretos de qualquer Governo. Florescem,
tão-somente, em um ambiente socioeconômico livre,
com investimentos de longo prazo na Educação, e inteligentemente planejados, acompanhados de renúncia a
resultados imediatos ou, por demais, específicos.
A postura oficial do Governo brasileiro vem
dando, maior atenção, à uma noção menos elitizada de
Cultura e, assim, adotando um paradigma conducente
à livre expressão e à criatividade. Nessa nova visão,
todas as pessoas são percebidas como produtoras
culturais. Destacam-se dois exemplos concretos que
refletem mudanças na ação governamental, com
relação aos investimentos culturais. Um deles, é o
surgimento de uma mídia oficial de qualidade, como
a TV Educativa e a TV Cultura, que tem servido para
difundir as diversas manifestações culturais do país.
Outro exemplo é o crescimento do apoio oficial à
produção e à comercialização de artesanato, através da
promoção de eventos, de exposições permanentes e de
cadastramento dos artesãos.
A
sociedade
civil
vem
contribuindo,
decisivamente, para o avanço dos “direitos culturais”.
É o caso da organização e disseminação de rádios
comunitárias que, apesar da falta de apoio e, mesmo,
da oposição dos poderes públicos, têm se expandido e
já apresentam uma espécie de código de ética próprio,
cujos núcleos se baseiam na valorização e na divulgação
das manifestações folclóricas. Outras produções
artísticas locais, dentre elas, as expressões populares
da juventude, assumem, ainda, um importante papel
histórico.
A Cultura Popular - objeto deste livro - está inserida
no contexto da Cultura lactu sensu e corresponde
a uma parte importante do aspecto humano do
desenvolvimento do Brasil. Ela possui um amplo leque
de manifestações, sendo considerada como um bem
imaterial e de uso comum do povo, compreendendo
um conjunto de tradições, mitos, crenças, histórias
populares, costumes, procedimentos terapêuticos,
cultos, religiosidades, culinárias, folguedos, flora e
fauna, novas formas de expressões populares, entre
outros, que é transmitido de geração em geração, ou
criado pelas novas gerações.
Este livro reúne vários textos concernentes à
Cultura brasileira, em particular, à nordestina, e visa
a dar, no espírito dos novos tempos, uma pequena
contribuição, como material educativoinformativo, bem
como fazer um manifesto favorável à sua valorização, em
um espaço privilegiado de socialização dos indivíduos,
que é aquele do ensinoaprendizagem. Tanto porque
aborda temas integrantes do currículo escolar formal,
quanto porque, muitas vezes, alguns desses assuntos
não são disponibilizados, de forma adequada e/ou
atraente, para o público que frequenta as bibliotecas
das escolas e instituições públicas e privadas.
O acervo apresentado é fruto de um amálgama
deliberado, revelador da pluralização dos elementos
culturais existentes, através da miscigenação das
culturas europeia, indígena e africana, que formaram a
brasileira.
A maior parte dos textos foram produzidos no
âmbito da Diretoria de Pesquisas Sociais da Fundação
Joaquim Nabuco. Muitos já foram publicados,
virtualmente, no site Pesquisa Escolar, ou, impressos
e divulgados, sob forma de micromonografias, pelo
Centro de Estudos Folclóricos Mário Souto Maior.
Outros trabalhos, porém, são inéditos ao público; e,
alguns deles, apresentam ilustrações desenhadas
pela autora, em bico de pena. Os textos publicados,
anteriormente, sofreram pequenas alterações em seu
formato e conteúdo.
Espero que vocês, leitores, consigam apreender
a variedade, a beleza e a riqueza da Cultura Popular
do Brasil. E jamais esqueçam de que eu, uma judia
nordestina, elaborei este livro com muito amor e
dedicação.
Semira Adler Vainsencher
PREFÁCIO
Não acredito e nem gosto de prefácios. Se o
livro é ruim, o prefácio não adianta e, se o livro é bom,
ele é desnecessário. Porém, como negar ao convite de
uma amiga tão querida, do porte da intelectual Semira
Adler Vainsencher?
Como já dizia o psicanalista Sigmund Freud: o
escritor faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um
mundo de fantasia que leva muito a sério, isto é, no qual
investe uma grande quantidade de emoção, enquanto
conserva uma separação nítida entre o mesmo e a
realidade (...) não importando se esse mundo é ou não
criativo...
Este livro conserva uma independência, que se
manifesta na escolha do material, e nas alterações do
mesmo. Ele procede do tesouro popular, dos mitos, das
lendas, dos contos de fadas, em uma nova abordagem,
de vestígios distorcidos de fantasias, plenas dos desejos
do povo.
Pouco se tem escrito sobre o destino dos
filhos e dos netos dos prestamistas judeus, que
chegaram ao Recife, no princípio do século passado,
e após a Segunda Guerra Mundial. A maioria dos
pesquisadores, que estuda a importância da influência
hebréia na historiografia brasileira, se dedica a analisar
os acontecimentos que ocorreram no passado, a
exemplo da importância da Inquisição, dos marranos,
dos conversos forçados ao catolicismo, dos nomes e
costumes dos seus descendentes, entre outros. Neste
sentido, esquecem, ou evitam estudar, as ocorrências
atuais, como se os fatos passados não continuassem
influenciando o futuro nacional. São poucos aqueles que
se dedicam ao folclore e à Cultura da Região Nordeste.
Os responsáveis por esta seleção e estudos,
chegam a acentuar, por vezes, acontecimentos sem
muita importância, provindos do pretérito, e deixam de
destacar, até, acontecimentos, de maior relevância, seja
por serem contemporâneos próximos às suas vivências,
seja porque ameaçam a posição que alcançaram na
sociedade onde estão integrados.
É pertinente lembrar que, na década de 1920,
escreveu o Mestre dos Apipucos (Gilberto Freyre), na
crônica O Elemento Israelita, publicada no Jornal Diário
de Pernambuco: Vai crescendo em nossas cidades do
Nordeste o elemento israelita - o que apresenta ao
mesmo tempo uma vantagem e a sombra do perigo. O
perigo está nas tendências desse bom elemento para
o exclusivismo: no ser em geral, num ser que não se
vincula à terra que o acolhe. No ser um elemento móbil
como uma bola de borracha. E como a bola de borracha,
fácil de dilatar-se...
Na década de 1940, prossegue o consagrado
sociólogo, na crônica A Propósito de Semitismo e
Anti-Semitismo: “Quase toda a gente conhece a frase
celebre do espanhol. Eu não creio em bruxas. Mas que
elas existem, existem”. Tenho vontade às vezes de dizer
cousa semelhante com relação ao semitismo. Eu não
creio nos judeus das caricaturas anti-semíticas. Mas
“que eles existem, existem” (conferir no livro: Crônicas
do Cotidiano - a vida cultural de Pernambuco, nos
artigos de Gilberto Freire (organização) Lydia Barros
e Carolina Leão. Recife: Diário de Pernambuco, 2009,
pgs. 56 e 105. No entanto, vamos aos fatos históricos: “Antes da
II Guerra Mundial, em decorrência do anti-semitismo e
das graves perseguições contra os judeus, ocorre uma
grande migração para Pernambuco, principalmente por
parte da população judaicoeuropeia. Essas famílias
se instalam de início no bairro da Boa Vista. Por sua
condição geográfica, a Praça Maciel Pinheiro se torna
o reduto da colônia judaica do Estado, representando o
principal fórum de encontros e debates, tanto por parte
dos imigrantes, quanto ainda, dos pernambucanos
residentes em seus arredores. Além do português, o
que mais se ouvia ali era o iídiche, língua falada pelos
judeus askenazim - aqueles provenientes da Europa
Oriental. E, nos bancos da Praça, discutiam-se as
últimas novas relativas à política, ao comércio, às artes,
à literatura, e outros assuntos. A população não judia
e menos escolarizada, residente no Recife, devido à
falta de conhecimento, costumava referir-se àqueles
judeus como os russos. Inclusive, caberia salientar o
seguinte: no último andar de um prédio, que se localiza
na esquina da Travessa do Veras com a Praça Maciel
Pinheiro, viveu Clarice Lispector (1925 -1977), uma das
mais importantes escritoras do século XX, e aquela que
possui o maior número de obras traduzidas. Apesar
de ter nascido na Ucrânia, ela veio com os seus pais
para o Brasil, aos dois meses de idade, fugindo do
antissemitismo. Clarice Lispector residiu, a maior parte
da sua vida, entre o Recife e Maceió, e fez questão de
naturalizar-se brasileira.” (Semira Adler Vainsencher pesquisaescolar@fundaj.gov.br)
A Praça Maciel Pinheiro, para este prefaciador, é
considerada a Ágora da comunidade hebraica recifense. Neste sentido, penso que o Mestre de Apipucos se enganou. Os judeus se adaptaram, muito bem,
ao Brasil. As novas gerações deram, e dão, notáveis
contribuições nas áreas científicas e literárias, a exemplo
de matemáticos, físicos, médicos, economistas,
cientistas políticos, escritores, jornalistas, e outros.
Feito tal esclarecimento, pertinente será dizer
que, o livro, Colcha de Retalhos, é uma seleção dos
numerosos trabalhos de Semira Adler Vainsencher,
coletados ao longo de sua brilhante carreira. Começa
com a fofura do Algodão, segue para o Artesanato
Nordestino, voando para alcançar as alturas do Boi
Voador, para, então, plainar em plena Amazônia, e
aterrissar em uma imensa Vitória-Régia. Da dança
do Bumba-meu-boi, salteia, graciosamente, à terra
do Cacau, do Coco, de dar água na boca, e dançar
com o leitor, além de cozinhar as receitas da Culinária
Nordestina, incluindo o pé de moleque, o bolo de
macaxeira, o mungunzá e o arroz doce. O Dendê,
da escrita de Semira, não faz mal aos estômagos
sensíveis, quando dosado pela quituteira de mão cheia
que a autora é.
Aconselho ao leitor que, sem pressa, viaje
neste livro, lendo e matutando sobre a sabedoria das
Legendas dos Caminhões. Depois, não deixem de
ler os ensaios começados com a letra M: Macambira,
Mamona, Mandacaru, e não deixem de assistir ao
Mamulengo, e outros tantos, porém, sem se importar
com a ordem dos capítulos. Não tenham medo de
escutar o canto do Uirapuru. Está tudo muito bem
socado pelo Pilão de Monjolo. E, por fim, não venha me
dizer, leitor amigo, que a moça bonita engravidou, por
gosto e conhecimento, lendo a tal estória do Boto, que
encanta as moças donzelas... Prenhos, vamos ficar,
todos nós, mas, de Nordestinidade.
O presente escrito, selecionado pela autora, é,
apenas, uma amostra dos seus trabalhos. Vocês verão
que, a escrita dessa pesquisadora é muito forte, à vista
de um simples curandeiro de província. A perspectiva
contrapõe o todo, para ganhar um relevo que, cada
leitor, irá criar em seu mundo virtual, Mundo construído
entre ele, leitor, e o texto. O Retalho é, sobretudo, o
somatório do nosso rico folclore. Creio que, quando um
povo começa a estudar e a contar suas verdadeiras
raízes, deixa para trás o subdesenvolvimento.
Boa leitura! Bom proveito!
Meraldo Zisman
Sociedade Brasileira de Medico Escritores (SOBRAMES/PE)
União Brasileira de Escritores (UBE/PE)
União de Médicos e Escritores e Artistas Lusófonos (UMEAL)
Academia Brasileira de Médicos Escritores (ABRAMES)
SUMÁRIO
DEDICATÓRIA
APRESENTAÇÃO
PREFÁCIO
ALGODÃO
17
ARTESANATO NORDESTINO
27
BABAÇU
41
BAOBÁ
51
BOI VOADOR
59
BOTO
67
BUMBA-MEU-BOI
73
CACAU
83
CIRIRI
91
COCO
97
CULINÁRIA BRASILEIRA
103
CULINÁRIA JUNINA
111
DENDÊ
119
FOLCLORE NORDESTINO
127
IARA
151
IPÊ
161
LEGENDAS DE CAMINHÕES
165
MACAMBIRA
173
MAMONA
179
MAMULENGO
185
MANDACARU
191
MANDIOCA
195
PILÃO E MONJOLO
201
PIMENTA
209
SABIÁ-LARANJEIRA
215
UIRAPURU
221
VITÓRIA-RÉGIA
231
FONTES CONSULTADAS
237
ALGODÃO
Datam de oito séculos a.C. as referências
históricas sobre o algodão. Os egípcios o conheciam
e o cultivavam na Antiguidade; e os Incas, e várias
civilizações antigas, já utilizavam o vegetal em 4.500
a.C. O algodoeiro (Gossypium hirsutum L.) é uma planta
arbustiva e perene, de crescimento indeterminado e
desenvolvimento vegetativo e reprodutivo simultâneo.
A palavra deriva de al-quTum, da língua árabe, porque
foram os árabes que, na qualidade de mercadores,
difundiram a cultura do algodão pela Europa. Ela gerou
os vocábulos cotton, em inglês; coton, em francês;
e, cotone, em italiano.
Nos anos 1500, no início da colonização, havia
certas espécies de algodão, sendo cultivadas em
território nacional. No Brasil, pouco se conhece da préhistória dessa planta, mas, os portugueses, quando
aqui chegaram, perceberam que os índios conheciam o
algodão, já sabiam fiá-lo e dele faziam tecidos.
Há uma lenda indígena, inclusive, no folclore
nordestino, segundo a qual, nos tempos da criação do
mundo, os índios eram muito atrasados, não sabiam
cultivar a terra e, tampouco, criar os animais. Eles
ficavam no alto das árvores, ou em cavernas, para se
proteger dos animais ferozes. Foi, então, que surgiu um
17
grande chefe sábio - chamado Sacaibu - que os levou
para um lugar onde havia caça. Lá, os índios construíram
suas malocas. O sagrado Deus Tupã deu uma semente
a Sacaibu e pediu-lhe que a plantasse. Ele obedeceu
ao grande Mestre e ficou esperando a sua germinação.
Quando a planta se desenvolveu, Sacaibu observou
que, das suas flores, saíram tufos brancos, que os
indígenas teceram e fizeram cordas. Por intermédio
destas cordas, desceram um abismo e descobriram um
povo, com muita cultura, que lhe ensinou a viver melhor,
a cultivar a terra, a criar os animais, a fazer utensílios
variados, e a tecer as roupas, com o produto da semente
ofertada por Tupã: o algodão.
Os portugueses, por sua vez, apesar de terem
cultivado, na Bahia e em Pernambuco, algumas
variedades de algodão trazidas do Oriente (que,
posteriormente, foram levadas pelos jesuítas para o
Sul do país), estavam bem mais interessados no cultivo
da cana-de-açúcar. Com a chegada dos escravos
africanos, entretanto, por uma questão de necessidade,
os colonizadores tiveram que plantar alguns hectares
de algodão, para que eles pudessem fazer suas
vestimentas.
Na Inglaterra, até meados do século XVIII (por volta
de 1760), a lã e o algodão eram fiados, manualmente,
em equipamentos rudimentares denominados rocas
(ou roçadoras), que apresentavam baixíssimos
rendimentos. Por outro lado, grande parte dos tecidos
de algodão era importada da índia. O Parlamento
Inglês decidiu, então, cobrar tarifas pesadas sobre as
importações estrangeiras, e isto acabou incentivando a
18
própria indústria de tecidos do país. A partir de 1764,
James Hargreaves inventou e introduziu no mercado
a famosa spinning Jenny, uma máquina de fiar que
multiplicou a produção em vinte e quatro vezes, em
comparação ao rendimento das antigas rocas. A seguir,
o mesmo inventor colocou à disposição, do mercado,
uma nova criação sua: a lançadeira volante fly-schepel.
A combinação do processo de tecelagem com a
fiação da spinning Jenny representou uma verdadeira
revolução tecnológica, que foi aumentada pela
invenção do bastidor hidráulico de Richard Arkwright.
Tal criação tornou possível a produção intensiva das
tramas longitudinais e latitudinais. Mediante os novos
processos mecânicos, a produção aumentou cerca de
duzentas a trezentas vezes, em comparação ao que era
produzido antes, no mesmo intervalo de tempo.
Em 1792, uma invenção de Eli Whitney, nos
Estados Unidos - o descaroçador de algodão - conseguiu
separar, mecanicamente, as sementes das fibras do
algodão, de modo a reduzir, de forma substantiva, o
seu preço no mercado mundial. As primeiras máquinas
eram pouco dispendiosas, a fim de incentivar a indústria
doméstica, mas, com o passar do tempo e o surgimento
do tear mecânico, os tecelões manuais tiveram que
trabalhar nas fábricas.
A competição com os tecidos de algodão
indianos (os mais perfeitos do mundo), bem como os
de lã e de linho, levou a Inglaterra a iniciar uma etapa
de modernização da produção, através da criação
de novos sistemas e novas máquinas. Entre estas, a
máquina a vapor, que desenvolveu, sobremaneira, as
19
indústrias de mineração e de transportes ferroviários
e marítimos. Portanto, a combinação das invenções,
no campo da indústria têxtil, assim como a máquina
a vapor (já imaginada e desenhada por Leonardo da
Vinci, no século XVI) foram responsáveis pelo aumento
da produção e a diminuição de seu custo, tendo
promovido a Revolução Industrial, no período de 1770
a 1870. Todas as inovações da época, bem como o
consequente incremento, no comércio mundial, deram
à Inglaterra uma extraordinária vantagem: os tecidos
produzidos eram leves, baratos, de qualidade, e podiam
ser comprados por milhões de pessoas. Em meados do século XIX, o cultivo do algodão
já representava uma das atividades tradicionais,
concentrando-se a produção nacional no Nordeste do
Brasil, e em algumas áreas da Região Norte, onde a
planta é nativa. Devido à sua condição de semiaridez
e resistência às secas, o algodão se tornou a principal
opção fitotécnica para a população nordestina. A
partir do final da década de 1880, e na década de
1890, desenvolveu-se, no Estado de Pernambuco,
particularmente, em fábricas pequenas e mal equipadas,
a produção de óleo de caroço de algodão. No Estado
de Alagoas, em 1888, passou a funcionar uma fábrica
de óleo. E, em São Paulo, foi inaugurada uma grande
fábrica, em 1892. Nos últimos anos do século XIX, somente cinco
países - a antiga União Soviética, os Estados Unidos,
a Índia, a China e o Egito - produziam 98% do total da
produção mundial de algodão.
Alguns fatores contribuíram para que, naquele
20
século, a cotonicultura se expandisse no Nordeste
do Brasil: 1. a abertura dos portos às nações amigas,
em 1808; 2. o crescimento da população e, via de
consequência, o aumento do consumo de tecidos;
e, 3. a paralisação da produção norteamericana, em
decorrência da Guerra de Secessão, que impediu os
Estados Unidos de atenderem à demanda do mercado
europeu.
Na década de 1910, a Companhia Industrial
de Algodão e Óleos (CIDAO), organizada com capital
brasileiro, iniciou um extenso programa de investimentos
para descaroçar algodão na Região Nordeste. O
Programa recebeu uma ajuda considerável do Governo
Federal e dos Governos Estaduais, que se interessaram
nele. Sendo assim, foram instaladas nove usinas de
descaroçamento, em diversos locais de Pernambuco,
da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará.
Na cidade do Recife, construiu-se um complexo
industrial que centralizou a produção e refinação de
óleo; e, na Paraíba, Campina Grande tornou-se uma
grande região produtora de algodão. A cotonicultura,
explorada por pequenos e médios agricultores, passou
a representar uma atividade de grande importância
socioeconômica, tanto na oferta de matéria prima para
a indústria têxtil e oleaginosa, quanto na geração de
emprego e renda. Historicamente, era chamada de
“ouro branco”, pela riqueza que gerava.
O algodão nordestino, produzido em pequenas
propriedades, é todo colhido à mão, o que proporciona,
quando a operação é bem feita, a obtenção de um
21
produto de elevada qualidade. No país, de um modo
geral, são plantadas duas espécies de algodão: uma
perene, na Região Nordeste; e uma anual, no Sul e
Centro-Oeste.
Há vários tons de fibras de algodão colorido, que
variam do creme ao marrom escuro, do verde oliva ao
alaranjado. Vale registrar que já foram identificadas,
com fibras coloridas, cerca de quarenta variedades de
algodão silvestre. No passado, por apresentar uma fibra
mais fraca e menos uniforme que a do algodão branco,
o algodão colorido não podia ser usado pelas indústrias
têxteis. Entretanto, trabalhos técnicos desenvolvidos
pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária do
Algodão - Embrapa Algodão - em Campina Grande,
melhoraram, geneticamente, a qualidade das fibras,
o que possibilitou o seu processamento industrial.
O processo de melhoramento não transgênico
desenvolveu variedades de algodão colorido, com ciclo
produtivo de três anos e alto nível de resistência à
seca. As roupas confeccionadas na Paraíba, ecológicas
por não usar tintas, fazem jus ao direito do selo do
Movimento Ambientalista Greenpeace.
Desde 1989, a Embrapa Algodão, deu início
a estudos e pesquisas, visando a obter variedades
adaptáveis a novos espaços geográficos, e a aumentar
a resistência, o comprimento, a uniformidade e a
produtividade das fibras. Desse modo, mediante a
geração e a transferência de tecnologias, a Empresa
vem dando uma grande contribuição à cotonicultura.
A cada ano, a Embrapa Algodão lança, pelo menos,
duas novas formas de cultivo, e desenvolve novos
22
sistemas de produção e de manejo integrado de pragas
e doenças.
Desenvolvida no ano 2000, a primeira cultivar BRS
200 - constituída pela mistura de partes iguais de várias
sementes, e com fibras de cor marrom - foi a primeira,
plantada no país, a ser colorida geneticamente. Isto
contribuiu para a geração de empregos, para artesãos
nordestinos e pequenos agricultores familiares. O algodão colorido apresenta bastante
utilização, no artesanato do Nordeste do Brasil, e em
ornamentações, sob a forma de roupas, tapeçarias,
colchas, lençóis, almofadas, redes, entre outros
produtos.
Algumas tonalidades de cores - a verde, em
particular - são influenciadas pela luz solar e pelo tipo
de solo onde é cultivado, ao passo que as cores creme
e marrom são mais estáveis. Das espécies primitivas,
a maior parte apresenta fibras coloridas na tonalidade
marrom. Desde 1984, tais algodoeiros vêm sendo
preservados no Banco de Germoplasma, em Patos,
Estado da Paraíba. As peças confeccionadas com
fibras coloridas naturais são consumidas, em especial,
por pessoas alérgicas aos corantes sintéticos. O algodão, além das muitas utilidades, é
considerado, pelas autoridades ligadas à agricultura
como um produto muito importante e moderno porque,
em seu processo de cultivo e industrialização, são
utilizadas tecnologias avançadas, que geram, não
somente, o desenvolvimento do conhecimento, como,
ainda, o aumento do valor agregado.
23
A cotonicultura permite o cultivo intercalado
do milho e do feijão, preservando as lavouras de
subsistência. O pequeno agricultor colhe o feijão com
sessenta dias de plantio e, o milho, com noventa dias;
garantindo sua alimentação. Dessa forma, espera a
colheita do algodão, que representa “dinheiro vivo”,
ou seja, um produto cuja comercialização é segura,
garantindo-lhe uma fonte de renda para suprir suas
necessidades básicas.
Além da fibra, são gerados vários subprodutos
do algodão, a exemplo dos óleos comestíveis e das
margarinas (extraídos das sementes e produzidas
pela indústria alimentícia); da estearina e da glicerina
(utilizadas pela indústria farmacêutica); e dos sabões
(a partir da borra, resultante da refinação do óleo
comestível). O piolho do algodão - separado pelas
máquinas de descaroçar - é utilizado pela indústria de
móveis estofados; e o línter é usado nas indústrias de
celulose, algodão hidrófilo, filtros, filmes, explosivos,
entre outros produtos.
O lixo advindo da varrição das usinas tem valor
comercial, também, no tocante à fertilização do solo. Os
ramos e as folhas do algodão, muito ricos em proteínas
e de elevado valor biológico, ainda alimentam o gado.
Ademais, da extração industrial do óleo, resulta uma
torta que é usada em alimentação animal (uma das
rações mais ricas em proteínas); um farelo que é utilizado
como adubo nitrogenado; a casca, que é usada como
combustível e, finalmente, como último subproduto da
combustão, uma cinza, com elevado teor de potássio.
24
Na década de 1980, instaurou-se uma grave crise
na cotonicultura brasileira, decorrente da propagação
do bicudo (anthonomus grandis boheman), uma praga
que reduziu a produção, drasticamente, provocando
o êxodo maciço de trabalhadores rurais para os
grandes centros urbanos, o fechamento de mais de
1.200 indústrias têxteis, de pequeno e médio porte, e
a redução de 500 mil empregos. O Nordeste passou,
então, de grande produtor de algodão, com produção
superior a 220.000 toneladas de pluma, por ano, para
grande importador. O déficit comercial da cadeia têxtil
chegou a US$ 1,1 bilhão em 1997. Em meados dos
anos 1990, porém, a fronteira de produção do algodão
brasileiro foi transferida para os cerrados, regiões de
terras planas, que permitem a mecanização da lavoura,
com forte concentração no Oeste da Bahia.
No cerrado, o sucesso da cultura do algodoeiro
tem sido impulsionado pelas condições do clima
favorável, por programas de incentivo à cultura e,
sobretudo, pelo uso intensivo de tecnologias modernas.
É de se lamentar, contudo, que a comercialização
do algodão, por parte dos pequenos agricultores, seja
feita de maneira desorganizada, já que eles não têm
condições de estocar o produto, de esperar para vender
em momento mais oportuno; e, tampouco, têm acesso
às informações importantes do mercado. O algodão
em caroço é vendido para os intermediários (chamados
também de atravessadores), que tiram o proveito das
precárias condições de vida daqueles agricultores, e
diminuem, bastante, a sua fonte de renda. Para estes
últimos, o chamado “ouro branco” encontra-se longe:
25
quem o plantou, no passado, dele usufruirá, bem pouco,
no futuro.
26
ARTESANATO NORDESTINO
27
O primeiro artesão foi Deus, que, depois de
criar o mundo todo, pegou o barro e fez Adão
(artesão anônimo da Paraíba)
Pode-se dizer que a arte é uma das manifestações
mais antigas do ser humano, tendo sua origem
na era paleolítica (12.000 a.C.), quando o homem
primitivo vivia em bandos nômades, dependendo
da caça e da coleta de alimentos para sobreviver.
O homem de Pequim e o de Neandertal, por
exemplo, já sabiam pintar e fabricar instrumentos
em pedra, osso e madeira. A prova disso,
são as pinturas nas paredes das grutas e
cavernas da França e da Espanha (Lascoux,
Niaux, Altamira, entre outras), evidenciando
figuras representativas da fauna daquela época
(mamutes, bisões, cavalos e renas).
No período neolítico (6.000 a.C.), o homem
elaborou os primeiros objetos artesanais: aprendeu
a polir a pedra, a fabricar peças de cerâmica, a tecer
com fibras vegetais e pelos de animais, e a cozer
os alimentos. No Brasil, pesquisas comprovaram,
também, a presença de indústria lítica e a fabricação
de cerâmicas, junto a etnias que viveram no sudeste do
Piauí, durante aquele período.
Por sua vez, a arte tem estado presente na vida
dos povos primitivos, em toda as partes do mundo. Ela
se materializa, ainda, em cada objeto produzido pelos
índios: utensílios de barro, instrumentos musicais, adornos de plumas, cestos, pinturas, ou colares fabricados
com dentes e/ou ossos de animais.
Na Europa, só a partir do século XI, a produção
artesanal ficou concentrada em oficinas, onde os
28
aprendizes auxiliavam o mestre artesão e, este último,
representava o detentor de todo o conhecimento técnico.
Do ponto de vista histórico, o artesão é considerado
como responsável pelo processo de seleção da matéria
prima a ser utilizada, pela concepção do produto,
e pela transformação da matéria prima em alguma
produção finalizada. No Brasil, durante o século XVI,
com a chegada de artistas e artesãos portugueses,
os produtos artesanais deixaram de ser, apenas,
expressões de manifestações artísticas, e adquiriram
status profissionalizantes.
Pela primeira vez, em 1926, foi utilizada a
expressão arte popular. O pesquisador japonês Soetsu
Yanagi criou o termo mingei (min = povo; gei = arte), para
designar os trabalhos elaborados por artistas populares
desconhecidos, que tinham, em comum, a simplicidade
e um estado de espírito desengajado da ideia de feiúra,
ou de beleza.
No presente, como artesanato, estudiosos
designam qualquer objeto comercializável, fruto de
um trabalho, predominantemente, manual, elaborado
com a ajuda de ferramentas simples, ou de máquinas
rudimentares, que se baseia em temática popular, e
utiliza matéria prima local ou regional.
Neste sentido, para que possa ser inserido na
categoria artesanato, o objeto necessita, também: a)
ser produzido na casa do próprio artesão, ou em alguma
cooperativa de artesãos; b) englobar um número
reduzido de peças; c) ser proveniente de concepção
e execução individual, familiar ou grupal; e d) ter sido
elaborado sob regime de não assalariamento.
29
O II Encontro Nacional do Artesanato definiu
artesão como sendo aquela pessoa que: 1) produz
objetos, manualmente; 2) não utiliza moldes
repetitivos; 3) usa ferramentas simples, ou máquinas
não automatizadas; 4) usa matéria prima regional; 5)
transmite aspectos da cultura regional; e 6) exprime
originalidade étnica e geográfica.
Remanescente do processo pré-industrial de
produção, a fabricação artesanal consiste em um
sistema de produção que se situa entre a arte popular e
a pequena indústria. Esse sistema está subordinado ao
meio ambiente, ou seja, à abundância de determinada
matéria prima local, e funciona como uma alternativa
de emprego e renda, firmada na tradição. Assim,
os indivíduos produzem determinados objetos, de
certas formas, porque seus pais e avós os faziam. A
característica de artesanal, então, não recai sobre o
produto, mas, sobre o sistema específico através do qual
o produto é elaborado, vinculando-se à necessidade
que o ser humano possui de individualização, de não
padronização, em um mundo que se apresenta cada
vez mais massificado. E a confecção de objetos, por
meio de técnicas primitivas, foi atrelada a uma temática
relativamente nova: a do folclore.
Por ser muito extenso e ter sofrido a influência
de vários povos, o Brasil tem uma produção artesanal
bastante diversificada, que varia, ainda, de região para
região. Os nordestinos, particularmente, utilizam uma
série de materiais oriundos da flora e da fauna nativas,
30
a exemplo de:
palhas (de bananeira, de brejauva, de milho);
juta; fibras do tronco do mandioqueiro; fibras de
taboa; fios da folhas da piteira; cipós de bambu,
cipós de taquara, cipós caboclo, cipós imbé, cipós
uma, flechas de ubá; bambus; buchas; ceras de
abelha-cachorro ou abelha- Europa; sementes
de plantas nativas (tais como a lágrima de Nossa
Senhora); vime (vara tenra e flexível do vimeiro);
areias coloridas; tintas de cascas de árvores
(urucum, safroa, anil do mato, aroeira, murici,
imbiruçu); pedras; conchas; argila; gesso; cascas
de coco; chifres; couros; tecidos; penas; linhas;
madeiras (cedro, vinhático, jaqueira, aroeira,
peroba, jequitibá e canela); ossos; dentes e
pelos de animais; folhas de Flandres; cascas de
tartarugas; e sucatas diversas (garrafas PET e
suas tampas, latas de alumínio, embalagens
Tetra Pak, lacres de latas de alumínio de bebidas,
e outros).
Cada material, ou grupo de materiais, dá
origem a um tipo ou variedade de produto artesanal.
Cabe salientar que a tradição barrista dos índios,
juntamente com a incorporação das experiências
trazidas pelos europeus e africanos, contribuíram para o
desenvolvimento do artesanato de barro (argila). Neste,
costuma-se empregar alguns elementos encontrados
no meio ambiente: o massapé (de cor preta), o tauá
(de cor amarela) e o caulim (de cor branca). Eles são
passíveis de formar ligas maleáveis, e seguros para
sofrer a ação da queima.
31
Os produtos artesanais variam, também, segundo
a presença e/ou a abundância dos materiais presentes
no meio ambiente. As tribos indígenas do Maranhão,
em particular, elaboram objetos com palhas, madeiras
e penas de pássaros. Nesse Estado, são elaborados,
ainda: doces de frutas nativas, sucos diversos (de
murici, bacuri, açaí e buriti), cerâmicas figurativas (no
Vale do Parnaíba), cerâmicas utilitárias (em Apiaí),
rendas de almofadas (em Guimarães, São Luís,
Humberto de Campos e Praia do Raposo), cestarias
(em Barreirinhas), tecelagens e redes de dormir (em
Barreirinhas, Alcântara, Pinheiros e São Bento).
A Região Nordeste produz os seguintes tipos
de rendas: de bilros, labirinto, crochê, irlandesa,
renascença e filé. E os bordados mais comuns são:
ponto de cruz, rococó, richelieu, labirinto, ponto cheio
e redendê. Seguindo uma tradição que remonta aos
tempos coloniais, as noivas continuam encomendando
rendas e peças bordadas para enxovais e, os padres,
utilizam as rendas em seus paramentos.
Nos municípios de Marechal Deodoro e Pontal
da Barra, em Alagoas, as mulheres fazem bordados
em linho branco. Já em Caldas de Cipó e Tucano, é
possível se apreciar a confecção de rendas (de bilros,
labirintos e filés), bem como a tecelagem ornamental.
Em Palmeira dos Índios, Porto Real do Colégio, Água
Branca e Igreja Nova fabricam-se peças de barro:
potes e jarras pintadas com tauá vermelho e branco, e
moringas, em formatos antropomórficos. Os municípios
de Tanque d’Arca, Penedo e Passo de Camaragibe
produzem muitas peças de cerâmica.
32
Os artefatos de pesca são fabricados,
particularmente, em Coqueiro Seco, Marechal Deodoro,
Santa Luzia do Norte e Paripureira. Dentre eles, estão
vários tipos de redes de pesca, jererés e puçás, para a
pesca de crustáceos e peixes pequenos. Igaci e Lagoa
do Félix produzem alguns instrumentos musicais (como o
bombo e a zabumba). Em teares bastante rudimentares,
Delmiro Gouveia fabrica redes de algodão e, Girau
do Ponciano, redes com caroá. Em São Sebastião,
encontram-se rendas de bilros e, em Maceió, tecelagens
em labirinto. A renda denominada filé é produzida em
Pontal da Barra e Marechal Deodoro. Na Ilha do Ferro,
situada a dezoito quilômetros do município de Pão de
Açúcar, a atividade principal das mulheres é o bordado
boa noite, o único no Brasil.
Em Catolé do Rocha, na Paraíba, os artesãos
produzem batique - uma pintura à base de tintas e cera
de abelhas - além de uma variedade de redes e rendas.
Com uma argila que já vem vitrificada por natureza, São
Mamede fabrica uma cerâmica especial. O artesanato
de barro, do tipo lúdico (pequenos objetos, bois, cavalos,
elefantes, bonecos e mobiliários infantis), pode ser
encontrado em Patos. Vários brinquedos de qualidade
- confeccionados com madeiras, latas e/ou sobras de
materiais - são fabricados em Itabaiana. Os municípios
de Juarez Távora e Juripiranga produzem cestarias,
trançados e tecelagens (crivos, labirintos e rendas). Os
trançados podem ser apreciados, também, em Salgado
e Serra Redonda.
33
No Estado do Piauí (nos municípios Pedro
II, Simplício, Mendes, Parnaíba, Oeiras, Floriano
e Teresina) estão localizados os grandes centros
produtores de cerâmicas decorativas, produtores de
moringas, potes, pratos e panelas. Em Campo Maior e
Piracuruca, são confeccionados objetos com fibras de
buriti, tucum, carnaúba e agave. Cestarias e trançados
encontram-se em Parnaíba, o maior centro produtor.
Pedro II é o centro mais expressivo de tecelagem
artesanal.
34
Às margens do rio Parnaíba, encontra-se uma
variedade de artesanatos feitos com palha de coco
babaçu. Os troncos de carnaubeiras são trabalhados
para servir de bancos, ou depósitos de mantimentos.
Ainda são fabricadas esteiras de folhas de carnaúba e
de babaçu que, em casas humildes, funcionam como
divisórias entre os cômodos. Outros municípios do Piauí
produzem objetos em madeira: gamelas, pilões, colheres
de pau, santos e anjos. Teresina, Picos e Campo Maior
fabricam malas, arreios, roupas de vaqueiro, e outros
artigos em couro. No Estado, encontram-se, ainda,
tecidos confeccionados com fibras vegetais, rendas
labirinto, bordados, crochês, colchas, tapetes e toalhas.
Em Sergipe, o município de Neópolis representa
o grande centro produtor de cerâmica, mais conhecida
como cerâmica de carrapicho, onde os objetos
evidenciam seus fundos, pintados com tinta preta e
frisos finos, com desenhos de espinhas de peixes,
contornos de aves e asas de passarinhos. Itabaianinha
fabrica cerâmica, além de trançados e cestarias (em
palhas de coco); e, em Divina Pastora, as mulheres
produzem renda irlandesa.
Cascavel, no Ceará, é o maior centro produtor de
cerâmica, mas, outros municípios do Estado, a exemplo
de Juazeiro do Norte e Sobral, também fabricam
objetos em barro, tais como imagens de Padre Cícero
e bois (pintados com flores). Em Fortaleza, Cascavel,
São Mamede, Maranguape, Quixeramobim, Camocim e
Aracati são fabricados chapéus, rendas e bolsas. Caicó
produz trabalhos em couro: cartucheiras, selas, chapéus
35
e chicotes, entre outros. Limoeiro, Russas, Ipu, Aracati,
Itaiçaba e Jaguarana fabricam cestarias e trançados.
Em Sobral, são elaborados chapéus com palha de
carnaúba. Fortaleza, Araçoiaba, Pacajus e Capistrano
produzem tecelagens diversas. Em Juazeiro do Norte,
podem ser adquiridos artefatos em couro, em metal e em
ourivesaria. O município de Itarema, no litoral cearense,
cuja população é descendente dos índios Tremembé, é
um dos poucos lugares do Nordeste que não vivenciou
o impacto do turismo. Lá, em pequena escala, pode-se
apreciar a produção de redes de fibras, feitas por teares
verticais bastante rudimentares.
Com trançados de cipós e palhas, os mestres
artesãos, do Rio Grande do Norte, fabricam bolsas,
vassouras, esteiras, abanos e cestas. Eles utilizam,
também, areias coloridas para elaborar desenhos
em vidros e garrafas. O município de Santo Antônio
dos Barreiros produz cerâmica decorativa (galos
policromados); Mossoró e Nísia Floresta fabricam rendas
e cerâmica utilitária; Caicó produz artigos em couro; em
Luzia, Ana Dantas e Currais Novos são esculpidas, em
madeira, figuras de santos e de animais; e, com esse
mesmo material, entre outros objetos, são fabricados
bandas de pífano em Júlio Cassiano e Jardim do Seridó.
O Estado da Bahia é grande produtor, também, de
artesanatos em madeiras, palhas e prata. O município
de Maragogipinho fabrica cerâmica (vitrificada em seu
interior) com barro amarelo. Rendas de almofadas são
confeccionadas em Castro Alves e Santa Terezinha;
trabalhos em couro, em Ipirá; peças utilitárias (na forma
36
de miniaturas) em Nazaré das Farinhas; redes de
pesca em Xique-Xique; colchas de algodão e de seda,
e espanadores de sisal, em Caldas de Cipó e Tucano;
Itiúba fabrica chapéus com fibras, vários objetos com
palhas de uricuri e ariri, e bolsas de sisal. Na região
do Médio São Francisco, são fabricados cestarias e
trançados. Porto Seguro produz pilões, colheres de pau
e, na Barra, são elaborados caminhões, jipes e carros
de bois (em madeira de buriti) além de bonecas de pano.
É importante lembrar que, no Mercado Modelo,
em Salvador, são comercializados muitos produtos,
tais como: talhas, estátuas, berimbaus, santos, terços,
instrumentos de percussão, pilões, frutas decorativas,
pratos, colheres de pau; e uma série de artefatos de
metal - facas, sinetas, chocalhos, esporas, castiçais,
campainhas, punhais e brasões.
Pernambuco possui uma grande produção
artesanal. Na Casa da Cultura (antiga Casa de
Detenção do Recife) situada no Centro da Capital, e
no Mercado da Ribeira, em Olinda, são colocados à
venda parcela expressiva daquela produção. Viajando
em direção às praias do litoral Norte, encontra-se a
famosa tapeçaria Casa Caiada, famosa até no exterior
do país, que é elaborada por mulheres artesãs. Como
a arte de fazer rendas, essa representa, também, uma
atividade feminina. Ainda na direção norte, encontra-se
o município de Goiana, um centro produtor de cerâmica
e, em especial, de esculturas sacras. Tais esculturas
são fabricadas com mais de um metro e meio de altura,
ou seja, em tamanho natural.
37
O município de Tracunhaém, na Zona da Mata do
Estado, situado a cinquenta e oito quilômetros do Recife,
é um dos maiores centros produtores de cerâmica. Ali, as
casas funcionam como ateliers e os moradores vivem,
textualmente, com “as mãos na massa”, moldando e
esculpindo uma grande variedade de objetos. Ibimirim,
no sertão do Moxotó, localizado a trezentos e oitenta
quilômetros da Capital, produz imagens sacras com
troncos de umburana; e em Passira - município situado
a cento e nove quilômetros do Recife - são fabricados
célebres bordados.
Localizado no agreste pernambucano, Caruaru
produz uma grande variedade de bonecos de barro,
cuja fama e divulgação se deve ao Mestre Vitalino. No
Alto do Moura, é possível se visitar a casa onde morou
e trabalhou esse famoso artesão. A cidade produz,
também, uma série de artefatos em cerâmica, palhas
e madeiras. Todas as terças-feiras, na tradicional Feira
de Caruaru (imortalizada na música do compositor e
sanfoneiro Luiz Gonzaga), são colocados à venda os
produtos artesanais, assim como objetos em zinco
e couro - trajes típicos de vaqueiro, luvas, bolsas,
cintos, sandálias, e bainhas para facas de todos os
tamanhos, entre outros. Nos arredores do distrito de
Fazenda Nova, em pleno Agreste, situado no município
de Brejo da Madre Deus, pode-se apreciar o Parque
das Esculturas: um conjunto de esculturas, em rocha
granito, elaboradas por artesãos locais, que pesam
entre dez e vinte toneladas, cada uma delas.
A xilogravura foi, possivelmente, introduzida por
missionários portugueses, que ensinaram aos índios
38
essa técnica. As gravuras em madeira têm sido muito
utilizadas nas capas dos folhetos de literatura de cordel,
desde o século XIX, bem como em rótulos de garrafas
de cachaça e outros produtos. O município de Bezerros,
próximo a Caruaru, destaca-se pelas xilogravuras
dos irmãos Jota Borges e Amaro Francisco (este, já
falecido), e de Severino Borges, entre outros.
Cabe explicar o processo de elaboração da
xilogravura. A gravura é entalhada em uma madeira,
mediante o uso de um canivete ou uma faca bem
amolados; em seguida, é aplicada uma tinta de
impressão sobre o molde e, por fim, o desenho é
impresso sobre um tecido ou cartolina. Às margens da
39
BR-232 e abertos à visitação pública, estão situados o
Centro de Artesanato e o Memorial Jota Borges, que
funcionam como centros de referência dessa arte tão
popular no Estado.
Pesqueira fabrica belíssimas peças com renda
renascença (blusas, vestidos, toalhas e centros de
mesa, colchas de cama, panos de bandeja, entre outros),
diversos tipos de bordados e doces deliciosos (de goiaba
e de banana). Timbaúba e Taracatu produzem redes. Na
Ilha de Itamaracá, situada no litoral Norte do Estado, é
produzido um excelente artesanato com chifres de boi anéis, barcos, figas, animais, pássaros, navios, peixes,
e outros -, bem como cestarias e trançados com fibras e
palhas, e objetos em pedras e conchas.
O trabalho artesanal, no Nordeste, é uma
atividade de intensa ocupação de mão de obra. A
cadeia de atravessadores, porém, que se estende do
produtor até o cliente, contribui para diluir, também, o
pequeno lucro do artesão. Neste sentido, o criador de
“riquezas culturais” é o menos rico, aquele que menos
usufrui da renda advinda de sua produção. Para tal
situação se reverter, e a produção artesanal beneficiar
mais os artesãos, ela necessita se transformar em uma
atividade de mercado e deixar de ser, apenas, a precária
atividade de subsistência que, hoje, é.
40
BABAÇU
O denominado babaçu verdadeiro (Orbignya phalerata Martius) é uma das mais importantes palmeiras oleaginosas do extrativismo vegetal brasileiro,
e uma das mais adaptadas às condições ecológicas
da Amazônia Oriental e de alguns Estados do Norte
e Nordeste do Brasil - particularmente, Maranhão,
Piauí, Tocantins e Pará. Nessas terras, encontram-se,
também, outras espécies de babaçu - a piaçava alta
(Orbignya Teixerana Bondar), e a piaçava baixa (Orbignya eichleri Drude) - que possuem utilidade idêntica
ao chamado babaçu verdadeiro. Essas palmeiras se
desenvolvem, melhor, em terras de várzeas, pequenas colinas e elevações, e espaços próximos aos vales
dos rios. Os indígenas atribuíram alguns nomes específicos, ao babaçu, tais como: aguaçu, uauçu, coco-demacaco e coco-pindoba.
Segundo Cascudo (1954), o frei capuchinho
francês Claude D’Abbeville, no início do século XVII, já
ressaltava a importância, dos frutos daquela palmeira,
na alimentação dos índios nordestinos, que os chamavam de uauaçu (em língua tupi). O frei ficou tão encantado com a beleza e a diversidade da flora maranhense
que, em sua obra - História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão - comparou os baba41
çuais com o próprio paraíso terrestre. De maneira geral,
os primeiros visitantes europeus ficaram maravilhados
com a exuberante flora nativa do país e, em notas de
viagens, cartas, relatos e iconografias, registraram seu
fascínio. O babaçu representa o principal produto do
extrativismo vegetal do Maranhão. No Estado, uma
quarta parte do território encontra-se coberta por
babaçuais. Cada palmeira pode produzir, até, seis
cachos de cocos, por safra, sendo responsável por 80%
da produção nacional de amêndoas. O babaçu fornece
cerca de setenta subprodutos e, dele, tudo se aproveita.
Suas folhas arqueadas chegam a medir oito metros de
comprimento e, nas zonas rurais, são utilizadas como
telhado das casas.
Com a palha seca trançada e a casca do coco são
produzidos diversos objetos artesanais, decorativos e
utilitários: cestas, esteiras, chapéus, peneiras, brincos,
pulseiras, colares, prendedores de cabelo, janelas,
portas, bandejas, gaiolas, armadilhas, abanos, bolsas,
toalhas, caminhos de mesa, jogos americanos,
sandálias, bonés, porta canetas, embalagens. Estes
produtos são comercializados em feiras, mercados e
lojas de artesanatos e, ainda, exportados, representando
uma valiosa fonte de renda para a população.
Cabe registrar o importante apoio do Serviço de
Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), desde
1999, em relação aos projetos de Desenvolvimento
Local Integrado e Sustentável (DLIS), que incentiva
os pequenos negócios artesanais para a geração de
renda, junto às Associações de Mulheres, além de
42
atividades de extração e beneficiamento das amêndoas
de babaçu, para a obtenção de óleo.
O mesocarpo da palmeira é usado em mingaus
de crianças e, o caule, aproveitado na estrutura de
construções e marcenaria rústica. A casca da amêndoa
pode se transformar em um eficiente carvão para
uso doméstico e, quando é queimada, produz uma
fumaça que atua como um eficaz repelente de insetos.
Ainda da casca, outros produtos são gerados para
aplicação industrial, tais como metanol, coque, carvão
reativado, gases combustíveis e alcatrão. Durante os
longos períodos de seca, na ausência de outra fonte
de alimentação, os animais comem as cascas das
amêndoas.
Se a palmeira do babaçu for jovem, é possível
se extrair um palmito de boa qualidade. As amêndoas
verdes, segundo pesquisas do Instituto de Recursos
Naturais do Maranhão, quando recém extraídas,
raladas, espremidas com um pouco de água, e coadas
através de um pano fino, fornecem um leite com
propriedades nutritivas semelhantes às do leite humano,
que é utilizado na culinária local. Em substituição ao
leite de coco, esse leite é usado para molhar o cuscuz
- seja ele de milho, de arroz, ou seja de farinha de
mandioca - no tempero de peixes, carnes de caça e
bolos, ou bebido in natura, como alternativa ao leite de
vaca. Quando está madura, a parte externa do fruto é
comestível. Do pedúnculo do cacho cortado, os índios
extraem um líquido que, fermentado, se transforma em
uma apreciada bebida alcoólica.
43
As amêndoas do babaçu representam duas
terças partes do total de seu peso e, assim como as
do dendê e do buriti, possuem um elevado teor de
matérias graxas. Neste sentido, seu principal destino
são as indústrias de esmagamento. O óleo é obtido
através de extração mecânica a quente, ou usandose solventes. Este último processo, porém, embora se
apresente mais eficiente, é mais dispendioso. O óleo
comestível possui odor e sabor suaves, e uma cor que
varia da branca à amarelada, em função da temperatura
usada em sua extração. Com ele, fabricam-se margarina
e ração animal.
Há um grande interesse, por parte das indústrias,
em conhecer o comportamento reológico dos alimentos.
Uma vez que o azeite do coco do babaçu pode competir
com outros óleos combustíveis, tornou-se relevante
estudar a sua viscosidade, porque ela está relacionada,
diretamente, com a qualidade dos produtos. (CASTRO;
BRAGA, et alii, 2002).
Dentre os óleos vegetais, de uso industrial,
o de babaçu apresenta o índice mais elevado de
saponificação, e o mais baixo teor de iodo e refração.
Tais fatores são importantes para alimentar o mercado
de óleos láuricos (produtos de higiene, limpeza e
cosméticos). A Gessy Lever, a Nestlé, e a Braswey estão
entre as maiores empresas consumidoras de óleos e
gorduras láuricas. O óleo de babaçu também representa
um ingrediente relevante, no preparo de pomadas
cremosas e sabonetes naturais, que funcionam como
excelentes hidratantes, e cuja embalagem é trançada
com a própria fibra da palmeira. Além disso, a Medicina
44
Natural utiliza esse óleo como antiinflamatório, em
massagens nas partes doloridas do corpo. Com ele
são fabricados, inclusive, lubrificantes, combustível e
glicerina.
Milhares de mulheres, auxiliadas por crianças,
trabalham nos babaçuais do Maranhão, do Piauí, de
Tocantins e do Pará. Nas comunidades que vivem do
extrativismo, costumam-se dizer: se alguma mulher
ainda não foi “quebradeira” de coco, um dia virá a sê-lo.
Essa atividade é feminina, por tradição, e executada de
modo artesanal. As mulheres sustentam um machado,
preso sob uma das pernas, com a parte cortante voltada
para cima, onde apóiam o coco, batendo nele com um
pedaço de madeira, até parti-lo. Feito isso, retiram a
amêndoa e colocam-na em um cesto de palha de babaçu
(caçuá). Neste procedimento rudimentar, algumas
amêndoas saem machucadas, e podem fermentar e se
deteriorar durante as longas viagens até as indústrias,
representando um prejuízo econômico para quem vive
da extração. De acordo com estimativas, há cerca de
400 mil pessoas, quase todas mulheres, que sobrevivem
do extrativismo, da industrialização do óleo, e de outros
produtos do babaçu.
Uma pesquisa realizada no norte de Tocantins
salientou que “1 quilo de amêndoa é comprado por um
preço entre R$ 0,50 e R$ 0,60, enquanto 1 litro de óleo
de babaçu (que é obtido com 2 quilos de amêndoas)
chega a ser vendido por R$ 5,00. Uma quebradeira
de coco extrai, em média, 5 quilos de amêndoas por
dia” (CAMPOS, 2006). E, de cem quilos de cocos
45
quebrados, são extraídos, no máximo, oito a dez quilos
de amêndoas.
No Maranhão, o auge da economia babaçueira
teve lugar entre as décadas de 1960 e 1980, período em
que funcionavam, no Estado, cinquenta e duas empresas
de médio e grande porte, produzindo óleo bruto e óleo
refinado para abastecer as indústrias alimentícias e de
higiene e limpeza, seja no mercado nacional, ou seja no
internacional. Entretanto, com o avanço da produção de
soja, e com os preços competitivos do óleo do sudeste
asiático, que concorrem com os preços brasileiros,
muitas indústrias faliram.
Grande parte das dificuldades das quebradeiras
de coco tem suas raízes no processo agrário, que o
Maranhão viveu a partir de 1969, quando foi aprovada
a Lei de Terras. Esta Lei impulsionou a formação de
grandes propriedades, e a apropriação privada de
extensas áreas públicas. A atividade extrativista foi
proibida, as cercas proliferaram, e as florestas foram
substituídas por pastagens e plantações. Em 1997,
porém, aprovou-se a Lei do Babaçu Livre, visando a
assegurar aos extrativistas o acesso às palmeiras,
mesmo quando elas se encontrassem em propriedades
privadas. E impôs restrições à derrubada, ou à
queimada, de babaçuais. Por outro lado, em 2003, um
Projeto de Lei estendeu a Lei do Babaçu Livre a todos
os babaçuais do país, colocando, na agenda política
nacional, o debate sobre o assunto (CAMPOS, 2006).
No Maranhão, no Pará, em Tocantins e no
Piauí, duas entidades vêm atuando junto à população
feminina - a Associação de Mulheres Trabalhadoras
46
Rurais (AMTR), e o Movimento Interestadual das
Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), de caráter
regional e interregional, respectivamente, para garantir
os direitos e, em especial, para assegurar o livre acesso
aos babaçuais. É importante registrar que, a despeito
de todos os esforços, a Lei do Babaçu Livre jamais
garantiu a integridade física das quebradeiras de coco.
Em nome da geração de áreas de pasto, para
a pecuária, os babaçuais têm sido alvos de grandes
devastações. Sendo assim, o deputado Domingos
Dutra (PT/MA) - filho de uma quebradeira de coco do
Maranhão – elaborou o Projeto de Lei 231/2007, que
foi aprovado, por unanimidade, pela Comissão de
Meio Ambiente da Câmara, e que proíbe a derrubada
de palmeiras de babaçu nos Estados do Maranhão,
do Piauí, de Tocantins, do Pará, de Goiás e de Mato
Grosso. As únicas exceções, apenas, dizem respeito
àquelas áreas destinadas a determinadas obras, aos
serviços de utilidade pública, ou ao interesse social. A
competência para a execução e a fiscalização da Lei
ficou a cargo do Ministério do Meio Ambiente. Esperase, neste sentido, que esse Órgão consiga cumprir as
determinações do Código Florestal Brasileiro.
A exploração do babaçu contribui para a absorção
de mão de obra e a fixação da população no campo, ao
passo que o desmatamento indiscriminado acarreta em
expulsão e empobrecimento das pessoas que ocupam
aquelas áreas. Apesar das grandes queimadas, percebese que o babaçu é bastante resistente, e se regenera
com rapidez. Isto é possibilitado pelo surgimento de
pindovas, as mudas da palmeira que parecem ser
47
imunes, também, aos predadores de sementes. Calculase que os babaçuais ocupem 18 milhões de hectares,
principalmente, no Maranhão. De acordo com o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), depois da
madeira, o principal produto florestal brasileiro foi o
coco do babaçu, que representou 19,4% da produção
extrativista no ano 2005.
Alguns Estados brasileiros desenvolvem
estudos, com várias plantas, voltados para a produção
energética. Combustíveis alternativos ao óleo diesel,
e menos poluentes, são pesquisados, também,
objetivando a melhor conservação do meio ambiente
e a diminuição do efeito estufa. É possível se produzir
biodiesel a partir do babaçu. No entanto, as quebradeiras
de coco temem ficar prejudicadas com as mudanças
que surgiriam, com a implementação de uma produção
mecanizada em escala industrial.
No Maranhão, em particular, professores e
membros do Grupo de Combustível Alternativo (GCA)
trabalham para formar parcerias com Instituições
de Governos e Organizações Não Governamentais
(ONGs), visando à implementar o biodiesel a partir
do óleo de babaçu. O Programa Biodiesel desenvolve
seus projetos tomando as plantas oleaginosas, de cada
Estado, como ponto de partida. No Pará, por exemplo, é
o dendê; no Piauí, no Ceará e no Rio Grande do Norte,
a mamona; e, no Sul e no Sudeste, a soja.
A partir de 2008, os carros da Fórmula 1 deverão
utilizar 5,75% de combustíveis renováveis, já que os
ônibus e os carros vêm utilizando etanol e biodiesel há
48
alguns anos. A título de experimentação, a companhia
aérea Virgin Atlantic, de propriedade de Richard Branson,
divulgou ter abastecido um dos quatro motores de seu
Boeing 747 com uma mistura de combustível normal
(o querosene de aviação) e 20% de óleo de babaçu.
Isto foi feito em um dos motores, somente, a título de
experimentação, e em um vôo sem passageiros, para
garantir que, se aquele motor viesse a falhar, os outros
compensariam a perda de potência, evitando-se, assim,
a queda da aeronave. Sem apresentar problemas, o
Boeing saiu de Londres, na Inglaterra, e pousou em
Amsterdã, capital da Holanda. O óleo de babaçu ainda
não foi utilizado, sozinho, em todos os motores, porque
os cientistas estão pesquisando uma maneira de ele não
congelar em grandes altitudes. (O BOEING..., 2008)
Os babaçuais estão localizados nas áreas onde
predominam as maiores desigualdades socioeconômicas
do Brasil. A despeito desse fato, as mulheres
quebradeiras de coco consideram aquelas palmeiras
uma verdadeira mina de ouro vegetal. Paradoxalmente,
ou não, sem as palmeiras, elas iriam viver em uma
situação ainda pior. 49
50
BAOBÁ
51
O baobá é uma árvore de grande porte,
proveniente das estepes africanas e regiões semiáridas
de Madagascar, e está presente, também, no continente
australiano. Essa árvore foi amplamente divulgada
no século XX, através da obra O Pequeno Príncipe,
do escritor francês Antoine de Saint-Exupery. Seu
personagem principal se preocupava com o crescimento
excessivo do baobá, temendo que ele tomasse todo o
espaço existente em seu asteroide.
O baobá possui um tronco muito espesso, na
base, chegando a atingir nove metros de diâmetro. Seu
tronco é peculiar: vai se estreitando em forma de cone,
evidenciando grandes protuberâncias. As folhas brotam
entre os meses de julho e janeiro, mas, se a árvore
conseguir ficar umedecida, elas podem se manter
firmes durante todo o ano. Em geral, o baobá floresce
durante uma única noite, apenas, e isto ocorre no
período de maio a agosto. Durante as poucas horas em
que as flores permanecem abertas, os consumidores
de néctares noturnos - particularmente, os morcegos -,
asseguram a polinização da planta.
Tal colosso vegetal pode atingir trinta metros de
altura e possui a capacidade de armazenar, em seu
caule gigante, até 120.000 litros de água. Por essa razão
é denominada “árvore garrafa”. No Senegal, o baobá
é sagrado, sendo utilizado como fonte de inspiração
para lendas, ritos e poesias. De acordo com uma antiga
lenda africana, se um morto for sepultado dentro de um
baobá, sua alma irá viver enquanto a planta existir. E o
baobá possui uma vida muito longa: vive de um mil a
52
seis mil anos. Em se tratando das espécies vegetais,
somente a sequoia - uma conífera de grande porte,
originária da Califórnia (EUA), que chega a medir doze
metros de diâmetro, alcançar uma altura de cento e
cinquenta metros, e viver mais de quatro mil anos -,
e o cedro japonês - outra conífera do gênero - podem
competir com a longevidade do baobá.
Aquela árvore mítica e solitária, da savana
africana, faz parte da família das bombacáceas
(palavra derivada de bomba, uma linguagem falada e
oficializada na Guiné Equatorial). O seu nome, contudo,
muda de acordo com a língua de cada país. Em Angola
e Moçambique, é chamada imbondeiro; e, na GuinéBissau, é denominada pólon.
Em 1444, conduzidos por Gomes Piers, os
navegantes portugueses chegaram à ilha africana
de Gorée (pertencente, hoje, ao Senegal), e
permaneceram no local até 1595, período em que a ilha
se tornou propriedade dos holandeses. Os navegantes
registraram que, lá, se podia apreciar, ainda, o brasão
de Dom Henrique, gravado em árvores. Por sua vez,
na metade do século XV, o cronista Gomes de Eanes
Zurara, na obra Chronica dos Feitos de Guiné (Lisboa,
1453), assim descreveu as árvores encontradas:
Árvores muito grandes e de aparência estranha;
entre elas, algumas tinham desenvolvido um
cinturão de 108 palmos a seu pé (ao redor 25
metros). O tronco de um baobá não mais alto do
que o tronco de uma árvore de noz; rende uma
fibra forte usada para cordas e pano; queima
53
da mesma maneira como linho. Tem um grande
fruta lenhosa como abóbora cujas sementes são
do tamanho de avelãs; pessoas locais comem
a fruta quando verde, secam as sementes e
armazenam uma grande quantidade delas .
Antes do Descobrimento, o baobá não pertencia
à flora brasileira. A hipótese mais plausível, visando
explicar a sua existência em Pernambuco, é a de
que tenha sido trazido, no século XVII, pelo conde
Maurício de Nassau, durante a ocupação holandesa,
para fazer parte de seu jardim botânico privado (que foi
construído próximo à atual Praça da República). Uma
segunda versão, porém, credita a presença do baobá
às aves migratórias, que teriam trazido consigo suas
sementes. O pesquisador Câmara Cascudo considerou
uma terceira possibilidade: a de que os sacerdotes
africanos trouxeram as sementes do baobá, da África,
e plantaram-nas em locais específicos, no Brasil, para
o culto de suas religiões. Vale lembrar, a esse respeito,
que os praticantes do candomblé consideram o baobá
uma árvore sagrada, e dizem que não se deve cortá-la
ou arrancá-la.
Em 1749, o pesquisador francês Michel Adanson,
voltando da viagem para São-Louis, no Senegal,
elaborou desenhos e descreveu o seguinte, em seus
registros:
Chamou-me à atenção uma árvore cujo tamanho
era incrível. Era uma árvore que tinha frutos com
formatos de abóboras, de nome “pão de macaco”
no qual os Wolots diziam ”goui” no idioma deles.
54
Provavelmente a árvore mais útil em toda a
África... a árvore universal para os nativos.
A partir de então, os pesquisadores Bernard de
Jussieu e Charles de Linné creditaram, para Michel
Adanson, o nome científico do baobá, chamando-o
Adansona digitata. E, na França, desde 1791, a
Enciclopédia de Diderot e d’Alembert adotou a
denominação. Até o presente, já foram classificadas
oito espécies de baobás, porém, a maior parte deles,
se encontra em Madagascar. Os baobás classificados
foram os seguintes:
· Adansonia digitata - (na África Central e no Sul
da África);
· Adansonia grandidieri - (em Madagascar);
· Adansonia gregorii (ou Adansonia gibbosa) (no
Nordeste da Austrália);
· Adansonia madagascariensis - (em Madagascar);
· Adansonia perrieri - (em Madagascar);
· Adansonia rubrostipa (ou Adansonia fony) - (em
Madagascar);
· Adansonia suarezensis - (em Madagascar); e
· Adansonia za - (em Madagascar).
Datado de 1853, existe outro registro, em
continente africano, sobre a presença do baobá. Sobre
a legendária árvore, observando-a na região de Mbour,
o padre David Boilat escreveu:
... as árvores são surpreendentemente grandes e
muito numerosas: Eu medi algumas e o cinturão
era de 60 a 90 pés (20 a 30 metros). Não só
55
é esta árvore útil para os nativos, também é
essencial, eles não sobreviveriam sem ela. Com
suas folhas secadas, eles fazem um pouco de pó
que eles chamam de lalo o qual eles misturam
o “kouskous”. Eles usam as raízes como um
purgante; eles bebem chá quente que curam
doenças torácicas. A fruta chamada “o pão de
macaco” é usada para coalhar leite e também é
servida com a comida que eles chamam de “lack”
ou “sangle” (...). Esta árvore às vezes é escavada
para formar casas...
O padre declarou, ainda, ter conhecido um
baobá, na África, cujo tronco era realmente enorme,
atingindo vinte e seis metros de diâmetro. Nele, havia
dois quartos, que eram usados por uma família como
casa e loja. Cabe observar que, em Kimberleys, uma
área da Austrália Ocidental, há registros de prisioneiros
encarcerados dentro de troncos de baobás.
Todos os elementos dessa árvore são úteis
para a sobrevivência do ser humano, e representam,
também, uma fonte preciosa de medicamentos. O pó
originado de suas folhas secas, trituradas, tem sido
usado para combater a anemia, o raquitismo, a diarreia,
o reumatismo e a asma. As folhas são utilizadas, ainda,
como alimentos. Por serem ricas em cálcio, ferro,
proteínas e lipídios, elas são quebradas e misturadas
em sopas, ou adicionadas a cereais, para enriquecer
a alimentação de crianças. O pó, inclusive, misturado
com água, transforma-se em uma bebida parecida
com o leite de coco. As raízes das mudas de baobás,
quando são devidamente cozidas, tornam-se similares
56
ao aspargo. As sementes, repletas de óleo vegetal,
são assadas e consumidas. A polpa branca e as fibras
de seus frutos contêm um alto teor de vitamina C,
servindo para combater a febre, a malária, o sarampo
e a catapora, além de inflamações no tubo digestivo.
Os aborígenes costumam comer as frutas dos baobás
e usam suas folhas como plantas medicinais.
No que diz respeito à construção civil e à
carpintaria, o baobá é utilizado, somente, quando
não há outro material disponível. Contudo, em certas
regiões, as pessoas escavam o seu tronco e utilizam-no
como cisterna comunitária. A madeira do baobá serve
para fabricar instrumentos musicais e, o seu cerne,
rende uma fibra tão forte, que é usada na fabricação
de cordas e linhas. E as conchas dos seus frutos são
aproveitadas como tigelas.
Na Capital de Pernambuco, os raros baobás
que resistiram ao desmatamento e à depredação
ambientais, foram tombados pela Prefeitura da Cidade
e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), em 1986. No
Recife, essas árvores podem ser apreciadas, entre
outros lugares, na Praça da República (em frente ao
Palácio do Governo); na Praça da SUDENE (no bairro do
Engenho do Meio); na rua Coronel Urbano Ribeiro Sena
(no bairro do Fundão); na rua Madre Loiola (em Ponte
d’Uchôa); e no Poço da Panela (nos terrenos limítrofes
de duas casas que se situam, respectivamente, nas
ruas Professor Edgar Altino e Bandeira de Melo).
Fora da Região Metropolitana do Recife, são
57
poucos os baobás que escaparam da destruição.
Contados nos dedos, eles podem ser observados no
Engenho Poço Comprido (em Vicência); na área do
Complexo Portuário de Suape (no município do Cabo);
na Usina Ariepibu (em Ribeirão); no Sítio Capivarinha
(em Sanharó); na Fazenda Pitombeiras (em Serra
Talhada); no município de Tacaratu; na praia de Porto
de Galinhas, e na Vila de Nossa Senhora do Ó (ambos
no município de Ipojuca). Nessa Vila, existe um baobá
com quinze metros de diâmetro e mais de trezentos e
cinquenta anos de existência.
Precisa-se plantar mais baobás no Brasil!
58
BOI VOADOR
No século XVI, o Nordeste brasileiro passou a
fazer parte das rotas do comércio internacional, devido
ao fato de ser um grande produtor de Pau-Brasil e de
açúcar, mercadorias altamente valorizadas na época.
Sendo assim, os navegadores holandeses começaram
a navegar, também, pelas costas brasileiras, como
atores importantes daquele comércio. Já no século XVII,
dois centros urbanos, em particular, atraíam a atenção:
Salvador, na Bahia, e Olinda, em Pernambuco.
A primeira tentativa da Holanda, para conquistar
as novas terras, contou com a participação de Piet Hein,
e consistiu na ocupação da Bahia, por um ano, em 1624.
A seguir, o mesmo holandês voltou a atacar Salvador,
mas, se limitou a apreender vários navios carregados
com os produtos daqui.
Em 1630, a conquista de Olinda resultou em
uma posterior e mais bem organizada campanha. A
cidade representava a Capital da florescente Capitania
de Pernambuco, uma região rica em Pau-Brasil, e o
principal centro produtor de açúcar do mundo, além
de ser o maior centro comercial, religioso e artístico do
Nordeste do Brasil. Cabe registrar que a madeira do
Pau-Brasil, até hoje, é utilizada na fabricação de arcos
para violinos, com o nome Pernambuco.
59
Até 1637, em toda a região, as escaramuças
e atividades de guerrilha conseguiram impedir os
movimentos dos holandeses. Nesse ano, porém, algo
muito importante aconteceu: a Companhia das Índias
Ocidentais (CIO) designou o conde João Maurício de
Nassau-Siegen (1604 - 1679), um homem possuidor de
grande capacidade militar e visão empreendedora, como
Governador dos seguintes territórios conquistados:
Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão,
Sergipe, além de Angola, na África, de onde saíam os
escravos para trabalhar nas plantações de cana-deaçúcar.
Dessa forma, o Brasil viveria, quase três décadas
(1630-1654), um período de dominação, por parte da
Companhia das Índias Ocidentais (CIO). Tal experiência
deixou marcas duradouras no país, em particular, no
Nordeste, tendo-se constituído em seu melhor momento
- o período do conde Maurício de Nassau, denominado
Maurits de Braziliaan - e em uma das experiências mais
bem sucedidas da atuação europeia.
Os sete anos do Governo de Nassau (16371644) deixaram a memória de uma época de ouro,
até hoje reconhecida no Brasil. Nassau estabeleceu
uma trégua com a guerrilha dos lusobrasileiros, e criou
uma civilização inédita nos trópicos. Contrapondose aos interesses, exclusivamente, mercantilistas
da CIO, o conde holandês preocupou-se em manter
uma convivência pacífica com os habitantes locais inclusive e sobretudo, com os senhores de engenho
– e estabeleceu uma liberdade religiosa nunca antes
60
vivenciada, na qual os papistas, os calvinistas e os
judeus conviviam e produziam em plena harmonia. Foi,
sem dúvida alguma, o maior contraste em relação à
intolerância religiosa da Inquisição, por parte da Igreja
Católica, e dos calvinistas.
A Igreja Católica, acusando de traição, heresia,
bruxaria e impureza de sangue, torturava, perseguia e
queimava todos os judeus não convertidos ao catolicismo,
ou suspeitos de seguirem a religião mosaica. E os
calvinistas, sob a alegação de que lá havia um excesso
de igrejas católicas, incendiaram a bela e próspera
vila de Olinda, em 1631. Foi no Recife de Nassau que
surgiu a primeira sinagoga das Américas, na antiga
Rua dos Judeus, atual Rua do Bom Jesus. O templo,
recentemente descoberto e restaurado, destinavase aos cultos dos judeus sefaraditas portugueses e
espanhóis que, fugindo do Tribunal do Santo Ofício,
vieram se estabelecer no Nordeste do País, bem longe
da Península Ibérica.
O período de Nassau testemunhou diversas
experiências inéditas para o Novo Mundo. Mauritiopolis
representou um projeto urbanístico, criado por Pieter
Post, com base nos conhecimentos mais avançados
da época. O conde trouxe para o Nordeste dois jovens
pintores talentosos - Frans Post e Albert Eckhout - que
deixaram o mais importante legado artístico do Período
Colonial.
Muitos quadros de Frans Post encontram-se
expostos, hoje, na cidade do Recife, distribuídos entre o
Instituto Ricardo Brennand (que abriga a maior parte do
acervo), o Museu do Estado de Pernambuco, o Instituto
61
Arqueológico, Histórico e Geográfico e o Palácio do
Governo de Pernambuco.
Os dois artistas retrataram paisagens, tipos
humanos, riquezas da fauna e da flora locais, engenhos
de açúcar, monumentos e ruínas do incêndio de Olinda,
e criaram uma obra sem precedentes: um mundo
exótico e, até então, completamente desconhecido, que
foi apresentado aos europeus.
Foi na cidade Maurícia que surgiram, ainda,
os primeiros jardim botânico e jardim zoológico das
Américas. Lá, foram tomadas, inclusive, as primeiras
medições sistemáticas de meteorologia, e realizadas as
primeiras observações astronômicas, com telescópios
europeus, em continente americano. Na cidade Maurícia
reuniu-se o primeiro Parlamento e, no final do período
holandês, foi, daquela cidade, que os judeus saíram do
Recife, rumo à América do Norte, fundando a primeira
Congregação Israelita de New York.
Acima de tudo, Nassau foi um importante
mecenas: ele trouxe, para o Nordeste brasileiro, um
pequeno exército de cientistas, cartógrafos, artistas
e administradores holandeses, que deram à Maurícia
(Mauritstad ou Mauritiopolis, atual Recife) uma dimensão
e um brilho jamais imaginados nas Américas.
Ao se registrar as grandes realizações de Nassau,
faz-se necessário lembrar a figura do boi voador: um
espetáculo sem precedentes que marcou a história da
cidade Maurícia. O espetáculo estava relacionado à
inauguração de uma ponte do Recife, denominada hoje
de ponte Maurício de Nassau, no dia 28 de fevereiro de
62
1644. O inteligente e astuto conde já estava de partida
para a Holanda, e desejava, não apenas, que muitas
pessoas homenageassem o evento, mas, queria que
elas pagassem um determinado pedágio para passar
pela ponte. Neste sentido, aproveitou a curiosidade
geral, para ganhar dinheiro e recuperar parte dos gastos
empregados naquela construção.
A notícia de que faria um boi voar, durante a
inauguração da ponte, mobilizou a população para o
espetáculo inédito. Isto foi documentado e ficou inserido
na memória coletiva das pessoas, graças ao registro do
frei Manuel Calado, uma testemunha ocular que, sobre
o fato, escreveu uma crônica.
A ponte construída sobre o rio Capibaribe
separava o Recife e a sede do Governo, da ilha de
Antonio Vaz, local onde Nassau residia. Era uma
obra grandiosa. Ela possuía uma parte levadiça, que
permitia a passagem de grandes embarcações. E o
boi, assegurava o Governador holandês, iria voar sobre
ela. No entanto, ninguém conseguia imaginar de que
maneira um animal pesado e terrestre, como um boi,
poderia fazer tal proeza.
Embora quisesse fazer parecer obra de mágica,
Nassau fez uso de sua engenhosidade, apenas, e de
seus conhecimentos básicos de ciência. Em primeiro
lugar, escolheu o animal que participaria do espetáculo.
Deveria ser um boi manso, que ficasse imóvel durante o
dia da inauguração, e pudesse ser observado por todos
os espectadores. Daí, escolheu o “boi de Melchior”, um
animal de pelo amarelado, que era famoso na cidade
63
por subir escadas e entrar nas casas. Durante o dia, as
pessoas observavam, na terra, o boi que voaria à noite.
Maurício de Nassau providenciou, então, um
grande pedaço de couro, do mesmo tamanho que o
de um boi verdadeiro, mandou empalhar o couro e, em
seguida, inflá-lo como se fosse um balão. Quase no
final da tarde de um domingo, esse boi foi amarrado
com cordas fininhas, e colocado sobre roldanas, entre
as duas torres do Palácio Friburgo (a sede do Governo).
Nada disso podia ser visualizado pelo grande público,
que lotava as praias e os barcos no rio Capibaribe.
Cabe salientar que, na hora prevista, o falso
animal era controlado por alguns marinheiros. E eles
faziam o boi dar muitas cambalhotas no ar, para o delírio
de todos. Foi um grande espetáculo, um verdadeiro
sucesso! Além disso, os cofres da Coroa holandesa
arrecadaram cerca de 20.800 florins.
A estória do boi voador entrou para a História,
atravessou os tempos, tornou-se, inclusive, tema de
Escola de Samba e letra de uma música de Chico
Buarque e Ruy Guerra.
Boi voador não pode
Quem foi, quem foi,
Que falou no boi voador,
Manda prender esse boi,
Seja esse boi o que for.
O boi ainda dá bode,
Qual é a do boi que revoa,
64
Boi realmente não pode,
Voar à toa!
É fora, é fora, é fora,
É fora da lei, é fora do ar,
É fora, é fora, é fora,
Segura esse boi,
É proibido voar!
65
66
BOTO
67
Rodrigues Ferreira, em fevereiro de 1790,
e Henry Walter Bates, um inglês que permaneceu
onze anos pesquisando a flora e a fauna da região
amazônica, descobriram e estudaram, cientificamente,
o boto. Este cetáceo é um mamífero completamente
aquático, como a baleia e o golfinho, que habita os rios
do Norte do Brasil. Ele possui uma cabeça grande, um
bico dentado, um corpo afilado e quase desprovido de
pelos, grandes nadadeiras dianteiras (semelhantes às
pás dos remos), duas mamas em posição posterior,
uma cauda que finaliza em nadadeira larga e horizontal,
e um sistema sonar sofisticado, localizado em uma
saliência da cabeça, que emite ondas sonoras. Tais
ondas o auxiliam a se orientar nas águas barrentas dos
rios. O boto não possui membros posteriores e pode
se apresentar em várias cores. Ao nascer, pesa cerca
de sete quilos e, quando atinge à idade adulta, pode
chegar a pesar, até, cento e sessenta quilos.
Na Região Norte, existem várias lendas e
superstições envolvendo o boto. Uma delas ressalta
que ele é encantado: durante o dia, permanece nos
rios, mas, ao anoitecer, transforma-se em um rapaz
de pele branca, bonito, elegante, e educado como um
cavalheiro. Ele sempre usa um chapéu branco (para
esconder o orifício que tem no alto da cabeça, e que
serve para respirar), gosta de beber, de frequentar festas
e bailes, é um exímio dançarino, e tenta conquistar as
moças bonitas, preferindo aquelas que se vestem com
roupas vermelhas.
Sem condições de resistir aos seus encantos,
muitas jovens são levadas às margens dos igarapés e,
68
com o belo cavalheiro, têm relações sexuais. Quando
o dia amanhece, porém, o seu encanto termina: ele
perde a forma humana e retorna aos rios. De acordo
com a lenda, esse processo ocorre, diariamente, e
as jovens seduzidas engravidam, de imediato. Sendo
assim, na Região Norte, atribui-se ao boto a culpa por
defloramentos, adultérios, e nascimento de crianças
cuja paternidade é desconhecida. As pessoas dizem
logo: é filho do boto!
Segundo outra lenda, à noite, o animal se
transforma em uma linda moça de cabelos longos, que
sai para passear e tenta encaminhar os rapazes até
os rios. Caso um deles decida segui-la, não terá um
destino promissor: com um grito de triunfo, ele agarrará
a jovem enamorada, pela cintura, e a afundará nos rios. De acordo com as superstições correntes, moças
virgens e/ou menstruadas não devem viajar de barco,
ou de canoa, porque podem ser perseguidas pelo boto:
arrebatadas por ele, são levadas para o fundo das
águas e defloradas. Em caso de naufrágios, acreditase que o boto socorre, apenas, as moças, deixando os
rapazes à mercê da própria sorte. Por sua vez, dizem
que é proibido matar esse animal: quem o fizer, tornarse-á infeliz e vítima de um feitiço.
Um aspecto interessante diz respeito à
semelhança entre a genitália do boto e a dos seres
humanos. É bem provável que, por tal razão, existam
tantas lendas e superstições envolvendo esse animal
e os seres humanos. A pele e os órgãos sexuais do
cetáceo são considerados, pela população do Norte,
69
como amuletos que atraem o amor. À pele do boto,
cortada em pedacinhos, são adicionados: breu branco,
espinho de cuandu, espinho de curupira, catinga de
mulata, mucura caã, alecrim e pimenta malagueta. A
mistura é colocada para secar e, a seguir, entregue
a um pajé (ou curador) que a “prepara” com algumas
ervas aromáticas. Somente depois disso, o produto final
é colocado à venda nos mercados públicos. O amuleto
atrai a pessoa amada e dá, inclusive, boa sorte na caça
e na pesca.
Os nortistas elaboram, também, outro talismã
com os órgãos sexuais do boto. No caso, estes são
torrados, pulverizados, colocados em saquinhos
de couro ou de pano, e vendidos como amuletos
intransferíveis que, se forem manuseados por outra
pessoa, perdem, totalmente, os seus poderes de
atração. Muito valorizados, ainda, são os olhos do boto.
Outra superstição diz respeito ao óleo do cetáceo, se
for utilizado como combustível, em candeeiros: ficará
cega a pessoa que o fizer.
Vários poetas, pintores, compositores e músicos
utilizaram o boto como objeto de inspiração. O paraense
Valdemar Henrique, por exemplo, musicou uma poesia
de Antônio Tavernard (poeta amazonense), e ela foi
muito divulgada no país. Eis a letra da música: Tajapanema chorou no terreiro,
Tajapanema chorou no terreiro,
E a virgem morena fugiu pro costeiro.
70
Foi boto,sinhá,
Foi boto,sinhô,
Que veio tentar
E a moça levou.
Não tarda a dançar,
Aquele doutor,
Foi boto, sinhá,
Foi boto, sinhô.
Tajapanema chorou no terreiro,
Tajapanema chorou no terreiro,
Quem tem filha moça é bom vigiar.
Foi boto,sinhá,
Foi boto,sinhô,
Que veio tentar
E a moça levou.
O boto não dorme,
No fundo do rio,
Seu dom é enorme,
Quem quer que o viu,
Que diga, que informe,
Se lhe resistiu,
O boto não dorme,
No fundo do rio.
Os botos são mansos e, às vezes, proporcionam
um belo espetáculo coreográfico, quando acompanham
71
as embarcações, vindo à tona e mergulhando em
seguida. No Sul do país, durante o inverno, eles são
utilizados na pesca da tainha, quando os cardumes se
deslocam em busca de águas calmas para desovar.
Dentro das canoas, os pescadores batem na água,
assustando as tainhas, que se espalham, nadando em
busca de lugares mais rasos e calmos. E os botos, ao
se mexerem no fundo dos rios, turvam mais, ainda, as
águas e desorientam os peixes. Nesse momento, das
embarcações, as redes e as tarrafas são lançadas,
voltando repletas de tainhas. Alguns professores da Região Norte vêm
utilizando as lendas e superstições como motes, junto
aos alunos, para discorrer sobre a Educação Sexual.
Entre outros assuntos, são repassadas informações
sobre a gravidez precoce, as doenças sexualmente
transmissíveis, as relações sexuais e a saúde sexual.
O boto, portanto, uma das figuras mais relevantes da
mitologia zoológica brasileira, viu-se transformado, pelo
imaginário popular, no próprio dom Juan do Norte do
Brasil, como portador de um incrível poder de sedução.
72
BUMBA-MEU-BOI
73
Cavalo-marinho
Chega mais pra diante,
Faz uma mesura
Pra toda essa gente,
Cavalo-marinho,
Já pode chegar,
Que a dona da casa
Mandou te chamar.
O bumba-meu-boi é uma das representações
folclóricas mais importantes do Nordeste do Brasil.
Uns afirmam que ele surgiu no Maranhão, nos últimos
anos do século XVIII; e, outros, dizem que ele teve o
seu início no final do século XVII, durante a colonização
do Piauí. O auto de Natal, que deu origem ao pastoril,
começou como um drama religioso, que representava
o nascimento de Jesus Cristo, através de cantos e
bailados especiais, em uma significativa e dinâmica
evocação.
Ao que parece, a primeira apresentação teatral
da cena do nascimento de Jesus deve-se a São
Francisco de Assis, na terceira década do século
XIII, em Grecio. Era uma espécie de prelúdio dos
Pastoris, Presépios e Lapinhas. A rigor, a Lapinha
representa a cena estática da Natividade. Pastoril
e Presépio, a forma dramática, teatral, dinâmica.
Pastoril e Presépio foram os dois ramos em que,
dramaticamente, desdobrou-se a representação
da Natividade (Valente, 1979, p. 25).
Tudo leva a crer, porém, que o bumba-meuboi originou-se durante o século XVI, por ocasião
74
do ciclo econômico do gado, ou seja, das atividades
relacionadas à pecuária. Naquela época, por volta do
ano 1534, Ana Pimentel, esposa do donatário Martim
Afonso de Sousa, se encarregou de trazer as primeiras
cabeças para a Capitania do seu marido. Na época,
além de fornecer sustento alimentar, através da carne
e do leite, o gado prestava um grande trabalho nos
engenhos de açúcar. E a trilha do gado, nas fazendas e
currais, deu início à formação de várias povoações que,
hoje, representam importantes municípios nordestinos.
O bumba-meu-boi pode ter se originado no Maranhão,
através de simples brincadeiras dos escravos africanos,
nos engenhos e fazendas.
Muito embora seja possível perceber a influência
europeia, essa manifestação folclórica possui estrutura,
música e personagens, essencialmente, brasileiros. É
considerado um auto, ou drama pastoril, relacionado à
forma de teatro hierático das festas de Natal e Reis.
O auto, no presente, guarda, ainda, os traços de sua
antiga religiosidade.
Segundo Borba Filho (1982), o espetáculo, que
pode durar até oito horas, surgiu
de uma aglutinação de reisados em torno do
reisado principal que teria como motivo a vida
e a morte do Boi. Tudo indica, portanto, que a
expressão bumba-meu-boi nasceu do ‘estribilho’
cantado quando o boi, figura principal do auto,
dança: ‘Eh! Bumba!’ com pancadas no zabumba,
o que equivale a dizer: ‘Zabumba, meu boi’, isto
é, ‘o zabumba está te acompanhando, boi’.
75
Apesar de não possuir origem africana, é um
espetáculo em que há predominância de negros: eles
se mostram conformados com sua inferioridade social,
e transformam a dor que sentem em cenas hilariantes.
A história do bumba-meu-boi é bem simples:
um homem branco, proprietário de um boi, presencia
quando um homem negro rouba-lhe o animal e, dele,
retira a língua. O motivo do roubo se deve ao fato de
a esposa do negro, por estar grávida, apresentar o
desejo de comer língua de boi. Porém, ao ter sua língua
retirada, o boi morre. E esse boi, em particular, era o
predileto do proprietário. Vê-se armada, então, uma
grande confusão, e um pajé é chamado para tentar
ressuscitar o boi morto. Ao mesmo tempo, os integrantes
do bumba-meu-boi cantam o seguinte verso popular:
O meu boi morreu
Que será de mim?
Manda buscar outro
Ô maninha, lá no Piauí.
Borba Filho ressalta que, no espetáculo, não há
personagens do sexo feminino, as mulheres são tratadas
como seres inferiores, e todos os papéis femininos são
interpretados por travestis. A única exceção ocorre
com a figura da Pastorinha, que é representada por
uma menina ou adolescente. É possível se observar,
nitidamente, como as desigualdades de gênero estão
incrustadas na sociedade nordestina.
76
Isso vem corroborar com a imagem que a
sociedade patriarcal possui a respeito da mulher: tratase de um ser inferior em espírito, mais fraco, fisicamente,
submisso, dependente da inteligência e da capacidade
do homem para sobreviver, e cujo campo de atividade
principal está restrito ao espaço doméstico. O homem,
por outro lado, é um ser superior, mais forte, cultural,
que transcende os limites naturais, e que deve ser o
provedor e controlador dos demais seres humanos,
dono exclusivo do espaço público e regulador do
espaço privado (Buarque; Vainsencher, 2002)
Bastante representado no Nordeste brasileiro,
o bumba-meu-boi possui denominações distintas,
segundo os Estados. É chamado Boi-de-Reis, no
Maranhão; Boi-Calemba, no Rio Grande do Norte; BoiSurubi, no Ceará; Rancho-de-Boi, na Bahia; Bumbameu-Boi, em Pernambuco e Alagoas; e Cavalo-Marinho,
na Paraíba. O folguedo é chamado Boi-Bumbá, no
Amazonas; Bumba-de-Reis, no Espírito Santo; Reisde-Boi, no Rio de Janeiro; Boi-de-Mamão, em Santa
Catarina; Boizinho, no Rio Grande do Sul; e Boi-deJaca, em São Paulo.
Em Alagoas, o espetáculo começa com uma
abertura de porta e com um desfile de animais e
personagens, que dançam ao som de uma música
característica, cantada pelo coro. O primeiro
personagem a aparecer é a Burrinha e, em seguida
surge o Cavalo-Marinho (que possui uma armação
como a do boi, mas que apresenta uma cabeça de
cavalo, pintada). Vários personagens vêm dançar,
77
tentando espantar o Mateus, a Catirina, e amedrontar
as crianças ingênuas. São eles, entre outros: o Mané
do Rosário, o Pantasma (Fantasma), o Morto-e-Vivo,
o Foiará (Folharal), a Margarida, o Mandú, o Jaraguá,
as Caiporinhas, as Sereias, o Pastor, a Sinhá Filipa
(um homem vestido de mulher, com uma máscara),
o Lobisomem, o Cego e o Doutor. No Maranhão, o
bumba é representado, principalmente, em São Luís e
nos municípios de Cururupu e Guimarães (municípios
situados na zona litorânea).
78
Um aspecto a ser destacado no bumba-meuboi é a grande interação entre personagens e plateia,
ou seja, esta última não se comporta como um agente
passivo. Dessa interação, surgem improvisações
jocosas e inesperadas, fazendo com que as pessoas
participem, e o espetáculo se torne mais animado. Em
tempos passados, por tradição, o bumba-meu-boi era
exibido, somente, por ocasião do Natal. Praticado em
uma arena (representando o terreiro de uma fazenda),
com o público, em pé, assistindo ao folguedo, em volta
dos personagens, o bumba, no presente, é exibido até
mesmo durante o carnaval.
De acordo com Valente (1979) pode-se dizer
que o bumba-meu-boi é:
uma forma de teatro que se caracteriza pela
pancadaria, pela sátira, pelo ridículo, pelo
grotesco, muito do gosto do povo. Um teatro
popular muito mais comunicativo, muito mais
atuante que o erudito, permitindo interferências da
plateia – geralmente constituída pela população
humilde da comunidade onde tem sede o Bumba
meu boi – que age com estimulantes provocações,
levando os personagens a respostas prontas e
improvisadas, engraçadas e às vezes um tanto
licenciosas, sempre recebidas com risadaria e
gritos dos assistentes.
Em Pernambuco, o folguedo é mais representado
nas Zonas da Mata, no Agreste e no Sertão. Ele
apresenta inúmeros personagens que podem ser
humanos, animais ou fantásticos, além de uma série
79
de acontecimentos inspirados no boi. O personagem
mais importante de todos é o Capitão Boca Mole:
o proprietário das terras, dono do boi e aquele que
comanda a festa. Vale ressaltar que, nesse auto, o
sentido de propriedade é muito forte.
No começo, o Capitão Boca Mole surge a pé,
mas, a seguir, aparece montado no Cavalo-Marinho.
Mateus e Bastião - os vaqueiros e heróis negros - são
os dois empregados do Capitão. Ele pede que, cada
participante, exponha os seus problemas. Após as
discussões, o Capitão e seus auxiliares chegam à
solução final, porém, não sem buscar uma série de
personagens secundários: a Catirina (companheira de
Mateus, e sempre representada por um travesti - que
deseja comer um pedaço da língua do boi e induz o
Vaqueiro a matá-lo); o Morto carregando o Vivo, o Babau,
o Jaraguá e o Caipora - seres que assustam os próprios
personagens e a plateia; o Doutor Penico Branco
(aquele que vem medicar o boi - que levou uma grande
pancada e está desmaiado - aplicando-lhe um clister e
uma injeção); a Polícia e o Padre - que vêm celebrar
o casamento do Mateus e da Catirina, ressuscitar o
boi e resolver o problema do Morto carregando o Vivo;
a Pastorinha - um personagem que o Capitão tenta
seduzir; o Arlequim - um ajudante do Cavalo-Marinho;
Manuel das Batatas - um simples camponês; a Burrinha
- um camponês montado em uma burra; o Sacristão - o
ajudante do Padre; a Ema e o Urubu - personagens
atraídos pelo cheiro de decomposição do boi morto; o
Doutor Engenheiro - o encarregado de medir as terras
80
do Capitão; além de outros personagens que ajudam
a resolver as dificuldades expostas. Sem prejuízo
para a apreciação do folguedo, certos personagens
secundários podem ser suprimidos, em caso da
ausência de participantes, ou de alguma danificação da
armação. Por fim, o auto do bumba finaliza com a morte
e a ressurreição do boi. Em outras palavras, no final do
espetáculo, o boi sempre ressuscita.
Os participantes costumam usar máscaras
(para poder representar outros personagens e, assim,
reduzir o número de integrantes do espetáculo), ou
utilizam uma maquiagem bastante carregada de
carvão, e/ou de farinha de trigo. Por sua vez, portam
armações de madeiras leves, recobertas com tecidos
coloridos e vestimentas peculiares. O Capitão, por
exemplo, se veste com uma farda cheia de divisas e
adereços dourados; o Mateus, o Bastião e a Catirina se
apresentam com roupas muito sujas e pobres; o Padre
usa uma batina velha e carrega um livro, uma cruz
e um rosário; o Cavalo-Marinho e a Burrinha portam
armações e aparentam estar montados em animais; a
Caipora a Ema, o Urubu e o Boi surgem em armações
que escondem o seu condutor, e apresentam a caveira
e os chifres de um boi verdadeiro. Alguns personagens
carregam bexigas de boi, cheias de ar, para dar
uma surra nos colegas de espetáculo e membros da
plateia. A orquestra do auto é composta por zabumbas,
tambores, apitos, chocalhos, pandeiros e matracas; e
uma Cantadeira entoa uma série de loas e toadas.
Não tem muita importância se, hoje, o bumbameu-boi é considerado um auto, um folguedo popular,
81
uma dança dramática ou um mega espetáculo.
Não importa, também, que ele varie de Estado
para Estado, de nome, ou de Região para Região.
Independentemente, de todos esses fatores, o bumbameu-boi é um dos produtos mais antigos, expressivos e
ricos em improvisação, do folclore brasileiro. Ele é fruto
da própria formação histórica do Brasil: representa um
elemento híbrido, originário da Região Nordeste, mas,
que foi difundido para todas as Regiões do país.
82
CACAU
Quando os espanhóis chegaram ao continente
americano, os astecas e os maias já cultivavam o cacau,
tanto para servir-lhes como fonte de alimentação, quanto
para embelezar os jardins de suas cidades. A história
do cacau é impregnada de lendas e mitologias. Dizse, no México, por exemplo, que o Deus dos astecas,
o Senhor da Lua Prateada e dos Ventos Gelados, deu
aos homens algo que furtara dos Deuses. Desejando
presentear os mortais, Ele foi aos campos do Reino dos
Filhos do Sol e roubou sementes da Árvore Sagrada.
Elas frutificaram e geraram o cacaueiro, que, por estar
relacionado à religiosidade, era cultivado, apenas, pelos
sacerdotes. Para os astecas, portanto, a árvore do
cacau - chamada cacahualt - era sagrada, e seu cultivo
se fazia acompanhar de cerimônias religiosas solenes.
O navegador Fernando Cortez, ao conquistar o
México, escreveu ao rei da Espanha, Carlos V, que o
imperador asteca Montezuma não bebia, duas vezes,
na mesma taça de puro ouro, porque acreditava
que o líquido advindo das favas do cacau (de gosto
amargo, escuro, e poder nutritivo excepcional) possuía
origem divina. O imperador asteca bebia uma mistura
de cacau com vinho, ou purê de milho fermentado,
especiarias, pimentão e pimenta, que o alimentava
83
durante um dia inteiro, sem que houvesse necessidade
de ingerir qualquer outro alimento. Às vezes, a mistura
era preparada com cacau, pimenta malagueta, milho
e cogumelos alucinógenos, tudo isto pulverizado
e aromatizado com noz-moscada, cravo, canela e
baunilha.
De tão valorizadas, as sementes de cacau
eram utilizadas pelos indígenas como moeda corrente.
Montezuma costumava receber, por ano, 200
xiquipils (ou 1,6 milhão de sementes), como tributo
da cidade de Tabasco, que correspondiam a trinta
sacas, pesando sessenta quilos, cada uma delas. Um
bom escravo, por sua vez, podia ser trocado por cem
sementes de cacau.
Na literatura botânica, a planta foi classificada,
inicialmente, como Cacao fructus. Entretanto, as crenças
religiosas, dos povos antigos, podem ter influenciado
o botânico sueco Carolus Linnaeus (1707-1778), a
trocar a classificação para Theobroma cação que, em
língua grega, significa “manjar dos Deuses”. A nova
classificação permaneceu válida até o presente. Após
elaborar três dissertações sobre o cacau, o naturalista
concluiu que, além do sabor agradável, a bebida dela
advinda possuía propriedades medicinais superiores às
do café e às dos chás. O cacaueiro é uma árvore de altura média
(possui de cinco a dez metros), é muito ramificada,
pertencente à família das Esterculiáceas, e que se
desenvolve bem em solos quentes e úmidos, isentos de
secas prolongadas. O fruto pode medir, até, 20cm de
comprimento, e contém várias filas de sementes (com
84
mais de 2cm de comprimento). As sementes são
envoltas por uma polpa branca ou rósea (mucilagem)
ácida e aquosa.
No Brasil, oficialmente, começou-se a cultivar o
cacau em 1679, através de Carta Régia, que autorizava
os colonizadores a plantá-lo em suas terras. No ano de
1746, algumas sementes foram plantadas às margens
do rio Pardo, em Canavieiras, na Bahia. Como as
condições climáticas, a topografia e o solo do Sul da
Bahia atendiam, plenamente, às suas exigências, os
cacaueiros se multiplicaram. E, ainda hoje, a grande
maioria dos cacauais se encontra no Nordeste do Brasil
e, em particular, no litoral baiano, ao Sul de Salvador.
Na Região Norte do país, as tentativas
para expandir o cultivo do cacau fracassaram. Os
colonizadores portugueses descobriram o cacau
silvestre, às margens dos afluentes do rio Amazonas, e
levaram as sementes para a Europa, junto com outros
produtos indígenas, tais como a mandioca, a pimenta e
o algodão.
Um dos documentos mais antigos sobre a
presença do cacau, na Bahia, é uma monografia
de 1789, de autoria de Manoel Ferreira da Câmara,
intitulada Ensaio de descrição física e econômica da
Comarca dos Ilhéus da América. Este trabalho recebeu
um prêmio da Academia Real de Ciências de Lisboa.
Entre os religiosos, o consumo do cacau
provocava polêmicas, devido às suas supostas
propriedades afrodisíacas. Tratando-se de um privilégio
usufruído, somente, pelos sacerdotes, o chocolate saiu,
da cozinha dos conventos, em 1615. Isto se deu por
85
ocasião do casamento de Luís XIII, da França, com a
infanta Ana, da Áustria, que tinha catorze anos. Durante
a recepção, os padres presentearam porções de cacau
aos noivos. Apesar do gosto amargo, a Corte francesa
aprovou, de imediato, a iguaria. A partir daí, em Paris, um
dos convites mais requisitados era o de estar presente
“para o chocolate de Sua Alteza Real”.
O fruto tornou-se mais difundido quando se
descobriu que, combinado com mel e especiarias, ele
se tornava muito mais saboroso. Sua industrialização,
porém, só ocorreu em 1778.
O cacau é um fruto exigente, que demanda solos
quentes e úmidos, chuvas abundantes, e áreas cobertas
de matas e florestas. Esses são fatores naturais de
regeneração, que produzem o mulch, uma camada
constituída por restos vegetais que caem das copas das
árvores, e se transformam em excelente adubo, além
de proteger o solo contra a erosão.
A preparação das favas (sementes) começa
pela quebra dos frutos junto aos cacaueiros. O fruto é
aberto e as sementes separadas da mucilagem. Em
seguida, elas são transportadas para as sedes das
fazendas, em grandes caixas, sobre o lombo de burros,
e colocadas em cochos para fermentar, durante cerca
de uma semana, a uma temperatura que pode atingir 40
graus centígrados. Depois da fermentação, vem a fase
da secagem. O cacau contém, ainda, muita água, que
precisa ser removida. Isto pode ocorrer mediante dois
processos distintos. No primeiro, usam-se estufas ou
secadores, aquecidos a fogo de lenha; e, no segundo,
utilizam-se “barcaças”, grandes áreas com piso de
86
madeira, sobre pilares, e cobertas por um telhado
móvel. O telhado é removido de dia, e recolocado sobre
as “barcaças” à noite, e quando chove. As sementes
necessitam ser mexidas, regularmente, para ficar
bem arejadas e não haver formação de bolor. Após a
secagem das amêndoas, elas são pisoteadas para a
separação da “sibira”, uma película que as envolve.
A secagem natural, ao sol, propicia um cacau
de boa qualidade, ao passo que, a secagem artificial
(através do calor do fogo de lenha), é desaconselhável,
porque deixa a amêndoa com cheiro de fumaça, e
interfere no sabor do futuro chocolate. Após a secagem,
as amêndoas são ensacadas e transportadas às fábricas
processadoras de cacau.
Em 1828, um químico holandês inventou
uma prensa que separava e retirava, da amêndoa, a
manteiga de cacau. O uso desse artefato fez com que
o amargor e a acidez do chocolate diminuíssem. Perto
do final do século XIX, um doceiro suíço levou o produto
até Henry Nestlé, um fabricante de leite evaporado,
que havia aprimorado, também, uma receita de leite
condensado. Juntos, os dois tiveram a feliz ideia de
adicionar leite condensado ao chocolate e, foi, assim,
que surgiu o chocolate ao leite. O doceiro suíço foi
responsável pela criação do processo de conchagem,
que conferiu ao chocolate uma textura mais fina e
aveludada. O processo recebeu esse nome porque
as pás, que mexem e refinam o produto, possuem o
formato de conchas.
No ano de 1879, Rodolphe Lindt adicionou
manteiga de cacau ao chocolate, que gerou um produto
87
ainda mais elaborado, derretendo na boca, e similar
ao chocolate consumido no presente. A fabricação
do chocolate passa por cinco etapas importantes:
a malaxação, o refino, o conching, a têmpera e a
modelagem. Tais etapas são extremamente delicadas
e, não raro, se ocorrer qualquer descuido, todo um lote
se torna perdido.
Da polpa branca ou rosa, do cacau, doce
e mucilaginosa, são produzidos sucos, geleias,
refrigerantes, destilados finos, fermentados (vinho e
vinagre), sorvetes e doces. O suco do cacau possui um
sabor exótico e agradável ao paladar, assemelhandose aos sucos de algumas frutas tropicais. É rico em
vitaminas, pectina e açúcares (glicose, frutose e
sacarose), possui um aspecto pastoso e alta viscosidade. Os técnicos da Comissão Executiva do Plano
da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), do Ministério da
Agricultura, têm realizado pesquisas que visam ao
aproveitamento integral dos subprodutos e resíduos
que ficam, depois da colheita. Neste sentido, após
passar por uma determinada transformação, a casca
dos frutos é aproveitada para ração animal, tanto in
natura, quanto em forma de farinha. A casca é utilizada,
ainda, para a produção de biogás e biofertilizantes, que
são elaborados mediante o processo de compostagem,
ou de vermicompostagem. Uma tonelada de amêndoas
gera oito toneladas de casca fresca. O maior problema fitopatológico dos cacaueiros,
o fungo denominado vassoura de bruxa, é originário
da Amazônia, e só foi descoberto, na Bahia, em 1989.
Ele causa a necrose no cacaueiro, deixando a planta
88
com a aparência de uma vassoura velha, daí a origem do
nome. Esse fungo reduziu, drasticamente, a produção
de cacau do Brasil, que baixou de 320,5 mil toneladas,
em 1991, para 191,1 mil toneladas, no ano 2000, e que
acarretou grandes impactos econômicos e sociais na
região.
No passado, o país chegou a ser o maior
exportador de cacau. No presente, porém, apesar de
não estar mais no topo, o Brasil ainda se encontra
entre os grandes produtores do fruto, ao lado da Costa
do Marfim, de Gana, da Nigéria, de Camarões e do
Equador. Por outro lado, os maiores importadores de
cacau são os Estados Unidos, a Holanda, a França, a
Inglaterra e a Alemanha.
O auge da cultura cacaueira ocorreu no final do
século XIX e início do século XX. Durante a I Guerra
Mundial, os soldados já carregavam chocolates, como
ração de emergência, para suas necessidades futuras.
No entanto, eles não conseguiam guardá-los por
muito tempo: ao menor sinal de fome, devoravam as
guloseimas.
Jorge Amado, famoso escritor baiano, registrou a
dura vida em torno do cultivo do cacau, na trilogia O País
do Carnaval (1931), Cacau (1933), e Suor (1934), livros
que foram traduzidos para várias línguas estrangeiras. No século XXI, os derivados do cacau fazem parte
da vida das populações, sendo empregados em pudins,
bolos, doces, caldas e aperitivos. Já se fabrica chocolate
ao leite (massa de cacau, manteiga de cacau, açúcar e
leite em pó); chocolate amargo (pouco refinado, paladar
amargo, composto por massa de cacau e manteiga de
89
cacau); chocolate branco (manteiga de cacau, açúcar
e leite); chocolate em pó (amêndoa de cacau ralada);
além de chocolates recheados e/ou associados com
frutas diversas (manga, cereja, cupuaçu, uva, morango,
goiaba, framboesa), com especiarias (canela, baunilha,
cravo, noz moscada, anis, menta, pimenta, alecrim), com
doce de leite, caramelo, chás, avelãs, vinhos, cointreau,
rum, capuccino, nozes, café, castanha de caju, castanha
do Pará e pistache. São produzidas, também, de maneira
industrial ou artesanal, trufas brancas, amargas, meio
amargas, de mel e de Champagne, de queijo, de café,
entre tantas outras.
Camisetas, esculturas de barro e argila, bolsas,
tapeçarias, peças de crochês e bonecos, que fazem
alusão à cultura cacaueira, bem como o licor de cacau,
fazem parte do folclore do Nordeste brasileiro. Os ovos
de chocolate (caseiros e/ou industrializados) são muito
populares, inclusive, nas comemorações da Páscoa. Faz-se necessário ressaltar que o chocolate, o
“manjar dos Deuses” dos astecas, a delícia que extasiou
a nobreza e o clero europeus, durante séculos, tem que
ser consumido com parcimônia: ele possui bastante
gordura e é altamente calórico. Apesar de produzir
uma sensação de calma e bem estar, e aumentar a
disposição física e mental, aquela guloseima deliciosa,
se for ingerida em excesso, causa um aumento de peso
em seus consumidores, uma vez que é muito calórica.
Portanto, tem que ser utilizada com cuidado.
90
CIRIRI
91
A música popular nordestina deriva de processos
técnicos muito simples e, em geral, não está vinculada
a qualquer espécie de teorização. Seu nascimento,
difusão e duração estão ligados, de forma intrínseca,
às atividades e interesses da população e, caso possua
aceitação social, a música vai se propagando com
o passar do tempo. Ela representa, em verdade, os
sentimentos, os desejos, os medos, os preconceitos e a
bagagem cultural das pessoas.
De acordo com estudiosos, a música popular
provém de criação anônima, mas é usada de forma
coletiva. Em outras palavras, os autores não são
conhecidos e, portanto, ninguém pode exigir o
pagamento de direitos autorais ao cantá-las e/ou difundilas. Ela é transmitida de geração em geração por meios
práticos - normalmente, por via oral - e, é, a memória, o
seu principal canal de difusão e conservação.
O ciriri - uma música ligeira de autoria
desconhecida - é também uma dança de roda infantil
no Nordeste. O termo deriva do vocábulo ociriri, que
pertence ao dialeto tupi e significa foge, corre. A música
é composta do refrão abaixo:
Ô ciriri, ô meu bem, ô cirirá,
roubaro (roubaram) o meu amor
e me deixaro (deixaram) sem amar,
eu agora arranjei outro
e quero vê (ver) você tomar.
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Após cantar o refrão, é preciso se cantar uma
trova, com a mesma melodia do refrão. Feito isto,
retorna-se ao refrão e, em seguida, canta-se outra trova
(diferente da primeira), continuando-se, assim, até o
cansaço vencer a brincadeira.
Cabe esclarecer que a trova - uma composição
lírica - origina-se da quadra popular dos colonizadores
lusos, e representa o único gênero literário exclusivo
da língua portuguesa. Ela pode ser definida como um
pequeno poema de quatro versos, com rima e sentido
completo.
PARTITURA DO CIRIRI
As trovas mais populares do ciriri são as
seguintes:
Minha mãe chama-se Caca,
Minha avó Caca Maria,
Em casa, tudo era caco,
sou filho da cacaria. Da tua casa pra minha
corre um riacho no meio,
tu de lá dá um suspiro,
e eu de cá suspiro e meio.
A folha da bananeira
de tão verde amarelou,
a boquinha de meu bem de tão doce açucarou. As estrelas no céu correm
correm tudo em carreirinha,
mesmo assim corre um beijinho
da tua boca pra minha.
93
Minha mãe me chamou feia
me chamou mal-amanhada,
eu então chamei a ela
velha da cara engelhada
Açucena dentro d’água
a durar quarenta dias,
um amor longe do outro
chora de noite e de dia.
Cajueiro pequenino
carregado de fulô (flor)
eu também sou pequenina carregadinha de amor.
Lá detrás da minha casa
tem um pé de papaconha,
quem quiser tirar um galho,
é descarado e sem-vergonha.
Sete e sete são catorze
com mais sete, vinte e um,
tenho sete namorados
e não me caso com nenhum
As flores também se mudam
do jardim para o deserto,
de longe também se ama
quem não pode amar de perto.
Quem me dera, dera, dera, Quem me dera dera só,
me deitar em tua cama,
me cobrir com teu lençol.
Menina se quer ir vamos,
não te ponhas a imaginar,
quem imagina cria medo
quem tem medo não vai lá.
Caco caco caco caco,
caco de torrar café,
tu ainda fala comigo,
cara de porco baé.
Menina dos olhos verdes,
sobrancelhas de veludo,
o teu pai não tem dinheiro,
mas teus olhos valem tudo.
Por debaixo d’água passa,
duas tesouras de ouro,
uma pra cortar ciúme
e outra pra cortar namoro.
Lá detrás da minha casa,
tem um pé de mororó,
quem quiser “mangar” de mim, vá “mangar” de sua avó. Sete e sete são catorze,
com mais sete, vinte e um,
teu pai é ladrão de bode
tua mãe de jerimum.
Um sabonete cruzado,
na mala quem tem sou eu,
aproveite, desgraçado,
um amor que já foi teu.
94
Se tiver raiva de mim,
E não puder se vingar,
meta o dente na parede
coma terra até inchar.
Bananeira bota cacho,
e também bota um galhinho,
um rapaz pra ser bonito
tem que usar um bigodinho.
Nunca vi carrapateira, botar cacho atravessado, nunca vi quem é solteiro namorar quem é casado.
A laranja de madura,
caiu n’água e foi ao fundo,
triste de quem é solteiro
e casa com um vagabundo.
Lá vem a lua saindo,
por detrás do leque-leque, filho de branco é menino, filho de preto é moleque.
Lá detrás da minha casa,
passa boi passa boiada,
e também passa amarelo,
Do bucho de panelada.
Cajueiro abaixa o galho, deixa o meu gado passar, ele vem de lá de longe,
do sertão do Ceará.
Tô (estou) chorando, tô chorando,
tô chorando por você,
se você não acredita,
vou chorar pra você ver.
Minha mãe me chamou feia, de bonita que ela é, ela é o pé da rosa
e eu sou a rosa do pé.
Lá vem o carro apitando,
cheio de cana crioula,
esses rapazinhos de hoje,
vestem calça sem ceroula.
Meu amor não era esse, nem a esse quero bem,
tô (estou) enganando esse besta
enquanto meu querido vem. Minha mãe me deu uma surra,
com molambo de rudía (rodilha),
eu achava tanta graça,
Quando o molambo subia.
A alma de muita gente é como um rio profundo: tanta beleza por cima,
mas quanto lodo no fundo.
Minha mãe tá (está) me chamando,
diga a ela que eu já vou,
tô (estou) tirando a gravatinha,
de um moreno que chegou.
95
Eu queria ver agora,
quem eu vi ontem ao meio-dia, se eu não visse a pessoa, o retrato me servia.
A lua já vem saindo,
redonda que nem vintém,
não é lua, nem é nada,
são os (olhos) do meu bem.
Lá detrás da minha casa,
tem um pé de mororó,
quem quiser “mangar” de mim,
vá “mangar” de sua avó.
Um sabonete cruzado,
na mala quem tem sou eu,
aproveite, desgraçado,
um amor que já foi teu.
Meu amor tá (está) mal comigo, eu não sei por qual razão, se for falta de carinho,
eu lhe dou meu coração. Esta vai por despedida,
por despedida esta vai,
minha mãe ficou sem dente
de tanto morder meu pai.
Para poder existir, o ciriri necessita da produção
de trovas, a mais popular das formas poéticas. E, mesmo
sem intenção, os trovadores, ao criá-las, expressam
suas filosofias de vida, preconceitos, dúvidas, certezas,
alegria e bom humor, ressaltando os valores que estão
incrustados na cultura popular nordestina.
96
COCO
Uns dizem que o coqueiro (cocos nucifera L.)
é originário da Índia e, outros, que ele veio da Ilha de
Cabo Verde. Seja como for, a planta foi trazida pelos
navegadores e cultivada em solo africano, sendo
encontrado, hoje, em, praticamente, todos os países
de clima tropical. No Brasil, o coqueiro foi introduzido
no século XVI, pelos colonizadores portugueses. Entre
seus maiores produtores, encontram-se as Filipinas, a
Índia e a Indonésia.
O coqueiro - cartão postal do Nordeste do Brasil se adaptou muito bem à orla marítima e, há séculos,
vem enfeitando as praias da Região. Essa espécie de
palmeira pode atingir uma altura de trinta metros, mas,
existem variedades de coqueiro anão - introduzidas em
1921 - que não ultrapassam três metros de altura. O país
cultiva, em torno de, 50 mil hectares de coqueiro anão,
e os Estados que mais o produzem são o Espírito Santo
(com cerca de 14 mil hectares de terras plantadas),
seguindo-se a Bahia (com 12 mil hectares), e o Ceará
(com 5 mil hectares).
A casca do coco é relativamente fina e lisa. Por
debaixo dela, encontra-se uma espessa capa fibrosa,
que envolve uma camada muito dura e, dentro dela,
97
existe uma parte suculenta de cor branca. Quando
verde, o coco contém bastante água em seu interior, e a
camada branca é mole e pouco desenvolvida. À medida
que vai amadurecendo, a parte carnosa se torna mais
espessa e consistente, e a quantidade de água diminui.
O coco contém proteínas, magnésio, gorduras,
sais minerais - potássio, sódio, fósforo e cloro - hidratos
de carbono e as vitaminas A, B1, B2, B5 e C. Seus efeitos
curativos se devem, principalmente, ao magnésio,
substância que o ser humano necessita para conservar
a tensão muscular. Cem gramas de cocos maduros
equivalem a duzentas e sessenta e seis calorias. Por
sua vez, o consumo do coco maduro é contraindicado
para pessoas que apresentam, no sangue, uma elevada
taxa de colesterol.
O leite de coco é um dos subprodutos mais
conhecidos e utilizados, mas só pode ser extraído,
quando o coco está maduro. Para retirá-lo, basta quebrar
a casca, soltar a camada interna (branca), adicionar-lhe
um pouco de água, bater tudo no liquidificador e, em
seguida, coar a mistura. O líquido resultante é o leite
de coco. Nos lugares onde não há energia elétrica, as
pessoas retiram a massa do coco com um raspador,
adicionam um pouco de água, colocam a mistura dentro
de um pano e, em seguida, torcem-no para liberar o
leite, separando-o do bagaço.
Do coqueiro, nada se perde. Da polpa branca
do fruto, as indústrias alimentícias extraem um óleo,
e fabricam, também, manteigas e margarinas. O
coco é usado, ainda, pela indústria de cosméticos.
98
As folhas do coqueiro servem para cobrir os telhados
das casas. O artesanato nordestino utiliza as fibras
do fruto e das folhas, para a fabricação de cordas,
tapetes, redes, vassouras, escovas e outros produtos,
tais como cestos, esteiras e chapéus. Do endocarpo
do coco (a casca dura) confeccionam-se inúmeros
utensílios e ornamentos, a exemplo de colheres,
cintos, brincos, colares, portacanetas, pulseiras,
descansapratos, entre outros. O tronco do coqueiro,
além de ser usado na construção de casas rústicas, é
utilizado, pelos artesãos, na fabricação de esculturas,
arranjos de plantas e móveis, que são comercializados
em lojas e feiras populares. Do coqueiro são fabricados,
também, redes e linhas de pesca, cordoalhas, sacos e
broxas. A palmeira é utilizada, inclusive, como planta
ornamental, embelezando casas, parques e jardins.
A seiva proveniente dos pedúnculos pode ser
ingerida, ao natural, como um refresco. Através da
fermentação, pode ser transformada em bebida alcoólica,
álcool ou vinagre, e ser utilizada na extração do açúcar.
As raízes do coco servem para fabricar fortificantes
para as gengivas, antitóxicos, produtos antidiarreicos
e antiblenorragicos e, do broto do coqueiro, retira-se o
palmito. A indústria automobilística utiliza a fibra do fruto
para encher o estofamento dos assentos dos veículos.
No poema musical Coqueiro de Itapoã, o falecido
compositor baiano, Dorival Caymmi, imortalizou essa
planta. A letra da música é a seguinte:
99
Coqueiro de Itapoã, coqueiro...
Areia de Itapoã, areia...
Morena de Itapoã, morena...
Saudade de Itapoã, me deixa...
Oh, vento que faz cantiga nas folhas
No alto dos coqueirais,
Oh, vento que ondula as águas,
Eu nunca tive saudade igual...
Me traga boas notícias daquela terra toda manhã
E joga uma flor no colo de uma morena de Itapoã.
Coqueiro de Itapoã, coqueiro...
Areia de Itapoã, areia...
Morena de Itapoã, morena...
Saudade de Itapoã, me deixa...
No Brasil, o leite de coco logo se associou
ao milho, à farinha, ao xerém, à goma de mandioca,
aos molhos, pudins, cremes, mingaus e papas. Da
associação do coco e do milho, são feitos vários quitutes
e manjares, que são ofertados aos Deuses africanos e
indígenas.
A cocada (iguaria produzida com açúcar e com
a parte branca ralada do coco maduro, levados ao
fogo) veio enriquecer a culinária brasileira. Hoje em
dia, são feitas cocadas com leite condensado, gema,
óleo de oliva, cenoura, glucose de milho, batata-deumbu, e muitos outros ingredientes. A tapioca de coco,
estendida em folha de bananeira e polvilhada com
canela, é uma das heranças indígenas. O leite e a polpa
100
do coco são fundamentais na culinária junina, sendo
utilizados em receitas de canjicas, pamonhas, pés de
moleque, bem como bolos de mandioca, Souza Leão, e
de macaxeira (chamado, também, de aipim). É usado,
ainda, no mungunzá e no cuscuz.
O leite de coco é encontrado em vatapás,
peixadas, crustáceos ensopados (camarão, polvo,
lula, sururu, unha de velho, casquinha de siri) nas
caranguejadas, mariscadas, ensopados de bredo,
arroz de viúva e no feijão. No preparo de uma deliciosa
maxixada, aquele ingrediente não pode faltar.
A água do coco verde, uma bebida deliciosa,
refrescante, nutritiva e terapêutica, possui uma
composição físicoquímica semelhante à do soro
fisiológico. São inúmeros os seus benefícios: ela
hidrata e amacia a pele, reduz a febre, funciona como
complemento alimentar, combate a prisão de ventre e
atenua os enjôos. Como é rica em sais de potássio, atua
como diuretico, sendo indicada em casos de diarreia,
vômito e desidratação. Cem gramas de água de coco
contêm vinte e duas calorias.
Nos últimos anos, devido à grande demanda
dessa bebida, o Estado de São Paulo vem substituindo
parte das tradicionais culturas de café e de laranja, por
plantações de coqueiro anão. Atualmente, encontra-se,
inclusive, em supermercados brasileiros e estrangeiros,
a água de coco industrializada. As indústrias
comercializam, também, o coco ralado e o leite de coco
(em garrafas pequenas ou caixinhas). Benditos sejam
aqueles que trouxeram o coqueiro para as terras do
Brasil!
101
102
CULINÁRIA BRASILEIRA
Cada povo possui um tipo de culinária, um modo
peculiar de preparar seus alimentos. Do ponto de vista da
cultura folclórica, percebe-se que, através de diferentes
formas, misturas, temperaturas, odores e cores, os
povos vão transformando os alimentos em uma atração.
Comer é conhecer, diz um antigo ditado. Desse modo,
todas as culinárias do mundo representam formas de
conhecimento. São sinais culturais transmitidos por meio
do paladar, da visão, do olfato. São gostos, sensações,
texturas ou toques, que aguçam os desejos.
O Brasil possui uma culinária original e
expressiva. Ao longo de 500 anos, o brasileiro assimilou
e transformou a cozinha europeia, principalmente a
portuguesa, as especiarias que o colonizador trouxe do
Oriente (China e Índia), adicionando-lhes ingredientes
das culinárias africana e indígena (a dos índios da
Amazônia e do Pantanal de Mato Grosso). A culinária
indígena, uma festa permanente de peixes moqueados,
caças e frutas da estação, já estava presente quando
o Brasil foi descoberto. Tudo isso, sem jamais agredir
ou colocar em risco a estabilidade do meio ambiente.
Foram as trocas alimentares, portanto, a união de
distintos caminhos e experiências de vida, de etnias e de
103
culturas, a miscigenação de gostos, formas e aromas,
que geraram uma nova e rica culinária brasileira.
Dos índios, a culinária assimilou a farinha de
mandioca, os alimentos cozidos ou assados em folhas
de bananeira, as comidas feitas com milho, a paçoca
(peixes ou carnes pilados e misturados com farinha).
Herdou-se, também, a moderação no uso do sal e dos
condimentos, a cozinha com forno e fogão, a utilização
de utensílios de cerâmica, as virtudes do consumo de
alimentos frescos, e as comidas temperadas pelas
mãos das índias nativas. Sem isso, a cozinha nacional
seria, hoje, muito pobre.
Além do refinamento, o colonizador português
introduziu alguns ingredientes importantes na culinária
brasileira: o coco (trazido da Índia), o sal, e a canela
em pó misturada com açúcar. O sarapatel, o sarrabulho,
a panelada, a buchada, o cozido, não fazem parte da
culinária africana, mas, sim, da portuguesa. Os dois
primeiros vieram da Índia, através dos colonizadores. A
doçaria lusa trouxe: pudim de iaiá, arrufos de sinhá, bolo
de noiva, pudim de veludo. Do Oriente, vieram muitos
quitutes mouriscos e africanos, tais como o alfenim e o
cuscuz, e frutas como a manga, a jaca, a carambola e a
fruta pão. Do famoso cozido português, incluiu-se feijão
preto ou mulatinho, carnes e muitas verduras, tendo
surgido um prato único e original: a feijoada.
A feijoada pode ser preparada às modas carioca,
baiana e nortista. A típica feijoada brasileira, porém,
comporta muitas iguarias: feijão preto, toucinho de
fumeiro, paio, linguiças portuguesa e/ou calabresa,
104
outras carnes de porco salgadas e/ou defumadas
(orelhas, rabo, pés, costelas) e carnes secas (de
charque), temperos frescos e secos. É acompanhada
por arroz branco, farinha de mandioca, rodelas de
laranja, torresmo, folhas de couve (bem fininhas) fritas
no alho e óleo, e uma boa cachaça da terra.
A presença africana, na mesa brasileira, tem
dois grandes representantes: o dendê e a pimenta (não
as nativas, usadas pelos índios, mas a malagueta,
trazida pelos negros da África). A palmeira, de onde
se extrai o azeite de dendê, veio da África para o
Brasil, nas primeiras décadas do século XVI. Todos
os pratos trazidos do continente africano foram,
então, reelaborados e recriados pelos brasileiros, que
passaram a usar o azeite de dendê e os ingredientes
locais.
Embora africano, o inhame era conhecido em
Portugal. O caruru, por sua vez, tal como é conhecido,
é um prato africano, que manteve a denominação
indígena, mas, adquiriu outro conteúdo: galinha, peixe,
carne de boi, ou crustáceos. Ao chegar ao Brasil, a
escrava negra já era cozinheira. Aprendendo com as
portuguesas e suplantando-as pela diversidade de
temperos, que sabiam manejar, as africanas competiram
com as indígenas quanto ao segredo de uma boa mesa.
Na atualidade, cada Região do país possui
distintos pratos típicos. No Norte, devido à presença de
florestas, à influência indígena, e às generosas bacias
hidrográficas (o rio Amazonas e seus afluentes, em
particular), predomina o consumo de peixes de água doce
105
(acari, auanã, cascudo, surubim, pirapitinga, piranambu,
tucunaré, tambaqui, pirarucu, tainha, camurupim, itui,
jandiá, xaréu, curimatá, cangati, piranha, entre outros);
da mandioca e de grande variedade de frutas: açaí,
bacaca, buriti, taperebá, ginja, pupunha, murici, uamari,
cupuaçu, bacuri, camapu, uxi, angá, piquiá, camutim,
cutitiribá, grumixama, cubiu, guaraná, entre tantas
outras.
A culinária nortista, tropical e ecológica, é
acompanhada por uma grande variedade de pimentas:
cajurana, mata frade, murupi, camapu, murici, olhode-peixe, ova-de-aruana, pimenta-de-cheiro, e olhode-pomba. Nessa região, consomem-se muitas outras
iguarias: maniçoba, caldeirada de jaraqui, pato no
tucupi, tambaqui assado na brasa, cuia de tacacá,
mujanguê (a famosa farofa de ovos de tartaruga), e
vários tipos de tartarugas (juruá açu, capitari, tracajá,
matamatá, cabeçudo, pitiú), além dos cremes de bacuri
e de cupuaçu.
No Nordeste, encontram-se os pratos à base de
feijões, inhame, macaxeira (chamada aipim, no Sul do
país), leite de coco, azeite de dendê, peixes, crustáceos
e frutas nativas, destacando-se inúmeras iguarias:
buchada, sarapatel, arroz doce, tapioca, caldo de cana,
bem como doces e/ou sorvetes de frutas regionais:
mamão, goiaba, caju, pinha, sapoti, graviola, banana,
tangerina, mangaba, coco, manga, umbu, jaca, abacaxi,
araçá.
Da culinária nordestina fazem parte, ainda, os
seguintes pratos: dobradinha (feijão branco cozinhado
106
com bucho de boi), galinha de cabidela, mão-de-vaca,
quibebe (pirão de jerimum), carne-de-sol (servida com
farofa e feijão verde), peixes e crustáceos ao leite
de coco, feijão e arroz, ao coco, amendoim torrado e
cozinhado, canjica, pamonha, munguzá, cuscuz, milho
cozido e assado, acarajé, abará, caruru, vatapá, bolos
de macaxeira e de mandioca, pé de moleque, bolo
Souza Leão, umbuzada (feita com umbu, leite e açúcar),
entre outros.
No Sul e no Sudeste, onde se encontram grandes
rebanhos bovinos e ovinos, a população consome
churrasco de carne e linguiças assadas na brasa,
acompanhadas por arroz branco, salada de maionese,
farinha de mandioca torrada, macaxeira cozida,
saladas verdes e pão. Outros pratos tradicionais são
os seguintes: guisado no pau, boi atascado, pernil de
cordeiro, costelão, churrasco de ovelha, tripa grossa, e
outros. Os gaúchos, em particular, consomem bastante
o chimarrão, um chá quente feito com as folhas de mate
amargo, trituradas.
Alguns pratos típicos dos outros Estados são os
seguintes: a feijoada carioca (com feijão preto), no Rio
de Janeiro; o cuscuz salgado, conhecido como cuscuz
paulista, em São Paulo; e uma grande variedade de
produtos derivados do leite (como o famoso queijo
de Minas, requeijões, iogurtes, manteigas e doces de
leite), além de pães de queijo, biscoitos de polvilho e
goiabada cascão, em Minas Gerais. Lá, é apreciado o
tutu à mineira e o feijão de tropeiro (uma homenagem
aos desbravadores de sertões, que inclui feijão, toucinho
107
e carne de vento ou seca acompanhados por farinha
de mandioca). E, no Espírito Santo, são populares os
pratos de peixe preparados com urucum, assim como a
moqueca capixaba.
Devido às características cosmopolitas do Sul
e do Sudeste, é possível encontrar, nessas Regiões,
uma grande variedade de culinárias: italiana, japonesa,
chinesa, coreana, vietnamita, alemã, húngara, francesa,
polonesa, russa e ucraniana. A pizza e o macarrão, por
exemplo, são heranças dos italianos, mas, já foram
incorporadas à alimentação de muitos brasileiros. Os
italianos inventaram, inclusive, o salsichão e o espeto
corrido.
No Centro Oeste, predominam os pratos à base
de carne, devido aos grandes rebanhos. É comum
o consumo de peixes de água doce, aves e caça do
Pantanal, frutas do cerrado (como o pequi) e erva mate.
Encontra-se, hoje, na culinária brasileira,
inúmeros pratos que utilizam o leite de coco, o azeite
de dendê, a farinha de mandioca, o sal, as pimentas,
as frutas, as moquecas, os assados, os guisados, os
doces, os sucos, enfim, dezenas de ingredientes e de
modos de fazer que moldaram a chamada cozinha
tradicional do país.
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FEIJOADA BRASILEIRA
(para seis pessoas)
Ingredientes: 500g de feijão preto, 300g de
charque, 80g de toucinho, 200g de carne bovina,
120g de rabo de porco, 120g de orelha de porco,
200g de carne de porco, 240g de pé de porco,
200g de costela de porco defumada, 240g de
lingüiça ou paio, 250g de cebola (cortada em
pedacinhos), 4 dentes de alho (moídos), 2
cebolinhas (cortadas em pedacinhos pequenos),
2 folhas de louro, 4 colheres (sopa) de azeite de
oliva, sal e pimenta-do-reino (moída) a gosto.
Modo de fazer: Lavar bem todas as carnes
salgadas e aferventá-las para retirar o sal. Colocar
o pé de porco para cozinhar em uma panela,
apenas com água e folha de louro, durante cerca
de 30 minutos. Acrescentar o feijão (previamente
lavado) e o restante das carnes. Deixar no fogo
até que ambos amoleçam, adicionando, sempre,
a água que for necessária.
Em uma frigideira, fritar a cebola e a cebolinha
no azeite de oliva. Quando estiverem dourando,
adicionar o alho e a pimenta-do-reino. Deixar
alguns segundos no fogo para refogar bem
a mistura. Colocar esses temperos dentro da
feijoada, deixando ferver por 5 minutos. Provar
um pouco do caldo para verificar o teor de sal.
Se tiver pouco sal, adicione um pouco mais (sem
deixar de provar). Caso fique salgada, por sua
vez, coloque algumas batatas inglesas (grandes)
para cozinhar dentro da feijoada: elas reterão
todo o excesso de sal. O tempo de cozimento é
de 2 1/2 horas.
Com a ajuda de uma escumadeira, separe as
carnes do feijão, arrumando-as em recipientes
109
distintos. Servir a iguaria com farinha de
mandioca, arroz branco, couve à mineira, rodelas
de laranja, molho de pimenta e uma boa cachaça
da terra
Bom apetite!
110
CULINÁRIA JUNINA
111
Junho é o mês de três santos católicos
importantes, introduzidos no Brasil pelos colonizadores
portugueses: São Pedro, Santo Antônio e São João. O
primeiro deles, um dos doze apóstolos de Jesus Cristo,
é o guardião das portas do céu, protetor das viúvas e
dos pescadores. A ele, foi dedicado o dia 29 de junho.
Santo Antônio, comemorado no dia 13 de junho, é o
santo casamenteiro, invocado pelas pessoas solteiras
que desejam se casar. E São João, por fim, primo de
Jesus Cristo, cujo nascimento ocorreu no dia 24 de
junho. Dos três santos, esse último é o mais festeiro
e comemorado. A festa de São João, muito popular na
Península Ibérica, chamava-se Festa Joanina, mas,
com o tempo, passou a ser denominada Festa Junina. Em se tratando das festas que utilizam o fogo,
cabe ressaltar que a tradição advém de comemorações
pagãs, nos primórdios da era cristã, quando os cultos
e os sacrifícios eram empreendidos para enfrentar e
afastar demônios e bruxas, responsáveis por pestes,
estiagens e esterilidade. Neste sentido, os portugueses
incorporaram o fogo ao seu calendário, acreditando ser
este um elemento importante, na luta das forças do bem
contra as do mal.
Entretanto, há controvérsias quanto à origem da
festa de São João. O dia 23 de junho, porém, de acordo
com os rituais do calendário agrário da Antiguidade,
representa a data comemorativa das colheitas de
cereais, e a passagem do solstício de verão, ou de
inverno, conforme o hemisfério. O mês de junho - o
quarto no calendário de Rômulo - era considerado,
112
também, como o período do ano dedicado à deusa
Juno: a cultuada filha de Saturno e mulher de Júpiter,
que teve muitos filhos. As festas juninas, então, podem
ter se originado da devoção dos povos pagãos àquela
divindade. Estes povos reverenciavam a fertilidade da
deusa, almejando sua própria fertilidade e a da terra em
que viviam. E, em nome daquela deusa, empreendiam
muitos sacrifícios para espantar secas e pestes da
lavoura.
Alguns pesquisadores situam os primórdios
da festa junina na Ásia e na África, em 3.500 a.C.,
salientando que, no Egito antigo, a morte e a ressurreição
do Deus Osíris estavam relacionadas às inundações do
rio Nilo. Isto porque, quando as águas retornavam ao
leito usual, deixavam uma faixa de terra úmida e fértil
para a semeadura, o que tornava possível excelentes
colheitas. E o fato era sempre comemorado com alegria.
De acordo com Câmara Cascudo (1954),
independentemente das diversas teorias sobre a sua
origem,
o São João é festejado com alegrias
transbordantes de um deus amável e dionisíaco
com farta alimentação, músicas, danças,
bebidas e uma marcada tendência sexual nas
comemorações populares, adivinhações, para
casamento, banhos coletivos pela madrugada,
prognósticos do futuro, anúncio de morte do
censo do ano próximo... Segundo a tradição o
Santo adormece durante o dia que lhe é dedicado
tão ruidosamente pelo povo, através dos séculos
113
e países. Se ele estiver acordado, vendo o clarão
das fogueiras acesas em sua honra, não resistirá
ao desejo de descer do céu para acompanhar a
oblação e o mundo acabará pegando fogo.
No Nordeste do Brasil, em particular, o São
João é muito comemorado, tendo-se as quadrilhas, o
forró, as fogueiras, os fogos de artifício, os balões, as
procissões e novenas, e a maravilhosa culinária junina.
Nesta, os colonizadores portugueses introduziram o
sal, o açúcar, a canela em pó, o cravo-da-Índia, o leite
de coco e o milho. Os índios introduziram a mandioca,
na culinária brasileira. A culinária junina, por sua vez,
foi reelaborada e recriada, através da miscigenação
de gostos e experiências de vida, das principais etnias
formadoras da população brasileira: a indígena, a
africana e a europeia. Os pratos típicos de São João são
os seguintes: milho cozido ou assado (na brasa), canjica,
pamonha, pé de moleque, cocada, bolos de milho, de
macaxeira e de mandioca. A seguir, transcrevem-se
algumas receitas que são preparadas no ciclo junino. MILHO COZIDO
Tirar a palha e os cabelos do milho e passar a
espiga em um ralo, ligeiramente, só para rasgar
um pouco a pele que cobre os grãos. Colocar a
espiga para cozinhar, em um caldeirão (ou panela
de pressão) com água suficiente para cobri-la, e
sal a gosto. Cozinhar até os grãos amolecerem.
Testar com um garfo, espetando a espiga antes
de desligar o fogo.
114
CANJICA Ingredientes: 10 espigas de milho verde; 1
xícara de açúcar; 2 ½ xícaras de leite de coco; 1
colher de sopa de manteiga; sal a gosto; e canela
em pó (para polvilhar).
Modo de fazer: Com uma faca afiada, corte os
grãos de milho rente ao sabugo. Coloque-os no
liquidificador, junte o leite de coco, aos poucos, e
triture a mistura até que se torne um purê. Peneire,
em seguida, para retirar as cascas dos grãos,
espremendo bem o bagaço. Em uma panela,
coloque o caldo do milho e leve ao fogo médio,
mexendo sempre. Quando começar a engrossar
e desgrudar do fundo da panela, acrescente o
açúcar, o sal e a manteiga. Mexa o creme por
mais alguns minutos, até que ele adquira um
ponto consistente e brilhante. Coloque-o em uma
travessa e polvilhe com canela em pó.
PÉ DE MOLEQUE
Ingredientes: 1 kg de massa de mandioca, 4
xícaras (de chá) de açúcar, ½ litro de água, 250
g de manteiga, 2 ovos inteiros, ½ litro de leite de
coco, 200 gramas de castanha torrada, 1 colher
(de chá) de cravo da Índia, 1 colher (de chá) de
erva-doce.
Modo de fazer: Lavar, deixar assentar e
espremer a mandioca. Reservá-la e colocar em
uma bacia grande. Triturar bem a castanha, o
cravo e a erva-doce. Juntar à mandioca. Levar
ao fogo, para fazer um mel, a água, o açúcar e
a manteiga. Despejar o mel, bem quente, sobre
115
a mandioca e os temperos, misturando bem com
uma colher de pau. Adicionar 2 ovos inteiros e o
leite de coco. Bater bem a massa. Colocar em
uma forma untada e enfarinhada e levar ao forno
quente. Tirar da forma depois de frio.
BOLO DE MACAXEIRA
Ingredientes: 2 kg de macaxeira, 1 coco ralado,
500 g de açúcar, 1 colher (de sopa) de manteiga,
leite de vaca (o suficiente para cobrir o bolo),
cravo-da-Índia, pitada de sal.
Modo de fazer: Descascar, lavar e ralar a
macaxeira e misturá-la com o coco ralado. Fazer
uma calda com o açúcar e os cravos. Retirar os
cravos e despejar sobre a macaxeira. Acrescentar
a manteiga e o sal, misturando bem tudo. Untar e
enfarinhar uma forma. Despejar a massa do bolo
e cobrir com leite de vaca. Levar para assar, em
forno quente, e desenformar depois de frio.
PAMONHA
Ingredientes: 20 espigas de milho verde, 3
xícaras (de chá) de leite de vaca ou leite de coco,
3 colheres (de sopa) de creme de leite, açúcar e
sal a gosto.
Modo de fazer: Cortar os grãos dos milhos com
uma faca afiada e passá-los no liquidificador.
Depois, passar a massa em uma peneira grossa.
Misturar todos os ingredientes da receita.
Embrulhar e amarrar o líquido grosso na própria
palha do milho e, em um caldeirão com água
116
fervendo, cozinhar as pamonhas cerca de trinta
(30) minutos, até que endureçam.
MUNGUZÁ
Ingredientes: 500g de milho para mungunzá,
1 lata de leite condensado, 2 canelas em forma
de pau, 1 litro de leite, 200ml de leite de coco, 1
colher (sopa) de manteiga, sal a gosto.
Modo de fazer: Coloque o milho de molho de
um dia para o outro, troque a água, junto com os
paus de canela, e ponha, na panela de pressão,
de 30 a 40 minutos. Quando o milho estiver macio
(se for necessário, coloque no fogo por mais
alguns minutos), acrescente o leite condensado,
o leite de coco, o sal e a manteiga. Misture bem e
adicione o leite fervente. Deixe ferver a mistura e
desligue o fogo. Sirva em prato fundo, salpicado
com canela em pó.
ARROZ DOCE
Ingredientes: 1 xícara (chá) de arroz, 1 lata
de leite condensado, 200ml de leite de coco, 2
gemas (opcional), canela em pó.
Modo de fazer: Em uma panela grande, misture
o arroz e um litro de água fria e leve ao fogo até
ferver. Abaixe o fogo e deixe o arroz cozinhar.
Quando estiver cozido, adicione, ainda no fogo,
mexendo bem, o leite condensado, o leite de
coco e as gemas. Retire do fogo, coloque em
uma travessa e polvilhe com canela em pó.
117
BOLO DE FUBÁ
Ingredientes: 2 copos de açúcar, 4 ovos, 1 copo
de leite de vaca, 200ml de leite de coco, 200
gramas de margarina, 1 copo de farinha de trigo,
2 copos de fubá, 1 colher de sopa de fermento
em pó.
Modo de fazer: Bata a margarina com o açúcar
até formar um creme. Adicione as gemas e
continue batendo, até obter uma consistência
cremosa. Acrescente o leite de vaca e o leite de
coco. Misture bem, coloque a farinha de trigo, o
fubá e o fermento em pó, e bata bastante. Por fim,
coloque as claras em neve. Unte e enfarinhe uma
forma, despeje a mistura e leve ao forno quente
por 20 a 30 minutos. Desenformar depois de frio.
BOLO CREMOSO DE FUBÁ
Ingredientes: 3 xícaras de açúcar, 1 ½ xícara de
fubá, 3 xícaras de leite de coco, 1 xícara de água,
3 ovos inteiros, 1 colher de sopa de fermento em
pó, 2 colheres de sopa de margarina, 4 colheres
de sopa de queijo parmesão ralado.
Modo de fazer: Bater tudo no liquidificador e
despejar em uma forma untada com margarina
e polvilhada com farinha de trigo. Levar ao forno
quente por cerca de 30 minutos.
118
DENDÊ
O dendezeiro (Elaeis guineensis) é uma palmeira
de origem africana que se desenvolve bem em regiões
tropicais, com clima quente e úmido. Os egípcios, há
mais de 5.000 anos, já consumiam o óleo daquela
planta. Desde o século XV, o dendezeiro consta dos
relatos dos primeiros visitantes europeus à África,
como parte integrante da paisagem, dos hábitos e da
cultura popular. Lá, essa planta recebeu uma série
de denominações, tais como abobobe, kisside, ade
quoi, dendem, ou andim. No continente americano, o
dendezeiro foi introduzido com o comércio de escravos,
chegando, ao Brasil, no século XVII.
Em se tratando de mercado mundial, a Malásia
representa o maior produtor de óleo de dendê, com
cerca de 2,5 milhões de hectares de área cultivada,
movimentando US$ 9 bilhões/ano e gerando, na zona
rural, mais de 250.000 empregos diretos.
O fruto do dendê produz dois tipos de óleo,
que são obtidos através de processos físicos, pressão
e calor: 1) o óleo de dendê ou de palma (conhecido
como palm oil, no mercado internacional), extraído do
mesocarpo, a parte externa do fruto; e 2) o óleo de
palmiste (ou palm kernel oil), extraído da semente do
119
fruto, e que é similar aos óleos de coco e de babaçu.
Cada hectare de plantio de dendê produz, anualmente,
de 0,4 a 0,6 toneladas desse óleo. O azeite de dendê (devido à sua consistência
e por não rancificar) é apropriado para a fabricação
de margarinas, gorduras vegetais, pães, bolos, tortas,
sorvetes, barras de chocolate, biscoitos finos e cremes,
assim como óleos de cozinha. Cerca de 80% da
produção mundial desse azeite é destinada a alguma
aplicação alimentícia. Os restantes 20%, representados
pelo óleo de palmiste, são usados como matéria
prima na indústria de cosméticos, na fabricação de
sabonetes, sabão em pó, detergentes e amaciantes
de roupas biodegradáveis, lubrificantes, cosméticos,
velas, produtos sanitários e farmacêuticos, assim
como biocombustíveis (chamado dendiesel) para
motores a diesel. Presentemente, o azeite de dendê é o segundo
óleo mais produzido e consumido no país, representando
18,49% do consumo mundial. Se o plantio do dendezeiro
for corretamente conduzido, a produção de óleo ocorre
no final do terceiro ano, com uma colheita de 6 a 8
toneladas de cachos, por hectare. A palmeira atinge seu
pique máximo no oitavo ano, quando chega a produzir
25 toneladas de cacho, por hectare, permanecendo
nesse nível até o 17º ano e declinando, um pouco, até
o final de sua vida útil produtiva, que tem lugar por volta
de 25 anos.
Segundo Câmara Cascudo (1954), o primeiro
registro encontrado, sobre o dendezeiro, refere-se às
informações do português Duarte Lopez, na obra Relação
do Reino de Congo e das terras circunvizinhas (Roma,
120
1591). Nela, pode-se ler: o azeite faz-se da polpa do fruto... e usam-no como
o azeite e a manteiga; e arde, e com ele se untam
os corpos; e é boníssimo na comida. Quem tinha
a tradição do azeite era o português recebida
do mouro, valorizador da azeitona, plantador
de olivais. Quando o português enfrentou África
levava quinhentos anos, mínimos, de óleo de
oliva nos usos e costumes.
Nos candomblés da Bahia, de acordo com
aquele folclorista, o dendê representa o fetiche do Orixá
Ifá, para desvendar o futuro. Indispensável na culinária
afrobrasileira, o azeite de dendê era um ornamento
muito disputado pelo intercâmbio comercial. O enfeite,
por sua vez, com ou sem função mágica, foi o mais
longínquo objeto negociável no Paleolítico.
O pesquisador ressalta, também, um texto de
Hildegardes Viana (A cozinha bahiana, Bahia, 1955): O azeite fino e limpo é chamado de flor e o que
fica na borra bamba. A palha posta a secar ao
sol fornece o oguxó (bagaço para fazer fogo).
Da amêndoa do coco dendê extrai-se o xoxô
utilizado pelos pretos como amaciador de cabelos
e lustrador de peles fouveiras (canelas fubentas).
A produção de óleo de dendê deve ser iniciada
logo após sua colheita, constando das seguintes
etapas: 1. esterilização - utilizada para inativar
as enzimas que provocam a acidez no azeite, e
121
facilitar o desprendimento dos frutos dos cachos;
2. debulha - destinada a separar os frutos do cacho;
3. digestão – quebra-se a estrutura das células da
polpa para facilitar a prensagem e a liberação do óleo;
4. prensagem - a massa saída do digestor é submetida
à prensagem, para separar o óleo da mistura composta
por fibras e sementes.
O óleo extraído da polpa do fruto é denominado
óleo de palma bruto. Aquela mistura passa por um
desfibrador e, as fibras e sementes, são separadas
por meio de ventilação. As fibras são utilizadas nas
caldeiras, como combustíveis e, as sementes, são
transportadas para os secadores. Após a secagem,
elas vão para as quebradores de coco, que separam
as cascas das sementes, e encaminham estas últimas
para a prensa. Através da prensagem das amêndoas é
extraído o óleo de palmiste.
O fruto do dendezeiro é tão rico que o resíduo
restante, da última prensagem, contém de 14% a 18%
de proteína, sendo utilizado, inclusive, como um dos
componentes na fabricação de ração animal. O azeite
de dendê possui uma coloração amarelo avermelhada
e um sabor adocicado. Apresenta alguns elementos
antioxidantes e um elevado teor de carotenóides
(importante fonte de vitamina A), estando o seu uso
associado a substâncias anticancerígenas. No Brasil, os
dendezeiros ocupam cerca de 40 mil hectares e, grande
parte deles, está localizada na Região Amazônica.
No presente, a cultura do dendê é uma das
atividades agroindustriais mais relevantes das regiões
tropicais úmidas. Ao mesmo tempo, é uma cultura que
122
possui um forte apelo ecológico: apresenta baixos
níveis de agressão ambiental, adapta-se bem aos
solos pobres, protege o solo da lixiviação e da erosão,
e “imita” a floresta tropical. Tal cultura possui grande
potencial para absorver o gás carbônico, perdendo,
somente, para o eucalipto. Além do mais, auxilia a
restauração do balanço hídrico e climatológico, contribui
de forma expressiva para a reciclagem e liberação de
O2, e combate a elevação excessiva das temperaturas
médias da Terra.
O popular azeite de dendê é um dos ingredientes
principais da cozinha afrobrasileira. Na Bahia, a
população consome vários pratos deliciosos feitos
com esse azeite: acarajé (bolinhos de feijão fradinho,
pisados no pilão e fritos em azeite de dendê); caruru
(comida feita com quiabo picado, camarão, frango
e azeite de dendê); omalá (prato preferido de Orixá
Xangô, semelhante ao caruru, elaborado com quiabo
e azeite de dendê e servido com pirão de arroz); bobó
(prato principal dos Voduns, à base de aipim, azeite de
dendê e camarões); ipetê (prato predileto de Oxum,
elaborado com inhame cozido, azeite de dendê e
camarões secos); omolocum (iguaria preparada em
homenagem a Oxum, à base de feijão fradinho, azeite
de dendê, camarões e ovos).
Além desses, são preparados, também, vatapás,
muquecas, era peterê, farofas, entre outros pratos.
Algumas comidas de santo (iguarias especiais do
cardápio votivo dos Deuses africanos) são preparadas
pelas filhas de santo, dentro do rigor dos cultos, e
sempre contêm azeite de dendê. Este azeite ainda é
123
empregado nas liturgias dos Orixás, Voduns, Inquices
e Encantados.
Do dendezeiro, tudo se aproveita. Os talos
são utilizados no artesanato e nas práticas dos cultos,
através da confecção dos xaxarás (insígnias de Omolu
que as filhas de santo seguram nas mãos enquanto
dançam nos candomblés); e suas palhas são desfiadas
e usadas para fazer mariôs, utensílios colocados em
portas e janelas de santuários, e nos salões de dança
dos terreiros, como proteção contra malefícios. O azeite
de dendê está em situação de destaque no mercado
mundial de óleos, e sua produção ocupa, atualmente,
o 2º lugar, atrás, apenas, do óleo de soja.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa) para a Amazônia Oriental anunciou, um
investimento de 60 milhões de reais, para a formação
técnica de trabalhadores das fábricas de óleo de dendê,
e em infraestrutura, e para a produção das sementes,
geneticamente, melhoradas no país.
A Petrobras Biocombustível, por sua vez, explicou
que a estatal pretende desenvolver dois projetos
diferentes dentro do programa de biocombustíveis. O
Projeto Pará, que prevê a produção de 120 mil toneladas
de biodiesel ao ano, e será destinado a abastecer a
Região Norte do país; e o Projeto Belém, desenvolvido,
em partes iguais, com a companhia portuguesa Galp,
voltado para a exportação.
O Projeto Belém, no Pará, prevê a construção de
uma fábrica (investimento de US$ 315 milhões), e de
uma unidade industrial, em Portugal, (investimento de
124
US$ 263 milhões) para a produção de 300 mil toneladas
de biodiesel ao ano. O objetivo é atender ao mercado
europeu e aumentar, no exterior, a produção brasileira
de energia.
125
126
FOLCLORE NORDESTINO
127
A palavra folclore (folk-lore) foi criada pelo
arqueólogo inglês William John Thoms. Ele usou o
vocábulo no dia 22 de agosto de 1846, pela primeira
vez, em uma carta publicada no jornal The Athenaeum,
de Londres. Através da referida denominação,
Thoms pretendeu englobar os estudos que vinham
sendo chamados Antiguidades Populares, Tradições
Populares e Literatura Popular, e que possuíam, como
principais características, a popularidade, a oralidade, o
anonimato e a antiguidade.
Com o passar dos anos, o domínio do folk-lore
foi se ampliando e, atualmente, o conceito compreende
o estudo da cultura espontânea da sociedade, ou seja,
tudo aquilo que as pessoas dizem, sentem e fazem. O
estudo do folclore se tornou uma ciência sociocultural,
por assim dizer. Essa ciência objetiva dar conta dos
mitos, superstições, contos, fábulas, poesias populares,
provérbios, culinária, arte, literatura popular, música,
jogos e brincadeiras infantis, danças, entre tantos outros,
ainda que seus elementos não sejam mais anônimos e/
ou orais (como, por exemplo, a literatura de cordel).
Independentemente do grau de civilização, de
cultura, de capacidade, de ingenuidade, ou, até mesmo,
de barbárie, todas as sociedades desenvolvem hábitos
e costumes próprios sobre o mundo e as coisas, em
outras palavras, possuem uma alma coletiva, algum
tipo de sabedoria popular. Essa alma, projetada nas
manifestações culturais, representa um elo entre o
microcosmo e o macrocosmo, exprimindo, tanto as
especificidades individuais, quanto o material herdado
128
pelo indivíduo através de sua família, prole, bando, ou
sociedade. Neste sentido, engloba aspectos psíquicos,
históricos e antropológicos. As manifestações culturais
podem ser conservadas em seu formato original,
mantendo-se inalteradas, através dos tempos, ou
podem ser modificadas, renovadas e, até, abandonadas,
desaparecendo para sempre.
No Brasil, os estudos sobre o folclore só atingiram
um nível científico em 1913, quando o linguista e
historiador João Ribeiro realizou o Curso de Folclore, na
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O folclore passou
a representar, então, uma área de suma relevância da
antropologia cultural e, o dia 22 de agosto, mediante um
decreto de 1965, ficou instituído como o Dia do Folclore.
O Nordeste brasileiro - região produtora de
açúcar - sofreu a influência marcante de outras
culturas, como a portuguesa, a holandesa, a africana e
a indígena. Os nordestinos criaram hábitos e costumes
sui generis, fruto da miscigenação de três populações
principais: a europeia (os colonizadores, os holandeses,
e demais imigrantes), a africana (os negros escravos)
e a ameríndia (a população indígena local). Tais raças
geraram o povo nordestino e todas as suas principais
raízes culturais. Foram misturas de etnias, de cozinhas,
de línguas, de alimentação, e de costumes.
São de procedência africana, por exemplo,
os termos populares: banguela, calouro, mulambo,
cachimbo, cacimba, caçamba, birimbau, capanga,
banzo, mandinga, lundu, calunga, fulo, quitanda, quitute,
moleque, maxixe, quenga, tanga, malagueta, cachaça,
129
macumba, candomblé, balangandãs, e tantos outros.
De contribuição indígena, encontram-se as seguintes
palavras: coivara, taboca, jirau, tipoia, urupema, beiju,
samburá, caipora, cunhã, capoeira, cumbuca, puçá,
pixaim, jururu, biboca, paçoca, catapora, jererê, toca,
panema, curumim, pamonha, inhaca, tapera, pipoca,
tapioca, cipó, surucucu, baiacu, caipira, pindaíba, sabiá,
caititu, peroba, guabiru, perereca, carnaúba, gambá.
130
É bem comum a associação de praias, jangadas,
pescadores, coqueiros, mandacarus, cangaço, e/ou
carros-de-boi, à Região Nordeste. Nesta Região de
belezas paradisíacas, é possível se apreciar os exóticos
coqueiros de coco verde, balançando ao vento, bem
como os coqueiros nativos de buriti e de carnaúba,
onde correm as águas do rio São Francisco. É possível
se perceber uma identidade sui generis, incrustada
nos sotaques, cheiros, cores, temperos, receitas, e
escolhas devocionais. O folclore regional apresenta-se
rico e abrangente, dele fazendo parte o artesanato, as
superstições e as crendices, os folguedos, a linguagem
popular, os cultos, a literatura de cordel, a culinária,
os brinquedos, as artes e técnicas, as festas, as
adivinhações, os pregões e os remédios, entre tantos
outros elementos.
Em se tratando de representações populares,
no carnaval de Pernambuco podem ser apreciados
maracatus, caboclinhos, pastoris, La Ursas, clubes
de frevo e blocos de carnaval. O pastoril, um dos
importantes folguedos do Nordeste, costuma se
apresentar no período de 23 de dezembro a 6 de janeiro,
e, dele, constam bailados, danças, cantos, diálogos e
recitativos, em louvor ao nascimento de Jesus Cristo,
com duas alas de pastoras: o cordão azul e o cordão
encarnado. Sempre dançando, elas cantam:
Boa-noite, meus senhores todos,
Boa-noite, senhoras também;
Somos pastoras,
Pastorinhas belas,
Que alegremente
Vamos a Belém...
131
Tudo indica que o pastoril foi introduzido, no
século XVI, pelos missionários portugueses. No
passado, o folguedo era representado junto às igrejas,
para distrair as pessoas que aguardavam a Missa do
Galo. No presente, porém, as pastorinhas dançam
ao som de um conjunto de pau e corda, em palcos e
praças públicas. Esse acompanhamento musical, em
certos Estados, inclui, também, a presença de sanfonas,
violões e instrumentos de sopro e percussão.
Outro importante folguedo é o maracatu, criado
pelos escravos africanos. Eles buscavam manter, para
si, não, somente, os preceitos religiosos, mas, o próprio
rigor da nobreza. Sendo assim, introduziram uma forma
irônica de resistência cultural às relações de poder entre
senhores, escravos e os acessórios da realeza europeia.
É importante lembrar que, no Recife, o estabelecimento
do Reinado do Congo ocorreu em 1674, na igreja
de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
Nesta igreja, precisamente, foram realizadas eleições
entre os próprios escravos, a fim de escolherem quem
representaria o rei e a rainha do maracatu.
Na cidade do Recife, os maracatus mais antigos
são conhecidos como Maracatu de Baque Virado
ou Maracatu Nação, e nasceram da tradição do rei
do Congo, implantada, no país, pelos colonizadores
portugueses. Seus participantes exibem estandartes
exuberantes, e bordados com fios dourados sobre
veludo e cetim. A nobreza exibe cetros, coroas, espadas
e capas; as damas da corte carregam calungas bonecos de origem religiosa, remanescentes dos cultos
132
fetichistas - e todos desfilam ao som de instrumentos
de percussão. O maracatu mais antigo data de 1711,
e é originário de Olinda. Somente após a Abolição
da Escravatura, o folguedo passou a integrar o ciclo
carnavalesco, resumindo-se a desfiles da corte real
negra e obedecendo ao estilo das procissões católicas.
No carnaval recifense desfilam alguns maracatus
tradicionais, entre os seguintes: Nação Pernambuco,
Elefante, Leão Coroado, Estrela Brilhante, Nações
Sol Nascente, Gato Preto, Encanto da Alegria, Nação
Luanda, Porto Rico, Cabinda Estrela, Cabinda Brasileira
e Axé da Lua.
Os maracatus rurais, apesar de serem
considerados folguedos de segunda categoria, desfilam
homenageando os seus Orixás, e se destacam pelas
cores, beleza, e movimentos. Oriundos dos municípios
da zona canavieira de Pernambuco, tais maracatus
possuem uma presença muito marcante, ao desfilar
com seus lanceiros (ou caboclos de lança), tuxaus,
baianas, tirador de loas e orquestra. O município de
Nazaré da Mata possui dezessete grupos de maracatus
rurais e congrega o maior encontro de maracatus de
todo o Estado.
Os denominados caboclinhos, cabocolinhos, ou
caboclos, representam um folguedo de origem indígena,
uma espécie de reisado. Com bailados mímicos, eles
se apresentam durante os carnavais de Pernambuco,
da Paraíba, de Alagoas e do Ceará, e têm sua origem
nas danças executadas por crianças e adolescentes
tupinambás, do sexo masculino. Foi através desses
133
bailados que, no século XVI, os missionários
portugueses conseguiram ganhar a confiança dos
índios e, em especial, do segmento mais jovem das
populações indígenas. O fato está registrado na obra
Tratado da terra e gente do Brasil, escrita pelo Padre
Fernão Cardim, em 1584.
No carnaval, os caboclinhos (filhos de caboclos
ou descendentes de índios) são representados por
meninos e adolescentes, de dez a quinze anos de idade,
com os corpos pintados com ocre, usando tangas,
cocares, braceletes de penas de peru, brincos feitos de
conchas, dentes ou sementes, colares, machadinha,
arco e flecha e cocares de penas. Eles se apresentam
em grupos de, no máximo, vinte participantes. É o
caboclo velho - um adulto considerado rei ou mestre
- quem os comanda. Em movimentos sincronizados,
os brincantes acionam arcos e flechas de madeira, e
dançam ao som de instrumentos indígenas: maracás,
recorrecos e pífanos. No Rio Grande do Norte, porém,
os caboclinhos são bem diferentes: não usam penas no
vestuário, não utilizam arco e flecha como instrumento
de guerra, mas, para dar ritmo às danças, não restringem
as apresentações ao período do carnaval, e apresentam
maior vibração e alegria em suas performances.
Uma das representações folclóricas nordestinas
mais importantes é o bumba-meu-boi. Tudo leva a
crer que esse folguedo foi introduzido, no século XVI,
no período do ciclo econômico do gado. Segundo os
estudiosos, apesar de não possuir origem africana, é um
espetáculo integrado por negros. Nele, percebe-se seu
conformismo com a inferioridade social, sua condição
de subalternidade, que é transformada em comicidade.
134
No que se refere às danças folclóricas nordestinas,
o coco de roda se destaca. Trata-se de uma dança
mestiça surgida em Alagoas, nos tempos coloniais.
Nela, duas raças de escravos - africanos e índios se misturam. O ritmo do coco é dado por zabumbas,
pandeiros e tamborins. As mãos, contudo, representam
o mais importante instrumento musical. O coco de roda
era a dança preferida por Lampião e demais cangaceiros.
Por essa razão, a música registrada a seguir ficou tão
popularizada:
É Lampe, é Lampe, é Lampe,
é Lampe, é Lampe, é Lampião,
seu nome é Virgulino e
o apelido é Lampião.
135
Advinda do período do Brasil Colônia, o reisado
é uma dança popular de origem portuguesa, profana
e religiosa, festejada na véspera e no Dia de Reis.
No período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, os
participantes vão de porta em porta, fazendo louvações
nas casas e anunciando a chegada do Messias. Tudo
isso, ao som de músicas tocadas por sanfonas, ganzás,
pandeiros, zabumbas e triângulos. No desenrolar do
folguedo, observam-se as seguintes etapas: 1) a reunião
dos brincantes; 2) a chegada às casas; 3) o pedido de
abertura de portas; 4) o ato religioso diante das lapinhas
ou presépios, quando são rezados e cantados alguns
textos rimados; 5) o regresso dos figurantes para o lado
de fora das casas; e 6) a morte e a ressurreição do boi;
e 7) a despedida.
Alguns figurantes do reisado são encontrados,
também, no bumba-meu-boi: o Rei, a Rainha, o Mateus,
o Mestre e o Contramestre, o Governador, o Palhaço, o
Índio Peri, a Sereia, e certos personagens de aspecto
fantasmal. Em Alagoas, os participantes se apresentam
com chapéus bordados e enfeitados com estrelas, além
de fitas douradas e pequenos espelhos, que funcionam
como amuletos para espantar o mau olhado.
Representando, uma dança e uma espécie de
luta, ao mesmo tempo, a capoeira surgiu no Nordeste,
introduzida por escravos africanos. Ela se difundiu,
depressa, em Salvador e, um pouco, no Recife e no
Rio de Janeiro. A capoeira é executada ao som de
pandeiros, cantos, palmas e, especialmente, do toque
do berimbau. Originário da África, este instrumento
compõe-se de um arco de madeira, com cerca de um
136
metro e meio de comprimento, uma corda de arame,
uma caixa de ressonância (feita com uma cabaça
cortada e amarrada com cordão), uma cesta com
sementes de caxixi, uma vara pequena de madeira
para percutir a corda, e uma moeda pesada. Depois
de elaborado um semicírculo, duas pessoas entram
no meio dele e iniciam os gingados, maneios de corpo,
rasteiras, golpes e contragolpes rápidos. Há que se ter
cuidado, entretanto, porque certos golpes de capoeira
são capazes de matar.
Dentre as principais festas nordestinas, destacase a de São João. No mês de junho, todos dançam o
forró, uma dança de pares, muito animada, cuja música
foi consagrada pela dupla de compositores Luiz Gonzaga
e José Dantas. Durante as festividades do ciclo junino,
as pessoas costumam vestir “roupas de matuto”: roupas
simples, bem coloridas, confeccionadas com tecidos
de chita (pouco dispendiosa). As mulheres se enfeitam
com grandes tranças nos cabelos, presas por laços
de fita e usam chapéu de palha. Além disso, vestem
saias largas, cheias de babados e calçam sapatos (com
meias). Os homens pintam bigodes e cavanhaques,
com carvão, trazem um cachimbo na boca, como se
estivessem fumando, vestem calças remendadas,
camisas coloridas, e colocam um chapéu de palha na
cabeça.
As festas juninas se concentram em torno de
três datas principais: no dia 13 de junho comemora-se a
festa de Santo Antônio; no dia 24 de junho é a festa de
São João; e, no dia 29 de junho, tem-se a festa de São
Pedro. O sentido religioso da festa junina, da mesma
forma que as demais comemorações de origem pagãs,
137
foi introduzido pela Igreja Católica, no período do Brasil
Colônia.
A festa de São João tem seu início na noite do dia
23 de junho. Nesse dia, veem-se as ruas enfeitadas com
bandeirinhas coloridas, fogueiras acesas, a presença de
comidas à base de milho (canjica, pamonha e munguzá)
e/ou de massa de mandioca (bolo Souza Leão, bolo de
macaxeira e pé de moleque), sendo o tempo de soltar
balões e queimar fogos de artifício.
Uma das danças típicas de São João é a
quadrilha: uma dança de salão dos nobres franceses,
que empolgou as cortes europeias dos séculos XVIII
e XIX e, chegou ao país, mediante a bagagem lusa.
Posteriormente, difundiu-se pelas províncias, tendo se
fixado nas regiões rurais. No presente, essa dança de
pares possui um marcador que, através de comandos,
em um linguajar que, ora mistura o francês, com
palavreados matutos e, ora utiliza palavras em francês,
em português, ou em ambas as línguas, dirige toda a
performance. Os comandos são os seguintes: anarriê
(em francês, en arrièrre) - os pares devem retornar aos
seus lugares e os cavalheiros devem ficar à frente das
damas; olha a chuva; traverser de cavalheiros; balancer
na grande roda (dançar na grande roda); traverser de
damas; alavantú (em francês, en avant, tout) os pares
devem se dirigir ao centro da quadrilha, de mãos dadas,
e formar uma grande fila; autre fois (de novo); preparar
para o túnel; balancer (dançar no lugar); changer de
damme (trocar de dama); retourner aos seus lugares
(voltar aos seus lugares); preparar para o galope; retirer
(ir embora); e c’est fini (acabou).
Na quadrilha, também é encenado o casamento
138
matuto. Um homem é preso porque engravidou sua
namorada e tenta (em vão) fugir das obrigações
matrimoniais. Sob a ameaça de uma arma de fogo, um
policial leva o homem como prisioneiro, obrigando-o
a se casar. Com um longo sermão, o padre celebra o
casamento e abençoa os noivos. As pessoas assistem
ao espetáculo fazendo uma grande roda em volta dos
participantes.
O forró é outra dança (de pares) típica do ciclo
junino. Há quem afirme que a palavra forró teve sua
origem em 1872, durante a presença inglesa, na Região
Nordeste, em especial da Great Western of Brazil
Railway Company Limited, uma empresa pertencente
a capitalistas ingleses, encarregada de construir e
explorar as estradas de ferro (em direção ao agreste
nordestino), e cuja concessão finalizou em 1975.
Na época, objetivando comemorar a inauguração
de sua primeira estrada de ferro, aquela Companhia
promoveu um baile, animado por sanfonas e zabumbas,
difundindo-o através de um cartaz onde se lia: for all
(que significa, em inglês, para todos). Acredita-se que,
a partir daí, as pessoas começaram a chamar aquela
dança de foróu, e o termo findou se transformando na
palavra forró. Durante todo o mês de junho, há festejos
nas cidades de Campina Grande (na Paraíba) e Caruaru
(em Pernambuco). Esses dois municípios competem
pelo título de “Capital do Forró”.
Uma das grandes atrações turísticas da festa de
São João é o Trem do Forró. Durante o período junino,
esse Trem sai da Praça do Marco Zero, no bairro do
Recife, em direção ao Cabo de Santo Agostinho, e faz
139
um percurso de quarenta e dois quilômetros. Trazendo
conjuntos musicais, em seus vagões, o trajeto é todo
animado por sanfonas, zabumbas e triângulos, e as
pessoas que se encontram nas estações ferroviárias se
aglomeram para saudar os passageiros. Os participantes
do Trem do Forró dançam e cantam durante todo o
percurso da viagem.
Em Caruaru, uma grande atração popular de
São João é a Caminhada do Forró. Trata-se de uma
procissão dançante e cantante, que sai do Pátio de
Eventos, no dia 9 de junho, e tem como destino final o
Alto do Moura, localidade onde viveu o Mestre Vitalino. O objetivo da caminhada de quinze quilômetros é a
degustação do “Maior Cuscuz do Mundo”, oferecido aos
brincantes, gratuitamente, no fim do percurso. O cuscuz
é cozido em uma enorme cuscuzeira, com capacidade
para trezentos quilos de massa, e mede 3,3 metros de
altura por 1,5 metros de diâmetro, sendo feito com os
seguintes ingredientes: 300 quilos de massa de flocos
de milho, 20 quilos de farinha de mandioca, 5 quilos de
sal e 10 quilos de margarina. A iguaria é servida com leite
de cabra e carne ensopada de bode. Em sua edição de
1997, o Guiness Book publicou, em destaque, o “Maior
Cuscuz do Mundo”. Segundo os registros, em 1995,
Caruaru preparou um cuscuz que pesou seiscentos
quilos.
De origem europeia, o carnaval é a maior de
todas as festas. No Recife Antigo e em Olinda, e em
grande parte das capitais nordestinas, dança-se o
frevo. No Centro do Recife, na véspera do carnaval
oficial (no sábado) sai o maior bloco do mundo: o Galo
da Madrugada. Esse bloco arrasta mais de um milhão
140
de pessoas: sai do Forte das Cinco Pontas, passa
pela Avenida Dantas Barreto e finaliza na Avenida
Guararapes. Do seu cortejo, fazem parte muitas
embarcações, que desfilam pelo rio Capibaribe.
No carnaval em Salvador, a multidão acompanha
os trios elétricos vestida com abadás, e ao som de música
axé. Alguns municípios do Nordeste comemoram,
inclusive, um segundo carnaval, fora de época. No
Recife, ele é chamado Recifolia; e, em Campina
Grande, é denominado Micarande. O carnaval fora de
época incrementa o turismo, gera empregos e ativa o
mercado de trabalho.
Várias manifestações folclóricas são encontradas
na Medicina Popular. Em primeiro lugar, destacam-se
as benzeduras, que utilizam rezas ou orações feitas
por mulheres e homens considerados rezadores,
benzedores, e curadores. Há preces específicas para
estancar o sangue, separar o sangue puro do impuro,
estancar hemorragia uterina, combater espinhela caída,
curar dor de dente, queimaduras de fogo, dores nas
costas, cobreiro e engasgo. Em caso de erisipela, são
feitas benzeduras em forma de cruzes, com ramos de
manjericão, vassourinha, ou arruda. Para se curar o
cobreiro, basta cercá-lo com pequenas cruzes, feitas
com tinta preta, e proferir uma determinada oração. Para
combater a tosse, causada pela coqueluche, utiliza-se um
lambedor preparado à base de leite de jumenta, xarope
de caroço de algodão e casca de juazeiro. Em caso de
sarampo, aconselha-se beber chá de sabugueiro puro.
Nos meios rurais mais incultos, as pessoas utilizam um
chá que é feito das fezes (ressequidas) de cachorro. O
reumatismo é tratado com uma canja insossa de carne
141
fresca de raposa, banha morna de cágado, e carne e
banha de cobra cascavel (em particular, essa banha
deve ser ingerida em pequenas porções, duas a três
vezes ao dia, e aplicada à noite, como unguento, sobre
as partes afetadas). As hemorragias são combatidas
com aplicações tópicas de esterco de vaca, cavalo,
burro e jumento.
142
No tocante ao cangaço, cabe ressaltar que, de
figuras históricas que, por décadas, aterrorizaram os
Estados nordestinos, os cangaceiros se transformaram
em figuras folclóricas. Lampião e Maria Bonita estão
presentes na música ( xaxado, coco e forró), na literatura
de cordel, no cinema, no teatro, no vestuário (roupas e
utensílios de couro) e no artesanato nordestino (através
de bonecos de barro, de um modo geral).
O Nordeste possui uma culinária rica e variada.
Neste laboratório de receitas, processos e sabores,
onde o sal do mar e o sol forte do sertão dão um sabor
peculiar aos alimentos, destacam-se os seguintes
pratos: peixada, sirizada, quiabada, moqueca de peixe,
pirão de peixe, casquinho de caranguejo, sururu ao coco,
fritada de aratu, buchada de bode (bucho recheado),
e galinha de cabidela. Nas zonas rurais, come-se
tanajuras fritas: uma espécie de formiga que tem a parte
posterior do corpo muito protuberante, e é considerada
um petisco especial e saboroso. E, nas ruas, encontramse ambulantes que vendem munguzá, cuscuz, milho
cozido, pamonha, canjica, dentro de carrinhos contendo
panelões, bem como pessoas que vendem cavaquinho,
rolete e caldo de cana, pipocas doce e salgada, rapadura,
tapioca, cocada e algodão doce. Também nas ruas, em
Salvador, a herança africana da cozinha baiana merece
ser ressaltada: mulheres negras, com roupas típicas
e grandes tabuleiros, mantêm suas famílias vendendo
abarás cozidos em folhas de bananeira, e acarajés
fritos no azeite de dendê, servidos com muito molho de
pimentas, camarão seco, vatapá e caruru.
143
A cozinha pernambucana, por sua vez, contém
comidas deliciosas, tais como buchada de bode,
dobradinha, rabada, cabrito assado e guisado, galinha
à cabidela, paçoca (feita com charque e farinha de
mandioca), guaiamunzada com pirão, pratos à base de
milho (canjica, pamonha, bolo de milho, angu, munguzá,
milhos cozido e assado), tapiocas (molhadas, de coco
e de queijo coalho), caldinhos de feijão, de peixe e de
camarão, e grande variedade de sucos, sorvetes e
doces de frutas regionais: pitanga, acerola, caju, goiaba,
siriguela, cajá, graviola, mangaba, carambola, mamão,
coco, pinha, sapoti, maracujá e manga.
Já no Maranhão encontram-se os seguintes pratos
típicos: arroz de cuxá, frigideiras de camarão, doces de
buriti, bacuri, cupuaçu e murici. Nesse Estado, quase
todos os pratos usam o camarão. No Piauí, encontramse peixes fritos em óleo de babaçu, paçoca (feita de
carne de sol assada, socada no pilão, misturada com
farinha e cebolinha branca), e cafofa (uma fritura de
intestinos de animais). Em Alagoas, além de inúmeras
iguarias, destaca-se o saboroso feijão de coco. E, no
Ceará, o baião de dois (feijão mulatinho, arroz e queijo
de coalho, cozidos juntos na mesma panela) possui a
mesma popularizade que, o acarajé, para os baianos.
No Nordeste, pode-se saborear uma série de
doces que são transmitidos, oralmente, de geração a
geração, e vendidos em feiras e mercados públicos,
tais como doces de umbu, araçá, mamão verde,
jerimum, goiaba, jaca, banana em rodelinhas, cajuadas,
goiabadas, além do tradicional bolo de rolo, uma herança
144
portuguesa, (camadas de bolo recheadas com goiabada
derretida, doce de leite ou chocolate), bolinhos de goma
e bolos de bacia. Nas praias, entre outras iguarias,
encontram-se: água de coco, passa de caju, peixe frito,
camarão cozido, casquinho de caranguejo, espetos de
queijo coalho e de carnes (assados em um braseiro que
os vendedores ambulantes transportam).
145
O artesanato nordestino apresenta-se criativo
e diversificado, dele fazendo parte redes, talhas e
esculturas em madeira, rendas, vários tipos de cerâmica
(utilitária, decorativa e lúdica), cestarias, xilogravuras
(gravadas em papel, em azulejos, em camisas),
trabalhos em fibra, couro, pedras, mariscos, chifres,
zinco, sementes, grãos e sucatas diversas. A arte de
tecer rendas é uma herança que os colonizadores
europeus deixaram no país. Surgiu, então, a figura
da mulher rendeira: uma atividade desenvolvida por
mulheres, em âmbito doméstico, e que representa uma
fonte de renda para a população feminina. As noivas
apreciam muito as rendas e costumam encomendá-las
para seus enxovais; e, os padres, usam-nas em seus
paramentos. Há rendas elaboradas com vários tipos
de pontos: caroço de arroz, meia lua, flor de goiabeira,
traça, caracol, margarida e bico de pato.
O folclore nordestino conta com a presença de
poetas populares e trovadores. Nas feiras e mercados
públicos, encontram-se poesias que vêm sendo
publicadas sob a forma de literatura de cordel. Os
folhetos (reproduzidos em oficinas tipográficas) contêm,
nas capas, xilogravuras elaboradas por vários artistas.
É importante destacar alguns poetas populares do
Nordeste, os reais profetas de versos, tais como Catullo
da Paixão Cearense (conhecido, inclusive, no exterior
do país); Leandro Gomes de Barros (um dos principais
expoentes da arte cordelística); Antônio Gonçalves da
Silva (apelidado Patativa do Assaré, que nasceu e viveu
no município de Assaré, no Ceará); José Saturnino
146
dos Santos (um pernambucano, chamado Andorinha);
os paraibanos Leandro Gomes de Barros (apelidado
Pombal), Sebastião Marinho, Pedro Bandeira (o
Príncipe dos Poetas do Nordeste) e Zé Limeira, oriundo
de Taperoá. Seguem, abaixo, alguns versos produzidos
por eles:
Do cordel para o repente,
É diferente o traçado,
Porque o cordel é escrito,
E o repente é improvisado,
O cordel tem de ser lido,
E o repente cantado.
(Andorinha)
Repentista respeitado,
Narra, canta e profetiza,
Gera mito, cria lei,
Forma lenda e faz pesquisa,
Cantador faz tudo isso,
Inda canta e improvisa.
(Sebastião Marinho)
O nordestino é quem bota,
Esse São Paulo pra frente,
Fez de Maluf prefeito,
De Itamar presidente,
Inda tem cabra safado,
Que marginaliza a gente.
Vamos chegar a 2000,
147
Com muitos descamisados,
Na farsa dos presidentes,
Na gula dos deputados,
Nosso Brasil inda vive,
De pés e mãos amarrados.
(Pedro Bandeira)
148
De fabricação doméstica, outro elemento folclórico
é o pirulito, um doce feito à base de açúcar, em forma
de cone, que é enrolado em papel de embrulho, para
não grudar nas mãos das pessoas. Para transportar os
pirulitos, os vendedores utilizam um cabo de vassoura,
em cuja extremidade pregam uma pequena tábua de
pinho, cheia de buracos e, neles, encaixam os pirulitos.
O ambulante apóia o cabo de vassoura no ombro e
circula pelas ruas, emitindo sons advindos de um apito
de madeira, que é o chamariz para avisar a todos que
os pirulitos estão à venda.
149
Do caldo étnico que integra o folclore nordestino,
fazem parte, ainda, cantadores de violas, amoladores
de facas, de tesouras e alicates de unha, vendedores
de algodão doce, cavaquinho, vassoura, cuscuz,
colher de pau, “japonês” (um tipo de doce de coco com
açúcar, mais mole que a cocada) e “raspa raspa” (uma
espécie de sorvete, vendido a retalho), enfim, todas
aquelas pessoas que, na luta diária pela sobrevivência,
propagam hábitos e tradições locais, e preservam, sem
qualquer intenção, as idiossincrasias da cultura popular
regional.
150
IARA
151
Analisando-se a história da humanidade, é
possível perceber que a figura da mulher peixe vem
sendo bastante utilizada. Na Antiguidade, esse mito se
apresentava com o corpo de pássaro, e com busto e
rosto de mulher. Estava sempre associado, também,
às divindades da morte e ao culto dos mortos, o que
pode ser evidenciado por intermédio das estátuas de
sereias presentes nos sepulcros. Com o passar do
tempo, sua forma se transformou e a metade pássaro
foi substituída por uma cauda de peixe. Atualmente,
as sereias são chamadas de mermaid, na Dinamarca;
sirena, na Espanha; loreley, na Alemanha; e nereidas,
na Grécia.
A mulher peixe chegou ao país, depois do
Descobrimento, através dos colonizadores europeus.
Estes, além da presença física, da língua e dos hábitos,
trouxeram, ainda, os seus valores, mitos, lendas
e superstições. Neste sentido, a herança cultural
europeia misturou-se com as culturas indígenas e
africanas, conhecimentos e valores foram permutados,
e surgiu, através do sincretismo, um amálgama sui
generis. Na Região Norte, em particular, a permanente
interação com rios e igarapés, por parte dos caboclos,
deu origem a várias lendas que evidenciam elementos
representativos da vida e da morte. E a iara, uma das
mais belas figuras aquáticas, é uma delas.
Para os índios, iara significa senhora das águas
ou ninfa das águas. Também é chamada de uyára e,
em tupi, de uauyára, representando uma figura de
dupla imagem, que pode ser, tanto feminina, quanto
masculina. De acordo com os nortistas, ela habita nos
rios e em seus afluentes, mas, só aparece diante de
152
homens solteiros, ou daqueles que estão prestes a se
casar. Sendo metade peixe e metade mulher, ela pode
ser observada penteando os cabelos, cantando ou,
simplesmente, conversando com algum homem que
passa. O pretenso parceiro, como se estivesse sob
efeito hipnótico, é levado para as águas profundas, logo
morrendo afogado.
De acordo com pesquisadores, a iara representa
a simbiose encantada de uma mulher tentadora: possui
um bonito rosto europeu, com cabelos louros e traços
delicados, uma cauda de peixe sempre submersa,
com escamas de várias cores, e uma voz maravilhosa.
Através do seu canto, ela exerce uma atração irresistível
junto aos homens, conseguindo arrastá-los para o fundo
das águas. Tal figura mitológica foi difundida no país,
após o século XVII.
Outros estudiosos creditam a lenda da iara às
leituras que os colonizadores lusos empreenderam dos
autores clássicos, a exemplo de Virgílio (Eneida), de
Heródoto (Epítetos) e de Homero (Ilíada e Odisséia). Em
seus trabalhos, todos eles se referiram à figura sedutora
e fatal daquele mito, ora sob forma de mulher, de ave,
ora sob forma de anfíbio. Desse modo, os portugueses
absorveram as lendas marítimas e repassaram-nas
à população brasileira. É provável, então, que exista
um elo entre a iara brasileira e as sereias, que foram
ressaltadas pelos autores clássicos.
É importante lembrar que o poeta Luís de
Camões, no século XVI, em Os Lusíadas, mencionou,
diversas vezes, a presença de sereias na rota das
navegações. E os tesouros e palácios, ofertados
pela iara, vêm corroborar com a forte presença de
153
uma cultura importada - a europeia - uma vez que os
indígenas (excetuando-se aqueles que não absorveram
os elementos culturais dos colonizadores) jamais
possuíram qualquer referencial de riqueza. Este foi
introduzido pelos europeus que aqui vieram.
No tocante à iara, de acordo com Câmara
Cascudo (1972), houve toda uma contribuição dos
escravos negros, destacando-se a Kianda, a sereia
africana; a figura poderosa de Osum, o Orixá dos rios,
lagos e lagoas da teogonia negra; e a cultuada Iemanjá,
que os afro-descendentes reverenciam como a divina
Mãe D´água ou Aiocá, deusa das águas, sereia do mar,
ou Orixá feminino das águas. Por outro lado, a Iemanjá
personaliza a água salgada: tem na concha do mar o
seu fetiche, e protege quem vive do mar ou depende de
amores. Ela possui muitos amantes, mas, os carrega
para o fundo do mar. Também é ciumenta, vingativa e
cruel, como todas as égides primitivas. Grande protetora
das viagens marítimas e dos pescadores, a Iemanjá
passou pelo processo sincrético das deusas marinhas.
E, graças ao sincretismo cultural ocorrido no país, ora
ela é considerada como Nossa Senhora do Rosário, ora
é tida como Nossa Senhora das Candeias.
No Norte do Brasil, existem várias lendas
referentes à iara. Uma delas ressalta que ela é tão
bonita, e possui uma voz tão linda, que enfeitiça todos
os homens. Seu canto representa a própria perdição
dos pescadores. Quem olhar para a superfície dos rios
e vir a iara, de imediato, sentir-se-á atraído por ela,
sendo arrastado para o seu palácio de cristais verdes,
154
no fundo das águas, e encontrará a morte, através de
núpcias funestas.
Outra versão dessa lenda registra a história de
uma sereia que vivia no fundo dos rios e igarapés, à
sombra das florestas virgens. Certa noite, um índio
sonhou com uma bela jovem de cabelos louros, olhos
azuis e pele muito branca, que morava em um castelo
de cristal, coberto de ouro e safiras, e de onde provinha
uma música celestial. Com tantos atrativos, logo caiu
de amores pela sereia, principalmente após ter ouvido o
seu canto e suas juras de amor eterno. Navegando pelo
rio, ele percebeu que, sobre as águas, se formou uma
choupana e, em seguida, sorrindo-lhe, surgiu a iara.
Apaixonado e enfeitiçado como estava, o índio dirigiuse à choupana, remando com sua canoa. Naquele
preciso momento, porém, a sereia o agarrou e, juntos
mergulharam para nunca mais voltar.
Registra outra lenda corrente que havia um
belo índio tapuio, filho de um tuxaua valente e ousado,
que vivia sempre triste, apesar de saber manejar a
zarabatana com destreza, de brandir o tacape e retesar
o arco com mais coragem do que todos, de representar
o orgulho da tribo, de ganhar os jogos que celebram as
festas, e de os próprios anciãos se curvarem perante
ele, em sinal de respeito. Sua mãe lhe perguntou, então,
o porquê de tanta tristeza. Ele explicou que tinha visto
uma jovem belíssima, com uma voz harmoniosa, lindos
olhos verdes e cabelos louros como o ouro, presos por
flores de mureré. A jovem lhe estendera os braços,
como se quisesse neles se entrelaçar, e, cantando,
desaparecera nas águas do igarapé.
155
Ao ouvir os lamentos do índio, a mãe pediulhe, chorando: “Por favor, meu filho, não volte mais ao
igarapé. A mulher que você viu, ali, é a iara, o seu sorriso
é a morte, não ceda aos seus encantos.” Entretanto, o
tapuio não seguiu os conselhos maternos. Ao pôr-dosol, integrantes da tribo viram e ouviram, de longe, uma
mulher cantando e, ao seu lado, o vulto de um homem.
Quando um índio mais corajoso ousou se aproximar
do local, rapidamente, as águas do igarapé se abriram,
e, nelas, sereia e tapuio mergulharam. Escusado dizer
que o índio jamais retornou à sua aldeia.
Outra versão da lenda da iara relata que um
rapaz, prestes a se casar, adormeceu perto de um
rio. Era noite de lua cheia, havia luz no firmamento, e
156
as matas estavam mais iluminadas do que em noites
anteriores. De repente, o rapaz foi despertado por uma
voz, que o chamava pelo nome. Sem pensar duas
vezes, ele se dirigiu às margens do rio e encostouse em um tronco de ingazeiro. Olhou para as águas,
desconfiado, e distinguiu um ponto luminoso no centro
delas. Esse ponto se alargou, até alcançar grandes
proporções. Ao mesmo tempo, ele sentiu um torpor em
todo o corpo, que ameaçava paralisar-lhe os membros.
Começou a suar frio, e um grande terror surgiu em seus
pensamentos. Apesar de tudo isto, uma força imensa e
poderosa o obrigou a se concentrar na parte iluminada
das águas.
Daí, algo extraordinário ocorreu. A superfície
do rio se abriu no centro da área iluminada e, dela,
lentamente, emergiu uma jovem deslumbrante, enquanto
gotas de água pareciam formar colares de pérolas, com
o precioso banho de luz que recebiam. A pele da jovem
era da cor dos lírios, os cabelos louros, como reflexos
de ouro, os olhos transparentes, como duas pedras de
esmeralda, e os lábios eram provocantes. Prometendo
delícias e prazeres inesgotáveis, ela caminhou em
sua direção, com um olhar diabolicamente sedutor.
Estava nua, da cintura para cima, podendo-se ver seus
contornos exuberantes, de sedução e voluptuosidade
ilimitadas. Os dois se aproximaram, as defesas do
rapaz foram se dissipando, e a figura mítica beijoulhe a face. Nessa hora, ele percebeu que os lábios da
jovem eram úmidos e frios. Mas, não houve tempo para
reagir. Naquele instante, o rapaz escorregou e caiu na
157
água. Antes que afundasse, porém, ele desmaiou. Por
sorte, alguém que passava pelo rio, conseguiu tirá-lo
das águas. Salvo por milagre, trêmulo e abatido, ele
contou a todos: fora a iara, a linda jovem que possuía
um irresistível magnetismo e os braços assassinos.
Às vezes, dizem que a iara pode se apresentar,
também, sob a forma masculina, como no mito do
boto que, à noite, se transforma em um homem muito
formoso e educado, vestido de branco, e atrai as
caboclas para o seu palácio encantado, no fundo das
águas, matando-as afogadas. Os nortistas utilizam o
mito do boto para arrefecer a ira dos maridos traídos e
a dos pais enganados (quando suas mulheres ou filhas
engravidam) e creditam a fuga ou o desaparecimento
de seus entes queridos ao poder de sedução da iara.
Em outras palavras, quando alguém desaparece,
quem leva a culpa é sempre a bela sereia. Contudo,
o simbolismo mais propagado da iara é o da sedução
mortal. No Norte, a crença é tão forte que, ao anoitecer,
muitas pessoas não se atrevem a passar perto de rios
e igarapés. Para se livrar daquela sedução, dizem as
pessoas, é necessário comer muito alho, ou esfregá-lo
por todo o corpo.
Todas essas lendas, que fazem parte do folclore
brasileiro, já serviram de fonte de inspiração para
poetas, escritores e artistas, tais como Olavo Bilac, José
de Alencar, Afonso Arinos, Melo Moraes Filho, Manuel
Santiago e Coelho Neto, que incluíram a iara (e outras)
em seus poemas, sonetos, contos e pinturas.
É importante deixar registrado, por fim, que os
158
índios brasileiros possuem representações e mitos
aquáticos, porém, que, nenhum deles, incorpora as
qualidades malignas e fatais da iara. Na verdade,
eles sempre procuram algum remédio para combater
as maldades, sublimando, inclusive, a própria morte.
Em seu imaginário, os rios e igarapés representam
uma fonte de sobrevivência e, não, um caminho para
a morte. E como não reprimem a própria sexualidade,
eles também não sentem necessidade de criar figuras
sensuais como a iara. Quando os índios citam a beleza
das cunhãs, estão enaltecendo tal qualidade como
referência estética e, não, como objeto de libido. A
mãe d’água indígena, contrariamente à iara, é uma
figura bondosa e importante: como a guardiã dos rios,
ela se materializa nas plantas e flores aquáticas, que
alimentam todos os seres vivos de água doce.
159
160
IPÊ
161
O ipê é uma árvore do gênero Tecoma, que
pertence à família das Bignoniáceas, e pode ser
encontrada em seu estado nativo por todo o Brasil. Há
muitos séculos, a árvore vem sendo apreciada tanto
pela excelente qualidade de sua madeira, quanto por
seus efeitos ornamentais, decorativos e, até, medicinais.
O ipê costuma ser plantado, também, em parques e
jardins. No Norte do país é chamado pau d’arco.
A árvore do ipê é alta e, no período de floração,
fica totalmente desprovida de folhas: elas dão lugar às
flores, que podem ser amarelas como o ouro, brancas
ou roxas, e estampam belas manchas coloridas no meio
ambiente. O ipê floresce de julho a setembro, e frutifica
de setembro a outubro. Após o período da floração,
aparecem folhas digitadas, comportando de cinco a
sete folíolos. No inverno, ela se apresenta, totalmente,
despida de folhas e de flores.
Sua madeira é castanho oliva, ou castanho
avermelhada, possuindo veios resinosos escuros.
Considerada como “madeira de lei”, em outras palavras,
resistente, dura, flexível e que suporta bem a umidade,
o ipê tem sido utilizado em construções civis e navais
(produção de quilhas), em edificação de pontes, na
fabricação de postes, dormentes, tacos (de assoalho),
vigas, esteios, bengalas, e outros.
Segundo as cores de suas flores, ou de sua
madeira, os ipês recebem nomes distintos, destacandose os seguintes:
1. ipê amarelo ou ipê comum (tecoma longiflora) - pode
atingir vinte e cinco metros de altura, sendo bastante
162
encontrado em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, em
São Paulo, em Mato Grosso e em Goiás;
2. ipê branco ou ipê mandioca (tecoma alba) encontrado em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e
no Paraná;
3. ipê contra a sarna (tecoma impetiginosa);
4. ipê roxo ou ipê rosa (tecoma heptaphylla) - encontrado
do Piauí a Minas Gerais, e em São Paulo e Goiás;
5. ipê do brejo (tecoma umbellata) - comum nos
alagados e mangues dos rios de Minas Gerais e de
São Paulo;
6. ipê tabaco (tecoma insignis) - mais baixo que os
demais, e com ramagens abundantes.
A casca, a entrecasca e a folha do ipê possuem
propriedades medicinais. São utilizadas no tratamento
de amidalites, estomatites, infecções renais, dermatites,
varizes e certas doenças oftálmicas. Elas combatem,
ainda, diarreias, inflamações, infecções, tumores e
febres. São usadas, inclusive, como cicatrizantes.
Nem todos sabem que, dentre o universo de plantas
existentes no país, a flor do ipê foi selecionada, segundo
a Lei no. 6507, de 7 de dezembro de 1978, como a Flor
do Símbolo Nacional do Brasil.
163
164
LEGENDAS DE CAMINHÕES
165
Ao varar as estradas do Brasil, passando a maior
parte de seus dias sozinhos, dentro das cabines dos
caminhões, os motoristas sentem o peso que a solidão
lhes traz: é a falta da esposa, dos filhos, dos familiares
e dos amigos. Em cada trecho de rodovia, e em cada
ultrapassagem, o seu futuro é visto como um ponto de
interrogação, ou seja, a vida terminar em uma curva
perigosa. Ao anoitecer, à distância, os caminhões se
transformam em pequenos pontos luminosos, que se
movem nas estradas.
Talvez para criar uma espécie de identidade
própria, ou para expor algumas idéias e chamar a
atenção por onde passam, os caminhoneiros gravam
legendas nos parachoques dos veículos, difundidoas, ao se deslocarem. As mensagens curtas e de fácil
memorização, são desejos, pontos de vista, dúvidas,
certezas, carências, enfim, todo o pensamento de
uma classe, que é projetado e transmitido de maneira
simples e simpática.
As legendas atraem, informam e distraem as
pessoas. Representando um meio de comunicação
estritamente popular, ora se apresentam como um
conselho a ser seguido, um alerta geral, ora aparecem
como um jogo de palavras rimadas. Algumas revelam o
sofrimento, o baixo poder aquisitivo, a privação de suas
necessidades básicas. Outras expressam o desejo que
os caminhoneiros têm de viver, seus sentimentos em
relação à mãe, à esposa, aos filhos e à sogra, em outras
palavras, suas filosofias de vida. No entanto, mediante
termos e temas regionais, eles utilizam o bom humor
166
para divulgar as legendas, denotando inteligência e
desprendimento.
De acordo com Mauro Almeida (1963), o
caminhoneiro
ridiculariza as mulheres de mil maneiras
diferentes, os parentescos classicamente
malhados, como as sogras, os namoros, as
caronas, as viagens, as batidas, os salários e
até a sua disposição para o trabalho. Não existe
um só tema que não tenha sido objeto de uma
apreciação jocosa, de um dito espirituoso.
Certas vezes, inclusive, buscam segurança
através do misticismo, da fé, da confiança e do respeito
máximos a Deus, esperando que Ele possa isentá-los
das armadilhas do destino e livrá-los da morte, com
Seus poderes supremos.
Por fim, cabe salientar que a maior parte das
legendas de caminhões, aqui apresentadas, foram
anotadas pela autora, durante a sua adolescência, como
registros preciosos da memória popular. Quase duas
décadas depois, é que surgiu a idéia da elaboração de
uma micromonografia sobre o assunto. O trabalho foi
publicado, em 1981, na Série Folclore, pelo Centro de
Estudos Folclóricos, na Fundação Joaquim Nabuco.
167
Legendas Filosóficas
Tem mais tempo aquele que não o perde.
Devagar se vai ao longe.
Não preciso de conselhos sei errar sozinho.
Dói mais no invejoso o sucesso dos outros que o seu
próprio fracasso.
Quem já sabe o caminho chega primeiro.
A muitos o bem faz mal.
De quem eu gosto não digo nem às paredes.
A inveja matou Caim.
Minha vida é uma rede que o destino balança.
De amargo basta a vida.
Os homens sobem por ambição e por ela vêm ao
chão.
Na escola da vida não há férias.
Um homem cheio de si é sempre vazio.
Se eu fosse rico compraria teu orgulho.
O silêncio é o pranto dos bravos.
Há caras de muitos amigos e amigos de muitas caras.
Perdoar é compreender.
Mais vale um cachorro amigo do que um amigo
cachorro.
Quem dorme sofre menos.
A inveja é a arma dos incompetentes.
A vida é dura para quem é mole.
Quem nasce pra tatu morre cavando.
Artista é aquele que sofre sorrindo.
Do jeito que as coisas vão nem as matas são mais
virgens.
Agarra o touro pelos chifres e o homem pela palavra.
168
Mãe tenha distância.
Pela estrada se conhece o prefeito.
Que me importa o rei se tenho a barriga cheia?
Sou amarelo mas não sou doente.
Fale comigo mas antes lave os pés.
Quem conhece bem tua vida é tua lavadeira.
Quem recorda passado é museu.
Se chifre fosse flor cabeça de mineiro era um jardim.
Nem a medicina cura a dor da separação.
Vitamina de motorista é poeira de estrada.
No baralho da vida sou um rei sem dama.
Antes de falar de mim lembre do teu passado.
Quem é careca não anda no sereno.
A saudade é companheira de quem não tem
companhia.
Quem me conhece não me esquece.
70 me passar, passe 100 me atrapalhar.
Legendas sobre a Pobreza
Pobre só sai do aperto quando desce do ônibus.
Pobre vive de teimoso.
Twist de pobre é macumba.
Enxoval de pobre é a honra.
Pobre agora só estuda no Colégio de São Pedro: lá no
céu.
Pobre só fica de barriga cheia quando morre afogado.
Chiclete de pobre é macaíba.
Pobre só vai na frente quando a polícia vai atrás.
Convite de pobre é intimação.
Pobre só vai pra frente quando leva topada.
169
TV de pobre é o espelho.
Pobre só come carne quando morde a língua.
Pobre só come frango quando joga de goleiro.
Peru em mesa de pobre um dos dois está doente.
Legendas sobre a Morte
Se a morte é um descanso prefiro viver cansado.
Para que orgulho se o futuro é a morte?
Andar com sono é namorar a morte.
A morte me namora mas eu amo a vida.
Em cima da morte ganhando o pão da vida.
Se você dormir na direção seus parentes serão
acordados.
Se a morte comesse bola seria a mais rica do mundo.
A vida começa aos 40 anos e a morte aos 60 km/hora.
Legendas sobre a Sogra
Feliz foi Adão que não teve sogra.
Sogra não é parente.
Esse não é da sogra.
Sogro e sogra, milho e feijão, só dá resultado debaixo
do chão.
Não mando minha sogra pro inferno porque tenho
pena do diabo.
Legendas sobre Deus
Da traição nem Deus se livrou.
Se o mundo fosse bom o dono morava nele.
Deus, saúde, esforço e amigos.
Dirigido por mim guiado por Deus.
170
O pouco com Deus é muito.
Meu destino é Deus quem sabe.
Ao bom filho Deus ajuda.
Com Deus e Nossa Senhora viajo pelo mundo afora.
Deus olha por mim eu olho por você.
Feliz quem Deus quer bem.
Para que cruzar os braços se o maior homem do
mundo morreu de braços abertos?
Se Deus inventou coisa melhor do que a mulher
guardou pra ele.
Legendas sobre o Amor
Fica sempre um pouco de perfume nas mãos dos que
dão flores.
De um sorriso nasce o amor.
Ninguém é pobre quando ama.
O amor não tem idade porque sempre está nascendo.
Quem ama a rosa tem que suportar os espinhos.
A vida de um filho está no coração da mãe.
Em casa meu amor reza na estrada Mercedes Benz.
Ciúme é o tempero do amor.
Beijo de menina contém vitamina.
Nunca é tarde para ser feliz.
Amor é como fumaça sufoca e passa.
Por um sorriso errado hoje sou casado.
Se o amor é cabeludo eu sou um homem careca.
Sem amor não se vive.
Creio no freio do carro e no amor de mulher.
O beijo quando bem dado deixa o imbecil maluco.
Quatro pneus cheios e um coração vazio.
171
Legendas sobre a Mulher
Mulher sem ciúme é flor sem perfume.
Mulher feia e urubu comigo é na pedrada.
Mulher é como um parafuso precisa sempre de um
aperto.
Entre loiras e morenas prefiro as duas.
Mulher feia para mim é homem.
Mulher feia e frete barato eu não carrego.
Quem gosta de mulher feia é salão de beleza.
95% da beleza feminina sai com água e sabão.
Se mulher fosse dinheiro havia muita nota falsa.
É mais fácil fazer uma menina do que consertar uma
mulher.
Se o diabo entendesse de mulher não tinha rabo nem
chifre.
Viúva só nova.
Mulher feia e fruta azeda só com cachaça.
Carona só com saia justa.
Melhor que uma mulher só duas.
Marido de mulher feia já acorda assustado.
O amor é um baratinho 9 meses de carinho e depois
um molequinho.
Ontem éramos 3 eu você e a felicidade; hoje somos 2
eu e a saudade.
Mulher feia só carrega meu dinheiro se me roubar.
És orgulhosa mas já te beijei.
Vinho velho e mulher nova é o lema dos gaúchos.
Mamãe precisa de uma nora.
Se nosso amor virou cinza foi porque eu mandei brasa.
Vou rezar 1/3 pra arrumar 1/2 de te levar pra 1/4.
172
MACAMBIRA
A macambira é encontrada da Bahia ao Piauí, nas
caatingas do Nordeste do Brasil. A planta herbácea, da
família das Bromeliáceas, cresce debaixo das árvores,
ou em clareiras, possui raízes finas e superficiais, folhas
que podem atingir mais de um metro de comprimento,
por vinte centímetros de largura, espinhos duros, e um
rizoma que fornece uma forragem de ótima qualidade.
Em se tratando de cor, a macambira pode ser
verde claro, verde mais escuro, verde cinza, violácea ou
amarela, dependendo, entre outros fatores, da umidade
do ar e do solo. Em locais mais abertos e expostos ao
sol, a face ventral das folhas é de cor violácea, ou roxo
escuro.
Possuindo raízes superficiais, a planta se
desenvolve nas terras mais áridas dos Trópicos,
possui umidade suficiente para resistir às duras secas,
e se alimenta do ar atmosférico. Seus frutos, de cor
amarela quando maduros, assemelham-se a um
cacho de bananas pequenas e exalam um odor ativo
e característico. Suas bagas medem de três a cinco
centímetros de comprimento, e têm um diâmetro que
varia de dez a vinte milímetros.
Do limbo das folhas da macambira, os sertanejos
retiram as fibras aproveitáveis. Com golpes precisos de
173
facão, os espinhos são aparados. Em seguida, juntamse as folhas para formar grandes feixes, e eles ficam
macerando durante vários dias. Quando amolecem
as partes fermentáveis, as folhas são retiradas da
maceração, batidas, espremidas, lavadas e colocadas
em jiraus para secar ao sol. Todo esse processo exala
um forte mau cheiro, tendo que ser feito bem longe
das casas. Caso seja realizado às margens dos rios,
os pequenos peixes não resistem, e morrem como se
estivessem intoxicados.
Existe, ainda, outro processo para se extrair as
fibras da macambira. Trata-se de um método árduo,
através do qual a folha é arrastada sobre o arame de um
aparelho conhecido por tiralinho; depois, é esmagada
e passada entre os dentes de um pente metálico,
para se retirar toda a parte mole. A partir daí, as fibras
descobertas são lavadas, penteadas, e colocadas para
secar.
Nas áreas de sequeiro, as folhas da macambira
são utilizadas, também, para cobrir as casas. Elas
são amarradas em forma de molhos e, durante uma
semana, colocadas para murchar. Daí, os molhos são
agregados uns aos outros, fortemente atados com cipós,
ou ligados por meio de pregos batidos. A seguir, eles
são dispostos em camadas superpostas, da biqueira da
casa até a cumieira, o que deixa os telhados com uma
ótima aparência. Outra atividade, realizada pelos sertanejos,
é a extração da massa da base dilatada das folhas
(capas). As folhas são cortadas, no ponto em que
174
começam a alargar, para se alcançar a “cabeça” da
macambira. As “cabeças” são amarradas, umas às
outras, formando-se atilhos, que os burros transportam
em suas cangalhas; ou os próprios caboclos carregam
nos ombros, quando não dispõem de animais de carga.
O trabalho de apara é bem árduo: há que se retirar os
espinhos, recortar as bordas, e fazer a despela, ato que
consiste em levantar a epiderme, guarnecida de forte
cutícula, com a ponta de uma faca. E as capas são
piladas para separar a fécula das fibras.
A massa bruta é batida, espremida e lavada em
água, várias vezes. Isto deixa as pessoas com os dedos
feridos, devido à ação corrosiva presente nela. Após a
decantação, a massa, de cor branca, é envolvida em
um pano, passada em uma prensa rudimentar para
escorrer o restante de água, e colocada ao sol para
secar. Com essa massa, os sertanejos fazem um tipo de
pão semelhante ao pão de milho, em uma cuscuzeira.
Costumam adicionar um pouco de farinha de mandioca
àquela massa, para aumentar sua liga e diminuir o
travo, no gosto. A massa é comida, ainda, em forma
de pirão, com leite, ou carnes, que advêm da caça
de animais presentes na fauna das caatingas: cotias,
gambás, tatus, tejus, veados catingueiro, preás e aves
(pombo, asa branca, quenquém, juriti, entre outros). A
massa da macambira pode ser estocada por mais de
um ano. Em períodos de penúria extrema, o sertanejo
dela se utiliza para sua sobrevivência e a dos rebanhos.
Dizem que, em tempo de secas prolongadas,
se ingerida somente com água e sal, a massa produz
175
inchaço. Por essa razão, criou-se a expressão: “inchado
de tanto comer macambira”.
A farinha da macambira é composta, em sua
maior proporção (63,1%), de amido, uma substância
química parecida com a da farinha de mandioca. Seu
teor protéico, porém, é bem mais elevado, estando
próximo ao das farinhas de milho e de arroz. Ela é muito
rica em cálcio, sendo quinze vezes mais elevado que o
do leite, e três vezes mais alto que o do queijo. É uma
das farinhas mais nutritivas do mundo.
Em se tratando dos rebanhos, é importante
registrar que, comendo um quilo desse alimento, os
animais podem acumular, até, 248 gramas de gordura.
Os vaqueiros ressaltam outra vantagem: o gado que
come as flores e os frutos da macambira não sente
necessidade de ir ao bebedouro.
Por sua vez, com o farelo do caule da macambira,
uma parte bastante nutritiva da planta, os sertanejos
alimentam seus animais domésticos, tais como
galináceos e suínos.
As caatingas têm sofrido muitas agressões
ambientais ao longo dos séculos - desmatamentos,
queimadas, substituição de espécies vegetais nativas o que causa sérios problemas à fauna, à presença e à
qualidade da água, ao equilíbrio do solo e do clima. Isto
tudo provoca estiagens cada vez mais prolongadas,
desertificação e degradação ambiental. Nos sertões nordestinos, aquela bromélia
possibilita que seres humanos e rebanhos deixem de
sucumbir diante da escassez crônica de água. É uma
176
das poucas plantas que pode ser aproveitada, na prática,
em sua totalidade. A macambira representa uma tábua
de salvação para as áreas de sequeiro e, portanto,
precisa ser devidamente pesquisada e preservada.
177
178
MAMONA
A mamoneira (Ricinus Communis Lineu)
é
uma
oleaginosa
tropical,
pertencente
à
família Euphorbiaceae, que, pela importância do
fruto - a baga - na produção de óleo, e devido ao
seu valoroso resíduo - a torta - é considerada uma
planta estratégica para o desenvolvimento do Brasil. A
mamona é conhecida desde os tempos mais remotos.
Na Antiguidade, ela era valorizada pelas propriedades
medicinais, e por seu azeite, utilizado para iluminação.
Os egípcios, há 4.000 anos, já costumavam depositar,
nos sarcófagos, as sementes dessa planta.
Não se sabe, ao certo, qual foi o seu país de
origem. Uns afirmam que a mamoneira originou-se da
África e, outros, ressaltam que ela veio da Ásia. No
que se refere à presença no Brasil, os pesquisadores
acreditam que os portugueses a trouxeram para
cá, no primeiro século do Descobrimento. Seu óleo
era empregado como lubrificante, nos mancais dos
engenhos de cana-de-açúcar, sendo conhecido como
o mais eficaz dos óleos destinados a reduzir, ou anular
os atritos.
A mamoneira tolera as secas e se adapta muito
bem nas regiões semi-áridas, contudo, não é exclusiva
179
destas regiões. Trata-se de uma planta exigente, de
hábito arbustivo, não sendo verdade que se desenvolva
bem, até mesmo, em terrenos pobres. Nestes espaços,
os produtores necessitam aumentar o nível de
fertilidade, através da aplicação de adubos, uma vez
que sua cultura não é econômica. Além disso, ela não
deve ser plantada, no mesmo lugar, por mais de dois
anos seguidos. Aconselha-se a rotação de culturas com
leguminosas. O caule da mamoneira apresenta várias
colorações, podendo possuir cera, ou não. Os frutos,
quase sempre, possuem espinhos e, em alguns casos,
são inermes. Suas sementes evidenciam formatos e
tamanhos variados, bem como algumas colorações.
Existem dois tipos de mamoneira: 1. o deiscente, cuja
cápsula libera as sementes a uma temperatura superior
a 25 graus centígrados, conhecido por estaladeira; e,
2. o indeiscente, cuja cápsula não se abre sob a ação
do calor do sol. Cabe informar que o teor de óleo das
sementes varia, proporcionalmente, à soma do calor
recebido pela planta, no ciclo vegetativo.
No final do ciclo, os cachos da mamoneira, já
secos, são colhidos mediante uma única operação,
e o descasque mecânico é obrigatório. As máquinas
promovem a fricção dos frutos, para liberar as sementes.
A seguir, elas são separadas da casca do fruto e
prensadas. Nesse processo, o óleo extraído é uma
fonte, quase pura, de ácido graxo ricinoléico (conhecido
também como óleo de rícino), cuja cadeia carbônica lhe
confere propriedades singulares.
O óleo empregado na indústria química possui
180
mais de seiscentas utilidades, entre outras, na
produção de vernizes, corantes, tintas, anilinas, nylon,
desinfetantes, germicidas, fungicidas, inseticidas,
lubrificantes de alta viscosidade, colas e aderentes,
tintas, biodiesel, e próteses para transplantes em órgãos
humanos. É matéria prima, inclusive, para a fabricação
de produtos biodegradáveis.
Embora apresente toxidez, a torta da mamona
vem sendo utilizada, há muito tempo, como adubo
orgânico restaurador do solo. No entanto, atua, mais
lentamente, que os usuais adubos químicos. Aquela
torta possui, ainda, certo efeito nematicida. A sua
composição, se comparada à da semente do algodão,
apresenta vantagens em relação aos percentuais de
nitrogênio (N) e fósforo (P), ficando atrás, somente,
em quantidade de potássio (K). No presente, foram
desenvolvidas algumas técnicas que eliminam a toxidez,
melhorando os seus efeitos. E, hoje, o óleo já é usado
como matéria prima para a produção de biodiesel.
Não são, apenas, o óleo e a torta que possuem
aplicações relevantes: da mamona, tudo se aproveita.
As folhas servem de alimento para uma espécie de
bicho-da-seda e, as hastes, além de celulose apropriada
para a fabricação de papel, fornecem matéria prima
para a produção de tecidos. Na década de 1930, os
estudiosos descobriram que o óleo da mamona era um
ótimo lubrificante, quando puro. Adicionado ao álcool, já
era utilizado como sucedâneo da gasolina, em motores
de explosão. Em países de língua inglesa, como a
Inglaterra e os Estados Unidos, a mamona recebe as
181
denominações castor beans e castor seed.
Desde a Segunda Guerra Mundial, o Brasil tem
se destacado como o maior produtor e exportador de
sementes e óleo de rícino (castor oil). Antes disso, tal
posição pertencia à Índia. Por ordem de importância, os
países que mais produzem mamona são os seguintes:
Brasil, Índia, China, Tailândia e Paraguai. Com o advento do Protocolo de Kyoto, em 14
de dezembro de 1997, onde os países desenvolvidos
se comprometeram a reduzir a emissão de gás
carbônico (CO2), passou-se a exigir uma só tendência
para o setor de energia: o crescimento mundial dos
biocombustíveis. Esta exigência é fruto da poluição
do meio ambiente, do esgotamento das reservas de
combustíveis fósseis, e de legislações ambientais cada
vez mais rigorosas.
Por apresentar extensas áreas agricultáveis, o Brasil despontou como um grande promotor de
mudanças. E o Nordeste do país, uma das regiões mais
carentes em desenvolvimento, possui extensas áreas
para o plantio de oleaginosas, já que a mamoneira convive com seus índices pluviométricos, e se adapta bem
às condições das áreas de sequeiro.
Neste sentido, desde 2005, o Piauí vem
desenvolvendo um programa energético, mediante
a produção de biodiesel, tendo a mamona, como
fonte. Naquele Estado, o cultivo envolve o trabalho
de, aproximadamente, 5.000 famílias, em 15.000
hectares de terra, e fazendo parte do modelo nordestino
de agricultura familiar. Na cidade de Canto do Buriti,
182
por exemplo, a empresa Brasil EcoDiesel executa um
projeto de plantio que, no início, incluía cerca de 560
famílias, em uma área de 10.000 hectares. O Governo
do Piauí disponibilizou a área para ser explorada,
durante dez anos, com tal finalidade. Decorrido esse
tempo, as terras passarão a pertencer, em definitivo, às
famílias que as cultivam com mamoneiras.
Existe outro projeto de cooperação entre o
Governo Federal, o Governo Estadual, a Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), o
Meio Norte Piauí, e o Serviço Brasileiro de Apoio às
Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) Piauí, cujo
objetivo é o desenvolvimento sustentável e integrado da
região semiárida do Estado. O projeto é financiado pelo
Banco do Brasil, pelo SEBRAE e pela Fundação Banco
do Brasil, envolvendo 1.800 famílias de agricultores, de
14 municípios da região de São Raimundo Nonato, que
receberão capacitação tecnológica para o cultivo da
mamona. A previsão para a execução do projeto é de
três anos, e a safra deverá ser comercializada com a
empresa Brasil EcoDiesel.
Nas regiões semiáridas piauienses, o cultivo
da mamoneira engloba outras vertentes da cadeia
produtiva de biocombustíveis. É o caso da Usina Escola
de Produção de Biodiesel que, desde outubro de 2004,
está em operação na Universidade Federal do Piauí
(UFPI). A Usina Escola tem como objetivos a produção
de biodiesel, o treinamento de alunos de Graduação e
Pós-Graduação, além do desenvolvimento de pesquisas
e tecnologias para a produção de biocombustíveis.
183
184
MAMULENGO
185
Mamulengo é o nome dado a um teatro popular
de bonecos, chamado, também, de fantoche, marionete,
ou títere. Desde a mais remota Antiguidade, a presença
do mamulengo tem sido detectada até em locais como a
Índia e o Egito. A origem da palavra é discutida, mas, os
estudiosos acreditam que ela é oriunda da expressão
“mão mulenga”, ou “mão molenga”, que significa mão
que se movimenta, em uma alusão à forma através da
qual os bonecos se movem. O teatro foi introduzido
em Pernambuco, no século XVI, pelos colonizadores
portugueses.
Durante a Idade Média, para fins catequéticos,
a Igreja Católica utilizou muito o teatro de mamulengo,
como uma forma de difundir o espírito religioso. Através
dele, e inspirados no catolicismo alegórico, os religiosos
criaram o presépio, um espetáculo onde é apresentada
a história do nascimento de Jesus Cristo, por meio
de bonecos em forma de santos, de reis magos e de
animais, como a vaca, o jumento e a ovelha.
Em praças, feiras, ou parques, os mamulengueiros
armavam uma espécie de tenda e, ao interagirem
com as pessoas presentes, iam construindo o próprio
desenrolar da encenação. O teatro era aberto, possuía
um canal participativo, e não dispunha de qualquer
enredo escrito: os diálogos eram improvisados no
momento da apresentação. As histórias desenvolvidas
em cada espetáculo podiam, até mesmo, ter muitas
semelhanças com as anteriores e as posteriores, porém,
eram, em verdade, únicas: advinham da interação dos
personagens com a plateia, sendo tecidas mediante
186
o universo cultural do público presente. Este último
representava um elemento de suma importância:
precisava ser estimulado para reagir, já que era o
“combustível” que forjava e propulsionava a encenação.
Com o passar do tempo, porém, da mesma
forma que uma série de outros folguedos relacionados
às festas religiosas, ou à natividade, o mamulengo
foi adquirindo um caráter mais profano, e passou a
funcionar, independentemente, dos festejos natalinos e
ciclos de comemorações religiosas.
Na atualidade, os personagens são bastante
distintos daqueles do passado, podendo-se encontrar
componentes da sociedade (latifundiários, cangaceiros,
delegados, coronéis, padres, vaqueiros, trabalhadores e
outros); animais (o cavalo, a cobra, a onça, o cachorro, a
vaca); e figuras sobrenaturais (a morte, o diabo, as almas
penadas). Nas escolas e demais centros de educação
comunitária, o mamulengo é utilizado com vários outros
personagens, para incentivar a socialização e o repasse
de conhecimentos, as mudanças de atitudes, entre
outros.
Os bonecos são confeccionados com vários tipos
de materiais. A madeira, por exemplo, é muito utilizada
para fabricar a cabeça e as mãos do mamulengo, ao
passo que, seu corpo, é feito de pano, na forma de
uma luva. Para movimentá-lo, o manipulador insere o
dedo indicador no interior de sua cabeça (que é oca)
e, com os dedos polegar e médio, mexe seus braços.
Escondidos atrás do palco, os mamulengueiros dão voz
e movimento aos bonecos.
187
Além da madeira, são feitos mamulengos com
papel machê, pano, argila, borracha, palha, sucata e
metal. Além das luvas, os artesãos utilizam hastes de
metal, varetas, ou cordões, para poder movimentá-los.
Em se tratando de adereços, os personagens masculinos
podem se apresentar com chapéus (de vaqueiro, ou
não), armas de fogo (espingardas, revólveres), facas,
cassetetes, batinas, fardas e quepes militares; e as
figuras femininas usam joias - colares, brincos, anéis,
pulseiras - bolsa, lenço, ou peruca, na cabeça.
Em épocas passadas, grande parte dos
mamulengos era de cor preta, ao passo que, os
vilões, eram brancos. Segundo os pesquisadores, a
associação dos personagens à raça negra não ocorria
por acaso: havia o propósito de chamar a atenção do
público para a bravura dos negros. Presentemente, as
apresentações abordam diversos temas como traições,
romances, fatos políticos, casamentos forçados,
aspectos sobrenaturais, festas religiosas, dramas de
circo, eventos relacionados ao cangaço, sátiras, cantos,
músicas, festividades, danças, perseguições policiais,
enterros e acrobacias.
Os mamulengos são conhecidos por nomes
distintos, de acordo com os Estados: Benedito, Cabo
70, Professor Tiridá, Quitéria, Simão e Mané Pacaru,
em Pernambuco; João Redondo, no Rio Grande do
Norte; Mané Gostoso, na Bahia; e, Babau, na Paraíba.
Na Rua do Amparo número 59, em Olinda, está
situado o primeiro Museu do Mamulengo do Brasil e da
América Latina: o Museu do Mamulengo - Espaço Tiridá.
188
Ali, uma biblioteca, um teatro com cinquenta lugares,
e uma exposição, com cerca de 1.000 bonecos, estão
dispostos à visitação pública. No Museu, está exposta
uma preciosa coleção datada do século XIX, advinda
do Mamulengo Só-Riso (proveniente da Zona da Mata
de Pernambuco). O grupo doou a coleção à Fundação
Joaquim Nabuco que, por sua vez, repassou-a ao
Museu do Mamulengo. Esse acervo, já foi exposto em
todo o Brasil e na Europa. Como alguns funcionários
manipulam os bonecos, para que os visitantes se
familiarizem com suas estórias, o Museu do Mamulengo
- Espaço Tiridá representa um exemplo de museu vivo.
Vários teatros de mamulengos podem ser
encontrados no Estado de Pernambuco: o Mamulengo
Só-Riso, o Mamulengo Alegre e o Mamulengo Lima
Condessa, em Olinda; o Mamulengo Dengoso, na
Campina do Barreto, no Recife; o Presépio Nova Geração
e A Invenção Brasileira, em Carpina; o Mamulengo Boca
de Babau, no Cabo de Santo Agostinho; e o Mamulengo
Riso da Cidade e o Mamulengo Alegria do Povo, em
Glória de Goitá.
Existem uma série de artesãos renomados tais
como Pedro Rosa (em Lagoa do Carro); Maximiano
(em Caruaru); Mestre Saúba (em Carpina); Luiz da
Serra (em Vitória de Santo Antão); João Nasário (em
Pombos); Mane da Cruz (em Cruz de Rebouças);
Salustiano e Pedrinho Soares (em Olinda); e Samuel
(em Feira Nova). Três excelentes mestres - já falecidos
– não podem deixar de ser ressaltados. São eles: Sólon
(em Carpina), Nilson de Moura (em Olinda), e Saúba
(em Carpina).
189
Da mesma maneira que o presépio, o pastoril,
o bumba-meu-boi e o fandango, o teatro popular de
mamulengos, formatado, originalmente, como um
teatro de rua, faz parte do patrimônio artístico e cultural
do país. Suas apresentações, porém, não dependem
mais do improviso para nortear ou dar consistência
às estórias. A despeito das interações com a plateia,
os mamulengueiros partem de roteiros prévios, bem
definidos, assim como de representações cênicas
planejadas e mais sofisticadas. E, mesmo havendo
interação com o público, o cerne dos espetáculos não
é alterado.
O teatro de mamulengos chega ao século XXI
com sua linguagem simples, situações cômicas e
satíricas, brincadeiras, discussões e confusões. Esse
teatro popular continua atraindo pessoas das mais
diversas idades e classes sociais, em todos os lugares
do mundo, porque conservou suas características mais
relevantes: a presença do lúdico, do bom humor, e da
participação interativa. Tais elementos, que representam
seu sustentáculo básico, são, em verdade, atemporais:
agradam, como sempre, as crianças e adultos, aqueles
que mantiveram as boas recordações da infância dentro
de si.
190
MANDACARU
Na caatinga do Nordeste do Brasil predomina
uma vegetação conhecida como mata branca. Ela é
composta por árvores e arbustos de folhas pequenas,
vegetais que possuem raízes longas e numerosas,
galhos tortuosos, arbustos espinhentos (cactáceas),
bromeliáceas, entre outras espécies de xerófilas. Os
solos da caatinga, apesar do calor, do clima semiárido,
subúmido ou semiúmido, possuem sais minerais em
abundância e, por essa razão, neles se desenvolvem
árvores como a algorabeira, o umbuzeiro, o marmeleiro,
e plantas como a aroeira, o xique-xique, a imburana, o
angico, o caroá, a palma e o mandacaru.
Esse último (Cereus Jamacuru, P. DC.) é um
cacto alto com muitas ramificações, repleto de espinhos
amarelos, que chegam a medir, até, vinte centímetros
de comprimento. Dessa planta brotam flores brancas e
grandes, que dão frutos oblongos, com uma polpa doce,
branca, suculenta e comestível, e muitas sementinhas
pretas. Segundo afirmam os apreciadores, a fruta se
assemelha ao figo.
Durante as secas severas, o mandacaru é uma
das poucas plantas que resistem na vegetação da
caatinga, mantendo-se verde e suculenta. Por isso, a
191
despeito da abundância de espinhos, os agricultores o
utilizam para alimentar os rebanhos (bovinos, caprinos,
e ovinos). Primeiro, cortam os galhos, acomodam em
carroças, e transportam até os currais das propriedades.
Ali, queimam os espinhos e, somente, então, a forragem
é oferecida aos animais. Com teor de proteína em
torno de 11,40%, o potencial forrageiro do mandacaru
assemelha-se ao da palma. Do seu tronco são retiradas
tábuas de, até, trinta centímetros de largura, que os
sertanejos usam para a confecção de portas e janelas
de casas.
Na metade do século XIX, uma variedade que
contém poucos espinhos foi encontrada nos sertões
de Alagoas: o denominado mandacaru inerme. Através
de uma mutação genética espontânea, portanto,
surgiu o mandacaru “sem espinhos”. Posteriormente,
tal variedade passou a ser obtida, mediante seleção
e multiplicação vegetativa, dos artículos destacados e
plantados.
No presente, o mandacaru inerme vem sendo
cultivado: tira-se melhor proveito dessa planta, e seu
manejo se torna mais fácil. A Empresa Brasileira de
Pesquisas Agropecuárias do Semiárido (a Embrapa
Semiárido) recomenda se fazer, com o mandacaru, o
mesmo que tem sido recomendado ao milho e ao feijão:
a consorciação de culturas.
Cabe registrar que o uso extensivo do mandacaru,
com cortes indiscriminados, está reduzindo a presença
da planta na vegetação nativa, o que contribui para o seu
desaparecimento. Sem a forragem nutritiva e natural da
região, a dinâmica dos sistemas de produção é afetada,
192
em outras palavras, os sertanejos são obrigados a
percorrer distâncias cada vez maiores, na caatinga,
em busca daquele cacto, visando à sobrevivência dos
rebanhos.
Para se instalar um campo de mandacarus,
o agricultor precisa cortar pedaços dos seus galhos,
deixar secar de um dia para o outro, e enterrar no solo,
apenas, uma parte deles. O sucesso do plantio depende
da época do ano em que ocorre: este, deve acontecer
cerca de um mês antes do início das chuvas. Após o
segundo ano do plantio, pode ser efetuado o primeiro
corte nos galhos. De uma única planta é possível
se retirar pedaços para o plantio de cem outras. O
tratamento requerido é a capina. Caso haja esterco de
curral, o agricultor pode usá-lo como adubo, já que o
mandacaru responde bem à adubação orgânica.
O mandacaru possui outras utilidades, ainda:
é empregado por paisagistas, na ornamentação de
avenidas, praças, ruas, casas e jardins. Na medicina
popular, o chá da raiz fresca do mandacaru-de-boi, é um
dos remédios utilizados pelos sertanejos. Em farmácias
do país, encontra-se à venda um medicamento
fitoterápico - o Elixir Sanativo - que, em sua composição,
contém o mandacaru (Cereus hildmannianus). O elixir
é indicado e usado para gargarejos, para cuidados
com afecções bucais, no tratamento de feridas, cortes,
picadas de insetos, e na higiene íntima (banhos de
assento e tratamento de hemorroidas).
Com ou sem espinhos, o mandacaru é, na prática,
sinônimo de Nordeste. Ele se encontra em pinturas
e gravuras que retratam a Região. O precioso cacto
193
entrou, inclusive, na música popular brasileira, através
da famosa composição Xote das Meninas, de autoria de
Luiz Gonzaga e José Dantas. Eis a letra dessa música:
Xote das Meninas
Mandacaru quando fulora na seca,
É o sinal que a chuva chega no sertão,
Toda menina que enjoa da boneca,
É sinal que o amor já chegou no coração,
Meia comprida, não quer mais sapato baixo,
Vestido bem cintado, não quer mais vestir de mão.
Ela só quer, só pensa em namorar,
Ela só quer, só pensa em namorar.
De manhã cedo, já está pintada,
Só vive suspirando, sonhando acordada,
O pai leva ao doutor a filha adoentada,
Não come, não estuda,
Não dorme, nem quer nada.
Ela só quer, só pensa em namorar,
Ela só quer, só pensa em namorar.
Mas o doutor, nem examina,
Chamando o pai de lado, lhe diz logo em surdina,
Que o mal é da idade, e que pra tal menina,
Não há um só remédio, em toda a Medicina.
Ela só quer, só pensa em namorar,
Ela só quer, só pensa em namorar.
194
MANDIOCA
Contam no Norte do Brasil que, certa vez, a
filha de um cacique engravidou e, por mais que ele a
pressionasse, na tentativa de descobrir quem a havia
deflorado, ela afirmava que nunca tinha tido relações
sexuais com um homem. Considerando-se desonrado,
o cacique decidiu matá-la. Em seus sonhos, porém,
apareceu Sumé (um dos grandes Mestres dos índios)
falando que ele seria castigado se a punisse, pois a
menina nada havia feito de errado. Prontamente, o
cacique obedeceu-Lhe. Passados nove meses, nasceu
uma criança branca como o leite, e completamente
diferente dos membros de sua tribo. Ela era muito
linda e inteligente e, logo após o nascimento, começou
a andar e a falar, tendo sido chamada de Mani.
Acontece que Tupã (o poderoso Deus dos
índios) reservara à criança o seguinte destino: sem
ter apresentado qualquer doença, e/ou se queixar de
alguma dor, Mani morreu antes de completar um ano
de idade. O cacique, então, enterrou-a em sua própria
maloca e, de acordo com o costume, todos os dias,
regava o túmulo da neta. Em certa ocasião, brotou do
chão uma planta desconhecida. Nela, surgiram flores,
frutos e raízes. Os nativos, ao descascarem as raízes,
195
viram um tubérculo tão branco quanto Mani. E este, ao
ser cozido, se transformava em um excelente alimento.
Diante do ocorrido, os índios agradeceram a Tupã pela
dádiva recebida, deram àquela raiz o nome de Manioca, que significa casa de Mani, e jamais deixaram de
cultivá-la.
Através da fabricação do cauim (uma bebida
feita com mandioca e muito popular entre os índios,)
e do beiju, a mandioca se transformou em um dos
elementos importantes da alimentação indígena. Ao
longo dos anos, ao lado do açúcar e do coco, ela foi
incorporada, também, à indústria de confeitaria e à
culinária brasileira tradicional. Com o polvilho, a “massa
puba” e a carimã (a mandioca amolecida e fermentada
em água) são preparadas saborosas receitas de
biscoitos, bolos, roscas, sequilhos, mingaus, pães,
tapiocas, entre outros.
A mandioca (Manihot esculenta) é uma planta
leitosa, pertencente à família das euforbiácias, que
possui tubérculos produtores de amido. Estes possuem
um alto valor energético, mas, ao mesmo tempo, um
baixo teor de proteína. Foi o italiano Francisco Antônio
Pigafetta, em 1519, acompanhante da expedição
de Fernão de Magalhães, em busca de um caminho
para o Oriente, que fez a primeira referência dela, na
América. Antes daquele italiano, Vicente Yanez Pinzón
havia, também, feito alusões à mandioca, mencionando
sua presença do Cabo de Santo Agostinho à foz do rio
Amazonas.
Há registros de que o tubérculo é originário da
196
Guiana Brasileira (Norte do Amazonas e do Pará), do
Sul das três Guianas (a Britânica, a Holandesa e a
Francesa) e, ainda, do Sul da Bahia e do Nordeste de
Minas Gerais. A mandioca, que representa o verdadeiro
pão do Brasil, só não é cultivada em terras demasiado
argilosas, em trechos montanhosos secos, em terrenos
cheios de pedras, muito íngremes, e em baixadas com
excesso de umidade.
Existem dois tipos de mandioca: a primeira
é conhecida como aipim, macaxeira, mandioca
mansa ou mandioca doce; e, a segunda, é chamada
mandioca amarga ou mandioca brava. Ambas são
idênticas na aparência: apresentam uma casca parda
e, quando ela é retirada, surge um tubérculo branco,
que contém um suco acre e leitoso. A mandioca brava,
por conter uma elevada proporção de ácido cianídrico,
é venenosa. No entanto, através da cocção, ela perde
toda a sua toxidade, sendo convertida em farinha ou
polvilho. Devido à toxidade da mandioca brava, há uma
adivinhação popular no Nordeste que diz: “quem come
de minha carne, escapa; quem bebe do meu sangue,
morre”.
Os colonizadores portugueses criaram as
tradicionais Casas de Farinha (presentes no Norte e no
Nordeste do país), aproveitando seus conhecimentos
sobre as prensas, que utilizavam para a fabricação do
vinho e do azeite. Nessas Casas, a mandioca passa
por um processo apurado, antes de ser liberada para
o consumidor. Em primeiro lugar, raspa-se a casca,
manualmente, e, em seguida, a parte branca da raiz é
197
ralada no caititu (um engenho movido à mão e formado
por um rolo de madeira com serrilhas metálicas,
acionado por uma grande roda dentada). Em geral, são
os homens que movem o ralador e, as mulheres, que
colocam a massa ralada no tipiti (uma espécie de cesto
cilíndrico feito de talas de palmeira), onde a mandioca
é prensada a fim de se retirar a manipuera (ou ácido
cianídrico): um produto venenoso que está presente,
apenas, na mandioca amarga. Após esse procedimento,
os blocos de massa retirados do tipiti são desfeitos e, a
seguir, peneirados em uma arupema. Só, então, é que
o produto final entra no forno para ser torrado e, depois
de todo esse processo, se transforma na popular farinha
de mandioca.
Acompanhada de carne seca, a farinha de
mandioca era o principal elemento da alimentação
dos escravos africanos. Por tal razão, os senhores de
engenho e os lavradores de cana, mediante alvarás e
provisões régias datadas de 1642, 1680 e 1690, eram
obrigados a cultivar a mandioca. Decretos posteriores
vieram ressaltar essa obrigação, quando daqueles
exigia-se o plantio de, pelo menos, quinhentas covas
por escravo.
Desde o século XVII, na mesa de nordestinos
e nortistas, a mandioca é um alimento importante,
sendo utilizada, largamente, na culinária junina. Além
das comidas de milho, a mandioca representa um
ingrediente de suma relevância nos bolos denominados
“pé de moleque” e “Souza Leão”. A farinha de mandioca é
indispensável, também, no prato tradicional brasileiro (a
198
feijoada), na elaboração de tapiocas doces e salgadas,
nas farofas de jerimum e de batata-doce, e em algumas
comidas típicas, onde se adiciona azeite de dendê ou
manteiga de garrafa. Utiliza-se a farinha de mandioca,
ainda, nos deliciosos pirões de chambaril, de frango, de
peixes, crustáceos, e ovos. Quando é misturada ao mel
de engenho, surge a sobremesa tradicional da Zona da
Mata nordestina.
O amido da mandioca, advindo da fabricação da
farinha e das raspas da raiz, é produzido por algumas
Casas de Farinha. Esse subproduto é obtido do caldo
que escorre das prensas (e que é desprezado, na
maioria das vezes). O amido possui um grande valor
nutritivo, devido à sua riqueza em proteínas, vitaminas,
e sais minerais naturais. Ele é utilizado na fabricação
de biscoitos, sequilhos e outros produtos alimentares.
Caso haja o aproveitamento desse amido residual,
pode-se obter, ainda, uma farinha de melhor qualidade.
O que ocorre, em verdade, é o aproveitamento de uma
pequena parte, apenas, daquele líquido que escorre.
De forma aproximada, segundo os especialistas, são
jogados fora 75% dos melhores nutrientes da mandioca,
entre eles as proteínas, as vitaminas e os sais minerais
naturais.
Há, por parte da população, nos locais onde
predominam as lavouras de subsistência, um elevado
consumo de carboidratos complexos, provenientes de
um ou dois cereais, e de raízes como a macaxeira, o
inhame e a batata-doce. Tais produtos são consumidos
de forma isolada, ou combinados com certas
leguminosas, a exemplo do feijão. Todavia, o crescimento
199
e o desenvolvimento das pessoas ficam prejudicados,
porque o papel dos demais alimentos, no fornecimento
de nutrientes importantes para o organismo, passa a
ser secundário.
A mandioca, associada ao coco, ao açúcar,
ao cravo e à canela, contribuiu para o surgimento de
uma nova cozinha, repleta de receitas de qualidade.
Estas, com toda a certeza, nasceram das inúmeras
trocas alimentares, da junção de vários elementos,
bem como da mistura de aromas e sabores. Em suma:
da miscigenação das distintas culturas e etnias que
contribuíram para a formação do povo brasileiro.
200
PILÃO E MONJOLO
Um artefato primitivo de origem remota, o pilão
de madeira, na época do Brasil Colônia, já era utilizado
na agricultura para socar alguns alimentos, tais como o
milho e o café. Para sua confecção, utilizavam-se troncos
de madeiras duras, tais como a maçaranduba, a peroba,
a canela preta, o guatambu e o limoeiro. O tronco era
escavado, com fogo, e, sua haste (denominada mão de
pilão), fabricada com um pedaço aparelhado daquelas
madeiras. A altura de um pilão variava entre 30 e 70
cm e, uma haste, media de 60 cm a 1,2 m.
No tocante à cultura rural brasileira, pode-se
afirmar que, todas as casas nas zonas rurais, usavam e/
ou usam, ainda, algum tipo de pilão. Os pesquisadores
afirmam que tal ferramenta deve ter sido copiada dos
árabes. Em 1638, nos terreiros próximos às portas das
cozinhas, já havia registro do emprego de pilões, nos
preparos da farinha de mandioca e do óleo das sementes
de gergelim, em substituição ao azeite de oliveira.
Câmara Cascudo (1954) ressalta que o pilão é
uma espécie de gral ou almofariz, de madeira rija, como
a sucupira, com uma ou duas bocas, e tamanhos vários,
desde os pequenos, para pisar temperos, até os grandes,
para descascar e triturar o milho, café, arroz, etc.
201
Segundo o folclorista (2004),
na África os esparregados de plantas cruas são
feitos no pilão. No Brasil, o milho era seu freguês
clássico. A massa ou xerém para o cuscuz,
canjicão, bolo de milho, a batida para ‘tirar o
alho’, eram serviços de pilão. ...O arroz da terra,
avermelhado, era descascado no pilão. Havia
várias formas de retirar a casca sem quebrar o
grão. O café, depois de torrado no caco, panela
rasa, de barro, ia ser pilado. Como o milho e a
paçoca. Pilavam horas e horas. Essas operações
eram confiadas às mulheres. Quase sempre
duas, no mesmo pilão, alternando as pancadas,
e cantando.
Certos alimentos, como o milho e o sorgo, eram
quebrados e moídos em grandes pilões. Com os pilões
de menor tamanho, moíam-se a castanha de caju e o
amendoim (para se fazer caril ou paçoca), além dos
temperos (o alho, a pimenta e o cominho) que davam um
melhor sabor, mas, cujo consumo é feito em pequenas
quantidades.
Quebrava-se o milho com o pilão e, cozinhando
os pedaços fininhos em água e sal, se obtinha o xerém,
um prato típico do Nordeste do Brasil. O xerém é
consumido com carnes secas (carne de sol ou charque)
e linguiças. Muitos nordestinos preferem, ainda, preparálo como sobremesa, cozido em água e sal, leite de coco
e açúcar. Depois de frio, polvilha-se canela, por cima.
Nos terreiros de candomblé, na Bahia, o milho
costuma ser moído em um grande pilão, a fim de se
preparar os quitutes (o acaçá e o aberém) para a Mãe de
202
Santo e o Pai de Santo. Nele, quebrava-se, também, o
feijão, no preparo do abará, do acarajé e do omolucum.
Em um pilão pequeno, os temperos eram moídos, para
se cozinhar o arroz de haussá e o efó. Ao longo dos
séculos, portanto, esse utensílio doméstico foi muito
utilizado na cozinha baiana.
No Norte do Brasil, um dos pratos típicos é o
piracuí (chamado, também, areia de peixe), que é
preparado com peixe torrado no forno e, depois, pilado.
Na cozinha, os utensílios, como o pilão, tinham
para os negros e indígenas uma importância
que o português desapercebeu, mediante outras
maneiras de esmagamento, no almofariz ou
gral. Dava um sabor inesquecível aos alimentos
feitos com essa preparação. O café pilado jamais
poderia comparar-se ao café moído à máquina,
na opinião popular, saudosa do pilamento
insubstituível. A paçoca exigia o pilão, sob pena
de não ser paçoca. Na África, os esparregados
de plantas cruas eram feitos no pilão. No Brasil,
o milho era seu freguês clássico. A massa ou
xerém para o cuscuz, a canjica, o bolo de milho,
eram batidos os grãos, para “tirar o olho”, no pilão
(LIMA, 1999, p. 50).
O monjolo, por sua vez, é um utensílio rudimentar
constituído por duas peças (o pilão e a haste). Esta
última é movida através de um sistema similar ao de
uma balança, e pode ser acionado por meio hidráulico.
O mineralogista inglês John Mawe, durante
sua permanência no Brasil (1807-1810), descreveu o
monjolo da seguinte forma:
203
À margem do rio instala-se grande pilão de
madeira, cuja mão está encaixada na extremidade
de uma alavanca com vinte e cinco a trinta pés
de comprimento, repousando sobre uma barra
transversal aos cinco oitavos do seu comprimento,
em redor da qual oscila. A extremidade do braço
mais curto desta alavanca está escavada, de
modo a sustentar peso de água suficiente para
levantar a outra extremidade, à qual está presa
a mão do pilão. O peso da água faz com que
a colher desça e se esvazie até chegar a certo
ponto. O encher e descarrega, alternadamente
esta cavidade provoca a elevação e a queda da
mão do pilão, o que se verifica quatro vezes por
minuto. (SCHMIDT, 1967)
Vários produtos alimentícios derivados do milho,
como o fubá e a farinha de milho, eram obtidos por
meio do esmagamento nos monjolos. Eles tinham a
capacidade de socar, até, trinta litros de milho, em uma
hora e meia. E ouvia-se, com frequência, a expressão
popular: trabalhar de graça, só monjolo!
Através dos inventários do século XIX, pôdese chegar à descrição dos monjolos, e ao nível de
desenvolvimento técnico alcançado com a utilização
desses aparelhos. Os estudiosos reiteram ter sido
Brás Cubas (um fidalgo e explorador português que
estivera, na Ásia, com Martim Afonso de Souza) aquele
que trouxe, da China, o primeiro monjolo, e o instalou
nas terras de São Vicente. Os índios denominaram
a máquina de enguaguaçu, que significa o grande
pilão. A palavra monjolo deve ter origem sânscrita,
vindo de musala, pilão para descascar arroz, e seu
204
aperfeiçoamento ocorreu por volta do século XVIII.
Além de serem corretos, do ponto de vista
ecológico, os monjolos foram de fundamental
importância para o desenvolvimento das atividades
rurais, durante os séculos XVIII, XIX e grande parte do
século XX. E, para construí-los, foi preciso uma série de
conhecimentos técnicos sobre engenharia, marcenaria,
carpintaria e ferraria.
No passado, o monjolo era um artefato rústico,
confeccionado somente de madeira, e não utilizava,
em sua estrutura, qualquer peça de material metálico.
Existiam vários tipos de monjolos: os hidráulicos, os de
pé, os de roda, os de martelo e os de rabo. No monjolo
de pé, por exemplo, o indivíduo ficava em pé, em cima
da madeira, de modo que o eixo permanecia entre seus
dois pés e, quando se fazia força, na ponta da madeira,
o pilão levantava e, em seguida, descia. Na Europa e,
principalmente, em Portugal, utilizava-se, também, um
monjolo de pé diferente, cuja força para suspender o
malho (ou a mão do pilão) advinha do próprio peso da
pessoa encarregada de movimentá-lo.
Existia, ainda, o pilão manual, em regiões onde
não havia água em abundância. A sua utilização pode
parecer herança da cultura indígena e, por esse motivo,
é comum a associação do monjolo àquela cultura.
Sérgio Buarque de Holanda ressalta, entretanto, que o
monjolo era desconhecido pelos indígenas. Segundo o
historiador, com base nos relatos dos viajantes, aquela
máquina chegou ao país no século XVI, oriunda do
Japão, da China e da Indochina, onde era utilizada para
se descascar o arroz.
205
Grandes pilões eram movimentados, por várias
pessoas, ao mesmo tempo. Com sua haste, cada pilão
socava os grãos, de forma alternada. Ainda hoje, é
possível se encontrar monjolos, no interior do país, com
o mesmo formato e princípio de funcionamento que
tinham há milênios, em seus países de origem. Existem
outros modelos de monjolo hidráulico (chamado de
martelo) e os movidos a animais (denominados de rabo).
Bastante popular na África, o pilão é um dos
presentes ofertados aos nubentes, na região sul
de Moçambique, no dia seguinte ao casamento, em
uma cerimônia denominada xiguiane.
Hoje, com o desenvolvimento tecnológico,
outras máquinas, motorizadas ou elétricas, vieram
substituir aqueles aparelhos, tornando mais fácil a vida
das pessoas. Em contrapartida, contribuem para a
degradação ambiental.
Não o monjolo, mas, o pilão ficou lembrado e
registrado na música popular nordestina. Com letra de
Zé Dantas e música e canto de Luiz Gonzaga, foram
divulgadas as canções Cintura fina e Pisa no pilão. A
letra delas encontra-se a seguir.
Cintura fina
Minha morena venha pra cá,
Pra dançar xote, se deitar em meu cangote,
E poder cochilar,
Tu és mulher pra homem nenhum,
Botar defeito, e por isso satisfeito,
Com você eu vou dançar.
206
Vem cá, cintura fina, cintura de pilão
Cintura de menina, vem cá meu coração
Quando eu abraço essa cintura de pilão,
Fico frio, arrepiado, quase morro de paixão,
E fecho os olhos quando sinto o teu calor,
Pois teu corpo só foi feito pros cochilos do amor.
Pisa no pilão
Oi tum tum tum, joga as ancas pra frente e pra trás,
Oi tum tum tum, finca a mão no pilão bate mais.
Se janeiro é mês de chuva fevereiro é pra plantar,
Em março o milho cresce, em abril vai pendoar,
Em maio tá bonecando, no São João tá bom de assar,
Mas em julho o milho tá seco e é tempo, morena, da
gente pilar...
Em se tratando de artesanato da Região
Nordeste, em feiras livres, mercados públicos, e lojas
de objetos artísticos, é possível encontrar pilões de
madeira, de barro, de pedra sabão, e de chifre de boi.
O pilão intermediou as trocas alimentares entre os
indígenas, os africanos e os europeus, a união de vários
caminhos e experiências de vida, de etnias, de culturas,
e a miscigenação de gostos, formas e aromas. Apesar
de antigo e ultrapassado, em decorrência dos avanços
tecnológicos, o pilão continua presente no imaginário
popular dos brasileiros.
207
208
PIMENTA
A pimenta é um ingrediente antigo e muito
utilizado pelas culinárias africana e indígena. Tanto os
índios nativos do Brasil, quanto os negros africanos,
que vieram como escravos, consumiam pimentas em
abundância. Os primeiros comiam-nas secas ou
piladas, junto com farinha de mandioca (quya). Com a
chegada dos escravos no Nordeste do Brasil (primeira
Região a ser colonizada pelos portugueses) o consumo
de pimentas aumentou. A nobreza e o clero apreciaram
a pimenta brasileira, denominada Capsicum. Por ser
mais suave, ela passou a ser preferida e exportada para
Portugal.
As cozinhas dos engenhos, dirigidas por
europeias e conduzidas por escravas africanas,
herdaram certos aspectos da cozinha indígena. Para
acentuar o sabor dos alimentos, e porque o sal e o açúcar
eram, também, produtos muito valiosos, as mulheres
utilizavam temperos locais como o coentro, a salsa e a
pimenta indígena (Capsicum). Por mais estranhos que
fossem ao paladar dos portugueses, eles precisavam
se adaptar aos novos gostos dos temperos da terra.
O grande disseminador (“plantador”) das
209
pimenteiras é o sabiá, um pássaro que come os frutos
e espalha as sementes, através dos seus excrementos.
Desse modo, vai semeando a Capsicum por onde
passa.
A substância química que proporciona o caráter
ardido e o sabor picante das pimentas – a capsaicina –
causa a liberação de endorfinas e, consequentemente,
uma sensação muito agradável de bem-estar.
Declara COSTA apud CASCUDO (1954):
O nome vulgar piperAcea, empregado naquelas
acepções, vem do seu sabor ardente e abrasador,
principalmente a pimenta vulgarmente chamada
de cheiro (Capsicum adoriferum, Vell.); a cumary,
a quiya comari, tupinico, segundo Marcgrave; e
a malagueta (Capsicum baccatum, Linn.) que,
segundo Almeida Pinto, é a querija-apuá dos
índios. Além destas espécies de pimenta existem
outras igualmente cultivadas, nomeadamente as
que são assim chamadas: ‘Olho-de-peixe, tripade-macaco e umbigo-de-tainha’. À solonacea,
com o nome vulgar de pimentão, pelo grande
desenvolvimento a que atinge, davam os índios
o nome de quiyá açu, pimenta grande. Pimentado-reino (Piper nigrusu, Linn.), originária da
Índia, mas assim chamada para a distinguir das
espécies indígenas, e mesmo porque vinha por
intermédio da metrópole, o reino de Portugal.
Cultivada no extinto Jardim Botânico de Olinda,
foi propagada, mas a sua cultura não vingou. O
uso geral da pimenta nas refeições de carne e
peixe, sendo nestas particularmente empregada
a de cheiro, em molho forte, picante, chamado
210
da mulata, ou fraco, pouco ardente, chamado
de viúva, vem dos índios, do seu yquiataia, a
pimenta seca ao sol, reduzida a pó, e misturada
com sal, como ainda se usa, porém pisada,
misturadamente, com a farinha de mandioca, e
assim pulverizada no anguzô e no bobó.
CASCUDO (1954) ressalta, também:
Na África Oriental, Central, Meridional, Ocidental,
a pimenta coincide com todos os paladares
negros no tempo e no espaço. Quase tudo
quanto se come na África obriga a presença
queimante da pimenta, nos próprios doces. No
mercado público de Cabinda provei uma bebida
feita com pimentas, possível irmã da beberagem
caiapó em Goiás. Na totalidade dos alimentos
negros sente-se o ardor inconfundível.
No Brasil, são cultivadas várias espécies
de pimentas. Os frutos da popular malagueta são
vermelhos, alongados, altamente picantes, e medem
entre 1,5 cm e 3,5 cm de comprimento. A cumari é
picante e ligeiramente amarga, oval, vermelho escuro, e
possui menos de 1 cm de diâmetro. A pimenta biquinho
é arredondada, vermelha, tem a ponta em forma de bico
e gosto suave. Os frutos da pimenta dedo de moça são
alongados, avermelhados, e sabor mais suave que a
malagueta. A caiena pode ser verde ou avermelhada, é
alongada e tem ardência forte. É muito usada na cozinha
mexicana. A pimenta cambuci é verde-clara, achatada,
doce e suave, e possui de 5 cm a 7 cm de diâmetro.
Também são encontradas no país, entre outras, as
211
seguintes pimentas: doce americana, chapéu de bispo,
bode, e pimenta de cheiro.
O prato preferido pelos brasileiros - a feijoada
misturada à farinha de mandioca - é sempre regado
com molho de pimenta: este a acompanha e incrementa
o seu sabor. São os molhos de pimenta que temperam,
inclusive, a buchada, o mocotó, a rabada, o caruru
de quiabos, a moqueca, a dobradinha, a galinha de
cabidela e o sarapatel, pratos típicos das cozinhas
baiana e pernambucana.
Em relação à pimenta de cheiro, a Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA)
Amazônia Oriental tem desenvolvido pesquisas visando
a recuperar as características originais dessa planta,
porque ela vem perdendo, aos poucos, seu cheiro, cor
e tamanho usual, em decorrência de cruzamentos com
outras espécies de pimenteiras.
Muitas pessoas acreditam que a capsaicina
possui propriedades medicinais. Neste sentido, comem
pimentas e/ou bebem seu chá visando à cicatrização
de feridas, à dissolução de coágulos sanguíneos, à
prevenção de hemorragias e arteriosclerose, ao controle
de colesterol e ao aumento de resistência física.
As pimentas são indicadas pela Medicina
Popular para curar dores de dentes, desmaios ou
vertigens, eczemas, doenças venéreas e afecções das
vias urinárias, regras menstruais dolorosas, perda de
apetite, rouquidão e tosse (SOUTO MAIOR, 2004).
A pimenta do reino (Piper nigrum L.) uma planta
trepadeira originária da Índia, foi introduzida, no Brasil,
212
no século XVIII, durante o reinado de D. João VI, e
popularizada com a imigração japonesa para o Estado
do Pará, na primeira metade do século XX. O clima úmido
e quente, da Região, se mostrou favorável ao cultivo
dessa pimenteira que, séculos atrás, era chamada ouro
negro. Ela pertence a um gênero diferente de pimenta
e a substância causadora de sua ardência se chama
piperina. A pimenta do reino é muito utilizada na culinária
brasileira, servindo para temperar carnes assadas e
guisadas, legumes, patês, conservas e vinha d’alhos.
O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de
pimenta do reino. Exporta, em média, 45 mil toneladas,
por ano, para a Europa e os Estados Unidos.
213
214
SABIÁ-LARANJEIRA
Dentre as aves mais populares do Brasil está
o sabiá-laranjeira. Oriundo da Mata Atlântica, seu
nome científico é Turdos Rufiventris e, em inglês, ele é
chamado Rufous-bellied Thrush. É denominado, ainda,
sabiá-peito-roxo, sabiá-gongá, sabiá-vermelho e sabiáamarelo.
Segundo os ornitólogos, existem cerca de
catorze espécies de sabiás, no país. Porém, dentre
as mais populares, encontram-se o sabiá-da-mata,
o sabiá- ferreiro, o sabiá-branco e o sabiá-coleira. Na
natureza, a ave vive em torno de trinta anos, preferindo
habitar em florestas ralas, beiradas de matas e serras,
pomares, árvores esparsas, praças e quintais, sempre
em locais onde existem frutas e água em abundância.
O sabiá-laranjeira, em particular, a mais popular
de todas aquelas aves, mede cerca de vinte e cinco
centímetros, sua plumagem é parda, excetuando-se
a região do ventre, onde se destaca a cor vermelho
ferrugem, levemente alaranjada, e seu bico é amarelo
escuro.
O pássaro come quase todas as frutas. Aprecia
bastante o mamão, o melão, a manga, a banana, o
caju, o abacate, a amora, a pitanga, dentre outras,
215
alguns legumes, insetos, minhocas e pimenta. Em
decorrência de sua avidez extraordinária, cai facilmente
em arapucas.
Com gravetos e fibras entremeadas de barro,
constrói seu ninho em árvores frondosas e na bifurcação
dos galhos, moldando o formato de um pequeno prato
de barro. Ali, sempre no início do inverno (de fevereiro a
março) ele põe de três a quatro ovos esverdeados, com
manchas irregulares ferruginosas.
O sabiá-laranjeira destaca-se, também, pela
qualidade do trinado: seu canto é lindo, longo, melodioso
e agradável, assemelhando-se à sinfonia saída de uma
flauta. Alguns pássaros chegam a ficar cerca de dois
minutos, ininterruptamente, emitindo o cantar. Por outro
lado, não existem duas aves que entoem a mesma
música. Na primavera, é o primeiro canto que se ouve,
antes mesmo de clarear os dias.
Para ouvi-lo, entre no site:
http://www.picarelli.com.br/novopc/sabia1.wav
A ave ficou eternizada no folclore, na literatura, na
poesia, na música e, na cultura brasileira, de um modo
geral. Era o ano 1843, e o poeta Antônio Gonçalves Dias
(1823-1864) estudava em Coimbra. Com vinte anos
de idade, apenas, o romântico maranhense escreveu
Canção do Exílio, imortalizando o sabiá-laranjeira,
que era visualizado, pelo autor, como uma referência
mítica fundamental. Aquele canto de louvor, à Pátria
amada, tornou-se a poesia mais citada na literatura e
na música popular brasileira. Além de representar a
216
saudade (e a idealização) da terra natal, um sentimento
universal e sem idade, tornou-se a própria expressão do
nacionalismo, em um Brasil que acabara de conquistar
sua independência política. Abaixo, eis o poema escrito
por Gonçalves Dias.
Canção do Exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Minha terra tem primores,
Que, tais, não encontro eu cá;
Em cismar sozinho, à noite
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
217
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Uma música brasileira divulgou, ainda, o sabiálaranjeira. Seus autores são Mario Vieira e Hervé
Cordovil, e a letra da poesia encontra-se a seguir.
Sabiá lá na gaiola,
Fez um buraquinho,
Voou, voou, voou, voou,
E a menina que gostava,
Tanto, tanto do bichinho,
Chorou, chorou, chorou, chorou.
Sabiá fugiu do terreiro,
Foi cantar no abacateiro,
E a menina pôs-se a chamar:
Vem cá, sabiá, vem cá.
A menina diz soluçando:
Sabiá, eu estou te esperando,
Sabiá responde de lá:
Não chores que eu vou voltar.
Também os compositores Luiz Gonzaga e
José Dantas, inspirados naquele pássaro, elaboraram
uma música e poesia que veio enriquecer o folclore
nordestino. Sua letra é a seguinte
218
A todo o mundo eu dou psiu (psiu, psiu, psiu),
Perguntando por meu bem (psiu, psiu, psiu),
Tendo um coração vazio,
Vivo assim a dar psiu,
Sabiá vem cá também.
Tu que anda pelo mundo, sabiá,
Tu que tanto já voou, sabiá,
Tu que fala aos passarinhos, sabiá,
Alivia a minha dor, sabiá.
Tem pena d’eu, sabiá,
Diz por favor, sabiá,
Tu que tanto anda no mundo, sabiá,
Onde anda o meu amor, sabiá...
Quando se considerou importante selecionar
uma ave representativa do Brasil, dentre quase duas
mil espécies distintas, alguns ornitólogos acharam
que, devido à coloração verde e amarela, a ararajuba
deveria ser a escolhida. Outros votaram no tucano,
por sua associação com os Trópicos. A maioria,
contudo, elegeu o sabiá-laranjeira. Os critérios para
a escolha não foram, apenas, a beleza, ou o trinado
mais harmonioso, do sabiá-laranjeira: foi levada em
consideração a sua proximidade com as pessoas. Seus
ninhos têm o formato de uma tigela profunda de argila e
fibras vegetais, sendo encontrados em quintais, beirais
de telhados, e granjas.
219
A partir do dia 3 de outubro de 2002, através
de um decreto do ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso, o sabiá-laranjeira juntou-se, oficialmente, aos
quatro símbolos nacionais (a bandeira, o hino, o brasão
de armas e o selo), passando a ser a Ave Símbolo do
Brasil.
220
UIRAPURU
221
O uirapuru é um pássaro irrequieto e pequeno:
mede somente uns 12,5cm de comprimento. Seu
nome científico é cyphorhinus aradus e ele pertence
à família das troglodytidae. Esse pássaro se alimenta,
basicamente, de frutas e insetos e, o seu habitat
natural, são as matas e florestas da Amazônia. O visual
do uirapuru não é atraente: ele possui uma plumagem
pardo-avermelhada, ou verdeoliva, com a cauda
avermelhada, um bico forte e pés grandes. Os índios
chamam-no irapuru ou guirapuru, que significa pássaro
ornado, pássaro emprestado, ou pássaro que não é
pássaro, e cuja missão é presidir o destino dos outros
pássaros. Seu canto é tão belo que, ao ouvi-lo, as aves
param de cantar, como se estivessem enfeitiçadas.
O primeiro estrangeiro a ouvir o canto do uirapuru,
e a registrar a sua melodia foi o botânico Richard
Spruce, em uma excursão ao rio Trombetas, na metade
do século XIX (CASCUDO, 1979). O botânico escreveu
que o uirapuru cantava para todo o mundo, como uma
caixa de música.
Eram inconfundíveis os claros sons metálicos,
exatamente modulados como por um instrumento
musical. As frases eram curtas, mas cada uma
incluía todas as notas do diapasão, e depois de
repetir a mesma frase umas vinte vezes, passava
subitamente para outra, de quando em vez com
a mudança de clave de uma quinta-maior, e
prosseguia por igual espaço. Normalmente fazia
uma breve pausa, antes de mudar de tema. Eu
já o escutava, há bastante tempo, quando me
ocorreu a idéia de fazer a transcrição musical...
222
Simples como é, esta música era vinda de um
músico invisível no fundo da mata selvagem, de
uma magia que me encantou quase uma hora.
Então, bruscamente, parou, para recomeçar tão
longe que mal pude percebê-la a extinguir-se (p.
888).
No Norte do Brasil, existem várias lendas sobre
o uirapuru. Uma dessas lendas salienta que um jovem
guerreiro se apaixonou pela esposa de um cacique.
E, como não podia se aproximar dela, solicitou ao
deus Tupã que o transformasse em um pássaro.
Tupã, prontamente, atendeu ao seu pedido. Notando,
porém, que, todas as noites, um pássaro cantava para
a sua esposa, o cacique começou a persegui-lo, com
a intenção de prendê-lo. A ave, entretanto, voou para
dentro da floresta, e o cacique não pôde acompanhá-la.
Todas as noites, então, o uirapuru retornava e cantava
para a sua amada, desejando que, através do esplêndido
canto, ela o descobrisse. Muito embora seu objetivo não
tivesse sido alcançado, o uirapuru continuou cantando
para sempre
Outra lenda ressalta que, em uma tribo, havia
duas índias apaixonadas pelo mesmo cacique. Sabendo
disto, ele prometeu casar com aquela que tivesse a
melhor pontaria com a flecha. Houve um campeonato e
uma delas ganhou a disputa. Contudo, a índia perdedora
– chamada Oribici - chorou, tanto, que suas lágrimas
foram suficientes para formar uma fonte e um córrego.
Por outro lado, Oribici percebeu que o cacique amava
muito a sua irmã e esposa. Desse modo, decidiu se
223
resignar com a falta de sorte e não disputar mais aquele
amor. O generoso Tupã, compadecido com o pesar de
Oribici, transformou-a em um pássaro, para que, do alto,
ela pudesse ver, sempre, o seu amado. Além disso, deulhe, também, um canto belíssimo, capaz de enfeitiçar
todos os demais pássaros da floresta, compensando-a,
desse modo, pelo amor que não pôde concretizar.
Uma terceira lenda destaca que a flecha de uma
donzela apaixonada atingiu um pássaro de plumas
vermelhas e de canto perfeito, transformando-o em
um guerreiro forte e belo. Havia, porém, um feiticeiro,
aleijado e muito feio, que amava aquela donzela e
sentia ciúmes do guerreiro. Sendo assim, ele tocou
uma determinada música, com sua flauta encantada, e
fez com que o guerreiro desaparecesse para sempre.
A partir desse dia, só restou o lindo canto do guerreiro
nas matas e florestas da Amazônia. Segundo a lenda,
trata-se do próprio uirapuru.
Em relação a esse pássaro, portanto, o real e
o lendário parecem se confundir. Os pesquisadores
afirmam que ele nunca repete as mesmas frases
musicais e, por essa razão, é considerado, pelos
nativos, como um ente sobrenatural. Depois de morto,
não somente o seu corpo, mas, algumas partes dele, ou
do seu ninho, são considerados talismãs, sendo muito
procurados em mercados e feiras. Para os índios tupis,
o uirapuru representa um Deus que adquiriu a forma
de pássaro. Por sua vez, as pessoas acreditam que
um amuleto contendo alguma parte de seu corpo, ou
ninho, atrairá clientes em estabelecimentos comerciais.
224
Creem, também, que ele atrai a felicidade: o homem
que carregar uma simples pena, daquela ave, tornarse-á irresistível para as mulheres, e terá muita sorte
nos negócios. E, a mulher que conseguir um pedaço
do seu ninho, conseguirá viver com o homem amado,
mantendo-se este fiel e apaixonado para todo o sempre.
Quem ouvir o canto do uirapuru, que faça um pedido,
imediatamente, porque este será realizado.
Cascudo registrou:
Não há no Pará, no Maranhão e Amazonas
muitos taverneiros que não tenham na soleira da
porta enterrado um guirapuru, a quem atribuem a
virtude de conduzir fregueses à sua taverna. Um
guirapuru, por este motivo, custa caro... Muitos
comerciantes compram tais amuletos apenas
para deixá-lo em uma gaveta do estabelecimento,
ou enterrá-lo na soleira da porta, acreditando que
o mesmo atrairá fregueses.
É dificílimo se adquirir uma pena do uirapuru. Os
pássaros sempre o avisam da presença de predadores,
e ele voa para longe. Consegue-se, somente, adquirir
penas velhas, quando elas se desprendem de seu corpo
e caem ao chão. Os amuletos são confeccionados,
então, com essas penas. O uirapuru serviu de inspiração para a Música
Popular brasileira. Jacobina e Murilo Latini compuseram
uma música em sua homenagem, tendo ela sido
interpretada por Pena Branca e Xavantinho. Sua letra
segue abaixo.
225
226
Uirapuru
Uirapuru, uirapuru,
Seresteiro cantador do meu sertão;
uirapuru, uirapuru,
Ele canta as mágoas do meu coração.
A mata inteira fica muda ao teu cantar,
Tudo se cala para ouvir tua canção,
Que vai ao céu numa sentida melodia,
E vai a Deus em forma triste de oração.
Uirapuru, uirapuru,
Seresteiro cantador do meu sertão;
uirapuru, uirapuru,
Ele canta as mágoas do meu coração.
Se Deus ouvisse o que te sai do coração,
Entenderia que é de dor tua canção,
Que nos seus olhos anda o pranto em moradia,
Que daria para salvar o meu sertão.
Uirapuru, uirapuru,
Seresteiro cantador do meu sertão;
Uirapuru, uirapuru,
Ele canta as mágoas do meu coração.
Tal
canção
pode
ser
apreciada
no
site:
http://www.kboing.com.br/musica-e-letra/nilo-amaro-eseus-cantores-de-ebano/82319-uirapuru/.
Outra música sobre o maravilhoso pássaro foi
composta por Waldemar Henrique, em 1934. Eis a sua
letra:
227
Uirapuru
Certa vez de montaria,
Eu descia o Paraná,
E o caboclo que remava,
Não parava de falar,
Oh, oh, não parava de falar,
Oh, oh, que caboclo falador!
Me contou do lobisomem,
Da Mãe-D’água e do Tajá,
Disse do Jurutahy,
Que se ri pro luar,
Oh, oh, que se ri pro luar,
Oh, oh, que caboclo falador!
Que mangava de visagem,
Que matou surucucu,
E jurou com pabulagem,
Que pegou o uirapuru,
Oh, oh, que pegou o uirapuru,
Oh, oh, que caboclo tentador!
Caboclinho, meu amor,
Arranja um pra mim,
Ando roxo pra pegar unzinho assim...
O diabo foi-se embora,
E não quis me dar,
Vou juntar meu dinheirinho,
Pra poder comprar...
228
Mas no dia em que eu comprar,
O caboclo vai sofrer,
Eu vou desassossegar,
O seu bem querer,
Oh, oh, o seu bem querer,
Oh, oh, ora deixe ele pra lá!
As lendas relativas ao uirapuru inspiraram,
ainda, vários artistas. Em 1917, o compositor e maestro
Heitor Villa-Lobos, baseado em material folclórico
coletado em viagens pela Região Norte, compôs um
poema sinfônico. Nesse material, havia a narrativa de
uma lenda bem simples: uma jovem, ao ouvir o canto
do uirapuru (considerado como o rei do amor), atirou
uma flecha em seu coração. E o transpassar da flecha
transformou o pássaro em um belo rapaz.
São raras as pessoas que conseguem ouvir
(ou ouviram) o uirapuru cantar. Isto se deve a alguns
aspectos: 1) o pássaro canta nos galhos mais altos das
matas e florestas amazônicas; 2) seu canto visa a atrair
a fêmea para o acasalamento, durando de dez a quinze
minutos; 3) o canto ocorre, apenas, ao amanhecer e ao
anoitecer; e 4) o uirapuru canta, tão-somente, durante a
construção do seu ninho (cerca de quinze dias por ano).
Além disso, há que se levar em conta outro fator que
tem contribuído para o extermínio do uirapuru: a caça
predatória, em busca de elementos para a confecção
de amuletos.
Cabe salientar, por fim, que a presença do
uirapuru, um pássaro tão pequeno quanto um pardal,
229
veio enriquecer o folclore brasileiro através de lendas,
mitos, crenças em seus poderes sobrenaturais,
melodias, canções, e sinfonias compostas em seu nome.
Não há canto mais belo que o dele. Todos os pássaros
parecem ficar enfeitiçados, ao ouvi-lo cantar. É que,
nenhuma ave, no planeta Terra, ousaria interromper o
mais raro, melodioso e sagrado dos mestres canoros.
230
VITÓRIA-RÉGIA
231
A vitória-régia é uma das maiores plantas
aquáticas do mundo. Originária da Região Amazônica,
ela pertence à família das Nynphaeceae. Por se
tratar de uma planta ornamental exuberante, os
europeus chamaram-na de rosa lacustre. E, quando
um pesquisador inglês levou suas sementes para
plantar, nos jardins do palácio real, os próprios ingleses
denominaram-na Vitória, em homenagem à sua querida
rainha. Os indígenas chamam-na de uapé, iapucacaa,
aguapé-assú, jaçanã, ou nampé; e, os índios guaranis,
em particular, denominam-na irupé.
As folhas da vitória-régia possuem as bordas
dobradas, são grandes e flutuantes, apresentam-se
no formato de um círculo e, algumas, chegam a cobrir
uma superfície de três metros quadrados. As folhas
são capazes de suportar uma carga de, até, quarenta
quilos, sem afundá-la na água, se o peso for bem
distribuído. Na Região Norte, as garças, os maguaris, e
várias outras aves, passeiam tranquilas sobre os largos
mantos verdes que flutuam nos rios e igarapés.
As flores da vitória-régia brotam nos meses de
janeiro e fevereiro. São brancas ou rosadas, possuem
várias camadas de pétalas, e abrem somente durante
a noite, exalando um perfume maravilhoso. Algumas
flores medem trinta centímetros de diâmetro e, em seu
centro, há um botão circular onde se encontram as
sementes.
A vitória-régia se beneficia das inundações e
enchentes do rio Amazonas. À medida que as águas
vão subindo, crescem também os seus pecíolos
(hastes). Por vezes, eles ficam longuíssimos, atingindo
até, cinco metros de comprimento. Caso o nível das
232
águas permaneça alto, a vitória-régia poderá viver
cerca de dois anos; porém, se elas baixarem, a planta,
aos poucos, irá sucumbir.
Em relação à vitória-régia, existem vários mitos
e lendas, na Região Norte, narrados por sábios pajés
e índias idosas. Reunidos à noite, eles repassam,
oralmente, sua cultura milenar. Alguns dizem, por
exemplo, que tudo começou com a índia Naiá. Ela era
apaixonada pela Lua (considerada um deus masculino
e representada por um jovem e bonito guerreiro). Naiá
passava as noites correndo pelas matas, perseguindo o
noivo celestial, e não havia poção milagrosa capaz de
curá-la de tal obsessão.
Certa vez, estando à beira de uma lagoa, ela
viu a imagem do seu amado refletida na água. Sem
titubear, mergulhou ao seu encontro e morreu afogada.
Sensibilizada com o fato, a Lua procurou compensar o
sacrifício de Naiá. Dilatou a palma das folhas da vitóriarégia e transformou-a em uma estrela das águas, um
verdadeiro poema de beleza e perfume. E, para que
ela acolhesse os raios de luar - em verdade, os beijos
apaixonados - a Lua fez com que, as flores daquela
planta, abrissem somente à noite, exalando um aroma
esplendoroso.
De acordo com outra versão da lenda, os nortistas
contam que a Lua tinha poderes extraordinários para
transformar, as índias, em estrelas. E havia uma índia
que desejava, muito, se transformar em estrela, para
poder ficar mais perto da Lua, sua grande paixão.
Tentando alcançá-la, subia em morros e montanhas
chamando por ela: Iaci! Iaci! No entanto, todos os
esforços eram inúteis!
233
Certo dia, a índia percebeu, não, somente, o
reflexo da Lua, mas, ouviu o seu canto, oriundo das
profundezas das águas. Crendo ser o amado lhe
chamando, atirou-se no igarapé e jamais retornou à
superfície. Compadecida com sua falta de sorte, a Lua
transformou-a, então, em uma bela estrela d´água na
Terra.
Em outra variação dessa lenda os protagonistas
são a Lua (um bonito guerreiro chamado Jacy), a planta
aquática Uapé, e uma cunhã, jovem índia chamada
Naiá, que vivia como as demais mulheres da aldeia,
cozinhando, tecendo, raspando mandioca, cuidando
das crianças, e modelando vasos de barro. Ao final das
tardes, ela se deitava na rede e adormecia olhando o
céu.
234
Certa noite, quando deitou, pela primeira vez,
Naiá percebeu as estrelas no céu. Nessa atitude
contemplativa, descobriu, também, a Lua (representada
por um personagem masculino, um belo guerreiro) e,
a partir daí, desejou ser uma estrela. Quando a noite
chegava, ela corria para as margens do rio, olhava para
o céu e via seu amado brilhando entre as estrelas. Então,
repleta de paixão, começava a cantar e a chamar por
ele. Passava horas e horas admirando o firmamento, na
tentativa de visualizar o rosto do bem amado.
Os meses se passavam e Naiá continuava
buscando os raios da Lua, sem nunca dela conseguir
se aproximar. Cantava todas as noites, às vezes
subia no topo de alguma árvore, tentando tocar no
jovem guerreiro, porém, este permanecia distante e
silencioso. Um dia, cantando e dançando, ela entrou em
um lago claro como um espelho. Molhou os seus pés,
depois as pernas e, em seguida, abraçou o reflexo de
Jacy, que estava projetado na água. Enfim, pensou ela,
o meu amado desceu à Terra para banhar-se comigo.
Assustada, a tribo observava o comportamento de Naiá.
Um dos índios, inclusive, tentou impedi-la de entrar na
água, mas, ela foi mergulhando, mergulhando e, em
pouco tempo, desapareceu, morrendo afogada. Olhando para o local, depois do ocorrido, os
indígenas viram surgir uma luz na superfície do lago. A
luz foi se transformando em pequenas folhas redondas,
que cresceram, até ficar bem grandes, como se fossem
uma bandeja verde. A seguir, apareceu uma pequena
pétala branca, que foi aumentando de tamanho.
235
Surgiram, então, outras pétalas, que formaram uma
linda flor, em forma de estrela. A estrela branca abriu as
pétalas e perfumou todo o ambiente: tratava-se da flor
da noite. Cheia de remorsos, a Lua havia transformado
a jovem morta em uma estrela do rio Amazonas. Em
outras palavras, Jacy transformara Naiá em Uapé.
Desse modo, quando a Lua ilumina as águas dos
rios, lagoas e igarapés, Uapé abre suas pétalas para
receber o carinho do amado. No entanto, ao nascer
do dia, ela se fecha. Somente em noites de Lua cheia,
quando o céu, sobre a selva amazônica, está claro e
sem nuvens, ela se abre em plenitude máxima. Naiá
se transformou, definitivamente, na gigante e bela flor
das águas, permanecendo como a rainha das plantas
aquáticas.
Além de conter beleza e perfume, a vitória-régia
possui uma raiz (um tubérculo parecido com o inhame)
que os nativos usam na alimentação e chamam “fornod’água”, por sua semelhança com um tacho de torrar
farinha. Por outro lado, os indígenas extraem o sumo
dessas raízes (uma tintura preta) e, com ele, pintam os
cabelos.
A cada mês de agosto, as cápsulas da vitóriarégia, repletas de sementes, caem no fundo das águas.
E elas, na medida em que recebem a ação dos raios
solares, se enterram no lodo e enrijecem. Os índios e
as aves da região apreciam tais sementes, também, em
sua alimentação. Voando em bandos, são os pássaros
que espalham as sementes da vitória-régia por onde
passam, e perpetuam a vida da rosa lacustre: a mais
bela deusa vegetal e estrela das águas.
236
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