Uma Coleção de Artigos
sobre Tilápia II
Por Dr. Fernando
Kubitza
Publicado no Panorama
da Aquicultura
1998-2005
Indice Qualidade da água na produção de peixes – Parte I - 1998 .................................................... 4
Qualidade da água na produção de peixes – Parte II - 1998 ..................................................11
Tilápia em água salobra e salgada ........................................................................................20
Monitoramento a saúde dos peixes ......................................................................................25
Antecipando às doenças na tilapicultura ...............................................................................33
Desafios para a consolidação da tilapicultura no Brasil ...........................................................41
Estes artigos foram selecionados de artigos referenciados publicados no Panorama da
Aquicultura 1998-2005. Distribuído com permissão do Panorama da Aquicultura Ltda. pelo
Southern Ocean Educational and Development Project, CIDA/ Univ. of Victoria, Canada
Agosto 2009
Panorama da AQÜICULTURA, Janeiro/fevereiro, 1998
Panorama da AQÜICULTURA, Janeiro/fevereiro, 1998
QUALIDADE DA ÁGUA
NA PRODUÇÃO DE PEIXES - PARTE I
Por Fernando Kubitza,
especialista em Nutrição e Produção de Peixes,
mestre em Engenharia Agrônoma pela ESALQ - USP e
Ph.D pela Auburn University - Alabama, USA.
Hoje ocupa o cargo de Coordenados do
Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento do Projeto Pacu. A
1. Introdução:
Condições inadequadas de
qualidade da água resultam
em prejuízo ao crescimento, à
reprodução, à saúde, à sobrevivência e à qualidade dos peixes,
comprometendo o sucesso dos
sistemas aquaculturais. Inúmeros são as variáveis e processos
envolvidos com a qualidade da
água. Sem a pretensão de abordar todos eles de forma exaustiva, este material didático se limitará à discussão das variáveis
e processos físicos, químicos e
biológicos mais relevantes ao
manejo econômico da qualidade
da água em ecossistemas aquaculturais.
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2. Aspectos Fisiológicos dos Peixes Importantes à Produção
2.1.Pecilotermia. Enquanto os mamíferos e aves são animais
homeotérmicos, ou seja, conseguem manter a temperatura corporal constante, os peixes não possuem tal capacidade, sendo
conhecidos como animais pecilotérmicos ou de sangue frio. Na
realidade, a temperatura corporal dos peixes varia de acordo com
as oscilações na temperatura da água. Do ponto de vista energético, a pecilotermia confere uma vantagem aos peixes comparados
aos animais homeotérmicos que gastam boa parte da energia dos
alimentos para a manutenção da temperatura corporal. Esta energia, nos peixes, é utilizada para crescimento (ganho de peso), daí
o motivo da maioria dos peixes apresentarem melhor eficiência
alimentar que os mamíferos e aves. Dentro da faixa de conforto
térmico para uma espécie de peixe, quanto maior a temperatura da
água, maior será a atividade metabólica, o consumo de alimento
e, conseqüentemente, o crescimento. Durante os meses de outono
e inverno os peixes tropicais diminuem o consumo de alimento
e podem até deixar de se alimentar em dias muito frios, o que
resulta em reduzido crescimento.
2.2 Respiração. Com o auxílio das brânquias (ou guelras), os
peixes realizam as trocas gasosas por difusão direta entre o sangue
e a água. Quanto maior a concentração de oxigênio e menor a de
gás carbônico na água, mais facilmente se processa a respiração
dos peixes. O gás carbônico interferecom a absorção de oxigênio
pelos peixes. Quanto mais alta a temperatura da água, maior o
consumo de oxigênio pelos peixes. Peixes alimentados também
consomem mais oxigênio do que peixes em jejum. Partículas
de silte e argila, bem como a presença de parasitos e patógenos
sobre as brânqueas prejudicam a respiraçào e podem causar
asfixia nos peixes.
2.3 Excreção fecal. Parte do alimento ingerido não é digerido e/
ou absorvido pelos peixes e vai ser excretado como fezes dentro
do próprio ambiente de cultivo. Estas fezes se decompõem por
ação biológica, consumindo oxigênio e liberando nutrientes na
água. Quanto melhor a digestibilidade do alimento, menor será
a quantidade de resíduos fecais excretada.
2.4 Excreção nitrogenada. O ambiente aquático faz da excreção
nitrogenada dos peixes um processo simples e de baixa demanda
energética. A amônia é o principal resíduo nitrogenado excretado
pelos peixes. A excreção da amônia ocorre via brânquias, por difusão direta para a água. Em mamíferos e aves há um considerável
gasto de energia na transformação da amônia em uréia e ácido
úrico, principais resíduos nitrogenados excretados por estes animais, respectivamente. A amônia surge como o principal resíduo
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do metabolismo protéico dos peixes. Desta forma, alimentos com
excessivo teor protéico e/ou com desbalanço na sua composição
em aminoácidos (unidades formadoras das proteínas) aumentam
a excreção de amônia pelos peixes. A amônia é tóxica aos peixes
e medidas para evitar o acúmulo excessivo de amônia na água
devem ser tomadas durante o cultivo.
3. O Uso da Água nos Sistemas Aquaculturais
Quanto a intensidade de utilização ou renovação de água, os
sistemas de produção intensiva de peixes podem ser classificados
como: sistemas de água parada; sistemas com renovação de água;
sistemas de recirculação de água.
3.1 Sistemas de água parada ou estáticos Os sistemas de água
parada se caracterizam pela somente reposição das perdas devido à
infiltração e à evaporação da água dos tanques e viveiros, os quais
podem ser utilizados em dois ou mais ciclos de cultivo sem serem
esvaziados. Este sistema é bastante usado onde o suprimento de
água é limitado ou em situações em que o abastecimento dos tanques depende de bombeamento, o que pode onerar demasiadamente
os custos de produção. A capacidade de produção dos sistemas de
água parada gira ao redor de 4.000 a 12.000 kg de peixes/há, em
função da espécie cultivada e da estratégia de produção adotada.
3.2 Sistemas com renovação de água Onde há adequada disponibilidade de água e o abastecimento pode ser feito por gravidade,
muitos produtores optam pela utilização de sistemas com renovação de água. Nestes sistemas pode haver entrada e saída contínua
de água (sistema contínuo) ou a renovação periódica de um certo
volume de água dos tanques e viveiros (sistema intermitente). A
renovação de água permite uma diluição na concentração de resíduos orgânicos e metabólicos, evitando uma excessiva eutrofização
dos tanques e viveiros. De 10.000 a 30.000 kg de peixe/há de
viveiro pode ser produzido, em função da espécie e da estratégia
de produção adotada. Sistemas de alto fluxo. Salmonídeos (como
exemplos a truta arco-íris, o salmão do Atlântico, o salmão Coho
e o salmão rosa) são bastante exigentes em relação à qualidade da
água. O mais tradicional dos sistemas de cultivo de salmonídeos
utiliza tanques supridos com grande fluxo de água (os chamados
“raceways”). Tilápias, carpas e bagre-do-canal, entre outras espécies, também são bastante cultivados em sistemas de alto fluxo.
Cerca de 30 a 150kg de peixe/m 3 de volume de raceways podem
ser produzidos, em função do fluxo de água e uso de aeração
contínua. Considerando-se uma profundidade de 1m, cerca de
300 a 1.500 toneladas de peixe podem ser produzidos por hectare
de raceway.
3.3 Sistemas de recirculação de água Os sistemas de recirculação
de água são adequados quando o objetivo é produzir um grande
volume de peixes sob limitações quanto ao uso ou disponibilidade
da água e área. Como o sistema é praticamente fechado, embora
periodicamente possa haver uma troca parcial ou mesmo total
da água do sistema, é inevitável o acúmulo de resíduos orgânicos e metabólicos. Unidades de filtração mecânica e biológica
e aeradores são instalados em série para remover os sólidos da
água, promover a transformação microbiológica da amônia e
do nitrito (substâncias tóxicas aos peixes) em nitratos, e repor o
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Panorama da AQÜICULTURA, Janeiro/fevereiro, 1998
oxigênio consumido e eliminar o excesso
de gás carbônico acumulado na água do
sistema. A capacidade de produção destes
sistemas gira ao redor de 20 a 70 kg/m 3
, em função da espécie, da capacidade de
renovação de água e do nível tecnológico adotado pelo produtor. Sistemas de
recirculação de água também são usados
para garantir a sobrevivência de espécies
de peixes tropicais em regiões onde o
inverno é rigoroso. Neste caso, faz-se uso
de um sistema fechado de recirculação de
água em estufas plásticas aproveitando a
energia solar para aquecimento. Aquecimento elétrico e o uso de
fontes geotérmicas de água, quando existentes, são alternativas para
assegurar uma adequada temperatura na água durante o inverno. A
função principal da recirculação de água, neste caso, é minimizar
as perdas de calor do sistema, mantendo a temperatura em níveis
satisfatórios com menor gasto de energia. As discussões que se
seguem enfocarão, basicamente, o manejo da qualidade da água
em tanques e viveiros em sistemas de água parada ou sistemas de
renovação intermitente de água. Alguns aspectos relacionados aos
sistemas de alto fluxo serão discutidos oportunamente.
e metabólitos, causando a morte do embrião em desenvolvimento.
Uma aeração vigorosa, seguida por um período de decantação, auxiliam na precipitação do hidróxido de ferro, melhorando a qualidade
destas águas para uso em incubatórios.
5. Indicadores de Qualidade da Fonte de Água
4. Fontes de Água para Piscicultura
O adequado suprimento de água de boa qualidade é fundamental para o sucesso de explorações aquaculturais. A seguir é
apresentada uma discussão sobre a qualidade e limitações quanto
ao uso das diversas fontes de água utilizadas em aqüicultura.
4.1. Águas superficiais
Rio, lagos naturais, açudes e córregos são exemplos de fontes
superficiais de água usadas em piscicultura. Tais águas geralmente
apresentam concentrações de oxigênio e gás carbônico próximas à saturação, sendo adeuqdas à vida dos peixes, excetuando-se os casos em
que haja contaminação com resíduos agrícolas (pesticidas, herbicidas,
e argila e silte em suspensão devido aos processos erosivos), industriais e urbanos (domésticos e hospitalares). A composição química
de algumas fontes de águas superficiais são apresentadas na tabela
1. A temperatura das águas superficiais flutua de acordo com a hora
do dia e época do ano, podendo restringir o cultivo de alguns peixes.
Águas superficiais também podem trazer peixes e outros organismos
indesejáveis ao ambiente de cultivo, sendo necessária a proteção das
linhas de abastecimento com filtros e telas.
4.2. Águas subterrâneas
As águas provenientes de minas e poços (originária de lençóis
freáticos) têm sido usadas no abastecimento de sistemas aquaculturais.Água subterrâneas. Geralmente estas águas apresentam baixa
concentração de oxigênio dissolvido e altos níveis de gás carbônico,
necessitando de aeração ou exposição ao ar através de represamento
ou percorrendo canais abertos antes de abastecer os sistemas de
criação. Águas subterrâneas apresentam temperatura praticamente
constante durante o ano. Águas de poços e minas podem conter elevados teores de íons reduzidos de ferro que rapidamente se oxidam
quando em contato com o ar, formando precipitados de hidróxido
de ferro. Tais precipitados são prejudiciais em encubatórios, pois
podem recobrir a superfície dos ovos e impedir as trocas de gases
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5.1 Presença de vida
A exigência de peixes e outras formas de vida é um forte
indicativo da qualidade de uma fonte de água para piscicultura.
Técnicos e piscicultores devem desconfiar da qualidade de águas
superficiais desprovidas de organismos vivos. Os fatores limitantes
devem ser identificados e corrigidos com práticas economicamente
viáveis para adequação desta água à piscicultura.
5.2 Temperatura
A exigência em temperatura depende da espécie de peixe e
fase de desenvolvimento em que este se encontra (ovo, larva, póslarva ou juvenil). As espécies tropicais normalmente apresentam
ótimo crescimento a temperaturas de 28 a 32 0 C. Temperaturas
mínimas e máximas da água devem ser conhecidas de modo a determinar a viabilidade do cultivo de uma espécie em particular.
5.3 Concentração hidrogeniônica da água (pH)
O pH é definido como o logarítimo negativo da concentração (em
mols/L) dos íons H + na água. Os valores de pH da água indicam
se esta possui reação ácida ou básica.
H 2O + H2O = H 3O+ + OH - ou H2O = H + + OH PH = - log [H +]
Panorama da AQÜICULTURA, Janeiro/fevereiro, 1998
A escala de pH compreende valores de 0 a 14. Como regra
geral, valores de pH de 6,5 a 9,0 são mais adequados à produção
de peixes. Valores abaixo ou acima desta faixa podem prejudicar
o crescimento e a reprodução e, em condições extremas, causar a
morte dos peixes. Os valores de pH podem variar durante o dia em
função da atividade fotossintética e respiratória das comunidades
aquáticas, diminuindo em função do aumento na concentração de
gás carbônico (CO2) na água. No entanto, o CO2 , mesmo em altas
concentrações, não é capaz de abaixar o pH da água para valores
menores que 4,5. Condições de pH abaixo de 4,5 resultam da
presença de ácidos minerais como os ácidos sulfúrico (H 2 SO4),
clorídrico (HCl) e nítrico (HNO3).
Método de determinação : o pH pode ser medido usndose papéis indicadores de pH ou kits colorimétricos com uso de
indicadores em gotas ou, de forma mais precisa, com aparelhos
eletrônicos de maior precisão ( “pH meters”).
5.4 Alcalinidade total Este parâmetro se refere à concentração
total de bases tituláveis da água. Embora a amônia, os fosfatos,
os silicatos e a hidroxila (OH -) se comportem como bases contribuindo para a alcalinidade total, os íons bicarbonatos (HCO3 -)
e carbonatos (CO3=) são os mais abundantes e responsáveis por
praticamente toda a alcalinidade nas águas dos sistemas aquaculturais. A alcalinidade total é expressa em equivalentes de CaCO3
(mg de CaCO3 / L). O ácido carbônico (H2CO3) é um produto da
reação ácida do CO2 na água. A ionização do ácido carbônico é
o processo desencadeador da formação do íon bicarbonato, como
ilustrado a seguir:
CO2 + H2O = H2CO3
H2CO3 = H + + HCO3O íon bicarbonato age como base formando CO2 e H
2O, ou como ácido, dissociando-se para formar o íon carbonato,
como se segue:
HCO3 - = CO2 + H2O ; reação como base
HCO3- = H + + CO3= ; reação como ácido
O íon carbonato (CO3 = ) reage como uma base, dissociando-se para produzir hidroxila e íon bicarbonato:
CO3 = + H2O = HCO3- + OH Menos de 1% de todo o CO2 dissolvido na água forma
ácido carbônico. No entanto, águas naturais contém muito mais
íons bicarbonatos do que seria possível apenas com a ionização
do ácido carbônico presente no sistema. Isto se explica pela direta
reação do CO2 com rochas e solo, formando íons bicarbonato:
Calcita CaCO3 + CO2 + H2O = Ca2+ + 2HCO3Dolomita CaMg(CO3) 2 + 2CO2 + 2H2O = Ca2+ + Mg 2+ +
4HCO3Íons bicarbonato também são formados num processo de
troca iônica de íons Ca2+ por íons H + no lodo (substrato) dos
viveiros, na presença de CO2
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Panorama da AQÜICULTURA, Janeiro/fevereiro, 1998
CO2 + H2O = H+ + HCO3Lodo-Ca2+ + H+ = Lodo-H + + Ca2+
Lodo-Ca2+ + CO2 + H2O = Lodo-H + + Ca2+ + HCO3A alcalinidade total está diretamente ligada à capacidade
da água em manter seu equilíbrio àcido-básico (poder tampão da
água). Águas com alcalinidade total inferior à mg CACO3/L apresentam reduzido poder tampão e podem apresentar significativas
flutuações diárias nos valores de pH em função dos processos
fotossintético e respiratório nos sistemas aquaculturais.
Método de determinação A alcalinidade total é determinada
através de um processo titulométrico, em laboratório ou no campo.
Tal princípio de análise é utilizado em kits de análise de água e
segue descrito a seguir:
1) coletar uma amostra de 100mL da água a ser analisada;
2) adicionar 4 gotas de um indicador a base de fenolftaleína; se a
água ficou incolor (pH<8,3), prossiga com o ítem 3; se a água ficou
rosa (pH>8,3) prossiga com o passo 4.
3) Adicionar 4 gotas do indiciador alaranjado de metila (methyl
orange) e titular a amostra com a solução de ácido clorídrico (HCl)
0,0163N até a água mudar de coloração do amarelo para o laranja (pH
= 4,3). Multiplicar o volume de ácido utilizado por 10,1 para obter
a alcalinidade total da água (em mg CaCO3/L), neste caso devida
exclusivamente à presença de íonss bicarbonatos.
4) Titular a amostra com uma solução de HCl 0,0163N até a coloração
40
da água mudar de rosa para incolor (pH = 8,3). Anotar o volume (P)
de ácido utilizado. Prossiga com o passo 5
5) Adicione a mesma amostra 3 gotas do indicador alaranjado de metila
e titule com HCl 0,0163N até a mudança de cor do amarelo para o
laranja (pH = 4,3). Anotar o volume (B) de ácido utilizado.
6) Fazer os seguintes cálculos:
a) se B = 0, então P x 22,5 é o valor da alcalinidade total (em
mg CaCO3/L), neste caso devido, exclusivamente, a presença de íons
hidroxila (OH -).
b) se B - P = 0, então P x 10 é o valor da alcalinidade total (em
mg CaCO3/L), neste caso devido, exclusivamente, a presença de íons
carbonato (CO3 =).
c) se B - P = C, então P x 10 é o valor da alcalinidade (em mg
CaCO3/L) devido à presença de íons carbonato (CO3 =) e C x 10,1 é o
valor da alcalinidade (em mg CaCO3/L), neste caso devido à presença
de íons bicarbonato (HCO3-). A soma destes dois resultados indica o
valor da alcalinidade total da água.
5.5. Dureza total: a dureza total representa a concentração de íons
metálicos, principalmente os íons de cálcio (Ca2+) e magnésio (Mg 2+)
presentes na água.
A dureza total da água é expressa em equivalentes de CaCO3 (
mg CaCO3/L). Em águas naturais, os valores de dureza total geralmente
se equiparam a alcalinidade total, ou seja, Ca2+ e Mg 2+ praticamente se
encontram associados aos íons bicarbonatos e carbonatos. No entanto,
exixtem águas de alta alcalinidade e baixa dureza, nas quais parte dos
íons bicarbonatos e carbonatos estão associados aos íons Na+ e K+ ao
invés de Ca2+ e Mg 2+ . Em águas onde a dureza supera a alcalinidade,
Panorama da AQÜICULTURA, Janeiro/fevereiro, 1998
parte dos íons Ca e Mg se encontram associados à sulfatos, nitratos,
cloretos e silicatos.
2+
2+
Método de determinação: a dureza total da água é determinada
através de método titulométrico, mesmo princípio utilizado pelos kits
de análise de água, como descrito a seguir: 1) coletar 50 mL de amostra
de água e transferir para um Erlenmeyer. Adicionar 1 mL de solução
tampão e misturar. A solução tampão é preparada misturando-se 67,5
ml de cloreto de amônia e 570 mL de hidróxido de amônia em balão
volumétrico, completando o volume da solução para 1L com água
destilada. 2) Adicionar 4 gotas do indicador Eriocromo negro ‘T’ e
titular com solução de EDTA sódico ( solução contendo 4g do sal
etilenodiamino tetracético dissódico e 0,1g de cloreto de magnésio
hexahidratado e diluída a 1L com água destilada). A mudança de cor do
vermelho-vinho para azul puro indica o final da titulação. Multiplicar
por 20 o volume de EDTA usado para obter o valor da dureza total da
água, expressa em mg de CaCO3/L.
5.6. Gás carbônico (CO2): comparativamente ao nitrogênio e argônio, o
CO2 está presente em baixa proporção na atmosfera (tabela 3). Portanto,
mesmo sendo altamente solúvel, as concentrações de CO2 na água são
bastante baixas. A água pura saturada com CO2 a 250 C (760 mmHg)
tem uma concentração de CO2 de 0.46 mg/L. A respiração das algas,
das macrófitas, dos peixes e do zooplâncton, bem como os processos
microbiológicos de decomposição da matéria orgânica são as fontes
importantes de CO2 nos sistemas aquaculturais.
Ao longo do cultivo, a respiração pode exceder a atividade fotossintética ( importante mecanismo de remoção do CO2), aumentando
consideravelmente a concentração de CO2 no sistema, a qual pode
ultrapassar facilmente os valores de 25 mg/L. Método de determinação:
a concentração de gás carbônico na água pode ser determinada por
um processo titulométrico, em laboratório ou no campo. Este mesmo
princípio de análise é utilizado nos kits práticos de análise de água. Tal
processo é descrito a seguir:
1) coletar duas amostras de água de 20mL e adicionar 3 gotas
de indicador base de alaranjado de metila (methyl orange) a uma delas
e 3 gotas de indicador a base de fenolftaleína a outra. Se a CO2 amostra
(alaranjado de metila) ficou amarela e a segunda (fenolftaleína) incolor,
então há CO2 livre na água.
2) pipetar 200mL da mesma amostra e colocar em um Erlenmeyer. Adicionar 10 gotas de indicador a base de fenolftaleína.
3) titular a mostra com carbonato de sódio 0,0454N até obter
uma coloração rosa claro ou pH de 8,3 na amostra. A concentração de
CO2 em mg/L, é calculada multiplicando por 5 o número de mL de
carbonato de sódio utilizado na titulação.
5.7. Amônia e nitrito: a amônia (NH3) é um metabólito proveniente
da excreção nitrogenada dos peixes e outros organismos aquáticos e da
decomposição microbiana de resíduos orgânicos ( restos de alimento,
fezes e adubos orgânicos). A aplicação de fertilizantes nitrogenados
amoniacais (sulfato de amônia, nitrato de amônia e os fosfatos monoamônicos e diamônicos - MAP e DAP) e uréia também contribui para
o aumento da concentração de amônia na água.
O nitrito (NO2 -) é um metabólito intermediário do processo de nitrificação, durante o qual a amônia é oxidada a nitrato ( NO3 -) através de
ação de bactérias do gênero Nitrosomonas e Nitrobacter.
Condições de baixo oxigênio dissolvido prejudicam o desempenho da bactéria do gênero Nitrobacter, favorecendo o acúmulo de
nitrito na água.
Métodos de determinação: a concentração de amônia e nitrito na
água pode ser determinada através de métodos colorimétricos, como os
utilizados pelos kits de análises de água. Determinações sem o auxílio
destes kits exigem equipamentos de alto custo, como os espectrofômetros, disponíveis apenas em laboratórios mais sofisticados.
5.8. Transparência da água e o uso do disco de Secchi: a transparência (capacidade de penetração da luz) da água pode ser usada como um
indicativo da densidade planctônica e da possibilidade de ocorrência de
níveis críticos de oxigênio dissolvido durante o período noturno.
Sob condições de transparência maiores que 40 cm, medida
com o disco de Secchi ou com a imersão de qualquer objeto na coluna
d’água, é muito rara a ocorrência de níveis de OD abaixo de 2 mg/l
em viveiros estáticos com biomassa de peixes ao redor de 4.500 kg/ha.
Águas com tansparência maior que 60 cm permitem a penetração de
grande quantidade de luz em profundidade, favorecendo o crescimento
de plantas aquáticas submersas e algas filamentosas.
Portanto, na ausência de um oxigenômetro e de um sistema de
aeração de emergência, recomenda-se manter a transparência da água
entre 40 e 60 cm. Se os valores de transparência forem próximos ou
menores que 40 cm, deve se interromper ou reduzir os níveis de arraçoamento diário ou as dosagens de fertilizantes e estercos aplicados, bem
como aumentar o intervalo entre aplicações. Promover a renovação da
água, quando possível, auxilia no ajuste dos volumes de tranparência.
Próximas Edições:
ParteII edição 46
. O metabolismo do fitoplâncton
. Componentes e funcionamento do sistema tampão bicarbonatocarbono
. Monitoramento da qualidade da água
. Correção da qualidade da água
. Origem e reciclagem dos resíduos orgânicos e metabólitos
. Qualidade do alimento e qualidade da água
Pare III edição 47
. A dinâmica do oxigênio dissolvido
. Aeração de tanques e viveiros
. Qualidade da água em sistemas de alto fluxo
41
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 1998
Qualidade da Água na Produção
de Peixes - Parte III (Final)
Por Fernando Kubitza, especialista em Nutrição e Produção de Peixes, mestre em Agronomia pela ESALQ – USP e Ph.D
em aqüicultura pela Auburn University - Alabama, USA. Atualmente ocupa o cargo de Coordenador do Departamento de
Pesquisa e Desenvolvimento do Projeto Pacu/Agropeixe.
· A dinâmica do oxigênio dissolvido nos
sistemas aquaculturais
· Aeração de tanques e viveiros
do ar para a água. Quando Ca for maior que Cs, ocorre difusão
do O2 da água para o ar. Quanto maior o gradiente entre Ca e Cs,
maior a taxa de difusão de O2 entre a água e o ar.
Tabela 9. Solubilidade do oxigênio (em mg/l) em função da temperatura
e da salinidade da água
· Qualidade da água em sistemas de
alto fluxo.
12. A dinâmica do oxigênio dissolvido nos sistemas aquaculturais
O oxigênio é essencial à vida dos organismos aquáticos
e baixas concentrações de oxigênio dissolvido na água podem
causar atraso no crescimento, redução na eficiência alimentar
dos peixes, aumento na incidência de doenças e na mortalidade
dos peixes, resultando em sensível redução na produtividade dos
sistemas aquaculturais. Entender os fatores que afetam a dinâmica
do oxigênio nos sistemas aquaculturais é fundamental ao manejo
econômico da produção de peixes.
12.1. Solubilidade do oxigênio na água. Em equilíbrio com a
atmosfera, a solubilidade do oxigênio na água reduz com o aumento
da temperatura e salinidade da água e com a redução na pressão
barométrica (aumento da altitude) do local. O efeito da temperatura
e da salinidade na solubilidade do oxigênio na água, em condições
de equilíbrio com a atmosfera, é ilustrado na tabela 9.
A pressão parcial do oxigênio na atmosfera pode ser calculada multiplicando-se a pressão atmosférica pela percentagem
de O2 na atmosfera para uma dada condição de temperatura do ar.
Cerca de 21% de oxigênio existe na atmosfera a 0oC. Portanto, a
pressão parcial do oxigênio é 760 mmHg x 0.21= 159.6 mmHg.
A difusão de oxigênio da atmosfera para a água, ou viceversa, ocorre quando houver um diferencial de pressão de O2 entre o
ar e a água. A água é dita saturada em O2 quando a concentração de
oxigênio dissolvido é aquela teoricamente possível sob as condições
de temperatura, salinidade e pressão barométrica existentes. Esta
concentração é chamada “concentração de saturação” (Cs).
Como exemplo, podemos observar na tabela 9 que a Cs
do O2 a uma temperatura de 26oC e salinidade igual a zero é de
8.09 mg/l. De uma forma geral, quando a concentração atual de
oxigênio na água (Ca) for menor que a Cs, ocorre difusão do O2
NE - Devido a sua extensão, a Panorama da AQÜICULTURA
está publicando em três edições consecutivas a íntegra desse
artigo. Nesta edição publicamos a terceira e última parte.
A água pode se encontrar subsaturada ou super saturada
com oxigênio. A percentagem de saturação de O2 na água é calculada como segue:
% Saturação O2 = (Ca/Cs) x 100
Muitas espécies de peixes podem tolerar concentrações
de O2 dissolvido em torno de 2 a 3 mg/l. por períodos prolongados.
Salmonídeos podem tolerar níveis de 4 a 5 mg/l. No entanto, o
peixe se alimenta melhor, apresenta melhor condição de saúde e
cresce mais rápido quando os níveis de O2 dissolvidos são próximos à saturação.
Supersaturação da água com oxigênio não causa um
aumento na produção de peixes, nem sequer uma melhora na eficiência alimentar dos mesmos. No entanto, a supersaturação pode ser
desejada para compensar a respiração dos peixes sob condições de
elevados níveis de gás carbônico na água. Supersaturação excessiva
da água com gases, incluindo o O2, pode resultar numa condição
chamada “Trauma da Bolha de Gás” (Gas Bubble Disease - GBD)
. Quando a diferença (DP) entre a pressão total de gases (PTG) e
a pressão barométrica (PB) na água for em torno de 50 a 200 mmHg
as condições são favoráveis à ocorrência de GBD.
35
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 1998
DP = PTG - PB
DP = (PO2 + PN2 + PCO2 + PH2O) - PB
Os sintomas de GBD são: formação de bolhas de gás e
enfizemas no sangue e nos tecidos, bolhas de gás no intestino e
na cavidade bucal, ruptura da bexiga natatória causada por uma
excessiva inflagem das mesmas, hemostasia (obstrução dos vasos
sanguíneos), exoftalmia (olhos saltados), entre outros. A taxa de
mortalidade varia de 50 a 100%.
Várias são as condições que podem causar supersaturação
de gases na água, entre elas:
1) Atividade fotossintética intensa; 2) Rápida elevação na temperatura da água. Águas de minas ou poços são frias e concentradas
em gases. Quando em contato com a atmosfera mais quente, um
aumento repentino na temperatura cria condições de supersaturação de gases nestas águas; 3) Águas abaixo de cachoeiras ou
quedas d’água podem estar supersaturadas com gases; 4) Águas
superficiais durante o inverno podem estar saturadas com gases.
A percolação através do solo pode resultar em aquecimento destas
águas, causando uma supersaturação de gases nas mesmas.
Níveis de saturação de oxigênio acima de 300% pode resultar em massiva mortalidade de peixes devido à GBD. É comum
a ocorrência de supersaturação de gases nas águas de viveiros. No
entanto, mortalidade de peixes devido à GBD não é frequentemente
observada sob condições de cultivo em viveiros. A supersaturação
de gases nos viveiros, particularmente o oxigênio, é restrita às
camadas mais superficiais onde a penetração de luz é adequada
aos intensos processos fotossintéticos. O peixe encon
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Qualidade da Água na Produção de Peixes
de Fernando Kubitza
Principais Parasitoses e Doenças dos Peixes Cultivados
de Fernando Kubitza
Transportes de Peixes Vivos
de Fernando Kubitza
Nutrição e Alimentação dos Peixes Cultivados
de Fernando Kubitza
Planejamento da Produção de Peixes
de Kubitza, Lovshin, Ono e Sampaio
Manejo de Sistemas de Pesca Recreativa
de Fernando Kubitza
Cultivo de Peixes em Tanques Rede
de Eduardo Ono
37
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 1998
12.2. Consumo de oxigênio pelos peixes. O consumo de oxigênio
varia com a espécie, o tamanho, o estado nutricional e o grau de
atividade dos peixes, a concentração de oxigênio e a temperatura
da água, entre outros. Na tabela 10 são resumidos alguns fatores
ou condições que afetam o consumo de oxigênio em algumas
espécies de peixes.
De acordo com os dados da tabela 10 pode-se concluir
que: 1) o consumo de oxigênio é praticamente duplicado a cada
10oC de aumento na temperatura da água; 2) o consumo de oxigênio
aumenta sensivelmente após as refeições e com o nível de atividade
dos peixes; 3) sob condições iguais de biomassa, peixes pequenos
consomem mais oxigênio comparado a peixes grandes.
A equação a seguir pode ser usada para estimar o consumo de oxigênio de espécies de peixes de clima tropicais, bastando
conhecer o peso (em gramas) do animal:
Consumo de oxigênio (mg O2/h/kg) = (1.000/peso) x (peso)0.82
Tabela 10. Fatores ou condições que afetam o consumo de oxigênio
(em mg/h/kg de peixe) em diferentes espécies de peixes.
em sistemas de água parada ou de pequena renovação de água.
Devido ao balanço entre a atividade fotossintética do fitoplâncton
e a atividade respiratória das diferentes comunidades aquáticas
(plâncton, peixes e organismos bentônicos), os níveis de oxigênio
dissolvido (OD) nos sistemas aquaculturais flutuam diuturnamente.
Quanto maior a biomassa planctônica, maior a amplitude desta
variação (Figura 3).
Oxigênio dissolvido (mg/l)
tra um abrigo nas camadas mais profundas dos viveiros,
onde excessiva supersaturação de gases é improvável. No entanto,
durante as fases de larvicultura quando as larvas, que possuem
movimentação restrita e lenta, se encontram confinadas aos extratos superfíciais dos viveiros, mortalidade devivo à GBD pode
ser importante.
Figura 3. Variação
diária na concentração
de oxigênio dissolvido
na água de viveiros com
alta, moderada e baixa
biomassa planctônica.
Horário do dia
12.4. Nível de arraçoamento e oxigênio dissolvido. Níveis de
arraçoamento acima de 50 kg de ração/ha/dia estão associados com
um aumento na ocorrência de níveis críticos de oxigênio dissolvido
em tanques e viveiros, reduzindo a sobrevivência e a eficiência
alimentar dos peixes (Tabela 8 p.26; Tabela 11).
Tabela 11. Efeito do nível de arraçoamento na concentração média de
oxigênio dissolvido (OD) ao amanhecer, na sobrevivência e performance
produtiva do bagre-do-canal estocados em viveiros sob diferentes densidades (Tucker et al. 1979).
Os níveis de oxigênio dissolvido em viveiros de água
parada recebendo mais de 50 kg de ração/ha/dia devem ser monitorados diariamente e equipamentos para aeração de emergência
devem estar disponíveis.
1
Valores entre parênteses indicam consumo de manutenção dos peixes.
12.3. Flutuações diuturnas nos níveis de oxigênio em viveiros
Como discutido anteriormente, o plâncton é tanto o principal produtor como o maior consumidor de O2 nos tanques e viveiros
38
12.5. Predição da ocorrência de níveis críticos de oxigênio.
A dinâmica do oxigênio em tanques e viveiros é bastante complexa.
Pesquisas têm sido feitas no sentido de identificar e quantificar os
diversos fatores envolvidos no balanço do oxigênio nos sistemas
aquaculturais, para melhor prever a ocorrência de concentrações
mínimas de O2 dissolvido em tanques e viveiros. Em síntese, a
concentração de oxigênio é resultante da atividade metabólica dos
diferentes organismos aquáticos, mais especificamente do balanço
entre os processos fotossintéticos e a atividade respiratória dos
diferentes organismos. A difusão do O2 entre o ar e a água também
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 1998
participa neste balanço, que pode ser resumido na seguinte equação:
ODágua = ODinicial ± ODdifusão + ODsíntese - ODplâncton - ODpeixes - ODbentos
Concentrações críticas de oxigênio dissolvidos são,
geralmente, observadas durante a madrugada e amanhecer em
viveiros com alta densidade planctônica. A predição da ocorrência
de níveis críticos de oxigênio dissolvido é fundamental no manejo
da aeração de tanques e viveiros sob cultivo intensivo.
Três métodos básicos foram propostos para a previsão
de níveis críticos de oxigênio dissolvido em viveiros durante as
primeiras horas da manhã. O primeiro deles se baseia no uso de uma
equação (“Equação Noturna”) onde variáveis como consumo de
oxigênio pelo plâncton, pelos peixes e por organismos bentônicos,
bem como a taxa de difusão do oxigênio entre o ar e a água devem
ser fornecidas. A complexidade e a não praticidade da Equação
Noturna podem ser vislumbradas de imediato, razões pelas quais
este método não é utilizado por produtores.
O segundo método baseia-se na leitura da concentração
de oxigênio dissolvido ao final da tarde (pôr do sol), nos valores
de transparência da água, medidos com o auxílio do disco de
Secchi, e na temperatura da água dos viveiros. Baseado nestas
três variáveis e na biomassa de peixes estocada, usa-se de algumas tabelas para se determinar o valor mínimo de transparência
da água para garantir uma concentração mínima de 2mg/l. de
oxigênio dissolvido ao amanhecer. Se a transparência mínima for
maior que a transparência do viveiro obtida com o disco de Secchi,
há uma grande probabilidade de ocorrência de concentrações de
oxigênio menores que 2 mg/l. Portanto, a aeração dos viveiros
deve ser providenciada. Embora um pouco mais simples que o
método da Equação Noturna, o uso deste segundo método necessita
de informações mais detalhadas sobre as condições dos viveiros
(transparência e biomassa estocada), bem como a determinação da
concentração de oxigênio ao final da tarde. Também é necessário
que o produtor entenda como usar as tabelas de transparência
mínima, o que é pouco prático.
O terceiro método, bastante popular e efetivo na predição
de níveis críticos de oxigênio dissolvido, baseia-se na tomada de
duas leituras da concentração de oxigênio na água de cada viveiro
durante o período noturno, a um intervalo de 2 a 3 horas. Com a
diferença entre estas concentrações, faz-se uma projeção linear de
queda dos níveis de oxigênio, prevendo o horário de ocorrência
de níveis críticos de oxigênio dissolvido. Este método é bastante
seguro, até mesmo conservativo, pois as concentrações reais de
oxigênio dissolvido ao amanhecer ficam, normalmente, um pouco
acima dos valores previstos.
13. Aeração de tanques e viveiros
Os processos fotossintéticos do fitoplâncton e a respiração
dos organismos aquáticos (plâncton, peixes, bentos e microorganismos) causam flutuações diuturnas na concentração de oxigênio
e gás carbônico dissolvidos na água. Em sistemas aquaculturais
de água parada ou de pequena renovação de água, a excessiva
entrada de nutrientes via alimento ou adubação favorece o desenvolvimento de uma densa população planctônica, acentuando
ainda mais as flutuações nos níveis de oxigênio dissolvido. Baixas
concentrações de oxigênio dissolvido combinadas à níveis elevados
de gás carbônico são frequentemente observadas durante o período
noturno, prejudicando o desenvolvimento normal ou, até mesmo,
causando massiva mortalidade de peixes. A aeração dos tanques e
viveiros é fundamental para a manutenção de níveis adequados de
oxigênio dissolvido, aumentando a sobrevivência e a performance
produtiva dos peixes.
13.1. Aeração de emergência, suplementar ou contínua.
A aeração de emergência baseia-se no monitoramento diário
dos níveis de oxigênio durante o período noturno e acionamento
dos sistemas de aeração sempre que forem previstos níveis de
oxigênio menores que 2 a 3 mg/l. Os aeradores são acionados
durante a madrugada, uma ou duas horas antes destes níveis serem
atingidos, e permanecem ligados por períodos de 4 a 6 horas. Os
aeradores são desligados uma ou duas horas após o nascer do sol,
quando suficiente luz está disponível para estimular os processos
fotossintéticos do fitoplâncton. A aeração suplementar consiste
no acionamento diário dos aeradores, durante o período noturno,
independente da projeção dos níveis críticos de oxigênio dissolvido.
A aeração contínua consiste na aplicação ininterrupta de aeração
durante todo o cultivo ou apenas nas fases de manutenção de alta
biomassa e elevados níveis de arraçoamento. Aeração contínua é
bastante utilizada em tanques para cultivo intensivo
39
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 1998
(raceways ou tanques circulares), principalmente em sistemas com
recirculação (reuso) da água. Aeração contínua demanda maior
consumo de energia e não traz benefício adicional sobre a aeração
suplementar ou de emergência em viveiros. A aeração contínua
pode ainda causar um aumento excessivo na turbidez mineral da
água, prejudicando o desenvolvimento do fitoplâncton, interferindo
com a dinâmica do oxigênio dissolvido na água e a remoção de
metabólitos tóxicos como a amônia e o CO2. Partículas minerais
em suspensão na água pode causar danos ao epitélio branquial
dos peixes facilitando a entrada de organismos patogênicos e o
estabelecimento de doenças.
usados e uma comparação entre o desempemho dos mesmos.
Os valores da taxa padrão de transferência de oxigênio
(SOTR) dependem da potência do sistema de aeração e podem ser
calculados em testes específicos para desempenho de aeradores,
como proposto por Boyd (1990). A grande variação nos valores
de SOTR dentro de um mesmo grupo de aeradores (Tabela 12)
resulta das diferenças de potência entre os aeradores testados.
Em contraste, os valores da eficiência padrão de aeração (SAE)
apresentam menor variação devido considerarem a potência de
cada sistema, ou seja, a SAE é calculada dividindo-se a SOTR
pela potência do aerador.
Aeração de emergência versus aeração suplementar:
Steeby e Tucker (1988) compararam a aeração de emergência
com a aeração suplementar diária onde eram aplicadas 6 horas
de aeração durante o período noturno em viveiros com bagre-docanal. Cerca de 641 horas de aeração de emergência foram usadas,
comparadas à 1.372 horas de aeração noturna contínua. A produção
e conversão alimentar médias do bagre de canal foi de 7.000 kg/
ha e 1.60 em viveiros com aeração de emergência, comparadas a
valores de 6.700 kg/ha e 1.59, respectivamente, em viveiros com
aeração contínua.
Aeração de emergência é prática bastante popular entre
os piscicultores norte-americanos. Uma aeração de emergência
bem conduzida garante, com segurança, a manutenção de níveis
de oxigênio dissolvido acima do nível crítico estipulado como
base para se proceder a aeração. Por exemplo, Kubitza (1995)
usou aeração de emergência todas as vezes em que níveis de
oxigênio dissolvido abaixo de 3 mg/l eram previstos em tanques
para cultivo intensivo do black bass Micropterus salmoides. As
concentrações médias de oxigênio dissolvido ao amanhecer foram
acima de 4 mg/l.. Níveis de oxigênio dissolvido abaixo de 3 mg/l.
foram observados esporadicamente em alguns tanques. O nível
mais baixo de oxigênio registrado foi 1,8 mg/l. e ocorreu apenas
uma noite, em apenas um tanque. Biomassas de 2.700 a 7.200 kg/
ha foram obtidas, com níveis de arraçoamento de até 90 kg/ha/dia
sendo mantidos durante oito dias consecutivos. Durante o período
de verão, tanques estocados em alta densidade, recebendo acima
de 60 kg de ração/ha/dia, necessitaram de aeração de emergência
frequentemente. Tanques recebendo de 80 a 90 kg de ração/ha/
dia receberam aeração de emergência quase todas as noites durante
o verão.
Cole e Boyd (1986) observaram o efeito do nível de arraçoamento na necessidade de aeração em viveiros de produção de
bagre-do-canal. Aeração de emergência era acionada sempre que
os níveis de oxigênio dissolvido ao amanhecer fossem estimados
abaixo de 2 mg/l.. Aeração de emergência foi utilizada quase
todas as noites em viveiros recebendo 112 kg ou mais de ração/
ha/dia. Viveiros recebendo até 56 kg de ração/ha/dia raramente
necessitaram de aeração de emergência.
Mesmo capaz de manter adequada concentração de
oxigênio dissolvido na água, a aeração não permite aumentar a
produção dos sistemas aquaculturais sem limite. Altas produções
exigem níveis elevados de arraçoamento, resultando no acúmulo
excessivo de metabólitos tóxicos como a amônia e o nitrito, que
eventualmente passam a reduzir o consumo de alimento, o crescimento e a eficiência alimentar dos peixes.
Tabela 12. Taxa padrão de transferência de oxigênio (SOTR) e eficiência
padrão de aeração (SAE) de diferentes aeradores (Boyd e Ahmad 1987).
13.2. Tipos de aeradores. Diversos mecanismos e equipamentos
têm sido usados para efetuar a aeração em tanques e viveiros. A
tabela 12 relaciona os principais sistemas de aeração e aeradores
40
Em geral, aeradores de pás são mais eficientes na transferência de oxigênio do que os demais aeradores. No entanto,
existem modelos de aeradores de pás menos eficientes que alguns
propulsores de ar, bombas verticais e bombas aspersoras.
Aeradores elétricos
Aeradores de pás são aeradores com um corpo cilíndrico
revolto por linhas de pás. O corpo cilíndrico é movido por um motor elétrico acoplado a um mecanismo de redução da velocidade,
garantindo uma velocidade de 80 a 90 rpm. Normalmente é necessário 1 kW de potência para cada 40 a 50 cm de comprimento do
corpo cilíndrico do aerador de pás. O diâmetro do corpo cilíndrico
mais a extensão das pás devem ter aproximadamente 91 cm para
aeradores de pás maiores que 2 kW ou 60 cm para aeradores de
pás de menor potência. Os aeradores de pás são sustentados na
água com o auxílio de uma estrutura flutuante que pode ser feita
com tambores de plástico ou de metal, com tubos de PVC, blocos
de isopor, entre outros materiais. Esta estrutura deve permitir a
regulagem das pás a uma profundidade de 9 a 11 cm abaixo da
linha d’água. As pás podem ser feitas em metal ou poliuretano, ou
qualquer outro material de boa resistência e devem ter, de preferência, 10 a 15 cm de largura e apresentar uma seção de formato
triangular com um ângulo interno de 120 a 135o. As pás devem
ter uma disposição espiralada ao longo do corpo cilíndrico do
aeradore de pás, garantindo uma constante área de pás em contato
com a água, evitando assim uma variação no torque do motor. Com
a rotação do corpo cilíndrico, as pás espirram a água para o ar,
efetivando, deste modo, a aeração da mesma. A potência exigida
aumenta linearmente com o aumento na profundidade das pás, com
o aumento no diâmetro e no comprimento do corpo cilíndrico e com
o aumento na velocidade de rotação do aeradores de pás.
Propulsores de ar consistem de um motor elétrico de 3.450
rpm, que aciona um eixo com uma hélice em sua extremidade final.
Este eixo está envolto por uma camisa metálica oca que tem aberturas que possibilitam a passagem do ar atmosférico para o interior
da camisa. Ao final da camisa existe uma estrutura difusora. Com
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 1998
a rotação do eixo e a aceleração da água causada pela rotação da
hélice, ocorre uma queda na pressão dentro da camisa, favorecendo
a entrada do ar, impulsionado pela própria pressão atmosférica,
o qual é forçado através da estrutura difusora e injetado na forma
de pequenas bolhas próximo à área de turbilhonamento da água
causada pela rotação da hélice. Os propulsores de ar usados em
aquicultura possuem motores menores que 7.5 kW (10 hp).
Bombas verticais possuem um motor elétrico protegido
dentro de um cilindro metálico, o qual fica submerso na água. Ao
eixo do motor é adaptada uma hélice que impulsiona a água verticalmente, a qual, em contato com o ar, recebe a aeração. Bombas
verticais com potência de 0.37 kW a 3 kW (0.5 a 4 hp) são mais
comumente usadas em sistemas aquaculturais. A rotação do motor
varia de 1.730 a 3.450 rpm.
Bombas aspersoras consistem de bombas de alta pressão
que impulsionam a água através de uma estrutura de descarga
com um ou mais orifícios, lançando a água para o ar, efetuando a
aeração. Bombas aspersoras com potência de 7.5 a 15 kW e com
velocidade de 500 a 1.000 rpm têm sido usadas em aquicultura.
Sistemas de ar difuso consistem basicamente de um compressor ou soprador de ar, um sistema de tubulação para distribuição
do ar e estruturas difusoras de ar. Os difusores de ar podem ser
feitos com material cerâmico, mangueiras de borracha ou plástico
perfuradas, tubos de PVC perfurados, entre muitos outros.
Aeradores acoplados à TDP de tratores
Aeradores acoplados à tomada de potência (TDP) de tratores são montados sobre trailers e podem ser transportados de um
viveiro a outro. Estes aeradores são de grande utilidade durante
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utilizada, favoracendo as condições para o bom desenvolvimento
dos peixes e outros organismos aquáticos de valor comercial;
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animais aquáticos atuando diretamente sobre a Lernaea e sanguessugas com grande eficiência;
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em dosagem correta, eliminando larvas e alevinos indesejáveis
provenientes de desovas dos peixes não revertidos sexualmente;
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aeração de emergência, principalmente onde não há energia elétrica e/ou quando uma grande quantidade de oxigênio deve ser
introduzida no sistema rapidamente. Nestas situações os valores
de SOTR são mais importantes que os valores de SAE. No entanto, aeradores acoplados à TDP são menos eficientes quanto
ao uso de energia comparados aos aeradores elétricos e cada
um deles necessita de um trator para ser operado, o que resulta
em alto custo de implantação. Existem disponíveis no mercado
norte-americano aeradores montados sobre trailers e propelidos
por motores estacionários, reduzindo a necessidade de aquisição
de uma frota de tratores.
Os aeradores propulsionados por tratores são basicamente
do tipo aeradores de pás ou do tipo bomba aspersora. Os aeradores
de pás apresentam corpo cilíndrico bastante variado, com diâmetro
da ponta de uma pá à ponta de outra em torno de 50 a 150 cm. O
formato e tamanho das pás variam bastante, bem como o comprimento dos cilindros. A SOTR de aeradores de pás varia de 20 a 30
kg O2/h quando operados por um trator de 50 hp (37 kW). Uma
rotação de 540 rpm é normalmente aplicada à TDP para a propulsão
de aeradores de pás. Diferenciais de caminhão ou caminhonetes são
frequentemente usados para reduzir a velocidade de rotação dos
aeradores de pás, os quais giram entre 100 a 120 rpm. Quanto maior
a profundidade das pás e/ou mais rápida for a rotação do cilindro,
maior será a SOTR do aerador de pás, embora aumente o consumo
de energia durante a aeração. Bombas aspersoras demandam maior
potência e giram em torno de 540 a 1.000 rpm, ou seja, na mesma
velocidade que a TDP do trator. Bombas aspersoras apresentam
SOTR de 12 a 20 kg O2/h quando acionados por tratores de 67 a
107 hp (50 a 80 kW). Boyd (1990) cita o exemplo de um aerador
tipo bomba aspersora propulsionado por um trator de 60 kW, com
uma SOTR de 21.2 kg de O2/h, comparado com um aerador de
pás propulsionado por um trator de 50 kW, com uma SOTR de
29.8 kg de O2/h. Durante aeração prolongada os tratores devem ser
operados à potências menores que a potência máxima para evitar
o aquecimento excessivo do motor.
13.3. Posicionamento dos aeradores. Boyd observou a circulação
da água em tanques retangulares onde aeradores foram instalados
e acionados em diferentes posições. Aeradores posicionados no
centro de uma das margens mais longas do viveiro, com o fluxo de
água dirigido perpendicularmente à margem oposta, promoveram
uma circulação mais uniforme da água (Figura 4). Quando dois
ou mais aeradores são usados num mesmo viveiro, estes podem
ser dispostos em série, de preferência nos cantos dos viveiros,
promovendo um movimento circular da água. Os aeradores devem ser posicionados em áreas não muito rasas e com o fluxo de
aeração orientado de forma a não ficar paralelo e muito próximo
às margens dos viveiros evitando assim a suspenção excessiva de
partículas de argila e silte.
Durante períodos de baixa concentração de oxigênio na
água, os peixes ficam condicionados a se posicionar em regiões
próximas aos aeradores, onde as concentrações de oxigênio dissolvido são maiores. Durante uma aeração de emergência, qualquer
aerador suplementar deve ser posicionado próximo ao aerador em
funcionamento, pois este é o local onde os peixes se encontram.
Em tanques sem aerador em funcionamento, durante a aeração
de emergência o aerador deve ser posicionado nas áreas de maior
concentração de oxigênio, pois este é o local mais provável de
localização dos peixes. Posicionamento de aeradores em locais
opostos às áreas de maior concentração de oxigênio forçará o peixe
a se deslocar através de uma massa de água com baixos níveis de
oxigênio dissolvido para chegar até o aerador. Muitas vezes os
41
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 1998
peixes não conseguem chegar até a área de influência do
aerador, morrendo por asfixia ao longo do trajeto.
13.5. Número de aeradores necessários. Durante o verão, cerca de
25 a 30% dos viveiros usados no cultivo intensivo do bagre-do-canal
exigem aeração numa mesma noite. No caso de tanque e viveiros
pequenos (área menor que 3.000 m2) aeradores de pequeno porte
são empregados, podendo ser translocados de um viveiro ao outro
quando necessário. Assim, um número mínimo de 3 aeradores deve
estar disponível para cada 10 viveiros. Viveiros maiores demandam
aeradores de maior porte, portanto mais pesados e de translocação
mais trabalhosa, geralmente impraticável. Cada viveiro, portanto,
deve ter seu próprio sistema de aeração, a não ser que aeradores
montados sobre trailers e acionados pela TDP de tratores ou por
motores estacionários estejam disponíveis.
14. Qualidade da água em sistemas de alto fluxo
Figura 4. Posição de aeradores e circulação de água em viveiros retangulares (Boyd 1990).
13.4. Potência do sistema de aeração. Em tanques e viveiros estáticos a quantidade de aeração a ser aplicada pode ser calculada com
equações bastante complexas que estimam o consumo de oxigênio das
comunidades aquáticas, principalmente o plâncton, o bento e os peixes.
Trabalho árduo é conhecer a eficiência do aerador utilizado, dados nem
sempre fornecidos pelos fabricantes, e o quanto do oxigênio fornecido
pela aeração é utilizado pelo plâncton, peixes e outros organismos. No
entanto, sistemas de aeração de 5 a 10 hp têm sido frequentemente
usados por hectare de viveiro.
Em sistemas de alto fluxo de água a determinação da potência
de aeração a ser aplicada é tarefa menos complicada, como apresentado
no exemplo a seguir:
Condições de cultivo:
tanque com volume de água de 200 m3
fluxo contínuo de 100m3/h (uma troca completa a cada 2 horas)
água de abastecimento com 7,5 mg OD/l., a 28°C ( 96% da saturação
de oxigênio)
OD mínimo desejável no tubo de escoamento = 3 mg/l. (40% da
saturação)
tilápia do Nilo de 450g, consome 108mg O2/kg/h ou seja, 108g O2/
tonelada/h)
Situação 1: apenas com troca de água é possível sustentar uma
biomassa de 3.750 kg de tilápia/tanque (18,75kg/m3).
OD disponível= (7,5 - 3,0) x 100.000 L/h = 450.000 mg/l. ou 450g O2/h
Biomassa sustentável= (450/108) x 1.000 = 4.167 kg de tilápia/tanque
ou 20,84kg/m3.
Situação 2 : a meta é sustentar cerca de 30 toneladas de tilápia/
tanque (150kg/m3), com o mesmo fluxo de água mais aeração. Qual a
potência de aeração necessária?
Consumo de oxigênio = 30t x 108g O2/t/h = 3.240g O2/h
Oxigênio disponível com o fluxo de água = 450g O2/h
Deficit de O2 que deve ser suprido pela aeração= 3.240-450=2790 g
O2/h.
Aerador do tipo propulsor de ar (SAE = 1,19 kg O2/HP/h)
Potência de aeração = (2,79 kg O2/h)/1,19 kg O2/HP/h) = 2,34 HP
Fator de segurança de 30% = 2,34 x 1,3 = 3HP
42
Nos sistemas de alta renovação de água, onde tanques
do tipo “raceways” (escavados em terra, de alvenaria) ou tanques
circulares (em alvenaria, metal, fibra de vidro), a qualidade da
água é mantida pelo suprimento contínuo de água para oxigenação
e remoção de amônia.
14.1. Oxigênio dissolvido. Da mesma forma que em sistemas de
baixa renovação ou estáticos, a concentração de oxigênio dissolvido
na água é o primeiro fator limitante à produtividade dos sistemas de
alto fluxo. É recomendável uma concentração mínima de oxigênio
dissolvido na água de saída (efluente) ao redor de 40% da saturação. O suprimento de oxigênio através da água de abastecimento é
proporcional ao fluxo de água disponível para renovação. Quanto
maior o fluxo de água, maior o fornecimento de oxigênio e, portanto,
maior a biomassa de peixes que pode ser sustentada. A biomassa
de peixes nos sistemas de alto fluxo é comumente expressa em
relação ao volume dos tanques (kg/m3) ou em relação ao fluxo de
água fornecido (kg/m3/h ou kg/l/minuto).
A taxa de renovação utilizada depende da disponibilidade
de água e da velocidade da corrente formada dentro das unidades
de produção. Como recomendação geral, a velocidade da água
não deve exceder 0,25m/s, de forma a não demandar do peixe um
gasto de energia excessivo para manter sua posição na corrente.
Quando o fluxo é limitado devido a disponibilidade de água ou
pela velocidade máxima recomendada, a aeração contínua pode
ser aplicada para aumentar o fornecimento de oxigênio e, portanto,
a capacidade de suporte do sistema.
14.2. Amônia. Garantido o fornecimento de oxigênio, a produtividade do sistema será limitida pela concentração de amônia na
água. É recomendável que a concentração de amônia não ionizada não exceda 0,05mg/l. para peixes tropicais e 0,012mg/l. para
salmonídeos. Exposição dos peixes à concentrações de amônia
acima destes limites pode resultar em reduzido crescimento e baixa
eficiência alimentar. Águas com pH neutro ou ligeiramente ácido
(6,0 a 7,0) permitem uma maior capacidade de suporte, visto que
a concentração de amônia não ionizada aumenta com a elevação
do pH. A quantidade de amônia excretada pelos peixes pode
ser calculada com base na quantidade de proteína consumida.
Em média, cerca de 40% da proteína bruta (PB) presente em uma
ração completa é utilizada como energia, resultando na produção
de amônia. Exemplificando, para uma ração com 32% de proteína bruta, cada 1.000kg de ração fornece 320kg de proteína. Em
média, a proteína contém 16% de N. Portanto, a quantidade de N
fornecida por tonelada desta ração é 320 x 0,16 = 51,2 kg. Destes,
40% é excretado na forma de N-NH3 (nitrogênio amoniacal), ou
seja, 51,2 x 0,40 = 20,48kg de N-NH3. Para uma certa ração, a
quantidade de N-NH3 excretada pelos peixes pode ser estimada
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 1998
diretamente multiplicando a quantidade de ração fornecida por (0,064
x PB/100).
peratura 28oC, a percentagem da amônia total na forma não-ionizada
(forma tóxica) é 6,475.
14.3. Estimativa da capacidade de suporte em sistemas de alto
fluxo. A capacidade de suporte dos sistemas de alto fluxo depende, dentre muitos, dos seguintes fatores: 1) Qualidade da água de
abastecimento; 2) Volume de renovação disponível; 3) Consumo de
oxigênio dos peixes e concentração mínima de oxigênio tolerável; 4)
Excreção de amônia pelos peixes e nível de amônia tóxica na água;
5) Disponibilidade de um sistema de aeração contínuo.
É possível obter uma estimativa da capacidade de suporte
para tanques usados em sistemas de alto fluxo conhecendo a qualidade
da água de abastecimento (oxigênio dissolvido e temperatura), o fluxo
de água disponível e o consumo de oxigênio do peixe cultivado. No
exemplo discutido na seção 13.4., com o fluxo de água disponível
(100m3/h ou uma troca completa a cada 2horas) foi possível sustentar
uma biomassa de 3.750kg ou 18,75kg/m3 sem aeração e 30.000kg ou
150kg/m3 com uma aeração contínua de 3hp.
Também é possível estimar a capacidade de suporte em
função da máxima concentração de amônia permitida. Para tanto são
necessárias informações adicionais sobre o pH e a concentração de
amônia na água de abastecimento, o teor de proteína bruta da ração,
bem como proceder a uma estimativa da máxima taxa de excreção
de amônia e máxima taxa de arraçoamento permitida. No exemplo da
seção 13.4., qual seria a biomassa de peixes sustentável neste mesmo
tanque, considerando exclusivamente a concentração de amônia como
fator limitante? Estabelecendo um limite de amônia de 0,05mg NNH3/l., temperatura da água de 28oC, concentração de amônia total
na água de abastecimento de 0,12mg/l, ração com 32% de proteína
bruta (PB) e consumo diário na ordem de 2,0% (0,02) da biomasa ao
final da engorda, vamos analisar duas situações:
AMÔNIA máx = (0,05mg/l.) x 100/(6,475) = 0,772mg/l. ou g/m3
Situação 1: água de abastecimento pH = 6,5 (consultar a Tabela
5)
a) calcular a máxima concentração de amônia total permitida (AMÔNIA máx): de acordo com a Tabela 5, sob condições de pH 6,5 e temperatura 28oC, a percentagem da amônia total na forma não-ionizada
(forma tóxica) é 0,218.
AMÔNIA máx = (0,05mg/l.) x 100/(0,218) = 22,9mg/l. ou g/m3
b) calcular a máxima excreção diária de amônia permitida (AMÔNIA
exc): considerando uma vazão de 100m3/h e uma concentração de
amônia total de 0,12mg/l. na água de abastecimento.
AMÔNIA exc = (22,9 - 0,12) x (100m3/h) x 24 horas = 54,67 kg/dia
c) calcular a máxima quantidade de ração que pode ser fornecida
diariamente (RAÇÃO máx): considerando um teor de proteína bruta
(PB) de 32%.
RAÇÃO máx = (54,67 kg/dia)/(0,064 x PB/100) = (54,67)/
(0,064x0,32) = 2.670kg/dia
d) calcular a máxima biomassa de peixes (BIOMASSA máx): considerando um consumo diário de ração na ordem de 2% do peso vivo.
BIOMASSA máx = 2.670kg/0,02 = 133.500 kg/tanque ou 667,5kg/
m3
Situação 2: água de abastecimento pH = 8,0
a) calcular a máxima concentração de amônia total permitida (AMÔNIA máx): de acordo com a Tabela 5, sob condições de pH 8,0 e tem-
b) calcular a máxima excreção diária de amônia permitida (AMÔNIA
exc): considerando uma vazão de 100m3/h e uma concentração de
amônia total de 0,12mg/l. na água de abastecimento.
AMÔNIA exc = (0,772 - 0,12) x (100m3/h) x 24 horas = 1,57 kg/dia
c) calcular a máxima quantidade de ração que pode ser fornecida
diariamente (RAÇÃO máx): considerando um teor de proteína bruta
(PB) de 32%.
RAÇÃO máx = (1,57 kg/dia)/(0,64 x PB/100) = (1,57)/(0,64x0,32)
= 76,7kg/dia
d) calcular a máxima biomassa de peixes (BIOMASSA máx):
considerando um consumo diário de ração na ordem de 2% do
peso vivo.
BIOMASSA máx = 76,7kg/0,02 = 3.835 kg/tanque ou 19,18kg/m3
Com base nos cálculos desenvolvidos na seção 13.4. e nos
cálculos apresentados nesta seção, é possível chegar aos seguintes
fundamentos gerais dos sistemas de alto fluxo:
1) A concentração de oxigênio dissolvido na água é o
primeiro fator limitante à capacidade de suporte dos sistemas
de alto fluxo. Sob condições de pH mais alcalino, concentrações
elevadas de amônia podem limitar a capacidade de suporte tanto
quanto as concentrações de oxigênio dissolvido.
2) Existindo uma restrição à produtividade do sistema
imposta pelos níveis de oxigênio dissolvido ou pela concentração
de amônia tóxica, um aumento adicional na capacidade de suporte
pode ser obtido com: a) aumento no fluxo de água até o limite de
velocidade recomendado para a espécie cultivada; b) redução do
teor protéico e melhora na qualidade da proteína da ração, bem
como redução do pH da água quando economicamente viável (no
caso de limitação devido à concentração de amônia tóxica).
3) Para uma certa vazão de água suficiente para remoção
de amônia e resíduos orgânicos (alimento não consumido e fezes),
a aplicação de aeração contínua pode garantir um significativo
aumento da capacidade de suporte dos sistemas de alto fluxo sem
necessidade de aumentar o uso de água. Sob condições de pH 6,5,
com o mesmo fluxo de água (100m3/h) seria teoricamente possível
produzir até 133,5 toneladas de tilápias por tanque, certificado o
fornecimento de adequada potência de aeração ou, até mesmo, a
injeção de oxigênio líquido.
4) A capacidade de suporte a pH 6,5 é cerca de 35 vezes
a capacidade de suporte a pH 8,0 sob as mesmas condições de
renovação de água. Sob condições de pH acima de 8,0 a capacidade de suporte dos sistemas de alto fluxo pode ser limitada, em
primeiro plano, pela concentração de amônia tóxica e não pelos
níveis de oxigênio dissolvido.
crie peixes saudáveis
43
Panorama da AQÜICULTURA, março/abril, 2005
1
Uma boa alternativa de cultivo para estuários e viveiros litorâneos
Por: Fernando Kubitza, Ph.D. (Acqua & Imagem)
e-mail: [email protected]
Muitas espécies e linhagens de tilápia são eurialinas, o
que lhes confere a capacidade de adaptação a ambientes
de diferentes salinidades, podendo ser cultivadas tanto
em água doce, salobra ou salgada. Em diversos países o
cultivo de tilápias em águas estuarinas e marinhas tem sido
avaliado em caráter experimental e, em alguns locais, já se
consolidou como atividade comercial. O Brasil apresenta um
grande potencial para cultivo de peixes em áreas estuarinas, notadamente na Região Nordeste. No entanto, devido
à ausência de tradição e ao desconhecimento tecnológico
do cultivo de peixes marinhos, o uso destas áreas para fins
de aqüicultura tem se limitado ao cultivo de camarão e de
moluscos. O cultivo de tilápias em tanques-rede nestes
estuários deve ser firmemente avaliado, pois pode trazer
significativos ganhos econômicos, sociais e ambientais para
as populações locais, hoje severamente impactadas pelo
declínio da atividade pesqueira.
O Brasil é um dos principais produtores mundiais de camarão marinho e a infra-estrutura instalada para o cultivo do camarão
pode ser também utilizada em cultivos consorciados (policultivo
camarão e tilápia) ou mesmo em monocultivo de tilápias com
mínimas adaptações nos viveiros ou nas estratégias de cultivo.
O mercado nacional e internacional deste peixe é crescente e a
infra-estrutura e logística hoje disponível para beneficiamento e
exportação do camarão pode ser otimizada para o escoamento dos
produtos da tilápia. A evolução do cultivo de tilápias no Equador é
um exemplo real. Devido a problemas de sanidade nos cultivos de
camarão marinho, os carcinicultores apostaram na tilápia. De uma
produção ao redor de 2.500 toneladas de tilápia em 1998, o Equador
produziu cerca de 30.000 toneladas em 2002, tornando-se o maior
exportador de produtos de tilápia na América Latina.
Tilápias cultivadas em águas salobras e salgadas não apresentam problemas com off-flavor e sua carne geralmente se assemelha em sabor à carne de peixes marinhos. A textura (firmeza)
da carne também é superior a observada em tilápias cultivadas em
água doce, julgada pela experiência pessoal deste autor. Assim, o
cultivo de tilápias nestes ambientes, particularmente as linhagens
vermelhas, pode resultar em produtos extremamente atrativos
(quanto ao aspecto visual, sabor e preço) para atuar em um nicho
de mercado hoje (sub) abastecido com espécies marinhas de alto
valor, como os pargos rosado e vermelho, o robalo, a carapeba, a
garoupa, entre outros.
a tilápia de Moçambique (Oreochromis mossambicus) e a tilápia
de Zanzibar (Oreochromis uroleps hornorum). Além do cultivo
como espécie pura, o cruzamento direcionado entre duas ou mais
destas espécies (hibridações e retro cruzamentos) tem sido utilizado
para a obtenção de alevinos híbridos ou para o estabelecimento de
linhagens com determinadas características desejáveis ao cultivo.
Por exemplo, o crescimento precoce, a obtenção de progênies
com maior percentual de machos (híbridos), tolerância ao frio,
resistência à alta salinidade, facilidade de captura, maior eficiência
reprodutiva, entre outras. Características relacionadas ao mercado
também foram contempladas, particularmente no que diz respeito
à obtenção de linhagens vermelhas (que reúne padrões de cor que
vão do branco ao rosa, ou passam por diversos tons de amarelo,
laranja e vermelho claro). A seguir serão apresentadas informações
sobre a tolerância e desempenho das principais espécies e linhagens
de tilápia em águas salobras e salgadas.
Para efeitos práticos desta revisão, quando forem feitas
referências à água doce, salobra ou salgada, sem especificar o
valor exato da salinidade, o leitor deve ter em mente os seguintes
limites: água doce < 1ppt; água salgada >20ppt; e água salobra,
salinidades entre 1 e 20ppt. Com base na divisão prática aqui proposta, em função do regime das marés e do regime de chuvas, os
ambientes estuarinos geralmente devem ser vislumbrados como
uma combinação de águas salobras e salgadas.
Tilápia do Nilo
A Oreochromis niloticus é a espécie mais cultivada no
mundo, devido, principalmente, a alta prolificidade, maturação
sexual mais tardia e crescimento mais rápido em comparação
às espécies e híbridos relacionadas neste artigo. A grande maioria das tilápias produzidas no Brasil carrega material genético
de O. niloticus (Foto 1).
Foto 1 - Tilápia do Nilo
(Foto Kubitza)
As espécies e linhagens de tilápias e a relação com a salinidade
No mundo são reconhecidas mais de 70 espécies de tilápias. No entanto, apenas quatro delas contribuem de maneira
significativa para a composição do pool genético de tilápia hoje
utilizado nos cultivos comerciais em todo o mundo: a tilápia do
Nilo (Oreochromis niloticus), a tilápia azul (Oreochromis aureus),
14
Panorama da AQÜICULTURA, março/abril, 2005
A tilápia tailandesa (Foto 2 ) introduzida em 1996 e a recém
introduzida tilápia Supreme são linhagens comerciais desenvolvidas na Ásia a partir da combinação de materiais genéticos de O.
niloticus originários de diversos locais da África.
Foto 2 - Tilápia Chitralada
Tailandesa (Foto Kubitza)
80 e 125 gramas após 90 ou 120 dias de cultivo (Watanabe et al
1997; Guerrero e Guerrero 2004). Essas diferenças talvez sejam
um reflexo da pureza dos estoques genéticos de O.niloticus nestes
dois países ou de outras variáveis ambientais nos locais onde foram
realizados os testes.
Tilápia de Moçambique
Inúmeros estudos avaliaram a capacidade de adaptação
desta espécie em cultivos em água salobra e salgada e muitas vezes são visualizados grandes contrastes nos resultados, que podem
ser atribuídos à pureza genética dos estoques avaliados e a outras
condições inerentes a cada um dos estudos. Em resumo, parece
haver um consenso quanto a melhor eficiência reprodutiva desta
espécie em água doce, comparada a águas salobras. Apesar de
ser capaz de se reproduzir normalmente em águas com salinidade
de 7 a 14ppt (ou 7 a 14g de sais/litro), a eficiência reprodutiva e
o desenvolvimento de pós-larvas são melhores em água doce. A
sobrevivência das pós-larvas na primeira semana de vida é muito
baixa em salinidades acima de 10ppt. Metade dos ovos e das larvas
morre após 96 horas de exposição à água com salinidade ao redor
de 19ppt. Em água salgada (32ppt) a tilápia do Nilo não é capaz
de se reproduzir.
Alguns estudos sugerem que a tilápia do Nilo pode ser aclimatada a águas com salinidade de 30ppt ou até mesmo superior a
isso. No entanto, o crescimento desta espécie parece ser maximizado
a salinidades entre 10 e 12ppt (salinidade isoosmótica em relação
aos fluídos corporais – plasma e fluídos celulares). Há registros de
que até 16-18ppt o crescimento é semelhante ao observado em água
doce. Em estudo sobre tolerância à salinidade, foi registrada uma
salinidade letal mediana (salinidade que mata 50% dos animais)
ao redor de 46g/l para O. niloticus quando a adaptação à salinidade
ocorreu a acréscimos entre 2 e 8ppt por dia.
No Brasil, Ostrenski et al (2000) observaram que a tilápia
do Nilo pode ser aclimatada a salinidade ao redor de 25ppt. No
entanto, mortalidade total foi registrada após 90 minutos em água
com 30ppt. Hena et al (in press) registraram alta mortalidade em
O. niloticus em salinidades de 23 e 30ppt, atribuída tanto ao estresse osmoregulatório quanto à maior susceptibilidade à doenças.
Em um experimento piloto com tanques-rede realizado pela Bahia
Pesca no estuário de Camamu, na Bahia, foram registradas altas
incidências de ulcerações na pele e alta mortalidade de tilápias da
linhagem tailandesa em local com salinidade entre 26 e 28ppt. Em
outro local com salinidade ao redor de 20ppt a sobrevivência foi
de 76% para a tailandesa. Além da maior salinidade, neste segundo
local também predominaram correntes de água de maior velocidade
(entre 10 e 22m/minuto), que pode ter imposto maior estresse aos
peixes confinados. Em um estudo realizado em aquários avaliando
o crescimento da tilápia do Nilo em diferentes temperaturas e salinidade (Likongwe et al 1996) também apareceram lesões na pele
dos peixes quando a salinidade atingiu 16ppt a uma temperatura de
32oC. Essas lesões não ocorreram na mesma salinidade a temperaturas de 28 e 24oC. Wainberg (em comunicação pessoal) observou
reduzido crescimento, lesões corporais e hemorragias em tilápia
tailandesa e dois outros híbridos vermelhos em viveiros quando a
salinidade ultrapassou valores de 16 a 18ppt.
Em contraste com a tolerância à salinidade registrados no
Brasil, ensaios de crescimento realizados em tanques escavados
nas Filipinas resultaram em índices de sobrevivência entre 82 e
94% quando a salinidade da água flutuou entre 14 e 35ppt ou entre
17 e 50ppt. Alevinos de 3 a 4 gramas atingiram peso médio entre
A Oreochromis mossambicus ou Tilápia de Moçambique
é uma das espécies mais tolerantes à salinidade. Sobrevive bem a
concentrações de sal de até 70ppt e tolera concentrações próximas
de 120ppt quando adaptada gradualmente. Consegue se reproduzir
em águas de salinidade próxima a 50ppt. A eficiência reprodutiva
desta espécie é cerca de três vezes maior em água com salinidade
entre 9 e 15ppt do que em água doce. No cultivo desta espécie em
água doce foram registrados altos índices de mortalidade.
A tilápia de Moçambique contribuiu com material genético
para a formação de diversas linhagens de tilápia. Uma das mais
conhecidas é o híbrido vermelho denominado Tilápia Vermelha da
Flórida (TVF). Nas Filipinas está sendo desenvolvido um programa
para a produção de linhagens de tilápia capazes de crescer bem e
se reproduzir em água salgada. Este programa tem como base a
hibridação entre O. mossambicus e O. niloticus. Os pesquisadores envolvidos neste programa registraram valores de salinidade
mediana letal (salinidade que mata 50% dos peixes utilizados no
experimento) de 54ppt para a tilápia do Nilo, 115ppt para O. mossambicus, e entre 97 a 112ppt para os híbridos recíprocos entre estas
espécies e seus retrocruzamentos com O. mossambicus.
Tilápia de Zanzibar
A Oreochromis urolepis hornorum ou Tilápia de Zanzibar
(Foto 3) também tolera e se reproduz em salinidades acima de 30ppt.
O. hornorum foi oficialmente introduzida no Brasil na década de 70
pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas)
e foi experimentalmente utilizada para a produção do híbrido com
a tilápia do Nilo. Recentemente, na Estação da CHESF em Paulo
Afonso foi realizada a hibridação experimental de O. hornorum
com a tilápia tailandesa (Chitralada), onde foram obtidos híbridos
F1 100% machos e indivíduos ¾ (retrocruzamento do híbrido com
a tilápia tailandesa). A tolerância destes híbridos à salinidade deve
ser avaliada. Se eles apresentarem a tolerância da O. hornorum,
pode estar aí um bom material genético para o cultivo em águas
salobras e salgadas.
Foto 3 – Tilápia de Zanzibar
(Foto Panorama)
Tilápia Azul
Há registros de cultivos da Oreochromis aureus ou Tilápia
azul (Foto 4) em água com salinidade entre 39 e 45ppt. No entanto,
esta espécie apresenta crescimento mais lento que O. spilurus e
que a tilápia vermelha de Taiwan nos cultivos em água salgada.
Os híbridos entre O. niloticus e O. aureus parecem se desenvolver
bem em água salgada (32–34ppt). A tilápia azul é conhecida por
Panorama da AQÜICULTURA, março/abril, 2005
15
sua maior tolerância ao frio e muito utilizada em cruzamentos onde
esta característica é desejada. Grande parte da tilápia cultivada na
China é composta por híbridos entre O. niloticus e O. aureus.
Foto 4 - Exemplar de
Oreochromis aureus
(Foto Kubitza)
Tilápia Vermelha da Flórida
Esta linhagem foi originada do cruzamento de um macho
mutante vermelho de O. mossambicus com uma fêmea normal O.
hornorum (Foto 5).
Foto 5 - Tilápia vermelha no
nordeste: possível contribuição
da tilápia vermelha da Flórida
(Foto Kubitza)
Em alguns países onde foi introduzida (particularmente
em países da Ásia, América Central, América do Sul e Ilhas do
Caribe) a Tilápia Vermelha da Flórida - TVF sofreu ao longo do
tempo contribuições de outras espécies de tilápia. No entanto ainda
conserva um forte componente genético de O. mossambicus, o que
lhe confere grande tolerância a altas salinidades. A TVF cresce
melhor do que indivíduos puros O. mossambicus. O crescimento
e a conversão alimentar da TVF são melhores em águas salobras
(> 10ppt) do que em água doce (1ppt). O crescimento a 18ppt foi
melhor do que o obtido em água doce ou a uma salinidade de 36ppt.
O desempenho da tilápia vermelha da Flórida em água salgada é
bem razoável, sendo possível, a partir de alevinos de 1 a 5g atingir
peso médio ao redor de 450g em 150 a 160 dias de cultivo com
conversão alimentar ao redor de 1,8:1 com rações contendo entre
25 e 32% de proteína.
A TVF foi introduzida na Colômbia e no Equador, neste
último como opção para o cultivo em águas de alta salinidade.
Nestes países alguns híbridos foram derivados desta linhagem,
como a Red Jumbo 1 (híbrido com O. niloticus). No Brasil, a Bahia
Pesca realizou um cultivo experimental de tilápias vermelhas híbridas (denominadas Red Jamaica, como as da Foto 6 no estuário
de Camamu (Bahia). Alevinos de 1g atingiram peso médio final
de 350 a 550g com 200 dias de cultivo. No entanto, a conversão
alimentar não foi das melhores, girando entre 2,4:1 e 3,9:1. No local
de maior salinidade (26-28ppt) e de maior velocidade da água (10 a
22m/minuto) as tilápias apresentaram manchas esbranquiçadas na
pele e lesões ulcerativas. Essa possível baixa tolerância à salinidades de 26-28ppt nos faz acreditar que a Red Jamaica não carrega
uma grande contribuição de O. mossambicus. Wainberg também
observou problemas a salinidades acima de 18ppt (reduzido crescimento e lesões na pele) em tilápias vermelhas oriundas de duas
localidades do nordeste, o que nos leva a crer que a contribuição
de O. mossambicus nestes peixes também é reduzida.
Quanto à capacidade reprodutiva, apesar da TVF ser capaz
de se reproduzir a salinidades de até 36ppt, a produção de pós-larvas foi duas vezes melhor a 5ppt do que a 18ppt. Acima de 18ppt
há uma redução acentuada na fertilização dos ovos e na taxa de
eclosão e na sobrevivência das
pós-larvas.
Tilápia Vermelha de Taiwan
Este é outro híbrido
vermelho originado do cruzamento entre O. mossambicus x
O. niloticus. A Tilápia Vermelha
de Taiwan - TVT cresce bem a
salinidades entre 17 e 37ppt. No
entanto, é bastante sensível ao
manuseio sob altas salinidades.
O comportamento de reprodução
deste híbrido é inibido em água
salobra ou salgada, o que pode
ser devido ao legado genético de
O. niloticus, que também não é
Foto 6 - Tilápias vermelhas
(Foto Kubitza)
capaz de se reproduzir em água
salgada (32ppt). Isso certamente
é uma vantagem no cultivo em
águas de alta salinidade, reduzindo os problemas com a superpopulação dos viveiros. No entanto, a produção de alevinos tem que
ser feita em locais com água doce ou salobra. Guerrero e Guerrero
(2004) compilaram informações sobre o cultivo experimental de um
híbrido vermelho entre O. mossambicus e O. niloticus em viveiros
com água de salinidade ao redor de 32ppt. Alevinos de 8g atingiram
180g em 120 dias de cultivo. A sobrevivência foi de 83%.
Outras espécies de tilápia tolerantes a altas salinidades
Apesar de pouco utilizadas em cultivos comerciais, Oreochromis spilurus e Sarotherodon melanotheron são espécies de
tilápia altamente tolerantes à salinidade. O. spilurus também é
mais tolerante ao frio do que a tilápia vermelha da Flórida, porém
apresenta menor crescimento que esta em água salgada. Sarotherodon melanotheron tolera salinidades de até 120ppt, porém cresce
muito lentamente. Há estudos avaliando a tolerância à salinidade e
o crescimento de híbridos desta espécie com O. niloticus. Juvenis
de S. melanotheron apresentaram mortalidade mediana (50% dos
peixes) a uma salinidade próxima de 125ppt.
Avaliação da tolerância à salinidade
Em virtude da grande variabilidade na composição genética
de híbridos e linhagens de tilápia cultivadas no Brasil, a melhor
maneira de se assegurar da tolerância de uma determinada espécie à
salinidade é realizar um teste prático. Neste teste, grupos de 20 a 50
peixes devem ser colocados em caixas ou aquários experimentais.
Seria interessante realizar o ensaio com juvenis ao invés de pequenos alevinos. A salinidade pode ser aumentada a taxas diárias de 3
a 5ppt. O uso de água do mar (ao invés da simples adição de sal)
na mistura com a água dos aquários experimentais é recomendável,
pois a água do mar apresenta uma mistura mais completa de sais
presentes no ambiente onde será realizado o cultivo. O balanço
entre os íons presentes na água pode influenciar na tolerância dos
peixes à salinidade. A salinidade deve ser gradualmente elevada.
O ponto de mortalidade mediana (salinidade na qual a mortalidade
acumulativa atingiu 50% dos peixes de um determinado aquário)
e de mortalidade completa (salinidade na qual se atingiu 100% de
mortalidade dos peixes em um determinado aquário). Estes valores de salinidade, comparados com as salinidades observadas nos
possíveis locais de cultivo poderão dar ao produtor uma idéia da
adequação de um certo tipo de tilápia ao cultivo. Avaliada a tolerância,
Panorama da AQÜICULTURA, março/abril, 2005
17
o produtor deve fazer um ensaio piloto de cultivo e verificar se o desempenho dos peixes é satisfatório (crescimento, conversão alimentar
e sobrevivência).
Salinidade e crescimento
Salinidades ao redor de 10 a 12ppt são consideradas isoosmóticas para as tilápias. Nesta faixa de salinidade o consumo de oxigênio é
minimizado, sugerindo um menor gasto de energia para osmoregulação
(manutenção do equilíbrio de sais nos fluídos corporais – plasma e
fluídos celulares). Salinidades isoosmóticas potenciam o crescimento
de O. niloticus, O. mossambicus e da tilápia vermelha da Flórida. Para
a tilápia vermelha da Flórida e a tilápia de Moçambique, a produção
de pós-larvas também é mais eficiente nestas salinidades.
Em geral, os híbridos vermelhos usados em cultivos comerciais no mundo, crescem melhor em águas salobras do que em água
doce ou água salgada. Yi et al (2004) avaliaram o desenvolvimento de
uma linhagem de tilápia vermelha oriunda da Tailândia em viveiros
fertilizados, sem o uso de ração. Peixes estocados com 22g, aos 160
dias alcançaram peso médio de 88g na água doce contra 144 a 150g
a 10ppt, 123 a 142g a 20ppt e 106 a 115g a 30ppt. A sobrevivência
em todas as salinidades foi de 100%. O crescimento destes híbridos
vermelhos em água salobra (salinidade próxima da isoosmótica) foi
superior ao registrado em água doce ou em água salgada (30ppt). Isso
também foi observado para a tilápia vermelha da Flórida, para a tilápia
de Moçambique, para híbridos entre O. mossambicus e O. hornorum e
para a Tilápia vermelha de Taiwan (O. mossambicus x O. niloticus).
Diversos motivos foram apresentados para explicar este melhor
crescimento em águas isoosmóticas. O primeiro deles é o menor custo
energético com a osmorregulação. Russel et al (2003) registraram uma
menor taxa metabólica de manutenção em tilápia de Moçambique
aclimatadas à água salgada do que em peixes em água doce. O segundo
é a redução na agressividade de alguns híbridos vermelhos em águas
salobras e salgadas. O oposto foi observado para a tilápia do Nilo,
com o aumento da agressividade entre os peixes quando a salinidade
aumento gradualmente de 0 a 36ppt. Esta maior agressividade pode
estar relacionada com a mortalidade registrada ao longo da adaptação gradual deste peixe à água salgada. Um terceiro componente é o
aumento geral na taxa metabólica em tilápias aclimatadas em água
salgada comparado aos mesmos peixes aclimatados em água doce. Na
tilápia vermelha da Flórida cultivada em águas de alta salinidade foi
observado aumento no consumo de alimento e uma melhor conversão
alimentar. Russel et al (1994) verificaram um aumento na produção de
hormônio de crescimento e uma maior atividade das células produtoras
deste hormônio na hipófise das tilápias de Moçambique aclimatadas
em água salgada, comparadas a peixes mantidos em água doce. Isso
pode ser uma das causas do aumento no metabolismo e no crescimento
desta espécie de tilápia em água salgada.
Há um consenso entre produtores e técnicos de que as linhagens vermelhas híbridas existentes no Brasil apresentam crescimento
inferior ao registrado para as linhagens com base genética de tilápia
do Nilo quando cultivadas em água doce. No entanto, essa diferença
pode ser menos acentuada em águas salobras ou salgadas. Assim,
vale a pena reavaliar o crescimento destes peixes em locais com água
salgada ou que apresentam grande flutuação na salinidade.
Adaptação à água salgada
Os dois fatores mais importantes no sucesso da adaptação
à água salgada são a idade (tamanho) dos juvenis e a estratégia de
adaptação. Tanto para a tilápia vermelha da Flórida como para O.
niloticus a tolerância à água de alta salinidade é maior após os 40-50
dias de vida. O tamanho parece ser mais importante do que a idade
em determinar esta tolerância. Para O. niloticus a tolerância máxima à
água salgada parece ser atingida com alevinos maiores que 5cm. Para
18
Panorama da AQÜICULTURA, março/abril, 2005
O. mossambicus e seus híbridos com O. niloticus, alevinos já com
2,5cm apresentam boa tolerância à transferência à água salgada.
Diversos estudos demonstraram que as principais espécies e
híbridos de tilápia usadas na aqüicultura não toleram transferência direta
da água doce para a água salgada. S. melanotheron, considerada uma
tilápia altamente resistente à salinidade, apresentou 90% de mortalidade
sete horas após a transferência direta de alevinos de 20g da água doce
para uma água de 35ppt. Para Oreochromis aureus a transferência direta
da água doce para água com salinidade maior que 21ppt resultou em
mortalidade. Com a adaptação gradual, com incrementos de 5ppt ao dia
esta espécie tolerou salinidade de até 52ppt. Para as espécies de tilápia
hoje cultivadas, a transferência direta de água com 0 para 10ppt é considerado um procedimento seguro. A partir deste ponto é recomendado
um aumento gradual da salinidade não ultrapassando incrementos de
5ppt ao dia. Assim, são necessários cinco a seis dias para completar a
aclimatação à água salgada (32ppt) para as espécies capazes de tolerar
esta salinidade. A tilápia vermelha da Flórida, a tilápia de Moçambique
e os híbridos O. mossambicus x O. niloticus toleram transferência direta
da água doce para água com salinidade próxima de 18 a 20ppt.
Considerações finais
O Brasil conta com extensas áreas de estuários, onde a pesca artesanal já deixou de ser uma importante fonte de renda para as populações
locais. A aqüicultura nestas áreas, além de restaurar o desenvolvimento
sócio-econômico, contribuirá com a redução na pressão de captura
exercida pela pesca. A falta de tradição e de domínio da tecnologia de
cultivo de peixes marinhos tem limitado à exploração aqüícola destas
áreas ao cultivo de moluscos. O cultivo de tilápias em tanques-rede pode
ampliar o leque das atividades econômicas nos estuários e minimizar o
risco de empreendimentos pioneiros voltados ao desenvolvimento do
cultivo de peixes marinhos.
Adicionalmente, há no país uma considerável infra-estrutura
já instalada para o cultivo do camarão marinho no nordeste. O cultivo
de tilápias nestes empreendimentos pode ser uma excelente alternativa
de diversificação e minimização de riscos, principalmente com a atual
situação de preços e com as sanções comerciais impostas ao Brasil e
outros países no mercado internacional do camarão. Não custa mencionar a necessidade de, antes de empenhar grandes investimentos na
tilapicultura, avaliar com cautela as opções e tendências do mercado,
bem como as condições de infra-estrutura e equipamentos disponíveis
ao cultivo. Particularmente, a despesca da tilápia em tanques escavados
é muito mais difícil do que a do camarão. Isso poderá demandar investimentos adicionais na adequação das unidades de cultivo e na aquisição
de equipamentos que facilitem o processo de produção e colheita.
Outro passo importante é a adequada seleção das espécies ou
linhagens de tilápias candidatas ao cultivo em águas salgadas. Testes
de tolerância e desempenho são obrigatórios sob as condições prevalentes em cada localidade. Estes testes devem ser realizados ao longo
de todo o ano para cobrir todas as variações ambientais possíveis. O
desenvolvimento de linhagens específicas de tilápia pode demandar o
uso de estratégias de hibridação e/ou a implementação de programas
de seleção e melhoramento genético para a obtenção de populações
com maior tolerância à salinidade e melhor desempenho. As linhagens de O. niloticus avaliadas no Brasil não são capazes de tolerar
condições de salinidade acima de 20ppt. As linhagens de tilápias
vermelhas avaliadas no cultivo também apresentaram problemas
de desempenho e baixa sobrevivência quando a salinidade superou
os limites de 26ppt. Outras linhagens devem ser avaliadas e, se não
forem adequadas, será necessária a importação de material genético
específico para o cultivo em águas salgadas.
As referências bibliográficas deste artigo foram omitidas e podem ser solicitadas
ao autor através de e-mail, além de poderem ser acessadas na edição on-line
no site www.panoramadaaquicultura.com.br
Panorama da AQÜICULTURA, novembro/dezembro, 2000
1
Por: Ludmilla M. M. Kubitza,
Tatiana G. Guimarães e
Fernando Kubitza
32
Panorama da AQÜICULTURA, novembro/dezembro, 2000
Durante o XI Simpósio Brasileiro de Aquicultura - SIMBRAQ 2000,
a Dra. Eunice Lam, da Universidade de Malaspina – Canadá, apresentou
uma estratégia simplificada de monitoramento do bem estar geral dos
peixes. Neste trabalho preventivo, o fundamento é identificar precocemente quaisquer desvios da normalidade, permitindo ao piscicultor
obter suporte ao diagnóstico e a correção de problemas antes que eles
se estabeleçam com grande intensidade. A conduta proposta pela Dra.
Lam, além de simples e coerente, pode ser facilmente implementada
por qualquer piscicultor ou técnico, mesmo que estes não tenham experiência no diagnóstico de patologias. Com o intuito de apresentar os
fundamentos deste trabalho preventivo aos piscicultores e técnicos, a
equipe da ACQUA & IMAGEM organizou uma seqüência de fotos ilustrando
condições normais e diversos distúrbios nos peixes, que possam auxiliar
na detecção de problemas ainda em seu início. Este artigo não tem a pretensão de apresentar diagnósticos de doenças ou distúrbios específicos,
mas sim permitir ao piscicultor uma maior familiaridade na observação de
alguns órgãos internos e percepção de anormalidades nos peixes.
O primeiro passo
O piscicultor deve estabelecer
uma rotina de coleta de peixes. Peixes
moribundos devem ser preferencialmente
examinados, principalmente se a mortalidade é freqüente, mesmo se um número
muito reduzido de peixes estão morrendo.
No entanto, a amostragem não deve ser restrita a estes peixes. Animais aparentemente
sadios também devem ser amostrados. Três
peixes de cada viveiro ou tanque já seriam
suficientes para o objetivo deste trabalho
preventivo. Em pisciculturas com um número muito grande de viveiros e tanques, o
piscicultor deve definir grupos de viveiros
ou tanques com características similares.
Por exemplo, viveiros com peixe de uma
mesma espécie, com peso médio próximo,
densidades semelhantes e recebendo o mesmo tipo de ração. Assim, dentro dos grupos
específicos de tanques e viveiros, alguns serão
escolhidos para monitoramento periódico, ou
até mesmo podem ser coletadas amostras alternadas entre os viveiros de um mesmo grupo.
Um intervalo de duas semanas é adequado
entre uma amostragem e outra. No entanto, em
viveiros onde os peixes apresentem alterações
no comportamento ou qualquer sinal indicativo
de anormalidade, alguns animais devem ser
prontamente coletados e analisados.
Observação rotineira da resposta alimentar
A redução no consumo de alimento é a primeira resposta dos peixes a
uma condição de estresse. A inadequada
qualidade de água e o início de uma
doença são motivos para redução do
apetite. Portanto, o indivíduo responsável
pela alimentação deve prestar atenção
na resposta alimentar dos peixes e comunicar ao seu imediato a ocorrência de
quaisquer alterações. Na própria folha de
controle da alimentação deve ser anotada
a resposta dos peixes a cada alimentação
(por exemplo, E- excelente; B-bom;
R-regular; P-péssimo), a qual deve ser
padronizada entre o pessoal encarregado
da alimentação. No caso de uma redução
no apetite dos peixes, o primeiro passo é
conferir se os parâmetros de qualidade de
água estão dentro de condições normais.
Se a qualidade da água não for a causa do
problema e este persistir, alguns peixes
deverão ser prontamente coletados para
observações mais detalhadas.
Outras características de comportamento
dos peixes
Além de reduzir o consumo de alimento, peixes com saúde precária tendem a
permanecer isolados, apresentam alteração
de cor (corpo geralmente escurecido; Fig.
8, 9 e 13) e natação errática (Fig. 8). Sob
condições adequadas de qualidade da água,
a presença de peixes boquejando na superfície ou buscando a entrada de água indica
uma possível infestação e inflamação nas
brânquias (parasitos, bactérias e fungos).
Anatomia externa e interna dos peixes
Nas Figuras 1, 10 e 16 o piscicultor pode se familiarizar com a anatomia
externa e interna dos peixes, e reconhecer
alguns órgãos e estruturas. No exame externo dos peixes o piscicultor deve ficar
atento as seguintes alterações no corpo:
·
·
·
·
·
·
·
Coloração anormal (Fig. 8, 9 e 13);
Ocorrência de lesões na pele (Fig. 1);
Aparecimento de sinais de hemorragia
(áreas avermelhadas; Fig. 1 e 2);
Sinais de destruição das nadadeiras
(nadadeiras partidas; podridão nas
bordas das nadadeiras, especialmente
na nadadeira caudal; Fig. 6 vs. Fig. 7);
Abdômen distendido (inchado; 17);
Excessiva produção de muco;
Presença de organismos externos
fixados ao corpo do peixe.
Panorama da AQÜICULTURA, novembro/dezembro, 2000
33
A seguir, uma relação de 18 fotos legendadas das anormalidades que comumente
ocorrem na anatomia dos peixes, quando ele não está com a sua saúde plena. As
ilustrações abaixo possibilitarão a observação dessas alterações e o reconhecimento dos órgãos internos, de forma que a identificação dos problemas numa
fase inicial, facilite o tratamento dos animais.
34
Figura 1.Anatomia externa de
uma tilápia. Observar a lesão
ulcerativa com hemorragia
periférica (halo hemorrágico).
Note também o início de
podridão da extremidade da
nadadeira caudal e da ponta
final da nadadeira dorsal.
Figura 2. Hemorragia na
pele: na base da nadadeira
peitoral, no opérculo; na
região ventral e na região
dorsal do peixe.
Figura 3. Tilápia
apresentando opacidade da córnea (olho
opaco ou esbranquiçado).
Figura 4. Tilápia apresentando exoftalmia
(olhos saltados) e opacidade da córnea (olhos
opacos).
Figura 5. Olho de tilápia
apresentando a córnea
ulcerada e hemorrágica.
Note também a deformidade na região frontal
da cabeça.
Figura 6. Nadadeira
peitoral apresentando
podridão e hemorragia. Compare com a
nadadeira peitoral de
um peixe sadio da Figura 7.
Figura 7. Peixe sadio.
No detalhe o aspecto
normal da nadadeira
peitoral. Observe o opérculo bem formado, recobrindo toda a cavidade
branquial.
Figura 8. Tilápias
apresentando perda
de equilíbrio e natação
errática, em sentido
espiralado. Observe a
coloração escura dos
peixes e a aparente curvatura (defor-midade)
do peixe de cima.
Panorama da AQÜICULTURA, novembro/dezembro, 2000
Figura 9. Note o escurecimento do corpo de tilápias
doentes (peixes de baixo).
Compare com a coloração
normal de um peixe sadio
(peixe de cima). Observe a
podridão da extremidade da
nadadeira caudal e o aspecto
de mal alimentado do peixe
de baixo. No peixe do meio,
atente para a lesão no lábio
inferior do lado esquerdo
da boca.
Figura 11. Cavidade abdominal de uma tilápia aparentemente sadia. Observe o
fígado de grande tamanho e
de coloração marrom claro.
Note a deposição de gordura
na cavidade abdominal, bem
maior do que no peixe da
Figura 13.
Figura 10. Brânquias
e órgãos internos de
uma pirapitinga. Observar as brânquias
com aspecto saudável
e coloração vermelho
vivo. O estômago e
o intestino repletos,
indicando que o animal
estava se alimentando
bem. O fígado de coloração vermelho vivo e
tamanho normal.
Figura 12. Fígado, baço
e vesícula biliar de tilápia
(superior) e pirapitinga
(inferior). Os peixes apresentavam aspecto saudável.
Observar a diferença de
forma entre as vesículas
biliares destes peixes.
Figura 13. Observe a coloração escura do corpo desta
tilápia doente. Note o fígado
aumentado e com manchas
amareladas. Observe a vesícula biliar repleta de bílis
e de coloração verde bem
escuro: um sinal indicativo
de que o peixe está sem se
alimentar a um bom tempo.
Também note a pequena quantidade de gordura
visceral.
Figura 14. Trato digestivo
de duas tilápias do mesmo
tamanho. No lado esquerdo da
foto está o trato digestivo de
um peixe doente, que deixou
de se alimentar. Observe o
estômago e o intestino vazios
e a vesícula biliar repleta com
bile de cor verde escuro. No
lado direito um peixe sadio:
observe o estômago e o intestino repletos e a vesícula biliar
não muito cheia e com bile de
cor verde claro.
Figura 15. Baço e coração de
tilápia sadia (acima) e de tilápia
doente (abaixo). Os peixes apresentavam tamanhos semelhantes. O peixe doente apresentou
baço de tamanho aumentado
e extremidades espessas (engrossadas). O coração do peixe
doente apresentou aumento de
tamanho e lesão.
Figura 16. Vísceras de tilápia:
observe o fígado de coloração
marrom avermelhado; note
a posição da vesícula biliar
unida a um dos lóbulos do
fígado; o baço apresenta aspecto aumentado e coloração
vermelha escura. O tecido
gorduroso está entremeado no
intestino. O estômago está por
baixo das vísceras, não sendo
visível nesta foto. A porção
final do intestino contém um
pouco de ingesta.
Figura 17. O peixe da esquerda
é um peixe sadio. O da direita
apresentava o abdômen bastante distendido e perda de
equilíbrio. Após a necrópsia
foi constatada a presença de
grande quantidade de fluído
sanguinolento na cavidade
abdominal (ascite) do peixe
da direita.
Figura 18. Cavidade abdominal de tilápia. Observe o
fígado bastante aumentado.
As vísceras se encontravam
aderidas à parede abdominal.
Note a aderência entre os
órgãos internos. Este é o
mesmo peixe com ascite
(acúmulo de fluído na cavidade abdominal) que aparece
na Figura 17.
Panorama da AQÜICULTURA, novembro/dezembro, 2000
35
Exame dos olhos: a observação de anormalidades nos olhos pode auxiliar o piscicultor
a antecipar maiores problemas. O piscicultor deve ficar atento para olhos opacos ou
esbranquiçados (Fig. 3 e 4); olhos saltados
(Fig. 4) ou afundados; com lesões (Fig. 5);
com aspecto hemorrágico (avermelhados),
dentre outras anormalidades.
Cabeça e opérculo: observe a formação do
...O piscicultor deve
ficar atento para
olhos opacos ou esbranquiçados; olhos
saltados ou afundados com lesões
com aspecto hemorrágico, dentre outras
anormalidades...
opérculo (Fig. 1 e Fig. 7) e se há presença
de deformidades no mesmo ou na cabeça
(Fig. 5). Peixes com opérculo muito aberto
podem estar com dificuldade respiratória,
que pode ser causado pelo baixo oxigênio
na água ou pela infestação das brânquias por
parasitos ou infecções por fungos ou bactérias. Opérculos muito curtos curto deixam
as brânquias mais expostas ao meio.
Exame das brânquias: ao examinar as
brânquias (Fig. 10) atente para os seguintes
detalhes: brânquias com aspecto inchado
(congestionado ou inflamado); com excessiva quantidade de muco; observe a
presença de áreas necrosadas (amareladas
ou marrom); brânquias com coloração vermelho pálido ou rosada sugere uma condição
de anemia nos peixes. Fique atento para a
presença de parasitos fixados às brânquias
ou de cistos ou pontinhos brancos.
Aspectogeraldasvísceras: ao expor as vísceras
do peixe, observe se estas não se apresentam
aderidas à parede da cavidade abdominal ou
entre si (peritonite; Fig. 18). Também preste
atenção para a presença de parasitos (vermes)
que possam estar aderidos às vísceras. Fique
atento para a presença excessiva de líquido na
cavidade abdominal (ascite ou barriga d’água;
Fig. 17). Observe a coloração (incolor, amarelado, sanguinolento) e a transparência deste
líquido (opaco ou transparente).
Quantidade de gordura visceral (Fig.11,
13 e 16): serve como indicativo do estado
alimentar dos peixes. Nenhuma ou pouca
gordura é um forte indicativo de que o animal está há muito tempo sem se alimentar.
Muita gordura pode indicar a prática de
alimentação em excesso ou mesmo uma alta
relação energia/proteína no alimento.
totalmente amarelados geralmente indicam
anormalidades. Alguns parasitos se alojam
no fígado, formando cistos, que podem ser
visualizados a olho nu. Em algumas situações
o fígado pode se apresentar hemorrágico (com
coágulos ou pontinhos vermelhos – petéquias).
Também podem ocorrer lesões e até mesmo
tumores.
Intestino (Fig. 10 e 14): observe se há
presença de alimento e a cor do mesmo;
se o aspecto é hemorrágico e se há fluído
sanguinolento em seu interior. Abrindo o
intestino com o auxílio de uma tesoura
pequena, observe a presença de vermes.
Vesícula Biliar: localizada entre os lóbulos
do fígado, a vesícula biliar se apresenta
como uma bexiga geralmente transparente
ou coberta por uma membrana de cor opaca
(Fig 12). Em seu interior se encerra a bile,
um fluído de cor amarelada ou esverdeada.
A função da vesícula biliar é armazenar
sais biliares e despejá-los no intestino para
auxiliar na digestão das gorduras. Assim,
quando o peixe está se alimentando normalmente, a vesícula apresenta cor amarelada
e pequeno tamanho. Nos peixes que não
estão se alimentando, a vesícula biliar fica
repleta e geralmente de cor verde escuro
(Fig. 13 e 14). Vesícula muito cheia e com
coloração verde azulada indica que o peixe
não se alimenta há muitos dias. Se a ração
está sendo fornecida e o peixe não está se
alimentando, algo está errado e deve ser
diagnosticado e corrigido.
Estômago (Fig. 10; 14): observe a presença
de alimento. Peixes doentes geralmente
deixam de se alimentar e ficam com o
estômago vazio.
Fígado (Fig. 10; 11; 12 e 16): é um órgão
importante nos processos metabólicos,
na geração de energia, desintoxicação do
organismo, entre outras funções. As alterações no tamanho e na textura do fígado
são mais importantes na constatação de
distúrbios do que as alterações em sua cor.
Tamanho e textura do fígado: fígado de
tamanho aumentado, esparramado por toda
a cavidade abdominal, pode indicar uma
anormalidade (Fig. 13). Peixes supridos
com alimentos ricos em carboidratos e
gordura (ricos em energia) e pobres em proteína (por exemplo, milho, mandioca, restos
de panificação, ração para suínos e aves,
entre outros) tendem a apresentar aumento
no tamanho do fígado (Fig 11). Isto pode
prejudicar as funções deste órgão e causar
problemas. O índice hepato-somático (IHS)
indica a relação entre o tamanho do fígado
e o tamanho do corpo do peixe. O IHS é
expresso em porcentagem (%) e calculado
multiplicando o peso do fígado do peixe por
100 e dividindo o valor obtido pelo peso do
peixe. Por exemplo, se um peixe pesa 131g
e o seu fígado 4,7g, o IHS será (4,7/131) x
100= 3,59%. O IHS pode ser comparado
entre diferentes grupos de peixes e usado
como indicativo de anormalidades. Fígado de textura friável (que se parte ou se
despedaça facilmente) é um indicativo de
distúrbios. Um fígado normal apresenta boa
integridade, podendo ser manuseado sem
que se parta facilmente. Cor do fígado: pode
variar do vermelho vivo ao vermelho com
tons marrom/amarelados. Peixes cultivados
intensivamente com rações comerciais
tendem a apresentar maior acúmulo de
glicogênio e gordura no fígado, ficando
este órgão geralmente com uma coloração
mais para marrom/amarelada (Fig. 11) do
que vermelho (Fig. 12). No entanto, fígados
pálidos (rosados, beges ou quase brancos) ou
...Peixes cultivados intensivamente com rações comerciais tendem
a apresentar maior
acúmulo de glicogênio e gordura no
fígado...
Baço: é um órgão em forma de um triângulo comprido, chato na espessura e de
coloração vermelho escura (Fig 12, 15 e
16). Geralmente encontrado adjacente ao
estômago, entremeado a gordura visceral.
Examine o baço e procure observar (comparar) o tamanho e coloração deste órgão.
Baço de cor quase negra e de tamanho
aumentado (com as margens espessas e
arredondadas) é um indicativo de infecções bacterianas.
Panorama da AQÜICULTURA, novembro/dezembro, 2000
37
Piscicultor, abaixo estão os principais itens a serem observados em um exame rotineiro dos seus peixes.
Use o quadro abaixo para melhor avaliar as possíveis anomalias.
38
Panorama da AQÜICULTURA, novembro/dezembro, 2000
Organizando as informações: no Quadro a seguir são resumidos os principais
itens a serem observados em um exame
rotineiro feito pelo piscicultor. Use um
quadro como este para cada uma das
avaliações. Especifique o viveiro ou
tanque amostrado, o número de peixes
observados. Examine simultaneamente os
peixes amostrados de um mesmo viveiro
ou tanque. Se as condições dos peixes em
um mesmo viveiro forem muito distintas,
use uma folha para cada peixe. Caso seja
constatada alguma anormalidade que
mereça um exame mais detalhado por
um profissional especializado, registre as
informações adicionais sobre a qualidade
da água no dia (ou no dia anterior) da
amostragem. Também faça uma breve
resenha das condições de qualidade da
água nas últimas duas semanas, principalmente no que diz respeito ao oxigênio
dissolvido. No caso de mortalidade, relate
se esta foi aguda (muitos peixes morreram de uma só vez); crônica (poucos
peixes morreram nos primeiros dias e a
mortalidade vem aumentando dia a dia);
sub-crônica (todos os dias um pequeno
número de peixes morrem). Descreva
sucintamente o que vêm ocorrendo com
os peixes. Estas informações serão úteis
para auxiliar o profissional encarregado
do diagnóstico mais preciso do problema.
Outras informações serão solicitadas
oportunamente pelo profissional encarregado do diagnóstico.
...é preciso manter os
olhos bem abertos para
detectar problemas em
seu início. Isto ajudará a reduzir as perdas
financeiras e o desestímulo geral provenientes
de problemas crônicos
com a inadequada saúde
dos peixes...
Esta estratégia simples de
monitoramento da condição dos peixes, conforme proposta pela Dra. Lam
e aqui apresentada de uma maneira
bastante simples e ilustrativa, pode ser
útil tanto aos piscicultores quanto às
empresas que prestam suporte técnico
em piscicultura. Dentre muitas, as
empresas de ração podem se beneficiar
muito deste acompanhamento rotineiro
da condição dos peixes em diferentes
propriedades. Em quadros de mortali-
dade crônica sempre é questionada
a qualidade da ração em uso. Assim,
as empresas que implementarem um
monitoramento simplificado como
este em alguns dos seus clientes,
podem antecipar muitos problemas
e reunir evidências suficientes para
discutir e buscar soluções para os
eventuais problemas que surgirão
com os seus clientes.
Aos piscicultores e técnicos
recomendamos especial atenção quanto à qualidade da água e ao manejo
nutricional, fatores ainda responsáveis por grande parte dos problemas
nas pisciculturas. Também é preciso
manter os olhos bem abertos para
detectar problemas em seu início. Isto
ajudará a reduzir as perdas financeiras
e o desestímulo geral provenientes de
problemas crônicos com a inadequada
saúde dos peixes. Fundamental para
isso é o empenho dos piscicultores e
técnicos em aprender um pouco mais
sobre o monitoramento e correção da
qualidade da água, bem como assimilar
boas práticas de manejo. Se com o uso
de boa técnica e aplicando um bocado
de conhecimento os problemas não
deixam de aparecer, não há dúvidas
que uma piscicultura alheia às boas
práticas de manejo, descuidada quanto
à questão nutricional e com pouco
controle de qualidade de água, está
com seus dias contados.
Panorama da AQÜICULTURA, novembro/dezembro, 2000
39
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 2005
1
Antecipando-se às doenças
na tilapicultura
Fernando Kubitza,
Ph.D. (Acqua & Imagem)
[email protected]
A
principal empresa produtora de tilápia da Costa Rica, Acqua
Corporation, contabilizou nos meses de abril e maio deste ano
um prejuízo direto da ordem de 2,5 milhões e foi obrigada a
dispensar mais de 100 funcionários. A mortalidade foi resultado de uma
infecção crônica pela bactéria Piscirickettsia salmonis, possivelmente
agravada por alterações na qualidade da água de abastecimento. Desde
2004 os produtores costarriquenhos conviviam com mortalidades crônicas causadas por esta bactéria. A situação estava sendo mantida sob
controle com o uso freqüente de antibióticos. A Piscirickettsia salmonis,
já conhecida pelos produtores de salmão em diversos países, também
foi isolada de tilápias cultivadas em Taiwan, Honduras, Estados Unidos
e Jamaica. As exportações costarriquenhas de produtos de tilápia em
2004 foram da ordem de 4.600 toneladas (destas 4.090 somente para
os Estados Unidos). Considerando que o maior volume de exportações
da Costa Rica corresponde a filés (cerca de 30% do peixe inteiro), esta
exportação equivale a uma produção anual próxima a 15.000 toneladas de tilápia inteira/ano. Em 2004 a produção de tilápias foi de 19
mil toneladas, 90% superior ao produzido em 2000, um crescimento
médio superior a 17% ao ano. Que esse infortúnio seja um alerta aos
produtores, pesquisadores, técnicos e homens públicos envolvidos com
a aqüicultura no Brasil, sobre a necessidade de adoção de medidas
preventivas e de biossegurança para evitar que episódios como esse
não acometam a tilapicultura brasileira.
Embora concentrada e expressiva, a produção de tilápia na Costa
Rica é pequena comparada às estimativas da tilapicultura no Brasil.
Apesar da ausência de estatísticas oficiais, seguramente a produção de
tilápias em nosso país ultrapassa a casa das 100.000 toneladas/ano.
Grande parte da expansão dos cultivos no Brasil se deve ao uso de tanques-rede nos grandes reservatórios, notadamente em São Paulo, Bahia,
Alagoas e Ceará. Quem é do setor sabe que os cultivos intensivos em
tanques-rede são bastante susceptíveis a variações na qualidade da água
e à ação de agentes infecciosos, resultando em considerável mortandade
crônica. Não há informações precisas sobre dimensão destas perdas,
mas não hesito em afirmar que pelo menos 5% dos peixes em tamanho
de mercado morrem antes de completado o cultivo (desconsiderando
perdas de juvenis e alevinos). Isso deve representar cerca de 5.000
toneladas de peixe/ano, que a um custo de produção médio ao redor
de R$ 2,00/quilo, resulta em prejuízo aos produtores ao redor de R$ 10
milhões (cerca de US$ 4 milhões). Ou seja, perdemos passivamente nos
cultivos no Brasil quase o dobro do prejuízo contabilizado recentemente
na tilapicultura costarriquenha e pouco se fala sobre isso.
Este artigo não tem a pretensão de discorrer sobre tratamentos
de doenças, mas sim de alertar os produtores e técnicos, dos potenciais
organismos patogênicos na tilapicultura e discutir medidas preventivas
que possam contribuir com a melhoria da sanidade nos cultivos. Os leitores interessados em informações mais detalhadas sobre os procedimentos profiláticos e terapêuticos específicos para controle das principais
enfermidades de tilápias aqui mencionadas devem consultar os artigos já
publicados nesta revista (Panorama da Aqüicultura: julho/agosto, 2000;
julho/agosto, 2001), livros específicos sobre tilápia (Tilápia: tecnologia
e planejamento na produção comercial. Kubitza, 2000) ou ainda livros
sobre doenças e parasitoses dos peixes cultivados (Kubitza e Kubitza,
2004 Ed. revisada e ampliada; Pavanelli et al 1998).
Doenças e parasitoses em tilápias
As tilápias sempre foram reconhecidas por sua grande rusticidade. Dificilmente eram registradas doenças ou deficiências nutricionais
nos cultivos, que em sua maioria eram conduzidos em tanques escavados
com a presença de plâncton. Sempre foi admirável a capacidade destes
peixes de tolerar o manuseio e condições adversas de qualidade de água.
No entanto, nas últimas décadas os cultivos de tilápia se intensificaram,
impulsionados tanto pela consolidação da tilápia como um peixe de
aceitação global e pelo desenvolvimento de sólidos mercados locais.
Empreendimentos industriais de cultivo começaram a experimentar
altas densidades de estocagem em tanques escavados com altas taxas
de renovação de água e aeração, em tanques de alto fluxo (“raceways”),
em tanques-rede e em sistemas fechados com tratamento e recirculação
de água. O aumento na pressão de produção, a maior dependência do
uso de alimentos formulados, a intensificação do manuseio e a maior
ocorrência de problemas de qualidade de água nestes cultivos intensivos
revelaram uma outra face das tilápias. Apesar de sua natureza resistente,
começaram a surgir problemas nutricionais e mortalidade atribuída a
organismos patogênicos. No QUADRO 1 são relacionados os principais
agentes patogênicos isolados em tilápias cultivadas.
QUADRO 1. Agentes patogênicos registrados em tilápia cultivadas em água doce
ou em águas salobras/salgadas.
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 2005
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Parasitoses
Diversas espécies de protozoários ciliados, flagelados, monogenóides, copépodos, entre outros grupos de parasitos foram
isolados em tilápias. Grande parte destes parasitos se aloja na pele
e nas brânquias, podendo ou não se alimentar dos tecidos e fluídos
do peixe hospedeiro. Infestações nas brânquias resultam em lesões
e inflamação do epitélio branquial, prejudicando a respiração e a
manutenção do equilíbrio osmorregulatório dos peixes. Adicionalmente, as lesões nas brânquias e na pele dos peixes parasitados
servem como porta de entrada para infecções secundárias por fungos e bactérias. Parasitos do grupo dos mixosporídios se alojam
em cartilagens ou na matriz óssea, podendo causar anomalias no
esqueleto (curvatura da coluna e deformidades na cabeça). Quando
se alojam no cérebro, podem causar distúrbios na natação (natação
espiralada).
Doenças virais
Em revisão feita pelo Dr. John Plumb (Auburn University)
há relatos de alguns casos de viroses em tilápia. Um deles foi o
vírus da linfociste (já identificado em outras espécies de peixes) em
tilápias nativas de lagos do leste africano. Linfociste é uma doença
causada por um iridovírus com genoma DNA. Apesar de não causar a morte dos peixes, este vírus faz surgir na pele e nadadeiras,
aglomerações de tecidos semelhantes a verrugas ou tumores que
podem prejudicar a aparência e aceitação do pescado. Para diversas
espécies de peixes já foram diagnosticadas viroses específicas. Com
a tilápia isso ainda não ocorreu. Geralmente há uma carência de
profissionais treinados ou de laboratórios equipados para a identificação de viroses em peixes em diversos países tropicais onde
se cultiva a tilápia. Isso faz com que episódios de mortandade que
possam ter sido primariamente desencadeados por infecções virais
passem sem diagnóstico, ou sejam atribuídos exclusivamente a
outros agentes infecciosos (bactérias, por exemplo) isolados dos
peixes doentes.
A
B
Fígado
Coração
Baço
Vesícula
FOTO 1 – Observe os órgãos internos de duas tilápias de mesmo tamanho.
(A) – peixe sadio: observe a vesícula biliar de tamanho normal e coloração
verde claro, indicando peixe que está se alimentando. No peixe doente
(B) a vesícula está escura e repleta de fluído biliar, típico de peixe que
deixou de se alimentar há dias. Observe que o peixe doente tinha o baço
aumentado e de coloração muito escura, quase negra. Também é perceptível
o aumento no tamanho do fígado e do coração no peixe doente. O fígado
do peixe doente está hemorrágico.
Rim
Doenças bacterianas
Diversas bactérias patogênicas foram isoladas em tilápias
cultivadas, conforme relação apresentada no QUADRO 1. Os sinais
clínicos que fortemente indicam a ocorrência de bacterioses são: a)
presença de áreas despigmentadas e que podem evoluir para lesões
ulcerativas no corpo; b) nadadeiras hemorrágicas ou erodidas (podridão das nadadeiras); c) sinais de hemorragia em diversas partes
do corpo; olhos saltados, de aspecto opaco e/ou hemorrágico; d)
áreas necrosadas nas brânquias; e) acúmulo de fluído de aspecto
opaco e/ou sanguinolento na cavidade abdominal provocando
distensão do abdômen (ascite); f) hemorragia e hiperplasia nos
órgãos internos (fígado e coração), aumento de tamanho e enegrecimento do baço, vesícula biliar escurecida e repleta (FOTO 1);
g) hemorragia e presença de fluído sanguinolento no intestino; h)
inflamação e aumento no tamanho do rim (FOTO 2).
Os peixes infectados podem apresentar escurecimento do
corpo, dificuldade respiratória, letargia, natação irregular ou espiralada, dentre outras alterações comportamentais. Geralmente
perdem o apetite, o que dificulta o tratamento da doença com o uso
de antibióticos adicionados na ração. A seguir é feita uma breve
descrição das principais bacterioses que acometem os cultivos de
tilápia no Brasil e no mundo.
FOTO 2 – Rim de tilápia inflamado e aumentado, indicativo
de infecção bacteriana.
Septicemia por Aeromonas móvel (MAS)
Esta doença é causada pela bactéria Aeromonas hydrophila
(esporadicamente Aeromonas sobria pode estar envolvida). Os sinais clínicos são: erosão das nadadeiras e hemorragia difusa pelo
corpo e nadadeiras.
Geralmente há perdas de escamas e surgem manchas despigmentadas na pele (FOTO 3). Essas manchas geralmente evoluem
em ulcerações (FOTO 4). Olhos saltados (exoftalmia), opacidade
da córnea e abdômen distendido (ascite), (FOTO 5) com acúmulo
de fluído opaco ou sanguinolento. Intestino com aspecto inflamado
(avermelhado) e geralmente vazio pelo fato do peixe doente ter
parado de comer. O fígado do peixe geralmente se apresenta pálido
e hemorrágico (FOTO 6).
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 2005
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Pseudomonas fluorescens também causa septicemia em
tilápias com semelhantes sinais clínicos. Estas bactérias estão
presentes em praticamente todos os ambientes de água doce e se
manifestam quando os peixes são debilitados por problemas de
qualidade da água, temperaturas baixas ou por um manuseio inadequado. Informações mais detalhadas sobre a MAS em tilápias
podem ser encontradas em matéria desta revista (Panorama da
Aqüicultura, julho/agosto, 2000) e na revisão elaborada pelo Dr.
John Plumb (1997).
FOTO 6 – Órgãos internos de tilápia com septicemia por Aeromonas: peritonite
(aderência das vísceras), fígado aumentado e com severa hemorragia
Streptococcose
FOTO 3 – Mancha despigmentada na pele (perda de escama) que
pode evoluir para úlcera
FOTO 4 – Lesão ulcerativa em tilápia: infecção por Aeromonas
FOTO 5 – Tilápia à direita com ascite: infecção por Aeromonas hydrophila
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Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 2005
Bactérias do gênero Streptococcus estão relacionadas com
episódios de alta mortandade de tilápias em países como Japão,
Israel, Estados Unidos, Taiwan, Filipinas e Brasil. Tilápias são mais
susceptíveis à infecção por Streptococcus em águas com salinidades
entre 15 e 30ppt. Muitas vezes são registradas infecções simultâneas
por Streptococcus e outras bactérias, como exemplo Aeromonas
hydrophila. Dr.John Plumb registra evidências de que infestações
por parasitos como a Trichodina, que causam excessiva injúria à
pele, pode favorecer a ocorrência de infecções por Streptococcus
e por Edwardsiella tarda em tilápias.
No Brasil, episódios de mortalidade de tilápias infectadas
por Streptococcus foram registrados, e se tornaram comuns, particularmente em tanques-rede e em períodos de elevada temperatura.
Sinais típicos desta bacteriose são a natação irregular em espiral,
curvatura e escurecimento do corpo (FOTO 7), olhos saltados e
opacos, com inflamação granulomatosa nas lentes (FOTO 8). Na
pele aparecem áreas despigmentadas que podem evoluir posteriormente para lesões mais bem definidas (tipo úlceras). Uma completa
revisão sobre esta doença foi apresentada em matéria publicada por
esta revista (Panorama da Aqüicultura, julho/agosto, 2001).
FOTO 7 – Tilápias com infecção
por Streptococcus: natação
irregular (espiralada), curvatura e enegrecimento do
corpo
Edwardisiellose
Doença causada pela enterobactéria Edwardsiella tarda registrada tanto em água doce como em água salobra. A Edwardsiella
habita o intestino, coexistindo com as tilápias da mesma forma
que a bactéria Aeromonas hydrophila. A intensificação do cultivo
favorece a infecção por esta bactéria devido ao maior aporte de
material fecal nos tanques de cultivo e maior contato peixe a peixe
devido às altas taxas de estocagem.
Vibriose
FOTO 8 – Tilápia infectada por Streptococcus: corpo escurecido e olhos opacos
Causada por bactérias do gênero Vibrio. Em água doce as
principais são Vibrio cholerae, Vibrio parahaemolyticus e Vibrio
mimicus. Em água salgada temos Vibrio anguillarum, Vibrio parahaemolyticus e Vibrio vulnificus. São bactérias gram negativas
do tipo bastonetes geralmente móveis. Os sinais clínicos são semelhantes ao da septicemia causada por Aeromonas.
Rickettsiose
Columnariose (podridão das nadadeiras)
Em água doce esta doença é causada pela bactéria Flavobacterium columnare. Sua contraparte em água salgada é a bactéria Flexibacter maritimus. Em água doce, a columnariose é uma
doença que ocorre nos meses mais quentes (temperaturas ótimas
para a bactéria estão entre 28 a 32oC), em tanques com grande acúmulo de matéria orgânica e com a qualidade da água prejudicada.
Flavobacterium columnare aproveita-se da baixa resistência dos
peixes ao manuseio (quando debilitados por problemas de qualidade
da água ou pela má nutrição) ou da ocorrência de injúrias físicas
durante o manejo.
A columnariose não é uma doença muito freqüente em tilápias, embora eventualmente cause considerável mortalidade em alevinos após o manuseio e transporte. Seus sinais clínicos englobam
a ocorrência de necrose nas nadadeiras (FOTO 9), particularmente
na caudal (podridão de cauda), crescimento bacteriano na boca
(boca de algodão) e presença de áreas necrosadas nas brânquias,
dificultando a respiração dos peixes.
Dr. Plumb descreve o relato de Chen et al. 1994 sobre
tilápias do Nilo doentes em Taiwan das quais foi isolado um organismo similar a Rickettsia. Os peixes infectados ficavam letárgicos
e com coloração pálida. Apresentavam úlceras e hemorragia na
pele. Internamente foi observado aumento no tamanho do baço
(esplenomegalia) e do rim, ascite (abdômen distendido) e nódulos
brancos no fígado. No início deste artigo foi registrada a alta mortandade de tilápias em fazendas da Costa Rica, atribuída à infecção
por Piscirickettsia salmonis, bactéria comumente encontrada em
salmonídeos no Chile, Noruega e Canadá.
Fatores que favorecem a ocorrência de
doenças bacterianas em tilápia
• Altas taxas de estocagem;
• Deterioração da qualidade da água e excessivo acúmulo de
material orgânico;
• Inadequada nutrição;
• Queda brusca de temperatura;
• Infestações por parasitos;
• Manejo grosseiro que causam perda de muco e de escamas
e lesões na pele;
• Alta salinidade combinada com temperaturas extremas.
Doenças fúngicas
FOTO 9 – Podridão das nadadeiras em tilápia causada por
Flavobacterium columnare
Dois tipos de fungos foram identificados como causadores
de doenças em tilápia: Saprolegnia parasitica e Branchiomyces
spp. Saprolegina parasitica acomete tilápias em diversas fases de
desenvolvimento (desde o ovo até indivíduos adultos). Infecções
por este fungo são muito comuns quando as tilápias são manejadas
com temperatura da água abaixo de 24oC, particularmente nos
meses de inverno e na primavera, quando o manuseio começa
a ser intensificado e os peixes ainda não restabeleceram plena
resistência imunológica. O manuseio grosseiro e o acúmulo de
material orgânico nos tanques de cultivo favorecem a ocorrência de
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 2005
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infecções. Infecções por Saprolegnia geralmente são secundárias e
ocorrem após os peixes terem sido debilitados por injúrias devido
ao manuseio ou por infecções parasitárias. Também ocorrem após
o peixe ser debilitado por infecções bacterianas.
“É melhor prevenir do que remediar”
Como o leitor pôde observar, muitos agentes infecciosos
foram isolados em tilápias. Alguns deles são responsáveis por
perdas consideráveis em todas as fases de produção deste peixe.
Assim, é imprescindível que os produtores, pesquisadores, técnicos,
órgãos governamentais, fabricantes de rações e outras empresas
com interesse no desenvolvimento do setor, cooperem no sentido
de se antecipar aos problemas de sanidade nos cultivos.
A adoção de ações preventivas é um hábito que precisa ser
adquirido e incorporado à cultura das empresas (melhor, dizer,
de seus funcionários). No QUADRO 2 são feitas algumas recomendações para reduzir os problemas relacionados à sanidade em
piscicultura. Estas sugestões devem ser implementadas sempre
com base na adoção de boas práticas de manejo da produção.
Seguramente, o ditado “é melhor prevenir do que remediar” cabe
aqui muito bem, pois remover montanhas de peixes mortos dos
viveiros ou tanques-rede é o que há de mais desagradável em uma
piscicultura. Além disso, mortalidades crônicas de peixes sem
perspectiva de controle desarmam, desestimulam e deprimem
qualquer equipe de produção.
QUADRO 2. Recomendações básicas para reduzir a ocorrência de problemas
de doenças em piscicultura.
• Realizar quarentena antes da introdução de novos exemplares;
• Manter um setor de berçário isolado dos outros setores
da piscicultura;
• Efetuar um contínuo monitoramento e correção da qualidade da água;
• Prover adequada nutrição e alimentação dos animais;
• Remover diariamente peixes mortos e moribundos dos
tanques de cultivo e disponibilizar local adequado para a
disposição dos mesmos;
• Realizar inspeção sanitária de rotina mesmo em lotes de
peixes aparentemente sadios (inspeção externa e interna,
exames parasitológicos e exames microbiológicos);
• Ficar atento a qualquer alteração no comportamento dos
peixes. E sempre que isso ocorrer, ficar atento à qualidade da água e realizar exames clínicos tanto nos peixes
moribundos como nos aparentemente sadios do lote;
• Desinfecção de equipamentos e utensílios de uso rotineiro (caminhões e tanques de transporte, redes e puçás,
roupas de trabalho, aeradores que são deslocados de um
viveiro a outro). A desinfecção de tudo o que é usado nas
pisciculturas nem sempre é viável em termos operacionais ou de custo. Mas essa necessidade deve estar sempre presente na mente dos piscicultores e implementada
sempre que houver suspeita de doenças infecciosas;
• Eliminação de plantéis de peixes infectados com agentes
que permitam transmissão vertical, ou seja, de mãe para
filho. Viroses, por exemplo, podem ser transmitidas de
mãe para filhos através do ovo;
• Manter sob controle a população de outros animais na
piscicultura (roedores, cachorros, aves predadoras de
peixes, anfíbios, entre outros). Estes animais podem
servir de vetores de doenças ou zoonoses, e ainda atuar
como hospedeiro intermediário de alguns parasitos.
Biossegurança nos cultivos
Com a expansão da tilapicultura no Brasil, é natural que
produtores e empresários procurem melhorar a qualidade do
material genético através da importação de linhagens de tilápia
de melhor desempenho produtivo em países com tradição no
cultivo e melhoramento genético deste peixe. Além dos estoques naturais na África, o grande banco genético de tilápias na
atualidade está nos países Asiáticos. Cabem aqui algumas considerações. A primeira é o fato de que, nestes países as tilápias
têm sido cultivadas intensivamente por muitas décadas. Portanto,
as linhagens existentes já foram acometidas por diversos tipos
de enfermidades e seguramente podem ser portadoras de algum
agente infeccioso de difícil controle e que pode causar grandes
prejuízos aos cultivos, como exemplo o Streptococcus, que foi
isolado de tilápias cultivadas no Brasil em 2001. A segunda: os
cultivos em diversos países asiáticos somam décadas de uso de
medicamentos e, seguramente, muitas cepas de bactérias que
podem ser introduzidas com tilápias importadas destes países já
desenvolveram resistência a medicamentos (particularmente os
antibióticos) utilizados na aqüicultura brasileira. Uma terceira
consideração é a possibilidade de que animais importados de
outros países ou regiões apresentem maior susceptibilidade a
agentes patogênicos existentes e evoluídos em nossas pisciculturas. Desta forma, linhagens de excelente desempenho em outras localidades (países e regiões) podem apresentar problemas
quando cultivadas em outros locais e expostas ao desafio com
novos agentes patogênicos.
A quarentena destes lotes introduzidos é fundamental
para reduzir o risco de que estes sejam imediatamente expostos
a patógenos aos quais ainda não tiveram tempo de desenvolver imunidade. Com o tempo haverá uma seleção natural dos
indivíduos tolerantes aos patógenos existentes no local de
introdução.
A adoção das boas práticas sanitárias durante o cultivo
(QUADRO 2) é um passo importante da biossegurança na piscicultura. Adicionalmente, as empresas de reprodução que precisam importar material genético de outros países ou mesmo de
outros estados brasileiros, devem evitar a introdução de peixes
em suas instalações, sem uma completa certificação sanitária que
ateste a ausência de parasitos, bactérias e vírus nos exemplares
adquiridos. Ainda não há no Brasil uma exigência de certificação
sanitária para produtores de alevinos. Portanto, quem se dedica
a engorda está sujeito a introduzir em seus cultivos diversos
tipos de patógenos com os alevinos adquiridos.
Os produtores podem contratar os serviços de laboratórios
especializados (universidades, institutos de pesquisa e mesmo
privados) para avaliar a presença de parasitos ou bactérias patogênicas nos exemplares adquiridos. A desinfecção de equipamentos é
essencial, principalmente daqueles utilizados em diversas propriedades, como os caminhões e caixas de transporte de peixes vivos.
A desinfecção de roupas de trabalho demanda conscientização
e disciplina por parte dos funcionários. Geralmente a equipe de
produção não possui uniforme, nem sequer usa roupas apropriadas para uma fácil desinfecção durante a rotina. Os funcionários
entram em diversos viveiros em um mesmo dia, sempre com a
mesma roupa e sem qualquer desinfecção das mesmas.
O uso racional de medicamentos, notadamente os antibióticos, também é uma questão relevante na biossegurança dos
cultivos. O uso indiscriminado destes produtos pode resultar no
desenvolvimento de resistência por parte de alguns patógenos.
Assim, os medicamentos tradicionalmente utilizados começam
a não fazer mais efeito e as opções de tratamento ficam cada
vez mais escassas e caras.
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 2005
21
Já existem vacinas desenvolvidas com sucesso para prevenir bacterioses em diversas espécies de peixes. Merecem destaque
as vacinas contra Aeromonas salmonicida (furunculose), Vibrio
anguilarum e Vibrio salmonicida (vibriose), Aeromonas hydrophila, Edwardsiella ictaluri (septicemia entérica do bagre-do-canal).
Também já foram avaliadas experimentalmente vacinas contra
Edwardsiella tarda (Edwardsiellose) e Flavobacterium columnare (Columnariose ou podridão das nadadeiras). Nos Estados
Unidos há um grupo de pesquisadores do USDA (Departamento
de Agricultura) dedicados exclusivamente ao desenvolvimento
de uma vacina para imunização de tilápias contra o Streptococcose, bacteriose que tem causado grandes prejuízos em cultivos
intensivos de tilápia naquele país. Empresas privadas dedicadas
à produção de vacinas e medicamentos para uso na produção
animal já dirigem esforços específicos para desenvolver vacinas
para uso na aqüicultura. Vacinas comerciais contra Streptococcus
iniae, Streptococcus agalactie (Streptococcose) e Lactococcus
garviae (Lactococcose) já estão sendo utilizadas por produtores
de tilápia na Ásia e em Israel. No Brasil ainda não há registro do
uso de vacinas na piscicultura, mas esta pode ser a mais eficaz
ação para reduzir a mortalidade crônica observada nos cultivos
intensivos de tilápia e mesmo de outras espécies de peixe.
tâncias que incrementam a resposta imunológica (geralmente a
imunidade não específica) dos animais. Em geral os imunoestimulantes promovem efeitos de probióticos, por melhorar a condição
de saúde dos animais. A adição de probióticos e imunoestimulantes nas rações pode contribuir com a melhora na sobrevivência e
desempenho dos peixes no cultivo e servir como ferramenta para
aliviar as mortalidades crônicas atribuídas a agentes infecciosos.
Diversos produtos têm sido avaliados como imunoestimulantes/
probióticos em peixes. No cultivo de tilápias, em particular, há
referências ao uso de substâncias como as peptidoglucanas, coquetéis de bactérias (geralmente contendo bactérias do gênero
Lactococcus), polissacarídeos (zimozana, escleroglucana entre
outros). Imunoestimulantes como o ascogen parecem potencializar a resposta imunológica em tilápia após a vacinação contra
Aeromonas hydrophila. Em salmonídeos, a substância levamisol
potenciou a resposta imunológica quando aplicado juntamente
com a vacina contra Aeromonas salmonicida.
Diversos produtos com propriedades imunoestimulantes e
probióticas já estão disponíveis no mercado. Como a administração
destes probióticos e imunoestimulantes geralmente é feita através dos
alimentos, aos fabricantes de rações cabe o papel decisivo de avaliar
(em parceria com produtores e instituições de pesquisa) e difundir
o uso de probióticos e imunoestimulantes como medida preventiva
para reduzir os problemas com doenças na piscicultura.
Uso de probióticos e imunoestimulantes
Atenção nos cultivos de tilápia em água salgada
Probióticos são compostos que melhoram o desempenho
produtivo e a condição, enquanto os imunoestimulantes são subs-
A exemplo do que ocorreu no Equador, a tilapicultura pode
ser uma alternativa para diversificação do cultivo em fazendas
Vacinação
22
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 2005
até o momento dedicadas exclusivamente
à produção do camarão marinho. Diante
desta perspectiva, aos carcinicultores que
agora enveredam na tilapicultura, recomendo atenção a algumas particularidades das
tilápias. As principais espécies e linhagens
de tilápia disponíveis no Brasil não toleram
cultivo em salinidades acima de 25ppt. As
que aparentemente parecem tolerar salinidades acima de 25ppt, ainda correm o risco
de não resistirem ao estresse adicional relacionado ao manejo, má qualidade da água,
infestações parasitárias ou à quedas bruscas na temperatura. Assim, esses animais
podem ficar extremamente vulneráveis à
doenças infecciosas e apresentar baixo desempenho e sobrevivência nos cultivos. Aos
candidatos a tilapicultores vale lembrar que
algumas linhagens de tilápias são particularmente sensíveis à infecções bacterianas
(notadamente à Streptococcose) quando a
temperatura da água se eleva demasiadamente (acima de 30oC). Essa susceptibilidade é acentuada pelo estresse adicional
devido ao adensamento e/ou deterioração da
qualidade da água nos cultivos intensivos.
Quando cultivadas em águas com salinidade de 15 a 30ppt se tornam ainda mais
susceptíveis à infecção por Streptococcus,
comparadas a tilápias cultivadas em água
doce. Aos carcinicultores da região Sul, saliento a importância de evitar o manuseio de
tilápias nos períodos de baixa temperatura
(<24oC) e os riscos de mortalidade que
pode ocorrer durante o inverno. Abaixo de
20oC o sistema imunológico das tilápias é
praticamente desativado, o que pode favorecer a ocorrência de doenças infecciosas,
agravada pela baixa resistência deste peixe
em águas de alta salinidade.
Tilápias se dão muito bem em viveiros escavados nos quais o produtor consegue manter adequado desenvolvimento do
fitoplâncton. Nestes ambientes elas crescem
rapidamente, apresentam eficiente conversão
alimentar e alta sobrevivência, resultando em
um competitivo custo de produção. A despesca, no entanto, pode ser extremamente
trabalhosa quando o fundo dos viveiros é
irregular e/ou não se conta com redes adequadas e estruturas auxiliares como caixas de
despescas nos viveiros. O sucesso do cultivo
nestes ambientes depende da habilidade do
produtor em manter um plâncton saudável,
servindo como uma fonte complementar de
alimento (nutrientes) e como agente saneador do ambiente. O plâncton cumpre papel
fundamental na oxigenação do ambiente e
na remoção de amônia e gás carbônico da
água de cultivo. Também promove o desenvolvimento de organismos benéficos (algas,
protozoários, rotíferos, microcrustáceos,
fungos e outros), que equilibram biologicamente o sistema, dificultando a proliferação
"Os produtores
devem adotar
práticas preventivas
para minimizar os
problemas sanitários
na piscicultura.
Além dos benefícios
econômicos com
o aumento na
sobrevivência
e melhora no
desempenho
produtivo dos
peixes, haverá
uma considerável
economia na
racionalização do
uso de produtos
terapêuticos."
exclusiva de organismos patogênicos. Em
viveiros escavados sem renovação de água
é recomendável manter o estoque de peixes
abaixo de 8.000kg/ha, mesmo com o uso de
aeradores, evitando assim problemas com a
qualidade da água que possam comprometer
o desempenho e a saúde das tilápias.
Considerações finais
O governo precisa ser mais ágil e
objetivo na implementação de um programa
de inspeção e controle sanitário dos materiais genéticos introduzidos no país para
aqüicultura. Além da exigência de atestado sanitário na procedência, o Ministério
da Agricultura deveria contar com pelo
menos um laboratório especializado em
diagnósticos ictiopatológicos para realizar
uma contra-prova dos animais mantidos
em instalações de quarentena. Se isso
não for possível, contar com a parceria de
laboratórios que hoje operam em algumas
universidades do país.
Os produtores devem adotar práticas
preventivas para minimizar os problemas sanitários na piscicultura. Além dos benefícios
econômicos com o aumento na sobrevivência e melhora no desempenho produtivo dos
peixes, haverá uma considerável economia
na racionalização do uso de produtos terapêuticos. Os fabricantes de rações devem ficar
atentos à evolução no uso de probióticos e
imunoestimulantes na aqüicultura e incorporar estes produtos às rações destinadas
ao cultivo intensivo de tilápias. Diversas
vacinas já disponíveis e usadas em outros
países devem ser rapidamente avaliadas e
introduzidas na rotina dos nossos cultivos.
Os patologistas no país devem direcionar
mais esforços no desenvolvimento de vacinas
com cepas locais de bactérias que hoje já têm
causado consideráveis perdas de tilápias em
nosso país, em particular o Streptococcus e a
Aeromonas. Nas pisciculturas de nosso país
há material biológico de sobra para iniciar os
trabalhos de isolamento destas bactérias e a
produção de vacinas.
Temos acesso a todos os avanços
tecnológicos na tilapicultura mundial, a pesquisa com tilápia nas universidades nacionais
tem avançado consideravelmente e estamos
cientes das patologias e episódios marcantes
de mortalidades de tilápia em diversos países.
Assim, não é concebível esperarmos por uma
fatalidade se podemos começar a agir agora.
Ou vamos ter um revés na tilapicultura semelhante ao que vem ocorrendo na carcinicultura
marinha? Técnicos, pesquisadores e governo
devem empenhar esforços para eliminar da
nossa aqüicultura o velho ditado: “em casa
de ferreiro, o espeto é de pau”.
As fotos deste artigo foram cedidas pelo autor.
Panorama da AQÜICULTURA, maio/junho, 2005
23
Panorama da AQÜICULTURA, setembro/outubro, 2005
1
Desafios para a consolidação da
tilapicultura no Brasil
Por:
Fernando Kubitza, Ph.D. - (Acqua & Imagem, Jundiaí-SP)
[email protected]
João Lorena Campos, M. Sc. - (Qualy Aqua, Dourados-MS)
[email protected]
A
tilapicultura no Brasil é ainda muito recente.
Para valer mesmo, os cultivos comerciais
tiveram início na década de 90 e somente se
intensificaram após 1995, impulsionados pela
crescente aceitação da tilápia nos pesque-pague
do Sul e Sudeste. No Nordeste do país, os cultivos
de tilápia somente se tornaram expressivos a partir
de 2000, com empreendimentos em tanquesrede em reservatórios no Rio São Francisco
(particularmente o de Xingó, que congrega áreas
de Alagoas, Bahia e Sergipe) e principalmente
nos açudes do Ceará. Recentemente, com exceção
dos estados da região norte do país, do Mato
Grosso e Rio Grande do Sul (devido a restrições
ambientais, e este último também por conta do
clima pouco favorável), os cultivos de tilápia
têm se multiplicado por todo o país. No entanto,
merecem destaque a criação em tanques-rede no
oeste do Estado de São Paulo, nos reservatórios
do Ceará e no Rio São Francisco, em áreas dos
estados de Sergipe, Bahia e Alagoas.
Apesar de não haver estatísticas oficiais, a
produção atual de tilápias cultivadas no Brasil
provavelmente supera 100.000 toneladas/ano.
Praticamente toda esta produção é destinada
ao mercado interno, o que adiciona pouco
mais que 0,5kg/ano no consumo per capita de
pescado do brasileiro. Parece pouco, mas 0,5kg
de tilápia sobre 6kg (média nacional per capita),
significa que quase 9% do consumo de pescado
do brasileiro é suprido pela tilápia. E o brasileiro
ainda pode e irá consumir muito mais tilápia do
que isso com a expansão do cultivo em diversas
regiões do país.
14
Panorama da AQÜICULTURA, setembro/outubro, 2005
Principais obstáculos à expansão da produção
Diversos obstáculos podem contribuir com o atraso no desenvolvimento da tilapicultura industrial no Brasil. Os principais, na
opinião dos autores, são discutidos a seguir.
Queda na taxa de câmbio
Em geral, os grandes empreendimentos dedicados à produção
de tilápia têm sua estratégia de comercialização amarrada à exportação.
Naturalmente, quando se pensa em comercializar grandes volumes, a
exportação para os Estados Unidos e Europa é o caminho mais fácil,
pois são mercados de demanda crescente e que pouco exigem na promoção do produto (poucas despesas com marketing e propaganda). No
entanto, a exportação da tilápia ainda é muito sensível às variações na
taxa de câmbio, como as que presenciamos no momento atual. A taxa
de câmbio atual (US$ 1,00 = R$ 2,30) compromete sensivelmente o
lucro das indústrias exportadoras, impedindo-as de aumentar os preços
pagos aos produtores. Salvo exceções em algumas regiões do país, os
tilapicultores têm trabalhado com margens muito apertadas, refreando
assim a expansão dos cultivos.
Mercado nacional pouco explorado
O mercado interno, de tamanho nada desprezível, é uma alternativa que somente agora começa a ser considerada. Os frigoríficos
precisam intensificar a oferta e a promoção da imagem dos produtos de
tilápia no mercado nacional, para que o crescimento do setor não fique
exclusivamente dependente da exportação. O consumidor brasileiro
ainda desconhece a tilápia, mas nos mercados onde produtos de boa
qualidade já tiveram penetração, a aceitação é muito boa e os preços
refletem o valor que os consumidores fazem do produto, aproximandose, e em vários casos superando, os preços obtidos na exportação.
Custo de produção ainda elevado
Os custos de produção ainda são altos devido à falta de economia de escala, tanto na produção quanto no processamento. Pontos
como o baixo nível tecnológico e a falta de associativismo e cooperação
entre os produtores também contribuem para o alto custo da produção.
Consideráveis perdas da produção ainda ocorre devido à ocorrência
de doenças, elevando consideravelmente os custos de produção (ver
artigo na Panorama da Aqüicultura, vol. 15 nº 89, p15-23, 2005).
As indústrias processadoras ainda não conseguem um aproveitamento integral da tilápia (filé e subprodutos, como a polpa, pele,
cabeça e resíduos do processo), levando à perdas de receita que
têm potencial para aumentar significativamente a rentabilidade
destes empreendimentos.
Falta de regulamentação quanto ao licenciamento ambiental
Obviamente que a dificuldade de obtenção do licenciamento ambiental desencoraja os investidores. A falta da licença
ambiental dificulta a concessão de crédito; coloca os cultivos sob
o risco constante de autuações e fechamento; e pode inviabilizar
o estabelecimento de contratos comerciais. Esta situação deve ser
abordada por todo o setor, pressionando por respostas rápidas e
educando os órgãos ambientais sobre as questões de real importância dentro da piscicultura.
Análise dos custos de produção e processamento
Visando demonstrar a situação atual dos produtores e
indústrias que estão processando tilápias no Brasil, são apresentadas neste artigo algumas análises sobre os custos de produção
e de processamento da tilápia, assim como sobre a rentabilidade
de empreendimentos comercializando os produtos de tilápia no
mercado interno e externo.
Custo de produção do filé
Diversos fatores interferem com o custo de produção do
filé, dentre eles, o preço pago pela tilápia viva, o rendimento do
processo, a escala de processamento da indústria, as particularidades específicas de cada empreendimento (investimento e custo
de capital, características do processo e do produto produzido,
embalagens, localização e logística, fretes, prestação de serviços,
carga tributária, entre muitas outras questões). Por sua vez, muitos
destes fatores ainda estão atrelados a inúmeras outras variáveis.
Assim, o custo de produção dos filés de tilápias pode ser o mais
variado entre os diferentes frigoríficos do país. No QUADRO 2
é apresentada uma análise de cenários, variando a margem paga
ao produtor (a partir de um custo de produção de R$ 2,20/kg da
tilápia viva) e de um custo de industrialização de R$ 2,00/kg de filé
(embalagem inclusa). Foi considerado na análise um rendimento
em filé de 29%. Praticando uma remuneração entre 10 e 20% ao
produtor, o custo de produção do filé fresco (FOB frigorífico) varia
entre R$ 9,40 e 11,30/kg.
QUADRO 2. Estimativa do custo do filé (FOB frigorífico) sob diferentes condições
de preço da tilápia viva (margem ao produtor) e custo de industrialização
Custo de produção da tilápia viva
A tilapicultura industrial está se expandindo principalmente
através do aumento dos empreendimentos de cultivos em tanquesrede nos reservatórios de diversos estados do país. Dessa forma,
nos limitaremos a apresentar aqui, de maneira direta e simplificada, os custos para este sistema de cultivo. No QUADRO 1 são
apresentadas estimativas do custo de produção para tilápias com
cerca de 1,0 kg, variando as condições de conversão alimentar e
de preço da ração (32% de PB). Foram mantidos constantes os
preços de juvenis, a sobrevivência no cultivo e a participação da
ração e alevinos no custo total de produção. Os empreendimentos
de cultivo de tilápias em tanques-rede geralmente estão produzindo peixes ao redor de 1,0 kg, quer seja para produção de filé para
exportação, quer para atender a exigência de mercados regionais.
Salvaguardadas as particularidades de alguns empreendimentos,
a área em azul no QUADRO 1 representa a faixa mais provável
de custo para a Região Nordeste do país (custo médio ao redor de
R$ 2,17/kg). A área em rosa representa os custos mais prováveis
para produtores na região Sudeste (custo médio ao redor de R$
2,31/kg). Vamos considerar um custo médio geral de R$ 2,20/kg
(praticamente US$ 1,00/kg no câmbio atual).
QUADRO 1. Estimativa do custo de produção de tilápias ao redor de 1,0 kg, em
tanques-rede em função da conversão alimentar e do preço da ração
Considerando as seguintes condições: juvenil de 20-30g a R$ 220,00/mil; sobrevivência de 90% até o final
do cultivo; o custo das rações e juvenis corresponde a 80% do custo total de produção.
Considerando as seguintes condições: rendimento no processamento de 29% em filés
Condições de preço que viabilizam a produção de filés de tilápia
Duas situações serão aqui apresentadas: a) frigorífico com
produção exclusiva de filé para o mercado interno e, b) frigorífico
com produção de filé exclusiva para exportação. Apesar de os filés
destinados ao mercado interno possibilitarem maior rendimento de
carne, para fins de simplicidade na comparação entre estas duas
situações foram mantidas as mesmas condições de rendimento de
filé (29%) e de qualidade do produto.
O índice de escolha para a avaliação da viabilidade econômica do empreendimento foi a Taxa Interna de Retorno (TIR). Em
simples palavras, a TIR corresponde à taxa de juros que o dinheiro
investido no empreendimento deverá render ao investidor. A TIR
de um empreendimento pode ser comparada tanto à taxa de juros
anual do mercado ou a TIR de outras opções de investimento,
como a aplicação do dinheiro no mercado de ações, em ouro, em
dólar, investimentos no mercado imobiliário e outros potenciais
investimentos (agricultura, pecuária, comércio, etc). Atualmente,
por exemplo, a taxa anual de juros no Brasil é de cerca de 20%.
Assim, se a análise do fluxo de caixa anual de um frigorífico durante um determinado período de tempo (por exemplo, 10 anos)
resultar em TIR de 20%, o empreendimento não adicionou nada
ao patrimônio dos investidores. Se a TIR for menor que 20%, os
investidores perderam patrimônio (dinheiro) com o investimento.
Se for maior que 20%, o patrimônio dos investidores aumentou.
Se o empreendimento frigorífico for comparado com outra opção
de investimento que conhecidamente resulta em taxa interna de
retorno de 40%, o investimento no frigorífico somente seria atrativo
se a sua TIR fosse maior do que 40%.
Panorama da AQÜICULTURA, setembro/outubro, 2005
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Nos QUADROS 3 e 4 são apresentados os valores da TIR
para frigoríficos que processam tilápia sob diferentes cenários,
combinando preço pago ao produtor pela tilápia viva e preço de
venda do filé, conforme representado pelas seguintes cores:
QUADRO 4. EXPORTAÇÃO - Taxa interna de retorno (TIR) para frigorífico para
exportação de filés. Não há aproveitamento de nenhum subproduto.
·Azul claro – cenários com TIR igual ou maior a 40%;
·Branco - cenários com TIR entre 30 e 40%;
·Amarelo - cenários com TIR entre 20 e 30%;
·Rosa – cenários com TIR igual ou menor a 20%.
Mercado interno
No QUADRO 3, considerando um preço de venda de R$
12,00 o quilo, a TIR para o empreendimento utilizado no exemplo
pode variar de 20 a 34% para preços de aquisição da tilápia viva entre R$ 2,86 e 2,20/kg, respectivamente. Observe que a TIR diminui
com o aumento na margem paga ao produtor e com a redução no
preço médio de venda do filé. Assim, as combinações que resultam
em prejuízo ao investidor (áreas marcadas em rosa) se concentram
no canto superior direito do quadro. No canto inferior esquerdo
estão as combinações mais lucrativas (margem baixa ao produtor
e altos preços de venda). Para operar sem prejuízo, toda vez que o
preço de venda cai o frigorífico tende a pagar menos ao produtor.
A via inversa também deve valer, para compensar os períodos de
déficit e manter a sustentabilidade da industria como um todo.
QUADRO 3. MERCADO INTERNO - Taxa interna de retorno (TIR) para frigorífico com
vendas voltadas exclusivamente ao mercado interno. Único produto aproveitado
é o filé. Não há aproveitamento de nenhum subproduto.
Condições base:
· Preço venda do filé CIF: R$ 12,00/kg
· Aquisição da tilápia viva: variável, entre R$ 2,20 a 2,86/kg
· Custo de industrialização e distribuição: inicia em R$ 2,70/kg e declina progressivamente com o aumento
na escala de produção do frigorífico, chegando a R$ 1,85/kg;
· Investimento total no frigorífico: R$ 6 milhões;
· Volume de processamento: inicialmente com 600 toneladas de filé/ano e aumento de 30% ao ano,
estabilizando a partir do 5º ano com produção de 1.714 toneladas de filé/ano;
· Impostos sobre o lucro real: PIS, COFINS, CSSL e IR que juntos somam 34,6%.
As condições são as mesmas apresentadas no QUADRO 3, alterando apenas o seguinte:
· Preço venda do filé fresco CIF: US$ 6,00/kg
· Taxa de câmbio: US$ 1,00 = R$ 2,30
· Custo de industrialização e frete aéreo (filé fresco): inicia em R$ 5,45/kg e declina progressivamente com
o aumento na escala de produção do frigorífico, chegando a R$ 3,74/kg;
· A exportação é isenta PIS, COFINS e CSSL. Apenas foi aplicado IR de 15% sobre o lucro real.
· ND – a TIR não pode ser determinada
O incremento da rentabilidade com a polpa congelada (CMS)
O aproveitamento da polpa (CMS) - subproduto extraído da carcaça resultante do processo de filetagem - é uma
alternativa muito interessante para melhorar a rentabilidade da
operação e ainda contribuir com a diminuição na quantidade
de resíduos produzidos na indústria. No GRÁFICO 1 são apresentadas as curvas da TIR para empreendimentos voltados à
exportação ou ao mercado interno, que comercializam ou não a
polpa congelada obtida a partir do resíduo da filetagem (carne
aderida ao esqueleto). Foram mantidas as mesmas condições de
operação dos exemplos anteriores. A margem de remuneração
ao produtor foi de 20%, ou seja, o preço de aquisição da tilápia
viva foi de R$ 2,64/kg. Nas análises aqui apresentadas foram
considerados: rendimento de polpa de 14% sobre o peso da
tilápia viva; custo de industrialização de R$ 0,50/kg e, preço
de venda de R$ 3,20/kg para a polpa congelada.
GRÁFICO 1 - Taxa interna de retorno - Exportação vs Mercado Nacional
Preço venda do filé x aproveitamento ou não da polpa
Para as condições de escala da análise apresentada no
QUADRO 3, preços de venda do filé iguais ou maiores que R$
12,60/kg resultam em TIR acima de 30% com boas margens
aos produtores.
Exportação
No QUADRO 4, com o preço de venda de US$ 6,00/kg,
a TIR para o empreendimento varia de 15 a 33%, adquirindo a
tilápia viva entre R$ 2,86 e 2,20/kg, respectivamente. Para as
condições de escala da análise e na atual condição, pode ser
observado no QUADRO 4, que os preços de filés frescos para
exportação devem ser superiores a US$ 6,00 para que os frigoríficos obtenham TIR acima de 30% e mantenham adequada
remuneração aos produtores.
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Panorama da AQÜICULTURA, setembro/outubro, 2005
Condições base:
· Para o filé destinado ao mercado nacional os preços CIF foram de R$ 10,20; 10,80; 11,40;
12,00; 12,60; 13,20 e 13,80/kg;
· Os preços CIF do filé exportação (em US$/kg) foram de US$ 4,80; 5,10; 5,40; 5,70; 6,00;
6,60 e 7,20/kg de filé, algo próximo de equivalente a R$ 11,00; 11,70; 12,40; 13,10; 13,80;
15,20 e 16,60/kg;
· Margem ao produtor: 20% (Preço de R$ 2,64/kg de tilápia viva);
· Custo de industrialização e distribuição do filé fresco foi de R$ 2,70 a 1,85/kg para mercado
nacional e de R$ 5,45 a 3,74/kg para a exportação;
· Investimento no frigorífico: R$ 6 milhões;
· Volume de processamento: inicialmente com 600 toneladas de filé/ano; aumento de 30%
anualmente até 5º ano; e estabiliza a partir daí em 1.714 toneladas de filé/ano;
· Câmbio: US$ = R$ 2,30/kg;
· Aproveitamento da polpa e preço: 14% sobre o peso da tilápia inteira; industrialização a um
custo de R$ 0,50/kg; e preço médio de venda de R$ 3,20/kg.
Com base na análise apresentada no GRÁFICO 1, sem
o aproveitamento da polpa, o preço médio de venda do filé que
assegura ao empreendimento uma TIR de pelo menos 30% foi
próximo de R$ 12,70/kg para vendas no mercado nacional e de
US$ 6,40/kg para a exportação. Com o aproveitamento da polpa,
estes preços foram ao redor de R$ 11,40/kg para o mercado nacional e próximo de US$ 6,15/kg para exportação, na condição
atual de câmbio.
No QUADRO 5 é apresentada uma análise comparativa
do mesmo empreendimento, sendo fixado os preços de venda
para o filé e com a compra da matéria-prima remunerando o produtor em 20% (R$ 2,64/kg de tilápia viva). Foram utilizadas as
mesmas bases usadas para elaborar o GRÁFICO 1. Observe que
os valores da TIR sem aproveitamento da polpa foram próximos
de 25% para o mercado nacional e 21% para exportação. Com
o aproveitamento da polpa estes valores da TIR foram elevados
para 34% e 26%, respectivamente. O aproveitamento da polpa
adicionou uma margem de lucro próxima de R$ 0,85/kg de filé
no mercado interno e R$ 0,40/kg de filé para exportação. Note
também os valores de VPL (valor presente líquido) dos empreendimentos, calculado com uma taxa mínima requerida de 20%
ao ano e com um período de análise de 10 anos. O VPL indica o
aumento esperado no valor do patrimônio do empreendedor com
a operação do empreendimento durante o período de análises
especificado. O aproveitamento da polpa eleva significativamente o VPL dos empreendimentos.
QUADRO 5. Comparação entre os valores da taxa interna de retorno (TIR) para
frigorífico dedicado exclusivamente ao mercado nacional ou à exportação, com ou
sem aproveitamento e comercialização da polpa (US$ = R$ 2,30)
OBS: para fins de comparação no custo do filé CIF já foram inclusos impostos. No
caso da exportação: apenas IR sobre lucro real (15%); No mercado nacional: PIS,
COFINS, CSSL e IR sobre o lucro real, que somam 34,6%
"As atuais circunstâncias de
câmbio desfavorável e mercado
nacional pouco explorado, fazem com
que os preços ofertados pelos
frigoríficos aos criadores sejam pouco
atrativos para promover uma rápida
expansão na produção"
Os frigoríficos instalados no país estão ávidos por produtos
para aumentar rapidamente sua escala de produção e assim reduzir custos e melhorar as margens de lucro. No entanto, as atuais
circunstâncias de câmbio desfavorável e mercado nacional pouco
explorado, fazem com que os preços ofertados pelos frigoríficos
aos criadores sejam pouco atrativos para promover uma rápida
expansão na produção. Uma alternativa para isso seria a oferta de
crédito específico para investimento e capital de giro a taxas de juro
altamente atrativas para que os produtores expandam seus cultivos
e, assim, alcancem economias de escala para reduzir os custos de
produção. Deste modo os frigoríficos poderão aumentar o volume
de processamento, reduzir custos e remunerar melhor o produtor.
A variação no câmbio
A taxa de câmbio é fator decisivo na viabilidade de um frigorífico que exporta filés de tilápia. No QUADRO 7 é apresentada uma
análise do impacto da taxa de câmbio e da margem paga ao produtor
sobre a TIR do frigorífico do exemplo usado neste artigo. Observe
que, mantendo constante o preço de venda em dólar, a medida que
a taxa de câmbio declina, a margem ofertada ao produtor tem que
ser reduzida para manter a TIR acima da taxa mínima requerida
(vamos supor 30%). Neste exemplo, com o dólar a R$ 2,30, somente
é possível obter TIR acima de 30% ofertando no máximo 5% de
margem ao produtor. Já com câmbio a R$ 2,50, a TIR de 30% pode
ser obtida remunerando o produtor próximo a 20%.
QUADRO 7. Exportação - Taxa interna de retorno (TIR) para frigorífico com vendas
voltadas exclusivamente à exportação de filés. Não há aproveitamento de nenhum
subproduto
A influência do volume de produção
A rentabilidade dos frigoríficos, sob as condições aqui
apresentadas, é extremamente dependente do aumento no volume
do processamento, que foi de 30% ao ano, estabilizando ao redor
de 1.700 toneladas de filé/ano a partir do 5º ano. Caso a produção
aumente apenas 14% ao ano e se estabilize ao redor de 1.000 toneladas de filé/ano a partir do 5º ano, a TIR cai para valores que
inviabilizam economicamente o empreendimento (QUADRO 6).
QUADRO 6. Comparação dos valores da taxa interna de retorno (TIR) para produção
de filés para o mercado nacional ou exportação, com ou sem aproveitamento da
polpa e sob dois níveis de produção anual
Condições de análise semelhantes às utilizadas para compor a análise do GRÁFICO 1 e o QUADRO
5. Compra da matéria-prima a R$ 2,64/kg (20% de margem ao produtor); Produção estabiliza
a partir do 5º ano em 1.000 t/ano ou em 1.700 t/ano.
Condições base: são as mesmas usadas no QUADRO 4
Observe no QUADRO 8 que o aproveitamento e comercialização da polpa eleva a TIR do empreendimento. Isso assegura
adequada rentabilidade mesmo sob baixas taxas de câmbio. Por
exemplo, com o dólar a R$ 2,30 e uma margem ao produtor de
20%, a TIR com o aproveitamento da polpa foi de 30% contra 21%
para o empreendimento sem este aproveitamento.
Panorama da AQÜICULTURA, setembro/outubro, 2005
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Aumento no rendimento de filé no processo
"O glaciamento tem uma
importante função na proteção do
filé contra a desidratação, através
da formação de uma camada fina
de gelo sobre o produto. Assim,
o glaciamento pode adicionar
peso considerável ao produto,
aumentando margem de lucro do
atacadista ou frigorífico"
QUADRO 8. Exportação - Taxa interna de retorno (TIR) de frigorífico para exportação
de filés, com ou sem o aproveitamento de polpa, remunerando o produtor com
margens de 10, 20 ou 30% e sob diferentes taxas de câmbio.
Condições base semelhantes às especificadas nos QUADROS 4 e 6
A aplicação do glaciamento (glazing)
Outra importante consideração a ser feita diz respeito ao
mercado de pescado congelado no Brasil ser marcado por produtos
com glaciamento (glazing). Esse glaciamento tem uma importante
função na proteção do filé contra a desidratação, através da formação de uma camada fina de gelo sobre o produto. Assim, o glaciamento pode adicionar peso considerável ao produto, aumentando
margem de lucro do atacadista ou frigorífico. Tal prática não foi
considerada nas análises acima. No QUADRO 9 são comparados
cenários com venda de filés congelados no mercado interno, sem
ou com a aplicação de um glaciamento de 10%. Esse ganho de
peso no filé adiciona quase 3% no rendimento da filetagem (de 29
para 32%). Foram usadas as mesmas condições da análise feita
nos QUADROS 5 e 6, com o preço da tilápia viva em R$ 2,64/kg.
Observe a elevação na TIR com a aplicação do glaciamento, assim
como a elevação no VPL (valor presente líquído do projeto), calculado com uma taxa mínima requerida de 20% ao ano e com um
período de análise de 10 anos. O VPL indica o aumento esperado
no valor do patrimônio do empreendedor com a implantação do
empreendimento.
QUADRO 9. Comparação entre os valores da taxa interna de retorno (TIR)
para filé congelado para o mercado nacional com ou sem aproveitamento
da polpa ou glazing
Acabamos de verificar que 10% de aumento de peso no
filé através do glaciamento equivale a um aumento de 3% no
rendimento da filetagem. E esses 3% de aumento resultaram
em elevação nominal de 4 a 5% na TIR dos empreendimentos
do exemplo do QUADRO 9. Isso nos mostra a importância
de buscar sempre que possível uma maior eficiência no rendimento de filé. Para exportação, a retirada da pele do filé
é feita com um corte mais profundo (deep skin) entre a pele
e o filé, de modo que o filé não fique com sua linha central
muito escura ou vermelha. Além disso, são feitos recortes
mais profundos na zona da barriga e no pedúnculo caudal,
para dar um melhor acabamento ao filé. Assim, o rendimento
na filetagem cai para 29 a 30%.
Para alguns mercados, é possível ajustar o skinner
(equipamento que retira a pele) para fazer um corte mais
rente a pele, e também fazer um recorte menos intenso no
acabamento do filé, elevando o rendimento para 32 a 33%.
Importante também é efetuar um treinamento específico,
uma seleção bastante rigorosa e o monitoramento constante
do rendimento de cada funcionário da linha de filetagem.
Também não deve ser subestimado o efeito da qualidade do
peixe adquirido no aproveitamento do filé.
Peixes que foram mal nutridos geralmente apresentam
a musculatura lombar menos desenvolvida e rendem menos
em filé. Peixes com grande acúmulo de gordura visceral (seja
por um desbalanço nutricional na ração ou por um inadequado
manejo alimentar) resultam em maiores quebras no processamento e menor rendimento em filé por quilo.
A indústria como um todo também deve se preocupar
em identificar ou desenvolver material genético que resulte
em melhor rendimento de filé. Isso deve passar pela avaliação
de linhagens já existentes no Brasil e no exterior, bem como
pelo desenvolvimento de linhagens nacionais com maior aptidão para rendimento de filé, mantendo ao mesmo tempo as
características de crescimento, de conversão alimentar e de
resistência ao manejo e às doenças necessárias aos cultivos
industriais.
O que precisa ser feito?
Não há mais dúvidas de que a consolidação da tilapicultura industrial no Brasil já é um processo em andamento.
No entanto, os empresários do setor (produção e indústria)
devem ficar atentos aos seguintes pontos/necessidades:
• Aumento na escala de cultivo e industrialização
buscando atingir economias de escala, otimizando o
aproveitamento das unidades de produção;
• Melhorar as condições de crédito para investimento
e custeio para empreendimentos de médio e grande
porte, algo hoje muito difícil com a alta taxa de juros
no mercado. Uma política de crédito específica para
o setor com taxa de juros mais atrativa possibilitaria
um rápido aumento na produção e na oferta de tilápia
aos frigoríficos;
• Manutenção da qualidade dos produtos. A indústria
como um todo deve estar conforme com as exigências
dos mercados e consumidores quanto às qualidades orPanorama da AQÜICULTURA, setembro/outubro, 2005
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