Augusto César da Silva
A CONSTRUÇÃO DA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS NA
POLÍCIA MILITAR DE SANTA CATARINA: UM CAMINHO
PARA A AUTONOMIA E A ALTERIDADE NO CONVÍVIO
SOCIAL
Dissertação
submetida
ao
Programa de Pós-Graduação em
Direito da Universidade Federal de
Santa Catarina para a obtenção do
Grau de Mestre em Direito
Orientador: Prof. Dr. Orides
Mezzaroba
Florianópolis
2014
Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor,
através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.
Silva, Augusto César da
A construção da mediação de conflitos na polícia militar
de santa catarina: um caminho para a autonomia e a
alteridade no convívio social / Augusto César da Silva ;
orientador, Prof. Dr. Orides Mezzaroba - Florianópolis,
SC, 2014.
190 p.
- Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de
Ciências Jurídicas. Programa de Pós-Graduação em Direito.
Inclui referências
1. Direito. 2. Mediação de conflitos. 3. Segurança
Pública. 4. Polícia Militar. I. Mezzaroba, Prof. Dr. Orides
. II. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de
Pós-Graduação em Direito. III. Título.
Augusto César da Silva
A CONSTRUÇÃO DA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS NA
POLÍCIA MILITAR DE SANTA CATARINA: UM CAMINHO
PARA A AUTONOMIA E A ALTERIDADE NO CONVÍVIO
SOCIAL
Esta Dissertação foi julgada adequada para obtenção do Título
de “Mestre”, e aprovada em sua forma final pelo Programa de
Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa
Catarina.
Florianópolis, 03 de julho de 2014.
________________________
Prof. Luiz Otávio Pimentel, Dr.
Coordenador do Curso
Banca Examinadora:
________________________
Prof. Orides Mezzaroba, Dr.
Orientador
Universidade Federal de Santa Catarina
________________________
Prof. Ildemar Egger, Dr.
Universidade Federal de Santa Catarina
____________________________________________
Prof. Cláudio Eduardo Regis de Figueiredo e Silva, Dr.
Tribunal de Justiça de Santa Catarina
________________________
Prof. Jorge Eduardo Tasca, Dr.
Polícia Militar de Santa Catarina
A Raquel, minha esposa querida,
por toda a paciência, compreensão
e apoio fornecidos durante a
realização deste trabalho.
AGRADECIMENTOS
À Policia Militar de Santa Catarina, por ter de muitas
formas possibilitado a realização desta pesquisa, na pessoa do
meu atual comandante direto, Tenente Coronel PM Renato José
de Souza, Comandante do Centro de Formação e
Aperfeiçoamento de Praças.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Orides Mezzaroba, por ter
compartilhado a sua grandiosidade de conhecimentos e por suas
intervenções certeiras na construção deste trabalho.
Aos membros da banca de defesa, Dr. Ildemar Egger, Dr.
Cláudio Eduardo Regis de Figueiredo e Silva e Dr. Jorge
Eduardo Tasca, por emprestarem um pouco de suas sabedorias
nas valiosas contribuições a este estudo.
Aos professores Dr. Luiz Otávio Pimentel, Dr. Horácio
Wanderley Rodrigues, Dr. Luiz Henrique Urquhart Cademartori e
Dr. Vera Regina Pereira de Andrade, pelo convívio e
oportunidade de aprendizado nas disciplinas ministradas e
também nos momentos vividos extraclasse.
Ao Fundo de Apoio à Manutenção e ao Desenvolvimento
da Educação Superior - FUMDES/SC, pelo apoio e
financiamento a esta pesquisa.
A todos os meus colegas de trabalho no Centro de Ensino
da Polícia Militar, especialmente aos Tenentes, por terem
absorvido o acúmulo de atividades ocorridas nos eventuais
momentos em que estive ausente para me dedicar a esta
pesquisa.
As amigas e bibliotecárias do Centro de Ensino da Polícia
Militar, Ana e Inês, que sempre me apoiaram e me auxiliaram
desde o processo seletivo para o ingresso no PPGD/UFSC até a
conclusão desta etapa da vida acadêmica.
A todas as demais pessoas que nestes últimos dois anos
cruzaram os seus caminhos com o meu e, direta ou
indiretamente, contribuíram para eu chegasse até este momento
de minha vida.
[...] Agora vejo em parte / Mas então veremos
face a face / É só o amor! É só o amor / Que
conhece o que é verdade [...]
(Renato Russo/Legião Urbana, 1989)
RESUMO
O presente trabalho versa sobre o processo de construção de um
modelo de mediação de conflitos a ser realizado pela Polícia
Militar de Santa Catarina. Para tanto, promoveu-se o estudo
sobre o Estado, sua origem e suas funções. Analisou-se a
segurança como uma das atribuições estatais e a atuação dos
órgãos policiais nesta tarefa. Na sequência, abordou-se a teoria
sobre meios alternativos de resolução de conflitos e sobre a
mediação de conflitos. Por fim, apresentou-se o processo de
criação e implantação da mediação de conflitos pela Polícia
Militar de Santa Catarina, analisando-se as atividades realizadas
no Juizado Especial Criminal do Fórum de Joinville, já em
execução, e traçando-se algumas reflexões sobre o Núcleo de
Mediação a ser criado na Polícia Militar no mês de abril de 2014.
Palavras-chave: Mediação de conflitos. Segurança Pública.
Polícia Militar.
ABSTRACT
This paper deals about the process of building a model conflict
mediation to be realized by the Military Police of Santa Catarina.
For this, we promoted the study of the State, its origins and
functions. Was analyzed the security of the state as an
assignment and performance of law enforcement agencies in this
task. Following, addressed the theory of alternative means of
resolving conflict and conflict mediation. Finally, was presented
the process of creation and implementation of conflict mediation
by the Military Police of Santa Catarina, analyzing the activities
performed in the Special Criminal Court of Joinville Forum,
already running, and by drawing some reflections on the Center
for Mediation to be created in the Military Police in April 2014.
Keywords: Conflict mediation. Public Safety. Military Police.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ADR
CNJ
CONIMA
JECRIM
NUME/PMSC
OPM
PM
PMSC
PROERD
RPM
SENASP
SSP
SISP
TC
TJSC
Resolução Alternativa de Conflitos
Conselho Nacional de Justiça
Conselho Nacional das Instituições de Mediação
e Arbitragem
Juizado Especial Criminal
Núcleo de Mediação da Polícia Militar
Organização Policial Militar
Polícia Militar
Polícia Militar de Santa Catarina
Programa Educacional de Resistência às
Drogas
Região de Polícia Militar
Secretaria Nacional de Segurança Pública
Secretaria de Segurança Pública
Sistema Integrado de Segurança Pública
Termo Circunstanciado
Tribunal de Justiça de Santa Catarina
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................ 19
1 ASPECTOS DO ESTADO INERENTES AO PROVIMENTO DA
SEGURANÇA PÚBLICA ............................................................ 25
1.1 A SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL: ASPECTOS PARA A
ATIVIDADE DE POLÍCIA ............................................................ 36
1.2 A SEGURANÇA PÚBLICA NA CONSTITUIÇÃO DA
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL E OS ELEMENTOS DA
ATIVIDADE DE POLÍCIA MILITAR ............................................. 43
1.2.1 A questão da ordem pública: manutenção, preservação
e os elementos constitutivos da ordem ................................. 46
1.2.2 Polícia Ostensiva: conjunto de competências para atuar
na preservação da ordem pública ........................................... 53
1.2.3 Segurança e Cidadania: reflexões para a construção de
uma atividade de polícia cidadã .............................................. 57
2 A QUESTÃO DA POLÍCIA NA CONSECUÇÃO DA
SEGURANÇA PÚBLICA: DO PROCESSO HISTÓRICO DE
FORMAÇÃO DA POLÍCIA MODERNA À POLÍCIA MILITAR DE
SANTA CATARINA .................................................................... 63
2.1 A FORMAÇÃO DO MODELO ANGLO-SAXÃO DE POLÍCIA:
BASES DE UMA POLÍCIA CIVIL E DE PROXIMIDADE ............ 64
2.2 O MODELO LATINO DE POLÍCIA: BASES PARA A
FORMAÇÃO DAS POLÍCIAS MILITARES ................................. 69
2.3 O PROCESSO DE FORMAÇÃO DA POLÍCIA NO BRASIL E
EM SANTA CATARINA ............................................................... 73
2.4 A POLÍCIA MILITAR EM SANTA CATARINA E A
SEGURANÇA PÚBLICA ............................................................. 76
2.4.1 A prevenção na atividade de polícia militar de
segurança pública: níveis e tipos de prevenção ................... 83
2.4.2 A Polícia Comunitária como ambiente para a realização
da mediação policial militar de conflitos ................................ 86
2.4.3 O Termo Circunstanciado: inovação na gestão da
segurança pública e diferencial no modelo de mediação em
construção na PMSC ................................................................ 88
2.4.4 Ação penal e processo penal na segurança pública: os
desdobramentos jurídicos da atividade de polícia militar ... 90
3 MEIOS ALTERNATIVOS DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS:
CONSTRUÇÃO DAS BASES PARA A DISCUSSÃO SOBRE A
MEDIAÇÃO DE CONFLITOS REALIZADA PELA POLÍCIA
MILITAR DE SANTA CATARINA .............................................. 93
3.1 COMPREENSÃO DOS ELEMENTOS NECESSÁRIOS À
IMPLEMENTAÇÃO DA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS NA PMSC
..................................................................................................... 97
3.2 O PAPEL DO CONFLITO NA SEGURANÇA PÚBLICA: AS
RELAÇÕES ENTRE OS SUJEITOS E A POLÍCIA MILITAR ... 102
3.3 MODELOS ADEQUADOS À NOVA PROPOSTA POLICIAL
DE MEDIAÇÃO PENAL ............................................................ 108
3.4, O MEDIADOR POLICIAL OU O POLICIAL MEDIADOR? 112
3.5 JUSTIÇA RESTAURATIVA: UMA NOVA PERSPECTIVA
SOBRE A ATIVIDADE POLICIAL MILITAR ............................. 114
4 O PROCESSO DE CRIAÇÃO E IMPLANTAÇÃO DA
MEDIAÇÃO DE CONFLITOS PELA POLÍCIA MILITAR DE
SANTA CATARINA .................................................................. 119
4.1 ASPECTOS A SEREM CONSIDERADOS NA MEDIAÇÃO
POLICIAL MILITAR DE CONFLITOS ....................................... 120
4.2 O PROCESSO DE IMPLANTAÇÃO DA MEDIAÇÃO DE
CONFLITOS NA 5ª REGIÃO DE POLÍCIA MILITAR EM
JOINVILLE/SC .......................................................................... 124
4.3 A MEDIAÇÃO POLICIAL MILITAR REALIZADA NO JUIZADO
ESPECIAL CRIMINAL DE JOINVILLE ..................................... 128
4.3.1 A construção da mediação policial militar em Joinville
................................................................................................... 128
4.3.2 O modelo de mediação de conflitos aplicado na 5ª RPM
................................................................................................... 130
4.3.3 A prática da mediação policial militar no Fórum de
Joinville .................................................................................... 132
4.4 A CRIAÇÃO DO NÚCLEO DE MEDIAÇÃO DA POLÍCIA
MILITAR DE SANTA CATARINA - NUME/PMSC .................... 135
4.4.1 A concepção do Núcleo de Mediação da Polícia Militar
de Santa Catarina em Joinville .............................................. 137
4.4.2 O funcionamento do Núcleo de Mediação da Polícia
Militar de Santa Catarina ........................................................ 138
4.5 REFLEXÕES PARA ALÉM DA MEDIAÇÃO POLICIAL
MILITAR..................................................................................... 146
CONCLUSÃO ........................................................................... 149
REFERÊNCIAS ......................................................................... 153
ANEXO I - NOTA DE INSTRUÇÃO Nº 01/5ªRPM/13, DE 02 DE
ABRIL DE 2013......................................................................... 165
ANEXO II - OFÍCIO S/N. /5ªRPM/2013, DATADO DE 19 DE
ABRIL DE 2013, EXPEDIDO PELO CORONEL PM ROGÉRIO
RODRIGUES - COMANDANTE DA 5ª RPM. .......................... 175
ANEXO III - PORTARIA N. 517/PMSC/2013, DE 23 DE MAIO
DE 2013 ..................................................................................... 177
ANEXO IV - PORTARIA N. 01/5ª RPM/2013, DE 25 DE MAIO
DE 2013 ..................................................................................... 179
ANEXO V - CERTIDÃO DO PROCESSO Nº 5120602013.8/TJSC ............................................................................. 183
ANEXO VI - PORTARIA N. 08/2013, DO JUIZADO ESPECIAL
CRIMINAL E DELITOS DE TRÂNSITO DA COMARCA DE
JOINVILLE ................................................................................ 185
19
INTRODUÇÃO
O convívio entre os indivíduos em uma sociedade parece
estar cada vez mais complexo e difícil, e no caso da sociedade
brasileira não é diferente. Ao mesmo tempo em que as
interações virtuais se expandem, as interações reais se reduzem.
As pessoas já não estabelecem relações de convívio e
cordialidade uns com os outros.
As relações sociais, no Brasil, são reflexos de um contexto
maior, de um mundo mercantilizado e globalizado. O mundo
neoliberal, capitalizado, estimula a competição, a disputa, o
individualismo. Neste mundo, há cada vez menos espaço para as
subjetividades dos indivíduos e para as relações entre estes
indivíduos.
As pessoas têm dificuldades em conversar, em expor suas
idéias e sentimentos. Uma informação mal interpretada pode ser
encarada como um ataque ou uma ofensa, enquanto a falta de
diálogo não permite desfazer esta situação. Divergências banais,
do cotidiano social, tomam proporções catastróficas. O conflito,
inerente ao convívio humano em sociedade, assume dimensões
caóticas. A inabilidade e incapacidade de gerir e resolver os
conflitos motiva, algumas vezes, formas violentas e criminosas
de extravasar os sentimentos ou de defender-se do outro.
A percepção de si mesmo e do outro, em um exercício de
alteridade há muito está prejudicada. A falta de empatia, as
deficiências na auto-percepção e na percepção do outro,
inviabilizam a vivência do conflito em suas possibilidades
positivas de conhecimento e crescimento. Restam, via de regra,
os aspectos negativos do conflito, marcados por disputas,
vinganças e revanchismos, violências e práticas criminosas.
Muitos destes conflitos mal geridos acabam chegando ao
conhecimento do Estado, o qual avoca para si a resolução dos
mesmos. Grosso modo, pode-se indicar a divisão dos conflitos
em duas naturezas: conflitos de natureza civil e conflitos de
natureza penal. Aqueles de natureza civil, como família, direitos
autorais, limites de terras, danos morais e materiais, trabalhistas,
entre outros, tradicionalmente, são jurisdicionalizados e
conduzidos pelo Poder Judiciário. Nestes casos existe a disputa
judicial, mas não existe, em tese, o cometimento de crimes. Já
nos conflitos de natureza penal, em que existe um risco à vida,
ao patrimônio ou à ordem pública, o Estado também intervém,
20
porém, inicialmente, através dos órgãos policiais, para o posterior
encaminhamento à justiça penal.
Seja de uma forma ou de outra, o Estado ao tutelar os
conflitos no convívio social, dentro do modelo "tradicional", busca
assentar os efeitos do conflito na consecução do acordo. Neste
modelo, frequentemente, uma parte ganha e outra perde. O
Estado resolve a "questão/lide", mas não atua na sua origem, ou
seja, o conflito entre as partes não é tratado e continua existindo.
Sensíveis a este quadro de não resolução da causa do
conflito, associado à consciência da morosidade do processo
judicial tradicional, surgiram iniciativas para administrar os
conflitos de forma alternativa. A Escola de Harvard é considerada
a pioneira nos estudos das Resoluções Alternativas de Conflitos
(ADR). Estas teorias se expandiram para diversos países e
também chegaram até o Brasil.
No Brasil, lentamente foram introduzidas formas
alternativas de resolução de conflitos, como forma de não
jurisdicioná-los e assim desafogar um pouco o Poder Judiciário e
tentar promover maior agilidade e rapidez aos anseios dos
cidadãos. Ao mesmo tempo em que o Judiciário reconheceu a
adoção de alguns meios alternativos para gestão de conflitos,
principalmente a conciliação, extra-judicialmente desenvolveramse outras formas alternativas de administração dos conflitos,
como a mediação e a arbitragem, além da conciliação, e
realizáveis em diversos ambientes, como centros comunitários,
igrejas, condomínios, escolas ou universidades.
Existem, basicamente, três concepções acerca do conflito:
algo negativo, que deve ser evitado; algo inerente ao ser humano
e que deve aceito; ou algo positivo, que deve ser estimulado.
Para a segurança pública, o conflito representa um crime em
potencial e, por isto, merece atenção especial. Normalmente os
órgãos policiais são absorvidos pela constante demanda de
crimes "em andamento" e são obrigados a atuar nos efeitos dos
conflitos. Poucas experiências foram realizadas sobre a
prevenção criminal através da gestão dos conflitos.
Vislumbrando uma nova forma de atuação, dentro de sua
atribuição de polícia ostensiva e preservação da ordem pública,
buscando atuar com a sociedade e para a sociedade, dentro de
uma filosofia de polícia comunitária, a Polícia Militar de Santa
Catarina iniciou um projeto de implantação da mediação policial
de conflitos. A Instituição, assim, busca na mediação de conflitos
21
mais uma estratégia para realizar a prevenção criminal,
estimulando o diálogo e a autonomia do cidadão.
A mediação policial de conflitos está em fase de
implantação na Polícia Militar de Santa Catarina e este processo
será analisado ao longo deste trabalho. Para tanto, a pesquisa foi
estruturada em um capítulo que aborda o Estado, sua concepção
e teorias, bem como a função de segurança devida por este
Estado. O capítulo seguinte estuda a origem da polícia, sua
história no Brasil até o atual momento das polícias militares e em
especial a Corporação catarinense. No próximo capítulo, serão
analisados os conceitos e teorias sobre os meios alternativos de
resolução de conflitos e aprofundar-se-á o estudo sobre a
mediação. No último capítulo se refletirá sobre o processo de
implantação da mediação de conflitos na Polícia Militar de Santa
Catarina e a sua aplicação em estratégias de prevenção criminal
para a promoção e fortalecimento da cidadania.
Diante da amplidão do universo a ser abordado, a
delimitação do tema torna-se tarefa árdua e fundamental para a
consecução do trabalho. Tanto a segurança pública e seus
órgãos quanto os métodos alternativos de resolução de conflitos
por si só, individualizados, comportam uma série de estudos
possíveis. Tentou-se dessa forma, realizar um recorte temático
que abarque ambos os conteúdos na medida necessária para
viabilizar este trabalho.
Assim, definiu-se como tema de pesquisa: A construção da
mediação de conflitos na Polícia Militar de Santa Catarina: um
caminho para a autonomia e a alteridade no convívio social
Para desenvolver o tema proposto elaborou-se o seguinte
problema de pesquisa: Qual a relevância da construção da
mediação de conflitos na Polícia Militar de Santa Catarina para a
autonomia e a alteridade no convívio social?
Definido o tema e o problema de pesquisa, estabeleceramse as metas para auxiliar na organização e construção deste
trabalho, através do objetivo geral e objetivos específicos.
O objetivo geral da pesquisa será investigar a relevância
da construção da mediação de conflitos na Polícia Militar de
Santa Catarina, para a autonomia e a alteridade no convívio
social.
Como objetivo específico para esta pesquisa se pretende:
22
a) Revisar alguns conceitos de Estado e sua relação com
a segurança pública;
b) Descrever a formação histórica das polícias e sua
forma de atuação no Brasil e em Santa Catarina;
c) Compreender os meios alternativos de resolução de
conflitos e, em especial, a mediação de conflitos;
d) Analisar o processo de implantação da mediação de
conflitos na Polícia Militar de Santa Catarina,
identificando pontos fortes e pontos que possam ser
melhorados.
A pesquisa desenvolvida possui caráter dedutivo e para
viabilizá-la realizou-se o estudo em fontes bibliográficas e fontes
documentais, consultas a periódicos e realizou-se uma visita de
campo, em Joinville, para observação. Para sustentar a
construção da presente pesquisa utilizou-se como base para as
análises necessárias, a teoria de Policiamento Orientado ao
Problema, de Goldstein (1990). Para alcançar os objetivos
almejados, buscou-se também apoio em Châtelet (1985) para
discorrer sobre o Estado, bem como em Warat (2004) e Egger
(2008) para compreender as possibilidades da mediação de
conflitos. Dessa forma, a mediação policial militar de conflitos
aqui proposta encontra forte aproximação com a filosofia de
polícia comunitária, de aproximação entre a comunidade e polícia
para resolução de problemas, e com a concepção waratiana de
mediação, fundada no amor para com o próximo.
A presente pesquisa, assim, se justifica na medida em que
se constata, facilmente, que as taxas de criminalidade e da
agressividade
dos
criminosos
estão
aumentando
constantemente, bem como a quantidade de prisões ou o
número de reincidência dos cidadãos que cometem crimes1.
Também é facilmente constatável a sobrecarga nas demandas
geradas para atendimento por parte das polícias militares, seja
para questões criminais, seja para outros atendimentos que não
estejam necessariamente relacionados ao cometimento de
crimes. Ainda, é comum a veiculação, na mídia ou em redes
1
Ver: FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário
Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo, 2012; CONSELHO
NACIONAL DE JUSTIÇA. Justiça em números 2013: ano-base 2012.
Brasília: CNJ, 2013.
23
sociais, de notícias e denúncias sobre excessos e abuso de
autoridade cometidos por policiais militares. Assim, buscando
alternativas para a atuação da Polícia Militar, em oposição ao
tradicional modelo reativo e pautadas pela filosofia de polícia
comunitária, com foco em ações preventivas, evidenciando o
aspecto social e cidadão desta Instituição, propõe-se a presente
pesquisa.
A Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) possui a
competência constitucional de preservar a ordem pública e
realizar a polícia ostensiva, buscando eliminar ou reduzir a
prática de crimes na sociedade. Para desenvolver esta missão a
Instituição deve atuar de forma eminentemente preventiva. Por
outro lado, percebe-se a tradicional atuação reativa das
instituições de Polícia diante do crescimento da violência e da
criminalidade na sociedade brasileira e do clamor da população
por uma atuação mais rigorosa dos órgãos da segurança. Porém,
diante da constatação de que a mera atuação reativa/repressiva
não tem se demonstrado suficiente para atender as demandas
por segurança, a PMSC passou a buscar estratégias alternativas
para atuar preventivamente no serviço à sociedade.
Entende-se, assim, que a relevância desta pesquisa está
na busca por se compreender a mediação de conflitos na Polícia
Militar de Santa Catarina como uma forma de prestar um serviço
diferenciado à sociedade catarinense, visando promover a
cidadania, a autonomia e a alteridade destes cidadãos. Em
relação à Corporação, vislumbra-se a possibilidade de analisar o
processo de implantação desta nova forma de atuação e, assim,
identificar pontos fortes do projeto e pontos que podem ser
melhorados.
24
25
1 ASPECTOS DO ESTADO INERENTES AO PROVIMENTO DA
SEGURANÇA PÚBLICA
As formas de organização do convívio em sociedade são
objeto curioso de estudo em diversas áreas do conhecimento.
Até onde os estudos nas diversas áreas alcançaram, os mais
primitivos grupamentos humanos desenvolveram formas de
organização para viabilizar a vida coletiva do grupo.
Com o passar dos tempos, ao longo dos diversos períodos
históricos, a civilização humana experimentou diversas formas de
organização social. Os primitivos grupos nômades, os antigos
povos mesopotâmicos e egípcios, a Grécia e Roma antigas, os
milenares povos orientais, os medievos europeus, todos
vivenciaram formas diferenciadas de organização social.
Apesar das variações, em relação ao tempo e aos
caminhos seguidos, com a chegada do período moderno, a
humanidade, principalmente o "ocidente", experimentou certa
homogeneidade nas formas de organização sociais,
materializada na construção do Estado.
Neste sentido, segundo Bobbio (2003, p. 55), "[...] o Estado
é estudado em si mesmo, em suas estruturas, funções,
elementos constitutivos, mecanismos, órgãos etc., como um
sistema complexo considerado em si mesmo e nas relações com
os demais sistemas contíguos".
Dessa forma, o estado moderno, assim conhecido, foi
construído na Europa Ocidental e possui como marco teórico
fundador, entre outras, duas obras principais:
[...]; o Leviatã de Hobbes, que pretende dar
uma justificação racional e portanto universal
da existência do Estado e indicar as razões
pelas quais os seus comandos devem ser
obedecidos; e o Príncipe de Maquiavel, no
qual, ao menos numa de suas interpretações
(a única aliás que dá origem a um "ismo", o
maquiavelismo), seria mostrado em que
consiste a propriedade específica da
atividade política e como se distingue ela
enquanto tal da moral (BOBBIO. 2003, p.
55).
Maquiavel (1996) produziu uma obra técnica sobre o
governo e o ato de governar, traçando uma estreita ligação entre
26
poder e onipotência, declarando a autonomia política do Estado.
Dissociou, assim, os valores da Igreja e a tradição moral das
questões necessárias ao ato de governar e à manutenção do
poder, conciliando ações de política interna e política externa.
Segundo Châtelet (1985, p. 38), Maquiavel em suas obras,
ao discutir o Estado, atribuiu
[...] a este último termo sua significação de
poder central soberano legiferante e capaz
de decidir, sem compartilhar esse poder com
ninguém, sobre as questões tanto exteriores
quanto internas de uma coletividade; ou seja,
de poder que realiza a laicização da
plenitudo potestatis.
Depreende-se dos autores anteriormente abordados, que o
Estado moderno, inicialmente absoluto, foi erigido em torno do
poder e sua manutenção. Neste contexto, entende-se que a
manutenção deste poder perpassa pelos mecanismos de
controle social e segurança. Tanto é assim que, segundo
Maquiavel (1996), as principais bases para um Estado seja novo,
velho ou misto, são boas leis e um bom exército; entendendo-se
o exército como o corpo responsável pela segurança, uma vez
que a polícia, nos moldes como a conhecemos hoje, somente
será criada no século XIX (HIPÓLITO e TASCA. 2012).
Importante também é a contribuição de Hobbes ao reforçar
a existência do Estado absoluto, a partir de sua obra, O Leviatã
(1651). Nesta obra clássica, Hobbes fundamenta a necessidade
de um Estado absolutista como uma forma de organização e
exercício do poder.
Em sua construção teórica, Hobbes explora as
características do ser humano em seu "estado de natureza",
como uma situação de ausência da organização do poder.
Todos os homens seriam iguais entre si, apesar de diferenças de
grandeza física ou intelectual. Para Silva e Tavares Neto (2007,
p. 159), o "estado de natureza" de Hobbes seria "um estado
marcado pela belicosidade, pela guerra generalizada, onde não
há segurança nem paz".
Ainda sobre as concepções de Hobbes, conforme Silva e
Tavares Neto (2007, p. 160), "[...] o estado de natureza é a
condição de barbárie, onde não existe a organização do poder,
por conseguinte o que resta é o uso da força. A razão se cala
27
enquanto a força prevalece". A forma que Hobbes sugeriu para
suplantar a "barbárie" é a instauração da ordem, a qual poderia
ser alcançada por meio do contrato social.
Assim, Hobbes (2000, p. 114-115) ao discorrer sobre o
contrato social considera que:
Abandona-se um direito simplesmente
renunciando a ele, ou transferindo-o para
outrem. Simplesmente renunciando, quando
não importa em favor de quem irá redundar o
respectivo benefício. Transferindo-o, quando
com isso se pretende beneficiar uma
determinada pessoa ou pessoas. [...] A
transferência mútua de direitos é aquilo a
que se chama contrato.
O Leviatã, o Estado soberano de Hobbes, funda-se com a
promessa de promover a ordem, a paz e a segurança, em
oposição à barbárie reinante no estado de natureza, angariando,
assim, a cessão de direitos por parte de seus súditos. O
soberano, em nome do Estado, tem como legítimo o uso da força
para assegurar as ansiadas ordem e paz. Neste modelo, o
Estado e o soberano se confundem. Segundo Hobbes (2000, p.
144):
[...] É nele que consiste a essência do
Estado, a qual pode ser assim definida: Uma
pessoa de cujos atos uma grande multidão,
mediante pactos recíprocos uns com os
outros, foi instituída por cada um como
autora, de modo a ela poder usar a força e
os recursos de todos, da maneira que
considerar conveniente, para assegurar a
paz e a defesa comum.
O Estado hobbesiano, assim, caracteriza-se pela suposta
cessão de parte dos direitos individuais de cada súdito ao seu
soberano. Este, por sua vez, legitimado pelos primeiros, exerce o
controle e monopólio do uso da força para manter e assegurar o
bem coletivo de sua sociedade, principalmente no tocante à
ordem, à paz e a segurança, conduzindo o Estado conforme
melhor lhe aprouver, sob esta motivação.
28
Buscando-se interpretar, no princípio do Estado absoluto,
as bases e fundamentos para sustentarem a atual segurança
pública, extrai-se de Châtelet (1985, p. 60-61) o seguinte:
De Maquiavel à Locke, a maioria dos teóricos
políticos [...] reconheceram no Estado,
princípio soberano e unificador da existência
social, a instância graças à qual [...] podem
ser reduzidos, ou mesmo eliminados, os
conflitos que opõem os indivíduos (ou
grupos) entre si, e, portanto, que assegura a
paz civil e regulamenta do melhor modo
possível os antagonismos entre os reinos.
Entende-se assim, que a relação entre o surgimento do
Estado e o provimento da segurança estão embrionariamente
conectados.
Entretanto, como se sabe, o modelo de Estado absoluto
possuiu tempo de vida limitado, vindo a ser, posteriormente,
substituído pelo modelo de Estado liberal. Neste contexto de
criticas e mudanças, ganha espaço o discurso de Locke (1999).
Opondo-se ao Estado absoluto, o filósofo e pensador
político John Locke, pode ser considerado um dos autores mais
importantes do liberalismo. No momento de transição entre o fim
da ordem feudal, questionamentos sobre a Igreja católica e luta
contra as monarquias absolutas e os Estados centralizados,
Locke firma-se como teórico e filósofo do pensamento político de
sua época.
Segundo Silva e Tavares Neto (2007, p. 179):
Destaca-se no pensamento de Locke a figura
do indivíduo como sujeito de direitos, que
consente na formação da sociedade, na
criação das leis, na instituição do Estado,
que devem se orientar de acordo com os
interesses dos indivíduos, garantindo os seus
direitos.
A figura do indivíduo sujeito de direitos foi muito importante
para o surgimento do Estado de Direito, marca característica do
Estado
moderno
e,
vigorante
ainda,
nos
Estados
contemporâneos.
29
Assim como Hobbes, Locke também discorreu sobre o
"Estado de Natureza". Entretanto, diferentemente daquele, para
Locke (1999, p. 83) o estado de natureza é:
[...] um estado em que eles sejam
absolutamente livres para decidir suas ações,
dispor de seus bens e de suas pessoas
como bem entenderem, dentro dos limites do
direito natural, sem pedir a autorização de
nenhum outro homem nem depender de sua
vontade.
Um estado, também, de igualdade, onde a
reciprocidade determina todo o poder e toda
a competência, ninguém tendo mais que os
outros; evidentemente, seres criados da
mesma espécie e da mesma condição, que,
desde seu nascimento, desfrutam juntos de
todas as vantagens comuns da natureza e do
uso das mesmas faculdades, devem ainda
ser iguais entre si, sem subordinação ou
sujeição, a menos que seu senhor e amo de
todos, por alguma declaração manifesta de
sua vontade, tivesse destacado um acima
dos outros e lhe houvesse conferido sem
equívoco, por uma designação evidente e
clara, os direitos de um amo e de um
soberano.
O estado de natureza, em Locke, é regido pela razão. Um
estado marcado pela igualdade de condições e independência
entre todos, dirigido por um direito natural e "superior". Este
estado, marcado notadamente pela razão, "determina que devam
todos os homens conservar sua própria vida e 'velar pela
conservação do restante da humanidade', exceto para fazer
justiça a um delinquente" (SILVA E TAVARES NETO, 2007, p.
180).
Ao aprofundar seu pensamento e sua teoria, Locke
considera que o estado de natureza "consiste num estado
jurídico, uma vez que o homem no estado de natureza possui
diferentes direitos, sendo os prioritários o direito à vida e à
liberdade" (SILVA E TAVARES NETO, 2007, p. 181). Juntamente
com a concepção jurídica, Locke aborda a questão da
propriedade. Para o pensador, todo o homem já nasce
proprietário de sua vida, seu corpo e sua liberdade. Ainda, em
30
seu raciocínio, discorre sobre a propriedade da terra e os frutos
decorrentes do trabalho, este sendo a fonte originária de
qualquer propriedade. Além do trabalho, é possível se chegar à
propriedade através da aquisição, viabilizada pela acumulação
monetária.
Assim, o "contrato social" de Locke apresenta-se
permeado pela idéia de proteção da propriedade privada.
Segundo Locke (1999, p. 156):
[...] ainda que no estado de natureza ele
tenha tantos direitos, o gozo deles é muito
precário e constantemente exposto às
invasões de outros. [...] Por isso, o objetivo
capital e principal da união dos homens em
comunidades sociais e de sua submissão a
governos é a preservação de sua
propriedade. O estado de natureza é carente
de muitas condições.
O contrato social de Locke, em oposição ao estado de
natureza, institui um estado civil. Neste promove-se uma
organização da coerção, vinculada a criação de leis gerais a
todos aplicáveis. A lei positivada, por sua vez, autoriza e legitima
o uso da força na garantia do direito à propriedade.
A respeito desta discussão, Silva e Tavares Neto (2007,
p. 192) sintetizam que:
[...] o tema recorrente de Locke é uma préconcepção do que chamamos atualmente de
Estado de Direito enquanto sistema
(CARRERAS, 1996), posto que contrapõe
com o estado de natureza, no qual cada qual
se autodeterminava, sendo a ratio última a
sua própria vontade, que numa palavra de
Montesquieu, seria a liberdade de fazermos
tudo o que a lei nos permite. Somente a lei
pode impor limites à liberdade do homem. A
sociedade é a sociedade das leis.
No caminho em direção a um estado democrático, em
oposição ao estado absoluto, Locke firma seu caráter legalista
em relação ao regime de seu contrato social. Assim, na teoria de
Locke, entende-se reforçada a atribuição do Estado em promover
e garantir a segurança da coletividade, o que hoje poderia se
31
considerar segurança pública, manifestadas na proteção à
propriedade privada e à vida.
Ainda sob a égide do pensamento contratualista, destacase a contribuição de Jean-Jacques Rousseau. Sua obra de maior
destaque e projeção foi o "Discurso sobre a origem da
desigualdade", escrita em resposta a um concurso da Academia
de Dijon, de 1753, no qual se questionava "Qual é a origem da
igualdade entre os homens, e está ela autorizada por lei natural?"
(MEZZAROBA, 2008).
Para Rousseau, os seres humanos são bons por natureza.
Os problemas da humanidade teriam se iniciado quando os
homens resolveram viver em sociedade, o que teria ocasionado
a perda dos valores individuais. O pensador identificou dois tipos
de desigualdades na espécie humana: uma natural ou física, e a
desigualdade moral ou política.
Em Rousseau, a categoria do "meu", em oposição ao
"seu", ou seja, a noção de propriedade funda o mecanismo de
organização da nova sociedade civil. Assim, segundo Mezzaroba
(2007, p. 197), em Rousseau:
[...] a desigualdade entre as pessoas seria
apenas sensível no estado de natureza.
Toda a origem da desigualdade teria iniciado
com o primeiro homem que colocou cercas
em torno de sua propriedade e atreveu-se a
afirmar que aquilo lhe pertencia. Tal situação
sendo aceita de forma ingênua pelos demais
homens
acabaria
dando
origem às
desigualdades políticas. Assim, segundo
Rousseau, o verdadeiro fundador da
sociedade civil foi aquele homem que
primeiro
estabeleceu
os
limites
da
propriedade privada.
Entretanto, se no "Discurso sobre a origem da
desigualdade entre os homens" Rousseau entende que a
renuncia à liberdade foi necessária para a constituição da
sociedade, no "Contrato Social" o pensador afirma que, ao
participante do contrato, cabe ceder alguma coisa para poder
receber algo em troca. No "Contrato Social", Rousseau sugere a
garantia da liberdade política em desfavor da liberdade natural.
Neste contexto, criou-se o conceito de "vontade geral". De
acordo com esta idéia, surge um indivíduo coletivo, titular de uma
32
liberdade coletiva. Assim, "por representar a vontade de todos,
Rousseau conclui que a vontade geral deve ser aplicada
indistintamente a todos os homens" (MEZZAROBA, 2007, p.
199).
Diante desta nova organização política, fundada na
vontade geral e no indivíduo coletivo:
[...] o Estado não se apresenta como algo
independente e autônomo, todas as suas
ações devem estar diretamente vinculadas
com a vontade de quem o criou, isto é, com a
vontade dos indivíduos. Estes é que são os
detentores absolutos de toda a soberania.
Será a vontade dos indivíduos que deverá
orientar a vontade do Estado, cabendo a este
garantir o bem comum (MEZZAROBA, 2007,
p. 199)
A lei, em Rousseau, é a forma de se atender à "vontade
geral" da coletividade. Entretanto, o autor resiste à idéia de
representação política entendendo que aquela, a "vontade geral",
é "soberana e, sendo soberana, ela é inalienável, indivisível,
infalível e absoluta" (MEZZAROBA, 2007, p. 202). A solução
proposta por Rousseau seria promover a discussão política entra
cada indivíduo, assemelhando-se a uma atividade legislativa.
Entretanto, para viabilizar o cumprimento da vontade geral, seria
necessária uma atividade educativa, ao cargo da magistratura.
Rousseau mapeia em seus estudos que a origem da
desigualdade entre os homens é a existência de um instituto
chamado propriedade privada. Ao final das construções teóricas,
entende-se que Rousseau busca mecanismos para harmonizar
os interesses individuais e assegurar o bem comum para a
coletividade. Entende-se, assim, que também o contratualismo
rousseauniano atribui ao Estado a incumbência de promover a
ordem e a segurança em nome da harmonia e do bem comum.
Constata-se, assim, a existência de diversos autores e
obras que se ocuparam em abordar e discutir o Estado ao longo
da história. Dentre esta vastidão, entende-se que os autores
chamados de contratualistas são os que mais apresentam
elementos adequados à discussão do tema proposto neste
trabalho, no tocante à função da segurança a ser promovida pelo
Estado. Estes teóricos e pensadores, Hobbes, Locke e
33
Rousseau, apresentam em suas idéias diversas aproximações e,
também, muitas divergências.
No que tange às aproximações, em todos os autores, é
possível identificar uma dicotomia entre um "antes" e um
"depois", entre um "estado de natureza" e um "estado civil". O
antes, via de regra, representa um momento pré-social ou préestatal. Um espaço de lacunas, um ambiente de ausências, uma
situação de desregulamentação. Em Hobbes, este momento
representa a barbárie, a incivilidade, a guerra, a insegurança e a
violência. Para Locke, o estado de natureza representa a
inocência e a harmonia, a igualdade mútua e a autonomia entre
os indivíduos, porém sendo conduzidas por uma "força divina".
Por sua vez, Rousseau não enfatiza o estado de natureza,
concentrado suas reflexões no momento "depois".
Interessante observar que, com diferentes nuances, todos
os autores trazem à tona alguns elementos que marcam esta
transposição do estado de natureza. A principal questão que
permeia a teoria dos três autores estudados discorre sobre a
propriedade privada.
Para Hobbes, o constante estado de belicosidade
inviabiliza a posse tranquila e pacífica da propriedade no "estado
de natureza". Considera que muitas vezes ela foi obtida através
da conquista violenta e, afirma, que "[...] aquele que hoje domina
pode vir a ser o dominado de amanhã e assim sucessivamente"
(MEZZAROBA, 2007, p. 159). Assim, as promessas de ordem,
segurança e paz do Estado soberano e absoluto de Hobbes
estão permeadas, principalmente, pela defesa e garantia da
propriedade privada.
A questão da propriedade, em Locke, é discutida
claramente. Para o autor, a propriedade é um direito natural
assegurado por Deus. O estado de natureza de Locke, apesar de
ser bom, é carente das condições necessárias para preservar
adequadamente a propriedade. Assim, fica evidente para Locke
"[...] que a função precípua do estado consiste na garantia do
direito à propriedade" (MEZZAROBA, 2007, p. 187).
Comparando-se Hobbes e Locke verifica-se que os meios
traçados divergem, porém os objetivos, permeados pela questão
da propriedade, se assemelham. Segundo Mezzaroba (2007, p.
186):
34
O elemento preponderante no contrato social
preconizado por Locke é o consentimento. O
contrato social para Locke é um pacto de
consentimento, enquanto para Hobbes o
contrato social é um pacto de submissão que
objetiva a preservação da vida.
Para Rousseau, por sua vez, a propriedade é o marco
fundacional do estado. Segundo o pensador, "[...] o verdadeiro
fundador da sociedade civil foi aquele homem que primeiro
estabeleceu os limites da propriedade privada" (MEZZAROBA,
2007, p. 197). Rousseau apresenta uma postura mais legalista e
política acerca do Estado, influenciado pelo liberalismo de seu
tempo. Ao compará-lo com Hobbes e Locke, percebe-se esta
postura diferenciada. Conforme Mezzaroba (2007, p. 200):
Seguindo a lógica desenvolvida por Hobbes
e Locke, Rousseau partirá da idéia de que a
legitimação do poder político deverá se
sustentar no acordo entre os homens, jamais
em mecanismos violentos, coercitivos ou
divinos. Esta perspectiva colocará Rousseau
no rol dos pensadores denominados de
contratualistas. A divergência, entretanto,
com Hobbes e Locke está em pressupostos
elementares. No caso de Hobbes, enquanto
este entende que na formação do contrato
cada indivíduo entrega sua vida e existência
às mão do poder soberano, daí a origem da
vontade absoluta, Rousseau irá defender a
idéia de que mesmo participando do contrato
cada
indivíduo
ainda
mantém
sua
individualidade,
podendo
a
qualquer
momento discordar e se afastar do contrato
social. No raciocínio rousseauniano a
soberania individual sempre será inalienável
e indivisível.
Com o objetivo de assegurar os direitos individuais, como a
liberdade e a vida, todos, porém, permeados pela questão da
propriedade, estes autores, em suas diferentes construções
teóricas, discorreram sobre a criação de normas que
organizassem o convívio social e assegurassem o direito à
propriedade e à vida. Nestas construções, todos, de uma forma
ou de outra, legitimam o uso da força como monopólio do
35
Estado, e em nome da coletividade, para cercear as pretensões
de conquista pela força e da violência. Em suma, entende-se
que, nos diversos discursos, está presente a intenção de garantir
os direitos dos que "possuíam" contra a ameaça eminente
daqueles que "não possuíam", através da figura chamada
Estado.
Ao passo em que se traçou a questão da segurança como
um dos aspectos fundacionais nas teorias sobre a origem do
Estado, entende-se relevante também considerar-se a questão
da segurança para o indivíduo. Vislumbra-se na questão da
segurança mais do que puramente um do dever do Estado,
compreende-se a segurança também como uma necessidade do
indivíduo.
Neste sentido, Malinowski (1986, p. 185.) afirma que:
[...] toda a cultura deve satisfazer o sistema
de necessidades biológicas, tais como as
ditadas pelo metabolismo, reprodução,
condições fisiológicas de temperatura,
proteção contra a umidade, vento e contra o
impacto direto das forças destrutivas do clima
e do tempo, segurança contra animais
ferozes ou seres humanos, alívio ocasional
das tensões, exercício do sistema muscular e
nervoso em movimento e controle do
crescimento. (grifo nosso).
Ao analisar a teoria da "Hierarquia das necessidades
básicas" de Maslow, Moreira (2012, p. 65) aborda as motivações
do indivíduo, nas relações entre conflitos internos e externos,
também identificando a segurança como uma necessidade do
indivíduo:
Exemplificando, os fatores extrínsecos estão
relacionados às condições de trabalho, ou
seja, são os elementos mínimos para que o
indivíduo tenha condições de realizar seu
trabalho, entre eles citam-se como exemplos:
alimentação, segurança, moradia, higiene e
aceitação em grupos sociais. Observa-se que
o atendimento dos fatores extrínsecos não
necessariamente satisfará as necessidades
da pessoa, entretanto promoverá a sua não
insatisfação. (grifo nosso).
36
Por fim, Malinowski (1986, p. 186) sugere uma relação
entre a necessidade por segurança e o estabelecimento de uma
organização social, um contrato social, que estabelecem diversos
sistemas de controle. Para o autor:
[...]
A
cooperação
implica
normas
sancionadas pela autoridade, pela força
física ou pelo contrato social, cuja resposta é
dada pelos diversos sistemas de controle,
primitivos
ou
desenvolvidos.
[...]
A
organização da força e da compulsão
como base para a autoridade e a defesa
relacionam-se
funcionalmente
com
a
organização política em cada instituição e,
também, posteriormente com agrupamentos
específicos, que já definimos como unidades
políticas ou protótipos do Estado político.
(grifo nosso).
Assim, a segurança deve ser considerada tanto um dever
do Estado quanto uma necessidade básica do indivíduo.
1.1 A SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL: ASPECTOS PARA A
ATIVIDADE DE POLÍCIA
Partindo-se do pressuposto acima abordado, de que uma
das principais atribuições do Estado é prover a segurança de
seus cidadãos, passar-se-á a discutir a seguir quais são os
elementos e aspectos inerentes à segurança pública dentro do
Estado brasileiro, buscando-se construir as bases para a
compreensão da atividade de polícia militar, tanto no Brasil,
quanto em Santa Catarina.
O atual Estado de Direito brasileiro, em que pese seu
atípico2 processo histórico de fundação e consolidação, em maior
ou menor quantidade, seguiu ou adotou aspectos das discussões
anteriormente realizadas. Nesse sentido, vislumbra-se também
no Estado brasileiro, entre outros, o aspecto relacionado ao
2
Ao passo em que os demais países latino-americanos adotaram a
"república" como forma de governo após a proclamação de suas
independências, o Brasil manteve a forma de governo "monárquica"
após a proclamação da independência. (BUENO, 2010; FAUSTO, 2012;
GALEANO, 2010).
37
provimento da segurança da população, definido no atual texto
constitucional brasileiro como segurança pública.
O texto Constitucional brasileiro, em seu artigo 144,
estabelece que a segurança pública, "dever do Estado, direito e
responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da
ordem pública e da incolumidade das pessoas e do
patrimônio" (BRASIL. 1988, grifo nosso). Retomando-se as
discussões anteriormente realizadas sobre a formação do Estado
moderno e considerando-se este dispositivo constitucional,
entende-se que o atual Estado brasileiro mantém como uma de
suas razões de existência, a função de promover a segurança
através da proteção da propriedade privada, da liberdade e da
vida.
Percebe-se dessa forma, que o Estado continua
"preocupado" em proteger a propriedade privada, reproduzindo e
utilizando mecanismos de manutenção do status quo, a seguindo
os princípios que fundaram o próprio Estado moderno. Por outro
lado, este mesmo Estado, com suas intrincadas relações de
poder, conforme nos foi apresentado nas discussões anteriores,
ainda parece ser a melhor opção disponível para a organização e
o convívio social.
A questão da segurança no Brasil, assim, povoa um
universo quase místico e fantasioso no imaginário popular.
Muitos são os discursos e cobranças sobre o aumento e a
melhora na segurança, porém, pouco se sabe efetivamente
sobre essa segurança.
Como forma de se iniciar a discussão sobre a segurança
no Brasil, efetuou-se uma rápida pesquisa sobre este verbete
(segurança) em edições eletrônicas de cinco jornais brasileiros,
no período compreendido entre os meses de março a junho de
2014: O Globo (Rio de Janeiro), Folha de S. Paulo (São Paulo),
Correio Braziliense (Brasília), Jornal do Comércio (Rio Grande do
Sul) e Diário Catarinense (Santa Catarina).
Seguem abaixo as manchetes das matérias publicadas
pelos referidos jornais. No jornal O Globo:
Manifestação no TJ não aconteceu, mas
segurança segue reforçada
RIO - Marcado para as 13h desta sexta-feira
pelo grupo de advogados voluntários Habeas
Corpus, o rolezinho no interior do Tribunal de
38
Justiça até agora não aconteceu. Não há
nenhum advogado do grupo nas imediações
do Fórum. O Habeas Corpus informou que o
rolezinho seria uma forma de protestar contra
a criação do Centro de Pronto Atendimento
Judiciário (Ceprajud), instalado há uma
semana. A segurança no entorno do TJ, que
já havia sido reforçada no fim da manhã,
recebeu agora há pouco um pelotão com
aproximadamente 30 policiais militares com
escudos e cassetetes para proteger o Fórum
de possíveis atos de vandalismo que possam
ocorrer durante a manifestação contra a
Copa, marcada às 17h. (O GLOBO.
Manifestação no TJ não aconteceu, mas
segurança segue reforçada. s. data.
Disponível
em:
<http://oglobo.globo.com/rio/manifestacaono-tj-nao-aconteceu-mas-seguranca-seguereforcada-12662066>. Acesso: 01JUN14).
Ainda no O Globo:
Polícia apreende crack e material para
embalar drogas no Complexo da Maré
Policiais Civis da 45ª DP (Complexo do
Alemão) estouraram, na tarde desta sextafeira, um local de endolação de drogas na
comunidade Parque União, no Complexo da
Maré. No local, foi apreendida grande
quantidade de pedras de crack, cadernos
com anotações da contabilidade do tráfico,
rádios de comunicação, além de farto
material para embalar drogas. (O GLOBO.
Polícia apreende crack e material para
embalar drogas no Complexo da Maré. s.
data.
Disponível
em:
<http://oglobo.globo.com/rio/policiaapreende-crack-material-para-embalardrogas-no-complexo-da-mare-12661891>.
Acesso: 01JUN14).
Na Folha de S. Paulo:
Ônibus voltam a circular sob escolta da
Polícia Militar em Ribeirão Preto 01/06/2014
39
A
prefeita
Dárcy
Vera
(PSD)
cobrou segurança para a população e
trabalhadores do setor, e afirmou que vai
cobrar o governador Geraldo Alckmin (PSDB)
nesta segunda-feira... (FOLHA DE SÃO
PAULO. Ônibus voltam a circular sob
escolta da Polícia Militar em Ribeirão
Preto.
01/06/2014.
Disponível
em:
<http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/ribeir
aopreto/2014/06/1463388-onibus-voltam-acircular-sob-escolta-da-policia-militar-emribeirao-preto.shtml>. Acesso: 01JUN14).
Ainda:
Estado anuncia 'reforço' de 270 PMs para
a região de Ribeirão Preto - 30/05/2014
O governador Geraldo Alckmin (PSDB)
anunciou que a região de Ribeirão Preto (313
km de São Paulo) receberá o "reforço" de
270 policiais militares. A ampliação do
patru... (FOLHA DE SÃO PAULO. Estado
anuncia 'reforço' de 270 PMs para a região
de Ribeirão Preto. 30/05/2014. Disponível
em:
<http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/ribeir
aopreto/2014/05/1462934-estado-anunciareforco-de-270-pms-para-a-regiao-deribeirao-preto.shtml>. Acesso: 01JUN14).
No Correio Brasiliense:
Em greve, PF marca protesto em Brasília
contra segurança privada na Copa 10/03/2014
Segundo Federação, policiais virão de todas
as partes do país, com enormes elefantes
brancos infláveis, que simbolizam a
burocracia e a politicagem na Segurança
Pública. (CORREIO BRAZILIENSE. Em
greve, PF marca protesto em Brasília
contra segurança privada na Copa.
10/03/2014.
Disponível
em:
<http://www.correiobraziliense.com.br/app/no
ticia/cidades/2014/03/10/interna_cidadesdf,4
16709/em-greve-pf-marca-protesto-em-
40
brasilia-contra-seguranca-privada-nacopa.shtml>. Acesso: 01JUN14).
Também:
Polícia reforça segurança em shopping
para evitar novo "rolezinho". Jovens,
contudo, informam nas redes sociais que
o evento ocorre no local - 14/03/2014
Um "rolezinho" estava programado para esta
tarde no Alameda Shopping em Taguatinga.
Entretanto, o reforço policial impediu que
ocorresse o movimento de adolescentes,
marcado via internet, segundo o sargento
Martins da Polícia Militar. (CORREIO
BRAZILIENSE. Polícia reforça segurança
em
shopping
para
evitar
novo
"rolezinho"Jovens, contudo, informam
nas redes sociais que o evento ocorre no
local.
14/03/2014.
Disponível
em:
<http://www.correiobraziliense.com.br/app/no
ticia/cidades/2014/03/14/interna_cidadesdf,4
17566/policia-reforca-seguranca-emshopping-para-evitar-novo-rolezinho.shtml>.
Acesso: 01JUN14).
No Jornal do Comércio:
Porto Alegre reforça segurança para a
Copa do Mundo - 29/05/2014
Para garantir a segurança durante a Copa do
Mundo, Porto Alegre contará com um efetivo
policial ampliado. "Houve reforço para a
Copa. Tivemos aporte de policiais, inclusive
de outros estados, e remanejamento de
quadros do interior para a capital. Tivemos
um aporte adicional para fazer frente a essa
demanda peculiar que é a Copa do Mundo",
explicou o delegado da Polícia Federal
Sérgio Henrique Silva da Silva, coordenador
do Centro Integrado de Comando de
Controle Regional e presidente da comissão
estadual de Segurança Pública e Defesa
Civil para Grandes Eventos. (JORNAL DO
COMERCIO.
Porto
Alegre
reforça
segurança para a Copa do Mundo.
41
29/05/2014.
Disponível
em:
<http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=
163069>. Acesso: 01JUN14).
Ainda:
Sistematização de dados sobre crimes é
arma para o combate à violência 27/05/2014
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
considera violência epidêmica o índice de
dez (ou mais) homicídios para cada grupo de
100 mil habitantes ao ano. No Brasil, para
cada 100 mil cidadãos, ocorrem 24,3
homicídios. Entre os policiais brasileiros, o
número sobe para 58,7 homicídios. Para
reduzir as mortes dos servidores públicos
(policiais, agentes, juízes, entre outros),
parlamentares gaúchos no Estado e em
Brasília estão propondo leis que preservem
os agentes e tipifiquem os crimes. (JORNAL
DO COMÉRCIO. Sistematização de dados
sobre crimes é arma para o combate à
violência. 27/05/2014. Disponível em:
<http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=
162792>. Acesso: 01JUN14).
Por fim, no Diário Catarinense:
Dois irmãos sofrem sequestro relâmpago
em Ilhota - 31/05/2014
Por volta da 00h30min de sexta-feira, dois
irmãos que são proprietários de um mercado
em Ilhota sofreram um sequestro relâmpago.
Segundo a Polícia Civil, os irmãos foram
abordados por quatro suspeitos quando
chegavam em casa com uma caminhonete,
uma Mitsubishi L200 Triton. Os suspeitos
soltaram os dois irmãos amarrados em um
terreno baldio em Camboriú e fugiram com o
veículo e cerca de R$900. (DIÁRIO
CATARINENSE. Dois irmãos sofrem
sequestro
relâmpago
em
Ilhota.
31/05/2014.
Disponível
em:
<http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/poli
cia/noticia/2014/05/dois-irmaos-sofrem-
42
sequestro-relampago-em-ilhota4515086.html>. Acesso: 01JUN14).
Também:
Polícia Militar apreende mais de dois mil
maços de cigarro em galpão em Joinville 30/05/2014.
Em operação da equipe de inteligência
da Polícia Militar de Joinville na tarde desta
sexta-feira, foram encontrados mais de dois
mil maços de cigarros, cada um contendo
dez
carteiras,
contrabandeados
do Paraguai e armazenados em um galpão
na SC-108, arodovia do Arroz, em Joinville.
(DIÁRIO CATARINENSE. Polícia Militar
apreende mais de dois mil maços de
cigarro
em
galpão
em
Joinville.
30/05/2014.
Disponível
em:
<http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/poli
cia/noticia/2014/05/policia-militar-apreendemais-de-dois-mil-macos-de-cigarro-emgalpao-em-joinville-4514123.html>. Acesso:
01JUN14).
Pretende-se com a exposição acima, identificar algumas
situações e expressões utilizadas ao se tratar sobre segurança,
para na sequência abordá-las adequadamente. Observou-se, por
exemplo, que em uma situação de manifestação utilizou-se a
polícia militar. Em outra situação, a operação para apreensão de
crack foi realizada pela polícia civil. A escolta dos ônibus que
estavam sendo atacados e incendiados foi realizada pela polícia
militar. O reforço no patrulhamento e policiamento ostensivo foi
realizado com incremento de policiais militares. A Polícia Federal
(PF) protestava contra a contratação de segurança privada para
a Copa do Mundo. A polícia militar foi acionada para evitar os
"rolezinhos". A polícia federal remanejará policiais entre estados
para o policiamento da Copa do Mundo. Verificou-se também a
preocupação com os índices de vitimização entre a população e
entre os agentes de segurança pública e do sistema de justiça
criminal. Verificou-se polícia civil localizando as vítimas de um
sequestro relâmpago, enquanto a polícia militar apreendeu
cigarros contrabandeados.
43
Dos aspectos relacionados à segurança mais visíveis nas
manchetes ora apresentadas, ficaram evidentes, principalmente
as polícias, em algumas de suas estruturações e atividades.
Entretanto, antes de alcançarem-se as atividades práticas de
polícia, existe um arcabouço de elementos fundamentadores
destas atividades, os quais serão apresentados adiante.
Percebe-se, dessa forma, que ao se falar em segurança é
muito comum surgir a expressão polícia e algumas de suas
diferentes instituições: polícia militar, polícia civil, polícia federal.
Dentro da segurança a polícia é a instituição mais lembrada.
Mas, o que é e para que serve a Polícia? Qual a diferença entre
as polícias no Brasil? Existe diferença entre segurança pública e
segurança privada? Qual o papel do Estado frente à segurança
do cidadão? Como a segurança pública pode ser gerida para
promover a democracia e a cidadania?
Neste sentido, Cárdia (1997, p. 16) recorda que:
Segurança pública é pré-requisito para
consolidação dos processos democráticos e,
também, valor fundamental para que se
tenha qualidade de vida. É ela quem garante
a integridade física e moral do cidadão, bem
como o direito ao patrimônio conquistado.
Sem tal garantia, um país dificilmente
floresce, tanto do ponto de vista econômico
quanto do social.
Assim, para responder a estes questionamentos, bem
como apresentar outros conceitos complementares, serão
apresentados a seguir os fundamentos da segurança pública no
Brasil.
1.2 A SEGURANÇA PÚBLICA NA CONSTITUIÇÃO DA
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL E OS ELEMENTOS DA
ATIVIDADE DE POLÍCIA MILITAR
Sem se perder o foco na atividade de polícia militar, iniciarse-á este estudo analisando-se a presença da segurança pública
na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
Antes, porém, registra-se que esta Constituição caracteriza-se
como um marco na história do Brasil em diversos aspectos e
setores, dado todo o avanço promovido na estrutura
44
organizacional do País rumo à garantia de direitos e à
democracia.
Neste sentido, a valorização do cidadão e o respeito aos
seus direitos, fundamentais e individuais, promoveu uma
reorganização da Segurança Pública no País. O art. 144 da
Carta Constitucional conceituou a segurança pública como dever
do Estado e responsabilidade de todos, bem como definiu os
órgãos que a compõe e suas competências, conforme pode se
observar a seguir:
Art. 144. A segurança pública, dever do
Estado, direito e responsabilidade de todos,
é exercida para a preservação da ordem
pública e da incolumidade das pessoas e do
patrimônio, através dos seguintes órgãos:
I - polícia federal;
II - polícia rodoviária federal;
III - polícia ferroviária federal;
IV - polícias civis;
V - polícias militares e corpos de bombeiros
militares.
[...]
§ 5º - às polícias militares cabem a polícia
ostensiva e a preservação da ordem pública;
aos corpos de bombeiros militares, além das
atribuições definidas em lei, incumbe a
execução de atividades de defesa civil.
§ 6º - As polícias militares e corpos de
bombeiros militares, forças auxiliares e
reserva
do
Exército,
subordinam-se,
juntamente com as polícias civis, aos
Governadores dos Estados, do Distrito
Federal e dos Territórios.
(BRASIL.
Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988.)
O tratamento adotado pelo Constituinte para a Segurança
Pública reafirma que a atuação do Estado, além de operar para a
preservação da ordem pública, deve zelar pela a incolumidade
das pessoas e do patrimônio. Para desempenhar este mister, o
mesmo texto Constitucional define os órgãos que atuarão nesta
atividade de segurança.
Na concepção constitucional apresentada, a segurança
pública é realizada em duas esferas do poder público, a esfera
45
federal e a esfera estadual. Na esfera federal está prevista a
atuação da polícia federal, da polícia rodoviária federal e da
polícia ferroviária federal, todas afetas a atividades diretas ou
relacionadas com interesses da União. Na esfera estadual têmse as polícias militares e as polícias civis, atuando nas demais
situações em que não estejam presentes aqueles interesses da
União. A segurança privada, por sua vez, não é considerada uma
atividade da segurança pública por tratar do cuidado com
interesses particulares. Entretanto, no Brasil, o controle e
fiscalização das atividades de segurança privada são realizados
pela polícia federal.
No próximo capítulo serão abordados os temas referentes
às polícias, restringindo-se, neste momento a discussão sobre a
ordem pública e as questões a ela afetas.
A previsão Constitucional sobre a ordem pública foi uma
das inovações nesta nova Carta por alterar e ampliar a
concepção anteriormente existente. Assim, é necessário
promover a discussão sobre o conceito de ordem pública.
Como observado anteriormente, a Carta Magna brasileira
definiu que a segurança pública é exercida para a preservação
da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do
patrimônio. A expressão "preservação" substituiu a expressão
anterior de "manutenção" da ordem pública, ampliando a
capacidade e competência de atuação dos órgãos da segurança
pública.
Pensando-se a partir a atividade de polícia militar, um dos
objetos de estudo deste trabalho, interpreta-se que a expressão
"manutenção" restringia a atuação das polícias a uma postura
meramente reativa. As instituições teriam legitimidade para atuar
somente após o acontecimento da quebra da ordem, ou seja,
somente após o acontecimento de algum fato que alterasse o
estado de normalidade das coisas ou o cometimento de um
crime. Nesta concepção de manutenção, o objetivo do trabalho
policial não é a prevenção criminal, mas sim, a reação policial.
Nesta visão, o foco maior das polícias militares era de efetuar a
prisão do criminoso, com eficiência e eficácia3.
Por sua vez, a expressão "preservação" ampliou a atuação
das polícias militares, uma vez que agregou ao entendimento
3
GOLDSTEIN, 1990; HIPÓLITO E TASCA, 2012; MARCINEIRO, 2009;
ROLIM, 2006.
46
anterior de resposta, a possibilidade de antecipação, através da
atuação proativa e preventiva. Diante da expressão preservação,
entende-se que o objetivo das polícias militares passa a ser a
prevenção da quebra da ordem, bem como do cometimento de
crimes, permanecendo, contundo, as ações reativas, para os
casos em que a prevenção não tenha obtido êxito.
1.2.1 A questão da ordem pública: manutenção, preservação
e os elementos constitutivos da ordem
Considerando-se que a ordem pública constitui-se tema
central na discussão constitucional sobre segurança pública,
entende-se importante mapear a mudança na nova interpretação
atribuída a este conceito após 1988.
Inicialmente, a Constituição brasileira de 1967 referia-se ao
tema da manutenção da ordem, diante de uma concepção de
Segurança Nacional e de defesa interna e externa do país.
Segundo Muniz (2001, p.183),
As cartas constitucionais republicanas
anteriores a 1988, não deixam dúvidas
quanto à principal função das PMs. Tratavase, primeiro, de salvaguardar a "Segurança
Nacional" mobilizando seus esforços para a
"segurança interna e manutenção da ordem"
do Estado. Não é difícil concluir que o que
estava em jogo era, fundamentalmente, a
sustentação de uma lógica que pressupunha
o "Estado contra a sociedade", ou melhor,
uma concepção autoritária da ordem pública
que excluía os cidadãos de sua produção,
uma vez que eles eram percebidos como
"inimigos
internos
do
regime"
que
"ameaçavam à tranquilidade e a paz pública".
Assim, o artigo 13, § 4º, da Constituição de 1967, ao definir
a competência dos Estados, versava que as polícias militares
eram “instituídas para a manutenção da ordem e segurança
interna nos Estados, nos Territórios e no Distrito Federal [...]”
(grifo nosso).
O Decreto-lei nº. 2.010 de 1983, ao alterar alguns
dispositivos do Decreto-lei 667, de 1969, definiu que:
47
Instituídas para a manutenção da ordem
pública e segurança interna nos Estados,
nos Territórios e no Distrito Federal, compete
às Polícias Militares, no âmbito de suas
respectivas jurisdições:
a) executar com exclusividade, ressalvadas
as missões peculiares das Forças Armadas,
o policiamento ostensivo, fardado, planejado
pela autoridade competente, a fim de
assegurar o cumprimento da lei, a
manutenção da ordem pública e o
exercício dos poderes constituídos;
b) atuar de maneira preventiva, como força
de dissuasão, em locais ou áreas
específicas, onde se presuma ser possível a
perturbação da ordem;
c) atuar de maneira repressiva, em caso de
perturbação da ordem, precedendo o
eventual emprego das Forças Armadas [...]
(Grifo nosso). (BRASIL, Decreto-lei nº. 2.010,
1983).
O termo “manutenção da ordem” prevê uma atuação
limitada da Polícia Militar, que se preocupa apenas em manter o
estado das coisas. Ou seja, mesmo que uma situação não esteja
adequada, mas não se caracterize como crime, poderá ser
mantida. A mesma deverá ser restabelecida apenas quando a
ordem for efetivamente quebrada. Ou seja, não existe a
preocupação em atuar em algo que não esteja correto enquanto
não houver uma efetiva quebra da ordem.
Quando se analisa a alteração promovida pelo novo texto
Constitucional na troca do termo manutenção da ordem pública
para preservação da ordem pública, pode-se observar que a
nova terminologia ampliou a abrangência e a competência das
polícias militares. Definiu-se que compete às polícias militares
realizar a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública,
além da competência residual de toda a atividade policial de
segurança pública, cuja execução não esteja atribuída aos
demais órgãos.
As polícias militares, assim, têm demarcado o seu espaço
como polícias administrativas de Segurança Pública. Estas
Instituições passam a atuar em dois momentos distintos da vida
em sociedade: normalidade, eminentemente preventiva pautada
48
no exercício da Polícia Ostensiva; e anormalidade ou quebra da
ordem, momento que demanda uma atuação tradicional, de
forma reativa, na repressão imediata ao cometimento de um
ilícito penal, restabelecendo a ordem.
Lazzarini (1999, p. 105) complementa que:
A preservação abrange tanto a prevenção
quanto a restauração da ordem pública, no
caso, pois seu objetivo é defendê-la,
conservá-la íntegra, intacta, daí afirmar-se
agora com plena convicção que a polícia de
preservação da ordem pública abrange as
funções de polícia preventiva e a parte da
polícia judiciária denominada de repressão
imediata, pois é nela que ocorre a
restauração da ordem [...].
Neste ínterim, surge com propriedade a vocação
preventiva das polícias militares. Cabe a elas elaborar
estratégias, dentro de sua competência Constitucional, para
evitar que ocorra a quebra da ordem, ou para imediatamente
restaurá-la caso não tenha conseguido evitá-la. Quer através da
Polícia Ostensiva, quer pela preservação da ordem pública, a
polícia administrativa é preventiva, e assim, programas e ações
preventivos estão intensamente ligados à razão de existência
das polícias militares.
É também neste momento de discussão teórica que se
constata a viabilidade de realização da pesquisa então proposta.
Tratar de um tema de pesquisa que objetiva a realização da
mediação de conflitos pela Polícia Militar de Santa Catarina
somente se viabiliza e se legitima a partir da compreensão desta
nova possibilidade de atuação preventiva proporcionada no novo
texto constitucional. Neste contexto, é plenamente possível que a
polícia militar busque diferentes estratégias para atuar
preventivamente e proporcionar uma melhor qualidade de vida à
sociedade na área da segurança pública. Por outro lado, dentro
da anterior lógica meramente repressiva da "manutenção" da
ordem, não haveria o que se falar em estratégias alternativas ou
em mediação de conflito a ser realizada por uma polícia militar,
uma vez que caberia a esta instituição tão somente responder
aos atos ilícitos e efetuar as prisões necessárias e possíveis.
Ressalta-se, assim, a importância em se contrapor as
expressões "Manutenção" Vs. "Preservação" da ordem.
49
Esclarecida a preservação da ordem, torna-se necessário
analisar os elementos que a constituem: segurança pública,
tranquilidade pública, salubridade pública e dignidade da pessoa
humana. Para tanto, percorrer-se-á por algumas definições legais
e conceitos doutrinários sobre o tema para, na sequência,
analisar os elementos acima listados.
A legislação infraconstitucional apresenta a definição legal
de ordem pública. O Decreto Nº. 88.777, de 30 de setembro de
1983, em seu Capítulo II, Art.2o, item 21, define ordem pública
como:
Conjunto de regras formais, que emanam do
ordenamento jurídico da Nação, tendo como
escopo regular as relações sociais de todos
os
níveis,
do
interesse
público,
estabelecendo um clima de convivência
harmoniosa e pacífica, fiscalizado pelo poder
de polícia, e constituindo uma situação ou
condição que conduza ao bem comum.
(BRASIL, Decreto nº. 88.777, 1983)
Para Pereira (2006, p. 156), “Ordem Pública, objeto da
Segurança Pública é a situação de convivência pacífica e
harmoniosa da população, fundada nos princípios éticos vigentes
na sociedade”.
Por sua vez, Silva (2006, p. 777-778) afirma que:
Ordem Pública será uma situação de pacífica
convivência social, isenta de ameaça de
violência ou de sublevação que tenha
produzido ou que supostamente possa
produzir, a curto prazo, a prática de crimes.
Convivência pacífica não significa isenta de
divergências, de debates, de controvérsias e
até de certas rusgas interpessoais. Ela deixa
de ser tal quando discussões, divergências,
rusgas e outras contendas ameaçam chegar
às vias de fato com iminência de desforço
pessoal, de violência e do crime.
Este tema, assim, reveste-se de singular importância, em
especial quando se refere à Administração Pública, pois nele se
compreende a própria ordem administrativa. Ou seja, a
normalidade na prestação do serviço público, suas obras
públicas e funções administrativas, são asseguradas pela Polícia,
50
que exerce uma atividade típica de administração pública, como
poder público (LAZZARINI. 2003).
Esta reflexão revela-se importante no sentido em que cabe
ao Estado, enquanto Administração Pública, promover a Ordem
Pública, através das polícias militares, para assegurar não só as
relações entre os particulares, mas também entre estes e os
demais setores do serviço público.
Tendo-se conceituado a ordem pública, realizar-se-á a
discussão sobre os seus elementos constitutivos. Para tanto,
inicialmente apoiar-se-á nas palavras de Lazzarini (2003, p. 8081):
Entendemos ser a segurança pública um
aspecto da ordem pública, ao lado da
tranquilidade e da salubridade públicas.
Entendemos assim porque a ordem pública é
efeito da causa segurança pública, como
também o é da causa tranquilidade pública
ou ainda é efeito da causa salubridade
pública.
Apesar da aparente complexidade da questão introduzida
pelo autor, o estudo da ordem pública a partir da decomposição
de seus elementos auxilia na compreensão das atividades de
segurança pública e, principalmente, das polícias militares no
Brasil.
A expressão salubridade diz respeito ao que é sadio,
saudável, bom para a saúde. Salubridade pública se refere a
como às relações decorrentes da vida em sociedade, sejam
puramente as relações entre as pessoas ou o ambiente em que
essas relações acontecem, ocorram de forma sadia e saudável.
Ao conceituar salubridade pública Lazzarini (1999, p. 284)
estabelece que o conceito se refere:
[...] às condições sanitárias de ordem pública,
ou coletiva, a expressão salubridade pública
designa também o estado de sanidade e de
higiene de um lugar, em razão do qual se
mostram propícias as condições de vida de
seus habitantes.
Diante do entendimento de salubridade pública, o
ordenamento jurídico possibilita ao poder executivo, por exemplo,
realizar desapropriações quando um bem particular comprometer
51
o adequado saneamento de um bairro ou uma cidade (CURCINO
NETO. 2008, p. 61).
O segundo elemento constitutivo da ordem pública, a
tranquilidade, parece mais amplo do que o conceito de
salubridade. Versa sobre o ânimo tranquilo, a ausência de
aborrecimentos ou preocupações, o sossego, a sensação de paz
e bem estar no âmbito social. Ainda, no entendimento de
Lazzarini (1999), o vilipendio à tranquilidade alheia caracteriza o
desrespeito a um direito do cidadão e, dessa forma, autoriza a
aplicação de sanções estabelecidas em lei. No mesmo sentido,
tranquilidade pública “é o sossego das ruas, ou a ausência de
ruídos, ou de perturbações que possam afetar a tranquilidade
das pessoas, ou o repouso delas” (CURCINO NETO. 2008, p.
62).
Por estar intimamente relacionado às questões de
cumprimento ou descumprimento de normas legais, o conceito
de segurança pública, terceiro elemento constitutivo da ordem
pública, torna-se de mais fácil compreensão. Assim, na
concepção de Lazzarini (1999, p. 21-22), segurança pública é:
[...] o estado antidelitual que resulta da
observância dos preceitos tutelados pelos
códigos penais comuns e pelas leis das
contravenções penais, com ações de polícia
preventiva ou preventivas típicas, afastandose, assim, por meio de organizações
próprias, de todo perigo, ou de todo mal que
possa afetar a ordem pública, em prejuízo da
vida, da liberdade ou dos direitos de
propriedade das pessoas, limitando as
liberdades individuais, estabelecendo que a
liberdade de cada pessoa, mesmo em fazer
aquilo que a lei não lhe veda, não pode ir
além da liberdade assegurada aos demais,
ofendendo-a.
Destaca-se assim, que a segurança pública ao encarnar a
parte mais visível da polícia ostensiva, acaba sendo o elemento
mais conhecido da ordem pública perante a sociedade.
Por fim, o quarto elemento, recentemente incorporado
como elemento constitutivo da ordem pública, é chamado
dignidade da pessoa humana. Amparado no art. 1º, inciso III,
da Constituição República Federativa do Brasil de 1988, o qual
52
define o Brasil como Estado Democrático de Direito tendo, como
um de seus fundamentos, a dignidade da pessoa humana.
O conceito de dignidade da pessoa humana, nas palavras
de Sarlet (2002, p. 43-44), é:
[...] a qualidade intrínseca e distintiva de
cada ser humano que o faz merecedor do
mesmo respeito e consideração por parte do
Estado e da comunidade, implicando, neste
sentido, um complexo de direitos e deveres
fundamentais que assegurem a pessoa tanto
contra todo e qualquer ato de cunho
degradante e desumano, como venham a lhe
garantir as condições existenciais mínimas
para uma vida saudável, além de propiciar e
promover sua participação ativa e coresponsável nos destinos da própria
existência e da vida em comunhão com os
demais seres humanos.
A dignidade da pessoa humana é um tema transversal que
deve perpassar todos os demais elementos que compõem a
ordem pública. Isto porque uma aparente ordem pública pode ser
obtida por meio de medidas arbitrárias ou violentas por parte do
Estado, mas se não houver o respeito à dignidade da pessoa
humana, o Estado Democrático de Direito estará ameaçado. O
Estado não pode fundar a ordem pública se ele próprio não
observar o seu próprio ordenamento jurídico.
A ordem pública busca preservar acima de tudo o
ordenamento jurídico do Estado e os direitos e garantias do
cidadão, de modo que os agentes públicos responsáveis pela
preservação dessa ordem, devem também subordinar-se e agir
observando rigorosamente os dispositivos legais vigentes no
Estado brasileiro.
Pode-se, então, entender ordem pública como um estado
de normalidade, em que a sociedade, Administração Pública e
cidadãos, gozem de seus direitos e realizem suas atividades sem
perturbações ou impedimentos.
Outro aspecto relacionado à nova determinação
Constitucional em relação à atuação das polícias militares é o
exercício da polícia ostensiva. A seguir, serão apresentadas
algumas reflexões a este respeito.
53
1.2.2 Polícia Ostensiva: conjunto de competências para atuar
na preservação da ordem pública
Assim como o Constituinte de 1988 inovou com a utilização
do termo “preservação” em relação à ordem pública, também
inovou ao incluir no texto Constitucional o termo “polícia
ostensiva”. Antes da atual Carta Magna, as atividades realizadas
pelas policias militares eram legalmente definidas como
policiamento ostensivo. Dessa forma estava previsto no texto do
Decreto-lei nº. 2.010, de 1983, o qual definia como competência
da Polícia Militar “[...] executar com exclusividade [...] o
policiamento ostensivo, fardado [...]” (BRASIL. Decreto-lei nº.
2.010, 1983).
Em sentido complementar, o Decreto Nº. 88.777, de 30 de
setembro de 1983, em seu Capítulo II, Art. 2º, item 27, definiu
como policiamento ostensivo:
Ação policial, exclusiva das Policias Militares
em cujo emprego o homem ou a fração de
tropa engajados sejam identificados de
relance, quer pela farda quer pelo
equipamento, ou viatura, objetivando a
manutenção da ordem pública. (BRASIL,
Decreto Nº. 88.777, 1983).
O termo “polícia ostensiva”, expressão nova no texto
constitucional, e diferente da terminologia anterior, de
“policiamento ostensivo”, define a exclusividade das polícias
militares e amplia a sua possibilidade de atuação para as demais
fases da atividade de fiscalização exercida pelo Estado através
do seu poder de polícia.
Assim, Savaris (2000, p. 40-41) explica que:
[...] Esta função precisa ser vista através de
um conceito ampliado de polícia ostensiva,
onde o policial se coloca como agente do
bem-estar dos cidadãos, não se limitando à
ação coercitiva que lhe é inerente, mas
agindo como um fator de equilíbrio e de
composição dos interesses individuais
geradores de conflitos.
Ressalta-se, dessa forma, que o policiamento ostensivo é
apenas uma etapa da atividade de polícia, que pode se
54
desdobrar em quatro fases. Porém, esta ampliação da
possibilidade de atuação das polícias militares requer o
comprometimento e uma postura pro ativa do policial para que
atividades preventivas tenham efetividade e, assim, contribuam
para melhorar a sensação de segurança perante a sociedade.
Novamente, necessário se faz mencionar que somente é
possível se falar em mediação policial militar de conflitos dentro
desta inovadora concepção de "polícia ostensiva". Na anterior
idéia de "policiamento ostensivo" somente era possível esperar
da polícia militar que estivesse nas ruas para efetuar prisões
(postura reativa).
Neste sentido, Moraes et al (2000, p. 15-16) asseveram
que:
[...] ostensivo é o que está à mostra ou o
que chama a atenção, enquanto que
preventivo é tudo que previne ou que evita.
Portanto,
um
policial
poderá
estar
ostensivamente numa esquina ou numa
cabina; uma viatura com policiais poderá
estar ostensivamente parada sobre uma
calçada;
uma
banda
de
músicos
uniformizados,
numa
praça,
acha-se
ostensivamente aos olhos de quantos por
ali passem; entretanto, isso não quer dizer
que
estejam
realizando
policiamento
preventivo, já que este é mais difícil e requer
preparo específico de prevenção policial, de
atenção constante, para evitar que os fatos
aconteçam.
Como já discorrido, a partir da Constituição de 1988,
evidencia-se a natureza essencialmente preventiva das polícias
militares, através da polícia ostensiva para a preservação da
ordem pública. A polícia ostensiva por sua vez, é exercida
através do poder de polícia.
O Código Tributário, Lei nº 5.172, de 25 de outubro de
1966, em seu artigo 78, define que:
Art. 78. Considera-se poder de polícia
atividade da administração pública que,
limitando ou disciplinando direito, interesse
ou liberdade, regula a prática de ato ou
abstenção de fato, em razão de interesse
55
público concernente à segurança, à higiene,
à ordem, aos costumes, à disciplina da
produção e do mercado, ao exercício de
atividades econômicas dependentes de
concessão ou autorização do Poder Público,
à tranquilidade pública ou ao respeito à
propriedade e aos direitos individuais ou
coletivos (grifo nosso).
Ao poder de polícia se atribui as possibilidades de ações
do agente policial de intervir no ambiente social disciplinando o
exercício de direitos e liberdades para a consecução de sua
competência legal para a preservação da ordem pública. Nesse
sentido, segundo Medauar (2006, p. 104) o poder de polícia se
manifesta quando a Administração “limita e condiciona o
exercício das liberdades e direitos individuais, visando assegurar
um nível aceitável de convivência social”. Para Cretella Júnior
(1972, p. 229) o “[...] poder de polícia legitima a ação da polícia e
a sua própria existência”.
Por sua vez, o poder de polícia pode ser didaticamente
classificado em três atributos específicos, quais sejam:
discricionariedade,
auto-executoriedade
e
coercibilidade
(LAZZARINI. 1999).
A discricionariedade caracteriza-se pela gradação das
sanções aplicáveis a um infrator, concedendo à administração a
liberdade legal de valorar as atividades policiadas.
Faz-se necessário ressaltar que discricionariedade não se
confunde com arbitrariedade. Na primeira, o poder de polícia é
exercido dentro dos limites da lei. Na segunda, os limites legais
não são observados ou são ultrapassados, ocasionando abuso
de poder e efeitos jurídicos para a autoridade.
A auto-executoriedade consiste na faculdade de a
Administração Pública decidir e executar diretamente sua
decisão, independente de autorização do Poder Judiciário. É este
atributo que viabiliza, por exemplo, ao policial militar determinar
que um veículo pare em uma barreira policial, ou realizar uma
busca pessoal em um cidadão que se enquadre na descrição de
um "suspeito" de ter praticado um crime.
A coercibilidade se manifesta na obrigatoriedade imposta
coativamente pela Administração ao seu destinatário, através do
poder de polícia. Di Pietro (1991, p.115) evidencia que há
afinidade entre a coercibilidade e a auto-executoriedade, e alega
56
que “a coercibilidade é indissociável da auto-executoriedade. O
ato de polícia só é auto-executório porque é dotado de força
coercitiva”. É a coercibilidade que autoriza o uso da força pública
quando um administrado opõe resistência ao seu cumprimento.
O poder de polícia é uma atividade exclusiva do Estado
que visa limitar os interesses individuais em benefício do
interesse coletivo. Assim, a atuação do Estado, no exercício de
seu poder de polícia, se desenvolve em quatro fases: a ordem de
polícia, o consentimento de polícia, a fiscalização de polícia e a
sanção de polícia.
Segundo o Parecer GM 25:
A ordem de polícia está contida em um
preceito, que, necessariamente, nasce da lei,
salvaguardada por reserva legal, e pode ser
enriquecido discricionariamente, consoante
as circunstâncias, observando os limites da
lei. Por exemplo, embargar local ou evento, o
corte de uma árvore, uma demolição.
(BRASIL, Parecer GM-25, 2001.)
O mesmo Parecer define que:
O consentimento de polícia, quando couber,
será a anuência, vinculada ou discricionária,
do Estado com a atividade submetida ao
preceito vedativo relativo, sempre que
satisfeitos os condicionamentos exigidos; por
exemplo, alvarás ou autorizações. (BRASIL,
Parecer GM-25, 2001.)
A respeito da fiscalização de polícia, o Parecer mostra que:
[...] é uma forma ordinária e inafastável de
atuação administrativa, através da qual se
verifica o cumprimento da ordem de polícia
ou a regularidade da atividade já consentida
por uma licença ou uma autorização. A
fiscalização pode ser ex officio ou provocada.
No caso específico da atuação da polícia de
preservação da ordem pública, é que toma o
nome de policiamento. (BRASIL, Parecer
GM-25, 2001.)
Finalmente, o Parecer GM 25 explica que:
57
a sanção de polícia é a atuação
administrativa auto-executória que se destina
à repressão da infração. No caso da infração
à ordem pública, a atividade administrativa,
auto-executória, no exercício do poder de
polícia, se esgota no constrangimento
pessoal, direto e imediato, na justa medida
para
restabelecê-la.
Por
exemplo,
notificação, recolhimento alvará ou encerrar
um evento em andamento.
O poder de polícia, inerente às polícias militares, entre
outros organismos da atividade Estatal, é um dos principais
instrumentos para que estas desempenhem sua função
primordial de prevenção, conforme a Carta Constitucional.
1.2.3 Segurança e Cidadania: reflexões para a construção de
uma atividade de polícia cidadã
Na atualidade brasileira se tem utilizado, frequentemente, a
expressão cidadania como adjetivo para diversas esferas de
serviço do poder público. Assim, muito se houve sobre educação
e cidadania, sobre segurança cidadã, sobre polícia cidadã etc.
Porém, a que se refere esta cidadania?
Santos (2008) promove uma reflexão sobre a cidadania a
partir da análise de três categorias: emancipação, regulação e
subjetividade. O autor questiona o conflito existente entre a
concepção do ser humano como indivíduo e como ser social, as
quais têm mudado com o decorrer do tempo, de acordo com os
contextos e as tensões existentes em cada momento histórico.
O projeto de modernidade baseado nos dois pilares,
regulação e emancipação, tem se desenvolvido de forma
desequilibrada no âmbito do capitalismo, obtendo como resultado
um fortalecimento do pilar da regulação em detrimento do pilar
da emancipação. Assim, Santos (SANTOS, 2008, p. 240)
constata que na sociedade liberal a cidadania adquire o papel de
mecanismo regulador da “[...] tensão entre a subjetividade
individual dos agentes na sociedade civil e a subjetividade
monumental do Estado”. E sobre esta tensão afirma que “[...] só
é susceptível de superação no caso de a relação entre a
subjetividade e a cidadania ocorrer no marco da emancipação e
não como até aqui, no marco da regulação”. Porém, o autor
58
percebe que mesmo dentro do pilar da regulação ocorrem
desequilíbrios entre seus princípios: Estado, Mercado e
Comunidade.
A política liberal e sua estrutura intrínseca promovem uma
intensificação do ser humano como indivíduo (subjetividade
atomizada dos cidadãos autônomos e livres). Esta
“individualidade” baseia-se no reconhecimento dos direitos civis
da cidadania ao mesmo tempo em que procura “controlar” sua
subjetividade mediante a redução da participação dos cidadãos
no âmbito político, através da democracia representativa. Dessa
forma, limita-se a participação individual do sujeito ao voto, e
promove-se a legitimação do Estado, onde se pretende afirmar
que o interesse individual está englobado e protegido pelo
interesse da coletividade em geral, representado pelo Estado
(subjetividade coletiva do Estado centralizado) (SANTOS, 2008).
Neste contexto, então, é construído o conceito de
cidadania, o qual hoje possui a função de equacionar questões
sobre desigualdade e igualdade, exclusão e inclusão, regulação
e emancipação.
Assim, para Santos (2008) não existe uma concepção
única de cidadania, pois as subjetividades dos indivíduos, das
culturas, das comunidades, etc. são diferentes e concebem o
indivíduo e o cidadão a partir de diferentes cosmologias e pontos
de vista. Assim, o reconhecimento de diferentes concepções da
cidadania implica ao mesmo tempo o reconhecimento da
diferença e a procura da inclusão de todos os indivíduos na
sociedade.
A imposição do conceito de cidadão como “o individuo com
direitos”, baseado na lógica liberal e reforçado pela lógica do
mercado e da globalização hegemônica, faz com que seja
necessária a (re)construção continua do conceito. Sob esta
lógica liberal, em nome dos interesses econômicos continua-se
“escondendo” e até “negando” as evidentes iniquidades
existentes na sociedade atual.
Neste espectro de desequilíbrios sociais, entende-se que o
conceito de cidadania é aquele que busca encontrar o equilíbrio
entre o binômio regulação - emancipação na vida de cada
indivíduo, em sua relação com outros indivíduos e nas relações
destes como o Estado. Entende-se que somente este equilíbrio
viabilizará a conquista da autonomia do individuo, a emancipação
do sujeito, e a prática da alteridade.
59
É trilhando na mesma direção apontada por Santos (2008)
que se vislumbrou a construção do presente trabalho de
pesquisa. Apesar de se reconhecer na Polícia Militar de Santa
Catarina (PMSC) um agente da Administração, promotor da
cidadania através do constante diálogo entre regulaçãoemancipação, propõe-se com a presente pesquisa sobre a
mediação de conflitos na PMSC, além de promover a cidadania,
auxiliar na conquista, pelo indivíduo, de sua autonomia e
emancipação, bem como estimular o exercício de alteridade
entre os cidadãos.
Pensando-se na PMSC como agente promotor da
cidadania e da emancipação, encontram-se em Egger (2008, p.
71) as seguintes idéias:
Falar de autonomia, de democracia e de
cidadania, num certo sentido, é ocupar-se da
capacidade
das
pessoas
para
autodeterminar-se em relação e com os
outros. A autonomia como uma forma de
tomar decisões com relação à conflitividade
que nos determina e configura, em termos de
identidade e cidadania. É um trabalho de
reconstrução simbólica dos processos
conflitivos das diferenças que nos permite
formar identidades culturais, uma forma de
nos integrar no conflito com o outro, com um
sentimento de pertinência comum. Uma
forma de poder perceber a responsabilidade
que toca a cada um em um conflito, gerando
devires reparadores.
Vislumbra-se, assim, na mediação de conflitos, um
caminho para a construção de uma instituição policial cidadã,
que interaja com os indivíduos e promova a cidadania, a sua
emancipação e sua autonomia. Sobre a construção da cidadania,
num exercício de direitos humanos, Egger (2008, p. 34) afirma:
Sendo que, a mediação, como técnica
alternativa – extrajudicial – de resolução de
conflitos, pode tornar-se uma engrenagem
fundamental na construção cidadã dos
direitos humanos, através da humanização
nos procedimentos de resolução de
controvérsias, levando-se em conta o
60
sentimento das partes com supremacia sobre
os seus conflitos, colocando-se em primeiro
plano as pessoas e seus sentimentos,
visando,
assim,
a
preservação
dos
relacionamentos interpessoais.
Este novo caminho, por sua vez, demanda mudanças por
parte da instituição policial militar. Neste sentido, Sales, Ferreira
e Nunes (2009, p, 71) apontam para a necessidade de construir
uma nova perspectiva de "combate":
Não o combate armado direto de outrora,
mas o combate à raiz da criminalidade, à
fonte da discórdia, ao início do problema, por
vezes oriundo de conflitos de família ou de
vizinhança, enfim, que acabam por
desencadear um conjunto de ações que
descambam para o ilícito.
Por fim, versando sobre segurança
Damasceno (2013, p. 135) afirma que:
e
cidadania,
A Segurança Cidadã visa proteger a
cidadania, promover a paz social e a
integração entre o policial e a comunidade,
através de uma relação em que há confiança
entre ambos, estimular a participação das
pessoas nas questões sobre segurança,
incentivar o diálogo e prevenir o crime por
meio da mediação de conflitos, que é um
mecanismo hábil e que se adéqua, sob o
ponto de vista teórico, ao desenvolvimento
da Segurança Cidadã.
A proposta aqui apresentada, de uma polícia promotora da
cidadania, pode parecer um tanto distante, porém para o autor
deste trabalho parece um caminho que já começou a ser trilhado.
O caminho de uma instituição histórica e tradicional, ciente de
suas limitações herdadas de um modelo que não lhe serve mais
e que por isso vem lançando iniciativas para mudar e atualizar a
sua forma de trabalhar. Não se pode negar as iniciativas que
vêm sendo desenvolvidas por esta Instituição policial para a
promoção da cidadania, em programas e projetos, como a
61
Polícia Comunitária4, o PROERD5, as vistorias preventivas
residenciais e comerciais6, a Mediação de Conflitos7.
4
Ver: FIORENTINI JUNIOR, Edio Francisco. A participação
comunitária e a aproximação policial da comunidade organizada
para a mediação de conflitos. Monografia (Especialização em
Segurança Pública) - Faculdade Ação, Florianópolis, 2013; RAMM,
Marcos Aurélio. Avaliação do alinhamento dos programas
preventivos desenvolvidos na Polícia Militar Militar de Santa
Catarina
com
os
eixos
estruturantes
da
Polícia
Comunitária. Monografia (Especialização em Administração de
Segurança Pública) - Universidade do Sul de Santa Catarina,
Florianópolis, 2011; RODRIGUES, Sérgio Arlan Pinto. Ações de
segurança pública em parceria com a comunidade com ênfase nos
CONSEG's. Trabalho de Conclusão de Curso (Curso de Formação de
Oficiais) Polícia Militar do Estado de Santa Catarina, Florianópolis,
2012.
5
Ver: INÁCIO, Cléber da Silva Benedet. A efetividade da teoria da
proteção integral através do Programa Educacional de Resistência
às Drogas (PROERD). Monografia (Especialização em Segurança
Pública) - Faculdade Ação, Florianópolis, 2013; ROSA, Arlei Pacheco
da. Análise do PROERD - Programa de Resistência às Drogas e à
Violência, como atividade de polícia ostensiva. Monografia
(Especialização em Administração de Segurança Pública) Universidade do Sul de Santa Catarina, Florianópolis, 2010; SILVA,
Augusto César da. Programa Educacional de Resistência às Drogas
- PROERD: uma análise da legitimidade de sua aplicação pela Polícia
Militar de Santa Catarina. Monografia (Graduação em Segurança
Pública) - Universidade do Vale do Itajaí, Florianópolis, 2009.
6 Ver: HUG JUNIOR, Eugenio. A fiscalização de estabelecimentos
comerciais pela Polícia Militar mediante convênio firmado com o
município e seus reflexos para a ordem pública. Monografia
(Especialização em Administração de Segurança Pública) Universidade do Sul de Santa Catarina, Florianópolis, 2010;
FAVERSANI, Lucas Montresol; MARTINS, Vinicius; SILVA, Augusto
César da. A Redução de fatores de risco e o fortalecimento da
prevenção criminal através do cuidado com a arquitetura urbana e o
espaço
habitacional.
In:
CONGRESSO INTERNACIONAL
SUSTENTABILIDADE E HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL, 3.,
2014, Porto Alegre. Anais... .Porto Alegre, 2014. CD-ROM.
7
Ver: FACHINI, Giovani Luciano. A mediação como possibilidade
para o policiamento: (por um policiamento restaurativo). Monografia
(Especialização em Segurança Pública) - Universidade do Sul de Santa
Catarina, Florianópolis, 2009; FIORENTINI JUNIOR, Edio Francisco. A
62
participação comunitária e a aproximação policial da comunidade
organizada para a mediação de conflitos.
Monografia
(Especialização em Segurança Pública) - Faculdade Ação,
Florianópolis, 2013.
63
2 A QUESTÃO DA POLÍCIA NA CONSECUÇÃO DA
SEGURANÇA PÚBLICA: DO PROCESSO HISTÓRICO DE
FORMAÇÃO DA POLÍCIA MODERNA À POLÍCIA MILITAR DE
SANTA CATARINA
No momento em que o Estado surge, com os objetivos de
manter a ordem, a paz e a segurança, surge também a atividade
de polícia com a função de assegurar a promessa estatal de paz
e segurança. Tradicionalmente, esta forma de controle do Estado
sobre os indivíduos se fez através do uso legítimo e autorizado
da força. Todavia, a polícia atual demonstra estar passando por
mudanças em suas formas de agir. Percorrer-se-á o presente
capítulo, sobre o processo de formação histórico da polícia, para
posteriormente, analisar os modelos de atuação desde o
estritamente regulador (reativo) ao modelo de promoção da
cidadania (preventivo).
As atividades de polícia existem desde que os primeiros
seres humanos passaram a viver em grupos. Mais ainda, desde
que as primeiras noções de propriedade privada foram
formuladas. A partir do momento em que surge a noção de
propriedade, simultaneamente deve ter surgido um embrião de
organização social que, entre outras coisas, irá manter a ordem e
assegurar o direito à propriedade no interior do grupo. Malinowski
(1986, p. 51), ao descrever as relações sobre a propriedade de
uma canoa em uma primitiva comunidade melanésia, situada a
noroeste da Nova Guiné, constatou que "[...] [nos] deparamos
com a lei, a ordem, privilégios definidos e um sistema de
obrigações bem desenvolvido".
Buscando-se compreender o surgimento da atividade
policial moderna, verifica-se que a sua formação se confunde
com o surgimento do próprio Estado moderno. A ordem, a paz e
a segurança prometidas pelo Estado foram sendo realizados na
medida em que a atividade policial do Estado foi se
consolidando.
Contemporaneamente a noção popular a respeito da
atividade de polícia está relacionada e necessita da combinação
e presença de três aspectos principais: caráter público,
especialização e profissionalização. Porém, ao longo da história
humana, diversas formas de policiamento foram instituídas, sem
combinarem estes aspectos e sem estarem necessariamente
atreladas à função pública de um Estado.
64
Dessa forma, segundo Bayley (2006, p. 21):
[...] O poder policial pode ser delegado a
outros tipos de agências sociais – tais como
igrejas, negócios, ligas e famílias – ou ser
descentralizado para subordinar grupos do
mesmo tipo – como no caso de Estados a
cidades, condados, províncias e distritos.
Como abordado anteriormente, apesar de determinadas
formas de policiamento poderem remeter a longínquos períodos
da história, as formas de policiamento, nos moldes como são
conhecidas atualmente, começaram a surgir na França e
Inglaterra
modernas,
espalhando-se
e
influenciando,
posteriormente, grande parte dos demais países do mundo.
2.1 A FORMAÇÃO DO MODELO ANGLO-SAXÃO DE POLÍCIA:
BASES DE UMA POLÍCIA CIVIL E DE PROXIMIDADE
A atividade de polícia, como se conhece na atualidade,
pode ser classificada como polícia moderna. Segundo uma
corrente teórica, este novo tipo de polícia surge com a criação da
Polícia Metropolitana de Londres, em 1829, pelo então Ministro
do Interior, Sir Robert Peel. Este modelo foi um protótipo de
organização concebido para substituir um sistema antigo e
corrupto da aplicação da lei. Antes desta inovação, a aplicação
da lei e a autorização para o uso da força estavam diluídas em
um intrincado jogo de poder político, envolvendo as tradicionais
estruturas do governo Inglês (BITTNER, 2003).
Segundo Bayley (2002, p. 75),
[...] Na Inglaterra, o comando da polícia
esteve nas mãos locais desde a época
Frankpledge8. Ele evoluiu para o sistema
8
Frankpledge é um sistema da Inglaterra medieval sob o qual todos os
grandes homens e suas famílias estavam unidos por uma
responsabilidade mútua para manter a paz. O sistema Frankpledge
remonta às leis do Rei Canuto II, o Grande, da Dinamarca e da
Inglaterra (1035), o qual declarou que todo homem, escravo ou livre,
deve fazer parte de uma centena, uma unidade local de governo, que
poderiam colocar uma garantia em dinheiro para o seu bom
comportamento. (Tradução nossa). (ENCICLOPAEDIA Britannica.
Disponível:
65
paróquia/constables, sob a direção de juízes
de paz e depois para o comando dos
condados e burgos, e finalmente para o
controle das “autoridades policiais”. [...]
O recém reformado modelo policial de Londres estava
cercado de ambiguidades. Segundo Bittner (2003, p. 41-42):
Por um lado a nova instituição devia
constituir uma parte do braço executivo do
governo, e ser organizada, fundada e
preenchida de acordo com os padrões típicos
de todo o sistema do executivo. Por outro
lado, os deveres atribuídos à organização
policial colocaram-se sob o controle direto do
judiciário em suas operações do dia-a-dia.
A dupla submissão da polícia ao poder executivo e ao
poder judiciário tinha como principal objetivo evitar que um
governo que estivesse no poder tivesse o controle absoluto e
direto da polícia. Também se entendia que a principal função da
polícia, neste contexto, era o controle do crime. Como a idéia de
“crime” estava vinculada a uma concepção de lei, entendia-se
que a atuação policial deveria ser submetida ao mesmo sistema
revisional que controlava a administração da justiça. (BITTNER,
2003).
A forma de organização das estruturas policiais vigentes
na Inglaterra antes de 1829 eram descentralizadas e complexas.
O policiamento e o exercício da força eram realizados por grupos
comunitários, por grupos paramilitares e milícias e por forças
militares oficiais. As forças militares tinham por atribuição garantir
a segurança externa no Estado-Nação, porém intervinham em
graves perturbações internas que ameaçassem as estruturas
políticas e o status quo (BAYLEY, 2002).
Nas décadas que antecederam à reforma da polícia em
Londres, não ocorreram registros de insurreições que
almejassem transformações políticas. Porém ocorreram
“tumultos normativos”9, em que a população expressava seu
<http://www.britannica.com/EBchecked/topic/217440/frankpledge>.
Acesso: 11JUL13).
9
Expressão utilizada por Allan Silver. (SILVER, Allan. 1967. “The
demand for order in civil society: a review of some themes in the history
66
descontentamento contra situações e assuntos específicos,
afetando mais aos patrimônios privados, os quais demandavam
medidas e ações de administração local mais do que o emprego
do exército (BAYLEY, 2002, p. 106).
Neste contexto de tumultos relativamente inócuos e de
aumento do índice de crimes contra a propriedade, verificou-se
que as estruturas de policiamento até então aplicadas não
conseguiam mais oferecer uma resposta adequada. Também se
verificou que atuação do exército para estes tipos de eventos não
era a mais amoldada, tendo em vista o uso excessivo da força.
Bayley (2002, p. 110) descreve, neste momento histórico que
antecede a criação da Polícia Metropolitana de Londres, que:
[...] O populacho urbano havia se agitado
repetidamente durante os setenta anos
anteriores, paralisando cidades, causando
dano pesado à propriedade e mostrando que
a guarda-civil paroquial era impotente contra
ele. O exército, suportado pela milícia, foi
destacado para as principais cidades,
especialmente
na
região
central
industrializada.
A
intervenção
militar,
geralmente era eficaz, mas com um alto
custo em termos de baixas na população –
um custo que frequentemente exacerbava os
sentimentos contra a autoridade [...].
Diante deste quadro de incertezas e inoperâncias dos
sistemas de controle social e uso da força, o ministro do interior,
Robert Peel, apoiado pelo Duque de Wellington, líder da Casa
dos Lordes e principal autoridade militar da Inglaterra na época,
conseguiu introduzir no Parlamento a proposta de Lei da Polícia
Metropolitana de Londres, em 1828, bem como conseguiu a sua
aprovação em 1829 (BAYLEY, 2002, p. 110).
Dessa forma, a “nova polícia” iniciou os trabalhos na rua no
dia 29 de setembro de 1829. Esta é considerada a “primeira
polícia preventiva, uniformizada, de alcance municipal e em
tempo integral da Inglaterra”. Porém, a recém formada instituição
policial não teve tempo para selecionar e formar um corpo de
agentes próprios. Assim, “[...] a força foi criada com a mistura de
of urban crime, Police, and Riot”. In BORDUA, David J. (ed). The Police:
six sociological essays, New York, John Wiley and Sons, pp. 1-24.).
67
vigilantes, seguranças particulares, guardas-civis paroquiais e
polícia magisterial paga pelo governo” (BAYLEY, 2002, p. 109).
O modelo da “nova polícia” londrina passou a ser irradiado
para o restante da Inglaterra, mas não de forma ordenada e
consensual. Por volta de 1856, cerca de vinte condados ainda
não haviam realizado nenhuma reforma em suas polícias, outros
sete seguiam em uma combinação de forças reformadas e não
reformadas. Porém, ainda neste ano, vinte e quatro condados já
haviam reformado e unificado suas forças policiais. Por conta
desta disformidade na situação das polícias, o Parlamento inglês
aprovou o County and Borough Police Act, em 1856, para obrigar
os governos locais a reformarem suas polícias, submetendo-as à
supervisão do Home Office. Em contrapartida, o governo central
contribuiria com um quarto dos custos para as polícias e
forneceria inspetores da coroa para atuação local (BAYLEY,
2002, p.112).
Percebe-se que as mudanças no modelo de policiamento
inglês não foram determinadas exclusivamente pelas agitações
populares e/ou movimentos que buscavam transformações na
estrutura política, como ocorria na mesma época em outros
países europeus. Um fator que possivelmente preponderou para
a reforma policial londrina foi o recente processo de
industrialização e seus desdobramentos, como o movimento de
urbanização das cidades e o surgimento de uma numerosa
classe média. No entendimento de Bayley (2002, p.113),
[...] Uma pequena classe aristocrática
hereditária pode defender seus interesses
através de meios particulares, mas uma
classe média numerosa precisa do Estado
para criar o tipo de ordem pública que
alimenta suas atividades [...]. O espaço
público precisa se tornar seguro para todos,
não só para os ricos com seus servos
armados. Para isso são necessárias vastas
forças policiais.
O modelo inglês de policiamento moderno foi introduzido
nos Estados Unidos da América em 1844. Apesar de os Estados
Unidos terem declarado sua independência da Inglaterra em 04
de julho de 1776, as influências da antiga metrópole continuavam
atingindo o novo país. Entretanto, o modelo de polícia
desenvolvido por Peel foi assimilado e adaptado às
68
características americanas. Por exemplo, enquanto a GrãBretanha
desenvolveu
um
sistema
moderadamente
descentralizado, concedendo autonomia às 43 “autoridades
policiais” (estando relacionadas diretamente aos 43 condados
existentes à época), os Estados Unidos desenvolveram um
sistema policial considerado extremamente descentralizado
(BAYLEY, 2002).
Segundo Bayley (2002, p. 70):
[...] As força dos Estados Unidos são tão
descentralizadas que não se tem certeza
nem de quantas são. A estimativa de Bruce
Smith, de 40.000 forças policiais separadas,
foi amplamente aceita por muitos anos, ainda
que ele não explique como chegou a ela [...].
No início dos anos 70, a Law Enforcement
Assistance Administration (LEAA) promoveu
uma pesquisa para determinar quantas
forças existiam. Conclui-se que a estimativa
mais aproximada seria de mais de 25.000.
Após a introdução do modelo inglês de policiamento nos
Estados Unidos, mas principalmente a partir do século XX, este
país destacou-se pelo grande número de pesquisas e registros
de informações a respeito da atividade policial. Dessa forma,
atualmente, qualquer pesquisa que tenha por objeto as
instituições e a atividade de polícia, inevitavelmente deverá
recorrer a bibliografias e informações de origem norte-americana.
Outro aspecto constatado em relação à polícia neste
momento pós reforma era a aparente existência de dois domínios
independentes de atuação para esta instituição. “[...] Segundo a
terminologia sugerida por Michael Banton, pode-se dizer que as
forças policiais funcionam, na primeira instância, como
„funcionários da lei‟ e, na segunda instância, como „funcionários
da paz.‟” (BITTNER, 2003, p. 43).
A teoria anglo-saxã de polícia, mas principalmente a
literatura norte-americana, traça uma distinção entre a função de
“combate ao crime”, para os casos de conflito claro com a lei a
serem tratado com prisões; e a função de “manutenção da paz”,
em que não existe uma definição precisa, mas versa sobre as
situações conflituosas que surjam da vivência em sociedade, que
não afrontem diretamente um dispositivo legal, e não demandem
a realização de prisões (BITTNER, 2003).
69
2.2 O MODELO LATINO DE POLÍCIA: BASES PARA A
FORMAÇÃO DAS POLÍCIAS MILITARES
Outra corrente teórica acredita que o desenvolvimento do
modelo francês de polícia teve início anterior ao modelo anglosaxão, e seguiu de forma concorrente com o desenvolvimento do
modelo inglês de polícia. Os modelos supracitados diferenciamse em diversos aspectos, práticos e teóricos. Dentre os aspectos
teóricos vale destacar, inicialmente, que o modelo inglês se
desenvolveu seguindo a Comom Law, enquanto o modelo
francês se estruturou a partir antiga Lei romana, com a idéia de
um poder central.
Assim como na Inglaterra antes da reforma de Peel, as
primeiras atividades de policiamento na França possuíam caráter
privado e comunitário. Geralmente ligadas aos proprietários de
terras, inicialmente, e aos burgueses e artesãos, posteriormente,
os aldeões se organizavam para combater grupos de assaltantes
nas estradas e saqueadores nas cidades (MONET, 2002).
Outra grande influência para o início da formação primitiva
de forças públicas de segurança na Europa continental advém do
desenvolvimento econômico e das atividades comerciais
realizadas nas grandes feiras, como a Champagne, na França.
Dessa forma, em finais do século XIII, os “[...] primeiros embriões
de polícia ganham corpo sob a forma de “guardas de feiras”
(custodes nundinarum), investidos de vastos poderes de coação
física para garantir a ordem e a segurança” (MONET, 2002, p.
43).
Apesar de, repetidamente, a literatura atribuir o surgimento
da polícia moderna ao desenvolvimento do modelo inglês, da
“nova polícia”, no século XIX, alguns autores entendem que se
pode encontrar na França, a partir do século XIII, o embrião
desta nova forma de conceber a atividade policial. Segundo
Monet (2002, p. 105):
A principal e mais antiga missão da polícia
concerne ao que se chama tradicionalmente,
na França, a sécurité publique [...] expressão
que remete, com justiça, à idéia de proteção
de um cidadão [...]. Missão principal, porque
mobiliza os maiores batalhões dos corpos
policiais,
em
especial
os
agentes
uniformizados. Principal também, porque
70
concerne à vida cotidiana das pessoas que,
em sua maioria, jamais conhecerão a polícia
a não ser sob esse aspecto. Principal, enfim,
porque é a mais antiga das missões policiais,
descendendo em linha direta das primeiras
formas de organização policial nas cidades
medievais.
A França sofreu com uma consequência específica
decorrente dos diferentes momentos da “Guerra dos Cem Anos”
(1337 a 1453). Grupos de soldados desertores ou licenciados, do
exército ou das milícias, começaram a praticar saques e
pilhagens no território francês. Para combater estas práticas, foi
criada na segunda metade do século XIV a Maréchaussée,
inicialmente com a função de caçar os desertores e,
posteriormente, assumindo a responsabilidade realizar o
policiamento nas áreas rurais francesas. Esta polícia era
composta predominantemente por cavaleiros e as atividades de
segurança eram realizadas através de cavalgadas pelas grandes
estradas (MONET, 2002).
Por sua vez, na cidade de Paris, ainda no século XIII, foi
criado por “São Luís”, o posto de preboste10 de Paris. Ao mesmo
passo, a Maréchaussée se especializava através do policiamento
nas zonas rurais e no interior da França. O preboste de Paris
estava
sediado
no
Châtelet,
o
qual
concentrava,
simultaneamente, os serviços judiciários e penitenciários da
época. Esta estrutura de policiamento se desenvolveu
rapidamente.
Segundo Monet (2002, p. 45):
[...] Logo os primeiros comissáriosexaminadores aparecem no Châtelet.
Assistidos por “sargentos”, eles cumulam
funções de investigadores e de juízes. Esse
duplo processo, de profissionalização e de
10
En el antiguo Derecho francés, la palabra preboste tiene distintos
significados
y
se
aplica
a
diferentes
funciones. Etimológicamente (praepositus) se aplica a toda aquella
persona que dirige una sección dedicada al servicio público, una
posición que, según los viejos principios, se corresponde con un
derecho
de
jurisdicción.
(WIKIPEDIA.
Disponível:
<http://es.wikipedia.org/wiki/Preboste>. Acesso: 11JUL13).
71
especialização, prossegue no século XVI.
Francisco I e Henrique III duplicam o número
de comissários e de sargentos e suprimem o
Vigia burguês, formado por não-profissionais:
daí em diante, apenas o Vigia real patrulha
as ruas de Paris.
O posto de preboste de Paris, no século XVII, dará origem
à chamada tenência de polícia. Assim, pode-se constatar que o
modelo francês de polícia se assenta em dois aspectos basilares:
a Maréchaussée, na área rural, e a tenência de polícia, em Paris
(MONET, 2002).
A Maréchaussée se consolida como instituição de
segurança a partir do século XVI. Possui origem e características
puramente militares, porém passa a realizar também atividades
de competência da polícia civil nos campos, tanto de repressão
de pilhagens e contrabandos, quanto de motins e de
insurreições. Também procedia a vigilância de populações
itinerantes, como vagabundos e desertores. Com o início da
Revolução, a denominação de Maréchaussée foi substituída por
Guarda Civil, sendo que as características de organização e
funcionamento desta polícia permanecem praticamente as
mesmas desde o século XVIII até a atualidade (MONET, 2002).
Por sua vez, a função de “tenente de polícia de Paris”, foi
criada para organizar e confederar as diversas tarefas de
administração da cidade, as quais estavam distribuídas entre
múltiplas autoridades, por vezes, concorrentes. Segundo Monet
(2002, p. 49), o tenente de polícia:
[...] zela pela segurança pública, organiza a
repressão da criminalidade, toma as
disposições necessárias para evitar os
incêndios e as epidemias ou ainda limitar os
efeitos das inundações causadas pelas
cheias do Sena. Ele manda guardar os
mercados e tomar medidas que facilitam o
abastecimento cotidiano da capital.
A experiência francesa em lidar com guerras e com a
Revolução, associada à difusão do código penal napoleônico, fez
com que o modelo de policia militar adotado pelo Estado Francês
se expandisse para diversos outros países. Além disso, em 1791,
72
a antiga Maréchaussée (posteriormente, Guarda Civil) passou a
ser denominada de Gendarmerie (MONET, 2002).
Apesar de existirem outros modelos de polícia, percebe-se
que o mundo ocidental moderno e contemporâneo, em grande
parte, desenvolveu seus modelos de polícia pautados nas
influências anglo-saxãs e latinas. A cultura inglesa, após
observar o modelo centralizado de poder francês e sua polícia
militar, optou por uma forma de policiamento descentralizada e
civil (MONET, 2002). Segundo Bayley (2002), Estados que
passaram por graves convulsões sociais no seu período de
formação e consolidação possuem maior tendência a
desenvolverem governos centralizados e forças policiais de
natureza militar.
Assim, enquanto a passagem de uma forma antiga de
policiamento para a polícia moderna, na França, ocorre devido e
no momento da Revolução, momento este de grandes mudanças
na estrutura política e social, a reforma inglesa transcorre num
momento de relativa estabilidade política, marcado por leves
manifestações populares, sem cunho de transformações radicais
nas estruturas existentes. Novamente, se retoma as palavras de
Bayley (2002) para compreender, principalmente, a diferença
sobre a questão da polícia militar francesa, em oposição ao
modelo de polícia civil inglês.
De uma espécie de combinação entre estas duas formas
de realizar o policiamento surge a idéia de dualismo ou
pluralismo, como forma diversificar o sistema monista inicial.
Segundo Monet (2002, p. 85),
Diante dos sistemas monistas, os sistemas
de polícia pluralistas comportam pelo menos
dois corpos de policiais. É preciso ainda
distinguir entre o pluralismo moderado, que
faz coabitar no máximo algumas dezenas de
corpos policiais, como na Grã-Bretanha, e o
pluralismo forte, no qual esse número pode,
como no Canadá, atingir várias centenas, e
mesmo vários milhares, como nos Estados
Unidos.
Percebe-se, dessa forma, que o desenvolvimento de uma
polícia com características próximas das práticas ocidentais
atuais teve início na França, com a criação do posto de preboste
de Paris e da Maréchaussée, a partir do século XIII, bem como
73
influências da “nova polícia” inglesa, após a reforma promovida
por Peel, em 1829.
Em relação ao modelo Francês (Latino) de polícia, verificase, por fim, que suas principais e mais marcantes características
são uma organização centralizada, a dualidade de funções,
preventiva e investigativa, e a existência de instituições militares
e civis de polícia. Estas características foram difundidas em
diversos países europeus, cada um aplicando o modelo
conforme suas realidades; entre eles Portugal. Dessa forma,
Portugal adotou o modelo de polícia latino, o qual, durante a
colonização do Brasil e posteriormente, com a transferência da
Família Real, também se firmou como principal modelo brasileiro
(HIPÓLITO e TASCA, 2012).
2.3 O PROCESSO DE FORMAÇÃO DA POLÍCIA NO BRASIL E
EM SANTA CATARINA
A história da polícia no Brasil tem seu marco inicial com a
chegada da Divisão Militar da Guarda Real de Polícia, a qual
acompanhou a Família Real Portuguesa em sua fuga de Portugal
para o Rio de Janeiro, em 1808. Ainda neste ano, foi criada por
meio de alvará, a Intendência de Polícia da Corte. O intendente
de polícia, entre outras atribuições, desempenhava funções
judiciais. O instituto da Intendência pode ser considerado o
embrião da atual polícia investigativa e judiciária brasileira
(MARIANO, 2004, p. 19).
Segundo Gomes (2007, p.229):
No Brasil, a polícia começou oficialmente no
dia 10 de maio de 1808, bem como a sua
divisão em militares e civis. Com a chegada
da família real ao Rio de Janeiro, Dom João
VI nomeou o desembargador, advogado e
ouvidor da Corte, Paulo Fernandes de Viana,
ao cargo de Intendente Geral de Polícia.
Seria o que corresponde hoje às atribuições
de um Prefeito com um Secretário de
Segurança Pública. Sua missão incluía, além
de policiar as ruas, aterrar pântanos,
organizar o abastecimento de água, melhorar
a iluminação pública, a coleta de lixo e o
esgoto, construir estradas, pontes, praças e
passeios públicos.
74
Também no período Imperial, em 18 de agosto 1831, foi
criada a Guarda Nacional, primeira Força Policial brasileira.
Somente poderiam se alistar na Guarda Nacional aqueles que
fossem brasileiros e eleitores. Segundo a Constituição do
Império, de 1824, somente poderia ser eleitor o cidadão que
possuísse uma determinada renda mínima, configurando um
critério de estratificação social a partir de aspectos econômicos.
Esta situação criou uma característica que se reproduz até hoje
em relação à segurança pública, o aparato estatal estratificado
atuando repressivamente contra a grande maioria da população
socialmente excluída (MARIANO, 2004).
Paralelamente à criação da Guarda Nacional, o governo
imperial autorizou a criação, a partir de 1831, de Forças Públicas
estaduais e Corpos de Guardas Municipais. Por exemplo, Santa
Catarina criou sua Força Policial em 05 de maio de 1835, através
da Lei Provincial n. 12.11 São Paulo, por sua vez, criou sua Força
Pública somente em 1891, através da Lei n. 17, de 14 de
novembro de 1891, já no período republicano (HIPÓLITO e
TASCA, 2012).
A organização gestada no período imperial manteve suas
características no período republicano; “o sistema de segurança
pública brasileiro ficou centralizado nos estados federados
(antigas províncias) e fortaleceu-se a dualidade na atividade
policial” (MARIANO, 2004, p. 23). O que o autor entende por
“dualidade” será abordado mais à frente como ciclo de polícia, o
qual é composto por dois momentos, um chamado de preventivo
e outro chamado de reativo.
Desde o início do século XX até o ano de 1969, em muitos
estados brasileiros coexistiram simultaneamente forças policiais
estaduais e guarda civis municipais. Porém, o Decreto n. 1.072,
de 30 de dezembro de 1969, extinguiu as guardas civis
existentes em 15 estados da Federação. A fusão entre as Forças
Públicas e as Guardas Civis deu origem às instituições
chamadas Polícias Militares (HIPÓLITO e TASCA, 2012).
Constata-se que, desde a chegada da Família Real ao
Brasil, foram utilizadas muitas denominações e formas de
organização para os corpos de polícia em todo o País. Porém, a
estrutura e organização atuais das polícias foram definidas com a
11
SANTA CATARINA. POLÍCIA Militar de Santa Catarina. Disponível:
<http://www.pm.sc.gov.br/institucional/historia/>. Acesso: 11JUL13).
75
promulgação da Constituição Federal da República Federativa do
Brasil de 1988.
A definição de polícia, para Lazzarini (1986, p. 20) é:
[...] o conjunto de instituições, fundadas pelo
Estado, para que, segundo as prescrições
legais e regulamentares estabelecidas,
exerçam vigilância para que se mantenham a
ordem pública, a moralidade, a saúde
pública, e se assegure o bem estar coletivo,
garantindo-se a propriedade e outros direitos
individuais.
A atividade de polícia na segurança pública brasileira é
matéria constitucional e possui desdobramentos práticos e
teóricos nas três esferas de atuação do Estado: União, Estados e
Municípios.
O texto constitucional brasileiro de 1988, no caput de seu
art. 5º, garante aos brasileiros e estrangeiros entre outros
direitos, o direito à segurança e à propriedade. Assim, “todos são
iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade [...]” (grifo nosso).
A estruturação e a organização estatal da Segurança
Pública também são matérias constitucionais. Conforme já
discutido anteriormente, o art. 144 caput e parágrafos seguintes
da Constituição de 1988 descrevem, a respeito da segurança
pública:
Art. 144. A segurança pública, dever do
Estado, direito e responsabilidade de todos,
é exercida para a preservação da ordem
pública e da incolumidade das pessoas e do
patrimônio, através dos seguintes órgãos:
I - polícia federal;
II - polícia rodoviária federal;
III - polícia ferroviária federal;
IV - polícias civis;
V - polícias militares e corpos de bombeiros
militares.
Dos órgãos policiais acima descritos, percebem-se
instituições que possuem esfera de atuação federal, vinculados à
76
União (Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Polícia
Ferroviária Federal) e esfera de atuação estadual, vinculados aos
Estados (Polícia Civil, Polícia Militar e Bombeiro Militar). A
Constituição também prevê em seu parágrafo 8º, a possibilidade
de os municípios instituírem Guardas Municipais para a proteção
de seus bens, serviços e instalações, porém, não lhes atribuindo
a competência de polícias.
Merece destaque, no modelo de polícia brasileiro, uma
característica que até onde se conseguiu pesquisar, não se
repete em nenhuma outra polícia no mundo, o chamado ciclo de
polícia incompleto. Enquanto nos demais países as polícias
realizam o ciclo completo, ou seja, uma mesma instituição realiza
a polícia administrativa e a polícia judiciária. No Brasil adotou-se
o ciclo incompleto de polícia, ou seja, um modelo de duas meias
polícias. Dessa forma, enquanto as polícias militares realizam a
polícia administrativa (prevenção e restauração imediata) a
polícia civil realiza somente a polícia judiciária (averiguação de
infrações penais e ações cartorárias para subsidiar a ação do
Poder Judiciário). Na prática, quando a polícia militar efetua a
prisão de um suspeito, ao invés de apresentá-lo ao promotor de
justiça e ao juiz, o encaminha até a polícia civil, a qual cumprirá
as formalidades cartorárias para o registro da prisão e a posterior
condução à promotoria e a o judiciário.
Em alguns estados brasileiros, porém, construí-se uma
forma alternativa de condução de uma prisão em flagrante. Nos
casos de crime de menor potencial ofensivo, em alguns estados
(Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Sergipe e Alagoas
(HIPÓLITO E TASCA, 2012), a polícia militar lavra o Termo
Circunstanciado e encaminha tudo diretamente ao poder
judiciário, para os Juizados Especiais Criminais. Diz-se assim,
que nos casos de lavratura de Termo Circunstanciado, as
polícias militares acabam por realizar o ciclo completo de polícia.
2.4 A POLÍCIA MILITAR EM SANTA CATARINA
SEGURANÇA PÚBLICA
E A
Os órgãos de segurança pública no Estado de Santa
Catarina estão administrativamente subordinados ao Governador
do Estado, porém, estão operacionalmente subordinados ao
Secretário de Segurança Pública.
77
A Secretaria de Segurança do Estado de Santa Catarina
(SSP-SC) foi criada pela Lei nº 12, de 12 de novembro de 1935
(DIAS, 2002, p. 154), durante o governo de Nereu Ramos, então
interventor Federal do Estado. Ao longo dos anos esta secretaria
sofreu algumas alterações em relação às suas funções e
nomenclatura.
Somente no ano de 2005, a Secretaria de Segurança
Pública (SSP) teve a sua estrutura atual definida pela Lei
Complementar n. 284/05. O art. 56 da referida Lei estabelece
que a Secretaria de Segurança Pública (SSP) será constituída
pelos seguintes órgãos:
Art. 56. A Secretaria de Estado da
Segurança Pública e Defesa do Cidadão é
constituída pelos seguintes órgãos:
I - Corpo de Bombeiros Militar;
II - Departamento Estadual de Defesa Civil;
III - Departamento Estadual de Trânsito;
IV - Polícia Civil;
V - Polícia Militar;
VI - Departamento de Administração
Prisional;
VII - Departamento de Justiça e Cidadania; e
VIII - Instituto Geral de Perícia. (SANTA
CATARINA. LC n. 284/05. 2005)
As competências da SSP e de seus órgãos integrantes
estão previstas no art. 58:
Art. 58. Compete à Secretaria de Estado da
Segurança Pública e Defesa do Cidadão, por
meio de seus órgãos, além de outras
atribuições que lhe forem conferidas por lei,
as atividades relacionadas com:
I - ordem pública; II - segurança pública; III investigação criminal e polícia judiciária; IV defesa civil; V - corpo de bombeiros em
colaboração com os municípios e a
sociedade; VI - implementação da política
estadual de promoção e defesa dos direitos
dos
adolescentes
autores
de
atos
infracionais; VII - defesa dos direitos
humanos; VIII - defesa dos direitos do
consumidor, fiscalização e arrecadação nas
relações de consumo; IX - policiamento de
78
trânsito; X - policiamento ambiental; XI medidas de prevenção e repressão ao uso
de entorpecentes e ao crime organizado; XII
- administração dos estabelecimentos penais;
XIII - elevação da escolaridade e ensino
profissionalizante dos detentos; XIV fiscalização de jogos e diversões públicas;
XV - fiscalização de produtos controlados;
XVI - serviços de perícia criminalística,
médico-legais e de identificação civil e
criminal; XVII - implantação de núcleos de
perícia; XVIII - implantação de ações,
programas e projetos específicos no Sistema
Prisional para assegurar o retorno e a
reinserção social do apenado; XIX promoção da criação de Conselhos
Municipais e Comunitários de Segurança; XX
- estímulo e apoio à implantação de guardas
municipais, promovendo a formação de seus
integrantes; XXI - registro e licenciamento de
veículos
automotores,
habilitação
de
condutores e campanhas educativas para o
trânsito; XXII - proteção a vítimas e
testemunhas
ameaçadas;
XXIII
coordenação dos centros de apoio às vítimas
de
crimes;
XXIV
planejamento,
coordenação, orientação e avaliação dos
programas e ações governamentais da área
da Segurança Pública, nos termos do Plano
Plurianual,
da
Lei
de
Diretrizes
Orçamentárias, da Lei Orçamentária Anual e
com o acompanhamento dos Conselhos de
Desenvolvimento Regional; e
XXV - execução dos programas e ações
governamentais da área da Segurança
Pública, nos termos do Plano Plurianual, Lei
de
Diretrizes
Orçamentárias
e
Lei
Orçamentária Anual.
Inobstante a atuação dos diversos órgãos acima
relacionados, manter-se-á o foco deste trabalho na atuação dos
órgãos de polícia, com destaque para a atuação da Polícia Militar
de Santa Catarina.
Assim, como visto anteriormente, tanto na Constituição
Federal de 1988 quanto nas legislações infraconstitucionais
79
existentes no Estado de Santa Catarina, existem duas
instituições de polícia: uma polícia militar e uma polícia civil.
Estas instituições, assim estruturadas, desempenham um ciclo
incompleto de polícia. Enquanto a polícia militar realiza
atividades de prevenção e polícia administrativa a polícia civil
realiza as atividades de repressão e polícia judiciária.
Reforçando-se o que já foi abordado anteriormente, diz-se que
uma instituição realiza o ciclo completo de polícia quando uma
única instituição policial realiza a prevenção e a repressão,
inclusive conduzindo o inquérito policial para apuração de
infrações penais.
A organização e a estrutura de polícia adotada no modelo
brasileiro não encontra eco em outros países, os quais optaram
pelo modelo de polícia de ciclo completo. Nesse sentido, Hipólito
e Tasca (2012, p. 132), esclarecem:
Ao contrário dos demais países ocidentais
que possuem mais de uma polícia e que tem
a repartição das funções predominantemente
territoriais, no Brasil há o predomínio das
polícias estaduais em um modelo de meiapolícia, duas polícias estaduais, Polícia
Militar e Polícia Civil, de ciclo incompleto de
polícia [...].
A polícia militar é a instituição responsável pela
preservação da ordem pública durante o momento chamado de
“normalidade” da ordem. Esta preservação na “normalidade” é
realizada através de atividades preventivas e de polícia
ostensiva, no âmbito da polícia administrativa. Quando ocorre a
“quebra” da ordem e inicia-se um momento de “anormalidade” a
polícia militar deve atuar na restauração imediata da ordem.
Caso a ordem não seja restabelecida imediatamente pela polícia
militar, a competência de atuação passa para a polícia civil, a
qual buscará apurar a autoria e materialidade da infração penal
no âmbito da polícia judiciária. Através da atuação das polícias
tem inicio a movimentação do chamado sistema penal, também
conhecido como sistema de justiça criminal.
Como visto anteriormente, a segurança pública tem como
principal objetivo preservar a ordem (pública) através de medidas
preventivas. A idéia de ordem prevista na Constituição Federal
está diretamente ligada à noção de ausência de crimes. Para
80
cumprir esta meta, os órgãos de polícia militar estaduais
cumprirão a função de primeira barreira contra o crime,
prevenindo e reprimindo imediatamente, seguidos pela atuação
dos demais órgãos do sistema de justiça penal quando a primeira
barreira falhar.
As polícias militares, assim, são encarregadas de realizar a
polícia ostensiva, de caráter eminentemente administrativo, para
a preservação da ordem pública e a incolumidade das pessoas e
do patrimônio. No modelo brasileiro, de ciclo incompleto de
polícia, as polícias militares farão a prevenção criminal e a
restauração imediata, não podendo realizar, em tese, a parte
cartorária de sua atuação, restando à polícia civil a continuidade
do procedimento policial.
Neste espaço de atuação prioritariamente preventiva,
porém ainda pouco trabalhado pelas Corporações devido à
demanda repressiva reprimida, existe uma imensidão de
possibilidades de agir preventivamente.
Como se pode observar nas discussões até o momento
realizadas, a preservação da ordem pública e a polícia ostensiva
possuem as atividades preventivas como principal forma de
atuação e também como objetivo finalístico, restando, somente
nos casos de quebra da ordem a reação imediata. Dessa forma,
é de extrema relevância para o exercício da missão Policial
Militar, compreender-se o que é prevenção e distingui-la do
conceito de reação.
Entretanto, apesar das previsões constitucionais e legais
para atuar preventivamente, as polícias militares brasileiras ainda
estão atuando, predominantemente na área reativa. Isto porque a
demanda de crimes é tamanha que quase a totalidade do efetivo
é voltado para o atendimento das ocorrências policias por fatos
delitivos em andamento ou já consolidados.
Marcineiro e Pacheco (2005, p. 61), sobre a reação,
afirmam que,
Esta ideologia tem por pressuposto básico a
reação do aparato policial à quebra da ordem
pública. Não há preocupação com a
prevenção dos fatos que levam à quebra da
ordem pública. Limita-se a atender os
chamados de emergência, dispondo todos os
recursos humanos e materiais de modo a
tornar cada vez mais eficiente esta atividade.
81
[A] ação de uma Polícia baseada na
ideologia reativa “aparece depois de
cometida a infração, age „a posteriori‟,
investiga os fatos já praticados.”
Este modelo de polícia reativo, durante um período
histórico foi tido como uma teoria para a realização o
policiamento. Porém, a reação ocupa-se, basicamente, em agir
sobre os efeitos, as consequências, do ato criminoso. Possui
caráter eminentemente punitivo, "vingativo", e busca coibir a
prática de um crime pelo medo de uma futura sanção e pela
certeza da aplicação desta punição. Como veremos adiante, a
reação demonstrou não ser adequada para atender as atuais
necessidades da sociedade devido a diversos fatores, como a
impunidade, a falta de estrutura das polícias, do judiciário e do
sistema penal, a falta de tratamento das causas, a inadequada
gestão dos conflitos.
A prevenção, por sua vez, busca prioritariamente identificar
e atuar nos fatores geradores de atos criminosos. O objetivo
principal é agir antes que o crime ocorra, em suas causas. Esta
postura preventiva também demanda estrutura e recursos dos
organismos de segurança pública; requer a otimização do serviço
policial, com ampliação do serviço de inteligência, do
geoprocessamento e do planejamento. Demanda também o
envolvimento das demais esferas do poder público e de toda a
sociedade, buscando atuar na identificação e resolução
antecipada dos diversos problemas no âmbito social.
Para o Ministério da Justiça, através da sua Secretaria
Nacional de Segurança Pública – SENASP:
Prevenção do Crime e da Violência [é o]
resultado de políticas, programas e/ou ações
de redução do crime e da violência e/ou seu
impacto sobre os indivíduos e a sociedade,
atuando sobres os fatores de risco e os
fatores de proteção que afetam a incidência
do crime e da violência e seu impacto sobre
os
indivíduos,
famílias,
grupos
e
comunidades, e sobre a vulnerabilidade e a
resiliência dos indivíduos, famílias, grupos e
comunidades diante do crime e da violência
(MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. 2005, p. 9).
82
Percebe-se assim, que a prevenção é um movimento de
antecipação que demanda o amplo envolvimento do Estado e da
sociedade, pois ambos são, simultaneamente, agentes na
prevenção e vítimas quando a prevenção falha.
Entretanto, a sociedade, e os organismos da Segurança
Pública que estão inseridos nesta sociedade, tendem a repetir
comportamentos passados e apresentar certa resistência em
aceitar mudanças e novidades. Durante muitos anos, a forma de
atuação da Segurança Pública, esteve relacionada a medidas
reativas, repressivas e à sanção aplicada ao infrator. Porém, esta
postura de reação, pode ensejar o uso mais contundente da
força ao restabelecer a ordem, por vezes, associando ao Estado
uma imagem arbitrária e autoritária e as quais colocariam em
risco as garantias e os direitos fundamentais do cidadão.
A história demonstra que a dicotomia entre prevenção e
repressão já vem de longa data. Beccaria (2001), em "Dos
Delitos e das Penas", já no século XVIII, criticava o alto número
de condenações bem como o rigor das penas e defendia a
prevenção como melhor alternativa ao cometimento dos crimes.
No intuito de prevenir os crimes, Beccaria propôs cinco medidas
a serem tomadas.
A primeira seria adotar uma legislação clara e concisa, em
contrapartida à profusão de leis criadas, para que protegessem
igualmente a todas as classes sociais e para que os cidadãos
temessem apenas as leis, e não aos homens. A segunda seria
promover uma difusão da ciência e do saber para eliminar a
ignorância e a calúnia. A terceira medida seria afastar do
santuário das leis a corrupção, aumentando o número de
tribunais para dividir a autoridade entre vários magistrados para
que se observem mutuamente, evitando a concentração de
poder entre poucas pessoas. A quarta seria a recompensa da
virtude, estimulando comportamentos positivos. A quinta e última
medida seria aperfeiçoar a educação. (BECCARIA, 2001).
A postura humanitária de Beccaria contribuiu para o início
do pensamento criminológico, bem como influencia até hoje a
gestão das sociedades ocidentais, principalmente em seus
aspectos penais. A respeito da criminologia, segundo Rolim
(2006, p. 107), a “moderna criminologia tem [...] contrariado as
crenças políticas a respeito do controle da criminalidade e parece
se chocar coma a crescente demanda punitiva observada nas
democracias ocidentais [...]”. Ou seja, percebe-se uma mudança
83
nas correntes de criminologia para deixar de tratar a
criminalidade de forma puramente reativa, abrindo espaço para a
discussão de outras formas de abordar a questão criminal,
inclusive evidenciando a aplicação de estratégias direcionadas
para a prevenção do delito.
A Secretaria Nacional de Segurança Pública, sintonizada
com as novas tendências do policiamento em todo o mundo e
com as novas contribuições da criminologia, está estimulando a
implementação de políticas preventivas, que objetivem a
otimização da inteligência e investigação das polícias,
mecanismos para a resolução de conflitos, passando a fazer
parte da agenda dos gestores da segurança pública, algo que até
pouco tempo não ocorria.
A Polícia Militar de Santa Catarina está se adequando e
este novo momento pelo qual vem passando a sociedade
brasileira. Assim, a PMSC vem desenvolvendo algumas
estratégias para atuação de forma preventiva. Dentre estas
estratégias, além de fortalecer as atividades de polícia ostensiva,
ganharam maior destaque nos últimos anos a Polícia
Comunitária, o Programa Educacional de Resistência às Drogas
– PROERD e, recentemente, o Projeto de Mediação de Conflitos,
em fase de implementação na 5ª Região de Polícia Militar, no
município de Joinville/SC.
2.4.1 A prevenção na atividade de polícia militar de
segurança pública: níveis e tipos de prevenção
Considerando-se que a tradicional forma de policiamento,
eminentemente reativo, que vem sendo realizada pelas policias
militares brasileiras e também pela Instituição catarinense não
suprem as expectativas da sociedade, a adoção de uma postura
preventiva se mostra uma necessidade inadiável. Entretanto,
reconhece-se que a prevenção não conseguirá e nem se propõe
a eliminar a ocorrência de todas as práticas delitivas. Dessa
forma, as ações de reação não devem ser abolidas da atividade
policial. Apenas, não devem ser o seu objetivo finalístico. A
reação deve ser operacionalizada como ultima ratio, quando as
estratégias preventivas falharem e ocorrer a quebra da ordem,
procedendo-se através da repressão imediata.
A prevenção de crimes deve ocorrer no dia-a-dia do
policiamento, através das atividades de polícia ostensiva e do
84
policiamento ostensivo. Entretanto, um programa de prevenção,
implementado isoladamente, pode alcançar resultados muito
limitados, os quais muitas vezes podem não ser suficientes para
evitar a ação danosa a que se destinam. Surge daí, a
necessidade de que outras medidas sejam adotadas junto aos
programas preventivos, para aumentar as chances de sucesso
do mesmo.
Torna-se, assim, necessário implementar uma sistemática
prevencionista para efetivar a prevenção. Dessa forma, entendese sistemática prevencionista como “o conjunto de medidas,
instituições, normas e ações destinadas a evitar a criminalidade e
a violência, eliminar as mazelas institucionais e resgatar a
dignidade humana através da prevenção da incidência e da
reincidência no crime”. (FARIAS JÚNIOR, 2006, p. 236).
Ou seja, deve-se estimular ações de segurança pública
que envolvam a comunidade, seja através da Polícia
Comunitária, seja através de outras Ações Integradas de
Segurança Pública.
A prevenção pode ser dividida em categorias e em
estágios. As categorias podem ser prevenção social ou
comunitária,
prevenção desenvolvimental
e prevenção
situacional.
A prevenção social ou comunitária pode ocorrer através do
controle formal, executado pelas agências formais do Estado polícias, Judiciário, Ministério Público, sistema prisional, etc bem como através do controle informal, executado pelas
instâncias informais - família, religião, comunidade, escola, etc
(DUARTE, 2008). Pode-se, assim, estimular opções saudáveis
nos indivíduos e contribuir para a construção de um ambiente
pacífico e harmonioso de vivência nas comunidades (ROLIM,
2006).
A prevenção desenvolvimental é destinada a evitar o
desenvolvimento de potencialidades criminais nos indivíduos,
atuando sobre os fatores de risco e de proteção no cotidiano
destes indivíduos (ROLIM, 2006).
A prevenção situacional está ligada à redução de
oportunidades ou de recompensas, e do aumento de riscos e
dificuldades para o cometimento de delitos (ROLIM, 2006).
Busca-se, através da intervenção na arquitetura urbana e no
espaço público, criar elementos de reforcem os aspectos
preventivos e dificultem a prática do delito.
85
Quanto aos estágios de prevenção, existe divergência
entre os autores. Rolim (2008) e Gomes (2008) prevêem a
existência de três estágios. Já Farias Júnior (2008), considera
quatro estágios de prevenção. Assim, os estágios podem ser
prevenção primária, prevenção secundária, prevenção terciária e,
segundo Farias Júnior (2008), também prevenção quaternária.
A prevenção primária, para Rolim (2008), é aquela em que
as medidas e políticas públicas buscam sensibilizar a
comunidade inteira. Para Gomes (2008), busca evitar o primeiro
contato da pessoa com a criminalidade. Já para Farias Júnior
(2008), busca evitar ou eliminar os fatores externos (sociais) do
comportamento criminoso, principalmente entre a criança e o
adolescente. Seguindo-se esta a linha, a educação, assim,
corporificaria a forma mais evidente de prevenção primária.
Porém, não basta a educação escolar. A prevenção primária será
alcançada somente se a educação for “integral, isto é, se [...] a
criança e o adolescente tiverem excelente educação familiar,
educação moral, educação de consumo, educação profissional,
educação ambiental, educação cívica, educação física, esporte e
lazer, educação de trânsito, educação religiosa” (FARIAS
JÚNIOR, 2008, p. 237).
A prevenção secundária, para Farias Júnior (2008) busca
desestimular a intenção, a vontade, a compulsão de alcançar o
objeto do crime ou atos anti-sociais, ou evitar o crescimento da
criminalidade. Para Rolim (2008, p. 113), são medidas e políticas
orientadas para a proteção de pessoas com alto risco de se
iniciarem na delinquência. Gomes (2008, p. 58) acredita que “um
diagnóstico precoce e uma pronta intervenção nos casos de
existência de fatores de risco são fundamentais para estancar
eventual processo de evolução [...]" da delinquência.
A prevenção terciária, para Rolim (2008) se ocupa com as
pessoas que já iniciaram um processo de criminalização. Para
Farias Júnior (2008), esta prevenção visa evitar que os
indivíduos que apresentam comportamento nocivo, perigoso ou
anti-social cometam atos danosos ou perturbadores da ordem
pública.
A prevenção quaternária, segundo Farias Júnior (2008),
busca evitar a reincidência no crime. Dever ser realizada através
da recuperação do delinquente e pela sua reinserção na
sociedade.
86
Como se verificou ao longo deste estudo, a missão
Constitucional da Polícia Militar é a preservação da ordem
pública e a polícia ostensiva. Ambas são realizadas, ou deveriam
ser realizadas, através de um policiamento preventivo, quer seja
pela ostensividade do policial, quer seja pelo exercício dos
atributos e das fases da polícia ostensiva.
Percebe-se também, que a mediação de conflitos pode ser
empregada como mais uma ferramenta nas ações de prevenção
criminal, podendo ser aplicada em qualquer nível de prevenção,
dada a sua amplitude de alcance e sensibilização das partes
envolvidas no conflito.
2.4.2 A Polícia Comunitária como ambiente para a realização
da mediação policial militar de conflitos
Conforme discutido até aqui, as estratégias e as formas de
policiamento tradicionais, ainda muito presentes nas Polícias
Militares de todo o Brasil mostraram que tem sua eficácia
limitada. Os objetivos de reduzir a criminalidade e promover um
aumento na sensação de segurança não foram alcançados.
Enquanto as taxas de prisões aumentam e as cadeias e
presídios ficam cada vez mais lotados, a sociedade está cada
vez mais insatisfeita e mais exigente, em relação aos ainda
elevados índices de violência e criminalidade (HIPÓLITO e
TASCA, 2012).
A velocidade nas inovações da criminalidade, a crescente
demanda por ações policiais repressivas, a maior gravidade dos
crimes, como o tráfico e o consumo de drogas lícitas e ilícitas, a
violência de gangues, os homicídios, furtos e roubos, associados
às características e especificidades de cada comunidade,
promoveram nas instituições polícias militares a necessidade de
buscarem métodos mais eficazes de prestar o seu serviço e
atender às expectativas da sociedade. Neste ambiente, de altos
índices de violência, de sensação de insegurança, de
desconfiança na força policial, as teorias de polícia comunitária
surgiram como uma possível resposta para esta gama de
problemas sociais. A polícia comunitária tem se firmado como
uma alternativa para estreitar os laços com a comunidade e atuar
ante a criminalidade de maneira preventiva, mais eficiente e mais
eficaz (HIPÓLITO e TASCA, 2012; MARCINEIRO, 2009).
87
Segundo Trojanowicz e Bucqueroux (1994, p.4), Polícia
Comunitária pode ser descrita como:
Uma filosofia e uma estratégia organizacional
que proporciona uma nova parceria entre a
população e a polícia. Baseia-se na premissa
de que tanto a polícia quanto à comunidade
devem trabalhar juntas para identificar,
priorizar
e
resolver
problemas
contemporâneos, tais como: crime, drogas,
medo do crime, desordens físicas e morais e,
em geral, a decadência do bairro, com o
objetivo de melhorar a qualidade geral da
vida na área.
A Polícia Comunitária é uma filosofia organizacional, ou
seja, da Polícia Militar, que busca envolver o cidadão, na medida
de sua capacidade, competência e da natureza de seu trabalho,
bem como em função das solicitações da própria comunidade,
para colaborar na segurança e no bem estar coletivo. A polícia e
comunidade, reunidas, buscam identificar e solucionar os
problemas locais. A proximidade da sociedade com a polícia
otimiza e legitima o trabalho na segurança pública.
De acordo com o Ministério da Justiça (2008, p.58),
A Polícia Comunitária resgata a essência da
arte da polícia, pois apóia e é apoiada por
toda a comunidade, acolhendo expectativas
de uma sociedade democrática e pluralista,
onde as responsabilidades, pela mais
estreita observância das leis e da
manutenção da paz, não incumbem apenas
à polícia, mas, também a todos os cidadãos.
Cumpridora da lei e garantidora de direitos, a polícia militar
deve estar bem treinada e bem preparada para defender a
população e os cidadãos, buscando o equilíbrio entre a
manutenção da ordem e, ao mesmo tempo, promovendo a
cidadania. Neste contexto, a mediação de conflitos apresenta-se
como uma estratégia a reforçar a gama de ações da Polícia
Militar de Santa Catarina a serem aplicadas para esta finalidade.
Assim, tanto a instituição policial militar quanto seus
agentes, deve se perceber e ser percebida como um ator social
que está inserido na mesma sociedade a qual deve proteger. É
88
necessário desconstruir a idéia de que criminalidade é um
problema apenas de polícia e buscar construir um entendimento
de que a segurança é responsabilidade de toda a sociedade. A
Polícia Militar deve deixar de ser vista apenas como um número
de telefone ou uma viatura, como um elemento "superior ao
tempo, à fome ou às emoções" e passar a ser vista como uma
Instituição, porém composta por homens e mulheres, que
participa na construção da segurança pública e vivenciam suas
experiências no mesmo ambiente social.
2.4.3 O Termo Circunstanciado: inovação na gestão da
segurança pública e diferencial no modelo de mediação em
construção na PMSC
Na busca pelo melhor atendimento à população, a Polícia
Militar de Santa Catarina implementou, a partir de 2007, a
realização de um procedimento que, arrisca-se dizer,
revolucionou a forma de realizar o policiamento e atender ao
cidadão: o Termo Circunstanciado.
Baseado no artigo 69, caput, da Lei n. 9.099 de 26 de
setembro de 2005, a PMSC dispensou atendimento diferenciado
para as contravenções penais e os crimes de menor potencial
ofensivo. Pautada pelos princípios da oralidade, simplicidade,
informalidade, economia processual e celeridade a Corporação
catarinense passou a prestar um atendimento mais completo à
população, apresentando soluções mais consistentes e mais
rápidas ao cidadão.
Dentre os benefícios da lavratura do Termo
Circunstanciado pelas polícias militares, destacam-se aquelas
relacionadas por Hipólito e Tasca (2012, p. 140-141):
 Atendimento ao cidadão no local da
infração, não havendo a necessidade deste
deslocar-se até a delegacia para a lavratura
do Termo Circunstanciado, que por muitas
vezes não é realizado naquele momento,
tendo o cidadão que retornar posteriormente
para término do procedimento;
 Celeridade no desfecho dos atendimentos
policiais, em benefício do cidadão; redução
da sensação de impunidade, pois no local
dos fatos todos terão conhecimento dos
89
desdobramentos e implicações decorrentes,
inclusive com o agendamento da audiência
judicial;
 Redução do tempo de envolvimento das
guarnições
policiais
nas
ocorrências,
possibilitando a ampliação de ações de
caráter preventivo e não somente de
resposta a solicitações; e
 Manutenção do aparato policial em sua
área de atuação, não havendo a
necessidade do deslocamento da guarnição
para a delegacia.
Realizado na fase preliminar do procedimento do juizado
especial criminal, o Termo Circunstanciado deverá ser lavrado
pela autoridade policial que tomar conhecimento da ocorrência.
Nesse sentido, segundo Brito (2012, p. 31),
[...] o termo circunstanciado é uma peça
simples, tendo caráter informativo,
contendo apenas os elementos básicos
para que o Ministério Público possa
iniciar a ação penal, dispensando
maiores formalidades como o inquérito
policial e será lavrado pela autoridade
policial que tomar conhecimento da
ocorrência.
Em se tratando da realização da mediação de conflitos
pela PMSC, o Termo Circunstanciado é uma ferramenta
indispensável para o sucesso do modelo proposto. Isto porque a
Corporação se propõe a atender a demanda espontânea de
conflitos da população no Núcleo de Mediação (NUME/PMSC).
Assim, quando esta demanda envolver a prática de contravenção
penal ou crime de menor potencial ofensivo e não se alcançar
sucesso sessão de mediação, o policial mediador poderá lavrar o
respectivo Termo Circunstanciado, deixando assim de incorrer
em uma eventual prevaricação.
Assim, ciente de que a mediação nem sempre será bem
sucedida, quando o insucesso versar sobre conflitos
relacionados a fatos típicos, será necessário lavrar o respectivo
Termo Circunstanciado. Se ao final de uma sessão de mediação
mal sucedida, a Instituição policial militar não realizar ou não
90
estiver preparada para realizar este procedimento, uma das
partes litigantes teria que ser presa e conduzida à delegacia para
o registro do devido Termo Circunstanciado. Dessa forma, uma
prática que deveria pacificar os conflitos terminaria por acirrá-los
ainda mais, condenando a mediação policial ao fracasso.
Por sua vez, ao proceder a lavratura o Termo
Circunstanciado, no mesmo caso de insucesso na mediação, o
policial militar catarinense apenas lavrará o respectivo termo, ao
término da sessão, sem qualquer constrangimento ou
agravamento do conflito. As partes, mesmo sem sanar o conflito,
sairão pela mesma porta que entraram, e como entraram, livres.
Em suma, o Termo Circunstanciado é uma ferramenta que
viabiliza a ampla atuação da PMSC em sua atividade de polícia
ostensiva, em especial na implementação de estratégias
preventivas, como a mediação de conflitos.
2.4.4 Ação penal e processo penal na segurança pública: os
desdobramentos jurídicos da atividade de polícia militar
O acontecimento de um delito representa a quebra da
ordem e, consequentemente, o rompimento do estado de
"normalidade". Esta situação demanda uma resposta do aparato
policial para tentar restabelecer a ordem e a normalidade. Ao
considerar o delito praticado e o tratamento dispensado ao seu
autor, o Código Penal e o Código de Processo Penal prevêem
algumas classificações. Os delitos, no Código Penal brasileiro,
estão classificados em diversas categorias, conforme o objeto
jurídico tutelado. Por sua vez, o Código de Processo Penal
brasileiro, define o tipo de ação penal que conduzirá o
julgamento dos delitos, de acordo com o seu tipo e a sua
gravidade.
Para Reis e Gonçalves (2014, p. 71) ação penal é "[...] o
procedimento judicial iniciado pelo titular da ação quando há
indícios de autoria e de materialidade a fim de que o juiz declare
a pretensão punitiva estatal e condene o autor da infração penal".
Em outras palavras, é através da ação penal que o Estado define
quem possui a prerrogativa de iniciar a pretensão punitiva. A
ação penal pode ser pública ou privada, sendo que a ação
pública divide-se em incondicionada ou condicionada, enquanto
a ação privada pode se dividir em exclusiva, personalíssima ou
subsidiária da pública.
91
Em seu Título III, o Código de Processo Penal, Decreto-Lei
nº 3.689, de 3 de outubro de 1941, dispõe sobre a ação penal.
Depreendem-se deste dispositivo legal as seguintes
classificações para a ação penal: ação penal pública
incondicionada,
ação
penal
pública
condicionada
à
representação e ação penal privada.
Ação penal pública constitui-se como exclusividade do
ministério público. É regida pelos princípios da obrigatoriedade,
da indisponibilidade e da oficialidade.
Quando incondicionada, o ministério público tem o dever
de agir, independente de qualquer situação especial. Já para a
ação penal pública condicionada à representação, a atuação do
ministério público depende da manifestação da vontade da vítima
ou de seu representante (REIS E GONÇALVES, 2014).
Por sua vez, a ação penal privada, é de iniciativa
inteiramente do ofendido ou de seu representante legal. Dessa
forma, permite-se à vítima verificar a oportunidade e o interesse
em iniciar a ação sopesando, contudo, seu impulso retributivo e
punitivo para o autor do delito ou o risco de exposição de sua
intimidade (REIS E GONÇALVES, 2014).
Ao se analisar o rol de delitos tipificados no ordenamento
jurídico brasileiro, constata-se a existência de 280 delitos de
menor potencial ofensivo, considerando-se os crimes e
contravenções. Destes, somente quatorze delitos poderão ser
objetos de mediação de conflitos, de acordo com a natureza de
suas ações penais. Isto porque, somente nos delitos de ação
condicionada ou ação privada, a vítima é titular da ação e pode
decidir sobre o seu prosseguimento. Como a mediação policial
de conflitos objetiva, através do restabelecimento das relações
entre as partes, a extinção da pretensão punitiva e a inibição da
ação penal, respeitando-se a vontade da vítima, concentra-se,
principalmente neste tipo de ação penal, o foco primeiro da
mediação policial militar. Isto porque, além de restabelecer o
convívio harmonioso entre as partes, a mediação no âmbito da
segurança pública cidadã deve buscar reduzir os índices de
criminalização de condutas. Assim, em se obtendo sucesso na
mediação de conflitos típicos, de ação penal condicionada ou
privativa, vislumbra-se a possibilidade de deixar-se de
criminalizar muitas condutas, reduzindo-se não só a demanda
reprimida na justiça criminal e no sistema prisional, mas gerando
92
melhoras efetivas nas estatísticas de violência e criminalidade
(ANDRADE, 2003a; ANDRADE, 2003b).
Conforme visto anteriormente, somente os delitos de ação
penal pública condicionada à representação ou de ação penal
privada podem deixar de ser conduzidas adiante, mediante
concordância da vítima. Para os demais crimes de ação penal
pública incondicionada, mesmo que seja proposta e realizada
com sucesso a mediação, esta seria enquadrada em uma
diferente perspectiva de mediação, não tanto ligada à prevenção
criminal e sim mais próxima da idéia de justiça restaurativa, uma
vez que a ação e o processo penal, inicialmente, terão
prosseguimento compulsório.
Assim, se o fato delitivo ocorrido for considerado de menor
potencial ofensivo, e se for de ação penal privada ou ação penal
pública condicionada à representação, surge, com a mediação
policial militar, uma forma alternativa de atuar, antes de se dar
prosseguimento ao caminho da justiça penal. Nestes casos,
como já discorrido, é possível propor às partes a realização da
mediação policial do conflito. Se for alcançado sucesso na
mediação, a ação é extinta antes mesmo de chegar à fase de
proposição da transação penal. A mediação penal, realizada pela
polícia militar, dessa forma, desponta como importante fator de
redução da classificação e criminalização de condutas, induzindo
a uma forte aproximação de ideais entre a instituição policial
militar catarinense, o poder judiciário, e a própria sociedade,
maior beneficiário do sucesso deste projeto.
93
3 MEIOS ALTERNATIVOS DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS:
CONSTRUÇÃO DAS BASES PARA A DISCUSSÃO SOBRE A
MEDIAÇÃO DE CONFLITOS REALIZADA PELA POLÍCIA
MILITAR DE SANTA CATARINA
Ao longo da construção da civilização, a humanidade
provou várias formas de organização e controle social. Nos
primitivos grupos sociais, no "estado de natureza12", imperava a
participação direta das partes na resolução dos conflitos.
Imagina-se que todos os meios poderiam ser utilizados na
resolução de conflitos neste "estado" uma vez que, em tese, não
havia ordenamento jurídico desenvolvido ou uma figura externa,
um terceiro legítimo, com poderes para avocar a solução do
conflito (KUSCHNIR, 2007; SIRVINSKAS, 2003; VENOSA,
2010).
No período antigo, conforme registros históricos, surgiram
diversas formas de organização social. Desde tribos autóctones
até as cidades-estado gregas, passando pelos povos
mesopotâmicos e orientais até Roma. Neste contexto, percebese a construção e o surgimento de figuras responsáveis pela
liderança e organização do grupo. Cada região e período possuía
as suas características, mas, via de regra, esta liderança era
exercida pelo ancião, pelo representante espiritual, pelo guerreiro
mais preparado, etc, podendo ser chamado de rei, imperador,
prefeito, entre outras classificações. O líder assumia algumas
funções na gestão dos conflitos, geralmente atrelando suas
decisões às tradições e aos costumes vigentes no grupo. Apesar
de uma forma incipiente de organização social, o controle era
pouco efetivo e os conflitos ainda "pertenciam" às partes
envolvidas (SIRVINSKAS, 2003; VENOSA, 2010).
Na Idade Média européia, após a queda do Império
Romano e o consequente esvaziamento das cidades e retorno
ao campo, ocorreu a descentralização da organização social. O
feudo acaba por elaborar a sua própria organização, autosustentável e autônoma. A ideologia cristã e a presença da igreja
permeiam as relações sociais neste período. Ao longo destes
anos são aprimoradas algumas formas de controle social por
parte da Igreja, a qual utiliza o processo inquisitorial e seus
12
Segundo a concepção dos contratualistas (Hobbes, Locke e
Rousseau).
94
castigos para tentar assegurar a sua supremacia religiosa e
política. Entretanto, inobstante o controle e o rigor punitivo que a
igreja exerceu durante a Idade Média e início do período
Moderno, o principal objetivo destas intervenções era a defesa
do "Estado" católico. Neste viés, o conflito entre os particulares
está em segundo plano e continua sendo gerido pelas partes, ao
menos enquanto não "afrontar" os preceitos da Igreja (ANITUA,
2008; SIRVINSKAS, 2003; VENOSA, 2010).
Já no período Moderno encontram-se as mudanças mais
significativas em relação à organização e controle social. A
criação do Estado Moderno, laico e unificado, governado por um
soberano, aguça a busca por poder e pelo enriquecimento. Neste
sentido, o aperfeiçoamento das teorias e mecanismos de
submissão e controle foi intensificado, com o objetivo de
assegurar a manutenção tanto do próprio poder estatal quanto o
status quo das elites sociais (ANITUA, 2008; SIRVINSKAS, 2003;
VENOSA, 2010).
Neste contexto, as teorias contratualistas, por diversos
argumentos e construções, acabam por legitimar e condicionar a
aceitação de um poder externo aos indivíduos e capaz de decidir
sobre a vida das pessoas. O súdito passa a aceitar que sua vida
seja controlada pelo soberano sob a promessa e/ou expectativa
de que assim terá paz, segurança e ordem. Surge a distinção
entre o antes e o agora, entre a barbárie e a civilização, entre o
estado de natureza e o estado social.
Mesmo a expressão "estado de natureza" possuindo
concepções diferentes entre Hobbes e Locke, elas seguem o
binômio antes (ruim) e depois (bom). No mesmo sentido, o
liberalismo consolidado e já em transição para o capitalismo
emergente, intensifica a mudança de estrutura da sociedade,
tornando-a individualista e "competitiva", em detrimento das
relações de convívio com o "outro" a sua volta.
Considerando-se o contexto de formação do Estado
Moderno e questionando os valores da sociedade
contemporânea, refletindo sobre aspectos da essência humana,
Warat (2004, p. 149) afirma que:
Consumindo,
perdemos
de
vista
a
importância do outro. São sociedades que
nos fizeram crer que não precisamos do
outro para realizar a autonomia e a
felicidade. Começamos a crer que éramos
95
autosuficientes, que só precisávamos do
consumo e da tecnologia. Os outros
passaram a não ser importantes para a
nossa felicidade (ela passou a depender da
conservação
do
emprego
e
das
possibilidades
de
consumir)
e,
consequentemente, a felicidade do outro
passa a não ter a menor importância para
nós. Desaprendemos a expressar afeto pelo
outro. A noção, ou melhor dizendo, o
conforto proveniente das sensações e dos
sentimentos de comunidade passaram a ser
substituídos por sensações e sentimentos de
solidão. No lugar da solidariedade, a solidão,
a competência e a inveja. São os deveres da
moral tradicional convertidos no único dever:
o de manter as aparências. Não importa ser
feliz, basta aparentar. Os objetos de
consumo servem para isso. Mas os homens
se esqueceram de que, atrás das
aparências,
se
escondem
tensões,
frustrações afetivas, e altas doses de
infelicidade; ocultos entre os bens e as
opulências existem sofrimentos psicológicos
e emocionais.
Contemporaneamente, após o auge do individualismo na
sociedade, por um lado, e do monopólio estatal por outro,
principalmente o monopólio judicial da resolução de conflitos,
ressurge a prática da mediação em meados do século XX, como
atividade alternativa à demora e ineficiência do sistema judiciário
positivo, bem como retomando a valorização do ser humano.
Nesse sentido, esclarece Mendonça (2008, p. 103) que “[...] a
mediação de conflitos “reaparece” com força, principalmente na
comunidade estadunidense, no final da década de 1960,
buscando uma forma alternativa para dar vazão à ineficiência do
sistema judicial que imperava”.
Atrelando a retomada da mediação com o momento de
afirmação do Homem, como reflexo do pós-Segunda Guerra,
Moore (1998, p. 34) acrescenta que:
Este crescimento deve-se em parte a um
reconhecimento mais amplo dos direitos
humanos e da dignidade dos indivíduos à
96
expansão das aspirações pela participação
democrática em todos os níveis sociais e
políticos, à crença de que um indivíduo tem
direito da participar e de ter controle das
decisões que afetam sua própria vida, a um
apoio ético aos acordos particulares e às
tendências, em algumas regiões, para maior
tolerância à diversidade. A mudança também
tem
sido
motivada
pela
crescente
insatisfação com os processos autoritários de
tomada de decisão, acordos impostos que
não se ajustam adequadamente aos
interesses genuínos das partes, e aos custos
cada vez maiores – em dinheiro, tempo,
recursos
humanos,
solidariedade
interpessoal e comunitária – de processos
adversárias, do tipo ganhador-perdedor de
resolução de disputas.
Dito tudo isto, é importante ressaltar que o conflito existe,
sempre existiu e provavelmente sempre existirá entre as
pessoas. As relações entre as pessoas, por natureza, é conflitiva,
seja no ambiente familiar, entre vizinhos, no ambiente de
trabalho, nas ações entre empresas, governos ou nações
(MOORE, 1998). Assim, entende-se como muito importante a
questão da gestão e mediação dos conflitos.
Em determinado momento da caminhada humana na face
da terra, o Estado expropriou as pessoas da condução e
resolução do conflito e avocou para si a responsabilidade e o
monopólio desta resolução, a partir de uma concepção negativa
do conflito. O Poder Judiciário foi incumbido de resolver
formalmente os conflitos. Porém, percebe-se que nem todo o
conflito é negativo; nem todo o conflito é violento. Mas
certamente, todo o conflito precisa ser gerido adequadamente.
Situações de conflito são comuns no cotidiano social e
muitas vezes são saudáveis. Entretanto, diante do atual quadro
de estatização da solução dos conflitos, diversas destas vezes
situações que poderiam ser facilmente resolvidas entre as partes,
acabam sendo conduzidas ao Estado, seja para os seus órgãos
mantenedores da ordem (polícias) seja para os órgãos
"dizedores" do direito (poder judiciário). Esta constante demanda
formalizada ao Estado para a solução de (quase) todos os
conflitos reflete-se numa, atualmente, sobrecarga nas atividades
97
de segurança pública, bem como do poder judiciário em suas
amplas esferas, mas principalmente na esfera penal.
Assim, aquilo que inicialmente foi arquitetado para ampliar
os mecanismos de controle da população e a eficiência por parte
do Estado, hoje representa, em partes, a morosidade e
ineficiência deste próprio Estado e seus órgãos. Diante deste
quadro quase caótico de demandas judiciais acumuladas
aguardando por anos um julgamento (no contexto do judiciário),
e de aumento da criminalidade, da violência e da reincidência
criminal (no contexto da segurança pública e do sistema penal),
surgiram discussões e teorias sobre formas alternativas
(extrajudiciais) de resolução de conflitos e de prevenção criminal
(SILVA, 2013).
Ao visualizar esta situação, Warat (2004, p. 116) afirma
que
No momento em que se está iniciando o
século XXI, começa a surgir um novo
paradigma jurídico-cultural que se coloca
com outros olhos diante das questões dos
Direitos Humanos e da cidadania. O
paradigma da mediação, que pode resultar
em uma das respostas possíveis para a
humanização das relações com o outro.
Na busca pela humanização das relações, aproximando-se
da perspectiva Waratiana, serão apresentados a seguir algumas
discussões sobre o conflito e os meios alternativos para a sua
resolução.
3.1 COMPREENSÃO DOS ELEMENTOS NECESSÁRIOS À
IMPLEMENTAÇÃO DA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS NA PMSC
Os métodos e abordagens para a gestão de conflitos
podem receber diversas classificações e nomenclaturas,
conforme cada autor. Para este trabalho, adotar-se-á o raciocínio
elaborado por Fiorelli, Fiorelli, Malhadas Júnior (2008).
Primeiramente, os autores classificam os métodos em
tradicionais ou alternativos, sendo tradicional aquele que recorre
ao poder judiciário formal, enquanto alternativo são os métodos
que buscam a resolução dos conflitos fora do sistema judiciário.
Também classificam os métodos em adversariais ou
98
heterocompositivos e cooperativos ou autocompositivos.
(FIORELLI, FIORELLI, MALHADAS JÚNIOR, 2008).
Nos métodos adversariais as partes em conflito delegam o
poder de decisão a um terceiro, como ocorre nos processos
judiciais tradicionais ou nas sessões de arbitragem. Já nos
métodos cooperativos, como a negociação, a conciliação e a
mediação, as partes buscam uma solução sem a determinação
ou decisão de um terceiro. Por fim, arbitragem, negociação,
conciliação e mediação são chamadas de "Métodos Alternativos
de Gestão de Conflitos" pois são realizados fora do ambiente
tradicional do sistema judiciário, podendo, contudo ser adotado
também pelo Poder Judiciário em algumas situações (FIORELLI,
FIORELLI, MALHADAS JÚNIOR, 2008).
A arbitragem, enquanto meio alternativo à resolução de
conflitos possui algumas características peculiares, sendo mais
comumente aplicada em questões de direito empresarial do que
na solução de disputa entre particulares. A arbitragem é
considerada:
[...] um processo privado, uma vez que seus
procedimentos e resultado, frequentemente,
não são abertos ao público. Tem caráter
compulsivo ou compulsório e é, na maioria
das vezes, escolhido pelas partes devido à
informalidade, flexibilidade, menor custo e
rapidez em comparação ao processo judicial
formal (MOREIRA, 2012, p.76).
Na arbitragem a decisão compete a um terceiro, o árbitro,
escolhido de comum acordo entre as partes. Via de regra, salvo
cláusula compromissória ou de compromisso arbitral, a
arbitragem vincula a sua decisão à obrigatoriedade de seu
cumprimento.
De modo semelhante à negociação, a arbitragem atua
sobre os interesses manifestos das partes, sem atuar nas causas
ocultas do conflito. Segundo Fiorelli, Fiorelli e Madalhas Júnior
(2008, p. 54), as principais vantagens da arbitragem são:
- a especialidade (as partes indicam os
árbitros que irão atuar na causa,
normalmente um especialista no assunto);
- o sigilo (a arbitragem é processada em
segredo, sem publicidade);
99
- a rapidez (em questões mais simples, a
solução pode ser dada em aproximadamente
90 dias);
- a efetividade (por lei, a sentença arbitral
tem efeito de coisa julgada, contra ela não
cabendo qualquer recurso);
- a realização em um ambiente menos formal
e mais flexível, sem o rigor dos processos
judiciais.
Assim, a arbitragem é escolhida pelas partes quando
existe interesse na agilidade do processo, no sigilo das
negociações, na informalidade do processo e na efetividade da
decisão.
A negociação, segundo Moreira (2012, p.72), "[...] faz parte
das relações humanas, visto que cotidianamente sempre se está
negociando alguma coisa, seja na esfera pessoal, profissional ou
social. [...] É a forma mais comum de se chegar a um acordo."
Tradicionalmente, a negociação é uma prática realizada
entre as partes, sem a necessidade de intervenção de um
terceiro. Segundo Fiorelli, Fiorelli e Madalhas Júnior (2008, p.
55):
A "negociação" é, e sempre foi, muito
utilizada para lidar com situações de conflito;
as perdas e os ganhos de cada parte são
colocados na mesa e constituem as cartas
com as quais a negociação se desenvolve,
com objetivos claramente definidos.
A negociação, assim, reveste-se do efetivo diálogo travado
no cotidiano da vida social e, de certo modo, permeia todos os
demais meios de resolução de conflitos, sejam eles tradicionais
ou alternativos.
A conciliação parece combinar certos elementos da
arbitragem e da mediação de conflitos. Realizada por um terceiro
que não decide o conflito, mas trabalha com o objetivo de
alcançar, ao final, o acordo entre as partes, mais do que priorizar
os sentimentos e a harmonia da relação.
Para Fiorelli, Fiorelli, Malhadas Junior (2008, p. 56),
A conciliação é método alternativo de
resolução de conflitos e tem como
característica, semelhante à mediação e a
100
arbitragem, a participação de um terceiro
neutro e imparcial ao litígio. “Dela participa
um terceiro, o conciliador, que atua com as
posições manifestas pelas partes. Ele
envolve-se segundo sua visão do que é justo
ou não; deve e pode interferir e questionar os
litigantes”.
A conciliação envolve a participação de um terceiro,
neutro, independente e imparcial. O objetivo deste método
cooperativo é equacionar o interesse das partes, porém, não se
ocupa com os conteúdos ocultos do conflito. Ou seja, o principal
objetivo desse método é o acordo e não a relação entre as
partes, mesmo porque, via de regra, a conciliação somente será
aplicada a conflitos novos, em que não existam laços relacionais
entre as partes. Um dos exemplos mais clássico de aplicação da
conciliação está afeto às disputas por reparação material de
danos decorrentes de acidentes de trânsito. As partes
envolvidas, geralmente desconhecidas, não estão interessadas
nos laços relacionais futuros, mas sim na obtenção do acordo
sobre as responsabilidades e deveres de cada um em relação ao
dano ocorrido.
Por sua vez, a mediação de conflitos assume a função de
resolver os conflitos considerando as relações e os laços afetivos
existentes entre os litigantes. Conduzida por um terceiro
escolhido entre as partes, busca encontrar uma solução
consensual que identifique os reais interesses envolvidos na
disputa e restabeleça um ambiente sadio e viável de convivência.
Neste modelo de resolução de conflitos, tanto o acordo quanto o
rigor dos dispositivos legais são alocados em segundo plano, de
modo que seja mantido o foco nos sentimentos envolvidos na
lide e o consequente restabelecimento da relação.
Pode-se então definir mediação como:
[...]
um
processo
de
transformar
antagonismos em convergências, não
obrigatoriamente em concordâncias, por
meio da intervenção de um terceiro escolhido
pelas partes. [...] A Mediação é, certamente,
o método mais recomendável nas situações
crônicas,
com
elevado
envolvimento
emocional e necessidade de preservar os
101
relacionamentos. (FIORELLI, FIORELLI,
MALHADAS JÚNIOR, 2008, p. 59-60).
Segundo o Conselho Nacional das Instituições de
Mediação e Arbitragem - CONIMA, mediação também pode ser
conceituada como:
[...] um processo, não-adversarial e voluntário
de resolução de controvérsias, por intermédio
do qual, duas ou mais pessoas, físicas ou
jurídicas, buscam obter uma solução
consensual, que possibilite preservar o
relacionamento entre elas. Para isso
recorrem a um terceiro facilitador – o
Mediador, especialista imparcial, competente,
diligente, com credibilidade, e comprometido
com o sigilo, que estimule, viabiliza a
comunicação e auxilie na busca da
identificação dos reais interesses envolvidos.
Por estas características e outras que ainda serão
apresentadas na sequência deste trabalho, começa-se a delinear
a Mediação como a forma mais adequada de gestão de conflitos
a ser aplicada pelos agentes de segurança pública, mais
especificamente os policiais militares, na realidade social em que
a Corporação atua.
Realidade esta, não apenas de "combate" e repressão à
criminalidade, mas de transformação, de modernização, de uma
polícia que se quer comunitária e preocupada com a prevenção à
quebra da ordem e com os problemas da comunidade. Uma
polícia que começa a se ver e que busca ser vista como
integrante da mesma sociedade em que atua; que tem por
objetivos uma aproximação com a população, a promoção da
cidadania, a preservação da vida e o respeito aos Direitos
Humanos.
De acordo com Warat (2004, p. 66), percebe-se que a
PMSC, ao começar a aplicar a mediação de conflitos, coloca-se
mais próxima de alcançar seus objetivos, pois:
A mediação ultrapassa a dimensão da
resolução não adversária de disputas
jurídicas. Ela possui incidências que são
ecologicamente exitosas, como a estratégia
educativa, como a realização política da
cidadania, dos direitos humanos e da
102
democracia. Dessa forma, produz um devir
de subjetividades que indicam uma
possibilidade de fuga da alienação.
Dessa forma, na busca da construção de uma segurança
pública diferenciada, encontra-se em Egger (2008, p. 69) que:
A mediação é uma forma ecológica de
resolução dos conflitos sociais e jurídicos, na
qual o intuito de satisfação do desejo
substitui a aplicação coercitiva e terceirizada
de uma sanção legal. Equivale dizer, a
mediação é um meio ecológico de
negociação ou acordo das diferenças.
Por sua vez, consolidando o sentimento acima exposto,
Fachini (2009, p. 29) descreve:
Modernamente, a mediação está se tornando
uma ferramenta de cidadania inclusiva. Ou
seja, comunidades carentes que só
conheciam o Estado punitivo, com ações
eminentemente repressivas, estão realizando
grandes conquistas em vistas a cidadania.
“Hoje, a mediação de conflitos é tomada
crescentemente como uma metodologia de
conscientização social e de promoção de
cidadania, manifestações indispensáveis a
uma “cultura de paz””.
Dessa forma, Fachini (2009) apresenta elementos que
corroboram com o desafio traçado na presente pesquisa:
promover a cidadania e a valorização do indivíduo por meio de
uma Instituição até pouco tempo tida como antagônica a este
processo.
3.2 O PAPEL DO CONFLITO NA SEGURANÇA PÚBLICA: AS
RELAÇÕES ENTRE OS SUJEITOS E A POLÍCIA MILITAR
A convivência humana em sociedade e as interações dela
decorrentes promovem constantemente situações de conflitos.
Usualmente, a expressão “conflito” carrega consigo uma
sensação de negatividade, de algo ruim, de algo mau.
Entretanto, situações de conflito, além de frequentes e
103
cotidianas, podem ser positivas, sem se negar que, de fato,
algumas situações de conflito são negativas.
Ao se reconhecer alguns aspecto negativos do conflito,
Egger (2008, p. 218) esclarece que:
[...] pode-se observar diferentes sentidos do
conflito, para estabelecer, desde logo, a sua
condição gnosiológica de sentido; assim,
propedeuticamente, poderíamos dizer que, a
palavra conflito deriva do latim: conflictus e
denota a idéia de choque entre duas ou mais
pessoas, seria todo o embate entre forças
contrárias, de pessoas que lutam, é uma
altercação, barulho, desordem, tumulto,
enfim, um momento crítico, uma pendência,
luta, oposição, pleito, o dissídio entre nações.
No sentido, mais restrito, é, por vezes,
empregado como sinônimo de guerra, ou
seja, o conflito armado, que pode ser interno
ou entre duas ou mais nações.
Considerando-se que o conflito é algo natural e inerente à
existência humana, torna-se importante buscar a gestão do
conflito para reduzir as suas manifestações negativas e otimizar
o seu potencial positivo. Entretanto, tão importante quanto
explorar as potencialidades do conflito é a necessidade de se
perceber, de fato, o conflito. Só há o que se falar em gestão e
resolução de conflitos quando ele é percebido e reconhecido
pelas partes (ROBBINS, 2005).
Reconhecer a existência do conflito é o primeiro passo
para se falar em resolução, ou como preferem alguns autores,
gestão do conflito. Isso porque, como o conflito não
necessariamente é algo negativo, não necessariamente precisa
ser resolvido. Às vezes basta ser administrado, gerido, ou até
estimulado. Nesse sentido, segundo Fiorelli, Fiorelli, Malhadas
Júnior (2008, p. 6), “O conflito opõe-se a estagnação.
Desempenha o papel de mola propulsora que permite à
humanidade sobreviver em um planeta de recursos limitados.”
A refletir sobre os aspectos negativos ou positivos do
conflito, Warat identifica que a questão não é o conflito em si,
mas como as pessoas lidam com ele; o que por vezes geram os
maiores problemas. Para Warat (2004, p. 90):
104
De várias formas, já vimos que não é o
conflito, em si mesmo, mas como nós
lidamos com ele, o que cria dificuldades. Um
conflito é um catalisador que precipita uma
série de respostas e consequências
enlaçadas, que podem ser deliciosas
emergências vitais ou explosivos trajetos de
desencontros e neuroses. [...].
Buscando consolidar as percepções a respeito dos
conflitos, diante das exposições supra e, conforme Moreira
(2012), pode-se classificar o conflito em três perspectivas
distintas: algo ruim, a ser evitado; algo natural e, portanto,
inevitável; algo bom e necessário para o crescimento e
desenvolvimento em geral.
Buscando-se aproximar a classificação de Moreira das
situações praticas do cotidiano social, vislumbra-se a
consolidação de dois posicionamentos básicos, aquele que evita
o conflito, por entendê-lo negativo; e aquele que o estimula, por
encará-lo como um valor positivo. Ainda, diante da visão que
entende o conflito como algo natural, contata-se uma mera
passividade, sem a adoção de nenhuma postura específica.
Os conflitos podem se manifestar em diversos momentos e
de diversas formas do convívio social, seja numa relação
particular entre indivíduos, em um momento de convívio coletivo,
seja em um ambiente organizacional. Moreira (2012) classificou
estas manifestações em quatro principais tipos: intrapessoais,
interpessoais, intragrupais ou intergrupais.
Diversos autores13 se propuseram a classificar os conflitos
em diferentes níveis. Apesar de diferentes categorias
apresentadas, os autores demonstram muita proximidade em
seus conceitos. Dessa forma, adotar-se-á a classificação
proposta por Moore (1998):
Conflito latente – não é declarado e não há,
mesmo por parte dos elementos envolvidos,
uma clara consciência de sua existência.
Eventualmente
não
precisam
ser
trabalhados.
13
FIORELLI, FIORELLI, MALHADAS JÚNIOR, 2008; SAMPAIO E
BRAGA NETO, 2007; MOORE, 1998.
105
Conflito percebido – os elementos
envolvidos percebem, racionalmente, a
existência do conflito, embora não haja ainda
manifestações abertas do mesmo;
Conflito sentido – é aquele que já atinge
ambas as partes, e em que há emoção e
forma consciente;
Conflito manifesto – trata-se do conflito que
já atingiu ambas as partes, já é percebido por
terceiros e pode interferir na dinâmica da
organização.
Intrinsecamente vinculado aos níveis de conflito supra
mencionados, existe um quadro de características que
acompanham e se manifestam ao longo dos diversos níveis e
transições do conflito. Cabe ao mediar estar atento a estas
características para melhor atender às partes litigantes. Segundo
Nascimento e Sayed (2010) estes elementos são a Discussão, o
Debate, as Façanhas, o Loss of face, as Estratégias, a Falta de
humanidade, os Ataque de nervos e os Ataques generalizados.
Conforme abordado até este momento, diversos autores
discutem as funções do conflito abordando aspectos negativos
e/ou positivos. Constata-se, também que os autores que
entendem o conflito como positivo e algo a ser até mesmo
estimulado, o entendem, geralmente, relacionado ao ambiente
organizacional, como forma de mudança ou crescimento pessoal
e grupal. Nesse sentido, Moreira (2012, p. 53-54) compreende
que:
[...] o conflito tem funções positivas, as quais
deveriam ser instigadas em todos os tipos de
conflito, uma vez que essa positividade
representa
construtividade
e
desenvolvimento tanto para o indivíduo
quanto para as relações das quais ele faz
parte. [...] Em síntese, a mudança, o
desenvolvimento, o estimulo a criatividade, o
interesse e a revitalização de ideais são
decorrência da visão positiva do conflito.
Entretanto, em segurança pública, o conflito ocorre na
imensidão do ambiente social. Neste universo, muitas vezes a
evolução do conflito, em seus níveis e características, pode
rapidamente alcançar os estágios mais extremos e graves e
106
produzir resultados irreversíveis, como a morte ou grave lesão à
integridade física das partes ou de terceiros.
Nesse ínterim, entende-se que, em segurança pública, é
extremamente complicado se pensar em posturas que defendam
o estimulo ao conflito. Entende-se mais importante tentar evitá-lo,
ou mais especificamente, prevení-lo. Entretanto, sabendo-se que
o conflito é inerente à natureza humana, certamente há muito a
se discutir e avançar em relação à gestão e mediação de
conflitos em segurança pública neste objetivo de tentar eliminar
ou reduzir os resultados mais violentos e graves das desavenças
sociais, manifestados, geralmente na forma de crimes violentos.
Em segurança pública, o conflito representa o gérmen do
crime o qual, quando mal gerido, simboliza a quase certeza do
crime. Atualmente, a polícia militar (PM) atua na prevenção e na
repressão imediata dos crimes, conforme já estudado. Nos casos
de crimes de maior potencial ofensivo, a PM realiza a prisão em
flagrante. Nos crimes de menor potencial ofensivo, a PM efetua a
lavratura do Termo Circunstanciado. Em qualquer destas ações,
dentro de uma postura tradicional, a PM reprime o crime e seus
efeitos, mas permanece alheia às suas causas. Muito
provavelmente, após encerrada a atuação policial, novas
manifestações criminais poderão ressurgir, tendo em vista que
conflito gerador da desavença não foi trabalhado (GOLDSTEIN,
1990; HIPÓLITO e TASCA, 2012).
Nesse sentido, para Fachini (2009, p. 25):
As ocorrências de Menor Potencial Ofensivo,
conforme preconiza a Legislação Pátria
vigente, são atendidas tão somente com a
confecção de um Boletim de Ocorrência na
Forma de Termo Circunstanciado (BO – TC)
quando há interesse em alguma das partes
“representar” contra seu ofensor. Não nos
importamos em resolver o conflito, apenas
“encerramos” o dissenso. As partes são
devidamente encaminhadas ao Juizado
Especial Criminal (JECrim). Assim termina
nosso trabalho.
Acredita-se que esta postura, fria e
extremamente legalista, já teve sua época. O
que a sociedade moderna precisa é de
agentes de segurança pública preocupados
em pacificar a comunidade. Não somente
107
“atender” a ocorrência, mas gerenciá-la a
evitar futuros desdobramentos mais graves.
Lembrando que ao elaborarmos o BO - TC
ou não (conforme a situação e a gravidade
dos fatos) estaremos apenas alimentando,
muitas vezes, o ódio e a discórdia entre as
pessoas.
Comunga-se do pensamento de Fachini (2009). Assim, tão
importante quanto atuar na resposta, com o atendimento da
ocorrência policial, é tentar atuar no conflito que muitas vezes
está gerando aquele resultado criminoso. Surge dessa forma,
uma desafio para a polícia militar, no sentido de se antecipar à
pratica do delito buscando, sempre que possível, identificar e
administrar as situações de conflito no meio social, realizando a
mediação dos mesmos visando promover a cidadania,
respeitando os Direitos Humanos e estimulando a autonomia
social através da realização de uma polícia comunitária.
Novamente, ao abordar os aspectos humanitários da
gestão de conflitos, encontra-se em Warat (2004, p. 136)
significativas contribuições:
Outros ventos sopram e começam a trazer
uma idéia de Direitos Humanos e de
Cidadania centrada em uma concepção
positiva do conflito; Direitos Humanos e
Cidadania fora da temática normativa, e
dentro do conflito, como modo de
relacionamento com o outro. Os Direitos
Humanos como possibilidade de se
reencontrar, no conflito, consigo mesmo, de
recuperar a auto-estima afetada por um eu
alienado por uma cultura que teve a
modernidade como condição.
Enxerga-se a Polícia Militar de Santa Catarina caminhando
com convicção ao encontro da concepção waratiana de
existência, e porque não dizer, de gestão pública. Uma
Instituição que está se modernizando e se alinhando com as
práticas humanitárias, buscando promover a cidadania, se
aproximando da comunidade e, entre outras atribuições, está
realizando a mediação de conflitos, com o fito de restabelecer o
relacionamento harmônico entre as pessoas no cotidiano do
convívio social.
108
3.3 MODELOS ADEQUADOS À NOVA PROPOSTA POLICIAL
DE MEDIAÇÃO PENAL
O conflito, em sua essência, por vezes demanda
tratamento e gestão diferenciados conforme a sua natureza ou
os seus efeitos posteriores. Para viabilizar a mediação penal de
conflitos, é necessário formatar e ritualizar alguns procedimentos
que na mediação usual, em fatos não-criminais, a princípio não
seriam necessários. A mediação, enquanto exercício do diálogo
aberto entre as partes, em nada se altera em sua aplicação e
realização. Porém, nesta modalidade de mediação penal, tornase necessário, por exemplo, previamente qualificar as partes ou,
posteriormente, reduzir a termo os resultados alcançados ao final
da sessão de mediação.
Neste caso, alguns aspectos formais passam a
complementar a teoria e prática da mediação a ser realizada pela
Polícia Militar de Santa Catarina. Neste sentido, buscando
novamente valorizar o lado humano de toda a estrutura judicial e
extrajudicial do Estado, bem como dos meios alternativos de
solução de conflitos, Warat (2004, p. 60) expõe que:
A
mediação
seria
uma
proposta
transformadora do conflito porque não busca
a sua decisão por um terceiro, mas sim, a
sua resolução pelas próprias partes que
recebem
auxílio
do
mediador
para
administrá-lo. A mediação não se preocupa
com o litígio, ou seja, com a verdade formal
contida nos autos. Tampouco tem como
única finalidade a obtenção de um acordo.
Mas, visa, principalmente, ajudar as partes a
redimensionar o conflito, aqui entendido
como conjunto de condições psicológicas,
culturais e sociais que determinaram um
choque de atitudes e interesses no
relacionamento das pessoas envolvidas. O
mediador exerce a função de ajudar as
partes a reconstruírem simbolicamente a
relação conflituosa.
Por sua parte, porém, a adoção das medidas alternativas
de resolução de conflitos não representam uma posição formal
de iniciativa do Estado, o qual teria se "enxergado" e sentido a
109
necessidade de se atualizar. Este Estado permanece inerte. As
singelas mudanças surgem no interior daqueles organismos que
mais se ressentem com esta letargia do Estado. Foi justamente
no seio do poder judiciário que ocorreram as primeiras práticas
de resolução alternativa de conflitos, principalmente com a
conciliação, a arbitragem e a mediação de conflitos (MOREIRA,
2012; TRENTIN, 2011).
Em outra esfera, também são os órgãos policiais que se
ressentem
de
uma
prática
tradicionalmente
reativa,
contemporaneamente de alcance limitado, e passam a buscar
atuar preventivamente, principalmente, através da adoção e
implantação da filosofia de polícia comunitária.
Ao longo deste trabalho, pretende-se alcançar o ponto em
que ambas as formas "alternativas" de atuação destas
instituições se encontrarão: a polícia militar realizando a
mediação de conflitos para prevenir a prática criminal e reduzir a
demanda de ações judiciais nas diversas esferas do poder
judiciário, mas principalmente, na justiça criminal.
A prática da mediação também pode ser classificada em
relação a seus modelos. Dessa forma, serão utilizadas as idéias
de Vasconcelos (2008), por entendê-las mais alinhadas ao
presente trabalho. O autor, assim, classifica a mediação em dois
modelos básicos, sabendo que algumas de suas características,
por vezes se aproximam ou até se confundem na aplicação
prática: Modelos Focados no Acordo - mediação satisfativa ou
conciliação -; e Modelos Focados na Relação - mediação
circular-narrativa e mediação transformativa.
No Modelo Focado no Acordo, busca-se mobilizar as
partes para o diálogo e o encontro de interesses comuns
vinculados à realidade dos fatos em lide para a construção de um
acordo. Este modelo, também entendido como conciliador, tende
a ser mais aplicável em situações que envolvam danos e valores
financeiros, em que as partes possivelmente não manterão uma
relação de convívio posterior. Segundo Vasconcelos (2008, p.
73):
[...] a prática da mediação, em sua visão
moderna, seguiu, inicialmente, os preceitos
da negociação cooperativa baseada em
princípios, desenvolvida pela Escola de
Harvard. Ali foram elaborados conceitos e
procedimentos, por exemplo, sobre: 1)
110
“Posição” (atitude polarizada e explícita dos
disputantes) e “interesses” (subjacentes e
comuns.
Embora
contraditórios
ou
antagônicos, a serem identificados); 2)
Técnicas de criação de opções para a
satisfação dos interesses identificados; 3) a
necessidade de observação dos dados de
realidade ou padrões técnicos, éticos,
jurídicos ou econômicos; 4) a importância de
separar o conflito subjetivo (relação
interpessoal) do conflito objetivo (questões
concretas). Estas técnicas foram aplicadas
visando a negociação, tendo como foco o
conflito objetivo (o problema concreto),
buscando um acordo negociado. Segundo o
autor estas técnicas que se desenvolveram
nos anos 50 e 60, foram utilizadas várias
vezes para a superação de constantes
impasses nas negociações da Guerra Fria
entre os Estados Unidos e União Soviética.
Estes foram os modelos de negociação e do
método de mediação que ocasionou na
Mediação Satisfativa, também conhecida
como mediação de acordo ou tradicional.
Já no Modelo Focado na Relação, como o próprio nome
sugere, o objetivo maior é pacificar conflitos surgidos em
relações de convívio próximos e "duradouros". Subdividido em
duas classes, na mediação Circular-narrativa “a obtenção do
acordo deixa de ser o objetivo prioritário para se tornar uma
possível
consequência
do
processo
circular-narrativo”
(VASCONCELOS, 2008, p.80). O diálogo, assim, assume
fundamental importância na tarefa de reconstrução do convívio
harmônico entre as partes. Por sua vez, a mediação
transformativa, bastante adotada em conflitos familiares ou de
casais, “[...] acolhe técnicas da mediação satisfativa, aspectos da
terapia sistêmica de família e os elementos do paradigma da
ciência contemporânea, tais como a complexidade, a
instabilidade e a intersubjetividade.” (VASCONCELOS, 2008,
p.85).
Apresentou-se os modelos supracitados de mediação, por
entendê-los os mais alinhados com a prática mediativa aplicada
pelos policiais militares em sua rotina diária de polícia ostensiva.
Pode-se ilustrar com Fachini (2009, p. 33), como podem ser
111
aplicados os modelos de mediação policial militar em algumas
situações práticas:
Como visto, numa breve distinção entre os
Modelos Focados no Acordo e os Focados
na Relação, podemos dizer que aquele se
centraliza prioritariamente no acordo e na
eliminação dos impasses, toda a energia do
mediador está orientada para o acordo.
Enquanto que este irá priorizar o convívio
pacífico entre os mediandos, buscando não
apenas um “acordo” entre os mediandos,
mas sim a restauração das relações de
convivência entre as pessoas.
Para melhor esclarecer, em um acidente de
trânsito entre pessoas que não se conhecem,
o melhor Modelo é o Focado no Acordo, pois
o que se busca entre os envolvidos é apenas
a satisfação da reparação do dano.
Possivelmente estas pessoas provavelmente
não se encontrarão mais, não havendo
necessidade de se entrar no aspecto
subjetivo do dano, pois se tratou de uma
acidente fortuito e ocasional.
Contudo, em uma situação de “som alto”
onde há normalmente o envolvimento de
pessoas que convivem próximo às outras, o
Modelo Focado na Relação é o mais
apropriado, já que esta situação poderá gerar
outros tipos de conflitos entre os afetados
pela perturbação. [...]
Diante desta nova perspectiva apresentada, o tradicional
atendimento de uma ocorrência policial, restrito ao cumprimento
dos preceitos do Código Penal e do Código de Processo Penal,
passaria a ser permeado pela aplicação da mediação, quando
cabível, com foco na relação entre as partes envolvidas.
Acredita-se que com esta nova possibilidade de atuação, diante
das contravenções penais e crimes de menor potencial ofensivo,
existe uma grande tendência em se obter resultados mais
eficazes e duradouros no âmbito da segurança pública. Seja no
sentido de reduzir as chamadas reincidentes ou de reduzir o
trabalho excessivo na reação policial, possibilitando com esta
redução a aplicação do efetivo policial na atuação preventiva.
112
Seja gerando na população uma maior satisfação em relação ao
serviço prestado pela Corporação, contribuindo, desta forma,
para o fortalecimento da filosofia de polícia comunitária.
3.4, O MEDIADOR POLICIAL OU O POLICIAL MEDIADOR?
Nesse contexto e vocabulário inerente à mediação de
conflitos, um termo merece destaque especial: o mediador. O
"destaque" justifica-se pela importância desta figura na condução
e sucesso do processo de mediação; o "especial", porque neste
trabalho estudar-se-á não o mediador habitualmente ligado ao
meio jurídico tradicional, mas o policial militar investido
legalmente da função de realizar a mediação de conflitos.
Muito conhecimento já foi produzido14 sobre a figura do
mediador e seu ofício. Buscar-se-á se apropriar daqueles que
mais servem ao propósito deste trabalho, principalmente
buscando a aproximação entre a figura do mediador e do agente
policial militar.
Inicialmente, segundo Moore (1998, p. 28):
Um mediador é uma terceira parte, uma
pessoa indiretamente envolvida na disputa. É
um fator crítico no manejo e na resolução de
conflitos, pois consiste na participação de
uma pessoa externa, portadora de novas
perspectivas com relação às questões que
dividem as partes e processos mais
eficientes para construir relacionamentos que
conduzam à solução dos problemas.
O mediador é a pessoa responsável por conduzir a gestão
do conflito tentando restabelecer a harmonia entre as partes
envolvidas. No seio da comunidade, a mediação ocorre
cotidianamente no convívio entre as pessoas e, muitas vezes,
nem é percebida, seja em questões relacionadas ao futebol, à
política, ou questões de foro particular ou familiar.
Diante da proposta de mediação assumida pela PMSC,
para a construção da autonomia dos indivíduos a da alteridade
14
WARAT, 2004; FIORELLI, FIORELLI, MALHADAS JÚNIOR, 2008;
VASCONCELOS, 2008; MUSZKAT, 2008; FACHINI, 2009; MOREIRA,
2012
113
entre os sujeitos, entende-se pertinente a reflexão de Musztak
(2005, p. 92):
No método integrativo de mediação, o
mediador deve ser visto como um agente de
transformação social – ou seja, alguém que
se apresenta como “instrumento” capaz de
proporcionar às partes a oportunidade de
adquirir uma nova cultura de solução de
conflito. Como? Promovendo a abertura para
a aceitação do conflito e para novas
maneiras de abordá-lo, em clima de
cooperação.
Entretanto, alguns daqueles conflitos corriqueiros,
inerentes ao convívio diário entre as pessoas, por vezes, podem
alcançar maior complexidade. Em certo momento, estes conflitos
podem chegar ao ponto de necessitarem ser formalmente
mediados, por alguma instituição com esta finalidade. Quando a
mediação é realizada pela polícia militar, em uma fase préjudicial, porém, vinculado ao Poder Judiciário, existem algumas
formalidades a serem seguidas.
Nesse contexto, da mediação institucionalizada, o
Conselho Nacional de Justiça (CNJ) definiu que o mediador
necessita realizar um curso de capacitação para poder
desenvolver está atividade. Conforme o art. 12, da Resolução nº
125, de 29 de novembro de 2010, do CNJ:
Art. 12. Nos Centros, bem como todos os
demais órgãos judiciários nos quais se
realizem sessões de conciliação e mediação,
somente serão admitidos mediadores e
conciliadores capacitados na forma deste ato
(Anexo I), cabendo aos Tribunais, antes de
sua instalação, realizar o curso de
capacitação, podendo fazê-lo por meio de
parcerias. (Redação dada pela Emenda nº 1,
de 31.01.13).
O modelo de mediação de conflitos que está sendo
construído pela Polícia Militar de Santa Catarina está apoiado em
uma concepção de justiça restaurativa. Neste ínterim, a PMSC
criou, na 5ª Região de Polícia Militar (RPM) e seus batalhões
subordinados (Joinville, São Bento do Sul, Rio Negrinho,
Guaramirim, Jaraguá do Sul, Araquari, São Francisco do Sul e
114
Itapoá), uma “rede” de Mediação de Conflitos, em parceria com
os Juizados Especiais Criminais (JECRIM).
Neste projeto de mediação policial, pretende-se forjar a
figura do policial militar como mediador de conflitos. Segundo
Manfredi (2010, p. 134), os "mediadores podem ser profissionais
do meio organizacional, conhecidos por suas habilidades na
intervenção de conflitos, ou consultores externos que atuam
como mediadores e são pessoas capacitadas especificamente
para esse fim". O policial conhecedor de suas atividades na
prevenção e repressão ao crime, devidamente formado,
capacitado e instruído, poderá conduzir a sessão de mediação
em suas mais amplas possibilidades.
Entende-se, dessa forma, que diante do modelo de
mediação policial militar em construção pela Corporação
catarinense, vislumbra-se a idéia do policial mediador. Em outras
palavras, é necessário que um bom policial, sabedor das
questões inerentes à segurança pública, seja então capacitado e
habilitado para realizar as atividades de mediação. Assim, buscase o policial mediador para bem conduzir a mediação policial
militar, principalmente, no âmbito da mediação penal.
3.5 JUSTIÇA RESTAURATIVA: UMA NOVA PERSPECTIVA
SOBRE A ATIVIDADE POLICIAL MILITAR
A atuação tradicional da segurança pública, baseada em
uma postura eminentemente reativa, quando adotada como
estratégia única, já se mostrou limitada em diversos países do
globo e também no Brasil. Nesta forma de atuar, todos, Estado e
sociedade, mantêm-se em um estado de apatia inerte, torcendo
para que não aconteça nenhum problema. Neste modelo
tradicional, restringe-se a responder estes problemas na medida
em venham a surgir.
No contexto da segurança pública, o "problema" pode ser
caracterizado, em sua quase totalidade, no instituto do delito,
seja o crime ou a contravenção penal. Dando continuidade a este
raciocínio (tradicional), "ninguém" faz nada enquanto não
acontecer nenhum delito (chamado de momento de normalidade
da ordem); porém, quando o delito ocorre (quebra da ordem), a
máquina estatal põe-se a agir com toda a sua "energia potencial"
retida até então. As polícias militares e civis buscarão identificar
e prender o(s) suspeito(s). Após a prisão, os suspeitos serão
115
conduzidos ao poder judiciário, o qual aplicará sobre os mesmos
todo o peso da lei, em suas benesses e seu rigor. Se condenado,
o réu ingressará no sistema prisional, para a execução da pena.
Os presídios e penitenciárias ficam cada vez mais lotados,
porém, a criminalidade e a violência não reduzem na mesma
proporção com a qual ocorre o aumento no número de prisões.
Este mecanismo reativo e repressor apresenta e/ou possui
um encadeamento lógico de suas etapas e atividade. Porém,
desde muito tempo até os dias atuais, este sistema possui uma
falha muitas vezes ignorada, pelo Estado e pela sociedade. O
sistema exclui as pessoas do processo. Principalmente no
processo penal, as partes, sejam suspeitos ou vítimas, deixam
de ser entendidas como pessoas com suas subjetividades e
individualidades, para serem transformados em réus ou
testemunhas, meros figurantes, participantes do processo de
aplicação da lei penal. A vítima do delito, por exemplo, é
completamente renegada ao plano de denunciante e, às vezes,
quando muito, de mera testemunha. A esse respeito, Hulsman
(2004, p. 46) esclarece:
Para a vítima, a primeira consequência é
que, ao entrar no aparelho da justiça, o seu
problema deixa de lhe pertencer: não pode
deter a ação pública, nem aceitar uma
conciliação
que
poderia
ajudá-la
a
compreender o que realmente aconteceu;
não poderá opinar sobre a medida que
deveria ser aplicada ao autor; e ignorará tudo
o que se acontecerá a ela depois disso,
apesar de que talvez não lhe desejasse tanto
mal. Para o delinquente se configura a
mesma situação de destituição: tudo o que
acontecerá será friamente abstrato, não se
lhe permitirá refletir sobre as consequências
de seu ato para a vítima e, o que é mais
importante, quando for liberado sentirá que já
pagou pelo que fez, e que portanto, nada
aconteceu.
O Estado se apropriou e criou o monopólio da resolução do
conflito. Porém, o Estado só atua em uma fase avançada do
conflito, quando o confronto já se instaurou, quando ações já
foram praticadas, quando vidas foram comprometidas ou
116
perdidas. Esta é a resposta comum do Estado, com uma polícia
tradicionalmente reativa e um sistema judiciário lento e
engessado, em que muitas vezes ambos, polícia e judiciário
estão sucateados. O sistema penal brasileiro, baseado na
dogmática jurídico-penal, atua somente no litígio, metralhando
sentenças de um direito penal retributivo e, por vezes,
segregador; ignora as pessoas envolvidas no conflito, seus
sentimentos e suas expectativas (ANDRADE, 2003a; ANITUA,
2008). Um fato criminoso pode ser "atendido" e receber uma
resposta do Estado dogmático, mas o conflito por trás de um
crime continuará existindo. Quando as partes se reencontrarem,
é provável que um novo fato criminoso volte a ocorrer.
Segundo Santos (2011, p. 28-29):
Num sistema normatizado, como o que nos é
disposto, na esfera cível, familiar, contratual,
trabalhista, etc., a solução de conflitos e o
consenso são até aceitáveis, e amplamente
praticados, o problema é a resolução do
conflito na esfera penal, cujo anseio
esperado é a pena, a sanção condizente e
aplicável ao crime disposto em lei.
A questão da mediação penal de conflitos demonstra-se,
assim, algo extremamente complexo. Buscando o suporte
necessário para sustentar esta discussão apóia-se, em partes,
na idéia da Justiça Restaurativa. A Justiça Restaurativa,
enquanto modelo de solução penal alternativo e humanizado,
tenta reverter a lógica do crime e do processo penal. Conforme
Aguiar (2009, p. 109):
Podemos entender a Justiça Restaurativa
com uma reformulação de nossa concepção
de Justiça, tendo como objetivos trabalhar a
compreensão das pessoas sobre a situação
conflituosa para que haja a humanização dos
envolvidos, possibilitando a identificação das
necessidades geradas pelo conflito/crime e a
consequente responsabilização de todos os
afetos, direta ou indiretamente, para que, de
uma forma ou de outra, se comprometam e
contribuam para sua resolução.
117
Ao reconhecer a existência do conflito, e por consequência
a existência das partes, a justiça restaurativa, promove um salto
na qualidade do serviço prestado, em relação ao modelo
tradicional de justiça retributiva/distributiva. Nesta nova forma de
atuação o conflito passa a ser restituído às partes. A vítima é
reconhecida nos mecanismos relacionados à prática do crime e
recebe voz no espaço-tempo da mediação do conflito e
restauração do convívio social. Assim (SANTOS, 2011, p. 69):
A justiça restaurativa, na qual a mediação
penal se insere, pressupõe uma forma
inovadora de responder à criminalidade e
aos conflitos. É uma resposta que leva as
vítimas, os delinquentes e a coletividade a
reparar, coletivamente, os danos causados,
através de soluções alternativas à prática
jurídica tradicional.
Dessa forma, a mediação de conflitos se insere como uma
ferramenta basilar na promoção da justiça restaurativa. O
restabelecimento da harmonia no convívio social através de
práticas de mediação conflui ao mesmo sentido das teorias de
polícia comunitária.
Nesta nova filosofia de policiamento, a instituição busca se
aproximar e se abrir para a participação da comunidade, com
foco na prevenção criminal, diferentemente do anterior modelo
tradicional, focado na reação. Assim como o poder judiciário,
através de iniciativas de vanguarda busca reduzir a aplicação de
uma justiça retributiva (reativa), também a PMSC está buscando
alterar o seu padrão de trabalho de reativo para preventivo.
Nesse sentido, a introdução da mediação de conflitos
consolida-se como uma forma de materializar a atuação de uma
nova polícia, mais sintonizada com as necessidades da
comunidade e promotora da cidadania. O caminho que a PMSC
está trilhando já foi percorrido de forma semelhante na Nova
Zelândia, em que "[...] Alguns modelos chegam a ser aplicados
ainda na fase policial, aproveitando toda estrutura e experiência
da polícia. Mas em outros casos, o próprio judiciário assume
essa função" (SANTOS, 2011, p. 74-75).
Por fim, destaca-se que o município de Joinville, e os seus
municípios adjacentes envolvidos no projeto da mediação policial
118
militar, assume novamente a vanguarda15 na adoção de
mecanismos que buscam proporcionar melhor atendimento e
qualidade de vida ao cidadão, especialmente no âmbito da
segurança pública e da justiça criminal. A PMSC iniciou na 5ª
RPM, situada no município de Joinville, a implantação do projeto
Mediação de Conflitos: "Um novo caminho", com a finalidade de
policiais militares realizarem, institucionalmente e em parceria
com os JECRIM, a mediação de conflitos para a promoção da
Justiça Restaurativa. Em relação à vanguarda do município,
Santos (2011, p. 84) assim registra:
No Estado de Santa Catarina, enfatiza-se o
modelo de justiça restaurativa implantado em
Joinville, na região norte, pelo então Juiz da
Vara da Infância e da Juventude, Dr.
Alexandre Morais da Rosa, que coordenou o
projeto com apoio do Instituto Pró-Juventude
e o Instituto de Mediação e Arbitragem do
Brasil, cuja prática fora relatada na Obra de
Vezzulla (2005).
O processo de atuação da PMSC na realização prática da
mediação, as normas e diretrizes adotadas pela corporação, e
outras informações atinentes ao tema serão trabalhadas no
próximo capítulo.
15
Através de um projeto desenvolvido pelo Juiz de Direito, Dr.
Alexandre Morais da Rosa, a cidade de Joinville foi pioneira no Estado
de Santa Catarina na introdução e realização da Justiça Restaurativa na
Vara da Infância e da Juventude.
119
4 O PROCESSO DE CRIAÇÃO E IMPLANTAÇÃO DA
MEDIAÇÃO DE CONFLITOS PELA POLÍCIA MILITAR DE
SANTA CATARINA
A proposta de implementar um projeto de mediação policial
militar de conflitos encarna um grande desafio a ser enfrentado
pela Corporação catarinense. Para viabilizar a prática da
mediação de conflitos é necessário superar uma imagem que já
não corresponde mais a realidade desta instituição, apesar de a
expressão "polícia militar" muitas vezes estar impregnada, no
imaginário popular, de uma carga de ressentimentos e conectada
à idéia de repressão, truculência e violência16.
Neste novo contexto de atuação policial militar, pautado na
filosofia de polícia comunitária, de garantias de direitos, de
promoção da cidadania, a Polícia Militar de Santa Catarina lançase ao desafio de realizar a mediação de conflitos como mais uma
estratégia não repressiva pata realizar a segurança pública e
zelar pela ordem.
Para Nassaro (2012, p. 41):
Apesar da frequência com que policiais
militares
agem
como
pacificadores,
naturalmente em razão de serem os
primeiros a chegarem ao local do primeiro
conflito e impedirem o seu agravamento pelo
imediato contato com os envolvidos, a
Instituição não ocupa de forma plena e
sistematizada o espaço da mediação e da
conciliação
na
área
da
chamada
autocomposição. Não existe ainda um
registro padronizado, mesmo de uso
opcional, que permita um mínimo de
formalização aos acordos alcançados pela
intervenção
policial.
E,
embora
desenvolvendo diuturnamente ações de
16
Ver: Justificativa ao texto inicial apresentado na PEC 051/2013, a qual
propõe a reestruturação do modelo de segurança pública a partir da
desmilitarização do modelo policial (SENADO FEDERAL. Proposta de
Emenda à Constituição nº 51, de 24 de setembro de 2013. Disponível
em:
<http://www.senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate
=114516>. Acesso: 30MAI14).
120
pacificação em harmonia com a doutrina já
consolidada de Polícia Comunitária, o
profissional de polícia ostensiva e de
preservação da ordem pública ainda não é
reconhecido como um “pacificador social”.
Para algumas pessoas pode parecer uma ironia quase
inaplicável propor-se que uma polícia militar realize a mediação
de conflitos. Pode parecer impossível conciliar a idéia de que a
polícia militar, tida como órgão de repressão, possa promover o
diálogo e a mediação entre os cidadãos no dia-a-dia do convívio
social.
4.1 ASPECTOS A SEREM CONSIDERADOS NA MEDIAÇÃO
POLICIAL MILITAR DE CONFLITOS
A polícia militar, como já mencionado anteriormente,
conforme o art. 144, caput, e parágrafos 5º e 6º da Constituição
Federal de 1988, possui como principal atribuição constitucional
trabalhar para a preservação da ordem pública e a incolumidade
das pessoas e do patrimônio. A expressão preservação comporta
um aspecto eminentemente preventivo, porém associado a
ações reativas, quando necessário.
Apesar da previsão constitucional e do esforço da
Corporação em ampliar a atuação preventiva, constata-se que
ainda prevalecem, tanto na cultura geral da população quanto na
mentalidade de muitos policiais, as percepções de que a maior
responsabilidade das polícias militares ainda é a aplicação do
código penal para a efetivação de prisões, reforçando o modelo
de policia reativo.
Estudos em diversas áreas do conhecimento17 já alertam
há algum tempo que as ações de segurança pública
exclusivamente repressivas, com foco apenas na rapidez e
quantidade de prisões, não alcançam mais os efeitos desejados
para o controle da criminalidade e para a efetiva segurança da
população.
17
Ver Goldstein (1990), o qual propõe que o trabalho policial seja
orientado para a resolução de problemas. Essa seria uma forma de
transpor o modelo reativo para o modelo preventivo, buscando a
antecipação e atuação nas causas dos problemas. (GOLDSTEIN,
Herman. Problem-Oriented Policing. Madison: McGraw-Hill. 1990.)
121
Assim, desde a Constituição Federal de 1988, porém, com
mais intensidade a partir de 2003, com a edição da Matriz
Curricular Nacional, pela Secretaria Nacional de Segurança
Pública (SENASP, 2003), ganhou força uma tendência em alterar
o foco de atuação, principalmente das polícias militares, de um
modelo reativo para um modelo preventivo. Com estas ações a
SENASP buscou direcionar e padronizar a formação dos agentes
de segurança pública a partir daquele ano. A Matriz Curricular
fortaleceu a discussão e a implementação de ações preventivas
nas polícias militares, tornando possível, por exemplo, a presente
discussão sobre prevenção e mediação de conflitos.
Muitos fatores estão relacionados com a mudança no foco
do policiamento, de reativo para preventivo, pelas polícias
militares. Um desses aspectos está relacionado ao uso legítimo e
autorizado da força e à violência institucional do Estado. Em uma
ação reativa, ou seja, em resposta a um ato criminoso,
possivelmente será necessário fazer o uso mais enérgico da
força para conter o criminoso e restabelecer a ordem pública. Em
contrapartida, a atuação preventiva, construída através do
diálogo e da participação da comunidade, muitas vezes encontra,
em ações não-policiais, estratégias para reduzir fatores de risco
e, assim, reduzir a demanda policial reativa, e por conseguinte,
reduzir o uso da força. Ao mesmo tempo em que esta nova
postura no policiamento melhora a qualidade do serviço prestado
à população, também reforça a imagem positiva do Estado
catarinense e de sua polícia militar, aspectos que não podem
deixar de ser considerados no âmbito da segurança pública.
Pensando-se na mediação de conflitos como uma destas
formas de atuação preventiva, Muszkat (2005, p. 9) afirma que:
A mediação de conflitos é um procedimento
que traz em si a potencialidade de um novo
compromisso político capaz de reduzir a
desigualdade e a violência. Talvez seja por
isso que tantos grupos interdisciplinares têm
se mobilizado para implementar o seu uso,
seja em programas sociais, seja em seus
escritórios ou consultórios particulares. Mais
do que isso, uma forte corrente empenhada
na prática e divulgação dos seus princípios
tem atuado de forma voluntária, buscando
desconstruir resistências culturais devidas a
122
um imaginário coletivo forjado sobre os
princípios da disputa e da rivalidade nas
relações de conflito.
Outro aspecto importante está diretamente ligado à
construção de uma polícia cidadã, que atue em harmonia e
parceria com a comunidade. Uma instituição que seja agente de
transformação e inclusão social, que estimule a autonomia dos
indivíduos e a alteridade entre os sujeitos. Uma instituição
promotora de uma cidadania participativa, inclusiva e
emancipatória. Os conceitos de mediação, emancipação e
autonomia assumem um aspecto de complementaridade neste
contexto. Segundo Egger (2008, p. 185):
Com a mediação pode-se solucionar um
conflito mediante a tentativa de realização da
autonomia, para Warat, isso é importante,
porque desse modo ele introduz a idéia de
mediação emancipatória, ou seja, de que,
sem emancipação não há possibilidade de
haver mediação.
Objetiva-se, com a mediação policial militar de conflitos,
estimular o reconhecimento e aceitação das diferenças, entre a
população, como mecanismo de harmonização e pacificação
social. Partindo-se da concepção de que o conflito mal
administrado muitas vezes é o fator gerador do ato ilícito, devese manter o foco no restabelecimento da relação harmônica
entre as partes, buscando-se assim a melhor prevenção criminal.
Nas palavras de Egger (2008, p. 48):
A função prioritária da mediação é a
produção da diferença, instalando o novo na
temporalidade. Nem todas as correntes de
mediação
aceitam
essa
hipótese,
trabalhando com vista no acordo, o que,
deve ser secundário no procedimento de
mediação, que, primordialmente, preocupase com a reaproximação das partes, com o
re-estabelecimento dos sentimentos, sendo o
eventual acordo secundário.
Não se pode esquecer que apesar destes objetivos
pacificadores, ainda existem muitas desigualdades na sociedade
brasileira, as quais, por vezes, manifestam-se de formas
123
violentas ou criminosas no convívio social. Assim, enquanto a
proposta para a construção de uma polícia cidadã seria atuar
maciça e preventivamente em parceria com a sociedade, não se
pode ignorar que quando um fato criminoso ocorrer, a polícia
militar deverá atuar reativamente, na resposta pontual ao delito
praticado, para alcançar o restabelecimento da ordem.
Neste contexto, de caminhada em direção a uma ideologia
de polícia preventiva, a mediação de conflitos chega como uma
importante estratégia e ferramenta para consolidar a posição
preventiva e cidadã da Polícia Militar de Santa Catarina.
Principalmente porque é inegável que na origem de grande parte
dos atos violentos e criminosos, principalmente aqueles crimes
contra a vida, existe um conflito mal administrado. A polícia
militar vislumbra, através da gestão e mediação deste(s)
conflito(s) restabelecer o convívio harmônico entre as partes,
eliminar o foco gerador de grande parte da criminalidade violenta
no Estado e reduzir a necessidade de atuação reativa.
O tema mediação de conflitos, no senso comum, é bem
aceito quando se refere a conteúdos do direito civil. Ao se propor
a mediação de conflitos na esfera do direito penal, surgem uma
série de questionamentos. Segundo Silva Junior (2009, p. 11):
Na esfera do Direito Penal, todavia, a lei
reserva espaços em que o direito de ação
depende exclusivamente do ofendido, ainda
que o direito de punir seja monopolizado pelo
Estado. É, pois, nessa área de possibilidade
de consenso extrajudicial entre os sujeitos
em conflito que é possível a mediação
conduzida pelo agente policial bem
preparado. Nos conflitos em torno de direitos
disponíveis regulados por normas de Direito
Civil e naqueles de ordem penal em que a
ação penal seja privada, ou mesmo pública,
desde que condicionada à representação do
ofendido, o emprego de técnicas de
mediação por policiais teria o condão de
pacificar conflitos em sua flagrância, ao
contrário da via judicial, notadamente mais
tardia, por mais que se tente imprimir
celeridade.
124
Ao construir um raciocínio sobre as particularidades da
mediação na esfera penal, Santos (2011, p. 29-30) afirma:
Como solução, Eiras Nordenstahl [...] aponta
um
novo
modelo,
que
atende
a
recomendação da Assembléia Geral das
Nações Unidas, em 1985, quando aponta
que métodos alternativos de resolução de
conflito são eficazes, mas sustenta que “Não
se pretende de nenhuma maneira a abolição
total do direito penal, mas sua substituição
por outros modos de controle social e
sanções.”
Diante dos modos de justiça existente, quais
sejam, a Retributiva (ou comutativa),
Distributiva (ou justiça pelo mérito) e a
Restaurativa (ou justiça do reconhecimento)
[...], a solução de conflito melhor se evidencia
no último modelo.
Acredita-se, dessa forma, que ao institucionalizar a
mediação policial de conflitos será possível à Corporação
catarinense alcançar com mais rapidez e facilidade aquilo que o
constituinte vislumbrou em 1988, conseguindo-se, de fato,
promover a cidadania, a alteridade e a autonomia entre os
indivíduos no seio da comunidade.
4.2 O PROCESSO DE IMPLANTAÇÃO DA MEDIAÇÃO DE
CONFLITOS NA 5ª REGIÃO DE POLÍCIA MILITAR EM
JOINVILLE/SC
A Polícia Militar de Santa Catarina, apesar de possuir na
grade curricular de seus cursos de formação de policiais uma
disciplina chamada "Mediação de Conflitos" desde 2003, ainda
não efetivou a realização da mediação de forma
institucionalizada.
Buscando sanar esta carência, o Comando Geral da
Polícia Militar de Santa Catarina, ao elaborar o Plano de
Comando18 (SANTA CATARINA, 2011), definiu como uma das
18
Além da mediação de conflitos, o Plano de Comando apresenta como
ações de prevenção desenvolvidas pela Polícia Militar de Santa
Catarina o PROERD, o Policiamento Orientado ao Problema no âmbito
125
metas e objetivos a serem alcançados na relação da Corporação
com a Sociedade e o Cidadão, a implantação e ampliação da
mediação de conflitos. Neste viés, de prestação de serviços à
sociedade e ao cidadão, a mediação de conflitos se insere em
um eixo de ações sobre as causas, como mais uma estratégia a
ser adotada no âmbito das ações preventivas da polícia militar
catarinense.
Tendo por objetivo iniciar a implementação da ação de
"mediação de conflitos", conforme previsto no Plano de Comando
(SANTA CATARINA, 2011), no dia 02 de abril de 2013, através
da expedição da NOTA DE INSTRUÇÃO Nº 01/5ª RPM/13
(Anexo I), foi iniciada a realização do projeto piloto de Mediação
de Conflitos na 5ª Região de Polícia Militar (RPM) envolvendo a
cidade de Joinville, sede da RPM, e mais oito municípios (São
Bento do Sul, Rio Negrinho, Guaramirim, Jaraguá do Sul,
Araquari, São Francisco do Sul, Garuva e Itapoá), cujas OPMs
estão subordinadas à 5ª RPM.
Primeiramente, a 5ª RPM encaminhou ofício padrão aos
Juízes e Promotores do municípios envolvidos no projeto,
apresentando o Programa de Mediação de Conflitos da PMSC e
solicitando apoio para a "implantação e execução desta
atividade, nomeando alguns Policiais Militares como
conciliadores do Juizado Especial Criminal para atenderem nos
Núcleos de Mediação de Conflitos da Policia Militar" (Ofício s/n.
/5ªRPM/2013, datado de 19 de abril de 2013, expedido pelo
Coronel PM Rogério Rodrigues - Comandante da 5ª RPM. Anexo
II).
Já no mês de maio de 2013, o Comandante Geral da
PMSC expediu a Portaria n. 517/PMSC/2013, de 23 de maio de
2013, em que aprovou o Projeto Piloto de Mediação de Conflitos
da 5ª Região de Polícia Militar e determinou outras providências
(Anexo III). Com esta portaria, definiu-se que o projeto terá o viés
de Justiça Restaurativa. Também foi definida a mediação de
conflitos como atividade operacional de polícia ostensiva,
da Polícia Comunitária, a "escola mais segura", as visitas preventivas
residenciais e comerciais, o atendimento "pós-crime", as vistorias de
segurança em locais de eventos, o patrulhamento preventivo, a
segurança no trânsito, a realização de operações policias militares e a
busca pela delegação das competências de fiscalização do Estado para
a polícia militar.
126
reconhecendo e valorizando o policial que vier a desenvolver
esta importante atividade de prevenção, além de viabilizar, de
forma transparente, a percepção de indenização de estímulo
operacional para estes policiais.
Ainda, através desta Portaria, o Comando Geral
determinou que fossem tomadas as medidas necessárias para
adaptar e adequar, tanto os formulários de Boletins de
Ocorrência quanto o ambiente digital no Sistema Integrado de
Segurança Pública - SISP, para viabilizar o adequado registro de
informações sobre os processos de mediação.
Buscando regulamentar, no âmbito da 5ª RPM, a execução
das diretrizes formuladas pelo Comando Geral através da
Portaria n. 517/PMSC/2013, foi elaborada, em Joinville a Portaria
n. 01/5ª RPM/2013, de 25 de maio de 2013, com a finalidade de
Criar no âmbito da Circunscrição da 5ª RPM a estrutura para a
Gestão do Projeto Piloto de Mediação de Conflitos (Anexo IV).
Enquanto as formalidades necessárias estavam sendo
criadas pela Corporação, em Florianópolis, a 5ª RPM continuava
se aproximando do Poder Judiciário, nos Juizados Especiais dos
Fóruns de Joinville e região, para viabilizar a adequada formação
e capacitação dos policiais militares mediadores. Neste mesmo
contexto, foi construída a oportunidade de realização de um
estágio supervisionado, para que os policiais recém habilitados
viessem a atuar nas audiências preliminares de conciliação, nos
respectivos JECRIMs.
Os primeiros resultados do projeto piloto puderam ser
observados no mês de setembro de 2013, quando foi lançado
pela Diretoria de Instrução e Ensino (DIE) da Polícia Militar de
Santa Catarina o Edital n. 048/DIE/PMSC/2013, datado de 18 de
setembro de 2013, para a seleção ao Treinamento de Mediação
de Conflitos, no âmbito da 5ª RPM, começando a aplicar os
dispositivos previstos na Portaria nº 517/PMSC/2013, de 23 Maio
de 2013. Destaca-se que este treinamento foi ministrado por
profissional do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, conforme
Certidão do Processo nº 512060-2013.8/TJSC (Anexo V),
buscando o alinhamento com as determinações e exigências do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
127
Acompanhando-se o andamento deste processo seletivo
no sitio da PMSC19 observou-se que houveram 61 inscrições
efetuadas. Ao final do processo seletivo alcançou-se 56
candidatos aprovados para a realização do Treinamento, objeto
do referido Edital. Dos demais candidatos inscritos, quatro foram
desclassificados por não comparecerem à aplicação da prova de
conhecimentos básicos em mediação, enquanto um candidato
teve sua inscrição indeferida por não cumprir um dos requisitos
previstos em Edital.
O processo seletivo teve início com o lançamento do Edital
no dia 18 de setembro de 2013 e se encerrou no dia 16 de
outubro do mesmo ano, com a publicação dos candidatos
aprovados. O treinamento, por sua vez, foi fracionado em duas
etapas. A primeira etapa foi realizada entre os dias 21 a 25 de
outubro de 2013, na cidade de Joinville, para os policiais militares
lotados nas Organizações Policiais Militares (OPMs) situadas em
Joinville. A segunda etapa, por sua vez, ficou para ser agendada
em data oportuna durante o ano de 2014, na cidade de Jaraguá
do Sul, para os policiais militares lotados em OPMs situadas fora
da cidade de Joinville, mas dentro da circunscrição da 5ª RPM.
Concluindo esta primeira etapa do processo de
implantação da Mediação de Conflitos na 5ª Região de Polícia
Militar, o Poder Judiciário, através do Juizado Especial Criminal e
Delitos de Trânsito da Comarca de Joinville expediu a Portaria n.
08/2013 (Anexo VI), através da qual instituiu o Projeto: Polícia
Pacificadora, com a nomeação de policiais militares como
conciliadores à realização de audiências preliminares nos delitos
de menor potencial ofensivo. Este documento completa um ciclo
em que, por um lado a polícia militar está se estruturando e
capacitando seu efetivo para realizar a mediação, enquanto por
outro lado, o Poder Judiciário, percebendo a seriedade do
trabalho em construção, reconhece e homologa a atuação dos
policiais militares como conciliadores e mediadores de conflitos,
aptos a atuar dentro das necessidades e rigorosas exigências da
atividade jurisdicional, mesmo que em uma fase preliminar, como
são as audiências de conciliação, nos casos de Termos
Circunstanciados, na esfera dos Juizados Especiais.
19
http://www.pm.sc.gov.br/policial/profissional/selecao-interna/edital-n048diepmsc2013-selecao-de-pessoal-para-o--treinamento-emmediacao-de-conflitos-r-5-rpm.html
128
4.3 A MEDIAÇÃO POLICIAL MILITAR REALIZADA NO JUIZADO
ESPECIAL CRIMINAL DE JOINVILLE
As informações relacionadas abaixo são fruto de pesquisa
bibliográfica e documental, mas principalmente, são relatos de
experiências vivenciadas em uma visita de campo à cidade de
Joinville, nos dias 25 e 26 de março do corrente, para
acompanhar o trabalho realizado pela 5ª RPM e pelo JECRIM do
Fórum de Joinville.
Nesta ocasião, manteve-se intenso diálogo com o Major
Giovani Luciano Fachini, Chefe da Seção Operacional da 5ª
RPM; com o Dr. Décio Menna Barreto de Araújo Filho, Juiz de
Direito titular do Juizado Especial Criminal e Delitos de Trânsito
da Comarca de Joinville; e com Chrystiane Maria Uhlmann,
servidora do TJSC e instrutora capacitada pelo CNJ. Nestes
diálogos esclareceu-se e compreendeu-se diversos aspectos que
estão envolvidos na realização do presente projeto e permeiam,
por vezes explicitamente por outras de forma implícita, toda a
escrita desta pesquisa.
4.3.1 A construção da mediação policial militar em Joinville
O projeto de mediação de conflitos por policiais militares
está sendo aplicado em todos os nove municípios que estão sob
a circunscrição da 5ª Região de Polícia Militar. Entretanto, cada
Unidade de Polícia Militar em seu respectivo município, está
levando um tempo diferente para desenvolver as atividades de
implantação necessárias. Depreende-se que, por diversos
fatores, o projeto desenvolvido no JECRIM do Fórum de Joinville
apresenta o status mais avançado de implementação. Motivo
este, pelo qual buscar-se-á analisar as informações, dados e
documentos relacionados principalmente à este Fórum.
O efetivo que atua no Projeto de Mediação da Polícia
Militar de Santa Catarina, na cidade de Joinville, é formado por
oito policiais militares. Considerando-se os Postos ou
Graduações ocupados, o grupo é composto por dois Majores, um
2º Tenente, um 2º Sargento, um 3º Sargento, um cabo e dois
soldados.
Dentro da estrutura da polícia militar, têm-se, de forma
bastante simplificada, que os oficias (Majores e Tenentes)
exercem funções de gestão e planejamento; as praças, por sua
129
vez, exercem basicamente duas funções: gerência (Sargentos) e
execução (cabos e soldados). Interessante, porém, observar, que
dentro da sessão de mediação, todos os policiais militares
personificam a figura, apenas, de mediador. Durante a mediação
entre as partes, pouco importa o posto ou graduação do policial
militar.
Esta observação permite uma breve reflexão sobre o termo
"militar" da polícia. Entende-se que o adjetivo "militar" serve
apenas como forma de organização interna necessária à
corporação. Não se pode confundir, assim, uma forma interna de
organização militar, com o serviço prestado, de natureza civil.
Assim, no momento da prestação do serviço para a sociedade o
que mais importa é a qualidade do atendimento prestado, e não
a adjetivação do nome da instituição que está prestando o
serviço.
O grupo de policiais militares mediadores que atuam na
cidade de Joinville possui praticamente todos os seus integrantes
capacitados e habilitados pelo Tribunal de Justiça de Santa
Catarina. Alguns policiais não realizaram o treinamento oferecido
pelo TJSC por motivo de férias ou licença especial (licença
prêmio). Estes policiais não foram nomeados pelo Juiz titular do
JECRIM e continuam "estagiando" até a realização do próximo
treinamento em mediação, programado para o mês de maio do
ano corrente. Assim, em Joinville o projeto conta com nove
policiais militares que conduzem as audiências preliminares de
conciliação mediante rodízio ou escala própria.
A capacitação fornecida aos referidos policiais está
alinhada e segue os padrões do Conselho Nacional de Justiça.
Destaca-se que, além da carga teórica do curso de capacitação,
os policiais também foram/são submetidos a um estágio
supervisionado pelo Juiz titular do JECRIM do Fórum de Joinville.
Neste modelo construído para o Projeto de Mediação, a
capacitação do policial militar se completa somente após a
"aprovação no estágio" no respectivo JECRIM.
A implantação do projeto é ainda muito recente e não
existem registros e estatísticas que possibilitem a análise e
avaliação dos resultados obtidos até o momento. A PMSC
efetivou apenas no mês de abril de 2014 o sistema informatizado
para registro dos atendimentos. Somente a partir desta data será
possível gerar estatísticas e produzir conhecimentos sobre esta
nova estratégia de policiamento.
130
Porém, tentando-se verificar a viabilidade de aplicação de
um projeto deste tipo, apresenta-se o exemplo de uma prática
realizada na 30ª Delegacia de Polícia Civil, na cidade de
Fortaleza/CE. Diferentemente do modelo catarinense, este
projeto foi construído no interior da própria Instituição de Polícia
Civil, sem formalizar uma parceria com o Poder Judiciário. No
exemplo apresentado, ainda, a mediação era proposta às
pessoas que procuravam a delegacia para efetuar boletins de
ocorrência criminal, quando então eram verificadas as
possibilidades de encaminhamento para a mediação ou, então,
era concluído o registro do fato criminal. A delegacia trabalhava
com um demanda espontânea da população a qual era filtrada e
encaminha para a mediação conforme a viabilidade do problema
relatado (DAMASCENO, 2013).
Assim, ao analisar o projeto cearense, Damasceno (2013,
p. 94) apresenta os seguintes resultados:
Esses 197 conflitos receberam tratamento
adequado e 86% foram efetivamente
solucionados, resultando em paz social e
vínculos restabelecidos. Contribuiu-se desta
forma para a redução e a prevenção criminal
e para o exercício da Segurança Cidadã, fato
que favoreceu a redução do numero de
Boletins
de
Ocorrências
e
Termos
Circunstanciado de Ocorrência na delegacia
neste período e evitou que estas pessoas
prosseguissem para a esfera judicial.
Este quadro avaliativo indica que a mediação policial é
possível e que produz significativos resultados na prevenção
criminal. Os caminhos adotados pela PMSC e pela Polícia Civil
do Ceará foram diferentes, mas ambos buscavam o mesmo
objetivo: atender melhor a população. Assim como os resultados
positivos encontrados em Fortaleza, acredita-se que o projeto de
mediação policial catarinense possui grande potencial para
também alcançar, num breve futuro, resultados positivos.
4.3.2 O modelo de mediação de conflitos aplicado na 5ª RPM
O modelo de mediação de conflitos adotado na 5ª Região
de Polícia Militar encontra-se, pode-se dizer, ainda em um
processo de autoconstrução. Dado o ineditismo deste modelo de
131
mediação de conflitos, celebrado entre uma instituição de polícia
militar e o poder judiciário, o projeto está sendo aplicado, de
certo modo, intuitivamente. Não quanto à aplicação da mediação
em si, mas em qual o papel, qual a medida da participação de
cada instituição. Neste sentido, algumas questões podem,
eventualmente, ser adaptadas na medida em que novas
situações ou necessidades venham a surgir.
Como mencionado anteriormente, os policiais militares
foram capacitados e estão atuando junto aos juizados especiais
dos municípios participantes do projeto. Entretanto, na cidade de
Joinville os policiais militares já foram nomeados e atuam como
conciliadores. Por sua vez, nos demais municípios adjacentes a
Joinville, os policias militares ainda não foram nomeados como
conciliadores, executando, dessa forma, a mediação em uma
espécie de estágio probatório.
Nesta fase de implantação do projeto de mediação na
Polícia Militar de Santa Catarina, o principal amparo legal que
fundamenta a atividade dos policiais militares junto ao JECRIM é
a Lei 9.099, de 26 de setembro de 1995, em seu capítulo III, "Dos
juizados especiais criminais"; mais especificamente no que
concerne à seção II, "Da fase preliminar". Complementarmente,
possui aplicação a Resolução nº 125/2010 do Conselho Nacional
de Justiça20, o Código Penal21, o Código de Processo Penal22, o
Plano de Comando da Polícia Militar de Santa Catarina23, o
Procedimento Operacional Padrão - POP 305.2 da PMSC24,
todos vinculados e amparados na Constituição Federal de 1988.
Os delitos mais adequados a este tipo de mediação
proposta são aqueles de ação penal privada e ação penal pública
condicionada à representação, pois, nos crimes de ação penal
incondicionada, não há como não dar prosseguimento ao
processo penal, independentemente da vontade da vítima. Dessa
forma, para aqueles casos, o sucesso da mediação representa,
além da transformação do conflito, a não criminalização de um
cidadão e a não judicialização de uma conduta, pois existe a
possibilidade de extinguir a pretensão punitiva do Estado diante
20
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2010.
BRASIL, 1940.
22
BRASIL, 1941.
23
SANTA CATARINA, 2011.
24
POLÍCIA MILITAR DE SANTA CATARINA, 2013.
21
132
da vontade da suposta vítima em deixar de representar ou
queixar-se contra o suposto autor do fato.
Muito além da eventual conciliação alcançada,
independente das disposições e condicionantes legais, conforme
dispõe, por exemplo, o parágrafo único do artigo 74, da Lei n.
9.099/95, - "Art. 74. [...] Parágrafo único. Tratando-se de ação
penal de iniciativa privada ou de ação penal pública condicionada
à representação, o acordo homologado acarreta a renúncia ao
direito de queixa ou representação", a relação de convívio,
mediada e restabelecida, entre as partes dilui a pretensão
punitiva e retributiva, através do processo penal, que,
inicialmente, motivava a vítima.
4.3.3 A prática da mediação policial militar no Fórum de
Joinville
Os policiais militares mediadores atuam nas audiências
preliminares no JECRIM de Joinville, decorrentes dos Termos
Circunstanciados lavrados tanto pela Polícia Civil quanto pela
Polícia Militar. A audiência preliminar é o momento de mediação
e conciliação entre as partes envolvidas em crimes de menor
potencial ofensivo ou em contravenções penais. Neste espaçotempo, se busca trabalhar e transformar o conflito existente entre
as partes. Se a mediação for bem sucedida, desponta entre as
partes, mas principalmente na vítima, a manifestação de não
mais representar ou queixar-se contra o autor.
No Juizado Especial Criminal do Fórum de Joinville
existem dois horários disponibilizados para a prática da
mediação pelos policias militares mediadores. Todas as quartas
feiras e sextas feiras, no período matutino, a pauta do JECRIM
está reservada para Audiências preliminares mediadas pelos
policiais. Atualmente são reservados quinze minutos para cada
audiência. Entretanto, diante da percepção de que algumas
situações apresentam maior complexidade, o juiz titular do
JECRIM de Joinville, Dr. Décio Menna Barreto de Araújo Filho,
externou a sua intenção de disponibilizar, a partir do mês de Abril
do corrente, pauta nas manhãs das segundas feiras para estes
casos, disponibilizando 45 minutos para cada audiência.
Percebe-se que a atividade realizada no JECRIM de
Joinville é altamente válida para todos os envolvidos, sejam as
partes litigantes, a Polícia Militar ou o próprio Poder Judiciário.
133
Os litigantes vivenciam uma possibilidade de diálogo, de sentir
seus sentimentos e os sentimentos do outro, de se tornarem
sujeitos ativos e conscientes de uma decisão importante para as
suas vidas e de terceiros.
À Policia Militar, mas principalmente ao policial militar,
desnuda-se uma nova forma de atuação; talvez menos visível,
porém muito mais profunda e significativa. Neste espaço o
policial militar se percebe como sujeito capaz de construir
histórias, o indivíduo policial sobressai sobre o instituto-policial,
até então, uniforme e despersonalizado.
O policial militar mediador, assim, reforça seu papel de
transformador social, ao proporcionar às partes em conflito o
diálogo sincero, em um clima de cooperação, construindo uma
nova cultura de solução de conflito (MUSZKAT, 2005).
Através da mediação de conflitos a Corporação poderá
alcançar, como em poucas oportunidades, a quase total sintonia
com a atribuição imaginada pelo Constituinte e pela sociedade,
de uma polícia cidadã, garantista e pautada pela mínima
intervenção penal e servidora da sociedade.
O Poder Judiciário, por sua vez, alcança um laborar
humanitário, colocando em evidência as pessoas, com toda a
sua subjetividade, e não os interesses, também não pouco
importantes. Entende-se, assim, que a mediação de conflitos
possui uma potencialidade transformadora incalculável de
converter corpos amorfos caracterizados por números, preços e
custas, processos, ressentimentos, em indivíduos, portadores de
suas subjetividades e sentimentos, autores de sua vida e seu
destino, pessoas autônomas em um exercício de alteridade.
Apesar de todas estas potencialidades, e algumas
realizações consolidadas, a prática mediativa que se realiza nas
audiências preliminares no JECRIM de Joinville, devido às
formalidades jurídico-legais da Lei 9.099/95, estão permeadas
pelo interesse final na conciliação. Vale retomar o conceito
abordado anteriormente, de que a conciliação mantém o foco
mais no acordo do que na relação.
Assim, a relação entre as partes, principal objetivo da
mediação, demonstrou-se algumas vezes relegada a segundo
plano diante da demanda pela conciliação, buscando, assim,
arquivar o procedimento e inibir a instauração do processo penal.
Nas sessões observadas durante a visita ao Fórum de Joinville,
contatou-se que a relação entre as partes, os sentimentos
134
envolvidos e a gênese do conflito, por vezes, acabou ficando em
segundo plano, até alcançável, porém, um pouco menos
importante que o acordo. Um indício desta tendência é o curto
período dispensado para cada sessão de mediação, restrito há
apenas quinze minutos para cada processo.
Refletindo-se um pouco mais sobre a duração prevista
para cada audiência, na data em que se realizou a visita ao
Fórum de Joinville, observou-se o atraso em uma sessão, devido
à complexidade das questões que estavam sendo trabalhadas.
Este atraso fez com que algumas das pessoas que aguardavam
audiências nos horários seguintes acabassem desistindo e indo
embora em função da demora no atendimento.
Entende-se indubitável a importância em obter-se o acordo
e evitar a instauração de um processo penal. Porém, dentro dos
objetivos propostos, de construção da autonomia e do exercício
da alteridade, não se pode priorizar o acordo em detrimento da
relação entre as partes. Vislumbra-se a possível solução para tal
dilema na simples previsão de mais tempo para cada sessão de
mediação. Assim, com mais tempo para o atendimento,
considera-se viável conciliar os preceitos da Lei 9.099/95, em
relação à busca pela conciliação (acordo),com os princípios da
mediação de restabelecer os laços relacionais entre as partes
envolvidas no conflito.
Constatou-se, também, em alguns momentos que o acordo
alcançado ao término da sessão de mediação não era refletido
no mesmo sentimento de satisfação entre uma das partes, ou
ambas as partes, demonstrando que o conflito ainda não havia
sido transformado ("resolvido"). Também se observou, em
algumas mediações, a utilização de um argumento recorrente, o
qual versava mais ou menos algo como: o (a) senhor (a) pode
realizar o acordo agora e, se ele (a) voltar a incomodar é só
registrar outro boletim de ocorrência na delegacia que a gente
volta a chamar ele (a) aqui de novo.
A audiência preliminar de conciliação, nos termos da Lei
9.099/95, incorpora grande avanço no atendimento das questões
criminais no âmbito do Poder Judiciário. Vislumbra-se, com as
análises supra, apontar possibilidades de se otimizar ainda mais
um mecanismo que já apresenta valorosas qualidades.
135
4.4 A CRIAÇÃO DO NÚCLEO DE MEDIAÇÃO DA POLÍCIA
MILITAR DE SANTA CATARINA - NUME/PMSC
Não se pode ser ingênuo ou prepotente em se propor que
a adoção da mediação de conflitos pela polícia militar irá resolver
todos os problemas da violência e da criminalidade sentidos
diuturnamente pela população. Sabe-se que existem práticas e
modalidades criminais que demandam diferentes formas e
estratégias de prevenção e resposta.
Para determinados tipos penais, a atuação policial ficará
restrita à aplicação da lei penal, sem a possibilidade de aplicação
da mediação de conflitos. Também, quando cabível a mediação,
ela deverá seguir a alguns procedimentos para viabilizar a
adequada administração do conflito. Assim, por exemplo, não
convém se falar em mediação durante o atendimento de uma
ocorrência policial. É necessário realizar o agendamento para
outro momento, em que as partes já tenham se acalmado.
Como já se discorreu em seções anteriores deste trabalho,
a mediação consiste em um espaço-tempo para o diálogo, para a
auto-percepção e percepção do outro. Assim, não há como se
falar em realizar a mediação de conflitos, de natureza penal, no
local-momento da ocorrência policial. As partes litigantes estarão
com seus ânimos acirrados e não é viável construir um diálogo
conciliador nestas condições. Isto, porém, não impede que o
policial utilize técnicas da mediação para conduzir a ocorrência
policial e alcançar um desfecho conciliador para o atendimento e
não um desfecho que agrave os problemas de relacionamento ou
que conduza ao uso da força, o qual, eventualmente, mas nem
sempre, poderia ter sido evitado.
Nesta fase de implantação do projeto de mediação na
Polícia Militar de Santa Catarina, os atendimentos realizados
priorizam as questões envolvendo crimes de menor potencial
ofensivo ou contravenções penais como, por exemplo,
perturbação do trabalho e sossego alheio, desentendimentos
entre casais, discussão entre vizinhos, ameaças, etc. Também,
diante do princípio da legalidade e busca por uma atuação
transparente, algumas destas ocorrências não podem ser
mediadas, necessitando que o atendimento policial siga aos
ditames da lei penal e processual penal, com a instauração do
devido processo penal.
136
Resta, neste primeiro momento, analisar a mediação
aplicável àqueles crimes de ação penal privada e/ou ação penal
pública condicionada à representação. Segundo Nassaro (2012,
p. 46):
Além das situações que envolvem ilícitos
civis
e
suas
responsabilidades,
a
autocomposição pode ser estabelecida em
conflitos envolvendo matéria penal, a
qualquer momento, desde que a infração não
se encontre no universo daquelas de ação
pública incondicionada. O acordo poderá
incluir obrigações mútuas e de condutas
diversas
pactuadas
(inclusive
de
ressarcimento e/ou indenização) com efeitos
na renúncia ao direito de ação pelo ofendido,
se confirmado - o que também representa
uma contrapartida: “nos casos de crimes
sujeitos à ação penal privada ou à ação
penal pública condicionada, a mediação
poderá culminar na renúncia da queixa-crime
ou da representação” [...]. Na hipótese de um
acordo formalizado mediante intervenção
policial e não sujeito à homologação do juiz,
a renúncia à ação penal privada ou pública
condicionada à representação dar-se-á pelo
decurso do tempo sem invocação da tutela
jurisdicional (prazo decadencial para início da
ação).
Apesar das restrições legais e dificuldades práticas
(sentimentos, interesses, interferências externas, etc) para a
aplicação e alcance da mediação do conflito no momento da
ocorrência, vislumbra-se efeitos que ultrapassem esse contexto
primário do conflito manifesto. A mediação do conflito entre as
partes, mesmo em um segundo momento, em data agendada e
ambiente próprio para isto, é fundamental para a prevenção
criminal em geral, mas principalmente de alguns crimes mais
graves, decorrentes das tensões iniciais mal gerenciadas entre
as partes. A seguir, Nunes (2010, p. 126), ilustra a importância
do cuidado com os conflitos:
O conhecimento dos problemas e sua
discussão
adequada
proporcionam
resultados benéficos e pacíficos para a
137
sociedade. Diminuir a importância desses
tipos de conflitos, tratando-os de maneira
inadequada, pode resultar em grandes
tragédias. A mediação visa solucionar o
conflito real, e não apenas aquele que
aparenta ser o problema controvertido, e o
faz por meio do diálogo e do consenso.
Relatos de policiais afirmam que simples
discussões de família ou de vizinhos, casos
de embriaguez e desordem quando não bem
resolvidos podem resultar em delitos de
natureza grave, como lesão corporal e
homicídio.
Para esta nova postura assumida pela Corporação
catarinense, servem as palavras de Moreira (2012, p. 80):
A mediação possibilita a transformação da
“cultura do conflito” em “cultura do diálogo”
na medida em que estimula a resolução das
querelas jurídicas pelas próprias partes, nos
casos que envolvem direitos disponíveis.
Assim, se vislumbra que em um futuro próximo, quando a
mediação de conflitos for consolidada na PMSC, as desavenças
poderão ser mediadas em um estágio inicial, transformando-se o
conflito e, assim, reduzindo a quantidade e a intensidade dos
crimes violentos, principalmente aqueles considerados crimes
contra a vida. Ressalta-se que, apesar de a mediação ser
amplamente aplicável no convívio entre as pessoas em geral, ela
é bem mais eficiente naquelas situações de conflitos surgidos
entre pessoas que possuem vínculos mais estreitos, seja por
relações de parentesco, vizinhança, amizade, etc.
4.4.1 A concepção do Núcleo de Mediação da Polícia Militar
de Santa Catarina em Joinville
Pode-se dizer que o projeto de mediação na 5ª RPM de
Joinville, e na própria PMSC, está apenas na primeira etapa de
um processo de implantação, que se pretende consistente e, por
isso mesmo, lento e progressivo. Apesar de todos os nove
municípios sob a circunscrição da 5ª RPM estarem envolvidos na
execução do projeto, a cidade de Joinville é a que se encontra
em uma fase mais avançada de implantação.
138
Em Joinville todos os policiais que atuam no projeto já
foram treinados e capacitados pelo TJSC. Estes mesmos
policiais já concluíram o "estágio" probatório e foram nomeados
pelo Juiz titular do JECRIM como conciliadores. Ainda no
JECRIM de Joinville, os policiais militares conduzem a
conciliação nas audiências preliminares, assistidos pela
secretária do JECRIM, a qual acompanha as audiências, e redige
a lavratura do termo de conciliação ou recusa, conforme o
sucesso ou insucesso da audiência. A peculiaridade deste
momento do projeto, é que a mediação realizada no JECRIM tem
por objetivo a conciliação, nos termos da Lei 9.099.95, aspirando
pelo acordo e a extinção da pretensão punitiva e retributiva das
partes e, consequentemente, do processo penal.
Este espaço, esta oportunidade, e esta forma de atuação
junto aos Fóruns, dentro das estratégias de prevenção criminal
representam, indiscutivelmente, um marco evolutivo para a
polícia militar catarinense. Entretanto, a Corporação vislumbra
atuar mais profundamente na relação entre os cidadãos,
explorando mais as ferramentas e o potencial da mediação de
conflitos. Nesse sentido, está em vias de criação e inauguração,
também em Joinville, o 1° Núcleo de Mediação de Conflitos da
PMSC (1° NUME/PMSC) junto ao núcleo de prática jurídica da
Universidade Sociedade Educacional de Santa Catarina
(UNISOCIESC).
Com o funcionamento do Núcleo de Mediação de Conflitos
da PMSC a Instituição poderá, com mais autonomia e liberdade,
explorar a amplidão de possibilidades que a mediação de
conflitos pode oferecer ao policiamento preventivo e à promoção
da cidadania. Diferentemente da conciliação no JECRIM, a qual
não será abandonada, a mediação no NUME/PMSC, poderá
atender as pessoas interessadas, antes do registro de qualquer
procedimento policial, de fato mantendo o conflito entre as partes
evitando a institucionalização prematura da lide e a
criminalização das condutas.
4.4.2 O funcionamento do Núcleo de Mediação da Polícia
Militar de Santa Catarina
Já se verificou que a atividade preventiva, no âmbito da
preservação da ordem pública, é a principal missão das polícias
militares brasileiras conforme o texto Constitucional. A filosofia de
139
polícia comunitária, tema já abordado neste trabalho,
demonstrou-se importante elemento para a aproximação da
Corporação com a sociedade. Neste contexto, a Polícia Militar de
Santa Catarina vem firmando sua intenção de transformar o seu
modelo de policiamento tradicional, ainda muito reativo, em um
modelo de policiamento preventivo.
O Policiamento Orientado ao Problema (Goldstein, 1990)
propõe a atuação preventiva da polícia militar através da adoção
de estratégias não-policiais para promover a segurança e a
pacificação social, com foco de atuação na origem dos
problemas. Esta forma de atuação, priorizando estratégias de
atuação não-policial em parceria com a comunidade, reduz a
necessidade de uso da força e fortalece a imagem da Instituição
como promotora da cidadania.
A mediação policial de conflitos, ora proposta, alinha-se
com estes novos elementos que surgem no atual contexto da
segurança pública. Vislumbra, assim, formas alternativas para
praticar a segurança pública, reduzindo a classificação irrestrita
de ações como delitivas e a sua consequente penalização
contumaz, principalmente de condutas consideradas de menor
potencial ofensivo.
A adoção da mediação de conflitos reforça os princípios de
polícia comunitária, como a descentralização e setorização do
policiamento, estimulando a valorização e empoderamento do
policial na "ponta" e, por sua vez, fortalecendo o empoderamento
dos próprios cidadãos, no desenvolvimento de suas autonomias
e no exercício da alteridade.
Considerando-se que a implantação e realização da
mediação policial militar não implicam em significativos custos
adicionais para a Corporação e verificando-se que os lucros
sociais, econômicos, culturais e políticos para a população são
imensos, entende-se que quanto maior e mais profundo for o
trabalho realizado pela PMSC através da mediação de conflitos,
maior e mais rapidamente serão alcançados os valores
esperados por toda a sociedade em relação à segurança pública
e à ordem pública.
Consoante as discussões já realizadas e sem interromper
o trabalho que vem sendo realizado nas audiências preliminares,
de conciliação, nos Fóruns de Joinville e região, a PMSC planeja
desenvolver a atividade de mediação de conflitos a partir da
140
criação dos Núcleos de Mediação (NUME/PMSC), ampliando o
seu alcance e prestando um serviço mais completo à sociedade.
Apesar de um conflito ser simplesmente um conflito, em
sua essência, o modo como esse conflito será entendido e
administrado pode assumir diversas formas. As teorias sobre
mediação de conflito, em sua maioria, discorrem sobre a
transformação do conflito através do diálogo aberto e verdadeiro
e da possibilidade de se "sentir os sentimentos". O foco exclusivo
é a resolução dos sentimentos e o restabelecimento da relação.
As demais formalidades não possuem maior importância na
mediação de conflitos "comum".
Enquanto o conflito é algo comum e corriqueiro ao convívio
social, a atividade de mediação de conflitos não é tão simples e
aplicável na mesma proporção. Segundo Fiorelli, Fiorelli,
Madalhas Júnior (2008, p. 74) a "mediação de determinados
conflitos encontra obstáculos instransponíveis pela presença de
limitadores e por inaplicabilidade à situação". Talvez seja este o
maior diferencial na proposta de mediação de conflitos realizada
pela polícia militar. Enquanto Camp (2003 Apud FIORELLI,
FIORELLI, MADALHAS JÚNIOR, 2008, p. 75) "sugere que a
mediação não se aplica a casos em que 'possa haver suspeita de
delito' [...]", a polícia militar propõe realizar a mediação não só
nestes casos "não-delitivos", mas também nos casos de delito. A
proposta da PMSC é realizar a mediação "comum" e também a
mediação nos casos de ocorrência de delito.
A mediação de conflitos realizada pela polícia militar,
assim, é um pouco diferente da mediação tradicional. Parte-se da
perspectiva de que o conflito atendido pela polícia militar é, ou
pode tornar-se, o gérmen de uma conduta criminosa futura, isto
quando já não é uma conduta criminosa consumada. Assim,
mantém-se o mesmo foco da mediação comum, em sua
essência, porém, busca-se oferecer a prestação de um serviço
mais completo ao cidadão, como será visto a seguir.
Diante do ineditismo do tema e, buscando criar as
primeiras diretrizes para amparar a realização da mediação
policial militar e institucionalizada de conflitos, o autor propõe a
criação de categorias a serem adotadas atual contexto de
implantação e consolidação do projeto de mediação na Polícia
Militar de Santa Catarina. Dessa forma, observando-se as
possibilidades de aplicação da mediação no NUME/PMSC e
alguns aspectos inerentes às diferentes formas de conflitos e
141
seus desdobramentos, propõe-se a adoção de cinco linhas de
atuação: mediação de fatos atípicos; mediação de fatos típicos
não registrados; mediação de fatos típicos já registrados;
mediação restaurativa de crimes em processo ou julgados; e
mediação "complementar".
A primeira linha de atuação é classificada como mediação
de fatos atípicos. Os fatos atípicos representam a essência e a
forma mais simples dos conflitos em sociedade. Se é que um
conflito pode ser dito simples. São aqueles desentendimentos
sobre questões cotidianas que não são enquadradas ou
tipificadas como crime ou contravenção. Geralmente estão afetos
a questões do código civil. Para está linha de atuação segue-se o
procedimento de mediação padrão e, ao final, obtêm-se o acordo
ou não. No caso de insucesso da mediação não cabe a
realização de nenhum procedimento policial complementar, como
boletim de ocorrência ou termo circunstanciado. Caberá, no
máximo, a instauração de processo, na esfera cível, por qualquer
pretensão não criminal que tenha restado entre as partes.
A segunda linha de atuação é classificada como mediação
de fatos típicos não registrados. Os conflitos oriundos de fatos
típicos não registrados representam, talvez, a maior possibilidade
de atuação da polícia militar no âmbito preventivo. Claro que se
refere, exclusivamente, àqueles fatos típicos de ação privada ou
ação condicionada à representação. Este tipo de conflito,
geralmente, se consubstanciará na figura de contravenções ou
crimes de menor potencial ofensivo, se o conflito não for
gerenciado e mediado a tempo. São nestes tipos de conflitos,
quando mediados, que a voz da vítima pode ser ouvida e sua
vontade pode ser satisfeita.
Entende-se que esta ocasião, talvez, possa ser
considerada a maior forma possível de empoderamento do
cidadão no âmbito judicial e pré-judicial. Esta é a maior e melhor
oportunidade para realizar a mediação de conflitos penais. Nesta
ocasião, entre a ocorrência de um fato e a sua formalização
penal como registro do Boletim de ocorrência, os cidadãos
tomam consciência de sua existência e testam o efeito de suas
vidas na face da terra.
Tradicionalmente, refere-se ao empoderamento da vítima
em relação à oportunidade que lhe é dada de, respeitadas todas
as proporções do ambiente pré-judicial, decidir sobre o seu futuro
e o futuro do agente. Em contrapartida, dada a ainda não
142
formalização policial ou judicial do conflito, é oportunizado ao
agente também se manifestar, apresentar seus sentimentos e
reconstruir tanto a relação com o outro, como os seus próprios
valores, gerando uma reflexão sobre si mesmo e seu
posicionamento na sociedade.
Na experiência realizada na 30ª Delegacia de Polícia Civil
de Fortaleza/CE, segundo Damasceno (2013, p. 138):
O empoderamento foi descrito pelas
mediadoras como sentimento de inclusão
social, conhecimento e conscientização dos
mediados, conquista da capacidade de
participar e do poder de decidir, e exercício
da cidadania. Com a experiência obtida em
ter seu conflito mediado, os cidadãos
nutriram
um
sentimento
de
autoempoderamento, acreditando que eram
capazes, sim, de pensar criticamente junto
ao outro conflitante, para que pudessem
tomar decisões e agir pacificamente diante
dos seus conflitos sociais.
Esta modalidade de mediação, para ser viável e aplicável,
demanda de uma ferramenta operacional adotada pela PMSC: o
Termo Circunstanciado. O TC viabiliza esta categoria de
mediação justamente ao cogitar a possibilidade de não obtenção
final do acordo na mediação. Nesta situação, diante de uma
notícia de crime ou contravenção, em que não se alcançou
sucesso na mediação e o acordo entre as partes, e que a vítima
manifeste intenção de representar contra o agressor, o policial
militar mediador, ao término da audiência, lavrará o devido
Termo Circunstanciado para o subsequente encaminhamento ao
respectivo JECRIM.
Conforme já discorrido anteriormente, no caso de não se
alcançar o acordo, e a instituição policial militar não estar
preparada para realizar o TC, o suspeito, em tese, teria que ser
preso e conduzido até uma delegacia para a lavratura do
respectivo Termo Circunstanciado. A prática que deveria reduzir
as tensões agora acirra ainda mais os ânimos. Por outro lado, ao
realizar o TC, no caso de não se obter o acordo, o policial lavrará
o respectivo termo contra o suspeito, sem qualquer outro
constrangimento. As partes entram livres e saem livres da
sessão de mediação.
143
Por fim, pensando-se na eventual aplicação da mediação
policial militar em outras unidades da federação, sabe-se que
algumas Corporações ainda não realizam o Termo
Circunstanciado e, em tese, não poderiam realizar esta
modalidade de mediação nos moldes aqui propostos.
Ao fim deste tipo de processo mediativo obter-se-á,
basicamente, dois resultados possíveis: mediação realizada com
sucesso ou mediação realizada sem sucesso. No primeiro caso,
o sucesso é duplicado. Ao mesmo tempo em que se transforma o
conflito e se restabelece o convívio harmonioso entre as partes,
deixa-se de criminalizar uma conduta e evita-se a abertura de
mais um processo criminal. O saldo é altamente positivo:
pessoas bem atendidas e satisfeitas, redução na criminalização
primária, redução da demanda policial repressiva e da demanda
jurídica-processual. Por sua vez, no caso de insucesso na
mediação, inobstante o diálogo promovido, o que por si só já se
apresenta como algo positivo, ocorrerá a criminalização primária
do agente por sua conduta delitiva, através da lavratura do
respectivo Termo Circunstanciado, o qual será encaminhado ao
JECRIM e poderá ensejar a transação penal ou a instauração do
processo penal.
A terceira linha de atuação é classificada como mediação
de fatos típicos já registrados. A mediação de conflitos,
motivadas por fatos típicos já registrados, ocorre no espaçotempo decorrido entre o registro do Termo Circunstanciado, seja
pela Polícia Militar ou pela Polícia Civil, e a audiência de
instrução do processo penal. Somente é aplicável esta categoria
de mediação àqueles crimes e contravenções de ação penal
privada ou ação penal pública condicionada à representação.
Esta mediação é aquela realizada, tradicionalmente, na
audiência preliminar do JECRIM, e é caracterizada pelo objetivo
maior de se alcançar a conciliação entre as partes. Neste caso, o
sucesso na conciliação representa a extinção do processo e a
não criminalização formal das condutas e das pessoas. O não
acordo, por sua vez, representa o encaminhamento dos autos
para audiência de instrução, onde será proposta a transação
penal e, em caso de recusa, será instaurado o processo penal.
O projeto de mediação policial militar de conflitos da 5ª
RPM encontra-se, atualmente, sendo desenvolvido nesta, e
somente nesta, categoria de mediação. Os policiais militares
conduzem as audiências preliminares de conciliação que são
144
realizadas na sala de audiência do JECRIM de Joinville, sob a
supervisão do Juiz titular do respectivo Juizado.
Com a criação do primeiro NUME/PMSC, junto ao Núcleo
de Práticas Jurídicas da UNISOCIESC de Joinville, prevista para
meados de Abril do ano corrente, a Corporação vislumbra a
ampliação do alcance do projeto. Espera-se, desta forma,
atender à demanda espontânea de conflitos, bem como realizar a
audiência preliminar de conciliação, para os Termos
Circunstanciados lavrados pela própria Polícia Militar, no
ambiente do NUME, encaminhando ao JECRIM, ao final do
procedimento, um relatório circunstanciado do procedimento
realizado contendo o resultado obtido, para homologação e,
arquivamento ou agendamento de audiência de instrução,
conforme cada caso.
Vislumbra-se, dessa forma, alcançar maior agilidade na
prestação do serviço à comunidade e, ao mesmo tempo, reduzir
a demanda encaminhada ao Poder Judiciário, necessitando
apenas da homologação, por parte deste, dos procedimentos já
realizados. Outrossim, nem o projeto da PMSC nem a própria
Instituição policial militar pretendem encerrar a atual atuação no
JECRIM. A idéia é manter o atendimento no Fórum de forma
concorrente com a atuação no NUME/PMSC. Assim, o objetivo é
manter e realizar, simultaneamente, os atendimentos em ambos
os ambientes.
A quarta linha de atuação é classificada como mediação
restaurativa (crimes em processo ou julgados). Esta categoria
de mediação, apesar de não ter sido adequadamente abordada
no lançamento do projeto de mediação da polícia militar, é
possível e viável. Certamente a aplicação deste tipo de mediação
não será implantada com a mesma rapidez com que estão sendo
implantadas as anteriores. Até porque, um dos principais
aspectos que marcam este projeto piloto é a busca pela
consistência ante qualquer expectativa de ampliação ou agilidade
no início do atendimento nas diversas categorias listadas ou a
ampliação do projeto para outras regiões de Santa Catarina.
Nesta categoria, a mediação seria destinada a autores de
fatos criminais que estão respondendo ao processo penal ou que
já foram condenados. Neste caso, diferentemente dos anteriores,
não há o que se falar em não criminalização de pessoas ou de
condutas uma vez que este aspecto já está consumado. O maior
objetivo nesta categoria é tentar reverter a dupla vitimização
145
promovida pelo processo penal. Enquanto o processo penal
exclui a vítima de qualquer manifestação de sua vontade ou suas
pretensões, a mediação restaurativa busca devolver à vítima
algo, seja a composição de uma perda material seja,
principalmente, a reparação de uma perda moral.
A inserção da polícia militar neste contexto possui
relevante importância. Vejamos que os índices de reincidência
criminal no Brasil são uma questão que demandam atenção na
gestão
da
segurança
pública
(BARTOLAMEI,
2013;
ILANUD/BRASIL, [s/d]; TEIXEIRA, 2009). Por outro viés, diante
das conquistas alcançadas pelo direito brasileiro em relação aos
direitos humanos e ao garantismo penal, como redução da pena
devido ao trabalho, progressão de regime, liberdade condicional,
saídas temporárias, entre outros institutos, é grande a chance de
que, fora do sistema prisional, vítima e autor voltem a se
encontrar ou até mesmo, voltem a conviver. E o processo penal,
com todo o seu aparato, não terá resolvido o conflito, isto se não
tiver, inclusive, agravado a relação conflituosa entre as partes.
Entende-se a mediação restaurativa, como mais uma estratégia
de prevenção (terciária), em que se busca equalizar os silêncios
que foram ainda mais calados pelo processo penal, e possibilitar,
quando da liberação do apenado, que as partes consigam
manter uma relação de convivência saudável, senão harmoniosa.
Assim, a mediação restaurativa demonstra-se, sim, uma
importante ferramenta de prevenção policial militar, afeta
principalmente à prevenção terciária.
Vislumbra-se, dessa forma, a mediação restaurativa como
uma possibilidade real de atuação futura a ser desenvolvida
pelos policiais militares mediadores. Porém, como não foi
previsto no projeto inicial e como não será aplicada neste
primeiro momento, entende-se prudente não aprofundar esta
discussão neste trabalho, propondo-se que esta se torne objeto
de uma nova e futura pesquisa acadêmica.
A mediação "complementar" foi assim classificada
buscando-se abarcar as demais formas e possibilidade de
aplicação da mediação de conflitos que podem vir a ser
trabalhadas pela polícia militar, mas que não fazem parte do
escopo do atual projeto de mediação policial militar. Entre outras
possibilidades, vislumbra-se inicialmente a nesta categoria a
mediação escolar, a mediação empresarial e a mediação
ambiental.
146
4.5 REFLEXÕES PARA ALÉM DA MEDIAÇÃO POLICIAL
MILITAR
Percebe-se que, mais do que uma estratégia de atuação
da polícia militar na busca de uma segurança cidadã, a mediação
de conflitos, para explorar todos os seus potenciais na
preservação da ordem pública e construção da autonomia dos
indivíduos, necessita ser instituída como uma estratégia da
Secretaria de Segurança Pública.
Isto porque, no Brasil, a atividade de polícia na esfera dos
estados está dividida entre duas instituições com atribuições
"incompletas" e bem definidas: as polícias militares, polícias
administrativas, atuando na prevenção e restauração imediata; e
as polícias civis, polícias judiciárias, atuando na restauração
imediata e na apuração das infrações penais. Assim, mesmo que
a polícia militar desenvolva um bom trabalho através da
mediação de conflitos, existe um canal de direcionamento dos
crimes e conflitos que podem chegar diretamente nas delegacias
de polícia civil, sem necessariamente serem orientadas pela
polícia militar. Dessa forma, um atendimento construído em
conjunto entre ambas as instituições, no âmbito da Secretaria de
Estado da Segurança Pública, pode facilitar o alcance dos efeitos
esperados.
A questão da inclusão das polícias civis em um projeto de
mediação de conflitos integrado na Secretaria de Segurança
Pública, apesar de não ser o objeto desta pesquisa, não pode ser
ignorado. Segundo estudos de Nunes (2010) a respeito do
conhecimento da população sobre as formas de acesso à justiça,
"23,07% responderam “fórum”; 20,71% responderam “delegacia”;
16,91% responderam “defensoria pública”" (NUNES. 2010, p.
119). Percebe-se que nenhum entrevistado mencionou a polícia
militar como forma de acesso à justiça. Entende-se que a
população, enquanto o conflito não assumiu formas graves e
violentas e solicita a intervenção da polícia militar para se
socorrer, costuma dirigir-se diretamente para uma delegacia de
polícia para registrar um boletim de ocorrência, de modo que
esta informação normalmente não chegará ao conhecimento da
polícia militar.
Vislumbra-se assim que a maior efetividade de um
programa de mediação de conflitos em segurança pública,
visando a prevenção de crimes e a restauração do convívio
147
harmônico e saudável entre a população, será alcançada dentro
de uma estratégia de Secretaria de Estado, envolvendo tanto a
polícia militar quanto a polícia civil. Neste sentido, para Nunes
(2010, p.121)
Se há este reconhecimento das delegacias
serem consideradas pela população como
local propício a solução de suas querelas, a
implantação de núcleos de mediação junto
às delegacias proporciona, ainda mais, a
possibilidade de realmente haver a resolução
de conflitos, bem como, a redução destes,
decorrendo daí o abatimento na violência e
na criminalidade.
Não se defende aqui necessariamente a instalação de
núcleo de mediação nas delegacias no sentido em que propõe
Nunes, mas que a polícia civil esteja incluída na construção
deste procedimento. Que os policiais civis conheçam o projeto e
possam, quando identificada uma ocorrência com potencial para
mediação, encaminhar as partes para este procedimento ao
invés de realizar o mero registro de um boletim de ocorrência.
Por fim vislumbra-se que a forma de integrar as duas polícias,
civil e militar, em um núcleo de atendimento e mediação pode ser
objeto de estudo de futuras pesquisas acadêmicas sobre o tema.
148
149
CONCLUSÃO
A teoria anglo-saxã de polícia, mas principalmente a
literatura norte-americana, traça uma distinção entre a função de
“combate ao crime”, para os casos de conflito claro com a lei a
serem tratados com prisões; e a função de “manutenção da paz”,
em que não existe uma definição precisa, mas versa sobre as
situações conflituosas que surjam da vivência em sociedade, que
não afrontem diretamente um dispositivo legal, e não demandem
a realização de prisões.
A Polícia Militar de Santa Catarina, enquanto órgão de
polícia administrativa vivencia esta mesma situação diariamente.
Situações claras de combate ao crime e aplicação da lei penal e,
ao mesmo tempo, situações de atendimento aos chamados da
população para resolver situações não criminais, com ações nãopoliciais. O que se buscou com este trabalho é verificar como
explorar melhor estratégias diversificadas de preservação da
ordem pública, mais especificamente através da mediação de
conflitos, para prevenir o crime e reduzir a necessidade de ações
de polícia reativa/repressiva, visando a fortalecimento da
cidadania através da viabilização da autonomia e alteridade no
convívio social.
Verificou-se que grande parte da demanda de chamados
atendidos pela Polícia Militar de Santa Catarina decorre de
contravenções e crimes de menor potencial ofensivo. Esta classe
de delitos, em grande parte, possui origem nos conflitos
interpessoais mal geridos. Assim, percebeu-se que a gestão
adequada dos conflitos interpessoais, pode ser uma importante
ferramenta para realizar a prevenção criminal, além de estimular
o desenvolvimento da cidadania, da autonomia e da alteridade
nos indivíduos.
Observou-se que a mediação espontânea de conflitos é
uma prática que sempre existiu no meio social, mas que ao longo
dos tempos, foi sendo abandonada pela população em
substituição ao monopólio jurídico e institucional do Estado.
Constatou-se ainda que diante da sobrecarga e ineficiência do
tradicional sistema judicial em responder à demanda de
processos, surgiram meios alternativos para a resolução de
conflitos, sendo alguns meios adotados pelo próprio poder
judiciário, entre eles a mediação.
150
Atualmente, existe uma maior abertura e reconhecimento
para a realização da mediação de conflitos fora do ambiente
jurídico e dos operadores do direito. Mantidas as exigências do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ), através da Resolução n.
125/2010, estão sendo instalados Núcleos de Mediação de
Conflitos em associações de bairro, escolas, igrejas, empresas
ou até em unidades itinerantes.
Diante deste contexto de abertura do CNJ, e buscando
consolidar a aplicação da Polícia Comunitária, a Polícia Militar de
Santa Catarina vislumbrou na mediação policial militar de
conflitos uma ferramenta para melhor atender à população e
ampliar sua atuação preventiva. Esta estratégia, além de
aproximar a Instituição da população, contribui para que os
indivíduos se tornem autores de suas vidas e exerçam a sua
cidadania.
Buscando a construção consistente da mediação policial
de conflitos, a Corporação iniciou o desenvolvimento do projeto
em abril de 2013, na 5ª Região de Polícia Militar em Joinville,
vem conduzindo as suas etapas de forma lenta e progressiva.
Para tanto, foram construídas parcerias com o Juizado Especial
Criminal e com o Ministério Público da cidade de Joinville e
adjacências, bem como com o Conselho Nacional de Justiça,
tanto para a capacitação dos policiais militares, quanto para a
definição das atribuições destes policiais enquanto mediadores.
Desta parceria restou duas frentes de atuação na
mediação policial militar de conflitos: a primeira, vinculada ao
JECRIM, a atuação na fase preliminar do processo penal, mais
restrita a proposição de mediação e conciliação nos casos de
Termos Circunstanciados visando a extinção da pretensão
punitiva da vítima de contravenção ou crime de menor potencial
ofensivo. A segunda, estruturada a partir do Núcleo de Mediação
da Polícia Militar a ser inaugurado em abril de 2014, atenderá a
qualquer demanda conflitiva da comunidade, divididas em cinco
linhas de atuação: mediação de fatos atípicos; mediação de fatos
típicos não registrados; mediação de fatos típicos já registrados;
mediação restaurativa de crimes em processo ou julgados; e
mediação "complementar".
Observou-se que as possibilidades de atuação e os
benefícios possíveis de serem ofertados à comunidade com este
serviço de mediação policial são muito significativos. Dessa
forma, considera-se que seria interessante pensar a mediação
151
policial de conflitos como um programa não apenas da polícia
militar, mas sim como um programa a ser conduzido pela
Secretaria de Segurança Pública, envolvendo também a polícia
civil nesta atividade. Assim, vislumbra-se que ao cidadão que
procure qualquer órgão de polícia, na esfera estadual, seja
viabilizada a possibilidade de realizar a mediação de seus
conflitos antes de dar início e prosseguimento à ação penal,
naqueles casos em que a mediação for aplicável.
Este estudo encontra seu valor, talvez, na possibilidade de
desnudar uma atividade um tanto inovadora em uma instituição
policial militar. Dada a fase inicial do projeto de mediação na
PMSC, mais do que conclusões, entende-se que se encontraram
possibilidades de novos estudos e aprofundamento no tema.
A carência de registros e documentação sobre os
atendimentos, maior limitador desta pesquisa, deve ser sanada
com a recente implantação de um sistema informatizado junto ao
SISP. Doravante, haverá o registro dos atendimentos, o que
possibilitará o cruzamento destas informações com outros
sistemas, como registro de ocorrências policiais (por pessoa, por
localidade, por períodos), com dados sócio-econômicos e
geográficos do IBGE, com dados de assistência social ou
educação do município, entre outros. A partir da existência de
dados do projeto de mediação e da possibilidade de cruzamento
com outras informações, será possível tanto avaliar o projeto e
suas nuances, quanto planejar estratégias e adequações ao
próprio projeto para melhor atender a população e a sociedade
em geral.
Além de outras contribuições e sugestões de novos temas
para pesquisa lançados nos espaços em que se considerou
oportuno, no próprio corpo de texto, identificou-se mais alguns
elementos que merecem atenção, tanto em futuras pesquisas,
quanto pela própria Polícia Militar de Santa Catarina, na gestão e
aprimoramento do projeto que se encontra em execução.
Buscando sanar parte das dificuldades encontradas durante a
realização deste trabalho, entende-se importante criar um
sistema não só para registrar as mediações realizadas, mas
também um sistema para acompanhar as informações dos
policiais mediadores, sua formação acadêmica, cursos e
habilitações realizadas na área da mediação, a "produtividade"
de cada policial. Entende-se que tão importante quanto
acompanhar os processos de mediação realizados é
152
acompanhar o próprio policial que está conduzindo estas
mediações.
Considera-se, assim, que se a mediação policial militar for
realizada em conjunto com outras estratégias de polícia
comunitária, poderá há médio prazo, alterar significativamente a
forma de trabalho da Polícia Militar de Santa Catarina. Entendese que a Corporação avança mais um passo no caminho de se
tornar um agente de transformação social e promoção da
cidadania.
Por fim, considera-se que o problema proposto para este
trabalho foi respondido e os seus objetivos alcançados. Entendese que restou comprovada a relevância da realização da
mediação de conflitos pela Polícia Militar de Santa Catarina como
um caminho para a construção da autonomia e alteridade no
convívio social e uma ferramenta para o fortalecimento da
cidadania na população catarinense.
153
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%28%40DocKeywords+284%29%29+AND+%28%28%28%40Do
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Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/>. Acesso em:
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SIRVINSKAS, Luís Paulo. Introdução ao estudo do direito
penal: (evolução histórica, escolas penais, valores
constitucionais, princípios penais e processuais e direitos
humanos). São Paulo: Saraiva, 2003.
TEIXEIRA, Daniela Felix. Controle penal atuarial e prisão
cautelar : o modelo de segurança pública no município de
Florianópolis (2004 a 2008). 1 v. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências
Jurídicas, Programa de Pós-Graduação em Direito, Florianópolis,
2009.
163
TRENTIN, Fernanda. O Pluralismo jurídico contemporâneo e
os equivalentes jurisdicionais. Florianópolis, SC, 2011. 93 p.
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Santa
Catarina, Centro de Ciências Jurídicas, Programa de PósGraduação em Direito, Florianópolis, 2011.
TROJANOWICZ, Robert C.; BUCQUEROUX,
Bonnie. Policiamento comunitário: como começar . 2. ed. São
Paulo: Policia Militar do Estado de São Paulo, 1994.
VALLA, Wilson Odirley. Doutrina de Emprego de Polícia Militar
e Bombeiro Militar. 2. ed. rev. e ampl. Curitiba, 2004.
VASCONCELOS, Carlos Eduardo de. Mediação de conflitos e
práticas restaurativas. São Paulo: Método, 2008.
VENOSA, Sílvio de Salvo. Introdução ao estudo do
direito: primeiras linhas . 3. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
WARAT, Luis Alberto; MEZZAROBA, Orides (Coord.). Surfando
na pororoca: o ofício do mediador. Florianópolis, SC: Fundação
Boiteux, 2004.
164
165
ANEXO I - NOTA DE INSTRUÇÃO Nº 01/5ªRPM/13, DE 02 DE
ABRIL DE 2013
ESTADO DE SANTA CATARINA
SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA E DEFESA DO
CIDADÃO
POLÍCIA MILITAR
5ª REGIÃO
NOTA DE INSTRUÇÃO Nº 01/5ª RPM/13
(Implantação do Projeto Mediação de Conflitos: “Um Novo
Caminho”)
REFERÊNCIA
- Constituição Federal do Brasil
- Lei 9.099/95 (art. 60)
- Plano de Comando da PMSC
1. FINALIDADE
Regular a implantação do Projeto de Mediação de Conflitos
intitulado “Um Novo Caminho” na circunscrição da 5ª RPM, de
acordo com a previsão do Plano de Comando da PMSC.
2. SITUAÇÃO
Modernamente entende-se que a Mediação está se tornando
uma ferramenta de cidadania inclusiva, ou como uma
166
metodologia de conscientização social e de promoção de
cidadania.
Mediação é: Um procedimento consensual de solução de
conflitos por meio do qual uma terceira pessoa imparcial escolhida ou aceita pelas partes – age no sentido de encorajar e
facilitar a resolução de uma divergência. As pessoas envolvidas
nesse conflito são as responsáveis pela decisão que melhor as
satisfaça. A mediação representa assim um mecanismo de
solução de conflitos utilizado pelas próprias partes que, movidas
pelo diálogo, encontram uma alternativa ponderada, eficaz e
satisfatória (SALES, 2008).
Processo Restaurativo significa qualquer processo no qual a
vítima e o ofensor, e, quando apropriado, quaisquer outros
indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime,
participam ativamente na resolução das questões oriundas do
crime, geralmente com a ajuda de um facilitador. Os processos
restaurativos podem incluir a mediação, a conciliação, a reunião
familiar ou comunitária (conferencing) e círculos decisórios
(sentencing circles). (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS,
2002)
A Mediação de Conflitos, dentro de um viés de Justiça
Restaurativa, poderá ser o maior avanço institucional da
Corporação nos últimos tempos.
As estruturas necessárias já estão presentes. Em primeiro lugar
destaca-se a consubstanciação da Lavratura dos Termos
Circunstanciados que redefiniu o termo autoridade policial, e
concedeu dignidade aos Policiais Militares nos atendimentos dos
delitos de menor potencial ofensivo, os quais a PMSC passou a
gerenciá-los diretamente sem a necessidade de encaminhar as
partes à Delegacia de Polícia.
A filosofia de Polícia Comunitária que já foi assimilada em todos
os níveis hierárquicos da cadeia de comando e em todas as
Organizações Policiais Militares de Santa Catarina, tendo o
“policiamento de proximidade” como seu principal alicerce.
As estruturas tecnológicas já em utilização pela PMSC que
poderiam facilmente ser adaptadas ao Projeto, para que seja
possível a criação de processos e elaboração de documentação
necessária para as ações.
O Poder Judiciário brasileiro abraçou a Justiça Restaurativa, em
todas as suas nuanças. Aliás, isto foi determinado pelo Conselho
Nacional de Justiça (CNJ) através da Resolução nº 125/2010.
167
Temos notícia do envolvimento de PMs em Mediação de
Conflitos na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Morro da
Formiga no Rio de Janeiro, apenas nos conflitos de convivência
atípicos. Também na cidade de Caieras, na Base Comunitária da
Polícia Militar de Laranjeiras em São Paulo, alguns Policiais
Militares atuam como mediadores nos conflitos de convivência
atípicos.
A possibilidade de Mediação poderá ocorrer em dois momentos
distintos. Em tese, poderá ocorrer no próprio atendimento da
ocorrência, se a situação permitir. Ou, em outra oportunidade,
mediante agendamento, junto a um local adequado (Associação
de
Moradores,
Igreja,
Base
Operacional/Destacamento/Pelotão...) onde os envolvidos e um
facilitador (Mediador) poderão encontrar uma solução em
conjunto para os seus problemas.
Resumidamente, os Policiais Militares além de Mediadores para
os casos de conflitos convivência, também poderão atuar como
“Conciliadores”, devidamente nomeados pelo JECRIM, previstos
no art. 60 da Lei 9.099/95 que hoje são executados
voluntariamente por acadêmicos de direito, nos delitos de menor
potencial ofensivo. A PMSC estaria efetivando Núcleos de
Mediação de Conflitos.
O trabalho é similar ao que já acontece no JET, pois os Policiais
também seriam conciliadores, com a diferença que a
competência seria criminal, o que em princípio é mais
interessante, pois estaria mais próximo da nossa missão
constitucional de polícia ostensiva e preservação da ordem
pública.
Com este serviço de Mediação, busca-se não apenas uma nova
visão de policiamento, mas a efetividade das “composições”
realizadas pelos milicianos, através do reconhecimento por parte
do Poder Judiciário nas composições realizadas pela Polícia
Militar.
3. EXECUÇÃO
a. Conceito da Operação
1) Objetivo do Projeto:
Criar na circunscrição da 5ª RPM uma “rede” de Mediação de
Conflitos, em parceria com os Juizados Especiais Criminais
168
(JECRIM) nos municípios da circunscrição da 5ª RPM, que
possuam Oficiais da PM (Joinville, São Bento do Sul, Rio
Negrinho, Guaramirim, Jaraguá do Sul, Araquari, São Francisco
do Sul e Itapoá)
2) Alcance do Projeto:
Atender os conflitos de convivência que sejam atípicos e típicos
de menor potencial ofensivo.
Conflitos de Convivência são conflitos sociais, frutos da
convivência de pessoas que têm vínculos afetivos e relações
continuadas (familiares, vizinhos, amigos) que, quando mal
administrados, esses conflitos podem gerar violências, crimes e
desordem.
No que diz respeito aos aproximadamente 280 Delitos de Menor
Potencial Ofensivo (DMPO) existentes na legislação pátria,
somente 14 delitos poderão ser objeto de Mediação/Conciliação,
por se tratarem de crimes de Ação Pública Condicionada ou ação
Privada:
1
Previsão
Legal
161
2
3
4
5
345
139
140
163, caput
6
7
8
9
10
164
129, caput
129, § 6º
147
151, caput
11
12
151, § 1º, I
156
13
176, caput
14
42 LCP
Tipo Delituoso
Alteração de limites
Exercício arbitrário das próprias
razões.
Difamação.
Injúria.
Dano simples.
Introdução/abandono de animais
propriedade alheia.
Lesão corporal leve.
Lesão corporal culposa.
Ameaça.
Violação de correspondência.
Sonegação ou destruição de
correspondência.
Furto de coisa comum
Fraude em refeição, alojamento e
transporte
Perturbação do Trabalho e sossego
“alheio”
Ação Penal
Privada
Privada
Privada
Privada
Privada
Privada
Condicionada
Condicionada
Condicionada
Condicionada
Condicionada
Condicionada
Condicionada
169
Apesar de todas as Contravenções Penais serem de Ação
Pública Incondicionada, majoritariamente o judiciário tem
entendido pela atipicidade quando existir apenas um ofendido.
Exigindo a multiplicidade indivíduos (coletividade) afetados pela
perturbação/algazarra, pelo fato de tipo criminal utilizar a palavra
“alheios”. Assim, como é sabido a grande maioria dos
atendimentos de “perturbação” são gerados por apenas um
indivíduo (ofendido), ensejando até mesmo a lavratura de um
Termo Circunstanciado (TC), que fatalmente será arquivado pelo
judiciário, entende-se que é plenamente possível a Mediação
nestes casos, pois então se trataria de conflito atípico.
Até mesmo porque o objetivo da mediação não é apenas uma
questão de fundo jurídico, mas principalmente relativo a
pacificação dos envolvidos no conflito.
3) Da Capacitação:
Os Policiais Militares selecionados pelos respectivos
Comandantes de Batalhão de acordo com a realidade e
necessidade da OPM, tendo a seguinte estrutura mínima:
 8º BPM: 02 Oficiais + 06 Praças (02 por Cia 2ª, 3ª e 4ª Cias)
 17º BPM: 02 Oficiais + 04 Praças
 Jaraguá do Sul: 02 Oficiais + 04 Praças
 Guaramirim: 01 Oficial + 02 Praças
 São Francisco do Sul: 02 Oficiais + 02 Praças
 Araquari: 01 Oficial + 02 Praças
 São Bento do Sul: 02 Oficiais + 04 Praças
 Rio Negrinho: 01 Oficial + 02 Praças
Total: 13 Oficiais e 26 Praças
Os profissionais selecionados participarão de uma capacitação
com a 5ª RPM ainda no mês de abril/2013 para entender as
ferramentas e as técnicas a serem utilizadas pelos
Mediadores/Conciliadores.
Os
Mediadores
também
acompanharão junto ao JECRIM (Juizado Especial Criminal) da
respectiva Comarca várias audiências de conciliação para
entender os mecanismos e os modelos dos termos jurídicos a
serem utilizados nas conciliações.
Na oportunidade também será repassado a utilização da
plataforma (software) desenvolvida para gerenciamento,
cadastramento e acompanhamento das audiências de mediação.
170
4) Dos Gestores:
Os Comandantes de Batalhão terão liberdade para escolher o
Oficial Gestor do projeto na Unidade. Recomenda-se, entretanto,
que seja o mesmo Oficial Gestor do TC da OPM.
5) Dos Núcleos de Mediação
Os Comandantes de Batalhão deverão estabelecer Núcleos de
Mediação na área de Policiamento. Estes locais deverão ser
apropriados para receber as sessões de Mediação.
Estes locais deverão ter privacidade, iluminação e espaço
adequado, com uma mesa (preferencialmente redonda para três
pessoas) cadeiras (pelo menos quatro) computador e
impressora. Recomenda-se que tenha acesso a internet.
Os espaços das Bases Operacionais devem ser evitados para
serem utilizados como Núcleos de Mediação, a não ser que o
espaço físico para isto seja adequado.
Por se tratar de um projeto eminentemente comunitário e de
aproximação entende-se que o ideal seria ocuparmos
dependências
da
própria
comunidade
(Condomínios
Residenciais, Associação de Moradores, Igrejas, etc).
Quanto maior for a aproximação com a comunidade, maior será
o retorno institucional e por consequência maior será a eficiência
do serviço de mediação.
Em Joinville, serão pelo menos dois núcleos por Cia no 8º BPM e
pelo menos dois núcleo por Base Operacional.
Nas sedes dos Batalhões de São Bento do Sul, Jaraguá do Sul e
São Francisco do Sul, pelo menos 03 Núcleos de Mediação.
Nas sedes das Companhias destacadas Rio Negrinho, Araquari
e Guaramirim, pelo menos dois núcleos de Mediação.
6) Da Metodologia de Trabalho (fluxograma em anexo)
Os Mediadores tomarão conhecimento dos fatos que poderão
ensejar a Mediação de duas maneiras:
a) DEMANDA POLICIAL: Através do Sistema de Mediação, cuja
seção do TC tenha registrado o BO no SISP (Sistema Integrado
de Segurança Pública). Somente serão cadastrados no Sistema
de Mediação aquelas ocorrências em que houve o registro de BO
e atenda o objeto do serviço de Mediação;
b) DEMANDA ESPONTÂNEA: Através de contato direto com o
solicitante nos Núcleos de Mediação.
171
Os Termos de Mediação lavrados em ao término da
sessão/audiência, além da composição das partes, deverão
apontar para:




Renúncia (CP, art. 104 e CPP, 50 c/c o CP art. 107,V);
Retratação (CP, art.143 e art. 107,VI);
Composição dos Danos Civis (lei 9.099/95, arts. 74 e 79);
Decadência (CP art. 107, IV, 2ª figura)
Os Termos de Mediação, após devidamente lavrados e
assinados
pelos
envolvidos
e
pelo
Facilitador
(Mediador/Conciliador) serão rubricados pelo Gestor do Batalhão
que deverá providenciar o encaminhamento para o Fórum
(JECRIM) para homologação do Juiz e do Promotor de Justiça.
7) Da Não Condução dos Envolvidos no Conflito
Em hipótese alguma os envolvidos em ocorrência policial
poderão ser transportados/conduzidos para qualquer OPM para
realizarem sessão de Mediação. Mesmo que haja consenso para
isto entre as partes. Todas as audiências de mediação serão
realizadas em data aprazada pelo Mediador responsável pela
região geográfica do conflito e em local definido pelo mesmo.
8) Dos Facilitadores = Mediadores/Conciliadores (Atributos
em Anexo)
Os Facilitadores (Mediadores/Conciliadores) serão objeto
de nomeação por parte do JECRIM da Comarca para o
desenvolvimento das audiências de mediação típicas de menor
potencial ofensivo que estejam de acordo com o escopo do
projeto.
9) Dos Recursos e Meios Logísticos
A estruturação dos núcleos de mediação (computador,
impressora, mesa, etc) poderão ser objeto de pedido junto ao
JECRIM da Comarca. Devendo os Comandantes locais, se
tiverem interesse, fazer os devidos contatos com o Juiz de Direito
do JECRIM.
Quanto a mobilidade do Mediador/Conciliador, será de
fundamental importância que os Policiais Militares envolvidos no
Projeto tenham plenas condições de deslocamento para os
Núcleos de Mediação.
172
b. Atribuições dos Elementos Subordinados:
1) Aos Cmts do 8º BPM, 14º BPM, 17º BPM, 23º BPM e 27º
BPM
Indicar até o dia 11 de Abril o nome de dois Mediadores por
Companhia e dois Oficiais do Batalhão que atuarão como
Conciliadores a fim de serem capacitados;
Incluir nas instruções de revitalizações do ano de 2013 a
matéria de Mediação de Conflitos (2 Horas Aulas) a serem
ministradas pelos Gestores do Batalhão, para explanação de
todo o efetivo sobre o projeto;
Estabelecer
condições
de
deslocamento
dos
Mediadores/Conciliadores para os Núcleos de Mediação através
de veículo próprio (Vtr automóvel ou moto) ou fornecer o apoio
logístico através de Viaturas operacionais para o deslocamento
dos profissionais envolvidos no Projeto;
Agendar uma reunião do Cmt da 5ª RPM com os Juízes e
Promotores
do
JECRIM
da
respectiva
comarca,
preferencialmente no horário matutino;
Fazer o levantamento dos locais que possam abrigar um
Núcleo de Mediação conforme indicado no item 5 (Dos Núcleos
de Mediação) até o dia 16/04/13.
2)
Ao Chefe da Seção Operacional
O Chefe da Seção Operacional da 5ª RPM na pessoa do Major
Giovani L. Fachini será o Gestor do Projeto de Mediação de
conflitos no âmbito da circunscrição da 5ª RPM.
O Gestor é responsável pela capacitação, acompanhamento e
crítica do desenvolvimento do Projeto. Deverá também
acompanhar os contatos com o Poder Judiciário e Ministério
Público de cada Comarca que executará o Projeto.
c. Prescrições Diversas: S/Alt
5. LIGAÇÕES E COMUNICAÇÕES: S/Alt
1.1
JOINVILLE, 02 DE ABRIL DE 2013.
ROGÉRIO RODRIGUES – Cel PM
Comandante da 5ª RPM
173
Bibliografia:
FACHINI, Giovani Luciano. A Mediação Como Possibilidade
Para o Policiamento (Por Um Policiamento Restaurativo).
Monografia apresentada ao Curso de Aperfeiçoamento de
Oficiais de Santa Catarina com especialização lato sensu em
Administração de Segurança Pública, como requisito parcial para
obtenção do título de Especialista em Administração de
Segurança Pública pela Universidade do Sul de Santa Catarina
(UNISUL). Florianópolis, 2009
SALES, Lília Maia de Morais. Mediação de Conflitos – Família,
Escola e Comunidade. São José-SC: Conceito Editorial, 2007.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). RESOLUÇÃO
2002/12 da ONU – 37ª Sessão Plenária, 24 de Julho de 2002).
Disponível
em:
<www.ibjr.justicarestaurativa.
nom.br/pdfs/resolucaodaonu2002_12.pdf>. Acesso em 10 de Fev
2009
ANEXO 1
Atributos do Mediador/Conciliador
1-Paciência:
2-Capacidade de Comunicação:
3-Persistência:
4-Flexibilidade:
5-Tato:
6-Conhecimentos Técnicos:
7-Mente Aberta:
8-Disposição para assumir riscos:
9-Fortaleza e Saúde física:
10-Autoconfiança:
11-Criatividade:
12-Disposição para escutar:
13-Autocontrole:
14-Sensibilidade:
15-Visão estratégica:
16-Capacidade de decisão:
174
ANEXO 2
Fluxograma de Trabalho
175
ANEXO II - OFÍCIO S/N. /5ªRPM/2013, DATADO DE 19 DE
ABRIL DE 2013, EXPEDIDO PELO CORONEL PM ROGÉRIO
RODRIGUES - COMANDANTE DA 5ª RPM.
ESTADO DE SANTA CATARINA
1.1.1 SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA E DEFESA
DO CIDADÃO
1.1.2 POLÍCIA MILITAR
1.1.3 5ª REGIÃO DE POLÍCIA MILITAR
OFÍCIO S/N. / 5ª RPM/ 2012
Joinville, SC, em 19 de Abril de 2013.
MMa Juíza de Direito,
Considerando que a Resolução 2002/2012 da
Organização das Nações Unidas (ONU) conceitua Processo
restaurativo como qualquer processo no qual a vítima e o
ofensor, e, quando apropriado, quaisquer outros indivíduos ou
membros da comunidade afetados por um crime, participam
ativamente na resolução das questões oriundas do crime,
geralmente com a ajuda de um facilitador. Os processos
restaurativos podem incluir a mediação, a conciliação, a reunião
familiar ou comunitária (conferencing) e círculos decisórios
(sentencing circles).
Considerando que a Resolução 125/2010 do Conselho
Nacional de Justiça afirma que a conciliação e a mediação são
instrumentos efetivos de pacificação social, solução e prevenção
de litígios, e que a sua apropriada disciplina em programas já
implementados nos país tem reduzido a excessiva judicialização
dos conflitos de interesses, a quantidade de recursos e de
execução de sentenças;
Considerando que a Lei 9.099 criou a figura do
Conciliador junto aos Juizados Especiais Criminais para atuar
junto as infrações de menor potencial ofensivo;
Considerando que constitucionalmente compete a Polícia
Militar a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública,
176
entendendo-se que “ordem pública”, no dizer do desembargador
do TJSP Álvaro Lazzarini, “é sempre uma noção de valor,
composta pela segurança pública, tranquilidade pública e
salubridade pública”;
Considerando que a teoria do conflito afirma que em
virtude de pequenas desavenças mal gerenciadas, em via de
regra, poderão gerar atos violentos e criminais;
Considerando que o Comando Geral da Polícia Militar de
Santa Catarina fixou como um dos objetivos do Plano de
Comando da corporação o policiamento voltado para a Mediação
de Conflitos, sendo os policiais agentes pacificadores das
comunidades atendidas;
Este Comando Regional vem mui respeitosamente
solicitar o apoio deste Juizado Especial Criminal para a
consecução da criação do policiamento voltado para a Mediação
de Conflitos no âmbito desta comarca Judicial, sendo imperioso,
após as devidas capacitações, a nomeação de alguns Policiais
Militares como conciliadores/mediadores no âmbito do Juizado
Especial Criminal com o objetivo de atuarem nos conflitos de
convivência atípicos ou sendo típicos de menor potencial
ofensivo de ação penal pública condicionada ou privada.
Para tanto a Polícia Militar está criando núcleos de
Mediação nesta Comarca a fim de atender a comunidade na
solução dos conflitos de convivência, contudo para que isto seja
exitoso necessitamos do apoio de V.Exa para a implantação e
execução desta atividade, nomeando alguns Policiais Militares
como conciliadores do Juizado Especial Criminal para atenderem
nos Núcleos de Mediação de Conflitos da Policia Militar.
Respeitosamente,
ROGÉRIO RODRIGUES – CEL PM
Comandante da 5ª RPM
A Exma Sra
DRa. MONIKE SILVA PÓVOAS
MM Juíza de Direito da Comarca de Rio Negrinho
Rio Negrinho
177
ANEXO III - PORTARIA N. 517/PMSC/2013, DE 23 DE MAIO
DE 2013
178
179
ANEXO IV - PORTARIA N. 01/5ª RPM/2013, DE 25 DE MAIO
DE 2013
PORTARIA Nº 01/5ª RPM/2013, de 25 de maio de 2013.
Implanta a Gestão do Projeto Piloto de
Mediação de Conflitos da 5ª Região de Polícia
Militar de Santa Catarina e dá outras
providências.
O COMANDANTE DA 5ª REGIÃO DE POLÍCIA
MILITAR, no uso de suas atribuições legais, fundamentado na
Portaria nº 517/PMSC/2013, c/c o Plano de Comando da PMSC,
de 2011, e Nota de Instrução 01/5ª RPM/2013, RESOLVE:
Art.1º - Criar no âmbito da Circunscrição da 5ª RPM
a estrutura de Gestão do Projeto Piloto de Mediação de Conflitos;
Art. 2º - Com a finalidade de melhor dar
prosseguimento ao Projeto ficam instituídos os níveis de
atribuições: Regional, Batalhão, Companhia, Pelotão e
Destacamento;
Art. 3º - Nomeio os seguintes Oficiais Gestores, de
acordo com o nível de atribuição:
1 – Gestor Regional: Maj PM Giovani Luciano
Fachini
2– Gestor Local:
2.1Comarca de Joinville – Maj PM Raulino F. de
Souza Júnior e Cap PM Paulo Roberto Bilinstk
Grams;
2.2Comarca de Jaraguá do Sul e Corupá – Cap PM
Alexsandro Cravo Kalfeltz;
2.3Comarca de São Bento do Sul e Campo Alegre –
2º Ten PM Edson José de Souza;
2.4Comarca de São Francisco do Sul – 2º Ten PM
Vitor Hugo da Silva;
2.5Comarca de Araquari e Balneário Barra do Sul –
Cap PM Maicon Dilmo de Souza;
180
2.6Comarca de Guaramirim, Massaranduba e
Schroeder – 1º Ten PM Márcio Alberto Filippi;
2.7Comarca de Rio Negrinho – 2º Ten PM Jean
Carlo Denk;
2.8 Comarcas de Itapoá e Garuva – 1º Ten PM
Mário Elias;
Art. 5º Caberá aos Oficiais Gestores, de acordo com
o nível de atribuição:
I – Auxiliar na implementação, execução e
acompanhamento do Projeto de Mediação de Conflitos no âmbito
da presente Portaria;
II – Assessorar o Comandante Regional e de
Batalhão no que for necessário nos assuntos técnicos referentes
a Mediação de Conflitos;
III
–
Acompanhar
e
fiscalizar
os
mediadores/conciliadores e os agendamentos e as audiências de
mediação/conciliação nos Núcleos de Mediação;
IV - Manter atualizado o cadastro dos
Mediadores/Conciliadores da Unidade;
VI – Estar em contato direto com os Magistrados e
Promotores de Justiça da respectiva Comarca (Juizado Especial
Criminal - JECRIM);
Art. 6º Caberá aos Comandantes de Batalhão e de
OPM, como responsáveis diretos pela execução do Projeto no
âmbito de sua OPM:
I – Instalar Núcleos de Mediação. Sendo no mínimo
três por sede de Batalhão; dois por sede de Cia e um por sede
de Pelotão e Destacamento, preferencialmente em espaços da
comunidade;
II - Acompanhar constante das atribuições dos
Oficiais Gestores da OPM;
III – Destinar os recursos humanos e logísticos para
a execução do Projeto;
IV – Solicitar ao Juizado, quando necessário,
recursos logísticos para a finalidade do Projeto;
181
Art. 7º Poderão ser instalados, também, Núcleos de
Mediação junto às instalações do Poder Judiciário, de acordo
com a disponibilidade e entendimento local.
Art. 8º Fica autorizado o Comando da 6ª Cia de
Polícia Militar Rodoviária, com sede em Joinville, de acordo com
os recursos humanos e logísticos, a implantar um Núcleo de
Mediação na própria OPM. Ficando o referido Núcleo vinculado
ao Gestor Regional da 5ª RPM
Art. 9º Caberá ao Oficial Gestor Regional a
elaboração de Procedimento Operacional Padrão (POP)
específico sobre a atividade de Mediação a ser executada nos
Núcleos de Mediação.
Art. 9º Esta Portaria entrará em vigor na data da sua
publicação.
Joinville, 25 de Maio de 2013.
ROGÉRIO RODRIGUES
Coronel PM Comandante da 5ª RPM
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ANEXO V 2013.8/TJSC
CERTIDÃO
DO
PROCESSO
Nº
512060-
184
185
ANEXO VI - PORTARIA N. 08/2013, DO JUIZADO ESPECIAL
CRIMINAL E DELITOS DE TRÂNSITO DA COMARCA DE
JOINVILLE
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Augusto César da Silva A CONSTRUÇÃO DA