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à O PA R A T
Ações
Afirmativas e
Combate
ao Racismo
nas Américas
A Coleção Educação para Todos, lançada pelo Ministério da Educação e pela
UNESCO em 2004, é um espaço para
divulgação de textos, documentos, relatórios de pesquisas e eventos, estudos de
pesquisadores, acadêmicos e educadores
nacionais e internacionais, que tem por finalidade aprofundar o debate em torno da
busca da educação para todos.
A partir desse debate, espera-se promover a interlocução, a informação e a
formação de gestores, educadores e demais pessoas interessadas no campo da
educação continuada, assim como reafirma o ideal de incluir socialmente o grande número de jovens e adultos, excluídos
dos processos de aprendizagem formal,
no Brasil e no mundo.
Para a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), órgão, no âmbito do Ministério da
Educação, responsável pela Coleção, a
educação não pode separar-se, nos debates, de questões como desenvolvimento
socialmente justo e ecologicamente sustentável; gênero e diversidade de orientação sexual; escola e proteção à crianças
e adolescentes; saúde e prevenção; diversidade étnico-racial; políticas afirmativas
para afro-descendentes e populações indígenas; educação para as populações do
campo; qualificação profissional e mundo
do trabalho, democracia, direitos humanos,
justiça, tolerância e paz mundial. Na mesma
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Ações
Afirmativas
e Combate
ao Racismo
nas Américas
Organização
Sales Augusto dos Santos
Edição Eletrônica
Brasília, 2007
Edições MEC/Unesco
SECAD – Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização e Diversidade
Esplanada dos Ministérios, Bl. L, sala 700
Brasília, DF, CEP: 70097-900
Tel: (55 61) 2104-8432
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a Educação, a Ciência e a Cultura
Representação no Brasil
SAS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/Unesco,
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E-mail: [email protected]
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Ações
Afirmativas
e Combate
ao Racismo
nas Américas
Organização
Sales Augusto dos Santos
Edição Eletrônica
Brasília, 2007
© 2007. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC) e
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)
Conselho Editorial da Coleção Educação para Todos
Adama Ouane
Alberto Melo
Célio da Cunha
Dalila Shepard
Osmar Fávero
Ricardo Henriques
Comitê Técnico
Ahyas Siss, Alecsandro J. P. Ratts, Amauri Mendes Pereira, Ari Lima, Carlos Benedito
R. da Silva, Fernanda Felisberto, Gislene Aparecida dos Santos, Jeruse Romão, Joaze
Bernardino Costa, Maria de Lourdes Siqueira, Maria Palmira da Silva, Marly de Jesus
Silveira, Osmundo A. Pinho e Wilson Roberto Mattos
Coordenação Editorial
Ana Flávia Magalhães Pinto e Maria Lúcia de Santana Braga
Produção e edição final
Revisão: Lunde Braghini
Diagramação: Publisher Brasil - Bianca Saliba Di Thomazo
Edição Eletrônica
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Centro de Informação e Biblioteca em Educação (CIBEC)
Ações Afirmativas e Combate ao Racismo nas Américas / Sales Augusto dos Santos (Organizador). – Brasília:
Ministério da Educação : UNESCO, 2005
ISBN 978-85-60731-10-7
394 p. - (Coleção Educação para Todos; vol. 5)
1. Negros. 2. Ações Afirmativas. 3. Educação dos Negros. I. Santos, Sales Augusto dos.
CDU 37(=96)
Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação dos fatos contidos neste livro, bem como
pelas opiniões nele expressas, que não são necessariamente as da Unesco e do Ministério da
Educação, nem comprometem a Organização e o Ministério. As indicações de nomes e a apresentação
do material ao longo deste livro não implicam a manifestação de qualquer opinião por parte da Unesco
e do Ministério da Educação a respeito da condição jurídica de qualquer país, território, cidade, região
ou de suas autoridades, nem tampouco a delimitação de suas fronteiras ou limites.
Apresentação
Quinto volume da Coleção Educação para Todos, o livro Ações Afirmativas
e Combate ao Racismo nas Américas dá continuidade ao esforço da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) de promover
ações concretas de combate ao racismo na educação brasileira e subsidiar professores e professoras com informações e conhecimentos estratégicos para o
enfrentamento dessa tarefa. Mais que isso, os dezesseis artigos que compõem
a obra compreendem uma espécie de resposta coletiva – no calor da hora, e de
um ponto de vista intelectual e político negro – a questões colocadas pelo debate aberto com as propostas e a implementação no Brasil de medidas de ação
afirmativa no combate ao racismo.
Boa parte dessa polêmica certamente ganhou fôlego com a introdução de
cotas para o acesso a determinadas universidades públicas. A medida atiçou uma
reação discursiva imediata, da parte de juristas, jornalistas, cientistas sociais e
formadores de opinião comprometidos – à esquerda e à direita do espectro político
– com a eternização do status quo sociorracial brasileiro; verdadeiros porta-vozes,
em outros termos, de um bloco histórico cujo ponto de vista é expressivo da “branquitude”, discutida por Maria Aparecida Silva Bento em seu ensaio neste livro: uma
perspectiva histórica e majoritariamente esquiva à extensão e ao aprofundamento
da cidadania, especialmente quando o foco recai sobre a população negra.
Sob esse aspecto, esta obra empreende um vigoroso esforço de arejamento
do debate político em torno das ações afirmativas, com a veiculação de informações, perspectivas, avaliações e opiniões comumente diluídas, sufocadas ou subrepresentadas nos meios de comunicação em geral. Na primeira de suas quatro
seções, os artigos de Flavia Piovesan, do ministro do Supremo Tribunal Federal
(STF) Joaquim Barbosa Gomes e de Ronaldo Jorge A. Vieira Jr. abordam, do ponto de vista do Direito, os argumentos que justificam a adoção das ações afirmativas no Brasil.
À luz do combate ao racismo, esse primeiro conjunto de ensaios aborda a
relação entre justiça, redistribuição e reconhecimento de identidades; a dialética
entre igualdade abstrata e igualdade concreta; a articulação entre medidas promocionais e repressivo-punitivas; a tradição constitucional brasileira de promoção de
segmentos prejudicados; a relação entre o Direito Interno e o Direito Internacional;
o viés civilista presente na leitura do papel do Estado na reparação dos danos da
escravidão e do racismo; e, claro, a própria definição de ação afirmativa.
“As ações afirmativas”, de acordo com o ministro Joaquim Gomes, “definemse como políticas públicas (e privadas) voltadas à concretização do princípio constitucional da igualdade material e à neutralização dos efeitos da discriminação racial, de gênero, de idade, de origem nacional e de compleição física”. Portanto, as
ações afirmativas voltam-se para a neutralização daquilo que – de acordo com o
status quo sociorracial – não se quer neutralizar. Os trabalhos de Mário Theodoro
e Luciana Jaccoud; Carlos Alberto Medeiros; Valter Roberto Silvério; Maria Aparecida Silva Bento; e André Ricardo Nunes Martins realizam um enorme esforço de
leitura crítica e de contra-argumentação da pletora de argumentos levantados contra a implementação de políticas de ação afirmativa contra o racismo no Brasil.
Alguns autores optaram por discutir o mérito de cada um dos muitos argumentos arrolados pelos opositores das ações afirmativas, segundo os quais,
por exemplo, essas feririam o princípio da igualdade; subverteriam o princípio do
mérito; seriam de aplicação impossível; prejudicariam os próprios negros; desviariam a atenção do “problema social”; teriam fracassado nos Estados Unidos; levariam à formação de uma elite negra; discriminariam os brancos pobres; seriam
inconstitucionais; seriam humilhantes para os negros; prejudicariam a qualidade
das instituições que as adotassem, etc. Outros, como André Martins, privilegiam
a identificação de mecanismos formais operantes na argumentação, mostrando
como funcionam os mecanismos de concessão aparente; a alegação de manobra
diversionista; de evocação do medo do efeito contrário; da antecipação do futuro
negativo; e da comparação desmedida.
Os momentos de muito vigor analítico e brilho pessoal, no referido conjunto
de artigos, também refletem a centralidade da atitude de leitura crítica, traço que
o combate efetivo ao racismo sempre fez necessário integrar e desenvolver, e, por
isso, cultivado pelo movimento negro. Mostra dessa atitude, tanto na forma quanto
no conteúdo, é o ensaio sobre “A difusão do ideário anti-racista nos pré-vestibulares para negros e carentes”, com o qual Renato Emerson dos Santos inaugura a
penúltima seção do livro. Segundo o autor, é possível dizer que os defensores das
ações afirmativas têm sido acusados com a mesma retórica conservadora com
que se combateu a adoção dos princípios universalistas da Revolução Francesa.
São atacados por futilidade (“o problema no Brasil não é racial, é social; de nada
adianta promover uma elite negra, o fundamental é acabar com a pobreza”); por
perversidade (“vão prejudicar brancos pobres”); e por constituírem uma ameaça
(“vai-se criar um problema racial onde ele não existe; haverá queda na qualidade
das instituições, com prejuízo para toda a sociedade”).
Intitulada Para além das cotas, a penúltima parte da obra concentra sua
atenção em aspectos anteriores (preparação para o vestibular) e posteriores (permanência na faculdade ou universidade) àquele propriamente do ingresso, por
cotas ou não, no ensino superior. O artigo de Ricardo Henriques e Eliane Cavalleiro esboça o histórico da transformação institucional relativamente recente, com a
qual o Estado conformou meios de ação – como a própria Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) – no campo da promoção da
luta contra o racismo na escola, e traça o panorama das ações presentemente implementadas nos espaços de ação configurados no campo das políticas públicas
afirmativas na educação. Com uma política de apoio às ações afirmativas, a Secad
tem procurado colaborar com os movimentos sociais que lutam pelo acesso do(a)
estudante negro(a) à universidade, como o Pré-Vestibular para Negros e Carentes
(PVNC), de cuja experiência partem as reflexões crítico-analíticas presentes no
referido ensaio de Renato Emerson dos Santos. A seguir, os trabalhos de Nilma
Lino Gomes, sobre o programa Ações Afirmativas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); de Sales Augusto dos Santos, sobre o programa Passagem
do Meio, na Universidade Federal de Goiás (UFG); e de Iolanda de Oliveira e
André A. Brandão, sobre a iniciativa de ação afirmativa para a permanência de
universitários pobres e de baixa renda na Universidade Federal Fluminense (UFF),
dão um quadro das linhas de atuação e dos resultados alcançados nas iniciativas desses projetos voltados para a viabilização da permanência do aluno negro
na universidade. Um conjunto de informações praticamente inéditas no contexto
brasileiro – do debate fundador sobre ações afirmativas, entre Bhimrao Ramji Ambedkar e Mahatma Mohandas Gandhi, na Índia, à trajetória dos negros cubanos
na luta contra a discriminação racial, passando por fina análise das relações entre
os movimentos afro-descendentes, indígena e feminista – é aportado à leitura dos
estimulantes ensaios de Carlos Moore Wedderburn, Tomás Femández Robaina
e Mónica Carrillo Zegarra. A publicação dessa tríade final de trabalhos também
atesta o movimento de aproximação intelectual entre os povos da diáspora negra,
um passo a mais na compreensão das lutas comuns e da ancestralidade que nos
irmanam.
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e
Diversidade do Ministério da Educação
10
Sumário
Introdução
Sales Augusto dos Santos ...................................................................15
Parte I
Ações Afirmativas e Direito
Ações Afirmativas sob a Perspectiva dos Direitos Humanos
Flavia Piovesan ....................................................................................35
A Recepção do Instituto da Ação Afirmativa pelo Direito
Constitucional Brasileiro
Joaquim B. Barbosa Gomes .................................................................47
Rumo ao Multiculturalismo: a adoção compulsória de ações
afirmativas pelo Estado brasileiro como reparação dos danos atuais
sofridos pela população negra
Ronaldo Jorge A. Vieira Júnior .............................................................83
Parte II
Em Defesa de Ações Afirmativas para a Inclusão dos
Negros no Ensino Público Superior Brasileiro
Raça e Educação: os limites das políticas universalistas
Mário Theodoro e Luciana Jaccoud ...................................................105
Ação Afirmativa no Brasil: um debate em curso
Carlos Alberto Medeiros .....................................................................121
Ações Afirmativas e Diversidade Étnico-Racial
Valter Roberto Silvério .......................................................................141
Branquitude e Poder: a questão das cotas para negros
Maria Aparecida Silva Bento ..............................................................165
Racismo e Imprensa: argumentação no discurso sobre as cotas para
negros nas universidades
André Ricardo Nunes Martins ............................................................179
Parte III
Para Além das Cotas
Educação e Políticas Públicas Afirmativas: elementos
da agenda do Ministério da Educação
Ricardo Henriques e Eliane Cavalleiro............................................... 209
A Difusão do Ideário Anti-Racista nos Pré-Vestibulares
para Negros e Carentes
Renato Emerson dos Santos .............................................................225
A Universidade Pública como Direito dos(as) Jovens Negros(as):
a experiência do Programa Ações Afirmativas na UFMG
Nilma Lino Gomes .............................................................................245
Projeto Passagem do Meio: uma política de ação afirmativa na
Universidade Federal de Goiás
Sales Augusto dos Santos .................................................................263
Avaliação da Política de Ação Afirmativa para Permanência de
Alunos Negros na UFF
André A. Brandão e Iolanda de Oliveira .............................................283
Parte IV
Ações Afirmativas e Combate ao Racismo
na América Latina
Do Marco Histórico das Políticas Públicas de Ação Afirmativa
Carlos Moore Wedderburn .................................................................307
Ações Afirmativas e Afro-Descendentes na América Latina:
análise de discursos, contra-discursos e estratégias
Mónica Carrillo Zegarra ..................................................................... 335
A Luta contra a Discriminação Racial em Cuba e as Ações
Afirmativas: convite à reflexão e ao debate
Tomás Fernández Robaina .................................................................359
Sobre autores e autoras ...................................................................387
Introdução
O racismo contra os negros no Brasil tem sido praticado desde o primeiro
momento da chegada forçada destes seres humanos no país, uma vez que foram
trazidos como escravos. A escravidão foi “a mais extrema das formas de opressão racial na história brasileira”. A profunda desigualdade racial entre negros e
brancos em praticamente todas as esferas sociais brasileiras é fruto de mais de
quinhentos anos de opressão e/ou discriminação racial contra os negros, algo que
não somente os conservadores brasileiros, mas uma parte significativa dos progressistas recusam-se a admitir. Assim, a discriminação racial e seus efeitos nefastos construíram dois tipos de cidadania neste país, a negra e a branca. Basta
observarmos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) brasileiro, desagregado
por cor/raça, para facilmente notar esta lamentável situação de injustiça. Conforme
indicou o estudo “Desenvolvimento Humano e Desigualdades Étnicas no Brasil:
um Retrato de Final de Século”, do professor Marcelo Paixão, do departamento
de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apresentado no
II Foro Global sobre Desenvolvimento Humano, no ano de 2000, o Brasil ocupava
o 74o lugar no ranking da ONU no que tange ao IDH. No entanto, analisando separadamente as informações de pretos, pardos e brancos sobre renda, educação
e esperança de vida ao nascer, o IDH nacional dos pretos e pardos despencaria
para a 108o posição, figurando entre aqueles dos países mais pobres do mundo,
enquanto o dos brancos subiria para a 48o posição. Ou seja, o IDH nos indica que
há dois países no Brasil, quando desagregamos por cor/raça a população brasileira. O Brasil branco, não discriminado racialmente, e o Brasil negro, discriminado
racialmente, que acumula desvantagens em praticamente todas as esferas sociais,
especialmente na educação e no mercado de trabalho, em função do racismo.
O inequívoco racismo contra os negros já não é mais negado pela maioria
da população brasileira, embora seja ainda difícil encontrar brasileiros que admitem que eles mesmos discriminam os negros, haja vista que 89% dos brasileiros
concordam que a sociedade é racista e somente 10% admitem ser, eles mesmos,
racistas, conforme constatou a pesquisa realizada pelo jornal Folha de S. Paulo,
por meio do seu instituto de pesquisas, o Datafolha.
ANDREWS, George Reid. O protesto político negro em São Paulo – 1888 - 1998. Estudos Afro-Asiáticos,
(21): 27-48, dezembro de 1991, p. 40.
Jornal O Globo. 10 de outubro de 2000, p. 23.
TURRA, Cleusa; VENTURI, Gustavo. Racismo Cordial. São Paulo: Ática, 1995, p. 13.
Esse racismo brasileiro, sem racista auto-identificado, auto-reconhecido, ou
seja, sem aquele que se reconhece como discriminador, faz-nos lembrar da paradigmática conclusão de Florestan Fernandes sobre as relações raciais no nosso país: no
Brasil surgiu “uma espécie de preconceito reativo: o preconceito contra o preconceito
ou o preconceito de ter preconceito”. Discrimina-se os negros mas há resistência
entre os brasileiros em reconhecer a discriminação racial que se pratica contra esse
grupo racial. Ou seja, os brasileiros praticam a discriminação racial, mas só reconhecem essa prática nos outros, especialmente entre os estadunidenses brancos.
Como afirmamos em outro lugar, passou a fazer parte do nosso ethos. A
indiferença moral em relação ao destino social dos indivíduos negros é tão generalizada que não ficamos constrangidos com a constatação das desigualdades
raciais brasileiras. Elas não nos tocam, não nos incomodam, nem enquanto cidadãos que exigem e esperam o cumprimento integral da Constituição Brasileira.
É como se os negros não existissem, não fizessem parte nem participassem ativamente da sociedade brasileira. A “invisibilidade” do processo de discriminação
racial reaviva o mito da democracia racial brasileira, impedindo uma discussão
séria, franca e profunda sobre as relações raciais brasileiras e, mais do que isso,
inibe a implementação de políticas públicas específicas para os negros. Aliás, a
negação da existência dos negros ou, se se quiser, a sua desumanização, é da
essência do racismo. E é essa negação dos negros enquanto seres humanos que
tem nos “anestesiado” quanto às desigualdades raciais. Esses fatos têm um enorme peso no momento de se decidir sobre qual política adotar para solucionar a
discriminação racial a que estão submetidos os negros.
Contudo, embora a discussão ampla, franca e profunda sobre a questão
racial brasileira ainda sofra fortes resistências no seio da nossa sociedade, tanto
entre os setores conservadores como entre parte significativa dos setores progressistas, como afirmamos acima, não há dúvidas de ela entrou na agenda política
brasileira após a III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial,
Xenofobia e Intolerância Correlata, que foi realizada na cidade sul-africana de Durban, no período de 30 de agosto a 07 de setembro de 2001.
FERNANDES, Florestan. O Negro no Mundo dos Brancos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1972, p. 42.
SANTOS, Sales Augusto dos Santos. Ação afirmativa e mérito individual. In: SANTOS, Renato Emerson;
LOBATO, Fátima (Org.). Ações Afirmativas. Políticas públicas contra as desigualdades raciais. Rio de Janeiro: DFP&A, 2003, p. 87.
O conceito de mito da democracia racial brasileira que adotamos é o mesmo utilizado por Carlos A. Hasenbalg: “A noção de mito para qualificar a ‘democracia racial’ é aqui usada no sentido de ilusão ou engano
e destina-se a apontar para a distância entre representação e realidade, a existência de preconceito,
discriminação e desigualdades raciais e a sua negação no plano discursivo. Essa noção não corresponde,
portanto, ao conceito de mito usado na Antropologia.” (HANSEBALG, Carlos A. Entre o Mito e os Fatos:
Racismo e Relações Raciais no Brasil. In: MAIO, Marcos e SANTOS, Ricardo Ventura (Org.). Raça, Ciência e Sociedade. Rio de Janeiro: Fiocruz/CCBB, 1996, p. 237).
16
Sob a pressão dos movimentos negros, o governo Fernando Henrique Cardoso iniciou publicamente o processo de discussão das relações raciais brasileiras,
em 1995, admitindo oficialmente, pela primeira vez na história brasileira, que os negros eram discriminados. Mais do que isso, ratificou a existência de discriminação
racial contra os negros no Brasil durante o seminário internacional Multiculturalismo
e racismo: o papel da ação afirmativa nos Estados democráticos contemporâneos, organizado pelo Ministério da Justiça, em 1996. Apesar desse primeiro passo,
de reconhecimento oficial do racismo no Brasil, pode-se dizer que até agosto de
2000 o governo brasileiro não havia empreendido grandes esforços para que a
discussão e implementação de ações afirmativas entrasse na agenda política e/ou
nacional brasileira. Segundo o professor José Jorge de Carvalho, do Departamento
de Antropologia da UnB, quatro anos depois da realização daquele seminário não
se via, ainda, nenhuma ação concreta de implementação de algum tipo de ação
afirmativa para negros na sociedade brasileira por parte do governo.
Ao que tudo indica, somente em setembro de 2000, e em atendimento à
Resolução 2000/14, da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas,
o governo brasileiro volta a manifestar-se oficial e publicamente sobre as relações raciais brasileiras. O então presidente da república, Fernando Henrique
Cardoso, por meio de Decreto, de 08 de setembro de 2000, criou o Comitê Nacional para a Preparação da Participação Brasileira na III Conferência Mundial
contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata.
Competia ao comitê:
Assessorar o presidente da república nas decisões relativas à formulação das
posições brasileiras para as negociações internacionais e regionais preparatórias e para a Conferência Mundial. Outra responsabilidade atribuída ao comitê é promover, em cooperação com a sociedade civil, seminários e outras
atividades de aprofundamento e divulgação dos temas de discussão e objetivos
da Conferência Mundial10.
OLIVEIRA, Dijaci David de; LIMA, Ricardo Barbosa de; SANTOS, Sales Augusto dos. A Cor do Medo: O
Medo da Cor. In: OLIVEIRA, Dijaci David de et al. (Org.). A Cor do Medo. Homicídios e relações raciais no
Brasil. Brasília: Editora da UnB, Goiânia: Editora da UFG, 1998.
CARVALHO, José Jorge. O Sistema de Cotas e a Luta pela Justiça Racial no Brasil. In: Correio Braziliense,
15 de novembro de 1999, p. 16.
Esta resolução solicitou aos países que iriam participar da Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata “para que delimitassem as tendências, prioridades
e obstáculos que estão enfrentando a nível nacional e que formulassem recomendações concretas para
as atividades a serem desenvolvidas no futuro na luta contra o racismo, discriminação racial, xenofobia e
intolerância correlata” (Sabóia, 2001:05).
10 MOURA, Carlos Alves; BARRETO, Jônatas Nunes. A Fundação Cultural Palmares na III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. Brasília: Fundação
Cultural Palmares (FCP), 2002, p. 67.
17
Ao contrário do que afirmaram Maggie e Fry11, esse comitê organizou diversas Pré-conferências Temáticas Regionais, em vários estados brasileiros, a fim de
discutir aspectos relevantes para o Brasil, na agenda da Conferência Mundial contra o Racismo12. Desse modo, as pré-conferências constituíram a base temática
para a estruturação da Conferência Nacional Contra o Racismo e a Intolerância,
que se realizou no período de 06 a 08/07/2001, no estado do Rio de Janeiro – RJ,
tendo como sede a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Por sua vez,
os debates ocorridos na Conferência Nacional subsidiaram a formulação do documento brasileiro que foi encaminhado à conferência de Durban. Conforme Moura
e Barreto (2002),
[...] registrando-se a participação de mais de duas mil e quinhentas pessoas,
entre delegados e ouvintes, a Conferência Nacional mobilizou várias vertentes
dos movimentos sociais negros. Após a plenária de abertura, realizaram-se discussões divididas em grupos temáticos, em que os delegados oficiais e ouvintes puderam detalhar as propostas da comunidade para os diversos temas, que
foram levadas à plenária final, onde foram apresentadas e sofreram também
revisão de redação propostas por todos os delegados. Após a redação final, o
documento com todas as propostas foi apresentado novamente à assembléia
para a votação de sua aprovação final, gerando assim o documento denominado
“Plano Nacional de Combate ao Racismo e a Intolerância – Carta do Rio”13.
Ao que parece, foi a partir dessa demanda externa da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, associada às históricas pressões internas dos
movimentos sociais negros, que a questão racial entrou novamente na agenda
pública brasileira.
11 Segundo Maggie e Fry, “antes da Conferência de Durban, o comitê nomeado pelo governo federal para
preparar a posição do Brasil promoveu três seminários, em Belém, Salvador e São Paulo. Mas poucos
souberam ou participaram, além de ativistas negros”. MAGGIE, Yvonne e FRY, Peter. “A reserva de vagas
para negros nas universidades brasileiras”. Estudos Avançados. Dossiê O negro no Brasil. São Paulo: USP.
Instituto de Estudos Avançados. n. 50, 2004, p. 69.
12 O comitê supracitado teve apoio do Instituto de Pesquisas de Relações Exteriores (IPRI), do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação Cultural Palmares (FCP),
entre outros órgãos federais. As Pré-conferências Temáticas Regionais foram as seguintes: 1) Cultura e
Saúde da População Negra, de 13 a 15/09/2000, em Brasília-DF; 2) Racismo, Gênero e Educação, de
15 a 16/10/2000, no Rio de Janeiro-RJ; 3) Cultura, Educação e Política de Ações Afirmativas, de 17 a
18/10/2000, em São Paulo-SP; 4) Desigualdade e Desenvolvimento Sustentável, de 19 a 21/10/2000, em
Macapá-AP; 5) Novo Papel da Indústria de Comunicação e Entretenimento, de 24 a 25/10/2000, em Fortaleza-CE; 6) Direito à Informação Histórica, de 17 a 20/11/2000, em Maceió-AL; 7) Religiosidade e Imaginário Social, de 08 a 10/01/2001, em São Luiz-MA; e 8) Cultura do Desenvolvimento, Racismo e Eqüidade,
de 15 a 16/01/2001, em Porto Alegre-RS. Delas, “participaram membros ativistas do movimento negro
e de organizações não-governamentais, sacerdotes religiosos afro-brasileiros, especialistas acadêmicos,
profissionais liberais, diplomatas, parlamentares, gestores de políticas públicas e representantes de sindicatos, os quais deram, ao conjunto dos debates, qualidade, atualidade e realismo” (MOURA; BARRETO,
op. cit.: p. 48-49 e 68).
13 MOURA; BARRETO, op. cit., p. 67.
18
Por outro lado, também em função da conferência mundial de Durban, a
imprensa brasileira, especialmente a escrita, passou a divulgar mais informações
sobre a questão racial brasileira no ano de 2001, retroalimentando a inclusão
da questão racial na agenda política nacional14. Mais do que isso, os principais
jornais escritos brasileiros não só divulgavam informações sobre a conferência
de Durban, como também passaram a debater a questão racial no Brasil. Dados
sobre as desigualdades raciais brasileiras, entre outros tipos de informação e
conhecimentos, foram divulgados sobremaneira pelos periódicos nacionais entre
os meses de julho e setembro de 200115, principalmente. Assim, estabeleceuse nesse período uma discussão intensa sobre a questão racial brasileira, que
contribuiu para que essa entrasse definitivamente na agenda nacional do país16
ou, no mínimo, que se trouxesse à tona, de vez, o debate sobre a situação dos
negros no Brasil17.
Todavia, o tema que predominou na imprensa brasileira, no que tange a
questão racial, foi a proposta de estabelecimento de cotas para negros ingressarem nas universidades públicas brasileiras. A grande imprensa escrita brasileira
não só convidou intelectuais, políticos e militantes dos movimentos sociais negros
a se pronunciarem sobre o assunto, como também posicionou-se sobre a proposta
de implementação de cotas para negros que estava contida na “Carta do Rio”18.
O jornal O Globo, no editorial do dia 24 de agosto de 2001, manifestou-se contra
uma política que assegurasse o ingresso dos negros nas universidades por meio
de cotas, que, segundo o esse jornal, eram uma vantagem artificial. Conforme o
jornal O Globo,
Quanto à outra tese, não é fácil encontrar quem negue à comunidade negra
o direito a compensação pelas injustiças. Por outro lado, não é ponto pacífico que essa reparação deva ser feita, como defendem muitos militantes, por
vantagens artificiais, como um sistema de quotas no mercado de trabalho e
14 Alguns jornais de expressão nacional chegaram a contratar, em 2001, especialistas sobre a questão racial
brasileira para comentá-la mensalmente. O Correio Braziliense, o jornal mais importante da capital da
república, Brasília, contratou a pós-graduanda em filosofia da educação pela Universidade de São Paulo,
e diretora do Geledes – Instituto da Mulher Negra, Sueli Carneiro.
15 Em janeiro de 2001, jornais como o Correio Braziliense e a Folha de S. Paulo já estavam divulgando de
forma incipiente algumas informações sobre as relações raciais brasileiras.
16 Talvez seja prematuro fazermos tal afirmação. Contudo, há fortes indícios de que a questão racial no Brasil
tenha sido colocada definitivamente na agenda política do país, visto que passou a ser ponto de pauta dos
candidatos a presidente da república no Brasil. Vários deles, inclusive o presidente eleito, Luiz Inácio Lula
da Silva, apresentaram propostas de combate ao racismo e de inclusão de negros nas áreas de prestígio,
poder e mando, por meio de ações afirmativas, dentre as quais consta até a implementação de cotas para
os negros ingressarem nas universidades públicas brasileiras.
17 MOURA; BARRETO, op. cit.: p. 183.
18 Carta esta que, conforme vimos, serviu de subsídio para o relatório brasileiro à III Conferência Mundial
contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata.
19
na universidade. Garantir o caráter universal do direito à educação e a habilitação para o mercado de trabalho são caminhos custosos e complicados;
por outro lado, eliminar deficiências será mais justo e eficaz do que fingir
que elas não existem19.
O posicionamento adotado por outro jornal do estado do Rio de Janeiro,
o Jornal do Brasil, foi naquela época, favorável à implementação de políticas de
cotas para os negros ingressarem no ensino superior público brasileiro. Apoiando
a decisão do presidente Fernando Henrique Cardoso que, conforme a imprensa,
havia autorizado a inclusão da proposta de adoção de cotas para negros no documento que o Brasil levaria à III Conferência Internacional Contra o Racismo, o
Jornal do Brasil em seu editorial do dia 28 de agosto de 2001 afirmava que:
A posição do presidente Fernando Henrique a favor da ação de cotas para
facilitar o acesso de negros à universidade é sem dúvida um dos pontos altos
da luta contra o preconceito racial no Brasil. Ao encampar a proposta, autorizando sua inclusão no documento que o Brasil levará à 3ª Conferência
Internacional contra o Racismo, em Durban, na África do Sul, é como se estivesse, apesar de algumas resistências internas, dando o pontapé inicial numa
nova era20.
Apesar de alguns poucos meios de comunicação impressa (de prestígio) do
país, como o Jornal do Brasil, concordarem com a implementação de cotas para
os negros ingressarem no ensino público superior brasileiro, prevaleceu, e tem
prevalecido até hoje, entre a maioria absoluta dos meios de comunicação uma
posição contrária a esse tipo de política de ação afirmativa21, mesmo havendo o
reconhecimento explícito, entre os jornais de grande circulação nacional, de que
os negros são discriminados racialmente no Brasil. O jornal Folha de S. Paulo, um
dos mais lidos e prestigiados meios de comunicação impressa do país, publicou
mais de um editorial posicionando-se contra cotas para os negros ingressarem
nas universidades públicas brasileiras22. Segundo esse jornal, a implementação de
cotas para negros implicaria reparar uma injustiça com a criação de outra:
O governo brasileiro, por exemplo, leva a Durban a proposta de criar cotas para negros e seus descendentes nas universidades públicas. Esta Folha se
opõe ao sistema de cotas. Isso não significa, entretanto, que todo tipo de ação
19 Jornal O Globo, 24 de agosto de 2001, p. 6.
20 Id., Ibid. p. 8.
21 Vide o texto de André Ricardo N. Martins publicado neste livro.
22 Vide o editorial do dia 28 de janeiro de 2002, entre outros.
20
afirmativa, de discriminação positiva, deva ser descartada. A idéia de instituir cursos pré-vestibulares dirigidos a negros, por exemplo, parece oportuna.
[...] O Brasil precisa sem dúvida envidar esforços para promover a integração
racial. Ações afirmativas devem ser consideradas e implementadas. O limite
deve ser o da justiça. Admitir que se deve reparar uma injustiça com a criação
de outra, uma variação de “os fins justificam os meios”, é um argumento filosoficamente tíbio e historicamente complicado23.
Foram entrevistados e/ou convidados a se pronunciar sobre a questão racial
no Brasil e/ou sobre as cotas, nas páginas dos jornais de grande circulação nacional, militantes dos movimentos sociais negros, políticos de expressão nacional,
ministros de Estado, magistrados e intelectuais, entre outros. Entre eles, o ex-vicepresidente da república, Marco Maciel; o ex-ministro da Educação, Paulo Renato
de Souza; o ex-governador de Brasília e atual senador da república, Cristovam
Buarque; o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Marco Aurélio de
Mello; o então presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Paulo Costa
Leite; a economista e colunista do jornal O Globo, Miriam Leitão; a juíza federal Mônica Sifuentes; os(as) intelectuais/professores(as) de várias universidades
brasileiras, entre os quais, José Jorge de Carvalho (UnB), Rita Segato (UnB), Lilia M. Schwarcz (USP), Flávia Piovesan (PUC/SP), Jorge da Silva (UERJ), Peter
Fry (UFRJ), José Roberto P. de Góes (UERJ), Marcelo Paixão (UFRJ), Henrique
Cunha Jr. (UFCE), Nilcéa Freire (reitora da UERJ), Timothy Mulholland (vice-reitor
da UnB); e os(as) militantes negros(as) Edna Roland (Fala Preta), Sueli Carneiro
(Geledés), Hédio Silva Jr. (CEERT), Carlos Alberto Medeiros e Ivanir dos Santos
(CEAP), entre outros.
Embora sem o esclarecimento e a profundidade que o tema requer, o debate entre os intelectuais, militantes, políticos, juízes e autoridades públicas, nos
meios de comunicação de massa, no mínimo contribuiu para a que a questão
racial entrasse na agenda nacional. As posições eram variadas. De uma maneira
geral, polarizaram-se entre as que defendiam políticas públicas específicas para
os negros ingressarem no ensino superior, especialmente por meio de cotas, e as
que eram contra este tipo de política pública. De um lado, poucos autores tentaram
discutir profundamente o conceito de ação afirmativa, buscando esclarecer que as
ações afirmativas não se limitam às cotas. De outro lado, a grande maioria dos
autores que participaram deste debate posicionou-se contra a proposta de implementação de cotas para negros ingressarem nas universidades.
23 Folha de S. Paulo, 30 de agosto de 2001, p. A2.
21
Seguindo orientação e prática contrárias às do ministro do Desenvolvimento
Agrário, Raul Jungmann24, o ex-ministro da Educação do governo Fernando Henrique Cardoso, Paulo Renato de Souza, foi uma das autoridades do poder executivo
que mais se opuseram a este tipo de ação afirmativa25. Para ele “o problema para
dar acesso aos negros na universidade em nosso país infelizmente não é a cota,
é acesso à educação básica” (Correio Braziliense, 8 de setembro de 2001). Apesar
de o ex-ministro Paulo Renato de Souza reconhecer que historicamente os negros
são discriminados no Brasil, para ele não há necessidade de implementação de
cotas para os negros terem acesso preferencial ao ensino superior. Conforme o
ex-ministro,
As propostas para uma política de ação afirmativa que reduza a extrema desigualdade racial em nosso país vêm ao encontro de uma justa aspiração não só
de afro-descendentes, mas de todo brasileiro com consciência social e moral.
A maior mortalidade infantil e materna, as altas taxas de desemprego, as diferenças salariais injustas, a pobreza e a fome, o tratamento desigual frente a
justiça e a polícia, a falta de acesso aos postos de maior responsabilidade no
mercado de trabalho são cargas pesadas que os brasileiros descendentes de escravos carregam até hoje. [...] Oxalá nossa sociedade não precise, como outras,
chegar à instituição de cotas raciais na universidade. Temos metas de inclusão
e as estamos cumprindo rapidamente. Pelo que tenho acompanhado, acredito
na capacidade de desempenho do estudante brasileiro de qualquer origem
social ou racial, quando estimulado e apoiado. Se isso não for suficiente, serei
o primeiro a defender as cotas. Entretanto, desde que tenham condições para
isso, não há por que imaginar que os estudantes pobres, negros ou pardos não
entrem na universidade por seus próprios méritos (Folha de S. Paulo, 30 de
agosto de 2001).
No poder judiciário também houve divergência sobre a implementação de
cotas para negros terem acesso aos espaços de poder e prestígio, especialmen24 O ex-ministro Raul Jungmann foi a primeira autoridade do primeiro escalão do governo federal que implementou cotas para negros terem acesso preferencial a cargos em seu ministério: “Concursos públicos,
cargos de confiança e empresas prestadoras de serviços terceirizados: todos terão cota mínima de 20%
para negros no Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Pela primeira vez, o Executivo brasileiro adota um programa de ações afirmativas
para negros”, (Correio Braziliense, 05 de setembro de 2001, p. 10).
25 O ex-ministro Paulo Renato, da Educação, foi uma das autoridades do primeiro escalão do governo federal
que mais publicaram artigos contrários às cotas no caderno “Tendências/Debates”, do jornal Folha de S.
Paulo (30/08/2001, 11/12/2001, 30/01/2002). Além disso, desde janeiro de 2001, o Ministério da Educação, por meio seu secretário de educação superior, Antônio Macdowell de Figueiredo, já se posicionava
contra as cotas. Segundo o secretário, “a Constituição impede qualquer tipo de discriminação positiva, que
beneficia as minorias [...] Isso é uma questão de solução mais estrutural do que de medidas como cotas”
(Folha de S. Paulo, 14/01/2001, p. C2).
22
te no acesso ao emprego. De um lado, o então presidente do Superior Tribunal
de Justiça (STJ), ministro Paulo Costa Leite, alegou que o sistema implementado
pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário era inconstitucional. Segundo Costa
Leite, “é uma medida absurda. Não há nenhuma norma na Constituição ou na lei
prevendo essa cota de 20% na realização de um concurso público, por exemplo.
É possível recorrer contra isso” (Costa Leite, O Globo, 7 de setembro de 2001, p.
5). Por outro lado, o ex-ministro-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), a
mais alta corte do país, não só afirmava a constitucionalidade deste tipo de ação
afirmativa, como, depois, implementou o sistema de cotas para negros ingressarem no STF (Correio Braziliense, 7 de dezembro de 2001). Segundo o ministro
Marco Aurélio de Mello,
Falta-nos, [...] para afastarmos do cenário as discriminações, uma mudança
cultural, uma conscientização maior dos brasileiros; urge a compreensão de
que não se pode falar em Constituição sem levar em conta a igualdade, sem
assumir o dever cívico de buscar o tratamento igualitário, de modo a saldar
dívidas históricas para com as impropriamente chamadas minorias, ônus que
é de toda a sociedade. [...] É preciso buscar a ação afirmativa. A neutralidade
estatal mostrou-se um fracasso. Há de se fomentar o acesso à educação; urge
um programa voltado aos menos favorecidos, a abranger horário integral, de
modo a tirar-se meninos e meninas da rua, dando-se-lhes condições que os
levem a ombrear com as demais crianças. E o Poder Público, desde já, independentemente de qualquer diploma legal, deve dar à prestação de serviços
por terceiros uma outra conotação, estabelecendo, em editais, quotas que visem a contemplar os que têm sido discriminados. [...] Deve-se reafirmar: toda
e qualquer lei que tenha por objetivo a concretude da Constituição não pode
ser acusada de inconstitucional. Entendimento divergente resulta em subestimar ditames maiores da Carta da República, que agasalha amostragem de
ação afirmativa, por exemplo, no artigo 7o, inciso XX, ao cogitar da proteção
de mercado quanto à mulher e da introdução de incentivos; no artigo 37o,
inciso III, ao versar sobre a reserva de vagas – e, portanto, a existência de quotas –, nos concursos públicos, para os deficientes; nos artigos 170o e 227o, ao
emprestar tratamento preferencial às empresas de pequeno porte, bem assim
à criança e ao adolescente26.
26 MELLO, Marco Aurélio Mendes de Farias. A Igualdade e as ações afirmativas. In: Correio Braziliense, 20
de dezembro de 2001. Veja-se também: MELLO, Marco Aurélio Mendes de Farias. Ótica Constitucional
– a Igualdade e as ações afirmativas. In: TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO (TST). Discriminação e
Sistema Legal Brasileiro. Brasília: TST, 2001.
23
Entre os dirigentes de universidade pública também houve divergência
sobre uma provável implementação de cotas para negros terem acesso preferencial no ensino superior brasileiro. A então reitora da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (UERJ), Nilcéa Freire, por exemplo, posicionou-se contra a
implementação de ação afirmativa para negros ingressarem no ensino superior,
por meio de cotas, apesar do governo do Estado do Rio de Janeiro já ter implementado, naquela época, este tipo de política pública específica para negros na
UERJ. Conforme Freire,
[...] segundo dados do MEC, a evasão atinge mais brutalmente pobres, negros
e nordestinos, desde o ensino fundamental. No ensino médio, o fenômeno se
repete e prejudica a entrada de novos alunos na universidade. É questionável, portanto, que a simples reserva de vagas consiga democratizar o acesso
à educação superior para grupos que, historicamente, vêm permanecendo à
margem desse processo. [...] Instrumentos de promoção da cidadania e de
recursos intelectuais são sempre bem-vindos, porém não há consenso, mesmo
entre países que adotaram a ação afirmativa, sobre a eficiência de tal política
de cotas. [...] Nada pode substituir o regime de mérito. É preciso selecionar
os melhores, escolhidos dentre todos os contingentes27.
Por outro lado, o vice-reitor da Universidade de Brasília (UnB), Timothy Mullholland28, posicionou-se francamente favorável ao sistema de cotas. Utilizando
um dos fundamentos do postulado distributivo para sustentação e implementação
de políticas afirmativas para negros, o vice-reitor Timothy Mullholland afirmou que
“nossa universidade é branca. Brasília é muito mais mestiça e multirracial do que
a UnB. Temos que ser uma expressão mais fiel da sociedade e ajudar a formar
uma classe média negra com formação universitária” (Correio Braziliense, 27 de
dezembro de 2002, p. 6).
Como se vê, houve um debate intenso sobre a questão racial brasileira no
período supracitado, especialmente no que tange ao acesso preferencial para negros no ensino superior público brasileiro. Algumas vezes este debate foi direto,
com dos um dos interlocutores posicionando-se abertamente contra a posição e/ou
argumentos de outro interlocutor e vice-versa; outras vezes este debate foi indireto,
com um dos interlocutores contrapondo-se aos argumentos de outro, sem citar o
nome de quem estava sendo contra-argumentado. Esta última forma de debate foi
27 FREIRE, Nilcéia. Exclusão é reflexo. In: Jornal do Brasil, 21 de setembro de 2001, p. 13.
28 O vice-reitor da UnB, professor Timothy Mullholland, tem sido um dos raros dirigentes de instituição de
ensino superior pública a defender cotas como um tipo de ação afirmativa para os negros terem acesso
preferencial ao ensino superior no Brasil.
24
a que prevaleceu, pois raros foram os momentos em que um dos interlocutores dirigiu-se diretamente a outro para sustentar ou discordar de argumentações acerca
das ações afirmativas. Percebe-se também que este debate ocorreu entre vários
agentes sociais importantes que participam do espaço público brasileiro, ou seja,
não ficou restrito aos intelectuais e/ou ao meio acadêmico.
Embora se posicionando explicitamente contra as cotas para os negros ingressarem no ensino superior brasileiro, em certo sentido a grande imprensa brasileira ajudou a publicizar o debate sobre a questão racial brasileira, bem como
forçou a academia, ou melhor, uma parte significativa dos acadêmicos brasileiros,
a se posicionar a respeito da implementação do sistema de cotas para negros
no vestibular das universidades públicas. O silêncio acadêmico sobre o tema foi,
assim, interrompido e parte significativa de intelectuais do campo das relações
raciais, bem como de outras áreas de pesquisa e conhecimento, manifestou-se
radicalmente contra a implementação de cotas para negros como uma forma de
inserção sócio-racial no ensino público superior.
Este terceiro livro da Coleção Educação Para Todos também tem como objetivo ajudar a publicizar e solidificar a inclusão da questão racial brasileira na
agenda nacional, bem como defender ações afirmativas de acesso e permanência
para negros nas universidades públicas. Como se verá, é um livro no qual a totalidade dos autores posiciona-se em defesa de ações afirmativas de acesso e de
permanência para os negros no ensino público superior brasileiro. Mais ainda, é
um livro que demonstra que não só o Brasil, mas vários países da América Latina
e do mundo estão discutindo e implementando ações afirmativas para os seus
grupos sociais que foram e/ou ainda são discriminados em função de cor, sexo,
origem étnica, racial, entre outros.
A obra se compõe de quatro partes. A primeira, Ações Afirmativas e Direito,
contém três textos que fundamentam a legalidade e a legitimidade das ações afirmativas no Brasil, bem como a sua da implementação. O primeiro, “Ações Afirmativas sob a Perspectiva dos Direitos Humanos”, da doutora em Direito Constitucional Flavia Piovesan, busca compreender a concepção contemporânea de direitos
humanos; modo como podemos conceber as ações afirmativas sob a perspectiva
dos direitos humanos; bem como quais as perspectivas e os desafios para a implementação da igualdade étnico-racial na ordem social contemporânea. O segundo,
“A Recepção do Instituto da Ação Afirmativa pelo Direito Constitucional Brasileiro”,
é de autoria do doutor em Direito Público e Ministro do Supremo Tribunal Federal
(STF), Joaquim B. Barbosa Gomes. O ministro Gomes não somente nos brinda
25
com uma discussão ampla e profunda sobre o conceito e os objetivos das ações
afirmativas, mas também examina a possibilidade jurídica de introdução no sistema jurídico brasileiro desse mecanismo de integração social. O terceiro e último
artigo dessa primeira parte, “Rumo ao Multiculturalismo: a adoção compulsória de
ações afirmativas pelo Estado brasileiro como reparação dos danos atuais sofridos
pela população negra”, é de autoria do mestre em Direito e Estado e Consultor Legislativo do Senado Federal – Ronaldo Jorge A. Vieira Junior, que busca analisar a
evolução, no Brasil, da idéia de reparação dos danos causados à população negra
no âmbito do direito, bem como os fundamentos jurídico-filosóficos para a adoção
das ações afirmativas, além de sustentar as ações afirmativas como importante
mecanismo de promoção da igualdade substantiva, do reconhecimento e da valorização da cultura dos negros.
A segunda parte do livro, Em Defesa de Ações Afirmativas para a Inclusão
dos Negros no Ensino Público Superior Brasileiro, contém cinco textos. O primeiro,
“Raça e Educação: os limites das políticas universalistas”, é de autoria do doutor em economia e Consultor Legislativo do Senado Federal Mário Theodoro, em
parceria com a Técnica em Planejamento e Pesquisa do IPEA, Luciana Jaccoud.
Como o próprio título do artigo indica, trata-se de um texto que busca demonstrar
os limites das políticas universalistas para incluir democraticamente os negros no
ensino público de terceiro grau no Brasil. Partindo da premissa de que o Brasil é
um dos países mais injustos do mundo e, mais do que isso, que há discriminações
raciais contra os negros não somente na sociedade brasileira mas também no
âmbito do sistema escolar, Theodoro e Jaccoud afirmam que a política social de
cunho universalista, base da ação do Estado reformatada a partir da Constituição
de 1988, carece de ações complementares que dêem conta das especificidades da
questão racial. O segundo texto desta segunda parte, “Ação Afirmativa no Brasil:
um debate em curso”, de Carlos Alberto Medeiros, oferece um panorama da ação
afirmativa, do aparecimento dessa expressão nos Estados Unidos, na década de
sessenta, até as medidas recentemente adotadas no Brasil – e a polêmica por
elas suscitada. Mostra também as diferentes políticas dessa natureza implementadas em diferentes sociedades, incluindo os precedentes na própria legislação
brasileira, bem como discute seus fundamentos jurídico-filosóficos e apresenta um
resumo da discussão que ora se trava, com os argumentos favoráveis e contrários.
Pretende, assim, contribuir para um debate que, apesar dos termos acalorados
com que se costuma travá-lo entre nós, prossegue marcado pela desinformação.
Os artigos seguintes desta parte do livro, “Ações Afirmativas e Diversidade
Étnica e Racial”, “Branquitude e Poder: a questão das cotas para negros” e “Ra-
26
cismo e Imprensa: argumentação no discurso sobre as cotas para negros nas universidades”, de autoria, respectivamente, dos professores doutores Valter Silvério,
Maria Aparecida S. Bento e André Ricardo N. Martins, focalizam em certa medida,
discussões semelhantes às de Medeiros. São textos que visam a descontruir os
argumentos contrários às cotas para os negros nos vestibulares das universidades públicas brasileiras. Eles buscam mostrar as fragilidades dos argumentos dos
opositores das cotas para negros, as suas visões de mundo marcadas pela branquitude e fundamentadas mais em cenários imaginados e opiniões sem evidências
concretas, que em dados de pesquisas que as sustentem. O professor Silvério não
só defende cotas para os negros, mas sustenta que a implementação de ações
afirmativas deve ser entendida como reparação, indenização devida pela sociedade brasileira aos negros, ante as injustiças raciais, entre outras, de que estes foram
e ainda são vítimas no Brasil. O seu artigo tem por objetivo descrever de forma
inicial alguns dos aspectos fundamentais do debate sobre as ações afirmativas a
partir de autores, de diferentes áreas do conhecimento, que se preocupam com o
tema. Procura, também, localizar alguns aspectos da implementação das ações no
Brasil, inclusive oferecendo um quadro inicial de ações de promoção da igualdade
racial na educação. Em seguida, temos o artigo da doutora Maria Aparecida S.
Bento. Para Bento, os argumentos contra as cotas para os negros são fundamentados no que ela chama de branquitude, que é território do silêncio, da negação,
da interdição, da neutralidade, do medo e do privilégio (racial). Mas esse silêncio
é tão significante quanto as palavras, dado que ele cala a defesa de privilégios raciais. Finalizando esta parte do livro, o professor Ricardo Martins, baseando-se em
uma pesquisa na qual logrou o grau de doutor em lingüística, pela Universidade de
Brasília (UnB), apresenta-nos um artigo no qual se propõe a examinar o discurso
da imprensa sobre a política de cotas, destacando como, por meio da argumentação, a medida é desqualificada, o racismo que atinge os negros é silenciado e a
representação dos negros no discurso da imprensa é subvalorizada.
A terceira parte do livro, Para Além das Cotas, contém cinco textos: dois
sobre os pré-vestibulares para negros e pessoas de baixa renda e os outros três
sobre experiências bem sucedidas de ação afirmativa para permanência de estudantes negros em universidades públicas. O primeiro texto, “Educação e Políticas
Públicas Afirmativas: elementos da agenda do Ministério da Educação”, de autoria de Ricardo Henriques e Eliane dos Santos Cavalleiro, ambos protagonistas do
processo de coordenação e implementação das políticas afirmativas no MEC, dá
ciência do leque de ações e medidas tomadas, implementadas ou planejadas. Bem
como mostra como se configuraram – em atrito com o chamado “racismo institucio-
27
nal” – os espaços de atuação em que o Estado tem lidado com a heterogeneidade
de demandas, instituições e projetos oriundos de diferentes setores da sociedade
civil no campo da educação. Dentre estes espaços, inclui-se a própria Secretaria
de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), instituída em fevereiro de 2004, que surge com o desafio de desenvolver e implementar de políticas
de inclusão, considerando as especificidades das desigualdades brasileiras, com
ênfase àquelas oriundas do racismo, do etnicismo (indígenas) e do regionalismo
(educação do campo). O segundo texto, de autoria do professor e pesquisador Renato Emerson dos Santos, “A Difusão do Ideário Anti-Racista nos Pré-Vestibulares
para Negros e Carentes”, trabalha as diferentes formas de como as idéias da luta
anti-racismo emergem no cotidiano de construção dos pré-vestibulares populares.
Partindo de uma contextualização histórica, o professor Renato Emerson dos Santos busca mostrar que a difusão dos cursos pré-vestibular para negros, nos anos
90 do século XX, teve como protagonista central o Movimento Negro. Ele mostra
também que esta iniciativa se constitui de um conjunto de momentos de construção, onde diretrizes e bandeiras ideológicas são negociadas, nos quais a discussão
racial aparece enquanto latência e/ou potência que pode ser mobilizada e emergir,
mesmo nos cursos em que a coordenação não a tem como mote central.
Em seguida temos o artigo “A Universidade Pública como Direito dos(as)
Jovens Negros(as): a experiência do Programa Ações Afirmativas na UFMG”, de
autoria da professora doutora Nilma Lino Gomes, que busca demonstrar que esse
projeto de ação afirmativa, sem financiamento direto do governo federal, é fruto da
luta dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (Neabs). A professora Gomes relata neste artigo as principais ações desenvolvidas pelo projeto, que visavam, entre
outros objetivos, ao investimento no potencial dos universitários negros de baixa
renda da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), possibilitando-lhes uma
formação de qualidade. Dessa forma, ela compartilha com os leitores e as leitoras
um pouco da experiência de permanência bem sucedida para jovens negros(as),
desenvolvida pelo Programa, mesmo com todas as resistências “veladas” que o projeto enfrentou no interior da UFMG. O quarto texto dessa parte do livro, “Projeto
Passagem do Meio: uma política de ação afirmativa na Universidade Federal de
Goiás”, é de minha autoria e tem como objetivo descrever o impacto resultante no
desempenho acadêmico e na visão de mundo dos discentes bolsistas do projeto
de ação afirmativa Passagem do Meio, que está sendo executado na UFG. O texto
descreve também o impacto desse projeto no meio acadêmico dessa universidade,
em especial, entre os docentes coordenadores e tutores do projeto. Aqui também
são relatadas algumas resistências no interior da UFG contra esse projeto de ação
28
afirmativa para negros de baixa renda durante a sua primeira fase. O quinto e último artigo, “Avaliação da Política de Ação Afirmativa para Permanência de Alunos
Negros na UFF”, de autoria dos professores doutores Iolanda de Oliveira e André A.
Brandão, discute os efeitos do projeto de ação afirmativa para universitários negros,
do Programa de Educação sobre Negro na Sociedade Brasileira (PENESB), da Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre os universitários bolsistas do PENESB,
bem como os efeitos deste projeto sobre a própria UFF, que, como as demais universidades supracitadas, pela primeira vez na sua história teve que se relacionar,
do ponto de vista institucional, com ações afirmativas para a população negra. Vale
ressaltar que todos esses três projetos de ação afirmativa de permanência para
alunos negros de baixa renda nessas universidades federais foram financiados por
uma fundação privada, ou seja, eles não receberam nenhum financiamento direto do governo federal. Mais ainda, estes programas de ações afirmativas, mesmo
com poucos recursos financeiros, possibilitaram mudanças significativas não só na
vida dos universitários negros – possibilitando-lhes uma compreensão das relações
raciais brasileiras, elevando a sua auto-estima, qualificando-lhes academicamente,
preparando-lhes para o ingresso nos programas de pós-graduação, entre outros benefícios –, mas também no interior das universidades onde eles foram implementados. Como se também verá, se num primeiro momento houve fortes resistências a
esses programas no interior das universidades, num segundo, ante a perseverança
dos professores e alunos engajados nos mesmos, começaram a surgir diálogos no
interior dessas universidades na tentativa de compreender o que são ações afirmativas e porque os negros devem ser seus beneficiários.
A quarta e última parte do livro, Ações Afirmativas e Combate ao Racismo na América Latina, contém três textos que abordam a discussão da questão
racial e das ações afirmativas em alguns países latino-americanos. Neste bloco
se perceberá que há uma tendência na América Latina, bem como em outras
partes do planeta, de implementação de ações afirmativas para grupos socialmente segregados – como negros, mulheres, entre outros –, visando a mitigar
a discriminação que estes vêm sofrendo em face da sua cor/raça e o seu sexo.
Portanto, a implementação deste tipo de política pública para negros, ante ao
racismo a que estes estão submetidos, não é, como alguns críticos nativos das
ações afirmativas afirmam, uma simples importação de idéias estadunidenses
que não são cabíveis no Brasil. Como se verá, há ações afirmativas em diversos países do mundo, algumas, inclusive, reivindicadas e implementadas antes
de meados da década de 1960, quando o Estados Unidos começaram a pensar
neste tipo política pública.
29
O primeiro texto desta quarta e última parte, “Do Marco Histórico das Políticas Públicas de Ações Afirmativas”, de autoria do professor doutor Carlos Moore
Wedderburn, busca demonstrar que as ações afirmativas estão em plena expansão no mundo inteiro e que, com exceção da maior parte dos países da América
Latina, praticamente todos os países do chamado terceiro mundo em um dado
momento de sua história implementaram essas políticas para resolver ou mitigar
desigualdades decorrentes de discriminações de raça/cor, sexo, entre outras. Para
o professor Carlos Moore Wedderburn, a implementação de ações afirmativas em
países com acentuadas desigualdades sociais e raciais decorrentes do racismo,
do sexismo, entre outros, pode ser capaz de conter prováveis conflitos sociais,
impedindo assim a implosão da sociedade. O segundo texto desta parte, “Ações
Afirmativas e Afro-Descendentes na América Latina: análise de discursos, contra-discursos e estratégias”, é de autoria da especialista em Direito Internacional
Mónica Carrillo Zegarra. Como a própria autora afirma no texto, este tem o objetivo
de dar um panorama geral dos discursos e contra-discursos em relação às ações
afirmativas, levando em conta a particularidade da América Latina com relação
a outras regiões e as posições que tratam de deslegitimar ou reduzir a potencialidade das mesmas. Além disso, busca-se analisar as tensões existentes com
os movimentos sociais que têm em sua agenda a luta contra a discriminação. O
terceiro e último texto desta parte e do livro, “A Luta contra a Discriminação Racial
em Cuba e as Ações Afirmativas: convite à reflexão e ao debate”, de autoria do
pesquisador Tomás Fernández Robaina, apresenta-nos uma visão das relações
raciais em Cuba, pouco conhecidas entre nós brasileiros. O autor busca demonstrar que sempre houve discriminação contra os negros em Cuba, mesmo depois
da revolução socialista de 1959, o que levou o presidente Fidel Castro a se pronunciar sobre a problemática racial no país, solicitando até mesmo aos intelectuais
cubanos que contribuíssem para a erradicação do preconceito, da discriminação
racial e do racismo neste país. Busca-se demonstrar também que mesmo depois
das três primeiras décadas da revolução cubana, a presença de negros é muito
precária em algumas áreas profissionais e de estudos universitários. Mesmo os
negros que lograram êxito nos estudos universitários e técnicos nem sempre têm
as mesmas possibilidades no acesso a postos de trabalhos significativos a que
os brancos cubanos têm. Robaina mostra, também, que apesar da introdução da
discussão de ações afirmativas para negros, com objetivo integrá-los plenamente
na sociedade cubana e de superar ou mitigar a discriminação racial, esta política
pública sofre fortes resistências em Cuba.
30
Como afirmamos anteriormente, esperamos com este livro ajudar a publicizar e solidificar a inclusão da questão racial brasileira na agenda nacional, bem
como defender ações afirmativas de acesso e permanência para negros nas universidades públicas, não só por ser uma medida legal e legítima, mas por ser uma
questão de justiça.
Sales Augusto dos Santos
Organizador
Parte I
Ações
Afirmativas e
Direito
Ações Afirmativas
sob a Perspectiva
dos Direitos
Humanos*
Flavia Piovesan
E
ste artigo objetiva desenvolver uma análise a respeito das ações afirmativas sob a perspectiva dos direitos humanos. O tema será, assim , enfocado a partir de três reflexões centrais: 1) Como compreender a concepção
contemporânea de direitos humanos? 2) De que modo conceber as ações
afirmativas sob a perspectiva dos direitos humanos? 3) Quais as perspectivas e desafios para a implementação da igualdade étnico-racial na ordem contemporânea?
Como compreender a concepção contemporânea
de direitos humanos?
Enquanto reivindicações morais, os direitos humanos nascem quando devem
e podem nascer. Como realça Norberto Bobbio, os direitos humanos não nascem
todos de uma vez e nem de uma vez por todas (1988: 30). Para Hannah Arendt, os
direitos humanos não são um dado, mas um “construído”, uma invenção humana, em
constante processo de construção e reconstrução (1979). Compõem um construído
*Este texto embasou a intervenção “Ações Afirmativas sob a Perscpectiva dos Direitos Humanos”, realizada
na Conferência Internacional sobre Ação Afirmativa e Direitos Humanos, no Rio de Janeiro, em 16 e 17 de
julho de 2004.
A respeito, ver também Celso Lafer (1988: 134). No mesmo sentido, afirma Ignacy Sachs: “Não se insistirá
nunca o bastante sobre o fato de que a ascensão dos direitos é fruto de lutas, que os direitos são conquistados, às vezes, com barricadas, em um processo histórico cheio de vicissitudes, por meio do qual as
axiológico, fruto da nossa história, de nosso passado, de nosso presente, a partir de
um espaço simbólico de luta e ação social. No dizer de Joaquí Herrera Flores, os
direitos humanos simbolizam uma racionalidade de resistência, na medida em que
traduzem processos que abrem e consolidam espaços de luta pela dignidade humana. Realçam, sobretudo, a esperança de um horizonte moral, pautado pela gramática
da inclusão, refletindo a plataforma emancipatória de nosso tempo.
Ao adotar este prisma histórico, cabe realçar que a Declaração de 1948 inovou extraordinariamente a gramática dos direitos humanos, ao introduzir a chamada concepção contemporânea de direitos humanos, marcada pela universalidade e
indivisibilidade destes direitos. Universalidade, porque clama pela extensão universal
dos direitos humanos, sob a crença de que a condição de pessoa é o requisito único
para a titularidade de direitos, considerando o ser humano como um ser essencialmente moral, dotado de unicidade existencial e dignidade. Indivisibilidade porque,
ineditamente, o catálogo dos direitos civis e políticos é conjugado ao catálogo dos
direitos econômicos, sociais e culturais. A Declaração de 1948 combina o discurso
liberal e o discurso social da cidadania, conjugando o valor da liberdade ao valor da
igualdade.
A partir da Declaração de 1948, começa a se desenvolver o Direito Internacional dos Direitos Humanos, mediante a adoção de inúmeros instrumentos internacionais de proteção. A Declaração de 1948 confere lastro axiológico e unidade
valorativa a esse campo do Direito, com ênfase na universalidade, indivisibilidade e
interdependência dos direitos humanos.
O processo de universalização dos direitos humanos permitiu a formação de
um sistema internacional de proteção desses direitos. Este sistema é integrado por
tratados internacionais de proteção que refletem, sobretudo, a consciência ética contemporânea compartilhada pelos Estados, na medida em que invocam o consenso
internacional acerca de temas centrais aos direitos humanos, fixando parâmetros
protetivos mínimos. Neste sentido, cabe destacar que, até 2003, o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos contava com 149 Estados-Parte; o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais contava com 146 EstadosParte; a Convenção contra a Tortura contava com 132 Estados-Parte; a Convenção
sobre a Eliminação da Discriminação Racial contava com 167 Estados-Parte; a
Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher contava com
necessidades e as aspirações se articulam em reivindicações e em estandartes de luta antes de serem
reconhecidos como direitos” (1998: 156). Para Allan Rosas: “O conceito de direitos humanos é sempre
progressivo. […] O debate a respeito do que são os direitos humanos e como devem ser definidos é parte
e parcela de nossa história, de nosso passado e de nosso presente” (1995: 243).
36
170 Estados-Parte e a Convenção sobre os Direitos da Criança apresentava a mais
ampla adesão, com 191 Estados-Parte (UNITED NATIONS, 2003). O elevado
número de Estados-Parte destes tratados simboliza o grau de consenso internacional a respeito de temas centrais voltados aos direitos humanos.
Ao lado do sistema normativo global, surgem os sistemas regionais de proteção,
que buscam internacionalizar os direitos humanos nos planos regionais, particularmente na Europa, América e África. Consolida-se, assim, a convivência do sistema
global da ONU com instrumentos dos sistemas regionais, por sua vez, integrado pelos
sistemas americano, europeu e africano de proteção aos direitos humanos.
Os sistemas global e regional não são dicotômicos, mas complementares. Inspirados pelos valores e princípios da Declaração Universal, compõem o universo instrumental de proteção dos direitos humanos, no plano internacional. Nesta ótica, os
diversos sistemas de proteção de direitos humanos interagem em benefício dos indivíduos protegidos. Ao adotar o valor da primazia da pessoa humana, estes sistemas se
complementam, somando-se ao sistema nacional de proteção, a fim de proporcionar
a maior efetividade possível na tutela e promoção de direitos fundamentais. Esta é
inclusive a lógica e principiologia próprias do Direito dos Direitos Humanos.
Considerando a concepção contemporânea de direitos humanos e a ética dos
direitos humanos, passa-se, neste momento, à segunda questão.
De que modo conceber as ações afirmativas sob
a perspectiva dos direitos humanos?
Como já mencionado, a partir da Declaração Universal de 1948, começa a se
desenvolver o Direito Internacional dos Direitos Humanos, mediante a adoção de
inúmeros tratados internacionais voltados à proteção de direitos fundamentais.
A primeira fase de proteção dos direitos humanos foi marcada pela tônica
da proteção geral, que expressava o temor da diferença (que no nazismo havia sido
orientada para o extermínio), com base na igualdade formal. A título de exemplo,
basta avaliar quem é o destinatário da Declaração de 1948, bem como basta atentar
para a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio, também
de 1948, que pune a lógica da intolerância pautada na destruição do “outro”, em
razão de sua nacionalidade, etnia, raça ou religião.
Torna-se, contudo, insuficiente tratar o indivíduo de forma genérica, geral e
abstrata. Faz-se necessária a especificação do sujeito de direito, que passa a ser visto
em sua peculiaridade e particularidade. Nesta ótica determinados sujeitos de direi37
tos, ou determinadas violações de direitos, exigem uma resposta específica e diferenciada. Vale dizer, na esfera internacional, se uma primeira vertente de instrumentos
internacionais nasce com a vocação de proporcionar uma proteção geral, genérica e
abstrata, refletindo o próprio temor da diferença (que na era Hitler foi justificativa
para o extermínio e a destruição), percebe-se, posteriormente, a necessidade de conferir, a determinados grupos, uma proteção especial e particularizada, em face de sua
própria vulnerabilidade. Isto significa que a diferença não mais seria utilizada para a
aniquilação de direitos, mas, ao revés, para a promoção de direitos.
Nesse cenário, por exemplo, a população afro-descendente, as mulheres, as
crianças e demais grupos devem ser vistos nas especificidades e peculiaridades de
sua condição social. Ao lado do direito à igualdade, surge, também, como direito
fundamental, o direito à diferença. Importa o respeito à diferença e à diversidade, o
que lhes assegura um tratamento especial.
Destacam-se, assim, três vertentes no que tange à concepção da igualdade:
a) a igualdade formal, reduzida à fórmula “todos são iguais perante a lei” (que, ao
seu tempo, foi crucial para abolição de privilégios); b) a igualdade material, correspondente ao ideal de justiça social e distributiva (igualdade orientada pelo critério
sócio-econômico); e c) a igualdade material, correspondente ao ideal de justiça enquanto reconhecimento de identidades (igualdade orientada pelos critérios gênero,
orientação sexual, idade, raça, etnia e demais critérios).
Para Nancy Fraser, a justiça exige, simultaneamente, redistribuição e reconhecimento de identidades. Como argumenta a autora:
O reconhecimento não pode se reduzir à distribuição, porque o status na sociedade não decorre simplesmente em função da classe. [...] Reciprocamente,
a distribuição não pode se reduzir ao reconhecimento, porque o acesso aos
recursos não decorre simplesmente em função de status.
Há, assim, o caráter bidimensional da justiça: redistribuição somada ao reconhecimento. No mesmo sentido, Boaventura de Souza Santos afirma que apenas a
exigência do reconhecimento e da redistribuição permite a realização da igualdade.
Explica Nancy Fraser: “O reconhecimento não pode se reduzir à distribuição, porque o status na sociedade
não decorre simplesmente em função da classe. Tomemos o exemplo de um banqueiro afro-americano de
Wall Street, que não pode conseguir um táxi. Neste caso, a injustiça da falta de reconhecimento tem pouco
a ver com a má distribuição. [...] Reciprocamente, a distribuição não pode se reduzir ao reconhecimento,
porque o acesso aos recursos não decorre simplesmente da função de status. Tomemos, como exemplo,
um trabalhador industrial especializado, que fica desempregado em virtude do fechamento da fábrica em
que trabalha, em vista de uma fusão corporativa especulativa. Neste caso, a injustiça da má distribuição tem
pouco a ver com a falta de reconhecimento. [...] Proponho desenvolver o que chamo concepção bidimensional da justiça. Esta concepção trata da redistribuição e do reconhecimento como perspectivas e dimensões
distintas da justiça. Sem reduzir uma à outra, abarca ambas em um marco mais amplo” (s/d: 55-6).
38
Acrescenta ainda Boaventura:
[...] temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e
temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza.
Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma
diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.
É neste cenário que as Nações Unidas aprovam, em 1965, a Convenção sobre
a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial, ratificada hoje por 167
Estados, dentre eles o Brasil (desde 1968).
Desde seu preâmbulo, esta Convenção assinala que qualquer “doutrina de superioridade baseada em diferenças raciais é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa, inexistindo justificativa para a discriminação
racial, em teoria ou prática, em lugar algum”. Ressalta-se a urgência em se adotar
todas as medidas necessárias para eliminar a discriminação racial em todas as suas
formas e manifestações e para prevenir e combater doutrinas e práticas racistas.
O artigo 1o da Convenção define a discriminação racial como:
[...] qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça,
cor, descendência ou origem nacional ou étnica, que tenha o propósito ou o
efeito de anular ou prejudicar o reconhecimento, gozo ou exercício em pé de
igualdade dos direitos humanos e liberdades fundamentais.
Vale dizer, a discriminação abrange toda distinção, exclusão, restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício, em
igualdade de condições, dos direitos humanos e liberdades fundamentais, nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo. Logo,
a discriminação significa sempre desigualdade.
Esta mesma lógica inspirou a definição de discriminação contra a mulher,
quando da adoção da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, pela ONU, em 1979.
A discriminação ocorre quando somos tratados iguais, em situações diferentes; e como diferentes, em situações iguais.
Como enfrentar a problemática da discriminação?
No âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos, destacam-se
duas estratégias: a) a estratégia repressivo-punitiva (que tem por objetivo punir,
SANTOS, B. de S. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitanismo multicultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. Introdução: para ampliar o cânone do reconhecimento, da diferença e da
igualdade, p. 56.
39
proibir e eliminar a discriminação); b) a estratégia promocional (que tem por objetivo promover, fomentar e avançar a igualdade).
Na vertente repressivo-punitiva, há a urgência em se erradicar todas as formas de discriminação. O combate à discriminação é medida fundamental para que
se garanta o pleno exercício dos direitos civis e políticos, como também dos direitos
sociais, econômicos e culturais.
Se o combate à discriminação é medida emergencial à implementação do direito à igualdade, todavia, por si só, é medida insuficiente. Vale dizer, é fundamental
conjugar a vertente repressivo-punitiva com a vertente promocional.
Faz-se necessário combinar a proibição da discriminação com políticas compensatórias que acelerem a igualdade enquanto processo. Isto é, para assegurar a
igualdade não basta apenas proibir a discriminação, mediante legislação repressiva.
São essenciais as estratégias promocionais capazes de estimular a inserção e inclusão de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais. Com efeito, a igualdade
e a discriminação pairam sob o binômio inclusão-exclusão. Enquanto a igualdade
pressupõe formas de inclusão social, a discriminação implica a violenta exclusão
e a intolerância à diferença e à diversidade. O que se percebe é que a proibição
da exclusão, em si mesma, não resulta automaticamente na inclusão. Logo, não é
suficiente proibir a exclusão, quando o que se pretende é garantir a igualdade de
fato, com a efetiva inclusão social de grupos que sofreram e sofrem um consistente
padrão de violência e discriminação.
Neste sentido, como poderoso instrumento de inclusão social, situam-se as
ações afirmativas. Estas ações constituem medidas especiais e temporárias que, buscando remediar um passado discriminatório, objetivam acelerar o processo de igualdade, com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos vulneráveis, como
as minorias étnicas e raciais, as mulheres, dentre outros grupos.
As ações afirmativas, enquanto políticas compensatórias adotadas para aliviar
e remediar as condições resultantes de um passado discriminatório, cumprem uma
finalidade pública decisiva para o projeto democrático, que é a de assegurar a diversidade e a pluralidade social. Constituem medidas concretas que viabilizam o direito
à igualdade, com a crença de que a igualdade deve se moldar no respeito à diferença
e à diversidade. Através delas transita-se da igualdade formal para a igualdade material e substantiva.
Por estas razões, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Racial prevê, no artigo 1o, parágrafo 4o, a possibilidade de “discri-
40
minação positiva” (a chamada “ação afirmativa”), mediante a adoção de medidas
especiais de proteção ou incentivo a grupos ou indivíduos, com vistas a promover
sua ascensão na sociedade até um nível de equiparação com os demais. As ações
afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que, buscando remediar um
passado discriminatório, objetivam acelerar o processo de igualdade, com o alcance
da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis, como as minorias étnicas e raciais, dentre outros grupos.
Note-se que a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Contra a
Mulher também contempla a possibilidade jurídica de uso das ações afirmativas,
pela qual os Estados podem adotar medidas especiais temporárias, com vistas a
acelerar o processo de igualização de status entre homens e mulheres. Tais medidas
cessarão quando alcançado o seu objetivo. São, portanto, medidas compensatórias
para remediar as desvantagens históricas, aliviando o passado discriminatório sofrido por este grupo social.
Quanto ao prisma racial, importa destacar que o documento oficial brasileiro
apresentado à Conferência das Nação Unidas Contra o Racismo, em Durban, na
África do Sul (31 de agosto a 7 de setembro de 2001), defendeu, do mesmo modo,
a adoção de medidas afirmativas para a população afro-descendente, nas áreas da
educação e trabalho. O documento propôs a adoção de ações afirmativas para garantir o maior acesso de afro-descendentes às universidades públicas, bem como a utilização, em licitações públicas, de um critério de desempate que considere a presença
de afro-descendentes, homossexuais e mulheres, no quadro funcional das empresas
concorrentes. A Conferência de Durban, em suas recomendações, pontualmente
nos seus parágrafos 107 e 108, endossa a importância de os Estados adotarem ações
afirmativas, enquanto medidas especiais e compensatórias voltadas a aliviar a carga
de um passado discriminatório, daqueles que foram vítimas da discriminação racial,
da xenofobia e de outras formas de intolerância correlatas.
No Direito brasileiro, a Constituição Federal de 1988 estabelece importantes
dispositivos que demarcam a busca da igualdade material, que transcende a igualdade
formal. A título de registro, destaque-se o artigo 7o, inciso XX, que trata da proteção
do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, bem como o artigo 37, inciso VII, que determina que a lei reservará percentual de cargos e empregos
públicos para as pessoas portadoras de deficiência. Acrescente-se ainda a chamada “Lei
das cotas” de 1995 (Lei no 9.100/95), que obrigou que ao menos 20% dos cargos
para as candidaturas às eleições municipais fossem reservados às mulheres. Adicione-se
também o Programa Nacional de Direitos Humanos, que faz expressa alusão às polí-
41
ticas compensatórias, prevendo como meta o desenvolvimento de ações afirmativas em
favor de grupos socialmente vulneráveis. Some-se, ademais, o Programa de Ações Afirmativas na Administração Pública Federal e a adoção de cotas para afro-descendentes
em Universidades – como é o caso da UERJ, UNEB, UnB, UFPR, dentre outras.
Ora, se a raça e etnia sempre foram critérios utilizados para exclusão de afrodescendentes em nosso país, que sejam hoje utilizados, ao revés, para a sua necessária inclusão.
Na esfera universitária, por exemplo, dados do IPEA revelam que menos de
2% dos estudantes afro-descendentes estão em universidades públicas ou privadas.
Isto faz com que as universidades sejam territórios brancos. Note-se que a universidade é um espaço de poder, já que o diploma pode ser um passaporte para ascensão
social. É fundamental democratizar o poder e, para isto, há que se democratizar o
acesso ao poder, vale dizer, o acesso ao passaporte universitário.
Em um país em que os afro-descendentes são 64% dos pobres e 69% dos
indigentes (dados do IPEA), em que no índice de desenvolvimento humano geral (IDH, 2000) o país figura em 74o lugar, mas que, sob o recorte étnico-racial,
o IDH relativo à população afro-descendente indica a 108o posição (enquanto o
IDH relativo à população branca indica a 43o posição), faz-se necessária a adoção
de ações afirmativas em benefício da população afro-descendente, em especial nas
áreas da educação e do trabalho. Quanto ao trabalho, o “Mapa da População Negra
no Mercado de Trabalho”, documento elaborado pelo INSPIR (Instituto Sindical
Interamericano pela Igualdade Racial) em convênio com o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos), em 1999, demonstra
que o(a) trabalhador(a) afro-descendente(a) convive mais intensamente com o desemprego; ocupa os postos de trabalho mais precários ou vulneráveis em relação aos
não afro-descendentes; tem mais instabilidade no emprego; está mais presente no
“chão da fábrica” ou na base da produção; apresenta níveis de instrução inferiores
aos dos trabalhadores não afro-descendentes e tem uma jornada do trabalho maior
do que a do trabalhador não afro-descendente.
Há ainda que se endossar a complexa realidade brasileira, que traduz um
alarmante quadro de exclusão social e discriminação, como termos interligados a
compor um círculo vicioso, em que a exclusão implica discriminação e a discriminação implica exclusão.
Nesse cenário, as ações afirmativas surgem como medida urgente e necessária.
Tais ações encontram amplo respaldo jurídico, seja na Constituição (ao assegurar
a igualdade material, prevendo ações afirmativas para outros grupos socialmente
vulneráveis), seja nos tratados internacionais ratificados pelo Brasil.
42
A experiência no Direito Comparado (em particular a do Direito norteamericano) comprova que as ações afirmativas proporcionam maior igualdade, na
medida em que asseguram maior possibilidade de participação de grupos sociais
vulneráveis nas instituições públicas e privadas. A respeito, a Plataforma de Ação de
Beijing, de 1995, afirma, em seu parágrafo 187, que em alguns países a adoção da
ação afirmativa tem garantido a representação de 33,3% (ou mais) de mulheres em
cargos da Administração nacional ou local.
Logo, estas ações constituem relevantes medidas para a implementação do
direito à igualdade. Faz-se, assim, emergencial a adoção de ações afirmativas, que
promovam medidas compensatórias voltadas à concretização da igualdade racial.
Quais as perspectivas e desafios para a implementação
da igualdade étnico-racial na ordem contemporânea?
A implementação do direito à igualdade é tarefa fundamental à qualquer
projeto democrático, já que em última análise a democracia significa a igualdade – a
igualdade no exercício dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais.
A busca democrática requer fundamentalmente o exercício, em igualdade de condições, dos direitos humanos elementares.
Se a democracia se confunde com a igualdade, a implementação do direito à
igualdade, por sua vez, impõe tanto o desafio de eliminar toda e qualquer forma de
discriminação, como o desafio de promover a igualdade.
Para a implementação do direito à igualdade, é decisivo que se intensifiquem
e se aprimorem ações em prol do alcance dessas duas metas que, por serem indissociáveis, hão de ser desenvolvidas de forma conjugada. Há assim que se combinar
estratégias repressivas e promocionais, que propiciem a implementação do direito à
igualdade. Reitere-se que a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Racial, ratificada hoje por mais de 167 Estados (entre eles o Brasil),
aponta esta dupla vertente: a) a repressivo-punitiva (concernente à proibição e à
eliminação da discriminação racial) e b) a promocional (concernente à promoção
da igualdade). Vale dizer, os Estados-Parte assumem não apenas o dever de adotar
medidas que proíbam a discriminação racial, mas, também, o dever de promover a
igualdade, mediante a implementação de medidas especiais e temporárias, que acelerem o processo de construção da igualdade racial.
Sob a perspectiva racial, considerando as especificidades do Brasil, que é o
segundo país do mundo com o maior contingente populacional afro-descendente
43
(45% da população brasileira, perdendo apenas para a Nigéria), tendo sido, contudo,
o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão, faz-se emergencial a adoção
de medidas eficazes para romper com o legado de exclusão étnico-racial, que compromete não só a plena vigência dos direitos humanos, mas a própria democracia no
país -- sob pena de termos democracia sem cidadania.
Se no início este texto acentuava que os direitos humanos não são um elemento dado, mas construído, enfatiza-se agora que a violação desses direitos também o
é. Isto é, as violações, as exclusões, as discriminações, as intolerâncias, os racismos, as
injustiças raciais são um construído histórico, a ser urgentemente desconstruído, sendo emergencial a adoção de medidas eficazes para romper com o legado de exclusão
étnico-racial. Há que se enfrentar essas amarras, mutiladoras do protagonismo, da
cidadania e da dignidade da população afro-descendente. Destacam-se, neste sentido,
as palavras de Abdias do Nascimento, ao apontar para a necessidade da
[...] inclusão do povo afro-brasileiro, um povo que luta duramente há cinco
séculos no país, desde os seus primórdios, em favor dos direitos humanos. É o
povo cujos direitos humanos foram mais brutalmente agredidos ao longo da
história do país: o povo que durante séculos não mereceu nem o reconhecimento de sua própria condição humana.
A implementação do direito à igualdade racial há de ser um imperativo ético-político-social, capaz de enfrentar o legado discriminatório que tem
negado à metade da população brasileira o pleno exercício de seus direitos e
liberdades fundamentais.
44
Referências
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Documentário, 1979.
BOBBIO, Norberto. Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1988.
FRASER, Nancy. Redistribuición, reconocimiento y participación: hacia un
concepto integrado de la justicia. In: UNESCO. Informe Mundial sobre la Cultura
– 2000-2001. s/d.
LAFER, Celso. A Reconstrução dos Direitos Humanos: um diálogo com o
pensamento da Hannah Arendt. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
PAIXÃO, Marcelo. Brasil 2000 – novos marcos para as relações raciais.
ROSAS, Allan. So-Called rights of third generation. In: EIDE, Asbojorn;
KRALISE, Catarina; ROSAS, Allan. Economic, Social and Cultural Rights.
Dordrecht, Boston, Londres: Martins Nijhoff Publisher, 1995.
SACHS, Ignacy. Desenvolvimento, Direitos Humanos e Cidadania. In: Direitos
Humanos no Século XXI, 1998.
SANTOS, Boaventura de Souza. Reconhecer para libertar: os caminhos do
cosmopolitanismo multicultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
UNITED NATIONS Development Program. Human Development Report 2003.
New York / Oxford University Press, 2003.
45
A Recepção do
Instituto da Ação
Afirmativa pelo
Direito
Constitucional
Brasileiro*
Joaquim B. Barbosa Gomes
D
emorou, mas finalmente foi dada a partida! O Direito Constitucional
brasileiro começa a discutir, com um certo atraso, é bem verdade, as
chamadas “questões de sociedade”. O pontapé inicial foi dado pelo Supremo Tribunal Federal, na histórica decisão em que se debateu acerca
do crime de racismo. Outra questão de grande impacto social é a que se refere às
medidas compensatórias, mais particularmente às denominadas ações afirmativas,
destinadas a promover a implementação do princípio constitucional da igualdade
material. Poderoso instrumento jurídico, sua aplicação em prol da comunidade negra tem sido objeto das mais acirradas controvérsias políticas, sociais e jurídicas.
O tema é de transcendental importância para o Brasil, por ter incidência
direta sobre aquele que é seguramente o mais grave de todos os nossos problemas
sociais, o que está na raiz das nossas mazelas, do nosso gritante e envergonhador
quadro social. Trata-se dos diversos mecanismos pelos quais, ao longo da nossa
história, a sociedade brasileira logrou proceder, através das mais variadas formas de
discriminação, à exclusão e ao alijamento, do processo produtivo conseqüente e da
vida social digna, de um expressivo percentual de sua população (cerca de 45% do
total): os brasileiros portadores de ascendência africana.
* Uma versão anterior deste artigo foi publicado em Santos e Lobato (2003).
HC 82.424. Relator: Min. Moreira Alves. Redator para o Acórdão: Min. Maurício Corrêa. Tribunal Pleno. DJ
30/09/2003.
Assim, neste despretensioso ensaio tentaremos examinar a possibilidade jurídica de introdução, no nosso sistema jurídico, de mecanismos de integração social
largamente adotados nos Estados Unidos sob a denominação de affirmative action
(ação afirmativa) e na Europa, sob o nome de discrimination positive (discriminação
positiva) e de action positive (ação positiva).
Ação afirmativa e princípio da Igualdade
A noção de igualdade, como categoria jurídica de primeira grandeza, teve sua
emergência como princípio jurídico incontornável nos documentos constitucionais
promulgados imediatamente após as revoluções do final do século XVIII. Com efeito, foi a partir das experiências revolucionárias pioneiras dos EUA e da França que se
edificou o conceito de igualdade perante a lei, uma construção jurídico-formal segundo a qual a lei, genérica e abstrata, deve ser igual para todos, sem qualquer distinção
ou privilégio, devendo o aplicador fazê-la incidir de forma neutra sobre as situações
jurídicas concretas e sobre os conflitos interindividuais. Concebida para o fim específico de abolir os privilégios típicos do ancien régime e para dar cabo às distinções e
discriminações baseadas na linhagem, no rank, na rígida e imutável hierarquização
social por classes (classement par ordre), essa clássica concepção de igualdade jurídica,
meramente formal, firmou-se como idéia-chave do constitucionalismo que floresceu
no século XIX e prosseguiu sua trajetória triunfante por boa parte do século XX. Por
definição, conforme bem assinalado por Guilherme Machado Dray,
[...] o princípio da igualdade perante a lei consistiria na simples criação de um
espaço neutro, onde as virtudes e as capacidades dos indivíduos livremente se
poderiam desenvolver. Os privilégios, em sentido inverso, representavam nesta
perspectiva a criação pelo homem de espaços e de zonas delimitadas, susceptíveis de criarem desigualdades artificiais e nessa medida intoleráveis.
Em suma, segundo esse conceito de igualdade, que veio a dar sustentação
jurídica ao Estado liberal burguês, a lei deve ser igual para todos, sem distinções de
qualquer espécie. Abstrata por natureza e levada a extremos por força do postulado
da neutralidade estatal (uma outra noção cara ao ideário liberal), o princípio da
igualdade perante a lei foi tido, durante muito tempo, como a garantia da concretização da liberdade. Para os pensadores e teóricos da escola liberal, bastaria a simples
inclusão da igualdade no rol dos direitos fundamentais para que a mesma fosse
efetivamente assegurada no sistema constitucional.
Veja-se a bem elaborada e exaustiva monografia de DRAY, Guilherme Machado. O Princípio da Igualdade
no Direito do Trabalho (1999).
48
A experiência e os estudos de direito e política comparada, contudo, têm
demonstrado que, tal como construída, à luz da cartilha liberal oitocentista, a igualdade jurídica não passa de mera ficção. “Paulatinamente, porém”, sustenta o jurista
português Guilherme Machado Dray,
[...] a concepção de uma igualdade puramente formal, assente no princípio
geral da igualdade perante a lei, começou a ser questionada, quando se constatou que a igualdade de direitos não era, por si só, suficiente para tornar acessíveis a quem era socialmente desfavorecido as oportunidades de que gozavam
os indivíduos socialmente privilegiados. Importaria, pois, colocar os primeiros
ao mesmo nível de partida. Em vez de igualdade de oportunidades, importava
falar em igualdade de condições.
Imperiosa, portanto, seria a adoção de uma concepção substancial de igualdade, que levasse em conta em sua operacionalização não apenas certas condições
fáticas e econômicas, mas também certos comportamentos inevitáveis da convivência humana, como é o caso da discriminação. Assim, assinala a ilustre Professora de
Minas Gerais, Carmen Lucia Antunes Rocha,
[...] concluiu-se, então, que proibir a discriminação não era bastante para se
ter a efetividade do princípio da igualdade jurídica. O que naquele modelo se tinha e se tem é tão-somente o princípio da vedação da desigualdade,
ou da invalidade do comportamento motivado por preconceito manifesto ou
comprovado (ou comprovável), o que não pode ser considerado o mesmo que
garantir a igualdade jurídica. (ROCHA, 1996: 86).
Como se vê, em lugar da concepção “estática” de igualdade, extraída das revoluções francesa e americana, cuida-se, nos dias atuais, de se consolidar a noção de
igualdade material ou substancial, que, longe de se apegar ao formalismo e à abstração da concepção igualitária do pensamento liberal oitocentista, recomenda, inversamente, uma noção “dinâmica”, “militante” de igualdade, na qual necessariamente
são devidamente pesadas e avaliadas as desigualdades concretas existentes na sociedade, de sorte que as situações desiguais sejam tratadas de maneira dessemelhante,
evitando-se assim o aprofundamento e a perpetuação de desigualdades engendradas
pela própria sociedade. Produto do Estado Social de Direito, a igualdade substancial
ou material propugna redobrada atenção por parte do legislador e dos aplicadores
do Direito à variedade das situações individuais e de grupo, de modo a impedir que
o dogma liberal da igualdade formal impeça ou dificulte a proteção e a defesa dos
interesses das pessoas socialmente fragilizadas e desfavorecidas.
49
Na transição da ultrapassada noção desigualdade “estática” ou “formal” ao
novo conceito de igualdade “substancial”, surge a idéia de “igualdade de oportunidades”, noção justificadora de diversos experimentos constitucionais pautados na
necessidade de se extinguir ou de pelo menos mitigar o peso das desigualdades
econômicas e sociais e, conseqüentemente, de promover a justiça social.
Dessa nova visão resultou o surgimento, em diversos ordenamentos jurídicos
nacionais e na esfera do Direito Internacional dos Direitos Humanos, de políticas
sociais de apoio e de promoção de determinados grupos socialmente fragilizados. Vale
dizer, da concepção liberal de igualdade, que capta o ser humano em sua conformação abstrata, genérica, o Direito passa a percebê-lo e a tratá-lo em sua especificidade,
como ser dotado de características singularizantes. No dizer de Flávia Piovesan,
[...] do ente abstrato, genérico, destituído de cor, sexo, idade, classe social, dentre
outros critérios, emerge o sujeito de direito concreto, historicamente situado,
com especificidades e particularidades. Daí apontar-se não mais ao indivíduo
genérica e abstratamente considerado, mas ao indivíduo “especificado”, considerando-se categorizações relativas ao gênero, idade, etnia, raça, etc. (1998: 130).
O “indivíduo especificado”, portanto, será o alvo dessas novas políticas sociais.
A essas políticas sociais, que nada mais são do que tentativas de concretização da
igualdade substancial ou material, dá-se a denominação de “ação afirmativa” ou, na
terminologia do direito europeu, de “discriminação positiva” ou “ação positiva”.
A consagração normativa dessas políticas sociais representa, pois, um momento de ruptura na evolução do Estado moderno. Com efeito, como bem assinala
a Professora Carmen Lúcia Antunes Rocha,
[...] em nenhum Estado Democrático, até a década de 60, e em quase nenhum
até esta última década do século XX se cuidou de promover a igualação e vencerem-se os preconceitos por comportamentos estatais e particulares obrigatórios pelos quais se superassem todas as formas de desigualação injusta. Os negros, os pobres, os marginalizados pela raça, pelo sexo, por opção religiosa, por
condições econômicas inferiores, por deficiências físicas ou psíquicas, por idade
etc. continuam em estado de desalento jurídico em grande parte do mundo.
Inobstante a garantia constitucional da dignidade humana igual para todos, da
liberdade igual para todos, não são poucos os homens e mulheres que continu Vejam-se especialmente a Convenção da ONU sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação
Racial (1965); a Convenção da ONU sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a
Mulher (1979); o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966); o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966).
50
am sem ter acesso às iguais oportunidades mínimas de trabalho, de participação política, de cidadania criativa e comprometida, deixados que são à margem
da convivência social, da experiência democrática na sociedade política.
Nessa nova postura o Estado abandona a sua tradicional posição de neutralidade e de mero espectador dos embates que se travam no campo da convivência
entre os homens e passa a atuar “ativamente na busca” da concretização da igualdade positivada nos textos constitucionais.
O país pioneiro na adoção das políticas sociais denominadas “ações afirmativas”
foi como é sabido, os Estados Unidos da América. Tais políticas foram concebidas
inicialmente como mecanismos tendentes a solucionar aquilo que um célebre autor
escandinavo qualificou de “o dilema americano”: a marginalização social e econômica
do negro na sociedade americana. Posteriormente, elas foram estendidas às mulheres,
a outras minorias étnicas e nacionais, aos índios e aos portadores de deficiência.
As ações afirmativas se definem como políticas públicas (e privadas) voltadas
à concretização do princípio constitucional da igualdade material e à neutralização
dos efeitos da discriminação racial, de gênero, de idade, de origem nacional e de
compleição física. Na sua compreensão, a igualdade deixa de ser simplesmente um
princípio jurídico a ser respeitado por todos, e passa a ser um objetivo constitucional
a ser alcançado pelo Estado e pela sociedade. Segundo Renauld,
Il semble clair que les discriminations positives invitent à penser l’égalité comme un
objectif à atteindre en soi. Le simple constat que nos sociétés génèrent encore de nom-
breuses inégalités de traitement devrait dès lors inciter les pouvoirs publics comme les
acteurs privés à adopter et à mettre en oeuvre des mesures susceptibles de crééer ou de
mener à plus d’égalité (1997: 425).
Impostas ou sugeridas pelo Estado, por seus entes vinculados e até mesmo
por entidades puramente privadas, elas visam a combater não somente as manifestações flagrantes de discriminação, mas também a discriminação de fato, de fundo
cultural, estrutural, enraizada na sociedade. De cunho pedagógico e não raramente
impregnadas de um caráter de exemplaridade, têm como meta, também, o engendramento de transformações culturais e sociais relevantes, aptas a inculcar nos atores sociais a utilidade e a necessidade da observância dos princípios do pluralismo e
da diversidade nas mais diversas esferas do convívio humano. Por outro lado, cons “Parece claro que as discriminações positivas nos convidam a pensar a igualdade como um objetivo em
si. A simples constatação de que nossas sociedades ainda produzem numerosas desigualdades de tratamento deveria a partir de então incitar os poderes públicos e atores privados a adotar e acionar medidas
suscetíveis de conduzir à maior igualdade”.(Tradução livre de Tânia Ludmila Dias Tosta).
51
tituem, por assim dizer, a mais eloqüente manifestação da moderna idéia de Estado
promovente, atuante, eis que de sua concepção, implantação e delimitação jurídica
participam todos os órgãos estatais essenciais, aí se incluindo o Poder Judiciário, que
ora se apresenta no seu tradicional papel de guardião da integridade do sistema jurídico como um todo e especialmente dos direitos fundamentais, ora como instituição
formuladora de políticas tendentes a corrigir as distorções provocadas pela discriminação. Trata-se, em suma, de um mecanismo sócio-jurídico destinado a viabilizar
primordialmente a harmonia e a paz social, que são seriamente perturbadas quando
um grupo social expressivo se vê à margem do processo produtivo e dos benefícios do progresso, bem como a robustecer o próprio desenvolvimento econômico
do país, na medida em que a universalização do acesso à educação e ao mercado
de trabalho tem como conseqüência inexorável o crescimento macroeconômico, a
ampliação generalizada dos negócios, numa palavra, o crescimento do país como
um todo. Nesse sentido, não se deve perder de vista o fato de que a história universal não registra, na era contemporânea, nenhum exemplo de nação que tenha se
erguido de uma condição periférica à de potência econômica e política, digna de
respeito na cena política internacional, mantendo no plano doméstico uma política
de exclusão, aberta ou dissimulada, legal ou meramente informal, em relação a uma
parcela expressiva de seu povo.
As ações afirmativas constituem, pois, um remédio de razoável eficácia para
esses males. É indispensável, porém, uma ampla conscientização da própria sociedade e das lideranças políticas de maior expressão acerca da absoluta necessidade de
se eliminar ou de se reduzir as desigualdades sociais que operam em detrimento das
minorias, notadamente as minorias raciais. E mais: é preciso uma ampla conscientização sobre o fato de que a marginalização sócio-econômico a que são relegadas as
minorias, especialmente as raciais, resulta de um único fenômeno: a discriminação.
Com efeito, a discriminação, como um componente indissociável do relacionamento entre os seres humanos, reveste-se inegavelmente de uma roupagem
competitiva. Afinal, discriminar nada mais é do que uma tentativa de se reduzirem
as perspectivas de uns em benefício de outros. Quanto mais intensa a discriminação e mais poderosos os mecanismos inerciais que impedem o seu combate, mais
ampla se mostra a clivagem entre discriminador e discriminado. Daí resulta, ine A esse respeito, confira-se a definição de discriminação extraída da decisão “Andrews”, proferida pela
Corte Suprema do Canadá: “[discrimination] est une distinction, intentionnelle ou non, mais fondée sur des
motifs relatifs à des caractéristiques personnelles d’un individu ou d’un groupe d’individus, qui a pour effet
d’imposer à cet individu ou à ce groupe des fardeaux, des obligations ou des désavantages non imposés à
d’autres ou d’empêcher ou de restreindre l’accès aux possibilités, aux bénéfices et aux avantages offerts à
d’autres membres de la société” (Corte Suprema do Canadá, Andrews v. Law Society of British Columbia,
2-2-89, RCS, p. 143, Dominion Law Reports, 56, 4d, p. 1).
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vitavelmente, que aos esforços de uns em prol da concretização da igualdade se
contraponham os interesses de outros na manutenção do status quo. É crucial, pois,
que as ações afirmativas, mecanismo jurídico concebido com vistas a quebrar essa
dinâmica perversa, sofram o influxo dessas forças contrapostas e atraiam considerável resistência, sobretudo da parte daqueles que historicamente se beneficiaram da
exclusão dos grupos socialmente fragilizados.
Ao Estado cabe, assim, a opção entre duas posturas distintas: manter-se firme na posição de neutralidade, e permitir a total subjugação dos grupos sociais
desprovidos de voz, de força política, de meios de fazer valer os seus direitos; ou, ao
contrário, atuar ativamente no sentido da mitigação das desigualdades sociais que,
como é de todos sabido, têm como público alvo precisamente as minorias raciais,
étnicas, sexuais e nacionais.
Com efeito, a sociedade liberal-capitalista ocidental tem como uma de suas
idéias-chave a noção de neutralidade estatal, que se expressa de diversas maneiras:
neutralidade em matéria econômica, no domínio espiritual e na esfera íntima das
pessoas. Na maioria das nações pluriétnicas e pluriconfessionais, o abstencionismo
estatal se traduz na crença de que a mera introdução, nos respectivos textos constitucionais, de princípios e regras asseguradores de uma igualdade formal perante a
lei, seria suficiente para garantir a existência de sociedades harmônicas, onde seria
assegurada a todos, independentemente de raça, credo, gênero ou origem nacional,
efetiva igualdade de acesso ao que comumente se tem como conducente ao bemestar individual e coletivo. Esta era, como já dito, a visão liberal derivada das idéias
iluministas que conduziram às revoluções políticas do século XVIII.
Mas essa suposta neutralidade estatal tem-se revelado um formidável fracasso, especialmente nas sociedades que durante muitos séculos mantiveram certos
grupos ou categorias de pessoas em posição de subjugação legal, de inferioridade
legitimada pela lei, em suma, em países com longo passado de escravidão. Nesses
países, apesar da existência de inumeráveis disposições normativas constitucionais
e legais, muitas delas instituídas com o objetivo explícito de fazer cessar o status de
inferioridade em que se encontravam os grupos sociais historicamente discriminados, passaram-se os anos (e séculos) e a situação desses grupos marginalizados
pouco ou quase nada mudou (FREEMAN, 1978).
Tal estado de coisas conduz a duas constatações indisputáveis. Em primeiro
lugar, à convicção de que proclamações jurídicas por si sós, sejam elas de natureza
constitucional ou de inferior posicionamento na hierarquia normativa, não são suficientes para reverter um quadro social que finca âncoras na tradição cultural de
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cada país, no imaginário coletivo, em suma, na percepção generalizada de que a uns
devem ser reservados papéis de franca dominação e a outros, papéis indicativos do
status de inferioridade, de subordinação. Em segundo lugar, ao reconhecimento de
que a reversão de um tal quadro só é viável mediante a renúncia do Estado à sua
histórica neutralidade em questões sociais, devendo assumir, ao revés, uma posição
ativa, até mesmo radical, se vista à luz dos princípios norteadores da sociedade liberal clássica.
Desse imperativo de atuação ativa do Estado nasceram as ações afirmativas,
concebidas inicialmente nos Estados Unidos da América, mas hoje já adotadas em
diversos países europeus, asiáticos e africanos, com as adaptações necessárias à situação de cada país e . O Brasil, país com a mais longa história de escravidão das
Américas e com uma inabalável tradição patriarcal, mal começa a admitir, pelo menos em nível acadêmico, a discussão do tema.
Definição e objetivos das ações afirmativas
A introdução das políticas de ação afirmativa, criação pioneira do Direito dos
EUA, representou, em essência, a mudança de postura do Estado, que em nome de
uma suposta neutralidade, aplicava suas políticas governamentais indistintamente,
ignorando a importância de fatores como sexo, raça, cor, origem nacional. Nessa
nova postura, passa o Estado a levar em conta tais fatores no momento de contratar
seus funcionários ou de regular a contratação por outrem, ou ainda no momento
de regular o acesso aos estabelecimentos educacionais públicos e privados. Numa
palavra, ao invés de conceber políticas públicas de que todos seriam beneficiários,
independentemente da sua raça, cor ou sexo, o Estado passa a levar em conta esses
fatores na implementação das suas decisões, não para prejudicar quem quer que seja,
mas para evitar que a discriminação, que inegavelmente tem um fundo histórico e
cultural, e não raro se subtrai ao enquadramento nas categorias jurídicas clássicas,
termine por perpetuar as iniqüidades sociais.
V. Bergmann (1996); Eastland (1996); Caplan (1997); Rosenfeld (1991); Urofsky (1991); Bowen, Bok (1998);
Gunther, Sullivan (1997); Tribe (1988); Lockhart, Kamisar, Choper, Shiffrin (1995); O’Brien (1997); Carter
(1991); Crenshaw, Gotanda, Peller, Thomas (1995); Harris, Narayan (1994); Hellman (1998); Higginbotham, Jr. (1996); Issacharoff (s/d); Kostka (1996); Liu (1998); Reskin (1998); Abraham (s/d); Strum, Guinier
(1996); Stephanopoulos, Edly, Jr. (1995); Mishkin (s/d); Beaud (1984); Shmidt (1987).
Para um tratamento da questão de minorias na perspectiva do Direito Internacional, veja-se Wucher (1999).
V. Carmen Lúcia Antunes Rocha (1996), Ação Afirmativa – o Conteúdo Democrático do Princípio da Igualdade Jurídica. Vejam-se, igualmente, numa perspectiva mais ampla, a excelente obra A Constituição Aberta e Atualidades dos Direitos Fundamentais do Homem, de Carlos Roberto de Siqueira Castro (2003); de
Wania Sant’Anna e Marcello Paixão, Muito Além da Senzala: Ação Afirmativa no Brasil; e de Flávia Beatriz
Eckhardt da Silva, A Isonomia Constitucional e a Efetivação dos Direitos das Mulheres no Brasil. Ações
Afirmativas sob a Perspectiva de Gênero. Dissertação de Mestrado ainda não publicada (2003).
54
Definição
Inicialmente, as ações afirmativas se definiam como um mero “encorajamento”, por parte do Estado, a que as pessoas com poder decisório nas áreas pública
e privada levassem em consideração, nas suas decisões relativas a temas sensíveis
como o acesso à educação e ao mercado de trabalho, fatores até então tidos como
formalmente irrelevantes pela grande maioria dos responsáveis políticos e empresariais, quais sejam: a raça, a cor, o sexo e a origem nacional das pessoas. Tal encorajamento tinha por meta, tanto quanto possível, ver concretizado o ideal de que
tanto as escolas quanto as empresas refletissem em sua composição a representação
de cada grupo na sociedade ou no respectivo mercado de trabalho.
Num segundo momento, talvez em decorrência da constatação da ineficácia
dos procedimentos clássicos de combate à discriminação, deu-se início a um processo de alteração conceitual do instituto, que passou a ser associado à idéia, mais
ousada, de realização da igualdade de oportunidades através da imposição de cotas
rígidas de acesso de representantes de minorias a determinados setores do mercado
de trabalho e a instituições educacionais. Data também desse período a vinculação
entre ação afirmativa e o atingimento de certas metas estatísticas concernentes à
presença de negros e mulheres num determinado setor do mercado de trabalho ou
numa determinada instituição de ensino (GLAZER, 1991).
Atualmente, as ações afirmativas podem ser definidas como um conjunto de políticas públicas e privadas de caráter compulsório, facultativo ou voluntário, concebidas
com vistas ao combate à discriminação racial, de gênero, por deficiência física e de origem nacional, bem como para corrigir ou mitigar os efeitos presentes da discriminação
praticada no passado, tendo por objetivo a concretização do ideal de efetiva igualdade
de acesso a bens fundamentais como a educação e o emprego. Diferentemente das
políticas governamentais antidiscriminatórias baseadas em leis de conteúdo meramente proibitivo, que se singularizam por oferecerem às respectivas vítimas tão somente
instrumentos jurídicos de caráter reparatório e de intervenção ex post facto, as ações
afirmativas têm natureza multifacetária (RESKIN, apud HERINGER, 1999), e visam
a evitar que a discriminação se verifique nas formas usualmente conhecidas – isto é,
formalmente, por meio de normas de aplicação geral ou específica, ou através de mecanismos informais, difusos, estruturais, enraizados nas práticas culturais e no imaginário
coletivo. Em síntese, trata-se de políticas e de mecanismos de inclusão concebidos por
entidades públicas, privadas e por órgãos dotados de competência jurisdicional, com
vistas à concretização de um objetivo constitucional universalmente reconhecido – o da
efetiva igualdade de oportunidades a que todos os seres humanos têm direito.
55
Entre os teóricos do Direito Público no Brasil, coube à ilustre professora
Carmen Lúcia Antunes Rocha o desafio de traduzir para a comunidade jurídica
brasileira, em sublime artigo, a mais completa noção acerca do enquadramento jurídico-doutrinário das ações afirmativas. Classificando-as corretamente como a mais
avançada tentativa de concretização do princípio jurídico da igualdade, ela afirma
com propriedade que:
[..] a definição jurídica objetiva e racional da desigualdade dos desiguais, histórica e culturalmente discriminados, é concebida como uma forma para se
promover a igualdade daqueles que foram e são marginalizados por preconceitos encravados na cultura dominante na sociedade. Por esta desigualação
positiva promove-se a igualação jurídica efetiva; por ela afirma-se uma fórmula
jurídica para se provocar uma efetiva igualação social, política, econômica no
e segundo o Direito, tal como assegurado formal e materialmente no sistema
constitucional democrático. A ação afirmativa é, então, uma forma jurídica
para se superar o isolamento ou a diminuição social a que se acham sujeitas as
minorias (ROCHA, 1996).
Essa engenhosa criação jurídico-político-social refletiria ainda, segundo a autora, uma “mudança comportamental dos juízes constitucionais de todo o mundo
democrático do pós-guerra”, que teriam se conscientizado da necessidade de uma:
[...] transformação na forma de se conceberem e aplicarem os direitos, especialmente aqueles listados entre os fundamentais. Não bastavam as letras formalizadoras das garantias prometidas; era imprescindível instrumentalizaremse as promessas garantidas por uma atuação exigível do Estado e da sociedade.
Na esteira desse pensamento, pois, é que a ação afirmativa emergiu como a
face construtiva e construtora do novo conteúdo a ser buscado no princípio
da igualdade jurídica. O Direito Constitucional, posto em aberto, mutante e
mutável para se fazer permanentemente adequado às demandas sociais, não
podia persistir no conceito estático de um direito de igualdade pronto, realizado segundo parâmetros históricos eventualmente ultrapassados.
E prossegue a ilustre autora:
O conteúdo, de origem bíblica, de tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida em que se desigualam – sempre lembrado como
sendo a essência do princípio da igualdade jurídica – encontrou uma nova interpretação no acolhimento jurisprudencial concernente à ação afirmativa.
Segundo essa nova interpretação, a desigualdade que se pretende e se
56
necessita impedir para se realizar a igualdade no Direito não pode ser
extraída, ou cogitada, apenas no momento em que se tomam as pessoas
postas em dada situação submetida ao Direito, senão que se deve atentar para a igualdade jurídica a partir da consideração de toda a dinâmica histórica da sociedade, para que se focalize e se retrate não apenas
um instante da vida social, aprisionada estaticamente e desvinculada da
realidade histórica de determinado grupo social. Há que se ampliar o
foco da vida política em sua dinâmica, cobrindo espaço histórico que
se reflita ainda no presente, provocando agora desigualdades nascentes
de preconceitos passados, e não de todo extintos. A discriminação de
ontem pode ainda tingir a pele que se vê de cor diversa da que predomina entre os que detêm direitos e poderes hoje.
Objetivos das Ações Afirmativas
Em regra geral, justifica-se a adoção das medidas de ação afirmativa com
o argumento de que esse tipo de política social seria apta a atingir uma série de
objetivos que restariam normalmente inalcançados caso a estratégia de combate
à discriminação se limitasse à adoção, no campo normativo, de regras meramente
proibitivas de discriminação. Numa palavra, não basta proibir, é preciso também
promover, tornando rotineira a observância dos princípios da diversidade e do pluralismo, de tal sorte que se opere uma transformação no comportamento e na mentalidade coletiva, que são, como se sabe, moldados pela tradição, pelos costumes, em
suma, pela história.
Assim, além do ideal de concretização da igualdade de oportunidades, figuraria entre os objetivos almejados com as políticas afirmativas o de induzir transformações de ordem cultural, pedagógica e psicológica, aptas a subtrair do imaginário
coletivo a idéia de supremacia e de subordinação de uma raça em relação à outra,
do homem em relação à mulher. O elemento propulsor dessas transformações seria,
assim, o caráter de exemplaridade de que se revestem certas modalidades de ação
afirmativa, cuja eficácia como agente de transformação social poucos até hoje ousaram negar. Ou seja, de um lado essas políticas simbolizariam o reconhecimento
oficial da persistência e da perenidade das práticas discriminatórias e da necessidade
de sua eliminação. De outro, elas teriam também por meta atingir objetivos de natureza cultural, eis que delas inevitavelmente resultam a trivialização, a banalização,
na polis, da necessidade e da utilidade de políticas públicas voltadas à implantação
do pluralismo e da diversidade.
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Por outro lado, as ações afirmativas têm como objetivo não apenas coibir a discriminação do presente, mas sobretudo eliminar os “efeitos persistentes” (psicológicos,
culturais e comportamentais) da discriminação do passado, que tendem a se perpetuar. Esses efeitos se revelam na chamada “discriminação estrutural”, espelhada nas
abismais desigualdades sociais entre grupos dominantes e grupos marginalizados.
Figura também como meta das ações afirmativas a implantação de uma certa
“diversidade” e de uma maior “representatividade” dos grupos minoritários nos mais
diversos domínios de atividade pública e privada. Partindo da premissa de que tais
grupos normalmente não são representados em certas áreas ou são sub-representados
seja em posições de mando e prestígio no mercado de trabalho e nas atividades estatais, seja nas instituições de formação que abrem as portas ao sucesso e às realizações
individuais, as políticas afirmativas cumprem o importante papel de cobrir essas lacunas, fazendo com que a ocupação das posições do Estado e do mercado de trabalho se
faça, na medida do possível, em maior harmonia com o caráter plúrimo da sociedade.
Nesse sentido, o efeito mais visível dessas políticas, além do estabelecimento da diversidade e representatividade propriamente ditas, é o de eliminar as “barreiras artificiais
e invisíveis” que emperram o avanço de negros e mulheres, independentemente da
existência ou não de política oficial tendente a subalternizá-los.
Argumenta-se igualmente que o pluralismo que se instaura em decorrência
das ações afirmativas traria inegáveis benefícios para os próprios países que se definem como multirraciais e que assistem, a cada dia, ao incremento do fenômeno do
multiculturalismo. Para esses países, constituiria um erro estratégico inadmissível
deixar de oferecer oportunidades efetivas de educação e de trabalho a certos segmentos da população, pois isto pode revelar-se, em médio prazo, altamente prejudicial à competitividade e à produtividade econômica do país. Portanto, agir “afirmativamente” seria também uma forma de zelar pela pujança econômica do país.
Por fim, as ações afirmativas cumpririam o objetivo de criar as chamadas
personalidades emblemáticas. Noutras palavras, além das metas acima mencionadas,
elas constituiriam um mecanismo institucional de criação de exemplos vivos de mobilidade social ascendente. Vale dizer, os representantes de minorias que, por terem
alcançado posições de prestígio e poder, serviriam de exemplo às gerações mais
jovens, que veriam em suas carreiras e realizações pessoais a sinalização de que não
haveria, quando chegada a sua vez, obstáculos intransponíveis à realização de seus
sonhos e à concretização de seus projetos de vida. Em suma, com essa conotação, as
ações afirmativas atuariam como mecanismo de incentivo à educação e ao aprimo V. American Apartheid, Massey & Denton, 1993; America Unequal, Danziger & Gottschalk, 1995.
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ramento de jovens integrantes de grupos minoritários, que invariavelmente assistem
ao bloqueio de seu potencial de inventividade, de criação e de motivação ao aprimoramento e ao crescimento individual, vítimas das sutilezas de um sistema jurídico,
político, econômico e social concebido para mantê-los em situação de excluídos.
A problemática constitucional
As ações afirmativas situam-se no cerne do debate constitucional contemporâneo, e interferem em questões que remontam à própria origem da democracia
moderna, suscitando questionamentos acerca de temas fundamentais do modelo
de organização política preponderante no hemisfério ocidental. A presente reflexão
não visa a examinar com profundidade esses temas. Sobre eles faremos, portanto,
breves considerações. Vejamos.
As afirmações afirmativas suscitam, em primeiro lugar, o debate crucial acerca
da destinação dos recursos públicos. Recursos, frise-se, escassos por definição. O
Estado Moderno, como se sabe, resulta do imperativo iluminista de que o conjunto dos recursos da Nação deve ser convertido em prol do interesse de todos, do
bem-estar geral da coletividade. A História e o Direito Comparado aí estão para
nos fornecer algumas pistas e nos alertar contra o perigo da inércia neste domínio.
Com efeito, é até enfadonho relembrar que a ruptura brutal com o ancien régime se
materializou precisamente na abolição dos privilégios que, por lei, eram atribuídos
a certas classes de cidadãos. A democracia que se seguiu, sobretudo na concepção
ulterior que deu margem ao surgimento do Estado de bem estar social, tem como
um dos seus pilares a tentativa de distribuição equânime e generalizada dos recursos
originários do labor coletivo.
Por outro lado, não se deve perder de vista que a amoldagem do atual Estado promovente (uma realidade quase universal) é em grande parte tributária desse
rigoroso zelo que as verdadeiras democracias têm para com o correto manuseio de
recursos públicos. De fato, questões-chave do constitucionalismo moderno derivam
dessa matriz: qual seria o “propósito legítimo” do dispêndio de recursos nacionais?
Em que medida se pode questionar a constitucionalidade de certos programas governamentais à luz da exata relação deles extraível entre dispêndio de recursos públicos e incremento do bem-estar coletivo? Até que ponto pode o órgão representante da Nação compelir atores públicos e privados beneficiários desses recursos a
se conformarem às regras de eqüidade ínsitas a toda e qualquer democracia? Das
múltiplas respostas a essas questões, como se sabe, emergiu o Estado interventivo e
regulador e o seu corolário – o Estado de Bem-Estar Social.
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Ora, o país que ignora essas noções básicas e reserva a uma pequena minoria
os instrumentos de aprimoramento humano aptos a abrir as portas à prosperidade e
ao bem-estar individual e coletivo, e, além disso (e também em conseqüência disso),
adota, ainda que informalmente, uma política de emprego impregnada de visível e
insuportável hierarquização social, pratica nada mais nada menos do que uma nova
forma de tirania.
No Brasil, a exclusão social de que os negros são as principais vítimas deriva
de alguns fatores, dentre os quais figura o esquema perverso de distribuição de recursos públicos em matéria de educação. A educação é a mais importante dentre as
diversas prestações que o indivíduo recebe ou tem legítima expectativa de receber
do Estado. Trata-se, como se sabe, de um bem escasso. O Estado alega não poder
fornecê-lo a todos na forma tida como ideal, isto é, em caráter universal e gratuito.
No entanto, esse mesmo Estado que se diz impossibilitado de fornecer a todos esse
bem indispensável, institucionaliza mecanismos sutis através dos quais proporciona
às classes privilegiadas aquilo que alega não poder oferecer à generalidade dos cidadãos. Com efeito, o Estado “financia”, com recursos que deveriam ser canalizados a
instituições públicas de acesso universal, a educação dos filhos das classes de maior
poder aquisitivo, por meio de diversos mecanismos. Isto se dá principalmente através da “renúncia fiscal” de que são beneficiárias as escolas privadas altamente seletivas e excludentes. Certo, não seria justo negar às elites (supostas ou verdadeiras) o
direito de matricular os seus filhos em escolas seletivas, onde eles se sintam chez eux,
longe da populace. O direito de escolher uma educação “diferenciada” para os filhos
constitui, a nosso sentir, uma liberdade fundamental a ser garantida pelo Estado. O
que é questionável é o compartilhamento do custo desse “luxo” com toda a coletividade: através dos tributos de que essas escolas são isentas, das subvenções diversas
que lhes são passadas pelos Governos das três esferas políticas, pelo abatimento das
respectivas despesas no montante devido a título de imposto de renda! Esses são
alguns dos elementos que compõem a formidável machine à exclure que tem nos negros as suas vítimas preferenciais. Essa forma de “exclusão orquestrada e disciplinada pela lei” produz o extraordinário efeito de contrapor, de um lado, a escola pública,
republicana, aberta a todos, que deveria oferecer ensino de boa qualidade a pobres
e ricos, a uma escola privada, elitista, discriminatória e... largamente financiada com
recursos que deveriam beneficiar a todos. Este é o primeiro aspecto da exclusão.
O segundo aspecto ocorre na seleção ao ensino superior. Aí todos já sabem:
os papéis se invertem. O ensino superior de qualidade no Brasil está quase inteiramente nas mãos do Estado. E o que faz o Estado nesse domínio? Institui um
mecanismo de seleção que vai justamente propiciar a exclusividade do acesso, sobre60
tudo aos cursos de maior prestígio e aptos a assegurar um bom futuro profissional,
àqueles que se beneficiaram do processo de exclusão acima mencionado, isto é, os
financeiramente bem aquinhoados. O vestibular, este mecanismo intrinsecamente
inútil sob a ótica do aprendizado, não tem outro objetivo que não o de “excluir”.
Mais precisamente, o de excluir os socialmente fragilizados, de sorte a permitir que
os recursos públicos destinados à educação (canalizados tanto para as instituições
públicas quanto para as de caráter comercial, como já vimos) sejam gastos não em
prol de todos, mas para benefício de poucos. Em suma, trata-se de uma subversão
total de um dos princípios informadores do Estado moderno, sintetizado de forma
lapidar em feliz expressão cunhada pela Corte Suprema dos EUA: the power of Congress to authorize expenditure of public moneys for public purposes.
Essa é, pois, a chave para se entender por que existem tão poucos negros nas
universidades públicas brasileiras, e quase nenhum nos cursos de maior prestígio e
demanda: os recursos públicos são canalizados preponderantemente para as classes
mais afluentes, restando aos pobres (que são majoritariamente negros) “as migalhas”
do sistema.
Esse o aspecto perverso do sistema educacional brasileiro. Os negros são suas
principais vítimas. E este é, sem dúvida, um problema constitucional de primeira
grandeza, pois nos remete à noção primitiva de democracia, a saber: em que, por
quem e em benefício de quem são despendidos os recursos financeiros da Nação.
Agir “afirmativamente” significa ter consciência desses problemas e tomar decisões coerentes com o imperativo indeclinável de remediá-los. Além da vontade
política, que é fundamental, é preciso colocar de lado o formalismo típico da nossa
práxis jurídico-institucional e entender que a questão é de vital importância para a
legítima aspiração de todos, de que, um dia, o País se imponha no cenário internacional e ocupe o espaço, a posição e o respeito que a sua história, o seu povo, suas
realizações e o seu peso político e econômico recomendam.
No plano estritamente jurídico (que se subordina, a nosso sentir, à tomada
de consciência assinalada nas linhas anteriores), o Direito Constitucional vigente
no Brasil, é perfeitamente compatível com o princípio da ação afirmativa. Melhor
dizendo, o Direito brasileiro já contempla algumas modalidades de ação afirmativa,
inclusive em sede constitucional.
A questão se coloca, é claro, no terreno do princípio constitucional da igualdade. Este princípio, porém, comporta várias vertentes.
61
Igualdade formal ou procedimental x Igualdade
de resultados ou material
O cerne da questão reside em saber se na implementação do princípio constitucional da igualdade o Estado deve assegurar apenas uma certa “neutralidade processual” (procedural due process of law) ou, ao contrário, se sua ação deve se encaminhar de preferência para a realização de uma “igualdade de resultados” ou igualdade
material. A teoria constitucional clássica, herdeira do pensamento de Locke, Rousseau e Montesquieu, é responsável pelo florescimento de uma concepção meramente formal de igualdade – a chamada igualdade perante a lei. Trata-se em realidade
de uma igualdade meramente “processual” (process-regarding equality). As notórias
insuficiências dessa concepção de igualdade conduziram paulatinamente à adoção
de uma nova postura, calcada não mais nos meios que se outorgam aos indivíduos
num mercado competitivo, mas nos resultados efetivos que eles podem alcançar.
Resumindo singelamente a questão, diríamos que as nações que historicamente se
apegaram ao conceito de igualdade formal são aquelas onde se verificam os mais
gritantes índices de injustiça social, eis que, em última análise, fundamentar toda e
qualquer política governamental de combate à desigualdade social na garantia de
que todos terão acesso aos mesmos “instrumentos” de combate corresponde, na prática, a assegurar a perpetuação da desigualdade. Isto porque essa “opção processual”
não leva em conta aspectos importantes que antecedem a entrada dos indivíduos
no mercado competitivo. Já a chamada “igualdade de resultados” tem como nota
característica exatamente a preocupação com os fatores “externos” à luta competitiva – tais como classe ou origem social, natureza da educação recebida –, que têm
inegável impacto sobre o seu resultado10.
Vários dispositivos da Constituição brasileira de 1988 revelam o repúdio do
constituinte pela igualdade “processual” e sua opção pela concepção de igualdade
dita “material” ou “de resultados”.
Assim, por exemplo, os artigos 3o, 7º - XX, 37-VIII e 170 dispõem:
10 Interessante sob o prisma da reflexão jurídica de natureza comparativa é a inteligência dada pela Corte
Suprema do Canadá ao art. 15 da Carta de Direitos e Liberdades, de 1982, assim vazado: “La loi ne fait
acception de personne et s’applique également à tous, et tous ont droit à la même protection et au même
bénéfice de la loi, indépendamment de toute discrimination, notamment des discriminations fondées sur
la race, l’origine nationale ou ethnique, la couleur, la religion, le sexe, l’âge ou les déficiences mentales
ou physiques”. Bernadette Renauld nos dá conta do modo como a Corte Suprema do Canadá interpreta
o princípio geral da igualdade, corporificado no artigo da Carta aqui transcrito, verbis: “Il ressort de l’arrêt
Andrews que les droits garantis à l’article 15 de la Charte existent exclusivement au profit des groupes qui
sont susceptibles d’être ou qui sont effectivement victimes de discrimination au sein de la société canadienne. Par là, la Cour interprète cette disposition non pas comme un droit général à l’égalité, mais bien
comme une protection spécifique contre la discrimination au profit des groupes minorisés ou plus faibles.
Est discriminatoire une mesure qui aggrave la situation de groupes au détriment desquels existe dans la
société une discrimination historique, sociétaire ou systémique” (1997:456, s/grifos).
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Art. 3º – Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do
Brasil:
I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;
[...]
III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e
regionais.
[...]
Art. 7º – São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que
visem à melhoria de sua condição social:
[...]
XX – Proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei;
[...]
Art. 37 [...]
VIII – A lei reservará percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua admissão.
[...]
Art. 170 – A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano
e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme
os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
[...]
VII – redução das desigualdades regionais e sociais;
[...]
IX – tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas
sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País11.
É patente, pois, a maior preocupação do legislador constituinte originário
com os direitos e garantias fundamentais, bem como com a questão da igualdade,
especialmente a implementação da igualdade substancial. Flavia Piovesan assinala
como símbolo dessa preocupação
11 Eis aí uma modalidade explícita de ação afirmativa, tendo como beneficiário não um indivíduo ou um grupo
social, mas uma determinada categoria de empresa.
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[a] ‘topografia’ de destaque que recebe este grupo de direitos (fundamentais) e
deveres em relação às Constituições anteriores; (b) a elevação, à ‘cláusula pétrea’, dos direitos e garantias individuais (art. 60, § 4o, IV); (c) o aumento dos
bens merecedores de tutela e da titularidade de novos sujeitos de direito (‘coletivo’), tudo comparativamente às Cartas antecedentes”12. (apud CUNHA;
FRISONI, 1996)
Some-se a isso a previsão expressa, em sede constitucional, da igualdade entre
homens e mulheres (art. 5o, I) e, em alguns casos, da permissão expressa para utilização das ações afirmativas, com o intuito de implementar a igualdade, tais como
os citados artigos 37, VIII (reserva de cargos e empregos públicos para pessoas
portadoras de deficiência) e 7o, XX (“proteção do mercado de trabalho da mulher,
mediante incentivos específicos, nos termos da lei”)
Vê-se, portanto, que a Constituição Brasileira de 1988 não se limita a proibir a discriminação, afirmando a igualdade, mas permite, também, a utilização de
medidas que efetivamente implementem a igualdade material. E mais: tais normas
propiciadoras da implementação do princípio da igualdade se acham precisamente
no Título I da Constituição, o que trata dos Princípios Fundamentais da nossa
República, isto é, cuida-se de normas que informam todo o sistema constitucional,
comandando a correta interpretação de outros dispositivos constitucionais. Como
bem sustentou a ilustre professora de Direito Constitucional da PUC de Minas
Gerais, Carmen Lúcia Antunes Rocha (1996: 93):
[...] a Constituição Brasileira de 1988 tem, no seu preâmbulo, uma declaração
que apresenta um momento novo no constitucionalismo pátrio: a idéia de que
não se tem a democracia social, a justiça social, mas que o Direito foi ali elaborado para que se chegue a tê-los [...] O princípio da igualdade resplandece
sobre quase todos os outros acolhidos como pilastras do edifício normativo
fundamental alicerçado. É guia não apenas de regras, mas de quase todos os
outros princípios que informam e conformam o modelo constitucional positivado, sendo guiado apenas por um, ao qual se dá a servir: o da dignidade da
pessoa humana (art. 1o, III, da Constituição da República).
E prossegue a ilustre jurista, fazendo alusão expressa aos dispositivos constitucionais acima transcritos:
Verifica-se que todos os verbos utilizados na expressão normativa – construir,
erradicar, reduzir, promover – são de ação, vale dizer, designam um comporta-
12 As autoras mencionam as três importantes observações acerca da declaração de direitos da Constituição
de 1988, feitas pela ilustre professora Flávia Piovesan, em aula por esta proferida para o Concurso para
Assistente-Mestre, cadeira de Direito Constitucional, na PUC/SP, em dezembro de 1994.
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mento ativo. O que se tem, pois, é que os objetivos fundamentais da República
Federativa do Brasil são definidos em termos de obrigações transformadoras
do quadro social e político retratado pelo constituinte quando da elaboração
do texto constitucional. E todos os objetivos contidos, especialmente, nos três
incisos acima transcritos do art. 3o, da Lei Fundamental da República, traduzem exatamente mudança para se chegar à igualdade. Em outro dizer, a expressão normativa constitucional significa que a Constituição determina uma
mudança do que se tem em termos de condições sociais, políticas, econômicas
e regionais, exatamente para se alcançar a realização do valor supremo a fundamentar o Estado Democrático de Direito constituído. Se a igualdade jurídica fosse apenas a vedação de tratamentos discriminatórios, o princípio seria
absolutamente insuficiente para possibilitar a realização dos objetivos fundamentais da República constitucionalmente definidos. Pois daqui para a frente,
nas novas leis e comportamentos regulados pelo Direito, apenas seriam impedidas manifestações de preconceitos ou cometimentos discriminatórios. Mas
como mudar, então, tudo o que se tem e se sedimentou na história política,
social e econômica nacional? Somente a ação afirmativa, vale dizer, a atuação
transformadora, igualadora pelo e segundo o Direito possibilita a verdade do
princípio da igualdade, para se chegar à igualdade que a Constituição Brasileira garante como direito fundamental de todos. O art. 3o traz uma declaração,
uma afirmação e uma determinação em seus dizeres. Declara-se, ali, implícita, mas claramente, que a República Federativa do Brasil não é livre, porque
não se organiza segundo a universalidade desse pressuposto fundamental para
o exercício dos direitos, pelo que, não dispondo todos de condições para o
exercício de sua liberdade, não pode ser justa. Não é justa porque plena de
desigualdades antijurídicas e deploráveis para abrigar o mínimo de condições
dignas para todos. E não é solidária porque fundada em preconceitos de toda
sorte [...]. O inciso IV, do mesmo art. 3o, é mais claro e afinado, até mesmo
no verbo utilizado, com a ação afirmativa. Por ele se tem ser um dos objetivos
fundamentais promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de discriminação. Verifica-se, então, que não se
repetiu apenas o mesmo modelo principiológico que adotaram constituintes
anteriormente atuantes no país. Aqui se determina agora uma ação afirmativa:
aquela pela qual se promova o bem de todos, sem preconceitos (de) quaisquer...
formas de discriminação. Significa que se universaliza a igualdade e promovese a igualação: somente com uma conduta ativa, positiva, afirmativa, é que
se pode ter a transformação social buscada como objetivo fundamental da
República. Se fosse apenas para manter o que se tem, sem figurar o passado
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ou atentar à história, teria sido suficiente, mais ainda, teria sido necessário,
tecnicamente, que apenas se estabelecesse ser objetivo manter a igualdade sem
preconceitos etc. Não foi o que pretendeu a Constituição de 1988. Por ela se
buscou a mudança do conceito, do conteúdo, da essência e da aplicação do
princípio da igualdade jurídica, com relevo dado à sua imprescindibilidade
para a transformação da sociedade, a fim de se chegar a seu modelo livre, justa
e solidária. Com promoção de mudanças, com a adoção de condutas ativas,
com a construção de novo figurino sócio-político é que se movimenta no
sentido de se recuperar o que de equivocado antes se fez.
Esta, portanto, é a concepção moderna e dinâmica do princípio constitucional
da igualdade, a que conclama o Estado a deixar de lado a passividade, a renunciar à
sua suposta neutralidade e a adotar um comportamento ativo, positivo, afirmativo,
quase militante, na busca da concretização da igualdade substancial.
Note-se, mais uma vez, que este tipo de comportamento estatal não é estranho ao Direito brasileiro pós-Constituição de 1988. Ao contrário, a imprescindibilidade de medidas corretivas e redistributivas visando a mitigar a agudeza da nossa
“questão social” já foi reconhecida em sede normativa, através de leis vocacionadas
a combater os efeitos nefastos de certas formas de discriminação. Nesse sentido, é
importante frisar, o Direito brasileiro já contempla algumas modalidades de ação
afirmativa. Não obstante tratar-se de experiências ainda tímidas quanto ao seu alcance e amplitude, o importante a ser destacado é o fato da acolhida desse instituto
jurídico em nosso Direito.
Ação afirmativa e relações de gênero
A discriminação de gênero, fruto de uma longa tradição patriarcal que não
conhece limites geográficos, tampouco culturais, é do conhecimento de todos os
brasileiros. Entre nós, o status de inferioridade da mulher em relação ao homem
foi por muito tempo considerado como algo qui va de soi, normal, decorrente da
própria “natureza das coisas” (SILVA, 2003). A tal ponto que essa inferioridade era
materializada expressamente na nossa legislação civil.
A Constituição de 1988 (art. 5o, I) não apenas aboliu essa discriminação
chancelada pelas leis, mas também, através dos diversos dispositivos antidiscriminatórios já mencionados, permitiu que se buscassem mecanismos aptos a promover
a igualdade entre homens e mulheres. Assim, com vistas a minimizar essa flagrante
desigualdade existente em detrimento das mulheres, nasceu, entre nós, a modalida-
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de de ação afirmativa hoje corporificada nas leis 9.100/95 e 9.504/97, que estabeleceram cotas mínimas de candidatas mulheres para as eleições13.
As mencionadas leis representam, em primeiro lugar, o reconhecimento pelo
Estado de um fato inegável: a existência de discriminação contra as brasileiras, cujo
resultado mais visível é a exasperante sub-representação feminina em um dos setores-chave da vida nacional – o processo político. Com efeito, o legislador ordinário,
consciente de que em toda a história política do país foi sempre desprezível a participação feminina, resolveu remediar a situação através de um corretivo que nada
mais é do que uma das muitas técnicas através das quais, em direito comparado, são
concebidas e implementadas as ações afirmativas: o mecanismo das cotas.
As Leis nº 9.100/95 e nº 9.504/97 tiveram a virtude de lançar o debate em
torno das ações afirmativas e, sobretudo, de tornar evidente a necessidade premente
de se implementar de maneira efetiva a isonomia em matéria de gênero em nosso
país. As cotas de candidaturas femininas constituem apenas o primeiro passo nesse
sentido. Se é certo que é preciso tempo para se fazer avaliações mais seguras acerca
da sua eficácia como medida de transformação social, não há dúvida de que já se
anunciam alguns resultados alvissareiros, como o incremento significativo, em termos globais, da participação feminina nas instâncias de poder14.
Assim, as mencionadas leis consagram a recepção definitiva pelo Direito brasileiro do princípio da ação afirmativa. Ainda que limitada a uma forma específica
de discriminação, o fato é que essa política social ingressou nos moeurs politiques
da Nação, uma vez que vem sendo aplicada sem contestação nos últimos pleitos
eleitorais.
Ação afirmativa e portadores de deficiência
O mesmo princípio também vem sendo adotado pela legislação que visa a
proteger os direitos das pessoas portadoras de deficiência física.
13 A Lei nº 9.100/95 expressamente instituiu o percentual mínimo de 20% de mulheres candidatas às eleições
municipais do ano de 1996, com o objetivo de aumentar a representação das mulheres nas instâncias de
poder. Posteriormente a Lei nº 9.504/97, aumentou o percentual para 30% (ficando definido um mínimo de
25%, transitoriamente, em 1998), estendendo a medida às outras entidades componentes da Federação,
e também ampliando em 50% o número das vagas em disputa.
14 Por exemplo, na esfera municipal, após as eleições de 1996, verificou-se um aumento de 111% das vereadoras eleitas em relação às eleições municipais anteriores. Assim, tomando-se como referência o ano de
1982, porque coincide com o início da abertura política no país, verifica-se que o percentual de vereadoras correspondia a 3,5% do total; em 1992, o índice situava-se na faixa dos 8%; e nas eleições de 1996
e 2000, este percentual passa a corresponder a mais de 11% do total de representantes nas Câmaras
Municipais.
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Com efeito, a Constituição Brasileira, em seu art. 37, VIII, prevê expressamente a reservas de vagas para deficientes físicos na administração pública. Neste
caso, a permissão constitucional para adoção de ações afirmativas em relação aos
portadores de deficiência física é expressa. Daí a iniciativa do legislador ordinário,
materializada nas Leis nº 7.835/89 e nº 8.112/90, que regulamentaram o mencionado dispositivo constitucional. De fato, a Lei nº 8.112/90 (Regime Jurídico Único
dos Servidores Públicos Civis da União) estabelece em seu art. 5o, § 2o que:
[...] às pessoas portadoras de deficiência é assegurado o direito de se inscrever em concurso público para provimento de cargo cujas atribuições sejam
compatíveis com a deficiência de que são portadoras; para tais pessoas serão
reservadas até 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas no concurso.
Comentando o dispositivo transcrito, Mônica de Melo (1998), com muita
propriedade, afirma:
Desta forma, qualquer concurso público que se destine a preenchimento de
vagas para o serviço público federal deverá conter em seu edital a previsão das
vagas reservadas para os portadores de deficiência. Note-se que o artigo fala
em até 20% (vinte por cento) das vagas, o que possibilita uma reserva menor
e o outro requisito legal é que as atribuições a serem desempenhadas sejam
compatíveis com a deficiência apresentada. Há entendimentos no sentido de
que 10% (dez por cento) das vagas seriam um percentual razoável, à medida
que no Brasil haveria 10% de pessoas portadoras de deficiência, segundo dados da Organização Mundial de Saúde.
Esta outra modalidade de “discriminação positiva” tem recebido o beneplácito do Poder Judiciário. Com efeito, tanto o Supremo Tribunal Federal quanto o Superior Tribunal de Justiça já tiveram oportunidade de se manifestar favoravelmente
sobre o tema, verbis:
Ementa:
Sendo o art. 37, VII, da CF, norma de eficácia contida, surgiu o art. 5º, § 2º,
do novel Estatuto dos Servidores Públicos Federais, a toda evidência, para
regulamentar o citado dispositivo constitucional, a fim de lhe proporcionar
a plenitude eficacial. Verifica-se, com toda a facilidade, que o dispositivo da
lei ordinária definiu os contornos do comando constitucional, assegurando o
direito aos portadores de deficiência de se inscreverem em concurso público,
ditando que os cargos providos tenham atribuições compatíveis com a deficiência de que são portadores e, finalmente, estabelecendo um percentual
máximo de vagas a serem a eles reservadas. Dentro desses parâmetros, fica o
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administrador com plena liberdade para regular o acesso dos deficientes aprovados no concurso para provimento de cargos públicos, não cabendo prevalecer diante da garantia constitucional, o alijamento do deficiente por não ter
logrado classificação, muito menos por recusar o decisum afrontado que não
tenha a norma constitucional sido regulamentada pelo dispositivo da lei ordinária, tão-só, por considerar não ter ela definido critérios suficientes. Recurso
provido com a concessão da segurança, a fim de que seja oferecida à recorrente vaga, dentro do percentual que for fixado para os deficientes, obedecida,
entre os deficientes aprovados, a ordem de classificação se for o caso.
(RMS 3.113-6/DF, 6º T., 06.12.1994, cujo Relator foi o Min.
Pedro Acioli)
Concurso Público e Vaga para Deficientes
Por ofensa ao art. 37, VIII, da CF (“a lei reservará percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua
admissão”), o Tribunal deu provimento a recurso extraordinário para reformar
acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais que negara a portadora de deficiência o direito de ter assegurada uma vaga em concurso público
ante a impossibilidade aritmética de se destinar, dentre as 8 vagas existentes,
a reserva de 5% aos portadores de deficiência física (LC 9/92 do Município
de Divinópolis). O Tribunal entendeu que, na hipótese de a divisão resultar
em número fracionado – não importando que a fração seja inferior a meio –,
impõe-se o arredondamento para cima.
(RE 227.299-MG, rel. Min. Ilmar Galvão, 14.6.2000)
Como se vê, a destinação de um percentual de vagas no serviço público aos
portadores de deficiência não viola o princípio da isonomia. Em primeiro lugar,
porque a deficiência física de que essas pessoas são portadoras traduz-se em uma
situação de nítida desvantagem em seu detrimento, fato este que deve ser devidamente levado em conta pelo Estado, no cumprimento do seu dever de implementar
a igualdade material. Em segundo, porque os portadores de deficiência física se
submetem aos concursos públicos, devendo necessariamente lograr aprovação. A
reserva de vagas, portanto, representa uma dentre as diversas técnicas de implementação da igualdade material, consagração do princípio bíblico segundo o qual
deve-se tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.
Pois bem. Se esse princípio é plenamente aceitável (inclusive na esfera jurisdicional, como vimos) como mecanismo de combate a uma das múltiplas formas de
discriminação, da mesma forma ele haverá de ser aceito para combater aquela que é
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a mais arraigada forma de discriminação entre nós, a que tem maior impacto social,
econômico e cultural – a discriminação de cunho racial. Isto porque os princípios
constitucionais mencionados anteriormente são vocacionados a combater toda e
qualquer disfunção social originária dos preconceitos e discriminações incrustados
no imaginário coletivo, vale dizer, os preconceitos e discriminações de fundo histórico e cultural. Não se trata de princípios de aplicação seletiva, bons para curar
certos males, mas inadaptados a remediar outros.
Ação afirmativa e relações raciais
A questão racial reveste-se de grande complexidade e dificuldade de tratamento no Direito brasileiro. Tema espinhoso, raríssimas foram as ocasiões em que
tivemos a oportunidade de analisar normas jurídicas ou políticas públicas especificamente destinadas à inclusão social da população negra e à minimização da desigualdade socioestrutural entre negros e brancos em nosso país.
A Constituição de 1988, como vimos, deixou explícita a idéia de igualdade
em todos os sentidos, afirmando inequivocamente a isonomia racial (art. 5º, caput)
e incriminando firmemente a prática do racismo (art. 5º, XLII). Ademais, em todo
o texto constitucional, verifica-se a predisposição sistêmica em garantir a efetivação
da igualdade material, de modo que a adoção de medidas nesse sentido revela-se em
consonância com o espírito da Constituição.
É curioso ressaltar que, diferentemente do que ocorreu com as demais políticas
de ação afirmativa acima mencionadas, a problemática racial adentrou o debate público
de uma forma um tanto abrupta, após a adoção, por algumas universidades públicas brasileiras, em especial a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), do mecanismo
de reserva de vagas no ensino superior para indivíduos pertencentes às minorias.
Em breve síntese, o mecanismo das cotas, no Rio de Janeiro, foi instituído
por três sucessivas leis estaduais que destinaram uma percentagem determinada
de vagas nos cursos superiores das universidades estaduais para estudantes provenientes de escolas públicas (40%)15, para aqueles que se declarassem negros ou
15 Lei 3.524/01:
Art. 2º As vagas oferecidas para acesso a todos os cursos de graduação das universidades públicas estaduais serão preenchidas observados os seguintes critérios:
I - 50% (cinqüenta por cento), no mínimo por curso e turno, por estudantes que preencham
cumulativamente os seguintes requisitos:
a) tenham cursado integralmente os ensinos fundamental e médio em instituições da rede pública dos Municípios e/ou do Estado;
b) tenham sido selecionados em conformidade com o estatuído no art. 1º desta Lei;
II) 50% (cinqüenta por cento) por estudantes selecionados em processo definido pelas universidades segundo a legislação vigente.
70
pardos (40%)16 e para os deficientes físicos (10%)17.
A aplicação dessas leis no vestibular de 2002 causou uma grande controvérsia no mundo jurídico, gerando inúmeras ações judiciais de estudantes que
se julgaram prejudicados e, inclusive, uma Ação Direta de Inconstitucionalidade
no Supremo Tribunal Federal18. Os argumentos contrários às cotas, sustentados
nessas ações, se fundamentam, basicamente, na existência de violações ao princípio da igualdade, ao sistema meritocrático e ao princípio da proporcionalidade, bem como numa suposta impossibilidade de determinar a afro-descendência
dos candidatos ao vestibular, em razão da miscigenação da sociedade brasileira.
Devido à repercussão de decisões judiciais díspares, umas concedendo aos
autores o direito a freqüentar a universidade mesmo sem aprovação no vestibular e outras lhes negando essa possibilidade, aliado a inúmeras manifestações
contrárias ao sistema veiculadas na imprensa escrita e nos demais meios de comunicação, foi apresentada proposta de alteração da legislação sobre o tema.
Assim, em setembro de 2003, foi promulgada a Lei nº 4.151 do Estado
do Rio de Janeiro, revogando as mencionadas leis estaduais e instituindo nova
disciplina sobre o sistema de cotas para ingresso nas universidades públicas estaduais. A norma atual é mais bem elaborada, tentando preservar a autonomia
das universidades e estabelecer critérios mais razoáveis e objetivos, tanto para a
aferição dos beneficiados pelo sistema de cotas como para a definição e elaboração do processo seletivo correspondente. A lei estabelece uma reserva de 20%
(vinte por cento) das vagas para estudantes oriundos da rede pública de ensino,
20% (vinte por cento) para negros e 5% (cinco por cento) para pessoas portadoras de deficiência e integrantes de minorias étnicas, perfazendo um total de 45%
das vagas de todos os cursos e turnos oferecidos (art. 5o c/c art. 2o, II).
A lei traz, ainda, dispositivo especialmente condizente com os propósitos
e fins das ações afirmativas, qual seja: o estabelecimento de um período mínimo
16 A Lei nº 3.708/01, com apenas três artigos, assim determinava: “Art. 1º Fica estabelecida a cota mínima
de até 40% (quarenta por cento) para as populações negra e parda no preenchimento das vagas relativas
aos cursos de graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF. Parágrafo único – Nesta cota mínima estão incluídos também os negros
e pardos beneficiados pela Lei nº 3.524/2000. Art. 2º O Poder Executivo regulamentará a presente Lei no
prazo de 30 (trinta) dias de sua publicação. Art. 3º Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação,
revogadas as disposições em contrário.
17 Lei nº 4.061/03: “Art. 1º As Universidades Públicas Estaduais deverão reservar 10% (dez por cento) das
vagas oferecidas em todos os seus cursos para alunos portadores de deficiência.”
18 ADI 2858-RJ. Rel. Min. Carlos Velloso. Em razão da superveniência da Lei nº 4.151/03, que revogou as
leis 3.524/00, 3.708/01 e 4.061/03, essa ADI 2858 restou sem objeto, tendo sido julgada prejudicada. DJ
01/10/2003.
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de aplicação desses percentuais (cinco anos), os quais, posteriormente, poderão
ser alterados. Em outras palavras, prevê-se uma avaliação dos resultados da utilização da política de cotas e, se necessário, poderá haver uma revisão dos parâmetros então firmados, com a anuência indispensável do Poder Legislativo.
Pode-se dizer, portanto, que a iniciativa pioneira do Estado do Rio de
Janeiro em estabelecer cotas para negros e pardos no vestibular das universidades do Estado teve a virtude de instalar no cenário político-social brasileiro o
debate acerca dessa modalidade de ação afirmativa, bem como de demonstrar,
inequivocamente, a maior dificuldade na análise da questão racial e na aplicação
de ações afirmativas em benefício da população negra.
Ação afirmativa e Direito Internacional
dos Direitos Humanos
O problema aqui tratado, como se sabe, transcende o Direito interno
brasileiro e envolve o Direito Internacional, especialmente o chamado Direito
Internacional dos Direitos Humanos. Ele traduz à perfeição o fenômeno que
Hélène Tourard com muita propriedade classificou como l’internationalisation
des constitutions19.
Com efeito, não obstante as divergências doutrinárias e jurisprudenciais que
pairam sobre o assunto, não podemos deixar de consignar a contribuição trazida
à matéria por uma avançada inteligência do artigo 5o da Constituição de 1988,
que em seus parágrafos 1o e 2o traz disposições importantíssimas para a efetiva
implementação dos direitos e garantias fundamentais. Com efeito, o parágrafo 1o
estabelece que as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm
aplicação imediata no país. Já o parágrafo 2o dispõe que “os direitos e garantias
expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos
princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.”
Como resultado da conjugação do § 1o com o § 2o do artigo 5o do texto constitucional, uma interpretação sistemática da Constituição nos conduz à constatação
de que estamos diante de normas da mais alta relevância para a proteção dos direitos
humanos (e, conseqüentemente, dos direitos das minorias) no Brasil, quais sejam: os
tratados internacionais de direitos humanos, que, segundo o dispositivo citado, têm
aplicação imediata no território brasileiro, necessitando apenas de ratificação.
19 V. Tourard (2000); Steiner, Alston (2000). Entre nós, vejam-se Trindade (1997); Mello (1994); Castro (1995);
Piovesan (1996); Sarlet (2000).
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Com efeito, esse é o ensinamento que colhemos em dois dos nossos mais
eruditos scholars, especialistas na matéria, os Professores Antônio Augusto Cançado
Trindade20 e Celso de Albuquerque Mello, verbis:
O disposto no art. 5o, § 2o da Constituição Brasileira de 1988 se insere na nova
tendência de Constituições latino-americanas recentes de conceder um tratamento especial ou diferenciado também no plano do direito interno aos direitos
e garantias individuais internacionalmente consagrados. A especificidade e o
caráter especial dos tratados de proteção internacional dos direitos humanos encontram-se, com efeito, reconhecidos e sancionados pela Constituição Brasileira
de 1988: se, para os tratados internacionais em geral, se tem exigido a intermediação pelo poder Legislativo de ato com força de lei de modo a outorgar a
suas disposições vigência ou obrigatoriedade no plano do ordenamento jurídico
interno, distintamente no caso dos tratados de proteção internacional dos direitos humanos em que o Brasil é parte os direitos fundamentais neles garantidos
passam, consoante os artigos 5o, § 2o e 5o, § 1o, da Constituição Brasileira de
1988, a integrar o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados direta e
imediatamente exigíveis no plano do ordenamento jurídico interno.
A Constituição de 1988 no § 2o do art. 5o constitucionalizou as normas de
direitos humanos consagradas nos tratados. Significando isto que as referidas
normas são normas constitucionais, como diz Flávia Piovesan citada acima.
Considero esta posição já como um grande avanço. Contudo sou ainda mais
radical no sentido de que a norma internacional prevalece sobre a norma constitucional, mesmo naquele caso em que uma norma constitucional posterior
tente revogar uma norma internacional constitucionalizada. A nossa posição
é a que está consagrada na jurisprudência e tratado internacional europeu de
que se deve aplicar a norma mais benéfica ao ser humano, seja ela interna ou
internacional. A tese de Flávia Piovesan tem a grande vantagem de evitar que
o Supremo Tribunal Federal venha a julgar a constitucionalidade dos tratados
internacionais (MELLO, 1999)21.
Assim, à luz desta respeitável doutrina, pode-se concluir que o Direito Constitucional brasileiro abriga, não somente o princípio e as modalidades implícitas e
explícitas de ação afirmativa a que já fizemos alusão, mas também as que emanam
dos tratados internacionais de direitos humanos assinados pelo nosso país. Com
20 Note-se, porém, que neste ponto doutrina e jurisprudência divergem, eis que o Supremo Tribunal Federal
e o Superior Tribunal de Justiça vêm se posicionando no sentido de que os tratados internacionais possuem, no nosso ordenamento jurídico, status de lei ordinária.
21 Veja-se também, sobre o tema, Flavia Piovesan (1996).
73
efeito, o Brasil é signatário dos principais instrumentos internacionais de proteção
dos direitos humanos, em especial a Convenção sobre a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação Racial e a Convenção sobre a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação contra a Mulher, os quais permitem expressamente a
utilização das medidas positivas tendentes a mitigar os efeitos da discriminação.
De fato, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, ratificada pelo Brasil em 27 de março de 1968, dispõe em seu artigo
1o, no 4, verbis:
Art. 1º - 4. Não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais
tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos
grupos raciais ou étnicos ou de indivíduos que necessitem da proteção que
possa ser necessária para proporcionar a tais grupos ou indivíduos igual gozo
ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais, contanto que tais
medidas não conduzam, em conseqüência, à manutenção de direitos separados para diferentes grupos raciais e não prossigam após terem sido alcançados
os seus objetivos.
Dispositivo de igual teor também figura no artigo 4o da Convenção sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1979), ratificada pelo Brasil em 1984, com reservas na área de direito de família, reservas estas
que foram retiradas em 1994, verbis:
Artigo 4º - 1. A adoção pelos Estados-partes de medidas especiais de caráter temporário destinadas a acelerar a igualdade de fato entre o homem e a
mulher não se considerará discriminação na forma definida nesta Convenção,
mas de nenhuma maneira implicará, como conseqüência, a manutenção de
normas desiguais ou separadas; essas medidas cessarão quando os objetivos de
igualdade de oportunidade e tratamento houverem sido alcançados.
É, portanto, amplo e diversificado o respaldo jurídico às medidas afirmativas
que o Estado brasileiro decida empreender no sentido de resolver esse que talvez
seja o mais grave de todos os nossos problemas sociais – o alijamento e a marginalização do negro na sociedade brasileira. A questão se situa, primeiramente, na esfera
da Alta Política. Ou seja, trata-se de optar por um “modèle de société, un choix politique”, como diriam os juristas da escola francesa. No plano jurídico, não há dúvidas
quanto à sua viabilidade, como se tentou demonstrar. Resta, tão somente, escolher
os critérios, as modalidades e as técnicas adaptáveis à nossa realidade, cercando-as
das devidas cautelas e salvaguardas.
74
Critérios, modalidades e limites das Ações Afirmativas
Ao debruçar-se sobre o tema, o Professor Joaquim Falcão (1999) sustentou que:
[...] se, por um lado, é tranqüila a constatação de que o princípio da igualdade
formal é relativo e convive com diferenciações, nem todas as diferenciações
são aceitas. A dificuldade é determinar os critérios a partir dos quais uma
diferenciação é aceita como constitucional.
O autor apresenta solução ao problema, afirmando que a justificação22 do estabelecimento da diferença seria uma condição sine qua non para a constitucionalidade da diferenciação, a fim de evitar a arbitrariedade. Esta justificação deve ter um
conteúdo, baseado na razoabilidade, ou seja, num fundamento razoável para a diferenciação; na racionalidade, no sentido de que a motivação deve ser objetiva, racional e suficiente; e na proporcionalidade, isto é, que a diferenciação seja um reajuste
de situações desiguais. Aliado a isto, a legislação infraconstitucional deve respeitar
três critérios concomitantes para que atenda ao princípio da igualdade material: a
diferenciação deve (a) decorrer de um comando-dever constitucional, no sentido de
que deve obediência a uma norma programática que determina a redução das desigualdades sociais; (b) ser específica, estabelecendo claramente aquelas situações ou
indivíduos que serão “beneficiados” com a diferenciação; e (c) ser eficiente, ou seja,
é necessária a existência de um nexo causal entre a prioridade legal concedida e a
igualdade socioeconômica pretendida. Entendimento semelhante é esposado por B.
Renauld no artigo já mencionado:
Trois éléments nous permettent de donner un contenu à la notion de discrimination
positive telle qu’elle sera utilisée par la suite. Pour identifier une discrimination positive, il faut que l’on soit en présence d’un groupe d’individus suffisamment défini,
d’une discrimination structurelle dont les membres de ce groupe sont victimes, et
enfin d’un plan établissant des objectifs et définissant des moyens à mettre en oeuvre
visant à corriger la discrimination envisagée. Selon les cas, le plan est adopté, voire
imposé par une autorité publique ou est le fruit d’une initiative privée23.
22 Celso Antônio Bandeira de Mello, em “Desequiparações Proibidas, Desequiparações Permitidas”, afirma
que “o que se tem que indagar para concluir se uma norma desatende a igualdade ou se convive bem
com ela é o seguinte: se o tratamento diverso outorgado a uns for “justificável”, por existir uma correlação lógica entre o “fator de discrímen” tomado em conta e o regramento que se lhe deu, a norma ou
a conduta são compatíveis com o princípio da igualdade; se pelo contrário, inexistir esta relação de
congruência lógica ou – o que ainda seria mais flagrante – se nem ao menos houvesse um fator de
discrímen identificável, a norma ou a conduta serão incompatíveis com o princípio da igualdade.
23 Três elementos nos permitem dar um conteúdo à noção de discriminação positiva tal como ela será usada
a seguir. Para identificar uma discriminação positiva, é preciso que se esteja na presença de um grupo de
indivíduos suficientemente definido, de uma discriminação estrutural da qual os membros deste grupo são
vítimas e, enfim, de um plano estabelecendo os objetivos e definindo os meios a utilizar visando a corrigir
a discriminação considerada. Segundo o caso, o plano é adotado, talvez até mesmo imposto, por uma
autoridade pública, ou é fruto de uma iniciativa privada (Tradução livre de Tânia Ludmila Dias Tosta).
75
Sem dúvida, os critérios acima estabelecidos são um ótimo ponto de partida para o estabelecimento de ações afirmativas no Brasil. Porém, falta ao Direito
brasileiro um maior conhecimento das modalidades e das técnicas que podem ser
utilizadas na implementação de ações afirmativas. Entre nós, fala-se quase exclusivamente do sistema de cotas, mas esse é um sistema que, a não ser que venha
amarrado a um outro critério inquestionavelmente objetivo, deve ser objeto de uma
utilização marcadamente marginal.
Com efeito, o essencial é que o Estado reconheça oficialmente a existência
da discriminação racial, dos seus efeitos e das suas vítimas, e tome a decisão política
de enfrentá-la, transformando esse combate em uma política de Estado. Uma tal
atitude teria o saudável efeito de subtrair o Estado brasileiro da ambigüidade que
o caracteriza na matéria: a de admitir que existe um problema racial no país e ao
mesmo tempo furtar-se a tomar medidas sérias no sentido minorar os efeitos sociais
dele decorrentes.
Em segundo lugar, é preciso ter claro a idéia de que a solução do problema racial não deve vir unicamente do Estado. Certo, cabe ao Estado o importante papel de
impulsão, mas ele não deve ser o único ator nessa matéria. Cabe-lhe traçar as diretrizes gerais, o quadro jurídico à luz do qual os atores sociais poderão agir. Incumbe-lhe
remover os fatores de discriminação de ordem estrutural, isto é, aqueles chancelados
pelas próprias normas legais vigentes no país, como ficou demonstrado acima. Mas
as políticas afirmativas não devem se limitar à esfera pública. Ao contrário, devem
envolver as universidades públicas e privadas, as empresas, os governos estaduais, as
municipalidades, as organizações governamentais, o Poder Judiciário etc.
No que pertine às técnicas de implementação das ações afirmativas, podem
ser utilizados, além do sistema de cotas, o método do estabelecimento de preferências, o sistema de bônus e os incentivos fiscais (como instrumento de motivação do
setor privado). De crucial importância é o uso do poder fiscal, não como mecanismo
de aprofundamento da exclusão, como é da nossa tradição, mas como instrumento
de dissuasão da discriminação e de emulação de comportamentos (públicos e privados) voltados à erradicação dos efeitos da discriminação de cunho histórico.
Noutras palavras, ação afirmativa não se confunde nem se limita às cotas.
Confira-se, sobre o tema, as judiciosas considerações feitas por Wania Sant’Anna e
Marcello Paixão, no interessante trabalho intitulado “Muito Além da Senzala: Ação
Afirmativa no Brasil”, verbis:
Segundo Huntley, ‘ação afirmativa é um conceito que inclui diferentes tipos
de estratégias e práticas. Todas essas estratégias e práticas estão destinadas a
76
atender problemas históricos e atuais que se constatam nos Estados Unidos em
relação às mulheres, aos afro-americanos e a outros grupos que têm sido alvo
de discriminação e, conseqüentemente, aos quais se tem negado a oportunidade de desenvolver plenamente o seu talento, de participar em todas as esferas
da sociedade americana. [...] Ação afirmativa é um conceito que, usualmente,
requer o que nós chamamos metas e cronogramas. Metas são um padrão desejado pelo qual se mede o progresso e não se confundem com cotas. Opositores
da ação afirmativa nos Estados Unidos freqüentemente caracterizam metas
como sendo cotas, sugerindo que elas são inflexíveis, absolutas, que as pessoas
são obrigadas a atingi-las’.
A política de ação afirmativa não exige, necessariamente, o estabelecimento
de um percentual de vagas a ser preenchido por um dado grupo da população.
Entre as estratégias previstas, incluem-se mecanismos que estimulem as empresas a buscarem pessoas de outro gênero e de grupos étnicos e raciais específicos, seja para compor seus quadros, seja para fins de promoção ou qualificação
profissional. Busca-se, também, a adequação do elenco de profissionais às realidades verificadas na região de operação da empresa. Essas medidas estimulam as unidades empresariais a demonstrar sua preocupação com a diversidade
humana de seus quadros.
Isto não significa que uma dada empresa deva ter um percentual fixo de empregados negros, por exemplo, mas, sim, que esta empresa está demonstrando a
preocupação em criar formas de acesso ao emprego e ascensão profissional para
as pessoas não ligadas aos grupos tradicionalmente hegemônicos em determinadas funções (as mais qualificadas e remuneradas) e cargos (os hierarquicamente
superiores). A ação afirmativa parte do reconhecimento de que a competência
para exercer funções de responsabilidade não é exclusiva de um determinado
grupo étnico, racial ou de gênero. Também considera que os fatores que impedem a ascensão social de determinados grupos estão imbricados numa complexa rede de motivações, explícita ou implicitamente, preconceituosas.
Por fim, no que diz respeito às cautelas a serem observadas, valho-me mais
uma vez dos ensinamentos da Professora Carmem Lúcia Antunes Rocha, verbis:
É importante salientar que não se quer verem produzidas novas discriminações com a ação afirmativa, agora em desfavor das maiorias, que, sem serem marginalizadas historicamente, perdem espaços que antes detinham face
aos membros dos grupos afirmados pelo princípio igualador no Direito. Para
se evitar que o extremo oposto sobreviesse é que os planos e programas de
77
ação afirmativa adotados nos Estados Unidos e em outros Estados, primaram sempre pela fixação de percentuais mínimos garantidores da presença das
minorias que por eles se buscavam igualar, com o objetivo de se romperem
preconceitos contra elas ou pelo menos propiciarem-se condições para a sua
superação em face da convivência juridicamente obrigada. Por ela, a maioria
teria que se acostumar a trabalhar, a estudar, a se divertir etc. com os negros,
as mulheres, os judeus, os orientais, os velhos etc., habituando-se a vê-los produzir, viver, sem inferioridade genética determinada pelas suas características
pessoais resultantes do grupo a que pertencessem. Os planos e programas das
entidades públicas e particulares de ação afirmativa deixam sempre à disputa
livre da maioria a maior parcela de vagas em escolas, empregos, em locais de
lazer etc., como forma de garantia democrática do exercício da liberdade pessoal e da realização do princípio da não discriminação (contido no princípio
constitucional da igualdade jurídica) pela própria sociedade (1996: 88).
78
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82
Rumo ao
Multiculturalismo: a
adoção compulsória
de ações afirmativas
pelo Estado
brasileiro como
reparação dos danos
atuais sofridos pela
população negra
Ronaldo Jorge A. Vieira Júnior
A
idéia de responsabilização pelos efeitos e danos gerados pela escravidão é antiga em nossa história. As atrocidades e privações
impostas aos negros escravos e aos seus descendentes sempre suscitaram, nos mais diversos campos do saber, a idéia de reparação e
de compensação pelos danos causados.
Fundamentos e evolução da idéia de reparação
Em 1823, José Bonifácio (SILVA, 2000:33-39) apresentou à Assembléia
Constituinte, projeto de lei que buscava flexibilizar os rigores da escravidão, e de
certa forma, criar condições para que houvesse uma transição entre o antigo regime
e o regime de liberdade. Propôs algumas compensações, não aceitas pelos legisladores da época.
José Bonifácio (SILVA, 2000:24) assim se manifestou à Assembléia Constituinte de 1823: “Mas como
poderá haver uma Constituição liberal e duradoura em um país continuamente habitado por uma multidão imensa de escravos brutais e inimigos? Comecemos pois desde já esta grande obra pela expiação
de nossos crimes e pecados velhos. Sim, não se trata somente de sermos justos, devemos também ser
penitentes; devemos mostrar à face de Deus e dos outros homens que nos arrependemos de tudo o que
nesta parte temos obrado há séculos contra a justiça e contra a religião, que nos bradam acordes que não
façamos aos outros o que queremos que não nos façam a nós.”
O tempo passou, o tráfico foi extinto, veio a abolição e nada foi feito em
favor dos negros, ex-escravos e descendentes de escravos, que pudesse compensar o
mal feito e minimamente prepará-los para a vida como homens livres.
Após as primeiras três décadas do século XX, quando se quis exterminar os
negros pelo “branqueamento”, esses se viram acolhidos pelas novas formulações
doutrinárias e teóricas que reconheciam sua existência, porém como integrantes de
uma raça inferior, assimilável pela raça branca dominante.
A nova fase – inaugurada pela obra de Gilberto Freyre (2003) no início da
década de 30 do século passado – amorteceu o pleito pela compensação e reparação
na medida em que se entendia que a escravidão não tinha produzido efeitos danosos duradouros. Os danos, segundo a doutrina freyreana, tinham sido impostos
aos escravos, mas com sua libertação e assimilação pela sociedade, seus efeitos não
tinham se perpetuado.
No final da década de setenta e início da década de oitenta do século passado
os estudos sociológicos demonstraram, estatisticamente, que os danos existiam e
que os efeitos do racismo estavam, mais do que nunca, presentes na sociedade brasileira (HENRIQUES, 2001:1).
É importante que se registre que os danos decorrentes do preconceito racial e
de práticas discriminatórias são suportados atualmente pelos negros. As causas são
remotas, mas os danos são vivenciados cotidianamente pelos negros brasileiros.
A perspectiva de responsabilização pelos danos gerados à população negra
após a abolição acompanhava a lógica do enfoque conferido pela legislação ao longo
das oito primeiras décadas do século passado, vale dizer, uma lógica individualista
motivada por aspectos penais.
Então, a discussão no meio jurídico sobre a responsabilização, pode ser assim resumida: durante a primeira metade do século passado, embalada pelo mito
da convivência harmoniosa das raças, não havia que se falar em discriminação, em
danos e menos ainda em reparação.
A partir da segunda metade do século XX, o enfoque jurídico sobre a questão
tinha uma tripla característica: quanto aos sujeitos, fundava-se em atos e práticas
discriminatórias e racistas realizadas entre particulares, individualmente conside O conceito de branqueamento adotado neste texto é o desenvolvido por autores como Maria Aparecida
Silva Bento, Edith Piza e Fúlvia Rosemberg e consiste num conjunto de políticas estatais implementadas
no final do século XIX e início do século XX, algumas, inclusive, sob a forma de diplomas legais, que objetivavam reduzir a participação de pretos e pardos na composição da população brasileira, por intermédio
de, p. ex., estímulo à imigração de brancos europeus e da restrição à imigração de negros e asiáticos.
84
rados; quanto ao aspecto temporal da lesão ou da ameaça de lesão a direitos dos
negros, referia-se ao momento presente; e, quanto ao campo do Direito, estava-se,
predominantemente, na esfera do direito penal.
Quando comprovadas as práticas discriminatórias e racistas, as mesmas eram
consideradas, inicialmente, contravenções e, depois de 1989, com a edição da Lei
no 7.716, de 1989 – conhecida como Lei Caó, que regulamentou o inciso XLII do
art. 5o da Constituição Federal de 1988, crimes, que poderiam repercutir no campo
do direito civil, suscitando reparação de natureza pecuniária.
A perspectiva da reparação jurídica referente à questão racial era típica das
relações privadas, fundada em práticas racistas contemporâneas, apreciada, majoritariamente, sob a ótica criminal e considerada em sua dimensão individual. Pode-se
acrescentar que a reparação pretendida, quando incidente a responsabilização civil,
era a de natureza pecuniária.
Fundamentos jurídico-filosóficos para a adoção das
ações afirmativas: as espécies e a crítica ao fundamento
compensatório
Muito se escreveu nas décadas de sessenta e setenta nos Estados Unidos, e
mais recentemente no Brasil, sobre os fundamentos jurídico-filosóficos para a adoção de ações afirmativas para negros (ABREU, 1999; CRUZ, 2003; DERRIDA,
2004; DWORKING, 2000; GOMES, 2001; MENEZES, 2001; SILVA JR., 2002;
TELLES, 2003).
Várias foram as hipóteses aventadas: tentativa de evitar conflitos raciais; constatação de desigualdades raciais na apropriação de bens, renda e serviços no presente, geradas por um contexto social injusto (justiça distributiva); promoção do
princípio da igualdade em sua dimensão substantiva; promoção de uma imagem
positiva dos negros (utilitarismo); reparação pelos danos causados no passado pela
escravidão e por práticas segregacionistas (justiça compensatória).
Entre os fundamentos possíveis, o que recebeu mais críticas e foi visto com
maiores ressalvas era, sem dúvida, o fundamento compensatório que visava a reparar os danos causados pela escravidão e por sistemas institucionais segregacionistas
(CRUZ, 2003; GOMES, 2001).
De acordo com a Lei nº 1.390, de 1951, conhecida como Lei Afonso Arinos.
Em homenagem ao autor do projeto de lei, o então deputado federal constituinte Carlos Alberto Oliveira
(PDT/RJ), o Deputado Caó, que foi um dos maiores defensores da inclusão do inciso XLII ao art. 5º da
Constituição Federal, que caracteriza a prática do racismo como crime inafiançável e imprescritível.
85
Alegava-se a dificuldade em identificar os autores das violações e responsabilizá-los pelos danos sofridos pelos negros no passado. Como seriam responsabilizados os atuais cidadãos, no presente, pelos atos cometidos por outros, no passado? E
se não houvesse mais danos no presente? Quais seriam os beneficiários?
Segundo Gomes (2001a, p. 65),
Embora a noção de justiça compensatória figure como justificativa filosófica
de um grande número de programas de ação afirmativa vigentes nos diversos
países que adotam esse tipo de política social, inclusive nos Estados Unidos,
do ponto de vista estritamente jurídico, porém, trata-se de uma concepção
não isenta de falhas. Com efeito, em matéria de reparação de danos, o raciocínio jurídico tradicional opera com categorias rígidas tais com ilicitude,
dano e remédio compensatório, estreitamente vinculados uns aos outros em
relação de causa e efeito. Em regra, somente quem sofre diretamente o dano
tem legitimidade para postular a respectiva compensação. Por outro lado, essa
compensação só pode ser reivindicada de quem efetivamente praticou o ato
ilícito que resultou no dano. Tais incongruências, exacerbadas pelo dogmatismo outrancier típico da práxis jurídica ortodoxa, finam por enfraquecer a tese
compensatória como argumento legitimador das ações afirmativas.
Posto dessa forma – a responsabilização jurídica em bases civilistas, com a
perfeita identificação do agente do dano e de quem o sofreu, fundada no dolo ou na
culpa, característica das relações entre particulares –, a adoção de ações afirmativas
como reparação sofria limitações quase incontornáveis.
Abria-se, contudo, uma exceção nessa lógica individualizante e privatista da
responsabilização pela escravidão e pela segregação. Era quando se podia responsabilizar o Estado por práticas segregacionistas e, dessa forma, impor-lhe a reparação
por intermédio da adoção das ações afirmativas.
No entanto, essa perspectiva, segundo seus defensores, era muito limitada já
que havia que se demonstrar a implementação de sistemas institucionais que segregassem segmentos étnico-raciais da população (MENEZES, 2003).
Em outras palavras, para que se pudesse adotar as ações afirmativas com base
no fundamento compensatório, havia que se provar o racismo de Estado, fundado
em um sistema legal que impusesse segregação na educação, no transporte, na moradia, como o praticado na África do Sul, com regime do apartheid, ou nos Estados
Unidos, com o sistema dos “separados, mas iguais”.
86
Os Estados que não tivessem adotado essa prática segregacionista não estariam legitimados a implementar ações afirmativas; essa é uma das principais críticas
que se faz à proposta de adoção de ações afirmativas no Brasil.
A Conferência de Durban e a responsabilização dos
Estados que adotaram a escravidão
Adquire força no mundo, a partir da aprovação da Declaração e do Plano
de Ação da III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a
Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, em Durban, na África do Sul, em setembro
de 2001, o movimento que objetiva responsabilizar os Estados que adotaram a
escravidão pelos danos gerados aos descendentes das populações escravizadas.
A reparação pelos danos causados seria feita mediante a implementação compulsória de ações afirmativas que propiciassem a correção das desigualdades raciais e
a promoção da igualdade de oportunidades; nessas hipóteses o caráter compensatório é o principal fundamento à implementação de ações afirmativas.
Trata-se, então, de movimento que se contrapõe à tendência anterior, que
limitava, quase impossibilitava, a adoção do fundamento compensatório para a implementação das ações afirmativas.
Nessa nova perspectiva, os fundamentos jurídico-filosóficos que legitimam
a adoção de ações afirmativas no continente americano, em virtude de questões
raciais, partem de uma premissa comum: a necessidade de reparação dos danos
causados pela desumanização imposta ao negro desde a escravidão.
Todos os demais fundamentos como as desigualdades reais na apropriação
de bens e serviços; o risco de conflito racial; a necessidade de se projetar imagem
positiva dos negros; a necessidade de promover a igualdade substantiva; todos, sem
exceção, decorrem da discriminação, preconceito e racismo gerados pela inferiorização dos negros que, historicamente, foram colocados na parte inferior de uma
hipotética escala de raças, abaixo de todas as outras.
A Declaração de Durban faz importante afirmação nesse sentido, ao reconhecer na
escravidão uma das principais fontes das manifestações de racismo e de discriminação:
A Declaração de Durban aborda a questão da discriminação existente em países em que não há segregação declarada: “56. Reconhecemos a existência em muitos países de uma população mestiça com diversas
origens étnicas e raciais e sua valiosa contribuição para a promoção da tolerância e do respeito nessas
sociedades, e condenamos a discriminação de que é vítima, especialmente porque a natureza sutil dessa
discriminação pode fazer que se negue sua existência” (ONU, 2001, p. 13, tradução e grifo nosso).
Disponível em <http://www.un.org >. Acesso em 04 de maio de 2004.
87
13. reconhecemos que a escravidão e o tráfico de escravos, em particular o
tráfico transatlântico foram tragédias atrozes na história da humanidade, não
só pela barbárie, como também por sua magnitude, seu caráter organizado e
especialmente, sua negação da essência das vítimas, e reconhecemos que a escravidão e o tráfico de escravos, especialmente o tráfico transatlântico de escravos constituem e sempre deveriam ter constituído, um crime de lesa humanidade e são uma
das principais fontes e manifestações de racismo, discriminação racial, xenofobia e
formas conexas de intolerância, e que os africanos e os afro-descendentes, os asiáticos
e as pessoas de origem asiática e os povos indígenas foram vítimas desses atos e continuam sendo de suas conseqüências;
14. reconhecemos que o colonialismo levou ao racismo, à discriminação racial, à
xenofobia e às formas conexas de intolerância, e que os africanos e os afro-descendentes, as pessoas de origem asiática e os povos indígenas foram vítimas do colonialismo e continuam sendo de suas conseqüências. Reconhecemos os sofrimentos
causados pelo colonialismo e afirmamos que onde e quando quer ocorreram,
devem ser condenados e há que impedir-se que ocorram de novo. Lamentamos também que os efeitos e a persistência dessas estruturas e práticas sejam consideradas entre os fatores que contribuem para as desigualdades sociais e econômicas
duradouras em muitas partes do mundo de hoje;
18. realçamos que a pobreza, o subdesenvolvimento, a marginalização, a exclusão
social e as desigualdades econômicas estão estritamente vinculadas com o racismo, a
discriminação racial, a xenofobia e as práticas conexas de intolerância e contribuem para a persistência de atitudes e práticas racistas, que por sua vez geram
mais pobreza (ONU, 2001:7-8, tradução e grifo nossos).
Na verdade, não há como isolar os fundamentos para a adoção de ações afirmativas, bem como os efeitos decorrentes de sua adoção. Quando ações afirmativas
são adotadas promove-se, de certa forma, a igualdade substantiva, mitigam-se as
desigualdades na apropriação de bens fundadas em bases raciais, projeta-se positivamente a imagem dos negros, reparam-se os danos causados pela escravidão e por
eventuais sistemas segregacionistas posteriores.
Essa pletora de fundamentos que justifica a adoção das ações afirmativas representa, nada mais, do que o esforço da inteligência humana para promover a
igualação substantiva dos homens, admitidos os princípios fundantes das nações
contemporâneas, de que não há raças diferenciadas, de que o homem é integrante
de uma única família e de que todos nascem livres e iguais.
Na Declaração de Durban reafirmou-se que o racismo nega a verdade de que todos os indivíduos nascem
88
Encontra-se em tramitação na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei no
3.198, de 2000, de autoria do então Deputado Federal Paulo Paim (PT/RS), que
institui o Estatuto da Igualdade Racial. Trata-se de um dos textos mais avançados
no que concerne à promoção da igualdade racial no Brasil e que condensa as expectativas de todos aqueles que há anos lutam para que o Estado brasileiro reconheça
institucionalmente a necessidade de reparar os danos causados pela escravidão e
pelos mais de cem anos de discriminação e preconceito (BRASIL, 2002).
O projeto assume, então, na mesma linha proposta pela Conferência de Durban
(ONU, 2001), a necessidade de que tanto o Estado, como o setor privado, adotem medidas especiais, ações afirmativas, com o objetivo de reparar os danos gerados pela escravidão
e promover a igualação de direitos entre os brasileiros de todas as raças, cores ou etnias.
O Estatuto da Igualdade Racial adota expressamente a reparação, a compensação, a inclusão das vítimas da desigualdade e a valorização da diversidade racial
como diretrizes político-jurídicas de sua ação (BRASIL, 2002).
O fundamento adequado ao caso brasileiro: necessidade
de superação da lógica civilista da reparação
Ao se discutir a responsabilização do Estado em termos jurídicos pelos danos
causados aos negros em face da discriminação racial, deve-se lançar mão dos fundamentos disponíveis, do mais rígido, que é o fundamento compensatório, até o mais
flexível, que é o fundamento distributivo, para, adotando-se o mais adequado ao
caso concreto, pleitear que o Estado promova as medidas de correção necessárias.
livres e iguais em dignidade e em direitos e que todos os povos e indivíduos constituem uma única família
humana rica em sua diversidade (ONU, 2001:3 e 6). Lembrou-se que ainda hoje em dia persistem os
casos de racismo e de discriminação racial e que ainda seguem-se propondo teorias de superioridade de
raças, etnias e culturas que foram fomentadas e praticadas durante o período colonial (ibid.: 4). Afirmou-se
que essas teorias são cientificamente falsas, moralmente condenáveis e socialmente injustas. Demonstrou-se preocupação com o fato de o racismo estar ganhando terreno e voltando a ter reconhecimento
político, moral e inclusive jurídico em muitas formas, entre outras, por intermédio dos programas de algumas organizações e partidos políticos e a difusão de idéias baseadas no conceito da superioridade racial
mediante as modernas técnicas de comunicação. Rechaçou-se energicamente toda doutrina baseada na
superioridade racial assim como as doutrinas que pretendem demonstrar a existência de raças humanas
supostamente distintas (ibid: 4, 6 e 9).
O substitutivo, que será submetido à apreciação do Plenário da Câmara dos Deputados, foi elaborado
após serem realizadas audiências públicas, seminário, viagens e serem ouvidos, por mais de um ano,
representantes dos diversos segmentos envolvidos com a questão racial no Brasil como: sociólogos, juristas, antropólogos, membros do Ministério Público, membros da administração pública federal, entidades
de pesquisa, representantes do movimento social e do movimento negro.
Cf. art. 3o do Substitutivo aprovado pela Comissão Especial destinada a apreciar e proferir parecer ao Projeto
de Lei no 3.198, de 2000, que “institui o Estatuto da Igualdade Racial, em defesa dos que sofrem preconceito
ou discriminação em função de sua etnia, raça e/ou cor, e dá outras providências”, na reunião do dia 03 de
dezembro de 2002. Informação disponível em < http://www.camara.gov.bt>. Acesso em 30 de julho de 2004.
89
Assim, naqueles Estados e sociedades em que, pelos mais diversos motivos,
ainda não seja óbvia e natural a persecução da igualdade substantiva entre os seres
humanos e predomine a perspectiva positivista e dogmática do Direito, basta que o
ordenamento constitucional preveja a promoção do bem de todos, rechaçada qualquer prática discriminatória, e que se constate a existência de desigualdades fundadas
na raça para que as ações afirmativas, como políticas públicas do Estado ou como
iniciativa dos particulares, sejam adotadas para promover a igualação substantiva.
Essa perspectiva, mais flexível, deve ser a inspiradora de todos aqueles que almejam a igualação substantiva dos seres humanos e já seria suficiente para justificar
a implementação de ações afirmativas no Brasil.
Entretanto, estudos e pesquisas têm demonstrado, especialmente a partir da
análise da legislação imperial brasileira compreendida no período de 1822 a 185110,
que o Estado brasileiro, além de patrocinar a escravidão por motivos econômicos,
políticos, sociais e culturais, promoveu seu aprofundamento e sua institucionalização por intermédio de atos oficiais que conformaram um sistema de restrições
aos direitos fundamentais dos negros e de sua preterição em benefício de outros
segmentos sociais.
Esses atos, políticas e legislação geraram danos que são sentidos pela população negra nos dias de hoje e são decorrência direta dessa ação estatal.
No caso brasileiro, todos os requisitos necessários à adoção do fundamento
mais rigoroso e mais criticado, que legitima a adoção das ações afirmativas pelo
Estado – que é o fundamento compensatório da reparação pela prática de discriminação institucional –, estão atendidos.
Nesse caso, seguindo-se a linha firmada em Durban e reforçada no texto do
projeto do Estatuto da Igualdade Racial, não é facultado ao Estado optar entre adotar ou não as ações afirmativas. Sua adoção, como reparação, é compulsória.
O texto constitucional de 1988 que propugna pela constituição de um Estado
democrático pluralista, multicultural, sem discriminações e que aja para superar as
desigualdades está a legitimar esse avanço.
A efetivação do conceito de igualdade substantiva e a conformação de uma
sociedade pluriétnica e multicultural é uma questão de Estado e não uma questão
em que se deva recorrer acriticamente a institutos do direito privado.
10 Ver nesse sentido a dissertação de mestrado de Vieira Jr. (2004) intitulada “Responsabilização objetiva do
Estado brasileiro pela segregação institucional do negro e a adoção de ações afirmativas como reparação
aos danos causados”, especialmente os capítulos 2 e 3.
90
Dworkin (2001:451), ao comentar a decisão da Suprema Corte Americana
no caso Bakke11, ressaltou a preponderância do interesse coletivo, prioritário do
Estado, sobre expectativas individuais:
É lamentável quando as expectativas de um cidadão são derrotadas por novos programas que atendem a algum interesse mais geral. É lamentável, por
exemplo, que empresas pequenas e estabelecidas fracassem porque estradas
novas e superiores são construídas (...). Não há, naturalmente, nenhuma sugestão nesse programa de que Bakke divide alguma culpa individual ou coletiva pela injustiça racial nos Estados Unidos, ou que ele tem menos direito a
ser tratado com consideração ou respeito que qualquer estudante negro aceito
no programa (...). Todos ficam desapontados, porque as vagas em escolas de
medicina são recursos escassos que devem ser usados para oferecer a sociedade
aquilo que ela mais necessita. Não é culpa de Bakke que a justiça racial agora seja
uma necessidade especial–mas ele não tem o direito de impedir que sejam usadas as
medidas mais eficazes para assegurar essa justiça (grifo nosso).
É importante, então, promover a superação da lógica civilista embutida no
conceito de reparação, que ainda persiste no Brasil, no que concerne à responsabilização do Estado pelos danos impostos à população negra, nos seguintes termos:
a) a subjetividade, na medida em que se baseava na existência do dolo ou da
culpa do agente, deve ser substituída pela objetividade, bastando a constatação da ação estatal, do dano e do nexo causal entre ambos, em face do
previsto no texto da Constituição Federal de 198812;
b) a natureza privada, já que era decorrência de dano gerado por particulares,
deve ser alterada para a natureza pública, na medida em que foi constatada a participação do Estado como agente causador dos danos aos negros;
c) o caráter individualista, visto que os danos eram apreciados sob a perspectiva do indivíduo negro afetado, deve ser substituído pelo coletivo, tendo
em vista que os danos incidem sobre toda população negra ou parte dela;
d) o corte negativo da ação estatal, calcada nos princípios da igualdade formal e da não-discriminação, deve passar a ter natureza positiva, com o
11 Caso emblemático nos Estados Unidos envolvendo a questão das ações afirmativas. O caso envolvia os
Regentes da Universidade da Califórnia contra Allan Bakke. A Escola de Medicina da Universidade desenvolvia programa de ação afirmativa que reservavam dezesseis vagas para as minorias em desvantagem
educacional e econômica. Bakke, candidato branco, candidatou-se a uma das oitenta e quatro vagas restantes e foi rejeitado, mesmo tendo tirado notas que o habilitariam, caso as dezesseis vagas não tivessem
sido reservadas às minorias. Irresignado recorreu à justiça.
12 O art. 37 § 6o da Constituição Federal de 1988 estabelece a responsabilidade objetiva do Estado.
91
objetivo de promover a igualdade substantiva entre os integrantes das diferentes raças;
e) o enfoque criminal, na medida em que, na maioria das vezes, a reparação
era oriunda do cometimento de crimes motivados por preconceito racial,
deve ser substituído pelo enfoque civil, em que a necessidade de reparação
seja independente do cometimento de crimes de racismo;
f ) o objeto não deve ser unicamente os danos gerados no presente, mas também compreender danos atuais gerados como decorrência lógica de práticas desumanizadoras e segregacionistas pretéritas que remontam à época
da escravidão.
Essas devem ser as novas balizas da responsabilização objetiva do Estado
brasileiro em face dos danos impostos à população negra nos dias de hoje.
É interessante constatar que o projeto de lei que institui o Estatuto da Igualdade Racial segue essa mesma linha e inova ao prever a tutela coletiva dos direitos e
interesses dos segmentos étnico-raciais que sofrerem lesão, asseverando que a apreciação judicial das lesões e ameaça de lesão aos direitos dos negros dar-se-á sob a
égide da ação civil pública. Nessas ações, prevalecerá o critério da responsabilidade
objetiva, consoante o disposto em seu art. 64, § 1o, inciso I (BRASIL, 2002).
Resta uma última indagação a ser feita quanto à oportunidade da adoção
das ações afirmativas tendo em vista os resultados alcançados nos lugares onde foi
implementada.
Trata-se de responder a seguinte questão: serão as ações afirmativas medidas
efetivas no combate à discriminação, na promoção da inclusão dos negros no Brasil
e na construção de uma sociedade multicultural?
Importante referência no deslinde dessa questão é o recente estudo elaborado
pelo Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento (PNUD) (2004:69-72)
em que são analisadas as experiências de países que adotaram há muito tempo as
ações afirmativas como a Índia, a Malásia e os Estados Unidos e as experiências
recentes como a da África do Sul:
A ação afirmativa reduziu as desigualdades entre grupos nos locais onde tem
sido eficazmente executada. Mas estudos de países com dados recolhidos extensivamente e com uma longa história de ação afirmativa – Índia , Malásia e
Estados Unidos e, num período mais curto, a África do Sul – mostram que as
desigualdades entre as pessoas (desigualdades verticais) por oposição às desigual-
92
dades entre grupos (desigualdades horizontais) aumentaram ou mantiveram-se
estáveis. [...] É verdade que essas desigualdades poderiam ter piorado sem as
políticas de ação afirmativa. Mas para reduzir as desigualdades individuais e
construir sociedades verdadeiramente inclusivas e eqüitativas, são necessárias
outras políticas como as políticas que promovem o desenvolvimento econômico
eqüitativo. [...] Apesar destas preocupações, as políticas de ação afirmativa têm
tido bastante êxito na realização de seus objetivos e, provavelmente, considerações de natureza política impedirão sua eliminação. E sem elas é provável que as
desigualdades e exclusões socioeconômicas de grupos fossem piores do que são
hoje. Por isso não há dúvida de que a ação afirmativa tem sido necessária nos países
aqui examinados (grifo nosso).
As conclusões do PNUD (ibid.: 72) apontam para a necessidade de combinar
políticas de ações afirmativas com políticas econômicas estruturais que promovam o
desenvolvimento dos países. Essa constatação, contudo, não elide a necessidade de
adoção de medidas compensatórias temporárias.
No que concerne ao argumento recorrentemente veiculado de que seria mais
efetiva a adoção de critério de promoção da igualdade substantiva baseado na classe
e não na raça, o estudo do PNUD faz uma crítica à tendência verificada nos Estados Unidos de abandonar o modelo de ações afirmativas referenciados na raça
em favor de outro modelo que adote como critério de promoção da diversidade a
classe econômica dos beneficiários. Em relação ao acesso às universidades, o estudo
constata que o número de estudantes brancos pobres é seis vezes maior que o de
hispânicos e de negros e dessa forma “a preferência baseada na classe não promoverá a igualdade racial” (ibid.: 72).
A adoção compulsória de ações afirmativas
e o multiculturalismo
No final dos anos oitenta e início dos anos noventa do século passado, começou a ganhar força o movimento pela adoção de ações afirmativas para negros no
Brasil com o intuito de proporcionar condições reais de superação de desigualdades
raciais em diversos aspectos da vida nacional.
Nesse período, o mundo já convivia com experiências de iniciativa do Estado
em benefício de segmentos discriminados: por questões de classe, como na Índia,
desde 1949; por questões de raça, como nos Estados Unidos, desde a década de
sessenta; por questões de gênero e minorias étnicas, no caso de diversos países europeus, desde os anos setenta.
93
Na Índia, fortemente marcada por suas castas sociais que se apropriam de
forma extremamente diversa e desigual dos recursos nacionais, há previsão constitucional, desde 1949, para a adoção de medidas especiais em favor das classes
desfavorecidas, as chamadas “backward classes” (ZWART, 2000:236; PIERRÉCAPS, 2004:310).
Ao analisar a temática dos direitos reconhecidos às minorias nacionais européias, Pierré-Caps (2004:308-309) conclui que o princípio da discriminação positiva tem papel fundamental na conciliação do aparente conflito entre princípio de
igualdade de todos os cidadãos e o reconhecimento do direito à diferença.
Lembre-se que o Brasil, desde o século XIX, havia vivenciado a experiência
de o Estado intervir, por intermédio da legislação, para favorecer a integração de
determinado segmento da população13.
Vale dizer então que, para o Brasil, não é novidade a ação do Estado com o
intuito de promoção de determinado segmento social, que, em um dado momento
histórico, se quis privilegiar.
Nem a dimensão racial dessa ação estatal é nova para o Brasil. A política
imperial de estímulo à imigração de colonos brancos ao longo do século XIX e
também a política de imigração da incipiente República brasileira demonstraram
que a dimensão racial era priorizada na formulação de políticas públicas, sem que
em nenhum momento de nossa história tivesse sido argüida a inconstitucionalidade
dessas políticas com fundamento na suposta violação do princípio isonômico. O que
é novo para o Brasil é a cor – preta – dos beneficiários da política estatal.
Entre os movimentos anti-racistas surgidos no Brasil no final da década de
oitenta e início da década de noventa do século passado, há que se destacar o movimento pela reparação às vítimas da escravidão, lançado em São Paulo em novembro
de 1993, que objetivava, segundo d’Adesky (2001:156), aprofundar a reflexão sobre
a impunidade de autores de atos atentatórios aos direitos dos negros no Brasil, especialmente a impunidade do Estado e seus agentes diretos e indiretos.
Esse movimento exigiu a adoção de políticas compensatórias a título de reparação, bem como a indenização no valor de cento e dois mil dólares a ser paga pelo
Estado brasileiro a cada um dos descendentes de africanos escravizados no Brasil14.
13 Ver o Capítulo 3 da dissertação de Vieira Jr. (2004), que apresenta alguns exemplos de atos normativos
editados entre 1822 e 1851 em favor da integração de colonos brancos europeus.
14 À época, o Deputado Federal Paulo Paim (PT/RS) apresentou projeto de lei que continha essa reivindicação e objetivava atribuir, a título de reparação, cento e dois mil reais para cada descendente de escravos
no Brasil. Trata-se do Projeto de Lei no 1.239, de 1995.
94
Esse movimento do início da década de 90 é de grande relevância na construção da hipótese que objetiva caracterizar a adoção de políticas de ações afirmativas como a espécie de reparação mais adequada aos fins que se propõe, qual seja,
contribuir para a instituição de uma sociedade multicultural, em que se reconheça a
identidade, a cultura e os valores de brancos, negros, índios e outros grupos étnicos,
sem qualquer espécie de hierarquização.
É interessante perceber que a população brasileira, como um todo, ainda é
arredia à essa idéia defendida da necessidade de o Estado brasileiro reparar os danos
causados à população negra. No entanto, essa resistência se dá pelo fato de se atrelar
a idéia de reparação à indenização em dinheiro15.
A Declaração de Durban (ONU, 2001:19-20) reafirma a importância
da adoção de ações afirmativas como estratégia para lograr obter uma igualdade
plena e efetiva nas sociedades e de modo a integrar os segmentos populacionais
discriminados:
107. destacamos a necessidade de desenhar, promover e aplicar no plano nacional,
regional e internacional estratégias, programas e políticas, assim como legislação
adequada, que pode incluir medidas especiais e positivas, para promover um desenvolvimento social eqüitativo e a realização dos direitos civis e políticos, econômicos,
sociais e culturais de todas as vítimas do racismo, da discriminação racial, da xenofobia e das formas conexas de intolerância, dando-lhes, particularmente, um
acesso mais efetivo às instituições políticas, judiciais e administrativas, assim
como a necessidade de incrementar o acesso efetivo à justiça e de garantir
que os benefícios do desenvolvimento, da ciência e da tecnologia contribuam
efetivamente para melhorar a qualidade de vida de todos sem discriminação;
108. reconhecemos a necessidade de adotar medidas afirmativas ou medidas especiais em favor das vítimas do racismo, da discriminação racial, da xenofobia e das
formas conexas de intolerância para promover sua plena integração na sociedade.
Essas medidas de ação efetiva que hão de incluir medidas sociais, devem estar
15 D’Adesky (2001:181-183) inseriu nos questionários que forneceram base empírica à sua tese de doutoramento, uma questão sobre a pertinência da exigência de reparação das perdas advindas da escravidão,
pleiteada por certos grupos do Movimento Negro. A questão foi formulada da seguinte forma: “os negros
devem exigir do governo brasileiro reparação em dinheiro para compensar os sofrimentos de seus antepassados durante a escravidão?” As respostas variaram segundo a cor dos entrevistados. Para os brancos
entrevistados: 24,7% concordam totalmente; 3,1% concordam em parte, 2,6% discordam em parte; 30,1%
discordam totalmente; 32,1% não têm opinião formada sobre o assunto e 3,5% não responderam. Para
os negros entrevistados: 22% concordam totalmente; 15,3% concordam em parte; 17,4% discordam em
parte; 41,8% discordam totalmente e 3,5% não têm opinião formada. D’Adesky concluiu que a maioria dos
entrevistados recusava reivindicações consideradas exorbitantes como a exigência do pagamento de uma
indenização monetária em função de prejuízos passados, com receio de que isso servisse como pretexto
para o recrudescimento de conflitos étnico-raciais explícitos.
95
destinadas a corrigir as condições que minimizam a fruição dos direitos e a introduzir medidas especiais para permitir a igual participação de todos os grupos
raciais e culturais, lingüísticos e religiosos em todos os setores da sociedade e
para situá-los em pé de igualdade. Entre essas medidas deveriam figurar medidas
especiais para lograr uma representação apropriada nas instituições de ensino,
de habitação, nos partidos políticos, nos parlamentos, no mercado de trabalho,
em particular nos órgãos judiciais, na polícia, no exército e em outros serviços
civis, o que em alguns casos pode exigir reformas eleitorais, reformas agrárias, e
campanhas em prol da participação eqüitativa (tradução e grifo nossos).
A adoção de ações afirmativas por parte do Estado como forma de reparação
dos danos que persistem desde a escravidão e ainda hoje são constatáveis tem a vantagem adicional de contribuir para a conformação de uma sociedade multicultural
e pluriétnica.
No multiculturalismo objetiva-se a convivência entre diferentes. Diferentes
“raças”, etnias, valores, costumes, hábitos, religiões e culturas em que se tenta extrair
a partir do diálogo das diferenças pontos de convergência que impulsionem o desenvolvimento das nações.
Nesse sentido, importa atentar para o alerta de Clodoaldo Cardoso (2003:164):
A solidariedade multicultural libertadora não significa uma harmonia sólida entre as culturas, mas contém antagonismos e incertezas. Ela está mais
orientada em potencializar pontos de interação do que harmonizar interesses
conflitantes.
Assim, se a reparação dos danos gerados pelas práticas racistas e discriminatórias impostas ao negro com a participação do Estado brasileiro ficasse limitada
ao pagamento de indenizações em dinheiro, correr-se-ia o risco de manter o germe
do preconceito e do racismo em nossa sociedade. Nada seria feito no sentido de
romper as barreiras que separam os negros do exercício de direitos sociais básicos,
do acesso ao mercado de trabalho e à renda.
A adoção de ações afirmativas pelo Estado, além de reparar danos atuais e
prestar contas com a história, promove a inclusão, a integração e o convívio de diferentes; é, por sua vez, um claro compromisso do Estado com a conformação de uma
sociedade diversificada e plural.
A Declaração de Durban, por seu turno, reconhece que a diversidade cultural é um elemento valioso para o desenvolvimento e bem-estar da humanidade
em geral, enriquece a sociedade, e que a preservação e o fomento da tolerância,
96
do pluralismo e do respeito à diversidade podem produzir sociedades mais abertas
(ONU, 2001:3 e 6).
Percebe-se que a reparação fundada na adoção de ações afirmativas é a mais
adequada e razoável, levando-se em consideração o tipo de dano que se pretende
compensar – a segregação, o preconceito racial e a privação de direitos16.
Conclusão
Focou-se, neste artigo, a necessidade de responsabilização objetiva do ator
que diretamente contribuiu para a conformação da sociedade racialmente desigual e
excludente identificada nos estudos sociológicos recentes: o Estado brasileiro.
A positivação das ações afirmativas no Brasil, assunto que vem sendo objeto
de calorosos debates no Parlamento, na academia, nos meios jurídicos, e na própria
sociedade, fará com que o Estado brasileiro inicie o processo de reparação e dê os
primeiros passos que estão ao seu alcance para a consolidação de uma sociedade
multicultural e verdadeiramente democrática.
Sustenta-se que a valorização da identidade individual e coletiva dos negros
no Brasil somente será possível a partir da adoção de políticas públicas e ações
privadas específicas e diferenciadas de modo a reparar os danos que lhes foram
secularmente causados.
Segundo d’Adesky (2001:236),
O reconhecimento da pluralidade de culturas no seio das sociedades e a instauração de medidas concretas para promover a participação social e econômica dos grupos culturais minoritários ou das comunidades étnicas depreciadas,
como demandas do multiculturalismo democrático, visam exatamente que a
diversidade étnica e cultural da população seja respeitada e garantida, sem implicar tentativas de depreciar ou eliminar esses grupos. Em termos de pessoa
humana, o multiculturalismo possibilita que o indivíduo venha a se identificar
segundos seus próprios critérios, de forma que possa ser reconhecido pelo que
é, sem ser obrigado a se fazer passar pelo que não é.
16 Essa participação dos afro-brasileiros e de outros grupos discriminados deve ser promovida, consoante o
art. 4o do Substitutivo do Estatuto da Igualdade Racial, mediante as seguintes ações: inclusão da dimensão
racial nas políticas públicas; adoção de medidas, programas e políticas de ação afirmativa; modificação
das estruturas institucionais do Estado para enfrentar e superar as desigualdades raciais decorrentes de
preconceito e discriminação racial; ajuste da legislação de combate à discriminação; eliminação de obstáculos históricos e sócio-culturais que impedem a representação da diversidade racial nas esferas pública e
privada; estímulo às iniciativas da sociedade civil direcionadas à promoção da igualdade racial mediante a
concessão de incentivos e prioridade de acesso aos recursos e contratos públicos; implementação de programas de ação afirmativa para enfrentar as desigualdades raciais na área de educação, cultura, esporte,
lazer, saúde, trabalho, financiamento público e contratação de obras públicas (BRASIL, 2002).
97
Essas políticas públicas e privadas específicas devem ser temporárias até que
sejam eliminadas as distorções na apropriação de bens e serviços, na oferta de oportunidades e reconhecimento de direitos e devem ser implementadas simultaneamente a políticas econômicas e sociais estruturais e universalistas que objetivem a
ampliação da oferta de emprego, o aumento da renda da população e a melhoria dos
serviços públicos de saúde e educação.
Mais do que o simples pagamento de uma indenização pecuniária que direciona erroneamente o instituto da responsabilidade civil do Estado para uma perspectiva civilista, a adoção compulsória de políticas públicas específicas em benefício dos negros tem a nítida vantagem de proporcionar condições para o desmonte,
mediante processos educativos e de comunicação, do estigma de inferioridade que
carrega a população negra no Brasil e, dessa forma, contribuir efetivamente para a
instituição de uma sociedade mais igualitária, multicultural e democrática, em que
seja reconhecida a existência de diversas culturas e a elas seja conferido o mesmo
grau de importância.
A idéia de respeito às diferenças proposta neste artigo é sintetizada por Boaventura de Souza Santos (2003:458) quando propõe a reconceitualização dos direitos humanos como multiculturais e não universais como até hoje têm sido compreendidos, pois, dessa forma, tendem a expressar unicamente os valores ocidentais
dominantes. Nessa perspectiva contra-hegemônica proposta, o autor alerta para a
necessidade da preservação das diferenças e para a importância de tentar eliminar
as hierarquizações culturais feitas com base em critérios raciais e sexuais.
Para Santos (ibid.), o multiculturalismo progressista será obtido a partir de
um diálogo intercultural em que sejam respeitadas as diferenças e aceito o imperativo transcultural que afirma que “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos
inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”.
98
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101
Parte II
Em Defesa de
Ações Afirmativas
para a Inclusão
dos Negros
no Ensino
Público Superior
Brasileiro
Raça e Educação:
os limites
das políticas
universalistas
Luciana Jaccoud
Mário Theodoro
A
assertiva de que o Brasil é um país desigual é hoje bastante consensual,
compartilhada inclusive pelo discurso oficial governamental. De fato, as
informações gerais sobre a questão social brasileira traçam um quadro
inelutável. Sob os mais diversos pontos de vista, a iniqüidade desponta
como uma das principais características desse país-continente. Os pobres representam hoje algo em torno de 1/3 da população, o que significa um contingente da
ordem de 55 milhões de pessoas. Os 10% mais ricos detêm cerca de 46% da renda
nacional. Com um PIB per capita da ordem de US$ 3,2 mil, cerca de 15% da população se coloca abaixo da chamada “linha da indigência”.
Entretanto, a reprodução da pobreza e da miséria, no caso brasileiro, é
um processo amplo e complexo. Não é fruto de guerras, catástrofes climáticas
prolongadas ou qualquer outro tipo de evento de largo espectro. Trata-se, efetivamente, de um fenômeno histórico e social que expressa, em última análise,
uma regulação perversa; uma sociedade que produz pobres nos períodos de crise
econômica, mas também em fases de crescimento. A ausência de uma âncora
inclusiva, a não-resolução de algumas questões distributivas basilares – como o
acesso à terra e ao trabalho para grandes parcelas da força de trabalho (THEODORO; DELGADO, 2003) – e a própria ação do Estado, em um sentido geral,
contribuem para o cenário descrito.
Mas essa reprodução da pobreza e da miséria é, em sua complexidade, permeada por fatores diversos. A desigualdade tem um forte componente regional,
consubstanciado na concentração da riqueza na região Sudeste, em detrimento
principalmente do Nordeste. Tem também um forte viés local, sobretudo nas grandes áreas urbanas onde proliferam as favelas, habitat de milhões de pessoas. Há
ainda o componente de gênero que faz com que uma parcela significativa das mulheres, sobretudo aquelas que chefiam famílias, permaneçam nos estratos de mais
baixa renda.
Nesse contexto, outro importante aspecto manifesto da desigualdade no
Brasil diz respeito aos diferenciais em função da origem étnica. A reprodução da
desigualdade, pautada em grande medida pela existência da discriminação racial,
constitui um dos grandes desafios a serem enfrentados pelas políticas públicas. A
política social de cunho universalista, base da ação do Estado, reformatada a partir
da Constituição de 1988, parece carecer de ações complementares que dêem conta
das especificidades da questão.
Esse será o tema do presente artigo. O enfrentamento da questão racial no
Brasil e seus desdobramentos – os aspectos associados à discriminação, aos diferenciais
de renda e de oportunidades – e os limites das políticas universalistas. Para tanto, será
enfocado o caso da política educacional, reconhecidamente um dos principais instrumentos de equalização de oportunidades e, portanto, de combate à desigualdade social.
Compõem o artigo quatro partes além desta introdução. Na primeira, é apresentado
um quadro geral com dados mais recentes acerca dos diferenciais de renda e de educação para negros e brancos no Brasil. Na parte seguinte, é feita uma discussão sobre os
diferentes tipos de discriminação e das formas de manifestação do racismo. Na terceira
parte, expõe-se os termos do debate atual acerca das políticas necessárias a uma efetiva
promoção da igualdade racial no âmbito educacional. Finalmente, à guisa de conclusão,
são apresentadas, de forma resumida, as principais considerações arroladas.
As desigualdades de renda e de educação
para negros e brancos
Nos últimos anos, os dados e as informações produzidos pelo IBGE e pelo
IPEA expressam com clareza a perversidade da chamada questão racial no Brasil.
Os negros – aqui considerados como o somatório dos pretos e pardos – mantêm-se
em geral em uma condição social significativamente pior que a da população branca, sejam quais forem os indicadores utilizados. Além dos expressivos diferenciais
106
no que diz respeito à renda, os negros são sempre os mais penalizados em termos
do acesso aos bens e serviços públicos. Veja-se o que mostram as análises realizadas
a partir dos levantamentos realizados pelo IBGE, para o ano de 2001.
Quanto à renda, observa-se que para aquele ano, enquanto a média da renda
domiciliar per capita da população branca foi de R$ 481,60, a média per capita da população negra era de R$ 205,40, isto é, os afro-descendentes ganharam, em média, menos
da metade do que os brancos. Ademais, os negros são sobre-representados nos extratos
mais pobres da população, independente do recorte de pobreza utilizado. Assim, por
exemplo, dos 24 milhões de brasileiros considerados indigentes, ou seja, aqueles que se
localizam abaixo da “linha da indigência”, quase 70%, ou 16,5 milhões, eram negros.
Detentores das piores posições no mercado de trabalho, com rendimentos inferiores à metade daqueles percebidos pelos trabalhadores brancos, maiores taxas de
desemprego e, quando ocupados, mais afetos ao trabalho informal, os negros apresentam ainda os mais baixos índices de cobertura do sistema previdenciário e os maiores
índices de trabalho infantil. Paralelamente, a população negra é sobre-representada
na população favelada, e sub-representada nos indicadores de cobertura de serviços
públicos. Assim, o percentual da população negra favelada é o dobro do verificado
para a população branca (respectivamente 6,1% e 3,0%). Ao mesmo tempo, os indicadores de proporção de domicílios, segundo cor e raça do chefe da família, em diversos
serviços como abastecimento de água, domicílio com esgotamento sanitário ou com
saneamento básico adequado, com acesso à energia elétrica ou à serviço de coleta de
lixo, mostram invariavelmente, uma menor cobertura para a população negra.
Mais pobres, mais propensos às situações de desemprego e informalidade, habitando áreas carentes de infra-estrutura. Todos os indicadores mostram a precária condição social da população negra brasileira. Para muitos analistas, a reversão desse quadro
de desigualdades passaria pela ação educacional na medida em que políticas educacionais de cunho universalista propiciariam uma mobilidade social ascendente para os grupos mais desfavorecidos da população, entre eles os negros. Melhores níveis de educação resultariam em melhores condições de disputa dos postos no mercado de trabalho,
permitindo desta forma, acesso à maior remuneração. Essa âncora universalista para as
políticas públicas, bastante enfatizada pela Constituição de 1988, deveria ser, segundo
alguns estudiosos, o elemento principal de uma ação de redução das desigualdades sociais. De fato, a equalização via universalização do acesso ao sistema educacional é um
dos pressupostos republicanos da generalização de uma cidadania plena e atuante.
Os dados citados nesta seção podem ser encontrados no banco de dados “Desigualdade Racial: Indicadores Sócio-econômicos. Brasil – 1991-2001”, do IPEA.
107
Contudo, no caso brasileiro, a despeito dos esforços de montagem de um sistema educacional universalizado para o ensino fundamental, consolidado nos anos
90, os diferenciais anteriormente apresentados também se reproduzem na área educacional. O analfabetismo atingia, em 2001, 18,2% da população negra com mais de
15 anos contra 7,7% no caso dos brancos. Por outro lado, os brancos têm melhores
índices de escolaridade. Tomando-se a população de 25 anos e mais, constata-se que
o segmento branco tem em média dois anos a mais de estudos do que os negros
(em 2001, 6,9 anos contra 4,7 anos, respectivamente). Essa informação é ainda
mais alarmante quando se toma uma série histórica apresentada pelo IPEA, e que
remonta os últimos 100 anos, como nos mostra o gráfico 1 (SOARES, et al, apud
JACCOUD; BEGHIN, 2002:32). Nele se percebe que, não obstante o aumento
generalizado da média de anos de estudo, o diferencial entre negros e brancos tem
permanecido em torno dos mesmos dois anos ao longo de todo o século XX.
Gráfico 1
Média de Anos de Estudo segundo Cor ou Raça e Coorte de Nascimento
para Nascidos entre 1900 e 1965
8
7
6
5
4
Brancos
Negros
3
2
1
1890 1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970
Fonte: IBGE. PNAD, 1996. Elaboração DISOC/IPEA a partir dos microdados.
Com efeito, o grosso da população negra com acesso ao sistema escolar se
concentra no ensino fundamental. Dados mais recentes do IBGE (2003) mostram
que, tomando-se o grupo de 15 a 17 anos, enquanto 60% dos estudantes brancos
nesta faixa etária cursavam o ensino médio, no caso dos negros esse percentual
108
contemplava apenas 32% do total dos estudantes desta raça/cor. No que se refere à
educação superior, a situação é ainda mais restritiva. Na faixa dos 20 aos 24 anos,
53,6% dos estudantes brancos estavam na universidade, enquanto que para os negros, esse percentual era de até 15,8%.
Esses últimos dados engendram um outro aspecto importante que diz respeito à distorção idade-série, índice que mede a distância entre a situação real do
estudante, em termos da série cursada, e a situação ideal, tendo em vista sua idade.
Neste sentido, em 2001, 44% dos estudantes negros na faixa dos 20 a 24 anos
cursavam o ensino médio e 34,2%, o ensino fundamental. Os negros com acesso
ao sistema educacional se concentram nos extratos inferiores – sobretudo ensino
fundamental – com altos índices de defasagem idade-série.
A análise da distorção idade-série é particularmente importante de ser
observada no que se refere ao quadro atual da situação escolar das crianças. Séries históricas permitem observar que o acesso ao ensino fundamental melhorou
para os dois grupos, brancos e negros; o acesso, hoje, encontra-se praticamente
universalizado. Contudo, tal quadro significa tão somente uma melhora relativa no que diz respeito à situação escolar de negros e brancos. A distância entre negros e brancos no indicador distorção idade-série no ensino fundamental
manteve-se praticamente inalterada durante toda a década de 1990, e indicava,
no ano de 2001, uma diferença de 20 pontos percentuais. Ou seja, enquanto
25% dos estudantes brancos apresentavam alguma defasagem entre sua idade e a
série em que deveriam estar cursando, para os estudantes negros este índice era
de 45%. Este número não só demonstra, a partir de dados do interior do sistema
educacional, a manutenção das enormes desigualdades que marcam os grupos
negros e brancos, como indica, para o futuro, a manutenção de indicadores elevados de desigualdade educacional para a população adulta. Isso porque não é
difícil imaginar que tais índices de distorção idade-série se refletirão, no futuro,
em maior número de crianças e jovens negros abandonando a escola, reproduzindo as trajetórias de desigualdade de anos de estudo entre a população adulta
até hoje observados no país.
A análise dos dados da escolarização líquida e da distorção idade-série para
o ensino médio reforçam o quadro negativo acima descrito. Em 1992, a taxa de escolarização líquida para o ensino médio era de 27% para a população branca de 15
Vejam-se dados de educação no banco de dados “Desigualdade Racial: Indicadores Sócio-econômicos.
Brasil- 1991-2001”, IPEA.
Escolarização líquida é a parcela da população na faixa etária considerada adequada ao nível/modalidade
de ensino a que se refere.
109
a 17 anos, e de 9% da população negra da mesma idade. Em 2001, ambos os grupos
melhoraram sua taxa de escolarização, que passou, no caso dos brancos, para 51%,
e, no caso dos negros, para 25%. Contudo, observa-se que, a despeito da melhoria
generalizada dos indicadores, a distância entre os dois grupos aumentou. Ela era de
18% no ano de 1992, e elevou-se para 26% no ano de 2001. Neste mesmo período,
as diferenças entre os dois grupos quanto à distorção idade-série mantiveram-se
praticamente inalteradas, atingindo, em 2001, 41% dos estudantes brancos do ensino médio e 60% dos negros.
Uma análise superficial explicaria esse quadro de desigualdades na educação
pelos diferenciais sociais e de rendimentos entre negros e brancos no Brasil. Ou
seja, poder-se-ia pensar que os alunos negros são oriundos de famílias de menor
renda e de menor nível educacional que os brancos, e, por isso, encontrariam maiores dificuldades em sua trajetória escolar. Entretanto, trabalhos recentes derrubam
esta tese. Exercícios desenvolvidos pelo IPEA, por Soares et al, simulando qual seria
o nível educacional dos negros se estes fossem originários de famílias cujos pais
tivessem os mesmos níveis de escolaridade dos brancos, demonstram que a maior
parte do diferencial entre média de anos de estudo observada entre os dois grupos
não pode ser atribuída à diferenças no nível educacional das famílias como se pode
ver no gráfico 2 (SOARES, et al, apud JACCOUD; BEGHIN, 2002:34).
Gráfico 2
Média de Anos de Estudo segundo cor ou raça e coorte de nascimento
para nascidos entre 1900 e 1965 e anos de estudo de negros segundo
simulação de escolaridade dos pais
8
7
6
Racismo na escola
5
4
Brancos
Negros
Origem Brancos,
Anos Negros
3
2
1
1890 1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970
110
Fonte: IBGE. PNAD,
1996. Elaboração
DISOC/IPEA a partir
dos microdados.
Na mesma direção estão as conclusões do trabalho de Albenarez et al (2002),
que analisam os dados de desempenho educacional dos alunos de a série do ensino fundamental a partir dos dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica
(SAEB). Observando as diferenças de desempenho entre alunos brancos e negros,
os autores deste estudo também concluem que os alunos negros têm desempenho
inferior ao dos alunos brancos, mesmo após controle pelo nível sócio-econômico.
Os alunos negros não teriam apenas menos chances de estar na escola, “mas, além
disso, os que chegam à escola e aí logram permanecer, parecem ter um desempenho
pior do que seus colegas brancos, mesmo controlando pelo nível sócio-econômico”
(ALBENAREZ, et al, 2002:15).
Tais simulações demonstram que as causas das desigualdades – passadas e
presentes – entre as trajetórias escolares e os indicadores educacionais de brancos
e negros não podem ser explicadas somente por diferenças sócio-econômicas das
famílias, mas também devem ser procuradas no âmbito do sistema escolar. De fato,
os dados indicam que parte significativa das diferenças encontradas neste campo
podem ser atribuídas a alguma forma de discriminação ou de tratamento da temática racial no interior das escolas que impactam negativamente o desempenho dos
alunos negros.
O racismo e a discriminação não determinam apenas as desigualdades educacionais, mas também as próprias desigualdades de renda entre as famílias brancas
e negras. Os indicadores de renda recém-levantados pelo IBGE (2003), que comparam a renda da população branca e negra ocupada com mesmos anos de estudo,
mostram que, em qualquer dos grupos, negros auferem um rendimento menor do
que os brancos, e que quanto mais aumenta o número de anos de estudo, mais aumenta a diferença de renda em detrimento dos negros. Comparando o rendimentohora de brancos e negros em 2001, para o grupo que tem até 4 anos de estudo, o
rendimento dos brancos era de R$ 2,3, enquanto que o dos negros era de R$ 1,5.
Para o grupo que tem de 5 a 8 anos de estudo, os rendimentos dos brancos e dos
negros eram, respectivamente, de R$ 2,9 e de R$ 2,1. Para aqueles que tinham de 9
a 11 anos de estudo, o rendimento-hora de brancos e negros era de R$ 4,4 e R$ 3,1
respectivamente. E, finalmente, no grupo de mais de 12 anos de estudo, os brancos
auferiam renda-hora de R$ 11,8, contra R$ 8,3 dos negros do mesmo grupo.
Assim, mais uma vez, pode-se observar a impropriedade da tese segundo a
qual as desigualdade raciais no Brasil seriam provenientes de um círculo perverso
existente entre a baixa renda e o menor nível educacional das famílias negras. Ao
contrário, os dados e estudos recentes sobre estes temas mostram que nem a baixa
111
renda dos negros explica os expressivos índices de desigualdade educacional observados entre negros e brancos, nem as desigualdades educacionais permitem explicar
as gritantes disparidades de renda entre os dois grupos. E, como os baixos resultados na esfera educacional limitam o espectro de oportunidades (o que impacta por
sua vez nos baixos desempenhos educacionais), a população negra é fortemente
penalizada pela incapacidade da escola em garantir aos grupos racialmente discriminados uma efetiva igualdade de oportunidades.
Trata-se assim de uma tragédia em dois atos. Primeiro, os negros são discriminados nas escolas, nunca conseguindo apresentar indicadores que se aproximam
dos brancos. Segundo, os negros são discriminados no mercado de trabalho, onde
recebem menos que os brancos mesmo tendo escolaridade idêntica à deles. A percepção da existência de discriminação na escola e no mercado de trabalho delineia
algo maior e mais complexo: o racismo brasileiro.
Esse racismo, cuja presença ainda é tantas vezes negada, afronta diretamente
o mito da democracia racial brasileira. Racismo perene que, ao mesmo tempo em
que desconstrói o mito, serve de mote para a reconstrução de uma questão racial,
recolocando o problema como área de ação do Estado. E, nessa perspectiva, sua
especificidade engendra novos matizes para esta ação, pondo mesmo em questão os
limites das políticas universais.
Desigualdades raciais, racismo e discriminação
Os dados anteriormente apresentados não deixam dúvidas sobre a gravidade
da questão racial tal como ela se conforma hoje no país. Chamam a atenção não
apenas porque as disparidades entre negros e brancos são gritantes em praticamente
todos os indicadores socioeconômicos levantados. Com efeito, duas outras importantes constatações emergem. De um lado, o fato de que, na maior parte destes
indicadores, as desigualdades têm-se mostrado constantes ao longo do tempo e,
em alguns casos, vêm inclusive se agravando. Ou seja, quando analisados em séries históricas, os dados levantados não mostram tendências de convergência entre
brancos e negros em nenhum aspecto relevante. Vê-se, assim, que os indicadores
socioeconômicos não têm apresentado evoluções que permitam antever, a curto ou
médio prazos, reduções expressivas das desigualdades entre os grupos raciais. De
outro lado, reafirma-se a tese de que as desigualdades raciais no Brasil não são fruto
apenas da situação de pobreza à qual historicamente estão submetidos os afro-des Como bem mostram Albenarez et al (2002).
112
cendentes, mas sobretudo da existência ativa do racismo e da discriminação racial
em todos os espaços da vida social.
Desta forma, refletir sobre as medidas a serem tomadas pelo poder público
para enfrentar tal quadro de iniqüidades implica analisar o processo de reprodução
do racismo e da discriminação racial, fenômenos que explicam tanto a existência
dos atuais níveis de desigualdade entre brancos e negros no Brasil como, também,
sua manutenção e reprodução ao longo do tempo.
A literatura recente tem ressaltado a diferença entre o preconceito racial e a
discriminação. Enquanto o preconceito racial, e mesmo o racismo, têm sido classificados como fenômenos de ordem subjetiva, expressando-se por meio de valores, idéias e sentimentos, a discriminação racial tem sido entendida como ação de
exclusão, restrição ou preferência que impede o tratamento ou acesso igualitário a
direitos e oportunidades em função da cor. E a própria discriminação, enquanto
ato de distinção e exclusão, expressa-se por intermédio de diferentes formas, na
vida social. A esses diferentes fenômenos, cabe interpor ações públicas igualmente
distintas. Como já alertou Silva Jr.,
[...] tratar como sinônimos os termos preconceito e discriminação pode implicar não apenas uma perigosa e totalitária devassa na esfera da liberdade
individual, como também – o que é mais freqüente e perverso – na omissão
estatal pura e simples face da discriminação, motivada, entre outras razões,
pela indefinição dos limites, do papel e dos instrumentos estatais destinados
ao enfrentamento da desigualdade e à promoção da igualdade (2000:373).
Avançando na análise dos mecanismo de exclusão social que atingem os negros, alguns autores têm insistido na diferenciação das formas de discriminação,
destacando a discriminação direta e a discriminação indireta. Tem sido classificado
como discriminação direta todo ato expresso de restrição ou exclusão baseado na
cor. É a chamada prática do racismo em sua forma mais explícita. Já a discriminação
indireta (algumas vezes também chamada de discriminação invisível ou discriminação institucional) tem sido identificada como aquela cuja desigualdade de tratamento não se realiza através de manifestações expressas de racismo, mas sim de práticas
aparentemente neutras. Esta forma dissimulada de discriminação é mais difícil de
ser identificada e combatida, pois, como afirmou Barbosa Gomes, revestidas de aspectos culturais e psicológicos, tais práticas ingressam no imaginário coletivo “ora
tornando-se banais e, portanto, indignas de atenção salvo por aqueles que dela são
Ver Silva Jr. (2000 e 2001), Gomes (2001), Santos (2001) e Jaccoud e Beghin (2002).
Ver, por exemplo, Gomes (2001)
113
vítimas, ora se dissimulando através de procedimentos corriqueiros, aparentemente
protegidos pelo Direito” (2001: 20).
Ora, se a criminalização destaca-se como importante e insubstituível instrumento de combate aos atos de discriminação, ela não pode, entretanto, ser o único
meio de enfrentamento da prática do racismo. A discriminação indireta dificilmente é passível de punição legal. Dissimulada através de mecanismos aparentemente
neutros, como, por exemplo, processos de seleção de mão-de-obra onde diversos requisitos de qualificação são demandados, a discriminação indireta só se torna socialmente visível por meio de indicadores de desigualdade que apontam o desfavorecimento de um grupo étnico em relação a outro. O enfrentamento da discriminação
indireta depende assim, de um lado, de ações específicas voltadas à “neutralização do
efeito da desigualdade racial”, as chamadas ações afirmativas e, de outro, de políticas
de combate aos preconceitos, estereótipos e ideologias que legitimam, sustentam e
alimentam as práticas racistas.
As ações de combate ao preconceito e aos estereótipos de cunho racista devem se
revestir de formas específicas: ações valorizativas e persuasivas (SILVA JR., 2000:372).
Essas ações têm como objetivo combater os estereótipos depreciativos, valorizar as diversas etnias em bases de igualdade e valorizar a pluralidade étnica da sociedade brasileira. São ações que devem ser desenvolvidas especialmente dentro do sistema educacional e junto aos meios de comunicação. À diferença das políticas afirmativas, as ações
valorizativas não devem ter uma temporalidade específica e não tratam de dispensar um
tratamento diferenciado a um ou a outro grupo. Ao contrário, elas buscam combater o
tratamento diferenciado e depreciativo que vem sendo dado, no caso brasileiro, ao negro,
nas diversas esferas de construção e reprodução da imagem nacional.
As chamadas ações afirmativas, por seu lado, engendram um conjunto diferenciado de medidas que têm por objetivo igualar o acesso de grupos sociais discriminados
a certas oportunidades sociais. As políticas afirmativas visam a estimular a participação
destes grupos em determinados espaços sociais nos quais estão sub-representados. Podem ser elencadas como ações afirmativas o estabelecimento de cotas em concursos públicos, a fixação de cronogramas e metas para ampliação da representação destes grupos
em instituições ou empresas ou, ainda, programas diversificados de qualificação de que
são exemplo as experiências de concessão de bolsas de estudo para afro-descendentes.
Dessa forma, duas constatações se impõem. Observa-se, de um lado, que ações
afirmativas não se reduzem a políticas de cotas e, de outro, que elas não esgotam o
A criminalização da prática de racismo foi consagrada pela Constituição de 1988 e regulamentada por importante legislação: Lei n° 7.716/1898 (Lei Caó), Lei nº 9.029/1995, Lei nº 9.455/1997 e Lei nº 9.459/1997.
114
conjunto de políticas públicas necessárias à promoção da igualdade racial. De fato,
as ações afirmativas são políticas amplas que se inserem no campo da promoção da
igualdade de oportunidades, facilitando o acesso dos grupos discriminados a certos
espaços da vida social. Tais políticas podem ser entendidas como complementares
às políticas universais, quando estas se mostram insuficientes para garantir, em uma
dada sociedade, a igualdade de oportunidade aos diferentes grupos étnicos. Ou seja,
são ações que devem ser promovidas em sociedades em que, a despeito do desenvolvimento de políticas universais, a discriminação racial, direta ou indireta, atua
como obstáculo a que os diferentes indivíduos, independente de sua cor, acessem as
mesmas oportunidades. Contudo, cabe ao Estado mais que promover o acesso: ele
deve desenvolver políticas amplas de combate à discriminação e ao racismo.
Educação: um debate sobre a promoção da
igualdade racial
A situação do meio escolar brasileiro é também permeada pelo racismo e pela
discriminação racial, como revelam não apenas as análises dos dados mas inúmeros
trabalhos de pesquisa que têm levantado a situação de desconforto que vivem os
estudantes negros em suas escolas. O ensino tem estado dissociado de sua realidade
e de sua história. Livros e professores raramente dialogam com a experiência destes
alunos no que diz respeito à sua vivência cotidiana, social e racial. Os estudantes
não encontram no material didático e, em especial, nos livros de história, um retrato
consistente de sua origem e da história de seus ancestrais. As crianças negras são
confrontadas a versões parciais, freqüentemente negativas, quando não claramente
racistas, tanto no que diz respeito aos povos que foram trazidos como escravos, sua
cultura e história, como no que se refere à sua luta pela liberdade, por melhores condições de vida e de trabalho, pela construção do país e pela afirmação da República.
As imagens de negros, quando presentes nos livros e material didático, estão fortemente marcadas por preconceitos e estereótipos inferiorizantes. Atitudes racistas e
práticas discriminatórias se reproduzem não somente fora, mas também dentro da
escola. Não é surpreendente que este contexto dramático exerça forte influência sobre a auto-estima e sobre o estímulo dos estudantes negros em freqüentar a escola.
Para enfrentar um quadro tão duro quanto complexo, é necessário que o Estado vá além das tradicionais políticas universalistas, ampliando sua intervenção e
buscando implementar as medidas necessárias para garantir o acesso e a permanência das crianças e dos jovens negros na escola, em todos os níveis educacionais. Tais
Ver por exemplo Rosemberg (1985), Munanga (2000) e Igreja (2001).
115
medidas implicariam a adoção de políticas de combate aos estereótipos, aos preconceitos e ao racismo, e a promoção de determinadas políticas de promoção da igualdade. Essa nova orientação visaria a enfrentar o retrato traçado pelos indicadores de
desigualdade racial apresentados na primeira seção, que apenas confirmam o que o
Movimento Negro sempre denunciou e que as pesquisas específicas já apontavam:
que a escola, hoje, em que pese a universalização do acesso ao ensino fundamental,
não tem funcionado como um espaço de equalização de oportunidades. Ao contrário, como exprimem os dados referentes a atraso (defasagem idade-série) e à evasão,
a escola tem sido uma das principais instâncias de reprodução da desigualdade racial. Isso não se deve apenas às condições sociais desfavoráveis dos alunos negros,
mas à forma como tem sido enfrentada a questão racial no ambiente escolar.
Contudo, não são poucos os problemas que se colocam à implementação de
políticas específicas no campo educacional para combater as desigualdades raciais
e seus mecanismos de reprodução, seja no campo da discriminação seja no campo
das imagens e valores. Uma primeira dificuldade se refere ao próprio reconhecimento da necessidade destas políticas. Como afirma Fúlvia Rosemberg, o pensamento
educacional brasileiro ainda está marcadamente influenciado por um enfoque que,
reconhecendo “a concentração maciça do alunado negro nas camadas mais pobres
da população, tende a identificar as dificuldades interpostas à escolaridade dos negros com os problemas enfrentados pela pobreza, não considerando a especificidade
da origem racial” (2000:134).
Uma segunda dificuldade diz respeito à polarização do debate em torno das
políticas de cotas e ao caráter ainda incipiente do debate sobre políticas educacionais integradas e amplas voltadas ao enfrentamento do problema das desigualdades
raciais na educação. Com o início das primeiras experiências de implementação de
cotas em universidades, a opinião pública foi mobilizada. Contudo, as cotas para
universidades são apenas uma parte deste debate. De fato, no ensino fundamental
e médio, as discussões em torno da necessidade de inclusão dos temas das relações
raciais e da valorização da diversidade étnica e cultural do país nos projetos pedagógicos, da implementação de medidas de promoção da igualdade racial nas escolas,
da sensibilização dos professores e da mudança das práticas escolares, mal começaram, em que pese a existência de iniciativas exitosas visando a propiciar condições
mais favoráveis para garantir o acesso e a permanência dos estudantes negros na
escola. É o que demonstra o fato de ainda em 2003, na capital do país, estudan Como, por exemplo, os cursinhos pré-vestibulares ou de projetos de incentivo e divulgação de experiência
de inclusão do tema “relações raciais” nas escolas, como é o caso do prêmio “Educar para a Igualdade
Racial”, instituído pelo CEERT.
116
tes de escolas públicas receberem livros de conteúdos explicitamente racistas, como
exemplifica o caso do livro paradidático distribuído em Brasília e denunciado pelo
senador Paulo Paim10.
Uma terceira dificuldade refere-se ao reconhecimento ainda tímido de que as
medidas específicas de combate às desigualdades raciais podem e devem ser integradas a um modelo universalista da política educacional. As políticas de combate
às desigualdades raciais na educação, como, de resto, nas demais áreas, partem da
constatação de que a postura de neutralidade estatal não tem sido eficiente para enfrentar o quadro de exclusão social a que estão submetidos os afro-descendentes no
país. A insuficiência da garantia legal de não-discriminação e de tratamento formalmente igualitário de todos perante a lei deve assim demandar, da parte do Estado,
ações diferenciadas e complementares, integradas ao princípio da universalização e
em busca de uma ampliação da igualdade de tratamento e de oportunidade.
Conclusões
Em resumo, não há que se contestar a necessidade de políticas universais e de
seu fortalecimento. Ao contrário, o fortalecimento do ensino público, universal e de
qualidade, é um fundamento da cidadania, uma garantia de um espaço público, sem
o qual não há possibilidade de realização de construção de uma sociedade menos
desigual. A reduzida mas efetiva formação de uma classe média negra no Brasil foi
fruto da existência de escolas públicas de qualidade, que permitiram a extratos desprivilegiados da população capacitarem-se para a competição no mercado de trabalho.
Contudo, se a promoção da igualdade racial passa por escolas de qualidade, ela necessita também de políticas específicas. Se, como foi visto, as políticas universais parecem
insuficientes para garantir a igualdade racial, outros Mecanismos devem ser mobilizados para garanti-la: políticas valorizativas, ações afirmativas e políticas de repressão11.
As políticas valorizativas visam a promover a identidade pluriétnica da sociedade brasileira, assim como a valorização da comunidade afro-brasileira, além de
destacar o papel histórico desta comunidade na construção nacional. Estas ações
podem ser entendidas, inclusive, como ações que apóiam o fortalecimento da política de educação e da própria escola como espaço de aprendizagem da convivência,
de cidadania, de respeito e de participação.
10 Escolas públicas do Distrito Federal distribuíram livro paradidático que continha ilustrações onde negros
são mostrados com semblantes assemelhados aos de macacos. Correio Braziliense, 10 de março de
2003.
11 Sobre as diferentes políticas e suas definições, ver Jaccoud e Beghin (2002).
117
Outras ações como as políticas punitivas, em face da discriminação direta,
e as afirmativas, em face da discriminação indireta, são muitas vezes interpretadas
como ações que agravam o conflito racial e podem ter uma má repercussão num
ambiente como o escolar, onde apenas o mérito e a isonomia deveriam prevalecer.
Porém, como já apontou Santos (1997:43), hoje, apenas um pequeno estrato da
população tem possibilidades de desenvolver plenamente suas potencialidades, disputando os espaços da vida social à partir de seus próprios méritos. A interferência
de ações afirmativas visa a recompor uma situação onde o mérito poderá de fato
vir a ser critério de acesso às oportunidades oferecidas pela sociedade. Tendo em
vista as renitentes situações onde, no sistema educacional, o estudante negro está
sendo prejudicado em relação ao branco em razão de sua cor; ou, ainda, no mercado do trabalho, no qual, em razão de sua cor, o trabalhador negro está sendo pior
remunerado ou preterido em seu acesso ou ascensão funcional, cabe uma política
compensatória, uma ação afirmativa.
Ações afirmativas são aqui entendidas como políticas que:
[...] têm por objetivo garantir a oportunidade de acesso dos grupos discriminados, ampliando sua participação em diferentes setores da vida econômica, política,
institucional, cultural e social. Elas se caracterizam por serem temporárias e por
serem focalizadas no grupo discriminado; ou seja, por dispensarem, num determinado prazo, um tratamento diferenciado e favorável com vistas a reverter um quadro histórico de discriminação e exclusão ( JACCOUD; BEGHIN, 2002:67)12..
Elas não são sinônimo de políticas de cotas. Podem, por exemplo, organizarse na forma de ações específicas de qualificação ou de estabelecimento de metas ao
longo do tempo para ampliar a presença de negros em determinados espaços da
vida social.
Os mecanismos sociais que provocam a exclusão social do negro no Brasil
são complexos e poderosos, seja na educação, seja em outras esferas da vida social.
Combatê-los exige, de um lado, a mobilização de setores importantes da sociedade.
De outro, requer a mobilização do Estado através de uma estratégia que pressuponha a organização não apenas de uma, mas de um conjunto de diferentes políticas
públicas. É somente a partir deste quadro de políticas diferentes e integradas que a
intervenção pública e a mobilização social poderão fazer frente ao desafio da promoção da igualdade racial no Brasil.
12 Sobre o caráter temporário da ação afirmativa, ver artigo 1o, item 4, da Convenção Internacional sobre
Eliminação de Todas as formas de Discriminação Racial, assim como comentário feito a esta norma legal
pelo Ministro Marco Aurélio Mello (TST, 2001).
118
Referências
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119
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Palmares, para ser publicado no livro “Reescrevendo a história do negro no
Brasil”).
TST. Discriminação e Sistema Legal Brasileiro – Seminário Nacional. Brasília,
TST, 2001.
120
Ação Afirmativa
no Brasil:
um debate
em curso
Carlos Alberto Medeiros
A
expressão “ação afirmativa” apareceu pela primeira vez, nos Estados
Unidos da América, num decreto presidencial, a Executive Order
10.925, de 6 de março de 1961, com a assinatura do então presidente
norte-americano John F. Kennedy. Dizia o texto que, nos contratos
com o Governo Federal, “[...] o contratante não discriminará nenhum funcionário
ou candidato a emprego devido a raça, credo, cor ou nacionalidade” e “[...] adotará
uma ação afirmativa para assegurar que os candidatos sejam empregados, como
também tratados durante o emprego, sem consideração a sua raça, credo, cor ou
nacionalidade” (MENEZES, 2001:88).
A expressão acabaria ganhando um conteúdo definido a partir das conclusões da Comissão Nacional sobre Distúrbios Civis (National Commission on
Civil Disorders), conhecida como Comissão Kerner, criada no final dos anos
sessenta com o propósito de estudar os motivos dos conflitos raciais que então
explodiam nas grandes cidades dos Estados Unidos, exprimindo com violência
a desesperança dos afro-americanos após o assassinato de Martin Luther King.
Uma das conclusões apontava a necessidade de criar “estímulos especiais” que
ajudassem a promover a população negra. Não tardou para que o conceito se
estendesse não apenas a outras minorias, como hispânicos, indígenas e asiáticos,
mas também às mulheres.
Um marco decisivo nesse processo foi a famosa decisão do caso Brown versus Board of Education of Topeka, que, em 17 de maio de 1954, declarou inconstitucional a discriminação racial nas escolas públicas dos Estados Unidos, assinalando
“o início de um novo período nas relações entre a União e os Estados, sobretudo
os do Sul, no campo dos direitos civis”, a partir do que “toda a estrutura legal
segregacionista criada depois da Reconstrução para tirar dos negros o poder político, mantê-los iletrados e economicamente subjugados, irá ser paulatinamente
destruída.” (RODRIGUES, 1991:170)
A decisão seria subseqüentemente ampliada, em sucessivos julgamentos, a
outras áreas da vida social, pondo fim a restrições raciais em parques, praias e balneários públicos, veículos coletivos, restaurantes de aeroportos e auditórios municipais
(MENEZES, 2001:85). Estava aberto, assim, o caminho para que as lideranças
afro-americanas desencadeassem o movimento pelos direitos civis, o qual, ganhando ímpeto na década seguinte, acabaria pressionando o Congresso a adotar medidas
que de fato poriam fim à segregação oficial, e também a formas mais sutis de discriminação, ao mesmo tempo em que abririam espaço a medidas de promoção dos
segmentos historicamente discriminados.
As primeiras dessas medidas simplesmente autorizavam o Governo a abrir
processos judiciais no propósito de garantir aos afro-americanos o direito de votar em eleições federais, sistematicamente boicotado pelas autoridades do Sul. Em
1964, o Congresso votaria a primeira legislação ampla sobre igualdade de direitos,
referendada pelo presidente Lyndon Johnson: o Civil Rights Act, ou Lei dos Direitos Civis, que tornava ilegal a discriminação no emprego, nos estabelecimentos
privados de uso público e em quaisquer instalações governamentais. Era a primeira
vez em cem anos que os três braços do Governo – Executivo, Legislativo e Judiciário – se juntavam para pôr fim ao aparato jurídico que sustentava a discriminação
e a segregação, dando início a uma colaboração que viria a ser importante na implantação da ação afirmativa. A lei – seguida, em 1965, da Lei do Direito de Voto
e, em 1968, do Estatuto de Direitos Civis (Civil Rights Law), que proscreveu a
discriminação em matéria de moradia – abrangia o recurso tanto ao direito civil,
por meio de ordens judiciais, ações privadas com apoio jurídico e processos abertos
pelo Governo, quanto ao direito penal, mediante a abertura de processos criminais
em casos nos quais houvesse flagrante de discriminação. O Estado não se limitava,
portanto, a uma posição de neutralidade, mas assumia claramente a sua responsabilidade na condução de um processo que deveria levar à superação das desigualdades
raciais. Para tanto contribuiu em muito o chamado “ativismo jurídico”, ou seja, a
adoção, pelo Judiciário, de uma postura construtiva, pela qual, ao interpretar normas
122
elaboradas com finalidade exclusivamente proibitiva, os juízes lhes conferiam uma
nova natureza “promocional” ou “restauradora” – que será de importância capital
para a construção das políticas de ação afirmativa.
Antes de prosseguir, trazendo essa discussão para o Brasil, é importante assinalar que políticas semelhantes têm sido postas em prática em uma série de países,
por vezes bem antes de a expressão ter aparecido no contexto norte-americano,
como se pode verificar na coletânea International perspectives on affirmative action:
conference report, publicada em 1984 pela Rockefeller Foundation. É o caso da Índia,
cuja Constituição, já em 1948, por meio de seu artigo 16, reformulado em 1951,
estabelece cotas para membros de “castas catalogadas” e, mais tarde, também de
“tribos catalogadas”, além de medidas especiais para portadores de deficiência. Na
década seguinte, a Malásia criaria um sistema destinado a estimular, via cotas, a
participação da etnia bumiputra – os malaios propriamente ditos – numa economia
dominada por chineses e indianos. No Líbano, o sistema de acesso ao serviço público e à universidade utiliza cotas que reproduzem a participação das diferentes seitas
religiosas na população. Na antiga União Soviética, quatro por cento das vagas da
Universidade de Moscou eram reservadas a alunos provenientes da Sibéria, uma das
regiões mais atrasadas do país. Já na Noruega, da mesma forma que na Bélgica, o
foco dessas políticas são os imigrantes. Estes últimos, desde que de origem africana
ou asiática, também são alvo de políticas especiais no Canadá, juntamente com “povos aborígines” (indígenas), mulheres e portadores de deficiência. Mais perto de nós,
na América do Sul, a Colômbia tem cadeiras no parlamento reservadas para afrocolombianos, enquanto no Peru são os indígenas o objeto de políticas particulares.
Nunca é demais relembrar que, no caso norte-americano, os negros não constituem
o único segmento beneficiário da ação afirmativa, a qual também se aplica a mulheres, indígenas, asiáticos e outros grupos.
No Brasil, embora a expressão “ação afirmativa” seja quase que invariavelmente
associada à experiência norte-americana, vista como algo que se aplica exclusivamente
aos negros e reduzida à política de cotas, a idéia de dispensar um tratamento positivamente diferenciado a determinados grupos em função da discriminação de que são
vítimas já está presente na legislação brasileira há muito tempo. Exemplo disso é a
chamada Lei dos Dois Terços, implementada na década de 1930 para garantir a participação majoritária de trabalhadores brasileiros nas empresas em funcionamento no
Brasil, numa época em que muitas firmas de propriedade de imigrantes costumavam
discriminar os trabalhadores nativos, sobretudo em São Paulo e nos Estados do Sul.
Também existem leis garantindo o emprego a portadores de deficiência (cota de cinco
por cento nas empresas com mais de mil empregados e de até 20% nos concursos pú123
blicos) e a participação de mulheres nas listas de candidatos dos partidos (mínimo de
30% e máximo de 70% para ambos os sexos), para não falar na discriminação positiva
em relação a uma infinidade de outros grupos: crianças, jovens, idosos, micro e pequenos empresários, etc., etc. Enquadram-se nessa definição igualmente as agências de desenvolvimento regional, como a Sudam e a Sudene, criadas com a finalidade de carrear
investimentos para o Norte e o Nordeste, regiões mais atrasadas. O próprio imposto de
renda progressivo, assim como diversas medidas destinadas a compensar a desigualdade social, constitui essencialmente uma forma de discriminação positiva, tanto quanto
o dispositivo que permite às mulheres aposentar-se aos 30 anos de serviço – cinco anos
antes dos homens. De fato, uma leitura restrita do princípio constitucional da igualdade significaria o fim de programas como o Bolsa Escola ou o Cheque Cidadão, que
discriminam negativamente quem ganhe acima de determinada quantia.
A esse propósito, é oportuno ouvirmos a palavra do ministro Marco Aurélio
Mello, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, para quem é necessário resgatar o
que chama de “dívidas históricas” para com as “minorias”. Afirma ele textualmente:
[...] É preciso buscar-se a ação afirmativa. A neutralidade estatal mostrou se
nesses anos um grande fracasso; é necessário fomentar-se o acesso à educação; urge contar-se com programa voltado aos menos favorecidos, a abranger
horário integral, de modo a tirar o menor da rua, dando-se-lhe condições que
o levem a ombrear com as demais crianças. O Estado tem enorme responsabilidade nessa área e pode muito bem liberar verbas para os imprescindíveis
financiamentos nesse setor; pode estimular, mediante tal liberação, as contratações. E o Poder Público deve, desde já, independentemente da vinda de
qualquer diploma legal, dar à prestação de serviços por terceiros uma outra
conotação, estabelecendo, em editais, quotas que visem a contemplar as minorias. O setor público tem à sua disposição, ainda, as funções comissionadas
que, a serem preenchidas por integrantes do quadro, podem e devem ser ocupadas também consideradas as minorias nele existentes (MELLO, 2001:5).
Para Marco Aurélio Mello, não há problema de inconstitucionalidade, já que
[...] a Carta agasalha amostragem de ação afirmativa, por exemplo, no artigo 7o,
inciso XX, ao cogitar da proteção de mercado quanto à mulher, e ao direcionar
a introdução de incentivos; no artigo 37, inciso III, ao versar sobre a reserva de
vagas – e, portanto, a existência de quotas – nos concursos públicos, para os deficientes; no artigo 170, ao dispor sobre as empresas de pequeno porte, prevendo
que devem ter tratamento preferencial; no artigo 227, ao emprestar também
tratamento preferencial à criança e ao adolescente (Ibid.: 6).
124
Mas não é só a Constituição que, na visão do ex-presidente do Supremo, abriga
a ação afirmativa. O mesmo se dá com a legislação ordinária. Exemplifica ele:
[...] A Lei no 8.112/90 [...] fixa reserva de 20% das vagas, nos concursos públicos, para os deficientes físicos. A lei eleitoral, de no 9.504/97, dispõe sobre
a participação da mulher, não como simples eleitora, o que foi conquistado na
década de 30, mas como candidata. Estabelece também, em relação aos candidatos, o mínimo de 30% e o máximo de 70% de cada sexo. [...] Por outro lado,
a Lei no 8.666/93 viabiliza a contratação, sem licitação – meio que impede o
apadrinhamento –, de associações, sem fins lucrativos, de portadores de deficiência física, considerado, logicamente, o preço do mercado. No sistema de
quotas a ser adotado, deverá ser sopesada a proporcionalidade, a razoabilidade,
e, para isso, dispomos de estatísticas. Tal sistema há de ser utilizado para a
correção de desigualdades. Portanto, deve ser afastado tão logo eliminadas
essas diferenças (Ibid.).
Marco Aurélio Mello prossegue, sugerindo que o Judiciário brasileiro siga
o exemplo da Suprema Corte dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, a qual percebeu a necessidade de “[...] sinalizar para a população, de modo
a que prevalecessem, na vida gregária, os valores básicos da Constituição norteamericana”. Para ele, diante de um conflito de interesses, a postura do “Estadojuiz” deve ser uma só: “idealizar a solução mais justa”, a partir de sua formação
humanística, e só depois buscar o indispensável apoio no direito posto – e não
“potencializar a dogmática para posteriormente, à mercê dessa dogmática, enquadrar o caso concreto”.
Não é de hoje que se reivindica a implementação, por parte do Governo, de
medidas especiais destinadas à promoção dos afro-brasileiros. Ainda na década de
1940, entre as reivindicações apresentadas no Manifesto à Nação Brasileira, resultado da Convenção Nacional do Negro Brasileiro, organizada pelo Teatro Experimental do Negro de Abdias Nascimento, encontramos a seguinte:
4) Enquanto não for tornado gratuito o ensino em todos os graus, sejam
admitidos brasileiros negros, como pensionistas do Estado, em todos os estabelecimentos particulares e oficiais de ensino secundário e superior do país,
inclusive nos estabelecimentos militares.
Mas a primeira proposta legislativa com esse objetivo seria apresentada quase 40 anos depois, pelo mesmo Abdias do Nascimento, agora deputado federal pelo
Rio de Janeiro, com o Projeto de Lei no 1.332, de 1983, que
125
[D]ispõe sobre ação compensatória visando à implementação do princípio da
isonomia social do negro, em relação aos demais segmentos étnicos da população brasileira, conforme direito assegurado pelo art. 153, § 1o da Constituição da República”.
O projeto abrange as áreas do emprego, público e privado, e da educação, estabelecendo cotas de 20% para homens negros e de 20% para mulheres negras em todos
os “órgãos da administração pública, direta e indireta, de níveis federal, estadual e municipal”, incluindo as Forças Armadas, “em todos os escalões de trabalho e de direção”
(art. 2º), assim como nas “empresas, firmas e estabelecimentos, de comércio, indústria,
serviços, mercado financeiro e do setor agropecuário” (art. 3º). Reserva também a estudantes negros 40% das bolsas de estudos concedidas pelo Ministério e Secretarias
de Educação, estaduais e municipais, assim como 40% das vagas do Instituto Rio
Branco, estas últimas igualmente divididas entre homens e mulheres (art. 7º). Não
se restringe, contudo, a medidas numéricas, pois obriga o Ministério e as Secretarias
de Educação a estudar e implementar “modificações nos currículos escolares e acadêmicos, em todos os níveis (primário, secundário, superior e de pós-graduação)”, com
vistas a incorporar ao conteúdo dos cursos de História do Brasil e de História Geral
“o ensino das contribuições positivas dos africanos e seus descendentes” e também das
civilizações africanas, “particularmente seus avanços tecnológicos e culturais antes da
invasão européia [...]” (art. 8º). O projeto não chegou sequer a ser apreciado, mas é
interessante observar que algumas das medidas nele contidas acabaram sendo implementadas, embora muito mais tarde, como é o caso das bolsas de estudos para negros
no Instituto Rio Branco, criadas no Governo Fernando Henrique, e das modificações
curriculares recentemente instituídas pelo Governo Lula, por meio da Lei nº 10.639,
de 9 de janeiro de 2003, que, alterando o art. 1º da Lei de Diretrizes e Bases (Lei nº.
9.394, de 20 de dezembro de 1996), torna obrigatório, nos estabelecimentos de ensino
fundamental e médio, o ensino de história e cultura afro-brasileiras.
Apesar de toda a polêmica em torno do tema, o debate sobre ação afirmativa
no Brasil ainda é caracterizado pela desinformação. A maioria dos brasileiros desconhece o que seja isso e, entre os poucos que já ouviram falar do assunto, a idéia é de
que se trata de um sinônimo de “cotas”, que teriam sido adotadas nos Estados Unidos,
nas mais diversas áreas, para beneficiar exclusivamente os negros – e que não teriam
dado muito certo, já que vez por outra se noticiam incidentes envolvendo racismo
naquele país. As opiniões contrárias tendem a predominar, tanto à direita quanto à esquerda do espectro político, embora um certo número de intelectuais de peso se venha
manifestando a favor, alguns até reconhecendo terem sido convencidos a mudar de
posição no transcurso do próprio debate, dada a força que identificaram na argumen126
tação favorável. Outro dado significativo nesse debate é que ele tem obrigado a “sair
do armário” muitos defensores da suposta “democracia racial” brasileira, exatamente
como formulada há quase sete décadas – para os quais o Brasil seria mesmo, sob esse
aspecto, um verdadeiro paraíso –, ou ligeiramente modificada, para admitir a existência de preconceito e discriminação raciais, que no entanto não seriam tão freqüentes
ou significativos a ponto de desmentir a visão de senso comum do Brasil como o
campeão mundial do anti-racismo. Temos, assim, dois tipos de opositores da ação
afirmativa no Brasil: os que a julgam desnecessária num país que “não tem esses problemas” e os que, enxergando alguns problemas dessa natureza entre nós, prefeririam
utilizar, para enfrentá-los, medidas universalistas, com ênfase em propostas genéricas
para “aperfeiçoar a educação pública” ou em campanhas publicitárias para “melhorar a
imagem do negro”. Os defensores dessa posição, tanto uns quanto outros, costumam
compartilhar um desprezo sumário pelas pesquisas numéricas sobre desigualdade racial, deixadas de lado como “suspeitas” ou até mesmo “impatrióticas”, quando não
apresentadas como frutos de uma conspiração orquestrada por interesses alienígenas
preocupados em obstar a transformação do Brasil numa grande potência...
Podemos resumir como segue os argumentos contrários à ação afirmativa no
Brasil. Segundo estes, ela: argumento 1 – fere o princípio da igualdade, tal como definido no artigo 5o da Constituição, pelo qual “todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza”; argumento 2 – subverte o princípio do mérito, ao
possibilitar que uma pessoa se classifique num concurso, tal como o vestibular, tendo
obtido nota menor do que outras – e com isso pode prejudicar o próprio desenvolvimento científico e cultural do país; argumento 3 – é de aplicação impossível, devido ao
alto grau de miscigenação, que impossibilita distinguir quem é negro no Brasil (uma
variante desse argumento sustenta, com base em dados da PNAD de 1976 –, muitas
vezes, equivocadamente, referidos como sendo do censo – que as categorias de raça/
cor nem mesmo fazem sentido para a maioria da população brasileira); argumento 4
– é, no final das contas, prejudicial para os próprios negros, que acabarão vítimas do
estigma da incapacidade; argumento 5 – desvia as atenções do verdadeiro problema, a
questão social, que deve ser enfrentada com medidas redistributivas de caráter universalista; argumento 6 – não deu certo nos Estados Unidos (único país utilizado como
referência), tese geralmente apresentada sem menção a indicadores, ou sustentada
apenas no fato genérico de o racismo não ter acabado naquele país.
Examinemos agora o modo como os defensores da ação afirmativa se defrontam com esses argumentos. O argumento 1, da inconstitucionalidade, tem sido rebatido por uma série de juristas respeitáveis, entre eles os ministros Marco Aurélio
Mello, Celso Bandeira de Mello e Joaquim Barbosa Gomes, do Supremo Tribunal
127
Federal, que já se manifestaram amplamente sobre o tema. Na visão deles, o princípio constitucional da igualdade, contido no artigo 5o, refere-se à igualdade formal
de todos os cidadãos perante a lei. Mas a igualdade de fato é tão-somente um alvo
a ser atingido, como se depreende do artigo 3o da mesma Constituição, cujo inciso
IV define como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil
“promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e
quaisquer outras formas de discriminação”. Nas palavras de Marco Aurélio Mello,
“não basta não discriminar, é preciso promover [...] as mesmas oportunidades”. E
isso tem sido feito, como vimos acima, em relação a diversos segmentos de nossa
sociedade. Em todos esses casos, o que se faz é discriminação positiva – com ou sem
esse nome. Considerá-la constitucional para esses grupos e inconstitucional para os
negros é simplesmente indefensável, ética ou juridicamente.
O argumento 2, que se refere à questão do mérito, tem sido empregado no
debate específico sobre a questão das cotas na universidade. Quem o faz geralmente
deixa de lado uma outra discussão, que vem sendo travada há anos, a respeito da validade do vestibular como instrumento de admissão ao ensino superior. De acordo com
muitos especialistas, o vestibular não serve para avaliar as possibilidades de sucesso do
estudante, seja do ponto de vista acadêmico ou – principalmente – do futuro desempenho no mercado de trabalho. Para eles, o vestibular mede unicamente a capacidade
de fazer vestibular. Exemplo disso são reportagens recentemente publicadas mostrando que os reitores de nossas principais universidades públicas, caso se submetessem
aos vestibulares de suas próprias instituições, não passariam. E a maioria dos alunos
aprovados num vestibular também não passaria, caso fosse submetida a ele no ano seguinte. Comprova-se, assim, que o vestibular constitui apenas um método de seleção
que poderia ser substituído por outros, já que não guarda uma relação direta com a
performance futura.
O que os proponentes da ação afirmativa defendem não é o abandono do mérito como critério de admissão à universidade (ou ao emprego), mas a reelaboração
desse critério de modo a torná-lo não somente mais justo, mas também mais eficaz
como instrumento de avaliação. Isso significa levar em consideração fatores como
filiação racial, origem, renda, local de moradia e outros, juntamente com a capacidade de superar obstáculos. Vale referir como exemplo a concessão, pela PUC/Rio,
de bolsas de estudos para alunos provenientes dos chamados pré-vestibulares para
negros e carentes – forma de ação afirmativa sem utilização de cotas que vem sendo
implementada há cerca de dez anos, tendo beneficiado mais de quatro mil alunos
até o momento. É significativo observar que esses alunos, cujas notas no vestibular
são quase sempre mais baixas que a média, têm revertido, ao final do curso, essa
128
situação, graduando-se com notas mais altas que a média dos alunos pagantes. Isso
indica a validade de um dos argumentos em defesa da ação afirmativa: o de que as
pessoas por ela beneficiadas costumam agarrar-se à oportunidade, diferentemente
daqueles para quem fazer um curso superior, por exemplo, são “favas contadas”.
O argumento 3, de que a miscigenação tornaria impossível identificar os possíveis beneficiários da ação afirmativa no Brasil, é, de todos, o mais falacioso. Seus
propositores empregam, oportunisticamente, ao mesmo tempo, duas visões de raça
que eles próprios costumam apresentar como opostas: a brasileira e a norte-americana. Assim, apesar de condenarem esta última como racista, pois enxerga como
negro qualquer indivíduo, mesmo que fenotipicamente branco, apenas por ter um
único e distante ancestral negro conhecido, não hesitam em adotá-la, por pura conveniência, invocando supostos bisavós negros para provar que também eles seriam
negros, e desse modo confundir o jogo. Ora, a construção de raça se deu de forma
diferente, por motivos sócio-históricos, nas duas sociedades, o que originou, nos
Estados Unidos, a one drop rule e, no Brasil, a regra da aparência – é branco quem
parece branco. Nenhum dos dois sistemas é melhor ou pior, nem mais ou menos
válido, em si, do que o outro. O que não se pode é, sem atropelar a ética, utilizá-los
alternativamente, ao sabor das conveniências do momento.
Afirmar que não se pode fazer ação afirmativa no Brasil porque é impossível
distinguir quem é negro ou branco é sustentar o paradoxo de que algo é ao mesmo
tempo possível e impossível. Afinal, pessoas consideradas negras (ou pretas e pardas)
são vítimas no Brasil de uma discriminação negativa em resultado da qual se vêem
inferiorizadas, em relação àquelas consideradas brancas, em praticamente todas as instâncias da vida social. Não há, para isso, nenhuma dificuldade em identificá-las. No
entanto, quando se fala em compensá-las pela discriminação sofrida, propiciando-lhes
mecanismos preferenciais de ascensão no emprego, na educação superior e na arena
empresarial, levantam-se as mesmas vozes que sempre defenderam a singularidade da
experiência racial brasileira, mas agora para, adotando subitamente o critério norteamericano da hereditariedade, impedir que tais mecanismos sejam implementados.
Isso não significa ignorar que, em certos casos, possa haver alguma dificuldade
nessa identificação. Tal dificuldade, contudo, não se limita à questão de raça. Qual é,
por exemplo, a linha que define a pobreza? Ou quais são os limites da velhice? Há
muita controvérsia em relação a isso, mas ninguém chega ao ponto de defender a inaplicabilidade de programas destinados a combater pobreza ou os males associados à
velhice. Seguindo-se a mesma linha de raciocínio, a existência de graves desigualdades
raciais (jamais desmentidas, ao menos de modo academicamente adequado) aponta
129
para a necessidade – e o dever – de se criarem mecanismos para enfrentar o problema
da discriminação racial. Em tom de ironia, chega-se a propor que se contratem, para
tal identificação, os próprios agentes principais da discriminação racial, como policiais,
porteiros de edifícios e profissionais de recrutamento e seleção.
No caso das universidades fluminenses, a lei adotou o critério de autoclassificação, pelo qual a própria pessoa declara qual é sua raça/cor. Isso acabou dando origem a
fraudes, como se viu pelo noticiário, com pessoas fenotipicamente brancas, que decerto
jamais tinham visto a si mesmas ou se apresentado ao mundo como qualquer outra
coisa, de repente sacando do fundo do baú um esquecido – e muitas vezes desprezado
– bisavô negro apenas para garantir um benefício originalmente destinado aos que
sofrem os obstáculos decorrentes do racismo. Um remédio para isso poderia ser o
que está proposto no Projeto de Lei do Senado no 650, de 1999, que se encontra em
tramitação naquela Casa, pelo qual se considera afro-brasileiro “toda pessoa que assim
se declare e que apresente documento de identificação no qual apareça como característica
fenotípica a cor preta ou parda” (artigo 1o, parágrafo 1o, grifos nossos). Mais adiante, no
artigo 5o, o projeto incumbe os serviços de registro civil de “proceder, gratuitamente e a
pedido, ao registro da cor no assento de nascimento do interessado”. Trata-se, assim, de
um mecanismo inibidor da fraude racial, já que obriga o interessado a portar em documento a cor que declara ter diante de um vestibular ou concurso de qualquer tipo.
O argumento 4 chama a atenção especialmente pelo fato de ser defendido
por pessoas que jamais revelaram qualquer preocupação com a sorte e o destino dos
afro-brasileiros, mas que subitamente se apresentam como verdadeiros paladinos da
igualdade racial. É um argumento, em geral, pouco elaborado, e que não resiste ao
menor confronto. Afinal, a lei adotada no Rio de Janeiro – assim como as medidas
administrativas aprovadas pelos conselhos universitários da Universidade de Brasília
e da Universidade do Estado da Bahia – garante apenas o ingresso do estudante,
mas não sua graduação. Para obtê-la, ele terá de preencher todos os requisitos acadêmicos exigidos para a aprovação. Se conseguir fazê-lo, seu diploma será exatamente igual a todos os outros, sem que dele conste a marca do ingresso por meio de
uma cota racial. Como poderá o futuro empregador saber que foi esse o caso? E, do
ponto de vista da auto-estima, o que seria melhor: entrar na universidade por meio
de cota – ou outras formas de ação afirmativa – ou simplesmente ficar fora dela,
graças aos mecanismos de exclusão racial amplamente descritos acima?
O argumento 5 padece de um duplo vício – baseia-se apenas no senso comum
e é estritamente maniqueísta. Em primeiro lugar, não basta, como vimos, afirmar
que “o problema é social e não racial”, como qualquer palestrante de botequim. É
130
preciso provar. E, para isso, demonstrar academicamente serem inválidos os números da desigualdade racial, ou encontrar uma forma de explicá-los que exclua a raça
como principal fator causal. Até agora não se conseguiu fazê-lo. Depois, é necessário demonstrar que medidas universalistas podem resolver problemas específicos
de determinados grupos. Dizer que medidas destinadas a resolver os problemas da
população pobre terão o poder de solucionar os problemas dos negros apenas pelo
fato de estes constituírem a maioria daquela população é o mesmo que defender
uma solução idêntica para os problemas de gênero: já que a maioria dos pobres é
de sexo feminino, como revelam as estatísticas, as desigualdades de gênero seriam
reduzidas quando se reduzissem as desigualdades sociais...
O maniqueísmo dessa solução é algo que salta aos olhos – é uma coisa ou
outra, ou se ataca a pobreza ou se enfrenta a questão racial, quando é evidente que
se trata de problemas diferentes, ainda que relacionados, como duas linhas sinuosas
que se entrelaçam e se separam, e que portanto exigem soluções distintas, embora
coordenadas. Valeria lembrar ainda que medidas universalistas de combate aos malefícios associados à pobreza tendem a beneficiar desproporcionalmente os pobres
brancos. Desse modo, por exemplo, uma política educacional que proporcione a
melhoria geral dos padrões de ensino público acabará beneficiando mais os pobres
brancos do que os pobres negros. É isso, afinal, que tem acontecido nos últimos 70
anos, como vimos pelo trabalho de Ricardo Henriques (2001).
Finalmente, o argumento 6, de que “isso não funcionou nos Estados Unidos”, pode ser facilmente demolido por um simples exame da evolução dos números referentes à população afro-americana. Como já dissemos, quem faz esse tipo
de afirmação não costuma explicitar os indicadores que apontariam nesse sentido,
limitando-se a fazer referências genéricas ao fato de o racismo não ter sido eliminado naquele país. Trata-se, evidentemente, de um sofisma, já que a ação afirmativa
não tem esse objetivo – que, de resto, não poderia ser atingido senão, talvez, por um
amplo conjunto de ações de curto, médio e longo prazo –, mas tão-somente o de
proporcionar a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho, na educação
superior e no mundo empresarial. Examinemos, pois, os indicadores relativos ao
progresso da população afro-americana nas cinco últimas décadas, conforme dados
do U.S. Census Bureau.
Comecemos pelos rendimentos, fator-chave na avaliação das condições de
vida de qualquer segmento populacional. Entre 1967 e 2000, descontada a inflação, a renda dos afro-americanos cresceu significativos 250%. Já o percentual de
negros abaixo da linha de pobreza caiu de 55,1% em 1959 para 30,9% (contra
131
9,5% dos brancos) no ano 2000. Embora ainda mostrem uma distância significativa entre negros e brancos, esses percentuais revelam dois fatos importantes em
relação à sociedade norte-americana nos dias de hoje: a maioria dos negros não é
pobre e a maioria dos pobres não é negra, pois 9,5% dos brancos significam mais,
em termos absolutos, do que 30,9% dos negros. Do ponto de vista educacional,
o percentual de afro-americanos com idades entre 18 e 24 anos freqüentando
instituições de ensino superior subiu, entre 1975 e 1997, de 20,4% para 29,8%, e
o daqueles com mais de 25 anos que completaram o terceiro grau passou de 4,5%
em 1970 para 14,7% em 1998. Nesse mesmo ano, 4,3% dos advogados e juízes,
4,9% dos médicos, 4,1% dos engenheiros, 19,4% dos policiais e detetives, e 5,8%
dos professores universitários dos Estados Unidos eram negros. Simultaneamente,
o número de negros ocupando cargos eletivos (que nos Estados Unidos incluem,
além daqueles que também existem no Brasil, posições como as de xerife, procurador distrital e membro dos conselhos de educação) chega hoje a mais de oito
mil, incluindo os prefeitos de cidades importantes, como Washington, Atlanta,
Filadélfia, Detroit, Nova Orleans e São Francisco. Uma evolução considerável, se
levarmos em conta que, 40 anos atrás – antes, portanto, da ação afirmativa – esse
número era estatisticamente irrelevante.
Seria ingenuidade ou exagero, contudo, atribuir todos esses avanços dos afroamericanos exclusivamente à ação afirmativa. É, na verdade, muito difícil separar os
efeitos dessa política daquilo que ocorreu em função da implementação de normas
puramente antidiscriminatórias, do extraordinário crescimento econômico (o boom)
dos Estados Unidos no segundo pós-guerra ou mesmo de fenômenos historicamente anteriores, como a migração negra de áreas rurais para urbanas e do Sul para o
Norte, que se tornou expressiva já nas primeiras décadas do século XX, ou os ganhos da população afro-americana em termos de escolaridade. A essas dificuldades
se soma a própria abrangência do termo, que engloba uma diversidade muito grande de iniciativas, especialmente no setor privado, nem sempre apresentadas sob essa
rubrica. Mas a maioria dos estudos converge em estabelecer uma correlação positiva
entre a ação afirmativa e a melhoria geral das condições de vida da população negra
dos Estados Unidos que teve lugar, principalmente, entre as décadas de 1960 e 1980
(CAPLAN, 1997; ECCLES, 1991; WALTERS, 1995).
Correm no mesmo sentido as análises estatísticas da desigualdade racial nos
Estados Unidos referentes aos anos oitenta e início dos noventa, período que corresponde ao predomínio político da corrente conservadora capitaneada pela dupla
Reagan-Bush. Lincoln Caplan, por exemplo, nos mostra o modo como os juízes que
Reagan nomeou para a Suprema Corte trabalharam diligentemente no propósito de,
132
se não eliminar, pelo menos restringir o alcance das políticas de discriminação positiva (Caplan, 1997). George Bush deu seqüência ao trabalho de Reagan, nomeando
os dois juízes mais conservadores da Corte atual: Antonin Scalia e Clarence Thomas
– este último, curiosamente, um negro que, embora tenha sido favorecido pela ação
afirmativa nos tempos de estudante, é visceralmente contrário a essas políticas. Ao
lado de outros juristas de igual perfil nomeados para postos-chave da área jurídica, a
dupla Reagan-Bush promoveu uma verdadeira revolução conservadora no Judiciário
norte-americano, o que se traduziu numa série de decisões contrárias não apenas à
ação afirmativa, mas a todo tipo de política de inclusão. Como resultado disso, vários
indicadores revelam que, nesse período, a desigualdade racial voltou a crescer ou, nas
melhor das hipóteses, parou de diminuir (Walters, 1995; Heringer, 1999).
No entanto, como mostrou recente decisão relativa à Universidade de Michigan, a ação afirmativa não acabou nos Estados Unidos. Ao contrário, está tão
fortemente arraigada nos mundos empresarial e acadêmico, na burocracia do Estado e nas Forças Armadas, apoiada sobre uma legislação tão vasta, com defensores de ambos os lados do espectro político, que seria virtualmente impossível eliminá-la, como gostariam Reagan, Bush e seus discípulos (ANDERSON, 2004).
Para fazê-lo, segundo o atual ministro do STF Joaquim Barbosa Gomes, seria necessária uma avassaladora maioria congressual, dotada de suficiente força política
para realizar uma tarefa de tão grande envergadura – o que pode ser considerado
impossível, dadas as características peculiares do bipartidarismo norte-americano
(GOMES: 2001). A própria nomeação de juízes conservadores não é garantia de
votos contrários aos programas de ação afirmativa na Suprema Corte estadunidense, já que, com o tempo, alguns deles têm se tornado mais “progressistas”, ou
pelo menos mais sensíveis às questões sociais. Isso ficou patente no voto da juíza
O’Connor – primeira mulher a integrar a Suprema Corte dos Estados Unidos
– que provocou a ira dos conservadores com que geralmente se alinhava, para
defender o princípio da ação afirmativa, ou seja, que a raça pode ser considerada
quando se trata da admissão ao ensino superior (ANDERSON, 2004). Deve-se
também ter em mente que o Congresso pode contrapor-se à Suprema Corte nessa área, o que ocorreu em 1991, quando, em reação a uma série de decisões desta,
foi promulgado um novo Civil Rights Act, que na prática as tornava sem efeito,
restaurando uma série de conquistas das “minorias” e de seus aliados. Portanto,
pode-se afirmar com muita segurança que a ação afirmativa se tornou prática
habitual em um sem número de instituições norte-americanas e que, apesar das
controvérsias que provoca, deverá continuar sendo, por muito tempo, parte integrante da paisagem social dos Estados Unidos.
133
Convenções Internacionais
Segundo reza a Constituição Federal brasileira, em seu artigo 5o, parágrafo 2o “os
direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte” (grifos nossos). Em diversas manifestações, o Supremo Tribunal Federal tem reafirmado o status dos tratados e convenções internacionais,
que, para o ministro Celso de Mello, “guardam estrita relação de paridade normativa
com as leis ordinárias editadas pelo Estado brasileiro” (STF – Extradição n. 662 – Rel.
Celso de Mello – DJU de 30/maio/1997, p. 23.176). Entre os tratados internacionais
de que o Brasil é signatário, figuram a Convenção 111 da Organização Internacional
do Trabalho (OIT), que trata da discriminação em matéria de emprego e profissão; a
Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, da ONU; e
a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher,
também das Nações Unidas. Um traço comum a todas elas é referendarem, de uma
forma ou de outra, a discriminação positiva. Deve-se esclarecer que essas convenções são
instrumentos vinculantes, ou seja, os Estados-parte se obrigam a implementar as normas
por elas impostas, devendo para isso ajustar sua própria legislação, e também suas políticas públicas. Sujeitam-se igualmente ao controle internacional, já que se comprometem
a enviar relatórios anuais prestando contas do cumprimento das normas nelas contidas.
Adotada pela Assembléia Geral da ONU em dezembro de 1965, a Convenção Internacional pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial
foi um dos primeiros tratados multilaterais que se seguiram à adoção, em 1948, da
Convenção sobre Genocídio, e representa a tentativa mais importante, da parte da
comunidade internacional, no sentido de definir e combater essas práticas. Ratificada logo em seguida pelo Brasil, ela afirma no item 4 de seu artigo 1o, que não serão
consideradas discriminatórias:
Medidas especiais tomadas com o objetivo precípuo de assegurar, de forma
conveniente, o progresso de certos grupos sociais ou étnicos ou de indivíduos
que necessitem de proteção para poderem gozar e exercitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais em igualdade de condições [...].
Ao mesmo tempo, em seu artigo 2o, a Convenção obriga os Estados-parte não
apenas a se abster de discriminar, ou de apoiar de alguma forma a discriminação, mas
também a “pôr um fim, por todos os meios adequados, incluindo a legislação, na medida em que as circunstâncias o tornarem necessário, à discriminação racial da parte
de quaisquer pessoas, grupos ou organizações” e a “tomar medidas especiais e concretas
para assegurar o desenvolvimento e a proteção adequados de certos grupos raciais” (grifos
134
nossos). Formulações semelhantes aparecem na Convenção sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, pela qual a “adoção pelos Estados-parte de medidas especiais de caráter temporário destinadas a acelerar a igualdade
de fato entre o homem e a mulher não será considerada discriminação [...]”.
O caso da Convenção III da OIT é especialmente relevante, pois mostra
como organizações da sociedade civil podem utilizar-se das convenções internacionais para forçar o Governo brasileiro a cumprir normas do interesse de segmentos
especialmente concernidos. Para começo de conversa, essa convenção define discriminação como sendo
[...] toda distinção, exclusão ou preferência fundada na raça, cor, sexo, religião,
opinião política, ascendência nacional ou origem social, que tenha por efeito
destruir ou alterar a igualdade de oportunidades ou de tratamento em matéria
de emprego ou profissão (artigo 1o).
Deixa de incorrer, assim, no mesmo pecado que caracteriza a legislação brasileira, que pretende punir crimes motivados por uma conduta determinada, porém
indefinida. Mas vai além a Convenção III, pois obriga os Estados membros:
[...] a formular e aplicar uma política nacional que tenha por fim promover,
por métodos adequados às circunstâncias e aos usos nacionais, a igualdade de
oportunidades e de tratamento em matéria de emprego e profissão, com o
objetivo de eliminar toda discriminação nessa matéria (artigo 2o).
E também a “[e]sforçar-se para obter a colaboração das organizações de
empregadores e trabalhadores e de outros organismos apropriados, com o fim
de favorecer a aceitação desta política” (item a); “[p]romulgar leis e encorajar os
programas de educação próprios a assegurar esta aceitação e esta aplicação” (item
b); “[s]eguir a referida política no que diz respeito a empregos dependentes de
controle direto de uma autoridade nacional” (item d). Obriga, assim, os Estados
signatários a adotarem uma postura pró-ativa em favor da igualdade de oportunidades. E utiliza como mecanismos de controle não apenas os relatórios minuciosos que lhe devem ser enviados anualmente, mas as próprias organizações
sindicais, às quais a OIT concede a prerrogativa de denunciar o descumprimento
dos termos de suas diversas convenções.
O Brasil ratificou a Convenção III da OIT em 1964. Dada, porém, a visão predominante em matéria de relações raciais neste país, não surpreende que o
Governo brasileiro deixasse de cumprir os compromissos que ela implica. A situação começou a mudar em 1992, quando a Central Única dos Trabalhadores en135
viou à OIT uma reclamação formal denunciado o descumprimento, pelo Brasil, da
Convenção 111, tendo por base um documento elaborado pelo Centro de Estudos
das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), fundamentado em pesquisas
quantitativas do IBGE e em análises do Departamento Intersindical de Estatísticas
e Estudos Sociais e Econômicos (DIEESE). Como que apanhado de surpresa, o
Governo brasileiro apresentou respostas “distintas e contraditórias”, como aponta
Hédio Silva Júnior: na Conferência Mundial da OIT, de 1993, reconheceu a procedência da denúncia; na de 1994, negou o problema, mas não conseguiu apresentar
dados que refutassem as denúncias feitas pela CUT; finalmente, em 1995,
[...] durante seminário realizado em Brasília, com a participação de peritos e
dirigentes da OIT, centrais sindicais, organizações de empreendedores, Ministério do Trabalho e CEERT, o Ministro do Trabalho reconheceu a existência
do problema e assumiu o compromisso de criar um grupo de trabalho que se
ocupasse da implementação da Convenção 111.
Esse grupo de trabalho acabou sendo criado em setembro de 1996: é o Grupo
de Trabalho para a Eliminação da Discriminação no Emprego e na Educação (GTDEO), responsável pela elaboração de sugestões de políticas antidiscriminatórias apresentadas ao Governo FHC. A estas se somaram as do Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da População Negra, conhecido pela sigla GTI, criado em
novembro de 1995 como resposta do Governo à Marcha Zumbi dos Palmares pela
Igualdade, a Cidadania e a Vida, que reuniu cerca de 30 mil manifestantes em Brasília
por ocasião do tricentenário da morte de Zumbi. A demora do Governo Federal em
concretizar as sugestões dos grupos de trabalho reforçou a incredulidade com que uma
parcela significativa da militância afro-brasileira, em que predominam os partidários
do PT, havia recebido a criação destes, assim como manifestações anteriores do presidente Fernando Henrique Cardoso, ao mesmo tempo reconhecendo a existência do
racismo e da discriminação racial no Brasil e declarando-se favorável a uma ação afirmativa em prol dos afro-brasileiros, mas com a ressalva de que se deveria fazê-lo “com
criatividade”, ou seja, sem copiar “modelos estrangeiros” (SOUZA, 1997).
Assim, não deixaram de causar surpresa as iniciativas tomadas por esse
mesmo Governo, a partir do final de 2001, quando foram adotadas cotas para
negros nos Ministério da Justiça e do Desenvolvimento Agrário – em ambos
os casos, para empregados contratados por firmas “terceirizadas” –, e também
bolsas de estudo para afro-brasileiros no Instituto Rio Branco, que prepara candidatos para o difícil concurso do Itamaraty. Nesse mesmo período – e também
na esteira da Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a
136
Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, que se realizara meses antes em Durban,
na África do Sul –, o então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho,
sancionava uma lei oriunda da Assembléia Legislativa instituindo uma cota de
40% para “negros e pardos” (sic) nas universidades públicas do Estado, somandose à reserva, anteriormente aprovada, de 50% para alunos oriundos das escolas
públicas. No ano seguinte, medida semelhante foi instituída, no âmbito da Universidade do Estado da Bahia (UNEB); seguida, em 2003 pela Universidade de
Brasília (UnB) e pela Universidade do Estado de Mato Grosso do Sul (UEMS),
que já implementava uma cota para índios; e também pela Fundação Joaquim
Nabuco, de Recife (40% para afro-descendentes em todos os seus cursos). Simultaneamente, diversos municípios do Estado de São Paulo ( Jaboticabal, Cubatão,
Jundiaí, Piracicaba) implantavam cotas de 20% para negros nos concursos para
o funcionalismo público, enquanto o prefeito de Porto Alegre elaborava projeto de lei complementar, com o mesmo propósito, estabelecendo esse percentual
em 10%. Desde então, outras doze universidades adotaram cotas para negros
e índios: as universidades federais da Bahia, do Paraná, de Alagoas, de Juiz de
Fora e de São Paulo; e as universidade estaduais de Minas Gerais, Goiás, Mato
Grosso, Mato Grosso do Sul e Montes Claros, enquanto a Universidade Estadual do Amazonas restringiu a medida aos estudantes de origem indígena. Neste
momento, a Universidade Federal da Bahia e a Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio) estudam a adoção de cotas para negros, enquanto a Universidade
Federal do Rio de Janeiro examina um projeto de reserva de vagas para alunos
provenientes da rede pública. As discussões teóricas foram, enfim, ultrapassadas
pela realidade: contrariando as previsões de um bom número de estudiosos de
relações raciais no Brasil – muitos deles, favoráveis a esse tipo de política, como
Thomas Skidmore, George Reid Andrews, Antônio Sérgio Guimarães, Carlos
Hasenbalg e outros –, a ação afirmativa em benefício dos negros começava a se
tornar uma realidade no Brasil.
Iniciava-se, então, batalha travada principalmente nos campos jurídico e da
mídia, que se encontra, neste momento, em pleno curso. Mais importante que isso,
contudo, é que a polêmica em torno da ação afirmativa tem obrigado a elite intelectual brasileira a se engajar numa discussão considerada extremamente incômoda e
desconfortável entre nós – a discussão de raça e de racismo, que muitos consideravam
definitivamente resolvida desde a década de 1930, com as formulações de Gilberto
Freyre. Para os que contestam a suposta “democracia racial” brasileira, porém, nada
poderia ser mais auspicioso, por nos oferecer uma oportunidade ímpar de confrontar
um problema espinhoso, de cuja solução depende o próprio futuro deste país.
137
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139
Ações Afirmativas
e Diversidade
Étnico-Racial
Valter Roberto Silvério
“A universidade brasileira sempre teve cotas!
100% para brancos.”
N
(Hélio Santos)
egros e brancos não chegam ao mundo com a consciência das circunstâncias que transformaram as diferenças fenotípicas em desigualdades
de oportunidades sociais com base na cor, na raça e no pertencimento
étnico. O primeiro passo, a meu ver, para (des) construir os efeitos
perversos dessas desigualdades sociais, que têm como fonte primordial hierarquias
raciais, é reconhecê-las na magnitude de sua influência na vida econômica, política
e cultural daqueles que foram construídos como subalternos.
Um dos temas mais importante na atualidade é precisamente a natureza global
da etnicidade e a prevalência e permanência do conflito étnico no mundo moderno.
Tal conflito gira, normalmente, em torno do poder, isto é, o principal foco de
disputa entre os grupos étnicos na sociedade. Assim, uma das preocupações centrais
de quem quer pesquisar o tema das relações étnicas e raciais deve incidir sobre a
É importante distinguir a etnicidade de diferenciação racial. Enquanto esta última ocorre em termos de
diferenças físicas que se acredita serem biologicamente herdadas, a diferenciação étnica se dá em termos de diferenças culturais que têm de ser aprendidas. Essa distinção é confundida na teoria racista
não-científica, a qual presume que o comportamento cultural, tanto quanto as características físicas, é
biologicamente herdado. Uma das características da etnicidade e dos grupos étnicos para cuja formação
ela contribui é, porém, que as peculiaridade étnicas são comuns aos que são parentes biológicos. O processo de aprendizagem através do qual se adquire a cultura ocorre entre pais e filhos biológicos; portanto,
não surpreende que raças e grupos étnicos às vezes se sobreponham. Uma raça pode ser também um
grupo étnico e um grupo étnico pode constituir-se exclusivamente de indivíduos de uma mesma raça. Não
obstante as raças serem grupos bem mais amplos (OUThwAiTE; BOTTOmOrE, 1996:282-283).
natureza das relações de dominação e subordinação. As relações raciais e étnicas, de
certo modo, sempre foram vistas como manifestações de estratificação e do conflito
que se desenvolve em busca das recompensas societais – poder, riqueza e prestígio.
Os estudos em geral enfatizam tanto o plano estrutural ou macro do padrão de relações étnicas e raciais quanto o plano psicológico. Ou ambos, uma vez que o último
atravessa o primeiro.
Ao se discutir a natureza das relações étnicas vários autores observam que elas
ganham maior visibilidade em sociedades multiétnicas, isto é, que compreendem
numerosos grupos raciais, religiosos e culturais. Tal diversidade pode ser chamada
de étnica quando inclui diferenças lingüísticas, religiosas, raciais e culturais entre os
grupos. Como pode se ver a heterogeneidade étnica é uma característica das sociedades em vários continentes e, portanto, em vários estágios de industrialização.
O industrialismo, enquanto sistema de organização econômica e social surgido da revolução industrial nos legou, dentre várias outras coisas, tanto a influência
do aspecto material sobre o moral e intelectual quanto a “promessa” de superação de
todos os particularismos presentes nas organizações socioeconômicas anteriores. É
por isso que vários cientistas sociais têm mantido que a industrialização e as forças
da modernização tenderiam a diminuir o significado de raça e etnicidade em sociedades heterogêneas. Eles acreditavam que com o desmantelamento de pequenas
unidades sociais particularistas e a emergência de grandes e extensas instituições
burocráticas impessoais as lealdades pessoais (e dos povos) e identidade seriam primariamente direcionadas para o estado nacional mais que para comunidades raciais
e étnicas. O desenvolvimento oposto, no entanto, parece ter caracterizado o mundo
contemporâneo.
Duas assertivas parecem emblemáticas ao apontarem evidências para sustentar a tese de que a modernização resulta no aumento de demanda por reconhecimento da diversidade étnico-racial e que a industrialização não necessariamente
propicia relações étnicas benignas ou substituição da ordem étnica anteriormente
estabelecida.
Quais são as evidências?
Em nações industrializadas, grupos étnicos, aparentemente bem absorvidos
naquelas sociedades nacionais, têm enfatizado sua identidade cultural, novos grupos
tem demandado reconhecimento político. Os exemplos são o movimento pelos direitos civis dos negros americanos na década de 60 e as várias manifestações racistas
no continente europeu, nos anos 80, para muitos em decorrência das mudanças
políticas e econômicas que incidiram sobre aquela região do globo.
142
No terceiro mundo após a Segunda Grande Guerra Mundial, com o fim
oficial da dominação imperialista exercida pelo poder europeu, o grande número
de novas nações e a artificialidade das fronteiras, as manifestações e demandas por
reconhecimento não têm sido menores.
Em resumo, forças étnicas e raciais, embora variando em escopo e intensidade, são importantes bases tanto para clivagens (separação, diferenciação) quanto
para solidariedade grupal em quase todas as sociedades nos dias de hoje. Mais do
que isso, o impacto das transformações contemporâneas parece não diminuir as lealdades pessoais e as identidades referidas a comunidades raciais e étnicas.
Os intensos e extensos debates acadêmicos e jornalísticos em torno da validade do uso da categoria raça, por exemplo, são apenas um dos sintomas de que algo
que se acreditava equacionado, tanto no plano do pensamento quanto nas práticas
sociais, aparentemente, tem se revelado a face mais cruel do industrialismo. Paralelamente à degradação do meio ambiente observamos um aprofundamento sem
precedentes das desigualdades sociais, com base nas hierarquias raciais e étnicas
passadas que atravessam os dias do tempo presente, mais visíveis entre os grupos
branco e negro. O problema, portanto, é como vamos pensar o nosso futuro, já que
no presente observamos que as diferenças naturais foram instrumentalizadas tecnologicamente visando a manutenção do poder, da riqueza e do prestígio em mãos de
poucos eleitos, coincidentemente brancos.
Pensar o futuro nos obriga a rever o passado de forma crítica sem o que não
será possível entender porque os subalternos procuram alterar suas condições de
acesso em diferentes dimensões da vida social.
No caso dos negros e do movimento social negro, o retorno do debate sobre
raça tem sido estratégico para desvendar os caminhos da construção social da diferença que se transformou em desigualdade. A compreensão crítica do passado é
fundamental para entender o presente e construir um futuro em que a raça efetivamente não seja um operador permanente de desigualdades de oportunidades.
A demanda dos negros brasileiros por reparações, que hoje resultam em políticas de ações afirmativas, não é fato recente, atravessa o século XX em diferentes manifestações. Contudo governantes e sociedade mantiveram-se indiferentes, até 2001,
quando o Brasil assumiu, na Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, o compromisso de elaboração e
execução de políticas de combate ao racismo e a toda sorte de discriminações.
O que é ação afirmativa?
143
Em uma definição formal as ações afirmativas referem-se a esforços orientados e voluntários empreendidos pelo governo federal, estados, pelos poderes locais,
empregadores privados e escolas para combater discriminações e promover oportunidades iguais na educação e no mercado de trabalho para todos (APA, 1996:2).
A meta da Ação Afirmativa é eliminar discriminações contra mulheres e minorias
étnicas combatendo os efeitos das discriminações passadas com vistas à (re) estabelecer o equilíbrio social (KRAVITZ, 1997: VII).
Para o caso norte-americano, Reskin (1998) delineou três tipos de AA utilizados em organizações: aquelas requeridas pelo governo federal; as ordenadas pelos
tribunais; e as voluntárias.
Uma ordem executiva do Presidente Lyndon B. Johnson dos Estados Unidos
de 1965 (EO 11246) criou e orientou as primeiras políticas de AA, e as legislações
subseqüentes, tanto para aplicação junto aos órgãos públicos quanto para todas as
organizações privadas que negociavam contratos com o governo.
No fundamental, os planos de AA orientados pela EO 11246 exigiam dois
procedimentos: a) que as organizações monitorassem estatisticamente a composição
étnico-racial e de gênero de sua força de trabalho, prestando especial atenção para a
sub-representação daqueles grupos; b) se confirmada a sub-representação de pessoas
de cor e de gênero, ou ainda subutilização de mulheres e de não-brancos qualificados, o segundo componente do plano deve ser implementado, por meio de metas
flexíveis não se constituindo em cotas ou tratamento preferencial injustificado.
Os opositores destas políticas tendem a enxergá-las como de tratamento preferencial e, também, monolíticas. O mecanismo primário pelo qual operam as AAs
é a automonitoração, mas todos os anos, um certo percentual de empresas contratadas pelo governo federal são auditadas pela agência ou escritório de governo que
acompanha tais programas. Assim, uma distinção importante é a diferença entre
uma política de monitorização e uma política preferencial.
Nos Estados Unidos da América o foco na escola elementar e secundária é
recente e se deu, aparentemente, por meio do No Child Left Behind Act de 2001, que
requer que as escolas monitorem seu sucesso entre diferentes categorias de estudantes. Mas o foco principal tem sido a admissão nas faculdades, centros universitários
e universidades. A ação afirmativa na educação superior tem sido modificada legalmente em inúmeras ocasiões pelos norte-americanos.
Para Weisskopf (2004), que denomina sua perspectiva de pragmática, a ação
afirmativa envolve escolhas com benefícios e custos sociais. Esse autor observa que
os aspectos morais em qualquer escolha não favorecem uma análise pragmática em
termos de custos e benefícios.
144
Um aspecto relevante da estratégia argumentativa do autor é o uso do termo
discriminação positiva para englobar tanto a prática de seleção de membros dos
grupos étnicos sub-representados – Under-Represented Ethnic Group (EREG) – que
ele associa à ação afirmativa e aos Estados Unidos, quanto as políticas de reserva
de posições e/ou vagas praticadas na Índia. Desta forma, o termo discriminação
positiva compreende aqueles dois procedimentos de seleção.
Nas sociedades contemporâneas existem inúmeros grupos elegíveis para uma
discriminação positiva. Na prática, no entanto, as políticas de discriminação positiva
quase sempre estão orientadas para membros de um grupo identitário (ou grupo
que assume uma identidade étnica e ou racial), isto é, um grupo que é definido em
termos de características que não são matéria de uma escolha voluntária, geralmente
determinada pelo nascimento e raramente alterada ou alterável. As características
que definem um grupo identitário são tipicamente físicas ou culturais, tais como
“raça”, casta, tribo, etnicidade e gênero.
O autor, no caso específico, centra sua atenção nas políticas de discriminação
positiva em favor dos membros de grupos identitários definidos em termos étnicos,
incluindo raça, casta e tribo. E que estejam em situação de desvantagens, portanto,
sub-representados nas posições socialmente mais almejadas, geralmente, ocupadas
por membros dos setores dominantes que formam uma elite social. No caso americano, os grupos que têm sido favorecidos pela ação afirmativa são os africanos
americanos, os hispano-americanos e nativos americanos originários dos Estados
Unidos da América. No caso indiano, os dalits (anteriormente conhecidos como
membros das castas intocáveis e que, oficialmente, após a independência da Índia em 1947, passaram a serem classificados como “castas programadas”) e adivasis
(grupos tribais que geralmente vivem em áreas afastadas, do ponto de vista geográfico, e que oficialmente foram classificados como “tribos programadas”).
Dois aspectos fundamentais são levantados pelo autor ao se debruçar sobre a
origem e a natureza da política de discriminação positiva nos dois países. O primeiro deles é, precisamente, em relação aos fundamentos sociais e ou acontecimentos
que estão na base e na origem da política em si. O outro aspecto relevante está
relacionado às possíveis variações ocorridas na política de discriminação positiva
ao longo de um determinado período de tempo. A chave para entender possíveis
mudanças ou (re) significações na política de discriminação positiva é a permanente
observação das alterações no contexto histórico que lhe deu origem, provocadas pela
própria política ou por outros fatos ou fenômenos sociais.
Como vários autores têm chamado a atenção, o termo “raça”, como usado no contexto de grupo identitário, não
corresponde a qualquer conceito biológico científico e geneticamente válido; a definição dos membros de um
grupo “racial” é socialmente determinado. Veja-se, por exemplo, American Anthropological Association (1988).
145
Em contraste com a política de oportunidades iguais, a AA é uma política
que reconhece os obstáculos sociais, para determinados grupos, de fato existentes.
Uma pressuposição presente nas políticas de AA é que existem impedimentos estruturais reais que nem sempre tomam a forma de discriminação manifesta, inclusive em certas políticas que, aparentemente, são neutras mas que podem operar
desvantagens para indivíduos de gênero e ou etnicidade diferente de outros.
No Brasil os afro-descendentes tiveram reiteradamente negado o direito de
viver e atuar enquanto cidadãos, ficando os avanços no sentido desta conquista unicamente às expensas da própria população negra, por meio de iniciativas de diferentes grupos que compõem o Movimento Negro. Uma sociedade tácita e deliberadamente excludente como a brasileira, tal qual comprovam os estudos realizados no
IPEA, de mentalidade racista e discriminadora, cultiva valores que justificam exclusão de muitos e privilégios para uns poucos que se têm como superiores (HENRIQUES, 2001; JACCOUD; BEGGIN, 2002).
Os negros brasileiros, assim como outros grupos postos à margem pela sociedade, resistem ao plano de ideais, papéis, condutas que se lhes pretende impingir.
Afirmam e querem ver confirmadas sua história e sua cultura, tal como as herdaram
e vêm reconstruindo em dolorosas relações que lhes são impostas. Pretendem ter
reparadas as injustiças de que são vítimas e assim receber as condições devidas a
todos os cidadãos de tomar parte da elite intelectual, científica, política.
É neste quadro que deve ser interpretada a exigência dos negros brasileiros,
descendentes dos africanos que para cá foram trazidos escravizados, por reparações,
por políticas de ações afirmativas, por metas, tais como cotas nas universidades.
Estas demandas têm de ser entendidas como indenizações devidas, pela sociedade, àqueles a quem ela tem impedido vida digna e saudável, trabalho, moradia,
educação, respeito a suas raízes culturais, à sua religião. O pagamento da dívida precisa ser concretizado mediante políticas, organizadas em programa de ações afirmativas, que eliminem as diferenças sociais, valorizando as étnico-raciais e culturais.
Os programas de ações afirmativas requerem metas a curto, médio e longo
prazos, recursos financeiros, materiais, além de profissionais competentes, abertos à
diversidade étnico-racial da nação brasileira; sensíveis aos graves problemas sociais,
econômicos que dela fazem parte; comprometidos com justiça; capazes de combater
seus preconceitos contra pessoas e grupos e de com estes interagir, sem tentar assimilá-los a valores, objetivos, orientação de vida que se prentenderiam universais; que, ao
contrário, propõem-se, a respeitar as diferentes raízes que constituem a nação brasilei-
146
ra – indígena, africana, européia, asiática – e, com seus representantes, a redimensionar a vida das instituições, reeducar as relações étnico-raciais, entre outras.
Um programa de ações afirmativas exige, pois, que se reconheça a diversidade étnico-racial da população brasileira; que se restabeleçam relações entre negros,
brancos, índios, asiáticos em novos moldes; que se corrijam distorções de tratamento
excludente dados aos negros; que se encarem os sofrimentos a que têm sido submetidos, não como um problema unicamente deles, mas de toda sociedade brasileira.
As cotas para negros, política institucional de cada vez maior número de universidades brasileiras, como se pode ver nos quadros 1, 2 e 3 abaixo e nos anexos,
têm tornado candente, a partir da aceitação ou rejeição desta meta de programas de
ações afirmativas, a discussão a respeito: das diferentes condições de educação oferecidas a diferentes segmentos da população; de privilégios que têm se restringido
a alguns grupos; do papel da educação superior, de a quem e a que ela serve; dos
critérios para ingresso na universidade.
Universidades Públicas com reserva de vagas:
Quadro 1 – Reserva de vagas sociais e étnico-raciais
(negros e indígenas)
Universidades Federais
1) Universidade de Brasília (UnB)
Universidades Estaduais
1)Universidade Estadual do Rio
de Janeiro (UERJ)
2)Universidade Federal da Bahia (UFBA)
2) Universidade Estadual da Bahia (UFBA)
3)Universidade Federal do Paraná (UFPR)
3) Universidade Estadual de Londrina (UEL)
4)Universidade Federal de São Paulo
4)Universidade Estadual do Mato
(UNIFESP)
5)Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
Grosso do Sul (UEMS)
5)Universidade Estadual Minas Gerais
(UEMG)
6)Universidade Federal de Juiz de Fora
(UFJF) (2006)
7)Universidade Federal do Pará
(UFPA) (2006)
6)Universidade Estadual de Montes
Claros (UNIMONTES)
7)Universidade Estadual do Norte
Fluminense (UENF)
8)Universidade Estadual de Goiás (UEG)
9)Universidade Estadual do Mato
Grosso (UNEMAT)
147
Quadro 2 – Reserva de vagas sociais e étnico-raciais
(somente indígenas)
Universidades Federais
Universidades Estaduais
1) Universidade Estadual do
Amazonas (UEA)
Quadro 3 – Reserva de vagas para estudantes que realizam
o ensino médio em escolas públicas
Universidades Federais
Universidades Estaduais
1) Universidade Federal do Tocantins (UFT)
2) Escola Superior de Ciências da Saúde
ESCS/DF (escola pública)
Os opositores das cotas para negros nas universidades formulam profecias
de que seriam nocivas para a excelência da formação acadêmica. Julgam tratar-se
simplesmente de cópia de políticas adotadas, nos Estados Unidos, a partir dos anos
1960, sob pressão do movimento dos Direitos Civis. Entretanto, estes críticos parecem ignorar que estão reagindo com atitudes e questionamentos muito similares
aos então expressos por estadunidenses e, como eles, baseando suas posições em
opiniões, sem evidências concretas, dados de pesquisa que as sustentem.
Em suas contestações, há os que não reconhecem a existência de uma linha
divisória de cor ou de discriminação racial no Brasil; os que sobrepõem, a qualquer
outra forma de clivagem social, a problemática das classes sociais, em especial da
pobreza. Estes indagam, por exemplo: Por que não dar cotas para escola pública em
lugar de cotas para estudantes negros? Por que não dar cotas para estudantes de baixa
renda? Por que não melhorar o ensino público? As cotas não “americanizam” o sistema de
ingresso nas universidades brasileiras? Como saber quem é negro no Brasil?
Há os que aceitam a existência de uma linha divisória de cor ou de discriminação racial, mas consideram que tais processos, no Brasil, são menos perniciosos aos
negros do que nos Estados Unidos. Perguntam, eles: As cotas não acirraram o racismo?
Não acabam por inferiorizar ainda mais os negros? Não vão levar a que os estudantes negros que ingressem pelo sistema de cotas sejam discriminados dentro da universidade?
Quanto a esta última pergunta, particularmente, veja-se Parecer CNE/CP 003/2004 que trata de Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
148
Outros reconhecem que raça tem sido um critério fundamental de alocação
de posições no mercado de trabalho e no sistema de poder e, implícita ou explicitamente, ponderam, no entanto, que a admissão na educação superior que inclua raça
entre seus critérios, beneficiando os negros, acarretará prejuízos para os brancos. E
procuram saber se não se estaria criando uma elite negra que viria a competir com
a elite branca, tendo esta de repartir privilégios.
Outros ainda acreditam que raça condiciona a capacidade intelectual das pessoas e neste caso a ausência dos negros nos estabelecimentos de educação superior
dever-se-ia à natural incapacidade. Os defensores desta posição temem que o nível
acadêmico, a excelência da educação superior sejam prejudicados com a presença de
muitos negros nos bancos universitários. Embora não o explicitem, retomam implicitamente argumentos do racismo científico do século XIX.
Para responder a esses questionamentos, é preciso, antes de mais nada problematizar: afinal qual é mesmo a função social da educação superior? Não há dúvida,
salientamos, de que o seu foco é atender às necessidades da sociedade no que tange
ao desenvolvimento científico e tecnológico; ao desenvolvimento econômico, sem
descuidar, entretanto, do desenvolvimento humano, o que implica ampliação sistemática da qualidade de vida, entendida não apenas na dimensão do acúmulo da
riqueza material. Isto exige que seja propiciada formação para atuar numa sociedade
multicultural e pluriétnica, para garantir a participação de todos como cidadãos.
Assim sendo, para cumprir a função social da educação superior, que capacidades e aptidões devem ser exigidas dos que nela ingressam? O que ela oferece e
tem a proporcionar? Questões como estas exigem, como conclui ribeiro (1999: 356)
a respeito da universidade brasileira, que se realize análise fundamentada da relação
legitimidade X competência da universidade, “não de forma abstrata, mas tendo como
referência os interesses diferenciados e até antagônicos de classes, dos gêneros, das
etnias e das raças presentes nas universidades”, ou porque representantes seus já as
freqüentam ou porque desejam nelas ingressar.
Como se vê, uma universidade socialmente comprometida não pode desconhecer a diversidade que compõe a sociedade, tampouco restringir seu reconhecimento
ao discurso. Pesquisas mostram ser a diversidade racial de professores e estudantes
essencial no ambiente universitário, tanto para otimizar o ensino e aprendizagens das
matérias de estudos, como para educar convenientemente as relações entre pessoas de
diferentes heranças culturais e situações sociais, como também para criar um ambiente acadêmico mais rico e profundamente desafiador. Entre formados por instituições
que incorporam o respeito e valorização da diversidade a suas metas, tem se verificado
149
convívio respeitoso no trabalho e na vida social, num mundo que cada vez mais reconhece as diferenças que distinguem pessoas e grupos. Tem-se observado, entre eles,
também, marcante aperfeiçoamento de competências para liderança, além de benefícios nos ganhos salariais, tanto entre negros como brancos (AMERICAN Council of
Education; AMERICAN Association of University Professors, 2000: 2-4; BOWEN,
W. G.; BOK, D., 2004; ORFIELD, Gary, 2001).
A educação superior que admite o ingresso diferenciado, incluindo reserva
de vagas, para negros e outros marginalizados, engaja-se na luta por justiça social
e racial, ao buscar corrigir e suprimir discriminações a que esses grupos têm sido
submetidos. Isto não pode ser entendido como esmola ou favorecimento indevido,
uma vez que os ingressantes terão comprovado competências mínimas para empreender estudos em nível superior. Caberá ao estabelecimento de ensino que os recebe
fornecer todos os meios, apoio material, pedagógico e até mesmo afetivo para que
cumpram com êxito o percurso acadêmico.
Em nosso país, costumam alguns professores universitários deixar unicamente por conta dos estudantes o sucesso ou insucesso nos estudos. Alguns exibem, por
incrível que pareça com certo orgulho, o alto número de reprovações ou abandono
nas disciplinas que lecionam. Outros chegam a culpar os professores da educação
média e até mesmo da fundamental, demonstrando que não se vêem de forma alguma comprometidos com a aprendizagem de seus alunos. Estes estão entre os
críticos mais ferinos das ações afirmativas. Eles, como todos os docentes, estão sendo compelidos a enfrentar a complexidade de conviver e compreender as visões de
mundo, os anseios e metas de grupos raciais e sociais diferentes, a rever critérios de
seleção de ingresso, a retomar os métodos de ensino que adotam, a redimensionar
conteúdos, não para simplificá-los, ao contrário, para aprofundá-los, incluindo as
principais contribuições para a humanidade produzidas nos diferentes continentes,
por diferentes civilizações.
A mentalidade que põe os conhecimentos, competências, valores a serem
aprendidos na vida universitária como que numa redoma dificilmente rompida para
ser alcançada tem de se extinguir. Os negros querem usufruir da vida universitária
e alcançar o melhor que a educação superior possa oferecer a seus estudantes; não
aceitam as simplificações de que se pretenderia, com currículos e pedagogias racistas, beneficiá-los. Em outras palavras, as cotas para negros, índios e outros grupos
marginalizados requerem revisão das relações pedagógicas, das metas e ações previstas nos planos institucionais dos estabelecimentos de ensino.
Veja-se Parecer CNE/CP 003/2004 que trata de Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das
Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
150
Talvez o leitor se pergunte: E como fica o mérito? E a excelência acadêmica?
Quanto ao mérito no ingresso, destacam Bowen e Bok (2004), ex-reitores de
prestigiosas universidades americanas, em pesquisa que realizaram, fica claro que
decidir quais são os alunos de maior “mérito” depende do que se esteja tentando
realizar em termos educacionais e sociais. Seu estudo, ao lado de outros (AMERICAN Council on Education, 1999; ORFiELD, Gary; Miller, Edwarda, 1998),
pondera que os testes de entrada são insuficientes para julgar competências que
venham a garantir sucesso no percurso acadêmico, uma vez que medem apenas
alguns desempenhos e potencialidades. Os autores salientam que os testes servem
para mostrar uma tendência e que conviria que ao lado deles se encontrassem outras
formas de avaliar capacidades. É o que, segundo Nettles e outros (1998), fazem algumas universidades estadunidenses entre cujos instrumentos de avaliação das condições para ingresso, além do teste utilizam o currículo escolar da formação anterior
– notas, disciplinas cursadas, atividades extra-curriculares – história educacional e
social da família, cartas de recomendação.
Posições alarmistas em torno da queda da qualidade do ensino e perda da
excelência na pesquisa, inspiradas pelo desejo de manter a apropriação permanente
pelo grupo branco das recompensas e benefícios advindos do acesso à educação
superior, e de consolidar uma aristocracia intelectual arrogante e convicta de sua
superioridade continuarão trazendo impactos nefastos para o grupo negro, como
demonstram sistematicamente os indicadores sociais. O desafio, pois, é redefinir os
critérios de excelência acadêmica e científica, sem perder o rigor que é garantido por
teorias educacionais e científicas historicamente situadas, sistematicamente testadas,
questionadas, reformuladas.
A história detém as provas da obrigação da sociedade e também da universidade para com os negros, o que assegura a autenticidade do seu direito de
acesso à educação superior, por meio de ações afirmativas. Cabe lembrar, entre
tais provas, o crime contra a humanidade que constituiu a escravização e tráfico
dos africanos, a desumanidade do tratamento que receberam os escravizados no
Brasil, e o descaso com que vem sendo considerados seus descendentes, ao longo
dos 116 anos após a abolição do regime escravista, mantendo-os excluídos dos
direitos dos cidadãos.
Como bem salientou Franz Fanon, os descendentes dos mercadores de escravos, dos senhores de ontem, não têm, hoje, de assumir culpa pelas desumanidades
provocadas por seus antepassados. No entanto, têm eles a responsabilidade moral
Para aprofundar a discussão, consulte-se Silva e Silvério (2003).
151
e política de combater o racismo, as discriminações e juntamente com os que vêm
sendo mantidos à margem, os negros, construir relações raciais e sociais sadias, em
que todos cresçam e se realizem enquanto seres humanos e cidadãos. Não fosse por
estas razões, seria pelo fato de usufruírem do muito que o trabalho escravo possibilitou ao país.
Immanuel Wallerstein afirmou recentemente que “o racismo está disseminado por todo o sistema-mundo. Nenhum canto do planeta está livre dele, como
característica central das políticas locais, nacionais e mundiais” (WALLERSTEIN,
2004: 262). Daí ele propor “fazer do anti-racismo a medida definidora da democracia” (ibid.). O modo mais eficaz para começar a lutar contra esse racismo que se
globalizou é tentar erradicá-lo do espaço local em que atuamos e onde ele tem se
reproduzido secularmente: nas universidades públicas brasileiras e nos discursos das
nossas Ciências Humanas e Sociais.
Assim sendo, com o debate – e as ações práticas – no campo das relações
raciais podemos, brancos e negros, encontrar novos caminhos para construção de
uma sociedade na qual ninguém tenha que negar ou apagar sua identidade étnicoracial e o hedonismo seja uma opção para todos que quiserem por ele se orientar, e
não uma “imposição” das “castas” que insistem em não permitir que as instituições
brasileiras sejam anti-racistas na consciência e multirraciais em sua composição.
152
Referências
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Professors. Does Diversity make a difference? The research studies on diversity in
college classroom. Washington, 2000. p. 2-4.
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Higher Education. Washington, 1999.
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acesso à universidade. Rio de Janeiro: Editora Garamond e Centro de Estudos
Afro-Brasileiros, 2004.
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do período 2001/2004. Trabalho apresentado no I Workshop da Rede de Estudos Sobre
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–Primeira e segunda versão do anteprojeto da lei de educação superior, também conhecido como “reforma universitária”, divulgadas pelo ministério da
Educação brasileiro, 2005.
–Coletânea de textos do Programa São Paulo: educando pela diferença para a
igualdade. Os cursos são dirigidos à complementação da formação de professores do ensino básico (fundamental e médio), da Secretaria Estadual de
Educação do Estado de São Paulo, para implementação da Lei nº 10.639/03.
O programa foi organizado e é coordenado em sua implementação por professores e pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos.
–Parecer CNE/CP 003/2004, que trata de Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História
e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
154
155
Educação
Educação
Educação
05/09/2001
2001
2001
Fundação
Ford e
Laboratório
de Políticas
Públicas
(LPP/UERJ)
Monsanto e
Centro de
Integração
EmpresaEscola
(CIEE)
Escola
Técnica
Everardo
Passos
Instituição
promotora
X
X
X
Governamental Não-governamental
Tipo de Instituição
Estudantes negros de
baixa renda devidamente
matriculados em curso
universitário. 26 alunos
beneficiados com o projeto
desde 2001.7
Alunos negros de famílias
carentes. O candidato
precisa provar que a renda
mensal de sua família não
possibilita o pagamento da
mensalidade de R$ 500.00,
e, se aprovado, ganha
bolsa integral.
Beneficiados/
critérios
Programa Políticas da Cor na Educação Brasilei- 27 projetos financiados,
ra; Concurso Nacional “Cor no Ensino Superior:
sendo 17 promovidos por
seleção e financiamento de projetos orientados
universidades.
a promover ações, programas e iniciativas que
visem a ampliar as condições de acesso e/ou permanência de membros dos grupos historicamente
excluídos das instituições de ensino superior brasileiro especialmente os afro-brasileiros carentes.8
Projeto Afro-Brasileiro: A Monsanto paga a
mensalidade da faculdade, e o estudante recebe
também R$ 500,00 para compra de material didático, transporte e alimentação. Investidos, desde
2001, R$ 255 mil.
A Escola Técnica Everardo Passos (ETEP), São
José dos Campos, SP, disponibiliza 160 vagas
para alunos negros. É mantida pelo Centro de
Desenvolvimento de Tecnologia e Recursos
Humanos, e oferece cursos na área de informática industrial, mecânica, telecomunicações e
eletrônica. As mensalidades custam em torno de
R$ 500,00.6
Projeto
6 Diário do Nordeste (Fortaleza) 16/09/01, Correio Braziliense 05/09/01.
7 Revista Exame, 2001: 189; Myers, 2004; website da Monsanto.
8 Website www.politicasdacor.net. Ver em anexo a lista e resumo dos projetos financiados.
Fontes: Rosana Heringer - Políticas de Promoção da igualdade racial no Brasil: um balanço do período 2001-2004. Trabalho apresentado no
I Worshop da Rede de Estudos sobre Ação Afirmativa, entre os dias 03 e 07 de janeiro de 2005; Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da
UFSCar-NEAB; UFSCar e Sítios institucionais.
Área
Mês / Ano
Mapeamento Parcial de Programas de Promoção da Igualdade Racial na Educação Brasileira – 2001
156
Educação
Trabalho
Trabalho
e renda
05/03/2002
21/03/2002
13/05/2002
X
mental
Decreto
Presidencial 4.228,
de 13 de
maio de
2002, que
institui o
Programa
Nacional
de Ações
Afirmativas
X
Governo
X
Federal
(ItamaratyInstituto
Rio Branco)
Governo
Estadual,
RJ
namental
Instituição Tipo de Instituição
promotora GovernaNão-gover-
Promover os princípios da diversidade e pluralismo no preenchimento de cargos da administração e na contratação de serviços por órgãos
do governo. O programa prevê a realização de
metas percentuais de participação de afrodescendentes, mulheres e pessoas portadoras
de deficiência no preenchimento de cargos de
comissão (DAS); observância destes critérios
nas licitações e nas contratações das empresas
prestadoras de serviço; institui Comitê de Avaliação e Acompanhamento, destinado a gestão
estratégica do programa10.
Presidente da República anuncia programa
“Bolsa-Prêmio de vocação para a diplomacia”
que vai ajudar candidatos afro-descendentes e
indígenas a se prepararem para o Instituto Rio
Branco. 9
O governador sancionou em 05 de março de
2002 a Lei 3.708, de 09/11/2001, que determina
a reserva de 40% das vagas nas universidades estaduais (UERJ e UENF) para “negros
e pardos”. Em 11/04/2001 havia sido também
sancionada pelo governador a Lei 3.524, que
reserva 50% das vagas nas universidades
públicas do Estado do Rio de Janeiro para
alunos que tenham cursado integralmente o
ensino fundamental e médio em instituições da
rede pública municipal ou estadual. A aplicação
destas duas leis se deu no vestibular 2003 para
a UERJ e a UENF.
Projeto
Metas percentuais de
participação de afrodescendentes, mulheres
e pessoas portadoras
de deficiência, a serem
definidas.
20 bolsas por 1 ano.
Cada bolsista receberá
R$ 7 mil em dez parcelas
mensais para pagar
professores e cursos
preparatórios. O programa encontra-se em seu
segundo ano.
40% das vagas nas universidades estaduais para
“negros e pardos”.
Beneficiados/
critérios
9 Jornal O Globo, 22/03/02 e website Instituto Rio Branco. No primeiro ano do programa, dos 20 bolsistas, uma candidata foi aprovada na prova do IRB.
10 Diário Oficial da União, 14/05/02.
Área
Mês / Ano
Mapeamento Parcial de Programas de Promoção da Igualdade Racial na Educação Brasileira - 2002
157
Educação
Educação
Educação
04/07/02
18/07/02
01/10/02
Governamen- Não-governatal
mental
Tipo de Instituição
X
Governo muni- X
cipal
Universidade
Estadual da
Bahia.
UniversidaX
de Federal
da Bahia
- Programa
de Pesquisa
e Formação
sobre Relações Raciais,
Cultura e Identidade Negra
na Bahia.
Instituição
promotora
11 Correio da Bahia, 04/07/02.
12 Folha de São Paulo, 22/07/02.
13 A Tribuna (Santos), 01/10/02.
Área
Mês / Ano
Jovens com renda familiar
até 5 salários mínimos e
oriundos da rede pública
de ensino.
Beneficiados/
critérios
Câmara Municipal de Santos aprova projeto 20% das bolsas para afrode lei que reserva 20% das bolsas oferecida descendentes.
pelo município aos universitários carentes,
para afro-descendentes. 13
Foi aprovado pelo conselho universitário
40% das vagas para afroreserva de vagas dos cursos de graduação e descendentes vindos das
pós-graduação para negros. Essa medida é escolas públicas.
válida para o próximo vestibular. 12
O programa A Cor da Bahia - Programa de
Pesquisa e Formação sobre Relações Raciais, Cultura e Identidade Negra na Bahia,
da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH), cria o projeto Tutoria. Financiado
pela Fundação Ford, o objetivo do programa
é acompanhar o desenvolvimento acadêmico
de calouros durante 18 meses devido ao alto
índice de desistência desses alunos no início
da faculdade. Cada aluno receberá uma
bolsa de R$ 130,00. 11
Projeto
(Mapeamento Parcial de Programas de Promoção da Igualdade
Racial na Educação Brasileira - 2002 – continuação)
158
Educação
Educação
13/11/02
2002
Fundação
Ford e
Fundação
Carlos
Chagas.
Governo
X
Federal,
Ministério da
Educação
Secretaria
de Educação Média
Tecnológica
(SEMTEC)
X
Programa Internacional de Bolsas de Pós-Graduação da Fundação Ford: são oferecidas 42 bolsas
(mestrado/doutorado); o programa está previsto até
2007.
O(a) candidato(a) deve ter experiência em trabalho
ou atividades relacionadas ao desenvolvimento de
sua comunidade, grupo social, região ou país.
A Lei 10.558, de 13 de novembro de 2002, cria o
programa “Diversidade na Universidade”, no âmbito
do Ministério da Educação. O objetivo do programa é
melhorar as condições de ingresso no ensino superior
de grupos socialmente desfavorecidos. A execução
do projeto ficou a cargo da Secretaria de Educação
Média e Tecnológica do Ministério da Educação. O
Programa conta com recursos de US$ 9 milhões US$ 5 milhões obtidos em empréstimo junto ao Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID) e outros
US$ 4, financiados pelo Tesouro e é organizado em
quatro componentes - desenvolvimento de estudos
e pesquisas para a formulação de uma política de
inclusão social, fortalecimento institucional, apoio a
projetos inovadores de cursos e comunicação social.
Os projetos selecionados prevêem a implantação de
cursos pré-vestibulares que promovam o acesso de
negros e indígenas à educação superior.14
Instituição Tipo de Instituição
Projeto
promotora
GovernaNão-govermental
namental.
Candidatos devem: pertencer
a grupos que, sistematicamente, têm tido acesso restrito ao ensino superior, a saber:
provenientes das regiões
Norte, Nordeste ou CentroOeste; de origem étnico-racial negra ou indígena; que
tiveram poucas oportunidades
econômicas ou educacionais;
que assumem encargos e responsabilidades familiares.
Os jovens afro-descendentes e indígenas alunos das
instituições que tenham seus
projetos aprovados, receberão uma ajuda de custo entre
R$ 40,00 e R$ 60,00 além
de 400 e 900 horas de aulas
durante nove meses.
Beneficiados/
critérios
14 No dia 16 de julho de 2003, o ministro Cristovam Buarque ampliou o programa. Inicialmente o programa contemplaria os estados da Bahia, Rio de Janeiro
e São Paulo, a partir de então foram incluídos os estados do Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará e Rio Grande do Sul (Jornal
da Assessoria de Comunicação Social do Ministério da Educação, 10/07/03). O Programa Diversidade na Universidade selecionou 28 das 105 escolas que
concorreram a cerca de R$ 2 milhões em recursos em 2003. Foram contemplados projetos de organizações não-governamentais, secretarias estaduais
e municipais de educação e universidades, que atenderão um total estimado de R$ 3 mil alunos. O Programa Diversidade na Universidade também vai
contemplar cerca de 300 professores indígenas, que participam de dois projetos-piloto a serem implementados na Bahia e em Mato Grosso. As instituições
que deverão repassar de 40% a 50% do valor recebido aos estudantes, em forma de bolsa de estudos, serão monitoradas e avaliadas pelo MEC durante
a execução dos projetos. Ver em anexo a lista das instituições que tiveram projetos aprovados no âmbito do Diversidade na Universidade.
Área
Mês / Ano
(Mapeamento Parcial de Programas de Promoção da Igualdade
Racial na Educação Brasileira - 2002 – continuação)
159
Educação
Educação
Educação
Educação
09/01/2003
06/06/03
14/08/2003
04/09/2003
Governo do
Estado do
Rio de
Janeiro/UERJ/
UENF
Universidade
Estadual do
Mato Grosso
do Sul
Universidade
Governo
Federal
Instituição
promotora
X
X
X
X
Governamental
Não-governamental
Tipo de Instituição
Beneficiados/critérios
A UERJ lançou seu Edital para a seleção do Vestibular
de 2004, de acordo com a nova lei sancionada pela
governadora em 4 de setembro de 2003. A Lei 4.151 prevê
a reserva de 45% das vagas das universidades públicas estaduais para estudantes carentes. A governadora
anunciou que dará ajuda financeira aos estudantes negros
e carentes de R$ 190 para 2004. Com a mudança, 45%
das vagas serão reservadas a alunos carentes, sendo 20%
para estudantes da rede pública (aqueles que cursaram
os ensinos Fundamental e Médio), 20% para negros e 5%
para deficientes e integrantes de minorias étnicas. Este
novo sistema excluiu a classificação pardo.
10%, de vagas para indígenas e 20% para negros que
tenham freqüentado escola pública ou sejam bolsistas em
escolas privadas.17
Alunos da rede pública, negros e
portadores de deficiência física. A
Lei prevê a reserva de 45% das
vagas das universidades públicas
estaduais para estudantes carentes, sendo 20% para alunos da
rede pública, 20% para negros e
5% para portadores de deficiência
física. E bolsas de apoio aos estudantes e de Iniciação Científica.19
Negros e indígenas / 20% para negros e 10% para indígenas. (Desde
que se enquadrem nos padrões de
fenótipos exigidos).18
Foi aprovado na reunião do Conselho de Ensino, Pesquisa Reserva de 20% das vagas para
e Extensão da UnB a reserva de vagas para afro-descen- afro-descendentes. O sistema é
dentes e indígenas.16
válido para o vestibular de 2004 e
terminará em 2014. O projeto prevê
políticas de apoio à escolas públicas
de ensino médio do Distrito Federal.
O Presidente Lula sancionou a Lei nº 10.639, de autoria da
Dep. Esther Grossi (PT-SP) que torna obrigatório o ensino
de história e cultura afro-brasileira nos estabelecimentos
de ensino fundamental e médio, oficial e particular. Os currículos devem contemplar o estudo da História da África e
dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra
brasileira e o negro na formação da sociedade nacional’.15
Projeto
15 Folha de São Paulo, 11/01/2003.
16 Jornal O Correio Braziliense, 10/06/2003.
17 Boletim PPCor (consultado no website politicasdacor.net) e Correio do Estado (Campo Grande), 11/12/02.
18 Jornal do Brail, 15/12/2003. Os padrões fenotípicos exigidos foram: para negros - fotos analisadas pelo presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro,
pelos critérios: lábios grossos, nariz chato e cabelo pixaim. Dos 530 inscritos, 76 foram rejeitados; para os índios - declaração de descendência indígena.
19 Jornal do Comércio - Rio de janeiro - RJ; O Globo, 30/10/2003.
Área
Mês / Ano
Mapeamento Parcial de Programas de Promoção da Igualdade Racial na Educação Brasileira - 2003
160
Educação
Educação
08/10/2003
06/11/2003
X
Universida- X
de Federal
de Alagoas
(UFAL)
Governo
Federal
Governamental
Não-governamental
Instituição Tipo de Instituição
promotora
20 O Dia - São Paulo - SP, 08/10/2003; A Tarde - Salvador - BA.
21 O Estado de São Paulo, 07/01/2004.
Área
Mês / Ano
Beneficiados/
critérios
Reserva de vagas para afro-descendentes vindos Serão reservadas a partir
de escolas públicas.
do vestibular de 2005,
20% de vagas para alunos
negros vindos de escolas
públicas (mulheres têm
60% das vagas).
O MEC e a SEPPIR lançaram o Grupo de TraEstudantes afro-descenbalho Interministerial (11 ministérios) para fazer
dentes
um levantamento completo dos dados étnicos
sobre as desigualdades educacionais no ensino
brasileiro e propor uma política de acesso ao
ensino superior para afro-descendentes nas
universidades. O grupo teve 90 dias para concluir
o trabalho.20 Em 07/01/2004 o Ministério da
Educação entregou à Casa Civil proposta de
medida provisória para estimular as universidades federais a adotarem sistema de cotas para
negros em seus vestibulares. A medida propõe
o respeito à autonomia universitária, cabendo à
instituição decidir se reserva ou não vagas e em
qual proporção. Propõe também a criação do
Pró-Negro, um programa de apoio financeiros às
universidades que adotarem o regime de cotas.
Também propôs a criação de uma coordenação
de inclusão social no MEC.21
No final do mês de janeiro de 2004, o governo
decidiu voltar atrás e encaminhar a proposta através de projeto de lei para o Congresso, promovendo maior debate sobre o tema.
Projeto
(Mapeamento Parcial de Programas de Promoção da Igualdade
Racial na Educação Brasileira - 2003 – continuação)
161
Área
Educação
Educação
Educação
Mês / Ano
14/04/2004
07/05/2004
25/05/2004
UNlCAMP
UFPR
UNIFESP
Instituição promotora
X
X
X
Governamental
Não
Governamental.
Tipo de Instituição
A partir do próximo vestibular, estudantes
que tenham cursado todo o ensino médio na
rede pública receberão automaticamente 30
pontos a mais na nota final da segunda fase.
Candidatos autodeclarados “negros, pardos e
indígenas” que tenham cursado o ensino médio em escolas públicas também terão, além
dos 30 pontos adicionais, mais dez pontos
acrescidos à nota final.
Foi aprovado pelo Conselho Universitário, a
reserva de 40% de vagas na universidade
para o vestibular de 2005.
A Resolução 13/2004 foi aprovada em
14/04/2004. Prevê um aumento de 10% de
vagas nos diversos cursos de graduação para
afro-descendentes e indígenas que cursaram
o ensino médio em escolas públicas. O critério será auto-declaração. A continuidade do
programa está condicionada a avaliação anual. Os alunos admitidos no programa terão
direito à bolsa no valor de R$ 600,00, já que
todos os cursos são em horário integral. Com
o programa foram criadas 27 vagas, num total
de 273 oferecidas no vestibular deste ano.
Projeto
Estudantes vindos de
escola pública, “negros,
pardos e indígenas”.
20% de vagas por curso
para negros e 20% por
curso para alunos de
escola pública. Também
prevê 5 vagas suplementares por curso para
indígenas.
Afro-descendentes e
indígenas que cursaram
o ensino médio em
escolas públicas.
Beneficiados/
critérios
Mapeamento Parcial de Programas de Promoção da Igualdade Racial na Educação Brasileira - 2004
162
UEMG e
UNIMONTES
Educação
Educação
Educação
17/06/2004
26/07/2004
16/08/2004
23 Correio Braziliense, 16/08/ 2004.
Ministério
da
Educação
UFBA
UEG
Educação
15/06/2004
Instituição promotora
Área
Mês / Ano
A proposta final aprovada no CONSEPE (Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão) - resolução
01/04 de 26/07/2004 - prevê a reserva de 45%
das vagas para alunos de escola pública e cursinhos pré-vestibulares comunitários. Destas, 85%
são para negros.
O Ministério da Educação abre inscrições para o
Fies. Com este projeto aplicará, no processo de
seleção, o sistema de cotas para descendentes de
negros. Os interessados vão disputar 50 mil novos
financiamentos. 22
X
X
Aprovado projeto de lei que reserva 45% das
vagas das universidades estaduais e municipais
de Goiás.
A medida começa a ser aplicada em 2005 apenas parcialmente. No próximo ano haverá a reserva de 22% das vagas para esses estudantes.
Em 2006, o percentual sobe para 33% e, a partir
de 2007, chega ao índice estipulado, de 45%.
Projeto
Foi criado na UEMG o Programa de Seleção
Socioeconômica da UEMG - Valorizando a
Pluralidade.
Não
Governamental.
X
X
Governamental
Tipo de Instituição
Será reservado 20% das
vagas para afro-descendentes.
45% das vagas para
alunos de escola pública
cursinhos pré-vestibulares
comunitários. Destas, 85%
são para negros. Também
foram reservadas 2 vagas
para índios aldeados e 2
vagas para representantes
de comunidades quilombolas.
40% para alunos comprovadamente carentes, incluindo
20% para afro-descendentes, 20% para alunos da
rede pública, além de 5%
para portadores de deficiência e indígenas,
45% das vagas para estudantes negros, indígenas e
que tenham estudado em
escola pública.
Beneficiados/critérios
(Mapeamento Parcial de Programas de Promoção da Igualdade
Racial na Educação Brasileira - 2004 – continuação)
163
Educação
10/09/2004
Governo
Federal
Instituição promotora
X
Governamental
Não-governamental.
Tipo de Instituição
O Governo editou medida provisória criando o Programa Universidade para Todos
(PROUNI), que deverá atender a até 300
mil estudantes nos próximos quatro anos no
programa Brasil Para Todos. 23
A bolsa será destinada: a estudante que
tenha cursado o ensino médio completo em
escola da rede pública ou em instituições
privadas na condição de bolsista integral; a
estudante portador de necessidades especiais, nos termos da lei; a professor da rede
pública de ensino, para os cursos de licenciatura e pedagogia, destinados à formação do
magistério da educação básica.
Projeto
24 O Globo, 14/09/2004
25 Medida Provisória 213, de 10 de setembro de 2004, que instituiu o Programa Universidade para Todos - PROUNI.
Área
Mês / Ano
O programa vai beneficiar com bolsas
integrais ou parciais em
universidades particulares alunos que tenham
renda per capita de até
um e meio saláriosmínimo e com bolsas
parciais os que tenham
renda per capita até
salários mínimos.
Será destinado um
“percentual de bolsas
de estudo destinado
à implementação de
políticas afirmativas
de acesso ao ensino
superior de autodeclarados negros e indígenas.
[...] O percentual deverá
ser, no mínimo, igual ao
percentual de cidadãos
autodeclarados pretos,
pardos e indígenas na
respectiva unidade da
Federação, segundo o
último censo da Fundação Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE)” 22.
Beneficiados/critérios
(Mapeamento Parcial de Programas de Promoção da Igualdade
Racial na Educação Brasileira - 2004 – continuação)
Branquitude e
Poder: a questão
das cotas para
negros
Maria Aparecida Silva Bento
Q
uando uma pessoa branca se detém diante de uma banca de jornal,
não estranha que, das dezenas de revistas expostas, quase 100%
exibam brancos na capa e com freqüência no seu interior. Este
contexto é supostamente natural para o observador. No entanto,
quando a pessoa visualiza, na mesma banca, uma única revista com imagem
de negros na capa, intitulada Raça – A Revista dos Negros Brasileiros, ela imediatamente reage: racismo às avessas! Uma revista só para negros? O que se
observa neste episódio guarda semelhanças com a dinâmica que se estabelece
no debate sobre cotas: cotas para negros e cotas para brancos. As cotas de
100% nos lugares de poder em nossa sociedade não são explicitadas. Foram
construídas silenciosamente, ao longo de séculos de opressão contra negros e
indígenas, e foram naturalizadas.
Os brancos convivem com naturalidade com essa cota de 100%. Alguns
mais progressistas reconhecem que ela traz consigo o peso da exclusão do
negro, mas essa dimensão é silenciada. Isto porque reconhecer a desigualdade
é até possível, mas reconhecer que a desigualdade é fruto da discriminação
racial, tem custos, uma vez que este reconhecimento tem levado à elaboração
de legislação e compromissos internos e externos do Brasil, no sentido do desenvolvimento de ações concretas, com vistas à alteração no status quo.
Em um contexto, onde os lugares de poder são hegemonicamente brancos, e
a reprodução institucional desses privilégios é quase que automática, as mudanças
exigem uma explicitação por parte dos excluídos, que aparece na reivindicação de
cotas para negros. Ou seja, no caso dos negros, as cotas têm que ser declaradas. E
daí surgem as barreiras. Barreiras em defesa dos privilégios. As barreiras interpostas
aos processos de mudança na distribuição de negros e brancos no espaço institucional são barreiras fortes, profundas, que não cedem com facilidade. A dimensão
primária das forças que estão em jogo – ganância, soberba e voracidade – combinase com instâncias mais circunstanciais, medo do desemprego, das “minorias” e da
violência. E esta combinação caracteriza alianças fortes e resistentes.
Quando se trata de pessoas progressistas, que proferem discursos contra a
opressão, contra a dominação do homem pelo homem, essas barreiras são igualmente
fortes, mas a resistência aparece de maneira difusa, como pude constatar em minha
tese de doutorado Branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público
(BENTO, 2002): “Não vejo os negros, nunca convivi com negros”; “que estranho”;
“não lembro da história desse país, escravidão?”. Outras pérolas argumentativas também surgem: “o problema atual é resultado do fato de que os negros foram escravos”;
“as mudanças nas relações raciais têm que ser lentas e graduais”; “é necessário competência para ocupar lugares de destaque e poder dentro da instituição”; “estão querendo
baixar o nível das nossas instituições” (sic) etc. E as reações podem se intensificar, porque, ao defender as cotas de 100%, alguns brancos em lugares de poder na mídia – ou
seja, formadores de opinião – revelam uma virulência, uma voracidade assustadora que
estimulam reações agressivas de jovens brancos. Vislumbrar a possibilidade de ver seu
grupo racial perder o filão de privilégios que mantém há séculos, torna as lideranças
da nossa mídia irracionais, à beira de um ataque de nervos. Como podemos observar
cotidianamente, embora muitas pessoas reconheçam que brancos têm mais chances
que negros em nossa sociedade, ante o racismo no Brasil, a resistência à implementação de políticas que visem a corrigir o efeito desta discriminação é bastante grande.
Os argumentos são nada criativos, e se repetem: “essas políticas são assistencialistas, protecionistas, geram a discriminação às avessas”. Evoca-se a justiça para
os brancos, diante da possibilidade de políticas voltadas especificamente para os
negros “e os 19 milhões de brancos pobres, ficarão excluídos das cotas?”.
Numa pesquisa realizada pelo CEERT (BENTO; SILVA, 2002) a partir de
artigos de revistas e jornais de grande circulação nacional sítios e mensagens trans A pesquisa foi feita através de mensagens via e-mail da Comissão Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça; mensagens via e-mail do grupo Mulheres Negras; e nos seguintes sítios: revistas Veja, Época
e Isto É; jornais Folha de São Paulo, O Globo e O Estado de São Paulo. Os jornais foram: Correio Brazilien-
166
mitidas via e-mail, pudemos observar que o embate relativo às cotas para negros nos
oferece, como efeito colateral, a possibilidade de melhor conhecer o branco.
Algumas estratégias e linhas de argumentações se repetem no discurso de
atores muito diferentes, que ocupam lugares sociais diversos – jornalistas; acadêmicos (cientistas sociais e políticos) brasileiros ou norte-americanos; juízes e advogados; dirigentes sindicais, políticos (senadores, ministros, presidente da República)
de diferentes matizes político-partidárias –, mas que compartilham algo entre si: a
condição de brancos.
Uma forma comum utilizada por aqueles que criticam as cotas é iniciar o
artigo com um discurso aparentemente favorável a elas, ou “politicamente correto”, como, por exemplo, ressaltando a gravidade e a “inaceitabilidade” da situação
de precariedade dos negros no Brasil, para em seguida afirmar que, apesar disso...
é contrário à adoção das cotas. Os artigos de posição contrária referem-se em geral especificamente às cotas para negros, e muitos deles parecem ora desconhecer
o caráter mais amplo das políticas de ação afirmativa (BENTO; SILVA, 2002),
ora, em alguns casos, serem favoráveis a essas políticas, mas contrários à adoção
de cotas. As críticas mais virulentas referem-se mais especificamente às cotas para
negros nas universidades públicas, tema que parece ter gerado mais debate neste
período, especialmente porque em curto prazo pode gerar alteração no perfil racial
dos lugares de poder e mando e também por ter sido mais amplamente divulgado
pela mídia. O tema das cotas para negros em determinados cargos públicos (em
alguns setores federais) também chegou à imprensa, mas parece não ter causado
tantos debates nem polêmicas.
Uma outra estratégia bastante comum nos discursos sobre ação afirmativa e
cotas é citar alguma experiência de adoção de cotas já em andamento e/ ou alguns
dos argumentos utilizados em sua defesa, para em seguida criticá-los. Não temos
como comentar detidamente cada um dos argumentos que se seguem. Na verdade,
cada um mereceria um artigo, uma vez que explicitam as artimanhas da ocupação e
manutenção de lugares de poder, e nos possibilitam conhecer melhor como uma realidade condenável pode ser travestida, segundo interesses nem sempre explicitados,
e ser reproduzida incansavelmente:
– O problema das desigualdades (e da situação dos negros) no Brasil, na verdade, é de ordem social, e não racial. Portanto, sua solução viria através de políticas voltadas para a população pobre.
se, Folha de São Paulo, O Globo, O Estado de São Paulo, Jornal do CREMESP, Folha de Pernambuco, BG
Press, Correio do Povo/RS, O Estado de minas, Jornal do Brasil, Jornal de Brasília e O Norte/PB.
167
São fartos os dados dos principais institutos de pesquisa reconhecidos nacionalmente, como IBGE (1998) ou IPEA (2000), mostrando que entre os pobres, os
negros são a esmagadora maioria – de cada 10 pobres 7 são negros. Negros são maioria
entre os pobres por serem discriminados enquanto negros.
– Cotas e ações afirmativas vão permitir que se forme uma elite
negra: a grande massa negra continuará excluída.
Não vimos este argumento “socialista”, digamos assim, anteriormente, em defesa da massa de excluídos, no que diz respeito aos brancos.
– E os 19 milhões de brancos pobres, ficarão excluídos?
Que bom que a discussão sobre as cotas para negros traz à tona a preocupação com os jovens brancos excluídos. Os jovens negros têm que se apropriar deste
efeito democratizador que a sua luta vem provocando na sociedade brasileira.
– Negros em geral não têm qualificação para entrar nas universidades e/ou para ocupar cargos de chefia ou mais bem remunerados.
Portanto, este problema deve ser solucionado “pela raiz”, ou seja,
através da melhoria do sistema de ensino brasileiro, de maneira
que atinja a todos igualmente, independente de raça ou cor.
Este argumento parece conter a idéia de que os negros seriam incapazes de
cursar uma faculdade de qualidade ou ocupar cargos de chefia; bem como a idéia
de que a cor/raça da pessoa “não importa”, de que somos realmente todos iguais.
No entanto parece ignorar (talvez por interesses escusos?) que se o investimento for
igual para todos, os diferenciais entre brancos e negros serão alterados.
Um estudo feito pelo IBGE (1996) trouxe um quadro bastante interessante.
A evolução da escolarização entre os grupos assume trajetória semelhante, mantendo-se a diferença entre brancos e negros, ou seja, todos se beneficiam com mais
escolarização, mas a desigualdade entre negros e brancos permanece inalterada.
– Não sabemos quem é negro no Brasil, por conta da grande miscigenação. Portanto, não poderíamos pensar em cotas para um
grupo de difícil definição.
Os estudos da Fundação Seade e Dieese (1999), bem como os do IBGE
(1998), guardam uma grande coerência quanto ao perfil da condição de negros e
brancos, ao longo de décadas, e em diferentes Estados brasileiros. Mas nem precisaríamos deles, é só verificar o perfil de empresários reunidos, reitores, autoridades
governamentais, comando das forças armadas reunidos etc.
168
Para detectar a discriminação, ou praticá-la, não há dúvidas sobre quem é negro. A dúvida surge no momento de reparar a violação de direitos e de implementar
políticas públicas.
– As cotas são inconstitucionais, ilegais, contrariam o princípio de
que “todos são iguais perante a lei”.
Bastaria consultar a legislação ou a produção de juristas brasileiros (MELLO,
2001, 2001a; SILVA Jr., 2003) que vêm se debruçando sobre o assunto, para constatar a constitucionalidade da proposição de cotas. Conforme o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio de Mello, a Constituição brasileira
agasalha a constitucionalidade de ação afirmativas como, por exemplo, as cotas. Para
o ministro Marco Aurélio de Mello, do STF,
Falta-nos, então, para afastarmos do cenário as discriminações, uma mudança
cultural, uma conscientização maior dos brasileiros; urge a compreensão de
que não se pode falar em Constituição sem levar em conta a igualdade, sem
assumir o dever cívico de buscar o tratamento igualitário, de modo a saldar
dívidas históricas para com as impropriamente chamadas minorias, ônus que
é de toda a sociedade. [...] É preciso buscar a ação afirmativa. A neutralidade
estatal mostrou-se um fracasso. Há de se fomentar o acesso à educação; urge
um programa voltado aos menos favorecidos, a abranger horário integral, de
modo a tirar-se meninos e meninas da rua, dando-se-lhes condições que os
levem a ombrear com as demais crianças. E o Poder Público, desde já, independentemente de qualquer diploma legal, deve dar à prestação de serviços
por terceiros uma outra conotação, estabelecendo, em editais, quotas que visem a contemplar os que têm sido discriminados. [...] Deve-se reafirmar: toda
e qualquer lei que tenha por objetivo a concretude da Constituição não pode
ser acusada de inconstitucional. Entendimento divergente resulta em subestimar ditames maiores da Carta da República, que agasalha amostragem de
ação afirmativa, por exemplo, no artigo 7o, inciso XX, ao cogitar da proteção
de mercado quanto à mulher e da introdução de incentivos; no artigo 37o,
inciso III, ao versar sobre a reserva de vagas – e, portanto, a existência de quotas –, nos concursos públicos, para os deficientes; nos artigos 170o e 227o, ao
emprestar tratamento preferencial às empresas de pequeno porte, bem assim à
criança e ao adolescente (MELLO, 2001:5).
O argumento de incostitucionalidade das cotas para negros, ao que parece,
geralmente é lembrado quanto a proposta de cotas é sugerida para inclusão dos
Veja-se, também, Mello (2001b)
169
negros nas universidades publicas brasileiras. Segundo o pesquisador Sales A. dos
Santos (2003),
Em que pese toda a discussão jurídica sobre a constitucionalidade das cotas, este argumento, ao que tudo indica, não procede, visto que não se tem
conhecimento, até a presente data, de nenhuma ação de inconstitucionalidade contra as cotas para trabalhadores negros implementadas no poder executivo: no Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e no Ministério da Justiça (MJ). Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF), órgão
máximo do poder judiciário que julga os casos de inconstitucionalidade no
nosso país, também implementou cotas para negros em seus quadros funcionais, conferindo, na prática, constitucionalidade a este tipo de ação afirmativa
(SANTOS, 2003:108).
– As ações afirmativas/cotas discriminam outros grupos também discriminados – como índios, ciganos e homossexuais – que
também deveriam ter os mesmos direitos a cotas e/ou a políticas
específicas.
Idéias e conseqüências associadas a este argumento:
a) “cotas e políticas específicas não resolvem, mas sim criam mais problemas,
uma vez que não seria viável fazer políticas para todos os grupos”;
b) “esta conduta (de criar políticas específicas para cada grupo de acordo
com suas necessidades e particularidades) é discriminatória, uma vez que
contraria o princípio do combate à discriminação.”
Novamente destacamos que o debate sobre cotas tem feito emergir nos
discursos a preocupação com outros grupos. Embora esta preocupação seja,
freqüentemente uma estratégia para relativizar e esvaziar o peso da discriminação racial contra os negros no Brasil, não deixa de favorecer outros grupos.
Com freqüência as mulheres e indígenas são beneficiados nos processos de
implementação de ação afirmativa e cotas, e agora, com o PROUNI – Programa de Bolsas Universitárias do Governo Federal, com certeza os jovens
brancos pobres. Novamente, parabéns ao movimento de jovens negros, democratizando o Brasil!
– As cotas para negros em universidades diminuiriam a qualidade
de seus alunos e, conseqüentemente, do ensino universitário.
170
Precisamos definir o que é a tal “qualidade” do ensino universitário, pois a
reforma universitária é um assunto permanente e um dos pontos nevrálgicos é a
baixa qualidade que se atribui aos nossos cursos. É salutar que o tema das cotas para
negros acelere este debate. Por outro lado, uma pesquisa com cotistas do Rio de
Janeiro que concluíram o primeiro semestre na universidade mostra que estudantes
negros tiveram um desempenho ligeiramente superior quando comparado ao grupo
de brancos (Folha de S. Paulo, 14/12/2003). Segundo pró-reitor de graduação da
Universidade Estadual da Bahia (Uneb) e conclusão do coordenador de ações afirmativas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), ao analisar-se o balanço
do processo seletivo da instituição para ingresso: “Não há diferença entre os aprovados pelos métodos tradicionais e pelas cotas” e essa igualdade se encontra tanto no
desempenho em medicina como em enfermagem.
– As ações afirmativas e as cotas fazem parte de um modelo norteamericano, que alguns querem artificialmente importar, mas que
não funcionaria no Brasil, uma vez que nossa realidade é outra.
Idéias comumente implícitas ou explicitadas que acompanham este argumento:
a) “a (única ou mais próxima) experiência que conhecemos de ações afirmativas (ou de cotas), dos EUA, já não foi bem sucedida – portanto, não seria
aqui também”;
b) “nos EUA funcionou porque lá a discriminação racial é sectária, enquanto
no Brasil não existe discriminação racial (ela é de ordem social)”;
c) “nos EUA funcionou porque lá o critério para classificação racial é mais
bem-definido. No Brasil não sabemos direito quem é negro, uma vez que
a miscigenação ‘misturou’ todas as raças (quase todos os brasileiros são
descendentes de africanos negros)”.
Temos que ter uma solução “tupiniquim”. É muito interessante que ardorosos
defensores da globalização, enquanto uma possibilidade de ampliação de horizontes,
agora, frente às cotas, transformem-se em nacionalistas costumazes!
“De acordo com o estudo, no campus principal da UERJ, que concentra a maioria dos cursos, 47% dos
estudantes que entraram sem cotas foram aprovados em todas as disciplinas do primeiro semestre. Entre
os estudantes que entraram no vestibular restrito a alunos da rede pública, a taxa foi um pouco maior:
49%. [...] Entre os que se autodeclararam negros ou pardos, a taxa foi também de 49%. A comparação
inversa também favoreceu aos cotistas. A porcentagem de alunos reprovados em todas as disciplinas por
nota ou freqüência entre os não cotistas foi de 14%. Entre os que ingressaram pelo vestibular para alunos
da rede pública, a porcentagem foi de 4%. Entre os autodeclarados negros ou pardos, de 7%.
[...] Além de terem um rendimento acadêmico ligeiramente superior, os cotistas abandonaram menos os
cursos, mesmo sem ter recebido apoio financeiro do Estado. Entre os não cotistas, a taxa de evasão no
primeiro semestre foi de 9% dos estudantes. Essa porcentagem foi de 3% entre os ingressantes pela rede
pública e de 5% entre os autodeclarados” (Folha de São Paulo, 14.12.2003).
171
– As cotas para negros em universidades seriam humilhantes para
os negros que delas desfrutassem, pois eles guardariam eternamente o ‘estigma’ de ‘parasitas do Estado’, ou de ter entrado na
universidade não por mérito próprio, mas por um ‘favor’ ou
‘concessão’ do Estado.
Se os brancos têm sobrevivido ao longo de séculos à humilhação de viver
sob um sistema que os privilegia, se têm sobrevivido às inquietações éticas de ser
preferenciado em todo e qualquer espaço de poder silenciosamente preservado em
nosso país, os negros poderão sobreviver às cotas, conquistadas através de lutas do
movimento social.
– A adoção de cotas para negros em universidades contraria o
princípio da meritocracia, ou seja, de que entra nas universidades
quem ‘faz por merecer’, por capacidade e esforço pessoal – o que
seria muito mais justo e democrático.
Se concordamos com esta premissa, vamos ter que concordar que o segmento
composto por homens brancos entre 25 e 50 anos é o único segmento brasileiro que
tem capacidade e portanto merece ocupar hegemonicamente todos os lugares de
poder (96%), que de fato já ocupa. E aí vamos ter que obrigatoriamente concordar
com as premissas que se seguem:
a) o processo de seleção para as universidades brasileiras é eficiente e justo,
selecionando realmente quem merece e se esforça;
b) os negros não entram nas universidades porque não merecem, pois não se
esforçam e/ou não estudam suficientemente;
c) as cotas estariam discriminando os brancos esforçados e estudiosos, que
deixariam de entrar nas universidades para dar lugar aos negros (preguiçosos e acomodados).
d) por último, temos que salientar que a esquerda brasileira sempre combateu
a idéia de sociedade brasileira meritocrática – os que têm competência se
estabelecem, quem não o consegue não está devidamente preparado! No
entanto, lideranças dessa esquerda, ao que parece, perderam a memória e
inflamadamente defendem a meritocracia, quando se trata de cotas!
Alguns destes argumentos revelam absoluta falta de informação, a despeito da
abundância de dados e de estudos sobre relações raciais; outros argumentos revelam
falta de reflexão, e provavelmente má fé. Não raro, pensadores que produzem textos
172
sofisticados sobre outros temas, quando se trata de cotas, revelam voluntarismo, ao
reagir à proposta de cotas, e trazem argumentação inconsistente, simplória, que reflete desinformação. Ou arrogância: “de preto e de louco todo mundo entende um
pouco”, e então nos brindam com formulações descabidas. De qualquer maneira, o
que fica evidente é uma intensa reação emocional à perda de privilégios, travestida
de “análise objetiva”!
Estes aspectos da atitude branca envolvem séculos de pensamentos e atos
racistas, e carregam consigo uma evidente lacuna afetiva, ética e moral.
Giroux (apud BENTO, 2002) nos possibilita fazer um paralelo entre o que se
observa hoje no Brasil e o debate sobre branquitude nos EUA. Ele aponta que na década de 80 brancos da classe média se sentiram ameaçados pela expansão dos direitos
das minorias; sentiram-se perdendo privilégios. O Partido Republicano capitalizou o
medo dos brancos, lançando um ataque agressivo às políticas de ação afirmativa, propondo redução de gastos sociais e desmantelando o Estado de Bem-Estar. O discurso
de branquitude estava carregado de medo, ressentimento e amargura, e mascarava as
profundas desigualdades raciais que marcavam a ordem social. Alguns políticos criaram um novo populismo, cujo discurso pautava a família, a nação, valores tradicionais
e individualismo, contra a democracia multicultural e a diversidade cultural.
Os negros passaram a ser responsabilizados pelos problemas que o país estava
vivendo e alguns profissionais da mídia, diziam que queriam viver em sociedades
onde nenhum segmento racial fosse alienado e onde brancos não tinham que se
sentir mal por serem brancos.
Giroux aponta que neste período os brancos falavam de uma identidade racial sitiada. Grupos de direita como skinheads, cruzadas anti-Partido Comunista e
outros, formaram um grupo a favor dos brancos. Ao mesmo tempo em que manipulava os medos brancos, esse grupo aliviava os brancos de qualquer responsabilidade frente as desigualdades raciais.
Na década de 90 ocorre um acirramento no debate e jovens brancos foram
ficando mais agudamente conscientes de sua condição de brancos. Filmes, livros sensacionalistas mostravam negros como criminosos, drogados, infectados, entre outras
representações negativas, que ameaçavam os brancos. Os negros passaram a ser representados como povos estrangeiros, menos civilizados, essencialmente inferiores
por herança genética. E os homens brancos se definiram como vítimas de um preconceito racial às avessas. Por outro lado, começava-se a produzir estudos onde branquitude aparecia como um lugar de privilégio, de poder, construído historicamente.
173
Giroux mostra em seu artigo que foram produzidas matérias versando sobre
como os homens brancos tinham sua identidade saqueada por mulheres rancorosas,
comunistas, empregadores que utilizavam ação afirmativa, japoneses, fundamentalistas islâmicos. E que esses homens brancos estavam perdendo, bem como seu futuro estava comprometido.
Simultaneamente, estudiosos como Du Bois, Ralph Ellison, James Baldwin
(apud BENTO, 2002) puseram a construção da branquitude na mesa para ser
investigada. Historiadores como David Roediger, Theodore Allen, Noel Igratiev
(apud BENTO, 2002), entre outros, enfocam como a identidade racial branca foi
historicamente moldada, e como a supremacia branca influi na construção do “outro” não branco. Destacam ainda a branquitude como um lugar de privilégio racial,
econômico e político. Roediger avança mais, ao destacar três aspectos importantes
da ideologia da branquitude:
1. branquitude e negritude não são categorias científicas; a branquitude é
mais falsa e perigosa pela maneira como é construída;
2. branquitude e negritude não são equivalentes e a idéia de “racismo às
avessas” sugere o medo dos brancos de enfrentarem seu próprio racismo;
3. a branquitude é frágil como identidade social e pode ser combatida.
Para vários estudiosos, a branquitude é sinônimo de opressão e dominação e
não é identidade racial. É o reconhecimento de que raça, como um jogo de valores,
experiências vividas e identificações afetivas, define a sociedade. Raça é uma condição de indivíduo e é a identidade que faz aparecer, mais do que qualquer outra, a
desigualdade humana.
Giroux entende que brancos têm que aprender a conviver com a branquitude
deles, desaprender ideologias e histórias que os ensinaram a colocar o outro em
lugar estético onde os valores morais não estão vigendo.
George Yudice (BENTO, 2002) discute que a branquitude tem que ser articulada com uma redefinição de cidadania onde esteja incluída a discussão referente à distribuição de recursos e a questão da propriedade. Questões como falta de
oportunidades, falta de trabalho, políticas de imigração, acordos de comércio internacional, racismo ambiental têm que ser discutidas, porque nessas áreas os brancos
sempre tiraram vantagens sobre os negros.
Ruth Frankenberg (1995) chama a atenção para o fato de que sistemas que
têm como base a diferença moldam os privilegiados tanto quanto os que são por eles
174
oprimidos. Ela entende branquitude como um posicionamento de vantagens estruturais, de privilégios raciais. Também ressalta que é um ponto de vista, um lugar a partir
do qual as pessoas brancas olham a si mesmas, aos outros e a sociedade. Finalmente
observa que a branquitude diz respeito a um conjunto de práticas culturais que são
normalmente não-marcadas e não nomeadas. Assim, observa-se que branquitude enquanto lugar de poder articula-se nas instituições (universidades, empresas, organismos governamentais) que são por excelência, conservadoras, reprodutoras, resistentes
e cria um contexto propício à manutenção do quadro das desigualdades.
As organizações são um campo fecundo para a reprodução das desigualdades
raciais. As instituições apregoam que “todos são iguais perante a lei”; e asseguram
que todos têm a mesma oportunidade, basta que a competência esteja garantida. As
desigualdades raciais persistentes evidenciam que alguns são menos iguais que outros. Mas sobre isto há um silêncio. O silêncio não é apenas o não-dito, mas aquilo
que é apagado, colocado de lado, excluído. O poder se exerce sempre acompanhado
de um certo silêncio. É o silêncio da opressão.
Desta forma, se buscamos compreender um discurso, no caso o discurso contra as ações afirmativas e as cotas, devemos perguntar sistematicamente o que ele
“cala”, ou seja, a defesa de privilégios raciais. O silêncio não é neutro, transparente.
Ele é tão significante quanto as palavras. Desta forma, a ideologia está em pleno
funcionamento: no que obrigatoriamente se silencia.
Assim, quando destacamos que branquitude é território do silêncio, da negação, da interdição, da neutralidade, do medo e do privilégio, entre outros, enfatizamos que se trata de uma dimensão ideológica, no sentido mais pleno da ideologia:
com sangue, ícones e calor.
175
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poder nas organizações empresariais e no poder público. Instituto de Psicologia
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Revistas
Raça Brasil, Veja, Época, Isto É, Panorama Econômico.
Jornais
Folha de São Paulo, Correio Braziliense, O Globo, O Estado de São Paulo,
Jornal do CREMESP, Folha de Pernambuco, BG Press, Correio do Povo/RS, O
Estado de Minas, Jornal do Brasil, Jornal de Brasília e O Norte/PB.
177
Racismo e Imprensa:
argumentação no
discurso sobre as
cotas para negros
nas universidades
André Ricardo Nunes Martins
A
té o ano de 2002, o interesse pela adoção de políticas de ação afirmativa
para a comunidade negra no Brasil – como forma de promover o desenvolvimento de parcela considerável da população até hoje vítima de
um racismo histórico – parecia se restringir à militância do movimento
negro. Naquele ano eleitoral, no entanto, a iniciativa do Governo do Rio de Janeiro
de implantar nas universidades do estado o sistema de cotas para negros e alunos
egressos de escolas públicas, aliada à expectativa e à consagrada vitória nas urnas
da candidatura a presidente do ex-líder operário Luiz Inácio Lula da Silva, trazem
para o proscênio da cena pública o debate sobre a necessidade de políticas de ação
afirmativa para os descendentes de escravos, como uma tentativa de concretizar um
acerto de contas com um atraso de mais de cem anos.
Enquanto o assunto é tratado por governantes e políticos que, ou tomam a iniciativa de propor medidas nesse sentido ou assumem a proposta em
suas plataformas eleitorais, universidades públicas em vários estados começam
a examinar o tema e mesmo a implantar o sistemas de cotas. A imprensa tem
participação considerável nesse processo de debate público sobre as cotas. Ao
tempo em que tomam posição contrária à política de cotas, os jornais propiciam
um espaço de discussão, veiculando reportagens, entrevistas, artigos, colunas e
cartas aos(às) editores(as).
Considerando o secular atraso quanto à adoção de políticas de ação afirmativa para a comunidade negra no Brasil e a ligação estreita entre esse tipo de política
e o contexto de racismo institucionalizado, o debate reacendeu na esfera pública
nacional a polêmica em torno do reconhecimento do racismo vigente na sociedade
brasileira. Defensores e oponentes das cotas travaram uma luta por sentidos nos
textos da imprensa, procurando demonstrar a existência ou não de racismo e, por
conseguinte, a necessidade ou não desse tipo de política. As cotas também foram
defendidas ou rejeitadas em referência a aspectos como exequibilidade, justeza e
conformidade com a legislação jurídica vigente.
Nesse sentido, a participação da imprensa enquanto instituição de modo algum foi imparcial. Ao contrário, o exame dos textos evidencia como os jornais se
engajaram de modo explícito na representação desfavorável das cotas. De quebra,
não somente as cotas, mas a própria representação discursiva dos negros, assim
como o reconhecimento quanto à existência e relevância do racismo na sociedade
brasileira, sofrem a intervenção da imprensa, veiculando e impondo alguns sentidos
em detrimento de outros.
Neste artigo, propomo-nos a examinar o discurso da imprensa sobre a política
de cotas, destacando como, por meio da argumentação, a medida é desqualificada, o
racismo que atinge os negros é silenciado e a representação dos negros no discurso é
subvalorizada. O artigo baseia-se em resultados de uma pesquisa mais ampla, que encetamos no doutoramento em Lingüísticaque desenvolvemos no Programa de PósGraduação em Lingüística na Universidade de Brasília. No trabalho, analisamos 352
textos, de gêneros discursivos variados, dos jornais Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e
A Tarde no período que vai de 1o de janeiro de 2002 a 31 de dezembro de 2003
A pesquisa teve como marco teórico os desdobramentos recentes da reflexão
sobre raça e racismo nas ciências sociais e o desenvolvimento dentro da Lingüística
da análise de discurso crítica. Na próxima seção, vamos tratar especificamente da relevância do conceito de raça como categoria de trabalho nas ciências sociais, do racismo
como fenômeno social e da ação afirmativa como proposta política de reparação e de
compensação em favor de descendentes de africanos que vieram à força para o continente americano e aqui foram escravizados entre os séculos XVI e XIX.
A relação entre racismo, discurso e imprensa é discutida na seção seguinte.
Analisamos questões como poder e linguagem; sentidos a serviço do poder; a construção do consenso em favor da hegemonia, cuja disputa preside as movimentações
A tese defendida teve por título: A polêmica construída – Racismo e discurso da imprensa sobre a política
de cotas para negros.
180
na esfera pública; o problema do racismo e sua manifestação como racismo discursivo. A seção ulterior é dedicada ao exame da participação da argumentação nesse
processo discursivo e à análise das estruturas argumentativas que se manifestam,
mostra como operam e que efeitos de sentido estabelecem. A última seção sustenta
a conclusão de que o debate sobre as cotas na esfera pública trouxe consigo desde
o primeiro instante o mérito de impor na agenda política do país a discussão do
racismo e da necessidade de políticas públicas para combatê-lo.
Raça, racismo e ação afirmativa
Nos últimos cem anos, o conceito de raça aplicado à espécie humana evoluiu de uma categoria científica evocada na legitimação de práticas de racismo para
uma categoria científica de valor basicamente instrumental a serviço da luta contra
o racismo. A mudança de enfoque tem a ver com desdobramentos ocorridos nas
ciências sociais.
Michael Banton, ao enfocar o desenvolvimento do conceito de raça, aponta
uma certa tendência entre os seres humanos de preferirem aqueles de sua própria
espécie, mantendo-se refratários aos de fora. Cita autores que mostram que antes mesmo do século Xv alguns povos manifestavam considerações de ordem racial. E situa a virada do século XvIII para o XIX como o tempo de mudança do
significado de raça. Segundo Banton (1977: 29), até então, “o termo foi utilizado
primariamente no sentido de ‘linhagem’; as diferenças entre raças derivavam das
circunstâncias da sua história e, embora se mantivessem através das gerações, não
eram fixas”. Com a mudança, o conceito passou a expressar “uma qualidade física
inerente”. Nas palavras de Banton:
Os outros povos passavam a ser vistos como biologicamente diferentes. Embora a definição continuasse incerta, as pessoas começaram a pensar que a
humanidade estava dividida em raças. [...] O novo uso da palavra “raça” fazia
dela uma categoria física. Levou a negligenciar o modo como o termo era socialmente utilizado como categoria para organizar a percepção que as pessoas
tinham da população do mundo (id.: 30).
De acordo com D. T. Goldberg (2002), o conceito de raça surge na consciência social européia de modo mais ou menos explícito no século Xv. Anteriormente,
entre os gregos embora houvesse manifestações de discriminação etnocêntrica e
xenofóbica, e mesmo a reivindicação de uma superioridade cultural, não haveria, de
acordo com ele, evidências seguras de que tais desigualdades fossem determinadas
181
biologicamente. Na genealogia que traça para o racismo moderno, C. West (2002)
observa a existência de duas fases específicas. A primeira está relacionada ao papel
da estética clássica e das normas culturais na legitimação da supremacia branca.
Também a ciência serviu como instrumento nessa operação. Raça, denotando principalmente a cor da pele, foi empregada pela primeira vez como um meio de classificar os seres humanos por um físico francês chamado François Bernier, em 1684.
A segunda fase, segundo West, é possibilitada por desdobramentos na antropologia, valorizando aspectos estéticos e defendendo a superioridade da pessoa
branca. A espécie humana seria única, mas as variações seriam causadas por três
fatores: clima, estado da sociedade e hábitos de vida. West mostra, então, que o
iluminismo, através de vários de seus expoentes, deu guarida a essas idéias e as
legitimou.
R. Miles (1993), em sua abordagem histórica do conceito de raça, mostra
que o termo race aparece na língua inglesa no século XVII e, no século seguinte, já
é usado nos escritos científicos na Europa e nos EUA, com o objetivo de nomear
e fornecer explicação para certas diferenças fenotípicas entre seres humanos. No
pensamento do século XIX, segundo Miles, a teoria da ‘raça’ é dominante. A idéia
em vigor na época é de que haveria na população mundial um número de raças
distintas, cada qual com uma capacidade biologicamente determinada para o desenvolvimento cultural.
Miles observa que é o emprego da teoria pelos nazistas que vai provocar
reações críticas tanto na Europa quanto nos EUA. Esse movimento crítico leva
à criação do conceito de racismo na década de 1930. Já naquele momento, estudos passaram a refutar a hierarquização de raças do ponto de vista da biologia,
criticando o apelo à ciência feito pelo nazismo para justificar o viés racista de sua
política. No entanto, os autores da época mostravam-se divididos quanto à existência ou não de ‘raça’.
Miles propõe:
Não existem ‘raças’ e portanto não existem ‘relações de raça’. Há somente uma
crença de que essas coisas existem, uma crença que é usada por alguns grupos
sociais para construir um Outro (e portanto o Eu) no pensamento como um
precedente para a exclusão e a dominação, e por outros grupos sociais para definir o Eu (e assim construir um Outro) como um meio de resistência e exclusão.
Por conseguinte, se usada de alguma forma, a idéia de ‘raça’ deve ser usada apenas para referir de modo descritivo a certos usos da idéia de raça (1993: 42).
182
Essed (2002) observa que a raça é notadamente uma construção ideológica e
não simplesmente uma construção social, porque a idéia de ‘raça’ nunca existiu fora
de uma estrutura de interesse de grupo.
Nota-se assim que a revisão de teorias em meados do século XX determinou
pouco a pouco o abandono do conceito de raça com base numa perspectiva biológica. No entanto, a relevância atual das relações raciais e do racismo impede que o
uso da categoria seja descartado, mormente nas ciências sociais.
Adotamos, assim, a perspectiva de raça como categoria de análise, sem nenhum julgamento de valor do ponto de vista da biologia e mesmo como distinção
de ordem cultural entre os grupos humanos, para o que, entendemos, o conceito de
etnia seria mais pertinente. Defendemos, portanto, um emprego estratégico do termo, em reconhecimento ao papel que considerações baseadas em questões de raça
desempenham nas diversas formações sociais. Assim, não é possível ignorar que, no
dia-a-dia, as comunidades continuam a ver a si mesmas e às demais como estruturadas em torno de diferenças que vão do aspecto estético aos valores culturais. Tais
diferenças são entendidas como sendo de ordem racial. Ademais, as diferenças desempenham papel preponderante na disputa pelo poder na sociedade e no acesso a
bens materiais (meios de produção, salários, condições de saúde, transporte e moradia) e simbólicos (sistema de ensino, cultura e lazer), o que tem levado ao racismo.
T. A. van Dijk observa que o racismo moderno abandona o pressuposto da noção biológica de raça ou de suas hierarquias raciais associadas. Em vez disso, aponta a
perspectiva da construção sociocultural adaptada ao contexto histórico presente:
Uma das implicações dessa transformação de racismo em etnicismo é o desenvolvimento de uma ideologia que reconhece diferenças sócioculturais entre
grupos étnicos diferentes, mas nega as diferenças de poder, e conseqüentemente a dominação da cultura ocidental (VAN DIJK, 1991: 28).
Para Essed, o racismo é tanto estrutura quanto processo. É uma estrutura, uma vez que há dominação racial e étnica, que é reproduzida pelo sistema
mediante a formulação e aplicação de regras, leis e regulamentos e por meio do
acesso a recursos e de sua alocação. Por sua vez, racismo é um processo, porque
estruturas e ideologias não existem à parte das práticas diárias mediante as quais
são criadas e confirmadas:
No debate realizado na imprensa, a discussão conceitual sobre raça também se faz presente. Como exemplo, há o caso do professor José Carlos Azevedo, articulista do Jornal do Brasil, que alega a superação
do conceito de raça no campo das ciências naturais para argumentar que não fazem sentido políticas
públicas baseadas nesse critério. Trata-se, na verdade, de um sofisma.
183
O racismo cotidiano é um complexo de práticas operativas mediante relações
heterogêneas (de classe e gênero), presentes em relações de raça e etnia e produzindo essas relações. Tais relações são ativadas e reproduzidas como práticas
(ESSED, 2002: 50).
Para a manifestação do racismo cotidiano, segundo Essed, concorrem: (a)
noções racistas socializadas, que são integradas em sentidos que determinam certas
práticas; (b) práticas com implicações racistas que se tornam familiares e repetitivas;
e (c) relações raciais e étnicas subjacentes que ocorrem e são reforçadas por meio
dessa rotina ou dessas práticas familiares em situações diárias” (ibid.: 52).
Considerando especificamente a realidade brasileira, nota-se que entre fins
do século XIX e começo do século XX, predominava entre os intelectuais um certo
desprezo pela miscigenação. A tese, baseada em fundamentos teóricos naturalistas,
era a de que a mistura das raças seria a responsável pela degeneração das mesmas. Expressam tal pensamento, entre outros, intelectuais como Nina Rodrigues,
Sílvio Romero, João Batista Lacerda e Euclides da Cunha (Schwarcz, 2001;
Freyre, 1990). Rompendo com essa linha de pensamento, Manuel Bonfim, Alberto Torres, Edgar Roquette-Pinto e outros contestaram a perspectiva racista então em voga (Skidmore, 1994). Por sua vez, o sociólogo Gilberto Freyre passa a
considerar a miscigenação como um traço constitutivo e positivo do povo brasileiro.
E de tal modo reconhece esse aspecto na população que o generaliza:
Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na
alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo
Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. [...] A
influência direta, ou vaga e remota, do africano (FREYRE, 1990: 307).
No entanto, ao tempo em que constrói a idéia de um tipo nacional distinto,
formado a partir do amalgamento de povos europeus, africanos e americanos,
Freyre sugere que o racismo não é uma marca forte nas relações raciais no Brasil,
minimizando a violência, física e simbólica, exercida contra negros e indígenas
ao longo dos séculos. Para Schwarcz, “Freyre mantinha intocados em sua obra,
porém, os conceitos de superioridade e de inferioridade” (2001: 28). Nesse sentido, diz a autora, Freyre constrói a miscigenação como sinônimo de tolerância.
Opinião também acentuada por E. R. Bastos, que identifica na obra de Freyre
“uma visão de conflito social marcada pelo equilíbrio”. Segundo a autora, para
Freyre, “é a mistura de raças que possibilita a convivência pacífica de elementos
contraditórios; é ainda a miscigenação que constitui o elemento fundamental de
nossa nacionalidade” (1986: 54).
184
Novas abordagens sobre o fenômeno do racismo no Brasil surgem em meados do século XX, com base em pesquisas patrocinadas pela Unesco. O irônico é
que a motivação inicial dos estudos era o de mostrar como a sociedade brasileira
poderia se constituir em modelo para outros países que enfrentavam sérios problemas internos relativos às relações raciais, como a África do Sul e os Estados Unidos.
Segundo Schwarcz, enquanto alguns dos estudos “engajaram-se no projeto desenvolvido pela instituição, outros passaram a realizar uma revisão ampla” (idem: 33).
Entre esses autores encontram-se Costa Pinto, Roger Bastide, Florestan Fernandes.
A partir daí, passa-se a apontar a questão das discriminações e as inconsistências da
tese da democracia racial.
Apesar de toda a pesquisa que vem sendo feita nas últimas décadas, do aporte de dados sobre a desigualdade entre negros e brancos, fornecido por institutos
de pesquisa aplicada e veiculados pela mídia, e do fortalecimento do movimento negro nos últimos anos, o reconhecimento do racismo pela sociedade brasileira
ainda é uma questão que desperta polêmica. Schwarcz apresenta dados de duas
pesquisas realizadas no Brasil sobre a questão racial. A primeira, feita em São Paulo
por ocasião do centenário da Abolição, em 1988, mostrou que “enquanto 97% dos
entrevistados afirmaram não ter preconceito, 98% disseram conhecer, sim, pessoas
e situações que revelavam a existência de discriminação racial no país” (2001: 76).
A segunda pesquisa foi realizada pelo jornal Folha de S. Paulo, em 1995, e trouxe
resultados semelhantes. Para 89% dos entrevistados, existe preconceito de cor no
Brasil, mas somente 10% admitiram ter preconceito. Não obstante, de forma indireta, 87% manifestaram algum tipo de preconceito racial.
Entendemos que a própria resistência ao debate sobre o racismo no Brasil e
as formas em que essa resistência se dá tanto na opinião pública, na imprensa, como
na academia, são em si evidências do racismo. A restrição ao reconhecimento do
desequilíbrio nas relações raciais e mesmo a recusa ao debate livre sobre o tema não
devem ser tomadas como um tabu social simplesmente e sim como a manifestação
de controle ideológico da esfera pública.
Outra perspectiva a se considerar no exame do racismo à brasileira é a indiferença para com as desigualdades existentes entre a população negra e a população
branca. Nos últimos anos, têm sido freqüentes a realização e a veiculação na mídia de
pesquisas – de iniciativa tanto de instituições públicas quanto de ONGs – que retratam aspectos dessa realidade. Não dispomos de estudos que informem e analisem o
impacto da divulgação desses dados sobre as elites ou sobre a população em geral. O
fato é que, apesar disso, o mais corrente é se apelar a políticas universalistas quando se
185
fala de medidas para combater esse quadro social, o que não deixa de ser coerente com
a crença generalizada de que o problema é antes de ordem social do que racial.
Nesse sentido, a luta contra o racismo e em favor de políticas específicas
nesse terreno envolve também ganhar o debate público em que a maioria, tanto dos
conservadores quanto dos progressistas, adversários que são em tantas causas, parecem unidos em uma mesma percepção, a de que o racismo na sociedade brasileira,
se existente, não seria algo tão relevante assim.
De um modo mais abrangente, a ação afirmativa tem a ver – segundo G.
Ezorsky (1991) – não simplesmente com uma postura passiva de não discriminação, mas sim com medidas ativas, com vistas a aumentar, de modo significativo,
o recrutamento e a promoção de minorias. A autora identifica dois tipos de ação
afirmativa: uma, não específica, que engloba esforços para recrutar negros sem fixar
metas numéricas ou cronograma de contratação; e outra, específica, que determina
alvos numéricos definidos e cronometrados para aquele propósito.
Ezorsky destaca o impacto positivo dos programas de ação afirmativa. Negros
em posição de prestígio na sociedade servem como modelo para crianças negras, o que
é um reforço à auto-estima da criança e da comunidade, um incentivo ao desenvolvimento de aspirações vocacionais e ao aprendizado por parte de estudantes negros.
As políticas de ação afirmativa (AA) admitem uma perspectiva de reparação,
o que tem a ver com as injustiças do passado, e uma perspectiva de compensação,
voltada para corrigir os males do presente e construir um futuro com relações inter-raciais mais equilibradas. Segundo Ezorsky, da perspectiva de compensação, isto
é, voltada para o futuro, o propósito da AA é reduzir o racismo institucional. Isso
acontece na medida em que os negros movimentam-se no propósito de atingir a
integração ocupacional. Uma vez atingido esse propósito, milhões de negros já não
serão mais impedidos injustamente, haja vista os efeitos de sua história de racismo,
de alcançar os benefícios do emprego. Já, de uma perspectiva voltada para o passado,
os negros têm uma reivindicação moral de compensação pela ofensa do passado. A
injustiça suprema perpetrada contra os negros – a escravidão – requer tal compensação (ibid.: 73).
Assim, a reação negativa é tanto contra o método como também contra os beneficiários da medida. A corroborar essa interpretação, observamos no discurso da imprensa uma animosidade contra as cotas para negros, deixando fora da polêmica, no
caso específico das universidades do Rio de Janeiro, as cotas que beneficiam alunos
egressos da rede pública de ensino – em que o fator racial não é o aspecto distintivo.
186
Racismo, discurso e imprensa
Uma das perspectivas para se abordar o racismo nos dias de hoje é a sua
expressão no campo do discurso, como veremos na Seção seguinte. Por ora, vamos considerar brevemente a contribuição de van Dijk, que propõe uma abordagem
analítica do discurso como meio de examinar um novo tipo de manifestação do
racismo. Segundo ele, o ‘novo racismo’ pretende ser democrático e respeitável, daí
porque o primeiro passo, nesse sentido, é negar que seja racismo. Definindo racismo
como “um sistema social de desigualdade ‘étnica’ ou ‘racial’, van Dijk identifica dois
componentes principais: o social e o cognitivo. O primeiro estaria relacionado a
práticas discriminatórias diárias, no nível micro de análise, e ainda a organizações,
instituições, estruturas legais e outras, no nível macro. O segundo componente englobaria crenças, conhecimentos, atitudes, ideologias, normas e valores.
O discurso desempenha, assim, um papel preponderante na reprodução do
racismo. Segundo van Dijk, “o discurso como uma prática social do racismo é, ao
mesmo tempo, a principal fonte para as crenças racistas das pessoas” (2000: 36). Em
um trabalho anterior, van Dijk já havia observado que a negação do racismo é um
aspecto constitutivo do novo racismo. Ele também aponta diversas estratégias de
negação entre as quais as do tipo ‘negação do ato’, ‘negação do controle’, ‘negação
da intenção’ e ‘negação do objetivo’; as mitigações por meio do emprego de minimizações e eufemismos e de estratégias cognitivas e sociais relacionadas: justificação,
escusas, alegação de provocação e responsabilização da vítima, inversão.
A linguagem detém um papel crucial na reprodução do racismo. Isso equivale a dizer, primeiramente, que a linguagem opera na construção do racismo, ou
seja, ela desempenha um papel ativo na forma como o racismo se constitui, daí
porque podemos falar em uma dimensão discursiva do racismo. Em segundo lugar, conquanto práticas e eventos racistas não devam ser reduzidos a uma questão
de linguagem, esta e aqueles desenvolvem uma relação entranhada e constante de
intervenção dialética. Assim, tanto a linguagem contribui para manter ou modificar
práticas racistas como essas influenciam a linguagem.
Assumindo como princípio a compreensão de que a linguagem não é, nem
pode ser neutra, propomos que a linguagem em sua prática social está a serviço do
poder. Aqui, poder é visto não em sua perspectiva individual, mas sim em sua dimensão política, isto é, relacionada à sua manifestação na estrutura social.
Um conceito diretamente relacionado ao de poder é o de ideologia. Para J.
B. Thompson (1998), ideologia deve ser vista como “sentido a serviço do poder”.
187
Segundo o autor, “estudar a ideologia é estudar as maneiras como o sentido serve
para estabelecer e sustentar relações de dominação” (id.: 76). No caso específico dos
estudos da linguagem, torna-se relevante examinar como a ideologia opera por meio
da linguagem e de que modo essas operações atuam na constituição dos sujeitos
sociais.
Identificamos a intervenção predominante de uma ideologia racista na prática discursiva da imprensa. Em contrapartida, uma ideologia anti-racista também se
manifesta, construindo sentidos opostos e que confrontam o consenso social estabelecido. A mobilização e a fixação de sentidos de uma ou outra formação ideológica
levam-nos a considerar com especial atenção o conceito de hegemonia. Com base
na teoria de Gramsci – que vê na hegemonia uma característica fundamental da
luta pelo poder nas sociedade capitalistas modernas – Fairclough (2001) considera
a hegemonia tanto como liderança quanto como dominação nos vários âmbitos da
sociedade (economia, política, cultura e ideologia). Nesse sentido,
Hegemonia é o poder sobre a sociedade como um todo de uma das classes
economicamente definidas como fundamentais em aliança com outras forças
sociais, mas nunca atingido senão parcial e temporariamente, como um ‘equilíbrio instável’. Hegemonia é a construção de alianças e a integração muito
mais do que simplesmente a dominação de classes subalternas, mediante concessões ou meios ideológicos para ganhar seu consentimento (id.: 122).
No desenvolvimento de suas pesquisas, Foucault (1986) lança mão do conceito de enunciado, tomado não como uma frase, ou uma unidade, mas antes como
“uma função que cruza um domínio de estruturas e de unidades possíveis e que
faz com que apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço” (id.: 99).
Segundo ele, o enunciado está presente “sempre que se possa reconhecer e isolar um
ato de formulação” (ibid.: 93). Podemos vislumbrar em sua obra a seguinte questão
que ele mesmo explicita:
[...] segundo que regras um enunciado foi construído e, conseqüentemente,
segundo que regras outros enunciados semelhantes poderiam ser construídos?
A descrição de acontecimentos do discurso coloca uma outra questão bem
diferente: como apareceu um determinado enunciado, e não em outro lugar
(ibid.: 31).
Fairclough (1997) mostra como em Gramsci “o poder político da classe dominante dessas sociedades
baseia-se numa combinação de ‘dominação’ – poder estatal no sentido mais restrito da expressão, controle das forças de repressão e capacidade de fazer uso da coerção contra outros grupos sociais – e de
‘liderança intelectual e moral’, ou ‘hegemonia’ (Forgacs, 1988: 249). Nesse sentido, o Estado é uma
combinação de ‘sociedade política’ (o domínio público, o domínio do poder estatal, no seu sentido mais
estrito) e de ‘sociedade civil’ o domínio privado, o domínio da hegemonia)” (id.: 79).
188
Nesse sentido, valemo-nos de enunciados extraídos de textos sobre a política de cotas para os negros e que integram o processo discursivo na imprensa para
identificar e analisar um tipo específico de racismo, o discursivo. No exame dos textos de vários gêneros discursivos, encontramos enunciados que mesmo procedentes
de atores sociais diferentes, de posições de sujeito e de contextos distintos constroem, no entanto, uma mesma cadeia de sentidos interligados, reforçando, assim, uma
determinada perspectiva ideológica, seja contrária ou favorável às cotas.
Mas os enunciados não se constituem de forma isolada. Eles irrompem em
textos, produtos de um discurso. O lingüista britânico N. Fairclough (1992), define discurso na perspectiva de ‘linguagem como prática social’. Em vez de fazer
abordagens estritas dos fenômenos lingüísticos, a análise do discurso atribui fazer
especial relevo à contextualização (PEDRO, 1997). O sujeito caracteriza-se como
um agente social que é construído e que, por sua vez, contribui para a construção
dos processos discursivos. Fugindo ao caos da incomunicação, um texto reúne
e estabelece sentidos, conferindo uma necessária organização interna e pondo a
linguagem a serviço de algum interesse.
Na perspectiva que vem sendo abordada por Fairclough e outros, conhecida
como Análise de Discurso Crítica (ADC), notam-se duas implicações na noção
do discurso como prática social. A primeira delas é que o discurso é um modo de
ação; a outra é que existe uma relação dialética entre o discurso e a estrutura social.
O papel de construção do discurso pode ser considerado, ainda segundo o autor,
em três tipos de contribuição: primeiro, o discurso coopera para a construção das
‘identidades sociais’ e ‘posições de sujeito’; segundo, o discurso atua no campo das
relações sociais entre as pessoas; e, terceiro, o discurso intervém na construção de
sistemas de conhecimento e crença. O resgate das possibilidades de mudança e da
atuação transformadora do sujeito impingiram nuanças distintas na trajetória de
investigação do discurso.
Eminentemente dinâmico, o processo discursivo é sempre um movimento de fixação, deslocamento e dominância de sentidos em que os diversos textos, como vimos anteriormente, não irrompem num vazio histórico.
Ao contrário, fazem referência a outros textos, projetam-se, fortalecidos por
aqueles que os antecederam e, em si mesmos, são atravessados por sentidos
provenientes de formações discursivas distintas. E, ainda, a compreensão de
cada texto torna-se possível dentro da ordem de discurso e da formação discursiva às quais o mesmo está ligado e que propiciam a mobilização de alguns
sentidos na construção da mensagem.
189
A ADC firma-se então pelo exame lingüístico específico dos textos e pelas
análises das práticas discursivas e das práticas sociais que permitam compreender
as estruturas sociais de opressão, fornecendo, assim, subsídios para uma abordagem
crítica, numa tentativa de desvendar sentidos que engendram relações de poder.
Em Fairclough (1992), o processo discursivo é visto sob uma perspectiva tridimensional por meio de três dimensões constitutivas, a saber, o texto, a prática discursiva – incluindo aqui, a produção, a distribuição e o consumo textual – e a prática
social. Para analisar um discurso, é preciso levar em conta a descrição do texto, a
interpretação da prática discursiva e a explicação da prática social.
A imprensa participa – como as demais instituições da mídia – da formação do consenso político que permite a reprodução do poder na sociedade, tendo
papel preponderante nesse processo. Constitui-se em um dos tipos de discurso de elite, como o definiu van Dijk (2003). Daí porque examiná-lo é um dos
meios privilegiados para se compreender os mecanismos pelos quais a linguagem
é usada em favor de determinado segmento da sociedade ou de algum ponto de
vista específico. As notícias permitem uma representação do mundo por meio da
linguagem. Trata-se de uma construção, “não de um reflexo dos fatos, isento de
valor” (FOWLER, 1991).
O discurso da imprensa é, portanto, uma construção da realidade, construção essa que visa a atender determinados propósitos. A notícia é tanto o produto
resultante do tratamento que se dá a um fato histórico, como constitui ela mesma
um produto que se segue a uma outra elaboração, aquela que é feita do fato em si,
o recorte que se faz de determinado acontecimento histórico, como propõe A. P. G.
Ribeiro (2000):
Não existe fato histórico ‘bruto’. Ele é sempre produto de algum tipo de elaboração teórica que o promove à categoria de histórico. Pressupõe um sistema
de referência e uma teoria, no quadro dos quais operam-se a seleção e a valorização dos acontecimentos e processos (id.: 26).
Para Fairclough (1995), o jornalismo implica uma complexidade de propósitos sociais. Dizer que os jornalistas apenas reelaboram os eventos é pouco:
Eles também os interpretam e explicam, tentam levar as pessoas a ver as coisas e agir de determinadas formas e têm por objetivo entretê-las. O conceito
de uma ‘estória’ sugere essa multiplicidade de propósito, em que normalmente
pensamos nas estórias como formas de entretenimento e diversão, e freqüentemente no sentido mais de ficção do que factual (id.: 91).
190
O discurso da imprensa não é um discurso a mais na Babel do mundo contemporâneo, mas um que desempenha um papel de primeira linha na formação do
consenso na sociedade. E isso tanto por que a imprensa ocupa o posto de principal
instituição veiculadora de informação, ao dispor de uma estrutura e um aparato que
lhe possibilitam atingir milhões de pessoas, como, por conseguinte, pelo grau de
dependência que as pessoas e as instituições têm em relação a ela na formação e na
sedimentação de uma visão de mundo. Nesse aspecto, van Dijk (1991), por exemplo,
observa como, diante da realidade, a maioria das pessoas brancas acaba não sendo
confrontada com um sistema de discurso público que favoreça o surgimento de uma
ideologia anti-racista.
Em seu trabalho sobre racismo e imprensa, van Dijk (ibid.) desvenda um
fenômeno presente nas sociedades contemporâneas, mas enfaticamente negado,
qual seja, a articulação de um discurso racista por parte das elites dominantes e a
participação engajada da imprensa nesse processo. Ele sugere: 1o) um país ou uma
sociedade é tão racista quanto suas elites dominantes o são; 2o) como representante
da estrutura de poder dos brancos, a imprensa– de modo consistente – tem limitado
o acesso tanto na contratação quanto na promoção ou veiculação de pontos de vista
de grupos étnicos minoritários. Ele demonstra que as minorias ou os imigrantes são
apresentados como um problema ou uma ameaça e são retratados preferencialmente em associação com crime, violência, conflito, diferenças culturais inaceitáveis ou
outras formas de desvio.
Segundo van Dijk (ibid.), no racismo em vigor na imprensa e em outros
âmbitos da sociedade predominam estratégias de atenuação. Assim, é comum observar pessoas com comportamento racista, que, no entanto, buscam apresentar-se
a si mesmas, por um lado, como pessoas tolerantes e que defendem uma igualdade
diante de um sistema político pluralista; sem, por outro lado, serem anti-racistas
de modo consistente. O papel da imprensa na reprodução do poder, afirma, não é
passivo. “Ela pode veicular interesses conflitantes, representar grupos legítimos de
oposição ou ainda algumas vezes falar pelas pessoas” (ibid.: 41).
Referindo-se às sociedades contemporâneas, van Dijk atribui à imprensa um controle quase exclusivo sobre os recursos simbólicos com os quais se produz o consenso
popular, especialmente no que diz respeito às relações étnicas. Também van Dijk (1996),
em outro trabalho, valoriza a questão do acesso aos meios de massa, identificando nessa
disputa por espaço a manifestação do poder, uma vez que são as elites quem mais desfruta do acesso privilegiado ao mundo da mídia como fonte de informação e com a possibilidade de ter suas opiniões divulgadas e mais disponíveis para influenciar o público.
191
O autor busca mostrar a reprodução da dominação étnico-racial por meio de
padrões diferenciados de acesso ao discurso, distinguindo a população majoritária
e as minorias, argumentando, assim, que o racismo se manifesta ali também e não
apenas por causa do acesso diferenciado à moradia, empregos, aluguéis, educação ou
bem-estar. Ele arremata demostrando que o poder de acesso preferencial à mídia
está intimamente ligado ao poder que as elites têm de definir a situação das relações
étnicas e de, portanto, contribuir para a reprodução do racismo.
A argumentação no discurso sobre as cotas
A argumentação nasce na Grécia antiga ligada ao terreno da retórica política. Alguns autores atribuem à mesma a relevância como um dispositivo para se regular o próprio discurso ou um mecanismo usado para localizar e resolver diferenças de opinião.
A análise de qualquer argumentação particular torna-se relativa, uma vez que
se localiza dentro do contexto de outro discurso mais amplo, que conduz a análise
ao definir o que é que está em jogo (MARTINS, 2004: 319).
Entre os gêneros discursivos correntes na instituição imprensa, é no editorial,
no artigo, na coluna e na carta ao(à) editor(a) que podem ser encontrados exemplos de
argumentação com maior regularidade. O editorial, por exemplo, é um gênero argumentativo por excelência. Já a reportagem, por reproduzir amiúde discursos de diversos
autores, também veicula argumentos. O estranho na reportagem é quando a argumentação faz-se presente não no discurso relatado, mas no próprio texto do(a) repórter (id.).
Na pesquisa que fizemos sobre o discurso da imprensa sobre a política de cotas para negros, a argumentação é examinada a partir de um modelo que identifica
a opinião estabelecida, também chamada tese, e os argumentos que a sustentam.
Tomemos o exemplo de um editorial da Folha de S. Paulo que condena as cotas. Por
economia de espaço, apresentamos apenas um pequeno trecho do texto:
A criação de cotas é problemática. No plano teórico, a medida equivale a
tentar reparar uma injustiça criando outra, manobra que raramente dá certo.
[...] Não bastasse essa dificuldade de princípio, a criação de cotas esbarra em
sérias dificuldades práticas. Um exemplo: como definir um negro no Brasil? O
IBGE utiliza o critério da autodefinição, que, no fundo, é o único democrático. Se um branco disser ao recenseador que é negro, assim será considerado
pelo instituto. O que impediria alguém de declarar-se negro para ter acesso às
cotas? Mesmo que todos fossem absolutamente honestos, quão negro alguém
precisaria ser para fazer jus às cotas? (Folha de S. Paulo, 20/01/02).
192
Para analisá-lo, devemos identificar a estrutura argumentativa aí presente que
é composta de uma tese, dois argumentos principais e argumentos subjacentes:
Tese: a criação de cotas é problemática.
Argumento 1 – no plano teórico, o problema está em tentar reparar uma
injustiça, criando outra.
1.1 – Trata-se de manobra que raramente dá certo.
Argumento 2 – a criação de cotas tem dificuldades práticas.
1.2.1 – É difícil definir quem é negro no Brasil.
2.2.2 – A auto-declaração pode ser usada por oportunistas.
3.2.3 – Não se sabe que grau ou tonalidade de negritude em uma pessoa
permitiria o benefício da medida.
A estratégia argumentativa presente ao longo do texto visa a combater a
política de cotas, atribuindo-lhe problemas teóricos e práticos que, de tão graves,
a inviabilizam. A argumentação é precedida pelo reconhecimento da realidade da
discriminação na sociedade brasileira, o que atingiria não somente os negros como
também as mulheres. Paralelamente a esse pensamento, aparecem números que
ilustram a opinião. Constrói-se aqui uma imagem positiva para o jornal, já que firma de imediato a posição de reconhecimento da realidade da discriminação e deixa
explícito o repúdio a essa política.
Já na contextualização inicial do problema, o texto lança mão de uma estratégia retórica, qual seja, a de igualar situações distintas, isto é, busca-se apresentar
como semelhantes, realidades que procedem de contextos diferenciados. Nesse caso,
a discriminação racial e a discriminação de gênero são postas lado a lado como se
fossem de um mesmo tipo quando, na verdade, cada qual tem causas, conjunturas
e processos distintos. O enfrentamento de cada uma, portanto, remete a soluções
próprias.
Uma vez que o restante do texto dedica-se apenas à análise de uma medida
que emerge da luta contra o racismo, silenciando-se quanto a medidas de combate
ao sexismo, torna-se evidente que o texto está voltado essencialmente para a questão
do combate ao racismo, sendo o propósito da estratégia mostrar que a discriminação racial é apenas mais uma entre outras discriminações que se deve combater.
Após esse reconhecimento do problema, o texto volta-se então para a apresentação do problema. Esta é feita sem dar o devido crédito a quem seria o autor/formulador da medida: “Sempre que se percebem distorções tão gritantes, a primeira
idéia que vem à cabeça é a criação de cotas para minorias, seja na universidade ou no
193
trabalho.” A política de cotas é apresentada assim como uma idéia que simplesmente
vem à mente. Nota-se aí mais um recurso lingüístico, qual seja, o de silenciar sobre
o contexto das políticas afirmativas, sobre quem as propõe, com que propósito e
com que finalidade. A política emerge assim como algo descontextualizado, que
surge do nada, de forma apressada, construção essa que vai facilitar a caracterização
da mesma como medida problemática, cerne do argumento que embasa o texto.
A tese da argumentação é a idéia de que a criação de cotas é problemática, do
que se pode depreender que é algo ruim e que deve ser evitado. A argumentação justifica-se em dois pilares (os dois argumentos), sendo um de ordem teórica e, outro, de
ordem prática. O primeiro aspecto remete a uma questão de justiça; ou seja, a medida
é problemática porque tenta reparar uma injustiça cometendo outra, o que “raramente
dá certo”. Um dos focos da argumentação é encerrado aí, não se alongando a discussão.
Resta implícita a discussão sobre a relevância político-jurídica das cotas, em especial o
debate sobre a pertinência de direitos para minorias frente a direitos universais.
O uso da expressão ‘manobra’ faz lembrar outros termos assemelhados, freqüentemente utilizados nesse discurso, tais como ‘expediente’, ‘artifício’, ‘invenção’,
o que ajuda a caracterizar a medida como fruto de uma estratégia política ardilosa,
descaracterizando-a como política pública relevante.
O segundo aspecto da argumentação diz respeito a questões de ordem prática.
O texto as apresenta como “sérias dificuldades práticas”. As dificuldades apresentadas derivam de uma mesma conjuntura: o que é ser negro no Brasil. Esse enfoque
discursivo é bastante recorrente no discurso da imprensa sobre as cotas, ou seja, a
mestiçagem figura como o grande distintivo étnico da sociedade brasileira. E, uma
vez que negros puros (negros mesmo, sem mistura) são bem poucos no conjunto da
população brasileira, não se justificaria, portanto, a adoção de uma política social.
Já na questão lançada – “como definir um negro no Brasil?” – há o implícito de
que não é fácil se saber quem é negro no Brasil. Ora, se se pergunta “como definir” é
porque a questão está sujeita a controvérsias, não sendo possível definir com segurança
quem efetivamente é negro(a) e portanto potencial candidato(a) à política.
Existe aí também uma referência implícita ao racismo à brasileira, pois a
dificuldade não é quanto a se definir um branco no Brasil. Com base nessa linha
de argumentação, pode-se notar o apagamento da identidade negra como uma realidade positiva. Se há dificuldade em se definir quem é negro, é porque assumir-se
como negro pressupõe uma escolha que tem seus próprios riscos, não sendo uma
questão pura e simples de livre manifestação.
194
A política adotada pelo IBGE, ao tempo que é elogiada, é também descartada
por uma suposta ineficácia em combater o oportunismo de alguns. Nessa linha de
argumentação, a identidade étnica de uma pessoa é coisa de somenos importância,
algo que pode ser alegado ao sabor dos contextos e que pode ser utilizado por pessoas
oportunistas para se beneficiar de determinadas políticas públicas. Implicitamente, o
texto promove o apagamento das identidades étnicas que compõem o povo brasileiro,
estratégia essa perfeitamente coerente com o senso comum de que ‘a fusão’ das ‘três
raças’ – a raça indígena, a raça branca e a raça negra – teria resultado no surgimento
do povo brasileiro; fusão que necessariamente fez com que ‘as três raças’ deixassem de
existir, restando apenas o povo brasileiro, como amálgama dessa mistura racial.
Por fim, a argumentação critica a política de cotas porque esta não faz referência ao grau ou tonalidade de negritude que seria preciso para que uma determinada pessoa fizesse jus ao benefício. Existe aí o implícito de que a identidade de
uma pessoa negra define-se pela precisão cromática.
O desenvolvimento da argumentação ao mesmo tempo que serve para desprestigiar a política de cotas deixa o povo negro sem opção. A auto-declaração
não serve porque dá margem à ação de oportunistas. Por sua vez, o alto grau de
mestiçagem na sociedade brasileira conduz à interpretação de que negros mesmos
existem bem poucos e quem mais pretender se assumir como tal correrá o risco
de ser acusado de estar fazendo assim tão somente como pretexto de figurar como
candidato potencial à política de cotas.
Na crítica a uma política pública para um segmento excluído, o texto acaba contribuindo para o reforço da baixa auto-estima imposta à comunidade negra, negandolhe assim um direito fundamental qual seja, o da afirmação da própria identidade.
Estruturas argumentativas e estratégias discursivas
Neste artigo, examinamos como estruturas argumentativas aliadas a outras
estratégias discursivas cooperam para a fixação de sentidos específicos. Agrupamos,
assim, por núcleo de estratégia discursiva, a intervenção no discurso de algumas
dessas estruturas. Vale dizer que os argumentos não se acham restritos a núcleos
estanques, podendo compartilhar nuanças de um ou outro núcleo estratégico. Examinamos a seguir cinco desses núcleos:
Concessão aparente: Por esse tipo de estratégia, a argumentação admite
a existência de circunstâncias, situações e aspectos da realidade desfavoráveis aos
negros como indivíduos e à comunidade negra. Assim, o argumento reconhece a
195
presença baixa ou quase nula de negros nas universidades brasileiras e/ou outras
manifestações de racismo na sociedade, chegando, até mesmo, à defesa de políticas
de promoção do ingresso de negros na universidade sem, no entanto, admitir a legitimidade das cotas como um instrumento dessa política. Ao contrário, apesar da
concessão inicial, a política de cotas é rejeitada. É um caso bem típico dos editoriais,
mas que ocorre também em outros gêneros.
O racismo é, sem dúvida, uma das graves mazelas que atingem o mundo. E
o ‘racismo cordial’ brasileiro não é uma exceção. [...] É mais do que louvável,
portanto, o desejo do PT de instituir mecanismos efetivos de combate ao racismo. Mas a proposta de criar cotas para estudantes negros nas universidades
públicas, em que pese sua justeza, apresenta tantas dificuldades conceituais e
práticas que o bom senso recomendaria reconsiderá-la. No plano operacional,
as cotas esbarrariam na definição de quem é negro. [...] (Folha de S. Paulo,
editorial, 11/11/02).
No texto, o racismo é chamado de “grave mazela”; a situação brasileira é
posta sob a mesma rubrica. As aspas sobre a expressão “racismo cordial” mostram o
distanciamento do editorialista em relação a essa perspectiva, não reconhecida, portanto, como uma interpretação plausível da realidade do país. Aqui, alude-se a uma
perspectiva – muito em voga em meados do século XX, mas que até hoje, como se
vê, tem seus seguidores – que reivindica para o caso brasileiro uma tipicidade única.
Haveria sim racismo no Brasil, mas esse seria cordial, mais dócil, humano, menos
cruel do que os registrados em outros países. Ao rejeitar a perspectiva, portanto, o
autor credencia-se para emitir sua opinião de que as cotas não se aplicam à realidade brasileira, e isso, em razão de “tantas dificuldades conceituais e práticas”:
A proposta de vagas seletas para negros, muito mais que esbarrar em problemas operacionais sobre a definição do que é ser negro, esbarra em equívocos
teóricos [...] Simpatizo com a causa dos negros, mas não será dando vagas
que resolveremos esse problema. Teríamos de dar condições para os negros
aumentarem seu poder de competição. Por que vamos tentar evitar uma discriminação acarretando outra, uma vez que muitos pobres de quaisquer raças também não conseguem chegar à universidade? (Folha de S. Paulo, carta
ao(à) editor(a) de Gilson Luiz Volpato, professor universitário, de Botucatu,
SP, 12/11/02)
Nesse exemplo, a crítica à política de cotas é precedida pela confissão de
simpatia à “causa dos negros”, seja lá o que isso possa significar para o leitor. Mais
uma vez, a opinião emitida pelo autor intervém no sentido de resguardar sua ima-
196
gem. O autor propõe “dar condições” aos negros para aumentarem o “poder de
competição”. Rejeita, porém, as cotas, porque estas, segundo ele, acarretariam outra
discriminação:
Estou sintonizado com a política de governo de que é preciso mudar a cor da
pele das pessoas que estão na universidade para mudar a cor da elite brasileira.
Mas percebi, nesses últimos anos, que muitos líderes de movimentos negros
são contra as cotas, porque consideram isso uma forma de discriminar. (Folha
de S. Paulo, entrevista dada pelo então futuro ministro da Educação Cristovam Buarque, a Antônio Gois, 30/12/02).
No caso precedente, o ministro indicado parece equilibrar-se entre a reivindicação do movimento negro, aliada a uma promessa de campanha do presidente
eleito, e suas próprias convicções, apresentadas sob o disfarce da percepção de que
“muitos líderes de movimentos negros”, segundo afirma, seriam contrários às cotas.
Além do simplismo evidenciado na concepção de que o problema em exame estaria
na cor da pele dos universitários, a argumentação ocorre aqui mais a título de justificar a não adesão de quem argumenta sobre uma política de viés racial do que a
propósito de avaliar criticamente a medida.
Em síntese, a concessão é dita aparente porque, de fato, o reconhecimento das
desigualdades de ordem racial e da necessidade de mudar a situação não conduz,
de modo concreto, à apresentação de uma proposta nessa direção. Quando muito, o
que se faz é propor uma medida de caráter universalista, ou seja, uma política que
abrange os negros dentro de um universo mais amplo, representado pelos pobres.
Na prática, tal postura não reconhece a necessidade de uma política de viés racial.
Tem-se, assim, um reconhecimento formal da situação de desigualdade, mas não
se avança além dessa linha divisória. O efeito último parece ser o de resguardar a
imagem de quem vai, por fim, condenar a política de cotas.
Manobra diversionista: Esse núcleo engloba argumentos e outros recursos
lingüísticos que ocorrem no texto a propósito de fugir do centro mesmo da discussão acerca do racismo à brasileira e sobre medidas para combatê-lo. Isso é feito até
mesmo quando se reconhece a existência de racismo ou a necessidade de se instituir
políticas de ação afirmativa. No entanto, a argumentação que se desenvolve prioriza
a apresentação e discussão de aspectos pouco relevantes no contexto. Assim, vai-se
tentar fornecer explicação para o problema da baixa presença de negros nas universidades ou sugerir intervenções em outras estruturas sociais para corrigir o problema. Ao final, toda a discussão desenvolvida passa longe do foco central da questão
que é o contexto do combate ao racismo:
197
O sistema de cotas segundo o critério étnico, para preenchimento de vagas
no ensino público e nas empresas, é insuficiente para resolver o problema das
desigualdades no Brasil, conforme reconhece o Ministério da Educação. [...]
Um sistema de cotas iguais para todo o Brasil vai se chocar, fatalmente, com
as diversidades regionais. [...] Como se vê, a raiz do problema é socioeconômica e não apenas racial. (A Tarde, editorial, 12/02/02)
Temos nesse trecho do editorial do jornal baiano a tese de que o sistema de
cotas “é insuficiente para resolver o problema das desigualdades no Brasil”. Há nessa
opinião o subentendido de que a proposta das cotas é a de resolver ‘desigualdades
no Brasil’, o que é algo, no mínimo, muito abrangente. Ao alegar a diversidade
regional do país – com populações nos Estados com composição racial específica
– tem-se o gancho para rejeitar as cotas como uma política séria, conseqüente e
adequada à realidade nacional.
Desse modo, o articulista prioriza aspectos pontuais que, conquanto tenham
seu valor no que se refere-se ao sucesso de implantação do sistema de cotas, não são
em si fatores impeditivos da medida, posto que, como qualquer política pública, as
cotas podem sofrer adaptações de acordo com a realidade de cada estado. Assim, o
foco da intervenção do jornal volta-se não para a questão central e sim para o que
é periférico na discussão do assunto.
O regime de cotas em função da cor da pele revela oportunismo ou ignorância de quem a apóia porque não existe ‘’raça’’ e nem a etimologia da palavra é
conhecida; [...] ( Jornal do Brasil, artigo, de autoria de José Carlos Azevedo,
apresentado como professor, 27/02/03).
Nesse exemplo, temos um caso flagrante de sofisma. Duas premissas aparentemente verdadeiras levariam à conclusão de que as cotas não fazem sentido. A
primeira premissa fixa a idéia de que o regime de cotas está ligado à cor da pele ou
à raça em última instância. A segunda premissa alude à inexistência de ‘raça’ como
conceito, mostrando que até mesmo a origem do termo é desconhecida. Daí para
chegar à mesma conclusão do articulista é só um passo: ou há oportunismo ou há
ignorância no movimento de defesa das cotas.
Consideremos agora as premissas utilizadas. A primeira premissa está correta
ao afirmar que as cotas em discussão estão vinculadas à questão racial. Mas se ela diz
uma verdade, ela não expõe toda a verdade nesse particular. O autor simplesmente
não menciona nem aí, nem no restante do texto que é o vínculo entre raça negra e
a realidade da escravidão que dá origem às políticas de ação afirmativa – leiam-se
‘cotas’. Temos portanto uma verdade parcial nessa primeira premissa.
198
Já a segunda é inverídica, simplesmente não se sustenta. Do fato de que a
ciência não reconheça distinções de ordem racial entre os seres humanos, não se
pode depreender que o conceito de raça seja uma ficção, sem qualquer influência na forma como as pessoas e as sociedades vêem-se a si mesmas e às outras.
Pelo contrário, são pesquisas científicas que comprovam a realidade do racismo
em diversos lugares do mundo, fruto da valorização e da promoção de visões e
concepções de mundo baseadas em critérios de raça. Em suma, o racismo é um
fenômeno concreto, sujeito à investigação científica. É também uma realidade
histórica, injusta e passível de ser transformada. A ação afirmativa aponta nessa
direção.
Já se fez a sugestão de cotas para os negros, que estão entre os mais seriamente discriminados pela porta estreita. Mas esse artifício não resolve
os problemas educacionais que indiquei, produzidos pelos vestibulares. E
é provável que crie uma séria conseqüência social: será impossível evitar
que os “brancos” que “quase entraram” desenvolvam um sentimento de raiva
contra “os negros que entraram por favor”, culpados de eles terem ficado de
fora (Folha de S. Paulo, coluna de Rubem Alves, apresentado como psicanalista e educador, 28/10/03).
Nesse outro exemplo, o renomado educador Rubem Alves – em cuja coluna
a educação e outras questões sociais são temas recorrentes – trata da questão do
acesso à universidade sob o título “A utopia do fim do vestibular”. O trecho explorado aqui encerra o texto. Afora a alusão indeterminada aos proponentes da política
de cotas e a metáfora e metonímia na expressão ‘discriminados pela porta estreita’
que esvazia o fenômeno da discriminação racial, a argumentação desenvolvida aqui
constrói a idéia de que a medida não é uma boa.
Primeiro, porque “não resolve os problemas educacionais”. Segundo, porque provavelmente criaria ‘uma séria conseqüência social’ que, na verdade, vem
a ser o desenvolvimento de um sentimento de raiva contra os negros por parte
de alunos brancos que tenham perdido a vaga no curso superior em razão da
política de cotas.
O diversionismo aqui também atua em parceria com o simplismo. O colunista resume toda a complexidade da realidade do racismo e de políticas de combate ao mesmo a uma simples questão de mudança no vestibular e ao seu possível
impacto sobre alunos não negros. Enquanto isso, a discussão que, de fato, importa
passa ao largo das prioridades de uma prestigiosa coluna semanal de um dos mais
influentes jornais do país.
199
Efeito contrário: Por essa perspectiva, apela-se a temores subjacentes no inconsciente coletivo, mostrando a política de cotas como uma ameaça, para, dessa forma, argumentar que ela é um complicador a mais na conjuntura do ensino superior ou
mesmo das relações raciais. Trabalha-se, portanto, com idéias opostas, mostrando que
o efeito da política de cotas poderá ser o oposto do pretendido, algo semelhante aos
ditos populares “o feitiço voltou-se contra o feiticeiro” e “o tiro saiu pela culatra”. Por
esse prisma, a idéia de que as cotas podem fazer crescer o racismo no Brasil ou exacerbar as tensões raciais na sociedade brasileira é uma das mais recorrentes no discurso. É
evidente que tal linha de argumentação contribui, a seu modo, para minar um propósito fundamental da política de cotas, que é, justamente, o combate ao racismo:
A maioria dos negros não entram nas universidades não porque são negros,
e sim porque são pobres e não têm condições para um estudo mais forte. É
nisso que o governo deve se concentrar: em oferecer a todos os pobres (de
qualquer cor de pele) as condições de estudo para que ingressem em um curso
universitário. O racismo é muito pequeno no Brasil e tende a desaparecer,
por favor não o instiguem. Abaixo a pobreza. (Folha de S. Paulo, carta ao(à)
editor(a) de Mário Nogueira Neto, de Ponta Grossa, PR, 05/11/02)
O trecho publicado da carta sequer menciona as cotas, mas as referências são
inequívocas. À opinião contrária à política – que está subentendida – junta-se o argumento de que a saída para a exclusão dos negros das universidades não passa por
esse tipo de intervenção e sim por uma perspectiva de universalização de um ensino
público de qualidade. Como reforço, vem outro argumento: o de que a instituição da
política de cotas tende a fazer aumentar o racismo ‘muito pequeno’ existente no país.
Descontada a avaliação superficial de que o racismo no Brasil é de pouca monta, a
argumentação engendra um apelo para que os defensores das cotas para negros não
insistam nesse movimento já que isso poderá suscitar ainda mais racismo, justamente
o que pretende evitar com esse tipo de política. Ora, para os desavisados, a sugestão
pode surtir o efeito de reprimir o esforço e a motivação já que engendra uma situação
impossível de se confirmar uma vez que não passa de pura especulação.
À luz da experiência americana, não é difícil prever que os programas de ação
afirmativa ora implementados irão intensificar, mais do que erodir, sentimentos racistas nos brasileiros. O enfrentamento do problema da desigualdade
racial e social brasileira certamente requer muito mais criatividade de nossos
líderes, atributo, aliás, que é considerado característico do povo brasileiro e
motivo de orgulho nacional ( Jornal do Brasil, artigo de autoria de Leone
Campos de Souza, apresentada como socióloga, 06/04/03).
200
O artigo como um todo separa como bem distintas a situação dos negros
e da ação afirmativa nos EUA e a situação no Brasil, mostrando que a política de
cotas não cabe na realidade brasileira. Enquanto no país do norte surge no bojo do
movimento pelos direitos civis, no Brasil a política estaria sendo implantada como
benesse do estado, sem a legitimidade de uma demanda reivindicada por um movimento negro forte, que a articulista julga inexistente.
Deixando de lado o restante do artigo, concentremo-nos no excerto selecionado.
A comparação entre os dois países se não serve para apontar um diagnóstico semelhante da discriminação sofrida pelos afro-descendentes, muito menos para a defesa
de uma solução como as cotas nas universidades, serve, porém, para estabelecer um
mal ajambrado paralelo entre a oposição à medida lá e cá. O argumento firma a idéia
de que as cotas têm tudo para fazer crescer sentimentos racistas no povo brasileiro,
como supostamente teria acontecido entre os norte-americanos. Daí porque a política
não deve ser adotada, pois o risco provável é de que vá surtir efeito contrário.
Antecipação de eventos: Esse núcleo de argumentos guarda uma certa semelhança com o tipo anterior. Por essa perspectiva, a argumentação construída realça
a política de cotas como algo negativo, um fator desestabilizador na conjuntura
nacional. Sua implantação pode suscitar prejuízos à realidade social, incluindo até
mesmo a complicação das relações raciais. Tratando-se de uma expectativa a médio
e longo prazo, quem argumenta se exime da responsabilidade de ter que apresentar
prova ou sustentação à previsão que faz.
Enquanto não houver uma aceitação da idéia, a gente não pode impor algo
que poderia ter um efeito de polarizar um conflito de raças (Folha de S. Paulo,
entrevista dada pelo então futuro ministro da Educação Cristovam Buarque,
a Antônio Gois, 30/12/02).
Nesse exemplo, à opinião de que as cotas não podem ser implantadas como
política de Estado, junta-se o argumento de que um possível efeito negativo seria
suscitado com as cotas, sem que para tanto seja apresentada qualquer justificativa.
A argumentação do ministro possibilita-lhe uma imagem de autoridade sensata,
equilibrada, preocupada com os rumos das relações raciais no Brasil. Mas, ao mesmo tempo deixa entrever que o racismo é algo subjacente no dia-a-dia da sociedade
brasileira, algo represado, adormecido, passível de ser despertado com uma até certo
ponto limitada política de ação afirmativa. Se é assim, onde o professor Cristovam
vê a sombra de uma ameaça que paira sobre a sociedade brasileira, as pessoas engajadas na luta contra o racismo vêem uma oportunidade de trazer para o dia-a-dia
da opinião pública o debate sobre as relações raciais no Brasil.
201
A estratégia de incluir pobres e negros nas universidades à força não vai eliminar as deficiências culturais que tais alunos acumularam em suas vidas. O
resultado provável será o aumento da evasão nas universidades (Folha de S.
Paulo, editorial, 21/02/03).
Nesse exemplo, a política de ação afirmativa é apresentada de forma pejorativa como “estratégia de incluir pobres e negros nas universidades à força”. Já nessa
opinião, tem-se um estupendo ataque à medida. Mas, o ataque não pára aí. A argumentação prossegue. Há um pressuposto de que as cotas vêm para corrigir supostas
deficiências culturais que atingiriam alunos ‘pobres e negros’ na negação que é feita.
O argumento final é que as cotas acarretarão o ‘aumento da evasão’. Tudo isso, sem
que o editorialista fundamente sua opinião com dados de pesquisa ou projeções de
alguma fonte institucional.
Comparação: Por esse tipo de estratégia, o caso brasileiro é comparado com
o exemplo dos Estados Unidos. Além do pressuposto de que a discriminação contra negros no Brasil não é odiosa como a existente nos EUA, em alguns exemplos,
os adversários das cotas exploram, de forma parcial, o fato de as políticas de ação
afirmativa estarem sofrendo contestação naquele país como um meio de se alertar a
opinião pública, defendendo que não se pode adotar no Brasil um tipo de política
que supostamente não teria dado certo entre os americanos. Nesse caso, a contestação ou resistência à ação afirmativa da parte de setores da sociedade americana,
e mesmo a persistência do racismo na sociedade americana, são mostradas como
sintomas da ineficiência desse tipo de política pública:
Lamento que, no Brasil, tenhamos nos encaminhado no sentido de imitar os
Estados Unidos na questão das cotas “raciais”, quando eles já reconheceram os
resultados discutíveis dessas iniciativas, as quais, além do mais, não levam em
consideração as diferenças entre a realidade americana e a brasileira (Folha de
S. Paulo, artigo de autoria de Eunice R. Durham, apresentada como pesquisadora sênior do Nupes – Núcleo de Pesquisa sobre Ensino Superior da USP, e
membro do Conselho Nacional de Educação entre 1997 e 2001, 23/05/02).
A articulista, nesse exemplo, dá como certo o que seria no mínimo algo
controverso, ou seja, a idéia de que “eles já reconheceram os resultados discutíveis
dessas iniciativas”. Ora, o que tem crescido nos EUA é um movimento forte de
contestação sobretudo da parte de setores conservadores da sociedade americana.
Não consta que lideranças negras de peso recomendem a suspensão das políticas de
ação afirmativa. O fato de existir ainda um fosso considerável entre as comunidades
negra e não-negra nos EUA não indicaria ineficácia das políticas, quando muito a
202
insuficiência delas para dar conta de uma realidade tão dramática. A rigor, não há
alternativa para a ação afirmativa. Sendo assim, todo o processo de discussão sobre
o tema na sociedade americana deveria servir à experiência brasileira como meio de
aperfeiçoar a política, nunca como desestímulo, como sugere o texto.
A experiência dos Estados Unidos evidencia a falácia do argumento de que o
crescimento do número de “afro-descendentes” diplomados confere poder aos
negros. Lá, as cotas para negros nas universidades convivem harmoniosamente
com as “cotas” que os tribunais reservam para os negros pobres nas prisões e no
corredor da morte. [...] As cotas constituem um elemento das políticas compensatórias e, por isso mesmo, são consistentes com a manutenção ou o aprofundamento das desigualdades de renda. (Folha de S. Paulo, artigo, de autoria de
Demétrio Magnoli, apresentado como doutor em geografia humana pela USP e
como editor do jornal Mundo – Geografia e Política internacional, 29/07/03)
Nesse outro exemplo, a argumentação desenvolvida firma o pressuposto das
cotas para negros como panacéia, ou seja, política que tem por foco combater o
racismo em todas as suas manifestações. Ora, tal pretensão não se sustenta, nem
poderia. A ação afirmativa tem propósitos específicos, limites e alcances estritos.
Em geral, tem sido aplicada no mundo do trabalho e no sistema educacional. Mas
o racismo é realidade mais grave e profunda. Sua eliminação envolveria o compromisso de todos os segmentos da sociedade e não apenas ações governamentais. O
autor utiliza o pressuposto como forma de enfraquecer a relevância específica que a
ação afirmativa tem como medida reparatória e compensatória.
Como contraponto a essa visão pessimista do articulista, pode-se argumentar que longe de se extinguir a ação afirmativa na sociedade, esse tipo de política
deve ser radicalizada. A própria situação citada no texto – a super-representação de
negros entre a população carcerária americana – é um fato a ser examinado, mas
trata-se, vale ressaltar, de mais uma evidência do racismo na sociedade, não de um
efeito colateral da política.
Conclusão
Em um discurso que se volta para o exame de uma política social passível de
controvérsia, nota-se um esforço – e um certo desconforto – sobretudo da parte de
quem rejeita a ação afirmativa em ter que criticar, rejeitar e mesmo assumir-se contrário a essa demanda. Tal fato deixa entrever os melindres que o tema das relações raciais
suscita na opinião pública brasileira. Como combater as cotas sem parecer racista ou
203
insensível à sorte de milhões de pessoas em desvantagem na população brasileira? A
argumentação desenvolvida vai explicitar parte desse esforço. Os argumentos e todos
os recursos lingüísticos que são entretecidos a sua volta são indícios de um mal-estar.
O Brasil já está passando da hora de reconhecer e enfrentar as desigualdades raciais,
desistindo assim de vez de pleitear uma suposta harmonia entre negros e brancos.
O processo social e político que faz das relações raciais e do racismo temas
tabu na sociedade brasileira instaura e faz circular no discurso da imprensa a preocupação quanto a ser acusado de racista, o medo de parecer indiferente à sorte de
milhões de brasileiros em situação de carência, excluídos do usufruto de bens simbólicos. De sua parte, os que se levantam contra o racismo enfrentam um problema
prático, o tema simplesmente ainda não goza de um reconhecimento público geral,
evidenciado no fato de que não é priorizado como um problema grave, cujo combate requer políticas públicas específicas.
A imprensa – por suas características peculiares de instituição social forçada a veicular as muitas vozes da esfera pública – emerge como um espaço privilegiado de formulação e fixação de sentidos e de disputa do consenso em torno do
assunto. O discurso da imprensa sobre as cotas explicita tanto uma oportunidade
de construção quanto de combate a essa legitimidade. Assim, se o processo de
implantação da política de cotas é ocasião para se enfrentar concretamente efeitos
perversos do racismo, a discussão do tema na esfera pública traz a lume o racismo
subjacente nos sujeitos e nas práticas sociais. Sem dúvida, não é simples pautar o
assunto tanto na imprensa, como na esfera pública em sentido mais amplo. Nesse
sentido e malgrado o conjunto das manifestações de agressividade e discriminação
veiculadas nos textos da imprensa, implícita e explicitamente, há um lucro na discussão das cotas – a evidência de que o assunto incomoda e se incomoda é porque
há feridas não cicatrizadas.
A argumentação é assim um dos instrumentos nesse processo discursivo, um
dos mais fortes recursos lingüísticos em que se pode notar o esforço dos participantes
em atacar a legitimidade da política de cotas. Os argumentos erigidos e combinados
com outros recursos da linguagem interferem na construção de perspectivas sobre as
relações raciais e o racismo no Brasil. A identificação e a discussão das estratégias
discursivas veiculadas nesse discurso devem ser usadas pelas pessoas e instituições que
combatem o racismo para desconstruir o discurso de desqualificação das cotas como
política pública ao tempo que devem fortalecer o processo de construção ou de reforço de novos sentidos que valorizem a luta dos negros pela igualdade racial.
204
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206
Parte III
Para Além das
Cotas
Educação e Políticas
Públicas Afirmativas:
elementos da agenda
do Ministério da
Educação
Ricardo Henriques
Eliane Cavalleiro
N
a última década, o debate sobre a dinâmica das relações raciais na sociedade brasileira e as ações afirmativas tem ampliado o seu espaço na
esfera pública. O momento atual mostra-se promissor para redimensionar as ações voltadas à superação das desigualdades entre negros e
brancos e potencializar um comprometimento manifesto do Estado brasileiro, que é
signatário, desde 1968, de vários tratados e convenções internacionais que objetivam
a eliminação da discriminação racial.
A vasta evidência empírica dos indicadores sociais brasileiros explicita
a não-realização da igualdade entre os grupos raciais – especialmente entre os
grupos populacionais brancos e negros. A dinâmica brasileira das relações raciais materializa, em toda a sociedade, uma lógica de segregação amparada em
Os Tratados de Direitos Humanos garantem direitos aos indivíduos; estabelecem as obrigações do Estado
em relação aos direitos; criam mecanismos para monitorar a observância dos Estados em relação às suas
obrigações e permitem que os indivíduos busquem compensações pela violação dos seus direitos. O Brasil é
signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Convenção da ONU sobre a Eliminação de Todas
as Formas de Discriminação Racial (1968), Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1966), Convenção III da OIT sobre Discriminação no Emprego e na Profissão (1968) e, mais recentemente, da Carta
da III Conferência Mundial Contra o Racismo, a Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas
(2001).
Consultar dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento (PNUD) e do instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira (Inep/ MEC).
Este texto enfoca a desigualdade étnico-racial a partir do recorte específico da população afro-descendente.
preconceitos e estereótipos raciais disseminados e fortalecidos pelas mais diversas instituições sociais, entre elas: a escola, a Igreja, os meios de comunicação e
a família, em especial.
Esse quadro vai além da violação individual. Em termos coletivos, remete ao
cotidiano da população negra, no qual a cor acaba por explicar parte significativa
das desigualdades encontradas nos níveis de renda, educação, saúde, moradia, trabalho, lazer, violência, entre outros. As desigualdades raciais podem ser facilmente
percebidas nos indicadores sociais referentes aos mais variados vetores.
As mudanças sociais assistidas no Brasil no decorrer do século XX não correspondem à trajetória da população negra nesse mesmo período. Os indicadores
relativos a esse grupo humano permanecem pouco alterados, sendo mantido um
quadro de condição social aviltante e degradante associado ao racismo.
Os indicadores educacionais, em particular, expõem com nitidez a intensidade e o caráter estrutural do padrão de discriminação racial no Brasil. Ao longo do
século XX observa-se um contínuo aumento dos níveis de escolaridade média de
todos(as) brasileiros(as), no entanto a diferença de escolaridade média entre brancos
e negros mantém-se perversamente estável entre as gerações.
Como nos indica Stuart Hall (2003:13), nossa identidade é “formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou
interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam”. Nesse sentido, diante da importância da educação na constituição da subjetividade e da identidade individual
torna-se evidente o elevado ônus para a população negra e para a sociedade como
um todo decorrente da intensidade e da estabilidade do padrão de desigualdade
racial na educação.
Quanto ao tema violência perpetuada pelo Estado contra a população negra – na forma do racismo institucionalizado –, observa-se que a natureza dessa violação é individual, social e política. Dados estatísticos
constantes no relatório sobre violência apresentados pela ONU indicam que jovens negros entre 14 e 21
anos são as vítimas preferenciais da violência da policial. Como consta nesse relatório, o aparato repressivo do Estado incide sobre a expectativa de vida e as perspectivas da população negra brasileira, pois esta
não encontra respaldo nas diversas esferas: legislativa, executiva e judiciária. Nos casos específicos, a
atuação do Estado tem sido inócua até a presente data no que tange ao extermínio, às torturas, detenções
arbitrárias, entre outras.
Entre outros, ver: Nós mulheres negras – diagnóstico e propostas da Articulação de ONGs de Mulheres
Negras Brasileiras Rumo à III Conferência Mundial Contra o Racismo. Brasil: 2001; Dossiê Assimetrias
Raciais no Brasil: alerta para a elaboração de políticas. São Paulo: rede Feminista de Saúde, 2003.
De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios a escolaridade média de um
jovem negro com 25 anos de idade gira em torno de 6,1 anos de estudo; um jovem branco da mesma
idade tem cerca de 8,4 anos de estudo. O diferencial é de 2,3 anos. Apesar da escolaridade de brancos
e negros crescer de forma contínua ao longo do século, a diferença de 2,3 anos de estudo entre jovens
brancos e negros de 25 anos de idade é a mesma observada entre os pais desses jovens. E, de forma
assustadoramente natural, 2,3 anos de estudo é a diferença entre os avós desses jovens. Para mais detalhes sobres as desigualdades raciais em termos educacionais e sociais, ver Henriques (2001).
210
O enfrentamento da desigualdade racial brasileira solicita uma política pública afirmativa que enfrente o desafio de integrar as perspectivas “universalista” e
“diferencialista” na construção de uma política educacional anti-racista orientada
pelos valores da diversidade e o direito à diferença.
Políticas Públicas Afirmativas: obstáculos para
implementação
Quando pensamos em fatores que podem dificultar – e até mesmo impedir – a
implementação de um conjunto de políticas públicas afirmativas em prol do combate
ao racismo e da promoção da população negra nos sistemas de ensino, duas formas de
racismo devem ser necessariamente consideradas: o racismo institucional e o racismo
individual, presentes nas instituições e nos profissionais do sistema de ensino.
O primeiro tipo de racismo está ligado à estrutura da sociedade e não aos
seus indivíduos isoladamente. O racismo institucional engendra um conjunto de
arranjos institucionais que restringem a participação de um determinado grupo racial, forjando uma conduta rígida frente às populações discriminadas. No caso das
políticas educacionais, nota-se uma fixidez de comportamento negativo frente a
propostas de implementação de políticas de ação afirmativa.
Quando conjugamos as duas formas de racismo, há de se considerar que a
implementação das políticas públicas pode enfrentar ações contrárias, na medida
em que muitos profissionais da educação – brancos e também negros – não percebem as ações afirmativas como um elemento imperativo para a igualdade de resultados entre brancos e negros no sistema de ensino. Perpassa ainda a idéia de que as
políticas públicas afirmativas correspondem a um privilégio dado à população negra,
e que desconsideram as desigualdades sociais como o elemento potencializador das
disparidades vividas pelos grupos branco e negro.
Na sociedade brasileira, em que predominam uma visão negativamente, preconceituosa e historicamente construída a respeito do negro e, em contrapartida,
uma identificação positiva do branco, a identidade estruturada durante o processo
de socialização tem por base a precariedade de modelos satisfatórios e a abundância
de estereótipos negativos sobre negros.
Nesse sentido, há outro aspecto de fundamental importância que figura como
obstáculo para a efetividade da política: o eixo da gestão educacional. No planeja Para compreender a diferenciação entre Racismo Individual e Institucional, sugerimos ver Pettigrew
(1982).
211
mento da gestão escolar é que são definidos os recursos destinados à formação continuada de professores, à elaboração e à distribuição de materiais didáticos e paradidáticos; as prioridades e as temáticas a serem abordadas no decorrer de sua gestão.
Para que a temática étnico-racial seja contemplada, identifica-se a necessidade de
um corpo técnico com conhecimento e experiência no trato dessa temática, pois o
desconhecimento e, sobretudo, as idéias atreladas às ideologias racistas, impedem a
elaboração de uma agenda de políticas educacionais afirmativas para o respeito e a
valorização da diversidade étnico-racial.
Políticas Públicas Afirmativas e os Sistemas de Ensino
A educação como um direito de todo cidadão brasileiro, independentemente
de seu pertencimento racial, é destacada pela Constituição Federal. Em seu artigo
205, assevera-se que: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família,
será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno
desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
Em seu artigo 206, ratificam-se princípios de igualdade e de padrão
de qualidade:
O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: igualdade de condições para o acesso e a permanência na escola; liberdade de aprender, ensinar,
pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; pluralismo de idéias e de
concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino, gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; gestão democrática do ensino público na forma da lei; garantia de padrão de qualidade.
Esses princípios estabelecem um marco referencial para que os sistemas de ensino tenham a possibilidade de assegurar, em conformidade com os componentes estruturais da agenda estratégica da UNESCO, uma educação de qualidade para todos.
A Constituição, em conformidade com os princípios de eqüidade e justiça
para a educação, refere-se ainda à necessidade de garantia e valorização da diversidade cultural presente na sociedade, no artigo 210: “Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica e respeito
aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais”.
Por sua vez, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), instituída em 1996, representa o principal elemento qualitativo da transição institu-
212
cional da educação brasileira e permitiu a redefinição de papéis e responsabilidades
dos sistemas de ensino, concedendo maior autonomia à escola, flexibilizando os
conteúdos curriculares e estimulando a qualificação do magistério.
A história recente do Ministério da Educação caminha no sentido de seguir estes vários princípios. O MEC na década de 1990 incorporou, ainda que de
maneira incipiente, a temática étnico-racial nos Parâmetros Curriculares Nacionais
(PCNs), mais especificamente no tema transversal Pluralidade Cultural. Os PCNs
representaram à época uma tentativa de evidenciar as diferenças culturais e raciais,
com a perspectiva de integrá-las ao currículo, dialogando com as antigas reivindicações dos movimentos negros. Sobre esse documento, Souza afirma:
Há nesse documento uma vasta discussão teórica, mas por vezes fica-me a
impressão de bricolagem, caleidoscópio [...]. O teor do documento soa-me
muito mais como discurso ideológico, lacunar, do que efetivamente uma proposta curricular. Deve-se salientar, entretanto, que o fato de a questão estar
posta em um documento pedagógico nacional, mesmo que precariamente,
significa um grande avanço, pois só é possível pensar sobre o que está materializado (SOUZA, 2001: 54, 55 e 58).
O Programa Nacional dos Direitos Humanos (PNDH), por sua vez, sinaliza
um diálogo inicial sobre políticas públicas afirmativas no âmbito da Educação. Na
seção sobre educação, propõe:
[...] desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta [...] formular
políticas compensatórias que promovam social e economicamente a comunidade negra [...] e apoiar as ações da iniciativa privada que realizem discriminação positiva. (BRASIL, 1996, p. 30)
Em 1999, o MEC, respondendo à reivindicação dos movimentos sociais negros e a críticas severas de pesquisadores negros, publica um livro sobre a temática
étnico-racial, Superando o racismo na escola.
Essa obra, em seus artigos, evidencia a ausência de materiais didático pedagógicos voltados para a temática em questão, bem como a diferença abismal entre
negros e brancos nos sistemas de ensino.
Como resposta ao processo de organização e de realização da III Conferência
Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas
Esse livro, coordenado pelo professor Kabengele Munanga, foi reeditado pelo MEC em 2005.
213
de Intolerância (2001), cuja pauta explicitava a necessidade de implementação de
políticas de ações afirmativas e destacava a educação como chave para a ruptura do
racismo estrutural brasileiro, o MEC – por meio de um contrato de empréstimo
entre o Governo Federal e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)
– realizou, em 2002, uma experiência-piloto sob o título Projeto Diversidade na
Universidade – Acesso à Universidade de Grupos Socialmente Desfavorecidos.
Em novembro de 2002, a Lei no 10.558 oficializou a criação do Programa Diversidade na Universidade, no âmbito do Ministério da Educação, com a finalidade
de implementar e avaliar estratégias para a promoção do acesso ao ensino superior
de pessoas pertencentes a grupos socialmente desfavorecidos, especialmente a população negra e indígena. Dentro do escopo do programa, definiu-se como principal
ação o apoio financeiro às instituições que organizavam cursos preparatórios para o
vestibular, delineados como Projetos Inovadores de Curso (PICs), com o objetivo
geral de apoiar a promoção da eqüidade e da diversidade na educação superior. No
ano de sua implantação os PICs beneficiaram aproximadamente 900 jovens.
A partir de 2003, sob orientação do governo Lula e em um novo quadro
institucional, as políticas educacionais para a diversidade étnico racial passaram por
uma nova inflexão. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional foi alterada,
a partir da promulgação, em 9 de janeiro de 2003, da Lei Federal no 10.639/03, que
torna obrigatório, no currículo oficial da Rede de Ensino, o ensino de História e
Cultura Afro-Brasileiras10.
Com a promulgação dessa Lei, o Estado brasileiro contempla diretamente uma
solicitação presente no Plano de Ação de Durban, expressamente no que diz respeito
É importante destacar que no Brasil o movimento para a adoção de políticas de ações afirmativas ganhou
consistência e visibilidade após a participação na III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada em Durban, África do Sul, de 31 de agosto
a 7 de setembro de 2001. Com o advento dessa conferência, deflagrou-se um acalorado debate público
em âmbito nacional, envolvendo tanto órgãos governamentais quanto não-governamentais interessados em
radiografar e elaborar propostas de superação dos problemas oriundos do racismo e de seus derivados. O
então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, estabeleceu um Comitê Nacional, composto
paritariamente por representantes de órgãos do governo e da sociedade civil organizada. Entidades dos
Movimentos Negro, Indígena, de Mulheres, de Homossexuais, de Defesa da Liberdade Religiosa também
se mobilizaram intensamente nesse diálogo com o governo. Com o término da Conferência, diante da Declaração e do Programa de Ação, a sociedade civil organizada passou a monitorar e exigir que as medidas
reparatórias fossem implementadas.
10 O art. 26-A dispõe: “Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se
obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. § 1o O conteúdo programático a que se refere
o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a
cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo
negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. § 2o Os conteúdos referentes
à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial
nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras (incluído pela Lei no 10.639, de
9.1.2003). Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’”. Vide também o livro Educação Anti-Racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº. 10.639/03.
Coleção Educação para Todos. MEC, Brasília, 2005.
214
ao caráter imperioso de os Estados promoverem a plena e exata inclusão da história e
da contribuição dos africanos e afro-descendentes no currículo educacional11.
Ao encontro da alteração sofrida pela LDB, o Conselho Nacional de Educação elaborou parecer com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das
Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras e
Africanas12, regulamentando, portanto, a referida alteração.
Esse documento constitui uma linha divisória na política educacional brasileira, visto que, pela primeira vez, há o tratamento explícito da dinâmica das relações raciais nos sistemas de ensino, bem como sobre a inserção no currículo escolar
da história e cultura afro-brasileiras e africanas. O texto do documento salienta:
O parecer procura oferecer uma resposta, entre outras, na área da educação, à
demanda da população afro-descendente, no sentido de políticas de ações afirmativas, isto é, de políticas de reparações, e de reconhecimento e valorização de
sua história, cultura e identidade. Trata, ele, de política curricular, fundada em
dimensões históricas, sociais, antropológicas oriundas da realidade brasileira, e
busca combater o racismo e as discriminações que atingem particularmente os
negros. Nesta perspectiva, propõe a divulgação e produção de conhecimentos,
a formação de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos orgulhosos
de seu pertencimento étnico-racial –descendentes de africanos, povos indígenas, descendentes de europeus, de asiáticos – para interagirem na construção
de uma nação democrática, em que todos, igualmente, tenham seus direitos
garantidos e sua identidade valorizada (BRASI, 2004: 10).
Em fevereiro de 2004, o Ministério da Educação sob orientação do
ministro Tarso Genro, na perspectiva de estabelecer uma arquitetura institucional capaz de enfrentar as múltiplas dimensões da desigualdade educacional do país, instituiu uma nova secretaria: a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad). A Secad surge com o desafio de
desenvolver e implementar políticas de inclusão educacional, considerando
as especificidades das desigualdades brasileiras e assegurando o respeito e
11 É importante destacar a mudança estratégica definida pelo presidente Lula na coordenação da política
de igualdade racial. Em agosto de 2003, o presidente Lula criou a Secretaria Especial de Promoção de
Políticas para a Igualdade Racial (Seppir) – uma reivindicação antiga do Movimento Negro. Para essa
Secretaria com status de Ministério, o presidente nomeou Matilde Ribeiro, uma intelectual negra, militante
e pesquisadora. A principal tarefa da Seppir diz respeito à implementação de uma política de promoção da
igualdade racial em território nacional, a partir da articulação política entre os demais ministérios, governos estaduais e municipais, bem como sociedade civil em geral. As áreas que mais têm recebido atenção
desta Secretaria são trabalho, saúde, educação e comunidades remanescentes de quilombos.
12 O Parecer CNE/CP 3/2004 foi aprovado pelo Conselho Nacional de Educação em 10 de março de 2004.
A partir dessas Diretrizes, o CNE aprovou a Resolução no 1, de 17 de junho de 2004, regulamentando a
temática nas diversas ações dos sistemas de ensino.
215
valorização dos múltiplos contornos de nossa diversidade étnico-racial, cultural, de gênero, social, ambiental e regional 13.
O MEC, por intermédio da Secad, estabelece a prioridade de construir arranjos institucionais que permitam promover a coordenação e articulação de esforços
entre Governos Estaduais e Municipais, ONGs, movimentos sociais e organismos
internacionais, para ampliar o acesso, garantir a permanência e contribuir para o
aprimoramento de práticas e valores democráticos nos sistemas de ensino.
No âmbito das desigualdades raciais, a Secad desenvolve ações com o objetivo
de elaborar e implementar políticas públicas educacionais em prol do acesso e da permanência de negros e negras na educação escolar em todos os níveis – da educação
infantil ao ensino superior –, considerando ainda as modalidades de educação de jovens e adultos e a educação em áreas remanescentes de Quilombos; e, paralelamente,
de possibilitar a toda sociedade reflexão e conhecimento consistente para que sejam
construídas relações baseadas no respeito e na valorização da diversidade brasileira.
A Secad procura desenvolver várias dimensões de uma política pedagógica da
diversidade e, em particular, tem estabelecido parcerias com os sistemas de ensino
para a implementação da Lei no 10.639/03. No que se refere à questão da diversidade étnico-racial, seus objetivos centrais são:
[...] combater as desigualdades raciais e étnicas de acesso e continuidade da
escolarização no sistema educacional em todos os níveis e modalidades de ensino; promover ações que ampliem o acesso ao sistema educacional dos diversos
grupos étnico-raciais; propor estratégias de implementação de políticas educacionais afirmativas para a execução de uma educação de valorização e respeito
à diversidade cultural e racial brasileira; contribuir para a ampliação do acesso e
da permanência no ensino superior, especialmente de populações afro-brasileiras e indígenas; elaborar Plano de Ação para a inserção da temática História e
Cultura Africana e Afro-Brasileira. (Art. 26 da Lei nº 9.394/96)
Nessa perspectiva, o MEC pretende implantar e dar continuidade a uma série de ações afirmativas, sobretudo as que se referem ao acesso e à permanência dos
estudantes nos sistemas de ensino, em particular na educação superior; às opções de
estudo para egressos das escolas públicas; à mudança das diretrizes curriculares, considerando a inclusão de afro-brasileiros; e à formação de professores e gestores.
13 A estrutura da Secad possui quatro Departamentos: Educação de Jovens e Adultos (DEJA), Avaliação e
informações Educacionais (DAIE), Desenvolvimento e Articulação Institucional (DDAI) e Educação para
Diversidade e Cidadania (DEDC). Este último Departamento comporta cinco Coordenações-Gerais: Diversidade e Inclusão Educacional (CGDIE), Educação Ambiental (CGEA); Educação do Campo (CGEC);
Ações Educacionais Complementares (CGAEC) e Educação Escolar Indígena (CGEEI).
216
O estabelecimento desses compromissos decorre do reconhecimento de que
o racismo e seus derivados estão presentes na sociedade brasileira e se fazem também de maneira sistemática no sistema de ensino. O MEC reconhece, desse modo,
a necessidade de apoiar técnica e financeiramente as unidades da federação para a
realização de uma educação anti-racista.
Nessa linha, sua ação visa a combater o racismo institucional, bem como
o racismo individual, por meio de uma ampla política que deva necessariamente
considerar cinco eixos estruturantes da política, a saber: formação de professores;
formação de gestores; elaboração e distribuição de material didático e paradidático;
currículo escolar e projeto político-pedagógico.
É importante destacar que o investimento no ensino básico alheio a um amplo processo de ações afirmativas para acesso e permanência no ensino superior não
é suficiente para a reversão do quadro de desigualdades no sistema de ensino. As
políticas que visam a aumentar a qualidade na educação básica representam uma
condição imperiosa para a diminuição do fosso entre negros e brancos no sistema
de ensino. Não obstante, cabe considerar que essas políticas demandam tempo para
surtir efeito e para que seus resultados sejam perceptíveis.
A agenda programática do Ministério da Educação procura desenvolver um
conjunto de iniciativas com o objetivo de promover a eqüidade de acesso e permanência das populações afro-descendentes, indígenas e de outros grupos tradicionalmente excluídos do direito à educação14. Essa agenda é estruturada a partir de cinco eixos norteadores: Acesso e Permanência; Formação de Professores e Gestores;
Marco Regulatório e Institucional; Sistemas de Informação e Pesquisa; e Divulgação e Fortalecimento Institucional.
Acesso e permanência
Neste eixo, as ações do MEC tem buscado propiciar acesso e permanência
qualificada na Educação Superior:
– Projeto de Lei nº 3.627/01 - projeto de reserva de vagas nas IFES
Elaboração do Projeto de Lei no 3.627/04, que estabelece reserva de vagas
nas Instituições Federais de Educação Superior – IFES para estudantes de escolas
públicas, com cotas específicas para negros e índios.
14 Participam na formulação e no desenvolvimento dessas ações a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM), a Secretaria
Especial de Direitos Humanos (SEDH), e os Ministérios da Cultura, Saúde, Desenvolvimento Social e
Combate à Fome, Meio Ambiente, Trabalho e Emprego, Desenvolvimento Agrário, Esporte, Justiça. Também são parceiros UNESCO, BID, PNUD, OEI, UNICEF, ANDIFES, CONSED E UNDIME, entre outras
instituições.
217
– Programa Universidade para Todos (ProUni)
Reserva de bolsas em estabelecimentos de ensino superior comunitários e
particulares para alunos oriundos de escolas públicas e bolsistas de escolas particulares, sendo 30%, das bolsas, reservado para negros e indígenas. Em 2005, mais de
100 mil vagas foram ocupadas por estudantes de baixa renda. Entre os beneficiados,
cerca de 30 mil são afro-descendentes.
– Projetos Inovadores de Cursos (PICs) - pré-vestibulares comunitários
para negros e indígenas
Apoio técnico e financeiro a instituições educacionais para a realização de
cursos pré-vestibulares para negros e indígenas, com a perspectiva de ampliação de
número de participantes de negros e indígenas na educação superior. No ano de
2004 o Programa beneficiou aproximadamente 3.400 alunos, por meio de 27 Projetos Inovadores de Cursos, e em 2005 beneficiou 5.350 alunos em 29 Projetos.
– Programa de tutoria e fortalecimento educacional de jovens negros no
ensino médio
Apoio para o desenvolvimento de experiências voltadas para o diagnóstico
e a superação da situação de desigualdade racial e social vividas por estudantes
negros(as), garantindo-lhes uma educação de qualidade, e fomentando, portanto, a
construção de políticas públicas que visem à melhoria do Ensino Médio, a fim de
contemplar a diversidade étnico-racial.
– Programa de tutoria e fortalecimento educacional de jovens negros na
Educação Superior
Estímulo e fortalecimento de experiências que ampliem as condições de permanência e de sucesso de estudantes afro-brasileiros (as) no ensino superior. Visa,
numa perspectiva multidisciplinar e multissetorial, à permanência do estudante universitário afro-brasileiro em seu curso, desenvolvendo e implementando ações afirmativas de diversidade cultural, gênero e étnico-raciais, na perspectiva da educação
de pares e da promoção do protagonismo de negros e negras nesse processo.
– Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as
comunidades populares
Estimulo à articulação entre universidades e comunidades populares, propiciando troca de saberes, experiências e demandas. O programa incorpora novos
estudantes que chegam à universidade, ao mundo acadêmico, estimulando seu envolvimento em ações coletivas nos seus locais de origem, possibilitando assim permanência qualificada de jovens de espaços populares na universidade
218
– Cultura Afro-Brasileira: educação em áreas remanescentes de Quilombos
Apoio técnico e financeiro à estados e municípios para ações específicas de
formação de professores para áreas rurais quilombolas, a ampliação e melhoria da
rede escolar e a produção e aquisição de material didático para alunos e alunas.
Formação de professores e gestores
A ação de apoio à qualificação de profissionais da educação em educação para
diversidade abrange atividades de formação e/ou capacitação de profissionais em educação, pertencentes aos níveis federal, estadual e municipal, tais como fóruns, encontros,
palestras, seminários ou oficinas com a participação de especialistas de reconhecido saber
sobre o tema, enfocando especialmente a diversidade em suas múltiplas dimensões. No
entendimento do MEC, é fundamental o desenvolvimento de uma política de formação
docente para o trato das questões pertinentes ao tema das relações étnico-raciais presentes no cotidiano escolar e, sobretudo, ao ensino de história e cultura afro-brasileiras e
africanas, pois os profissionais da educação que se encontram na gestão dos sistemas de
ensino ou nas salas de aula não possuem, em sua maioria, conhecimento sobre a história
da África, tampouco experiência consistente em educação das relações étnico-raciais.
Tais desconhecimentos e inexperiências implicam baixa efetivação na aplicação da Lei
no 10.639/2003, e, sobretudo, dificultam a realização de uma educação anti-racista e
anti-sexista. Neste eixo desenvolvemos as ações abaixo:
– Formação à Distância
Curso de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana que desenvolve formação continuada à distância de profissionais da Educação na temática étnico-racial, em todos os níveis da educação.
– Projeto Inovador de Apoio a Licenciaturas Interculturais Específicas para
a Formação de Professores Indígenas (Prolind)
Apóia projetos de educação superior intercultural indígena, desenvolvidos
por instituições de educação superior públicas em conjunto com as comunidades
indígenas, que visem à formação superior de docentes indígenas para o Ensino
Fundamental (5o a 8o séries) e Ensino Médio Indígena.
– Programa de Ações Afirmativas nas Instituições Públicas de Educação
Superior (Uniafro)
Apoio financeiro e fortalecimento institucional a Núcleo de Estudos AfroBrasileiros e grupos correlatos, que visem a articular a produção e difusão de conhecimento sobre a temática étnico-racial e o acesso e permanência da população afro219
brasileira no ensino superior, por meio de desenvolvimento de estudos e pesquisas,
seminários e de formação de professores ao encontro da Lei no 10.639/03.
Marco regulatório e institucional
Este eixo do trabalho visa à sistematização e construção de diretrizes e orientações educacionais voltadas para a promoção da diversidade, nas suas várias dimensões – étnico-racial, de gênero, geracional, de sexo, regional e ambiental. Também se
privilegia o fortalecimento do diálogo com a sociedade civil para o controle social
da política por meio de comitês técnicos, que contam com a participação de pesquisadores e ativistas sociais.
– Revisão das Orientações Curriculares para Educação Infantil e para os
Ensinos Fundamental e Médio
– Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos – diretrizes para
uma educação de eqüidade
Têm como objetivo maior fomentar metodologias em educação e sua inserção no projeto pedagógico das unidades escolares, em todos os níveis e escolas
públicas e privadas do país.
– Programa Nacional de Avaliação do Livro Didático na Educação Básica
Avalia livros didáticos, buscando combater estereótipos e preconceitos bem
como valorizar e respeitar a diversidade étnico-racial e de gênero no material
didático-pedagógico.
– Comitê de Educação para a Diversidade Étnico-Racial
– Comitê de Educação Escolar Indígena
Diálogo com grupo consultivo para monitoramento e avaliação das políticas
públicas afirmativas no âmbito do MEC e outras políticas educacionais desenvolvidas pelos sistemas de ensino.
Sistemas de informação e pesquisa
Busca-se neste eixo a inclusão de critérios de identificação étnico-raciais,
para o acompanhamento da situação educacional dos grupos étnico-raciais do país.
Visa à produção de informações quantitativas e qualitativas sobre a população escolar, corpo docente e discente, considerando o pertencimento racial dos envolvidos.
220
O levantamento de informações abrange toda educação básica em seus diferentes níveis, tanto na rede pública como na privada. Tais informações possibilitam a
construção de indicadores para avaliação e construção/ implementação de políticas
públicas, informações estas utilizadas por diversos ministérios, entre eles, Educação,
Saúde, Esportes, Trabalho e Emprego, bem como Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
A temática étnico-racial passa a ser incorporada às agendas específicas do
Censo Escolar (inclusão de critérios de identificação racial), do Exame Nacional do
Ensino Médio (ENEM) e do Sistema de Avaliação da Educação Básica - SAEB.
Os estudos e pesquisas sobre diversidade étnico-racial nos sistemas de ensino, por
sua vez, são incentivados pelo MEC, no sentido de definir uma ação de construção
e disseminação de conhecimento sobre o racismo e seus derivados no cotidiano
escolar e desenvolver novas práticas pedagógicas com base na educação anti-racista
e anti-sexista.
Divulgação e fortalecimento institucional
Neste campo de atuação, o MEC desenvolve e apóia técnica e financeiramente a implementação de ações educativas complementares que visem ao acesso,
ao reingresso e à permanência de alunos ao sistema educacional, que enfrentem as
diferentes formas de violências na escola, bem como o fortalecimento da participação da família na melhoria da freqüência e desempenho escolar dos alunos. Engloba a distribuição de material didático-pedagógico sobre educação para diversidade
e cidadania e tem como finalidade apoiar a produção, distribuição e difusão de
materiais didático-pedagógicos com conteúdos e atividades que possam ser desenvolvidas em sala de aula, auxiliar o professor no desenvolvimento de sua prática pedagógica e/ou ampliar o acervo de publicações da escola sobre questões referentes à
valorização da diversidade étnico-racial, de gênero, de orientação sexual e diferenças
culturais, dentro e a partir da escola.
– Fóruns estaduais de educação e diversidade étnico-racial e Fóruns
Permanentes de educação e diversidade étnico-racial
Ação de articulação e apoio técnico e financeiro junto aos sistemas de ensino,
por meio das secretarias estaduais e municipais de educação (com participação de
NEABs, sindicatos patronais e movimentos sociais organizados), para construção
de uma agenda educacional que possibilite a implementação da Lei no 10.639/2003
e as Diretrizes Nacionais Curriculares para a Educação das Relações Étnico-Raciais
e o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, em todos os sistemas
221
de ensino. No período de 1 ano foram realizados 20 Fóruns Estaduais beneficiando,
aproximadamente, 8.500 profissionais da educação, ativistas dos movimentos negros
e de entidades do movimento social.
– Concursos nacionais (1) de monografias, dissertações e teses e (2)
de material didático-pedagógico sobre história e cultura afro-brasileira e
africana
Linha editorial com recorte na temática da diversidade. Ação de construção
de conhecimento divulgação e valorização da temática étnico-racial; desenvolvimento e distribuição de material didático-pedagógico diferenciado, bem como o
incentivo de desenvolvimento de pesquisas sobre relações étnico raciais no país.
Conclusão
A agenda do MEC, organizada a partir dos programas e ações que compõem
os cinco eixos norteadores descritos acima, procura contribuir para a construção
– nas redes estaduais e municipais de ensino – de uma política educacional que
transforme os sistemas de ensino a partir da introdução de elementos estratégicos
referidos a conteúdos pedagógicos, institucionais e gerenciais capazes de constituir
uma educação anti-racista e estabelecer condições favoráveis para o sucesso educacional da população negra.
O compromisso ético e político com uma educação anti-racista, no entanto,
deve considerar que o combate ao racismo nos sistemas de ensino não constitui uma
política que pretenda beneficiar apenas negros e negras; trata-se de uma política
para toda sociedade brasileira. É certo que os efeitos do racismo no cotidiano escolar
constituem um problema de grande monta para a criança e o jovem negro, considerando que esses vivem diretamente os prejuízos acarretados pela estrutura racista;
mas a desigualdade racial e o racismo são elementos desagregadores da sociedade
como um todo, que corrompem a ética e a moralidade de todos os indivíduos.
O compromisso com uma política afirmativa para a educação deveria, portanto, dedicar-se, de forma prioritária, a alguns conteúdos estratégicos. Além dos
elementos da agenda programática do MEC podemos explicitar alguns, e somente
alguns, desses conteúdos, como a importância da identificação e conhecimento do
perfil da população escolar a partir da introdução do quesito “cor” ou identificação racial nas fichas de matrícula do aluno e dos professores da rede; o comprometimento com a formação continuada dos profissionais da educação, realizando
congressos, seminários e fóruns de educação para todos os níveis, considerando as
222
especificidades das desigualdades no sistema de ensino e com atenção especial às
relações raciais estabelecidas nas escolas; a construção e manutenção de um acervo
bibliográfico (com livros, músicas, vídeos) sobre relações raciais na sociedade brasileira, em geral, e, em particular, no sistema educacional; a implantação de uma brinquedoteca nas escolas, com jogos e brinquedos que contribuam para a construção
do respeito e da valorização à diversidade étnico-racial; o estabelecimento de grupos
permanentes de trabalho voltados para coordenar as ações de combate ao racismo
no ambiente escolar, composto por profissionais com conhecimento e sensibilidade
à temática étnico-racial, comprometidos com a luta anti-racista e dotados de recursos suficientes para o cumprimento dos objetivos.
Esses conteúdos constituem passos iniciais para a formulação de políticas
públicas voltadas para a realização de uma nova educação, calcada nos princípios de
igualdade e de direitos humanos. Há, porém, muito o que fazer. É fundamental que
se aprofundem os conhecimentos sobre as particularidades dos sistemas de ensino,
com atenção ao pertencimento racial da população.
A efetividade de políticas públicas voltadas para a educação está, certamente,
na execução das propostas, atentando-se para o fato de que são interligadas e interdependentes. Os resultados só poderão ser obtidos diante de condições propícias
para que as ações sejam realizadas em um trabalho sério e ininterrupto.
Todo projeto de educação em que não se considere a identidade étnico-racial
e de gênero dos envolvidos não constitui um projeto de educação de qualidade.
Instituir e/ou manter qualidade na educação guarda, como condição sine qua non,
elementos sociais fundamentais para o desenvolvimento do indivíduo, a construção
da cidadania e da democracia. A permanência e a disseminação do racismo contrapõem-se a todo e qualquer projeto de qualidade na educação. A educação de
qualidade para todos passa, na realidade brasileira, pelo respeito e valorização da
diversidade étnico-racial, cultural, de gênero, de orientação sexual, social e regional
e, portanto, pela construção de instrumentos que assegurem, nos sistemas de ensino,
o direito à diferença.
223
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Educação Anti-Racista: caminhos abertos
pela Lei Federal nº 10.639/03. Coleção Educação para Todos. Brasília: MEC e
Unesco, 2005.
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Brasília: 1996.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A
Editora, 2003.
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políticas universalistas em educação. Brasília: Unesco, 2001.
MUNANGA, Kabengele (Org.). Superando o racismo na escola. Brasília: MEC,
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PROGRAMA das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Atlas Racial Brasileiro.
Brasília: PNUD, 2004.
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OC-BR entre a República Federativa do Brasil e o Banco Interamericano de
Desenvolvimento, 18 de dezembro de 2002. (Anexo A, a mesma referência)
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SOUZA, Elizabeth Fernandes. Repercussões do discurso pedagógico sobre
relações raciais nos PCNs. In: CAVALLEIRO, Eliane (Org.). Racismo e Anti­racismo na Educação: repensando nossa escola. São Paulo: Selo Negro Edições,
2001.
224
A Difusão do Ideário
Anti-Racista nos
Pré-Vestibulares
para Negros e
Carentes
Renato Emerson dos Santos
O
início do século XXI no Brasil é marcado, na cena do debate político,
pela emergência da discussão sobre as desigualdades raciais, associada
à necessidade de implementação de políticas públicas (e iniciativas de
todos os segmentos da sociedade) voltadas para sua reversão, chamadas
de ações afirmativas. Tal emergência na verdade representa (i) a publicização e massificação dos debates e críticas ao “mito da democracia racial”, que até pouco tempo
atrás ficavam circunscritos aos restritos círculos dos Movimentos Negros e de uma
fração absurdamente minoritária da comunidade acadêmica diretamente ligada ao
tema, e (ii) o encontro de tais sofisticadas elaborações intelectuais com uma “consciência racial difusa” dos negros brasileiros, complexo conjunto de leituras e padrões
(pouco estudados) de comportamento e reação aos conflitos raciais cotidianos de
nosso tecido social.
No caldo de discussões que se instauram, chama também atenção a evidência de que a conscientização da sociedade em torno das injustiças históricas e da
violência cotidiana de que são alvos os afro-descendentes – o racismo – se fortalece
como uma questão que insta à ação. Seja esta ação empreendida pelo Estado ou por
outros segmentos da sociedade, é flagrante (e, evidentemente, positivo) que o racismo, ao ser reconhecido agora como um problema nacional, tem seu debate marcado pela necessidade de intervenções – flagrante, porque nem todo fato, fenômeno
ou processo social é percebido, apropriado e formulado enquanto questão. Vainer
e Araújo (1992: 20), discutindo a emergência da problemática das desigualdades
regionais, nos remetem a esta reflexão, ao colocar que
[...] o que nos interessa saber é o seguinte: por que é que as formas espaciais
do desenvolvimento podem ser, e o são em determinadas circunstâncias históricas
[grifo nosso], transmutadas em uma questão – e sejamos específicos, em uma
questão de Estado. Fatos sociais não necessariamente geram questões de Estado,
não necessariamente fornecem matéria para discursos, estratégias e táticas,
planos e projetos governamentais.
As condições que permitem a institucionalização das demandas históricas dos
afro-descendentes – desde sempre objeto de intervenção dos movimentos negros –,
ainda estão por ser melhor desvendadas. Destacamos aqui que se multiplicam as
instâncias e esferas de intervenção, bem como as arenas de interlocução e disputa
no empreendimento das ações concretas. Com efeito, as chamadas ações afirmativas,
amplo e complexo conjunto de iniciativas voltadas para a promoção social das populações afro-descendentes vêm tendo lugar no Brasil em distintos ambientes, a
despeito da mobilização crescente de forças reativas junto a setores conservadores,
sobretudo dos que controlam meios formadores de opinião – a mídia.
Tais esforços reativos à efetivação de políticas focais racializadas vêm mobilizando argumentos, artifícios e instrumentos retóricos tradicionais, quase sempre
apreensíveis no quadro analítico que nos oferece Hirschmann (1992): futilidade (o
problema no Brasil não é racial, é social; de nada adianta promover uma elite negra, o fundamental é acabar com a pobreza), perversidade (os brancos pobres serão
prejudicados) e ameaça (vai-se criar um conflito racial num país onde ele não existe;
haverá queda na qualidade do desempenho das instituições que receberão indivíduos sem a necessária qualificação, com prejuízos para toda a sociedade). Os pilares
Louvamos aqui os esforços empreendidos por Heringer (2003) na identificação das iniciativas em curso no
Estado brasileiro na década de 90, bem como dos impactos da Conferência Mundial contra o Racismo de
2001.
Algumas publicações recentes vêm nos permitindo contemplar tal multiplicidade. Cabe menção aqui, para
não ser exaustivo, a três trabalhos: o anteriormente aludido, de Heringer (2003), derivado da pesquisa
“Mapeamento de ações e discursos de combate às desigualdades raciais”, que identificou e sistematizou
um conjunto de 124 iniciativas de ações afirmativas nos campos da Educação, Trabalho e Geração de
Renda, Direitos Humanos e Advocacy, Saúde, Informação, Legislação, Cultura e outros; o livro “Ações
afirmativas em Educação: Experiências brasileiras” (2003), organizado por Cidinha da Silva, que apresenta
e discute experiências que articulam os campos educacional e do Trabalho, desenvolvidas por ONGs do
campo do anti-racismo, em parcerias com empresas privadas, mostrando como estes setores vêm também incorporando este debate; e a coletânea por nós organizada, “Ações afirmativas: Políticas públicas
contra as desigualdades raciais” (SANTOS; LOBATO, 2003), cuja segunda parte apresenta propostas (algumas delas já aprovadas) de ações afirmativas nos campos legislativo, sindical e no ensino superior. Tais
publicações dão uma boa mostra de como o ativismo negro vêm implementando as ações afirmativas no
setor público, privado e legislativo.
226
de retóricas reacionárias e conservadoras, em diversos contextos históricos e geográficos desde a Revolução Francesa, são mais uma vez articulados diante da emergência da crítica à assimetria racial na sociedade brasileira. Deparam-se, entretanto,
com uma crescente avaliação positiva por parte da população sobre a necessidade e
pertinência de políticas racialistas, o que vem sendo atestado inclusive por diversas
pesquisas de opinião.
Neste processo de difusão pela sociedade da crítica ao mito da democracia
racial, um dos principais agentes/meios são os pré-vestibulares populares de corte
racial. Difundidos pelo país ao longo dos anos 90, eles abriram portas para uma
nova dimensão de publicização das agendas do movimento negro brasileiro. Ainda
que muitas vezes ancorados em pactos ideológicos “frouxos”, é inegável que vem
sendo no fazer cotidiano desses cursos que uma quantidade considerável de indivíduos que sempre experimentaram (mas que provavelmente nunca empreenderam
esforços reflexivos sobre) a assimetria das relações raciais, característica deste país,
são pela primeira vez conduzidos (ou constrangidos) a discuti-la e politizá-la.
Neste sentido pretendemos, nos estreitos limites deste trabalho, discutir como
vêm sendo difundidas as idéias anti-racistas, não no âmbito da agenda estatal ou do
setor privado, mas nos cursos pré-vestibulares populares, que vêm se construindo e
espalhando por todo o Brasil nos últimos 10 anos. Nossas reflexões tomam como
ponto de partida a observação de um movimento social de corte racialista denominado Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC), iniciativa seminal para o processo de construção desses cursos por todo o país, mas atentaremos também para
a disseminação do ideário anti-racista nos cursos não vinculados a ele. O PVNC é
uma rede de pré-vestibulares populares surgida na Baixada Fluminense, nos anos
90, que chegou a congregar, no final daquela década, quase 90 núcleos na Região
Metropolitana do Rio de Janeiro.
O movimento de pré-vestibulares populares, que surgiu como desdobramento
do trabalho do PVNC, atualmente comporta milhares de cursos em todo o Brasil.
Outras redes foram criadas e se nacionalizaram, como a Educafro (Educação e Cidadania para os Afro-Descendentes e Carentes, que atua nos estados do Rio de Janeiro,
São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, com mais de 190 núcleos e quase 10.000
Recente pesquisa sobre o racismo, da Fundação Perseu Abramo, ao interrogar sobre os diferenciais de
condições de vida entre negros e brancos “indica que há receptividade para a intervenção governamental, ou mesmo expectativa de que ela ocorra: estimulada a idéia de que a desigualdade entre brancos e
negros se deve à falta de políticas públicas com oportunidades para os negros melhorarem de vida, 46%
optam por essa alternativa (44% dos brancos e dos pardos, 54% dos de cor preta), caindo para 32% os
que responsabilizam a discriminação dos brancos contra os negros e para 15% os que acreditam que os
próprios negros são os principais responsáveis por sua situação de inferioridade na escala social”. (VENTURA; BOKARI, 2004).
227
alunos) e o movimento dos Sem Universidade (MSU), que está estruturado em 10 estados – Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Paraná, São
Paulo, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e Tocantins são citados em sua página na
internet), além de milhares de núcleos que atuam “isoladamente” por todo o país.
Estas iniciativas são, flagrantemente, desdobramentos diretos e indiretos do
trabalho e da difusão do PVNC. Marcado por uma dinâmica interna que, de um
lado, comportava intensas disputas políticas, e, dialeticamente, de outro, tinha nelas
próprias e nas vigorosas articulações políticas de seus membros os motores de seu
crescimento – que significou a difusão e popularização dos cursos pré-vestibulares
populares –, o PVNC é, portanto, um agente central na disseminação destes cursos
e da discussão sobre o racismo no Brasil.
A um só tempo, os pré-vestibulares populares tensionam e questionam a elitização da universidade brasileira, pautando sua democratização, e o fazem vinculando-a à questão racial como uma dimensão fundamental e indissociável. Desta
forma, tal discussão é disseminada por este movimento (i) através da “conscientização das bases” em seu trabalho cotidiano e (ii) pautando-a em instâncias estatais
e fóruns de decisão tradicionalmente alérgicos e pouco sensíveis a ela. Torna-se
mister, portanto, compreender como são constituídas as bases deste cruzamento de
agendas, que permite o diálogo entre distintas ideologias, valores e desideratos sociais levando ao aumento da consciência anti-racista em nosso tecido social. Damos,
portanto, continuidade às reflexões expostas em trabalhos anteriores.
Uma forma de ação social
A construção do movimento Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC)
é um desdobramento de um conjunto de estratégias do Movimento Negro nas décadas de 1970 e 1980, dentre as quais podemos destacar (i) a escolarização dos
negros como processo de construção de novas lideranças e fortalecimento de outras
lideranças, e (ii) a capilarização de militantes da luta anti-racismo em diferentes
espaços de luta e intervenção social, que vai legar a este novo movimento (o pré-ves Cf. Santos (2003a) e Santos (2003b).
Tal estratégia levou um segmento bastante significativo da militância do movimento negro (seus líderes,
figuras, sujeitos que construíam o movimento e suas entidades) a ingressar na academia para fazer graduações, mestrados e doutorados, caminho marcado por uma concentração destes indivíduos nas áreas da
Educação e das Ciências Humanas. Tal concentração – em grande medida influenciada pelo fato de tais
campos passarem de um modo geral, nas últimas décadas, por perdas salariais no mercado de trabalho
– pode ser levantada como uma hipótese explicativa da liderança destas áreas no debate atual sobre as
ações afirmativas, o que é patente nos números apresentados por Heringer (2003), que apontam as áreas
de Educação (30,6%), Trabalho e Geração de Renda (20,2%) e Direitos Humanos e “Advocacy” (19,4%)
como de maior ocorrência destas políticas.
228
tibular) uma cultura de convergência e hibridação de valores, leituras do social e formas de atuar. O PVNC nasce, portanto, como uma estratégia diante da necessidade
do aumento da escolarização da base social dos movimentos negros, em discussões
que tiveram lugar nos anos 80, sobretudo no âmbito dos Agentes da Pastoral do
Negro, onde ganhou corpo a idéia de intervir na ponte entre o segundo e o terceiro
graus, ou seja, de fortalecer a entrada na universidade de estudantes negros.
Tais debates resultaram, no ano de 1993, na criação do primeiro núcleo do
Pré-Vestibular para Negros e Carentes na Igreja Matriz em São João de Meriti, na
Baixada Fluminense. O crescimento desta iniciativa, com a aproximação de outros
militantes da luta anti-racismo não ligados ao campo religioso, instaura embates
ideológicos acerca de como seria a iniciativa, e quais estratégias seriam mobilizadas
para seu crescimento e difusão. A partir destes embates, inaugura se não só um
formato de instituição mas é criada uma forma de ação social com um grande poder de reprodutibilidade, fundando-se assim um movimento social, o Pré-Vestibular
para Negros e Carentes. O PVNC teve, em determinados momentos (sobretudo
entre os anos de 1997 e 1998), mais de 80 núcleos espalhados por toda a Região
Metropolitana do Rio de Janeiro.
O sucesso da experiência do PVNC deu lugar a um movimento em escala nacional de construção de pré-vestibulares de corte popular, com o corte racial ou sem
ele, e com outros cortes possíveis. A existência de cursos pré-vestibulares populares é
um fato anterior, mas, com efeito, o PVNC instaurou novos marcos para estas iniciativas, não apenas pela velocidade e abrangência espacial com que se espalhou – adquirindo capilaridade social não alcançada pelas iniciativas anteriores a ele –, mas
também pelo formato institucional que o caracteriza e que ele difundiu, juntamente
com seus princípios organizativos e ideológicos. A “nacionalização” desta forma de
ação resultou das articulações políticas de seus sujeitos na escala nacional, que eram
herança e capital decorrentes de sua atuação anterior e paralela em movimentos antiracismo, religiosos, partidários, sindicais, etc., além das interfaces entre esses.
Para um relato pormenorizado do histórico do Pré-Vestibular para Negros e Carentes, cf. Santos (2003a).
Nos registros que coletamos no âmbito da pesquisa “Raça & Classe no Curso Pré-Vestibular para Negros
e Carentes do Rio de Janeiro” identificamos 86 núcleos do PVNC desde 1993. Destes, alguns tantos já
deixaram de existir. Outros tantos se desvincularam da rede. O levantamento feito pelo Conselho Geral
do PVNC, na época da referida pesquisa, baseado nas Cartas de Assentamento entregues pelos núcleos
no segundo semestre de 2001, contabilizava 27 núcleos. É sabido que há outros núcleos que ainda se
consideram pertencentes à rede, alguns bastante participativos, outros pouco, mas que não entregaram
Cartas de Assentamento naquele período. O êxodo dos núcleos do PVNC se deve (i) a discordâncias
das coordenações dos núcleos com as esferas centrais de condução do movimento, e (ii) ao crescimento
da Educafro (Educação e Cidadania de Afro-Descendentes e Carentes), ONG fundada em 1997 por Frei
Davi, principal liderança na criação e fortalecimento do PVNC. No início de 2001, a Educafro rompeu com
o PVNC, determinando que os núcleos que aderissem a ela não poderiam estar vinculados ao movimento, o que provocou uma “reacomodação de forças”, com muitos núcleos se aglutinando de um lado e de
outro.
229
Por outro lado, o PVNC passou a se diferenciar radicalmente dos outros cursos ao operar através de uma rede. Esta rede foi resultado, reflexo e condicionante
de um complexo conjunto de solidariedades e embates políticos que construíram as
estruturas organizativas deste movimento social. Em Santos (2003a), mostramos a
estruturação deste movimento por meio de dois planos (que se vinculavam e atritavam): (i) o plano dos fóruns coletivos (Conselho dos Núcleos, Secretaria Geral, Assembléias Gerais, Jornal Azânia, Equipes de Reflexão Pedagógica e Racial, Seminários de Formação, Coordenações Regionais), esferas dominadas hegemonicamente
por um grupo restrito e seleto de sujeitos detentores de capital (articulações, conhecimentos, heranças, backgrounds institucionais) e interesses políticos que os punham
em disputa pela hegemonia e legitimidade na condução do movimento, para o quê
mobilizavam “agendas e agências”; (ii) o cotidiano dos núcleos, espaços de múltiplas percepções e temporalidades, protagonizado por uma massa de indivíduos que,
movidos por ideais distintos, construíam um processo de socialização caracterizado
pela ampla participação de distintos sujeitos sociais e um cruzamento de visões de
mundo e temários de discussão muitas vezes divergentes e antagônicos.
As “estruturas institucionais” do PVNC são fruto de embates entre diferentes
visões e projetos políticos de mundo e de movimento, representando, portanto, vitórias
parciais dos diferentes campos que disputavam hegemonia em seu período de formação.
Por mais que, conforme nos alerta Giddens (1989), as intervenções dos agentes envolvam esforços de racionalizações, motivações e monitoração reflexiva, que são incapazes
de evitar conseqüências impremeditadas ou de suprimir os efeitos das condições nãoreconhecidas da ação, é possível identificar cânones, marcos fundamentais nas formas
destas “estruturas institucionais” que remetem, sobretudo, à influência do corte ideológico católico-franciscano, hegemônico no movimento. A forma como se estruturam os
núcleos, amplamente difundida e reproduzida por todo o país, é lapidar. Os núcleos do
PVNC– e a grande maioria dos pré-vestibulares populares criados na esteira de sua experiência se constroem com uma estrutura que parte dos seguintes preceitos basilares:
a) a “auto-gestão” – boa parte dos núcleos é coordenada pelos próprios alunos,
ex-alunos e professores. Este aspecto, de um lado, confere uma autonomia
decisória aos núcleos que, diante do afastamento e da tensão entre as agendas e enfrentamentos correntes no seu cotidiano e o plano dos fóruns coletivos, se torna um forte componente a facilitar sua ruptura com o movimento organizado em rede. De outro lado, esta autonomia acaba por valorizar
os debates cotidianos dos núcleos enquanto instâncias decisórias, o que tem
como efeitos motivar, criar e fortalecer sujeitos através de uma cultura de
participação marcada por um padrão de democracia como relação, e não como
230
formato institucional. Ainda que muitos núcleos sejam marcados às vezes por
gestões despóticas – afinal, toda revolução dos bichos pode ter seu porco!
–, há um sem número de casos de conflito e até deposição de coordenações
e professores por alunos que então assumem a condução do núcleo, fatos
pouco imagináveis nos espaços formais de escolarização. Esta vivência insta
os integrantes do pré-vestibular à participação e politização, o que significa a
responsabilidade na definição dos marcos ideológicos norteadores da iniciativa. O pré-vestibular ganha, então, uma dimensão de formação política pela
prática à qual os sujeitos são compelidos, o que se dá num contexto onde,
mais do que nunca, o cenário lega heranças e influências. Uma coordenação
nova a assumir um núcleo, ainda que formada por sujeitos inexperientes
em iniciativas políticas ou discordante das bandeiras fundadoras do PVNC,
não abandona (pelo menos no plano discursivo) práticas políticas “cristalizadas” no movimento, como a disciplina Cultura e Cidadania, que objetiva
um trabalho de politização através de temas que não necessariamente serão
trabalhados nos exames vestibulares;
b) a quase inexistência de compromissos financeiros – normalmente os alunos
contribuem com algo em torno de 10% do salário mínimo, verba destinada à aquisição do material didático necessário, alimentação (nos cursos
que funcionam aos sábados e domingos durante todo o dia), custeio de
passagem para os professores e, se possível, ajuda aos alunos no pagamento das taxas de inscrição no vestibular, quando não conseguem isenção.
Este traço – que tem a marca flagrante da ala cristã de influência franciscana, hegemônica na construção do PVNC – condiciona uma alergia de
grande parte dos pré-vestibulares populares ao financiamento – público
ou empresarial. Esta não aceitação de aportes externos inviabiliza parcerias e dinâmicas cooperativas de trabalho desses cursos com o Estado e
com o setor privado, criando um vazio nas tendências atuais de execução
de cursos pré-vestibulares como política pública ou iniciativa vinculada a
parcerias empresariais, que vem sendo ocupado por ONGs, movimentos
sociais e uma série de organizações e atores atuantes em outros campos
que se fortalecem e se territorializam – se inscrevem no espaço e se inserem em contextos sociais locais – mediante a criação de cursos pré-vestibulares financiados;
Alusão à célebre obra de George Orwell, A revolução dos bichos, crítica ao totalitarismo dos regimes
comunistas (em especial, o stalinista), em que uma revolução dos animais de uma fazenda, simbolizando
uma revolução popular, dá lugar a um regime ditatorial onde o tirano é o porco.
231
c) o trabalho voluntário - dos professores e coordenadores, num contexto
marcado pela desmobilização e esvaziamento de militância de diversos
movimentos sociais no Brasil, e, paradoxalmente, pela emergência de valores como a solidariedade e a participação, ainda que marcados por uma
negação da dimensão política de sua participação.
Este último aspecto, o trabalho voluntário, é fundamental na estruturação da
rede, na medida que o pré-requisito necessário para alguém ingressar no PVNC é
– além do domínio dos conteúdos de cada matéria, no caso dos professores – o próprio desejo de ingressar no movimento. A dificuldade na arregimentação de professores voluntários faz com que se trabalhe com todos aqueles que se apresentam como
interessados, ou seja, na maioria dos cursos e com poucas exceções, não há um ou
um conjunto de critérios para a aglutinação de novos militantes/colaboradores. Isto
contribui para a (ao mesmo tempo em que é possibilitado pela) agregação de indivíduos que nem sempre concordam com ou partilham os marcos ideológicos principais
do movimento, quais sejam, a discussão racial e as injustiças no mundo da educação.
Assim, o PVNC acaba por se constituir num espaço público de socialização, um ator
plural (ou, pluriideológico), onde se torna possível, através do múltiplo pertencimento,
a recomposição de identidades coletivas num cotidiano onde a democracia (essencialmente conflitiva) é radicalizada – as decisões são coletivas e os papéis são múltiplos e
fundidos, alunos podem (e muitas vezes são) coordenadores, professores, etc.
Pactos ideológicos e a difusão da discussão racial
No momento em que os pré-vestibulares se transformam neste “sujeito híbrido da cidadania” – tomando de empréstimo a expressão de Burity (2001) –, eles
abrem um variado leque de inserção e cruzamentos entre agendas de discussão e
intervenção, o que faz com que cada núcleo tenha uma distinta relação com as
questões fundadoras do movimento de criação dos pré-vestibulares. Tal situação
era patente no início da construção do Pré-Vestibular para Negros e Carentes, onde
a questão racial – que ganhou o status de bandeira principal – foi confrontada a
outras bandeiras, como o corte popular, classista e da Baixada Fluminense (que foram secundarizadas, mas não dispensadas). O resultado foi a eleição do corte racial
como o principal, associado às dimensões da pobreza e das injustiças no campo da
Diversos documentos do PVNC apontavam seu surgimento como uma tentativa de reversão de duas distorções da sociedade: a péssima qualidade do ensino de 2º grau na Baixada Fluminense, que praticamente
eliminava as possibilidades de acesso do estudante da região ao ensino superior; e o baixo percentual de
estudantes negros e afro-descendentes nas universidades – segundo estes documentos, apenas 5% dos universitários brasileiros eram negros, enquanto a população afro-descendente constituía 44% do total nacional.
232
educação, arranjo que, em cada núcleo, dialoga com outras agendas de discussão
e intervenção, de acordo com a correlação de forças ideológicas que se estabelece
pelos embates cotidianos entre seus membros.
No cotidiano dos núcleos, podemos apontar que esta multiplicidade de agendas de discussão e intervenção tem dois efeitos contraditórios e complementares:
1) Primeiramente – enquanto fruto de uma cultura política10 cuja constituição, marcada pela necessidade de agregação de indivíduos para o desempenho das tarefas básicas dos cursos pré-vestibulares (o ensino que é
o treinamento para as provas do vestibular) e pelos embates em torno da
hegemonia na condução do movimento, delimita valores como a tolerância, o compartilhamento, a valorização e o estímulo à participação de todos –, os pré-vestibulares passam a se caracterizar também como um movimento alicerçado sobre pactos ideológicos frouxos, o que lhes coloca diante
de um paradoxo: tais pactos ideológicos, de um lado, têm alto poder de
reprodutibilidade – daí seu poder de difusão –, mas, de outro, se mostram
de fácil ruptura. E tais rupturas se dão tanto (i) no plano individual, o que
se manifesta, por exemplo, na alta rotatividade de professores em boa parte dos núcleos, quanto (ii) no plano coletivo, do que o abandono do corte
racial nos nomes de cursos que se desvincularam da rede é apenas um
indicativo de um conjunto de resistências à assunção real (e não formal)
de bandeiras ideológicas fundadoras do movimento. Essas resistências se
consubstanciam, sobretudo, na execução de um trabalho com pouco peso
relativo para a disciplina Cultura e Cidadania.
O exemplo da disciplina Cultura e Cidadania é bastante elucidativo para
compreender como estes pactos ideológicos, apesar de frouxos, se sustentam e garantem um mínimo de coesão necessária à estruturação do
movimento – e ainda permitem a difusão e fortalecimento da consciência anti-racista. Cultura e Cidadania não é apenas mais uma disciplina
no PVNC. Ela é um importante signo distintivo do caráter popular, al-
10 A noção de cultura política aqui empregada remete às idéias de Alvarez et al (2000, p. 29), que nos indicam
o quanto “é significativo que os movimentos sociais que surgiram da sociedade civil na América Latina ao
longo das duas últimas décadas [...] tenham desenvolvido versões plurais de uma cultura política que vão
muito além do (re) estabelecimento da democracia formal liberal. Assim, as redefinições emergentes de conceitos como democracia e cidadania apontam para direções que confrontam a cultura autoritária por meio
da atribuição de novo significado às noções de direitos, espaços públicos e privados, formas de sociabilidade, ética, igualdade e diferença e assim por diante. Esses processos múltiplos de ressignificação revelam
claramente definições alternativas do que conta como político. [...] Ao explorar o político nos movimentos
sociais, devemos ver a política como algo mais que um conjunto de atividades específicas (votar, fazer
campanha ou lobby) que ocorrem em espaços institucionais claramente delimitados, tais como parlamentos
e partidos; ela deve ser vista como abrangendo também lutas de poder realizadas em uma ampla gama de
espaços culturalmente definidos como privados, sociais, econômicos, culturais e assim por diante.
233
ternativo e questionador inerente aos pré-vestibulares deste tipo. Em sua
origem, estão presentes embates em torno da construção de uma proposta pedagógica própria, intrinsecamente vinculada ao caráter político dos
cursos, idealizada como a capilarização das discussões políticas por todos
os momentos e todas as disciplinas que compõem o curso – assim o pré
se consubstanciaria numa iniciativa de educação popular11. Entretanto, o
princípio da auto-gestão é traduzido também como autonomia pedagógica, num ambiente onde, conforme aludido anteriormente, a afinidade
ideológica não era critério para agregação de professores, possibilitando-se
assim resistências (individuais) à politização das disciplinas e fazendo com
que aquela proposta não fosse alcançada em sua plenitude. Diante disso,
a criação de uma disciplina específica com este fim, ou, de um momento
privilegiado para garantir tais discussões, fez de Cultura e Cidadania o elo
de convergência entre a preparação para o vestibular, a conscientização
política e a busca de uma proposta pedagógica adequada à realidade e aos
interesses dos segmentos sociais envolvidos no PVNC.
A negação radical de Cultura e Cidadania passa a ser, portanto, encarada
como a reprodução do projeto político-pedagógico tradicional, percebido
e identificado como instrumento de exclusão. Todos os cursos pré-vestibulares populares – não somente do PVNC, mas aqueles que se inspiram
nele, passam a adotar a disciplina, ainda que muitas vezes com outro nome.
No caso da Educafro, o trabalho da disciplina é um quesito obrigatório
para qualquer núcleo que se filie à rede, o que é controlado através da realização de uma prova chamada “Vestibular de Cidadania”, o que permite
inclusive o controle dos conteúdos ministrados, que devem atender a um
temário básico indicado.
A resistência à Cultura e Cidadania – à dimensão política do pré-vestibular popular, na verdade – começa a se dar então, necessariamente, pela
instauração de um conjunto de estratégias de “camuflagem” da disciplina,
um trompe-l’oeil (expressão francesa que significa “enganar o olho”) onde
a tônica aparece sob a forma do ser-e-não-ser. Como isto se constrói?12
11 Considerava-se que uma educação popular, enquanto finalidade pedagógica do curso, deveria ter um
caráter político de conscientização das relações excludentes da sociedade, enfocando primordialmente
as questões no nível local, no plano do cotidiano. Nas discussões originárias, a disciplina iria se chamar
“Aspectos da Cultura Brasileira”, por acreditar-se que a cultura é um ponto fundamental no processo educacional – cultura entendida como algo amplo, dinâmico, que envolve todas as dimensões da vida. O pré
deveria, por conseguinte, preparar o aluno não apenas para o vestibular, mas sobretudo, para uma vida
de luta política pela emancipação e promoção social das populações às quais ele pertence.
12 Tomamos aqui, de empréstimo, algumas passagens de Santos (2003a).
234
Por meio de uma falsa assimilação das agendas de ambos os “lados”, o
plano das práticas cotidianas e o dos fóruns coletivos. Num complexo
“acordo tácito”, sujeitos se legitimam mutuamente nas suas posições, como
num diálogo onde as trocas não se correspondem. Criam-se, nas práticas
cotidianas dos núcleos, estratégias de negação do PVNC enquanto movimento, com a negação da política em seus diversos planos. Primeiramente,
negam-se as práticas declaradamente políticas instituídas no movimento,
o que começa pela própria aula de Cultura e Cidadania, que vai, em muitos núcleos, sendo tacitamente secundarizada. Uma matéria veiculada no
Jornal Azânia13, em out/96, denunciava:
Vou citar alguns exemplos de atitudes próprias de quem subestima a
importância dessa matéria:
– muitos prés têm somente duas ou uma aula de Cultura e Cidadania por mês;
– essa aula é geralmente colocada em horários ingratos, tanto para palestristas (sic) quanto para alunos. Ex: primeira aula, última aula ou
depois do almoço;
– há um ‘fechar de olhos’ para ausência ou presença dos alunos
nessa aula.
A matéria atribuía esse boicote a
[...] àqueles que acham essa matéria um ‘enche-saco’, e que é melhor
estudar matemática, Física, Química e Biologia, que na verdade serão as
matérias exigidas nas provas. [...] existem pessoas voluntárias, corajosas
e levadas por espírito filantrópico, mas que ainda não conseguiram dar
um passo qualitativo, no sentido de livrar-se de uma visão ingênua (?) dos problemas sociais existentes em nosso país e assim,
acabam reproduzindo tais compreensões no interior dos núcleos.
Se os alunos não conseguem entender essas evidências, não é de
se estranhar, mas os coordenadores e professores...?
Ou seja, contrapondo-se ao discurso hegemônico, que girava em torno da
produção de consciências calcadas nas duas lutas fundantes do movimento
– dimensão de politização da ação cuja máxima expressão era a força da
disciplina Cultura e Cidadania–, o plano do cotidiano destila uma infinitude de estratégias e táticas de negação e resistência, ainda que estas não
13 O Azânia era o informativo “oficial” do movimento PVNC, editado, com freqüência quase sempre irregular,
entre 1995 e 1999.
235
fossem enunciadas. Para manter a unidade, a negação se transforma em
negociação, viabilizada pela ambivalência do hibridismo que estrutura os
discursos (BHABHA, 1998).
Nenhum núcleo deixa de ministrar a disciplina, mas em muitos esforços
atribuídos a ela são claramente enfraquecidos. Estabelece-se aí um paradoxo, marcante acima de tudo no tratamento dispensado à temática racial:
de um lado, a negação velada de indivíduos em relação à politização do
trabalho e à racialização da iniciativa; de outro, a cristalização de uma
forma-função que, necessariamente em algum momento, introduz um
tensionamento que põe a nu as dimensões política e racial ocultadas. Ou
seja, mesmo onde política e racialidade são negadas, há momentos em que
tais dimensões são evocadas, e isso ocorre num ambiente onde a cultura
política anteriormente aludida, marcada por valores como a tolerância e o
compartilhamento, não aciona os mecanismos sistemáticos de repressão e
silenciamento às manifestações do anti-racismo, mecanismos fundamentais no sofisticado racismo brasileiro, que tradicionalmente é mais rigoroso
na punição de quem denuncia do que de quem o pratica. A questão racial,
quando negada pela coordenação e por integrantes do corpo docente de
um pré-vestibular popular, é contida/reprimida, no máximo, na condição
de latência, pronta para emergir com toda sua potência frente a algum
ruído. Diante do fato de que a radicalização de posições mobiliza diferenças na forma de alteridades que inviabilizam o estar junto, esta situação
de presença/ausência da discussão sobre a questão racial é condição para
o pacto ideológico (frouxo!), mas ao mesmo tempo permite que o tema
seja mobilizado, que os indivíduos se posicionem, e sejam confrontados a
leituras que outrora ignoravam.
2) A segunda ordem de efeitos da multiplicidade de agendas de discussão e
intervenção em constante diálogo no cotidiano dos pré-vestibulares é portanto, exatamente, a capilarização social dos discursos do campo do antiracismo. A “consciência racial difusa”, enquanto latência no tecido social
imobilizada pelos mecanismos de silenciamento, encontra um cotidiano
propício à instauração do questionamento – um cotidiano ao menos “permissivo”, quando a racialidade não é uma bandeira de ação enunciada.
236
Alguns elementos constitutivos do contexto histórico dos anos 90 contribuem para a emergência da discussão racial no cotidiano dos cursos onde a
coordenação não a tem como base do trabalho. O fortalecimento da inter-
venção e da visibilidade do movimento negro na segunda metade da década
de 90 (desde a marcha a Brasília quando dos 300 anos da morte de Zumbi
dos Palmares, em 1995), com a subseqüente assunção, pelo Governo Federal,
da existência do problema do racismo em nossa sociedade, e a confecção de
uma série de pesquisas e relatórios (inclusive, de órgãos oficiais) denunciando
e publicizando as desigualdades raciais, culminando na implantação de políticas voltadas para os afro-descendentes – tudo isso cria, então, um contexto
onde torna-se impossível reproduzir a construção social do pré-vestibular
popular sem um remetimento à dimensão racial. Além da disciplina Cultura
e Cidadania, que evoca temas políticos (o que, muitas vezes, é trabalhado em
articulação com as aulas de redação), há outros momentos de construção de
um pré-vestibular onde a discussão racial potencialmente emerge.
Momentos de construção de um pré-vestibular popular e a
enunciação da questão racial
O lugar privilegiado da discussão racial num pré-vestibular popular é a disciplina Cultura e Cidadania. Sua eleição enquanto componente e signo fundamental
da dimensão política dos cursos, em detrimento de uma capilarização das discussões
políticas na construção de todas as disciplinas, não exclui a politização de algumas
aulas, mas isto fica muito mais à mercê do critério do professor – fazendo uso da
prerrogativa da autonomia pedagógica. Cultura e Cidadania é, portanto, o momento
privilegiado de emergência da discussão sobre a questão racial, em todos os cursos
pré-vestibulares populares, ligados ao PVNC ou não.
No caso específico do PVNC, a presença da discussão racial em Cultura e
Cidadania não foi apenas uma consubstanciação de uma das bandeiras políticas
fundadoras do movimento. Conforme aprofundamos em Santos (2003a), ela também funcionou, durante um período de embates pela liderança política interna ao
PVNC, como um instrumento de disputa e fortalecimento de sujeitos, que “circulavam” pelos núcleos proferindo palestras em Cultura e Cidadania. Com efeito,
a própria proposta pedagógica elaborada para a disciplina – apresentada na forma
de uma “cartilha” que circulou e foi inclusive reproduzida no Jornal Azânia – propunha que ela fosse dada, preferencialmente, através de palestras, e esta mesma
proposta sugeria alguns temas para o trabalho. Entre 1995 e 1996, circulou paralelamente uma lista de temas e pessoas para dar palestras em Cultura e Cidadania
sobre esses temas; boa parte das pessoas listadas eram aquelas que disputavam a
liderança do movimento.
237
Tal movimentação consolidou, assim, o hábito do convite a pessoas com domínio sobre os temas políticos a serem discutidos na disciplina, o que acabou se
cristalizando e se constituindo num dos principais legados transmitidos pelo PVNC
aos pré-vestibulares que se multiplicaram nacionalmente na segunda metade da década de 90. Desta forma, militantes do movimento negro têm a oportunidade de
levar o discurso anti-racista mesmo para os cursos onde a questão racial não é uma
bandeira fundadora das práticas cotidianas de coordenadores e professores – mesmo
quando estes a negam, declarada ou tacitamente. Isto colaborou em muito para a
difusão do debate sobre as assimetrias nas relações raciais brasileiras.
O contexto da virada do milênio também auxiliava nesta difusão do discurso
anti-racista nos pré-vestibulares. Com a aproximação da Conferência de Durban,
em 2001, e com a realização das conferências preparatórias estaduais e regionais, as
entidades do movimento negro fortaleceram a pressão que exerciam sobre o Governo Federal, exigindo políticas e posicionamentos sobre as desigualdades raciais. Os
pré-vestibulares foram identificados pelo Governo como uma iniciativa já em curso
e que poderia ser fortalecida pelo Estado. Tal discurso admite e, ao mesmo tempo,
reforça e tensiona as coordenações dos cursos pré-vestibulares populares acerca da
racialidade de suas iniciativas.
O reconhecimento dos pré-vestibulares populares como uma iniciativa antiracismo conduz à interrogação sobre a presença da racialidade em diversos momentos da construção do pré-vestibular. Primeiramente, se a iniciativa se presta a
reduzir as assimetrias raciais, o primeiro pressuposto é o de que os beneficiários são,
preferencialmente, os afro-descendentes. O pertencimento racial emerge, portanto,
enquanto critério de seleção de alunos: isto já era praticado, ainda que parcialmente,
no âmbito do PVNC e de cursos diretamente influenciados por ele, mas agora passa
a ser um ponto de inflexão e tensionamento de todos os cursos que se denominam
populares. Portanto, onde tal critério não é praticado, as coordenações são instadas a
elaborar discursos justificando tal negação – discursos, normalmente, marcados por
uma subsunção da dimensão racial das desigualdades a outras manifestações, como
a da pobreza e da renda (vista como fator de diferenciação, e não como conseqüência de diferenciações nas trajetórias dos indivíduos e dos grupos sociais), do pertencimento a alguma comunidade pobre, de escolas públicas, etc. Tais manifestações,
segundo estes discursos, “contemplam” a dimensão racial – o que é absolutamente
questionável. De outro lado, quando recordamos que, até bem poucos anos atrás,
a maior parte destes indivíduos sequer imaginava o estabelecimento da correlação
entre o racismo e as desigualdades, ser obrigado a construir tal retórica os coloca
numa situação de questionamento que já é, em si, um flagrante avanço – sobretudo
238
pelo caráter constante deste questionamento, que muitas vezes acaba por fazer estes
indivíduos mudarem de posicionamento, num processo que vem tornando cada vez
maiores setores da sociedade favoráveis às políticas racialistas.
A profusão de discursos alusivos a manifestações da exclusão e da concentração da renda e da riqueza que não tomam a dimensão racial como central são
elucidativos (i) do quanto a construção de pré-vestibulares populares se tornou uma
agência de intervenção pela democratização do país e (ii) de como tal agência dialoga, negocia, se hibridiza e difunde o debate anti-racismo. A enunciação das bandeiras fundadoras, cuja dimensão máxima acaba por ser o próprio nome que cada curso
vai assumir, se torna então um outro momento de construção dos pré-vestibulares,
privilegiado para a discussão racial. Mesmo após definida a bandeira fundadora, os
níveis e formas de diálogo e mediação com a dimensão racial passam a ser objeto
de tensionamento recorrente no cotidiano dos cursos.
Os desafios pedagógicos recorrentes nos cursos também abrem (ainda que
indiretamente) possibilidades de inserção da dimensão racial em outros momentos.
Questões como a evasão, a busca do fortalecimento político-cultural e dificuldades
pedagógicas em diversas disciplinas dão origem a estratégias criativas de superação,
privilegiando atividades extra-classe e dinâmicas alusivas a temas não diretamente voltados ao vestibular. Nestes momentos, em que o objetivo fundamental muitas vezes é
a criação de laços de união e espaços de agregação, freqüentemente temas ligados à
cultura afro-brasileira emergem, na forma de visitas a exposições, museus, dinâmicas
teatrais, etc. Ainda que esporádicos, tais momentos de emergência da discussão sobre
a questão racial podem ser a oportunidade para tensionamentos, eventos onde a mobilização da latência acaba por difundir mensagens, e, ainda que não leve a rupturas ou
transformações nos cursos, contribuem para o fortalecimento da consciência acerca das
desigualdades raciais e da necessidade de construção de políticas para sua reversão.
Difusão dos cursos populares e o enfraquecimento da
racialidade: a dimensão da política de Estado e as ações
afirmativas
Nas passagens anteriores, elencamos alguns momentos da construção cotidiana dos cursos pré-vestibulares populares onde, potencialmente – e não necessariamente –, a discussão racial emerge. Este “potencialmente” alerta não apenas a
possibilidade da construção de discursos de negação ou secundarização da dimensão
racial diante de tensionamentos e questionamentos, mas também a (óbvia) possi-
239
bilidade da própria não-emersão da discussão racial em muitos dos aludidos momentos de construção do curso. Isto porque, conforme desenvolvemos em Santos
(2003b), os pré-vestibulares inauguram uma forma de ação social, uma nova agência
de ação política que pode ser mobilizada de acordo com valores, propósitos e projetos ideológicos distintos.
Ou seja, ato (gesto, ação empreendida) e significado a ele atribuído pelo sujeito
(compreendido aqui como a intenção, projeto) aparecem, neste caso, dissociados e
independentes entre si – atos semelhantes podem ser resultantes de projetos, intenções, desejos e significados distintos e até antagônicos. Apesar da herança de seu
“nascedouro” junto ao movimento negro, os cursos pré-vestibulares se multiplicam
– na esteira da construção dos pactos ideológicos frouxos a que abordamos acima
– constituindo-se numa agência independente do campo anti-racismo, dando margem à aglutinação e intervenção de atores provenientes de outros campos de lutas,
o que multiplica também os interesses e formas de atuação dos/nos cursos.
A visibilidade alcançada pelo PVNC em meados dos anos 90, a alta demanda
social e a popularidade dos pré-vestibulares, o interesse de agências de financiamento, vinculados à possibilidade de sua transformação em lugar de prática e de formação/aglutinação de militância política, são fatores que atraem entidades e sujeitos
dos campos sindical, político-partidário, das ONGs, etc., para criação de cursos
pré-vestibulares populares. Captação de recursos, de quadros para a militância, de
legitimidade e prestígio social, e inserção em contextos sociais passam a ser interesses e motivações para a construção de pré-vestibulares populares.
A dimensão política (concebida agora como campo de atuação e interlocução
junto aos aparelhos institucionais do Estado) dos pré-vestibulares populares, que
se tornam um importante interlocutor social, sobretudo no debate sobre a democratização da universidade, é valorizada em diversos âmbitos: (i) há núcleos que
são a principal referência de atuação política nos locais/ comunidades onde estão
inseridos, discutindo/intervindo em questões que extrapolam o vestibular, a educação e a questão racial, muitas vezes se articulando com associações de moradores
e outras, constituindo-se em polaridades políticas alternativas a elas; (ii) há outros
que são referências importantes na escala do seu município, dialogando com secretarias, prefeituras e atores do legislativo, atraídos pela possibilidade de capilarização
social através dos pré-vestibulares; e (iii) há movimentos de pré-vestibulares que
dialogam com governos estaduais e com ministérios federais – principalmente no
debate sobre a reforma universitária em curso –, estendendo seu poder de intervenção à escala nacional. Ou seja, há núcleos cujas agendas e agências (instâncias,
240
fóruns, articulações, jogos de poder de que participam) têm inscrição no espaço
em escala local e outros em escala municipal, e a criação de outras redes além do
PVNC, como a EDUCAFRO (mais forte no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas
com cursos em vários estados) e o Movimento dos Sem Universidade, coloca os
pré-vestibulares populares em diálogo direto com instâncias das esferas estaduais e
federal do Estado.
Multiplicam-se os diálogos, as arenas e os lugares ocupados pelos pré-vestibulares, que adentram a cena política como importante interlocutor, mas um ator
que também se apresenta por múltiplas – e, muitas vezes, antagônicas – vozes. No
tocante à discussão racial, isto é particularmente importante, na medida em que os
pré-vestibulares populares vêm sendo reconhecidos como interlocutores privilegiados pelo Estado, qualificados como iniciativas de ação afirmativa emanadas da própria sociedade civil e, no cenário atual, têm suas experiências também reconhecidas
como modelares para a definição de políticas públicas de promoção social dos afro
descendentes. Podemos elencar duas ordens de impactos disso: (i) uma, referente à
definição dos aspectos que vão constituir o próprio desenho das políticas públicas,
e (ii) outra, concernente à identificação dos porta-vozes legítimos dessa discussão.
Ambos condicionam feedbacks importantes na estruturação não somente dos próprios cursos, mas também do campo do anti-racismo no Brasil atual.
O reconhecimento pelo Estado brasileiro dos pré-vestibulares como modelo
de intervenção nas desigualdades raciais coloca os cursos como modelos para a ação
pública14. Isto aparece com muita clareza na principal iniciativa do Estado neste
sentido, o Programa Diversidade na Universidade, do Ministério da Educação. Já
em sua terceira edição, e atuando em nove estados, beneficiando milhares de pessoas, o programa financia cursos através de um concurso onde se exige que as iniciativas postulantes tenham atividades de formação social e de valorização cultural,
que, notadamente, não integram a grade de nenhum exame vestibular. Isto é, flagrantemente, uma influência da disciplina Cultura e Cidadania. Buscando avançar,
os diferenciais de pontuação no concurso são definidos de acordo com o grau de
inserção destas atividades e conteúdos nas diferentes disciplinas, o que consubstanciaria a proposta inicial do PVNC! Mais do que isso, a avaliação da qualidade destas
14 Nota-se que isto se dá sob conturbadas discussões com os movimentos negros, que apresentam um leque de opções de ações afirmativas – onde outras medidas seriam prioritárias – visando ao aumento do
ingresso de afro-descendentes em universidades. Dentro dos próprios pré-vestibulares, muitas opiniões
apontam para o fim do vestibular, e o fim do próprio pré – a partir da melhoria do ensino público ou da
adoção de outros mecanismos de acesso à universidade, que não passem por competições falsamente
meritocráticas como o vestibular, que é apontado como um filtro social, e não uma forma de aferição da
qualidade da formação, capacidade ou aptidão do candidato. Muitos cursos populares, bem como muitas
entidades do movimento negro, são contrários à adoção dos pré-vestibulares como política pública, apontando que o papel do Estado deveria ser outro.
241
atividades está condicionada pela forma como elas trabalham as questões sociais e
culturais dos afro-descendentes (e/ou dos indígenas, de acordo com público-alvo de
cada curso), o que, somado à obrigatoriedade de que mais da metade dos beneficiários (50% + 1) sejam negros (ou indígenas), aponta para a racialização das iniciativas
contempladas. Ou seja, temário e beneficiários são desenhados como momentos de
inserção da discussão racial, o que, diante da disputa por recursos que caracteriza as
iniciativas sociais atuais, acaba por levar a discussão a lugares onde ela não existia
– apesar de todas as estratégias de camuflagem, resistência e negação que porventura possam ser criadas. Contemplar a questão racial – de alguma forma –, passa a
ser elemento fundamental para que esses cursos tenham acesso aos recursos disponibilizados pelo programa, o que se constitui num comando emanado do Estado,
estendendo a racialidade a um número maior de contextos.
Esta configuração de política pública, entretanto, aponta para outra ordem de
processos: a terceirização – não somente da execução, mas da própria formulação, na
medida que o formato definido no programa estatal é fruto da observação da ação
dos movimentos sociais – aponta, na verdade, para a construção de um modelo de coordenação social onde o Estado partilha decisões e ações com entidades organizadas
representativas da sociedade civil. Neste bojo, redefine-se a esfera pública decisória,
com a instauração de diversas arenas de diálogo e negociação de uma pauta que, além
de dinâmica, é essencialmente plural: movimentos e sujeitos protagonistas intervêm (e
são legitimados para isso) em diversas problemáticas, que constituem campos dialógicos. No nosso caso, isto se configura tendo como eixo central as desigualdades raciais,
e se desdobra em intervenções em diversas áreas, mas dialogando com outros cortes
fundantes do tecido social. Questões como a reforma universitária, a política urbana,
políticas de saúde pública, dentre outras, são esfera de intervenção dos interlocutores
do campo do anti-racismo, ao serem pautadas como pontos nodais para a reversão das
desigualdades raciais. A democratização do ensino superior, agenda central dos cursos
pré-vestibulares populares, cria então um espaço político de interlocução junto ao Estado, e imediatamente também instaura uma disputa entre agentes pela legitimidade
do exercício desta interlocução, definição que evidentemente guardará influências das
construções ideológicas daqueles que detêm o comando dos aparelhos do Estado – ora
os interlocutores privilegiados pertencem ao campo do anti-racismo (como o PVNC
e a EDUCAFRO), delineando um corte racialista para as políticas definidas, ora os
interlocutores não pertencem ao campo (como o Movimento dos Sem Universidade),
enfraquecendo a focalização nas diferenças e desigualdades raciais. Isto também gera
uma fricção na racialidade dos cursos pré-vestibulares, que pode servir tanto para uma
valorização quanto para uma secundarização da dimensão racial na sua atuação.
242
Para não concluir
Os pré-vestibulares populares são, atualmente, um canal privilegiado de instauração da discussão racial. Enquanto espaços de agregação e recomposição de
identidades múltiplas, os prés se estruturam sobre pactos ideológicos frouxos, que
definem uma variada gama de relações com a questão racial, que aparece desde
a forma de principal bandeira fundadora até a condição de latência, pronta para
emergir nos distintos momentos de construção cotidiana dos cursos. Ela também é
um importante elemento estruturador da interlocução destes cursos com a esfera do
Estado, canal privilegiado de coordenação social na contemporaneidade.
A fragilidade dos pactos ideológicos sobre os quais os cursos se estruturam,
a um só tempo, (i) condiciona seu alto poder de reprodutibilidade, (ii) instabiliza
a instauração de uma construção político-ideológica (sobretudo em torno da discussão racial) e (iii) transforma os cursos em potenciais instrumentos a serviço de
outros interesses (econômicos, políticos, etc.). Mas o estado de latência que a discussão racial adquire naqueles cursos que não a assumem enquanto bandeira fundadora, diante das heranças e do legado que se atualiza através da mobilização dos
capitais políticos dos movimentos que se enunciam como pertencentes ao campo
do anti-racismo (sobretudo o PVNC e a EDUCAFRO), faz com que mesmo onde
a corrente hegemônica seja contrária à discussão racial, ela encontre condições de
emergir e instaurar tensionamentos e questionamentos que fazem com que os prévestibulares populares sejam, atualmente, um dos principais ambientes de socialização difusores das ideologias do campo do anti-racismo.
243
Referências
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VENTURI, Gustavo; BOKANI, Vilma. “Queda do preconceito: real ou retórica?”.
In: Revista Teoria e Debate, no. 59, ago - set, 2004.
244
A Universidade
Pública como Direito
dos(as) Jovens
Negros(as):
a experiência do
Programa Ações
Afirmativas na UFMG
Nilma Lino Gomes*
A
s políticas de ações afirmativas já são uma realidade na educação brasileira. Por isso, não cabe mais à sociedade discutir quem é contra ou
a favor da implementação de políticas de correção das desigualdades
raciais na educação superior. As ações afirmativas já se tornaram um
fato! Existem, no ano de 2005, quatorze universidades públicas que já implementaram cotas para negros nos seus vestibulares como uma política de acesso à educação
superior voltada para a inserção de jovens negros, que foram e ainda são discriminados racialmente. Entre essas quatorze universidades, seis são federais e oito são
estaduais. Vale ressaltar que esse processo é resultado de uma luta histórica árdua e
constante do movimento negro, da comunidade negra em geral e de outros profissionais e intelectuais anti-racistas que se posicionam publicamente e politicamente
contra o racismo e as desigualdades raciais.
Vários programas, leis e projetos do atual governo federal já incorporaram a especificidade étnico-racial nas suas propostas, enquanto outros têm sido
direcionados especificamente para jovens negros no ensino superior. Podemos
* Agradeço ao sociólogo Sales Augusto dos Santos as sugestões e observações pertinentes que enriqueceram o presente texto.
As Instituições Federais de Ensino Superior são: UnB, UFPR, UFSP, UFJF, UFAL e UFBA. As estaduais
são: UERJ, UENF, UNEB, UEMS, UEAM, UEL, UEMG e UNIMONTES. Todas essas universidades já implementaram as cotas raciais como medida de democratização do acesso, de acordo com a realidade de
cada região. Várias já desenvolvem projetos de permanência para os alunos cotistas.
citar, como exemplo, o Programa Afroatitude (Programa Integrado de Ações
Afirmativas para Negros), instituído em 2004. Pelo Programa, estão sendo concedidas 500 bolsas a estudantes cotistas de graduação de universidades públicas,
para o desenvolvimento de pesquisas relacionando a Aids e a situação social,
econômica e cultural dos afro-descendentes. O Programa é resultado da parceria entre a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial
(Seppir), o Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) e a Secretaria de Ensino Superior
(SESU/MEC).
O próximo passo é a implementação de cotas raciais em todas as universidades públicas do país. Esperamos que os (as) reitores (as), os conselhos
universitários e a comunidade acadêmica, assim como o Congresso Nacional,
coloquem-se favoráveis a essa urgente e justa iniciativa e assumam o seu papel
na luta contra a desigualdade racial no ensino superior.
É nesse mesmo contexto que, no interior de algumas universidades públicas brasileiras, cuja comunidade acadêmica, reitoria e conselho universitário
ainda insistem em se posicionar contra as políticas de ações afirmativas (sobretudo, na modalidade de cotas), encontram-se focos de resistência formados por
intelectuais negros e brancos que lutam pela construção da igualdade racial na
educação superior. Alguns desses grupos existem há anos, e têm realizado pesquisas, projetos de extensão, cursos de formação continuada para professores(as)
da educação básica, entre outros. São os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros
(NEABs) e os programas de ensino, pesquisa e extensão voltados para a temática racial. Esses núcleos e grupos têm sido muito importantes na luta em favor
das ações afirmativas no ensino superior, discutindo, apresentando propostas e
implementando medidas de acesso e permanência para jovens negros na universidade. É a ação política e acadêmica desses grupos que tem inspirado o MEC
na construção de propostas de ações afirmativas para a educação básica e superior atualmente em curso.
O presente artigo apresentará o relato da experiência de um desses grupos
no interior de uma universidade pública federal brasileira. Trata-se do Programa
Ações Afirmativas na UFMG que, desde 2002, tem implementado um trabalho
que busca garantir a permanência bem sucedida de jovens negros (as) na graduação e o seu acesso à pós-graduação, embora essa universidade ainda se coloque
como uma das mais resistentes à adoção das cotas raciais.
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais.
246
Juventude, diversidade e ação afirmativa: uma pausa
para reflexão
O Programa Ações Afirmativas na UFMG destina-se a um público que
tem como característica principal a vivência de um determinado tempo/ciclo da
vida: a juventude. Nesse sentido, as suas ações e propostas estão articuladas com
as expectativas, desejos, sonhos e desafios presentes nesse importante momento
da temporalidade humana. Para tal, é preciso ter clara a concepção de juventude
com a qual trabalhamos.
A juventude, como nos diz Juarez Dayrell (2001:26), não se reduz a um momento de transição, a um tempo de prazer e de expressão de comportamentos exóticos, tampouco se restringe a uma fase de crise dominada por conflitos ligados à
auto-estima e/ou à personalidade. O autor nos diz que, embora não seja fácil construir uma definição da juventude enquanto categoria, uma vez que os critérios que a
constituem são históricos e culturais, podemos entendê-la, ao mesmo tempo, como
uma condição social e um tipo de representação. Essa compreensão poderá alargar a
nossa visão sobre esse importante tempo/ciclo da vida no que ele apresenta de universal – do ponto de vista do desenvolvimento físico e das mudanças psicológicas
– e também de particular – nas suas variações e diversidade de condição social, sexual, de gênero, de raça, de valores, de localização geográfica, entre outros fatores.
Ao tentarmos compreender a juventude para além dos modelos predeterminados e das imagens estereotipadas, deparamos com vários desafios: como compreender a diversidade de modos de ser jovem? Como entender as diferentes maneiras
através das quais os jovens constroem suas identidades de gênero e de raça? Como
nos aproximar do mundo juvenil e de suas diferentes expressões culturais? Como
incluir essas particularidades na elaboração e implementação do currículo escolar?
Como tornar a universidade um espaço de conhecimento e de socialização que se
aproxime cada vez mais do universo juvenil? Como explorar as potencialidades dos
jovens, entendendo-os como sujeitos socioculturais?
Esses desafios e questionamentos nos mostram que os (as) professores (as)
universitários (as) precisam incorporar mais uma competência à sua formação e à
sua prática: a sensibilidade para com os sujeitos nos seus diferentes tempos/ciclos
da vida. Essa nova competência poderá orientar a construção de estratégias pedagógicas e acadêmicas que contemplem, simultaneamente, os aspectos comuns e as
particularidades das vivências dos sujeitos que participam da vida acadêmica.
Essa parte do artigo reapresenta algumas idéias já trabalhadas em outro texto de minha autoria, o qual se
encontra citado nas referências bibliográficas, porém, com várias modificações e atualizações.
247
Contudo, os projetos e programas voltados para a juventude atualmente em
curso na sociedade brasileira revelam que, para que essas iniciativas sejam bem sucedidas, não basta apenas incorporar a discussão conceitual sobre essa categoria de
idade. Faz-se necessário compreendê-la na sua articulação com o universo cultural,
as condições socioeconômicas, o mercado de trabalho e a diversidade étnico-racial.
Ao considerarmos a trama complexa entre juventude, diversidade étnico-racial e ações afirmativas, percebemos que existem diferentes modos de “ser jovem” e
diversas interpretações sobre a juventude, seus dilemas e desafios. Estes se articulam
com a construção da identidade étnico-racial e com as diferentes visões e experiências
vividas pelos jovens negros e brancos no Brasil. Veremos, então, que o pertencimento
étnico-racial opera como um elemento diferenciador na construção da identidade juvenil e nas oportunidades sociais com as quais os jovens se deparam na vida.
Se entendemos a juventude como um tempo/ciclo que possui um sentido em si
mesmo, não podemos considerar os jovens universitários como um bloco homogêneo. Eles
diferem em condição socioeconômica, idade, gênero, raça/etnia, expectativas, desejos e nível de inserção e participação social. Será que, nesse contexto tão diverso, estamos atentos
às demandas colocadas pela juventude negra? Será que percebemos que os jovens negros
e pobres enfrentam outro tipo de desafio social, muito diferente daquele colocado para os
seus parceiros brancos? Não se trata de “medir” quem “sofre” mais com as injustiças e as
desigualdades sociais e raciais, mas entender a especificidade do recorte étnico-racial na
trajetória, nas oportunidades sociais, na condição de vida juvenil de negros e brancos brasileiros. Essa compreensão poderá nos ajudar a implementar estratégias e políticas públicas
que considerem, ao mesmo tempo, a diversidade cultural presente na realidade juvenil e os
efeitos da desigualdade racial nas trajetórias de vida e escolar da juventude brasileira. Um
desses efeitos é o pouco acesso dos (as) jovens negros (as) à educação superior.
Nesse sentido, podemos dizer que estamos diante de juventudes, no plural, e não de
uma única forma de viver e de ser jovem. Será que a universidade está atenta para isso? Será
que, ao entrar para o ensino superior, o jovem passa a ser visto somente como “universitário”,
como se tal nomeação pudesse englobar tudo o que diz respeito à sua vida? E as suas experiências? Os seus valores? As suas potencialidades? Será que o vestibular e a nota classificatória
já dizem tudo sobre esse (a) jovem? Afinal, a universidade sabe qual é o perfil dos jovens
com o quais trabalha? Conhece o perfil étnico-racial do seu alunado? Como o saber crítico
da universidade lida com os saberes dos jovens de classe média e os de origem popular?
Como o saber universitário lida com as trajetórias sociais e escolares de jovens negros (as) e
brancos(as)? São algumas questões que deveriam ser colocadas pela universidade pública ao
refletir sobre a democratização do acesso e da permanência no ensino superior.
248
As desigualdades raciais na educação superior e o
Programa Ações Afirmativas na UFMG
Ações Afirmativas na UFMG é um programa de pesquisa, ensino e extensão,
sediado na Faculdade de Educação da UFMG, voltado para um grupo étnico/racial
e social específico: alunos (as) negros (as), sobretudo os de baixa renda, regularmente matriculados em qualquer curso de graduação dessa universidade.
Esse Programa conta com a participação de onze professores(as) das seguintes faculdades: Faculdade Educação (FaE), Escola da Ciência da Informação (ECI)
e Escola de Ensino Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG (CP/UFMG).
Os parceiros dessa experiência são: a Pró-Reitoria de Extensão, a Fundação Universitária Mendes Pimentel (FUMP), o Centro Cultural da UFMG, a Secretaria
Municipal de Educação e a Fundação Centro de Referência da Cultura Negra (uma
organização do Movimento Negro de Belo Horizonte).
O Programa Ações Afirmativas na UFMG contou até o início de 2005 com
11 bolsistas de tempo integral, sendo nove mulheres e dois homens, da Faculdade
de Educação, da Escola de Ciência de Informação da UFMG, da Escola de Belas
Artes e do Instituto de Geociências. Estes se distribuem em diferentes projetos: pesquisa, ensino, extensão e bolsas socioeducacionais. Após esse período, integraram-se
ao Programa mais 25 jovens do Programa Conexões de Saberes da UFMG (uma
iniciativa da Secretaria de Educação Continuada Alfabetização e Diversidade). No
ano de 2005, o Programa passou a contar ainda com a participação de quatro alunos
da pós-graduação em educação da FaE/ UFMG, sendo dois do doutorado e dois
do mestrado, e um aluno do mestrado em Sociologia da Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas (FAFICH).
De um modo geral, todos os alunos de graduação vinculados ao Programa
são negros (autodeclarados pretos e pardos), de baixa renda e os primeiros, dentro
de uma história familiar marcada pela pobreza, que conseguiram chegar à universidade pública. Além destes, nos cursos de aperfeiçoamento acadêmico promovidos
pelo Programa nos anos de 2003 e 2004, circularam em torno de 100 jovens negros
e alguns brancos de diferentes cursos da graduação: pedagogia, letras, medicina,
O Programa Ações Afirmativas na UFMG é um dos 27 aprovados do Concurso Cor no Ensino Superior,
lançado em setembro de 2001, pelo Programa Políticas da Cor, do Laboratório de Políticas Públicas da
UERJ, numa parceria com a Fundação Ford. O Programa Ações Afirmativas realizou as atividades durante
os anos de 2003 e 2004 com um recurso recebido do PPCOR.
Professores integrantes do projeto: Nilma Lino Gomes (coordenadora – FaE/UFMG), Ana Maria Rabelo Gomes (FaE/UFMG), Antônia Vitória Soares Aranha (FaE/UFMG), Aracy Alves Martins (FaE/UFMG),
Elânia de Oliveira (Centro Pedagógico/UFMG), Inês Assunção de Castro Teixeira (FaE/UFMG), Juarez
Tarcísio Dayrell (FaE/UFMG), Luiz Alberto Oliveira Gonçalves (FaE/UFMG), Maria Aparecida Moura (ECI/
UFMG), Maria Cristina Soares de Gouvêa (FaE/UFMG), Rildo Cosson (Câmara dos Deputados CEFOR).
249
engenharia, biblioteconomia, geografia, história, belas artes, artes cênicas, ciências
sociais, farmácia, ciências biológicas, educação física, direito, entre outros. Nem todos esses jovens negros foram incorporados como bolsistas do Programa, porém,
eles são considerados pela equipe de alunos (as) e professores (as) como “jovens do
Ações”, pois além de terem participado de atividades do mesmo, ajudam a divulgar
o trabalho dentro e fora da UFMG.
O foco principal do Programa Ações Afirmativas na UFMG é o investimento no potencial dos jovens atendidos, com vistas a possibilitar-lhes uma formação
de qualidade e um espaço acadêmico democrático para que possam desenvolver suas
potencialidades e competir em igualdade de condições nos setores da vida social em
que desejam atuar.
Para tal, o Programa estrutura-se em duas linhas de ação. A primeira envolve atividades para apoiar os (as) estudantes beneficiários (as) do projeto do ponto
de vista acadêmico. Pretende-se apoiá-los no seu curso de graduação e prepará-los
para a futura entrada na pós-graduação. A segunda volta-se para a pesquisa e o conhecimento acerca da questão racial na sociedade brasileira. Para tal, são realizados
debates, palestras, conferências, seminários e apresentação de pesquisas sobre a diversidade étnico-racial. Tais atividades, abertas ao público em geral, são obrigatórias
para os (as) bolsistas do Programa.
A seleção dos alunos e alunas beneficiários é feita pela coordenação do Programa Ações Afirmativas na UFMG, junto com outros professores (as) da equipe.
Os alunos inscrevem-se para os cursos e oficinas e são submetidos a uma entrevista,
durante a qual preenchem um relatório socioeconômico, recebem informações e
busca-se verificar se o seu perfil encaixa-se no projeto. Alguns requisitos são considerados prioritários na seleção dos alunos e das alunas:
• ser negro(a) e identificar-se como tal, mediante ficha de inscrição e
entrevista;
• estar regularmente matriculado na Universidade, seja em curso diurno
ou noturno;
• apresentar condições para envolver-se nas ações previstas pelo projeto.
A luta histórica do Movimento Negro em prol da educação e da igualdade
racial, e as pesquisas oficiais que comprovam a existência de uma alarmante desigualdade entre negros e brancos no Brasil, são os eixos que orientaram a escolha dos
critérios de seleção acima citados.
250
Ao analisar o quadro de desigualdade racial no país, é importante retomarmos a pesquisa do IPEA “Desigualdade racial no Brasil; evolução das
condições de vida na década de 90”, de autoria de Ricardo Henriques (2001).
Esta tem sido, nos últimos anos, uma referência recorrente nos estudos sobre
desigualdade racial, pois traz, com clareza de dados e análises, uma situação
já denunciada historicamente pelo Movimento Negro, mas que nem sempre
recebeu a devida atenção por parte dos governos, órgãos oficiais e da maior
parte dos acadêmicos brasileiros.
A pesquisa revela, no que diz respeito ao projeto de sociedade que o
país está construindo, que o mais inquietante é a evolução histórica e a tendência de longo prazo da discriminação racial. Segundo o IPEA, apesar de
a escolaridade média do segmento negro e branco da população ter crescido
ao longo do século XX, o padrão de discriminação racial expresso pelo diferencial de anos de escolaridade entre brancos e negros mantém-se absolutamente estável entre as gerações. O padrão de discriminação racial observado
em nossa sociedade padece de uma inércia histórica. Se queremos construir
uma sociedade democrática e justa, de direito e de fato, não há como negar
a urgência de uma mudança nesse quadro!
As maiores diferenças absolutas em favor dos brancos encontramse nos segmentos mais avançados do ensino formal. A pesquisa ainda
aponta que a realidade do ensino superior, apesar da pequena diferença
absoluta entre as raças, é desoladora. Em 1999, 89% dos jovens brancos
entre 18 e 25 anos não haviam ingressado na universidade. Os jovens negros nessa mesma faixa de idade, por sua vez, praticamente não dispõem
do direito de acesso ao ensino superior, na medida em que 98% deles não
ingressaram na universidade.
A constatação de que só uma parcela de 2% dos negros chegam aos
cursos superiores tem apontado para a necessidade de ações diretamente
voltadas para esse nível de ensino, no sentido de reverter, de maneira positiva, não só a situação de entrada do (a) jovem negro (a), mas, também, de
viabilizar a sua permanência na universidade.
Esse é o contexto no qual se insere o Programa Ações Afirmativas
na UFMG e é esse quadro de desigualdade racial na educação superior
que as ações por ele desenvolvidas no interior da UFMG pretendem ajudar a superar.
251
A permanência de alunos(as) negros(as) na UFMG:
alguns resultados do Programa
A permanência bem sucedi.da de alunos (as) negros (as), sobretudo os de
baixa-renda, na universidade é uma situação preocupante, não só para as instituições
que já implementaram as cotas raciais, mas, também, para aquelas que desenvolvem
outras iniciativas de ações afirmativas no seu interior e que ainda não conseguiram
implementar a política de cotas.
É preciso constituir um corpo teórico de pesquisas que investiguem como
tem sido a permanência da juventude negra na educação superior, tanto nas universidades que implementaram cotas como naquelas que ainda não o fizeram.
No entanto, os programas e projetos de ações afirmativas já existentes apontam
para o fato de que a trajetória acadêmica desses jovens na universidade, sem uma
adequada política de permanência, não tem sido uma tarefa fácil. Isso reforça
ainda mais a demanda pela implementação das cotas raciais em conjunto com
ações, projetos e programas de permanência. Não basta apenas abrir as portas dos
cursos superiores para a juventude negra. É preciso também garantir, para os(as)
nossos(as) jovens, condições adequadas de continuidade dos estudos, de formação
acadêmica e científica.
É no contexto das ações voltadas para a permanência dos(as) jovens negros(as)
que estudam na universidade que o Programa Ações Afirmativas na UFMG vem
realizando o seu trabalho. Entendemos que a nossa proposta de ações afirmativas,
bem como outras já desenvolvidas na sociedade e na universidade brasileira, poderão
contribuir no desenvolvimento de uma nova postura da universidade pública diante
da desigualdade racial infligida aos alunos e alunas negras. Essa postura questiona
a posição de neutralidade e de mera espectadora adotada pela universidade diante
dos conflitos e das desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira. Por meio
dessa postura, cobra-se também da instituição universitária uma atuação eficaz na
concretização da igualdade de condições e de oportunidades para os negros e negras
na educação superior.
As atividades do Programa Ações Afirmativas na UFMG começaram em
agosto de 2002, com o I Seminário Nacional “Ações Afirmativas na UFMG: acesso
e permanência da população negra no ensino superior”, realizado na FaE/UFMG.
Logo após, iniciamos as turmas dos cursos gratuitos de aprofundamento acadêmico,
a saber: três turmas do curso de leitura e produção de textos acadêmicos, duas de
informática e duas de elaboração de projetos de pesquisa.
252
Nesse artigo, relataremos as principais ações desenvolvidas no ano de 2004,
a fim de compartilhar com os leitores e as leitoras um pouco da experiência de
permanência bem-sucedida para jovens negros (as) desenvolvida pelo Programa, no
interior da UFMG, mesmo com todas as resistências “veladas” que enfrentamos. O
relato dessas ações poderá, quem sabe, inspirar outros grupos, núcleos e projetos,
assim como socializar o trabalho realizado e as dificuldades encontradas pela equipe
na realização desse trabalho.
Sendo assim, no ano de 2004, realizamos os seguintes cursos: 1) “Relações
raciais na sociedade brasileira” (60 horas), com o prof. dr. Luiz Alberto Oliveira
Gonçalves – FaE/UFMG; 2) “Competência informacional” (60 horas), com a prof.
dra. Maria Aparecida Moura – ECI/UFMG e com Rosilene Neves, bibliotecária
da FaE/UFMG; 3) “História, educação e cultura afro-brasileira” (10 horas), com
o prof. dr. José de Sousa Miguel Lopes – UNIVALE; 1) sobre Nina Rodrigues,
Oliveira Vianna e Gilberto Freyre (30 horas cada), com o prof. Dalmar Francisco
– FAFICH; 5) sobre Arthur Ramos (30 horas), com a profa. Maria José Campos
(doutoranda em antropologia FFCH/USP).
Os cursos são freqüentados por alunos (as) de diferentes unidades e áreas do
conhecimento, o que garante a diversidade acadêmica e a riqueza da proposta e a
torna ainda mais desafiadora. Todos os cursos são gratuitos e cada um deles contou com uma média de 25 alunos (as). Ao final, os alunos e as alunas recebem um
certificado de participação emitido pelo Centro de Extensão (CENEX) da FaE/
UFMG, o qual além de ser incorporado no currículo pode ser validado (de acordo
com as normas do colegiado de curso) como atividade extra-curricular ou como
disciplina optativa. Os vários momentos desse processo são fotografados e filmados.
Pretende-se, dentro do projeto de produção documental do Ações Afirmativas na
UFMG, editar as fitas e disponibilizá-las na biblioteca da FaE, bem como para os
(as) professores (as) da rede pública de ensino.
Com o apoio do Programa de Apoio Integrado a Eventos (PAIE), da UFMG,
realizamos, também, três debates, abertos ao público em geral, durante o ano de 2004:
1) “3o Ciclo de Debates”, com o professor, advogado e presidente da Comissão dos
Direitos Humanos da OAB-SP, dr. Hédio Silva Júnior, com o tema: Direito à educação
e ações afirmativas, no mês de abril; 2) aula inaugural do Programa de Aprimoramento
Discente (PAD), com a palestra “Teorias raciais como teorias das diferenças”, proferida
pela professora e antropóloga da USP, Lilia K. Moritz Schwarcz, em maio; e 3) palestra
“Desigualdades raciais e políticas públicas”, ministrada pela socióloga e professora da
Universidade Católica da Bahia, professora Luiza Bairros, no dia 24 de junho.
253
Além disso, realizamos, no dia 09 de novembro de 2004, o “II Seminário Nacional Ações Afirmativas na UFMG: acesso e permanência da população negra na
educação superior”, reunindo um público de 500 pessoas no auditório da Faculdade
de Educação da UFMG, nos períodos da manhã, tarde e noite.
O Programa ainda mantém uma parceria com a Fundação Universitária
Mendes Pimentel (FUMP), por meio da concessão de três bolsas socioeducacionais
para os alunos negros de baixa renda já em atendimento pelo mesmo.
O Programa também produziu um vídeo institucional, dentro do projeto
“Ciclos de Debates e Produção Documental”, de 40 min., intitulado “Ações Afirmativas: entre o projeto e o gesto”, coordenado pela professora Maria Aparecida
Moura e por três bolsistas de extensão.
Recebemos, em 2004, duas premiações: 1) no Congresso Nacional de Extensão: Projeto Identidades e Corporeidades Negras – Oficinas Culturais; e 2) na Semana de Iniciação Científica da UFMG, na qual a pesquisa “Formando Professores(as)
da Educação Básica para a Diversidade” mereceu menção honrosa como uma das
melhores na área de Ciências Humanas.
Além disso, cinco alunos já foram aprovados na pós-graduação, em nível
de mestrado, em diferentes cursos, como História da Educação – USP, Sociologia
– FAFICH/UFMG, Política Educacional – USP, Letras – UFMG, e uma aluna foi
aprovada na seleção do Programa Internacional de Bolsas para a Pós-Graduação da
Fundação Ford – 2001/2005.
Além dessas atividades, o Programa Ações Afirmativas na UFMG desenvolve um projeto de extensão voltado para a formação continuada de professores
(as) da educação básica, na perspectiva da lei 10.639/03, que tornou obrigatório o
ensino sobre História da África e da Cultura Afro-Brasileira, nas escolas públicas
e particulares da Educação Básica. Trata-se do projeto de extensão Identidades e
Corporeidades Negras – Oficinas Culturais.
Este projeto, aprovado pela Pró-Reitoria de extensão da UFMG, teve o seu
início em 2003 e continua até o presente momento, atuando com professores e professoras das redes estadual e municipal de ensino e docentes do segundo ciclo da
Escola de Ensino Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG. O seu objetivo
principal é estimular e subsidiar os educadores e as educadoras para que desenvolvam um trabalho mais elaborado com a diversidade étnico-racial em sala de aula e
possam aprofundar seus conhecimentos teóricos. A proposta conta com a participação de integrantes do Movimento Negro e pesquisadores(as) sobre a questão racial,
254
os quais atuam diretamente com os docentes. A metodologia do curso se dá por
meio de oficinas culturais, que têm como objetivo a produção de algum material
didático ou de reflexão individual e coletiva. Este material tem sido coletado, analisado e futuramente será publicado. Para a realização do trabalho contamos com três
bolsistas de extensão e a assessoria da Fundação Centro de Referência da Cultura
Negra de Belo Horizonte.
O segundo projeto desenvolvido a partir do ano de 2004 e que teve sua continuidade aprovada em 2005 intitula-se “O contato com a alteridade: as teorias
raciais na sociedade brasileira”. Essa proposta faz parte de um programa de estudos da UFMG, o Programa de Aprimoramento Discente – PAD, aprovado pela
Pró-Reitoria de Graduação e conta com a participação de quatro bolsistas e dois
voluntários. Nesse projeto, os alunos e as alunas negros de diferentes cursos de graduação refletem, a partir do estudo de alguns teóricos, acerca das particularidades da
produção teórica brasileira sobre relações raciais marcada por eixos historiográficos,
antropológicos e sociológicos.
Parte-se do pressuposto de que não há como analisar a discussão sobre a
questão racial no Brasil sem perguntar pelo lugar assumido por essa temática na
academia brasileira, principalmente, na configuração das ciências sociais em nosso
país. Nesse sentido, os alunos e as alunas, durante todo o ano letivo, participam de
um projeto de estudos e leituras mediante um cronograma de trabalho, leituras,
seminários e debates sob a coordenação de uma professora da equipe do Ações
Afirmativas na UFMG.
O trabalho realizado pelo Programa ainda possibilitou a elaboração de uma
proposta de pesquisa intitulada “Formando Professores(as) da Educação Básica para
a Diversidade”. Privilegiou-se como eixo dessa pesquisa a busca de informações
qualitativas sobre os percursos biográficos e políticos trilhados pelos(as) docentes
que integram o projeto de extensão Identidades e Corporeidades Negra – Oficinas
Culturais, através da observação participante e do estudo das histórias de vida. É
também intenção da pesquisa conhecer, acompanhar e analisar as estratégias pedagógicas voltadas para o trato da questão racial implementadas por estes/as profissionais no cotidiano da sala de aula. Para realização desse trabalho, obtivemos a concessão de 01 bolsa de iniciação científica do CNPQ a partir de agosto de 2004.
A experiência do Programa Ações Afirmativas na UFMG tem sido registrada em artigos, livros, congressos e seminários nacionais e internacionais, através do
trabalho realizado pela equipe de professores(as) e pelos(as) bolsistas de extensão,
ensino e pesquisa. Durante o II Seminário Nacional, em 2004, foi lançado o livro
255
Afirmando Direitos: acesso e permanência de jovens negros na universidade, narrando o
trabalho de dois anos do Programa.
A inclusão de bolsistas negros mediante a realização de projetos de pesquisa,
ensino e extensão faz parte de um dos princípios do Ações Afirmativas na UFMG:
não limitar a sua ação de formação acadêmica dos(as) alunos(as) ao recurso recebido
pela Fundação Ford. Entendemos que esse recurso deve ser usado pelo Programa
na construção de uma infra-estrutura mínima para os alunos e alunas tais como:
compra de computadores, impressora, material de consumo, xerox, ajuda financeira
aos(às) alunos(as) para participação em eventos científicos, compra de livros, realização dos cursos, debates, seminários, entre outros. O projeto é sediado na Faculdade de Educação da UFMG e conta com uma infra-estrutura mínima: dois
computadores, uma impressora, uma mesa e algumas cadeiras. Nota-se, aqui, uma
grande contradição entre o trabalho que vem sendo realizado e as condições físicas e de infra-estrutura para o funcionamento do Programa. Além dessas precárias
condições, contamos com a ajuda de todos os professores e professoras da equipe,
ao cederem, sempre que necessário, gabinetes e equipamentos para a realização das
atividades. Além disso, a infra-estrutura da Faculdade de Educação (como laboratórios de informática, acesso à internet, uso de filmadora e máquina fotográfica
digital) e da Escola de Ciência da Informação (que cedeu uma sala, computadores
e uma pequena estrutura de móveis para o funcionamento do PAD) é utilizada
pelos alunos e alunas no desenvolvimento das atividades acadêmicas. A equipe tem
como princípio que o Programa tem que ser incorporado pela universidade, dentro
da estrutura desta e não como um universo à parte. Isso tem nos desafiado a usar e
apropriar do espaço público da UFMG, sem contudo deixar de demandar um local
específico para a realização das atividades cotidianas, de organização e de rotina do
Programa. Faz-se necessário para professores(as) e alunos(as) a existência de um
espaço físico que possa ser visto e utilizado como sede do Ações Afirmativas. Esta
é também uma forma de construção de uma identidade acadêmica do Programa no
interior da universidade.
A equipe do Programa acredita que a concessão de bolsas acadêmicas, de
pesquisa e de extensão deve ser uma tarefa da universidade pública. Como ainda não existe no interior do Ministério da Educação um programa nacional de
Organizado pelas professoras Nilma Lino Gomes e Aracy Alves Martins (2004).
No ano de 2005, o Programa Ações Afirmativas conseguiu um espaço físico na Faculdade de Educação
da UFMG, o qual é dividido com o Programa Observatório da Juventude da UFMG. Ainda não estamos na situação desejada, mas sabemos que a localização física dentro de uma faculdade faz parte de
um processo de institucionalização do mesmo. Até então, o Programa funcionava dentro do gabinete da
professora/coordenadora.
256
ações afirmativas voltado para o ensino superior, o Programa Ações Afirmativas
na UFMG segue, a cada ano, concorrendo aos editais públicos da própria UFMG
e dos órgãos de financiamento e apoio à pesquisa científica tais como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), a Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e outros. Até o
momento, temos sido bem sucedidos nessa empreitada, o que não diminui a nossa
expectativa e insegurança, pois a cada ano aumenta mais o número de projetos e
professores inscritos nos editais de pesquisa e extensão da universidade. Nesse contexto, as aprovações conseguidas durante esses dois anos de existência não podem
ser interpretadas como garantia da continuidade das bolsas.
A obtenção das bolsas de extensão, ensino e de pesquisa tem sido uma oportunidade ímpar de fortalecimento acadêmico, político e social dos(as) alunos(as)
negros(as) atendidos(as), possibilitando-lhes uma maior participação na vida acadêmica, o contato com a faculdade em horários diferentes do seu turno de aula,
a convivência com alunos(as) de diferentes cursos e áreas do conhecimento; enfim, garantindo-lhes o direito de se integrar de maneira mais completa à vida da
universidade.
A vida acadêmica é muito mais do que a sala de aula, currículos, disciplinas, e
provas. A universidade, sobretudo a pública, é um espaço rico de oportunidades, debates, pesquisas, discussões, atividades culturais e, conseqüentemente, de produção
de conhecimento científico, entre outros, que, teoricamente, estão à disposição de
todo e qualquer aluno(a). No entanto, no cotidiano acadêmico, as origens socioeconômicas e raciais, o capital cultural, as oportunidades sociais e a desigualdade racial
interpõem trajetórias diferenciadas para os(as) alunos(as) negros(as) e brancos(as).
Por isso, faz-se necessário a construção de ações afirmativas de permanência para
os(as) jovens negros(as) no interior das universidades. Potencial e a capacidade para
aprofundamento nos estudos, bem como para continuar seguindo em frente, todos
esses alunos e alunas têm. Falta-lhes a oportunidade e as condições adequadas para
exercerem o direito de uma trajetória universitária digna que ultrapasse a assistência
estudantil.
Apesar de o Programa Ações Afirmativas na UFMG ser uma proposta
que está em andamento, os dois anos de existência do mesmo já nos possibilitam algumas avaliações e reflexões sobre a sua trajetória. A avaliação da equipe de
professores(as) e de alunos(as) é de que, apesar das dificuldades e da resistência de
muitos setores no interior da UFMG à política de ações afirmativas como uma
medida de democratização do acesso e da permanência de jovens negros na univer-
257
sidade, o Programa Ações Afirmativas na UFMG tem possibilitado mudanças no
interior desta universidade e na vida dos jovens integrantes. No caso da UFMG,
podemos afirmar que, pela primeira vez, esta universidade iniciou o debate sobre
ações afirmativas e cotas para a população negra. Mesmo com muitas resistências
e discordâncias, a comunidade universitária começou a discutir esse tema que hoje
está presente na mídia e no cenário político nacional.
Em relação aos jovens integrantes do projeto, é visível o impacto positivo que
a participação no Ações Afirmativas na UFMG trouxe para os mesmos. Observamos, entre esses jovens, a (re) construção da própria identidade negra, transformando-a de maneira positiva. Em conseqüência, houve também uma maior confiança
nas suas potencialidades; maior interesse pelos estudos; melhor desempenho nos
seus cursos de origem; domínio de instrumentais acadêmicos necessários para uma
formação universitária de qualidade; construção de laços de amizade e solidariedade; maior conhecimento sobre a realidade do jovem negro que estuda na UFMG; e
compreensão da inserção na pós-graduação como um direito e como uma perspectiva acadêmica dentro da sua trajetória escolar.
Desde o surgimento do Programa, é possível notar, no interior da Faculdade de Educação, local onde o projeto está sediado, uma maior presença e circulação de alunas e alunos negros, como bolsistas de iniciação científica do CNPq e
FAPEMIG e como monitores. Alguns fazem parte do Ações Afirmativas e outros
passaram a ser selecionados por professores(as) da instituição que não fazem parte
do programa. Segundo refletimos, então, o Ações Afirmativas vem conseguindo
sensibilizar um outro grupo de professores(as) em relação à situação dos alunos
e alunas negros na universidade. Ao tomarem consciência da existência das desigualdades raciais e de como estas afetam a vida e a trajetória dos(as) alunos(as)
negros(as), alguns docentes começam, mesmo que timidamente, a incluir a ação
afirmativa como um dos critérios para a seleção de alunos da graduação como
bolsistas e monitores(as). Ainda notamos mudanças na vida de alguns professores
e professoras integrantes da equipe, que passaram a compreender mais a seriedade das desigualdades raciais na educação superior brasileira e incluíram a questão
racial nas suas temáticas de pesquisa. É uma mudança lenta, mas consistente e
muito importante.
No início do ano de 2005, o Programa Ações Afirmativas na UFMG, juntamente com o Programa Observatório da Juventude da UFMG, passou a integrar
Vale a pena ler os relatos da equipe de professores(as) negros(as) e brancos(as) registrados no livro Afirmando Direitos: acesso e permanência de jovens negros na universidade (citado na bibliografia), que narra
com detalhes os dois anos de existência do Programa.
258
o projeto Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares, implementado pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade–SECAD/MEC, que oferecerá a jovens universitários
de baixa renda um trabalho de pesquisa e intervenção junto a outros jovens
dos setores populares que ainda não entraram no ensino superior. O objetivo
é potencializar ações coletivas, culturais e políticas que estes já desenvolvem
na sua comunidade e fora dela. Trata-se de um projeto de permanência bem
sucedida, articulado com a valorização de experiências juvenis populares que
precisam ser reconhecidas e incorporadas ao saber crítico que a Universidade
promove. Além disso, espera-se que esses jovens de baixa renda que ainda
não ingressaram na universidade, ao entrarem em contato com os seus pares,
que já venceram a barreira do vestibular e hoje são universitários, possam ser
despertados para o fato de que a universidade pública é um direito de todos,
sobretudo, das populações de baixa renda. A novidade que o Ações Afirmativas implementou na realização do Conexões de Saberes é o recorte étnico/racial na escolha dos candidatos, articulado com o nível socioeconômico. Sendo
assim, na UFMG, o Conexões de Saberes selecionou 25 jovens negros(as) e
de baixa renda, que receberão, durante dois anos, uma bolsa de permanência,
no valor de uma bolsa PIBIC/CNPQ, para realizarem os trabalhos propostos.
Como este é um trabalho novo, ainda estamos na fase inicial de construção
do perfil acadêmico e de vida dos jovens selecionados para, em um momento
posterior, iniciar o trabalho de pesquisa e extensão nas comunidades populares
a serem escolhidas.
Ainda no ano de 2005, o Ações Afirmativas concorreu ao Programa UNIAFRO (edital no 1, de 26 abril de 2005 – MEC/SESU/SECAD) e teve sua proposta aprovada. Essa é uma vitória de toda a equipe e, principalmente, dos(as) jovens
graduandos(as) e pós-graduandos(as) negros(as) que, corajosamente, aceitaram o
desafio de participar de uma proposta de ação afirmativa no interior da UFMG.
Essa aprovação ajudará a consolidar ainda mais o trabalho de fortalecimento acadêmico dos(as) alunos(as) negros(as) da UFMG, concedendo um número maior
de bolsas acadêmicas; realizando cursos de aperfeiçoamento para professores da
rede pública de Belo Horizonte, na perspectiva da Lei nº 10.639/03; desenvolvendo novas pesquisas; produzindo material didático; e realizando mais publicações. Em todos essas ações os(as) bolsistas negros(as) atuarão ao lado equipe de
professores(as) do Programa.
Título da proposta aprovada: “Percursos e horizontes de formação: ações afirmativas para universitários
negros na UFMG: uma proposta do Programa Ações Afirmativas na UFMG”.
259
Concluindo...
Uma coisa é certa: há muito que fazer para a implementação de uma política
de democratização e de inclusão social no ensino superior brasileiro. Voltamos a
insistir que é preciso entender que democratizar o acesso significa também garantir
a permanência bem sucedida. Ampliar o acesso por meio das cotas não é, portanto,
apenas colocar negros e pobres dentro da universidade. É preciso dar-lhes condições
para nela permanecerem e concluírem seus cursos com sucesso!
A experiência do Programa Ações Afirmativas na UFMG é somente uma
dentre as várias iniciativas desenvolvidas pelos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros
e programas de ações afirmativas existentes no interior das universidades públicas
brasileiras. Cada uma, com sua especificidade e raio de atuação, vem desenvolvendo
trabalhos sérios, consistentes e éticos no interior da academia.
No entanto, só isso não basta! A nossa expectativa é de que o Governo Federal e, principalmente, o Ministério da Educação, incorporem a ação afirmativa como
uma política de Estado. Para tal, não basta apenas inseri-la na reforma do ensino
superior. Reconhecemos que se tal inserção acontecesse, poderíamos considerá-la
um avanço e uma conquista, mas é preciso muito mais! É necessário que tal política
seja acompanhada de recursos públicos, destinados para tal, dentro do orçamento
da União10.
10 As ações afirmativas foram transformadas, no texto do segundo Anteprojeto, em meras “políticas de acesso” e de “assistência estudantil”. Embora reconheçamos a necessidade de uma política de assistência
estudantil – que não seja restrita, porém, ao simples assistencialismo –, esclarecemos que a permanência
dos alunos pobres e negros na universidade pública, por meio das ações afirmativas, não é uma questão
de “assistência estudantil”, mas de direito. Nesse sentido, as ações afirmativas devem ser colocadas no
campo das políticas públicas de Estado. Isso precisa ficar explícito no texto da Reforma, ocupando uma
seção própria, assim como estava configurado no primeiro Anteprojeto, que foi lamentavelmente modificado em sua substância. O segundo Anteprojeto apresentado pelo MEC desloca as ações afirmativas do
lugar de políticas de Estado para decisões das instituições de educação superior. A implementação de
cotas raciais e para alunos de escolas públicas é transferida para as disposições transitórias e reduzida
a alguns artigos do Plano Nacional da Educação. O seu caráter de direito imediato é enfraquecido e as
cotas são submetidas a um processo lento e gradual a ser implantado em dez longos anos, segundo o
critério das universidades. (Trecho da carta aberta ao ministro Tarso Genro, assinada pela Associação
Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) e vários Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs).
260
Referências
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Projeto Passagem
do Meio: uma
política de ação
afirmativa na
Universidade Federal
de Goiás*
O
Sales Augusto dos Santos
“Eu acho que os [alunos negros] que entraram [no projeto Passagem do Meio] tiveram
um ato de coragem de entrar”
(Depoimento de professor).
presente artigo tem como objetivo descrever o impacto resultante no
desempenho acadêmico e na visão de mundo dos discentes bolsistas de
um projeto de ação afirmativa, em sua primeira fase (junho de 2002 a
junho de 2003), chamado Passagem do Meio, que está sendo executado na Universidade Federal de Goiás (UFG). Formalmente, a primeira turma de
bolsistas foi selecionada entre 1º e 5 de julho de 2002 e o projeto teve início em
agosto de 2002. Em menor grau, o artigo descreve também o impacto desse projeto
no meio acadêmico dessa universidade, em especial, entre os docentes coordenadores e tutores do projeto.
* Este artigo é apresentado como resultado de minha participação como consultor do Programa Políticas
da Cor na Educação Brasileira (PPCOR), do Laboratório de Políticas Públicas (LPP), da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), financiado pela Fundação Ford. Somos gratos, pela colaboração,
aos(às) professores(as) coordenadores(as) e tutores(as) do projeto Passagem do Meio, bem como aos(às)
alunos(as) bolsistas, ao nos concederem as entrevistas que possibilitaram a elaboração deste artigo.
Também somos gratos a Renato Emerson dos Santos, professor da UERJ e um dos coordenadores do
PPCOR, por nos convidar para participar da avaliação de alguns projetos de ação afirmativa financiados
pelo PPCOR, cuja realização possibilitou a elaboração deste artigo.
Sobre a segunda fase do projeto, vide Costa (2004).
O projeto Passagem do Meio visa a estimular a permanência de alunos de
graduação negros na Universidade Federal de Goiás (UFG), durante sua trajetória
universitária, evitando a evasão, bem como objetiva a inserção desses alunos em
atividades de pesquisa. Além disso, o projeto também almeja preparar os alunos
em conclusão de graduação para se inserirem em programas de pós-graduação de
universidades renomadas.
Na época em que visitamos o projeto Passagem do Meio, no dia 2 de agosto
de 2003, ele beneficiava, por meio de concessão de bolsas de estudo, quinze alunos negros de baixa renda de cursos da área de humanidades, recém aprovados no
concurso vestibular da UFG, bem como dois alunos que estavam em fase de conclusão da graduação. “A idéia central do projeto”, segundo seus proponentes, “é oferecer bolsas de estudo para alguns destes alunos e prepará-los para concorrerem em
condições de igualdade pelas bolsas oferecidas na própria universidade: Iniciação
Científica, PET (Programa Especial de Treinamento) e monitoria”. O Passagem do
Meio, portanto, é um projeto de ampliação das oportunidades de permanência de
universitários negros de baixa renda em uma instituição de ensino superior pública,
mas é também, potencialmente, um caminho de acesso à pós-graduação.
O surgimento do projeto Passagem do Meio deu-se por iniciativa de três
alunos negros da UFG (um rapaz e duas moças) que viram cartazes divulgando o
concurso do Programa Políticas da Cor na Educação Brasileira (PPCOR), do Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ). Motivados, os alunos procuraram dois professores da UFG que já haviam
produzido trabalhos na área de relações raciais e eram sensíveis ao tema, demandando-lhes aceitar o desafio de propor e implementar uma política de ação afirmativa
para universitários negros nessa universidade, por meio do PPCOR.
Ressalte-se que os alunos não só demandaram a elaboração desse projeto
como também envolveram-se na construção do mesmo, tendo tido, inclusive, a iniciativa de convocar os professores para uma primeira reunião, cujo objetivo era de
dar início à elaboração do projeto. Como veremos mais adiante, a maneira como
surgiu o projeto proporcionou a integração de professores negros e brancos, bem
como de alunos negros que viviam no campus universitário sem nenhuma ligação
acadêmica – no que toca à pesquisa e/ou ao ensino/estudo das relações raciais brasileiras – e menos ainda no que tange a relações interpessoais ou de amizade.
Ante esse fato, também entendemos que esse projeto também é de acesso, no caso, à pós-graduação.
Os professores foram: Joaze Bernardino Costa e Alecsandro Ratts, que são os coordenadores do projeto
Passagem do Meio. Posteriormente a professora Adriane Damascena tornou-se coordenadora pedagógica
do projeto..
264
Assim sendo, no presente artigo buscaremos fazer dois tipos de análise. À
primeira, que será mais sintética, nós denominaremos de análise quantitativa. Com
ela, verificaremos se as metas propostas pelo projeto foram atingidas em sua primeira fase. A segunda análise, que denominaremos de análise qualitativa, busca verificar
se o projeto proporcionou outros benefícios, que não estavam previstos em seus objetivos explícitos, tais como, por exemplo, a elevação da auto-estima dos bolsistas; e
a desconstrução, reconstrução ou mesmo construção de uma nova identidade racial
dos bolsistas. Em realidade, o presente artigo terá um caráter mais descritivo que
analítico.
Das análises quantitativa e qualitativa
Ao realizarmos a visita técnica ao projeto, em agosto de 2003, verificamos que
o Passagem do Meio gozava de uma infra-estrutura razoável. Ele estava fisicamente
localizado numa sala do Museu Antropológico da UFG, onde havia um computador
com uma impressora e um scanner, com os quais professores e alunos podiam realizar trabalhos e acessar a internet. Nesse espaço físico eram realizadas reuniões entre
professores e alunos, para orientação, entre outras atividades. Mas o espaço físico do
projeto não se limitava a esta sala. Alunos e professores também tinham acesso a
uma ampla sala, onde eram ministrados mini-cursos, seminários e palestras, entre
outras atividades acadêmicas. Nessa sala ampla, entrevistamos dez alunos, sete mulheres e três homens. Cinco destes alunos autoclassificaram-se como pardos e cinco
como pretos, conforme os questionários que responderam. A maioria absoluta dos
pais destes alunos possuía até o primeiro grau completo; apenas duas mães possuíam
o terceiro grau completo. Nove dos alunos entrevistados concluíram o ensino médio
em escolas públicas e apenas uma concluiu-o em escola privada, embora tendo feito
o primeiro e o segundo ano do ensino médio em escola pública. Portanto, conforme
tudo indica, os coordenadores do projeto Passagem do Meio selecionaram bolsistas
afro-brasileiros de baixa renda, de acordo com a orientação e proposta do projeto.
Considerando apenas os seus objetivos manifestos pode-se afirmar tranqüilamente que o projeto tem obtido sucesso, dado que em sua primeira fase, ou em seu
primeiro ano, atingiu plenamente, ou de maneira significativa, as metas propostas.
Nove dos dezessete alunos bolsistas do primeiro ano do projeto conseguiram, no
A coordenação do PPCOR nos sugeriu que entrevistássemos no mínimo dez alunos, cinco de cada sexo.
Mas no dia e horário da entrevista apenas três homens puderam comparecer. Em função disso, o número
de mulheres foi bem maior que o de homens no momento da entrevista.
Na realidade quinze bolsistas eram alunos que estavam no início do curso de graduação e dois estavam
em fase de conclusão.
265
ano seguinte, obter bolsas universitárias oferecidas pela própria UFG, como PIBIC,
PET, entre outras. Dos dois alunos bolsistas que estavam cursando o último ano
do seu curso universitário e que estavam sendo preparados para ingressarem no
mestrado, uma foi aprovada em um curso de mestrado na Universidade de Brasília
(UNB) e o outro, apesar de não ter sido aprovado no mestrado, estava matriculado
como aluno especial em um curso de pós-graduação strictu sensu na UFG. Portanto,
em termos do que foi proposto como meta e do que foi alcançado objetivamente,
podemos afirmar que este projeto é um sucesso acadêmico.
Mas o projeto Passagem do Meio extrapola os seus objetivos manifestos ou,
se se quiser, aqueles que podem ser quantificados, como se verá a seguir.
Embora não salientado anteriormente, o projeto também tem por objetivo discutir academicamente a questão racial brasileira com os bolsistas. Este, ao
que parece, é um objetivo acadêmico e político, simultaneamente, haja vista o que
afirmaram os seus coordenadores: “pretendemos desencadear o debate a respeito
de ação afirmativa para a população negra”. Pensamos que neste item o Passagem
do Meio também tem conseguido sucesso acadêmico e político, uma vez que tem
proporcionado a inserção qualificada do debate supracitado não só entre os participantes do projeto (bolsistas e tutores) mas também entre os demais docentes e
discentes da universidade. Além disso, o projeto tem proporcionado a introdução da
discussão acadêmica da questão racial numa parte significativa da sociedade goianiense organizada. Não só os coordenadores do projeto Passagem do Meio, mas
também alguns bolsistas do projeto passaram a ser convidados pela mídia, bem
como por alguns órgãos do estado goiano, entre outras instituições, para discutirem
a questão racial publicamente. Ou seja, o projeto tem logrado legitimidade e visibilidade não só na academia, mas também na sociedade goiana. Conforme os próprios
professores afirmam,
O projeto se tornou uma referência dentro da universidade e também dentro
da cidade, em Goiânia (Professor X).
[O projeto proporcionou uma] abertura de oportunidade, [...] Todo um processo de estímulo, de melhoria da qualidade da vida acadêmica de nossos alunos e nossa também, dos professores. Com relação ao impacto na comunidade,
Aqui iniciamos o que denominamos de análise qualitativa.
Entrevistamos cinco professores (três coordenadores e dois tutores), no dia 02/08/2003. A entrevista foi
coletiva, como um grupo focal. Fazíamos as perguntas e pedíamos para qualquer professor(a) respondêlas. Caso a resposta fosse consensual passávamos para outras questões. Caso houvesse divergências ou
outras considerações por parte dos professores(as), qualquer um(a) poderia manifestá-las. As opiniões,
pensamentos, reflexões ou argumentos expressos pelos professores que aparecem nas citações acima
são aquelas consensuais. Geralmente essas opiniões/argumentos aparecerão na primeira pessoa, mas
conforme a explicação acima, expressam o que o grupo consensualmente pensa.
266
a gente está tendo demanda da rede pública de ensino. A Secretaria Municipal
de Educação tem perguntado sobre possibilidades de assessoria, [...] isso por
conta da visibilidade do projeto. Também no meu caso, particularmente, me
perguntaram sobre a possibilidade de participação numa abertura de discussão
na Câmara Legislativa. São campos, são demandas que estão aparecendo, da
comunidade da cidade de Goiânia, principalmente (Professora A).
O impacto do projeto na imprensa, o projeto já foi assunto na imprensa, tanto na
escrita quanto na falada algumas vezes, durante esse primeiro ano (Professor X).
Internamente, ou melhor, no âmbito acadêmico estrito, esta discussão qualificada da questão racial brasileira entre os participantes do projeto Passagem do Meio
se deu, e/ou ainda se dá, sob a forma de grupo de estudos, minicursos, seminários,
palestras e debates, que são coordenados pelos docentes que participam do projeto (três
coordenadores e onze professores tutores). Houve também a participação de acadêmicos renomados, nos eventos organizados pelo Passagem do Meio. Entre eles podemos
citar, entre outros, os professores doutores José Jorge de Carvalho (UNB), Kabengele
Munanga (USP) e Pablo Gentilli (UERJ), que realizaram palestras relativas à educação
brasileira e/ou à questão racial no Brasil. Estas palestras foram abertas à comunidade
acadêmica da UFG, tendo sido amplamente divulgadas no campus universitário.
Percebe-se facilmente que a proposta pedagógica deste projeto tem qualificado academicamente os alunos negros de baixa renda. Esses não só passaram a
conhecer, compreender e analisar cientificamente a questão racial brasileira. O projeto também os qualificou intelectualmente para os seus próprios cursos de origem,
tornando-os alunos-referência e/ou modelos em seus departamentos. Os bolsistas
do Passagem do Meio desenvolveram e/ou estão desenvolvendo uma aguçada capacidade crítica, em sentido amplo, uma vez que essa crítica não se restringe somente
à análise das relações raciais brasileiras, mas diz respeito também às várias formas
de opressão existentes na sociedade brasileira.
Assim, ao discutir as relações raciais brasileiras, ou termos como discriminação racial, racismo, desigualdade racial e ações afirmativas, o projeto Passagem
do Meio proporcionou mudanças profundas na vida acadêmica e pessoal dos seus
bolsistas. Estas vão desde a reflexão sobre a própria identidade racial até a desconstrução do mito de uma sociedade brasileira racialmente democrática; e do individualismo intelectual até a construção de uma rede de interdependência acadêmica
entre os alunos bolsistas. O projeto Passagem do Meio proporcionou e tem proporcionado aos seus bolsistas, de um lado, o fim do isolamento acadêmico-racial, e de
outro, a construção de um vínculo de amizade para além desse projeto e da própria
267
academia. De acordo com os bolsistas entrevistados, após a participação no Passagem do Meio, eles construíram um vínculo de amizade que extrapola o projeto e as
discussões formais e/ou acadêmicas sobre racialização:
Muitas vezes [a discussão era] sobre racialização, mas em um outro contexto,
mais descontraída, na casa de alguém ou num boteco. [...]. Acho que depois
do projeto, sem dúvida, houve uma aproximação. O pessoal começou a estudar
mais juntos, andar mais juntos. Tanto é que a gente ficava vendo (há um local
mais alto [no campus] e muitas vezes eu fiquei lá em cima olhando) alguns
alunos do Passagem do Meio passando, sempre juntos. Eles começaram a se
aproximar e eu também comecei a me aproximar mais deles, buscando andar
juntos, almoçar juntos, estudar juntos (Universitária A).
Na realidade os bolsistas do Passagem do Meio estabeleceram um vínculo de
amizade e de solidariedade racial que nunca tinham experenciado em sua vivência
acadêmica. Somente três bolsistas se conheciam antes de ingressarem no projeto.
Uma destes estudantes já foi militante de movimentos sociais negros. Mas a experiência de militância negra não foi vivenciada pelos outros bolsistas do Passagem do
Meio. Aliás, todos eles iniciaram a discussão acadêmico-científica da questão racial
brasileira nesse projeto10:
Bem, o projeto foi o primeiro contato que eu tive com esses temas. Anterior a
isso, só mesmo quando se começou a falar na televisão sobre cotas nas escolas
públicas, algumas coisas assim, o que começou a chamar minha atenção para
as pessoas militantes e o movimento [negro] (Universitária B).
Eu não tinha contato nenhum. A gente sempre lê algumas reportagens, olha
algumas coisas, mas contato mesmo, de estar olhando e até mesmo buscando
algumas coisas cientificamente, eu nunca tinha tido. Foi o primeiro, e foi bem
produtivo, porque aconteceu nos primeiros meses em que eu estava na faculdade, então já deu uma abertura bem legal (Universitária C).
Conforme afirmamos antes, entrevistamos dez bolsistas. Como ocorreu com os professores, a entrevista
foi coletiva. Fazíamos as perguntas e pedíamos para qualquer bolsista respondê-las. Caso a resposta
fosse consenso, passávamos para outras questões. Caso houvesse divergências ou outras considerações
por parte dos outros bolsistas, qualquer um poderia manifestá-las. As opiniões, pensamentos, reflexões
ou argumentos expressos nas citações acima foram consensuais ou tiveram concordância da maioria
absoluta dos entrevistados. Geralmente essas opiniões e argumentos aparecerão na primeira pessoa do
singular, mas conforme a explicação acima, expressam o que o grupo consensualmente pensa.
Os mesmos que procuraram os professores para sugerirem a elaboração do projeto Passagem do Meio.
10 Pensamos que a partir daqui vale a pena começar a dar voz aos universitários negros para falarem das
mudanças em suas vidas após a inserção neste projeto. Ou seja, citaremos mais as falas dos bolsistas
entrevistados do que as analisaremos, visto que, ao que parece, elas não precisam de análises ante a
clareza ou contundência do que revelam.
268
Eu também nunca tinha parado para pensar nesse tipo de questão. E até
ignorava; ignorava o preconceito, ignorava o racismo. Levava mesmo ao pé
da letra a questão da democracia racial, que até hoje muita gente acredita que
existe. Depois do projeto, não; comecei a perceber mais. Comecei, ao invés de
ignorar, a tentar discutir e perceber que não adianta fechar os olhos porque
está lá, existe preconceito, existe racismo. Claro que não dá para sair brigando
com todo mundo, mas dá para parar e pensar e tentar discutir. Acho que a
gente não pode deixar morrer a discussão (Universitária D).
Eu conhecia um pouco da questão. Minha mãe não tinha dinheiro para pagar
cursinho para mim. Eu não estava trabalhando; cursinho é caro. Aí eu fiz
cursinho na pastoral da juventude e entrei em contato com pessoas que militavam no Pérola Negra e a questão [racial] foi crescendo. [...] Com o ingresso
no projeto, eu fui lendo os artigos das pessoas. Entrei em contado com o
[professor] Kabenguele Munanga [da USP]. O [professor] Alex Ratts trouxe
[introduziu a leitura dos textos da historiadora] Beatriz do Nascimento. Estou
até fazendo um trabalho sobre a Beatriz do Nascimento, que vou apresentar
para os meus colegas [do curso de história]. Essa historiadora negra é fantástica. A gente teve que escolher grandes historiadores; e eu escolhi a Beatriz
do Nascimento, que meu professor [do curso de história] não conhecia, mas
ele deu todo o apoio, por conhecer o [professor] Joaze Bernardino e o projeto
[Passagem do Meio]. Ele foi se interessando por isso. O projeto fez uma coisa
na UFG que eu achei fantástica. Como a [Universitária A] falou, ele “abriu”.
Nós lemos um texto do Apiah, um [intelectual] africano, toda a graduação vai
ler, o mestrado também lê. [...]. O Passagem do Meio abriu para muita coisas
e foi aí que eu entrei em contato com esses grandes caras que eu nunca tinha
nem ouvido falar em toda a minha vida (Universitária E).
Na avaliação dos bolsistas, a proposta pedagógica deste projeto, com minicursos, seminários, palestras e debates, entre outros métodos ou técnicas de ensinoaprendizagem, assim como o conteúdo destes,
Foi importantíssimo na construção dessa consciência racial. Esse projeto em
si foi um processo de intensas desconstruções e também de construção dessa
consciência. A relação dos projetos eu acho que foi muito bom, no jeito que
foi passado. Tem alguns temas que eu esperava mais, que abrangesse mais
temas. Mas o que foi apresentado foi bom e acho que por ser a primeira [fase
do projeto] foi satisfatória e espero que na segunda [fase] abra esse leque.
E esse material foi muito importante por essa diversidade que ela apontou,
de abranger vários aspectos e várias visões sobre essas coisas. Até mesmo a
269
gente descobriu várias coisas. Eu conheci campos de pesquisa que eu jamais
fazia idéia, nem tinham passado pela minha cabeça. Então, essas discussões
abriram um leque de possibilidade de pesquisa. É muito importante e muito
bom. Com relação aos eventos, os eventos que inicialmente pretendiam contemplar os bolsistas do projeto [...], acabaram sendo abertos e a universidade
ganhou muito com isso. A gente teve pessoas de renome nacional aqui na
universidade, promovendo discussões muito ampliadas, com auditórios lotados, e isso foi muito legal também, porque você contemplou a universidade
como um todo. A discussão sobre racialização foi feita não só entre os participantes do Passagem do Meio, foi aberta. E esse é um ponto que tem que
ser mantido; é um dos pontos extremamente positivos dos eventos que foram
realizados (Universitário K).
Foi bom, porque teve uma diversidade de professores. Cada um falava de uma
maneira diferente, de assuntos diferentes. Por exemplo, o de temática de sexualidade e homossexualidade foi totalmente [aberto], a gente imaginou que
fosse ser uma coisa mais fechada, mas foi super-aberta (Universitária A).
Embora metade dos bolsistas entrevistados tenha se auto-classificado nos
questionários como parda e outra metade como preta, a discussão da questão racial
pelos participantes do Passagem do Meio proporcionou mudanças na identidade
racial de muitos dos integrantes deste projeto. Alguns redefiniram a sua identidade
racial enquanto outros passaram a valorizar positivamente o fato de serem negros11,
elevando a auto-estima de forma inexorável:
Sempre me vi como negro, mas não discutia muito. Aquela pessoa no “banhomaria”. Para onde o vento bater estava bom. Eu era mais ou menos assim.
Hoje não; hoje tenho uma posição mais crítica em relação à minha raça e
minha etnia (Universitário L).
Bem, sabe quando você fica na dúvida. Você se olha no espelho e se vê negra,
mas aí chega a minha mãe e fala: não minha filha, você não é negra! Você é
moreninha. Eu sei porque minha família, geralmente, é mais clara que eu. Então,
11 Vale ressaltar que alguns bolsistas tiveram dúvida em se candidatar a uma bolsa do projeto ante a sua
auto-classificação racial “a única dúvida que eu tive foi em relação a minha identidade racial. Porque eu
estava começando, fazia mais ou menos um ano que eu vinha pensando em como eu me via, negra,
branca. Então, assim a única dúvida que eu tive foi nesse sentido. Mas aí com uma palestra do [professor]
Joaze Bernardino que eu tinha ouvido antes do início do projeto, na véspera, em que ele falava da formação da população negra no Brasil, do contexto histórico e o conceito dos cientistas sociais, de negros
como sendo pretos e pardos, aí eu me vi dentro daquele contexto histórico, minha família e tudo mais” (Estudante). Pode-se supor também, ante esta afirmação, que alguns estudantes que se auto-classificaram
como pardos no questionário provavelmente se definem também como negros, visto que os bolsistas do
projeto também aprenderam que a categoria negro é resultado da junção de duas outras, pretos e pardos,
conforme afirmou a estudante acima.
270
estava numa roda e ficava: gente, eu sou diferente. Minha mãe [dizia]: não, porque
você é mais escurinha, mas você não é negra, você é escurinha. Então tem essa
distinção; eu ficava nessa dúvida, se eu era, se eu não era, por que não era? Então,
o projeto me ajudou a ver que eu era, independente de se eu sou mais clarinha ou
moreninha do que outra pessoa. Eu sou negra devido à minha identidade, devido
aos meus antepassados, devido a meu pai, meu avô. Então, eu me afirmei mesmo,
eu sou negra. Minha tia, até hoje, fala: não, mas você não é negra [...] Aí tenho
que começar: não tia eu sou e tenho que começar a explicar a história para ela. Eu
acho que afirmei minha identidade depois do projeto (Universitária C).
Eu também, isso aconteceu comigo. Comecei a me ver negra depois do projeto,
quando eu entrei na universidade. Não foi nem uma reconstrução de identidade.
Foi uma construção de identidade completa. E o projeto foi uma das coisas,
junto com outras, que possibilitou minha visão de ser negra, porque a impressão
que hoje eu tenho é que antes do projeto e antes de entrar na universidade eu
era bem destoada. Não me identificava com nada e tive muitos problemas com
isso. E depois do projeto que eu tive essa vontade de ser negra e junto com ela
também vieram outras, a entrada na faculdade e tal. Mas foi um marco muito
grande, foi realmente uma construção de identidade (Universitária B).
Passei, lógico, pela questão das meninas. Só que tinha uma questão: eu sempre
estava em busca daquele processo de embranquecimento. Apesar de saber que
sou negra, mas, não aceitar aquilo ali. Então naquele momento, quando as pessoas falavam assim: olha como se trata o negro; nossa, o negro, o preto. Você se
sentia altamente ofendido. Mas quando uma pessoa falava assim: não, é morena!
Aí eu gostava, mesmo olhando e sabendo [que eu não era]. Então o importante
do projeto é que, a partir do contato e da experiência que eu tive, se a pessoa vier
falar para mim: negra, preta. Bom, é isso mesmo que eu sou e tenho orgulho
disso. Eu estou lutando agora por um espaço, mas é um espaço onde eu vou me
inserir sendo negra. Não estou buscando nenhum meio de embranquecimento.
Por exemplo, notas altas, primeiros lugares para ser aceita, nada disso. Acho que
antes a postura era parcial, agora é total (Universitária F).
Essas mudanças não ocorreram somente de uma perspectiva individual de
redefinição da identidade racial, de elevação da auto-estima. O projeto Passagem do
Meio também proporcionou a mudança do ponto de vista dos bolsistas quanto às
relações raciais na sociedade brasileira. Analisando a própria trajetória de vida individual, muitos bolsistas perceberam e compreenderam uma histórica discriminação
que não era individualizada, mas contra o grupo racial negro ao qual pertencem. A
inserção nesse projeto indicou para os seus participantes que a discriminação pode
271
e deve ser combatida não só a partir de comportamentos individuais, mas principalmente coletivamente, por meio de políticas públicas:
Concordo com [o Universitário L], [o Passagem do Meio] foi importante
para eu ter consciência como mulher negra e principalmente ter orgulho. E
também foi importante porque contribuiu para eu olhar para minha trajetória de vida, como empregada doméstica, como uma pessoa que trabalhava
na roça, e ver a minha entrada e minha estadia na universidade. Claro que
também para ter uma perspectiva melhor, em se tratando de área profissional,
de trabalho, mas também de ver quantas coisas eu vivi nessa trajetória, que
presenciava a discriminação e o preconceito, mas de que eu não tomava conta.
Eu achava que aquilo ali era normal, era assim mesmo. Não conseguia fazer
um nexo, não conseguia me posicionar com aquilo. Então, agora, eu olho para
atrás e vejo e tenho uma visão, e me posiciono criticamente, por isso. E olho
para frente também e tenho uma outra visão (Universitário F).
Eu acho que uma das mudanças que ocorreram na visão é justamente na direção
do que a [Universitária A] está falando. Antes de participar do projeto, a gente
tem noção do racismo, mas acredita que o racismo tem uma dimensão muito
individual. Ou seja, o racista é o seu vizinho que conta piada de preto. Com o
ingresso no Passagem do Meio, a gente passa a ter a dimensão mais institucional desse racismo. Ou seja, existe uma desigualdade que é histórica, que tem por
base critérios raciais e que, se não se tomar medidas práticas, medidas em nível
de políticas públicas para reverter esse quadro, nós nunca vamos conseguir reverter, porque às vezes a gente fica numa discussão muito rasteira. Ou seja, você
briga com seu vizinho, você briga com seu colega de escola, mas não briga com
a própria estrutura da sociedade, que acha normal ver uma novela onde todas as
empregadas domésticas são negras. Acho que o Passagem do Meio possibilitou
dar esse salto de qualidade na própria visão da gente (Universitário M).
Antes de participarem do projeto Passagem do Meio, muitos bolsistas do projeto acreditavam que a sociedade brasileira era racialmente democrática. Esse projeto
proporcionou-lhes uma mudança radical quanto a essa histórica construção sócio-racial. Hoje, após a participação neste projeto de ação afirmativa, todos os bolsistas do
Passagem do Meio entrevistados têm a opinião de que a sociedade brasileira é sem
dúvida nenhuma racista, dado que discrimina os negros das mais diversas formas:
Antes do projeto eu acreditava, veementemente, na democracia racial
(Universitária B).
A gente sempre tem aquela visão: Nossa, racismo, não! Eu não sou racista, e
272
tal. E tem todo esse negócio mais. Depois do projeto, a gente vê assim pequenas coisas, que demonstram, sim, que tem um racismo muito forte. Antes
a gente nem pensava nesse tipo de assunto, mas, agora, qualquer coisinha que
você vê, um tipo de fala, uma coisa assim, já mostra a potencialidade do racismo no Brasil que é imensa (Universitária C).
Fui perceber que o racismo tem a ver com todo o processo histórico do Brasil,
com toda a estrutura política, populacional, e várias outras áreas. Antes eu pensava
em racismo nas relações pessoais, nas pequenas coisas. Bom, isso não é pequena
coisa, mas não imaginava que ele tivesse a ver com uma estrutura tão grande, tão
estratificada e tão rígida, forte e difícil de se romper (Universitária G).
Como se vê, o projeto Passagem do Meio não só tem qualificado intelectualmente os seus bolsistas, em sentido amplo, capacitando-os para disputarem
outros tipos de bolsas universitárias, como também tem proporcionado mudanças
profundas na visão de mundo de seus bolsistas, tornando-os críticos quanto à visão
idílica ou de harmonia das relações raciais brasileiras. Portanto, a proposta pedagógica deste projeto, que objetiva discutir academicamente a questão racial brasileira,
tem uma função latente de produzir agentes sociais engajados politicamente na luta
anti-racismo no Brasil. Mais uma vez podemos afirmar, sem tergiversar, que neste
item o Passagem do Meio também tem logrado sucesso.
Porém, este sucesso do projeto Passagem do Meio não foi construído e/ou
obtido sem fortes reações contrárias por parte de discentes e docentes da UFG.
No primeiro momento da implementação desse projeto de ação afirmativa na universidade, houve a predominância de fortes reações negativas contra o mesmo. O
projeto despertou resistências agressivas, principalmente por parte de “estudantes
brancos não carentes” ou que pertenciam às classes média e alta desse grupo racial
de pertença. Segundo os bolsistas do Passagem do Meio, as discussões em sala
de aula (nos cursos de origem dos bolsistas) sobre o projeto eram duríssimas: “as
piadas, isso aconteceu na minha sala de história. Se deixasse saía até cadeira da na
minha sala de aula por conta disso [do projeto Passagem do Meio]” (Universitária
E). Os cartazes do projeto eram pichados no campus universitário, com frases que
acusavam os participantes do Passagem do Meio de racistas. Era uma verdadeira
“tática de guerrilha”, segundo os bolsistas. Mas num segundo momento, após ampla
estratégia para convencer os oponentes e conquistar aliados, os alunos e os professores envolvidos legitimaram o projeto não só por meio de debates públicos sobre
as relações raciais brasileiras, mas pela competência acadêmica demonstrada em seu
desempenho acadêmico nos cursos de origem:
273
Houve dois tipos de reação. Houve pessoas que não pensavam na questão e
passaram a pensar e viram o projeto como algo legítimo, algo que tem que ser
implementado para reverter o quadro vergonhoso da universidade brasileira.
Mas também tem aquele outro tipo de reação, que a gente costuma dizer que
é o bicho que sai da toca. As pessoas que foram para cima, tentando quebrar
a legitimidade do projeto, acusando a gente de racista ao inverso; de a gente
estar promovendo a discriminação; inventando uma discussão que não cabe
para realidade brasileira; e diversos absurdos, de levar piadinha, de fazer pichação nos cartazes que a gente espalhava sobre os eventos. Mas uma das
questões que foi bastante interessante foi a de abrir esse debate, ou seja, as
pessoas que eram favoráveis ou que passaram a acreditar que essa questão era
justa, começaram a se manifestar. Algumas pessoas foram a cabo, com interesse de quebrar nossa própria legitimidade, fazendo todo tipo de discussão suja,
tentando dar rasteira, baixar o nível da discussão. Acho que teve os dois tipos
de reação (Universitário M).
Eu acho interessante, a [Universitária E] tocou num ponto que acho que vale
a pena explorar um pouco mais, que é a própria questão da tática de atacar o
projeto. As pessoas, muitas vezes, e na História foi onde isso ficou bem claro,
se uniam em grupo e atacavam pessoas específicas. No nosso caso, no meu
caso e da [Estudante Y] nas Ciências Sociais, as pessoas não nos atacaram,
porque durante todo o curso, como não éramos as pessoas que encampavam
essa discussão, acho que ficaram com medo, sabendo que o vaso era ruim
e não ia quebrar tão facilmente. Muitas vezes as pessoa optaram por dar a
volta e fazer a discussão rasteira e não vir bater de frente. Como aconteceu
com os meninos da História. De uma forma geral, no primeiro momento a
reação com relação ao projeto, foi bastante negativa. As pessoas até se assustaram com a proposta, de ver alguma coisa que antes era uma “loucura” de
um certo professor da UNB e começaram a ver essa coisa acontecer aqui na
frente delas. Então, num primeiro momento, as pessoas se assustaram com
isso. Mas, num segundo momento, pelo nível da discussão que os integrantes
do projeto, tanto professores como alunos, tentaram manter, tanto dentro de
sala de aula quanto nas conversas de corredor. A gente teve que aprender a
combater nessa tática de guerrilha mesmo, porque os caras sempre queriam
atacar a gente pelas costas, pular no pescoço da gente quando a gente não
estava olhando. Porque, na hora que a gente estava preparado para discussão, por exemplo, num debate, até na ocasião que o [professor] Kabenguele
Munanga [da USP] esteve na faculdade, as pessoas que atacavam a gente no
274
início, não participavam do debate. A questão delas era atacar em outro nível.
No primeiro momento, foi bastante negativo, mas depois a gente começou a
conquistar a legitimidade do projeto. Inclusive para essa segunda seleção não
teve os problemas que teve na época da primeira seleção dos bolsistas. Foi
mais tranqüilo (Universitário M).
Entre os docentes da UFG, a resistência ao projeto Passagem do Meio, ao
que parece, não foi tão agressiva como entre os universitários brancos não carentes
dessa universidade, embora um professor da UFG tenha dito12, para um dos coordenadores desse projeto, poucos anos antes da implementação deste, que estudar/
pesquisar a questão racial é coisa para negro, que não era temática digna de investimento teórico ou digna da ciência. Conforme relatou um dos nossos entrevistados,
Logo quando eu cheguei aqui na universidade, isso aí antes do projeto,
dois anos antes, tinha um professor bem brincalhão, mas esses brincalhões
têm a qualidade de expressar de maneira irônica o que as demais pessoas
gostariam de expressar, mas dado a seriedade elas não expressam. Então,
o professor, que eu tenho alguma relação com ele, falou: “olha, eu vou lá
estudar negro, mulheres e homossexual!?!?! Isso é coisa para negro, bicha
e mulheres; isso não é temática digna de investimento teórico, digno da
ciência ou coisa do tipo”. Então, quer dizer, acho que tem muito essa desqualificação dessas temáticas. Embora nosso projeto seja de relações raciais,
há uma forte entrada em gênero, conseguimos dialogar com um grupo da
universidade que trata de questões homossexuais. É visto um pouco como
uma temática de gueto... (Professor X).
Ao serem perguntados sobre as reações na UFG contra o projeto Passagem
do Meio, os coordenadores(as) deste e os(as) professores tutores(as) que participaram da entrevista afirmaram que,
Quando estavam em pauta os ganhos monetários para a universidade, as
reações foram de aprovação. Agora quando estava em pauta uma discussão
de políticas públicas particularistas, enfim, temos aqueles que compreendem
muito bem isso e nos dão apoio. E, é claro, aconteceram aí piadas, brincadeiras
de cunho racista mesmo, pejorativo, a respeito do projeto (Professor X).
Houve comentários explícitos contrários a qualquer tentativa de discussão racial, de abordagem racial com relação a vagas, a projetos, enfim, atividades
acadêmicas assim, clássicas, pesquisa, extensão (Professora A).
12 Isto foi dito em tom de brincadeira, segundo o nosso entrevistado
275
Reações institucionais abertas, manifestadas claramente, por parte da direção da UFG ou de qualquer outra unidade acadêmica dessa universidade contra o
Passagem do Meio não houve, embora o projeto tenha levado aproximadamente
oito meses para conseguir uma sala própria. Apoio decisivo ao projeto também não
houve, na época de sua implementação, por parte da direção da UFG, embora essa
saiba da existência desse projeto de ação afirmativa na universidade. Como afirmou
um dos professores entrevistados: “ela sabe, mas não sabe [da existência do Passagem do Meio na UFG]”. Contudo, segundo os professores entrevistados, uma das
faculdades da UFG, a Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia (FCHF), apoiou
de forma decisiva o Passagem do Meio, no início de sua implementação. Todavia,
os(as) coordenadores(as) desse projeto, bem como os professores(as) tutores(as) que
participaram da nossa entrevista, pensam que não se pode afirmar tranqüilamente
que esse apoio se manterá incondicional num futuro próximo, ante a discussão sobre a implementação de ações afirmativas na UFG13, especialmente sobre cotas no
vestibular para negros:
Eu acho que precisa dizer, para ficar bem claro isso que o [Professor Y] falou
do apoio [da FCHF] ao projeto, que não temos convicção e não podemos
dizer que há um apoio a ações afirmativas. É um apoio a uma verba alta que
entrou na universidade. Para você ter idéia do funcionamento da universidade,
por exemplo, a FCHF funciona com verba anual de 40 mil reais para promoção de eventos, atividades. Então, nosso projeto tem que diluir 84 mil em dois
anos, que é o tempo previsto do projeto. Então o projeto tem o mesmo tanto
de recursos que uma unidade que congrega por volta de 50 professores. Pode
ser um apoio a ações afirmativas, mas talvez seja um apoio a ações afirmativas dessa maneira, uma ação afirmativa que não tenha como conseqüência a
repartição dos bens escassos da universidade. Ou seja, você chegou com nova
grana na universidade, você não está tirando do orçamento existente um a
quantia “x” do dinheiro e não está tirando a vaga de ninguém também com
um projeto como esse. Eu não sei qual seria a nova configuração política da
universidade, especialmente no FCHF, no momento em que colocarmos na
pauta das discussões ações afirmativas, seja na sua forma de cotas ou seja no
sistema de preferências (Professor X).
Eu quero fazer um comentário também ... porque no questionário eu gostei
duma questão sobre dificuldade enfrentadas na coordenação do projeto, na
viabilização do projeto. Eu penso que há dificuldades relativas à construção de
13 Faz-se necessário lembrar aqui que os participantes do projeto Passagem do Meio estão discutindo e propondo outros tipos de ações afirmativas para negros na UFG. Entre elas, a cota para negros no vestibular.
276
espaço político acadêmico da própria perspectiva racial, nas relações universitárias. Na minha unidade, que é a Faculdade de Educação, o meu envolvimento com o projeto e com a possibilidade de produção, de conseguir participação
de alunos em eventos apresentando trabalhos, de estar orientando projetos
específicos voltados para esse tema, e até de estar com espaço de discussão
para pesquisa que eu desenvolvo, sobre educação para a igualdade, chamou a
atenção dos dirigentes. Eu fui chamada pela coordenadora de pesquisa para
ela dizer para mim: “mas você está atuando fora da sua unidade, esse projeto
tem que vir para sua unidade”. Porque ele [o projeto Passagem do Meio]
gera relatórios de produção da própria unidade, é capital acadêmico, produção
de conhecimento. É reivindicada a paternidade, digamos assim, pela própria
instituição, pela própria unidade institucional. Eu penso que há dificuldades
para a institucionalização de um projeto político de formação com abordagem
racial. A impressão que eu tenho é que a gente vai enfrentar ainda muitos
debates com essa questão. Quando se percorreram as salas de aula, divulgando o edital de seleção, eu não senti os professores que estavam presentes
em sala de aula com um certo medo do que eu iria falar lá, que era: olha, o
edital para alunos negros, para concorrência de alunos negros. E vários alunos
perguntavam: só negro, professora? E o próprio professor da sala ficava em
dúvida. Então essa questão para mim é política, ela vai trazer necessidade de
enfrentamentos, porque a gente está consolidando um espaço de abordagem
racial (Professora A).
Apesar da indiferença da direção da universidade14, ou se se quiser, da sua
resistência silenciosa com relação ao projeto Passagem do Meio, pode-se afirmar
que após a implementação do projeto houve várias mudanças no que diz respeito ao
estudo das relações raciais na UFG. Entre as quais, o fato de que os docentes dessa
universidade estão mais abertos para discutir alguns temas naquela área de estudo.
Se, antes, o estudo desse tema era assunto sem importância científica ou era coisa
de negro, uma temática que não era digna de investimento teórico ou digna da ciência, conforme afirmou um dos seus docentes, atualmente, ao que parece, o projeto
Passagem do Meio, bem como o “cenário político” nacional, forçaram os professores
a se posicionarem de forma mais qualificada quanto à discussão da implementação
de ações afirmativas para negros em universidades públicas:
O projeto forçou as pessoas a se posicionarem a respeito das ações afirmativas. Então aqueles que têm a coragem de se posicionar publicamente, se
14 Conforme a afirmação “ela sabe, mas não sabe [da existência do Passagem do Meio na UFG]”, dos coordenadores/professores do referido projeto.
277
posicionam de uma maneira mais qualificada do que o faziam há um ou dois
anos atrás, quando o projeto não existia. Mesmo sendo um posicionamento
positivo ou negativo, as pessoas têm melhores argumentos porque começaram
a refletir a respeito disso. Então, o argumento de que ação afirmativa é um
racismo invertido é uma argumentação ainda presente, mas ela a cada dia se
torna mais rara, porque a gente tem procurado demonstrar para as pessoas a
racionalidade, os argumentos que estão por trás das políticas de ação afirmativa, que não se trata de uma prática racista, e assim por diante. Então, é isso,
há uma qualificação do debate (Professor Z).
Há uma abertura para o debate e isso não só por mérito do projeto, mas por
conseqüência do novo cenário político que se instaura. Mas as pessoas ainda
não têm posições ... Enfim, elas se abriram para o debate, se qualificaram,
mas ainda [são] muito flutuantes. Então, as pessoas flutuam de acordo com
as boas argumentações que surgem. Por exemplo, quando o [professor] José
de Souza Martins [da USP] publicou um artigo na Folha de São Paulo, no
dia seguinte algumas pessoas vieram comentar comigo, achando brilhante a
argumentação dele. Então, eu tinha que fazer o trabalho de falar: há falha ali
e ali, nessa argumentação do José de Souza Martins. Essas mesmas pessoas,
que deram apoio naquele momento à argumentação do José de Souza Martins, foram pessoas que talvez deram apoio à argumentação [em favor de cotas
para negros nas universidades públicas] do [professor] José Jorge de Carvalho
[da UNB] quando ele esteve aqui. Então, as pessoas estão qualificadas, estão
abertas ao debate, mas o posicionamento ainda é flutuante (Professor X).
Também é visível, como aconteceu com os bolsistas, a construção de uma solidariedade acadêmico-racial entre os professores, ou melhor, a criação de vínculos entre
os professores que transcendem o espaço acadêmico, local onde foi gestado o projeto.
Conforme os professores que participam do Passagem do Meio, o projeto possibilitou a integração de pessoas de diferentes unidades acadêmicas, que tinham interesses
comuns com a questão racial, mas que não se conheciam proximamente. Alguns desses professores, com bastante experiência acadêmica na área de relações raciais, e até
mesmo com antigas trajetórias de militância em movimentos sociais negros. Assim, o
projeto possibilitou a formação de um grupo engajado de professores:
Eu costumo dizer que o projeto Passagem do Meio não trouxe benefícios do
ponto de vista de inserção na comunidade acadêmica só para os alunos; [...]
ele trouxe-os para os professores também. E eu me coloco assim, porque eu
me sentia muito sozinha nesse tema, na Faculdade de Educação. Não tinha
278
companheiros de discussão, de pesquisa. Além disso, sem dúvida, a aproximação num interesse político como esse, aproxima as pessoas, é claro. Eu
ganhei uma amiga nova, que é a [Professora K], que eu nem [sabia que mora]
no prédio ao lado da minha casa. Então, além disso, a gente se aproximou
muito mais. Eu pessoalmente, me aproximei muito mais da [Professora K],
do [Professor Y], do [Professor X]. E há uma parte dos professores com que
eu ainda pessoalmente não tive muita convivência, que são alguns que tiveram
participações mais episódicas, relacionadas a atividades estritamente do grupo
de estudos, e não têm participado com freqüência em outras atividades. Mas
há o espaço para lutar, para fortalecer esses laços (Professora A).
Percebe-se assim que após o projeto Passagem do Meio os professores entrevistados demonstraram que sentem a necessidade de estarem mais próximos uns
dos outros, embora o contato mais freqüente entre eles não aconteça, devido à escassez de tempo em face da enorme quantidade de trabalho que os docentes têm
na academia. Todavia, alguns professores passaram a publicar trabalhos, elaborar
projetos, participar de congressos, entre outras atividades, conjuntamente.
Conclusão
O projeto Passagem do Meio proporcionou um impacto acadêmico na UFG
nunca antes visto, no que tange às relações raciais. Não resta dúvida de que este impacto foi positivo em sentido amplo. Mas não somente na Universidade Federal de
Goiás, ou na esfera acadêmica, o projeto proporcionou e ainda está proporcionando impactos positivos. Na sociedade goianiense organizada, ou na esfera política,
também se percebe a influência positiva desse projeto, ante a demanda por parte
de órgãos dos governos estaduais e municipais aos coordenadores do projeto, para
assessorá-los na discussão da questão racial. Dessa forma, e considerando tudo que
foi descrito antes, pensamos que este é um projeto de sucesso, contrariando expectativas negativas da maioria dos docentes e discentes da UFG quanto ao mesmo. Esse
projeto não só tem conseguido superar ou, se quiser, driblar as barreiras existentes
no campo acadêmico, como tem obtido êxito político ao proporcionar uma discussão qualificada da questão racial em Goiânia, bem como por formar agentes sociais
anti-racistas, de que tem sido exemplo os próprios bolsistas.
Estes bolsistas não só passaram a dominar conceitos básicos da área de estudo das relações raciais brasileiras, como elevaram a auto-estima mais facilmente.
Além disso, passaram a ter uma visão bem mais crítica da questão racial no Brasil.
Antes da participação nesse projeto a maioria dos bolsistas acreditava que o Brasil
279
era um país racialmente democrático. Após a participação no Passagem do Meio,
passaram a perceber que os negros são discriminados racialmente neste país. Esses
bolsistas também construíram vínculos de amizade e solidariedade racial, não experenciados antes por eles. Isto possibilitou o fim do isolamento acadêmico-racial
a que os universitários negros geralmente estão submetidos na maioria das instituições de ensino público superior. Por outro lado, os universitários negros bolsistas do
projeto Passagem do Meio estão mais qualificados e/ou preparados e mais seguros
academicamente, não só do ponto de vista da discussão da questão racial, mas também de forma ampla, dado que o seu desempenho acadêmico também melhorou
sensivelmente após a participação nesse projeto de ação afirmativa, tornando-se referência ou modelo em seus cursos de origem.
280
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282
Avaliação da
Política de Ação
Afirmativa para
Permanência de
Alunos Negros
na UFF
Iolanda de Oliveira e
André Augusto Brandão
E
ste trabalho se refere à pesquisa que realizamos em 2004, acerca dos impactos verificados com a execução de uma iniciativa de ação afirmativa
para permanência de universitários negros e de baixa renda na Universidade Federal Fluminense (UFF). O projeto foi financiado pela Fundação
Ford e gerido pelo Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira
(PENESB), da UFF. Seus objetivos eram: a) evitar a evasão de alunos negros de
baixa renda da UFF; b) garantir a estes alunos uma formação de qualidade frente às
desvantagens sócio-educacionais que traziam para a universidade e; c) proporcionar
a formação política dos mesmos na direção da luta anti-racista no Brasil.
O projeto teve início em 2002, e oferecia bolsas de estudo no valor de R$
250,00 (duzentos em cinqüenta reais). Oitenta e quatro universitários da UFF se
candidataram as bolsas do projeto do PENESB. Todos os candidatos eram significativamente de baixa renda. Assim, procuramos, como critério de seleção, dar significativa importância ao fenótipo dos candidatos, aos seus interesses acadêmicos e às
suas possibilidades de desenvolvimento intelectual com o apoio do projeto.
O montante financeiro financiado por aquela fundação possibilitou que
trabalhássemos somente com 20 alunos. Esta limitação acabou transformando
este projeto em uma atividade experimental. Vale ressaltar que embora os recursos iniciais para a manutenção do projeto tenham terminado em abril de 2003, o
PENESB-UFF continuou a execução do mesmo até que todos os 20 universitários
negros concluíssem suas respectivas graduações.
Pretendemos aqui discutir: a) os efeitos do projeto sobre os universitários
bolsistas do projeto do PENESB e; b) os efeitos do projeto sobre a própria Universidade Federal Fluminense, que pela primeira vez na sua história teve que se
relacionar, do ponto de vista institucional, com a questão da ação afirmativa para
a população negra. Esta discussão aponta, em última instância, para a avaliação do
significado da implantação de uma política específica para a manutenção da população negra no ensino superior.
Perfil socioeconômico dos bolsistas cobertos pelo projeto
do PENESB
Vejamos o perfil dos alunos em algumas variáveis selecionadas.
Tabela 1- Número de alunos por curso
Freq. Absoluta
Curso dos Bolsistas do PENESB
Administração
1
Ciências Sociais
1
Direito
1
Enfermagem
3
Engenharia
1
História
1
Pedagogia
6
Serviço Social
6
Total
20
Tabela 2 - Número de alunos por sexo
Sexo
Feminino
Masculino
Total
284
Freq. Absoluta
Freq. Relativa(%)
16
80
4
20
20
100
Tabela 3 - Número de alunos por faixa etária
Freq. Absoluta
Freq. Relativa(%)
17-20
3
15
21-25
11
55
26-30
6
30
Total
20
100
Idade
Como podemos perceber na tabela 2, 80% dos alunos eram do sexo feminino,
devido ao próprio perfil dos cursos de Serviço Social, Pedagogia e Enfermagem, que
forneceram a maioria dos beneficiários. Com relação à faixa etária, percebemos na
tabela 3 que 55% dos alunos bolsistas do PENESB tinham entre 21 e 25 anos, 30%
tinham entre 26 e 30 anos e 15% entre 17 e 20 anos.
Tabela 4 - Número de alunos por local de nascimento
Freq. Absoluta
Freq. Relativa(%)
14
70
Noroeste Fluminense - RJ
2
10
Imperatriz-MA
1
5
Salvador- BA
1
5
Campina Verde - MG
1
5
Guiné Bissau
1
5
20
100
Local
Região Metropolitana do
Rio de Janeiro - RJ
Total
Na tabela 4 podemos observar que 70% dos alunos selecionados para participarem do nosso programa como bolsistas eram oriundos da Região Metropolitana
do Rio de Janeiro, 10% eram oriundos do Noroeste Fluminense e os outros igualmente distribuídos pelos Estados do Maranhão, Bahia e Minas Gerais. Além disso,
um aluno era oriundo da Guiné-Bissau, país localizado no continente africano.
285
Tabela 5 - Número de alunos por renda familiar
Renda Familiar
Salários Mínimos
Freq. Absoluta
Freq. Relativa(%)
menos de 2
2
10
2e3
1
5
3e4
14
70
4e5
1
5
5 e 10
1
5
mais de 10
1
5
20
100
Total
Na tabela 5 vemos que 70% dos alunos bolsistas do PENESB eram originários de famílias com renda familiar entre 3 e 4 salários mínimos. Na faixa relativa a
menos de 2 salários mínimos encontramos 10% dos alunos. 5% dos alunos bolsistas
do PENESB pertenciam a famílias situadas na faixa de renda entre 2 e 3 salários.
Na faixa de renda familiar de 4 a 5 salários encontramos 5% dos alunos, o mesmo
percentual para a faixa acima de 10 salários mínimos de renda familiar (vale ressaltar que nesta família com renda superior a 10 salários mínimos havia 14 moradores). No geral, portanto, a renda familiar destes alunos era significativamente baixa.
Tabela 6 - Número de alunos por cor ou raça, segundo
classificação do IBGE
Freq.
Absoluta
Freq.
Relativa
Freq.
Absoluta
Preto
%
Pardo
%
Total
%
11
69
5
31
16
80
0
0
1
100
1
5
descendente
1
100
0
0
1
5
Afro-brasileira
1
100
0
0
1
5
Preta
1
100
0
0
1
5
Total
14
70
6
30
20
100
Auto
Classificação
Negro
Não Declarou
Freq.
Freq.
Freq.
Relativa Absoluta Relativa
Negro ou afro
286
Na questão da auto-identificação de cor ou raça, fizemos aos alunos duas perguntas, a primeira aberta e a segunda fechada nas variáveis utilizadas pelos IBGE
(preto, branco, pardo, amarelo e indígena). Como podemos ver, 80% dos alunos se
auto-classificaram como negros. Destes, 69% se auto-identificaram através da classificação do IBGE como pretos e 31% como pardos.
Os 20% de alunos que não se classificaram como negros na pergunta aberta,
se identificaram na classificação do IBGE como pretos, com exceção de somente
um aluno que se classificou como pardo. Vale ressaltar, estes 20% utilizaram as seguintes auto-classificações abertas: “negro ou afro-descendente”, “afro-brasileira” e
um não quis se identificar em nenhuma das categorias.
% Freq.
Absoluta
Total
Freq. Relativa
% Freq.
Relativa
Integral
Freq. Absoluta
% Freq
Relativa
D e N Freq.
Absoluta
% Freq.
Relativa
Noturno
Freq. Absoluta
Tipo
% Freq.
Relativa
Turno
Diurno
Freq. Absoluta
Tabela 7 - Número de alunos por turno e tipo de escola em que
estudou o ensino médio
Pública
Regular
8
53,3
5
33,3
1
6,8
1
6,8
15
75
Pública
Regular
2
67
0
0
1
33
0
0
3
15
Supletivo Privado
0
0
0
0
1
100
0
0
1
5
Outro
1
100
0
0
0
0
0
0
1
5
Total
11
55
5
25
3
15
1
5
20
100
Com relação ao tipo de escola freqüentada no Ensino Médio, verificamos
que 75% dos alunos (15 bolsistas) estudaram em escola pública regular (tabela 7).
Destes, 53.3% estudaram no período diurno, 33,3% estudaram no período nortuno, 6,8% estudaram em período integral, e 6,8% estudaram uma parte no período
diurno e outra parte no noturno. No entanto, quando observamos a origem escolar
dos universitários da UFF, verificamos que somente 31,0% dos alunos dessa universidade estudaram em escolas públicas no ensino médio. Assim, pode-se perceber
facilmente que a porcentagem de bolsistas do projeto de permanência do PENESB
que estudaram em escolas públicas de ensino médio é mais que o dobro da porcen287
tagem de alunos da UFF que tiveram a mesma trajetória escolar. Quando comparada somente com a porcentagem de universitários “pretos” da UFF que é de 53,53%,
conforme Brandão e Teixeira (2003), percebe-se novamente que a porcentagem de
bolsistas do PENESB ainda é bem superior (75%).
Tabela 8 - Número de alunos por escolaridade do pai
Freq. Absoluta
Freq. Relativa(%)
Não identificado
1
5
Analfabeta
0
0
1o segmento do Ens. Fund. Incompleto
5
25
1o segmento do Ens. Fund. Completo
Escolaridade
2
10
o
3
15
o
2 segmento do Ens. Fund. Completo
5
25
Ensino Médio Incompleto
1
5
Ensino Médio Completo
3
15
Superior Incompleto
0
0
2 segmento do Ens. Fund. Incompleto
Superior Completo
Total
0
0
20
100
Quando analisamos o percentual de escolaridade dos pais dos bolsistas do
PENESB percebemos que havia uma maior concentração daqueles no 2o segmento do Ensino Fundamental Completo (com 25%), na escolaridade do pai. Vemos,
portanto, que em geral os pais dos alunos do projeto apresentavam uma baixa escolarização, o que indicava que estes alunos muito provavelmente carregavam uma
pequena quantidade de capital cultural incorporado.
Análise das entrevistas realizadas com os alunos
envolvidos no projeto
Nesta parte de nosso escrito discutimos algumas entrevistas realizadas com
alunos que estiveram cobertos pelo projeto de ação afirmativa para permanência na
UFF, gerido pelo PENESB.
Trata-se das antigas 5º a 8ª séries do primeiro grau.
Segundo Bourdieu (1999), o capital cultural incorporado é aquele herdado familiarmente.
288
Alunas e alunos entrevistados pelos autores
Aluna 1 - Curso de Serviço Social
Esta aluna inicia a entrevista apontando o auxílio material que recebeu e que
a ajudou a se manter na UFF, seja no que tange a passagens rodoviárias, a cópias de
artigos/textos e/ou material bibliográfico ou mesmo à compra de livros. Mas afirma
também que a importância deste auxílio em sua vida material a levou a assumir um
compromisso não somente com o PENESB, mas também consigo mesma, no sentido de se esforçar muito mais do que antes para ser uma “boa aluna”.
Ela ressalta ainda a importância de ter tomado contato com o que chama de
“discussão do negro”, que até então não fazia parte de suas preocupações. A aluna
havia estudado em um núcleo de Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC),
que tinha, entre outras, a disciplina “Cultura e Cidadania”. Assim, essa bolsista do
PENESB havia sido apresentada à questão racial brasileira, mas, conforme afirmou,
não se aprofundou e nem mesmo deu importância à mesma.
Conforme essa bolsista, foi a sua participação no projeto do PENESB que
possibilitou o desenvolvimento de sua “identidade”. Como afirma:
[...] agora no ensino superior é que eu comecei a me aliar ao PENESB, que
até então eu era negra, tá bom e aí o que é que tem? Sou negra; mas agora
sim que eu assumi uma identidade, entendeu, realmente de negra, porque antigamente tanto fazia, responder um questionário ou não, nunca me importei,
entendeu, é isso.
Antes disso, ela acreditava que todos eram de fato iguais perante a lei e
que, portanto, o movimento negro não tinha sentido. Mas agora sua perspectiva é
diferente:
[...] porque eu nunca parei para reparar as questões negras de fato, só passei a
observar isso agora. Então agora sim eu começo a compreender a idéia, mas
por causa das políticas de ação afirmativa. Até então eu não sabia para que
serviam, entendeu, eu achava que todo mundo tinha que ser encarado igual,
mas nós nunca fomos enxergados como iguais, então isso é que me chamou
atenção. Apesar de ser negra, então eu achava que era todo mundo igual e que
não precisava, agora sim que, lendo, é que eu começo a perceber a diferença
de tratamento que antes eu não parava para observar.
A aluna se mostrava favorável à política de cotas para ingresso dos negros no
ensino superior público, mas acredita que a implantação desta política deve ser feita
289
com cuidado. Isto porque os negros que acessam a universidade precisam de apoio
para permanecer lá e também porque é necessário garantir que estes alunos não
serão “rechaçados” pelos demais.
A última recomendação da aluna provavelmente se relaciona com sua própria
experiência. Afirmou que suas colegas de turma eram muito críticas em relação ao
projeto em que se encontrava inserida na época:
Eles acharam excludente. – ‘Ah! Por que só para negros, tem que fazer para
todo mundo, isso é uma bobeira tinha que todo mundo participar, ser igual
para todos’. Eu falei ‘bem se vocês querem participar de fato, sem ser por
causa da bolsa podem ir lá, vai entrar em uma pesquisa, vai lá procurar algum
tema de estudo’. Isso ninguém se prontificou, mas quando fala em dar bolsa aí
sim, todos querem participar, acham injusto ser só para negros, mas ninguém
quer estudar a questão negra...
Aluna 2 - Curso de Enfermagem
A aluna iniciou sua entrevista relatando que até o início do projeto não havia
comprado nenhum dos livros necessários à sua formação acadêmica. Somente começou a comprá-los quando passou a receber sua bolsa.
No momento da entrevista essa aluna não demonstrou um comprometimento maior com a questão racial. Relata que o projeto a fez “[...] refletir mais sobre o
negro e a representatividade dele na sociedade.” No entanto, sua fala não apontou
para o estabelecimento de uma relação identitária com a negritude.
Acreditava que a política de cotas constituía uma tentativa para alterar a situação
atual, na qual os brancos são mais “ricos” do que os negros. Neste sentido, é favorável à
política de cotas, mas ressalvou que esta deve ser “uma medida emergencial”, pois:
Você tem que melhorar a escola pública de ensino fundamental e médio para
[...] eu acho que a maioria da população que estuda em escola pública é de origem negra. Se você melhorar a escola, a ponto de competir com as escolas particulares, com certeza você vai ter mais negros nas universidades sem precisar das
cotas, mas enquanto isso não acontecer... eu acho uma situação emergencial.
No que tange a forma como seus colegas da UFF avaliavam a ação afirmativa,
a aluna disse que somente discutia a questão com os universitários que lhe eram
mais próximos. Mesmo entre estes, existem aqueles que “têm até uma visão estranha
achando que é um absurdo dar cotas só para negros. E os brancos pobres?”
290
Essa bolsista informou que não costumava responder a estes questionamentos,
mas ficava pensando: “[...] reflito sobre toda a trajetória do negro excluído até hoje.”
Aluno 3 – Curso de Pedagogia
O aluno de pedagogia afirmou que se não estivesse participando do projeto
do PENESB talvez ainda conseguisse se manter na universidade, mas a sua formação sofreria muito, ou melhor, ficaria comprometida academicamente, pois lhe
faltaria dinheiro para cópias textos e/ou material bibliográfico, livros, entre outros.
Além disso, afirmou que não poderia ter participado de nenhum congresso e/ou seminário acadêmico a que teve acesso por meio direito e indireto do projeto do PENESB. Ressaltou ainda que a orientação que recebeu foi o “amparo” para que não
ele ficasse na graduação somente de forma figurativa. Assim, acentua a importância
do auxílio financeiro ao lado do auxílio intelectual. Fez neste ponto uma reflexão
bastante interessante:
[...] então as pessoas que iam fazer a entrevista elas iam lá pro PENESB, e elas
ficavam esperando, aguardando. Então elas batiam um papo com a gente e falavam, então eu fiquei assim, mal quando eu vi que R$ 250,00 reais era o que ia
dizer se uma pessoa ia terminar ou não a faculdade, aí você coloca o que são R$
250,00, uma mixaria, você vai num mercado e não consegue fazer uma compra
de mês com R$ 250,00. Mas é o que diz se uma pessoa vai estar no próximo
período na faculdade ou não, e eu vi isso, você via isso, então eu fiquei muito
mal, você começa a ouvir os casos, a ouvir as histórias de cada um, aí você vai
ver o quanto que esse tipo de ação social ela é importante na vida da pessoa e
você vê também que essa ação social ela não está sendo dada de graça como a
maioria das pessoas pensa, ela esta sendo aplicada porque ao longo da vida, você
teve uma série de ações sociais que foram ausentes, que não estiveram ali.
Este aluno também fez uma reflexão sobre a distribuição racial, por curso,
na UFF, para concluir sobre a necessidade da política de cotas para ingresso na
universidade:
[...] uma pessoa quando vai entrar na faculdade muita das vezes ela não entra
para o que quer fazer, ela entra para o que é mais fácil pro que ela pode fazer, por exemplo, no curso de pedagogia e serviço social, arquivologia, são os
cursos que têm o maior número de negros na UFF. Medicina, quase não tem,
odontologia, é raríssimo, biologia são poucos, os cursos das áreas de exatas, é
um número bem menor. Eu fui fiscal do vestibular [de 2003], então no prédio
que eu fiquei só iam fazer prova as pessoas de odontologia... uma coisa que me
291
chamou atenção é que todas as salas, num prédio do tamanho desse estavam
com uma media de uns 20 a 30 alunos fazendo prova e não tinha um negro,
aí eu fiquei me perguntando, não é possível, será que não tem ninguém? Não
é possível, será que todo negro quer fazer serviço social quer fazer pedagogia,
quer fazer letras, ninguém quer ser dentista, nem fazer medicina?
Este aluno, que nasceu e cresceu em Angra do Reis-RJ, participou desde os treze anos de idade de um grupo de teatro ligado a movimentos sociais locais. Por isso,
teve de alguma forma contato com a questão racial no Brasil, pois este tema era um
dos trabalhados pelo grupo. Assim, já havia discutido a ação afirmativa, não somente
para negros mas também para índios. Ao participar do projeto, porém, ganhou os
elementos teóricos necessários para aprofundar seus conhecimentos nesta área:
[...] então a minha visão eu digo que mudou; ela ficou mais acadêmica, eu posso
dizer assim, você tem o senso comum e tem a linguagem acadêmica, então eu
passei do senso comum para a linguagem da academia, aquela linguagem formal
que você conhece nos estudos, você tem acesso a livros que tratam do assunto.
Antes do projeto, ele teve que trancar a faculdade por duas vezes, devido a
necessidade de trabalhar:
[...] você tem aquela pressão, você pensa que não, mas quando você fala que
está estudando, as pessoas sempre cobram, mas você não trabalha? Mas mesmo você não tendo aquela pressão direta você se sente mal, poxa estou dando
o maior prejuízo para o pessoal da família e tal, só estou gastando, gastando,
então eu parei a faculdade por causa disso, se eu tivesse acesso a esse tipo de
política [ação afirmativa para permanência] eu já teria terminado a faculdade,
não sei já estaria até num mestrado, talvez, então eu vejo que realmente dá
uma ajuda, uma ajuda grande.
No que tange à relação com a turma, o aluno afirmou que desde o início de
sua graduação sofreu preconceito racial e também preconceito de gênero por ser um
homem cursando pedagogia. Com relação ao projeto, afirmou que o mesmo gerou
muitas polêmicas entre os alunos e também entre os professores. Acredita que há
muita desinformação na UFF e que mesmo muitos professores desconhecem o projeto e ele é sempre instado a falar sobre o mesmo. Segundo esse ex-bolsista, em várias
disciplinas que cursou os professores diziam não entender o projeto ou o criticavam:
[...] isso já aconteceu comigo numa aula de Antropologia, que as pessoas
questionaram, você ganha R$ 250,00 de bolsa só pra estudar? Você não faz
mais nada, você não trabalha, é só pra estudar? Ah! Eu quero entrar numa
bocada dessa também, sabe aquele tipo meio irônico. Tipo assim, você esta ali,
292
mas esta ganhando meio no mole! ... você percebe a visão de professores que
não concordam com isso aqui. Nessa faculdade eu já ouvi muitos professores
que acham que é besteira que acham que todo mundo é igual, que todo mundo tem o mesmo direito, ai você cai no senso comum dos direitos iguais na
constituição...
O aluno informou que nem sempre rebatia as críticas. Segundo ele, houve
pessoas com quem foi possível conversar, mas com outras não é possível dado ao
elevado grau de intransigência. Com estas, ele afirmou que a discussão acabava em
problemas e ele tendia a ficar “chateado”.
Este mesmo aluno se mostrou preparado para as discussões acerca da ação
afirmativa e estabeleceu uma rigorosa crítica a ideologia do mérito e suas derivações.
Sabe que esta ideologia aponta que a culpa pelo não sucesso de um indivíduo negro
é do próprio indivíduo e não o produto de uma história de discriminações raciais e
desvantagens sócio-econômicas.
Esse ex-bolsista declarou ser, na época, professor de um pré-vestibular comunitário, conhecido como PVNC, voltado para pessoas negras e carentes, oriundas do
ensino público e que não podiam pagar um pré-vestibular privado. Acreditava que os
alunos dos PVNCs “já vêm com a auto-estima completamente baixa”. Mas tentava
dar a estes alunos estímulos para que chegassem a universidade como ele próprio
havia chegado. Ele era favorável a política de cotas para ingresso de negros na universidade pública, mas insistiu e/ou repetiu o mesmo argumento de outros bolsistas
do PENESB que foram entrevistados por nós: o problema da permanência.
Eu te pergunto: e o vínculo e a permanência do aluno, como que ele se mantém lá dentro? Porque o entrar na faculdade, por incrível que pareça, não é o
mais difícil, mais difícil é você ficar, você tem todos os gastos, você tem gastos com passagem, com alimentação, compra de livro, tudo aquilo que lhe é
cobrado, então se você só põem a pessoa ali sem dar nenhuma estrutura para
ela estar estudando, ter acesso a material, poder comprar livro, participar dos
congressos, seminários, você só resolve um dado estatístico.
Aluna 4 – Curso de Ciências Sociais
Esta aluna afirmou que somente se manteve na UFF com a bolsa de monitoria que obteve no seu segundo semestre e, ao fim desta, com a bolsa que conseguiu no PENESB. Ela quase desistiu da graduação e, segundo disse, somente não
chegou a este ponto por conta do projeto de ação afirmativa do PENESB. Mais do
que isso, conforme essa aluna, o projeto possibilitou-lhe conhecer “pessoas que tem
293
a vida parecida com a sua e que têm as mesmas necessidades”. Ela também afirmou
ter passado por momentos muito difíceis na sua graduação e concluiu que se não
fosse a bolsa: “eu não teria como vir para UFF, não teria como tirar xerox, não estaria fazendo curso de inglês, não teria a mínima possibilidade de estar fazendo isso”,
ou seja, estudando normalmente, com as condições mínimas necessárias para o bom
desempenho acadêmico.
Ela também afirmou que a relação com os outros bolsistas é importante
como espaço/momento fundamental para “[...] refletir com outras pessoas a questão
da discriminação racial, da inserção do negro na sociedade, várias coisas que estão
dentro desse cotidiano nosso”. Segundo a aluna, essas novas relações a “animaram”.
No entanto, estava, naquela época, em uma nova fase, pois cursava o último período
de sua graduação e não sabia o que iria fazer após a formatura.
No que tange à questão da política de cotas e da política de ação afirmativa, ela
tinha alguma noção do assunto porque havia estudado em um pré-vestibular para negros e carentes. Contudo, só aprofundou e compreendeu mais significativamente seus
conhecimentos sobre as relações raciais brasileiras no projeto do PENESB. Segundo
essa nossa ex-bolsista, ela rebatia com firmeza muitos dos argumentos mais comuns
que eram, e ainda são, levantados pelo senso comum, e mesmo pela mídia, contra a
política de cotas para os negros terem acesso ao ensino público superior brasileiro.
Ela reconhecia que também é necessário melhorar a qualidade do ensino
fundamental e médio, mas em função da participação do projeto do PENESB, entre outros estudos e pesquisas acadêmicas, refletiu e concluiu que isso não ocorrerá
“[...] de um ano pro outro.” e que os negros “[...] não podem esperar mais tempo”.
Com relação à sua turma, a aluna afirmou que nenhum aluno se manifestou
“explicitamente” de forma que desvalorizasse o projeto do PENESB ou a sua participação neste. No entanto, acreditava que provavelmente existiam muitos universitários da UFF contrários a esse projeto de ação afirmativa de permanência para
negros nessa universidade.
Aluno 5 - Curso de Direito
O aluno iniciou a entrevista apontando a importância material do projeto
para sua manutenção no curso. Sua família residia no Estado da Bahia e, como seus
pais são pobres, não podiam contribuir com sua manutenção em Niterói. Assim,
a bolsa de estudo que recebia do projeto de permanência do PENESB foi fundamental para a sua permanência no estado do Rio de Janeiro e, conseqüentemente,
294
na UFF. Além de oferecer condições materiais de existência para esse ex-bolsista, o
projeto foi fundamental para a sua formação acadêmica, visto que, segundo o próprio aluno, teve a possibilidade de se “atualizar”, ou seja, de ir a congressos e seminários, bem como comprar livros do curso de direito, que geralmente são caríssimos.
O aluno lembrou ainda o curso de redação oferecido pelo projeto de permanência,
como outro instrumento fundamental para que ele pudesse escrever seus projetos e
textos, ou seja, melhorasse a sua formação acadêmica. Não bastasse isso, o projeto
lhe possibilitou procurar aprender sobre o tema das relações raciais no Brasil e sobre
as políticas públicas de ação afirmativa, não somente nas reuniões promovidas pelo
projeto, mas também conversando com os professores conhecedores do assunto e/ou
com os quais ele tinha uma certa proximidade.
Segundo esse ex-bolsista, o “suporte” dado pelo projeto do PENESB tem
mais sentido de ação afirmativa que uma política de cotas isolada como a da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Para ele, “se você tem uma política
de cota, você tem que ter por trás dela uma ação afirmativa para permanência.”
Sem esta ação afirmativa de permanência,
[...] as pessoas entram na faculdade e não têm condições de estudar, não têm
condições de comprar um livro, não têm condições de ler um livro, um texto
em inglês, então, essa ação não tem função. Então, entendo que a ação afirmativa é uma questão genérica, ou seja, muito mais macro do que a política de
cotas. E a política de cota é válida se e somente se estiver atrelada a essa ação
afirmativa [de permanência].
No que tange à sua turma, afirmou que estava todo o tempo levando-a a pensar sobre as políticas públicas de ação afirmativa, discutindo a questão com os seus
pares universitários do curso de origem, do ponto de vista dos princípios do Direito
e buscando convencer o maior número possível de alunos acerca da importância da
ação afirmativa para a superação das desigualdades raciais, de gênero, entre outras.
Esse ex-bolsista nos informou ainda que não tinha maiores informações sobre o conceito e a importância de políticas de ação afirmativa antes de ingressar no
projeto. Tudo o que sabia se restringia ao que ouvira na televisão acerca do caso das
cotas na UERJ. Afirmou que sempre foi a favor das cotas para os negros no ensino público superior brasileiro, mas que só após a entrada no projeto do PENESB
pôde aprofundar seus conhecimentos. Afirmou ainda que, como advogado, poderá
defender a ação afirmativa em juízo e por isso precisava pesquisar e estudar muito
para ter argumentos consistentes e fundamentados legalmente para defender juridicamente as políticas de ação afirmativa no Brasil.
295
Aluna 6 - Curso de História
Em sua entrevista essa aluna apontou ganhos materiais e subjetivos relativos
à sua entrada no projeto. Segundo ela, o apoio financeiro foi fundamental para sua
permanência na UFF sem necessitar trabalhar e, portanto, tendo “[...] mais disponibilidade tempo de estudo pelo menos pra competir com outro que tenha a situação
econômica melhor.”
Conforme essa ex-bolsista, nas discussões realizadas internamente no projeto,
acerca das relações raciais no Brasil, ela aprendeu a se conhecer e a pensar na sua
identidade racial:
[...] sabe, espera aí, o que está acontecendo, para quê isso? E você começa a
perguntar quem você é, como é que as coisas acontecem, eu acho que essa
questão da consciência de me relacionar com a questão racial mudou muito, e
isso tem feito eu ler mais e até me voltar pra isso.
Neste sentido, afirmou que depois da entrada no projeto já não era “a mesma
pessoa”. Se sentia, após a participação no projeto de PENESB, “vestindo a camisa”
da negritude e se vendo responsável pela luta com a qual agora se identifica. Contudo, lembrou que a questão da identidade étnica no Brasil também é complexa:
[...] a questão da identidade no Brasil é muito complicada sem falar a identidade do Brasil, a questão da raça, como é que você vai definir raça por cor?
Esse é mulato, esse é moreno, e quem pode dizer só porque tem a pele clara
pode dizer: eu sou branco, não sou descendente de africano, eu sou branco.
Isto é complicado no Brasil...
Frente a isto afirmou que a identidade é entre nós uma questão de “consciência”. Sabia, por exemplo, que existem padrões de beleza impostos pela sociedade
e que estes padrões não são os da negritude. Segundo ela, somente com nossa consciência podemos nos livrar desta imposição e de outras mais.
Como ex-aluna de um pré-vestibular comunitário (PVNC), iniciou aí os seus
primeiros contatos com discussões acerca das ações afirmativas e da questão racial
no Brasil. Sua opinião era totalmente favorável à política de cotas e, segunda a própria aluna, defendia sempre seu ponto de vista junto à comunidade acadêmica da
UFF. Acreditava que não podemos omitir a questão do preconceito e do racismo
existente na sociedade brasileira. Assim, para ela, a implementação de uma política
afirmativa de cotas, além de tudo, tem a vantagem de suscitar o debate no Brasil
acerca das suas relações raciais.
296
Mas para essa aluna, paralelamente à política de cotas deve haver uma reforma geral “de longo prazo”, na e da educação básica brasileira, no sentido de
diminuir o abismo entre o ensino privado e o ensino público. Ela acreditava que,
enquanto esta reforma não ocorrer, não podemos “ficar de braços cruzados”, e, portanto, a política de cotas é válida.
No que tange à relação com sua turma, afirmou que os colegas não criticavam
sua participação em um projeto de ação afirmativa, mas muitos deles não concordavam com políticas de cotas ou de ação afirmativa. De fato a aluna acreditava que
seus colegas de curso apesar de aparentemente serem abertos para discutir questões
importantes para o destino social de milhões de brasileiros, ainda eram bastante
preconceituosos no que tange as suas relações com os negros:
[...] porque na minha sala tem duas ou três pessoas negras... sem carro acho
que só eu e um amigo meu. São pessoas extremamente preconceituosas, elas
dizem não ter discriminação, mas tem pessoas ali que não namorariam comigo, entendeu: ‘– eu não sou racista, mas não namoro com negro’. Eles têm
uma visão complicada, apesar de terem uma cabeça aberta, mas eles têm preconceitos, não só racial, mas outros também.
A aluna também apontou que por sua origem pobre e mesmo pelo fato de
ter passado toda a sua vida na Baixada Fluminense, recebeu um “choque cultural”,
ao iniciar a graduação em História. Mas superou tudo isto com auxílio do projeto
de ação afirmativa do PENESB e, também, com sua própria vontade de aprender e
se qualificar profissionalmente.
Aluna 7- Curso de Engenharia Agrícola
A aluna iniciou a entrevista relatando que antes de ser bolsista do PENESB
nunca tinha acompanhado as “visitas técnicas” que são tão freqüentes em seu curso
de graduação, pois estas demandavam recursos financeiros que não possuía. Após a
entrada no projeto, pôde fazê-lo, ante o recebimento da bolsa de estudo do projeto.
Isto seria, segundo ela, somente um exemplo de como ela “melhorou como aluna”.
Além disso, afirmou que, com a participação no projeto do PENESB, ela teve mais
estímulo para estudar, pois sabia que havia um grupo que acreditou nela e que lhe
cobrava resultados, mas também lhe auxiliava quando ela necessitava de alguma
ajuda. Segundo ela, “acho que assim na minha vida o projeto de permanência só
veio acrescentar”. De fato a aluna relatou uma situação de crescimento de sua autoestima e de sua motivação:
297
O projeto de permanência tem uma importância muito grande na minha vida,
me dá força mesmo para pensar, ‘você é capaz, você corre atrás, e correndo
atrás você chega lá’, e me faz pensar hoje em dia em ser uma boa profissional,
uma boa engenheira, oferecer boas coisas mesmo para a sociedade. Mas hoje
em dia eu penso até maior. Quem sabe, vou ser uma ministra da agricultura,
coisas maiores mesmo que eu penso.
Por outro lado, e ao contrário da maioria dos outros bolsistas, essa aluna afirmou ser “muito leve” com relação à questão do racismo. Ela achava que seus colegas
de projeto “se sentem diminuídos” por causa do racismo. Ela sabia que existe racismo e preconceito contra negros no Brasil, mas acreditava que o racismo não era tão
forte como seus pares no projeto do PENESB afirmavam ser.
Antes da entrada no projeto do PENESB, nem a questão racial brasileira
nem a problemática que cerca a negritude eram discutidas por essa aluna. Ela achava importante poder agora exercitar este debate no âmbito do projeto, mas paradoxalmente não aprovava a existência da política de cotas:
Eu acho errado. Eu acho que o negro não tem que ter uma facilidade pra entrar na faculdade. Mesmo porque em termos de capacidade, ele não é melhor
ou pior do que ninguém. Eu entrei na faculdade pelo meu mérito, eu agradeço
muito por eu ter entrado sem cotas. Eu acho que essas pessoas que entram
dentro dessas cotas vão sofrer muito racismo dentro da universidade. Vão escutar muito “você está aqui porque você é negro.
[...] eu acho que eu não preciso ficar discutindo com ninguém e falar que eu
tenho direito de estar aqui porque eu sou negra. Não é porque sou negra que
tenho direito de estar aqui. Tenho o direito de estar aqui porque eu tenho a
capacidade de estar aqui e acabou, como qualquer outra pessoa.
Assim, ela discordava de políticas de ação afirmativa para os negros terem
acesso ao ensino público superior, embora ela tenha afirmado que deveria haver
ações afirmativas nos ensinos fundamental e médio, para preparar os alunos negros
para a concorrência na hora do vestibular.
No que tange aos seus colegas do curso de origem, engenharia agrícola, a
aluna afirmou que havia uma forte resistência desses ao projeto. Segundo ela, todos os seus pares universitários do curso de engenharia agrícola eram contrários ao
projeto do PENESB. Alguns desses universitários eram até bem contundentes nas
Para uma discussão sobre as representações sobre cotas, mérito e democracia racial entre jovens negros
pobres, ver o artigo de Brandão (2004).
298
críticas ao projeto, chegando até a acusar o projeto de ação afirmativa do PENESB
de racista, visto que era direcionado para negros de baixa renda:
[...] algumas pessoas falaram que o projeto em si é um ato de racismo, tipo
assim, você está separando um determinado grupo da universidade e tá incentivando esse grupo, incentivando financeiramente, incentivando mesmo dando
apoio emocional para o que você é capaz, eles acharam errado, que não deveria
ser assim, que não deveria ser só com negros, mas se tem essa necessidade, a
gente tem essa necessidade dessa ajuda não é porque a gente é negro, é porque
a gente assim, é pobre e não tem condições de certas coisas, tipo assim, ter
curso de inglês para a gente participar, não porque a gente seja negro, mas
porque a gente não teve como pagar esse curso....
Essa ex-bolsista afirmou que não discutia com os colegas do seu curso de
origem sobre essas questões. Em parte porque concordava com críticas dos seus
pares universitários, e em parte porque não achava que tais discussões poderiam
ter algum fim concreto.
Aluno 8 – Curso de Administração
O aluno de administração nasceu na Guiné-Bissau e veio para o Brasil cursar
a sua graduação. Foi selecionado para estudar na UFF através de um concurso feito
em seu país, organizado pela embaixada brasileira. Filho de trabalhadores pobres,
tomou a decisão de estudar no Brasil mesmo sem o apoio financeiro dos seus pais.
Inicialmente ele foi auxiliado materialmente por um tio. Este comprou sua passagem aérea de ida para o Brasil, mas antes do final do primeiro período em que estava estudando na UFF, esse tio teve problemas econômico-financeiros e lhe avisou
que não poderia mais ajudá-lo. Neste momento conseguiu entrar para o projeto de
ação afirmativa do PENESB. Foi com a bolsa que recebeu desse projeto que conseguiu se manter estudando na UFF.
O aluno nunca havia ouvido falar de cotas ou ação afirmativa antes de participar do projeto do PENESB. Após a sua participação nesse projeto de ação afirmativa passou a defender esse tipo de política pública, entre outras. Conseqüentemente
avaliou de forma positiva o projeto de permanência do PENESB para universitários
negros de baixa renda:
Eu estou achando que o trabalho dele [do projeto] é um trabalho muito bom,
e estou vendo e achando que é um trabalho muito importante, porque existe
o fato não só aqui no Brasil, mas em qualquer parte do mundo que é essa
situação racial, e essa luta eu acho que um dia terá um resultado.
299
Esse bolsista afirmou ainda que em seu país natal não existem problemas
relacionados ao racismo contra negros, pois cerca de 95% da população é negra.
Existem lá óbvias diferenças entre ricos e pobres, mas não entre brancos e pobres.
Segundo ele, somente a “elite” consegue acesso mais fácil ao ensino superior em
Portugal, sempre com bolsas.
O aluno apesar de viver há pouco tempo no Brasil, já conseguia perceber que
os negros são marginalizados neste aqui. Ele afirmou que tem dificuldades de relacionamento por ser estrangeiro, mas também já ouviu de seus colegas manifestações
explícitas de racismo. Exatamente por isso afirmou que somente possuía apenas dois
amigos em seu curso de origem. Um destes é africano, como ele, e a outra é brasileira e se preocupa muito com sua situação. Somente com estes dois pares acadêmicos
esse ex-bolsista comentava acerca de seu engajamento no projeto de permanência.
Ao concluir a entrevista, o aluno ressaltou os benefícios que obteve ao participar como bolsista do projeto do PENESB. Segundo ele, a bolsa que recebia era
gasta com transporte, alimentação e acesso a vários livros que não poderia adquirir
antes da participação neste projeto. Ou seja, sem essa bolsa de estudo dificilmente
esse aluno permaneceria no seu curso de graduação.
As repercussões da implantação do projeto na UFF
A primeira repercussão diz respeito à capilarização da discussão sobre as
ações afirmativas na UFF. Na verdade, pelo menos nos cursos onde estudam e/ou
estudaram os universitários negros que estavam formalmente vinculados ao projeto
do PENESB, a questão foi discutida com maior ou menor intensidade, quando do
início das atividades do projeto.
O projeto foi implantado inicialmente com apoio somente parcial da reitoria da UFF, devido ao fato de que o Reitor dessa universidade, na época da
implementação do projeto do PENESB, se declarava contra a idéia de ação afirmativa. Neste sentido, a primeira “batalha” enfrentada esteve relacionada com a
questão da acumulação de bolsas. Pretendíamos trabalhar com alunos negros já
previamente classificados e selecionados como “pobres” pelos próprios Assistentes
Sociais da UFF, e que, em alguns casos, já recebiam uma bolsa institucional de R$
180,00. Queríamos encontrar e selecionar os mais “pobres” dentre estes. Assim,
nossa idéia inicial era complementar esta bolsa para que a mesma chegasse a R$
250,00, o que nos possibilitaria uma economia necessária para investimentos nas
necessidades acadêmicas dos alunos.
300
No entanto, tanto o Departamento de Assuntos Comunitários (DAC), órgão
responsável pelas bolsas para alunos pobres, quanto o próprio Reitor se opuseram a
tal possibilidade alegando que a acumulação de bolsas não era permitida na UFF.
Nossos argumentos a esta negativa se dirigiam para três direções: a) era necessário observar a especificidade racial e de extrema pobreza dos alunos que receberiam a bolsa do projeto de ação afirmativa; b) a própria noção de ação afirmativa
pressupõe o tratamento diferencial de grupos ou indivíduos com o objetivo de leválos a uma melhor situação posterior na concorrência com os grupos historicamente
privilegiados e c) os recursos que seriam utilizados para a “bolsa complementar” não
eram oriundos da UFF, mas sim captados em uma instituição estrangeira.
Nossos interlocutores no DAC não conheciam a perspectiva da “ação afirmativa”. Assim, realizamos três discussões, nas quais explicamos a eles o que é uma política de ação afirmativa, bem como buscamos fazer com que os Assistentes Sociais
da UFF compreendessem a lógica e a necessidade da mesma. No entanto, o DAC
não abriu mão de exigir o cumprimento do Regimento Interno da UFF no que tange a bolsas. O Reitor por sua vez não fez qualquer intervenção favorável ao projeto.
Antes de nos dirigirmos ao Conselho Universitário para solicitar uma exceção no Regimento Interno, resolvemos recorrer à Assessoria Jurídica (ASJUR) da
UFF. Foi nesta instância que ganhamos apoio para o projeto. A ASJUR autorizou
o pagamento da bolsa complementar e assim foi possível iniciar o projeto. Consideramos este episódio como um ganho institucional, na medida em que conseguimos
que a ASJUR se debruçasse sobre a questão da ação afirmativa e, mais do que isto,
encontrasse os argumentos jurídicos necessários para sua justificação frente ao Regimento Interno da UFF.
Outro ganho institucional significativo se construiu na relação entre o
PENESB-UFF e a Pró-Reitoria de Assuntos Acadêmicos (PROAC). Este órgão,
desde o início do projeto deu apoio a nossas iniciativas e se dispôs a negociar
conosco.
Desta parceria obtivemos um resultados fundamental que diz respeito à inclusão do quesito cor no questionário socioeconômico, que todos os vestibulandos
preenchem ao fazer sua inscrição para o concurso vestibular. Este dado é absolutamente fundamental pois podemos agora mapear a demanda para cada curso,
por raça, e, além disto, verificar as performances de aprovação via-a-vis a demanda. Embora o PENESB-UFF tenha realizado em 2003 o Censo Étnico-Racial da
UFF, que localizou o percentual de alunos negros por curso na UFF, não tínhamos
qualquer idéia acerca da relação entre a demanda e a aprovação destes alunos.
301
A PROAC passou então a ser uma parceira do PENESB para a realização de
pesquisas importantes para a compreensão dos mecanismos que presidem a entrada
dos alunos negros na UFF. Para além disto, no atual momento, o PENESB-UFF
está discutindo com este órgão uma política de ação afirmativa para o ingresso de
alunos negros na UFF.
Conclusão
Avaliando o conjunto das entrevistas aqui discutidas, podemos chegar a algumas conclusões mesmo que preliminares. De início parece que para todos os
alunos-bolsistas o projeto trouxe ganhos materiais, diretamente relacionados com a
permanência destes na universidade. Todos também se referem a ganhos na própria
qualidade enquanto alunos, devido ao acesso que passaram a ter a livros, a cópias de
material bibliográfico, participação em congressos e seminários, viagens, curso de redação, curso de inglês, entre outros. Assim, ao que tudo indica, os alunos afirmaram
que não somente lhes foi possível continuar com o curso de graduação, mas que,
além disto, puderam ter um maior desenvolvimento acadêmico-intelectual neste.
Um outro tipo de ganho, porém, não foi apontado por todos os alunos. Tratase de uma aquisição mais subjetiva, voltada para a própria formação identitária de
cada um com a sua condição de negro em uma sociedade racista como a brasileira.
Este “ganho subjetivo” apareceu nas entrevistas realizadas com alunos dos
cursos de Serviço Social, de Pedagogia, de Direito e de História. Os alunos dos cursos de Enfermagem, de Ciências Sociais e de Engenharia não sinalizaram de forma
muito visível e definida para a questão da formação de uma identidade negra ou da
preparação para atuar contra o racismo, o que constituía um dos objetivos propostos
pelo projeto do PENESB.
Além disto, nem todos os alunos apontam para o conjunto de discussões coordenadas pela equipe do projeto e voltadas para a questão racial no Brasil. Não parece ser por acaso que, são exatamente os alunos de Enfermagem e de Engenharia
que nem mesmo se referem em suas entrevistas as estes momentos de discussão e
formação extra-acadêmica (enquanto que os outros alunos não somente se referem
a estas discussões como ainda apontam sua importância e positividade). Podemos
levantar a hipótese de que as discussões que realizamos, apesar de seu caráter introdutório, envolviam temáticas muito distantes das que estes alunos desenvolvem em
seu cotidiano de graduação. Se tal hipótese está correta, deveríamos então ter atuado de forma mais precisa e especializada com os alunos vinculados ao projeto que
não se articulam em torno de cursos das áreas humanas, sociais e sociais aplicadas.
302
Por outro lado, pensamos que não foi por acaso que o único aluno, entre todos os bolsitas do projeto do PENESB, que se posicionou contra a política de cotas
seja da Engenharia. Em realidade é uma aluna. A leitura de sua entrevista nos leva a
perceber que ela pouco compreendeu e/ou aprendeu sobre a questão racial brasileira
nas várias discussões que realizamos. Seus argumentos contra a política de cotas,
que visa à inclusão dos negros no ensino público superior brasileiro reúnem toda a
“desinformação” que a mídia e o senso comum utilizam quando buscam estabelecer
críticas a este tipo de política de ação afirmativa. Esta mesma aluna, apesar de ser
radicalmente contra a política de cotas, foi favorável às ações afirmativas do tipo
permanência, mas acreditava que mesmo esta não deveria ser realizada no ensino
superior, mas sim no ensino fundamental e médio.
Este momento de avaliação é fundamental para que possamos ajustar nossas
estratégias para ações futuras. Certamente o fato do projeto ter sido redigido, executado e coordenado por docentes exclusivamente ligados a cursos da área social
e social aplicada, levou a uma situação na qual não conseguíamos perceber que a
lógica discursiva com a qual operávamos não era passível de fácil apreensão pelos
alunos que estavam imersos em outra realidade acadêmica.
Por outro lado, como verificamos, os ganhos institucionais foram significativos,
não somente porque disseminamos a discussão acerca da ação afirmativa no interior da UFF, mas também porque conseguimos aliados internos fundamentais para a
aprovação de uma política de reserva de vagas no vestibular dessa universidade.
303
Referências
BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1999.
BRANDÃO, André; TEIXEIRA, Moema de Poli (Org). Censo étnico-racial da
UFF e da UFMT. Niterói: EDUFF, 2003.
BRANDÃO, André. “Discursos sobre o mérito entre alunos do PVNC”. In:
Cadernos PENESB, n. 5, Niterói: EDUFF, 2004.
OLIVEIRA, Iolanda; BRANDÃO, André. Entrevista com os Alunos Bolsistas do
Projeto PENESB. Rio de Janeiro, fevereiro de 2004.
OLIVEIRA, Iolanda de (Org). Relações raciais e educação. Rio de Janeiro: DP&A
Editora, 2003.
TEIXEIRA, Moema de Poli. Negros na universidade. Rio de Janeiro: Pallas, 2003.
304
Parte IV
Ações
Afirmativas e
Combate ao
Racismo na
América Latina
305
Do Marco
Histórico
das Políticas
Públicas de
Ação Afirmativa
Carlos Moore Wedderburn
A
s polêmicas sobre as políticas públicas de ação afirmativa na América Latina remetem-se apenas ao fato dessas terem sido articuladas e
implementadas, de maneira coerente e global nos EUA nos anos 60,
como conseqüência da longa luta pelos direitos civis dos negros norteamericanos. O debate, portanto, desconsidera os parâmetros históricos fundantes
da adoção dessas políticas, assim encobrindo o fato de que esse tipo de política
corretiva surgiu das dinâmicas do processo que conduziu à independência dos países da África, da Ásia, do Caribe e do Pacífico Sul, antes colonizados pela Europa,
popularizando se após a Segunda Guerra Mundial.
Gênese das Políticas de Ações Afirmativas
e Questões Afins
Praticamente todos os países do “Terceiro Mundo”– com exceção dos da
América Latina – em um dado momento, aplicaram políticas públicas de ação afirmativa para resolver graves problemas internos decorrentes da marginalização seletiva do segmento dominado e de privilégios herdados do passado colonial ou milenar. Ultimamente, a África do Sul, instituiu a Employment Equity Act (1998), com o
intuito de resolver a exclusão da população de pele negra resultante do sistema do
apartheid. Em 1999, a Nova Zelândia introduziu um sistema de ações afirmativas
em favor do povo autóctone Maori e na Austrália se discutem atualmente medidas análogas em favor da população aborígene. Esse tipo de política está em plena
expansão no mundo inteiro, abarcando gênero, etnia, raça, sexualidade e outras dimensões que provocam disparidades e discriminações na sociedade.
Bhimrao Ramji Ambedkar e o Nascimento
da Estratégia de Ações Afirmativas
O conceito de ação afirmativa originou-se na Índia imediatamente após a
Primeira Guerra Mundial, ou seja, bem antes da própria independência deste país.
Em 1919, Bhimrao Ramji Ambedkar (1891-1956), jurista, economista e historiador, membro da casta “intocável” Mahar propôs, pela primeira vez na história, e
em pleno período colonial britânico, a “representação diferenciada” dos segmentos
populacionais designados e considerados como inferiores.
A vida política e a obra teórica de B. R. Ambedkar sempre estiveram voltadas para a luta pelo fim do regime de castas (OMVEDT, 1974; RODRIGUES,
2002; AGARWAL, 1991; MOWLI, 1990; CHAVAN, 2001). Para ele, quebrar os
privilégios historicamente acumulados pelas “castas superiores”, significava instituir
políticas públicas diferenciadas e constitucionalmente protegidas em favor da igualdade
para todos os segmentos sociais. Cabe aqui uma contextualização histórica.
O sistema de castas indiano é uma milenar estrutura de opressão, embutida
nos conceitos religiosos do hinduísmo. Esse sistema se articula em torno de conceitos de “superioridade” e “inferioridade”, de “pureza” e de “impureza”, que envolvem
não somente critérios religiosos, mas também sócio-raciais, tanto que, até hoje, as
castas “superiores” (savarnas) se definem em relação a uma origem ariana.
Historicamente, o sistema de castas que impera na Índia se articula em torno
de quatro castas formais, das quais as três primeiras – brahmim, katriya e vishiya
– são consideradas “superiores” e a quarta – shudra – inferior, pois, segundo o hinduísmo, foi criada por Deus para servir às três castas superiores. Porém, ao longo
do tempo esse sistema se tornou mais complexo – há cerca de 1000 castas - com a
criação de múltiplas castas subalternas fora do sistema formal, designadas “intocáveis” (dalits e advasis). Essas, conforme a religião hindu, por serem “poluídas” devem
obediência e sujeição a todas as demais castas, inclusive a casta inferior, shudra. Por
fim, há ainda as populações tribais, conhecidas como “tribos estigmatizadas”, que
vivem fora do sistema de castas, relegadas ao último estágio de inferioridade. É im Ver documentos de Ambedkar, em Rodrigues (2002).
308
portante ressaltar que as populações classificadas como “inferiores”, “intocáveis” ou
“estigmatizadas” pertencem o povo dravídio, população autóctone de pele preta.
O termo casta, o que dá nome a todo o sistema, diz-se varna em sânscrito,
dialeto ariano, e se traduz literalmente por “cor da pele”. Assim, nos defrontamos com
um sistema de opressão sócio-racial-religioso de natureza pigmentocrática, baseado em
uma extraordinária atomização da sociedade em segmentos hierárquicos hermeticamente fechados e desiguais. Este complexo sistema é protegido por um vasto arcabouço teórico-religioso e sócio-racial, articulado a partir da religião hinduísta.
Visando a romper esse sistema milenar, B. R. Ambedkar apresentou ao
Southborough Committee on Franchise, órgão colonial britânico, a “Demanda pela representação eleitoral diferenciada em favor das classes oprimidas” (Plea for separate
electorate for the depressed classes), documento fundador das políticas públicas de ação
afirmativa (RODRIGUES, 2002). Este ato, inclusive, torna-se um dos principais
motivos dos profundos embates ideológicos que eclodiram entre os nacionalistas
indianos (CHAVAN, 2001, cap. IX; RODRIGUES, 2002, cap. XXI; AGARWAL,
1991) gerando uma exacerbada polêmica na Índia que permanece até hoje.
Os protagonistas emblemáticos do primeiro conflito histórico em torno das
ações afirmativas foram Mahatma Mohandas Ghandi (1869-1948), promotor da
luta antibritânica, pela independência – e pertencente à “casta superior” brahmin –,
e o pensador e militante nacionalista dravídio, B. R. Ambedkar, dirigente dos dalits
e adivasis, e verdadeiro genitor histórico do conceito e prática das ações afirmativas
(MOWLI, 1990).
Ghandi se opôs de maneira contumaz à noção de ação afirmativa (naquele
momento denominada de “reservas”) e insistiu que qualquer tentativa de mudar o
status quo entre as castas mediante mecanismos de ação voluntaristas dividiria o país,
levaria à guerra civil entre as castas superiores e as inferiores e causaria o massacre
destas últimas. Sustentou que só uma “mudança no coração” das castas superiores, e
o amor ao próximo fundado no Hinduísmo, transformariam gradativamente o sistema de castas. Conseqüentemente, ele subordinava a libertação das “castas inferiores”
à própria independência da Índia e ameaçou suicidar-se em público caso a GrãBretanha adotasse o mecanismo de ações afirmativas em favor dos “intocáveis”.
Ambedkar argumentou que seria impossível desmantelar o sistema de castas
pigmentocrático sem a adoção de medidas específicas que favorecessem a ascensão
e mobilidade social dos três segmentos sociais oprimidos, constituídos por dravídios
Especialmente capítulo XXXIII e página 545.
309
(OMVEDT, 1974; RODRIGUES, 2002: capítulos VI, XX, XXI, XXV e XXVI).
Representando cerca de 60% da população, estes estavam concentrados nas castas
“inferior” e dos “intocáveis” e nas chamadas “tribos estigmatizadas” (scheduled tribes).
Os dirigentes nacionalistas, reunidos no Partido do Congresso, precisavam do
apoio da totalidade dos indianos para alcançar a independência da nação, o que viria
a ocorrer em 1947. Assim, viram-se obrigados a ceder a várias exigências de Ambedkar, que reivindicava a inclusão de instrumentos de ação afirmativa na constituição
da Índia independente.
Os nacionalistas foram então compelidos a delegar ao próprio dirigente dalit
a tarefa de redigir a parte da Constituição (1950) referente a estas questões. Os
artigos 16 e 17 da nova Carta indiana proibiam a discriminação com base na “raça,
casta e descendência”; aboliam a “intocabilidade”; e instituíam um sistema de ações
afirmativas, chamado de “Reservas” ou “Representação Seletiva”, nas assembléias
legislativas, na administração pública e na rede de ensino. Tais políticas, fortemente
combatidas pelas “castas superiores”, apesar de modestas, foram capazes de afetar
cerca de 60% da população da Índia, congregados em um total de 3.743 castas.
Não obstante as resistências, o Estado federal tentou reforçar a política de
“Reservas” em 1980 e, dez anos mais tarde, um novo acréscimo elevou para 27,5%
as cotas de participação (Comissão Mandal). As medidas provocaram protestos fanáticos e uma onda de auto-imolações nas “castas superiores”, lideradas pelo partido
de ultradireita – Bharatiya Janata Party (BJP) –, a mais extremista e racista das
formações políticas indianas. Após décadas de ofensivas destinadas a derrubar as
políticas de Ação Afirmativa e retirá-las da constituição, em 2003, já no poder, o
BJP reclamou a implantação de cotas em favor... das “castas superiores”.
Mais de cinqüenta anos após a independência da Índia, e apesar das disposições constitucionais, a obstrução ativa das “castas superiores” continua a frear os
avanços dos segmentos oprimidos. Essa contra-reação faz com que os 650 milhões de
dravídios continuem vegetando numa marginalização milenar e sistêmica. O drama
dos shudras, dalits, adivasis e das “tribos estigmatizadas” é uma das mais afrontosas
situações de opressão sócio-racial no mundo inteiro, por serem considerados praticamente como seres subumanos, com o aval da religião Hinduísta, e submetidos às
mais hediondas práticas de discriminação racista. Conseqüentemente, as lutas da casta
“inferior”, das castas “intocáveis” e das “tribos estigmatizadas” têm se acirrado nos
últimos anos, constituindo-se atualmente em um verdadeiro movimento nacional de
libertação popular. Hoje, é impossível conceber a emancipação dos dravídios na Índia
sem a reforma, ampliação e aprofundamento das políticas de ação afirmativa.
310
As Políticas de Ação Afirmativa Étnicas
e de “Indigenização”
As políticas de Ação Afirmativa se integraram à consciência mundial a partir
das lutas pela descolonização, após a Segunda Grande Guerra, quando foram aplicadas sob o rótulo de “indigenização” ou “nativização”. Com efeito, a partir da independência da Índia e do Paquistão (1947), e da Indonésia (1949), os outros países
africanos e asiáticos tiveram que se defrontar com o urgente problema de substituir,
em tempo relativamente curto, os europeus que, sob o regime colonial, monopolizavam todos os postos de comando da sociedade, inclusive na rede de ensino.
A partir da independência de Gana (1957) e da Guiné (1958), primeiros países africanos a proclamarem a sua soberania, disseminou-se no continente uma estratégia de políticas públicas de Ação Afirmativa voltadas para a formação acelerada
de quadros autóctones. Para isto, foi necessário pôr em prática um mecanismo oficial
denominado na época de “indigenização” ou “nativização”. Este consistia na imposição, mediante decreto, de cotas e outras medidas específicas destinadas a garantir o
rápido acesso dos nativos às funções até então monopolizadas pelos europeus.
A democratização da sociedade, através da eliminação dos privilégios criados
e mantidos pelo regime colonial, foi eficaz na criação rápida de quadros nativos
capazes de governar essas sociedades, a ponto de fazer com que praticamente todos
os países africanos e asiáticos adotassem medidas similares. Mais tarde, os países do
Caribe e do Pacífico Sul, que se tornaram independentes nas décadas de 60 e 70,
também se valeram dessa estratégia de empoderamento.
Na fase após a independência, as políticas de ação afirmativa igualmente serviram para resolver problemas de desigualdades internas, historicamente herdadas,
pelos países recém independentes. A Malásia constitui um caso específico nesse
sentido, por se tratar de uma experiência de ação afirmativa desenvolvida no marco
geral da descolonização, mas focada nas históricas desigualdades interétnicas do país.
Embora se trate de um caso emblemático a ser observado, guarda similaridades com
o contexto latino-americano, onde os privilégios e desigualdades históricas giram
em torno do pertencimento étnico ou racial.
As Políticas Étnicas de Ação Afirmativa na Malásia (Bumiputra)
Independente em 1957, a Malásia aplicou uma rigorosa política de Ações
Afirmativas, a partir de 1971, destinada a reverter a dominação exercida no país pela
minoria chinesa (25%), em detrimento da majoritária etnia malaia (65%). Desse
311
modo, o governo malaio pôs em prática um complexo sistema de cotas denominado
“Leis de Bumiputra” no contexto da Nova Política Econômica (NEP), (BIN MOHAMAD, 1970).
A enriquecida minoria chinesa, outrora favorecida pela colonização britânica,
no momento da independência, controlava 70% das riquezas do país, dominava a
administração pública e a rede de ensino nacional. Como resultado da intervenção
do Estado, este segmento perdeu seus privilégios num espaço de três décadas, êxito
que motivou o governo a, em 2003, pôr fim às cotas do Bumiputra em favor da
etnia malaia.
As Políticas Públicas de Ação Afirmativa nos Estados Unidos
Os Estados Unidos se converteram no primeiro país do “Primeiro Mundo” a
incorporar à sua legislação e prática social mecanismos surgidos do contexto geral
de descolonização do mundo afro-asiático, no intuito de emancipar um segmento
subalternizado. Em conseqüência da luta pelos direitos civis, desencadeada nos anos
50, pela comunidade afro-norte-americana, o Estado Federal incorporou o conceito
de políticas públicas de Ações Afirmativas nos anos 60.
A luta dos negros norte-americanos pelos Direitos Civis teve como pano
de fundo a Guerra Fria entre os dois blocos ideológicos mundiais – a então União
Soviética e os Estados Unidos – e revelou ao mundo as terríveis desigualdades e
o racismo que corroíam a democracia. Essa complexa interação, entre o contexto
internacional e a luta orgânica desencadeada pelos afro-norte-americanos, fez com
que o Estado se mostrasse menos omisso em relação à mais flagrante das contradições que afligiam e fragilizavam o sistema democrático estadunidense – a questão
racial. A oficialização das políticas de ação afirmativa aprofundou a democracia norte-americana, que desde a Segunda Guerra Mundial se erigira em modelo universal.
Por outro lado, representou a retomada da tradição do estado de bem-estar social,
implantado sob a administração de Theodore Roosevelt, nos anos 30 e 40, com as
políticas do New Deal.
As políticas públicas de ação afirmativa agregaram à sociedade norte-americana benefícios sociais e políticos das mais diversas ordens. Entretanto, menos
conhecido é o fato de que graças a elas se abriram espaços inéditos para a obtenção
de direitos, constitucionalmente protegidos, em favor de todos os outros setores
que se encontravam alijados de uma participação efetiva no processo democrático
naquela nação.
312
Da luta acirrada, iniciada pelos afro-norte-americanos, pela efetivação dos
direitos civis surgiram novas idéias e propostas que permitiram o auge das reivindicações de todos os segmentos discriminados dentro do país: os nativos norteamericanos (chamados de índios); as mulheres; os idosos; os deficientes físicos; os
homossexuais e transexuais; os imigrantes do “Terceiro Mundo” (principalmente
latino-americanos e asiáticos).
A experiência afro-norte-americana reforçou, tanto nos Estados Unidos como
no resto do “Primeiro Mundo”, a luta das mulheres pela igualdade em todas as esferas da vida pública e privada. Por sua vez, a luta específica das mulheres contra as
desigualdades e a opressão de gênero teve como conseqüência a mundialização do
conceito das políticas públicas de ação afirmativa e, particularmente, do mecanismo
de cotas como um dos seus principais instrumentos. Assim, a partir dos anos 70, o
conceito de “cotas corretivas” incorporou-se ao arsenal de luta feminista na Europa,
com implicações para o resto do mundo.
As Políticas de Ação Afirmativa de Gênero,
ou “Política de Paridade”
A Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher (Beijing, 1995), auspiciada
pelas Nações Unidas, propugnou pela primeira vez a adoção de cotas para mulheres
em escala mundial para todos os cargos eletivos e funções na sociedade. Esse fórum
internacional determinou que os países reservassem para as mulheres um mínimo
de 30% dos cargos do governo, com prazo de cumprimento até 2003, a fim de atingir a paridade entre homens e mulheres até 2005.
Como conseqüência dos compromissos assumidos em Beijing, os governos
do mundo iniciaram políticas de cotas em favor das mulheres tanto nos partidos
como no parlamento: Índia (20-30%); Namíbia (30%); Coréia do Norte (20%);
Bangladesh (10%); Uganda (14%); Tanzânia (13%); Taiwan (10%); Burkina Fasso
(6%); Nepal (5%) etc.
Nos anos 90, a Comunidade Européia incorporou o conceito de “paridade
representativa” das mulheres nos postos de comando da sociedade através do mecanismo das cotas. Em junho de 2000, a França converteu-se no primeiro país europeu a promulgar uma lei pela qual se estabelece a obrigatoriedade para os partidos
políticos de respeitar uma cota de 50% nas candidaturas femininas em todos os
pleitos eleitorais.
Na França, a Lei da Paridade representou uma mudança profunda do país,
pioneiro das estruturas republicanas de caráter universalista (FRANÇA. Lei nº 99313
596; LAVAU, 2004; OBSERVATÓRIO, 2004). Considerando tal lógica universalista, surgida ainda na Revolução Francesa, esse país poderia ter sido o último a
ceder a um conceito novo, que consiste em proporcionar tratamento diferencial aos
que historicamente foram tratados de maneira desigual.
A lei francesa da paridade foi o produto de uma longa e ferrenha luta das
organizações feministas, em um país onde as mulheres somente conquistaram o
direito ao voto após a Segunda Guerra Mundial e cujo parlamento, até o início
dos anos 90, era composto por 90% de deputados e senadores do sexo masculino
(LAVAU, 2004). Ultimamente, o Parlamento francês constituiu oficialmente um
“Observatório da Paridade”, órgão composto de personalidades representativas da
sociedade civil, incumbido de fazer cumprir a lei e formular recomendações às instâncias executivas do Estado.
A Itália representa um caso sui generis. Uma lei de paridade entre homens e
mulheres foi adotada em 1993 e, dois anos depois, derrubada sob a influência de
uma forte mobilização parlamentar ultraconservadora. O argumento contrário à lei
afirmava a inconstitucionalidade das cotas de gênero, por ferir os princípios republicanos universalistas e neutros, consagrados na Constituição. Ironicamente, a vitória
dessa contra-ofensiva ultraconservadora foi possibilitada pela escassa representação
feminina no parlamento italiano da época.
Respeitadas as devidas proporções e especificidades, é significativo que os
argumentos utilizados na Itália para derrubar a paridade de gênero viriam a ser
utilizado em outras partes do mundo em circunstanciais análogas. São eles: uma
suposta “agressão” e “discriminação” contra os homens; um pretenso “sexismo às
avessas”; o desrespeito ao “caráter neutro e universalista” da ordem constitucional; o
atentado ao “mérito” e à “competência”; e, por fim, a suposta ruptura da “coexistência harmônica” que se supunha existir entre homens e mulheres, com a conseqüente
ameaça à “coesão nacional”.
A experiência italiana ilustra pelo menos dois aspectos essenciais da questão:
a) uma conquista contra um sistema de iniqüidade historicamente fundado nunca
poderá ter um caráter irreversível; e b) quando se tenta mudar o status quo das
desigualdades sociais, étnico-raciais, culturais ou de gênero, a resistência ultraconservadora e os argumentos de contraposição buscarão legitimar-se com base em
arcabouço teórico-ideológico preexistente.
De maneira geral, o instrumento das cotas em favor das mulheres, visando
a garantir sua participação nos partidos, parlamentos e governos, tem tido uma
crescente e ampla aceitação no mundo inteiro (MEIER, 2004). É interessante res-
314
saltar que, segundo dados da União Interparlamentar Mundial, os países da Europa
ocidental que ostentam a maior proporção de mulheres no parlamento são precisamente aqueles onde os partidos políticos adotaram o sistema de cotas em favor da
mulher: Suécia, 42,7%; Dinamarca, 37,4%; e Noruega, 36,4% (VIENNOT, 2004;
PARLAMENTO Europeu, 2001).
Atualmente, todos os partidos filiados à Internacional Socialista (INTERNACIONAL Socialista de Mulheres, 2004) já aplicam o sistema de cotas de gênero,
variando segundo os partidos de um mínimo de 20% (Chile, Grécia, Hungria, Israel, Marrocos, Malta) a um máximo de 30-50% (Alemanha, Brasil, Argentina, Áustria, Botswana, Canadá, Costa do Marfim, Costa Rica, Dinamarca, Equador, El
Salvador, Espanha, Estados Unidos, e França).
As Cotas de Gênero na América Latina
Como conseqüência de longos anos de luta das organizações feministas da
região, também na América Latina se registram avanços no que diz respeito às
ações afirmativas de gênero, na forma de cotas em favor da participação das mulheres na vida política nacional. De acordo com análises recentes,
[...] a aceitação que hoje existe na América Latina, no que diz respeito às
cotas de gênero é evidenciada pelas pesquisas de opinião que demonstram que
2/3 da população considera que as cotas são, em geral, benéficas para o continente. Da mesma forma, ficou demonstrado que a maioria da população nesta
região (57%) apóia a idéia de aumentar o número de mulheres em cargos
públicos, entendendo que isto conduziria à formação de melhores governos
(PESCHARD, 2002).
A Argentina, primeiro país latino-americano a quebrar o tabu das cotas,
aprovou a Lei de Cupos, em 1991, que previa uma cota mínima obrigatória de 30%
para as candidaturas femininas em todos os partidos políticos. Leis semelhantes foram mais tarde adotadas em outros países com percentuais de 20% (Paraguai); 25%
(Peru e República Dominicana); 30% (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá,
Venezuela e México); e 40% (Costa Rica). Pesquisas sobre os efeitos destes mecanismos em favor das mulheres latino-americanas apontam resultados promissores
na redução da assimetria de gênero na América Latina (Id.).
A adoção de políticas de ação afirmativa de gênero tem se ampliado para outras regiões também marcadas por estruturas sexistas. Este é o caso das sociedades
do mundo semítico, árabe e indiano (Afeganistão, Índia, Irã, Paquistão, Turquia, os
315
países árabes do norte da África e do Oriente Médio), que historicamente sempre
se mostraram refratárias à noção de igualdade entre homens e mulheres. Nesses
países, as religiões predominantes, o Hinduísmo e o Islã, oferecem sólidas bases de
legitimação histórica da dominação masculina (MEIER, 2004).
Políticas de Ação Afirmativa no terreno sócio-racial
Latino-Americano
O Contexto Político Geral
Na América Latina, as décadas de 60 e 70 foram marcadas pela imposição
brutal de regimes militares de recorte fascista e da reabilitação da velha tradição
totalitária e antidemocrática incubada no longo período da escravidão, fantasma que
nenhum país latino-americano chegou a exorcizar. O desmantelamento do Estado
de direito pelos regimes militares, a imposição de leis de exceção e a universalização,
em pleno século XX, de algumas das práticas comuns no período escravista (execuções sumárias, torturas, desaparecimentos, repressão generalizada, abafamento e
censura dos meios de informação etc.) deram origem a uma luta multiforme que,
pela primeira vez desde as guerras pela independência, suscitou um amplo movimento pró-democracia em todos os setores da sociedade.
No contexto geral aludido, deu-se o auge das lutas de segmentos historicamente oprimidos e discriminados (mulheres, indígenas, afro-descendentes, homossexuais, entre outros.). Essas lutas se desenvolveram em paralelo, mas não interconectadas, como parte do processo geral pela democratização das sociedades
latino-americanas e a reconquista dos direitos confiscados pelas ditaduras militares,
sustentadas pelas classes sociais mais retrógradas.
O fato de estas últimas serem moralmente desacreditadas no seu esforço de
re-barbarizar a sociedade inteira levou à perda da sua legitimação e ao seu desgaste. Conseqüentemente, as elites ultraconsevadoras perderam o papel de referência
moral e cultural que tinham ostentado até então para fazer valer a sua hegemonia
sobre o conjunto da sociedade.
A ocorrência, no mesmo momento histórico, das lutas contra as ditaduras
militares na América Latina, das lutas dos afro-norte-americanos pelos Direitos
Civis, as lutas pela libertação nacional no continente africano, particularmente na
África do Sul e nas colônias portuguesas e, também, pela descolonização dos países
do Caribe e do Pacífico Sul, propiciou, pela primeira vez, um clima geral favorável
para um exame especificamente sócio-racial da realidade latino-americana. Através
316
dessa brecha histórica é que se organizaram as lutas concretas de afro-descendentes
e de indígenas na América Latina.
Deste contexto surgiram, tanto do lado indígena como do lado afro-descendente, as propostas em prol da aplicação de políticas públicas de ações afirmativas na
América Latina como estratégia capaz de reverter o quadro sócio-racial de marginalização e discriminações seculares exercidas contra esses dois segmentos populacionais.
Respostas às Ações Afirmativas na América Latina
Como visto antes, existe no continente uma opinião pública favorável ao mecanismo das cotas baseadas no gênero. Contudo, encontramos uma resistência orgânica às políticas de mesma natureza em favor dos 150 milhões de afro-descendentes,
e não menos de 130 milhões de indígenas, na América Latina. A mera menção de
cotas em favor desses dois grupos provoca uma verdadeira cruzada contrária, vinda
dos mais diversos setores da sociedade.
Cabe perguntar o porquê da diferença na aceitação de cotas para as mulheres
e cotas para afro-descendentes e indígenas. Trata-se de uma oposição às cotas em
si? Quais poderiam ser os determinantes da maior ou menor tolerância a depender
do grupo social em questão?
Embora se continue negando, a América Latina, como um todo, está imersa
em uma realidade sócio-cultural historicamente racializada, e mesmo passados cerca
de cento e oitenta anos dos processos de independência, o continente não consegue
se desprender dos tentáculos engendrados no ventre da escravização racial dos povos de origem africana (SANTOS, 2001). Arrasados na sua própria terra, trazidos
pela força militar a este continente, e submetidos durante quase quatro séculos aos
campos de concentração da escravatura, atualmente os afro-descendentes na América Latina apresentam os piores índices de desenvolvimento humano do planeta.
Apesar desse quadro desolador erguem-se vozes com crescente sonoridade, para
denunciar quaisquer tímidas medidas reparatórias sugeridas.
Os defensores do status quo racial latino-americano concentram sua argumentação na premissa de que a implementação de medidas étnico-raciais seletivas
resultará em rachaduras no edifício da coexistência inter-racial harmônica, a qual supõem prevalecer na América Latina em contraposição ao resto do mundo. Segundo estes, existiria um excepcionalismo baseado na miscigenação que caracterizaria
Especialmente os capítulos 4 a 6.
317
a realidade latino-americana. Dessa perspectiva, a composição multicromática das
populações do continente proibiria qualquer tratamento diferenciado do fenômeno
da pobreza e da marginalização.
Os adversários das ações afirmativas na região também esgrimem o nacionalismo para sustentar suas posições, argüindo que estes mecanismos são uma pura
“importação” da América do Norte. Na realidade, “importação” norte-americana são
os argumentos crescentemente utilizados na América Latina, a fim de combater as
políticas de Ação Afirmativa: o mérito, a preservação da excelência acadêmica e o
racismo às avessas surgiram historicamente nos Estados Unidos, no período denominado de Revolução Reaganiana (1981-1989).
Sob a administração de Ronald Reagan se constituiu uma ampla coalizão de
interesses hegemônicos ultraconservadores, empenhada em derrubar as ações afirmativas, conquistadas nos anos 60, assim como qualquer outra iniciativa social de
natureza democrática em favor dos segmentos sociais desfavorecidos. A chamada
Revolução Reaganiana foi o início de um grande projeto transversal, multissetorial,
de caráter neo-imperial e hegemônico, visando a transformar a nação americana em
uma superpotência bélica planetária capaz de monopolizar os recursos do globo sem
a necessidade de temer uma oposição. Nesse contexto, iniciado com a chegada da elite republicana ao poder, é que foram estruturadas e lançadas, com apoio do Estado,
as ofensivas em grande escala contra as políticas de ação afirmativa. Estas, enquanto
mecanismos democratizantes, eram vistas como um obstáculo ao projeto de expansão sustentado pelo Partido Republicano. Tais propostas conservadoras tomaram de
assalto amplos setores da sociedade, incluindo o Partido Democrata rival.
As ações afirmativas são uma barreira eficaz à progressão do racismo e das
desigualdades sociais nele alicerçadas. Por isso, derrubá-las é uma necessidade de
todo projeto conservador de sustentação de um status quo sócio-racial baseado na
dominação hegemônica de uma raça sobre outra, e da supremacia social de uma classe sobre todas as outras. Nesse sentido, a Revolução Reaganiana se insere na linha
histórica das propostas que, no século XIX, foram defendidas pela oligarquia escravocrata sulista. Portanto, não se trata de uma revolução, mas de uma contra-revolução
que atinge o tecido democrático norte-americano no que ele possuía de melhor.
É essa perspectiva reaganiana que está sendo incorporada à ofensiva contra as
políticas públicas destinadas a desmantelar o racismo na América Latina. Ou seja,
sob o pretexto pseudonacionalista de combater a suposta “imposição” de um “maneirismo do grande irmão do norte”, diversos setores lançam mão dos mais retrógrados argumentos, com o objetivo de manter intacto o status quo sócio-racial. Mas,
318
cabe perguntar, de que status quo sócio-racial se trata? Qual é, na sua materialidade
cotidiana, o sistema racial que impera na América Latina? As respostas a essas
questões exigem que se examine, ainda que brevemente, a complexa problemática
do sistema sócio-racial especificamente latino-americano.
O Modelo de Relações Raciais Latino-Americano
e as Ações Afirmativas
A falta de um mínimo de perspectiva histórica sobre o tipo de estruturas
sócio-raciais prevalentes na América Latina tem tornado toda a discussão sobre as
ações afirmativas em mero sofisma. Até por isso, por detrás de polêmicas recentes
ocultam-se tenazes preconceitos, temores e até ódios seculares, engendrados nas experiências recentes ou remotas da escravização racial e da inferiorização dos povos
coletivamente rotulados de negros (DAVIS, 1988; LEWIS, 1971; M’BOKOLO,
1995, caps. III e IV; POPOVIC, 1976).
O modelo predominante de relações raciais na América Latina é fundamentalmente pigmentocrático e clientelista, baseado na atomização permanente dos segmentos raciais subalternizados. Sabe-se que as estruturas pigmentocráticas (como
no Afeganistão, Índia, Irã, Oriente Médio, Paquistão e Turquia) têm sua gênese
num mundo pré-industrial, dominado pelo clientelismo e pela hierarquização determinada pela linhagem e o conceito de nobreza. Trata-se, portanto, de um modelo
intrinsecamente refratário a qualquer demanda étnico-racial coletiva, uma vez que
estruturas sócio-raciais desse tipo carecem de mecanismos para lidar com as demandas sociais surgidas na modernidade.
O modelo racial latino-americano satisfaz interesses individuais de integração e de ascensão social, desde que estes não coloquem em perigo o conjunto do
sistema. A integração e ascensão se dão mediante um complexo sistema de cooptação baseado na mestiçagem biológica, vertical e unilateral do segmento racial subalternizado. Essa mestiçagem historicamente institucionalizada cria uma população
afastada de sua identidade original. É no interior deste contingente populacional
multicromático, carente de uma identidade própria, que o sistema pigmentocrático
retroalimenta a sua base de dominação.
Assim, com a extrema atomização promovida por esse tipo de formação sócioracial desaparecem os mecanismos internos de negociação coletiva entre segmentos
sociais dominados e dominadores. Os conflitos concretos desse tipo de sociedade se
resolvem na esfera das relações interpessoais e, preferencialmente, na esfera sexual;
ou seja, no universo puramente simbólico-emocional. Fora desse espaço interpesso319
al, regido pela estrita observância de um código implícito de subalternidade e superioridade, o modelo rapidamente atinge seus limites e exibe sua face repressiva.
Essa complexa situação, que implica uma imbricação permanente entre os setores dominantes e dominados, recebeu a eufemística denominação de “democracia
racial”. Ou seja, uma ordem pigmentocrática, responsável pela produção de preconceitos e desigualdades, que tem tudo de racial e nada de democrático.
A extraordinária transversalidade e plasticidade das sociedades pigmentocráticas são fontes de uma enorme capacidade de resistência às mudanças orgânicas. A
durabilidade e a estabilidade dessas sociedades, obtidas através de relações clientelistas de dependência e de um paternalismo típico das sociedades patriarcais pré-industriais, são mantidas a um altíssimo preço: o imobilismo social; o obscurantismo
cultural; o conservadorismo; e o desmoronamento ético e moral. No limite, tais
condições garantem um estado crônico de subdesenvolvimento social baseado na
ignorância generalizada entre as próprias elites e na criação permanente de massas
humanas que vegetam na mais abissal miséria. É com essa situação que as estratégias de combate às desigualdades, entre elas as ações afirmativas, estão destinadas a
se defrontar em toda a América Latina.
As Lições do Abolicionismo do Século XIX
Em termos históricos, a iniqüidade sócio-racial latino-americana resulta da
escravidão racial dos povos africanos e, conseqüentemente, das condições gerais que
presidiram a abolição desse sistema singular no hemisfério (SANTOS, 2001: especialmente caps. 3 e 4).
A transição da escravidão agro-comercial para o modo de produção capitalista industrial foi, talvez, a única experiência traumática comum às elites dirigentes de
todos os países do hemisfério no século XIX. Ela foi um processo de vida ou morte
para jovens nações independentes, começando com a revolução e independência do
Haiti, em 1804, passando pelas guerras independentistas latino-americanas, a partir
de 1820, a Guerra Civil norte-americana, de 1861 a 1865, e encerrando com o processo abolicionista brasileiro de 1888.
A destruição da escravatura no Haiti pelos próprios escravos negros representa um modelo sui generis de abolição revolucionária que levou a população de origem africana ao poder. Porém, no hemisfério, a transição para o trabalho assalariado
se deu segundo três processos diferentes dos quais um só correspondeu aos anseios
das populações afro-americanas. A comparação entre os processos de abolição nor320
te-americano e latino-americano, com a sua variante brasileira, mostrará até que
ponto eles deram os mesmos resultados em relação às populações negras, apesar das
peculiaridades que os demarcaram.
O Caso Norte-Americano
A passagem do escravismo para um sistema baseado no trabalho assalariado e
industrial foi um divisor de águas que, no caso dos Estados Unidos, desembocou em
uma cruenta guerra civil (1861-1865), entre os estados confederados escravocratas
do sul e os abolicionistas do norte do país. Historicamente, estes últimos já tinham
optado pelo modo de produção capitalista e se consolidado sobre essas bases, mas
a intransigência sulista, manifestada na proclamação da secessão, não deixou outra
opção ao governo central senão a guerra para manter a unidade do Estado nascido
da Revolução Americana.
Os Estados Unidos da América, que emergiram no final do século XIX, para
dominar progressivamente a ordem mundial no século XX, foram o resultado concreto da vitória do Governo Federal sobre a retrógrada oligarquia escravocrata sulista. Isso equivaleu à vitória de um projeto de liberalismo político e econômico baseado no trabalho assalariado e centrado no desenvolvimento da grande indústria.
Não cabe nos limites deste texto detalhar os acontecimentos que determinaram o sucesso das forças progressistas, representadas pelo Partido Republicano
da época. Entretanto, convém examinar, no momento que antecede a guerra, os
argumentos dos abolicionistas contra os dos escravocratas sulistas, defensores do
status quo sócio-político-econômico-racial. Tais argumentos, de grande relevância
histórica, foram forjados nos famosos embates eleitorais protagonizados pelo senador do Partido Democrata, Stephen Douglas, e o aspirante a senador pelo Partido
Republicano, Abraham Lincoln, abolicionista e futuro presidente. Douglas, portavoz dos interesses ultraconservadores do sul, temia que o fim da escravidão levasse
inexoravelmente ao “enegrecimento” dos Estados Unidos e à tomada do poder pelo
segmento escravizado.
Por outro lado, Lincoln defendia incansavelmente três posições: i) a permanência ou extensão da escravidão nos estados do sul ameaçava o caráter unitário da
Federação Americana; ii) o escravismo inviabilizava o projeto nacional de desenvolvimento industrial, ao mesmo tempo em que aprisionava as forças criativas da nação
no obscurantismo moral e nas idéias surgidas da escravidão; e iii) a proliferação da
escravidão, com seus usos e modos ultrapassados, impediria os Estados Unidos de
321
atingir o status de grande potência democrática em escala mundial. Nesse contexto,
a defesa do abolicionismo traduzia exclusivamente a proteção de interesses estratégicos dos Estados Unidos.
Lincoln não era de maneira alguma a favor da igualdade entre brancos e negros, como afirmou no primeiro debate, em Ottawa, no dia 21 de agosto de 1858:
Não é meu propósito introduzir a igualdade política e social entre as raças negra e branca. Existe uma diferença física entre ambas que, na minha opinião,
as impedirá, talvez para sempre, de coexistir em pé de plena igualdade, e, na
medida que seja necessária uma diferença entre ambas, eu, tanto como o Juiz
Douglas, me declaro em favor de que a raça à qual pertenço tenha a posição
superior. Nunca disse nada ao contrário... Concordo que ele [o negro] não é
o meu igual em muitos aspectos – certamente não quanto à cor, e possivelmente também não o seja na capacidade moral e intelectual (LINCOLN et
al, 2001).
Disse também Lincoln, no quarto debate com Stephen Douglas, realizado
em Charleston, no dia 18 de setembro:
[...] não sou, nem nunca fui a favor de transformar os negros em eleitores nem
juízes, nem de dar-lhes a possibilidade de se eleger a cargos de governo, nem
de se casar com a gente branca. E declaro, também, que ... na medida em que
tenhamos que coexistir deverá haver a posição de superior e de inferior, e eu,
como qualquer outro ser humano sou a favor de usufruir a posição superior
que corresponde à raça branca... Eu não compreendo o argumento de que
pelo fato de não querer ter uma negra como escrava, eu deveria querer tê-la
necessariamente como esposa... Nunca tive uma mulher negra nem como escrava nem como esposa. Logo, me parece perfeitamente possível a coexistência sem fazer dos negros nem escravos, nem esposas (Id.).
Em uma frase que ficou famosa, e cujas implicações históricas nos atingem
hoje, o já presidente Abraham Lincoln disse:
[...] meu objetivo principal é salvar a União; não é o de salvar ou destruir a
escravidão. Se eu pudesse salvar a União sem libertar um só escravo o faria, e
se eu pudesse fazê-lo libertando todos os escravos, o faria também...
As conseqüências devastadoras da guerra civil nos Estados Unidos e os revezes sofridos diante dos exércitos sulistas obrigaram o governo federal a proclamar
a abolição da escravatura e a incorporar os negros ao exército nortista. Como resultado desta dinâmica e das próprias reivindicações dos libertos, o governo também
322
se viu compelido a introduzir na Constituição do país as emendas 14, 15 e 16 que,
além de garantir direitos aos antigos escravos, previam mecanismos para sua de indenização através da doação de terras e de instrumentos de trabalho.
Contudo, durante o período conhecido como “Reconstrução”, as medidas de
reparação foram brutalmente freadas pela contra-revolução sulista que desatou o
terrorismo organizado contra os negros emancipados. Assim, nasceram os grupos
de extermínio, como o Ku Klux Klan e o Conselho de Cidadãos Brancos, que protagonizaram milhares de linchamentos. Por sua vez, as elites nortistas, aprisionadas
pelo racismo, viam-se impedidas de propor uma mudança total da sociedade, pela
incorporação efetiva do segmento negro da população. Assim, perdeu-se nos Estados
Unidos a oportunidade de demolir o edifício estrutural surgido da escravidão racial.
O Caso Latino-Americano
A América Latina também deixou passar a oportunidade histórica de destruir a estrutura surgida da escravidão racial e consubstanciada por um modelo de
relações raciais propriamente latino-americano, cujos hábitos, usos, valores e idéias
surgiram do ventre do racismo. Diferentemente dos Estados Unidos, na América
Latina, o processo de abolição da escravatura não levou em consideração propostas indenizatórias e reparatórias. Em todo o continente, a abolição foi apresentada
como uma dádiva, produto da generosidade da elite branca escravocrata, pela qual
os negros deveriam sentir-se gratos. A “emancipação-dádiva” proclamada pela princesa Isabel, no Brasil, foi emblemática nesse sentido, tanto por ser o último país
do hemisfério a abolir a escravatura, quanto pelos argumentos paternalistas que
coroaram o processo.
O caso de Cuba, protagonizado pelo senhor de engenho e de escravos, Carlos
Manuel de Céspedes, repetiu-se pela América Latina onde os caudilhos independentistas subordinaram a emancipação dos escravos à integração destes aos exércitos de libertação contra a Coroa Espanhola, onde se converteram em verdadeiras
“buchas de canhão”. O fato de na maioria dos países latino-americanos a abolição
ter coincidido com as lutas de independência nacional fez com que o negro escravizado tivesse que pagar com a vida o preço da sua liberdade – escravidão ou morte.
Logo que se constituíram, as novas nações independentes da América Latina
se empenharam em uma política de repressão e genocídio contra os ex-escravos e de
branqueamento da população mediante a imigração européia (ROUT, 1976; SOUSA, 1996; GRAHAM, 1990; HELG, 1990: 37-69; SARMIENTO, 1991). Cuba
323
constituiu um exemplo típico desta feroz repressão racial que, em 1912, desembocou na tentativa de extermínio da população negra, prática repetida com êxito
quase que total na Argentina, Chile, e El Salvador (HELG, 1995; PICOTTI, 1998;
MELLAFE, 1974; MELLAFE, 1984; ANDREWS, 1980; MORESCHI, 1999).
Na América Latina as elites republicanas não tinham como projeto emancipar a população de origem africana. Com efeito, em vez de elaborar estratégias
democráticas capazes de reverter a ordem racializada surgida da escravidão, as elites
projetaram no Estado toda a superestrutura desenvolvida no período colonial e escravocrata. Ou seja, os novos dirigentes latino-americanos, que alcançaram o poder
mediante um processo supostamente revolucionário, levaram para o interior do Estado a visão e as práticas da escravidão, assim reproduzindo uma ordem pigmentocrática e altamente repressiva. Esse novo cenário teve como sustentáculo um projeto
eugenista de branqueamento, apoiado na massiva imigração de populações oriundas
da Europa. Tais fatos agiram em detrimento das aspirações dos afro-descendentes,
contribuindo para impedir sua inserção na nova estrutura econômica capitalista.
Por que É Preciso Desmantelar o Racismo Estrutural
Latino-Americano?
Racismo e Corrosão Social e Moral da Sociedade
O ser humano procura a felicidade com base no respeito e na aceitação de si
pelos outros. Os indivíduos estruturam a sua existência permanentemente estimulados pelo desejo de serem respeitados. Enfim, os seres humanos necessitam, profundamente, saberem-se respeitados e aceitos por seus congêneres. Partindo dessas
constatações, e colocando-as como o pivô da essência humana, do que nos faz ser
o que somos como humanos, chegaremos à conclusão de que ser desrespeitado, ser
rejeitado, de maneira sistemática e permanente, representa uma ferida e uma dor
ontológica profunda e inaceitável.
O amor próprio, a auto-estima, o respeito de si, ou seja, a dignidade humana,
corresponde ao que o ser humano tem de mais essencial e singular. É, precisamente,
essa parte mais profunda do ser humano – o pivô de sua existência – que o racismo
atinge, fere e destrói.
O racismo é, deste ponto de vista, um crime contra a humanidade. Um crime
contra a espécie humana, cometido de forma permanente e voluntária, contra todos
os integrantes de uma determinada população-alvo. O racismo é um fator desestruturante na sociedade, pois gera patologias, das quais ninguém escapa, tanto no
324
segmento dominado quanto no segmento dominador. Na população-alvo, ele destrói a auto-estima e conduz a uma desconexão psicológica com a sociedade como
um todo, propiciando o surgimento de indivíduos cuja identidade destruída os lança
num terreno baldio onde podem frutificar atitudes anti-sociais.
No segmento subalternizado, a aniquilação da auto-estima individual e coletiva, assim como a sujeição permanente aos preconceitos e discriminações raciais,
também contribui para a diluição da consciência moral. Assim, o ser agredido, marginalizado de fato, é levado a responder agressivamente à sociedade que o rejeita.
A marginalização gera a marginalidade e a marginalidade gera as condutas profundamente anti-sociais. Em última instância, é o racismo quem gera a criminalidade,
e não o inverso. Ou seja, ele cria potencialidade para a criminalidade dentro da
população-alvo, permanentemente acuada.
No interior do segmento dominador, o racismo cria uma complexa rede de
atitudes de cumplicidade amoral, e de insensibilidade humana, que por sua vez propiciam um alto grau de permissividade diante de condutas patologicamente antisociais. Em todo o continente americano, onde se implantou a escravidão racial,
o racismo legou uma cultura política amoral e criminosa que permeia toda a vida
social. No caso específico da América Latina, não se pode desvincular a amoralidade própria do racismo da propensão das elites dirigentes à mal-versação dos bens
públicos; da permanente tentação de militarizar a vida civil; das condutas criminosas das instituições encarregadas de codificar e aplicar a lei; tudo isso faz parte do
complexo nó produzido pelas estruturas racistas.
O racismo cria inter-relações desestruturantes e desequilibrantes, que conduzem, inexoravelmente, à implosão de todo o conjunto da sociedade. A democracia no seu sentido mais geral, seja articulada no gênero, na classe social,
na orientação sexual, no pertencimento cultural ou, simplesmente, no banal jogo
sucessório dos partidos políticos, não terá uma ancoragem duradoura na América
Latina, região de tendências autoritárias, sem o desmantelamento do seu modelo
de relações raciais.
O exemplo recente da poderosa União Soviética é emblemático. Um estado multi-étnico e multirracial, que
se desintegrou com incrível facilidade apesar do enorme poderio econômico e militar, após somente sete
décadas de existência. Dominada exclusivamente por eslavos, os chamados “russos brancos”, a União Soviética foi minada, desde a sua fundação em 1917, por tensões étnico-centrífugas. Portanto, o fracasso da
experiência soviética, que não foi tão somente o do comunismo como ideologia, deveria servir de alerta. A
não resolução permanente de conflitos baseados na raça, na etnia, na casta e na classe social, constitui
uma ameaça letal para qualquer Estado multirracial. Desde o predomínio imperial greco-romano até nossos dias, essa premissa se confirmou, repetidamente, ao longo da história das sociedades. Seja qual for
o poderio político, econômico, tecnológico ou militar de um Estado, este não poderá desafiar indefinida e
impunemente as “leis da gravidade” das dinâmicas sócio-raciais e étnico-culturais.
325
Razões Socioeconômicas
O ato de amputar a contribuição de um segmento da sociedade da criação
social coletiva, por meio de discriminações e preconceitos étnico-raciais, é um dos
principais fatores da decadência e da inoperância de um conjunto social. Nas condições de alta competitividade que marcarão cada vez mais o século XXI, amputações desse tipo condenarão a sociedade que as permitam e as reproduzam no seu
cotidiano. É por isso que o mito da democracia racial tem sido, para todos os países
da América Latina, uma variável preponderante no subdesenvolvimento social, cultural, político e estrutural.
O caráter regenerador da diversidade e da pluralidade cultural e étnico-racial nas sociedades do século XXI é uma descoberta recente oriunda do crescente
transnacionalismo do sistema capitalista mundial e do concomitante fenômeno de
globalização. Como tem sido demonstrado, no mercado de trabalho, a diversidade
é um fator de alta produtividade e versatilidade, pois multiplica as possibilidades de
solução dos problemas, tomando como aporte resolutivo a experiência/acúmulo que
cada segmento representado pode trazer. Um ambiente composto por pessoas com
experiências históricas diferenciadas, acostumadas a lidar com a complexidade das
diferenças, tem maior capacidade de responder às mais variadas tarefas e demandas
com flexibilidade. Em termos puramente econômicos e financeiros, a incorporação ativa dos segmentos marginalizados à economia representa um bem absoluto,
mesmo na perspectiva, do lucro, que é, em definitivo, o mecanismo propulsor da
dinâmica capitalista. É por isso que a globalização capitalista implica também uma
certa adaptação dos mecanismos econômicos mundiais à diversidade cultural, étnica, religiosa e racial do planeta.
Ora, na América Latina costuma-se discutir a pobreza e as desigualdades
sociais sem aludir à estrutura racial das sociedades. É impressionante constatar a
invisibilidade do racismo aos olhos de economistas, sociólogos, antropólogos, etnólogos, cientistas políticos, filósofos, psicólogos e demógrafos. O mundo acadêmico
latino-americano é a incubadora de idéias que racionalizam e mantêm em vigência
o modelo de relações raciais ibero-árabes ((MOORE, 1995; 1988, Capítulo 5). Afinal, na academia foram elaboradas no século XIX, em toda América Latina, teses e
propostas eugenistas que logo depois se converteram nas mito-ideologias sucessoras
da democracia miscigenada, como raça cósmica (México), sociedade café-com-leite (Venezuela) e democracia racial (Brasil).
A análise histórica da pobreza e das desigualdades, fenômenos que em muitos casos correspondem à maioria da população nacional, torna-se totalmente opaca
326
sem uma referência sistemática ao modelo de relações raciais que impera na região.
Incorporar a dimensão racial à análise da sociedade em seu conjunto é condição
para que se logre uma leitura social, cultural ou política capaz de revelar as realidades factuais das sociedades latino-americanas. Nelas, a pobreza e as desigualdades
nascem de um sistema de dominação política e de hegemonia social, historicamente
baseado no esmagamento e na marginalização das sociedades indígenas, por um
lado, e por outro, na imposição da escravidão racial às populações africanas e na sua
subseqüente marginalização no período pós-abolição.
Desse ponto de vista, o subdesenvolvimento socioeconômico, as desigualdades, a pobreza endêmica, a ignorância, o desemprego, a criminalidade, as mazelas
irredutíveis de pobreza crônica (favelas, ranchos, morros etc.) são produtos de um
processo secular, linear e concatenado: o genocídio e a escravização racial que marcou
o período colonial e o feroz racismo institucional erigido durante todo o período
pós-colonial. Esse impacto histórico cumulativo da opressão é que explica, em grande
parte, o quadro desolador do conjunto das sociedades latino-americanas atualmente.
Em muitos casos, os danos sociais aumentam exponencialmente e se massificam quando o segmento marginalizado corresponde à metade ou mais da população. Considerando que esse quadro não cessa de piorar, é lógico chega à conclusão
de que somente através de ações deliberadas, promovidas e sustentadas pelo Estado,
será possível conter a progressiva desintegração do tecido social e a ocorrência de
rupturas orgânicas irreversíveis. O modelo de hegemonia e de exploração articulado
através de uma visão raciológica precisa ser desmantelado.
Para uma Verdadeira Emancipação SócioRacial na América Latina
Uma Nova Oportunidade para Reverter o Status Quo Sócio-Racial
A idéia de que o racismo não pode ser vencido é tão infundada quanto a
de que ele cederá facilmente aos apelos à razão. Convém ressaltar que o combate
atual pela implementação das ações afirmativas na América Latina se inscreve num
contexto histórico preciso: a marginalização socioeconômica e política imposta às
populações de origem africana em toda a América Latina no período pós-abolição
(SANTOS, 2001). Nesse período, foi abortada a oportunidade histórica de desmantelar o racismo dada a estreita visão de curto prazo das elites que, dominadas pela
ambição de lucro, frearam as possibilidades de avanço moral e democrático das
sociedades latino-americanas.
327
O racismo levou as elites da América Latina a adotar políticas eugenistas, de
recorte nazista, para promover o branqueamento das populações ou, pura e simplesmente, a eliminação física das populações negra e indígena. Esses fatos conduziram
à formação de sociedades fortemente racializadas, antidemocráticas, autoritárias e
politicamente submissas ao domínio imperial exterior, tanto nos planos econômico
e político, como no cultural. Os modos e usos vindos da velha Europa colonial e da
pujante América do Norte neo-imperial se converteram, e se mantêm até hoje, no
semblante mimético distintivo mais aparente da América Latina.
Como mudar essa realidade, em nome não somente da ética e da moral, mas
também em prol da consecução de novas alternativas de vida? Como estruturar uma
ordem social eqüitativa, uma democracia social de fato, que poderia ser a base de
sociedades capazes de prosperar nas condições específicas do século XXI?
Essas questões estão por trás das demandas por políticas públicas de ação
afirmativa, capazes de conter as forças centrífugas geradas pelas desigualdades sociais e raciais e de impedir a implosão da sociedade. Através desses mecanismos seria possível reverter as condições de marginalização das populações-alvo do racismo
e estancar a ação dos fatores que conduzem as nações latino-americanas a um beco
sem saída. Trata-se, portanto, de reatualizar e readequar o processo abolicionista às
exigências que se inscrevem neste século.
Na América Latina, a campanha anti-racista deveria ser orientada para os
seguintes resultados: a) a contenção imediata da expansão do fenômeno racista e do
acúmulo das desigualdades de todo tipo que ele gera; b) a consolidação das posições anti-racistas através de uma mobilização que atinja todos os setores e espaços
institucionais da nação; e c) o desmantelamento de cada um dos mecanismos constitutivos do modelo latino-americano de relações raciais.
O Papel do Estado na Luta contra o Racismo
O desmantelamento do modelo de relações raciais da América Latina, assim
como a queda da ordem patriarcal-masculina, não poderá ser conseguido facilmente, pois essa luta de longa duração implica a mobilização de todas as forças criativas
da sociedade. Além disso, há que considerar que as formas de dominação a serem
eliminadas e as formas de emancipação a serem atingidas não se sustentam na esfera
da construção ideológica, mas na esfera problemática da consciência historicamente
construída. Portanto, faz-se indispensável reforçar a capacidade de intervenção do
Estado, símbolo das aspirações permanentes da nação, na formulação de uma estratégia global e articulada, em nível nacional, para a mudança definitiva da situação
étnico-racial.
328
No mundo inteiro, a implementação de políticas de ação afirmativa tem se
revelado eficaz na luta pela redução significativa, em tempo relativamente curto, das
iniqüidades sociais e raciais. O protagonismo do Estado nesse esforço deverá ser
objeto de crescentes demandas por parte da população-alvo do racismo, assim como
por parte da comunidade internacional.
Mudanças duráveis nas sociedades latino-americanas, que conduzam à igualdade social e à eqüidade étnico-racial e de gênero, só serão possíveis com uma mobilização em escala nacional em favor da destruição das estruturas étnico-raciais dominantes, isto é, do modelo de relações raciais e sociais latino-americano. Na realidade, a
polêmica reação suscitada pela idéia de adoção de políticas públicas de ação afirmativa,
em favor de afro-descendentes e indígenas, representa uma importante brecha histórica a
ser aproveitada no sentido de uma pedagogia de desmistificação anti-racista.
O primeiro passo nessa direção é reconhecer a natureza histórica do fenômeno
racista em si, enraizado em práticas milenares e no imaginário coletivo. O segundo
passo é compreender que o modelo de racismo vigente na América Latina corresponde
a um tipo singular de relações raciais de uma ingente compactação histórica e transversalidade setorial. Ignorar sua intrínseca mutabilidade e plasticidade ou minimizar seu
caráter adaptativo corresponderia a arar no mar, ainda que com as melhores intenções.
O desmantelamento do racismo na sociedade requer uma verdadeira cruzada
ético-moral e político-social, endereçada a todos os setores e recantos da sociedade,
principalmente às fontes concentradoras, bastiões e vetores desse fenômeno multiforme e onipresente no corpo social: a mídia, o mundo do ensino (fundamental, médio
e superior), as instituições religiosas, os partidos políticos, as organizações sociais, a
administração pública, o setor de produção de bens e de serviços, e as instituições de
comando da sociedade (executivo, legislativo, judiciário). Com efeito, a eficácia das
ações contra o racismo depende de múltiplos e variados fatores de peso desigual.
A condenação moral do racismo é, sim, uma necessidade. Ela se apóia na ética
e na filosofia de vida, sendo, portanto imprescindível na responsabilização individual e
coletiva dos cidadãos pela reprodução do racismo. Contudo, em si mesma, a condenação
moral não é a resposta definitiva do problema, pois se não for sustentada por estratégias
multifacetadas e onidirecionais de contraposição, não poderá alcançar a meta almejada.
Pode-se concluir, com um alto grau de certeza, que o combate ao racismo,
particularmente o seu modelo latino-americano, precisará de estratégias multiformes adaptadas ao caráter imanente e permanente desse fenômeno atemporal na sua
generalidade. Essas estratégias deverão, sobretudo, levar em conta as particularidades intrínsecas ao modelo de relações raciais que impera nesta região.
329
Conclusão
O racismo é um fator permanente, imanente e mutante na sociedade; ele tem
uma vida própria, uma história própria que, aliás, se perde no fundo da história das
sociedades humanas. Como fenômeno historicamente determinado, profundamente enraizado no mundo fantasmático e simbológico (e não somente simbólico), o racismo foge ao controle do raciocínio puramente intelectual; é no universo imaginário onde se forjam tais representações. Portanto, é o racismo que cria as ideologias raciológicas, e não o inverso.
A Segunda Guerra Mundial demonstrou de maneira inequívoca que o racismo é uma das maiores ameaças para o futuro da humanidade. As dinâmicas próprias
a esse fenômeno não são estáticas; seja qual for a sociedade, elas evoluem constantemente. Em qualquer sociedade, em determinados momentos de tensão social, o racismo pode evoluir para estruturas atualmente conhecidas como nazismo e fascismo.
O período de re-barbarização oligárquico-militarista, ocorrido na América
Latina nas décadas 60 e 70, precisa ser reavaliado nesse contexto, pois a militarização e o totalitarismo desse período não podem explicar-se unicamente em relação
a fatores políticos e econômicos excluindo-se o marco sócio-racial do continente. O
racismo favorece, alimenta e encoraja o totalitarismo político, o despotismo cultural
e as desigualdades sócio-econômicas em geral (CARRÈRE D’ENCAUSSE, 1978;
2000; 1990; 1996; 1963).
O ressurgimento de propostas abertamente racistas e a nova popularidade
dos movimentos e partidos ultradireitistas na “evoluída” Europa, onde se observa,
paralelamente, uma alta rejeição aos imigrantes de países do Terceiro Mundo, são
indícios alarmantes que devem ser colocados em perspectiva histórica. Com efeito,
não se trata de epifenômenos isolados, ou passageiros – nos Estados Unidos e na
Austrália, por exemplo, observam-se as mesmas tendências.
A sobrevivência coletiva no século XXI requer um ambiente de crescente coexistência harmônica entre culturas, civilizações, gêneros e segmentos étnicos ou raciais
com base na eqüidade. Nesse contexto geral, as políticas públicas de ação afirmativa
são uma das inúmeras ações que requerem uma ampla estratégia, especificamente voltada para o combate ao racismo na sua expressão tipicamente latino-americana.
Sendo assim, a enganadora mitologia da democracia racial deve ser sucedida
por novas práticas, idéias e mecanismos que sustentem concretamente as aspirações
nacionais em prol de uma democracia paritária. Uma democracia que garanta possibilidades, condições e resultados iguais para todos os segmentos constitutivos das
nações latino-americanas.
330
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334
Ações Afirmativas e
Afro-Descendentes
na América Latina:
análise de discursos,
contra-discursos e
estratégias
Mónica Carrillo Zegarra
O
objetivo destas anotações é dar um panorama geral dos discursos e
contra-discursos em relação às “ações afirmativas” (AAs), levando em
conta a particularidade da América Latina com relação a outras regiões, e as posições que tratam de deslegitimar ou reduzir a potencialidade deste tipo de políticas. Ademais, analisar-se-ão as tensões existentes com os
movimentos que têm em sua agenda a luta contra a discriminação.
Marco geral sobre Ações Afirmativas
Definições e questionamentos
As ações afirmativas como proposta política dos movimentos para conseguirem mudanças estruturais ante as desigualdades, concretizam-se desde começos do
século XX, em processos revolucionários desenvolvidos principalmente em países
asiáticos, africanos e centro-americanos. Na América do Sul, as propostas políticas
que se enquadram dentro dessa categoria são concretizadas por movimentos sociais
de luta contra a discriminação, com uma importante influência do movimento afroestadunidense de defesa dos direitos civis e políticos.
Traduzido do espanhol por Beatriz Canabrava.
Racismo positivo ou discriminação positiva
Definições como “racismo positivo” ou “discriminação positiva” são utilizadas como sinônimo de ação afirmativa. Às vezes, são interpretadas como sinônimo
estrito de “cotas” ou “reparações”, sem diferenciar que as cotas são políticas que
implementam uma ação afirmativa e as reparações constituem o marco conceitual,
filosófico e político do qual a ação deriva.
Estes termos (racismo positivo e outros) estão sendo cada vez menos utilizados pelos movimentos sociais, sob o argumento de que permite interpretações
ambíguas, e porque as correntes opositoras e conservadoras qualificam essas definições como revanchistas. O termo discriminação positiva levanta um obstáculo, sob
o ponto de vista constitucional, já que nas cartas magnas proíbe-se a discriminação
de qualquer índole. Coloca-se então a possibilidade de reformas constitucionais que
permitam aceitar a discriminação positiva para promover o exercício dos direitos
dos (as) cidadãos(ãs). Não obstante, esta posição é bastante questionada pelos movimentos de afro-descendentes, porque implica alimentar os opositores, que argumentam que as ações afirmativas promovem um “racismo inverso”.
Existem diversas definições sobre as características deste tipo de ação, assinala-se por exemplo, que ela
Responde a uma necessidade; é temporária, obrigatória e legal; não é um
fim em si mesma nem deve prejudicar a terceiros; é um mecanismo para
neutralizar os desequilíbrios derivados da etnia, do gênero ou da condição
sócio-econômica, entre outras causas de discriminação, de modo que, diante
de uma oportunidade [...] em uma situação de paridade, seja escolhida uma
pessoa pertencente a uma população discriminada (MOLINA; RODRÍGUEZ, 2002: 212-213).
No projeto de Declaração e Plano de Ação elaborado na Conferência Regional das Américas (dezembro de 2000) no marco da III Conferência Mundial
contra o Racismo, assinala-se que o desenho e implementação das AAs implica
a elaboração de estratégias, programas, políticas e propicia sua aplicação a favor
dos direitos civis e políticos das vítimas do racismo, sobretudo no que se refere
ao acesso efetivo às funções públicas, judiciais e administrativas e à administração
da justiça sem discriminação (parágrafo 16). Incorpora também a ação afirmativa
no campo dos DESC (Direitos Econômicos, Sociais e Culturais) das populações
afetadas (parágrafo 17) (id.).
336
Existem algumas considerações em relação à diferença entre ações afirmativas e medidas positivas. Essas últimas são medidas pontuais de diferenciação para
produzir um efeito de igualdade, aplicáveis em determinadas circunstâncias nas
quais se impede o acesso e que, inclusive, podem prestar-se a conveniências políticas. Diferentemente, as primeiras têm um sentido mais amplo e efeitos duradouros
sobre o funcionamento das instituições sociais, impondo medidas de ordem jurídica
(HERREÑO HERNÁNDEZ, 2003).
Contexto social e político em que se desenvolvem as
propostas de Ações Afirmativas na América
A diáspora africana nas Américas e os diversos contextos que os afro-descendentes tiveram para recriar e desenvolver formas orgânicas de resistência são
um tema amplamente abordado por diversos estudos, especialmente na Colômbia,
no Equador e no Brasil. No entanto, nos demais países da região Andina e do
Mercosul ainda se identifica uma tendência a pesquisas historicistas da escravidão
colonial, descuidando a análise antropológica dos processos políticos, sociais e
culturais contemporâneos.
Uma definição interessante, que define a diáspora africana, é dada pela socióloga afro-norte-americana Ruth Simms. Segundo ela, a diáspora
[...] representa um tipo de agrupação social caracterizada por uma história
comum de experiências e relações pessoais [...] que ainda exibe uma base comum de fatores históricos condicionada pelo sistema de ordem mundial. As
principais características que distinguem esta diáspora, como uma formação
global, de outros grupos socialmente diferenciados, são as seguintes experiências históricas: migração e deslocamento geossocial: a circulação da população;
opressão social: relações de dominação e subordinação; resistência e luta ação
política e cultural (1990:18).
A migração e o deslocamento geossocial de maneira forçada como conseqüência do tráfico de escravos, originou uma dispersão geográfica por toda a América,
que manteve como base comum, além das manifestações culturais, a opressão e a
resistência. Esta explicação resume o porquê de as AAs constituírem um direito inquestionável dos afro-descendentes da diáspora: aquela migração forçada originou
um contexto social de opressão e relações de subordinação, contra o qual continuam
lutando e desenvolvendo estratégias de resistência, a partir de uma base filosófica que
expõe a responsabilidade ética que a sociedade tem de reparar os danos ocasionados.
337
Reparações como base filosófica
As políticas de ação afirmativa podem ser concebidas como a materialização
das reparações que se propõem do ponto de vista ético como uma responsabilidade moral compensatória pelos danos ocasionados pela escravidão. Não propõem a
utopia de “zerar o passado e começar de novo”, tampouco desconhecer que as conseqüências desse processo são irremediáveis. Esta posição identifica que as políticas
em favor dos (as) afro-descendentes quase sempre serão insuficientes para se chegar
a uma mudança estrutural. Mas sustenta que os setores que se beneficiaram e acumularam riquezas às custas da escravidão têm a obrigação ética e moral de assumir
a responsabilidade histórica que essas pessoas e suas gerações anteriores tiveram ao
colocar os e as afro-descendentes na extrema pobreza e exclusão.
Nas palavras de Herreño Hernández,
As reparações expressam apenas uma exigência de justiça e não um desejo de
vingança. Falar de reparações é [...] reconhecer que foi cometido um crime,
uma injustiça e uma violação massiva dos direitos humanos e da dignidade
humana, refletida no rapto de milhares de africanos, sua deportação e escravidão (2003).
As posições contra as reparações não estão baseadas em discursos éticos nem
na impossibilidade material de assumi-la. Os setores de poder utilizam recursos
jurídicos para desconhecer e eximir-se de responsabilidade, argumentando que está
proscrita a responsabilidade objetiva, recurso que aplicado aos e às afro-descendentes implica a impossibilidade de demandar aos e às descendentes de escravocratas os
atos cometidos por seus antepassados, porque a responsabilidade desapareceu com
a morte dos criminosos.
Brechas entre a América Latina e a América do Norte
Individualidade versus Coletividade
Nos Estados Unidos, promove-se a identificação de seus cidadãos(ãs) como
“americanos (as)” ou habitantes da “nação americana”. Ou seja, “americano (a)” é
sinônimo de cidadão(ã) estadunidense e implica atribuir-se a representação do continente americano perante as outras regiões.
Apesar de importantes esforços de algumas organizações afro-estadunidenses, ainda não existem laços concretos com os (as) afro-descendentes da América
Latina que emigraram para os Estados Unidos. Estes(as) são invisibilizados(as) e
338
colocados (as) geralmente sob a categoria de latinos ou centro-americanos, sem reconhecer-se sua ascendência étnica e racial. Não se trata só de um desconhecimento
do (da) migrante latino (a); tampouco há interesse em conhecê-los (as).
A pensadora afro-estadunidense Bell Hooks destaca que
[...] para as mulheres negras também é mais fácil muitas vezes falar sobre
gênero e ignorar a classe, porque muitas de nós não nos liberamos do nosso apoio ao capitalismo e de nosso anseio de luxos. Creio que uma coisa
é desfrutar da boa vida, da beleza e das coisas, e outra muito diferente é
apoiar o assassinato de outras pessoas para poder ter um belo carro e outros
caprichos (1995).
O nacionalismo dos afro-estadunidenses implica a sua afirmação como parte
de uma nação, mas com a afirmação da diferença, como estratégia de visibilização e
de mobilidade social, sendo as políticas públicas coadjuvantes transcendentais em suas
possibilidades de desenvolvimento. A necessidade de inclusão não está colocada através
da mestiçagem, mas sim da interação que os afro-estadunidenses devem ter com as
outras nações que conformam a população estadunidense. Isto não significa que nesse
país se reconheça a existência da diversidade imigrante, já que se exalta a diversidade
dos povos de ascendência européia que o conformaram congenitamente.
Segundo Bell Hooks,
Como estratégia de sobrevivência, o nacionalismo negro aflora à superfície
com mais força quando a expropriação cultural branca da cultura negra ameaça descontextualizá-la, e, com isso, apagar o conhecimento do contexto histórico e social específico da experiência dos negros, a partir da qual surgem
os produtos culturais e estilos distintivos dos negros. No entanto, a maioria
dos intelectuais brancos que escrevem críticas relativas à cultura negra não vê
as dimensões construtivas do nacionalismo negro e até tendem a vê-lo como
um essencialismo ingênuo, arraigado em noções de pureza étnica semelhantes
às suposições racistas dos brancos. O nacionalismo negro é mais um gesto de
impotência que um sinal de resistência crítica (HOOKS, 1990:27-31).
O debate propõe diversas posições dentro do movimento e está demarcado
por realidades e processos históricos distintos, onde os (as) afro-descendentes podem ser parte dos sistemas econômicos e políticos através da mobilidade e inclusão
racial em um contexto de mestiçagem; ou da afirmação como nação baseada em
uma identidade afro-descendente, que por sua vez coloca um alto nível de autodeterminação política, econômica e cultural.
339
Esta segunda visão é qualificada geralmente pelos(as) racistas como uma proposta sectária e que promove a formação de guetos. Aqui é importante observar de
outra dimensão o significado do termo “gueto”, já que não precisa ser apenas um
espaço de separação geográfica e social. Também encerra uma cosmovisão diferente,
onde existem maneiras específicas de socialização que permitem que a comunidade
ou povo excluído desenvolvam mecanismos de contenção e resistência.
Nas zonas urbanas existe uma interpenetração das relações de subordinação
e resistência com relação à necessidade de inclusão social como mecanismo para
exercer poder dentro dos espaços políticos e econômicos. Nesse contexto, a autodeterminação é colocada de maneira tímida, apenas através do respeito à expressão das
manifestações artísticas e religiosas.
Por outro lado, nos povoados rurais (principalmente remanescentes de quilombos ou palenques), a resistência implica a conexão com o território, porque isso
garante a permanência de elementos culturais e identitários.
Em países da América do Sul onde existe maior mestiçagem e presença indígena, as agendas dos movimentos são débeis e estão referidas ainda à consecução de
direitos fundamentais e reconhecimentos legislativos, evidenciando-se grandes distâncias em relação aos Estados Unidos. Nessa região, os movimentos estão exigindo
políticas públicas e direitos que estão consagrados na América do Norte, o que dá
origem a problemas na concertação de agendas e é visto por uma grande parte dos
(as) ativistas afro-estadunidenses como um retrocesso.
Afro-Norte-Americano – Afro-Descendente
Como foi dito anteriormente, a definição de “afro-americano (a)” tem
sido utilizada como sinônimo de “afro-estadunidense”. Os (as) afro-descendentes da América Latina não se identificam com essa palavra, que é vista como
“importada”, porque a sociedade em geral – incluindo os(as) afro-estadunidenses – a tem utilizado sem que isso tenha implicado a inclusão dos (das) afrodescendentes de outras regiões.
O investigador panamenho Humberto Brown, diretor da organização de
afro-descendentes GALCI, com sede nos Estados Unidos, destaca que não existe
a mesma base social e política que promoveu as ações afirmativas e que há uma estruturação de classes, onde os afro-descendentes de melhores condições econômicas
não estabelecem laços de solidariedade com os de menos recursos.
340
Destaca que,
[...] os filhos (as) dos beneficiários das ações afirmativas dos anos 60, hoje em
dia, desconhecem que o acesso a determinado nível de educação, emprego, foi
produto da luta dos movimentos negros. Isto pelas campanhas dos partidos
de direita, que dizem que isso foi um privilégio que não necessariamente mereciam aqueles que se beneficiaram”.
Consideramos que atualmente na América do Sul, principalmente em países
como Brasil, Equador e Colômbia, pelo processo histórico particular destas nações,
existe uma poderosa base social e política que está promovendo a existência de políticas públicas que resultem em mudanças estruturais da sociedade.
Nesse contexto, a utilização do termo “afro-descendente” em vez de “afroamericano” encontra maior apoio e espaço na população latinoamericana. A utilização desta definição foi assumida pelos movimentos no processo da III Conferência
Mundial contra o Racismo. Este termo aponta claramente que a ascendência africana nas Américas foi conseqüência direta da diáspora ocasionada pelo crime da
escravidão e sua utilização permite o desenvolvimento de estratégias mais efetivas
no âmbito do direito internacional e a implementação de ações afirmativas.
Movimento Afro-Descendente, Indígena e de Mulheres
Movimentos de mulheres e afro-descendentes
As principais diferenças dos movimentos de mulheres com os de reivindicações étnicas estão relacionadas à universalidade do gênero e à suposta particularidade da raça/etnia, ou seja, à transcendência de um enfoque sobre o outro.
A investigadora peruana Rocío Silva Santiesteban refere que uma ação afirmativa “não deveria ser entendida como uma exceção às normas por ser mulher, mas
sim como uma construção normativa baseada na mulher como centro da legislação.
Em outras palavras, é necessário precisar nos discursos culturais, jurídicos e institucionais que a mulher é o paradigma epistemológico” (2003).
A pesquisadora critica o feminismo que “volta a pensar no tema a partir das
concepções mais tradicionais do mesmo, ou de uma perspectiva antropológica que
iguala as mulheres aos grupos minoritários que pretendem uma política da diferença dentro do multiculturalismo” (id.).
Entrevista concedida para fins deste trabalho, em julho de 2005.
Informe do Seminário Regional sobre os Afro-Descendentes nas Américas (La Ceiba, Honduras, 21 a 24
de março de 2002) http://www.unhchr.ch/huridocda/huridocda.nsf
341
Ela assinala que embora essas ações expressem avanços no reconhecimento
de direitos, quando são implementadas em países como os Estados Unidos, com
uma cultura central muito poderosa,
[...] estão organizadas como exceções às regras que são, finalmente, as do homem branco (ou do stupid white man como o denominou o documentarista
estadunidense Michael Moore). As exceções são aplicáveis à população afroamericana, aos homens e mulheres de “cor”, isto é, latinos, chicanos, chineses,
vietnamitas, etc., e a todas aquelas pessoas que não correspondem ao “sujeito
autônomo da modernidade” (Id.).
Esta análise enfatiza que as mulheres não são um grupo minoritário nem
singular e, além disso, mostra que as políticas multiculturais estão em função das
diferenças essencializadas e não em processos de transformação cultural.
Existem posições discordantes entre os movimentos de mulheres e feministas
em relação à pertinência das cotas para afro-descendentes na educação ou na participação política, porque percebem que esta proposta coloca a diferenciação étnica
no mesmo plano que a de gênero. O problema é que os movimentos de mulheres
e feministas ainda não integraram a perspectiva étnica em suas plataformas e lideranças, o que se evidencia quando, por exemplo, ao exercerem o direito a cotas em
espaços legislativos, não colocam em suas listas mulheres afro-descendentes.
Movimento Afro-Descendente e Movimento Indígena
Existem conflitos que radicam na definição dos (das) indígenas como povos
originários, o que implicaria um maior direito à reivindicação de assuntos como a
autodeterminação e territorialidade. Precisamente essa ‘originalidade’ tem sido um
dos principais argumentos utilizados pelo movimento indígena para obter políticas
públicas e avanços no âmbito do direito internacional dos direitos humanos. O fato
de que os povos indígenas tenham referentes históricos próximos e conexão com
sua matriz cultural tem permitido também o desenvolvimento de uma importante
mobilização de base (DECLARACIÓN, 2003).
Existem importantes ações afirmativas em favor dos indígenas no sistema das
Nações Unidas e em programas nas agências multilaterais e bilaterais. Foram implementadas na região políticas para recuperar línguas tradicionais, além de atenção
à saúde a partir de uma perspectiva tradicional e programas de educação intercultural, entre outros avanços.
342
Por outro lado, faz pouco tempo que a agenda internacional e programas
nacionais de desenvolvimento consideram os (as) afro-descendentes. A III Conferência Mundial contra o Racismo foi um marco nesse processo, e permitiu reavaliar
e redirecionar os avanços existentes. A brecha entre as políticas públicas destinadas
aos povos indígenas e aos (ás) afro-descendentes é enorme, todavia essa situação
não deve ser abordada como uma desvantagem ou competição, mas sim do ponto
de vista da necessidade de equiparar e reparar com a mesma atenção povos que passaram por um processo histórico similar. No caso dos afro-descendentes há matizes
muito cruéis, como por exemplo, a sua “animalização”; sustentada pelos colonizadores e pela igreja, para justificar o crime da escravidão, essa categoria não se outorgou
à população indígena.
Movimento Afro-Descendente e Mestiçagem
A suposta democracia racial promovida pelos países latino-americanos baseia
se na mestiçagem como a integração de todas as raças, o que constituiria a base
necessária para promover uma sociedade multicultural e sem discriminação.
O conceito de democracia racial diz que, ao existir uma integração entre as
raças não se pode saber quem é negro ou não em um país. Por exemplo: “todos
seriam afro-brasileiros e se daria dando uma grande margem para a fraude no vestibular (LENZ; COELHO, s/d).
A suposta democracia racial e a identidade mestiça latino-americana constituem
estratégias dos grupos dominantes para não permitir a ocupação de espaços de poder
pelos setores historicamente discriminados. Nesses contextos questiona-se o desenvolvimento de políticas que beneficiem os (as) afro-descendentes, porque supostamente promovem a divisão da nação em blocos étnicos, conflitos raciais e inclusive separatistas.
A identidade mestiça serve para argumentar que as políticas públicas devem
beneficiar toda a população porque todos e todas – indígenas, brancos, afro-descendentes – são mestiços pelo processo de colonização. Essa visão desconhece que
uma pessoa sempre é mestiça “de”, e desconhece o papel que cada etnia tem para o
processo de conformação do ser mestiço.
A frágil e precária identidade do mestiço teve sua origem nessa situação absurda
e infamante que, além do mais, reforçou a sensação ambígua de pertencer a dois mundos
contrapostos que se desprezavam mutuamente. Esta situação, ademais, contribuiu para
um duplo desprezo do mestiço pelas mulheres indígenas. As relações patriarcais adquiriram esse aspecto que desembocou no machismo (SILVA SANTIESTEBAN, 2003).
343
A mestiçagem como a ideologia da intermediação racial é um explícito símbolo nos países latino-americanos. Tem como componentes o indigenismo como
um conceito dual que busca uma criativa dimensão do nacionalismo, por meio do
simbolismo de um passado indígena e, por outro lado, uma corrente social, política
e literária. Outro componente da mestiçagem é o branqueamento. E a parte final do
espectro é a negritude, um conceito que denota a auto-identificação com um olhar
positivo (NORMAN; TORRES, 1998).
Em países como o Peru e a Bolívia, a afro-indianidade origina uma nova
construção cultural, é importante evidenciar a existência de uma mescla de duas
culturas ou uma mestiçagem das mesmas, mas visibilizando que é uma nova construção aportada pela cultura afro e pela cultura indígena, colocando as contribuições
de cada um em sua exata dimensão. O transcendental não é a ação de mestiçar-se,
mas sim o resultado do processo, e as culturas continuam tendo em si mesmas características próprias que se inter-relacionam para construir uma nova cosmovisão.
O problema dessa afro-indianidade reside em que, geralmente, as raízes africanas são invisibilizadas pela necessidade de branqueamento. Aqui a cultura da pigmentocracia desempenha um papel transcendental, pois a cor da pele mais clara dos
indígenas é utilizada pelo sistema como uma aproximação ao branco. Então, quando
se dão as relações interculturais, o africano, isto é o “negro”, fica invisibilizado pelo
sistema e se promove que os(as) afro-descendentes submerjam no indígena para
branquear-se e, além disso, integrar-se de maneira melhor à sociedade, uma vez que
a população indígena é maioria numérica em vários países da região.
Mas essa mestiçagem tampouco é aceita pelo sistema nem pelos setores dominantes. O objetivo político é desestruturar as bases culturais e as possibilidades que
têm os afro-descendentes de organizar-se a partir da revalorização de sua etnicidade.
Discursos e Contra-Discursos dos Movimentos, do Estado
e das Correntes Conservadoras
As tensões entre os discursos e contra-discursos sobre as AAs têm acontecido
em todos os contextos e regiões onde foi desenvolvida uma política a esse respeito.
Na América Latina, os (as) afro-descendentes encontram problemas similares aos
que enfrentaram os afro-norte-americanos, com a característica particular de que
a mestiçagem e a predominância da população indígena em alguns países gerou
um maior número de frentes contra as quais há que desenvolver uma estratégia de
acordo ou de confrontação para obter avanços.
344
A suposta “democracia racial” latino-americana está baseada na ideologia da
mestiçagem como híbrido ideal que demonstra a inter-relação entre todas as “raças”. Segundo McConahay, os racistas modernos dizem que “os negros estão lutando muito forte, muito rápido e chegando a espaços que eles mesmos não desejam”
e, além disso, “que suas táticas e demandas são injustas”, e que graças às AAs estão
tendo acesso a instituições de prestígio, beneficiando-se do prestígio das mesmas,
mas a longo prazo prejudicando as organizações porque esse prestígio se reduz, uma
vez que baixa a qualidade acadêmica ou de profissionalização da instituição (apud
HAYES et al, 2001). Psicólogos sociais qualificam esta nova forma de preconceito
com uma variedade de definições: “racismo simbólico”, “racismo ambivalente”, “neoracismo”, “racismo adverso” e “racismo moderno” (Id.).
Os racistas modernos desenvolvem uma série de explicações racionais para
justificar suas atitudes, mas não se definem como racistas. Entre os sutis argumentos
apresentados, encontra-se a crítica à luta contra o racismo, pois segundo os últimos
estudos científicos a raça humana é uma só e a variação genética existente entre humanos que se consideram de diferentes raças é mínima, e por isso não se pode falar
de uma diferenciação genética racial. O transcendental dessa descoberta científica
é que desmorona qualquer última fortaleza que os racistas científicos poderiam ter
para justificar geneticamente a superioridade dos brancos sobre outros grupos.
No entanto, os racistas modernos encontram nessa descoberta o principal argumento para criticar a luta contra o racismo. Dizem que é contraditório que os (as)
afro-descendentes se baseiem na questão “racial”, pois isso implica que reforcem a
existência da categoria “raça”.
A verdade é que a raça é uma construção cultural e simbólica que encontra na
socialização e no imaginário coletivo o espaço para sua reprodução e que necessita
tornar-se visível para ser desconstruída.
As estruturas de dominação têm várias dimensões. Segundo o sociólogo
Max Weber, existem três. A primeira, que ele denomina de “objetiva”, consiste
nas relações de classe que se estabelecem entre as pessoas que, convivendo em
um mesmo contexto, têm poder aquisitivo para pagar uma melhor educação e
alimentação que outras. Nesta situação aparece a definição de “classe alta” e “classe
baixa”, e a primeira estabelece uma comparação sobre a outra, com base em critérios concretos e mensuráveis.
A outra dimensão é a “subjetiva”, que se refere ao “status” diferenciado da
“classe” mencionada anteriormente. O status é o estilo de vida determinado pela
345
honra social que está em uma ordem subjetiva; implica “categorizar pessoas que
cada um conhece, de que ouviu falar [...] a etnicidade e as ‘relações raciais’ se alojam
nesta dimensão subjetiva, categorizada e estereotipada de relações raciais”. Outra
importante dimensão é a que ele denomina de “match” que é a habilidade dos grupos dominantes de forçar os dominados a aceitarem os símbolos da dominação. Isso
constitui a essência do hegemonismo (NORMAN; TORRES, 1998).
Em quase todas as sociedades encontramos uma estrutura piramidal atravessada pelo fator racial, mas com uma elite local, regional ou nacional caracterizada
como branca. E existem regras “brancas” sobre a cor entre as pessoas da mesma
classe, determinando um acesso diferenciado ao mercado. Quando uma maioria que
é negra constitui a população urbana ou rural de uma região, aparecem diversas
combinações de estruturas de dominação que têm como resultado a perpetuação do
branqueamento como superior à negritude.
A seguir repassaremos alguns dos principais argumentos contra as
ações afirmativas ou políticas públicas específicas para af ro-descendentes na
América Latina.
Argumento 1: Se há deficiências nas políticas públicas e, por esse motivo, os(as)
afro-descendentes não conseguem ter acesso às mesmas, então devemos promover
que essas políticas sejam efetivas, aumentando o orçamento e desenvolvendo campanhas para que cheguem a todos os cidadãos(ãs).
Na América Latina, especialmente em países onde a população indígena ou
mestiça de indígena é avassaladora, os(as) afro-descendentes ainda estão passando
por um processo de reconhecimento como povos ou comunidades no nível legislativo. Apesar de existirem instâncias estatais e comissões orientadas a desenvolver
ações afirmativas, estas não constituem uma prioridade na agenda. Isso faz com que
esses povos não estejam situados nos mapas de pobreza e que não sejam desenvolvidos programas como os de educação intercultural, atenção à saúde, levando em
conta suas tradições culturais.
O Estado tende cada vez mais a deixar de se responsabilizar por garantir
que a população tenha acesso à educação gratuita, serviços de saúde de qualidade,
proteção aos direitos dos trabalhadores. As empresas e as leis de mercado são as
que regem agora esses aspectos tão transcendentais e os cidadãos(ãs) devem tomar em suas mãos a responsabilidade de exigir que o Estado cumpra seu papel de
regulador e provedor ou, caso contrário, promover alternativas organizativas que
possam suprir esse papel.
346
É interessante recordar as posições tomadas no âmbito da III Conferência
Mundial contra o Racismo, quando os afro-descendentes da América e os africanos
discutiam uma agenda comum no que se refere às reparações. Os movimentos dos países africanos exigiam que as reparações fossem assumidas pelos países que enriqueceram com a escravidão e que beneficiassem diretamente os estados que foram afetados,
perdoando dívidas, efetuando empréstimos e adotando políticas de desenvolvimento
para toda a população. Pelo contrário, os(as) afro-descendentes da América, especialmente de países onde são minoria numérica, defendiam a posição de que as reparações devem estar focalizadas nos territórios onde se localizam as comunidades afro,
porque do contrário as políticas públicas que fossem geradas não seriam dirigidas para
essas comunidades, que costumam ser invisíveis para os Estados.
Países como a Bolívia, o Peru, o Uruguai, o Paraguai, a Argentina e o Chile
têm uma situação diferenciada em relação ao Brasil, à Colômbia e ao Equador.
Os(as) africanos(as) que chegaram a países como o Peru provinham de centros de
reprodução de escravos(as), o que originou dispersão cultural e minimizou as possibilidades de encontrar laços comuns que lhes permitissem organizar-se. Além disso,
a costa desértica e os Andes não permitiram o sucesso na formação de quilombos.
Por outro lado, em países como o Brasil, o Equador e a Colômbia, a luta dos
movimentos tem como agenda comum a luta contra o racismo, mas com a particularidade de que existem laços ancestrais com o território; e centraliza boa parte de
suas reivindicações na territorialidade.
Ambas as frentes abordam temas de suma importância para a população. Em
ambos casos – pela inclusão ou pela autodeterminação – identificam-se brechas
com relação à população pertencente a outras etnias. No relatório do BID sobre
desenvolvimento dos povos indígenas e negros do Equador, são apontados os problemas que afetam o acesso a serviços sociais:
À luz de uma nova ordem econômica e da globalização e modernização da
economia, todo projeto de dotação de serviços deve ser autofinanciável (eliminar subsídios) com o que as aspirações da população da área rural e fundamentalmente das áreas dispersas serão postergadas (ENCALADA; GARCÍA; IVARSDOTTER, 1999).
O contra-argumento é que as brechas existentes entre pobres e ricos aumentam
cada vez mais. Os(as) afro-descendentes encontram-se nos índices mais baixos de
pobreza, como conseqüência do processo escravocrata e das escassas possibilidades de
mobilidade social agravadas pelo racismo. São os(as) mais pobres do grupo de pobres
347
e necessitam equilibrar as distâncias para contar com as mesmas armas que o resto da
população tem para sair da pobreza e alcançar melhor qualidade de vida.
Argumento 2: As AAs podem promover o oportunismo de pessoas que não correspondem aos povos ou grupos discriminados, pois há aqueles que nunca se identificaram
como afro-descendentes e assumem essa identidade étnica para serem beneficiados.
Este outro argumento está relacionado com a seleção de beneficiários. Esta
situação pode produzir-se em casos extremos ou particulares, mas não em escala tal
que se possa deixar de considerar os benefícios de uma AA, pois a sua aplicação está
geralmente focalizada nos grupos populacionais que a necessitam:
Os beneficiários podem ser identificados como um conjunto de pessoas adstritas a um território ou pertencentes a uma comunidade, prática muito pertinente para povos indígenas, marrons e quilombos. Também podem ser fixados
critérios para a identificação de indivíduos, mas tendo o cuidado de tomar o
pertencimento como um ato voluntário de tipo cultural e não como um ato
obrigatório derivado do fenótipo (TORES PARODI, 2003).
Os estudiosos ou técnicos encarregados de elaborar ou implementar essas
ações geralmente assinalam que pode haver uma manipulação política dos (das)
líderes que convencem um coletivo a denominar-se como afro, ou assim os denominam, sem que necessariamente essa identificação tenha sido aceita pela comunidade
ou coletivo. Isso implicaria que existem beneficiários que não vão entender a perspectiva das políticas, o que inclusive poderia levar ao fracasso das mesmas, porque
elas reforçam uma identidade que eles recusam.
Os movimentos reconhecem que o tema da identidade é complexo, pois nós,
seres humanos, temos múltiplas identidades; e a escolha de uma não implica a negação de outra. Ou seja, podemos levantar a luta do movimento afro e ao mesmo tempo
feminista ou homossexual e isso não deve significar contraposições nem conflitos.
Embora no caso de afro-descendente como identidade é preciso apontar um aspecto
afirmativo, mas outro reativo, pois a definição como afro-descendente está em função
da reação contra o racismo e da forma como a pessoa é qualificada ou estigmatizada.
Um grupo de afro-descendentes que luta por sua territorialidade como camponeses e não necessariamente levanta como ponto central de seu enfoque sua ascendência étnica, também deve ser sujeito de AAs. Embora se espere que todo
movimento que tenha população afro-descendente nutra sua agenda com sua perspectiva étnica, muitas vezes ela fica invisibilizada dentro de uma agenda programática concertada com outras organizações.
348
O racismo endógeno leva a que a população afro não se reconheça como
tal, porque isso significaria situar-se em seu entorno social a partir de uma
posição que pode ser qualificada como inferior. Isso acontece, por exemplo,
nas populações afro-peruanas onde foi realizada uma pesquisa de identificação
de lares afro-peruanos baseada no mapa geo-étnico; os níveis de identificação
como afro-descendentes era mínimos em alguns lugares, embora o fenótipo dos
entrevistados fosse evidentemente afro.
Para finalizar essa contra-argumentação, deve-se dizer que o racismo estrutural se evidencia de maneira objetiva nas brechas de desigualdade que são recopiladas
nos censos e estudos demográficos sobre a localização da população afro na sociedade. As denúncias ou referências sobre fraudes nas políticas de acesso cotas não são
significativas a ponto de afirmar que o sistema está mal encaminhado. Se o racismo
conseguiu que muitos afro-descendentes neguem sua ascendência, porque é sinônimo de exclusão e de poucas possibilidades de mobilidade social, os Estados devem
encontrar mecanismos para que as AAs sejam implementadas nessas populações.
Caso contrário as AAs reforçariam as brechas existentes, não só da população afro
com relação a outras etnias, mas entre os membros da mesma população, gerando
uma elite de intelectuais e classe média afro-descendente desligada da realidade do
resto da população.
Argumento 3: O problema da exclusão dos afro-descendentes é de classe, mas
não de raça. Se for promovido o maior poder aquisitivo, melhores postos de
trabalho, o racismo acaba.
A premissa desta afirmação corresponde a uma elaboração socialista do
problema, mas a solução proposta corresponde a uma visão capitalista, que aborda o tema do racismo como um problema econômico. A afro-norte-americana
Bell Hooks cita o rapper ice T quando este, em seu livro de memórias, afirma
que “as pessoas não vivem no gueto porque são negras, mas porque são pobres”.
Essa afirmação, que a autora qualifica como certeira, tem – para o cantor – uma
solução: o capitalismo.
Isto significa que há um total vazio em seu entendimento se acredita que
ficar rico nesta sociedade é de algum modo uma forma de redimir a vida dos
negros. A única esperança que existe para transformar a vida material das
pessoas negras, é reclamar a redistribuição da riqueza e dos recursos o que não
é apenas uma crítica ao capitalismo, mas um completo desafio ao capitalismo
(HOOKS, 1995).
349
Embora a autora reconheça que o pensamento marxista foi crucial na educação da consciência política, isso não significa que se deve passar por alto o racismo
e o sexismo desses pensadores, mas sim extrair os recursos de seus pensamentos que
possam ser úteis na luta.
A verdade é que diante da crise dos sistemas capitalistas e socialistas, pode-se
apontar para a busca de novas interpretações encaminhadas a encontrar vias para
eliminar as brechas sociais e econômicas, sem que isso signifique deixar de ter capacidade crítica. Reiterando a afirmação de Hooks, “ uma coisa é desfrutar da boa
vida, da beleza e das coisas, e outra muito diferente sentir que aceitamos apoiar o
assassinato de outras pessoas em outros países para poder ter um lindo carro e outros caprichos”.
Como elemento final de contra-argumentação, podemos dizer que não há
uma condição natural que faça com que as pessoas afro tenham que viver em guetos. As pessoas afro-descendentes vivem em guetos porque essa foi a localização
social em que o sistema as colocou depois da escravidão, sem que elas tivessem a
possibilidade de situar-se em outro estrato. “As pessoas não vivem no gueto porque
são negras, mas porque são pobres”, diz a frase. Mas são pobres porque essas foram
as condições que tiveram depois da escravidão.
Argumento 4: Os(as) afro-descendentes não podem exigir a autodeterminação
territorial, política ou cultural porque não são povos originários da América e, portanto, sua plataforma deve estar dirigida à inclusão social, mas não à autodeterminação, porque isso, além do mais, promove a secessão e vai contra a identidade
nacional.
Este ponto é bem amplo, pois nos leva a uma discussão sobre direito das
“minorias” versus direito dos povos indígenas, e as tensões existentes entre ambas as
etnias (indígenas e afro-descendentes).
Entre diversas definições, destacamos a do estudo Indigenous Peoples: Living
and Working Conditions of Aboriginal Populations in Independent Countries, que
assinala:
[...] as pessoas indígenas são descendentes dos povos aborígines que viviam em um território antes da ocupação ou da conquista [...] em geral,
esses descendentes tendem a viver de acordo com a institucionalidade social, econômica e cultural que havia antes da colonização ou conquista”
(WHO IS, s/d:33).
350
No que se refere às minorias, uma definição apresentada pelo senhor Capotorti, Relator Especial da ONU é:
[...] minorias podem ser definidas como um grupo numericamente inferior ao resto da população de um Estado, em uma posição não dominante,
cujos membros – sendo nacionais de um estado – possuem características étnicas, religiosas ou lingüísticas que diferem do resto da população
e demonstram [...] um sentido de solidariedade dirigida a preservar sua
cultura, tradição, religião e linguagem (idem: 52).
No marco destas definições os argumentos contra a autodeterminação dos
afro-descendentes se baseiam em que não são parte de uma população originária
das Américas, e que têm conexões culturais menos profundas que a população indígena. Este argumento pode ser rebatido com as últimas pesquisas sobre a presença
africana na América, anterior às culturas pré-colombianas e com a descoberta científica de que foi na África que se originou a raça humana.
Como elemento final desta contra-argumentação, há que recordar que os
africanos e africanas chegaram a estas terras não porque quiseram, mas forçados, e
que ao longo de 400 anos recriaram novas formas de organização e cultura baseadas
em sua ancestralidade africana, mas com características diferentes, o que os torna
parte de uma cultura afro-descendente e não africana. Não apenas nos quilombos,
mas também nas zonas onde há maior concentração indígena, branca ou mestiça,
são recriadas formas de sobrevivência e resistência cultural. A possibilidade de repatriação ou de volta à África em termos físicos é impossível, e por isso o reconhecimento como povos com os mesmos direitos que os originários é imprescindível.
A idéia de territórios “ancestralmente ocupados” responde a esta necessidade de
encaixar essa questão no marco normativo. Além do mais, devem ser exploradas as
pesquisas que permitam uma aproximação à importância das civilizações na gênese
das culturas americanas e da África como berço da humanidade.
Argumento 5: A condição de gênero é universal e a de afro-descendente é uma
particularidade. Os movimentos pela reivindicação dos povos indígenas e afro-descendentes pretendem que essa particularidade seja priorizada, desconhecendo que
em todas as culturas existe sexismo.
O racismo e o sexismo são discriminações que têm determinado a vida dos
afro-descendentes desde a colonização e o processo escravista. A utilização sexual
do corpo da mulher africana e do homem africano permitiu a sustentabilidade econômica do sistema, pois as mulheres eram ventres reprodutores de escravos, além
351
de servas sexuais dos escravocratas. Os homens mais fortes eram “seminais”, isto é,
encarregados de ter relações sexuais com as escravas para garantir uma descendência
de características físicas ideais.
Se analisamos as relações sociais e tratamos de identificar as causas da
exclusão social, política e econômica dos povos oprimidos, vemos que as ideologias racistas e sexistas foram pontos de partida para justificar a colonização
e a escravidão.
A condição de gênero não está no mesmo nível ou categoria de análise que a
étnica. Ambas condições são consubstanciais aos seres humanos, embora a de gênero tenha características universais que não podem ser analisadas comparativamente
à étnica. Na América Latina os movimentos estão apontando para a construção de
novos paradigmas que vejam o continente africano como referente, sem idealizações e levando em conta os sistemas de discriminação contra a mulher evidenciados
na mutilação genital feminina e outras práticas tradicionais e nos conflitos étnicos
existentes (muitos deles como conseqüência da escravidão).
As condições de gênero e étnica são universais de todos os povos e culturas.
A questão étnico-racial coloca características diferenciadas e relações de subordinação que se perpetuam em função da sustentabilidade do sistema econômico, social e
de classe. A condição de gênero – apesar de também abarcar múltiplas identidades
sexuais que transcendem o masculino ou feminino – é utilizada para perpetuar os
sistemas de poder e subordinação em um plano mais subjetivo.
Para finalizar esta contra-argumentação, o sexismo na agenda do movimento
afro-descendente ficou muito tempo oculto pela magnitude que o racismo e suas
conseqüências tão nefastas atingiu nessa população. Mas, por sua vez, o movimento
feminista deve reconhecer a ausência de perspectiva étnica no discurso e na prática
que muitas vezes reproduz os sistemas de discriminação racial dominantes na sociedade. É importante que os discursos sobre autonomia do corpo, direito a decidir,
violência sexual, revisem profundamente a determinação que o racismo tem nas
vidas das mulheres afro-descendentes para desenvolver estratégias adequadas que
abordem os níveis subjetivos e as conseqüências psicossociais que originaram esta
violação sistemática.
Argumento 6: Não se pode por em risco a qualidade e a eficiência das empresas
ou instituições para dar oportunidades aos afros, já que pela exclusão que sofrem
não têm possibilidade de se capacitar e chegar ao nível de profissionalização para se
desempenhar com a mesma eficiência que outros trabalhadores. Isso não quer dizer
352
que não vamos contratá-los, mas devem ser avaliados sob mesmas condições que
os demais. Somos contra o racismo, por isso queremos que todos tenham as mesmas
oportunidades.
Na América do Sul, as AAs no setor trabalhista ainda são propostas pouco elaboradas. Identifica-se uma racionalização do preconceito em instituições trabalhistas, isto é, os
e as racistas encontram explicação racional para seu inconformismo em relação às AA.
Segundo um estudo realizado nos Estados Unidos sobre as atitudes dos trabalhadores brancos com relação às AAs em favor dos afros, as organizações onde
existem AAs em favor dos negros são vistas pelos brancos como empregos potencialmente menos atraentes, porque não têm uma perspectiva satisfatória para a
promoção no trabalho.
Como contra-argumentação, devemos lembrar que as AAs são propostas para
um determinado tempo, o suficiente para equilibrar as brechas, à espera de que a sociedade elimine os critérios racistas para a seleção dos trabalhadores, e com a expectativa de que a população afro-descendente possa atingir um nível de profissionalização
que permita a existência de um número eqüitativo de afros que compitam em igualdade de condições para um determinado posto de trabalho. As AAs impulsionam os
processos de democratização das instituições e promovem relações interculturais que
apontam para a democracia racial tão desejada pela sociedade latino-americana.
Argumento 7: A qualidade da educação superior pode ser colocada em risco, pois
poderemos ver-nos obrigados a diminuir nossa qualidade acadêmica para que os
estudantes afros possam ser incluídos, uma vez que por causa da exclusão social e
econômica eles têm um baixo nível acadêmico com relação a outros setores.
Além do mencionado em parágrafos anteriores, com relação aos debates em
torno dos critérios de seleção em espaços educativos, é pertinente assinalar que
a diversidade étnico-racial deve estar acompanhada pela inclusão de estudos de
cátedra africana e afro-americana que permitam fortalecer o conhecimento dos
estudantes afro-descendentes e que aos (às) estudantes pertencentes a outros grupos
étnico-raciais conhecem os processos históricos dessa população. Existem situações
de conflitos raciais e de subestimação que os estudantes beneficiários sofrem.
São importantes iniciativas como o Manual do Estudante Cotista, concebido
pelo Coletivo Negro do DF e Entorno – EnegreSer. Este documento conta com
informação sobre o processo histórico desenvolvido pelo movimento negro e
com dados sobre a estrutura da universidade e as políticas de ação afirmativa. O
estudante de Geografia da UnB, e ativista do EnegreSer, sublinha: “a UnB pode
353
começar a trilhar um caminho de anti-racismo e fazer do compromisso firmado
com a população negra uma realidade, o que figura como uma esperança, dado o
elevado número de pessoas brancas homologadas pelo sistema, como é denunciado
pelos cotistas negros” (PINTO, 2005:17).
Para finalizar o contra-argumento, devemos lembrar que as cotas educativas não propugnam uma dicotomia entre a escolha de perpetuar um elitismo ou
abrir as portas para os excluídos a partir de uma visão populista e indiferenciada. A
educação proporciona um conhecimento que constitui uma das poucas armas que
os(as) afro-descendentes têm para obter uma formação que posteriormente lhes
permita incluir-se em espaços de decisão e poder político que, por sua vez, levem
ao desenvolvimento estrutural dos povos. A presença em espaços educativos, tanto
como professores ou como estudantes, permite a construção de uma sociedade mais
democrática e plural, por causa das relações interculturais e o desenvolvimento de
enfoques que irão permeando outros grupos étnico-raciais.
A modo de conclusão
As ações afirmativas para afro-descendentes na América Latina devem ser
entendidas, elaboradas e analisadas dentro da perspectiva filosófica e política do
conceito de reparação. Essas ações devem ser expressadas não apenas em políticas públicas estatais, mas também em políticas desenvolvidas por instituições ou
grupos privados.
As estratégias não podem estar centralizadas no Estado como o único ente
que elabore e implemente ações afirmativas, mas sim que cumpra sua função reguladora, elaborando políticas gerais que devam ser aplicadas em instâncias estatais e
privadas. Isso implica um debate sobre as estruturas de poder e a maneira pela qual
os Estados-Nação se estruturaram e enriqueceram, tendo como base a escravidão e
a exploração dos povos afro-descendentes. Também implica colocar uma alternativa
contra a globalização neoliberal e o capitalismo selvagem, porque estes sistemas
não conseguiram diminuir as brechas estruturais de exclusão social, marginalidade e
pobreza dos povos afro-descendentes.
Essa perspectiva implica também que os sistemas judiciais não estejam a serviço do mercado, e não encaminhem os processos judiciais de denúncia contra a
discriminação no acesso a lugares públicos como tema a ser tratado no terreno
administrativo, sob o argumento de que são fatos que afetam o direito dos (das)
consumidores (as) e não uma violação de direitos humanos.
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Alguns países da região andina e do Mercosul enfrentam problemas graves
no que diz respeito à invisibilização, mas também à mestiçagem, o que ocasiona um
enfraquecimento cada vez mais agressivo das bases culturais unificadoras dos e das
afro-descendentes. Cabe precisar que não se coloca uma posição essencialista nem
uma crítica à mestiçagem per se mas sim à sua utilização para promover o branqueamento e, portanto, uma suposta mobilidade social.
Não se deve cair em conceitos essencialistas de pureza e preservação racial. Os processos de mestiçagem devem ser analisados como uma estratégia sistemática das elites dominantes, que cumprem um programa estratégico que é
dissimulado por discursos como o da democracia racial, com o único objetivo de
seguir com o processo de branqueamento iniciado desde o início das repúblicas
latino-americanas.
Se eliminarmos a palavra racismo da plataforma política, as pessoas racistas
tornarão invisível o problema e seguirão existindo, com a diferença de que não serão
mais chamadas com esse nome. Quando a desconstrução do racismo tiver acontecido em todos os terrenos, então serão mais visíveis a parte propositiva e afirmativa
das agendas do movimento afro-descendente.
É importante recordar que as ações afirmativas geralmente são elaboradas e
executadas dentro dos próprios sistemas racistas. É responsabilidade política dos
movimentos afro-descendentes analisar se conseguirão mudanças importantes da
situação dos povos afros com a inclusão nas estruturas políticas e econômicas existentes. Ou se existe uma proposta de reestruturação e reordenamento da sociedade
onde estejamos realmente incluídos.
Torna-se imprescindível uma reparação moral, territorial e espiritual. As ações
afirmativas constituem uma primeira etapa para ir eliminando a exclusão, postergação e discriminação a que têm sido submetidos nossos povos. Devem responder
a processos políticos e organizativos dos povos afro-descendentes e não a fórmulas
instauradas dentro do sistema racista de opressão.
355
Referências
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A Luta contra a
Discriminação Racial
em Cuba e as Ações
Afirmativas:
convite à reflexão
e ao debate*
Tomás Fernández Robaina
A
té pouco tempo atrás se negava a presença do preconceito e da discriminação racial, como uma conseqüência do racismo que sobrevive em
nossa sociedade, consciente em alguns cidadãos e inconsciente em outros. O reconhecimento objetivo de tais manifestações se torna difícil,
porque os preconceitos racistas foram interiorizados e dissimulados de tal maneira
que passam despercebidos por seus próprios portadores, como mostras das tradições cotidianas impostas desde o período da escravidão, reproduzidas e enriquecidas durante o século XX, em seus dois momentos fundamentais, o republicano e o
revolucionário.
Transferiu-se mecanicamente, sem uma análise contextual o critério martiano de que o cubano era mais que branco, mais que negro, mais que mulato, expressado em um momento em que era muito necessária a união das forças nacionais
para obter a unidade e a independência da Espanha. A República foi o espaço em
que não poucos pensaram que todos os problemas sociais, e particularmente o da
questão racial, seriam resolvidos de maneira simples. Mas no caso da discriminação
contra o negro e a cultura de seus ancestrais, subestimou-se a complexidade de tal
* Traduzido do espanhol por Beatriz Cannabrava. Este texto faz parte de um ensaio maior no qual são relacionadas algumas das ações empreendidas desde 1959 para lutar contra a discriminação racial.
N. da T: refere-se a José Martí, prócer da independência cubana.
problemática. O pensamento martiano que estimulava a luta pela igualdade de direitos para os negros, ao dizer que se por expressar que o negro em nada era inferior
ao branco se lhe acusava de racista, bem-vindo fosse esse qualificativo, porque era
um racismo do bem, não ganhou a popularidade e a difusão necessárias.
Antes de 1959, os direitos constitucionais que condenavam a discriminação
racial eram na sua maioria letra morta. Depois do triunfo da revolução acreditou se
que com apenas o apelo à consciência, e com o acesso objetivo a novos postos de
trabalho e aos diferentes níveis de instrução, ficavam eliminados o racismo e seus
elementos reprodutores: o preconceito e a discriminação racial. Essa crença trouxe
como conseqüência a falta de uma atenção mais cuidadosa para evitar o aparecimento dos preconceitos que havia contra os negros e suas manifestações culturais
tangíveis e não tangíveis, herdadas dos africanos e das primeiras gerações de negros
nascidos em Cuba.
Esse descuido contribuiu para que fossem mantidas práticas discriminatórias
e preconceitos levantados pelas classes e setores que impunham seus cânones marginalizadores como uma forma de não compartilhar seus espaços sociais, econômicos, políticos e culturais, ante o temor de perder seus privilégios classistas.
Ações Afirmativas
Nem todos os cubanos que participaram da luta contra a discriminação, desde
os tempos mais remotos até o presente, acolheram bem o conceito de ação afirmativa. O referido conceito não era muito conhecido em Cuba, antes de 1959, depois
dessa data, seu emprego em outras latitudes tem sido muito valorizado, mas não sua
aplicação entre nós, como uma das alternativas para buscar a solução do problema
racial e cultural do negro cubano. Mas, o que é em realidade uma ação afirmativa?
A história que nos chega da Índia nos ensina que as ações afirmativas surgiram nesse país quando Bimrao Ramji Ambedkar (1891-1956), que pertencia à casta
dos intocáveis propôs ao colonialismo britânico a representatividade da população
considerada inferior (KUBER, 1978; THE NEW ENCYCLOPEDIA; 277). Ele
acreditava que esse regime discriminador só poderia ser eliminado caso seus membros acedessem gradualmente a espaços até então proibidos para eles.
Portanto, ações afirmativas são aquelas medidas aplicadas quando se tem um
respaldo legal que autoriza e permite o gozo de direitos sociais, políticos, etc., aos
membros de uma minoria, de maneira proporcional, para facilitar o seu acesso a
determinados espaços dos quais haviam sido historicamente marginalizados, e con360
seguir, ao longo do tempo, o desaparecimento dessa desigualdade. Por exemplo, a
incorporação, nos Estados Unidos, dos negros aos postos de trabalho, aos centros de
ensino, aos quais eles não tinham tido oportunidade de acesso. Esse fenômeno materializou-se naquele país como conseqüência da longa luta dos direitos civis. Essa
batalha teve como saldo positivo o fato de que, desde então, pelo menos legalmente,
a discriminação está condenada e garante a incorporação proporcional ao ensino
e ao trabalho das minorias étnicas que povoam aquele país. Essa é, objetivamente,
uma opção viável para tratar de eliminar as diferenças sócioeconômicas, culturais.
Portanto, as ações afirmativas podem ser explicadas como aquelas que privilegiam
cidadãos discriminados nas sociedades contemporâneas por sua origem classista ou
de casta, raça, sexo, cultura ou orientação sexual, com o objetivo de minimizar até
eliminar as diferenças e obter o respeito ao direito de suas diferenças e sua aceitação
democrática dentro de cada comunidade.
Aqueles que expressaram a conveniência de pôr em prática ações afirmativas
tiveram que enfrentar duras réplicas, sendo recriminados pelo desejo de trasladar
de forma mecânica a experiência estadunidense à realidade cubana, quando a nossa
realidade nada tem a ver com aquela.
Mas, está certo esse julgamento? Em nossa luta contra a discriminação racial do negro não houve tentativas de ações afirmativas? Se entendemos o conceito
como toda medida que tem respaldo legal para conseguir um equilíbrio da justiça social para aqueles que, histórica e majoritariamente, têm estado impedidos de
exercer muitos dos seus direitos poderiam ser consideradas como ação afirmativa as
medidas legais que permitiam que os escravos comprassem sua própria liberdade
(ORTIZ, 1986). Mas essa legislação não foi feita para beneficiar o escravo em primeira instância, mas sim para não prejudicar economicamente o escravocrata. Mas
é verdade que aqueles que puderam alforriar-se o fizeram, como bem menciona a
historiadora Rebeca Scott, em seu importante livro La emancipación de los esclavos en
Cuba: La transición al trabajo libre 1860 – 1899.
Devemos ter bem claro que a função fundamental da ação afirmativa reside
em sua execução como uma medida transitória para elevar o nível educativo, social
e econômico daqueles que sempre foram afastados dessas possibilidades. Portanto,
toda ação afirmativa é algo provisório, um processo dialético. Uma vez conseguido
o nivelamento, o balanço adequado, deixa de ter seu sentido e se converte no oposto
do que realmente a originou, caso se insista em sua execução e permanência indefinida. Mas chegar a esse estado é o resultado de um longo processo que ainda não
foi atingido por nenhuma sociedade.
361
O Partido Independente de Cor (PIC) pode muito bem ser visto, nessa
perspectiva explicada, como a ação afirmativa mais relevante assumida pelo movimento negro de Cuba em toda a sua história, em uma etapa em que o conceito de
ação afirmativa estava ainda muito longe de surgir. O PIC foi uma organização nascida dentro da legalidade constitucional daquela época: final da segunda intervenção estadunidense. Seu fundador, Evaristo Estenoz, tinha a firme convicção de que
se todos os negros militassem em um só partido seria possível lutar pelos direitos
do negro de modo mais objetivo. Além disso, o programa (ROBAINA, 1994:1925)
do Partido contemplava todos os aspectos necessários para garantir o exercício e
o acesso a todos os direitos constitucionais que não haviam estado ao alcance da
população negra cubana. Não há dúvida de que o PIC poderia ter sido uma solução
viável, mas o medo ao negro, surgido como conseqüência do triunfo da revolução
haitiana, foi um temor latente durante todo o século XIX. Esse medo foi herdado
no século XX, já convertido em um racismo, dissimulado ou não, cujos preconceitos
discriminavam os negros e suas manifestações culturais e religiosas.
O projeto do PIC fracassou em virtude da aprovação da Emenda Morúa,
apresentada ao Congresso por Martín Morúa Delgado (1856-1910). Essa Emenda
colocou na ilegalidade a mencionada organização política, por um consenso que
considerava prejudicial ao país a formação de um partido cujos membros pertencessem a uma só raça. Esse veto também se materializou porque os partidos tradicionais daquela época temiam não poder seguir manipulando o voto dos eleitores
negros. Os fatos mencionados podem explicar em parte o genocídio cometido, em
1912, contra os independentes de cor, ocasião em que morreram mais de dois mil
militantes, determinando seu desaparecimento definitivo.
Posteriormente, a maior parte das ações do negro em prol de seus direitos
voltou-se para o esforço individual promovido por Juan Gualberto Gómez (1854 O primeiro a realizar um estudo amplo sobre o PIC, foi Serafín Portuondo Linares com Los Independientes
de Color, primeira edição de 1950 e a mais recente de 2002. Aline Helg escreveu o estudo mais importante sobre o PIC, título em português de seu Our Rightful Share. The Afro-Cuban Struggle for Equality,
1886 – 1912 (1995). Também em edição em inglês A Nation for all = Una Nación para todos, Alejandro de
la Fuente, nas edições de seu livro em inglês e espanhol, analisa o PIC e todo o processo da luta contra
a discriminação do negro em Cuba. Para quem deseje ampliar ver a Bibliografía de temas afro-cubanos
(1986) e seu suplemento (2001) e La Bibliografía y los estudios afrocubanos en la revista TEMAS, oct.-dic.
1996.
Medo ao negro: ficou patente o temor dos escravocratas e comerciantes espanhóis e nacionais de que
houvesse uma insurreição similar à haitiana. Os ideólogos do sistema escravista, fundadores da nacionalidade branca cubana, formularam toda uma teoria e metodologia racistas para a eliminação física do
negro e o branqueamento gradual da população cubana, mediante a união sexual com essa finalidade
das mulheres negras com brancos imigrantes europeus. Ver a análise sobre José Antonio Saco, Francisco
Arango y Parreño e Domingo del Monte, entre outros, em Cepero Bonilla, Raúl (1960).
Emenda Morúa. Apresentada ao Congresso por seu autor para impedir as atividades legais do Partido
Independente de Cor. Martín Morúa Delgado (1856-1910) foi uma figura controversa politicamente; foi o
eterno rival de Juan Gualberto Gómez (1854-1933). Cultivou o jornalismo e o romance.
362
1933), uma vez que as tentativas diferentes, coletivas, sem chegar a uma organização política, não tiveram êxito.
Com a fundação do Partido Comunista de Cuba, em 1925, o fenômeno racial
começa a ser enfocado como uma conseqüência da sociedade dividida em classes
sociais antagônicas. Postulava-se que com o desaparecimento da sociedade capitalista e o início da sociedade socialista a problemática racial deixaria de existir. Isso fica
evidente quando se recordam as palavras de Nicolás Guillén (MOREJÓN, 1974),
expressadas nesse sentido. Ele que estimava que apenas com a abolição da sociedade
dividida em classes antagônicas a discriminação racial desapareceria por si só, porque era conseqüência da referida sociedade. Mas então, como ele mesmo asseverou,
isso era visto como algo muito distante. No entanto, a experiência cubana evidencia
que a luta contra o racismo é muito mais complexa e difícil que a luta de classes.
Na década de trinta, depois da queda do ditador Gerardo Machado (18711939), o partido comunista levantou uma palavra de ordem que postulava a criação
da faixa negra oriental. Propunha-se claramente que naqueles municípios da porção
sul da província de Oriente, onde a maioria da população era negra, os negros é
que deveriam candidatar-se aos cargos municipais e exercer o poder político nessas
áreas. Essa proposta não contou com muito apoio popular, e muitas décadas depois
foi analisado o erro de tal postulado do seguinte modo:
Se na chamada Faixa Negra de Oriente [...] os negros e mulatos constituíam [...] 58.3% de sua população, eles constituíam, no entanto, não mais de
22.4% da população negra de todo o país... Estes números indicam
por si só que, mesmo no caso da palavra de ordem do direito à autodeterminação ter sido justa, esse direito não podia ser exercido por
77.6% da população negra que vivia fora da faixa negra de Oriente
(PREGUNTAS, 1976).
Independentemente do objetivo de tal conclusão, do ângulo em que é feita,
teria sido interessante ter contado com essa experiência, mas se vê pelo estudo daquele período que o contexto não era favorável para tal gestão.
Juan Gualberto Gómez (1854-1933) O intelectual afro-cubano mais importante do século XIX e das três
primeiras décadas do XX. Foi um decidido lutador da convivência e confraternização de brancos e negros
como uma forma de se conseguir o desenvolvimento harmônico e social da Ilha. Opôs-se no século XIX e
no XX à existência de organizações integradas só por negros. Com essa finalidade desenvolveu sua filosofia da fraternidade, que expôs primeiro através do periódico La Fraternidad e em seu projeto da Sociedade
Fraternal Cubana, que nunca se materializou.
Machado governou o país de modo ditatorial. Foi qualificado pelo dirigente estudantil Julio Antonio Mella
como asno com garras. Em seu governo inicia-se o movimento social e cultural mais significativo dos afrocubanos em toda nossa história, promovido por Gustavo E. Urrutia (1881-1958), a partir de sua coluna e
página dominical Ideales: Una raza (1928-1931).
363
Gustavo E. Urrutia (1881-1958) conclamava os negros a fazer ato de presença
na economia; asseverava que essa era uma das formas em que o negro devia fazer-se
sentir e respeitar. Reclamava essa ação a partir de posições muito modestas, como sair
vendendo frutas com uma cesta ou um carrinho de mão, para que a partir desse início
e desse esforço, o negro pudesse ir se desenvolvendo economicamente. Obviamente
essa exortação, embora fosse uma nobre contribuição, não era fácil de ser cumprida.
As leis contra a desigualdade racial propostas na Constituição de 1940 (ROBAINA, s/d) foram letra morta, pois as leis complementares que deveriam ter sido
promulgadas jamais foram redigidas, apesar da longa demanda dos setores progressistas de então, basicamente os membros do Partido Socialista Popular. Se tivessem
sido promulgadas essas leis complementares, ter-se-ia à mão um instrumento legal
que penalizava os atos discriminatórios que aconteciam diariamente na sociedade, e
isso teria sido um apoio legal muito eficaz para a realização de ações que buscavam
combater a discriminação.
Walterio Carbonell (1921), autor de Crítica: Como surgió la cultura nacional,
um dos livros mais reveladores para quem se interessa pelo estudo da identidade
nacional em Cuba, foi protagonista de um fato que levou à realização espontânea
e violenta de uma ação contra a discriminação (DESORDON, 1949; ROBAINA,
1998:84). Ao tentar entrar com uns amigos em um cabaré, foi proibida a entrada de
um deles por ser negro, mas não a dos brancos; por isso negros, brancos e mulatos
integrantes do grupo decidiram entrar à força. É claro que tudo terminou na delegacia e o processo foi considerado simplesmente como um escândalo em via pública; a conotação racial não apareceu em lugar algum, mesmo que a imprensa tenha
mencionado o fato como tal. Provavelmente ocorreram muitos atos como este, mas
nem sempre chegaram a ser notícia de jornal.
Juan René Betancourt foi o propulsor de todo um movimento que pode ser
considerado precursor de uma política de ações afirmativas, pelo menos parcialmente, segundo o critério de cada um. Ele elaborou um conjunto de medidas que,
evidentemente, nunca contaram com o apoio oficial e nem sempre foram compreendidas cabalmente por todos os que desejavam lutar contra a discriminação
racial. Betancourt foi autor de dois importantes livros: Doctrina Negra (1955) e El
negro, ciudadano del futuro (1959). Fundou a Organização Nacional de Recuperação
“[...] cremos que a raça negra deve, de agora em diante, dedicar o melhor de sua atividade a organizar-se
economicamente, sem lirismo nem delírios de grandeza” (Urrutia, 1929: 45). Caso se deseja ampliar o
conhecimento sobre este pensador, ver APROXIMACIÓN (1986).
Partido Socialista Popular é o nome que se adota para o partido que surgiu como resultado da fusão dos
Partidos União Radical e Comunista de Cuba.
364
Econômica (ONRE) que tinha como objetivo principal a criação de uma empresa
que construísse prédios de apartamentos confortáveis para os negros, com um aluguel acessível ao bolso dos profissionais negros, bem como lojas e espaços de lazer.
Essas ações respondiam à dificuldade que algumas famílias negras enfrentavam na
hora de mudar para um edifício em uma zona onde a população negra não fosse
relevante. Também se perseguia a idéia de que os consumidores negros comprassem
em uma cadeia de lojas que se projetava abrir, para desse modo contribuir para o
desenvolvimento da ONRE. É claro que Betancourt sabia que a minoria negra,
com seus recursos econômicos, não podia por si só bancar todo o projeto, e por isso
buscou a ajuda dos comerciantes e investidores de todas as raças. Mas o projeto de
Betancourt não floresceu muito.
A Questão Racial de 1959 a 1981
A década de cinqüenta foi muito agitada, mesmo antes da quartelada de 10
de março de 1952. Esse golpe de Estado, dirigido pelo general Fulgencio Batista
gerou una oposição cada vez maior, o que provocou ações bélicas de suma importância como os assaltos aos quartéis Goicuría, Guillermón Moncada, (Santiago
de Cuba, 1953) Carlos Manuel de Céspedes (Bayamo, 1953); o levantamento de
Cienfuegos; e o desembarque dos expedicionários do iate Granma (2 de dezembro
de 1956) que iniciou a guerra de libertação presidida por Fidel Castro. Todos estes
acontecimentos prenderam em grande parte a atenção e o interesse da cidadania.
A problemática do negro e de sua discriminação pareceu esfumar-se, aparentemente tornou-se invisível, sobretudo nas primeiras semanas após a ascensão do poder
revolucionário. Mas em 15 de fevereiro de 1959, Juan René Betancourt10 publicou
um artigo (1958) no qual expressava sua satisfação pela queda de Batista e pelas esperançosas promessas da Revolução de iniciar o desenvolvimento econômico, social
educacional e cultural do país. Manifestou que achava conveniente que o Governo
Revolucionário se pronunciasse e desse a conhecer qual ia ser sua política no que se
referia à luta contra a discriminação racial. Agregou que era evidente que se viam
muitos negros formando parte do exército rebelde, com patente de oficial, como o comandante Juan Almeida, mas que no Conselho de Ministros não havia nenhum descendente de africano. Foi realmente uma observação muito honesta e revolucionária.
Fulgencio Batista y Zaldivar (1901 – 1973) dá o golpe de estado de 4 de setembro e de simples sargento
chega a general. Dominou a política do país posterior ao machadato. Eleito presidente de 1940 a 1944,
voltou ao poder mediante seu segundo golpe de estado, em 10 de março de 1952. Reprimiu sanguinariamente a oposição. Fugiu do país após a queda da cidade de Santa Clara em poder do exército rebelde.
10 Anteriormente já havia publicado La cuestión racial (1959a).
365
Primeiro Apelo de Fidel Castro (1959)
Não está confirmado que o apelo de Fidel Castro em seu primeiro discurso
de 22 de março, publicado no dia 23 no diário Revolución tenha sido motivado
pelo artigo de Juan René Betancourt, mas o certo é que nesse muito inteligente
discurso, o dr. Castro demonstrou estar bem informado sobre a problemática racial
cubana. Por isso demandou de forma veemente a todos os intelectuais, historiadores, criadores, que contribuíssem para a erradicação do preconceito, do racismo e da
discriminação racial.
As respostas11 ao apelo do Comandante em Chefe foram muito diversas e
não poucas propuseram a realização de ações afirmativas muito concretas. No entanto, chama a atenção que tais ações estivessem dirigidas mais ao trabalho e à
educação que ao setor cultural, já que, em realidade, o mais urgente era criar possibilidades eqüitativas e justas na hora de aspirar a um posto de trabalho. Por essa
razão expôs-se a conveniência de uma proporcionalidade de negros em cada centro
industrial e comercial, levando em conta a porcentagem total dos trabalhadores.
Algumas propostas (GONZÁLEZ MARTIN, 1959) assinalavam a necessidade de mudar o sistema de ensino para combater as seqüelas dos reflexos condicionados através de séculos, pois o negro era visto ainda como um ser inferior por
parte de alguns setores de nossa sociedade.
Além disso, em muitos espaços foram oferecidos seminários, palestras e debateu se bastante a problemática na imprensa (ENTRALGO, 1959; HENRIQUETA,
1959). Já nesse momento se levavam muito em conta as palavras da intervenção do
próprio comandante em chefe (CASTRO RUZ, 1959b) na televisão cubana, onde
ele enfatizou o fato de que a contra-revolução interna e a ameaça sempre presente
de Washington de materializar a “política da fruta madura”, tornava necessária a
unidade de todo o povo revolucionário e o rechaço a tudo quanto pusesse em perigo
essa coesão, pelo qual considerou ajuizado deixar de falar do problema racial, já que
em virtude da Revolução as ações discriminatórias tradicionais haviam sido abolidas
objetivamente: os negros podiam caminhar por todas as áreas dos parques públicos,
entrar em todos os restaurantes E outros locais de lazer onde historicamente não
era usual a presença de negros.
O chamado à luta sintetizou-se em evitar as ações discriminatórias; elas foram
condenadas pela Revolução desde esse momento; por isso, começou a surgir a ilusão
de que a discriminação havia sido abolida na nossa sociedade; muitos negros come11 Entre alguns deles devem ser mencionados: Peña (1959); Rodríguez (1959); Martínez Collado (1959).
366
çaram a trabalhar nos bancos e a desempenhar funções anteriormente vetadas para
eles; além disso, não houve um só hotel, associação recreativa ou qualquer classe de
estabelecimento público onde lhes fosse negada a entrada por causa da cor da pele.
A proposta de Juan René Betancourt, de utilizar a Federação Cubana de Sociedades de Cor12 como um meio para apoiar a Revolução e estimular e sistematizar
a luta contra o racismo de um modo organizado, não se adequava à visão da problemática racial que o poder revolucionário tinha naquele momento. Ocorreu algo
paradoxal: enquanto a maioria das organizações sociais e operárias se reorganizava,
para adequar-se ao processo revolucionário, e surgiam outras, como a Federação de
Mulheres13, os Comitês de Defesa da Revolução14, a União dos Pioneiros15, entre
outras mais, a principal associação dos negros, pela qual historicamente tinham lutado, a Federação de Sociedades de Cor, desapareceu, ao não ser permitida a existência de sociedades integradas unicamente por negros e/ou mulatos, pois graças à
Revolução todas as sociedades de recreação e/ou de ensino do país se abriam para
todos os cidadãos sem distinção de raça ou procedência social.
Por outro lado, a imprensa cubana (ROA, 1959; CARRASCO, 1967) e o
povo em geral seguiram muito de perto o desenvolvimento dos direitos civis nos
Estados Unidos. Fomos solidários com seus reclamos cívicos, políticos e culturais;
também apoiamos incondicionalmente a luta contra o apartheid do povo negro da
República da África do Sul. Acreditou-se muito romanticamente que por termos
nos declarado socialistas, os preconceitos sexistas, religiosos, racistas, machistas e
homofóbicos iam perder seus poderes discriminadores. Mas uma visão profunda do
que acontecia em Cuba nas duas primeiras décadas do triunfo revolucionário deixa
ver claramente que alguns desses preconceitos eram até reforçados.
As Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP)16, às quais foram enviados homossexuais e religiosos, particularmente Testemunhas de Jeová, foram
ações felizmente já superadas e que não devem ser esquecidas, para evitar-se cair
em erros similares, não apenas em nosso país, mas em outros onde estejam sendo
levadas a cabo transformações sociais radicais.
12 A Federação de Sociedades de Cor agrupava todas essas sociedades. Foi uma das conquistas do movimento negro cubano.
13 A Federação de Mulheres Cubanas aglutina as mulheres do país para defender seus direitos e apoiar a
Revolução Cubana.
14 Os Comitês de Defesa da Revolução surgiram por iniciativa de Fidel Castro para vigiar e evitar as atividades contra-revolucionárias.
15 União de Pioneiros de Cuba: reuniu os estudantes do ensino primário como um modo de educá-los ideologicamente dentro das novas concepções revolucionárias e martianas.
16 A UMAP foi criada como um meio de reeducação social e moral, mediante o trabalho. Foi um lamentável
erro que deixou uma triste marca em milhares de pessoas.
367
Embora se procurasse erradicar das pessoas os preconceitos racistas, por
outro lado se estimava que, em virtude da educação e da instrução de negros e
brancos, os jovens religiosos vinculados com as crenças de origem africana se
afastariam espontaneamente de tais manifestações, na medida em que fossem
atingindo níveis superiores de instrução e cultura; com o passar do tempo essa
herança cultural e religiosa desapareceria. Por esse motivo, da mesma forma que
nos tempos de Fernando Ortiz (1881-1969)17, Rómulo Lachatañeré18 e Lydia
Cabrera (1902-2001)19, enfatizou-se a urgência de resgatar o acervo legado pelas
culturas africanas ainda existentes em Cuba, pois o perigo de que se perdessem
era mais certo que naqueles tempos.
No entanto, houve uma enorme contradição: por um lado se pretendia o
êxito de tal política, enquanto que, por outro, as histórias dos orixás, as danças
de origem ioruba, arara, congo, carabal; eram ensinadas em todo o território da
ilha pelas centenas de instrutores de dança. Inconscientemente ou não se realizava uma ação afirmativa de índole cultural, ou pelo menos se pode avaliar essa
questão desse ângulo, porque para os crentes dessas religiões, o fato de que esse
fenômeno ocorresse era uma manifestação do poder dos próprios orixás, de suas
diferentes deidades, apesar de que o que se pretendia oficialmente era apenas
mostrar o fato artístico20.
Primeiro Movimento da Negritude
Tampouco se pode passar por alto o movimento da negritude que brotou em
fins dos anos sessenta e início dos setenta e que, em certa medida, pode irmanar-se
com o surgimento da literatura negra ou afro-cubana dos anos trinta. Um elemento
que não tinha sido visualizado no movimento negro de toda a república surgia,
17 Fernando, Ortiz Fernández (1881-1969) é chamado de terceiro descobridor de Cuba, porque foi o primeiro
a assinalar a importância da cultura africana cultivada pelos escravos e seus descendentes e sua contribuição à cultura e identidade nacional.
18 Rómulo, Lachatañeré (1959m) desenvolveu um relevante trabalho no estudo de nossas raízes africanas.
Todo o seu esforço aparece publicado em: El sistema religioso de los afrocubanos (2001, p. 414). Este
texto inclui seus livros); !Oh mío Yemayá; Manual de Santería, El sistema religioso de los lucumi y otras
influencias africanas en Cuba, e seus artigos aparecidos em diversas fontes.
19 Lydia, Cabrera (1902 - 1991) escreveu alguns dos livros mais importantes sobre a religiosidade de origem
africana em Cuba, que publicou na Ilha antes de 1959. Posteriormente à sua saída do país, reeditou e
publicou novas contribuições: El Monte, La Sociedad Secreta Abakúa, Yemayá y Ochun, são algumas
delas.
20 Em entrevistas realizadas sobre a valorização dessas crenças no início da Revolução, a maior parte dos
entrevistados expressou que era algo bem claro para eles do ponto de vista religioso, que ver as deidades
de origem africana, seus cantos e danças apresentados como espetáculos artísticos era a demonstração
de seus poderes que, depois de tantos séculos de ocultação, eram dados a conhecer mais amplamente
desse modo.
368
aparentemente motivado ou como conseqüência das leituras dos textos de Aime
Cesaire21, Leopold Senghor (1961), Frantz Fanon22.
O movimento social do negro em Cuba tinha estado integrado por intelectuais, escritores, médicos, advogados, jornalistas, que respondiam aos cânones impostos pela cultura eurocêntrica na qual todos haviam sido educados.
Portanto, as demandas se centravam na luta pela igualdade de oportunidades,
contra a discriminação racial no trabalho, na educação, nos espaços públicos, pelos
direitos políticos, esportivos e sociais em geral. Poucos falaram de forma encomiástica e respeitosa sobre a cultura de seus ancestrais, e nem sempre com a justa valorização, como o fez Gustavo E. Urrutia, que expressou em certa ocasião:
Aproximaram-se de mim mais de um amigo e de uma amiga, inteligentes e bons
– desses que não padecem do complexo de inferioridade –, perguntando­-e se com
esses programas de rádio em que soam tambores e cantos africanos o que proponho é estimular, ou manter, ou extirpar o “ñañiguismo”23 e a bruxaria.
A pergunta, em essência e com toda a sua importância, é assim: Devemos
estimular a tradição africana ou devemos extirpá-la? (URRUTIA, 1935:2).
Obviamente, a resposta asseverava que a única coisa que se devia fazer era
explicá-la, fazer com que fosse conhecida. Por isso, algumas linhas depois assegurava que:
Posto que é ao ramo negro do povo de Cuba que se costuma imputar uma
ancestralidade selvagem e bárbara; e como é ao afro-cubano que se pretende
envergonhar, coagir com supostas heranças de inferioridade, com taras raciais
denegridoras; por isso mesmo é o afro-cubano que peremptoriamente tem a
incumbência de conhecer profundamente, dar a conhecer e explicar os valores
religiosos, morais e artísticos de seus avós negros, que nada têm a invejar em
moralidade nem em refinamento espiritual aos de seus avós brancos, e que,
pelo contrário, vêm nutrindo muito generosamente a cultura branca sem que
o branco tenha se dignado a inteirar-se, reconhecê-lo e agradecer, até há pouco tempo e nos países mais avançados do mundo (ibid.).
21 Deste autor eram bem conhecidos pelos jovens interessados na cultura os seguintes títulos: Cahiers d’un
retour au pays natal, que tinha uma tradução de Lydia Cabrera publicada antes de 1959, e Discours sur le
colonialisme.
22 Les damnés de la terre (1961); Peau noire masques blancs (1952); Pour la Révolution africaine, écrits
politiques (1964) foram alguns dos livros conhecidos posteriormente ao serem traduzidos ao espanhol,
ampliando os leitores.
23 N. da T.: Irmandade negra masculina surgida como reação à opressão dos senhores de escravos.
369
Não era muito comum nessa época que os intelectuais negros cubanos emitissem publicamente tais critérios. Mas, apesar da nobre intenção de Urrutia, uma
boa parte da população continuou surda às suas palavras como às do próprio Fernando Ortiz, no início do século XX.
Este primeiro movimento da negritude fixou mais a atenção sobre a espiritualidade, a auto-estima da mulher negra e do homem negro e suas qualidades
estéticas. Refletiu também uma profunda preocupação social e política sobre os problemas de seus irmãos nos Estados Unidos e na República da África do Sul. No
entanto, seus cultivadores não tiveram muito espaço para expor amplamente suas
idéias. O contexto de então não foi favorável a esse debate. Considerou-se que falar
da problemática racial, tanto de seus aspectos sociológicos como ideológicos, podia
debilitar a unidade tão necessária de todo o povo para enfrentar a ameaça dos que
se opunham à Revolução Cubana com o apoio aberto de Washington. Isso explica
em grande parte a reação cubana diante da questão de Carlos Moore (1964): “Os
negros têm seu lugar na revolução cubana?”
Esta interrogante não era nova no movimento social do negro cubano. O
Partido Independente de Cor tinha sido uma forma de ganhar esse lugar, ao terem
falhado as soluções anteriores de integração do negro aos códigos eurocêntricos
impostos pelos colonialistas e herdados na república. Só com a revolução é que a
esperança voltou, a certeza de que, pelo menos algo podia ser conseguido. Mas não
passou muito tempo para que, por muitas e diversas razões, ao mesmo tempo em
que se materializavam muitas idéias propostas pelos independentes, como o ensino
obrigatório e gratuito, percebia-se uma ausência, uma falta de representatividade
da mulher, da juventude e da etnicidade geral do povo nas esferas administrativas,
entre outras. Esses fatos refletiam a complexidade do processo social revolucionário,
e determinaram o que bem pode ser considerado o primeiro esboço de uma política
oficial de “ações afirmativas”.
Segundo Apelo de Fidel Castro
No encerramento do Terceiro Congresso do Partido Comunista de Cuba,
seu Primeiro Secretário (CASTRO RUIZ, 1986:2) expôs a necessidade de que
as mulheres, os jovens e os negros estivessem representados nos diferentes níveis
do poder revolucionário: o Estado, o Governo, o Partido, a administração pública em general. Essa proposta foi muito bem recebida pelos que haviam estado
sugerindo tal ação. De novo a figura de Walterio Carbonell veio à lembrança
370
dos que sabiam que, em mais de uma oportunidade, ele havia enviado cartas ao
nível máximo do Partido expondo a necessidade da representatividade negra.
Sem dúvida operou-se então uma notável mudança, mas não se pode afirmar
que o balanço final foi totalmente positivo.
A orientação não dizia que apenas por ser negro alguém devia ser promovido, mas essa possibilidade foi sugerida fundamentalmente para a promoção de
negros e negras que, por seu profissionalismo e experiência de trabalho em suas
respectivas esferas, tivessem contribuído para uma imagem que pudesse influir
também em outros, para ser tomados como paradigma e promover o interesse pelo estudo e a superação entre os negros. De maneira geral, a orientação
não foi interpretada corretamente. Provavelmente foi bem aplicada em muitos
casos, mas o que observamos das pesquisas e entrevistas efetuadas, é que nem
sempre foram selecionados os mais capazes. Quando foi preciso afastar os que
não haviam cumprido as expectativas, o comentário foi uma amostra a mais da
existência dos preconceitos racistas, pois não se atribuía a demissão à falta de
experiência ou de conhecimento, mas à condição racial. Chama a atenção o fato
de que nos casos contrários, o fato de ser negro ou negra não se destacava como
exemplo. Mas não podemos ignorar critérios ainda prevalecentes que retratam
de corpo inteiro os que o emitem quando se encontram diante de um negro
altamente qualificado, educado: é um branco em tudo, menos na pele.
Não foram detectadas referências na imprensa24 em datas próximas e posteriores ao quarto congresso do Partido Comunista, sobre os resultados da representatividade racial. Obviamente, o fato desse assunto não ter chegado aos meios
de comunicação de massa não significa que não tenha sido debatido internamente.
Pelo menos hipoteticamente existe essa probabilidade.
Na década de setenta começa a se abrir um espaço para a problemática racial,
cultural e religiosa de origem afro-cubana. Jesús Guanche lançou seu Procesos Etnoculturales de Cuba (1977), obra que independentemente das limitações que apresenta
ao julgar as culturas de origem africana, foi uma contribuição notável porque provocou a reflexão sobre os argumentos que manejou, principalmente sobre a santería25,
e em geral sobre as crenças afro-cubanas. Além disso, é uma mostra da maneira de
pensar que havia no mundo científico cubano dessa época sobre as referidas manifestações. Seu texto funcionou como um motor, como um acicate para pesquisar
mais profundamente o contexto religioso e cultural do momento.
24 Realmente a busca foi infrutífera, mas é impossível que um discurso ouvido por milhares, e que tivesse
aplicadas suas recomendações, não merecesse pelo menos um breve parágrafo.
25 N. da T.: Religião de origem africana praticada pelas populações negras cubanas.
371
Pedro Serviat lança El Problema Negro en Cuba y su solución def initiva
(1986), título que brinda importante informação que mostra e ressalta tudo
o que a Revolução havia feito até esse momento em prol da igualdade racial, mas ao mesmo tempo reflete uma deficiência conceitual profunda, ao dar
como resolvida essa temática, justamente em um momento em que no aspecto
individual os preconceitos se reproduziam e se demandavam medidas para
combatê-los.
A Biblioteca Nacional José Martí editou em 1986 a Bibliografía de Temas Afro-cubanos (FERNÁNDEZ ROBAINA, 1986)26 que colocou à disposição dos pesquisadores um instrumento de consulta e referência que tem sido
altamente valorizado pelos especialistas. Também em 1984, havia circulado
em forma de folheto o texto Los Santeros (id., 1983), que foi publicado posteriormente em 1985, na antologia Talleres Literarios 1984 com o nome de
Orisha no baja, e que em 1994 circula em sua primeira edição com o título
de Hablen paleros y santeros. Gabino La Rosa lançou em 1988 sua importante
obra Los Cimarrones, tema que ainda não tinha sido abordado com uma visão
tão abrangente e detalhada como nesse texto.
Carlos Moore escreveu Castro, los Negros y África (1988), duramente
criticado por cubanos e estrangeiros. Foi um livro que fez com que muitos,
motivados pela leitura de suas análises, repensassem a situação real do negro
em Cuba, em oposição às formulações e enfoques do autor, para buscar a possibilidade de um equilíbrio, e não ver o tema de modo pessimista.
Essas obras, entre outras, contribuíram também para a abertura do espaço para o debate da problemática racial e da religiosidade de origem africana
o que, em boa medida, também contribuiu para uma maior conscientização
das mulheres e homens negros. Não foi por acaso que justamente em 1990 a
década se inicie com a publicação de Los Orishas, de Natalia Bolívar 27, livro
de suma importância porque abriu de forma ampla o espaço à literatura afrocubana. Foi seguido por vários títulos da própria autora e de outros. Nesse
mesmo ano circula El Negro en Cuba: Apuntes para la historia de la discriminación en Cuba (1902-1958), de T. F. Robaina, cujo mérito principal reside em
oferecer um panorama dessa luta durante a república com uma visão objetiva
de tais fatos.
26 Em 1968 publicara-se a Bibliografia de estudos afro-americanos, e em 1971 o Índice das revistas folclóricas cubanas.
27 Este título foi reeditado posteriormente e a ele se somam Opolopo Owo (1995), Mitos y leyendas de la
comida afrocubana (1993), entre alguns mais.
372
Do período especial até a atualidade
O início do período especial, em 1990, devido ao desaparecimento do campo
socialista e conseqüentemente à perda de todo o apoio que Cuba recebia desse bloco político e econômico, fez ressurgir desigualdades sociais e financeiras, anunciadas
pelo próprio governo revolucionário, diante da inevitável crise social, econômica e
política na qual adentrávamos.
Obviamente, não passou muito tempo para que surgisse a preocupação e interesse em saber que setores da sociedade seriam os mais atingidos. Toda a suspeita
recaiu sobre a população negra; as grandes oportunidades de acesso aos estudos
médios e superiores que a Revolução dava aos cidadãos de todo o país foram amplamente aproveitadas por todos e, em grande medida, também pelos negros, nos
primeiros tempos do processo revolucionário. Mas depois das três primeiras décadas
observou-se que em algumas áreas profissionais e de estudos universitários a presença negra era muito precária e isso se explicava como conseqüência da falta de
hábito de uma tradição de estudos, de superação, entre a maioria desse setor social
de nossa população.
Nesse sentido nunca havia sido desenvolvido um programa para o avanço
educacional e social da população negra do ponto de vista individual e coletivo, pois
não se tinha presente que os descendentes de africanos estavam realmente em desvantagem no acesso aos estudos superiores e técnicos, porque em sua maioria eram
analfabetos; e os que tinham podido ultrapassar essas barreiras nem sempre tinham
as mesmas possibilidades que seus irmãos brancos no acesso a postos de trabalho
significativos.
Pouco tempo depois do início do período especial a problemática racial começou a se manifestar em várias conferências e eventos em que se abordavam temas
vinculados com a contribuição histórica, social e cultural do negro para a nossa formação e identidade como nação. Esse interesse deu origem ao surgimento de outros
espaços nos quais foram debatidos amplamente esses tópicos.
O notável autor e cantor Gerardo Alfonso28, criou uma singular peña ou
tertúlia, auspiciada pela Asociación Hermanos Saíz, em sua sede La Madriguera, na
Quinta de los Molinos onde se reuniam todas as semanas representantes de diferentes gerações. Falava-se de música cubana, do hip-hop, mas principalmente eram
comentadas as experiências negativas de vários dos participantes que eram provas
28 Importante cantor, autor e trovador. Autor da popular melodia que se converteu em algo como uma canção
símbolo de Havana: Sábanas blancas en los balcones.
373
irrefutáveis da vigência dos preconceitos raciais em determinados setores de nossa
sociedade. O que se pretendia era chamar a atenção oficial para o que estava ocorrendo, e por esse motivo foi dada a orientação de enviar cartas aos diferentes níveis
do Partido e do Estado para dar a conhecer esses acontecimentos. Não importava
que fossem simplesmente fatos isolados, como muitos alegaram, argumentando que
a Revolução era radicalmente contra essas manifestações. Asseveração que todos
compartilhávamos. O objetivo do grupo era, além disso, buscar que tais fatos fossem
conhecidos, que fossem tomadas medidas efetivas com o ânimo de evitar a expansão de tal problemática. Embora por muitas diversas razões pessoais o grupo tenha
deixado de se reunir, a batalha contra os preconceitos raciais continuou em todos os
eventos ligados às ciências sociais e às humanidades.
Houve eventos muito particulares em que se analisaram a ausência da mulher e do homem negro nos meios de comunicação de massa audiovisuais, alguns
auspiciados pelo próprio Instituto Cubano de Rádio e Televisão29, onde sobressaiu
a figura já lendária da atriz Elvira Cervera, pioneira dessa representatividade nos
espaços teatrais, radiofônicos e televisivos muito antes de 1959, e que acaba de plasmar o testemunho de sua luta em El arte para mi fue un reto30.
Em 1995, a Fundação Fernando Ortiz31, dirigida pelo escritor Miguel Barnet, convocou um importante debate no qual intervieram professores universitários,
escritores, antropólogos, etnólogos, sociólogos politólogos, psicólogos, expondo preocupações e fatos que evidenciavam de modo irrefutável a existência da discriminação racial, como conseqüência dos preconceitos e do racismo, dissimulado ou aberto,
de algumas pessoas. A relação de fatos narrados criticamente pelos participantes
demonstrou que deviam ser tomadas medidas, uma vez que o desejo e a interesse
da revolução residia em evitar e erradicar tais males sociais. O que se via era, objetivamente, que não havia um programa, uma campanha sistematizada encarregada
de combater o racismo.
Portanto, o reconhecimento no nível oficial está dado não apenas pela opinião
de suas máximas figuras, mas também pela realização das oficinas de “racialidade”
29 Neste sentido são vários os encontros celebrados nos próprios prédios do ICRT. Os debates foram muito
objetivos e participativos, mas não se visualiza ainda o verdadeiro salto desejado da representatividade do
negro em sua imagem, onde não apareça sempre nos papéis historicamente destinados a ele.
30 Obra testemunhal em que relata sua vida como atriz, mas também sua luta contra a discriminação no rádio
e na televisão. Seu livro constitui uma importantíssima contribuição reflexiva, e documento que não pode
deixar de ser consultado pelos estudiosos da história do negro em nosso país.
31 Fundação Fernando Ortiz tem realizado um trabalho notável, convocando a oficinas e cursos, bem como
dando a conhecer trabalhos em sua revista Catauro, ou publicando livros do próprio Ortiz ou de outros que
continuam as linhas temáticas abordadas pelo mesmo. Em uma das oficinas realizadas evidenciaram-se
objetivamente as seqüelas do preconceito racial a partir da entrada ao país das empresas estrangeiras, já
que havia uma evidente preferência pelos especialistas brancos sobre os negros.
374
para conhecer critérios sobre a referida problemática32, e a existência de não poucos
empenhos, como os já mencionados e outros que conheceremos mais adiante.
A jornalista Gisela Arandia, vinculada com os espaços radiofônicos e televisivos
promoveu o debate sobre a questão racial nesses meios. Ela ampliou a mencionada linha de trabalho a partir do projeto Cor Cubana33, patrocinado pela União de Escritores e Artistas de Cuba e que trabalhou diretamente com a comunidade formada pelos
moradores do cortiço La California. Não há dúvida de que ali se conseguiu um importante avanço social, pois na atualidade o que resta do cortiço é o espírito, a forma de ser
e agir das pessoas que durante longos anos viveram em tais edifícios, ou seja, a cultura
intangível. Os antigos quartos onde viviam amontoados os membros de uma família se
converteram em apartamentos confortáveis, de dois ou mais quartos, com sala de visita
e jantar, ou seja o habitat, a cultura tangível. Essa transformação física foi mais fácil e
rápida do que a da cultura intangível enraizada nas mentes de seus moradores, devido
aos seus longos anos de convivência e pertencimento a um setor social historicamente marginalizado. Neste último aspecto, ainda há muito por fazer, e o desejo de que
Cor Cubana continue ampliando seu raio de ação a lugares similares. O mencionado
projeto realizou, além disso, seminários, debates sobre livros e comemorações, como o
realizado sobre o Partido Independente de Cor, em junho de 2002.
A pesquisadora Leyda Oquendo vem realizando mensalmente a Aula-oficina
José Luciano Franco34, a partir da Casa da África de Havana Velha, um espaço
onde se fala da racialidade, da mestiçagem, da identidade cultural cubana. Dessas
atividades participam como conferencistas aqueles que há anos se ocupam de tais
assuntos e os que se incorporaram a essas reflexões mais recentemente.
A Biblioteca Nacional José Martí35 tem ministrado de modo também organizado seus cursos sobre a história, vida social e cultural dos africanos e seus des-
32 Em reuniões da União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba, e em outras, surgiu em mais de uma
ocasião o problema racial. Em uma delas o próprio comandante em chefe reconheceu a sua existência e
que justamente a formação dos trabalhadores tinham a função de estudar e pesquisar essa realidade para
encontrar soluções objetivas.
33 Cor Cubana é um projeto muito interessante que se desenvolve na capital e também tem contribuído para
que exista um estado de debate através das reuniões que convoca para lançar um livro, homenagear uma
personalidade ou debater um tema histórico.
34 A Aula-oficina José Luciano Franco surgiu quando deixaram de acontecer as reuniões auspiciadas por Gerardo Alfonso. Manteve-se ativa durante os últimos anos. Funciona na Casa de África, em Havana Velha,
instituição que também realiza atividades similares, sobretudo seu encontro bienal Entre Cubanos, que
tem como objetivo debater as problemáticas históricas e contemporâneas da identidade, da racialidade de
Cuba e de outros países. Alberto Grandos tem sido um eficiente promotor de atividades reivindicadoras e
difusoras da história da África e dos africanos e de seus descendentes em Cuba.
35 A Biblioteca Nacional José Marti vem mantendo um espaço notável com o curso Negro na Bibliografia
Cubana ou Introdução aos estudos da história e da cultura do negro em Cuba, que vem sendo dado na
instituição e fora dela desde 1994. É de se notar que em outros espaços temáticos da própria biblioteca
sempre se debate a problemática cultural e histórica da valorização da contribuição dos africanos e de
seus descendentes para nossa história e nossa cultura.
375
cendentes desde 1994. Nessa instituição foram celebrados em 1998 dois colóquios favoravelmente avaliados por especialistas cubanos e estrangeiros. Um deles sobre o 90º
aniversário do Partido Independente de Cor, com o qual se iniciava uma série de atividades encaminhadas a preparar os próximos centenários: o desse Partido e o da mal
chamada “guerrinha” de 1912, ambos a celebrar-se em 2008 e 2012 respectivamente.
Foi também celebrado na Biblioteca o colóquio sobre a vida e obra de Gustavo
E. Urrutia, lembrando o quadragésimo aniversário de sua morte. Urrutia é um dos
pensadores negros mais importantes, e não apenas de Cuba. Um dos conferencistas
desse evento, o Doutor em Ciências Históricas Jorge Ibarra demonstrou de modo
detalhado a inteligência, sagacidade e cultura de Urrutia, ao analisar a polêmica que
ele travou sobre a questão racial cubana com o Dr. Jorge Mañach, cujo saldo foi positivamente a favor das idéias expostas por Urrutia. Outros participantes abordaram a
importância da coluna e página dominical Ideales de una raza (1928-1931), que orientou e animou o primeiro grande movimento social e cultural do negro em Cuba.
Também houve uma homenagem a Pedro Deschamps Chapeaux, historiador
de quem são devedores todos os que se ocupam da história do negro no século XIX.
Não se pode passar por alto a comemoração, em 1999, dos sessenta anos de publicação do livro de Alberto Arredondo El negro en Cuba, ensayo, que contou, como
nas anteriores atividades, com uma significativa assistência e rico debate sobre as
análises efetuadas por seu autor.
A professora Lázara Menéndez36 da Faculdade de Artes e Letras realizou
um destacado trabalho a partir de sua Cadeira de Estudos Afro-Cubanos, promovendo a análise e compreensão dos valores estéticos das manifestações artesanais
presentes nos colares, entalhes, danças, assim como sua influência e presença na
obra dos artistas plásticos. Atualmente esse espaço de estudo foi ampliado com a
denominação de Estudos Afro-Caribenhos. Graças à sua gestão foram publicados
os quatro primeiros tomos dos Estudos afro-cubanos (1990) que incluem, nos dois
primeiros, textos avaliativos e reflexivos, nos outros dois, manuais e cadernos de
pais-de-santo. Há um quinto tomo que dá a conhecer os trabalhos de conclusão de
curso mais relevantes defendidos nessa faculdade.
A revista Temas37 também tem proporcionado um espaço muito positivo para
o debate de diversos assuntos, como o racial, abordado mais de uma vez em suas
36 Posteriormente foi publicado um quinto tomo, que inclui trabalhos de conclusão de curso defendidos na
faculdade. Sua última contribuição investigativa e reflexiva é: Rodar el coco: proceso de cambio en la
santería (2002).
37 A revista Temas, dirigida por Rafael Hernández, é sem dúvida o órgão mais relevante que de forma permanente tem tornado possível um debate mais amplo, participativo e diverso sobre os aspectos mais
urgentes confrontados em nossos meios intelectuais.
376
páginas, por exemplo, no número 28, de 2002. São também relevantes as discussões
realizadas nas últimas quintas-feiras de cada mês. A mesa redonda sobre o Partido
Independente de Cor, celebrada em fevereiro desse mesmo ano, expressou o interesse
que existe em setores de nossa população pelo estudo dessa organização política.
Nesse ano, o curso oferecido pela Biblioteca Nacional José Martí foi assistido
por jovens rappers, rastafaris e estudantes ainda não formados de nossa universidade,
além dos já graduados e muitos estrangeiros; todos eles animaram de forma muito
positiva não apenas as aulas, como os diversos debates sobre a questão racial que
tiveram lugar, entre eles, o mencionado seminário ou colóquio sobre o PIC, auspiciado por Cor Cubana (6 e 7 de junho) e a reunião organizada no Museu de Belas
Artes pela revista Contracorrientes (9 de julho) sobre a problemática racial e a arte,
a propósito de una mostra do talentoso artista Díago38.
Também o VIII Festival do Hip-Hop Cubano39 foi um marco adequado,
como os anteriores, para chamar a atenção crítica sobre alguns dos problemas sociais mais atuais de uma boa parte dos jovens negros. Ai foram analisadas as letras
das canções dos rappers, ricas em críticas construtivas, reflexivas, violentas ou agressivas, de acordo com o estilo que cada intérprete adota para formular e apresentar a
denúncia social; no colóquio aí efetuado salientou-se a importância do movimento
hip-hop, e particularmente dos rappers, por assumirem a defesa do direito à diferença, por contribuírem de maneira relevante à elevação da auto-estima de muitas
mulheres e muitos homens negros, por serem portadores de uma cultura, de uma
estética que, por não corresponder aos códigos eurocêntricos, tem sido considerada
exótica, danosa à concepção que se tem do que deve ser a cultura dominante e representativa do que é cubano.
Apesar das críticas, empecilhos e contratempos em seu caminho, o movimento hip-hop continua forte em seus postulados originais de crítica social; apesar do
mercado interno e externo, sempre haverá rappers que saberão de modo inteligente
manter-se fiéis às suas essências básicas, embora por razões econômicas cultivem
um rap puramente trivial, erótico, sensual, dançante, sem elementos reflexivos. Mas
o rap anunciador, detector e acusador das desigualdades sociais que na atualidade
38 Roberto Diago, um dos jovens artistas plásticos mais importantes do momento, com obras de alta cotação
no mercado internacional, foi aluno do curso de verão sobre o negro na bibliografia cubana em 2002. Sua
exposição deu lugar a um encontro reflexivo no Museu Nacional de Belas Artes. Despertou atenção o
desenfado, a honestidade e o nível de participação dos participantes desse debate.
39 Na oitava edição desse evento, a oficina teórica que sempre é organizada contou com a participação de
María Teresa Linares, musicóloga, de Helio Orovio, uma das figuras de maior conhecimento sobre a música popular cubana, juntamente com Leonardo Acosta, entre outros. Eles integraram painéis ou ditaram
conferências que enriqueceram o debate. A existência do movimento hip-hop e seus festivais têm contribuído para uma maior conscientização da problemática cultural e racial do negro.
377
sofrem as juventudes negras e brancas marginalizadas nas sociedades dos países do
primeiro mundo, tanto como nos países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, seguirá vivo enquanto nas sociedades nas quais é cultivado não aconteçam
transformações sociais, econômicas e humanísticas profundas, despojadas dos códigos negativos do racismo, do preconceito e da discriminação, não apenas racial.
Em 2003, o Centro de Altos Estudos da Universidade de Havana40 e a Fundação Fernando Ortiz, organizaram um amplo e profundo seminário sobre a marginalidade, que foi dirigido pelos doutores Carmen Barcia e Eduardo Torres Cuevas.
Nele as figuras mais destacadas das ciências sociais e das humanidades, jovens e não
tão jovens, participaram de painéis que a cada semana abordaram a marginalidade
do ponto de vista de todos os campos do conhecimento e da vida social. A problemática racial mereceu duas sessões, mas também esteve presente em várias das diversas temáticas abordadas: a marginalidade no cinema, na literatura, na lingüística,
nos gêneros, na orientação sexual, na religiosidade afro-cubana, nas classes sociais,
na educação.
Em 2004, a Sociedade da Cultura Yoruba41 em Cuba abriu as portas ao debate de sua religiosidade. O que se viu, pelas mesas redondas e conferências organizadas sobre aspectos particulares e gerais da santería e de outras crenças populares,
é que as problemáticas racial e de gênero estão muito vinculadas com as sociais,
as culturais e as religiosas que se manifestam em toda a sociedade, e em particular
no seio das culturas afro-cubanas. Não há dúvida de que a referida Sociedade está
destinada a desempenhar um papel mais dinâmico e influenciador no setor social
com o qual trabalha.
Conclusões
O saldo final de todos esses espaços e de suas atividades tem sido altamente
positivo; há quinze anos era impensável a discussão aberta, pública, sobre tais assuntos, e tampouco a existência dos locais mencionados nos quais foi possível realizar
ações reflexivas sobre o problema racial e difundir uma parte da história de Cuba
que não era muito conhecida.
40 O seminário teve uma inesperada repercussão entre os jovens, estudantes, professores e pesquisadores.
Cada sessão contou em geral com mais de cem participantes ativos, que interagiam com os expositores,
provocando um debate sumamente dinâmico e construtivo. Em algumas ocasiões foi preciso suspender a
oficina. As sessões costumavam ir das 9 às 12 da manhã, mas muitas vezes o debate estendeu-se até as
duas da tarde. Espera-se que os textos dos palestrantes sejam publicados em forma de livro.
41 Depois de uma boa espera, parece que esta sociedade continuará com os ciclos de palestras e ampliará
a referida programação com cursos livres sobre os diferentes aspectos da cultura ioruba em particular e
outros temas vinculados com a tradição e a religiosidade popular afro-cubana.
378
É claro que tudo o que mencionamos anteriormente contribuiu em boa parte para um maior conhecimento e conscientização de tais problemas em muitas
pessoas afastadas da academia e seus processos docentes. É necessário que o pensamento martiano, que invoca a não deixar de dizer que em nada o negro é inferior
ao branco, seja mais divulgado e conhecido, sobretudo por aqueles que pensam que
não falar do problema racial, mas deixar tudo para a educação e o tempo, é a melhor
maneira de combatê-lo. Oficialmente deve-se fazer tudo o que for possível para que
o pensamento de Maceo, de nada pedir como negro, tudo como cubano, ganhe e
tenha cada vez mais vigência. E isso só pode ser obtido com uma estrita política de
igualdade racial. Não se pode passar por alto a importância dos rappers neste ponto,
ao expandir a crítica social a setores não muito conhecedores de certos aspectos da
realidade cubana.
Já existe um consenso quanto à urgência de buscar soluções concretas como
um modo de intensificar a luta contra os elementos reprodutores dos preconceitos
e do racismo no âmbito social e individual, que conduzem involuntariamente, ou
não, na maior parte das vezes, à realização de atos discriminatórios. É claro que a
conveniência das ações afirmativas como um meio para essa luta vem sendo mais de
uma vez mencionada entre nós há muito tempo. Mas essa opção não tem contado
com a simpatia dos que podem decidir seu emprego, e traçar uma política concreta
para lutar contra o racismo, os preconceitos e a discriminação racial.
Considera-se que tais ações seriam mais prejudiciais do que benéficas, levando em conta que em Cuba oficialmente não se estimula a existência do racismo; que
todos os centros de ensino e de trabalho estão abertos para todos os cidadãos do
país; e que o que se requer é a qualificação profissional e técnica requisitada.
Pelo contrário, a prática reflete que, apesar dessa vontade, há um problema
objetivo para que seja conseguida uma representatividade racial de acordo com a
porcentagem total da população negra. Portanto, é urgente trabalhar mais na comunidade, a partir do bairro, da província, até alcançar todo o país.
Os planos de formação dos trabalhadores sociais, dos instrutores de arte, entre outros, são passos muito positivos para começar a detectar ainda mais e enfrentar os problemas sociais que afligem nossa sociedade, entre os quais, o preconceito
racial e suas seqüelas – os mais necessários e importantes para serem atacados, mas
difíceis de serem combatidos, por estarem o racismo e o preconceito tão profundamente enraizados, disfarçados de tradição, de costumes, o que não permite ver a
origem racista de muitas dessas manifestações. É preciso ter presente a conveniência
de adequar e mudar os planos de estudo com os quais são formados os cidadãos,
379
desde o ensino primário até o superior, como um modo objetivo de dar a conhecer
as culturas e histórias dos povos que contribuíram para nossa formação e identidade
nacional em igualdade de condições, mas prestando especial atenção às que foram
marginalizadas ou superficialmente mostradas como conseqüência da visão eurocêntrica da cultura e da educação na qual fomos formados.
A história e a experiência da luta do negro em Cuba torna patente que embora tenha sido muito saudável a existência de um debate, de uma análise do problema racial, a discussão por si só não resolve o problema. É preciso adotar medidas
objetivas, a curto e longo prazo, porque as mudanças ideológicas, as idéias e critérios
não são fáceis de transformar, requerem tempo. As tradições e preconceitos de séculos não podem ser abolidos por decreto.
A educação é um bom meio para essa luta; pelo menos assim tem sido considerado por todos os que viram nela uma forma sólida e eficaz de combater o racismo. Mas para que seja efetiva, a educação necessita de um contexto, que retroalimente e estimule a luta contra os preconceitos raciais. Nesse contexto têm que estar
trabalhando ativamente o Estado, o Governo, as organizações sociais (femininas,
juvenis, de trabalhadores, profissionais, recreativas), políticas, os meios de comunicação de massa e todas as instituições culturais.
As lutas ou movimentos existentes em prol dos direitos dos negros ou de
outros grupos historicamente marginalizados devem levar em conta o contexto específico particular de cada um para obter plenamente os resultados desejados. E
estes só serão atingíveis depois do necessário longo processo que se deve atravessar,
o qual tomará mais ou menos tempo, na medida em que na luta contra o racismo
se consiga esse contexto positivo. É possível que em alguns países esse processo já
tenha sido iniciado. Trabalhemos, pois, para que em todos os lugares onde haja problemas raciais, a luta se consolide e avance para evitar a imposição de uma cultura
e de uma economia hegemônica globalizadora, alheias aos interesses particulares de
nossos povos.
A presença, ainda hoje, das manifestações racistas no âmbito individual e
social entre nós, em Cuba, não é o resultado de uma política encaminhada a estimular tais males, mas da ausência de medidas que deveriam ter sido tomadas para
evitar a reprodução e expansão desses fenômenos. Essa conquista só será possível
mediante um desenvolvimento sócio-econômico sustentado que facilite o acesso a
uma qualidade de vida superior para a maioria dos que até o presente têm estado
à margem dessas possibilidades. Parte desse desenvolvimento pode estar garantido
se forem aplicadas as medidas que buscam romper as barreiras preconceituosas e
380
discriminatórias que nem sempre são reconhecidas como tal, ao serem vistas como
fatos e ações tradicionais.
As ações afirmativas podem ajudar e beneficiar objetivamente essa retroalimentação tão necessária para o avanço do objetivo de melhorar a situação social,
individual e coletiva, dos setores historicamente marginalizados em nossa sociedade.
Não há no continente latino-americano um país que tenha como Cuba as condições mais objetivas para dar o salto qualitativo que necessitamos, para materializar o
objetivo anterior, e que ao mesmo tempo seja um exemplo a ser seguido em outras
latitudes.
Não se pode passar por alto que a luta contra o racismo e suas seqüelas não
pode ser levada a cabo com êxito em um tempo breve, mas sim que é algo que levará mais anos do que os que nós podemos viver, mas sempre menos do que já durou.
Por isso, há que exigir que os organismos internacionais que têm que ver diretamente com esta luta devam estimular ainda mais a criação de uma infra-estrutura
realmente executiva em cada país, para ajudar de maneira mais objetiva e eficiente
essa luta. Deve-se aprender das deficiências, dos erros cometidos, impossíveis de
serem evitados no início de todo processo social complexo e revolucionário como
foi o experimentado em Cuba. Só assim poderemos alcançar o êxito em todos os
lugares onde for travada a luta contra o racismo.
381
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Sobre autores e autoras
André Augusto Brandão: Graduado em Ciências Sociais e Mestre em Sociologia pela pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Doutor em Ciências Sociais
pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É professor do Departamento de
Serviço Social da Universidade Federal Fluminense e autor de Miséria da Periferia:
desigualdades raciais e pobreza na metrópole do Rio de Janeiro (Editora Pallas, 2003).
André Ricardo Nunes Martins: Jornalista, Professor, Mestre em Comunicação e
Doutor em Lingüística pela Universidade de Brasília.
Carlos Alberto Medeiros: Bacharel em Comunicação e Editoração pela Escola de
Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal Fluminense. Dissertação: Legislação e
Relações Raciais, Brasil – Estados Unidos, 1950-2003.
Carlos Moore Wedderburn: Etnólogo e Historiador. Doutor em Etnologia e Doutor em Ciências Humanas pela Universidade de Paris VII (França). Especialista em
Relações Raciais (África, América Latina, Caribe, Pacífico). Ex-Consultor Pessoal
do Secretário Geral da União Africana (UA), Dr. Edem Kodjo (1982-1983). Chefe
de Pesquisas na Escola para Estudos de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade
do Caribe (UWI), Kingston, Jamaica.
Eliane Cavalleiro: Doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. É Coordenadora-Geral de Diversidade e Inclusão Educacional da
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC).
Flavia Piovesan: Professora Doutora em Direito Constitucional e Direitos Humanos da PUC/SP, Professora de Direitos Humanos dos Programas de Pós-Graduação da PUC/SP, da PUC/PR e da Universidade Pablo Olavide (Espanha), visiting
fellow do Human Rights Program da Harvard Law School (1995 e 2000), Procuradora do Estado de São Paulo, membro do Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana e membro da SUR – Human Rights University Network.
Iolanda de Oliveira: Graduada em Pedagogia e Mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutora em Psicologia pela Universidade São
387
Paulo. É professora da Faculdade de Educação da UFF, Coordenadora do Programa
de Educação Sobre o Negro na Sociedade Brasileira (PENESB), e autora do livro
Desigualdades raciais na escola (Editora Contexto, 2000).
Joaquim B. Barbosa Gomes: Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Doutor em Direito Público pela Universidade de Paris II (Panthéon-Assas), França, e
Professor licenciado da Faculdade de Direito da UERJ.
Luciana Jaccoud: Socióloga e Cientista Política pela Universidade de Brasília, Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (CMS -PIMES) e
Doutora em Sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS
- Paris). É pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
Maria Aparecida S. Bento: Doutora em Psicologia Social pela Universidade de
São Paulo (USP) e Coordenadora-Executiva do Centro de Estudos das Relações
de Trabalho e Desigualdades (CEERT)
Mário Theodoro: Economista pela Universidade de Brasília (UnB), Mestre em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Pernambuco (CME-PIMES) e
Doutor em Ciências Econômicas pela Universidade Paris I - Sorbonne. É Consultor Legislativo do Senado Federal, Professor da Universidade Católica de Brasília e
pesquisador associado do Mestrado em Política Social da UnB.
Mónica Gisella Carrillo Zegarra: Comunicadora Social, Faculdade de Letras e
Ciências Humanas da Universidade Nacional Mayor de San Marcos (Peru). Especialização em Direito Internacional dos Direitos Humanos com menção em Direito
das Minorias e Povos Indígenas. Universidade de Oxford, Inglaterra, e Universidade George Washington, Estados Unidos. Diretora do LUNDU, Centro de Estudos
e Promoção Afroperuano.
Nilma Lino Gomes: Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São
Paulo. Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG). Coordenadora do Programa de Ações Afirmativas da UFMG.
Presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN).
Renato Emerson dos Santos: Professor de Geografia da UERJ (Faculdade de
Formação de Professores, Campus São Gonçalo), é formado em Geografia pela
UFRJ, onde fez mestrado em Planejamento Urbano. Atualmente, está concluindo
o doutorado em Geografia, e coordena, junto ao Laboratório de Políticas Públicas
388
(LPP/UERJ), o Programa Políticas da Cor na Educação Brasileira (PPCOR). Foi,
entre 1996 e 2002, professor de Geografia, membro da coordenação e coordenador
da disciplina Cultura e Cidadania do Pré-Vestibular Comunitário da Rocinha, e, em
1998 e 2000, professor de Geografia do Pré-vestibular para Negros e Carentes da
Tijuca. Continua militando pelo Pré-Vestibular para Negros e Carentes.
Ricardo Henriques: Secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) do Ministério da Educação (MEC), é doutorando em Economia pela
Université Paris X -Nanterre e Professor licenciado da Universidade Federal Fluminense. Entre seus diversos trabalhos publicados na área de economia social, destaca-se
o livro Raça e Gênero no Sistema de Ensino, publicado pela UNESCO em 2002.
Ronaldo Jorge A. Vieira Júnior: Graduado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mestre em Direito e Estado pela Universidade de
Brasília (UnB). Consultor Legislativo do Senado Federal na área do Direito Constitucional. Integra o Grupo de estudos e pesquisas “O Direito e as Ações Afirmativas: direitos humanos na diversidade” vinculado à Faculdade de Direito da UnB.
Sales Augusto dos Santos: Sociólogo. Doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UnB. É
co-autor de A Cor do Medo. Homicídio e relações raciais no Brasil (1998).
Tomás Fernández Robaina: Pesquisador e Professor Titular da Biblioteca Nacional José Martí, Havana, Cuba.
Valter Roberto Silvério: Sociólogo, Doutor em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNiCAmP), Professor adjunto do Departamento de Ciências
Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e integrante da coordenação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFSCar. Tem se dedicado ao
estudo das relações étnico-raciais, em especial, entre negros e brancos no Brasil e na
diáspora africana no Novo Mundo. Além de vários artigos em livros e periódicos,
organizou “De preto a afro-descendente: trajetos de pesquisa sobre relações étnico-raciais no Brasil”, publicado pela EDUFScar, Educação e Ações Afirmativas:
entre a injustiça simbólica e a injustiça econômica, publicado pelo INEP/MEC e
o Dossiê Relações Raciais da Revista Teoria e Pesquisa no 42 e 43 do Programa de
Pós-Graduação e Departamento de Ciências Sociais da UFSCar.
389
Coleção Educação para Todos
Volume 01: Educação de Jovens e Adultos: uma memória contemporânea, 1996-2004
Volume 02: Educação Anti-Racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/03
Volume 03: Construção Coletiva: contribuições à educação de jovens e adultos
Volume 04: Educação Popular na América Latina: diálogos e perspectivas
Volume 05: Ações Afirmativas e Combate ao Racismo nas Américas
Volume 06: História da Educação do Negro e Outras Histórias
Volume 07: Educação como Exercício de Diversidade
Volume 08: Formação de Professores Indígenas: repensando trajetórias
Volume 09: Dimensões da Inclusão no Ensino Médio: mercado de trabalho, religiosidade
e educação quilombola
Volume 10: Olhares Feministas
Volume 11: Trajetória e Políticas para o Ensino das Artes no Brasil: anais da XV
CONFAEB
Volume 12: O Índio Brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no
Brasil de hoje. Série Vias dos Saberes n. 1
Volume 13: A Presença Indígena na Formação do Brasil. Série Vias dos Saberes n. 2
Volume 14: Povos Indígenas e a Lei dos “Brancos”: o direito à diferença. Série Vias dos
Saberes n. 3
Volume 15: Manual de Lingüística: subsídios para a formação de professores indígenas na
área de linguagem. Série Vias dos Saberes n. 4
Volume 16: Juventude e Contemporaneidade
Volume 17: Católicos Radicais no Brasil
Volume 18: Brasil Alfabetizado: caminhos da avaliação. Série Avaliação n. 1
Volume 19: Brasil Alfabetizado: a experiência de campo de 2004. Série Avaliação n. 2
Volume 20: Brasil Alfabetizado: marco referencial para avaliação cognitiva. Série Avaliação n. 3
Volume 21: Brasil Alfabetizado: como entrevistamos em 2006. Série Avaliação n. 4
Volume 22: Brasil Alfabetizado: experiências de avaliação dos parceiros. Série Avaliação n. 5
Volume 23: O que fazem as escolas que dizem que fazem Educação Ambiental? Série
Avaliação n. 6
Volume 24: Diversidade na Educação: experiências de formação continuada de professores.
Série Avaliação n. 7
390
Volume 25: Diversidade na Educação: como indicar as diferenças? Série Avaliação n. 8
Volume 26: Pensar o Ambiente: bases filosóficas para a Educação Ambiental
Volume 27: Juventudes: outros olhares sobre a diversidade
Volume 28: Educação na Diversidade: experiências e desafios na educação intercultural
bilíngüe
Volume 29: O Programa Diversidade na Universidade e a Construção de uma Política
Educacional Anti-Racista
Volume 30: Acesso e Permanência da População Negra no Ensino Superior
Volume 31: Escola que Protege: enfrentando a violência contra crianças e adolescentes
391
Este livro foi
composto em Adobe
Caslon Pro e Helvética
para o MEC/Bid/
Unesco pela Editora
Publisher Brasil em
2007.
392
direção, a compreensão e o respeito pelo
diferente e pela diversidade são dimensões
fundamentais do processo educativo.
Quinto Volume da Coleção Educação
para Todos, esta obra dá continuidade
ao trabalho da Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização e Diversidade
(Secad) de promover esforços concretos
de combate ao racismo na educação brasileira e de subsidiar professores e professoras com informações e conhecimentos
estratégicos para o enfrentamento dessa
tarefa.
A organização do texto ficou a cargo
do sociólogo Sales Augusto dos Santos,
e os artigos são de autoria de André A.
Brandão, André Ricardo Nunes Martins,
Carlos Alberto Medeiros, Carlos Moore Wedderburn, Eliane Cavalleiro, Flavia
Piovesan, Iolanda de Oliveira, Joaquim B.
Barbosa Gomes, Luciana Jaccoud, Maria
Aparecida Silva Bento, Mário Theodoro,
Mónica Carrillo Zegarra, Nilma Lino Gomes, Renato Emerson dos Santos, Ricardo Henriques, Ronaldo Jorge A. Vieira Jr.,
Sales Augusto dos Santos, Tomás Fernándes Robaina e Valter Roberto Silvério.
ISBN 9 7 8-85-60731-10-5
9 788560 731107
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Ações Afirmativas e Combate ao Racismo nas Américas