ISSN 1415-2762
E
Revista Mineira de Enfermagem
Nursing Journal of Minas Gerais
Revista de Enfermería de Minas Gerais
v o l u m e
1 5
.
n ú m e r o
4
.
o u t
/
d e z
d e
2 0 1 1
EDITORA GERAL
Adelaide De Mattia Rocha
Universidade Federal de Minas Gerais
DIRETOR EXECUTIVO
Lúcio José Vieira
Universidade Federal de Minas Gerais
EDITORES ASSOCIADOS
Andréa Gazzinelli C. Oliveira
Universidade Federal de Minas Gerais
Edna Maria Rezende
Universidade Federal de Minas Gerais
Francisco Carlos Félix Lana
Universidade Federal de Minas Gerais
Jorge Gustavo Velásquez Meléndez
Universidade Federal de Minas Gerais
Marília Alves
Universidade Federal de Minas Gerais
Roseni Rosângela de Sena
Universidade Federal de Minas Gerais
Tânia Couto Machado Chianca
Universidade Federal de Minas Gerais
CONSELHO EDITORIAL
Adriana Cristina de Oliveira
Universidade Federal de Minas Gerais
Alacoque Lorenzini Erdmann
Universidade Federal de Santa Catarina
Alba Lúcia Bottura Leite de Barros
Universidade Federal de São Paulo – SP
Aline Cristine Souza Lopes
Universidade Federal de Minas Gerais
André Petitat
Université de Lausanne – Suiça
Anézia Moreira Faria Madeira
Universidade Federal de Minas Gerais
Carmen Gracinda Scochi
Universidade de São Paulo – RP
Cláudia Maria de Mattos Penna
Universidade Federal de Minas Gerais
Cristina Maria Douat Loyola
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Daclê Vilma Carvalho
Universidade Federal de Minas Gerais
Deborah Carvalho Malta
Universidade Federal de Minas Gerais
Elenice Dias Ribeiro Paula Lima
Universidade Federal de Minas Gerais
Emília Campos de Carvalho
Universidade de São Paulo – RP
Flávia Márcia Oliveira
Centro Universitário do Leste de Minas Gerais
Goolan Houssein Rassool
University Of London – Inglaterra
Helmut Kloos
Universit of Califórnia, San Fransico – USA
remE
Revista Mineira de Enfermagem
Isabel Amélia Costa Mendes
Universidade de São Paulo – RP
José Vitor da Silva
Universidade do Vale do Sapucaí
Lídia Aparecida Rossi
Universidade de São Paulo – RP
Luiza Akiko komura Hoga
Universidade de São Paulo – RP
Magali Roseira Boemer
Universidade de São Paulo – RP
Márcia Maria Fontão Zago
Universidade de São Paulo – RP
Marga Simon Coler
University of Connecticut – USA
Maria Ambrosina Cardoso Maia
Faculdade de Enfermagem de Passos – FAENPA
María Consuelo Castrillón
Universidade de Antioquia – Colombia
Maria Flávia Gazzinelli
Universidade Federal de Minas Gerais
Maria Gaby Rivero Gutierrez
Universidade de São Paulo – SP
Maria Helena Larcher Caliri
Universidade de São Paulo – SP
Maria Helena Palucci Marziale
Universidade de São Paulo – RP
Maria Imaculada de Fátima Freitas
Universidade Federal de Minas Gerais
Maria Itayra Coelho de Souza Padilha
Universidade Federal de Santa Catarina
Maria José Menezes Brito
Universidade Federal de Minas Gerais
Maria Lúcia Zanetti
Universidade de São Paulo – RP
Maria Miriam Lima da Nóbrega
Universidade Federal de Paraíba
Raquel Rapone Gaidzinski
Universidade de São Paulo – SP
Regina Aparecida Garcia de Lima
Universidade de São Paulo – RP
Rosalina Aparecida Partezani Rodrigues
Universidade de São Paulo – RP
Rosângela Maria Greco
Universidade Federal de Juiz de Fora
Silvana Martins Mishima
Universidade de São Paulo – RP
Sônia Maria Soares
Universidade Federal de Minas Gerais
Vanda Elisa Andrés Felli
Universidade Federal de São Paulo – SP
REME – REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM
Publicação da Escola de Enfermagem da UFMG
Em parceria com:
Escola de Enfermagem Wenceslau Braz – MG
Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia da Fundação de Ensino Superior de Passos – MG
Universidade do Vale do Sapucaí – MG
Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – MG
Universidade Federal de Juiz de Fora – MG
CONSELHO DELIBERATIVO
Maria Imaculada de Fátima Freitas – Presidente
Universidade Federal de Minas Gerais
Girlene Alves da Silva
Universidade Federal de Juiz de Fora
Lucyla Junqueira Carneiro
Escola de Enfermagem Wenceslau Braz
Tânia Maria Delfraro Carmo
Fundação de Ensino Superior de Passos
Rosa Maria Nascimento
Fundação de Ensino Superior do Vale do Sapucaí
Sandra Maria Coelho Diniz Margon
Centro Universitário do Leste de Minas Gerais
Indexada em:
BDENF – Base de Dados em Enfermagem / BIREME-OPAS/OMS
CINAHL – Cumulative Index Nursing Allied Health Literature
CUIDEN – Base de Datos de Enfermería en Espanhol
LATINDEX – Fundación Index
LILACS – Centro Latino Americano e do Caribe de Informações em Ciências da Saúde
REV@ENF – Portal de Revistas de Enfermagem – Metodologia SciELO/Bireme - OPAS/OMS
LATINDEX - Sistema Regional de Información en Linea para Revistas Científicas de América Latina, el Caribe, Espanã y Portugal
Formato eletrônico disponível em:
www.enfermagem.ufmg.br
www.periodicos.capes.ufmg.br
Projeto Gráfico, Produção e Editoração Eletrônica
Brígida Campbell
Iara Veloso
CEDECOM – Centro de Comunicação da UFMG
Editoração
Saitec Editoração (Eduardo Queiroz)
Impressão
Editora e Gráfica O Lutador
Secretaria Geral
Mariene Luiza Lopes Pereira – Secretária
Escola de Enfermagem
Universidade Federal de Minas Gerais
Revista Mineira de Enfermagem – Av. Alfredo Balena, 190 –
Sala 104, Bloco Norte – Belo Horizonte - MG
Brasil – CEP: 30130-100
Telefax: (31) 3409-9876
E-mail: reme@enf.ufmg.br/reme@enfermagem.ufmg.br
Assinatura
Secretaria Geral – Telefax: (31) 3409 9876
E-mail: reme@enf.ufmg.br/reme@enfermagem.ufmg.br
Normalização Bibliográfica
Jordana Rabelo Soares CRB/6-2245
Revisão de texto
Maria de Lourdes Costa de Queiroz (Português)
Mônica Ybarra (Espanhol)
Mariana Ybarra (Inglês)
Revista filiada à ABEC – Associação Brasileira de Editores
Cientíicos
Periodicidade: trimestral – Tiragem: 1.000 exemplares
REME – Revista Mineira de Enfermagem da Escola de Enfermagem
da Universidade Federal de Minas Gerais. - v.1, n.1, jul./dez. 1997.
Belo Horizonte: Coopmed, 1997.
Semestral, v.1, n.1, jul./dez. 1997/ v.7, n.2, jul./dez. 2003.
Trimestral, v.8, n.1, jan./mar. 2004 sob a responsabilidade Editorial
da Escola de Enfermagem da UFMG.
ISSN 1415-2762
1. Enfermagem – Periódicos. 2. Ciências da Saúde – Periódicos.
I. Universidade Federal de Minas Gerias. Escola de Enfermagem.
NLM: WY 100
CDU: 616-83
Errata
No artigo publicado na REME v. 15 n. 3, de 2011, intitulado "A PESQUISA EM HISTÓRIA DA ENFERMAGEM: REVISÃO DE
PUBLICAÇÕES DE 2000-2008", o correto na ordem do nome das autoras é Yanna Mara Mol Cunha como a responsável
e Virgínia Mascarenhas Nascimento Teixeira como a segunda autora.
Sumário
473
Editorial
475
Pesquisa
475
AVALIAÇÃO DO PROGRAMA DE TRIAGEM NEONATAL PARA HIPOTIREOIDISMO CONGÊNITO EM SÃO JOSÉ
DO RIO PRETO – SP, BRASIL / EVALUATION OF THE NEONATAL SCREENING FOR CONGENITAL HYPOTHYROIDISM
IN THE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO-SP, BRAZIL / EVALUACIÓN DEL PROGRAMA DE TAMIZAJE NEONATAL PARA
HIPOTIROIDISMO CONGÉNITO EN SÃO JOSE DO RIO PRETO-SP, BRASIL
Milene Ribeiro
Raphael Del Roio Liberatore Jr.
481
AIDPI: CONHECIMENTO DOS ENFERMEIROS DA ATENÇÃO BÁSICA DO MUNICÍPIO DE ARACAJU-SE / AIDPI:
NURSES’ KNOWLEDGE OF PRIMARY CARE IN THE CITY OF ARACAJU-SE / AIDPI: EL CONOCIMIENTO DE LOS
ENFERMEROS DE LA ATENCIÓN BASICA DEL MUNICIPIO DE ARACAJU-SE
Manuella Silva Leite
Aglaé da Silva Araújo Andrade
Lígia Maria Dolce de Lima
491
A VIVÊNCIA DOS PAIS DE UMA CRIANÇA COM MALFORMAÇÕES CONGÊNITAS / THE EXISTENCE OF THE
PARENTS OF A CHILD WITH CONGENITAL MALFORMATION / LA VIVENCIA DE LOS PADRES DE UN NIÑO CON MALA
FORMACIONES CONGÉNITAS
Shirley Ribeiro dos Santos
Iêda Maria Ávila Vargas Dias
Anna Maria de Oliveira Salimena
Vânia Maria Freitas Bara
498
PERCEPÇÃO MATERNA ACERCA DO DISTÚRBIO NUTRICIONAL DO FILHO: UM ESTUDO COMPREENSIVO
/ MATERNAL PERCEPTIONS ABOUT THE NUTRITIONAL DISORDER OF THE CHILD: A COMPREHENSIVE STUDY /
PERCEPCIÓN MATERNA SOBRE EL DISTURBIO NUTRICIONAL DEL HIJO: UN ESTUDIO COMPRENSIVO
Débora Arreguy Silva
Gisele Nepomuceno de Andrade
Fabrícia Marques Ribeiro Ferreira
Elffie de Andrade
Anézia Moreira Faria Madeira
504
CARACTERÍSTICAS DOS ABORTAMENTOS DE MULHERES ATENDIDAS EM UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR
FILANTRÓPICA DE CARATINGA/MG / ABORTION CHARACTERISTICS FORWOMEN ATTENDED IN A PHILANTHROPIC
HOSPITAL INSTITUTION IN CARATINGA/MG / CARACTERÍSTICAS DE LOS ABORTAMIENTOS DE MUJERES ATENDIDAS
EN UMA INSTITUICIÓN HOSPITALAR FILANTRÓPICA DE CARATINGA/MG
Selisvane Ribeiro da Fonseca Domingos
Miriam Aparecida Barbosa Merighi
Ester Correa Rodrigues de Faria
Leidiane Maria Gomes Ferreira
513
ENFERMAGEM: HISTÓRIA E MEMÓRIAS DA CONSTRUÇÃO DE UMA PROFISSÃO / NURSING: HISTORY AND
MEMORIES OFTHE CONSTRUCTION OF A PROFESSION / ENFERMERÍA: HISTORIAY MEMORIAS DE LA CONSTRUCCIÓN
DE UNA PROFESIÓN
Djailson José Delgado Carlos
Raimunda Medeiros Germano
522
EXTRAVASAMENTO DE DROGAS ANTINEOPLÁSICAS: AVALIAÇÃO DO CONHECIMENTO DA EQUIPE DE
ENFERMAGEM / EXTRAVASATION OF ANTINEOPLASTIC DRUGS: ASSESSMENT OF THE NURSING TEAM
KNOWLEDGE / EXTRAVASACIÓN DE DROGAS ANTINEOPLÁSICAS: EVALUACIÓN DEL CONOCIMIENTO DEL EQUIPO
DE ENFERMERÍA
Franciane Schneider
Edivane Pedrolo
530
SISTEMA DE INFORMAÇÃO DOS CENTROS DE TESTAGEM E ACONSELHAMENTO: DIFICULDADES,
DIVERGÊNCIAS E PADRONIZAÇÃO NO PREENCHIMENTO / INFORMATION SYSTEM OFTESTING AND COUNSELING
CENTERS: DIFFICULTIES, DIVERGENCES AND STANDARDIZATION / SISTEMA DE INFORMACIÓN DE LOS CENTROS DE
TEST Y CONSEJO: DIFICULTADES, DIVERGENCIAS Y ESTANDARIZACIÓN EN EL RELLENO
Vânia de Souza
Joice Silva Rodrigues Cardoso
Juliana Dias Paes Nahass
539
O ENSINO DA ENFERMAGEM PSIQUIÁTRICA E SAÚDE MENTAL NO CURRICULO POR COMPETÊNCIAS / THE
TEACHING OF PSYCHIATRIC NURSING AND MENTAL HEALTH INTHE CURRICULUM BY COMPETENCE / LA ENSEÑANZA
DE LA ENFERMERIA PSIQUIÁTRICA Y SALUD MENTAL EN EL CURÍCULO PARA LAS COMPETENCIAS
Antonio Carlos Siqueira Júnior
Márcia Ap. Padovan Otani
546
UM OLHAR DAS ADOLESCENTES SOBRE AS MUDANÇAS NA GRAVIDEZ: PROMOVENDO À SAÚDE MENTAL NA
ATENÇÃO BÁSICA / ONE TO LOOK AT OF THE ADOLESCENTS ON THE CHANGES IN THE PREGNANCY: PROMOTING
THE MENTAL HEALTH IN THE BASIC ATTENTION / UNO PARA MIRAR DE LOS ADOLESCENTES EN LOS CAMBIOS EN
EL EMBARAZO: EL PROMOVER A LA SALUD MENTAL EN LA ATENCIÓN BÁSICA
Aline Alves
Andreza Teresa Albino
Maria de Fátima Mota Zampieri
556
GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: CONHECENDO A EXPERIÊNCIA DA FAMÍLIA / TEENAGE PREGNANCY: KNOWING
THE FAMILY’S EXPERIENCE / EMBARAZO EN LA ADOLESCENCIA: CONOCER LA EXPERIENCIA DE LA FAMILIA
Michele Guerreiro Valila
Nádia Alessandra Moraes
Natália Nacca Dalbello
Sheila de Souza Vieira
Maria Isabel Ruiz Beretta
Giselle Dupas
567
RELACIONAMENTOS AFETIVOS NO COTIDIANO DO ADOLESCENTE PORTADOR DO HIV: DES-VELANDO SEUS
SIGNIFICADOS / AFFECTIVE RELATIONSHIPS IN THE EVERYDAY ADOLESCENT HIV: DES-ENSURING THEIR MEANINGS
/ RELACIONES AFECTIVAS EN LA VIDA COTIDIANA ADOLESCENTE VIH: DES-ASEGURAR SUS SIGNIFICADOS
Zuleyce Maria Lessa Pacheco
Elisabete Pimenta Araújo Paz
Girlene Alves da Silva
573
OFICINA SOBRE SEXUALIDADE NA ADOLESCÊNCIA: UMA EXPERIÊNCIA DA EQUIPE SAÚDE DA FAMÍLIA COM
ADOLESCENTES DO ENSINO MÉDIO / WORKSHOP ON SEXUALITY IN THE ADOLESCENCE: AN EXPERIENCE OF THE
TEAM HEALTH OF THE FAMILY WITH ADOLESCENTS OF AVERAGE EDUCATION / TALLER SOBRE SEXUALIDAD EN
LA ADOLESCENCIA: UNA EXPERIENCIA DE LA SALUD DEL EQUIPO DE LA FAMILIA CON LOS ADOLESCENTES DE LA
EDUCACIÓN MEDIA
Christine Baccarat de Godoy Martins
Lilian Ortega Ferreira
Paula Renata Miranda dos Santos
Mara Wanderbil Lopes Sobrinho
Maria Clara Vieira Weiss
Solange Pires Salomé Souza
579
Revisão teórica
579
GRAVIDEZ DEPOIS DOS 35 ANOS: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA / PREGNANCY AFTER 35: A
SYSTEMATIC REVIEW OF THE LITERATURE / EL EMBARAZO DESPUÉS DE LOS 35: UNA REVISIÓN SISTEMÁTICA DE LA
LITERATURA
Laíse Conceição Caetano
Luciana Netto
Juliana Natália de Lima Manduca
588
FAMILIARES CUIDADORES E A TERMINALIDADE: TENDÊNCIA DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA NA ÁREA DE SAÚDE
/ FAMILY CAREGIVERS AND END-OF-LIFE: TENDENCIES OF THE SCIENTIFIC PRODUCTION IN THE HEALTH FIELD /
FAMILIARES CUIDADORES Y LA TERMINALIDAD: TENDENCIAS DE LA PRODUCCIÓN CIENTÍFICA EN EL ÁREA DE LA
SALUD
Stefanie Griebeler Oliveira
Alberto Manuel Quintana
Maria de Lourdes Denardin Budó
Manoela Fonseca Lüdtke
Paula Argemi Cassel
Shana Hastenpflug Wottrich
595
Artigo Reflexivo
595
ESTRATÉGIAS DE IMPLANTAÇÃO DOS CONTROLES AMBIENTAIS PARA PREVENIR A DISSEMINAÇÃO
DA TUBERCULOSE HOSPITALAR / STRATEGIES FOR IMPLEMENTATION OF ENVIRONMENTAL CONTROLS TO
PREVENT THE SPREAD OF TUBERCULOSIS IN HEALTH-CARE SETTINGS / ESTRATEGIAS PARA LA IMPLEMENTACIÓN
DE CONTROLES AMBIENTALES EN LA PREVENCIÓN DE LA PROPAGACIÓN DE LA TUBERCULOSIS EN LOS
ESTABLECIMIENTOS DE SALUD
Vania Regina Goveia
Silma Maria Cunha Pinheiro Ribeiro
Eduardo Alexandrino Sérvolo de Medeiros
Antonio Carlos Campos Pignatari
601
Relato de experiência
601
METODOLOGIAS INOVADORAS NA FORMAÇÃO DE NÍVEL MÉDIO EM SAÚDE / INNOVATIVE METHODOLOGIES
IN HIGH SCHOOL EDUCATION / METODOLOGÍAS INNOVADORAS EN LA FORMACIÓN DE NIVEL MEDIO
Fabíola Carvalho de A. Lima Baroni
Paula Cambraia de Mendonça Vianna
Suelene Coelho
607
A EDUCAÇÃO EM SAÚDE JUNTO AOS ADOLESCENTES PARA A PREVENÇÃO DE DOENÇAS SEXUALMENTE
TRANSMISSÍVEIS / HEALTH EDUCATION AMONG TEENAGENS FOR THE PREVENTION OF SEXUALLY
TRANSMITTED DISEASES / LA EDUCACIÓN EN SALUD CON LOS ADOLESCENTS PARA LA PREVENSIÓN DE
ENFERMEDADES DE TRANSMISIÓN SEXUAL
Kelanne Lima da Silva
Carlos Colares Maia
Fernanda Lima Aragão Dias
Neiva Francenely Cunha Vieira
Patrícia Neyva da Costa Pinheiro
612
A PESQUISA DE CAMPO NA ÁREA DA EPIDEMIOLOGIA DAS DOENÇAS E AGRAVOS NÃO TRANSMISSÍVEIS:
UMA EXPERIÊNCIA EM ÁREA RURAL DA REGIÃO DO VALE DO JEQUITINHONHA, MINAS GERAIS / FIELD
WORK IN EPIDEMIOLOGY OF NON TRANSMISSIBLE DISEASES RESEARCH: AN EXPERIENCE IN A RURAL AREA OF
JEQUITINHONHA VALLEY, MINAS GERAIS / EL ESTUDIO DE CAMPO EN EL ÁMBITO DE LA EPIDEMIOLOGÍA DE
ENFERMEDADES NO TRANSMISIBLES: UNA INVESTIGACIÓN EN LA ÁREA RURAL DE LA REGIÓN DEL VALLE DEL
JEQUITINHONHA, MINAS GERAIS
Paula Gonçalves Bicalho
Gustavo Velásquez Meléndez
Tatiane Géa Horta
Mariana Santos Felisbino Mendes
Andréa Gazzinelli
617
Normas de publicação
619
Publication norms
621
Normas de publicación
Editorial
Em abril de 2011, a revista Nature publicou dois artigos sobre a formação de doutores no mundo. Nos dois artigos –
“The PhD Factory”2 (A fábrica de PhDs) e“Rethinking PhDs”1 (Repensando PhDs) –, discute-se o aumento do número
de doutores nos últimos dez anos em vários países e o impacto desse fato no mercado de trabalho e na ciência.
Nesse contexto, neste editorial, mostram-se alguns pontos importantes mencionados nos dois artigos, incluindo
o Brasil nesse panorama.
A formação de doutores é fundamental para o crescimento científico e tecnológico de um país, assim como para
sua soberania, seu crescimento econômico e social. O desenvolvimento de um país depende de investimento em
conhecimento, e não há produção de conhecimento se não há investimento em pesquisa e inovação. Os países
mais desenvolvidos já têm mecanismos claros de formação e absorção de doutores para os vários níveis da cadeia
produtiva, o que os torna mais competitivos e detentores de tecnologias que outros compram ou copiam. No
entanto, no caso de alguns deles, a formação de doutores chegou a um ponto em que o mercado, principalmente
o acadêmico, não consegue absorvê-los na mesma velocidade em que são formados.
No Brasil, nos últimos vinte anos, ocorreu um crescimento muito rápido do número de doutores, passando de mil
para 11 mil por ano.3 Esse aumento deve e precisa ocorrer continuamente, tanto no Brasil como em outros países,
que vêm se tornando cada vez mais competitivos em ciência, tecnologia e inovação, como China, Índia e Coreia
do Sul. Em vista desse grande investimento na qualificação de profissionais para atingir os mais elevados níveis de
competência, esses países vêm absorvendo parte dos mercados em várias áreas, com consequências importantes
em todos os níveis, criando uma cadeia de transferência de conhecimento fundamental para o seu crescimento.
Por outro lado, é preciso cautela, pois um crescimento ilimitado pode comprometer a qualidade dos programas.
O incentivo à formação de PhDs acarretou, em vários países, um crescimento no que se refere ao número de
doutores. No período de 1998 a 2006, o crescimento anual do número de doutores nos Estados Unidos foi de
2,5%; no Japão, de 6,2%; na Índia, de 8,5%; no México, de 17,1%; e chegando a 40% na China. Entre 1998 e 2008, o
crescimento no Brasil foi de 11,7%, graças às políticas de incentivo do CNPq e da CAPES, que demonstraram uma
continuidade surpreendente ao longo das últimas décadas.3 Apesar desse crescimento importante ocorrido no
Brasil, o número de doutores ainda é pequeno quando comparado ao de outros países da Europa e dos Estados
Unidos. O Brasil possui 1,4 doutor por mil habitantes, enquanto a Suíça, a Alemanha e os Estados Unidos possuem
23, 15,4 e 8,4, respectivamente, por mil habitantes. O número de doutores atualmente no Brasil chega a 132 mil,
o que parece um número elevado, mas, na realidade, não ultrapassa 0,7% da população, comparado à média de
4% em muitos países europeus.3
Esse crescimento de doutores ocorrido em vários países, principalmente nos Estados Unidos, Japão e China, dentre
outros, não foi acompanhado pelo crescimento de oportunidades no mercado de trabalho. É preciso atentar-se para
que o enorme potencial de contribuição desses profissionais altamente qualificados seja inteiramente realizado a
fim de minimizar o sentimento frequente de insatisfação entre eles.
No Brasil, assim como em outros países, os doutores, em sua maioria, são formados para seguir a carreira acadêmica,
reflexo de um sistema ainda tímido no que se refere à formação de recursos humanos direcionados para as
necessidades das empresas e indústrias. Além disso, existe, ainda, o fato de não ser comum aos empreendimentos
privados desenvolver pesquisa. É importante proporcionar oportunidade de emprego em atividades apropriadas,
buscando uma formação que corresponda aos requisitos demandados pelo processo de desenvolvimento da
economia e da sociedade em geral e, em particular, do processo de produção de conhecimento e inovação. Esperase que mudanças ocorram rapidamente para acomodar o crescente número de profissionais qualificados.
O foco atual da formação de um doutor ainda é aprofundar o conhecimento em uma área específica, mas nos dias
de hoje é necessário, também, experiência interdisciplinar e transdisciplinar. A ampliação do escopo da formação
de doutores certamente lhes ampliará as possibilidades de utilização de recursos humanos fora da academia,
contribuindo para ampliar-lhes os conhecimentos e criar maior senso de independência, crucial para que se tornem
investigadores. É necessário, portanto, que, no Brasil, se aprofunde e se consolide o desenvolvimento científico,
bem como se adote uma política de desenvolvimento tecnológico e inovação mais efetiva e agressiva em diversas
áreas estratégicas para o crescimento nacional acelerado.
REFERÊNCIAS
1. Cyranoski, D; Gilbert, N; Ledford, H; Nayar, A; Yahia, M. The PhD factory. Nature, v.472, p. 276-279, 2011.
2. McCook, A. Rethinking PhDs. Nature, v. 472, p. 280-282, 2011.
3. Centro de Gestão e Estudos Estratégicos-MCT. Doutores 2010: estudos da demografia da base técnico-científica brasileira, Brasília, 2010, 443 p.
Andréa Gazzinelli
Professora titular da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
remE – Rev. Min. Enferm.;14(3): 19-24, jul./set., 2010
473
Pesquisas
AVALIAÇÃO DO PROGRAMA DE TRIAGEM NEONATAL PARA
HIPOTIREOIDISMO CONGÊNITO EM SÃO JOSÉ DO RIO PRETOSP, BRASIL
EVALUATION OF THE NEONATAL SCREENING FOR CONGENITAL HYPOTHYROIDISM IN THE
SÃO JOSÉ DO RIO PRETOSP, BRAZIL
EVALUACIÓN DEL PROGRAMA DE TAMIZAJE NEONATAL PARA HIPOTIROIDISMO CONGÉNITO EN
SÃO JOSE DO RIO PRETOSP, BRASIL
Milene Ribeiro1
Raphael Del Roio Liberatore Jr.2
RESUMO
O hipotireoidismo congênito (HC), distúrbio metabólico sistêmico caracterizado pela deficiência da produção de
hormônios tireoideanos, representa uma das causas mais comuns de retardo mental passíveis de tratamento. O objetivo
com esta pesquisa foi avaliar o Programa de Triagem Neonatal em São José do Rio Preto-SP. Os dados de nascimento
foram resgatados dos arquivos de todos os hospitais da cidade e todos os resultados de exames de triagem realizados
entre 2005 e 2007, dos arquivos da APAE-SP. Do total de 17.494 crianças, 51,5% eram do sexo feminino e 48,4%, do
sexo masculino. As coletas foram realizadas acima dos sete dias de vida em 62,5% da amostra. O tempo médio para
recebimento dos resultados foi de 28,2 dias. Da amostra estudada, 14 resultados se mostraram alterados, mas somente 5
diagnósticos foram confirmados (incidência de 1:3499). O programa mostra deficiências importantes quanto ao tempo
de coleta e processamento dos resultados, incidência comparável a outras regiões do Brasil.
Palavras-chave: Hipotireoidismo Congênito; Triagem Neonatal; Recém-Nascido; Planos e Programas de Saúde.
ABSTRACT
Congenital hypothyroidism (CH) is a systemic metabolic disorder characterized by thyroid hormone deficiency at birth
and represents one of the most common causes of mental retardation. This research aimed to evaluate the Neonatal
Screening Program in São Jose do Rio Preto-SP. Births data were collected from the city’s hospital records. Newborn
screening test results from the APAE-SP (Portuguese acronym for Association of Parents and Friends of Mentally Retarded
Children, São Paulo branch) files performed between 2005 and 2007 were also used. 17,494 newborn screening results
were analyzed. 51.5% were from a female and 48.4% male. Samples were collected after the baby was 7 days old in
62.5% of the cases. The average time to receive the results was 28.2 days. In the studied sample, 14 results were altered,
but only five diagnosis were confirmed (incidence rate of 1:3499). Similarly to many of the country’s areas the program
in São José do Rio Preto shows major deficiencies as to blood collection time and results processing.
Key words: Congenital Hypothyroidism; Neonatal Screening; Newborn; Health Programs and Plans.
RESUMEN
El hiportiroidismo congénito (HC), una enfermedad metabolica sistémica que se caracteriza por la deficiencia de
producción de hormonas tiroideas, es una de las causas más comunes de retraso mental que puede ser tratada. El
objeto del presente estudio ha sido evaluar el Programa de Triaje Neonatal en São José do Rio Preto-SP. Los datos de
nacimiento fueram rescatados de los archivos de todos los hospitales de la ciudad y todos los resultados de pruebas
de triaje de los archivos de APAE-SP entre 2005 e 2007. Del total de 17.494 niños, 51,5% eran mujeres y 48,4% varones.
Las muestras fueron recogidas después de los 7 días de vida en 62,5% de los casos. El tiempo medio para recibir los
resultados fue de 28,2 dias. En la muestra estudiada 14 resultados estaban alterados pero sólo cinco fueron diagnósticos
confirmados (incidencia de la 1:3499). El programa muestra deficiencias importantes en lo que se refiere al tiempo de
recogida de las muestras y al procesamiento de los resultados, incidencia comparable a otras regiones del Brasil.
Palabras clave: Hipotiroidismo Congénito; Triaje Neonatal; Recién Nacido, Planes y Programas de Salud.
1
2
Enfermeira com especialização em Administração dos Serviços de Saúde pela Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP). Mestre em Ciências da Saúde pela
Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP). Gerente de Enfermagem do Centro Integrado de Atendimento Ltda (UNINFÂNCIA).
Enfermeiro do Serviço de Endocrinologia Pediatria do Departamento de Pediatria e Cirurgia Pediátrica da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto
(FAMERP). Doutor em Pediatria pela Universidade de São Paulo. Pós-doutorado em Endocrinologia Pediátrica pela University of Toronto. E-mail: liberat@famerp.br.
Endereço para correspondência – Avenida Miguel Damha 1515 Q3 L4, Cond. Gaivota 1, São José do Rio Preto- SP. CEP: 15061-800. (17)3227-43-65 ou (17) 960966-25. E-mail: rbmilene@gmail.com.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 475-480, out./dez., 2011
475
Avaliação do Programa de Triagem Neonatal para hipotireoidismo congênito em São José do Rio Preto – SP, brasil
INTRODUÇÃO
A triagem neonatal representa uma metodologia de
rastreamento específica para uma população com
idade até 26 dias de vida. Trata-se de ação preventiva
que permite fazer o diagnóstico precoce de doenças
congênitas ou infecciosas assintomáticas nessa fase,
possibilitando a interferência no curso dessas doenças
e instituindo tratamento específico para a diminuição ou
a eliminação das sequelas associadas à doença.1-5
Os Programas de Triagem Neonatal originaram-se dos
esforços de Robert Guthrie, que desenvolveu métodos de
inibição bacteriana para fenilalanina (1962-1963).1,6,7
Na América Latina, a Triagem Neonatal iniciou-se por
volta de 1970.8 A primeira tentativa ocorreu no México,
em 1973, quando Antonio Velásquez, após treinamento
com Guthrie, iniciou um projeto de detecção de
fenilalanina (PKU) e outras aminoacidopatias. A segunda
tentativa ocorreu no Brasil, quase simultaneamente
com o México, quando Benjamin Schimidt, Dr. Stanislau
Krinsky e Dr. Aron Diament iniciaram um projeto
chamado Plano Nacional para Estudo e Detecção
de Erros Inatos do Metabolismo (IEMs), abordando
desordens que conduziam ao retardo mental. 8 Em
1976, esse projeto direcionou a criação do laboratório,
por Schimidt, para a detecção de PKU e outros IEMs,
originando, assim, o primeiro programa de triagem
neonatal para IEMs na América Latina.8-10 A partir de
então, o programa expandiu-se e incluiu a triagem para
hipotiroidismo congênito em 1986.11
O Brasil possui o Programa Nacional de Triagem
Neonatal desde 2001, organizado de forma centralizada,
com legislação própria, tratamento regionalizado
e centralizado com cobertura de 80,2% 8 . Visa à
detecção de quatro doenças: fenilcetonúria (PKU),
hipotireoidismo congênito (HC), doença falciforme e
outras hemoglobinopatias e fibrose cística (FC).1
São José do Rio Preto é uma cidade de 415.508
habitantes, situada na região noroeste do Estado de
São Paulo, distante 450 km da capital.12 A Secretaria
Municipal de Saúde é responsável pela coleta da
triagem neonatal; a Secretaria Estadual de Saúde, pelo
encaminhamento dos exames; e a APAE da capital, pela
realização das dosagens laboratoriais. Essa divisão de
responsabilidades nos parece preocupante e motivou
a realização deste estudo.
Com o objetivo de avaliar o programa de triagem
neonatal para HC em São José do Rio Preto, fez-se a
análise retrospectiva de todas as amostras triadas entre
2005 e 2007.
MATERIAL E MÉTODO
Realizou-se estudo retrospectivo baseado no banco
de dados da APAE-SP, envolvendo todos os exames
coletados nos nascidos vivos no período de janeiro de
2005 a dezembro 2007. Os resultados laboratoriais, a
data da coleta, o período do processamento e a data
476
de envio do resultado foram obtidos no Serviço de
Referência da APAE-SP.
O número de nascidos vivos e a distribuição por
sexo foram obtidos revendo os arquivos de todos os
hospitais da cidade e comparando-os com os registros
da Secretaria Municipal de Saúde.
Foram analisados os seguintes dados: caracterização da
população; cobertura do programa de triagem neonatal
em São José do Rio Preto; idade das crianças na coleta
do exame (em dias); análise do fluxo da triagem (tempo
de coleta, tempo entre coleta e recebimento; tempo de
processamento da amostra e o tempo total); incidência
de HC; distribuição por sexo na ocorrência de HC.
Os dados coletados foram armazenados em planilha
eletrônica(ExcelMicrosoft®).Aanáliseestatísticaenvolveu
estatística descritiva, distribuição percentual, gráficos e
tabelas entrecruzadas por análise bidimensional.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da
Faculdade de Medicina de São José do RioPreto(FAMERP),
que dispensou o uso do Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido (TCLE).
RESULTADOS
Do total de 17.494 crianças nascidas no período citado,
9.012 (51,55%) eram do sexo feminino e 8.470 (48,45%),
do sexo masculino. O sexo não foi informado em 12
casos, que foram descartados da contagem. Desse
número, 356 (2,03%) crianças nasceram prematuras.
A cobertura do teste do pezinho foi avaliada com
base nos dados referentes ao número de nascimentos
(nascidos vivos) e número de testes realizados. Os
resultados apontam diminuição de nascidos vivos de
2005 para 2006, ou seja, de 4.810 em 2005 para 4.710
em 2006, com taxa de decréscimo de 2,01%. Entre 2006
e 2007, ocorreu aumento equivalente na taxa de crianças
nascidas vivas (4.811 nascidas vivas em 2007).
A análise do fluxo da triagem neonatal consistiu na
análise do tempo compreendido entre o nascimento
da criança até o fechamento do laudo do teste do
pezinho. No estudo foram analisadas as variáveis:
tempo de coleta compreendido entre o nascimento
da criança e a coleta, das amostras de sangue para a
realização do teste; tempo entre coleta e recebimento,
compreendido entre a coleta do material até a chegada
ao laboratório responsável pela análise clínica; tempo
de processamento da amostra, compreendido entre
a chegada da amostra e a emissão do laudo pelo
laboratório; e tempo total, compreendido entre o
fechamento do laudo e o encaminhamento do resultado
da amostra para a Unidade Central responsável.
De acordo com a TAB. 1, os tempos médios de coleta
variaram de 9,4 dias a 9,8 dias. Com relação ao período
compreendido entre a coleta e o recebimento da
amostra de sangue para análise, os tempos médios
diminuíram aproximadamente 4 dias de 2005 para
2006. Constatou-se que o tempo médio entre a coleta
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 475-480, out./dez., 2011
e o recebimento da amostra foi de 10,8 dias. O menor
tempo de recebimento foi de 0 dia, isto é, recebido no
dia da coleta, e o maior, 76 dias. Em 2005 o tempo variou
de 3 a 25 dias, com média de 11,4 dias e metade das
amostras foram processadas em até 11 dias. Já em 2006,
as amostras foram processadas entre 2 e 18 dias, com
média de 7,1 dias. De 2005 para 2006, houve redução no
tempo médio em 4,3 dias. Em 2007, ocorreu redução de
ao menos um dia no tempo de processamento com o
tempo máximo de 10 dias e média de 5 dias. Verificouse que o tempo médio de processamento da amostra
foi estimado em 7,8 dias, com o mínimo de 2 dias e o
máximo de 25 dias.
Observou-se que o tempo total médio foi de 28,2 dias,
com o mínimo de 11 dias, observado em 2006 e 2007 e
o máximo de 135 dias, observado em 2005.
TABELA 1 – Estatísticas descritivas das variáveis da análise do fluxo de triagem neonatal de acordo com os
anos analisados
Variável
Tempo de coleta
Tempo entre
coleta e
recebimento da
amostra
Tempo de
processamento da
amostra
Tempo total
Ano
n
x±s
Mediana
Mínimo
Máximo
2005
5.588
9,4±4,9
8,0
0,0
107,0
2006
5.877
9,8±4,4
9,0
2,0
71,0
2007
6.029
9,7±4,3
9,0
2,0
33,0
2005 a 2007
17.494
9,6±4,6
8,0
0,0
107,0
2005
5.588
13,4±8,5
12,0
3,0
65,0
2006
5.877
9,6±5,1
9,0
0,0
51,0
2007
6.029
9,5±2,9
9,0
2,0
76,0
2005 a 2007
17.494
10,8±6,2
9,0
0,0
76,0
2005
5.588
11,4±3,6
13,0
3,0
25,0
2006
5.877
7,1±2,9
6,0
2,0
18,0
2007
6.029
5,0±1,4
5,0
2,0
10,0
2005 a 2007
17.494
7,8±3,8
6,0
2,0
25,0
2005
5.588
34,2±10,0
33,0
15,0
135,0
2006
5.877
26,5±7,5
25,0
11,0
85,0
2007
6.029
24,3±5,4
23,0
11,0
91,0
2005 a 2007
17.494
28,2±8,9
27,0
11,0
135,0
Fonte: Os autores
O numero de crianças testadas foi de 5.588 em 2005,
5.877 em 2006 e 6.029 em 2007. Notou-se crescente
aumento ao longo dos anos, sendo mais acentuado de
2005 para 2006 (5,2%). De 2006 para 2007, observou-se
redução da taxa de crescimento (2,6%). Entretanto, em
2007 houve aumento tanto no número de nascimentos
quanto no de testes realizados. Esses dados podem ser
observados no GRÁF. 1.
O GRÁF. 2 traz diagramas tipo box-plot, representando
o número de crianças nascidas vivas e testadas em
cada ano, revelando que a quantidade de crianças
testadas é superior à quantidade de nascidas vivas,
independentemente do ano analisado. A dispersão dos
dados ao longo dos anos, tanto para nascidos como para
testadas, é muito parecida, refletindo simetria em relação
à linha mediana que divide a caixa do box-plot.
GRÁFICO 1 – Evolução do número de crianças
nascidas vivas e testadas ao longo de 2005 a 2007
Fonte: Os autores.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 475-480, out./dez., 2011
477
Avaliação do Programa de Triagem Neonatal para hipotireoidismo congênito em São José do Rio Preto – SP, brasil
GRÁFICO 2 – Box-plot da distribuição das nascidas vivas e testadas em 2005, 2006 e 2007
Fonte: Os autores.
A categorização da variável tempo de coleta foi definida,
estabelecendo a idade de referência de no máximo 7 dias
de vida como tempo para coleta da amostra, conforme
recomenda a literatura. Os dados podem ser observados
no GRÁF. 3.
Em 2005, do total de 5.588 crianças, 5.587 (99,98%)
mostraram resultados não alterados e somente 1 (0,02%)
alterado. Em 2006, do total de 5.877 crianças avaliadas,
5875 (99,96%) apresentaram normalidade no teste e
foram constatados apenas dois casos (0,04%) de exames
alterados. Em 2007, do total de 6.029 crianças analisadas,
6.027 (99,96%) apresentaram normalidade e apenas 2
casos (0,04%) com exames alterados (GRÁF. 4).
GRÁFICO 3 – Distribuições percentuais em relação à
idade de referência para triagem de HC, de acordo
com os anos
GRÁFICO 4 – Número de resultados normais e
resultados alterados para HC em 2005, 2006 e 2007
Fonte: Os autores.
Fonte: Os autores.
Das 17.494 crianças que tiveram amostra de sangue
coletada para exame entre 2005 e 2007, verificou-se que
17.489 (99,97%) apresentaram resultado normal ao teste
de triagem neonatal e 5 (0,03%) mostraram resultados
alterados. Esses dados indicam incidência de um caso
de HC para cada 3.499 nascidos vivos.
478
A distribuição por sexo dos casos normais e alterados
pode ser observada na TAB. 2.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 475-480, out./dez., 2011
TABELA 2 – Distribuição por sexo dos resultados normais e alterados de triagem neonatal por ano
2005
n=5588
2006
n=5877
2007
n=6029
M (%)
F (%)
M (%)
F (%)
M (%)
F (%)
Normais
2.771
(49,59%)
2.816
(50,39%)
2.716
(46,21%)
3.159
(53,75%)
2.987
(49,55%)
3.040
(50,42%)
HC
1 (0,02%)
0 (0%)
1 (0,02%)
1 (0,02%)
0 (0%)
2 (0,03%)
Total HC
1(0,02%)
2(0,03%)
2(0,03%)
Fonte: Os autores
DISCUSSÃO
O HC é um distúrbio metabólico sistêmico caracterizado
pela deficiência da produção de hormônios tireoideanos13,14 e representa uma das causas mais comuns
de retardo mental passível de prevenção.
Os hormônios tireoideanos são fundamentais na
organogênese do sistema nervoso central até os 2 anos
de vida, contribuindo para a formação do córtex cerebral,
auditivo, hipocampo e cerebelo. Dessa forma, o feto fica
protegido pelos hormônios maternos até o nascimento.
Após os 2 anos, os recém-nascidos não detectados
apresentarão deficiência física e mental.13
O HC tem uma incidência ao redor de 1:4000 nascidos
vivos. 8,13,15,16 Os sinais clínicos são inespecíficos e
aparentemente todos os bebês são normais. A sintomatologia é mais evidente em torno dos 3 meses de
vida, quando os danos neurológicos já podem estar
estabelecidos.17
Segundo os dados de literatura, a prevalência é maior
no sexo feminino do que no sexo masculino (2:1).15,17
Em nosso estudo, encontramos predominância no sexo
feminino (1,5:1).
Alguns índices apontados por estudos brasileiros
demonstram a prevalência de 1:4375 no Estado de Minas
Gerais,18 1:3177 em Santa Catarina,19 1:4850 em Sergipe.20
Em nosso estudo, encontramos um caso em 2005 para
5.588 nascidos vivos (incidência de 1:5588), dois casos
em 2006 para 5,877 nascidos vivos (incidência de 1:2939)
e dois casos em 2007 para 6.029 nascidos vivos, com
prevalência de 1:3015 nascidos vivos.
Neste manuscrito, foi encontrada a incidência, entre a
média descrita por outros estudos, de um exame alterado
para -3.499 nascidos vivos. Afastou-se totalmente a
possibilidade de coleta ou dosagem repetida. De todos
os portadores de dosagem em papel de filtro alterada,
foi realizada coleta de amostra em sangue periférico
para confirmação.
Na Portaria GM/MS nº 822 (2001),1 orienta-se que toda
criança nascida em território nacional tem o direito à
triagem neonatal (teste do pezinho) e que a coleta não
pode ser em tempo inferior a 48 horas de alimentação
proteica (amamentação) e nunca superior a 30 dias; o
ideal entre o 3° e 7° dia de vida.
Estudos, como o desenvolvido no Estado do Pará por
Benevides et al.,14 apontam que a coleta foi realizada
em 48,1% dos casos em até 30 dias de vida e 37,4%
acima de 30 dias. Almeida et al.,21 em estudo na Bahia,
demonstraram que somente 14,5% da coleta foi realizada
em até 7 dias, 63,9% de 8 a 30 dias e 21,6% com mais de
30 dias. Em nosso estudo, a coleta foi realizada até 7 dias
em 37,45% dos recém-nascidos testados e 62,55% com
idade superior a 7 dias. Contudo apenas 0,89% destes
realizaram o teste após 30 dias de vida.
Dessa comparação, pode-se concluir que na maioria dos
casos triados em nossa região superou-se a orientação
da coleta a ser realizada em até 7 dias, embora a quase
totalidade tenha sido realizada em menos de 30 dias.
Da mesma forma, nota-se, também, que embora
os períodos de coleta, recebimento da amostra e
processamento estejam em declínio, 28,2 dias em média
para diagnosticar um caso de hipotireoidismo, ainda
não é o ideal.
O índice de cobertura observada em estudos da literatura
foi de 81% em Santa Catarina, 72% em Sergipe, 71,52%
na Bahia e 93,2% em Maringá.19-22 Os resultados do nosso
estudo apontam uma cobertura de 116,17% em 2005, de
124,78% em 2006 e de 125,32% em 2007, perfazendo a
média percentual de 122,09% de cobertura total durante
o período estudado. Observa-se que o número de
crianças testadas é superior ao número de nascidas vivas,
e tal fato pode ser explicado pela forma não padronizada
e não integrada de registro das informações. Outro fator
que contribui para essa disparidade é que gestantes
procedentes de outras localidades realizam seus partos
no município, sendo seus recém-nascidos aqui testados
e codificados como de São José do Rio Preto.
Parece-nos que o processo em nossa região esteja
funcionando de forma muito fragmentada. Não existe
um único responsável, e desta forma a responsabilidade
pela coleta, encaminhamento e gerenciamento dos
resultados se apresenta de forma muito deficiente, o que
demonstra a necessidade de reorganização e unificação
deste processo.
Encaminhamos sugestão de fluxograma para a
Secretaria Municipal de Saúde, sugerindo que seja
criado um centro de gerenciamento na UBS central,
com controle dos nascimentos e coleta da triagem em
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 475-480, out./dez., 2011
479
Avaliação do Programa de Triagem Neonatal para hipotireoidismo congênito em São José do Rio Preto – SP, brasil
cada um dos hospitais. Encaminhamento bissemanal
das amostras e contato da APAE direto com esse centro
de gerenciamento, que com arquivos adequados, teria
maior chance de localizar e tratar mais rapidamente
essas crianças.
CONCLUSÃO
O estudo retrospectivo de dados do programa de
triagem neonatal para HC em São José do Rio Preto-SP
apresentou particularidades preocupantes.
A coleta foi realizada após os sete dias de vida na maioria
dos casos, embora a quase totalidade, antes dos trinta
dias de vida.
O fato de o número de exames coletados ser maior do
que o de nascidos vivos pode indicar que a coleta não
está exclusivamente sendo feita para nascidos vivos
residentes no município.
O tempo total de processamento da amostra se encontra
ao redor de trinta dias, com grande variação entre o
tempo mínimo e máximo, embora, de forma geral,
tenhamos notado melhora nos últimos anos.
Diante do contexto, reforça-se a importância de campanha de divulgação do teste do pezinho, informação
sobre a doença e os danos que ela causa, bem como a
necessidade do diagnóstico neonatal para o tratamento
precoce dela.
REFERÊNCIAS
1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Coordenação-Geral de Média Complexidade
Ambulatorial. Programa Nacional de Triagem Neonatal. Manual de normas técnicas e rotinas operacionais do Programa Nacional de Triagem
Neonatal. Brasília: Ministério da Saúde; 2004. 127 p.
2. De Montalembert M. Management of children with sickle cell anemia: a collaborative work. Arch Pediatr. 2002; 9(11): 1195-201.
3. Neto EC, Rubin R, Shulte J, Guigliani R. Newborn screening for congenital inctious diseases. Emerg Infect Dis. 2004; 10(6): 1068-73.
4. Acharya K, Ackerman PD, Ross LF. Pediatricians’ attitudes toward expanding newborn screening. Pediatr. 2005; 116(4): 476-84.
5. Dhondt JL. Neonatal screening: from the “Guthrie age” to the “Genetic age”. J Inherit Metab Dis. 2007;
30(4): 418-22.
6. Serving the family from birth to the medical home. A report from the Newborn Screening Task Force convened in Washington DC, May 10-11,
1999. Pediatr. 2000; 106(2Pt2):383-427.
7. Zaffanello M, Maffeis C, Zamboni G. Multiple positive results during a neonatal screening program: a retrospective analysis of incidence, clinial
implications and outcomes. J Perinat Med. 2005; 33(3): 246-51.
8. Borrajo GJC. Newborn screening in Latin América at the beginning of the 21st century. J Inherit Metab Dis. 2007;
30(4): 466-81.
9. Carvalho TM, dos Santos HP, dos Santos IC, Vargas PR, Pedrosa J. Newborn screening: a national public health programme in Brazil. J Inherit
Metab Dis. 2007; 30(4):615.
10. Schmidt BJ, Vargas PR, Martins AM, et al. PKU screening in Brazil. In: New Horizons in neonatal screening, procedings of the 9th International
Neonatal Screening Symposium, and 2nd Meeting of the International Society for Neonatal Screening. Lille, France September, 1993. Amsterdan:
Elsevier Science/Excerpta Medica; 1994, p. 329-32.
11. Barbosa RLV, Matsumoto MS, Schmidt BJ, Spinola-Castro AM. Aetiology of primary hypothyroidism in São Paulo. T4 Screening Program – APAE
– São Paulo. Neonatal Screening in the Nineties. In: 8th International Neonatal Screening Symposium, 1991, Sidney, Austrália; 1991. p. 73-4.
12. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Brasília (DF): Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão; 2006. [Citado 2009 maio 18].
Disponível em: http://www.ibge.gpv.br.
13. Ward LS, Maciel RMB, Kunii IS, Kurazawa GK, Matsumura LK, Vieira JGH. Comparação entre duas estratégias para a detecção precoce do
hipotiroidismo congênito. Rev Assoc Med Brás. 1998; 44(2): 81-6.
14. Benevides AM, Lima CHV, Rocha CA, Corrêa RR, El Husny AS, Fernandes-Caldato HC. Perfil epidemiológico de portadores de hipotireoidismo
congênito. Rev Para Med. 2006; 20(3): 23-6.
15. Radetti G, Zavallone A, Gentrili L, Beck-Peccoz P, Bona G. Foetal and neonatal thyroid disorders. Minerva Pediatr. 2002; 54: 383-400.
16. LaFranchi S. Diagnosis and treatment of hypothyroidism in children. MD. Compr Ther. 1987; 13(10): 20-30.
17. LaFranchi S. Congenital Hypothyroidism: etiologies, diagnosis, and management. Thyroid. 1999; 9(7): 735-40.
18. Silva LO, Dias, VMA, Silva IN, Chagas AJ. Hipotiroidismo congênito transitório: perfil das crianças identificadas no programa estadual de
triagem neonatal de Minas Gerais, Brasil. Arq Bras Endocrinol Metab. 2005; 49(4): 521-8.
19. Nascimento ML, Pires MMS, Nassar SM, Ruhland L. Avaliação Do Programa De Rastreamento Neonatal Para Hipotireoidismo Congênito da
Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina. Arq Bras Endocrinol Metab, 2003;47(1):75-81.
20. Ramalho RJR, Ramalho ARO, Oliveira CRP, Aguiar-Oliveira MH. Evolução do Programa de Triagem Neonatal para o Hipotireoidismo Congênito
e Fenilcetonúria no Estado de Sergipe de 1995 a 2003. Arq Bras Endocrinol Metab. 2004; 48(6): 890-6.
21. Almeida AM, Godinho TM, Teles MS, et al. Avaliação do Programa de Triagem Neonatal na Bahia no ano de 2003. Rev Bras Saude Mater
Infant. 2006; 6(1): 85-91.
22. Carvalho MDB, Pelloso SM, Higarashi IH, Luz GS. Cobertura do Programa de Triagem Neonatal em Maringá (PR), 2001 a 2006. Acta Paul
Enferm. 2008; 21(1): 89-93.
Data de submissão: 7/10/2010
Data de aprovação: 9/9/2011
480
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 475-480, out./dez., 2011
AIDPI: CONHECIMENTO DOS ENFERMEIROS DA ATENÇÃO BÁSICA DO
MUNICÍPIO DE ARACAJUSE
AIDPI: NURSES’ KNOWLEDGE OF PRIMARY CARE IN THE CITY OF ARACAJUSE
AIDPI: EL CONOCIMIENTO DE LOS ENFERMEROS DE LA ATENCIÓN BASICA DEL MUNICIPIO DE
ARACAJUSE
Manuella Silva Leite1
Aglaé da Silva Araújo Andrade2
Lígia Maria Dolce de Lima3
RESUMO
O objetivo com este estudo foi identificar o conhecimento dos enfermeiros da atenção básica quanto à estratégia da
Atenção Integral às Doenças Prevalentes da Infância, no município de Aracaju-SE. Os dados foram coletados por meio
de um questionário, contendo 20 questões fechadas e de múltipla escolha, tabulados e arquivados no Excel 2007 e
analisados no programa Statistical Package for the Social Sciences, versão 13.0. Foram utilizados critérios investigativos
e descritivos, com abordagem quantitativa. Os resultados obtidos apontam não haver diferença significativa (p >
0,05) entre os enfermeiros capacitados (54,5%) e não capacitados (45,5%) pela estratégia, verificando-se um perfil de
conhecimento aquém do esperado. Fica evidente a necessidade de realizar capacitações e supervisão do protocolo
de doenças prevalentes na infância para os enfermeiros da atenção básica.
Palavras-chave: Criança; Conhecimento; Enfermeiros.
ABSTRACT
This study’s main objective was to identify primary care nurses’ knowledge about the Integrated Management of
Childhood Illness and Comprehensive Child Care strategies in the municipality of Aracaju-SE. The data were collected
through a questionnaire containing 20 closed-ended and multiple-choice questions. The data was tabulated and filled
in Excel 2007 and analyzed using “Statistic Package for the Social Sciences” 13.0 version. Descriptive and analytical
criterions were used with a quantitative approach. The obtained results suggested there is no significant difference
(p > 0.05) between trained (54.5%) and not trained (45.5%) nurses in the strategy and the knowledge profile was less
than expected. In conclusion, training and protocol supervision of childhood prevalent illnesses are necessary to
primary care nurses.
Key words: Child, Integrated Management of Childhood Illness and Comprehensive Child Care; Knowledge; Nurses.
RESUMEN
El objeto del presente estudio ha sido identificar el conocimiento de los enfermeros de atención básica sobre la estrategia
Atención Integral de las Enfermedades Prevalentes en la Infancia, en la ciudad de Aracaju-SE. Los datos fueron recogidos a
través de una encuesta con 20 preguntas cerradas de opción múltiple, tabulados y archivados en Excel 2007 y analizados
en el programa Statistical Package for the Social Sciences, versión 13.0. Fueron utilizados criterios investigativos y
descriptivos con enfoque cuantitativo. Los resultados obtenidos señalan que no hay diferencia significativa (p > 0,05)
entre los enfermeros capacitados (54,5%) y los que no son capacitados (45,5%) por la estrategia, verificándose un perfil
de conocimiento por debajo de lo esperado. Queda clara la necesidad de capacitar a los enfermeros de atención básica
y de supervisar el protocolo de enfermedades prevalentes en la infancia.
Palabras clave: Niño, Atención Integral de las Enfermedades Prevalentes en la Infancia; Conocimiento; Enfermeros.
1
2
3
Discente em Enfermagem. Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Sergipe. Rua Benjamim Fontes, nº 595, Ed. Rio doce, Apto 203. Bairro
Luzia. CEP 49045-110. Aracaju-SE/Brasil. E-mail: enfamanuellasleite@gmail.com.
Mestre em Saúde e Ambiente. Universidade Tiradentes. Professora Assistente 1. Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Sergipe. Alameda
A, n° 225, Cond. Victória Garden, Ed. Canafistula, apto 102, CEP 49027-390. Aracaju, SE. E-mail: a3glae@yahoo.com.br.
Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Sergipe. Professora Assistente 1. Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Sergipe.
Endereço para correspondência: Avenida Adélia Franco, n° 2288. Cond. Costa Dourado, Ed. Salinas, apto. 702, Bairro Luzia. Aracaju-SE.
E-mail: ligialemos@infonet.com.br.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 481-490, out./dez., 2011
481
AIDPI: Conhecimento dos enfermeiros da atenção básica do município de Aracaju-SE
INTRODUÇÃO
Enfrentar os fatores determinantes da mortalidade
infantiltemsidoumconstantedesafioparaasautoridades
brasileiras desde as décadas de 1980 e 1990, levando o
Ministério da Saúde (MS) a intensificar o processo de
atenção à saúde da criança, com o objetivo de reduzir
as taxas de mortalidade provocadas por doenças
de prevalência na infância. Assim, foram elaborados
protocolos de atendimento para profissionais vinculados
às unidades básicas de saúde para que estes possam
desenvolver sistematicamente a assistência às crianças.
Os protocolos de atendimento constituíram uma
experiência positiva, sendo, dessa forma, fator primordial
para reduzir índices insatisfatórios na avaliação do
crescimento e desenvolvimento infantil1,2.
Apesar das diversas inovações na área de saúde pública,
a atenção à saúde da criança permaneceu relevante
para as equipes de saúde da família, pois persistiu a
elevada morbimortalidade em crianças menores de 5
anos nos países em desenvolvimento. Os infantes até 5
anos apresentam um sistema imunológico em processo
de desenvolvimento, sofrendo com maior frequência
o impacto de qualquer mudança na comunidade. A
pneumonia, a diarreia, a malária, o sarampo e a adesnutrição são as principais causas de adoecimento dos
infantes nessa faixa etária. Elas acometem mundialmente
pelo menos três em cada quatro crianças que buscam
atenção médica3,4.
Em sua maioria, as doenças de prevalência na infância
são passíveis de tratamento e prevenção, porém são
responsáveis por mais de 70% dos óbitos infantis em nível
global. No Brasil, o MS demonstra, estatisticamente, que
ainda permanece elevada a mortalidade infantil, com
uma taxa estimada em 28,6 por mil nascidos vivos. Por
sua vez, tais patologias estão intimamente relacionadas
ao baixo nível socioeconômico, principalmente nos países
em desenvolvimento, que têm como características o
saneamento básico precário, a alimentação inadequada, a
falta de cuidado dos pais para com a criança, a dificuldade
na disponibilidade dos serviços de saúde, a falta de
capacitação dos profissionais, dentre outros.1,4,5
Diante da necessidade de novas ações direcionadas
para a redução da morbidade e mortalidade infantil, a
Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização
Pan-Americana de Saúde (OPAS) e o Fundo das Nações
Unidas para a Infância (UNICEF) desenvolveram, em 1995,
uma estratégia para combater os principais problemas
de saúde das crianças. Essa estratégia, denominada
Assistência Integral às Doenças Prevalentes na Infância
(AIDPI). veio contribuir significativamente para a
melhoria do padrão de vida e a redução do número de
mortes dos infantes menores de 5 anos de idade.6
Em 1996, os profissionais médicos e enfermeiros
pertencentes à atenção básica foram capacitados para
operacionalizar a AIDPI. O processo de implantação dessa
estratégia deu-se, primeiramente, nas regiões Norte e
Nordeste, por apresentarem os piores indicadores de
saúde. Os Estados de Sergipe, Ceará, Pernambuco e Pará
482
foram reconhecidos como fortes áreas na consolidação
de programas relacionados à saúde da criança, incluindo
os programas de controle de doenças diarreicas e
infecções respiratórias agudas. Como consequência e
aceitação da estratégia, os treinamentos expandiram-se
para as regiões Sul e Sudeste.5
Em Sergipe, a proposta foi aderida pela Secretaria
Estadual de Saúde em 1997, sendo padronizada para
treinar todas as equipes do Programa Saúde da Família
(PSF) e do Programa de Agentes Comunitários da Saúde
(PACS), atingindo uma cobertura de capacitações de
85% das equipes. Em 1999, foram introduzidos, no curso
de Mestrado em Ciências da Saúde da Universidade
Federal de Sergipe (UFS), os módulos de capacitação,
com duração de 40 horas, que se estenderam também
para a graduação do curso médico e de enfermagem da
UFS, significando a capacitação de mais profissionais a
partir daquele ano.7
A equipe de saúde capacitada assegura uma assistência
de qualidade às crianças, tanto na prevenção de doenças prevalentes como na avaliação do estado nutricional, no esquema imunológico e no crescimento
e desenvolvimento infantil, por meio do protocolo
padronizado pela estratégia. Além disso, a estratégia é
fundamental por favorecer o estabelecimento de um
vínculo com a mãe ou responsável pela criança, para
que esta compreenda as recomendações referentes
ao cuidado, ao tratamento e ao retorno da criança ao
estabelecimento de saúde, trazendo, assim, resultados
satisfatórios na qualidade da assistência infantil.1,5,6,8
Diante da relevância da estratégia como meio de atendimento às crianças, buscou-se, neste estudo, identificar
o conhecimento dos enfermeiros da atenção básica do
município de Aracaju quanto à AIDPI, como também
verificar o número de enfermeiros capacitados e não
capacitados para tal estratégia.
METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa de caráter investigativo
e de natureza quantitativa, realizada nos meses de
setembro e outubro de 2009, no município de AracajuSE. A população do estudo abrangeu 100% (132) dos
enfermeiros da atenção básica, distribuídos nas 43
unidades básicas de saúde localizadas nos 8 distritos
desse município. Desses, somente 101 enfermeiros
participaram da pesquisa e 31 restantes foram excluídos
por não se enquadrarem nos critérios de inclusão da
pesquisa (rejeição em participar da pesquisa, licença
médica ou licença prêmio e período de férias no prazo
de tempo estabelecido para coleta de dados).
Os participantes da pesquisa foram informados a
respeito do caráter do estudo e seus objetivos. Após
aceitação, assinaram o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE), com garantia do sigilo da identidade,
de acordo com a Resolução nº 196, item IV, de 10 de
outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde. Vale
ressaltar que o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética
em Pesquisa da Universidade Federal de Sergipe sob o
Parecer nº CAAE 3566.0.000.107-09.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 481-490, out./dez., 2011
Para a coleta de dados, foi elaborado um instrumento
composto por 20 questões, com 8 perguntas fechadas
e 12 perguntas de múltipla escolha. No primeiro
momento, foram abordados, no questionário, os dados
de identificação (sexo, idade, unidade básica de saúde e
região de locação profissional), o tempo de graduação e
se o profissional era capacitado para a estratégia AIDPI.
No segundo momento, as perguntas foram direcionadas
às doenças prevalentes na infância e sua metodologia,
com base nos autores Brasil4 e Felisberto.9
O instrumento de coleta foi repassado para os enfermeiros, que aceitaram participar do estudo, em
envelopes lacrados, para permitir a confidencialidade.
Ao término do preenchimento, após revisadas as
respostas, os enfermeiros foram divididos em dois
grupos: profissionais capacitados e profissionais não
capacitados pela estratégia do AIDPI.
Os dados obtidos foram tabulados e arquivados nos
programas Microsoft Office Excel 2007 e o Statistical
Package for the Social Sciences (SPSS), versão 13.0, e
analisados de forma descritiva. Para essa análise estatística,
foram utilizados os testes Qui-quadrado e Bicaudal,
levando em consideração um nível de significância de p
menor que 0,05 e um poder de teste (sensibilidade para
detectar diferenças) igual a 0,80. Quando necessário,
foram calculados a média e o desvio-padrão.
Utilizou-se como base para avaliação do nível de
conhecimento dos enfermeiros quanto ao protocolo
AIDPI a literatura de Wassall,10 que quantifica como
bom desempenho na captação de informações nos
cursos que envolvam a estratégia o índice de acerto nas
questões em torno de 70%.
de quinze anos, seguidos de 23,8% (n=24) formados
entre seis e dez anos e 15,8% (n=16) que possuíam
graduação entre onze e quinze anos. Já 12,9% (n=13)
dos profissionais entrevistados afirmaram que estavam
graduados havia menos de cinco anos (TAB. 1).
Ao questionar sobre o tempo de serviço dos profissionais
entrevistados nas unidades básicas de saúde do
município, foi possível verificar o predomínio significativo
de enfermeiros que trabalhavam nessa área há mais de
dez anos (43,6%). Os demais possuíam tempo de serviço
entre oito a dez anos (22,8%), entre cinco a sete anos
(17,8%) e entre dois a quatro anos (10,9%). Somente 5%
dos profissionais afirmaram que trabalhavam na atenção
básica há aproximadamente um ano (TAB. 1).
TABELA 1 – Distribuição quanto ao sexo, tempo
de graduação e tempo de serviço dos enfermeiros
da atenção básica no município de Aracaju-SE,, no
período de setembro a outubro de 2009
Variáveis avaliadas
No que se refere aos dados de identificação, foi possível
questionar aos entrevistados as seguintes variáveis: faixa
etária, gênero, tempo de graduação, tempo de serviço
na atenção básica e capacitação pela estratégia AIDPI.
Em relação à análise da faixa etária dos entrevistados, a
idade mínima verificada foi de 23 anos e a máxima, de
63 anos, tendo como média de 42 anos para um desviopadrão de 10.
Ao tratar do gênero, 8,9% (n=9) dos profissionais eram
do sexo masculino e 91,1% (n=92) do sexo feminino.
Quanto ao tempo de graduação, observou-se que 47,5%
(n=48) dos profissionais estavam graduados havia mais
% (100)
Masculino
9
8,9
Feminino
92
91,1
Período superior
a 15 anos
48
47,5
Período entre 15
e 11 anos
16
15,8
Período entre 10
e 6 anos
24
23,8
Período inferior
a 5 anos
13
12,9
Período superior
a 10 anos
44
43,6
Período entre 10
e 8 anos
23
22,8
Período entre 7 e
5 anos
18
17,8
Período entre 4 e
2 anos
11
10,9
Período de
aproximadamente 1 ano
5
5
Profissional
capacitado
55
54,5
Profissional não
capacitado
46
45,5
Gênero
Tempo de
graduação
RESULTADOS E DISCUSSÃO
De acordo com os resultados obtidos por meio da
coleta de dados nas regionais do município de Aracaju,
verificou-se que dos 132 enfermeiros que poderiam
participar do estudo 76,54% (n=101) aceitaram
responder ao questionário; 9,10% (n=12) rejeitaram
participar da pesquisa; 10,56% (n=14) encontravam-se
de licença médica ou licença-prêmio; e 3,80% (n=5)
estavam no período de férias no prazo de tempo
estabelecido para coleta de dados e, portanto, foram
excluídos da pesquisa.
n (101)
Tempo de
serviço na
atenção
básica
Capacitação
pela
estratégia
AIDPI
Fonte: Questionário AIDPI: Conhecimento dos enfermeiros da atenção
básica do município de Aracaju-SE – 2009.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 481-490, out./dez., 2011
483
AIDPI: Conhecimento dos enfermeiros da atenção básica do município de Aracaju-SE
Durante a pesquisa, utilizou-se como variável de
desfecho a relação entre o quantitativo de enfermeiros
capacitados e não capacitados pela estratégia AIDPI.
Diante desse fator, do total de profissionais que
responderam aos questionamentos da pesquisa, 55
(54,5%) eram capacitados, enquanto 46 (45,5%) não
possuíam a capacitação.
Especificamente sobre os enfermeiros capacitados,
verificou-se que nenhum profissional realizou
capacitação para a estratégia AIDPI a menos de um ano.
Do percentual válido (54,5%), 36,4% dos enfermeiros
foram capacitados em um período entre cinco e oito
anos, seguidos de 23,6%, que foram treinados entre um e
quatro anos e 40% que realizaram a capacitação há mais
de nove anos, dado este que coincide com o período
de implantação da estratégia AIDPI pela Secretaria de
Estado da Saúde, há aproximadamente 12 anos.
Já dos 45,5% dos enfermeiros que afirmaram não
possuir a capacitação da estratégia, 95,7% (n=44) deles
acreditam que o conhecimento sobre a AIDPI ajudaria na
rotina de atendimento às crianças, dado estatisticamente
significativo (p < 0,05). Apenas 4,3% (n=2) divergem da
importância da capacitação na sua rotina de trabalho,
por afirmarem que a estratégia não mudaria a qualidade
da assistência aos infantes, uma vez que a rede de
atenção básica de Aracaju possui o profissional pediatra
realizando atendimento à população diretamente nas
unidades básicas de saúde.
Ao comparar esse resultado com os dados do estudo
realizado no município de Russas-CE, percebe-se a
discordância, pois nesse local 88% dos enfermeiros e
100% dos médicos relataram que a implantação da
estratégia AIDPI melhorou os indicadores de saúde
da criança, reduzindo o número de internações por
causas evitáveis, constatando-se, assim, sua eficiência
e melhoria da qualidade da assistência aos menores
de 5 anos.1
Em estudo realizado em Pernambuco, ressaltou-se a
grande receptividade entre os profissionais de saúde
para a estratégia AIDPI por atender às doenças mais
prevalentes entre os infantes de forma rápida, além
de responder às queixas mais frequentes das mães/
crianças, corroborando com nosso estudo, no qual foram
evidenciadas a receptividade e a adesão dos profissionais
do nível superior da atenção básica à estratégia, por
esta oferecer maior segurança e qualidade durante o
atendimento às crianças.11
No que se refere à utilização de instrumentos de
assistência à saúde da criança (protocolo, literaturas),
verificou-se, neste estudo, que 47,52% dos enfermeiros
afirmaram que baseavam em diversas literaturas;
37,62% afirmaram que utilizavam somente o protocolo
municipal; e 11,88%, o protocolo federal. Somente 1%
afirmou que utiliza o instrumento da estratégia AIDPI
durante a consulta à criança, sendo este um profissional
capacitado para a estratégia. O restante dos profissionais
(1,98%) optou pelo item “Nenhuma das respostas
484
anteriores”, afirmando que utilizava outro instrumento
que não constava no questionário.
Percebeu-se, durante a coleta e a análise dos dados
deste estudo, a existência do predomínio e preferência
para a utilização dos protocolos municipal e federal,
dada a exigência do cumprimento de algumas ações
pertencentes exclusivamente aos protocolos referidos. A
reduzida utilização do manual da estratégia AIDPI pode
ser atribuída à não adesão do município, estimulando a
utilização dos protocolos municipal e federal.
Com base nos dados referentes ao tempo de graduação,
capacitação e utilização dos instrumentos, verificou-se,
neste estudo, o perfil de conhecimento dos profissionais
enfermeiros, fundamentado no manual da estratégia de
Atenção Integral às Doenças Prevalentes da Infância.
Levando em consideração os resultados obtidos,
constatou-se que 13 das 14 questões referentes às
doenças prevalentes na infância e metodologia da
estratégia AIDPI, a maioria dos profissionais enfermeiros
direcionou suas opiniões para as respostas incorretas.
E ao comparar a média de acertos da amostra desta
pesquisa, verificou-se que a maioria não atingiu a média
de 70% de acerto proposto pelo estudo de Wassal,10
conforme demonstra a TAB. 2. Contudo, conforme
preconizado pelo MS, o acompanhamento e a vigilância
da saúde da criança devem ser realizados na atenção
primária, por meio das atividades de promoção, de
prevenção de doenças e da detecção precoce de
problemas ou alterações na saúde infantil. Diante
disso, torna-se importante afirmar que os profissionais
de saúde devem possuir conhecimentos básicos
sobre a saúde da infantil, para que possam fazer o seu
acompanhamento de forma sistemática para todas as
crianças sob sua responsabilidade, a fim de decidir se
há um problema para ser investigado e qual tratamento
adequado.12
Na TAB. 3, foi comparada a frequência de acertos e erros
das respostas do grupo de enfermeiros capacitados e
os não capacitados com posterior análise de cada item.
Percebeu-se que não houve diferença significativa entre
os grupos, pois o quantitativo de respostas corretas dos
profissionais capacitados não foi superior ao quantitativo
de respostas corretas ao dos não capacitados, exceto no
tocante à questão referente à diarreia com desidratação,
na qual o número de acertos foi superior ao número de
erros. Esse dado condiz com a data da última capacitação
realizada pela SES, há cerca de doze anos. Esse resultado
demonstra a urgente necessidade de capacitar os
enfermeiros para a estratégia AIDPI, mostrando, assim,
um resultado de igualdade do conhecimento entre
todos os profissionais, independentemente se foi
capacitado ou não para atender a crianças até 5 anos
segundo a AIDPI.
Em estudo realizado com os agentes comunitários
de saúde (ACS), Vidal et al.11 confirmam a importância
da utilização da estratégia AIDPI, por possibilitar uma
intervenção precoce e consequentemente contribuir
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 481-490, out./dez., 2011
TABELA 2 – Total de acertos, erros e ausência de resposta no questionário dos enfermeiros da atenção básica
no município de Aracaju-SE, no período de setembro a outubro de 2009
Total de Enfermeiros
Acerto
%
Erro
%
SR**
%
Nível de Significância
(p)
Objetivo da estratégia
23
22,8
61
60,4
17
16,8
0,48
Público-alvo
57
56,5
37
36,6
7
6,9
0,43
Doenças prevalentes na
infância
19
18,8
23
22,8
59
58,4
0,02*
Sintomas questionados à mãe
44
43,5
53
52,5
4
4,0
0,22
Sinais gerais de perigo
30
29,7
59
58,4
12
11,9
0,11
Respiração rápida
6
5,9
76
75,3
19
18,8
0,41
Apneia neonatal
35
34,7
53
52,5
13
12,8
0,68
Casos para referência
hospitalar
40
39,6
35
34,7
26
25,7
0,12
Icterícia patológica
51
50,5
47
46,5
3
3,0
0,37
Diarreia com desidratação
75
74,2
24
23,8
2
2,0
0,47
Falsas contra-indicações à
vacinação
45
44,6
27
26,7
29
28,7
0,55
Falhas no crescimento e
desenvolvimento
19
18,8
70
69,3
12
11,9
0,40
Extração e conservação do
leite materno
36
35.6
60
59,4
5
5,0
0,56
Técnicas de aleitamento
materno
43
42,6
56
55,4
2
2,0
0,43
Temas abordados pela
AIDPI
* Significância de p < 0,05; ** SR: Sem resposta;
Fonte: Questionário AIDPI: Conhecimento dos enfermeiros da atenção básica do município de Aracaju-SE, 2009.
para a redução da mortalidade infantil. Essa afirmação
está explícita nos dados apresentados, em que 85% dos
ACS utilizavam corretamente as ações recomendadas
pela estratégia, sendo esse achado justificado por meio
da realização de capacitações prévias, como também
da aplicabilidade das ações da AIDPI na rotina de
trabalho.
Com relação ao questionamento sobre o objetivo da
AIDPI, este identifica sinais clínicos que permitem avaliar
e classificar a criança adequadamente, fazendo uma
triagem rápida do tipo de atenção de que o infante
necessita. Não é finalidade da AIDPI estabelecer um
diagnóstico específico de determinadas doenças.4 Para
60,4% dos profissionais, esse seria o objetivo da estratégia,
evidenciando nesse questionamento um número de
acertos significativamente abaixo do esperado, tendo
em vista que mais da metade são capacitados. Apenas
22,8% responderam corretamente e, desses, 25,5%
eram do grupo de capacitados e 19,6% não possuíam
capacitação. O restante dos profissionais optou por não
responder à questão, alegando despreparo na estratégia.
Não quiseram, dessa forma, interferir no resultado da
pesquisa, assinalando, portanto, a opção nenhuma das
respostas.
Tratando-se das doenças relacionadas à mortalidade
infantil, são cinco as causas principais de morte nas
crianças até 5 anos: pneumonia, diarreia, desnutrição,
sarampo e malária.4 Neste estudo, verificou-se que
apenas 18,8% dos profissionais consideravam-nas
como doenças prevalentes na infância. Desses, 27,3%
eram capacitados e 8,7% não tinham treinamento,
representando uma diferença relevante entre esses
profissionais. Os 81,2% restantes de enfermeiros
assinalaram uma das opções incorretas ou optaram não
responder à questão.
Observou-se que grande parte dos enfermeiros
considerou que a malária não fazia parte da estratégia,
pois o município de Aracaju não é uma área endêmica
para esse tipo de doença, porém não atentaram que,
apesar de o Estado de Sergipe não ser área de risco,
tal quadro patológico é abordado no manual da
AIDPI, evidenciando a necessidade de atualização do
conhecimento em relação à estratégia.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 481-490, out./dez., 2011
485
AIDPI: Conhecimento dos enfermeiros da atenção básica do município de Aracaju-SE
TABELA 3 – Comparação da frequência de acertos e erros do questionário entre o grupo de enfermeiros
capacitados e não capacitados para a estratégia AIDPI no município de Aracaju-SE, no período de
setembro a outubro de 2009
Temas abordados
pela AIDPI
Enfermeiros capacitados
Enfermeiros não capacitados
Nível de
Significância
(p)
Acerto
%
Erro
%
SR**
%
Acerto
%
Erro
%
SR**
%
Objetivo da
estratégia
14
25,5
34
61,8
7
12,7
9
19,6
27
58,7
10
21,7
0,48
Público-alvo
33
60,0
20
36,4
2
3,6
24
52,2
17
36,9
5
10,9
0,43
Doenças
prevalentes na
infância
15
27,3
12
21,8
28
50,9
4
8,7
11
23,9
31
67,4
0,02*
Sintomas
questionados à
mãe
27
49,1
27
49,1
1
1,8
17
36,9
26
56,6
3
6,5
0,22
Sinais gerais de
perigo em crianças
de 2 meses a 5
anos
20
36,4
28
50,9
7
12,7
10
21,7
31
67,4
5
10,9
0,11
Respiração rápida
2
3,6
48
87,3
9,1
9,1
4
8,7
28
60,9
14
30,4
0,41
Apneia neonatal
22
40,0
30
54,5
5,5
5,5
13
28,3
23
50,0
10
21,7
0,68
Casos para
referência
hospitalar
25
45,5
18
32,7
21,8
21,8
15
32,6
17
37,0
14
30,4
0,12
Icterícia patológica
25
45,5
28
50,9
2
3,6
26
56,6
19
41,3
1
2,1
0,37
Diarreia com
desidratação
44
80,0
11
20,0
0
0,0
31
67,4
13
28,3
2
4,3
0,47
Falsas contraindicações à
vacinação
26
47,3
12
21,8
17
30,9
19
41,3
15
32,6
12
26,1
0,55
Falhas no
crescimento e
desenvolvimento
12
21,8
41
74,6
2
3,6
7
15,2
29
63,1
10
21,7
0,40
Extração e
conservação do
leite materno
21
38,2
33
60,0
1
1,8
15
32,6
27
58,7
4
8,7
0,56
Técnicas de
aleitamento
materno
21
38,2
34
61,8
0
0,0
22
47,8
22
47,8
2
4,4
0,43
* Significância de p < 0,05; ** SR: Sem resposta;
Fonte: Questionário AIDPI: Conhecimento dos enfermeiros da atenção básica do município de Aracaju-SE, 2009.
Ao tratar dos principais sintomas questionados à mãe,
43,5% dos enfermeiros optaram pelos preconizados pela
estratégia (tosse ou dificuldade para respirar, diarreia,
febre e problemas de ouvido).
E quando abordados sobre os sinais gerais de perigo em
crianças de 2 meses a 5 anos, 29,7% dos profissionais
acertaram ao selecionar os sinais padronizados pela
AIDPI (convulsão, letargia, não consegue beber ou
486
mamar e vomita tudo o que ingere). Esses dados sugerem que muitos profissionais, independentemente
de possuírem capacitação, podem ter confundido os
sinais gerais de perigo com os sintomas questionados
à mãe. Isso pode ser evidenciado pela porcentagem
de erro, como também pela ausência de resposta em
cada abordagem (57,5% e 69,3%, respectivamente).
Intencionalmente, em ambas as questões houve
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 481-490, out./dez., 2011
miscigenação entre os sinais e os sintomas, com
o intuito de avaliar a segurança e a convicção do
conhecimento prévio dos profissionais.
Sabe-se que os sinais gerais de perigo integram a
primeira parte da anamnese que o enfermeiro deve
investigar na criança durante a consulta. Essa atenção
deve-se ao fato de que crianças com um desses sinais
deve ser encaminhada ao hospital imediatamente.
Por outro lado, os sintomas interrogados à mãe estão
intimamente ligados à classificação das doenças
prevalentes na infância. Dessa forma, fica evidente a
necessidade de investigá-los. É importante ressaltar
que a abordagem de tais sinais e sintomas deve seguir
o protocolo da metodologia da AIDPI, a fim de captar
mais cedo uma criança que possivelmente esteja com
uma ou mais dessas doenças.4,9,13
No quesito sobre o conhecimento quanto ao padrão
respiratório (movimentos respiratórios por minuto)
para classificação de respiração rápida, somente 5,9%
dos enfermeiros selecionaram a opção padronizada
pela estratégia, número bastante expressivo, levando
em consideração ainda que, desses profissionais, 3,6%
eram capacitados. Além do elevado percentual de
erro (75,3%), constatou-se que 18,8% dos profissionais
optaram por nenhuma das respostas.
Deve-se considerar a utilização de outras literaturas
que abordam sobre a respiração da criança e do recémnascido (RN). Esse dado pode ser verificado ao questionar
sobre quais instrumentos os profissionais utilizavam
durante a consulta a criança, constatando-se que 47,5%
afirmaram que utilizavam diversas literaturas.
Contudo, a sistemática dessa estratégia criou somente
três categorias para respiração rápida do infante: para RN
com menos de 2 meses considera-se rápida 60 ou mais
respirações por minuto (rpm); para lactentes de 2 meses
a menos de 12 meses, 50 ou mais rpm; e para crianças de
1 a menos de 5 anos, 40 ou mais rpm. Já outros autores
estratificaram os valores das respirações para cinco faixas
etárias e, em vez de rápida, eles optaram por lançar os
valores da frequência respiratória normal para cada
uma delas, a saber: em RN considera-se normal de 40 a
50 rpm; lactente de 30 a 40 rpm; 1 ano de 25 a 30 rpm;
e pré-escolares, de 20 a 25 rpm.4,14
Entre as infecções respiratórias agudas, a pneumonia
representa uma parcela importante na causa de
mortes em crianças nos países em desenvolvimento.
Estima-se que dos 5 milhões de óbitos que ocorrem em
crianças abaixo de 5 anos, 70% destes são causados por
pneumonia. As doenças respiratórias também geram
gastos para o Sistema Único de Saúde (SUS), haja vista
que aumentam a necessidade de internação por doenças
respiratórias, sobrecarregando os leitos hospitalares
de enfermarias e urgências, uma vez não tratadas e
detectadas no estágio inicial da doença. Por se tratar
de uma patologia corriqueira em menores de 5 anos, os
profissionais enfermeiros devem deter o conhecimento
sobre a rotina de atendimento a essa população e a
importância de agilizar o atendimento.15
Na abordagem sobre a apneia anormal em prematuros
e recém-nascidos, 50,5% afirmaram como anormal
quando essa condição ultrapassa 10 segundos em
crianças menores de 10 dias de vida ou em prematuros,
indo ao encontro das literaturas pediátricas.2,4,14 Percebese, nesse quesito, a percepção errônea sobre o conceito
de apneia por parte dos enfermeiros, uma vez que essa
doença se manifesta em recém-nascidos menores de
15 dias de vida, principalmente em prematuros, dada
a imaturidade e pouco desenvolvimento do sistema
nervoso central.
Dependendo da duração dessa condição, ela pode ser
considerada normal ou anormal. A estratégia AIDPI a
caracteriza como anormal quando o RN deixa de respirar
por um período de tempo superior a 20 segundos,
com diminuição da frequência cardíaca abaixo de
100 batimentos por minuto, acompanhado ou não de
cianose.4
O conhecimento dos valores respiratórios na infância
pode classificar a criança por meio dessa estratégia em
quadros de pneumonia, não pneumonia ou ainda estágio
de apneia anormal. Por isso, é de extrema importância
que o enfermeiro realize triagens em menores de 5 anos,
tendo em vista que essa faixa etária se encontra mais
susceptível, em decorrência do sistema imunológico
encontrar-se em desenvolvimento.10
O questionamento sobre a necessidade de encaminhar
a criança urgentemente ao hospital, somente 39,6% dos
profissionais seguem o que é relatado pela metodologia
AIDPI. E, dos 101 enfermeiros, 50,5% estiveram de
acordo com essa metodologia quando indicaram
referenciar com urgência uma criança com icterícia
visível até abaixo do umbigo nas primeiras 24 horas
de vida ou clinicamente detectável. Esses resultados
não apresentaram diferença relevante em relação à
capacitação. O restante dos enfermeiros alegou não haver
a necessidade de tal urgência, bastando que mãe ou o
acompanhante exponha o RN aos raios solares quando
o Sol estiver mais ameno, antes das 7 horas e depois
das 16 horas. Contudo, há necessidade de referenciar,
uma vez que essas condições caracterizam situações
graves e somente o nível de maior complexidade oferta
tratamentos adequados que não são solucionadas na
atenção básica.
Por sua vez, nos casos de infantes com quadro de
diarreia e desidratação, 74,3% afirmaram que não havia
a obrigatoriedade de referenciar essa criança, já que
o tratamento para esse quadro pode ser realizado na
própria unidade básica de saúde. Desse total, 80% do
grupo de capacitados e 64,4% do grupo de profissionais
não capacitados acertaram ao questionamento, não
conferindo diferença significativa entre os dois grupos.
O satisfatório número de acertos supracitados pode
dever-se à grande demanda de crianças com problemas
diarreicos nas unidades básicas de saúde, levando os
profissionais a uma constante rotina de atendimento
para esses casos. Em geral, a criança com diarreia e
desidratação deve ser tratada na própria unidade com
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 481-490, out./dez., 2011
487
AIDPI: Conhecimento dos enfermeiros da atenção básica do município de Aracaju-SE
a terapia de reidratação oral no período de quatro horas
e depois ser reavaliada para confirmar se houve melhora
ou não do quadro, seguindo o esquema preconizado
pela estratégia.2,4
Sabe-se que profissionais bem capacitados para a
estratégia da AIDPI, além da utilização dessa metodologia
durante sua rotina de trabalho, aumentando a utilização
do soro de reidratação oral e cobertura vacinal, podem
contribuir para a melhoria de indicadores de mortalidade
infantil e para a redução das taxas de hospitalização.11
Em relação à vacinação, sabe-se que o MS listou situações
caracterizadas como verdadeiras e falsas contraindicações.
Doençasbenignascomuns,taiscomoasafecçõesrecorrentes
das vias respiratórias superiores, com tosse ou coriza,
diarreia leve ou moderada, doenças de pele, desnutrição,
síndrome convulsiva controlada ou antecedentes de
convulsão, tratamento com corticosteroides em doses não
elevadas durante um período de tempo inferior a duas
semanas, alergias, prematuridade ou baixo peso (exceto
se a criança tiver menos que 2.000 gramas) e internação
hospitalar são alguns dos fatores que não constituem
contraindicações à vacinação.4
Quando questionados sobre a vacinação, constatou-se
que 44,6% dos profissionais seguem as orientações
contidas no protocolo do MS, não sendo de elevada
significância a diferença entre o número de acertos
entre os profissionais qualificados e não qualificados
pela estratégia, como se observa na TAB. 3. Contudo,
28,7% optaram por nenhuma das respostas presentes
na questão por julgar que todos os itens constituem
contraindicação para vacinar qualquer criança.
Na verificação do padrão de crescimento e desenvolvimento infantil, os enfermeiros foram interrogados em
como proceder diante de uma criança com um ou
mais atrasos do desenvolvimento. Durante a análise,
verificou-se um número abaixo do esperado para tal
questionamento. Esse dado contraria a expectativa
de acerto, pois o conhecimento prévio que esses
profissionais deveriam possuir sobre as ações pertinentes
nos casos de déficits no crescimento e desenvolvimento
estão listados nos protocolos preconizadas pelo MS e
são repassados durante a graduação em enfermagem.
Ou seja, independentemente de ser capacitado ou não
para a estratégia AIDPI, o profissional enfermeiro deve
saber lidar com situações relacionadas ao crescimento e
ao desenvolvimento da criança.
Com base nos resultados sobre o crescimento e o
desenvolvimento, 21,8% do total de enfermeiros
capacitados e 15,2% dos não capacitados foram
corretos ao responder à questão. No total, apenas 17,8%
assinalaram que se deve verificar a situação ambiental
da criança e sua relação com a mãe, orientar a genitora
sobre a necessidade de estimular seus filho e marcar uma
consulta de retorno para 30 dias, o que está de acordo
com o manual da AIDPI. Entretanto, 35,6% profissionais
atentaram para a necessidade de antecipar a consulta
seguinte, conduta não recomendada pela estratégia,
tampouco pelo protocolo do MS.
488
Em estudo realizado em uma creche de Ipatinga, Minas
Gerais, avaliou-se o desenvolvimento de crianças até 24
meses, matriculadas nessa creche, por meio dos marcos
do desenvolvimento infantil propostos pela AIDPI. Os
resultados encontrados demonstraram que a ficha de
acompanhamento do desenvolvimento proposta pelo
Manual para Vigilância do Desenvolvimento Infantil
constituiu-se um instrumento de triagem de fácil
aplicação, de baixo custo operacional e capaz de realizar
a detecção precoce dos atrasos.12
Dessa forma, percebe-se que a utilização da estratégia
AIDPI para o acompanhamento do crescimento e
desenvolvimento infantil é de suma importância, já que
esse instrumento fornece resultados eficazes e engloba
vários aspectos importantes, como: identificar os fatores
de risco para o atraso no desenvolvimento; verificar as
medidas do perímetro cefálico; e avaliar o desenvolvimento
motor grosso, motor fino, linguagem e interação pessoal.
Além disso, ele fornece, prontamente, resultados capazes
de determinar se a criança está se desenvolvendo como o
esperado para sua idade cronológica.12
Assim, evidencia-se que a avaliação do crescimento e
do desenvolvimento preconizado pela estratégia AIDPI
deve fazer parte das ações do enfermeiro na consulta
de puericultura como um instrumento de triagem
eficaz e eficiente para a detecção precoce de atrasos no
desenvolvimento infantil.12
Procurou-se enfatizar, ainda, a conservação do leite
materno (LM) e os sinais de uma boa pega durante a
amamentação (queixo tocando o seio, boca bem aberta,
lábio inferior voltado para fora e aréola mais visível acima
da boca). As técnicas de acondicionamento e manuseio
adequados com o LM devem ser rigorosamente seguidas,
para evitar problemas que agravem a saúde do lactente.
Os frascos de vidro esterilizados, por exemplo, devem ser
a primeira escolha do recipiente para guardá-lo, porque
os demais recipientes possuem materiais que interferem
na sua composição. Além disso, o tempo de conservação
não pode ultrapassar 2 horas em temperatura ambiente
ou 12 horas na geladeira.4,16
Baseando-se nas informações supracitadas, verificou-se
que 59,4% responderam o oposto do que é orientado
para armazenar o LM, como também com relação aos
sinais de boa pega, dos quais 57,4% dos enfermeiros
assinalaram a resposta incorreta ou não responderam
ao questionamento. É importante ressaltar que desses
resultados não foram observadas grandes diferenças
em relação à proporção de erros e acertos, comparada
com a qualificação ou não dos enfermeiros quanto à
estratégia AIDPI.
Os resultados obtidos nesta pesquisa foram de extrema
relevânciaparaafirmaranecessidadedenovascapacitações
voltadas para a saúde da criança, uma vez que um atraso na
identificaçãodeinfantesgravementedoentespodeafetara
probabilidade de sobrevivência.Vale ressaltar que durante
a pesquisa foi observada a necessidade de capacitações
não somente a estratégia da AIDPI, mas também de
atualizar os profissionais sobre as ações preconizadas pelos
protocolos federal e municipal.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 481-490, out./dez., 2011
Essa realidade pode estar intimamente relacionada
com a infraestrutura e com os recursos humanos do
município em questão, por trazer em seu corpo clínico na
unidade básica de saúde a presença de pediatras, pois,
assim, alguns profissionais não exercem rotineiramente
ações específicas para essa população, restando a prática
dessa atividade preferencialmente ao pediatra.
Entretanto, o protocolo federal e a estratégia AIDPI
apresentam ações específicas dos enfermeiros para
assistir criança até 5 anos, não devendo excluir a
necessidade de uma consulta de enfermagem, uma vez
que o olhar do enfermeiro, somado ao do pediatra e de
outros profissionais que compõem a Estratégia Saúde da
Família, garante um atendimento integral e equânime,
de forma interdiscipliplinar e multiprofissional, preceitos
que fazem parte dos princípios e diretrizes do SUS.
Faz parte das ações de assistência de enfermagem
atender a crianças, em especial as menores de 5 anos, por
contemplar ações sistematizadas específicas por meio
do processo de enfermagem, possibilitando identificar
os problemas de saúde que atingem essa população,
além de determinar quais aspectos exigem intervenção
do profissional enfermeiro.17
A incorporação do processo de enfermagem funciona
como uma ação holística e inter-relacionada e, ao ser
combinado com as metodologias abordadas pela
estratégia AIDPI, pode garantir um atendimento integral
e direcionado às necessidade da criança, diminuindo a
probabilidade de morte. Essa característica é de suma
importância quando se trata de casos em que a criança
necessita de atendimento rápido e conduta adequada
que aparecem na unidade básica, não agendados, e
com o acolhimento embasado na metodologia da AIDPI
pode-se contribuir para a resolubilidade da assistência
à criança.17,18
Essa concepção pode ser confirmada em estudos
anteriores,1,5,6,11-13,18,19 nos quais a melhoria na atenção
à saúde da criança ocorreu dada a presença de pessoal
treinado para a estratégia, especialmente com relação
à nutrição, ganho de peso, conhecimento da saúde
infantil e o tratamento correto. Para tanto, a prática é
necessária. No caso de locais onde a estratégia AIDPI
ainda não foi introduzida, estes devem ser incentivados
a adotá-la como atividade de rotina nas consultas, por
proporcionar agilidade e sistematização do atendimento.
Portanto, as políticas de saúde, ao se apoiarem em
conhecimentos científicos, por exemplo, baseados na
AIDPI, proporcionam a adoção de providências eficientes
na assistência à saúde da criança no Brasil.10,19
Nesse contexto, a AIDPI tem como tarefa essencial
a implementação de intervenções adequadas que
contribuam para a prevenção de doenças, para sua
detecção precoce e tratamento eficaz, bem como para
a promoção da saúde integral da população infantil. Ao
implantá-la no município, os gestores estarão assumindo
um compromisso ético em trabalhar pela sobrevivência
infantil e a favor da infância saudável.12
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A implantação da estratégia AIDPI, política de saúde
prioritária do MS desde 1997, veio para beneficiar a
forma de atendimento à criança no âmbito da atenção
primária. Essa estratégia tem como objetivo reduzir a
mortalidade infantil por meio da melhoria da qualidade
do atendimento prestado às crianças.12 Dessa forma,
os profissionais capacitados para essa estratégia
estão aptos a assistir à população infantil por meio
de uma anamnese holística, evitando a fragmentação
da assistência, favorecendo melhor identificação
de alterações patológicas e maior controle de um
crescimento e desenvolvimento saudáveis.
Contrariando as normas do MS, que preconizam a
implantação da AIDPI nos municípios brasileiros, os profissionais da atenção básica do município de Aracaju não
utilizam as normas da estratégia para atender as crianças
menores de 5 anos. Contudo, deveria ser imperativo
normatizar a assistência baseada na metodologia da
AIDPI nesse município do Nordeste brasileiro, região que
apresenta os piores indicadores socioeconômicos e de
saúde entre sua população infantil.12
Portanto, os resultados desta investigação sugerem
a necessidade de aprimoramento e capacitação dos
enfermeiros da atenção básica, evidenciando-se
uma redução significativa da frequência de acertos
na maioria das questões referentes à metodologia
da AIDPI. Quando comparado o total de acertos dos
enfermeiros capacitados com os não capacitados
pela estratégia, não houve diferença significativa (p >
0,05). Os questionamentos com menor percentual de
acertos por parte dos enfermeiros foram os referentes
ao objetivo da estratégia AIDPI, as doenças prevalentes
na infância, respiração rápida e falhas no crescimento e
no desenvolvimento da criança.
Ressalte-se, ainda, que grande parte dos enfermeiros
foi treinada para essa estratégia há mais de nove anos
e o longo período de tempo pode ter sido decisivo
no resultado insatisfatório da pesquisa. Esse período
coincide com a data da última capacitação promovida
pela Secretaria Estadual de Saúde (SES) desse município,
que não oferta mais as capacitações referentes à AIDPI
para os profissionais, restando ao enfermeiro adquirir
conhecimentos para essa estratégia por meio de
instituições privadas. A única instituição pública que
oferta gratuitamente o curso para a estratégia AIDPI é
a Universidade Federal de Sergipe, porém esse curso
somente é realizado para os acadêmicos de enfermagem
no final do curso de graduação.
Dessa forma, a sensibilidade desses profissionais diante
de algumas condições de saúde na criança menor
de 5 anos encontra-se deficiente, até mesmo em situações corriqueiras – por exemplo, em relação ao
acompanhamento do crescimento e do desenvolvimento
infantil e ao estado vacinal da criança. Essas condições
são abordadas tanto no Manual de Normas de Vacinação
do Ministério da Saúde como nos protocolos de Atenção
à Saúde da Criança em níveis nacional e municipal, não
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 481-490, out./dez., 2011
489
AIDPI: Conhecimento dos enfermeiros da atenção básica do município de Aracaju-SE
constituindo justificativa para o déficit no conhecimento
desses profissionais quanto ao manejo e às condutas
para os problemas prevalentes na infância.
Esse quadro resulta em um processo de classificação
ou estratificação de risco infantil ineficaz nas unidades
básicas e, consequentemente, favorece a superlotação
nas urgências hospitalares, muitas vezes desnecessárias,
pois a maioria dos casos encontrados nos setores
de urgência pode ser resolvida na atenção básica. É
relevante afirmar, também, que casos que necessitam
de referência urgente, algumas vezes, perdem em
prioridade para casos mais simples.
Ratifica-se, então, que as capacitações profissionais
voltadas para a estratégia AIDPI ou associadas a outros
protocolos que abordam a saúde infantil são relevantes
para a qualidade de atendimento às crianças e melhoria
dos indicadores de saúde infantil no município de
Aracaju. Por outro lado, os resultados apresentados
demonstram que apenas a capacitação não é suficiente
para um bom conhecimento em relação à estratégia.
É necessária uma prática constante na rotina de
atendimento para que melhores resultados sejam
obtidos em relação ao perfil de conhecimento desses
enfermeiros.
REFERÊNCIAS
1. Rocha LMB. Avaliação do processo de implantação da estratégia da Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI) no Programa
de Saúde da Família, no município de Russas-CE – 2000 – 2004. Fortaleza (CE): Universidade Estadual do Ceará; 2007.
2. Brasil. Ministério da Saúde. Saúde da criança: acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil. Brasília: Ministério da saúde;
2002.
3. Cesar JA, Mendonça-Sassi R, Horta BL, et al. Indicadores básicos de saúde infantil em área urbana no extremo sul do Brasil: estimando
prevalências e avaliando diferenciais. J Pediatr. 2006; 82(6): 437-44.
4. Brasil. Ministério da Saúde. Organização Mundial da Saúde. Organização Pan-Americana da Saúde. AIDPI para o ensino: manual para graduação
médica. Brasil: Ministério da Saúde; 2003.
5. Amaral JJF, Victora CG, Leite AJM, Cunha AJLA. Implementação da estratégia Atenção às Doenças Prevalentes na Infância no Nordeste, Brasil.
Rev Saúde Pública. 2008; 42(4): 598-606.
6. Vidal AS, Silva EV, Oliveira MG, et al. Avaliação da aplicação da estratégia da Atenção Integrada às Doenças Prevalentes da Infância (AIDPI) por
Agentes Comunitários de Saúde. Rev Bras Saúde Matern Infant. 2003; 3(2): 205-13.
7. Paixão AC, Barreto ES, Amaral JJF. Atenção Integral às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI) e o Ensino da Pediatria na Universidade Federal
de Sergipe. Revista de Pediatria do Ceará. 2003; 4(1): 51-4.
8. Valente MH, Gomes FMS, Veríssimo MLR, Sigaud CHS, Chiesa AM, Bertolozzi MR. A interdisciplinaridade e a aplicação da estratégia de atenção
integrada às doenças prevalentes na infância: Instrumentos para a consolidação do sistema único de saúde. Pediatr. 2000; 22(1): 82-9.
9. Felisberto E. Avaliação do processo de implantação da estratégia da Atenção Integrada às Doenças Prevalentes da Infância (AIDPI) no Programa
Saúde da Família (PSF) no estado de Pernambuco no período de 1998 a 1999 [Dissertação]. Recife (PE): Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva
do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães da Fundação Oswaldo Cruz; 2001.
10. Wassall P, Ferreira PCN. Pediatria dia a dia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora de Publicações Científicas; 2005.
11. Vidal AS, Silva EV, Oliveira MG, et al. Avaliação da aplicação da estratégia da Atenção Integrada às Doenças Prevalentes da Infância (AIDPI)
por agentes comunitários de saúde. Rev Bras Saúde Matern Infant. 2003; 3(2): 205-13.
12. Santos MEA, Quintão NT, Almeida, RX de. Avaliação dos marcos do desenvolvimento infantil segundo a Estratégia da Atenção Integrada às
Doenças Prevalentes na Infância. Anna Nery Rev Esc Enferm. 2010; 14(3): 591-8.
13. Amaral J, Gowns E, Bryce J, Leite AJM, Cunha ALA, Victora CG. Effect of Integrated Management of Childhood Illness (IMCI) on health worker
performance in Northeast-Brazil. Cad Saúde Pública. 2004; 20(2): 209-19.
14. Collet N, Oliveira BRG. Manual de enfermagem em pediatria. Goiânia: AB; 2002.
15. Nascimento LFC, Marcitelli R, Agostinho FS, Gimenes CS. Análise hierarquizada dos fatores de risco para pneumonia em crianças. J Bras
Pneumol. 2004; 30(5): 445-51.
16. Nascimento MBR, Issler H. Aleitamento materno em prematuros: manejo clínico hospitalar. J Pediatr. 2004; 80(5): 163-72.
17. Monteiro FPM, Silva VM da, Lopes MVO de, Araujo TL de. Condutas de enfermagem para o cuidado à criança com infecção respiratória:
validação de um guia. Acta Paul Enferm. 2007; 20(4): 458-63.
18. Pina JC, Mello DF, Mishima SM, Lunardelo SR. Contribuições da estratégia atenção integrada às doenças prevalentes na infância ao acolhimento
de crianças menores de cinco anos. São Paulo, 2009; 22(2): 142-8.
19. Amaral JJF, Victora CG. The effect of training in Integrated Management of Childhood Illness (IMCI) on the performance and healthcare
quality of pediatric healthcare workers: a systematic review. Rev Bras Saúde Matern Infant. 2008; 8(2): 151-62.
Data de submissão: 16/12/2010
Data de aprovação: 30/7/2011
490
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 481-490, out./dez., 2011
A VIVÊNCIA DOS PAIS DE UMA CRIANÇA COM MALFORMAÇÕES CONGÊNITAS*
THE EXISTENCE OF THE PARENTS OF A CHILD WITH CONGENITAL MALFORMATION
LA VIVENCIA DE LOS PADRES DE UN NIÑO CON MALA FORMACIONES CONGÉNITAS
Shirley Ribeiro dos Santos1
Iêda Maria Ávila Vargas Dias2
Anna Maria de Oliveira Salimena3
Vânia Maria Freitas Bara4
RESUMO
O confronto entre o filho imaginário e o filho real assume várias dimensões diante de um diagnóstico de malformação
congênita e tende a repercutir intensamente no âmbito familiar. Por isso, os profissionais de saúde devem interagir de
forma adequada, visando à detecção de problemas e à intervenção precoce o que se torna indispensável à reflexão sobre
a vivência dos pais de uma criança malformada, objeto de estudo desta investigação, que teve como objetivos conhecer a
vivência dos pais referente o nascimento de uma criança portadora de malformação congênita e identificar os processos
emocionais desencadeados nos pais após o diagnóstico de malformação congênita. Esta pesquisa, de abordagem
qualitativa, foi realizada na Unidade deTratamento Intensivo Neonatal de um hospital filantrópico de Juiz de Fora, sendo os
sujeitos do estudo oito pais de crianças nascidas com malformação congênita, internados na referida unidade nos meses
de setembro a novembro de 2008. Os relatos mostraram que é grande o impacto emocional da notícia de malformação
congênita, o que desencadeia reações diversas nos pais, configurando-se como uma vivência marcante para todos os
membros da família. Por fim, o estudo mostrou-se elucidativo, apontando a necessidade de os profissionais de saúde
estarem capacitados para intervir adequadamente nos casos de malformação congênita, bem como a necessidade de
pesquisas de enfermagem sobre este tema, a fim de instrumentalizar o enfermeiro para o cuidado e ampliar o corpo de
conhecimento da área de enfermagem.
Palavras-chave: Crianças com Deficiências; Enfermagem; Família.
ABASTRACT
The conflict between the imagined child and the real one assumes several dimensions in the face of a congenital malformation
diagnosis and tends to reflect upon the family as a whole. Health professionals must interact appropriately in order to detect
problems and provide early intervention. Therefore it is absolutely essential to consider the experience of the parents of a
child with congenital malformation. This study aims to acknowledge the parents’ experience regarding the birth of a child
with congenital malformation, and to identify their feelings after the congenital malformation diagnosis.This is a qualitative
research performed in an Antenatal Intensive Care Unit of a philanthropic hospital in the city of Juiz de Fora.The study subjects
were eight parents of children with congenital malformation hospitalized in that unit between September and November
2008.The report describes the huge impact generated by the congenital malformation diagnosis and the emotional reactions
on parents and other family members. This study was instructive in pointing to which extend health professionals need to
be prepared to act properly in cases of congenital malformation. It highlighted as well the need for further nursing research
in order to better prepare nurses for the caring of a malformed child as well as expand the nursing body of knowledge.
Key words: Congenital Malformation; Nursing; Family.
RESUMEN
El conflicto entre el hijo imaginario y el hijo real asume varias dimensiones ante el diagnóstico de malformación congénita
y tiende a repercutir intensamente en el ámbito familiar. Los profesionales de salud deben interactuar correctamente
buscando la detección de problemas y la intervención precoz. Por ello es indispensable considerar la experiencia de
los padres de niños con malformación congénita. El objeto del presente estudio fue conocer la experiencia de dichos
padres referente al nacimiento del niño portador de malformación congénita e identificar sus emociones después de
tal diagnóstico. Se trata de una investigación cualitativa realizada en la Unidad de Tratamiento Intensivo Neonatal de
un hospital filantrópico de la ciudad de Juiz de Fora. Los sujetos del estudio fueron ocho padres de niños nacidos con
malformación congénita, internados en la referida unidad entre los meses de setiembre y noviembre de 2008. Los
relatos mostraron que, ante la noticia de malformación congénita, hay un fuerte impacto emocional que desencadena
distintas reacciones en los padres y en los demás miembros de la familia. El estudio se mostró instructivo y apunta
para la necesidad de capacitación de los profesionales de salud con miras a intervenir adecuadamente en los casos de
malformación congénita. Señala, además, la necesidad de realizar más estudios de enfermería sobre este tema para
que los enfermeros estén aptos a cuidar a estos niños y, asimismo, ampliar su conocimiento.
Palabras clave: Malformación Congénita; Enfermería; Familia.
*
Pesquisa. Recorte do relatório da monografia apresentada final do Curso de Graduação da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de
Fora-MG (FACENF/UFJF), 2009.
1
Enfermeira. Graduada pela FACENF/UFJF.
2
Doutora em Enfermagem. Orientadora da Pesquisa. Professora do Departamento Enfermagem Materno-Infantil da FACENF/UFJF-MG.
3
Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento Enfermagem Aplicada da FACENF/UFJF.
4
Mestre em Enfermagem. Professora do Departamento Enfermagem Aplicada da FACENF/UFJF.
Endereço para correspondência – Rua Paulino de Sousa Ramos, 74, Alto da Brisa – Bicas/ MG – CEP: 3660-000. E-mail: shirley.enfermagem@gmail.com
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 491-497, out./dez., 2011
491
A vivência dos pais de uma criança com malformações congênitas
INTRODUÇÃO
O desenvolvimento embrionário normal compreende
uma série de processos que ocorrem de forma ordenada,
de modo a permitir que o indivíduo nasça com aspectos
idênticos aos dos seus semelhantes. No entanto, durante
a embriogênese normal, podem ocorrer modificações
de maior ou menor gravidade, que fazem com que o
recém-nascido apresente diferenças em relação aos
demais indivíduos de sua espécie. As irregularidades no
desenvolvimento são muito heterogêneas, abrangendo
desde alterações em nível molecular e celular até a
formação defeituosa e, mesmo, a não formação de um
ou mais órgãos.1
As malformações congênitas constituem alterações de
estrutura, função ou metabolismo presente ao nascer
que resultam em anomalias físicas ou mentais, podendo
ou não ser simples ou múltiplas, de maior ou menor
importância clínica.2 Elas podem ser classificadas em:
maior, quando estas têm como consequências graves
deformidades anatômicas, estéticos ou funcionais,
que podem levar à morte; e menores, quando não
há relevância cirúrgica e estética, podendo ser única,
múltiplas e associadas às malformações maiores.3
O interesse em pesquisar este tema surgiu da disciplina
de Saúde da Criança, oferecida no 5º período do Curso de
Graduação em Enfermagem. As malformações congênitas constituíram um dos conteúdos programáticos dessa
disciplina que possibilitou a confecção de um seminário
sobre o tema, cuja apresentação culminou na elaboração
de um artigo científico. Nesse ínterim, foi possível
perceber que as malformações congênitas são pouco
discutidas no meio acadêmico e nos estabelecimentos
de saúde, embora atualmente representem um
problema de saúde pública, dado o aumento nos índices
de nascimentos de crianças malformadas.
Ainda que tenha declinado o número de óbitos em razão
de fatores diversos no primeiro ano de vida, esse fato
não se verifica com aqueles relacionados aos defeitos
congênitos, hoje a segunda causa de mortalidade
infantil no país. Embora venha ocorrendo a queda na
taxa de mortalidade infantil, as malformações congênitas
passaram a ganhar maior visibilidade. 4
No Brasil, durante a década de 1980, as causas perinatais
eram as principais responsáveis pela mortalidade
infantil, correspondendo a 38% dos óbitos de menores
de um ano. Nesse mesmo período, as malformações
ocupavam a quinta (última) posição entre as principais
causas, o que correspondia a 5% do total. As causas
perinatais permaneceram em primeiro lugar, porém as
malformações congênitas passaram a ocupar o segundo
lugar, respondendo, atualmente, por 13% dos óbitos de
menores de 1 ano.4
Além da mortalidade, as malformações congênitas são
responsáveis por alto índice de morbidade, definida
como risco para o desenvolvimento de complicações
clínicas, incluindo o número de internações e a
gravidade de intercorrência. Assim, as malformações
congênitas assumem importante papel no quadro de
492
morbimortalidade no contexto atual,4 além de causarem
grande impacto na vida e na saúde do portador e de sua
família, dada a cronicidade dessa patologia.
Assim, as malformações congênitas desencadeiam, além
de problemas médicos, psicológicos e econômicos,
desestruturação familiar, em decorrência do trauma
psicológico e da dificuldade de adaptação à nova
realidade.5 Nesses casos, a família pode passar por
um processo de luto, equivalente ao luto por morte.
Tal situação requer uma adaptação à nova realidade,
sendo esse processo longo e gerador de crises, desgaste
emocional e conflitos familiares.6
O nascimento de um filho é um momento único e faz
parte do ciclo de vida de uma família e, em muitos
casos, representa a realização social, o símbolo da
masculinidade do pai e a realização emocional da mãe.
Durante o período gestacional, embora haja certo medo
e ansiedade, o casal fantasia, faz planos, imagina como
será o filho.7 O nascimento de uma criança portadora
de malformação congênita é uma situação em que há
o confronto entre o filho imaginado e o real.
Portanto, o processo de adaptação é individual e
significa um desafio para os profissionais da área de
saúde, que terão de lidar não somente com a criança,
mas também com sua família. Para isso, é indispensável
que conheçam os processos emocionais e adaptativos
das famílias que vivenciam a chegada de uma criança
malformada. Com base nessa problematização, surgiu
a seguinte questão norteadora: Como se configura a
vivência do familiar de uma criança que nasce com
malformação congênita? Para responder a essa questão,
foram traçados os seguintes objetivos:
• conhecer a vivência dos pais de uma criança portadora
de malformação congênita e
• identificar os processos emocionais desencadeados
nos pais após o diagnóstico de malformação congênita,
buscando compreender o processo de adaptação.
A relevância do estudo encontra-se na necessidade
de a equipe de saúde estar preparada para atuar no
cuidado da criança malformada e seus familiares. Isso
porque os profissionais, em grande parte, não estão
preparados técnica e emocionalmente para lidar com
o nascimento de uma criança malformada, uma vez
que se sentem ansiosos, desconfortáveis e impotentes
diante da incumbência de comunicar aos pais a
notícia de malformação. Por isso é fundamental que os
profissionais envolvidos nessa nova realidade da família
conheçam todo o processo pelos quais os pais passam,
a fim de melhor assisti-los.7 Além disso, é necessário que
os profissionais promovam um ambiente favorável no
qual a mãe possa demonstrar seus medos e anseios e
também um ambiente acolhedor que permita o bemestar tanto da mãe quanto do filho.8
Considerando que o cuidado da criança malformada e
sua família só serão alcançados mediante o respeito e
a responsabilidade conquistados por meio de práticas
de avaliações e intervenções familiares confiáveis, de
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 491-497, out./dez., 2011
ações terapêuticas e de relações interpessoais afetivas,5
pressupõe-se que, conhecendo a vivência dos pais
quanto ao nascimento de uma criança portadora
de malformação congênita, objeto de estudo desta
investigação, obtenha-se subsídios para a implantação
de ações que promovam a atenção ao núcleo familiar
da criança malformada.
Espera-se, com este estudo, ampliar o conhecimento da
equipe de saúde sobre os mecanismos de adaptação
das famílias à notícia de um filho malformado, visando
à intervenção precoce e à detecção de problemas, para
que a equipe possa atuar como orientadora da família
e também suscitar a discussão sobre o tema nos meios
acadêmico e profissional, pois este é um assunto difícil
e pouco debatido, mas que está presente no cotidiano
hospitalar e merece atenção e conhecimento.
PERCURSO METODOLÓGICO
Na busca para alcançar os objetivos propostos, foi
realizada uma investigação de natureza descritiva, cuja
finalidades foram observar, descrever e documentar
os aspectos de uma situação. Considerando a forma
interpretativa com que se tratou o objeto de estudo,
escolheu-se a abordagem metodológica qualitativa,
que se baseia na premissa de que os conhecimentos
sobre os indivíduos só são possíveis com a descrição da
experiência humana, tal como ela é vivida e definida por
seus próprios atores.9
Nesse sentido, a pesquisa qualitativa se preocupa, nas
ciências sociais, com um nível de realidade que não
pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o
universo de significados, motivos, aspirações, crenças,
valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais
profundo das relações, dos processos e dos fenômenos
que não podem ser reduzidos a operacionalizações de
variáveis.10
O cenário da pesquisa foi o Centro de Tratamento
Intensivo Infantil (CTII) de um hospital filantrópico
de Juiz de Fora, que oferece atendimento particular,
conveniado e público pelo Sistema Único de Saúde
(SUS). A escolha dessa instituição justifica-se pelo seu
apoio e incentivo ao desenvolvimento científico e por
ser considerada de referência para o atendimento de
gestações de alto risco.
Os critérios de elegibilidade dos indivíduos para esta
investigação foram: ter mais de 18 anos, ser pai ou mãe
de criança com malformação congênita que estivesse em
tratamento na referida unidade da instituição e aceitar
de forma voluntária participar do estudo. A coleta de
dados se deu por meio da entrevista aberta, tendo a
seguinte questão norteadora: “O que é para você ter
um filho com malformação congênita? As entrevistas
foram realizadas de acordo com a disponibilidade dos
pais em sala reservada da própria unidade de tratamento
intensivo infantil.
O número de participantes foi estipulado pelo ponto de
saturação, ou seja, o número de sujeitos foi considerado
suficiente quando o pesquisador não assimilou mais
nada de novo no que se refere ao objeto de estudo.
Dessa forma, obteve-se um total de oito participantes,
sendo sete mães e um pai, que, após serem previamente
informados sobre a pesquisa e conhecerem os objetivos
desta, assinaram o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE) e prestaram depoimentos abordando
o tema de forma livre, com o mínimo de interferência,
pelo tempo que acharam conveniente. Os sujeitos
entrevistados foram identificados com a letra “E”,
acompanhada pelo índice numérico 1 a 8, exemplo “E1,
E2, E3” para padronizar, demonstrando as ordens das
entrevistas e preservando a identidade dos sujeitos.
Os depoimentos foram gravados em fitas magnéticas
com aquiescência dos depoentes e garantia de sigilo
e anonimato, respeitando as diretrizes e normas
regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres
humanos, previstas na Resolução nº 196/96, do Conselho
Nacional de Saúde.11 Ressalte-se que o estudo obteve
a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do
Hospital campo de estudo, por meio do Protocolo nº
0051/2008.
A análise dos dados teve início após o término da coleta
de dados. Os dados coletados foram transcritos em
sua totalidade, respeitando todas as falas, expressões
e pensamentos dos sujeitos, para assim compreenderlhes a vivência. Após as transcrições, foi realizada a
análise dos depoimentos. Com o intuito de atingir os
significados latentes, foram feitas repetidas e atenciosas
leituras de cada depoimento, destacando-se as falas
mais significativas. Para isso, foi utilizada a técnica da
Análise Temática, que consiste em descobrir os núcleos
de sentido que compõem uma comunicação. Em
seguida, os dados foram revisados quanto ao conteúdo,
separados por semelhanças e diferenças em núcleos de
sentidos e iniciado o processo de codificação.10 Dessa
forma, depois de ressaltados os trechos relacionados aos
objetivos da pesquisa, pôde-se agrupá-los em unidade
de significado, formando, assim, categorias, pelas suas
semelhanças de expressões e pensamentos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos depoimentos permitiu a construção de
duas categorias analíticas, a saber: Enfrentamento do
diagnóstico da anormalidade, que aborda a percepção
dos pais perante as primeiras informações sobre a
deficiência do filho; e sentimentos vivenciados pelos
pais adiante da malformação, que trata da percepção
dos pais diante do nascimento de uma criança portadora
de malformação congênita.
Enfrentamento do diagnóstico da anormalidade
Toda experiência nova interfere na vida de uma pessoa,
desperta sentimentos e reações variadas que podem
causar mudanças nos hábitos e costumes, enfim, no seu
estilo de vida. Diante dessa situação, surge a reflexão de
como a notícia da malformação congênita pode afetar
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 491-497, out./dez., 2011
493
A vivência dos pais de uma criança com malformações congênitas
a família que esperou durante nove meses por um filho
perfeito.
da doença, não explicou o que era, como se pegava,
nada.... (E3)
No simples desejo de engravidar, inicia um processo de
formação de laços afetivos entre pais e filhos. Ao longo
da gestação, essa vinculação se concretiza, o afeto se
solidifica e, finalmente, no nascimento, se fortalece. O
nascimento de um filho enseja nos pais expectativas,
sendo a principal delas o sonho de uma criança“perfeita”.
Essa esperança se desvanece diante do nascimento de
um filho malformado, principalmente se a malformação
for visível.12
Eu fiquei sem saber de nada, hoje eu sei o nome da
doença; ele tem problema de coração, mais ainda quero
saber o que é síndrome. (E3)
Na primeira vez que vi minha filha, fiquei muito
assustada; a cabecinha dela era enorme, hoje eu até
peço perdão a DEUS, mas eu cheguei a ficar com medo
dela... (E8)
Eu acho que o físico é muito pior, a gente fica olhando a
criança... Dá dó que só..., mas a gente não pode chorar,
tem que ser forte porque a gente tem que dá ajuda para
os filhos da gente. (E2)
Fica evidente que, embora, as informações transmitidas
sejam reais, informar de forma destrutiva, ressaltando
somente os aspectos negativos do quadro, pode
desencadear nos pais expectativa errônea sobre o
desenvolvimento da criança. Essa percepção pode
dificultar não somente o processo de aceitação, como
também o estabelecimento das relações afetivas,
exacerbando o sentimento de rejeição.
O momento em que a notícia é dada tem sido alvo de
discussões na literatura.15 A notícia sobre a malformação
do filho, apresentada em momento inadequado, pode
desencadear e fortalecer sentimentos de revolta e de
raiva como nesses depoimentos:
Ressalte-se que durante a gestação, em momento algum,
os pais acreditam que seu filho possa nascer com alguma
malformação, por mais que manifestem preocupações
relativas à constituição do filho.13 As reações dos pais
ao serem informados que o filho esperado e idealizado
poderá não se desenvolver normalmente, por apresentar
algum tipo de deficiência, são variadas e dependem de
muitos fatores – por exemplo, o modo como o diagnóstico
é dado.
Nem me lembro muito bem, porque foi horrível; quando
ele falou, fiquei chocada. Telefonei para meu esposo
pedindo para ele vir direto para cá; quando eu contei,
ele não acreditou em mim. (E1)
Os depoentes referiram que os profissionais de saúde
não foram claros ao explicar a situação da criança, muitas
vezes, incumbindo a terceiros a responsabilidade de
comunicar a doenças aos pais. Essa forma de agir pode
retardar o início do entendimento e, principalmente,
a reestruturação familiar. Os profissionais não estão
preparados para atuar diante desse tipo de situação,
pois a maioria desconhece os processos emocionais
desencadeados nos pais.14 Assim, a falta de habilidade
dos profissionais ficou evidenciada:
Nesse sentido, os depoimentos reforçaram que a forma
como a notícia da malformação é transmitida aos pais
é diversificada, podendo desencadear reações diversas
e comprometer as ações necessárias para seu bom
desencadeamento. Portanto, torna-se importante que
os profissionais de saúde, ao informarem o diagnóstico,
o transmitam de maneira adequada, com informações
claras e objetivas, utilizando linguagem acessível que
propicie aos pais condições de discutir suas dúvidas.
As médicas não falam nada do que ele tem, só que ele
está bem, mas eu vejo que não está, porque eu venho
aqui todo o dia e não percebo isto. (E1)
Depois do parto, veio uma médica e falou que minha
filhatinhahidrocefalia...Nahoraeuespanteiporquenem
sabia o que era isso, mas depois me explicaram. (E8)
O uso da linguagem inadequada, com palavras que não
são do uso habitual do vocabulário dos pais, e o uso de
terminologias científicas são fatores que dificultam a
compreensão exata das informações. Na maioria das
vezes, o entendimento errôneo das informações faz com
que os pais criem expectativas que não vão se confirmar,
gerando, assim, ansiedade e angústia, dificultando ainda
mais a compreensão das informações, como se percebe
neste depoimento:
Ele falou de qualquer jeito, sem se importar muito; só
falou que a criança tinha síndrome, não disse o nome
494
Chorei o tempo todo... Não esperava por isso; minha
mãe tentou me acalmar, mais na época eu não queria
aceitar que meu neném tinha problemas; ninguém
espera isso. (E6)
O profissional enfermeiro é o membro da equipe de
saúde mais presente no cenário do cuidar, por isso, tornase relevante que esteja preparado para interagir com a
família da criança malformada. Deve estar disposto a
priorizar a comunicação efetiva, estabelecer o diálogo
entre os profissionais e a família, compartilhar com os
pais atenção, escuta, empatia e respeito; oferecê-los as
devidas orientações; compreender o relacionamento
pais-filhos, solidificando os laços entre estes. Caso isso
não ocorra, os pais tendem ao isolamento completo, o
que compromete de forma impactante todo o processo
de cuidar.16
Sentimentos vivenciados pelos pais adiante da
malformação
Quando a mulher descobre que está grávida, várias
mudanças em seu corpo tornam-se perceptíveis. Ela
passa a se olhar de maneira diferente, e aí começam a
se desenvolver os laços afetivos entre mãe e filho, que
se intensificam durante toda a gestação. Por um longo
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 491-497, out./dez., 2011
período, o ser que se desenvolve em seu ventre fará parte
do seu corpo e, quando os movimentos fetais passam
a ser sentidos, o vínculo vai se fortalecendo, pois a mãe
sente a presença da vida dentro de si.17
Depois que a gente fica sabendo do problema, no
primeiro momento a gente acha que o filho não é nosso,
que tem alguma coisa errada... mas depois a gente
percebe que é nosso filho. (E7)
Cada mulher se relaciona com seu futuro bebê de acordo
com sua história de vida. Durante a gestação, tanto a
mulher quanto o homem passam por um emaranhado
de sentimentos, muitas vezes contraditórios, quase
sempre predominando a ansiedade e o medo sobre o
resultado final da gestação.18 Nesse período, os temores
dos pais são aqueles relacionados às fantasias – por
exemplo, o medo de não saber como cuidar do bebê
e um temor universal de ter um filho com alguma
deficiência física evidente.19
Eu tive muitos problemas depois que o médico falou do
problema dele. Meu marido não aceitava que o filho era
dele e me culpou por isso, mas o médico falou com ele
e agora tá tudo bem. (E1)
Nesse sentido, quando algo de inesperado acontece e
o bebê tão esperado nasce com alguma malformação
congênita, ocorre uma ruptura súbita entre o idealizado
e a realidade, conforme fica evidenciado nas falas
abaixo:
Eu já até tinha ouvido falar que algumas criança
nascem doentes, mas nunca imaginei que pudesse
acontecer comigo; a gente nunca espera. (E8)
Eu nunca ia imaginar isso; eu fiz todos os exames e não
deu nada naquele exame, ultrassom. Pra mim, estava
tudo bem, tudo certo, depois, quando o médico falou
da doença dele, foi um susto. (E3)
O sentimento de perda do filho imaginado e idealizado é
inevitável. O bebê sonhado não existe, a criança perfeita
que esperavam não veio, e em seu lugar terão de aceitar
algo fora de suas expectativas e sonhos.20 Então, os pais
reagem à ideia da deficiência de maneira individual e
passam por etapas diferenciadas diante do diagnóstico
de uma doença grave até chegarem à fase de adaptação,
como: choque, negação, tristeza e raiva, equilíbrio e
reorganização. A reação inicial mais comum é o choque,
principalmente quando o diagnóstico é comunicado de
forma abrupta ou prematuramente,21 como evidenciado
nos seguintes depoimentos:
Foi muito ruim. Às vezes nem gosto de lembrar, foi
minha mãe que me disse que ela tinha problema... Meu
marido me deu força, mais é um choque, a gente nunca
imagina isso. (E4)
Foi um susto tão grande, só Deus mesmo para dá força...
Chorei muito quando soube; é nosso primeiro filho,
tenho até medo de tentar outro filho e ter que passar
por tudo isso de novo. (E5)
O choque é definido como uma interrupção abrupta,
uma quebra de equilíbrio. Esse período é, muitas vezes,
acompanhado de choro, de condutas irracionais,
sentimentos de desamparo. Os pais se sentem sozinhos,
desapontados, como se ruísse o mundo que construíram.
Passada a reação inicial, marcada predominantemente
pela reação de choque, os pais vivenciam os mais
variados sentimentos, sendo a negação a segunda fase
do processo de adaptação, como evidenciado a seguir:
A negação é um processo de atordoamento, entorpecimento, descrença, no qual os pais não se permitem
admitir a realidade. Essa negação inicial funciona como
um para-choque, uma defesa após notícias chocantes
e inesperadas. A intensidade dessa reação é muito
variável, entretanto ela não costuma ser muito longa.
É considerada um período de transição, uma defesa
temporária, que será substituída por sentimentos menos
radicais.22
Quando não é mais possível manter firme o estágio de
negação, ele é substituído por sentimentos de tristeza
e raiva, a terceira fase do processo. Surge, então, a
pergunta: Por que eu?
A hora que ele nasceu mesmo, eu só me perguntei
por que comigo, mas eu acho que estas pessoas que
recebem isto são mães especiais. (E1)
Senti muita raiva da médica que fazia o controle dele.
Ela também não via nada, porque ela é médica da
família e também não percebeu... Isso só foi percebido
depois, porque ele ficava com pneumonia, ficava
internado no hospital. A terceira vez que ele internou
com pneumonia ele deu uma insuficiência e foi para o
CTI. Lá que o médico desconfiou, porque ele estava com
11 meses e não firmava a cabeça. (E7)
O sentimento de raiva aparece à medida que os pais
sentem que seus sonhos e projetos não serão realizados.
A raiva pode ser direcionada a vários alvos: profissionais,
família, cônjuges e até mesmo vizinhos. É um período
dos mais difíceis de lidar, principalmente para os
profissionais, que não estão preparados para ser o alvo
da agressividade, por isso a importância de conhecer os
processos emocionais pelo quais os pais passam.
O quarto estágio é o de culpa e acontece quando o
paciente não pode mais negar a realidade apresentada:
sua revolta e raiva, então, darão lugar a um grande
sentimento de perda.
Lá na minha cidade todo mundo comenta que minha
filha tem cabeça grande; eles não falam diretamente,
mas eu sei que eles falam que a culpa é minha, que eu
não devia ter fumado e bebido. (E8)
Às vezes eu não tomava aquele remédio, o sulfato
ferroso, me enjoava muito... Talvez se eu tivesse tomado
os remédios direitinho ele não estaria assim. Nunca que
ia imaginar que isso pudesse acontecer. (E4)
Pode-se perceber nesses depoimentos que as mães se
culpam pelo que aconteceu. Elas tentam encontrar um
motivo que justifique a malformação. A culpa expressa
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 491-497, out./dez., 2011
495
A vivência dos pais de uma criança com malformações congênitas
a necessidade de saber por que aconteceu com eles e se
eles mesmos foram os causadores do problema.
O quinto estágio, a adaptação/reorganização, será
alcançado somente pelos pais que conseguirem superar
suas angústias e ansiedades e pelos que tiverem tido
tempo e ajuda:
Vou te falar a verdade, não sei se é porque a gente tem
religião e tem fé em alguma coisa. E isso me ajudou
bastante. Porque eu acho que se eu não tivesse fé em
alguma coisa eu não tinha aceitado, não. Mas graças
a Deus eu tô aceitando numa boa. E espero que a
Providência Divina faça alguma coisa... Para Deus nada
é impossível. (E5)
Até agradeço a Deus, porque a gente aprende a viver
com essa experiência. A gente tem aprendido bastante;
às vezes a gente vai reclamar de alguma coisa, mas
tem gente muito pior. Mas pelo menos ele esboça um
sorriso... Para gente tem sido uma experiência muito
grande. (E7)
Como pode ser percebido nesses depoimentos, o
período de adaptação/reorganização é o estágio em
que, na maioria das vezes, cessam os mecanismos de
defesa e inicia-se uma gradativa aceitação da verdadeira
realidade. É durante esse período que os pais relatam
maior apego e interação com seus filhos. É durante
essa fase que os pais procuram colocar em ordem seus
sentimentos.
Para que esse período tenha sucesso, é imprescindível o
apoio mútuo aos pais, para que eles possam enfrentar as
futuras adversidades juntos.23 Vale relatar que o tempo
é um grande aliado para que as pessoas atinjam esse
estágio, tanto que um dos depoimentos apresentados
é de um participante que está há mais de seis anos com
o filho em cuidado intensivo.
Assim, foi possível constatar que o nascimento de um
filho malformado desencadeia nos pais sentimentos de
choque, negação, raiva, dor, luto pelo filho imaginário e
resistência em aceitar o filho real. Apesar dos sentimentos
negativos, pode-se perceber, também, a esperança
permeando os depoimentos dos pais. Nesse sentido, a
relação de confiança e segurança estabelecida entre os
pais e a equipe de enfermagem pode oferecer subsídios
para que eles se sintam seguros e fortalecidos para
enfrentar a situação atípica do filho. Cabe ressaltar que
a família está inserida no cenário do cuidar, contudo os
profissionais devem facilitar a presença deles na unidade,
além de mantê-los informados, bem como participantes
efetivo dos cuidados, o que contribuirá para o processo
de adaptação/reorganização da realidade de ter um filho
mal formado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento deste estudo possibilitou conhecer
a percepção dos pais quanto ao nascimento do filho
malformado, bem como os processos emocionais e de
adaptação enfrentados nessa ocasião. Evidenciou-se que
os pais, ao serem informados da malformação do filho,
sentem o impacto da notícia desencadeando sofrimento,
principalmente pela perda dos sonhos depositados na
figura do filho perfeito.
Ao longo do trabalho, tanto na revisão de literatura
quanto no contato com os pais durante as entrevistas,
percebeu-se que o tema da malformação é negligenciado
na formação acadêmica dos profissionais e que, por isso,
estes se encontram despreparados diante de situações
dessa natureza. A linguagem utilizada pelos profissionais
e a forma como as informações foram transmitidas
dificultaram o entendimento da doença e, em alguns casos,
retardaram o processo de aceitação do diagnóstico.
Nas visitas feitas ao Centro de Tratamento Intensivo
Infantil, percebeu-se que a unidade não dispõe de
espaço adequado para a intervenção com a família – por
exemplo, um espaço de escuta que permita a expressão
de sentimentos e necessidades. O serviço oferece aos
pais visitas esporádicas do profissional de psicologia.
Acredita-se que um espaço terapêutico com atuação
multidisciplinar ajudaria os pais no enfrentamento dessa
delicada situação.
Cabe ao enfermeiro, como membro da equipe
multidisciplinar, possibilitar às famílias a compreensão do
quadro da malformação, evitando, assim, interpretações,
desencontros e paralisações nas relações tanto da equipe
quanto da família. Uma estratégia importante é a criação
degruposterapêuticos,queajudamospaisadesbloquear
frustrações e partilhar emoções e experiências com
outros pais que já passaram por situações semelhantes,
permitindo que, juntamente com a equipe, busquem
respostas para seus questionamentos.
O estudo mostrou-se bastante elucidativo e apontou
a necessidade de os profissionais de saúde estarem
capacitados para intervir adequadamente nos casos
de malformação congênita. Evidenciou, também, a
necessidade de realização de pesquisas de enfermagem
sobre este tema a fim de instrumentalizar o enfermeiro
para o cuidado e ampliar o corpo de conhecimento
teórico da área de enfermagem.
REFERÊNCIAS
1. Carakushansky G. Doenças genéticas na infância. Rio de Janeiro: Guanabara; 1979.
2. Castro MLS, Cunha CJ, Moreira BP, et al. Freqüência das malformações múltiplas em recém-nascidos na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul,
Brasil, e fatores sócio-demográficos associados. Cad Saúde Pública. 2006; 22(5): 1009-15.
3. Brasil. Ministério da Saúde. Atenção humanizada ao recém-nascido de baixo peso: método canguru. Brasília, DF: MS; 2001.
4. Horovitz DDG, Llerena JC, Mattos RA. Atenção aos defeitos congênitos no Brasil: panorama atual. Cad saúde Pública. 2005; 21(4): 1055-64.
496
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 491-497, out./dez., 2011
5. Guiller CA, Dupas G, Pettengill MAM. Criança com anomalia congênita: estudo bibliográfico de publicações na área de enfermagem pediátrica.
Acta Paul Enferm. 2007; 20(1): 18-23.
6. Piccinini C, Ferrari AG, Levandowsk DC, et al. O bebê imaginário e as expectativas quanto ao futuro do filho em gestantes adolescentes e
adultas. Interações. 2003; 8(16): 81-108.
7. Petean EBL, Pina JM. Investigações em Aconselhamento Genético: impacto da primeira notícia, a reação dos pais à deficiência. Medicina
(Ribeirão Preto). 1998; 31: 288-95.
8. Ribeiro C, Moreira AMF. O significado de ser mãe de um filho portador de cardiopatia: um estudo fenomenológico. Rev Esc Enferm USP. 2006;
40(1): 42-9.
9. Polit DF, Hungler BP. Fundamentos de Pesquisa em Enfermagem. 3ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1995.
10. Minayo MCS, organizador. Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 3ª ed. Petrópolis (RJ): Editora Vozes; 2001.
11. Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução n. 196 de 10 de outubro de 1996. Diretrizes e normas regulamentadoras
de pesquisa em seres humanos. Brasília: MS; 1996.
12. Souza M. Família-pessoa portadora de síndrome de Down na ótica da mãe: uma contribuição para a prática de cuidar na enfermagem [Tese].
Rio de Janeiro (RJ): Escola de Enfermagem Anna Nery Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1999.
13. Ferrareto I, Ferreira A, Ignácio A, et al. Ações integradas na reabilitação de crianças portadoras de paralisia cerebral. In: Kudo AM, Marcondes
E, Lins L, et al, organizadores. Fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional em pediatria. 2ª ed. São Paulo: Sarvier; 1994.
14. Pereira MZ, Santos LMP. Efeito da fortificação com ácido fólico na redução dos defeitos do tubo neural. Cad Saúde Pública. 2007; 23(1):
17-24.
15. Regen M, Ardore M, Hoffman VMB. Mães e filhos especiais: relato de experiências com grupos de mães de crianças com deficiência. Brasília:
CORDE; 1993.
16. Oliveira BG, Collet N. Criança hospitalizada: percepção das mães sobre o vínculo afetivo criança-família. Rev Latinoam Enferm. 1999; 7(5):
95-102.
17. Carvalho CM, Cardoso MVLML, Oliveira MMC, et al. Malformação Congênita: significado da experiência para os pais. Ciênc Cuidado Saúde.
2006; 5(3): 389-97.
18. Setúbal MSV, Barini R, Zacaria R, et al. Reações psicológicas diante da gravidez complicada por uma malformação fetal. [Citado 2008 abr
02]. Disponível em: http://www.barini.med.br.
19. Maldonado MTP. Psicologia da gravidez. 7ª ed. Petrópolis (RJ): Vozes; 1997.
20. Geara FT. Aspectos Comportamentais da família e do recém-nascido de alto risco. Psicópio: Revista Virtual de Psicologia Hospitalar e da
Saúde. 2005; 1(2): 35-43.
21. Antunes MSC, Patrocínio C. A malformação do bebê: vivências psicológicas do casal. Psicol Saúde Doenças. 2007; 8(2): 239-51.
22. Kubler-Ross E. Sobre a morte e o morrer: o que os doentes terminais têm para ensinar aos médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios
parentes. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes; 1991.
23. Portela MI. Grupo de Suporte de Pais. [Citado 2008 abr. 02]. Disponível em: http://www.apecdad.org/dowload/communicare.pdf.
Data de submissão: 4/9/2009
Data de aprovação 30/8/2011
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 491-497, out./dez., 2011
497
PERCEPÇÃO MATERNA ACERCA DO DISTÚRBIO NUTRICIONAL DO FILHO:
UM ESTUDO COMPREENSIVO
MATERNAL PERCEPTIONS ABOUT THE NUTRITIONAL DISORDER OF THE CHILD: A COMPREHENSIVE
STUDY
PERCEPCIÓN MATERNA SOBRE EL DISTURBIO NUTRICIONAL DEL HIJO: UN ESTUDIO COMPRENSIVO
Débora Arreguy Silva1
Gisele Nepomuceno de Andrade2
Fabrícia Marques Ribeiro Ferreira3
Elffie de Andrade4
Anézia Moreira Faria Madeira5
RESUMO
Trata-se de uma pesquisa qualitativa cujo objetivo foi compreender o significado, para as mães, de ter um filho com
distúrbio nutricional. Como trajetória metodológica, utilizamos a fenomenologia, que, como um caminho, nos permitiu
apreender a essência do fenômeno com base nos discursos de 16 mães. A coleta de dados foi realizada por meio de
entrevista direcionada às mães/responsáveis pelas crianças, guiada pela questão: Conta para nós o que é, para você, ter
um filho com problema de peso. Os discursos das mães permitiram construir quatro categorias de análise: Atenção à
alimentação do filho; Comparando o filho com outras crianças; Preocupação com o peso do filho; e Apoio do profissional
de saúde. Acredita-se que esta pesquisa possa auxiliar a organização do serviço de acompanhamento de crianças
com agravos nutricionais, de forma a subsidiar uma proposta educativa e contribuir para o atendimento adequado e
humanizado, enfocando sentimentos das mães em ter um filho com distúrbio nutricional.
Palavras-chave: Cuidado da Criança; Criança; Transtornos da Nutrição Infantil; Obesidade; Cuidados de Enfermagem;
Atenção Primária à Saúde.
ABSTRACT
This is a qualitative research that aimed to understand the meaning for the mothers of having a child with a nutritional
disorder. The use of Phenomenology as methodology allowed us to capture the essence of the phenomenon from
the speeches of 16 mothers. Data collection was conducted through interviews directed to the children’s mothers/
caretakers guided by the question: “Tell us what it means to you to have a child with a weight problem.” The mothers’
discourse allowed the definition of four categories of meaning: attention to child’s feeding; comparison with other
children; concern for child’s weight and healthcare professional’s support. This research will assist the follow-up care
of a child with nutrition problems in order to subsidize an educational proposal and contribute to proper and humane
care that focuses on the feelings of mothers of children with a nutritional disorder.
Key words: Child Care; Child; Child Malnutrition; Obesity; Nursing Care; Primary Health Care.
RESUMEN
Investigación cualitativa llevada a cabo con el propósito de comprender lo que significa para las madres tener un niño
con disturbio nutricional. Como trayecto metodológico se utilizó la fenomenología que, como camino, nos ha permitido
comprender la esencia del fenómeno a partir de los discursos de 16 madres. La recogida de datos fue realizada por
medio de entrevista con las madres/responsables de los niños, guiada por la pregunta: “Dígame lo que significa para
usted tener un hijo con problemas de peso”. Los discursos de las madres nos permitieran construir cuatro categorías de
análisis: Atención a la alimentación del hijo; Comparando el hijo con otros niños; Preocupación con el peso del hijo
y Apoyo del profesional de salud. Se cree que esta investigación tal vez pueda ayudar en la organización del servicio
de seguimiento de niños con disturbio nutricional de forma que se promueva una propuesta educativa y contribuya
a la atención adecuada y humanizada, con enfoque en los sentimientos de las madres que tienen niños con disturbio
nutricional.
Palabras clave: Cuidado al Niño; Niño; Desnutrición Infantil; Obesidad; Atención de Enfermería; Atención primaria
de la salud.
1
2
3
4
5
Acadêmica de Enfermagem do 9ª período da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG). Bolsista de iniciação científica.
E-mail: deboraasilva@hotmail.com.
Enfermeira. Mestranda do Programa de Pós-Graduação da EEUFMG. E-mail: giseleandrade@enf.mest.ufmg.br.
Acadêmica de Enfermagem do 6ª período da EEUFMG. Bolsista de iniciação científica. E-mail: fabricia_cecilia@yahoo.com.br.
Acadêmica de Enfermagem do 9ª período da EEUFMG. Bolsista de extensão.
E-mail: elffiea@gmail.com.
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da EEUFMG. E-mail: aneziamfm@enf.ufmg.br.
Endereço para correspondência – R. Intendente Câmara, 296, Liberdade – Belo Horizonte-MG. CEP: 31270-210. E-mail: debora_arreguy@yahoo.com.br.
498
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 498-503, out./dez., 2011
INTRODUÇÃO
Os distúrbios nutricionais infantis representam um
grande e permanente problema de saúde pública. 1
A qualidade da nutrição de uma população reflete
suas condições de vida, sendo fundamental para o
desenvolvimento do organismo. Na criança, a má
alimentação afeta não somente seu crescimento, como
pode torná-la vulnerável às doenças, prejudicar o
desenvolvimento, além de contribuir para exposição às
doenças crônicas.
No Brasil, observa-se a presença de duas situações
antagônicas em seu território: a carência nutricional, que
pode resultar em anemia e desnutrição, principalmente
nas regiões Nordeste e Norte do país, e a condição típica
de excessos alimentares, o sobrepeso e a obesidade.2 São
escassos os estudos de base populacional produzidos até
hoje com a população brasileira cujo enfoque principal
sejam problemas nutricionais, já que a investigação da
dieta e de seus componentes, seja por deficiência, sejam
por excesso, constitui ainda um grande desafio.3
Essa situação em que ocorre a presença da desnutrição
e o excesso de peso coexistindo em locais comuns
caracteriza a transição nutricional. A transição nutricional
expressa modificações mais gerais nos ecossistemas
de vida coletiva – habitação e saneamento, hábitos
alimentares, níveis de ocupação e renda, dinâmica
demográfica, acesso e uso social das informações,
escolaridade, utilização dos serviços de saúde, aquisição
de novos estilos de vida e outros desdobramentos.
Esse fenômeno é um dos maiores desafios para as
políticas públicas atuais e exige um modelo de atenção
à saúde centrado na promoção da saúde e prevenção
de agravos.4
Segundo relatório da Organização Mundial de Saúde
(OMS) de 2001,5 12,81% das crianças do mundo se
apresentam abaixo do peso ideal para a idade e 5,73%
possuem sobrepeso ou obesidade. No Brasil, de acordo
com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) de 2003,6 a desnutrição infantil atingiu
seus menores valores nos últimos 30 anos. Enquanto
isso, uma a cada cinco crianças residentes nas regiões
Sul, Centro-Oeste e Sudeste, com idade inferior a
10 anos, apresenta sobrepeso ou obesidade. Assim,
neste país, ao mesmo tempo que declina a ocorrência
da desnutrição em crianças num ritmo apressado,
aumenta a prevalência de sobrepeso e obesidade
nessa população. Concomitantemente, a incidência
de anemia carencial permanece com alta prevalência,
com taxas variando entre 40% a 50% em menores de 5
anos configurando assim, em termos de magnitude, o
principal agravo nutricional do país.4
Dentre os fatores que permeiam a questão da nutrição
infantil, destaca-se a influência do ambiente familiar.
Os pais criam condições para desenvolver nos filhos
hábitos alimentares saudáveis ou não, que influenciam
no ganho ponderal da criança. Os pais, especialmente
as mães, são constantemente referenciados em estudos
sobre agravos nutricionais. As mães ajudam a construir
atitudes e comportamentos que as crianças desenvolvem
em relação aos alimentos, porque são responsáveis pelas
refeições e têm o controle sobre a quantidade e o tipo
de alimento disponível.1
A mãe é a principal provedora de alimentação durante
os períodos cruciais do desenvolvimento da criança.
Assim, nos primeiros anos de vida, a relação com o meio
externo é mediada pela mãe, o que reforça a influência
dela no estado nutricional do filho.7
Apesar disso, pouco se conhece sobre as experiências
dessas mulheres que possuem um filho portador de
distúrbios nutricionais. A perspectiva de conviver com
essas crianças deve ser considerada no contexto materno,
analisando sua visão de mundo, sua compreensão do
binômio saúde-doença, sua afetividade, além da relação
com seu cotidiano e com aspectos culturais.8
Nesse contexto, mães de filhos desnutridos, geralmente,
não aceitam a doença do filho, passando a vê-lo como
um estigma e, muitas vezes, em virtude da relação
fome e pobreza, passam a omitir o problema. As mães
demonstram um sentimento de culpa pelo que está
acontecendo com o filho, associando a desnutrição
à falta de alimento ou à amamentação prolongada,
as quais, na sua concepção, comprometem o ato de
cuidar.9
Por sua vez, mães que possuem filhos com sobrepeso
ou obesos tendem a subestimar o excesso de peso das
crianças, o que aumenta a probabilidade de agravarlhes o estado nutricional. Esse seria um fator muito
importante sobre o aumento da incidência e prevalência
da obesidade e sobrepeso na população infantil.10 A
percepção inadequada sobre a situação nutricional do
filho seria um risco para o fracasso das intervenções
relacionadas a esse distúrbio. As respostas das mães com
filhos obesos ou com sobrepeso podem variar: alívio,
desinteresse, negação ou raiva.
A vivência no Programa de Acompanhamento de
Crianças com Distúrbios Nutricionais em um centro de
saúde de Belo Horizonte-MG, desde 2006, despertou-nos
para a realização desta pesquisa. Observamos que o fato
de as crianças não ganharem peso ou estarem acima do
esperado, em pesagens consecutivas, causa angústia e
preocupação às mães.
Pelo exposto, questionamos: Como a mãe vivencia os
distúrbios nutricionais do filho? O que significa para
ela pesar o filho e ver que ele não ganhou peso ou que
ainda está acima do peso?
Assim, com este estudo, o objetivo é compreender o
significado, para as mães, de ter um filho com distúrbio
nutricional.
Acreditamos que a realização desta pesquisa poderá
auxiliar a organização do serviço de acompanhamento
de crianças com agravos nutricionais, subsidiar uma
proposta educativa e contribuir para o atendimento
adequado e humanizado, enfocando sentimentos das
mães em ter um filho com distúrbio nutricional.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 498-503, out./dez., 2011
499
Percepção materna acerca do distúrbio nutricional do filho: um estudo compreensivo
PERCURSO METODOLÓGICO
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Trata-se de um estudo qualitativo cuja trajetória de
pesquisa foi a fenomenologia. A pesquisa qualitativa
proporciona uma compreensão aprofundada dos
fenômenos, já o enfoque fenomenológico busca
descrever e compreender a essência do vivido pelos
sujeitos.11 Nesse sentido, não pretendíamos identificar
aspectos formais nem clínicos dos agravos nutricionais,
tampouco explicar suas causas e consequências, mas
compreender a experiência vivida pela mãe em ter um
filho com agravo nutricional.
Atenção à alimentação do filho
Os sujeitos do estudo foram mães que frequentam
os grupos operativos de crianças de baixo peso e
sobrepeso, do Programa de Acompanhamento de
Crianças com Agravos Nutricionais do Centro de
Saúde São Paulo, Belo Horizonte-MG. Para a obtenção
dos dados, utilizamos entrevista aberta, guiada pela
pergunta: Conta para nós o que é, para você, ter um
filho com problema de peso. As participantes, antes
de serem entrevistadas, foram informadas sobre o
trabalho, seus objetivos e a forma de participação.
Após esclarecimentos, foram convidadas a participar
da pesquisa. Caso aceitassem, forneciam o seu
consentimento por escrito, atendendo, assim, às
formalidades estabelecidas pela Resolução nº
196/96, do Conselho Nacional de Saúde, que trata de
pesquisas com seres humanos.12
Como recurso metodológico, utilizamos o gravador,
que nos permitiu registrar os depoimentos na íntegra.
As entrevistas foram transcritas na sua totalidade e
interrompidas quando os conteúdos se tornaram
repetitivos, totalizando, assim, 16 entrevistas. A
pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa
da Universidade Federal de Minas Gerais, sob o Parecer
ETIC nº 0425.0.203.000-09.
Para chegarmos à essência do fenômeno, utilizamos
os momentos da análise compreensiva sugeridos por
Martins e Bicudo,11 fenomenólogos existencialistas.
Ou seja, inicialmente tomamos os discursos dos
sujeitos de forma atenta, e por meio da leitura
vertical, apreendemos o sentido do todo. Feito isso,
procedemos à leitura horizontal com o intuito de
identificar as unidades de significado presentes
nas falas dos sujeitos, momento chamado de
“redução fenomenológica”. De posse das unidades
de significado, elas foram transformadas em uma
linguagem articulada, mais elaborada, porém fiel às
ideias subjacentes das mães.
Pela convergência das unidades de significado,
chegamos aos temas de análise, que, novamente pela
redução fenomenológica, desvelaram as categorias
analíticas (essência do fenômeno), as quais foram
interpretadas. São elas: Atenção à alimentação do filho;
Comparando o filho com outras crianças; Preocupação
com o peso do filho; e Apoio do profissional de
saúde.
500
No que se refere a essa categoria analítica, foi-nos
possível perceber que as mães sentem-se perdidas,
angustiadas, sem saber o que fazer para o filho alimentar
melhor e, com isso, controlar o peso. Para elas, ter um
filho com problema de peso é estarem atentas à sua
alimentação; é uma vigília constante, procurando sempre
oferecer à criança uma dieta equilibrada em quantidade
e qualidade. Apreendemos nos depoimentos que as
mães são criativas, pacientes e mostram-se empenhadas
ao lidar com a alimentação do filho: elas fazem de tudo
para a criança alimentar-se melhor.
Assim, ele sempre teve alimentação boa. [...] Ele come
uma fruta, come uma banana ou um mamão, uma
coisa assim. [...] Ele come normal. [...] Aí eu fico mais
atenta, fico mais alerta nesse sentido. (E1)
É ruim porque ele não come direito, às vezes eu ofereço
algo para comer e ele não gosta [...] É ruim porque você
olha para criança e ela está magra demais. [...] Algumas
vezes eu procuro oferecer uma boa alimentação, e ela
não gosta daquele tipo de comida [...] Ele não é muito
fã de comida. (E7)
Ele não alimenta muito bem [...] ele não come, que antes
ele comia muito bem e tudo, mas agora que ele num tá
alimentando direito. [...] Eu faço de tudo [...] Tento dar
ele de tudo. (E8)
Eu tô fazendo de tudo pra tentar manter ele aí, com peso
bom, fazer essa dieta. (E14)
Nas diversas ações direcionadas à criança na atenção
primária à saúde, são enfatizados cuidados sobre a
alimentação, que incluem tipo de alimento, quantidade,
preparo e formas de oferecê-lo à criança. Nas reuniões
dos grupos operativos sobre agravos nutricionais
em crianças (sobrepeso e baixo peso) trabalha-se
enfaticamente sobre a importância de se manter uma
alimentação saudável. Por ocasião da consulta de
enfermagem direcionada ao acompanhamento do
crescimento e do desenvolvimento da criança menor
de 5 anos, percebemos como é angustiante para a
mãe o fato de o filho não se alimentar direito. Nesse
sentido, o profissional de saúde, juntamente com a mãe,
respeitando sua cultura e condições socioeconômicas,
deve buscar alternativas para garantir a alimentação
adequada da criança.
Hein13 demonstrou, em seu estudo, que a forma como as
mães lidam com a questão do distúrbio nutricional do
filho, em especial de baixo peso, é modificada conforme
elas adquirem informações na sua comunidade. O autor
ainda afirma que a partir do momento que ela percebe
a gravidade do problema de saúde do filho, torna-se
ciente da importância do cuidado materno. Já Frota e
Martins14 relatam que as mães de crianças com agravos
nutricionais, geralmente, desconhecem o real problema
e, dessa forma, a recuperação da criança é prejudicada
por falta de conhecimentos, como a preferência
nutricional em sua realidade socioeconômica.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 498-503, out./dez., 2011
O ambiente familiar, muitas vezes, segundo as mães,
prejudica a aceitação da alimentação pela criança. O
fato de ter consciência de que o filho ao se alimentar
melhor poderá melhorar o peso pode gerar ansiedade e
angustiar ainda mais a mãe, comprometendo a aceitação
do alimento pela criança. Nesse sentido, ao ficar longe
da mãe a criança poderá alimentar-se melhor, conforme
mostram os discursos.
Na escolinha eles falam pra mim que ela tá comendo
bem. (E6)
Na escola eles falam que ele alimenta muito bem. (E8)
Quando ela está na minha casa, eu tento dar as
coisas que ela precisa comer [...]. Ela não come de
jeito nenhum. (E9)
Um dos princípios básicos da alimentação é que esta
seja ministrada à criança em condições adequadas à
sua aceitação e à preservação do apetite. Significa que a
alimentação da criança deve ser oferecida em ambiente
tranquilo, acolhedor, evitando subterfúgios como forma
de fazer com que a criança coma. O ato de alimentar
deve constituir em momento prazeroso para mãe e para
o filho,15 haja vista que a ansiedade materna, agravada
pela condição nutricional do filho, muitas vezes pode
provocar repulsa na criança pelo alimento. Assim, fora
do ambiente familiar, no convívio com outras pessoas,
a criança será estimulada a comer melhor.
A ansiedade materna pode contribuir de maneira
negativa para a recuperação da criança com agravo
nutricional. Dessa forma, o fato de estar fora da vigilância
da mãe e, por conseguinte, da angústia materna diante
do distúrbio nutricional do filho, a criança pode sentir-se
menos pressionada e mais à vontade para comer.
Por outro lado, o fato de a criança conviver com outras
pessoas, principalmente avós, faz com que substitua a
alimentação saudável por guloseimas, como mostra o
depoimento de uma mãe de criança com sobrepeso:
Ah, ela é muito difícil, sabe por quê? Ela só come besteira.
Eu trabalho e ela fica na casa da minha mãe, então ela
come o que quer. É só besteira. (E11)
Comparando o filho com outras crianças
A sociedade e a medicina estabelecem parâmetros
antropométricos que servem de base comparativa
para todos, consciente ou inconscientemente. As
crianças tornam-se foco de atenção da sociedade
quando saem do dito “peso normal” e/ou “tamanho
normal”. Em virtude disso, familiares, vizinhos, pessoas
que convivem com a criança e até mesmo a própria
mãe e/ou responsável a comparam naturalmente
com outras crianças que consideram com peso e
tamanho esperados para aquela determinada idade.
Essa comparação causa angústia, chateação e tristeza
às mães. É ruim para elas o filho ser parâmetro de
comparação ou até mesmo de chacota ao olhar alheio,
sentimentos expressos nos discursos:
Ruim em todos os sentidos [...]. A criança não desenvolve,
todo mundo olha para ele como se fosse uma criança
raquítica [...]. Não faz bem pra gente [...]. Eu só não gosto
que falem mal dele. (E4)
Eu não acho bom não [...]. Não é bom não porque
tem muitas crianças que não tem o baixo peso [...].
Incomoda ficar comparando um com o outro. (E5)
Tem muita gente que gosta muito de falar, de ficar
comparando [...]. Só que eu não dou muita confiança
para o que os outros falam [...]. É ruim os outros ficarem
criticando. (E6)
E é triste também por causa dos apelidos [...]. Ele chega
triste em casa porque chamaram ele de elefante [...]. É
muito ruim. (E12)
A discriminação ainda é grande. A gente não quer ver,
saber que o filho vai sofrer ou qualquer coisa. (E13)
Paulo e Madeira16 descrevem o sentimento de tristeza
presente nas mães de crianças com agravos nutricionais
quando fazem uma comparação entre outras crianças
sadias e o filho. As autoras ainda afirmam que ver o filho
com problema de peso representa, para a mãe, uma
forma de colocar à prova sua função materna.
Assim, é importante orientar as mães sobre o estado
nutricional do filho e explicar-lhes que essa situação
pode ser transitória, desde que condutas corretas
sejam tomadas em tempo hábil, evitando, dessa
forma, comparações desnecessárias. Faz-se necessário,
também, escutar e interpretar os sentimentos maternos
como forma de ajudar no processo de recuperação do
peso do filho.
Preocupação com o peso do filho
Um dos aspectos essenciais emergido do fenômeno
revelou que as mães se sentem preocupadas em ter
um filho com problema de peso. Esse sentimento é
provocado pelo ganho insuficiente ou excessivo de peso
do filho, por ser uma situação nova para as mães e pelo
fato de o filho não se desenvolver conforme o esperado
para sua idade, podendo até mesmo desenvolver
alguma patologia.
Eu fico preocupada porque os médicos falam que ele
precisa ganhar peso [...]. Quando ele costuma ficar
perdendo peso demais, eu fico mais preocupada. (E1)
É difícil porque eu nunca tive menino com baixo peso
[...]. Eu tenho quatro filhos e eles nunca foram de baixo
peso. Esse é o primeiro filho com baixo peso [...]. Fico
preocupada. (E3)
Você pensa primeiramente é na questão da saúde
mesmo. Fico preocupada. Penso que pode vir a ter, se
continuar engordando, diabete, essas coisas [...]. (E12)
Eu fico muito preocupada mesmo. Eu tô fazendo de
tudo pra tentar manter ele aí, fazer essa dieta. Mas é
difícil, não é fácil, não. Que pra gente adulta já é difícil,
imagina pra uma criança. (E14)
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 498-503, out./dez., 2011
501
Percepção materna acerca do distúrbio nutricional do filho: um estudo compreensivo
A preocupação das mães no tocante a ter um filho
com problema de peso caracteriza-se como uma das
maneiras pelas quais elas estabelecem sua relação com
o mundo. Isso porque, sendo responsáveis pela criança,
sofrendo com a aparência dela, aprendendo a cuidar
dela e amadurecendo com a maternidade, é que elas,
sujeitos situados, vão se (re)fazendo em sua existência
concreta, construindo sua história existencial16.
Assim, uma das maneiras de tranquilizar as mães sobre
as condições nutricionais do filho seria estabelecer,
nas condutas direcionadas à criança de baixo peso e
sobrepeso na atenção primária à saúde, uma abordagem
otimista pelos profissionais de saúde, na qual o diálogo
e a escuta respeitosa sustentem essa relação.
A mãe sente-se culpada, também, pelo agravo nutricional
do filho, já que, muitas vezes, seu aspecto é decorrente
da falta de cuidado materno, explicitado pelas pessoas
de seu convívio ou como sentimento velado da própria
mãe. Nas diversas funções da maternidade, a mãe
procura identificar onde foi que errou.
Todo mundo olha para ele como se fosse uma criança
raquítica [...]. O pai dele acha que meu filho é desnutrido,
é mal cuidado [...]. Ele é o mais miudinho que tenho.
Eu olho assim, eu sinto: ‘Você não está cuidando desse
menino direito’. Por ele ser baixo peso acham que ele é
mal cuidado. (E4)
Eu acho difícil, porque as pessoas percebem e ficam
assim [...]. O pessoal lá perto de casa [...] me critica, às
vezes. (E6)
Não é falta de cuidar dela, não [...]. Que eu cuido dela
com muito carinho [...]. Eu acho que eu sou muito
cuidadosa. (E8)
A princípio eu fiquei superfrustrada, porque você acha
que errou, que falhou, que você faltou [...]. Que não
cuida dele direito. (E13)
Essa culpa materna reflete uma busca por respostas
com relação ao peso anormal da criança. Dessa forma,
as mães tentam encontrar justificativas para o distúrbio
de peso do filho nas suas próprias atitudes. Refletem
sobre o cuidado e sobre a dificuldade em lidar com essa
situação-problema. Em muitos discursos, a questão do
cuidado materno é referenciada. Elas tentam elucidar
essa situação por meio de alguma possível falha no
cuidado prestado por elas aos filhos. Além disso,
demonstram, também, frustração por não saberem a
proveniência do problema.
Apoio do profissional de saúde
Esta categoria explicita as bases de um relacionamento
significativo das mães com os profissionais. Elas
reconhecem os profissionais de saúde como elementos
fundamentais no direcionamento de suas condutas com
o filho com agravo nutricional. Percebem que a criança
melhorou após ter começado a frequentar os grupos
operativos.
502
A ajuda de vocês é muito boa na vida da gente. [...] Vocês
ensinam muitas coisas [...] Ensinam pra gente como
deve fazer [...] Ajudam demais da conta. (E3)
Eu vi no grupo que dá para eu fazer muita coisa, dá para
eu aprender bastante. (E5)
Então, depois que elas começaram a frequentar o grupo,
a fazerem o acompanhamento, eu percebi que elas têm
que fazer aquilo [...]. Você não tem que dar aquilo que a
criança não gosta, mas aquilo que ela pede [...]. Aprendi
muito no grupo. (E7)
A gente tá vindo agora esse mês (no grupo operativo),
procurando fazer com que ele perca peso. (E14)
Osesforçosdosetorsaúdenoqueserefereaoatendimento
da criança de forma integral e individualizada têm
fomentado dados estatísticos cada vez mais positivos
quanto ao perfil nutricional infantil brasileiro.17 Pesquisas
mostram que os índices de desnutrição infantil
caíram notadamente, no entanto os de sobrepeso e
obesidade aumentaram, principalmente em escolares
e adolescentes,18 fato que merece maior atenção na
avaliaçãodoestadonutricionaldascriançasenascondutas
dos profissionais de saúde na atenção primária.
Nessa perspectiva, vale ressaltar que as mães de crianças
com problema de peso reconhecem os esforços e os
resultados positivos alcançados pelos profissionais
de saúde no que tange ao atendimento infantil, além
de valorizarem as orientações e a participação do
profissional no processo de cuidado dos filhos. Também
é possível perceber, pelas falas das mães, que, além da
atuação do profissional de saúde em si, a dinâmica de
trabalho em grupos operativos é bastante referenciada.
Isso denota a importância dessa ação no auxílio ao
problema enfrentado por elas, além de permitir a troca
de saberes sobre o problema nutricional do filho, o que
provoca a extensão de conceitos sobre os distúrbios
nutricionais e suas respectivas repercussões clínicas. Isso
possibilita a ampliação do entendimento das mães sobre
a situação do filho e instrumenta-as com orientações,
conhecimentos e reflexões sobre uma alimentação
adequada e a adoção de práticas de vida mais saudáveis
para o filho e para toda a família.
Portanto, essa categoria aponta para o estímulo à
atuação do profissional na tentativa de reverter o quadro
nutricional da criança, tanto na consulta clínica como
na dinâmica de grupos operativos, além de reafirmar
que as orientações são escutadas com atenção e muito
bem-vindas por parte das mães.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo permitiu-nos compreender melhor os
significados e sentimentos das mães em relação ao
distúrbio nutricional do filho. Os fragmentos de seus
discursos nos fazem refletir sobre nossa atuação
nos grupos operativos voltados para os distúrbios
nutricionais e para as demais ações direcionadas para
crianças na atenção primária à saúde. Vimos que nosso
papel transcende a avaliação antropométrica das
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 498-503, out./dez., 2011
crianças para uma atenção mais humanizada, na qual
o diálogo, a escuta, a atenção e o respeito sedimentam
nossa relação com as mães.
na manutenção da saúde do filho, bem como elogiá-las
em suas condutas corretas e corrigirmos os possíveis
desvios de forma sensível e acolhedora.
Aprendemosqueénecessárioreforçarnossasorientações
sobre uma alimentação saudável, respeitando a cultura
da mãe e sua realidade socioeconômica, a fim de
proporcionar alternativas que garantam a alimentação
adequada da criança.
Em seus discursos, observamos, também, que as mães
consideram essencial a convivência com o profissional no
cuidado com a criança com agravo nutricional e levam isso
em consideração nas suas condutas com o filho.
Nessa perspectiva, é necessário abordar a escolha
correta dos alimentos no que se refere ao valor de seus
nutrientes, sabor e apresentação estética, frequência entre
as refeições, ambiente onde a refeição será realizada e a
implementação de atividades físicas no caso das crianças
com o peso elevado para a idade. Isso, no propósito de
ser com a mãe na atenção à alimentação do filho e, assim,
aliviar seus medos e angústias, bem como proporcionar
momentos de tranquilidade à mãe e ao filho.
Percebemosnasfalasdasmãesque,emalgunsmomentos,
sentem-se tristes ao ver o filho comparado com crianças
consideradas sadias. Além disso, sentem-se sozinhas e
culpadas diante do problema nutricional do filho, o que
as leva a refletir sobre seus cuidados para com a criança.
Diante disso, faz-se necessário trabalhar a autoestima da
mãe, a fim de reforçar sua importância na recuperação e
Aprendemos que, como profissional de saúde, é necessário
interagir com a mãe com mais respeito e dignidade,
entendendo que essa é uma experiência adversa, com
visões de mundo diferentes, e como tal exige uma postura
mais humana e um relacionamento mais significativo. É
preciso,então,estabelecercomelaumarelaçãodeempatia,
quepodeamenizarasituaçãovivenciadaporelaemelhorar
o processo de cuidado com o filho.
Ao percorrermos essa trajetória, amparadas pela
fenomenologia, foi possível descrever, explicitar e
compreender a essência do vivido pelas mães que
possuem filho com agravo nutricional. Nesse sentido, a
essência significa a possibilidade de leitura da realidade,
voltando-se para a realidade vivida e, com isso, nos
tornarmos mais atentas e mais sensíveis para enxergar
além do cumprimento das técnicas de atenção à saúde
da criança.
REFERÊNCIAS
1. Jackson D, Wilkes L, McDonald G. If I was in my daughter’s body I’d be feeling devastated: Women’s experiences of mothering an overweight
or obese child. J Child Health Care. 2007; 11(1): 29-39.
2. Batista Filho M, Miglioli TC, Santos MC. Normalidade antropométrica de adultos: o paradoxo geográfico e socioeconômico da transição
nutricional no Brasil. Rev Bras Saúde Matern Infant. 2007; 7(4): 487-93.
3. Kac G, Melendéz AC. A transição nutricional e a epidemiologia da obesidade na América Latina. Cad Saúde Pública. 2003; 19 (Sup.1): 4-5.
4. Batista Filho M, Rissin A. A transição nutricional no Brasil tendências regionais e temporais. Cad Saúde Pública. 2003; 19(Sup.1): 181-91.
5. Organização Pan-americana da Saúde. Relatório sobre a saúde no mundo: 2001. Genebra: OPAS/OMS; 2001.
6. Brasil. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa de orçamentos familiares
2002-2003. Rio de Janeiro: IBGE; 2004. 276p.
7. Marinho PS, Martins SI, Oliveira DC, Araújo EAC. Obesidade e baixa estatura: estado nutricional de indivíduos da mesma família. Rev Bras
Cresimentoc Desenvolv Hum. 2007; 17(1): 156-64.
8. Frota MA, Barroso MGT. Desnutrição infantil no contexto familiar de mães adolescentes: visão cultural do cuidado. Health Sciences Maringá.
2004; 26(1): 167-73.
9. Alves CRL, Viana MRA. Saúde da família: cuidando de crianças e adolescentes. Belo Horizonte: Coopmed; 2007. 282p.
10. Amaral O, Pereira C, Escoval A. Prevalência de obesidade em adolescentes do distrito de Viseu. Revista Portuguesa de Saúde Pública. 2007;
25(1): 47-58.
11. Martins J, Bicudo MAV. A pesquisa qualitativa em psicologia: fundamentos e recursos básicos. 5ª ed. São Paulo: Centauro; 2005. 110p.
12. Brasil. Conselho Nacional de Saúde. Comitê de Nacional de ética em pesquisa em seres humanos. Resolução 196, de 20 de outubro de 1996.
Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Brasília, DF; 1996.
13. Hein VAA. A desnutrição infantil representada por mães de crianças com baixo peso. Rev Gaúcha Enferm. 2009; 30(4): 585-93.
14. Frota MA, Martins MC. Aspectos culturais no cuidado familiar à criança com desnutrição. Acta Sci. 2009; 31:9-14.
15. Minas Gerais. Secretaria de Estado da Saúde. Viva Vida. Atenção à saúde da criança (protocolo). Belo Horizonte: SESMG; 2008. 224p.
16. Paulo IMA, Madeira AMF. Ter um filho desnutrido: o significado para as mães. REME Rev Min Enferm. 2006; 10(1):12-7.
17. Brasil. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome S. Desnutrição infantil cai pela metade e políticas públicas melhoram vida
de mulheres e crianças. Brasília: MS; 2007.
18. Oliveira AMA, Cerqueira EMM, Oliveira AC. Prevalência de sobrepeso e obesidade infantil na cidade de Feira de Santana-BA: detecção na
família x diagnóstico clínico. J. Pediatr. 2003; 79(4):325-8.
Data de submissão: 20/5/2009
Data de aprovação 16/3/2011
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 498-503, out./dez., 2011
503
CARACTERÍSTICAS DOS ABORTAMENTOS DE MULHERES ATENDIDAS EM
UMA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR FILANTRÓPICA DE CARATINGAMG*
ABORTION CHARACTERISTICS FOR WOMEN ATTENDED IN A PHILANTHROPIC HOSPITAL
INSTITUTION IN CARATINGAMG
CARACTERÍSTICAS DE LOS ABORTAMIENTOS DE MUJERES ATENDIDAS EN UMA INSTITUICIÓN
HOSPITALAR FILANTRÓPICA DE CARATINGAMG
Selisvane Ribeiro da Fonseca Domingos1
Miriam Aparecida Barbosa Merighi2
Ester Correa Rodrigues de Faria3
Leidiane Maria Gomes Ferreira4
RESUMO
Estudo transversal realizado com 44 mulheres, no período de agosto a novembro de 2008, com o objetivo de descrever e
comparar as características de abortamentos de mulheres atendidas em uma instituição hospitalar filantrópica de CaratingaMG. Os dados foram coletados por meio de um formulário e, para a análise, utilizou-se o teste “t” de Student e o teste χ2
no nível de 5% de significância. Os resultados mostraram que as mulheres, na sua maioria, eram brancas, católicas, com
companheiro e do lar. Metade delas não usava nenhum método contraceptivo, 19 (43,18%) haviam engravidado apenas
uma vez e 33 (75%) não haviam apresentado nenhum aborto anterior. Do total, 38 (86,36%) informaram que desejaram
a gravidez, porém apenas 17 (38,64%) a planejaram. O sintoma mais frequente que as levou a procurar atendimento foi
o sangramento vaginal. A média da idade gestacional foi de 9,27 semanas e a curetagem foi o tratamento realizado em
95,45%. Não houve relação entre o tempo de internação e o procedimento realizado, entre o uso de antibiótico e sinais
de infecção, bem como entre a idade gestacional e o procedimento realizado. Houve relação entre o início dos sintomas
e a procura pelo primeiro atendimento, entre a complicação e o procedimento realizado e entre o uso de antibiótico
e complicações. Conclui-se que existe necessidade de investigar e conhecer mais sobre as mulheres que procuram os
serviços de saúde para tratamento do abortamento e adequar os tipos de tratamento disponíveis, com o objetivo de
atender com qualidade a mulher, diminuir risco de complicações e o custo assistencial.
Palavras-chave: Saúde da Mulher; Aborto; Enfermagem.
ABSTRACT
This is a transversal study performed with 44 women from August to November 2008. Its objective was to describe and
compare the characteristics of miscarriage in women attended at a philanthropic hospital in Caratinga - MG. The data was
collected through a form and the analysis was performed via the Student“t”test and χ2 test with a statistical significance
of 5%. The results showed that the majority of women were young housewives, non-Caucasian, and Catholic, living with
a partner. 22 (50%) of these women did not use any contraceptive methods, 19 (43.18%) were pregnant once, and 33
(75%) had had no miscarriage before. In total, 38 (86.36%) stated that they had wanted to get pregnant, however only 17
(38.64%) of those pregnancies were planned.The most frequent reason for seeking medical care was vaginal bleeding.The
average gestational age was 9.27 weeks and curettage was the treatment performed in 95.45% of the cases. No special
relation was detected between the hospitalization period and the procedure performed, the use of antibiotics and signs
of infection, or between the gestational age and the procedure performed. However, there was a link between the time
elapsed from the onset of symptoms and the seeking of medical attention, the medical complications and the procedure
performed and between the use of antibiotics and complications. In conclusion it is necessary to study the cases of women
who seek the health services for a miscarriage treatment and to adapt the types of treatment available so as to improve
the quality of medical care, to reduce the risk of complications, and to provide some financial support.
Key Words: Women’s Health; Miscarriage; Nursing.
RESUMEN
Estudio transversal realizado entre agosto y noviembre de 2008 con 44 mujeres atendidas en un hospital filantrópico
de Caratinga/MG. Su objetivo fue describir y comparar las características de los abortos de dichas mujeres. Los datos
fueron recogidos en un formulario y, para su análisis, se utilizó la prueba“t”Student y la prueba χ2 con 5% de significancia.
Los resultados mostraron que la mayoría de las mujeres eran amas de casa jóvenes, católicas, en pareja y de tez no
blanca. La mitad no seguía ningún método anticonceptivo, 19 (43,18%) se habían quedado embarazadas sólo una vez
y 33 (75%) no habían tenido ningún otro aborto. Del total, 38 (86,36%) informaron haber deseado el embarazo pero
tan sólo 17 (38,64%) lo habían planeado. El síntoma más frecuente que las llevó a buscar atención hospitalaria fue
hemorragia vaginal. El promedio de edad gestacional fue de 9,27 semanas y el curetaje fue el tratamiento realizado en
el 95,45% de los casos. No se observó relación entre el tiempo de internación y el procedimiento realizado, entre el uso
de antibiótico y las señales de infección ni entre la edad gestacional y el procedimiento realizado. Hubo relación entre
el inicio de los síntomas y la búsqueda de la primera atención hospitalaria, entre las complicaciones y el procedimiento
realizado y entre el uso de antibiótico y las complicaciones. Se concluye que habría que investigar y conocer más a las
mujeres que se dirigen a los servicios de salud para tratarse de abortos y adecuar los tipos de tratamientos disponibles
con miras a atenderlas mejor, disminuir los riegos de complicaciones y, asimismo, los costos asistenciales.
Palabras clave: Salud de la mujer; Aborto; Enfermería.
*
1
2
3
4
Trabalho realizado no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), do Centro Universitário de Caratinga (UNEC), financiado pela FAPEMIG em 2008.
Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Aluna do Curso de Doutorado da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP). Docente do Curso de
Enfermagem do Centro Universitário de Caratinga-MG.
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da USP.
E-mail: merighi@usp.br.
Aluna do 3° período do Curso de Enfermagem do UNEC. Bolsista do PIBIC/FAPEMIG 2008.
Aluna do 7° período do Curso de Enfermagem do UNNEC. Bolsista voluntária do PIBIC/FAPEMIG 2008.
Endereço para correspondência – Rua Alberto Vieira Campos, 106/301, bairro Dário Grossi, Caratinga-MG. CEP: 35300-009. Tel: (33)3322-1687. E-mail: selisvane@usp.br.
504
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 504-512, out./dez., 2011
INTRODUÇÃO
O abortamento é uma das intercorrências mais
frequentes da gestação, por isso é considerado um
importante problema de saúde pública no mundo e,
principalmente, no Brasil.
Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde
(OMS), dos 210 milhões de gestações que ocorrem a
cada ano no mundo, 46 milhões terminam em abortos
induzidos. No entanto, destaque-se que, pelo fato de ser
em alguns países ilegal e, por isso, subnotificado, a real
situação do aborto no mundo é desconhecida. A falta de
registros oficiais e sub-registros tornam uma tarefa difícil
estimar as reais taxas de abortos inseguros, exigindo que
as estimativas sejam calculadas por diferentes métodos
de comparação.1
As legislações que se encontram em todos os países
têm, umas mais e outras menos, acompanhado as
constantes mudanças e evoluções sociais e científicas.
Nesse sentido, muitos países vêm modificando suas
legislações relativas à prática do abortamento, sendo
que, em inúmeros deles, tal prática foi liberada de
maneira ampla. Em outros, ela é permitida em apenas
alguns casos especiais.2
No Brasil, o Código Penal brasileiro, promulgado em 1940,
prevê a prática legal do aborto quando não houver outro
meio de salvar a vida da gestante ou quando a gravidez
resultar de estupro ou incesto. Há, também, muito
raramente, casos de má-formação congênita em que a
interrupção da gravidez é autorizada pela justiça.3
No entanto, a ilegalidade do aborto no Brasil não tem
impedido sua prática. Por ano, 1,4 milhão de abortos
são realizados no país, correspondendo a 23 abortos
por 100 gestações e 50 milhões em todo o mundo,
impondo severos riscos à saúde da mulher. Do total do
número de causas de mortes em mulheres 12,5% são
decorrentes das complicações do aborto, ocupando o
terceiro lugar nas causas de mortalidade materna.4 Além
do mais, os resultados das principais pesquisas realizadas
no Brasil comprovam a tese de que a ilegalidade traz
consequências negativas para a saúde das mulheres,
principalmente para aquelas que são pobres e não têm
acesso aos recursos médicos disponíveis para a prática
do aborto seguro.5
No que tange à gravidade da situação do abortamento,
é importante ressaltar, também, a influência dos dados
nos custos assistenciais do Sistema Único de Saúde
(SUS). Em 2006, 230.523 internações foram para a
realização de curetagem pós-aborto e geraram o custo
de R$ 33.697.846,87. As curetagens são o segundo
procedimento obstétrico mais praticado nas unidades
de internação, superadas, apenas, pelos partos normais.6
De acordo com os dados do Sistema de Informação
Hospitalar do SUS-DATASUS referentes a 2007, o Brasil
teve 2.450.812 internações por causas obstétricas e o
Estado de Minas Gerais, 233.127.7
A discussão sobre o aborto é uma questão complexa,
pois envolve aspectos de cunho moral e religioso,
sendo objeto de forte sanção social. Essa condição
implica dificuldades no seu relato pelas mulheres,
particularmente em contextos de ilegalidade, como no
Brasil.8 Além do mais, o processo do abortamento põe
em risco a vida da mulher, expondo-a a intercorrências
em sua saúde. Ao procurar o serviço de saúde para
atendimento, além de necessitar de tratamento de
urgência para sua condição física, as mulheres estão
vulneráveis às reações dos profissionais que as atendem
e que são participantes do contexto social, no qual
permeiam atitudes negativas sobre o abortamento.9
Apesar de o aborto, na esfera das políticas públicas
de saúde, ter sido tema amplamente discutido
nas últimas décadas, ainda carecemos de dados
que possam caracterizá-lo nas diversas realidades
brasileiras, principalmente nos municípios do interior
dos Estados. Dessa forma, no intuito de contribuir para
o planejamento das ações na área da saúde da mulher
que é atendida na situação de abortamento, decidiu-se
realizar este estudo, com o objetivo de descrever as
características de abortamentos de mulheres atendidas
em uma instituição hospitalar filantrópica do município
de Caratinga-MG.
MATERIAL E MÉTODOS
Trata-se de um estudo transversal, desenvolvido em
uma instituição hospitalar filantrópica do município de
Caratinga-MG.
Essa instituição hospitalar foi fundada em 1917 e é uma
associação civil de direito privado, filantrópica, sem
fins lucrativos que atende à população do município
de Caratinga e circunvizinhanças, distantes de outros
estabelecimentos hospitalares. Trata-se de um hospital
geral que presta atendimento aos pacientes internados
nas diversas clínicas. Especificamente na área da saúde
da mulher, é responsável por prestar assistência à mulher
durante o pré-parto, parto, puerpério, abortamento e
outros.
Foram selecionadas para participar deste estudo todas as
mulheres admitidas com diagnóstico de abortamento, no
período de agosto a novembro de 2008, que consentiram
em participar, manifestando sua aquiescência por meio da
assinatura doTermo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE), conforme Resolução nº 196/96, do Conselho
Nacional de Saúde.10 É importante destacar que este
estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa
sob o Parecer n. 012/08 e autorizado pelo administrador
da instituição, cenário do estudo.
Os dados foram coletados por meio de um formulário,
elaborado pelos próprios autores deste estudo, contendo
40 questões, fechadas e abertas, com abordagem
das características sociodemográficas e reprodutivas
das mulheres e as características do abortamento. As
questões foram elaboradas com base nas variáveis
estudadas em trabalho realizado por Nader, Blandino e
Maciel11 sobre características de abortamentos atendidos
em uma maternidade pública de Serra-ES.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 504-512, out./dez., 2011
505
Características dos abortamentos de mulheres atendidas em uma instituição hospitalar filantrópica de Caratinga/mg
A coleta de dados e o registro das informações foram
realizados pelas próprias pesquisadoras. As mulheres
foram entrevistadas no hospital, após terem sido
submetidas à avaliação e à intervenção médica e os
dados dos prontuários foram correlacionados com as
informações fornecidas.
Durante o período do estudo, foram internadas 46
mulheres com diagnóstico de abortamento. Os dados
foram colhidos todos os dias da semana, em regime de
escala entre as pesquisadoras. Duas mulheres não foram
entrevistadas porque permaneceram pouco tempo no
hospital (menos que 24 horas) e, apesar de localizarmos o
endereço delas, para convidá-las a participar do trabalho,
o endereço registrado no prontuário não coincidiu com
o real local onde moravam. Dessa forma, a amostra deste
estudo foi constituída de 44 mulheres.
Para a análise das variáveis qualitativas, foi empregada a
distribuição de frequência absoluta e relativa, e para as
variáveis quantitativas utilizou-se o teste “t” de Student
e a correlação de Pearson. Quando se compararam as
variáveis qualitativas, foi utilizado o teste de χ2 (Quiquadrado) no nível de 5% de probabilidade e para
testar heterogeneidade, e para aquelas heterogêneas
foi calculado o coeficiente de Yule.
TABELA 1 – Distribuição das mulheres internadas,
com diagnóstico de abortamento, em uma instituição
hospitalar filantrópica do município de CaratingaMG, segundo características sociodemográficas –
Caratinga, 2008
Características
N
%
Cor da pele
Branca
Não branca
Total
13
31
44
29,55
70,45
100
Estado marital
Mora com companheiro
Não mora com companheiro
Total
33
11
44
75,00
25,00
100
Religião
Nenhuma
Católica
Evangélica/Protestante
Espírita
Outras
Total
4
29
9
1
1
44
9,09
65,91
20,45
2,27
2,27
100
1
2,27
19
43,18
3
7
12
1
1
44
6,82
15,91
27,27
2,27
2,27
100
Procedência
Zona urbana
Zona rural
Outro município
Total
21
3
20
44
47,73
6,82
45,45
100
Ocupação
Lar
Trabalho físico pesado
Trabalho físico suave
Estudante
Total
25
4
14
1
44
56,82
9,09
31,82
2,27
100
Renda (salário mínimo)
<1
1a 2
2a3
>3
Total
11
20
6
7
44
25,00
45,45
13,64
15,91
100
Própria
25
56,82
Aluguel
12
27,27
Outra
7
15,91
Total
44
100
Escolaridade
Analfabeta
Ensino fundamental
RESULTADOS
incompleto
Ensino fundamental completo
Ensino médio incompleto
Ensino médio completo
Curso superior incompleto
Curso superior completo
Total
A maioria das mulheres era jovem (média de idade de
26,8 anos, mediana de 27 e desvio-padrão de ± 7,07). A
mulher mais jovem tinha 16 anos e a mais velha, 43 anos.
Do total, 10 delas eram adolescentes.
De acordo como os dados especificados na TAB. 1, a
maioria delas afirmou que não era branca (70,45%) e
vivia com um companheiro (75%), independentemente
de ser casada ou amasiada. Mais da metade disse que
era católica (65,91%), seguida das que afirmaram que
não tinham nenhuma religião (9,09%) e evangélicas ou
protestantes (20,45%). Em menor proporção, apenas
uma mulher disse que era espírita e outra, que não tinha
nenhum tipo de religião.
Com relação à escolaridade, observou-se que não
houve diferença estatística significativa entre ensino
fundamental incompleto (n= 19) e ensino médio
completo (n= 12). Apenas uma mulher mencionou que
tinha curso superior completo de geografia e outra, que
era analfabeta.
Quase 95% das mulheres eram procedentes da
zona urbana de Caratinga e de outros municípios
da circunvizinhança. Quanto à ocupação, a maioria
mencionou que era do lar (n= 25) ou exercia alguma
atividade remunerada que exige trabalho físico leve
(n= 14). Apenas uma mulher era estudante e quatro
disseram que trabalhavam com alguma atividade física
pesada, ou seja, auxiliar de serviços gerais (n= 3), e uma,
que era lavradora (n= 1).
Quase metade das mulheres mencionou que tinha uma
renda familiar de um a dois salários mínimos e mais da
metade disse que residia em casa própria.
506
Tipo de residência
Fonte: As autoras
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 504-512, out./dez., 2011
Com relação às características reprodutivas, os resultados
mostraram que a média da menarca foi de 13,16 anos
(desvio-padrão de ± 1,64) e do início da vida sexual foi
de 18,83 anos (desvio-padrão de ± 4,51).
Ao correlacionarmos a idade da primeira menstruação
com o início da vida sexual, foi possível verificar que
o resultado não foi estatisticamente significativo
(Coeficiente de Pearson= 0,3).
Conforme mostra-se na TAB. 2, metade das mulheres
não usava nenhum método contraceptivo e 38,64%
mencionou que usava a pílula. Apenas cinco delas
usavam a camisinha (preservativo masculino) durante
as relações sexuais.
TABELA 2 – Distribuição das mulheres internadas,
com diagnóstico de abortamento, em uma instituição
hospitalar filantrópica do município de Caratinga-MG,
segundo características reprodutivas – Caratinga, 2008
Características
Uso de contraceptivo
Nenhum
Hormonal (pílula)
Barreira (preservativo)
Total
Gestações
1
2
3
>3
Total
Partos
Nenhum
1
2
3
>3
Total
N
%
22
17
5
44
50,00
38,64
11,36
100,00
Com relação ao número de partos, mais da metade
(52,27%) das mulheres não tiveram nenhum parto e
34,09% (n= 15) tiveram um parto anterior.
Onze partos foram normais, seis foram cesáreas e quatro
não foram especificados. A maioria (n= 33) não teve
nenhum aborto anterior, sete tiveram um aborto anterior
e quatro tiveram dois abortos anteriores.
Quando interrogadas sobre o desejo da gestação
atual que evoluiu para o abortamento, 86,36% (n= 38)
informaram que desejaram a gravidez, porém apenas
38,64% (n= 17) a planejaram. Muitas delas nem sabiam
que estavam grávidas (TAB. 3).
TABELA 3 – Distribuição das mulheres internadas,
com diagnóstico de abortamento, em uma instituição
hospitalar filantrópica do município de CaratingaMG, conforme planejamento e desejo da gestação
– Caratinga, 2008
Características
N
%
Sim
17
38,64
Não
27
61,36
Total
44
100
Sim
38
86,36
Não
6
13,64
Total
44
100
Gravidez planejada
19
17
1
7
44
43,18
38,64
2,27
15,91
100
Gravidez desejada
23
15
2
0
4
52,27
34,09
4,55
0,00
9,09
25
13
2
0
4
44
56,82
29,55
4,55
0,00
9,09
100
Nenhum
33
75,00
1
7
15,91
2
4
9,09
3 ou mais
0
0,00
Total
44
100
Filhos nascidos vivos
Nenhum
1
2
3
>3
Total
A história obstétrica das participantes mostra que, do
total, 19 mulheres haviam engravidado apenas uma vez,
cuja gravidez era o abortamento atual, e 17 estavam na
segunda gravidez. Ressalte-se que sete mulheres haviam
engravidado mais que três vezes.
Abortos anteriores
Fonte: As autoras
A idade gestacional (IG) média foi de 9,27 semanas
(desvio-padrão de ± 3,80). Do total, 33 mulheres
informaram IG menor que 12 semanas e 11 mulheres
informaram IG maior que 12 semanas.
A distribuição das mulheres segundo características
dos abortamentos é mostrada na TAB. 4. Observa-se
que mais da metade das mulheres (52,27%) informaram
ter procurado o pai do concepto para falar dos sinais e
sintomas iniciais do abortamento e por atendimento
médico até um dia do início dos sintomas.
Fonte: as autoras
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 504-512, out./dez., 2011
507
Características dos abortamentos de mulheres atendidas em uma instituição hospitalar filantrópica de Caratinga/mg
TABELA 4 – Distribuição das mulheres internadas em
uma instituição hospitalar filantrópica do município
de Caratinga-MG, segundo características dos
abortamentos – Caratinga, 2008
Características
N
%
O primeiro serviço de saúde procurado pela maioria das
mulheres foi o hospital, cenário deste estudo, por ser um
serviço de referência para esse tipo de atendimento no
município de Caratinga e ser conveniado ao SUS. Além
do hospital, 13 mulheres mencionaram que tinham
procurado a Estratégia Saúde da Família (ESF).
Os sintomas predominantes apresentados na admissão
hospitalar foi o sangramento genital (84,09%), seguido
de dor abdominal (59,09%). Além desses sintomas, oito
mulheres referiram cefaleia; cinco, náuseas e vômitos, e
quatro, dor lombar.
Primeira pessoa que procurou para
conversar sobre os sintomas que
estava apresentando
Pai do concepto
Mãe
Amiga
Outra
Total
23
08
02
11
44
52,27
18,18
4,55
25,00
100
Tempo entre o início dos sintomas e
procura pelo primeiro atendimento
Até um dia
Mais de um dia
Total
23
21
44
52,27
47,73
100
Primeiro serviço de saúde procurado
para atendimento
PSF
PAM
Consultório particular
Outro
Total
Quase 80% das mulheres não apresentaram nenhum
sinal de infecção na admissão hospitalar. Porém, mais de
20% delas internaram-se com quadro de sangramento
com odor fétido e febre. Mais da metade delas fezeram
uso de antibiótico durante a internação.
13
6
6
19
44
29,55
13,64
13,64
43,18
100
Sinais e sintomas na admissão
hospitalar*
Sangramento vaginal
Dor abdominal
Outro
Com relação à complicação decorrente do abortamento,
21 (47,73%) não tiveram nenhuma complicação e 21
(47,73%) apresentaram hemorragia uterina. Apenas
uma mulher teve infecção e outra foi encaminhada a
um serviço especializado, fora de Caratinga, não sendo
possível descrever o que realmente aconteceu, dada a
ausência de contrarreferência.
37
26
0
84,09
59,09
0
Quase 96% das mulheres (n= 42) foram submetidas
a curetagem uterina. Apenas uma mulher fez
salpingectomia, pois teve um abortamento decorrente
de gravidez ectópica.
Sinais de infecção na admissão
hospitalar*
Nenhum
Sangramento com odor fétido
Febre
Leucocitose
34
8
2
2
77,27
18,18
4,55
4,55
Uso de antibiótico
Sim
Não
Total
23
21
44
52,27
47,73
100
Complicação
Nenhuma
Hemorragia uterina
Infecção
Outra
Total
21
21
1
1
44
47,73
47,73
2,27
2,27
100
Tratamento do aborto
Aspiração manual intra uterina (AMIU)
Curetagem
Salpingectomia
Outro
Total
0
42
1
1
44
0
95,45
2,27
2,27
100
Fonte: as autoras
508
O tempo transcorrido entre o início dos sintomas e a
procura pelo primeiro atendimento variou de 30 minutos
a mais de um mês; 23 mulheres, ou seja, mais da metade,
procuraram por atendimento até um dia e 21 delas com
mais de um dia.
Dos 44 casos de abortamento atendidos nessa instituição,
43 foram referidos pelas mulheres como abortamento
espontâneo e apenas um como abortamento provocado.
Os abortos foram classificados, em sua maioria, como
espontâneos, incompletos ou completos. Essa mulher
que disse ter pensado em abortar, mencionou ter
conversado com o pai do concepto sobre tal decisão e
ele a incentivou. Nem a família e nem os amigos ficaram
sabendo da gestação e do aborto.
Não houve relação entre o tempo de internação e o
procedimento realizado, entre o uso de antibiótico
e sinais de infecção e entre a idade gestacional e o
procedimento realizado. Houve relação entre o início
dos sintomas e a procura pelo primeiro atendimento,
entre complicação e o procedimento realizado (Y= 0,97)
e entre o uso de antibiótico e complicações (Y= 0,58).
DISCUSSÃO
Os resultados desta pesquisa revelam, com relação ao
perfil sociodemográfico das mulheres, semelhanças
com outros estudos desenvolvidos no Brasil, nos quais
as mulheres que vivenciaram um abortamento, na sua
maioria, eram jovens, não brancas, católicas, do lar, com
baixa escolaridade e tinham um companheiro.12,13
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 504-512, out./dez., 2011
Vale a pena destacar que dez mulheres estavam ainda na
adolescência, o que sinaliza atenção especial a esse grupo
de mulheres, considerado de maior vulnerabilidade.
O abortamento na adolescência é um fenômeno
que demonstra necessidade do aumento da atenção
interdisciplinar, promovendo saúde sexual, sendo que a
prevenção da gravidez evitaria o aborto, proporcionando
aumento da qualidade de vida e valorização da vida.14
Quanto à escolaridade, destaque-se a importância
de ampliar a rede de informações para a população
em geral, com o objetivo de melhorar o cuidado e,
consequentemente, os indicadores de saúde. Acreditase que mulheres com maior escolaridade estariam mais
informadas e poderiam ter maior acesso às formas de
prevenção de uma gestação não planejada, mediante a
utilização de métodos contraceptivos, haja vista que a
maioria das mulheres deste estudo não estava usando
nenhuma forma de prevenção de gravidez. Além do mais,
destaque-se o baixo número do uso do preservativo nas
relações sexuais e maior risco para DST e aids.
Estudo revela que mais da metade das mulheres pesquisadas referiram que não faziam uso de qualquer
contraceptivo e um reduzido percentual citou o uso de
preservativo, o que se assemelha aos nossos resultados15.
No entanto, resultado diferente foi encontrado em
estudo desenvolvido por Ramos et al.16, no qual 100%
das mulheres participantes disseram que conheciam a
pílula e o preservativo masculino.
Tratando-se do uso de métodos contraceptivos, o início
prematuro da atividade sexual faz com uma parcela
pequena de mulheres os empregue. Esse cenário
torna-se propício à possibilidade de ocorrência de uma
gravidez indesejada ou não planejada, além do risco de
a mulher se submeter a uma DST/aids e às complicações
advindas de uma situação de abortamento.14
Um ponto importante a ser destacado foi que a maioria
das mulheres vivia com companheiro e tinha uma
relação conjugal estável, fato que contribuiu para a
procura rápida por atendimento, bem como o suporte
do companheiro durante esse momento de perda,
considerado por elas de grande fragilidade e exposição.
Em estudo descrito por Bazotti, Stumm e Kirchner,12
a gravidez também revelou que era resultante de um
relacionamento estável.
Olindo e Moreira-Filho17 encontraram, em pesquisa que
realizaram, mulheres vivendo em união consensual
com um risco de induzir um aborto duas vezes maior
comparado ao das mulheres casadas. Esse fato foi
confirmado pela variável“mora com companheiro”, que
apresentou um risco três vezes maior. Ainda no mesmo
estudo, os autores mencionaram que “não tinham
religião” aumentou o risco de aborto em 100% em
comparação às mulheres de religião católica.
O estudo mostrou que quase metade das mulheres
estavam na primeira gestação, e aproximadamente 75%
não haviam vivenciado nenhum aborto anterior. Essa
experiência, portanto, foi um momento singular na vida
dessas mulheres e, como tal, permeado pelo sofrimento
da perda, pois, apesar da maioria delas não ter planejado
a gestação, a desejaram.
Estudo realizado em Recife com mulheres hospitalizadas
para tratamento do abortamento também encontrou
que a maior parte delas era nulípara.16 No entanto,
resultados diferentes foram encontrados por Cecatti
et al.13 e Mariutti e Furegato,15 em que a maioria das
mulheres já tinha, pelo menos, um filho.
Quanto ao planejamento da gravidez, das 44 mulheres
entrevistadas, apenas 17 referiram ter planejado, mas
uma percentagem considerável declarou que, mesmo
não tendo planejado, desejavam a continuidade da
gestação. Tal fato corrobora para a associação de outros
fatores relacionados à ocorrência do aborto e não
propriamente para a indução deste. O estudo de Nader,
Blandino e Maciel11 demonstrou que as mulheres que
não planejaram a gestação induziram o abortamento.
No que concerne ao tipo de abortamento, o estudo
traz duas limitações importantes, que devem ser
levadas em conta. A primeira refere-se ao fato de que
alguns aspectos podem ter influenciado nos resultados
encontrados na pesquisa, como o fato de ser possível
que, na população de mulheres estudadas, alguns
abortos classificados como espontâneos tenham sido
provocados, uma vez que algumas mulheres podem
ter omitido a real ocorrência do modo como o aborto
aconteceu. Caratinga é um município do interior
mineiro, e a maioria das pessoas se conhece. Isso pode
inibir o relato das mulheres sobre os motivos reais
que conduziram ao abortamento como medida de
segurança. A segunda limitação refere-se à classificação
do tipo de abortamento, que muitas das vezes não
estava especificado no prontuário e elas não sabiam
fornecer esta informação.
No que diz respeito à análise das características do
abortamento,amaioriadasmulheresrelatouterprocurado
o pai do concepto tão logo iniciaram a apresentação dos
sinais e sintomas do abortamento. Isso se justifica pela
existência de uma situação conjugal estável, a confiança
e apoio do companheiro. Esse dado também reforça
o fato de muitas delas estarem acompanhadas pelo
companheiro na admissão hospitalar.
Apesar do tempo transcorrido entre o início dos sintomas
e a procura pelo primeiro atendimento ter variado de
minutos a mais de um mês, a maioria das mulheres
procurou por atendimento até um dia, mostrando que
houve relação entre o início dos sintomas e a procura
pelo primeiro atendimento. Isso corrobora com o
menor número de infecção na admissão hospitalar e
complicações do abortamento. Apenas uma mulher
procurou atendimento com mais de um mês e tal
situação pode estar associada ao aborto provocado.
Com relação ao primeiro serviço de saúde procurado
para atendimento, o hospital, cenário deste estudo,
foi o local mais procurado, por prestar atendimento
em obstetrícia e ginecologia e ser conveniado ao SUS.
Destaque-se que a maioria das mulheres deste estudo
estava internada pelo SUS. Apenas uma mulher que
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 504-512, out./dez., 2011
509
Características dos abortamentos de mulheres atendidas em uma instituição hospitalar filantrópica de Caratinga/mg
teve o abortamento era cliente de convênio. Tal fato se
justifica porque não há em Caratinga ambulatório de
ginecologia e obstetrícia. Dessa forma, ao precisar de
atendimento nessa área, as mulheres são direcionadas
para o hospital e, se necessário, permanecem internadas.
Caso contrário, elas são avaliadas e liberadas para casa.
O sintoma mais frequente foi o sangramento vaginal,
seguido de dor abdominal. De acordo com o Ministério
da Saúde, 18 os sintomas podem variar conforme a
classificação do aborto. Na ameaça de abortamento,
o sangramento genital, geralmente, é em pequena
quantidade, com ou sem cólicas de intensidades
variáveis, porém pouco intensas. No abortamento
completo, o sangramento e as dores diminuem
após a expulsão do material ovular. No abortamento
inevitável e incompleto, a perda sanguínea é maior
que na ameaça de abortamento, podendo ocorrer a
eliminação de coágulos. No abortamento retido, é pouco
comum a hemorragia. No abortamento infectado, que
ocorre geralmente após a manipulação para induzir a
interrupção da gravidez e sob más condições técnicas,
o sangramento tem odor fétido e é acompanhado de
dor abdominal e febre.
É importante destacar que, neste estudo, oito mulheres
internaram-se com quadro de sangramento com odor
fétido, o que nos faz pensar na possibilidade de um
abortamento infectado e possivelmente provocado,
apesar de não ter sido mencionada por elas essa
possibilidade. Uma mulher apresentou infecção
como complicação do abortamento, porém a maioria
apresentou hemorragia uterina como complicação,
mostrando relação entre a complicação e o procedimento
realizado. Mais da metade delas fez uso de antibiótico
durante a internação. Nos casos de complicações, porém,
o uso de antibiótico foi maior, reforçando a relação
encontrada entre uso de antibiótico e complicação.
Estudo revela que existe relação quanto à presença de
sinais clínicos e o aborto provocado.10 A ausência desses
sinais remete à investigação de outras possíveis causas
dos abortos espontâneos.
Os níveis de internação pós-aborto são elevados e
colocam o aborto como um problema de saúde pública
no Brasil. Diniz e Medeiros19 mostraram que metade das
mulheres que fizeram aborto recorreu ao sistema de
saúde e foram internadas por complicações relacionadas
ao aborto. Para os referidos autores, boa parte dessa
internação poderia ter sido evitada se o aborto não
fosse tratado como atividade clandestina e o acesso aos
medicamentos seguros para aborto fosse garantido.
Mais de 50% das mulheres usaram antibiótico. Resultado
também encontrado em menor percentual em outro
estudo revelou que 25% das mulheres receberam
tratamento com antibiótico e a média do número de
dias com essa medicação esteve mais elevada para os
casos de aborto provocado.20
Um dado muito importante, identificado nesse estudo,
foi com relação ao tipo de tratamento do abortamento.
Das 44 mulheres internadas, 42 foram submetidas
510
à curetagem uterina, independentemente da idade
gestacional.
Resultados semelhantes foram encontrados em outros
estudos, em que todas as mulheres que se internaram
por complicações do abortamento foram submetidas a
curetagem.11,12
O Ministério da Saúde18 coloca que se deve utilizar
tecnologia apropriada para promover o esvaziamento
uterino nos casos de abortamento em que essa
situação for necessária, podendo ser feita utilizando-se
a técnica de aspiração manual intrauterina (AMIU) nos
casos de abortamento até 12 semanas. Ressalte-se,
porém, que, quando não disponível ou na ausência de
pessoal treinado nessa técnica, pode-se promover o
esvaziamento por meio da curetagem uterina. Quando
a gestação tem mais de 12 semanas, é necessário
promover a dilatação cervical e a expulsão do produto
conceptual com uso de misoprostol vaginal e ocitocina
venosa, no caso de o colo se encontrar fechado e, se
necessário, realizar a curetagem uterina.
Neste estudo, não houve relação entre a idade
gestacional e o procedimento realizado, pois, como
mencionado, quase 100% dos casos foram submetidos
à curetagem uterina, apesar de 33 mulheres terem
idade gestacional menor que 12 semanas. Parece
faltar treinamento dos profissionais de saúde para a
realização da técnica de AMIU e material disponível
no serviço.
Apenas uma mulher mencionou ter pensado em realizar
o aborto. No estudo desenvolvido por Nader, Blandino
e Maciel,11 apenas 17,7% das mulheres entrevistadas
do grupo do abortamento espontâneo pensaram em
abortar e 38,8% dos companheiros apoiaram essa
decisão. A maternidade se mostrou predominantemente
de forma idealizada e positiva para a maioria das
mulheres que vivenciaram um abortamento espontâneo
ou provocado.12
O tempo de internação variou de menos de um dia a
quatro dias. Sem sinais de infecção e complicação, a
maioria das mulheres foi submetida à curetagem uterina
e após estabilização do quadro foram liberadas. Em
muitos casos, essa internação foi prolongada porque
muitas delas relataram que não sabiam que estavam
grávidas e, dessa forma, não estavam fazendo pré-natal,
tampouco tinham classificação sanguínea. Dessa forma,
não houve relação entre o tempo de internação e o
procedimento realizado nem entre o uso de antibiótico
e sinais de infecção.
Em estudo, com abordagem qualitativa, realizado com
mulheres em situação de abortamento, o tempo de
hospitalização foi relatado pelas mulheres como muito
longo e esperado com muita ansiedade pela maioria
delas, apesar do tempo médio ser de dois a três dias.21
Em relação à opinião sobre o aborto provocado, quase a
totalidade das mulheres afirmou que era contra o aborto
induzido, mencionando suas justificativas por meio das
seguintes falas:
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 504-512, out./dez., 2011
Se não quer ter o filho, não engravida.
Existem métodos suficientes para evitar a gravidez e
deveria haver melhor orientação.
Evitar seria melhor que retirar uma vida inocente.
Não acho certo, acho que é pecado.
Quem faz deve ter consciência do que faz.
Sou contra, porque a criança sente.
As mulheres devem assumir o que fazem, pois a criança
não pediu para vir ao mundo.
Depois que engravida não se pode tirar.
Provocar um aborto é um crime.
Essas falas retratam a necessidade de novas pesquisas
sob o olhar da mulher que vivencia o abortamento e
reforçam a questão do aborto como um tema polêmico
e permeado por tabus e questões sociais.
CONCLUSÃO
Neste estudo, retratam-se as vantagens e as limitações
próprias de estudos descritivos do tipo transversal. A
abordagem dessas mulheres na instituição hospitalar
permitiu, de maneira simples, encontrar um número
de casos de aborto para a investigação de seus
determinantes. Esses dados confirmam que há
necessidade de estratégias para o planejamento familiar
e também assistência hospitalar que auxilie na melhoria
do tratamento do aborto e melhor qualidade de vida a
essas mulheres.
Podemos notar que há outros horizontes de
possibilidade para a mulher com trajetória de controle
da sua fecundidade e que incluem, necessariamente,
a educação, o pronto acesso aos serviços de saúde, a
preocupação genuína com a saúde integral da mulher.
São caminhos que as respeitam como cidadã livre para
fazer escolhas, mas que não implicam, necessariamente,
aceitação plena do aborto. Assim, compreender o
contexto das mulheres constitui uma possibilidade de
acesso ao próprio ser, visto que o respeito e a interação
são importantes para entendê-las em sua situação de
abortamento. Esse momento encontra-se propício
à atuação da enfermagem quanto à orientação e ao
cuidado com a saúde.
Os resultados deste estudo mostram que existe a
necessidade crescente de investigar e conhecer mais
sobre as mulheres que procuram os serviços de saúde
para tratamento do abortamento e adequar os tipos
de tratamento disponíveis nos serviços hospitalares
dos municípios do interior do Brasil, com o objetivo
de atender com maior qualidade à saúde da mulher,
bem como diminuir o risco de complicações e custo
assistencial. Além do mais, deste estudo podem emergir
novas possibilidades de pesquisas com mulheres em
situação de abortamento sob as perspectivas das
mulheres e dos profissionais de saúde que atuam nesse
cenário de assistência.
REFERÊNCIAS
1. World Health Organization. Unsafe abortion: global and regional estimates of incidence of unsafe abortion and associated mortality in 2003.
Geneva: Department of Reproductive Health and Research; 2007.
2. Duarte GA, Alvarenga AT, Osis MJMD, et al. Perspectiva masculina acerca do aborto provocado. Rev Saúde Pública. 2002; 36(3): 271-7.
3. Código Penal. Decreto Lei n. 2848 de 7 de dezembro de 1940. In: Delmanto C, Delmato R, Delmanto Júnior R, et al. Código penal comentado.
São Paulo: Renovar; 2002. p. 267-71.
4. Mariutti MG, Almeida AM, Panobianco MS. Nursing care according to women in abortion situations. Rev Latinoam Enferm. 2007; 15(1): 20-6.
5. Diniz D. Aborto e saúde pública no Brasil. Cad Saúde Pública. 2007; 23(9): 1992-3.
6. Brasil. Ministério da Saúde. Aborto inseguro: um problema de saúde pública. [Citado 2010 dez 12]. Disponível: http://portal.saude.gov.br/
saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=22411.
7. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS). DATASUS - Tecnologia da Informação a serviço do SUS.
Procedimentos Hospitalares do SUS por local de residência. Brasília: [Citado 2009 mar 28]. Disponível em: http://www.tabnet.datasus.gov.
8. Menezes G, Aquino EML. Pesquisa sobre aborto no Brasil: avanços e desafios para o campo da saúde coletiva. Cad Saúde Pública. 2009;
25(Supl 2): 193-204.
9. Motta IS. A relação interpessoal entre profissionais de saúde e a mulher em abortamento incompleto: “o olhar da mulher”. Rev Bras Saúde
Matern Infant. 2005; 5(2): 219-28.
10. Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução n. 196, de dezembro de 1996. Dispõe sobre normas de pesquisa com
seres humanos. Brasília: Conselho Nacional de Saúde; 1996.
11. Nader PRA, Blandino VRP, Maciel ELN. Características de abortamentos atendidos em uma maternidade pública do município da Serra/ES.
Rev Bras Epidemiol. 2007; 10(4): 615-24.
12. Bazotti KDV, Stumm EMF, Kirchner RM. Ser cuidada por profissionais da saúde: percepções e sentimentos de mulheres que sofreram
abortamento. Texto & Contexto Enferm. 2009; 18(1): 147-54.
13. Cecatti JG, Guerra GVQL, Sousa MH, et al. Aborto no Brasil: um enfoque demográfico. Rev Bras Ginecol Obstet. 2010; 32(3): 105-11.
14. Vieira LM, Goldberg TBL, Saes SO, et al. Abortamento na adolescência: um estudo epidemiológico. Ciênc Saúde Coletiva. 2007; 12(5):
1201-8.
15. Mariutti MG, Furegato ARF. Fatores protetores e de risco para depressão da mulher após o aborto. Rev Bras Enferm. 2010; 63(2): 183-9.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 504-512, out./dez., 2011
511
Características dos abortamentos de mulheres atendidas em uma instituição hospitalar filantrópica de Caratinga/mg
16. Ramos KS, Ferreira ALCG, Souza AI. Mulheres hospitalizadas por abortamento em uma Maternidade Escola na Cidade do Recife, Brasil. Rev
Esc Enferm USP. 2010; 4(3): 605-10.
17. Olindo MTA, Moreira Filho DC. Fatores de risco e preditores para o aborto induzido: estudo de base populacional. Cad Saúde Pública. 2006;
22(2): 365-75.
18. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Área Técnica de Saúde da
Mulher. Atenção humanizada ao abortamento. Norma Técnica. Brasília: MS; 2005.
19. Diniz D, Medeiros M. Aborto no Brasil: uma pesquisa domiciliar com técnica de urna. Ciênc Saúde Coletiva. 2010; 15(Supl.1): 959-66.
20. Fonseca W, Misago C, Correia LL, et al. Determinantes do aborto provocado entre mulheres admitidas em hospitais em localidade da região
nordeste do Brasil. Rev Saúde Pública. 1996; 30(1): 13-8.
21. Boemer MR, Mariutti MG. A mulher em situação de abortamento: um enfoque existencial. Rev Esc Enferm USP. 2003; 37(2): 59-71.
Data de submissão: 15/6/2009
Data de aprovação: 29/4/2011
512
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 504-512, out./dez., 2011
ENFERMAGEM: HISTÓRIA E MEMÓRIAS DA CONSTRUÇÃO DE UMA
PROFISSÃO*
NURSING: HISTORY AND MEMORIES OF THE CONSTRUCTION OF A PROFESSION
ENFERMERÍA: HISTORIA Y MEMORIAS DE LA CONSTRUCCIÓN DE UNA PROFESIÓN
Djailson José Delgado Carlos1
Raimunda Medeiros Germano2
RESUMO
Estudo de enfoque histórico e qualitativo, com o objetivo de analisar a enfermagem do Hospital Universitário Onofre
Lopes (HUOL), em sua fase pré-profissional. Esta pesquisa justifica-se pela inexistência de registros sobre a enfermagem
em uma das instituições de maior tradição no ensino da saúde no Estado do Rio Grande do Norte-RN. A investigação
empírica, realizada em 2005, pautou-se pelo levantamento de documentos: relatórios, atas, cartas, regimentos, estatutos,
leis, decretos, portarias, fotos e entrevistas com pessoas que dessa história têm vivas memórias. Pode-se depreender
que a enfermagem dessa instituição, nos seus primórdios, guarda estreita identidade com a fase pré-profissional da
profissão no mundo e no Brasil. Era formada por atendentes, sem qualquer preparo técnico, com orientação de um
grupo de religiosas, Filhas de Sant’Ana, pioneiras na organização e administração do serviço de enfermagem do Hospital.
Eram também responsáveis pela assistência ao paciente, caracterizada por uma filosofia meramente caritativa.
Palavras-chave: Enfermagem; História; Ensino.
ABSTRACT
This is a study with a historical and qualitative approach that aims to analyze the nursing practice at the University
Hospital Onofre Lopes in its pre-professional stage. This research is justified by the lack of records about nursing in an
institution of great tradition in nursing teaching in the State of Rio Grande do Norte. The study was carried out in 2005
and the empirical research was backed by a survey of reports, minutes, letters, bylaws, statutes, acts, laws, decrees,
photos and interviews with people who have vivid memories of the hospital history. In its early days, nursing in that
institution held a close identity with the pre-professional stage of nursing in the world and in Brazil. At that time its staff
was formed by assistants with no technical formation that were supervised by a group of nuns from the congregation
of the Daughters of St. Anne. They were pioneers in the organization and administration of nursing care at the hospital
and were also responsible for patient care all imbued with a purely charitable philosophy.
Key words: Nursing; History; Education.
RESUMEN
Estudio de enfoque histórico y cualitativo realizado con el objeto de analizar la enfermería del Hospital Universitario
Onofre Lopes (HUOL) en su etapa pre-profesional. Esta investigación se justifica por la falta de registros sobre la
enfermería de uno de los hospitales más tradicionales de enseñanza de salud en el Estado de Rio Grande do Norte (RN).
Se trata de un estudio empírico realizado en 2005 que se basa en el relevamiento de documentos tales como informes,
actas, cartas, reglamentos, estatutos, leyes, decretos, fotos y entrevistas a personas que conservan vivos recuerdos de
la historia del hospital. Se puede deducir que en sus primeras épocas la enfermería de esta institución estuvo muy
vinculada con la etapa pre-profesional de enfermería en Brasil y en el mundo. En esa época el trabajo de enfermería
era llevado a cabo por personas sin ninguna preparación técnica, orientadas por religiosas, Hijas de Sant’Ana, pioneras
en la organización y administración de las tareas de enfermería del hospital. Eran también responsables de la atención
del paciente que se caracterizaba por ser meramente compasiva.
Palabras clave: Enfermería; Historia; Enseñanza.
*
1
2
Artigo produzido com base na dissertação de Mestrado “Passado e presente: a enfermagem do Hospital Universitário ‘Onofre Lopes’”, apresentada ao Programa
de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), 2005.
Enfermeiro do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL). Mestre em Enfermagem pela UFRN. E-mail: djdc_dede@hotmail.com.
Enfermeira. Doutora em Educação. Professora adjunta do Departamento de Enfermagem e Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFRN.
Endereço para correspondência – Djailson José Delgado Carlos. Rua Joaquim Lopes Pereira, 145 apto. 302, Nova Parnamirim-RN. CEP: 59.150-590.
E-mail: rgermano@natal.digi.com.br
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 513-521, out./dez., 2011
513
Enfermagem: história e memórias da construção de uma profissão
INTRODUÇÃO
A finalidade com este estudo é registrar a história
da enfermagem do Hospital Universitário Onofre
Lopes (HUOL), no Estado do Rio Grande do Norte-RN,
tomando como referência a formação profissional. Para
sua realização, teve-se a intenção de reunir o máximo
dessa história, abrindo-se perspectivas para conhecer
melhor a profissão, preservar-lhe a memória e fomentar
estudos outros que contribuam para a construção
efetiva do saber no campo da saúde e da enfermagem,
principalmente.
A escolha dessa instituição secular deu-se pelo fato
de ela ser para o Estado do Rio Grande do Norte uma
referência na formação dos profissionais de saúde.
Assim, partiu-se para o levantamento de material
sobre o Hospital e a enfermagem, incluindo atas de
reuniões, relatórios, fotografias, cartas, livros e trabalhos
acadêmicos, bem como a realização de entrevistas com
pessoas que viveram essa história ou que dela têm vivas
memórias.
Isso posto, torna-se significativo registrar que foi a
enfermagem que manteve, ao longo dos anos, uma
relação mais estreita com o Hospital, considerando-se
que a primeira iniciativa de ensino na história dessa
instituição ocorreu em 1955, com o funcionamento,
em suas dependências, da Escola de Auxiliares de
Enfermagem de Natal, atual Escola de Enfermagem de
Natal (EEN).1
Portanto, o registro da história da Enfermagem do HUOL,
articulado com o ensino de enfermagem da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), constitui o
objeto deste estudo. Assim, o desenvolvimento desta
investigação, cujo objetivo foi analisar a evolução da
enfermagem do HUOL em seus primórdios, justifica-se
pelo fato de resgatar uma história ainda não registrada
e de suma importância para a enfermagem do RN, pelo
seu pioneirismo.
TRAJETÓRIA METODOLÓGICA
Estudo de enfoque histórico com abordagem qualitativa,
tendo como propósito a investigação da trajetória da
enfermagem do HUOL em sua fase pré-profissional,
tomando como referência o ensino de enfermagem
da UFRN.
A realização deste estudo tornou-se possível com a
aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa
da UFRN, conforme Parecer nº 81/2004, e contempla
as prerrogativas da Resolução nº 196/96 do Conselho
Nacional de Saúde 2 , no que se refere a estudos
envolvendo seres humanos.
Sobre a pesquisa histórica, sabe-se que contribui para
elucidar o contexto vivido, que se relaciona a motivações
distintas e é resultante de consultas às diversas fontes,
sejam elas primárias ou secundárias.3
Trata-se, então, de uma análise sistematizada por meio
da qual são estabelecidas novas conexões, comparações
514
e significados dos fatos estudados, produzindo um novo
conhecimento. Assim concebida, esse tipo de pesquisa
permite a compreensão do passado de um grupo social
que, ao longo dos anos, construiu essa história.4
As fontes da pesquisa histórica devem ser vistas como
a via pela qual o pesquisador entra diretamente em
contato com o problema, possibilitando-lhe examinar
e analisar uma sociedade em seu tempo.5 Igualmente
contribuem na recuperação da memória, ajudando a
salvar o passado para servir ao presente e ao futuro.6
Quanto às pesquisas de abordagens qualitativas, sabese que permitem buscar as raízes dos significados, das
suas causas, extrapolando uma visão superficial que se
possa ter destes. A respeito dessa modalidade, deve-se
utilizá-la quando se deseja aprofundar a realidade,7 pela
oportunidade de trazer para a análise o subjetivo e o
objetivo, os atores sociais, os fatos e os significados.8
Trabalhar nessa perspectiva possibilitou ultrapassar
a aparência do fenômeno, identificando, analisando
e argumentando significados presentes nos registros
contidos nos diversos documentos e nos depoimentos
dos entrevistados.
A respeito da realização das entrevistas, é um momento
enriquecedor para a investigação, pois o entrevistado
participadaelaboraçãodapesquisa,vistoserestabelecida
por meio de comunicação bilateral.9
A amostra constituiu-se de oito profissionais do HUOL
(um médico diretor, duas religiosas Filhas de Sant’Ana,
dois técnicos de enfermagem) e da EEN/UFRN (uma
enfermeira professora, uma enfermeira diretora e uma
ex-aluna da primeira turma da EEN), tendo sido adotado
como critério de participação neste estudo ter exercido
suas atividades a partir da década de 1950.
Foram esclarecidos os objetivos e outros aspectos
relacionados à pesquisa, assim como foi feita a leitura
do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)
e, em caso de concordância, a solicitação da assinatura.
Para a manutenção do sigilo, os participantes foram
identificados pela letra E, que significa entrevistado,
seguido pela numeração crescente em conformidade
com a ordem das entrevistas.
A coleta de dados obedeceu a dois momentos: primeiro,
foi solicitada a autorização do Arquivo Geral do Estado,
da Direção de Enfermagem do HUOL e da EEN, por
conterem registros que dizem respeito ao Hospital,
ao ensino de enfermagem e à própria enfermagem
do RN; em seguida ocorreu a realização de entrevistas
entre os meses de maio a junho 2005, em data e local
previamente agendados com os participantes.
Quanto à técnica de entrevista, optou-se pela não
diretiva, visto que permite ao entrevistado manter-se
interessado no que fala, desenvolvendo suas opiniões
conforme sua conveniência.9
Para proceder à análise dos dados, as entrevistas foram
gravadas e cuidadosamente transcritas, tendo sido lidas
atentamente, selecionadas quanto à pertinência dos
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 513-521, out./dez., 2011
depoimentos dos participantes em razão dos objetivos
da pesquisa.
Portanto, deve-se dizer que a trajetória histórica da
enfermagem do HUOL, objeto desta pesquisa, foi sendo
lentamente tecida e construída, podendo ser comparada
a um verdadeiro artesanato intelectual. Para tal, contou
com referências existentes em documentos, estudos
acadêmicos e com a memória daqueles que ajudaram
a construí-la.
ANÁLISE E DISCUSSÃO
No Brasil, tomando-se como referência o período
colonial (séculos XVI a XIX), os primeiros a se ocuparem
dos cuidados aos doentes em suas próprias tribos foram
os pajés, mas com a colonização essas responsabilidades
foram sendo assumidas por jesuítas, religiosas,
voluntários leigos e escravos.10
É dessa época a fundação das Santas Casas de Misericórdia, destinadas ao acolhimento dos pobres, órfãos
e enfermos. A primeira delas a ser fundada foi a de
Santos-SP, em 1543, seguida pela do Rio de Janeiro-RJ,
Vitória-ES, Olinda-PE e Ilhéus-BA.10 Nesse período, essas
instituições representam quase o único tipo de hospital
do país.11
A respeito da estrutura e funcionamento dessas Santas
Casas de Misericórdias, em linhas gerais, há referências
da existência de enfermarias masculinas e femininas,
compartimentos para a direção, a recepção, dormitório
dos empregados, cozinha, botica, capela, penúria
de medicamentos, de instrumental, de rouparia e de
alimentos. A direção estava entregue a leigos e os
serviços de enfermagem eram praticados por escravos
ou por indivíduos de baixo nível social.12
Sobre a enfermagem dessa época, sabe-se que era
essencialmente prática e que para exercê-la não
havia exigências quanto à escolaridade. Em geral,
seus exercentes eram analfabetos.10 A dificuldade de
divulgação de conhecimentos científicos também
simplificava excessivamente as exigências para o
desempenho das funções do enfermeiro.13
Sobre essa realidade, uma vez contratada para assistir
um doente, qualquer pessoa, homem ou mulher,
adquiria prática e daí por diante, por presunção, firmava
reputação de entendida em enfermagem, ou seja, a
Escola foi a prática.11
Nessa época, dada a falta de literatura específica, eram
corriqueiras as consultas a livros trazidos de Portugal
sobre medicina popular e enfermagem caseira. O Guia do
Enfermeiro, escrito em 1783 por Francisco Morato Roma,
de edição portuguesa, era um dos mais consultados por
aqueles que prestavam cuidados aos doentes.10
Essa enfermagem praticada por leigos, desprovida de
conhecimentos formais, baseada em práticas empíricas,
cercada de rituais e que concebe a doença como um
castigo dos deuses aos desobedientes, é considerada
como pré-profissional. Sabe-se que ela perdurou até o
século XIX, quando, na Inglaterra, em 9 de julho de 1860,
Florence Nightingale, na intenção de tornar a profissão
honrosa, fundou no Hospital São Tomás, em Londres,
uma escola para enfermeiros.10,12
Essa Escola destinava-se a serviços hospitalares, domiciliares e de ensino, diferenciando-se quanto à sua
orientação e organização, pois, obrigatoriamente,
deveria ser dirigida por enfermeiras. O ensino pautava-se
pela anatomia, química, filosofia, abreviações latinas e
técnicas. Suas alunas eram selecionadas sobre o ponto
de vista moral, físico, intelectual e de aptidões. Também
era critério serem jovens e educadas. Formavam
as nurses, menos favorecidas, tinham seus estudos
financiados pela Fundação Nightingale e destinavamse aos serviços práticos; e as ladies-nurses, socialmente
privilegiadas, eram preparadas para as atividades de
supervisão e ensino, ocupando espaços de liderança.
Essa formação em modalidades reflete a divisão social
de classes e enfatiza a divisão técnica do trabalho, tendo
em vista os dois tipos de aluna.13
A importância maior dessa Escola consiste na substituição
da prática empírica, sem fundamentação teórica, por
uma prática sistematizada e racional, alicerçada em
conhecimento científico. Seguindo esses preceitos, a
enfermagem passa a ser denominada como Moderna
ou Profissional.
No Brasil, a Enfermagem Moderna foi introduzida em
1922, quando, na cidade do Rio de Janeiro, capital do
país na época, o Departamento Nacional de Saúde
Pública (DNSP) recebeu, por meio do convênio firmado
entre seu diretor, o sanitarista Carlos Chagas, e o Serviço
Internacional de Saúde da Fundação Rockfeller, um
grupo norte-americano de enfermeiras.10,12
Dentre outros feitos, essas enfermeiras foram responsáveis pela fundação, em 10 de novembro de 1922,
e funcionamento, em 19 de fevereiro de 1923, da Escola
de Enfermeiras do DNSP, posteriormente denominada
Escola de Enfermagem Anna Nery, considerada padrão
para todo o país. Atualmente, encontra-se vinculada à
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).14
A vinda dessas enfermeiras é considerada um marco
de extrema importância, pois, anteriormente a esse
acontecimento, esse ofício estava sob a responsabilidade
de leigos e à mercê do empirismo.
Sobre escolas profissionais de enfermeiros no país, é
importante registrar que outras iniciativas antecederam
a fundação da Escola de Enfermagem Anna Nery, a saber:
Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras do
Hospital Nacional de Alienados (1890), no Rio de Janeiro,
posteriormente chamada de Escola de Enfermeiros
do Serviço Nacional de Doenças Mentais, atualmente
denominada de Escola de Enfermagem Alfredo Pinto,
pertencente à Universidade do Rio de Janeiro (UNI-RIO);
Escola de Enfermagem no Hospital Evangélico (1901), em
São Paulo, hoje Hospital Samaritano; e a Escola Prática
de Enfermeiras da Cruz Vermelha.10,12
Quanto ao funcionamento dessas escolas de
enfermagem, eram os médicos os responsáveis não
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 513-521, out./dez., 2011
515
Enfermagem: história e memórias da construção de uma profissão
somente pela direção, mas também pela administração
do processo educacional, e a seleção dos conteúdos
se dava em conformidade com as necessidades
da prática médica. Por esses motivos, a Escola de
Enfermeiras do DNSP, pioneira no ensino sistematizado
de enfermagem no Brasil, seguindo as orientações do
sistema nightingaliano, é reconhecida, pela maioria dos
documentos, como a primeira do país.15
Saúde (SUS) e vinculada ao Ministério da Saúde (MS),
cuja função básica é apoiar o ensino de graduação e
pós-graduação do Centro de Ciências da Saúde (CCS)
da UFRN.
No que diz respeito ao Rio Grande do Norte, no início
do século XX, especificamente em Natal, capital do
Estado, a enfermagem do HUOL, Hospital de Caridade
Jovino Barreto na época, pautava-se, naturalmente, pelo
conhecimento baseado na experiência, como ocorria nas
demais instituições de saúde do Brasil.
Era desempenhada por qualquer pessoa [...]. Eram umas
amadoras as pessoas que exerciam a enfermagem;
eram pessoas amadoras, práticas. (E1)
Retornando, pois, à enfermagem do HUOL, em seu
período pré-profissional, objeto deste estudo, assim se
pronunciaram alguns participantes desta investigação:
Era muito difícil. Tudo era improvisado porque não
tinha recursos. Então a gente fazia o que era possível. As
religiosas também trabalhavam com o doente. (E2)
Sobre essa instituição de saúde, inaugurada em 12 de
setembro de 1909, faz-se necessário destacar que sua
fundação decorreu da necessidade de organizar uma
assistência condigna à população.
Para tal, uma casa de veraneio, localizada no Monte
Petrópolis, foi adaptada com 18 leitos para o atendimento de pessoas carentes. Foram contratados para
seu funcionamento o médico Januário Cicco como
diretor, um grupo de religiosas Filhas de Sant’Ana para
assistência ao enfermos e direção doméstica, e José
Lucas do Nascimento como “enfermeiro”. O Hospital
também dispunha de pessoal para as funções de
servente, jornaleiros e criados. Administrativamente
encontrava-se subordinado ao Estado por meio da
Inspetoria de Higiene e Saúde.16
Eu me lembro que eram muitos doentes que se
internavam; às vezes não tinha nem cama para colocálos. (E3)
As coisas eram muito precárias. Por exemplo, nós
lavávamos e consertávamos luvas já utilizadas para
serem novamente usadas em outros procedimentos.
Também desobstruíamos agulhas e fazíamos suas
pontas. (E4)
Vê-se, então, com base nesses depoimentos, quão
precária era a condição de trabalho da enfermagem
na época, bem como comprova-se a inexistência de
formação profissional. No que diz respeito ao trabalho
das irmãs Filhas de Sant’Ana, podem ser observadas as
seguintes revelações
A respeito do “enfermeiro” José Lucas do Nascimento,
responsável pelas enfermarias masculinas, conhecido
pela sua dedicação e popularíssimo como “‘doutor’ de
gente pobre”,17 faz-se necessário relembrar o caráter
essencialmente empírico da enfermagem nessa
época.
As irmãs trabalhavam de dia e de noite. Apesar de não
serem formadas, elas tinham prática de enfermagem
e adquiriam confiança dos médicos, trabalhando
com muito amor, muita dedicação, com muito empenho. (E4)
NoHospital,asreligiosasfaziamtodootrabalho[...]. Elas
também tinham funções administrativas e cada uma
era responsável por um setor hospitalar ou enfermaria
[...]. Tinha irmãs que ajudavam a trocar a roupa do
paciente, a dar alimentação àqueles que não podiam
se alimentar e ajudavam nas medicações. (E5)
No que tange ao grupo de religiosas, coordenado pela
Superiora Cosma Campani, estudos relatam que eram
sete, vindas de Recife-PE. Também há referências de uma
irmã licenciada em serviços farmacêuticos.1,15
Acerca desse Hospital, a título de informação, sua existência é marcada por vários processos de reformas e
ampliações, ocasionando modificações em sua estrutura
física e organizacional. Seu crescimento foi acompanhado
de sucessivas mudanças de nomes, a saber: Hospital de
Caridade Jovino Barreto (1909), Hospital Miguel Couto
(1935), Hospital das Clínicas (1960) e, a partir de 1984,
como homenagem ao primeiro Reitor da UFRN, após
seu falecimento, passou a denominar-se Hospital
Universitário Onofre Lopes.17
Funcionando como Hospital-Escola, desde a criação
da UFRN, em 1958, desempenha importante papel
como centro de pesquisa científica nas diversas áreas e
conhecimento aplicados à saúde, desenvolvendo, para
tal, atividades de ensino, pesquisa, extensão e assistência
a população.18
Atualmente, é uma instituição de saúde pública terciária
de âmbito federal, integrada ao Sistema Único de
516
Essa realidade permaneceu por décadas, tendo as
religiosas à frente dos serviços hospitalares. Do grupo
inaugural de sete, em 1909, em 1935 havia nove delas,
acrescidas ao grupo de não religiosas, já composto
por José Lucas do Nascimento, duas “enfermeiras”
(Generosa de Souza e Maria de Jesus) e duas auxiliares
de enfermaria (Joaninha Sales e Francisca Fernandes).
Ainda sobre a composição do serviço de enfermagem do
Hospital, dados revelam que em 1945 havia 13 religiosas,
2 “enfermeiras”, 4 “enfermeiros” e 2 parteiras.19
Vale assinalar que não foi encontrado qualquer
documento referente à origem, local de nascimento
ou mesmo dados pessoais dessas pessoas citadas,
diferentemente de outros personagens aludidos neste
estudo. Pode-se perceber que em uma sociedade de
classes essa ausência de dados vem confirmar o lugar
que cada pessoa ocupa na hierarquia social.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 513-521, out./dez., 2011
A respeito da participação das Irmãs Filhas de Sant’Ana
na administração e assistência hospitalar, registros
referentes a 1952 afirmam a existência de 16 religiosas
lotadas em serviços diversos, a saber: Albina Vieira
(Superiora), Teodolinda Amazonas (secretária), Natália
Maia (farmacêutica), Vilma Vila (pavilhão de luxo), Delfina
Lorena (pavilhão de 1ª classe), Damelina Amaral (setor
de internamento), Inez Mineli (centro cirúrgico), Donata
(pavilhõesde2ªe3ªclasses),PierinaAlbuquerque(1ª,2ª,3ª,
4ª e 5ª enfermarias), Alessia Barbosa (6ª e 7ª enfermarias),
Izaura Rego (8ª, 9ª, 10ª, 11ª, 12ª e 13ªenfermarias),
Geralda Carvalho (14ª, 15ª e 16ª enfermarias), Miquelina
Cassioraghi (portaria e gabinetes de odontologia e
otorrinolaringologia), Emerentina Montenegro (cozinha),
Conceição Busatta (lavanderia) e Emerenciana Costa
(sala de costura) É importante informar a inexistência de
enfermeiras diplomadas entre elas.19
Diante dessa realidade, torna-se imprescindível relembrar
que a institucionalização da Enfermagem Moderna no
Brasil ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, em 1923,
expandindo-se muito lentamente pelo país, haja vista a
realidade do Rio Grande do Norte, cujo ensino, seguindo
os preceitos de Florence Nightingale, só foi possível 32
anos depois, com a fundação da EEN.
Retornando a organização do serviço de enfermagem
do HUOL nessa época, no que diz respeito ao ingresso à
assistência, assim informaram dois participantes:
A partir de uma experiência como acompanhante
de um paciente cirurgiado [...]. A forma atenciosa e
delicada como eu o tratava chamou a atenção das
irmãs, aí terminei por ser convidada a trabalhar no
Hospital, mas tive que fazer um treinamento. (E2)
As freiras pesquisavam o trabalho dos funcionários da
limpeza junto aos pacientes e então aquelas pessoas
que se destacavam, que demonstravam jeito para a
Enfermagem eram convidados [...]. Como eu sempre
demonstrei interesse pela assistência, nas minhas horas
de folga colaborava como voluntário nos cuidados aos
pacientes. A irmã que trabalhava na enfermaria, certo
dia me perguntou: 'Você gostaria de trabalhar no serviço
de Enfermagem?' Respondi que sim. Então fui treinado
como atendente. (E5)
Esses depoimentos ilustram quão efetiva era à participação das Irmãs Filhas de Sant’Anna na vida da
instituição e, em particular, no gerenciamento da
assistência de Enfermagem, bem como fica explicita
a valorização de princípios cristãos como amor,
fraternidade, caridade e serviço ao próximo.
Quanto ao treinamento realizado pelas religiosas, veja
os seguintes depoimentos:
Tinha como requisito saber ler e escrever. Tudo as
freiras me explicavam e eu com aquela explicação
já estava aprendendo [...]: ‘Bote uma bolsa de água
quente assim’, explicava como devia ser feita a injeção.
A aprendizagem continuava a ocorrer no próprio
trabalho (E2)
Acontecia no espaço de três meses, com aulas teóricas
e práticas [...]. Constava de ensinamentos básicos, tais
como: técnicas de injeção, curativos, verificação dos
sinais vitais, banho no leito, mudança de decúbito, troca
de roupas do paciente e de cama. (E5)
Quando comecei a trabalhar no Hospital eu não tinha
experiência com esse negócio de Enfermagem. Eu entrei
sem saber de nada. A Irmã Geralda Carvalho foi minha
professora, me ensinou tudo: curativo, fazer injeção. Ela
tinha a maior confiança em mim e os médicos também.
Eu passava o dia na enfermaria cuidando dos pacientes
e à noite ia dormir. A gente não tinha folga, trabalhava
o dia e a noite, das 6 horas da manhã às 6 horas da noite
e a colega das 6 da noite às 6 da manhã. (E6)
Nessa condição, a enfermagem do HUOL permaneceu
por décadas, embora houvesse o desejo expresso em
discursos e documentos de fazer funcionar, em Natal,
uma escola de enfermeiras e parteiras anexa ao Hospital.
A primeira iniciativa surgiu quando a Sociedade de
Assistência Hospitalar (SAH), de caráter beneficente,
cuja finalidade era a assistência médica e o amparo
aos pobres, responsabilizou-se, a partir de 1927, pelo
gerenciamento, planejamento e administração do
Hospital.2 Na época, o sonho não se realizou, dada a
escassez de recursos humanos e materiais.
Sobre essa Escola, sua criação ocorreu em 1934, mas,
pelos motivos acima referidos, seu funcionamento não
se concretizou. É importante frisar que os egressos do
ensino da Enfermagem Moderna no Brasil, formados
nos Estados do sudeste brasileiro, foram absorvidos pelo
mercado local, não se deslocando para outras regiões
do país.
Mesmo assim, a ideia de fazer funcionar uma Escola
de Enfermagem passa a ser, cada vez mais, defendida
pelos dirigentes da SAH e, em 20 de julho de 1950, às 10
horas, no Salão Nobre, do então Hospital Miguel Couto
(HMC), a Escola foi fundada. Na ocasião a diretoria ficou
assim constituída: Onofre Lopes (médico e Diretor),
Elita Silveira (enfermeira diplomada e Vice-diretora)
e Irmã Teodolinda Amazonas (secretária) Também foi
composto um Conselho Administrativo: Januário Cicco,
Ernesto Fonseca, Otávio Varela, João Tinoco, Onofre
Lopes (médicos), Nestor dos Santos Lima, Paulo Sobral
(advogados), Elita Silveira (enfermeira) e a religiosa,
Irmã Belém.1
Sobre essa composição, vê-se uma decisão contrária aos
preceitosdaEnfermagemModerna,quedefendeacriação
e o gerenciamento das escolas sob a responsabilidade de
enfermeiros, orientação que persiste até os dias atuais.
Nessa época, a cidade de Natal apresentava uma
população de 103.215 habitantes, sendo 53,86 %
mulheres e 46,13 %, homens, dentre os quais apenas
47,80% da população era alfabetizada.16 Essas informações
demonstram quão precário era o contexto, dificultando,
naturalmente, a realização de alguns projetos na área
de educação – por exemplo, o funcionamento de uma
escola de enfermagem, embora já estivesse oficialmente
criada.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 513-521, out./dez., 2011
517
Enfermagem: história e memórias da construção de uma profissão
A propósito da enfermeira Elita Silveira, sabe-se que
desempenhou suas funções na Maternidade de Natal,
hoje Maternidade-Escola Januário Cicco (MEJC),
enquanto aguardava o início das atividades da Escola
de Enfermagem.
Embora a intenção de fazer funcionar a Escola correspondesse à necessidade de qualificar os funcionários
do Hospital exercentes da enfermagem, as dificuldades encontradas eram enormes, como a inexistência
de docentes, de prédio próprio, de laboratório, de
recursos didáticos, dentre outras, impossibilitando seu
funcionamento. Assim, teve-se de aguardar por anos,
até que tais deficiências fossem superadas.
Na tentativa de vencer as dificuldades e de fazer
funcionar a Escola, algumas iniciativas foram tomadas,
como se pode observar no depoimento a seguir:
Veio uma supervisora do Rio de Janeiro, do Ministério da
Saúde, que elaborou um relatório que impossibilitava
o funcionamento da Escola de Enfermagem aqui em
Natal [...]. O mesmo, de autoria da enfermeira Izaura
Barbosa Lima, explicitava a precariedade de recursos
materiais e técnicos para o funcionamento de um curso
de enfermagem [...]. Ainda que este relatório tenha
causado descontentamento entre os dirigentes da
SAH, serviu para estudos e observações posteriores que
terminaram por sugerir, junto ao Ministério de Educação
e Cultura, autorização para fazer funcionar uma Escola
de Auxiliares de Enfermagem. (E7)
Como se vê, no Rio Grande do Norte, a criação de uma
escola de enfermagem representou um ideal almejado
por muitos anos. No entanto, seu funcionamento
somente foi possível após convênio firmado em 11 de
maio de 1955 entre a Divisão de Organização Hospitalar
(DOH), a Campanha Nacional contra a Tuberculose
(CNCT) e a SAH. Era renovável a cada dois anos e vigorou
logo após sua assinatura. Coube à DOH a contribuição
financeira, à CNCT a disponibilização de pessoal e à SAH
as instalações físicas, oferecer internato às alunas, além
de toda assistência necessária, como também o envio
anual de relatório constando das atividades escolares às
partes contratantes.19
Para os trabalhos iniciais e funcionamento a partir de
1º de março de 1956, a Escola contou com Maria de
Lourdes Lopes (enfermeira e diretora), Nice de Menezes,
Geny Carvalho de Oliveira (enfermeiras e professoras),
Carmem Reis Maffioletti (secretária), Maria Lourenço de
Freitas e Maria de Lourdes Martins (serventes).1
Valesalientar que a dificuldade deenfermeirasdiplomadas
para lecionar era minimizada com médicos pertencentes
aoquadrofuncionaldoHospital,denominado“Professores
não privativos da Escola”. Eram eles: Ernani Cicco
(Patologias Médicas), Hiram Diogo (Patologias Cirúrgicas),
Cleone Noronha (Microbiologia e DoençasTransmissíveis),
Leide Morais (Obstetrícia e Ginecologia), Heriberto Bezerra
(Pediatria e Puericultura) e Eudes Moura (Ortopedia)
Integravam-se, também, esse grupo, a “nutricionista”
Francisca Silva Rocha (Alimentos e Preparos) e a professora
Teresinha Soares de Brito (Português, Aritmética,
518
Geografia e História do Brasil), cedida pela Secretaria
Estadual de Educação.1
Asseguradas as condições físicas, materiais e de pessoal,
a autorização de funcionamento da EEN ocorreu em 7
de dezembro de 1955.1 A respeito desse acontecimento,
assim se pronunciou um entrevistado:
Sua criação foi importantíssima, importantíssima
[...]. Médicos daquele tempo se preocupavam com a
qualidade da assistência [...]. Para eles, foi uma coisa
muito boa a criação da Escola [...]; para todos nós
[...]. Antes da Escola era uma tragédia [...]. Não podia
continuar daquele jeito, com pessoas sem a menor
qualificação, amadoras, práticas. (E1)
Essa Escola, moldada nos princípios da Enfermagem
Moderna, marco da Enfermagem profissional no Rio
Grande do Norte, seguiu os critérios de seleção das
demais instituições congêneres. Funcionava em poucas
salas, nas dependências do Hospital, dispondo de
secretaria, diretoria, salas de aula e internato. Cumpriase, também, o protocolo de preencher requerimento
destinado ao diretor da SAH solicitando autorização
para inscrição no curso.1
A respeito do processo seletivo, sabe-se que era rigoroso.
Eis o que informam dois participantes desta pesquisa:
O cuidado que a Direção da Escola tinha era de começar
com boa qualidade [...] havia preocupação com a
qualidade do ensino [...] as exigências eram muito
grandes para que ela adquirisse credibilidade e as
pessoas passassem a acreditar que estava fazendo ali,
um bom trabalho. (E1)
A Escola era muito restrita [...]. Não era voltada para
a comunidade [...]. A seleção era muito rigorosa, mas
muito mesmo. Passou muitos anos sem ninguém
saber que em Natal existia uma Escola de Auxiliares
de Enfermagem [...]. A Escola só começou a se expandir
a partir do momento que se transferiu daqui do
Hospital. (E5)
Esse rigor era justificado pela necessidade moralizar
a emergente profissão, que no imaginário social
detinha a imagem cheia de preconceitos, com diversos
estereótipos e valores negativos. Era necessário moralizar
a profissão, modificar representações negativas sobre a
enfermagem, sobre sua prática e, sobretudo, sobre a
imagem da enfermeira.13
Por ocasião dos festejos do cinqüentenário do Hospital,
em 1959, diante de uma plateia, no que tange à Escola,
assim se pronunciou Onofre Lopes, médico, diretor do
Hospital e presidente da SAH:
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 513-521, out./dez., 2011
Está funcionando com regularidade, preparando
moças não somente para os nossos serviços
hospitalares, mas para organizações diversas,
casas de saúde, postos médicos e ambulatórios em
todo o Estado. Temos contato com permanentes
dificuldades no provimento de cadeiras, dada a falta
de enfermeiras diplomadas. Também decorrente
dessas circunstâncias, tem havido certo retardamento
no reconhecimento da Escola, que, entretanto,
já se encontra na última fase no Ministério da
Educação e Cultura. Deve ser registrado o trabalho
de magnífica colaboração dos professores e alunas
nos serviços hospitalares. O Serviço Especial de Saúde
Pública (SESP) continua a prestar valiosa ajuda na
manutenção da Escola, fornecendo-nos enfermeiras
diplomadas, além de prestimosa atuação noutros
aspectos relacionados ao seu funcionamento.19
Em 1960, a Escola obteve seu reconhecimento e nesse
mesmo ano a Universidade, até então estadual, foi
federalizada. Com essa nova situação, o Hospital passou
a se chamar Hospital das Clínicas (HC), denominação
comum aos hospitais universitários da época, trazendo
desdobramentos para a enfermagem. Sobre esses
acontecimentos, eis o que revelam dois participantes:
Com a chegada das enfermeiras na chefia de
enfermagem, quando a Universidade passou a
ser federal, as coisas melhoraram muito [...] houve
modificações na escala [...]. Nós passamos a trabalhar
seis horas diárias. O serviço melhorou bastante. Antes
as freiras comandavam a enfermagem e o Hospital,
porque não havia enfermeiras. (E6)
Com a federalização da Universidade, a administração
do Serviço de Enfermagem, até então, sob a
responsabilidade das religiosas Filhas de Sant’Ana,
passou a ser exercida por uma enfermeira professora
da Escola. (E7)
Essa nova situação repercutiu significativamente na
formação dos auxiliares, pois sendo a diretora da Escola
a chefe do Serviço de Enfermagem do Hospital, como
assim se denominava, facilitou o desenvolvimento das
atividades nas duas Instituições.
Quanto à saída das religiosas do Serviço de Enfermagem,
deve-se registrar que elas permaneceram no Hospital
por décadas, embora em outros serviços, tais como
portaria, setor de internamentos, copa-cozinha,
lavanderia e rouparia, dentre outros. Acredita-se que
essa decisão institucional, provavelmente, tenha
contribuído para uma transição menos traumática,
considerando-se o longo período em que estiveram à
frente da administração da enfermagem.
A federalização da Universidade impôs uma nova
situação à EEN no que diz respeito aos recursos para
sua manutenção, visto que sua incorporação à autarquia
ocorreu anos depois. Sobre essa situação, no dizer de
uma entrevistada,
durante esse período, a Escola ficou sob a responsabilidade do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP).
(E7)
A respeito da junção direção da Escola/Hospital, no que
toca à enfermagem, sabe-se que representou um salto
de qualidade para ambos, particularmente para o ensino.
Sobre isso, a fala a seguir é emblemática
A partir do momento no qual a enfermeira diretora
da Escola passa a exercer a chefia de enfermagem
do Hospital, há uma concentração de poder. Essa
nova situação favoreceu o processo de capacitação
dos atendentes em auxiliares de enfermagem [...].
Quando as duas funções foram assumidas, tudo fluía
bem melhor, digo, a aceitação do aluno no Hospital.
A felicidade era essa [...]. Elas, as enfermeiras, eram
responsáveis pela teoria e pela prática, ou seja, eram
contratadas para a assistência, mas também teriam
que ministrar aulas na Escola e acompanhar alunos
em campo de estágio. (E8)
Assim, a formação foi ocorrendo gradativamente e
o funcionamento da EEN foi decisivo para muitas
mudanças, visto que a situação favoreceu o processo
de capacitação dos atendentes de enfermagem
da instituição. Até a década de 1960, o corpo de
enfermagem do Hospital era formado, praticamente,
por atendentes.
Com a promulgação da Lei nº 5.692/71, que fixou as
diretrizes e base para o ensino de 1º e 2º graus, houve
desdobramentos para a enfermagem. Analisando seu
ensino, sabe-se que essa lei ocasionou um processo de
renovação e, nesse sentido, acelerou a profissionalização
dos funcionários de nível médio, já em curso, em todo
o Brasil.
Para a enfermagem do Hospital, em particular, a referida
lei teve repercussão significativa, pois os atendentes
que cursaram o auxiliar poderiam agora realizar a
capacitação para o nível técnico. Como requisito para
essa qualificação era exigida a conclusão do 2º Grau,
correspondente, hoje, ao ensino de nível médio.
Diante dessa nova situação, a Escola continuava suas
atividades com a formação do auxiliar de enfermagem
e abria nova frente de formação técnica, oferecendo, em
nível de 2º Grau, a habilitação do técnico de enfermagem,
por meio de convênio firmado entre a Universidade e
colégios públicos e privados da cidade de Natal.
Torna-se importante registrar que a trajetória da Escola
não se deu de forma linear, no transcorrer da história.
Quando surgiu o ensino de graduação de enfermagem
na UFRN, em 1973, ocorreram sérios transtornos de
ordem administrativa e pedagógica para a EEN. A criação
do Departamento de Enfermagem tornou-se possível
com a concessão da infraestrutura, já disponível na
Escola, como salas de aula, laboratório, equipamentos,
incluindo seu corpo docente. Contudo,
a Escola de Auxiliares continuou existindo, mas perdeu
suaautonomiaadministrativa,tornando-sedependente
da chefia do Departamento [...]. Por toda a década de
1970 e 1980, funcionou de forma precária, contando
com a colaboração dos professores do Departamento
de Enfermagem e de professores da Secretaria Estadual
de Educação. (E7)
Do ponto de vista do local ocupado pela Escola, vale
lembrar que do Pavilhão Santa Isabel, do antigo Hospital
Miguel Couto, onde se instalara inicialmente, ela foi
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 513-521, out./dez., 2011
519
Enfermagem: história e memórias da construção de uma profissão
transferida para o terceiro andar do agora denominado
Hospital das Clínicas. Em 1971, transferiu-se novamente,
desta vez indo ocupar uma antiga casa da Avenida Nilo
Peçanha, nº 619, comprada pela SAH para fazer funcionar
a Faculdade de Medicina. Por último, em 12 de abril de
2004, passou a ocupar um prédio próprio, situado no
Campus Universitário.20
A título de informação, além de Maria de Lourdes Lopes,
assumiram a direção da EEN, até 1973, as seguintes
enfermeiras: Nice Menezes de Oliveira, Úrsula Engel,
Maria Carmélia de Albuquerque, Lucimar Gomes
de Freitas, Oscarina Saraiva Coelho e Leda de Melo
Morais.
Todas essas transformações decorridas ao longo de mais
de cinquenta anos, no ensino de enfermagem, cujo
marco inicial ocorreu nas dependências do Hospital
Miguel Couto, repercutiram decisivamente na trajetória
de construção e aprimoramento da enfermagem do
HUOL. Depreende-se, portanto, que a qualificação
do corpo de enfermagem do Hospital ocorreu lenta
e gradativamente, conforme os depoimentos aqui
apresentadosepara cuja transformação ofuncionamento
da EEN foi decisivo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A fase empírica da enfermagem do HUOL ficou bem
evidenciada nas falas dos entrevistados contidas ao longo
do texto. Foi um longo período em que as religiosas eram
responsáveis pela maioria dos serviços hospitalares,
dentre os quais a assistência de enfermagem.
Vê-se, conforme os relatos, que pessoas leigas eram
admitidas para esse fim, sendo às vezes trabalhadores
do serviço de limpeza, que, ao demonstrarem gestos
de solidariedade e afeto para com os doentes, eram
convidados a integrar a equipe de enfermagem. A partir
de então, eram submetidas a um treinamento, tendo como
exigência, nem sempre cumprida, saber ler e escrever.
Torna-se importante destacar que a institucionalização
da Enfermagem Moderna no Brasil ocorreu em 1923, no
Rio de Janeiro, e que muito lentamente se expandiu pelo
país, haja vista a realidade do Rio Grande do Norte, cujo
ensino, seguindo os preceitos de Florence Nightingale,
só foi possível trinta e dois anos depois. Naquela ocasião,
em 1955, foi autorizado o funcionamento da EEN, em
virtude da falta de pessoal qualificado para fundar uma
escola de nível superior, conforme o desejo da SAH.
Destaque-se que, mesmo com a criação da EEN, a enfermagem do HUOL, por muito tempo permaneceu
sob a orientação das irmãs. Os egressos do curso nem
sempre passavam a integrar a equipe do Hospital, pois
muitos partiam para trabalhar em outros Estados do
país, principalmente os da Região Sudeste, pelo atrativo
financeiro, ou eram contratados por outros serviços.
Conclui-se, ao discorrer sobre a história do HUOL, sua
atuaçãodiferenciada.Inicialmentedecunhoassistencialista,
aospoucosfoimudandoseuperfil,passandoaconstituir-se
espaço, por excelência, para o ensino.
REFERÊNCIAS
1. Timóteo RPS. O ensino de enfermagem moderna no Rio Grande do Norte [Dissertação]. Natal (RN): Universidade Federal do Rio Grande do
Norte; 1997.
2. Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Resolução nº 196 de 10 de outubro de
1996: diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos. Brasília (DF): MS; 1996.
3. Aróstegui J. A pesquisa histórica: teoria e método. Bauru: EDUSC; 2006.
4. Padilha MICS, Borenstein MS. O método de pesquisa histórica na enfermagem. Texto & Contexto Enferm. 2005; 14(4): 575-84.
5. Porto IS, Souza AS, Ramada FS. Cuidando de documentos em uma pesquisa de abordagem histórica: a experiência de um projeto integrado
sobre o ensino de Enfermagem. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2000; 4(2): 225-33.
6. Le Goff J. História e memória. Campinas: Editora da UNICAMP; 2003.
7. Triviños ANS. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa em educação. São Paulo: Atlas;1987.
8. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: HUCITEC-ABRASCO; 1994.
9. Richardson RJ, Peres JAS, Wanderley JCV, et al. Pesquisa Social: métodos e técnicas: 3ª ed. São Paulo: Atlas;1999.
10. Germano RM. Educação e ideologia da enfermagem no Brasil. 3ª Ed. São Paulo: Cortez; 1993.
11. Santos Filho LC. História geral da medicina brasileira. São Paulo: HUCITEC;1977.
12. Paixão W. História da enfermagem. Rio de Janeiro: Bruno Buccini; 1979.
13.Teodósio SSS. Divisão do trabalho e a cientificidade do saber sistematizado na enfermagem: um caminho para seu entendimento [Dissertação].
Natal (RN): Universidade Federal do Rio Grande do Norte; 1990.
14. Silva GB. Enfermagem profissional: análise crítica. São Paulo: Cortez; 1986.
15. Menezes RMV. Formação da enfermagem no Estado Potiguar: da criação à consolidação [Tese]. Rio de Janeiro (RJ): Universidade Estadual
do Rio de Janeiro; 2005.
16. Cascudo LC. História da cidade do Natal. 3ª ed. Natal: RN Econômico; 1999.
17. Sarinho CT. Hospitais do Rio Grande do Norte; notas, apontamentos, história. Natal: Nordeste Gráfica; 1988.
18. Rio Grande do Norte. Lei Estadual nº 2.307. Criação da Universidade do Rio Grande do Norte. Natal (RN); 1958.
520
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 513-521, out./dez., 2011
19. Carlos DJD. Passado e presente: a enfermagem do Hospital Universitário Onofre Lopes [Dissertação]. Natal (RN): Universidade Federal do
Rio Grande do Norte; 2005.
20. Rio Grande do Norte. Termo do contrato celebrado entre o Governo do Estado e a Sociedade de Assistência Hospitalar. Transferência da
direção e administração do Hospital de Caridade Jovino Barreto. Natal (RN); 1927.
Data de submissão: 2/7/2010
Data de aprovação: 29/4/2011
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 513-521, out./dez., 2011
521
EXTRAVASAMENTO DE DROGAS ANTINEOPLÁSICAS: AVALIAÇÃO DO
CONHECIMENTO DA EQUIPE DE ENFERMAGEM
EXTRAVASATION OF ANTINEOPLASTIC DRUGS: ASSESSMENT OF THE NURSING TEAM KNOWLEDGE
EXTRAVASACIÓN DE DROGAS ANTINEOPLÁSICAS: EVALUACIÓN DEL CONOCIMIENTO DEL EQUIPO
DE ENFERMERÍA
Franciane Schneider1
Edivane Pedrolo2
RESUMO
A toxicidade dermatológica local decorrente do extravasamento de drogas antineoplásicas consiste em um dos
principais efeitos adversos da terapia antineoplásica, sendo considerada uma autêntica emergência oncológica.
Dado o exposto, a prevenção dessa complicação é uma importante medida, uma vez que gera estresse na equipe
de enfermagem e pode causar danos irreparáveis ao paciente. O objetivo foi avaliar o conhecimento da equipe de
enfermagem de um Ambulatório de Quimioterapia Adulto sobre o extravasamento de drogas antineoplásicas. Esta é
uma pesquisa exploratório-descritiva, de natureza quantitativa, desenvolvida em um hospital filantrópico, referência
em oncologia na cidade de Curitiba-PR. A amostra foi composta por nove funcionários da equipe de enfermagem
(33% enfermeiros e 67% técnicos de enfermagem). Os sinais e sintomas do extravasamento mais citados foram edema
(89%), hiperemia (78%), dor (67%) e queimação/ardor (33%). Com relação aos fatores de risco para o extravasamento,
os mais citados foram“local da punção”(44%),“condições do membro puncionado”(33%) e“veias esclerosadas”(33%).
Não houve consenso quanto à correta ordem de punção das veias para a realização de quimioterapia. A prevenção do
extravasamento é uma preocupação constante na prática clínica dos enfermeiros. Neste estudo, traz-se a importância
de um aperfeiçoamento em serviço e a elaboração de uma diretriz clínica, a fim de que os profissionais identifiquem
os pacientes com maior risco de extravasamento, procurando evitá-lo, em vez de apenas tratá-lo após ocorrido.
Palavras-chaves: Enfermagem; Antineoplásicos; Conhecimento; Extravasamento de Materiais Terapêuticos e
Diagnósticos.
ABSTRACT
Local dermatologic toxicity due to extravasation of antineoplastic drugs is one of the main adverse effects of
antineoplastic therapy and it is considered an oncologic emergency. Its prevention is vital since it is a source of stress
to the nursing team and it may cause irreparable harm to the patient.This study aimed to evaluate the knowledge of the
nursing staff at an Adult Outpatient Chemotherapy Unit about antineoplastic drugs extravasation. It is an exploratory,
descriptive and quantitative research carried out in a philantropic referral hospital for oncology in Curitiba (PR). The
sample consisted of nine nursing staff employees (33% nurses and 67% practical nurses). The most cited extravasation
signs and symptoms were“oedema”(89%),“hyperaemia”(78%),“pain”(67%), and“burnings/stinging”(33%). Regarding the
risk factors for extravasation, the most cited were“puncture site”(44%),“punctured limb condition”(33%), and“sclerosed
veins”(33%). There was no consensus on the correct order to veinipuncture previous to the chemotherapy performance.
Extravasation prevention is a constant concern in the nurses clinical practice. This study shows the importance of nursing
care refresher training and the elaboration of clinical guidelines, so that professionals can identify patients at higher risk
of extravasavion aiming at preventing its occurrence instead of treating it afterwards.
Key words: Nursing; Antineoplastic; Knowledge; Extravasation of Diagnostic and Therapeutic Materials
RESUMEN
La toxicidad dermatológica local resultante de la extravasación de drogas antineoplásicas consiste en uno de los
principales efectos adversos de la terapia antineoplásica y se la considera una auténtica emergencia oncológica. La
prevención de esta complicación es una medida importante puesto que esta grave intercurrencia genera estrés en
el equipo de enfermería y puede causar daños irreparables al paciente. Se ha buscado evaluar el conocimiento del
equipo de enfermería de un Dispensario de Quimioterapia Adulto sobre la extravasación de drogas antineoplásicas. Se
trata de una investigación exploratoria descriptiva de naturaleza cuantitativa, desarrollada en un hospital filantrópico
de referencia en oncología en la ciudad de Curitiba (PR). La muestra estuvo compuesta por 9 integrantes del equipo
de enfermería (33% enfermeros y 67% técnicos en enfermería). Las señales y los síntomas del extravasación más
nombrados fueron: edema (89%), hiperemia (78%), dolor (67%) y ardor (33%). En lo relativo a los factores de riesgo para
la extravasación, los más nombrados fueron “sitio de la punción” (44%), “condiciones del miembro puncionado” (33%)
y“venas esclerosadas”(33%). No hubo consenso sobre la orden de punción correcta de las venas para la realización de
quimioterapia. La prevención de la extravasación es una preocupación constante en la práctica clínica de los enfermeros.
El presente estudio expone la importancia de un perfeccionamiento en el servicio y de la elaboración de una directiva
clínica, con la finalidad de que los profesionales identifiquen a los pacientes con mayor riesgo de extravasación, para
que traten de evitarla, en lugar de apenas tratarla después de que ocurra.
Palabras clave: Enfermería; Agentes Antienoplásicos; Conocimiento; Extravasación de Materiales Terapéuticos y
Diagnósticos.
1
2
Enfermeira. Especializanda em Enfermagem Oncológica, Hospital Erasto Gaertner, Liga Paranaense de Combate ao Câncer. E-mail: franciane_06@yahoo.com.br.
Enfermeira. Professora do Instituto Federal do Paraná. E-mail: edivanepedrolo@gmail.com.
Endereço para correspondência – Rua Desembargador Westphalen, 824, apto. 408B, bairro Rebouças, Curitiba-PR. CEP: 80.230-100.
522
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 522-529, out./dez., 2011
INTRODUÇÃO
METODOLOGIA
Os acessos venosos são indispensáveis para a prática da
saúde, sendo a administração de drogas antinopláscias
uma das suas indicações. Para essa finalidade, a via
endovenosa é a mais comum e a mais segura no que se
refere ao nível sérico da droga e sua absorção, quando
comparada com as vias intramuscular, subcutânea e
oral.1
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em
Pesquisa da Instituição (CAAE) sob o n. 0068.0.088.00009, e respeitou a Resolução nº 196/96, do Conselho
Nacional de Saúde, para a realização de pesquisas.
Os pacientes oncológicos utilizam, com maior frequência,
acessos venosos periféricos para a administração de
antineoplásicos. O profissional necessita de habilidades
para punção de acessos venosos nesses pacientes, pois
estes realizam tratamentos prolongados, possuem
fragilidade vascular e cutânea, desgaste progressivo da
rede venosa e trombocitopenia.1
As drogas antineoplásicas podem causar toxicidades
dermatológicas locais e sistêmicas, as quais estão
relacionadas com o aumento da morbidade, o prolongamento do tempo de hospitalização e a interrupção
temporária do tratamento. Dentre as toxicidades locais,
destacamos o extravasamento, que é o escape de um
agente antineoplásico do interior do vaso sanguíneo para
o tecido circunvizinho por vazamento ou pela injeção
involuntária da droga no tecido.2
O extravasamento caracteriza-se por dor, eritema,
edema, ulceração e necrose tecidual.3 A toxicidade
dermatológica decorrente do extravasamento de drogas
antineoplásicas constitui um dos principais efeitos
adversos que demandam maior rigor assistencial por
parte dos enfermeiros,4 sendo considerada uma autêntica
emergência oncológica pela morbidade que pode
suscitar.5 Dado o exposto, a prevenção dessa complicação
é uma importante medida, uma vez que o extravasamento
de drogas antineoplásicas é uma intercorrência grave que
gera estresse na equipe de enfermagem e pode causar
danos irreparáveis ao paciente.6
Os antineoplásicos podem ser classificados de
acordo com a toxicidade dermatológica local, como
vesicantes, responsáveis por reações mais graves quando
extravasados, ou irritantes, cujos danos teciduais são
menos intensos e não evoluem para necrose.7
A enfermagem possui papel de extrema importância
e relevância em relação ao extravasamento, pois é
responsável pela punção venosa, pela administração
das drogas antineoplásicas e pelo tratamento das
intercorrências. Para isso, os profissionais necessitam
ter conhecimento sobre: classificação, toxicidade
dermatológica local e mecanismo de ação das drogas
antineoplásicas;formasdeprevençãodoextravasamento;
sinais e sintomas, cuidados, manejo e complicações do
extravasamento; e educação e orientação geral dos
pacientes. A melhor forma de evitar um extravasamento
é por meio da prevenção e de medidas educativas.
O objetivo com este trabalho foi avaliar o conhecimento
da equipe de enfermagem de um ambulatório de
quimioterapia adulto sobre o extravasamento de drogas
antineoplásicas.
Trata-se de uma pesquisa exploratório-descritiva, de
natureza quantitativa, para a identificação do conhecimento dos profissionais de enfermagem a respeito do
extravasamento de drogas antineoplásicas.
A pesquisa foi desenvolvida no ambulatório de
quimioterapia adulto de um hospital filantrópico
referência em oncologia, localizado na cidade de
Curitiba-PR. Segundo dados do Serviço de Arquivo
Médico e Estatística da Instituição, o hospital atende,
majoritariamente, pacientes do Sistema Único de Saúde
(89%), além de pacientes de convênios de saúde (7%)
e particulares (3%). O ambulatório de quimioterapia
realiza tratamentos com objetivos curativo, paliativo
e mobilização para transplante de células-tronco
hematopoéticas. A coleta dos dados realizou-se durante
o mês de fevereiro de 2010.
A amostra foi composta por todos os profissionais
da equipe de enfermagem do setor que aceitaram
participar da pesquisa, mediante assinatura do Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e que
atenderam aos critérios de inclusão estabelecidos:
idade superior a 18 anos; estar lotado no ambulatório de
quimioterapia adulto. Foram excluídos os profissionais
que estavam em período de férias e/ou licença no
período de coleta de dados.
A coleta de dados foi realizada mediante a aplicação
de um questionário estruturado autorrespondido
(Apêndice), composto por nove questões no total,
elaboradas com base em literaturas de referência
sobre o tema. A primeira parte do questionário
objetivou caracterizar a amostra (sexo, idade, categoria
profissional, tempo de experiência), assim como
identificar se o tema extravasamento foi abordado na
formação profissional e/ou na instituição. A segunda
parte do questionário continha seis questões fechadas
e três abertas, abordando o conhecimento da equipe de
enfermagem em relação ao extravasamento de drogas
antineoplásicas, sinais e sintomas, manejo e prevenção
dessa intercorrência. As questões fechadas foram
compostas por afirmativas referentes ao tema de estudo,
devendo o sujeito de pesquisa assinalar as corretas.
A coleta de dados ocorreu nos períodos matutino e
vespertino, no horário de trabalho dos profissionais, de
acordo com disponibilidade deles, de forma individual
e na ausência do pesquisador.
Os dados coletados foram transcritos em tabelas no
programa MS Excel (2007) e posteriormente analisados
e interpretados, sendo avaliados e confrontados com as
literaturas de referências. Para os dados de identificação
foi calculada a média entre os participantes.
Para as questões abertas foi utilizado o método de
análise temática, com agrupamento de conteúdos iguais
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 522-529, out./dez., 2011
523
Extravasamento de drogas antineoplásicas: avaliação do conhecimento da equipe de enfermagem
e/ou similares e posterior quantificação. Para as questões
fechadas, considerou-se acerto quando assinalada uma
alternativa correta ou houve ausência de seleção de
uma afirmativa incorreta. Os acertos foram agrupados
em quatro categorias: menos de 5, de 5 a 10, de 11 a 15
e de 16 a 20.
RESULTADOS
A amostra foi composta por nove funcionários da equipe
de enfermagem, sendo 33% enfermeiros e 67% técnicos
de enfermagem. Desses, 89% eram do sexo feminino,
com média de idade de 32,9 anos.
O tempo médio de experiência na enfermagem foi de
seis anos e cinco meses, sendo que o tempo médio
de experiência na área específica de quimioterapia
foi de um ano e oito meses. Do total de entrevistados,
apenas 33% tiveram o tema extravasamento de drogas
antineoplásicas abordado na sua formação profissional,
porém 78% do total recebeu treinamento sobre o tema
na instituição onde trabalha.
Ao avaliar-se o conhecimento dos profissionais
da enfermagem sobre a classificação das drogas
antineoplásicas em vesicantes, irritantes ou vesicantes
e irritantes, de um total de 20 acertivas, 67% dos
profissionais acertaram mais de 10 afirmações.
Quanto aos sinais e sintomas do extravasamento, os mais
citados foram edema (89%), hiperemia (78%), dor (67%)
e queimação/ardor (33%). Quanto às condutas diante do
extravasamento, todos referiram“interromper a infusão”
como uma conduta, sendo citadas, ainda, “aplicação
de compressas” (67%), “manter agulha no local/aspirar
droga”(56%). Um dado que chamou a atenção foi que os
seis técnicos de enfermagem participantes da pesquisa
referiram “comunicar o enfermeiro” como a primeira
conduta diante do extravasamento, sendo que as demais
condutas não foram citadas em sua maioria.
A aplicação de compressas quentes ou frias difere para
cada tipo de droga. De um total de 13 acertivas com
relação ao tema, apenas um (11%) dos entrevistados
obteve entre 10 e 13 acertos, considerando que um
entrevistado não respondeu a essa questão.
Com relação aos fatores de risco para o extravasamento,
os mais citados foram“local da punção”(44%),“condições
do membro puncionado” (33%) e “veias esclerosadas”
(33%). Nessa questão, tivemos dois participantes que não
responderam e dois que não obtiveram nenhum acerto
em suas respostas, provavelmente em decorrência dos
erros de interpretação.
Não houve consenso quanto à correta ordem de punção
das veias para a realização de quimioterapia, sendo
que apenas 22% dos entrevistados referiram as veias
do antebraço como primeira opção e 44%, as veias
da fossa antecubital como última opção. Porém 56%
dos entrevistados referiram que a primeira opção para
punção eram as veias do dorso das mãos.
Quanto aos fatores que influenciam na gravidade
do extravasamento, de 11 acertivas, 100% dos parti524
cipantes obtiveram entre 5 e 11 acertos, sendo que
dois participantes assinalaram o “primeiro ciclo de
quimioterapia” como fator de risco, não procedendo
com a literatura.
De 15 afirmações sobre o tema extravasamento de
antineoplásicos, relacionadas principalmente sobre
a forma correta e os cuidados de administração, 78%
dos entrevistados tiveram entre 10 e 15 acertos. Com
relação às medidas para prevenção desse evento, de
14 afirmações, 100% dos funcionários obtiveram acima
de 10 acertos.
DISCUSSÃO
O trabalho em unidades de administração de agentes
antineoplásicos é restrita a enfermeiros e a técnicos de
enfermagem, conforme regulamentado pelo Conselho
Federal de Enfermagem,8 fato reforçado neste estudo.
Porém, de acordo com a Oncology Nursing Society
(ONS), a administração de antineoplásicos deve ser
feita exclusivamente por enfermeiros oncologistas,
garantindo, assim, elevado padrão de qualidade,1,5 o que
está muito além da realidade dos serviços de oncologia
das cidades brasileiras.
Apesardeosprofissionaisteremumtempodeexperiência
considerável na área da enfermagem, o tempo de
experiência no setor específico de quimioterapia é
breve, fato que pode justificar o déficit de conhecimento
sobre o tema extravasamento de drogas antineoplásicas.
O tema “extravasamento de drogas antineoplásicas”
foi abordado na formação profissional de 33% dos
entrevistados, sendo que a maioria (78%) teve contato
com a temática apenas quando de seu ingresso na
instituição.
Estudo em que se avaliou o conhecimento dos profissionais de enfermagem que trabalham com terapia
antineoplásica demonstrou que a formação destes não
é específica, sendo que a maioria aprende “durante
o trabalho”, ou seja, o profissional inicia as atividades
com um nível muito baixo de conhecimento e somente
durante o desenvolvimento das atividades é que esse
conhecimento é encorpado.9,10 Quando questionados
sobre os temas mais importantes a serem trabalhados
com relação à terapia com antineoplásicos, 64,3% dos
entrevistados citaram o tema “extravasamento”.10
A administração de agentes antineoplásicos de maneira
segura é uma responsabilidade da enfermagem,
fornecendo suporte para que o paciente coopere em
seu tratamento nos aspectos físico e psicológico. A
enfermagem necessita de conhecimento, competência
e habilidade técnica para oferecer um cuidado
realmente efetivo, os quais são conquistados por meio
da experiência clínica e de ações educativas.10
O conhecimento sobre a classificação das drogas é
de extrema importância, pois os antineoplásicos são
classificados em vesicantes e irritantes,2,11 de acordo
com o potencial agressivo para os vasos sanguíneos e
tecidos adjacentes.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 522-529, out./dez., 2011
Extravasamento de drogas vesicantes causam dano
tecidual progressivo, promovendo reações mais
exuberantes, com irritação severa, formação de vesículas
e destruição tecidual. As vesículas e a úlcera formam-se
de dias a semanas após o extravasamento. Em alguns
casos, as lesões podem progredir, sendo que a necrose
pode atingir tendões, ligamentos, nervos e ossos,
causando dor severa e perda funcional.12,13
Já os antineoplásicos irritantes provocam reação cutânea
menos intensa, causando reação inflamatória local, sem
levar à necrose tecidual.2,11 Por provocarem reações
diversas, a conduta diante dessas reações também difere,
pois, com relação às drogas irritantes e não irritantes, os
cuidados são menos intensos.
Os sinais e sintomas do extravasamento são: diminuição
ou parada do gotejamento, de edema, de hiperemia;
queimação; resistência durante a infusão; diminuição
ou ausência de retorno venoso, ulceração; vesículas e
necrose.11,14 Dentre tais sintomas, os principais foram
referidos por uma parcela significativa dos participantes,
demonstrando que estão familiarizados com os
sinais e sintomas do extravasamento, fato apontado
como fundamental para o manejo adequado dessa
complicação.15
Não basta, porém, identificar o extravasamento; é preciso
tomar condutas para que os danos ao paciente sejam
reduzidos. Todos os entrevistados citaram “interromper
a infusão” como primeiro cuidado, que de fato é o mais
importante, bem como outras medidas primordiais
para minimização dos danos, tais como: “manter a
agulha no local e aspirar a droga antineoplásica” e
“aplicação de compressas no local”, estando de acordo
com a literatura.15 Medidas importantes, porém, como
fotografar o local do extravasamento, registrar o ocorrido
e estabelecer um plano de acompanhamento e cuidados
não foram citados, apesar de serem recomendados
pela literatura.16 Observou-se que as respostas dos
enfermeiros nesta questão foram diferenciadas, pois
responderam de forma mais completa e na sequência
correta de conduta diante dessa situação.
Outro fato que chamou a atenção diante do manejo do
extravasamento é que todos os técnicos de enfermagem
entrevistados citaram “comunicar o enfermeiro” como
medida imediata, sendo os demais cuidados pouco
citados, fato que pode indicar o desconhecimento
desses cuidados diante das condutas adequadas,
gerando insegurança no cuidado prestado.
O item “aplicação de compressa” foi citado por seis
profissionais como uma medida para o manejo do
extravasamento, porém percebeu-se que não tinham
conhecimento suficiente sobre qual a temperatura da
compressa a ser utilizada para cada tipo de droga, pois a
maioria não soube identificar quais drogas necessitam de
compressas quentes e quais necessitam de compressas
frias. Ressalte-se que as compressas quentes são
indicadas para os alcaloides da vinca (vincristina,
vimblastina e vinorelbina), enquanto as compressas
frias são indicadas para as antraciclinas (doxorrubicina,
daunorrubicina, epirrubicina, idarrubicina).2,11
Os fatores de risco para o extravasamento incluem:
alterações das veias como fragilidade e esclerore; local
inadequado da punção; escolha de dispositivo para
punção inadequado; condições do membro (terapia
antineoplásica ou radioterapia prévia, linfadenectomia,
edema, neuropatia periférica, etc); dentre outros.6,12,14 Os
principais fatores de risco foram citados por 44% dos
entrevistados, sendo que a maioria ou não respondeu a
essa questão, ou respondeu de maneira inadequada, o
que demonstra que os profissionais desconheciam quais
os fatores de risco para o extravasamento ou tiveram
dificuldades para interpretar a questão.
Em razão das alterações anatômicas das veias e do
risco de complicações graves em pacientes em uso de
antineoplásicos vesicantes, a ordem de punção das veias
para a administração de drogas antineoplásicas difere
da ordem normalmente utilizada. Deve-se iniciar pelo
antebraço, para só então passar para o dorso das mãos,
punho e fossa antecubital,6,14 sendo que para cada local
escolhido a punção venosa deve ser feita obedecendo ao
sentido distal-proximal.17,18 Neste estudo, a maioria dos
entrevistados referiu o dorso das mãos como primeira
opção de punção, estando em desacordo com os fatores
de prevenção do extravasamento. Além disso, saliente-se
a necessidade e a importância de uma equipe experiente,
técnica de venopunção padronizada, diluição da droga e
velocidade de infusão adequadas.17
Quando consideradas questões gerais sobre o extravasamento de antineoplásicos, a maioria demonstrou
maiores conhecimentos, trazidos, talvez, pela própria
vivência no serviço.
Esses conhecimentos englobam questões relacionadas
à infusão de agentes antineoplásicos, como sequência
de infusão das drogas, dispositivo adequado, infusão
de solução salina ou glicosada entre as drogas para
“lavar” a veia, condições adequadas do membro
para punção. Apesar da sequência de infusão das
drogas vesicantes, irritantes e não irritantes ainda ser
controverso na literatura, as demais questões estão
definidas como fatores importantes para a prevenção
do extravasamento.6,14
Já com relação às ações para prevenção, todos os
entrevistados obtiveram um índice de acerto elevado,
demonstrando que os cuidados preventivos são de
conhecimento de todos. Os dados referentes aos
fatores que afetam a gravidade da lesão em caso de
extravasamento também eram de conhecimento de
todos.
Em estudo envolvendo 30 sujeitos vítimas de lesões
graves decorrentes de infusão endovenosa periférica
de antineoplásicos, os autores observaram que alguns
aspectos eram comuns entre os sujeitos, tais como idade,
estado geral do paciente, doença vascular generalizada
e fatores de risco locais (cirurgia prévia, radioterapia ou
doença linfática locorregional). No entanto, observouse que aproximadamente 50% dos pacientes sem os
fatores de risco descritos apresentaram lesões graves,
o que permitiu concluir que havia fatores externos
associados ao extravasamento, como: tipo da droga,
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 522-529, out./dez., 2011
525
Extravasamento de drogas antineoplásicas: avaliação do conhecimento da equipe de enfermagem
volume extravasado, localização anatômica do acidente,
técnica de venopunção, diluição e velocidade de infusão
e o local escolhido para a realização da punção venosa.17
No estudo, demonstrou-se que, além dos fatores de risco
comuns aos pacientes em uso de drogas antineoplásicas,
existem fatores externos que influenciam de maneira
significativa o grau da lesão.
O conhecimento dos fatores de risco e das medidas
para prevenção do extravasamento é de extrema
importância, uma vez que a detecção precoce e a
intervenção imediata no extravasamento são essenciais
para reduzir as chances de lesões, principalmente
pelo fato dessa complicação causar necrose tecidual
e consequente alteração tissular, resultando em perda
funcional na região afetada.19-21 Há de considerar-se,
ainda, o alto custo do tratamento dessa complicação,
o qual ocorre por meio de antídotos específicos ou
de intervenções cirúrgicas,22 bem como por meio de
sessões de fisioterapia para a reabilitação do membro
afetado. Provoca, ainda, alteração na imagem corporal
e na autoestima do paciente,23 exercendo influência
negativa na sua qualidade de vida.
Como uma das principais estratégias de prevenção,
ressalte-se que é fundamental dispor de equipe de
enfermagemespecializadaecomconhecimentoadequado
para a administração de drogas antineoplásicas. 24
Um profissional sem o devido treinamento realiza os
procedimentos de maneira insegura e não consegue
fornecer o apoio emocional necessário ao paciente.10
Nos estudos recomenda-se, como estratégia preventiva,
que cada equipe de enfermagem deve padronizar,
em forma de diretriz, as condutas de enfermagem
para a prevenção do dano tissular causado por um
extravasamento.25 Destaque-se, ainda, a necessidade
de capacitação constante dos profissionais envolvidos
na administração de drogas vesicantes, dados os graves
potenciais de danos relacionados a esses fármacos.26
É fundamental que para a prevenção de extravasamentos
os enfermeiros responsáveis pela administração de
antineoplásicos possuam adequado conhecimento da
origem/classificação das drogas e da prática clínica que
envolve o monitoramento de pacientes submetidos a
infusão endovenosa periférica e possíveis complicações
relacionadas, promovendo, assim, um cuidado de
enfermagem seguro e de qualidade ao paciente.12,27
Compete ao enfermeiro assistencial a identificação
dos fatores de risco, a prevenção e o gerenciamento
do extravasamento, assim como o uso apropriado de
dispositivos venosos periféricos. A equipe multidisciplinar
(enfermeiro, médico e farmacêutico) deve estar integrada
para implementar estratégias para a redução de riscos e
danos relacionados à infusão de drogas vesicantes.15
Ainda como forma de prevenção, é importante que os
pacientes estejam devidamente orientados quanto aos
riscos de complicações relacionadas à administração de
drogas vesicantes sob infusão endovenosa periférica,
para que reporte qualquer sintoma de dor, desconforto
e queimação no local de acesso venoso.4 As orientações
526
verbais ao paciente devem também ser entregues por
escrito, com informações sobre como proceder em caso
de surgimento de complicações relacionadas ao local
onde foi infundida a droga antineoplásica.18,19,26,28
Daí a importância de se desenvolver um programa
de treinamento específico sobre o tema, conforme
evidenciado em literatura.6,14 A educação em serviço
deve abranger todos os profissionais do setor, visando
à prevenção, à identificação precoce e ao manejo
adequado dessa complicação, minimizando danos aos
pacientes. Sugere-se, ainda, o desenvolvimento de uma
diretriz clínica para o manejo do extravasamento no
setor, para que todos sejam treinados e saibam quais
condutas devem ser tomadas diante de cada situação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados da pesquisa demonstram um déficit de
conhecimento relativo à temática “extravasamento de
drogas antineoplásicas”na formação dos profissionais de
enfermagem, cabendo ao serviço fornecer treinamentos
específicos a fim de capacitar o profissional para
administração desses medicamentos. Destaque-se que o
déficit de conhecimento encontrado neste estudo pode
dever-se ao curto tempo de experiência dos profissionais
no setor de quimioterapia.
Conclui-se que os conhecimentos da equipe de enfermagem sobre a classificação das drogas antineoplásicas,
dos principais sinais e sintomas e fatores que influenciam na gravidade do extravasamento, bem como
dos cuidados durante a administração das drogas e
das medidas de prevenção do extravasamento foram
adequados, sendo este último de extrema relevância, uma
vez que a melhor maneira de evitar o extravasamento é
preveni-lo. Esses conhecimentos, entretanto, ficam fragilizados, dadas as dificuldades dos profissionais perante as condutas adequadas diante dessa complicação.
Notou-se um déficit de conhecimento da equipe relacionado às condutas imediatas diante do extravasamento, da temperatura da compressa (quente ou fria) a ser
utilizada para cada tipo de droga, da ordem de punção
das veias para a realização de quimioterapia e fatores de
risco relacionados ao extravasamento. Considera-se que
a intervenção imediata é fundamental nessa complicação
e a falta desse conhecimento pode contribuir para o
agravamento da lesão. Levantou-se que os profissionais
recorrem ao enfermeiro no caso de extravasamento,
evidenciando a insegurança das condutas a serem
tomadas caso essa intercorrência ocorra.
Prevenir o extravasamento é uma das responsabilidades da equipe de enfermagem que trabalha em quimioterapia. Dessa forma, é necessário adquirir conhecimento suficiente sobre todos os fatores que
envolvem o tema, promovendo, assim, segurança ao
paciente. Enfatize-se que para prevenir é fundamental
dispor de uma equipe especializada, realizar capacitação
constante dos profissionais envolvidos, criar protocolos
de padronização de condutas e orientar os pacientes
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 522-529, out./dez., 2011
quanto aos riscos de complicações relacionadas à
administração de antineoplásicos.
Oextravasamentodeantineoplásicoséumapreocupação
constante na prática clínica dos enfermeiros que
trabalham em serviços de terapia oncológica, porém as
publicações sobre o tema em língua portuguesa ainda
são incipientes.
Saliente-se que os resultados desta pesquisa não devem
ser generalizados, uma vez que demonstram a realidade
de um único serviço, no entanto fornecem subsídios para
o planejamento de atividades de educação em serviço
para os profissionais que atuam na área.
Neste estudo, mostrou-se a importância de um aperfeiçoamento em serviço e da elaboração de uma diretriz clínica, a fim de que os profissionais identifiquem
os pacientes com maior risco de extravasamento,
promovam ações de prevenção e de minimização de
danos.
REFERÊNCIAS
1. Bonassa EMA, Santana TR. Enfermagem em terapêutica oncológica. 3ª ed. São Paulo: Atheneu; 2005.
2. Schrijvers DL. Extravasation: a dreaded complication of chemotherapy. Ann Oncol. 2003; 14(3): 26-30.
3. Alley E, Green R, Schuchter L. Cutaneous toxicities of cancer therapy. Curr Opin Oncol. 2002; 14: 212-16.
4. Ferreira MT, Reis PED, Gomes IP. Antineoplasic chemotherapy extravasation prevention: integrative review. Online Braz J Nurs. 2008; 7(3).
5. Adami M, Moreira AM, Rudoff BFT, et al. Extravasamento de drogas antineoplásicas: notificação e cuidados prestados. Rev Bras Cancerol.
2001; 47 (2): 143-51.
6. Brunherotti MR. Intervenções no extravasamento de quimioterápicos vesicantes: revisão integrativa de literatura [Dissertação]. Escola de
enfermagem de Ribeirão Preto (USP); 2007.
7. Reis PED, Capucho CR, Vasques CI, et al. Efeitos adversos identificados em local de infusão intravenosa periférica por drogas quimioterápicas.
Cienc Enferm. 2008; 14(2): 55-64.
8. Brasil. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução n˚ 210 de 1 de julho de 1998. [Citado 2010 ago. 06]. Disponível em: <http://www.coren-df.org.
br/portal/index.php?view=article&catid=36:resolucaes&id=127:resolucao-cofen-2101998&format=pdf&option=com_content&Itemid=43>.
9. Grundy M. Chemotherapy administration by nurses: an Audit of practice and educational preparation. Report and executive summary, National
Board for Nursing, Midwifery and Health Visiting for Scotland, Edinburgh; 1998.
10. Verity R, Wiseman T, Ream E, et al. Exploring the work of nurses who administer chemotherapy. Eur J Oncol Nurs. 2008; 12: 244-52.
11. Sanborn RE, Sauer DA. Cutaneous reactions to chemotherapy: commonly seen, less described, little understood. Dermatol Clin. 2008; 26:
103-19.
12. Sauerland C, Engelking C, Wickham R, et al. Vesicant extravasation part I: mechanisms, pathogenesis, and nursing care to reduce risk. Oncol
Nurs Forum. 2006; 33 (6): 1134-41.
13. Hadaway L. Infiltration and extravasation: preventing a complication of IV catheterization. AJN. 2007; 107(8): 64-72.
14. Wengström Y, Margulies A. European oncology nursing society extravasation guidelines. Eur J Oncol Nurs. 2008; 12: 357-61.
15. Schulmeister L. Managing vesicant extravasations. Oncologist. 2008; 13(3): 284-8.
16. Viale PH. Chemotherapy and cutaneous toxicities: implications for oncology nurses. Sem Oncol Nurs. 2006; 22(3): 144-51.
17. Cabrera ML, Liberatti M. Lesões por extravasamento de quimioterápicos: prevenção e conduta. Acta Oncol Bras. 1986; 6: 113-7.
18. Polovich M, White J, Keleher L. Chemotherapy and biotherapy guidelines and recommendations for practice. Philadelphia: Oncology Nursing
Society; 2005.
19. Kassner E. Evaluation and Treatment of Chemotherapy. J Ped Oncol Nurs 2000; 17 (3): 135-48.
20. Steiert A, Hille U, Burke W, et al. Subcutaneous wash-out procedure (SWOP) for the treatment of chemotherapeutic extravasations. J Plast
Reconstr Aesthet Surg. 2010; 20:1-8.
21. Villarín AJL, Belda JN. Prevención y tratamiento de las extravasaciones de quimioterapia intravenosa. Enferm Clín. 2004; 14(2): 122-6.
22. Schulmeister L. Vesicant chemotherapy extravasation antidotes and treatments. Clin J Oncol Nurs. 2009; 13(4): 395-8.
23. Salci MA, Marcon SS. As mudanças no cotidiano familiar e na vida da mulher após o início do tratamento para o câncer. REME Rev Min
Enferm. 2010; 14(1): 37-42.
24. Friedhoffer H, Carramashi F, Calonge H, et al. Tratamento de lesões cutâneas causadas por extravasamento de adriamicina. Rev Paul Med.
1988; 106(4): 197-200.
25. Silva ACP. Extravasamento de drogas vesicantes: relato de experiência. Rev Paul Enferm. 1992; 11(1): 27-9.
26. How C, Brown J. Extravasation of cytotoxic chemoterapy from peripheral veins. Eur J Oncol Nurs. 1998; 2(1): 51-8.
27. Saniger MA, García DL, Arrazola AR. Complicaciones más frecuentes de la administración intravenosa de fármacos: flebitis y extravasación.
Enferm Clín. 2002; 12(2): 80-5.
28. Luke E. Mitoxantrone-induced extravasation. Oncol Nurs Forum. 2005; 32: 27-9.
Data de submissão: 2/9/2010
Data de aprovação: 15/9/2011
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 522-529, out./dez., 2011
527
Extravasamento de drogas antineoplásicas: avaliação do conhecimento da equipe de enfermagem
APÊNDICE
QUESTIONÁRIO
PESQUISA: Extravasamento de drogas antineoplásicas: avaliação do conhecimento da equipe de enfermagem.
DADOS GERAIS
Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino Idade: _______________________________
Categoria profissional: ( ) Técnico em enfermagem ( ) Enfermeiro
Tempo de experiência na enfermagem: ___________ anos _________ meses
Tempo de experiência em quimioterapia: ________ anos __________ meses
QUESTIONÁRIO
Indique com um “X” apenas uma resposta:
O tema “extravasamento de drogas antineoplásicas” foi abordado em seu curso de formação profissional?
( ) Sim ( ) Não ( ) Não me lembro
Você recebeu algum treinamento sobre o tema “extravasamento de drogas antineoplásicas” na instituição em que atua?
( ) Sim ( ) Não ( ) Não me lembro
1. Classifique as drogas em:
A – Vesicante
B – Irritante
C – Irritante e vesicante
( ) Doxorrubicina ( ) Paclitaxel ( ) Dacarbazina ( ) Gencitabina
( ) Dactinomicina ( ) Cisplatina ( ) Vinorelbina ( ) Daunorrubicina
( ) Epirrubicina ( ) Etoposideo ( ) Docetaxel ( ) Mitomicina
( ) Vincristina ( ) Fluorouracil ( ) Mitoxantrona ( ) Vimblastina
( ) Idarrubicina ( ) Oxaliplatina ( ) Irinotecano ( ) Carmustina
2. Cite os sinais e/ou sintomas do extravasamento de droga antineoplásica?
___________________________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________________________
3. Cite os passos a serem realizados diante de um extravasamento de droga antineoplásica:
___________________________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________________________
4. Quanto à aplicação de compressas após o extravasamento de drogas antineoplásicas, marque:
Q para compressas quentes, F para compressas frias e N caso não seja indicado nenhum tipo de compressa:
( ) Doxorrubicina ( ) Dacarbazina ( ) Dactinomicina ( ) Vinorelbina
( ) Daunorrubicina ( ) Mecloretamina ( ) Vindesina ( ) Epirrubicina
( ) Mitomicina ( ) Vincristina ( ) Vimblastina ( ) Idarrubicina
( ) Carmustina
5. Cite os cinco principais fatores de risco para o extravasamento de droga antineoplásica, na sua opinião:
___________________________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________________________
6. Relacione a sequência ideal para a punção venosa periférica (de 1 a 4):
( ) Punho ( ) Antebraço ( ) Fossa antecubital ( ) Dorso das mãos
7. A gravidade do extravasamento de droga antineoplásica depende:
( ) Do tempo entre o preparo e a infusão ( ) Do local atingido ( ) Do tipo de droga
( ) Da quantidade de droga extravasada ( ) Do sexo ( ) Das condições do pacientes
( ) Da concentração da droga ( ) Da coloração da droga ( ) Do uso de anticoagulante
( ) Do intervalo entre o fato e a identificação da reação ( ) Do primeiro ciclo de quimioterapia
528
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 522-529, out./dez., 2011
8. Marque com um X nas afirmações corretas:
( ) A sequência correta de infusão é: não irritantes, irritantes e vesicantes, respectivamente.
( ) A administração de quimioterápicos endovenoso é a mais utilizada, traz maior segurança com relação aos níveis sanguíneos
da droga e a sua absorção.
( ) É necessário checar o retorno venoso a cada 3 ou 5 mililitros de droga infundida em bolus.
( ) Os antineoplásicos não irritantes provocam inflamação intensa, com formação de vesículas e destruição tecidual (necrose)
quando extravasadas fora do vaso sanguíneo.
( ) Devem ser realizadas punções venosas com scalps para administração de drogas vesicantes.
( ) O extravasamento é classificado como o escape de antineoplásicos do vaso sanguíneo para os tecidos circunjacentes,
podendo resultar em destruição do tecido local.
( ) A ordem de infusão das drogas não possui relação com o extravasamento.
( ) A lesão e a necrose resultantes dos tecidos podem causar desconfiguração do membro do paciente, prejudicar sua função,
sua má cicatrização, infectar e exigir vários desbridamentos ou até mesmo amputação.
( ) Devem ser infundidos de 5 a 10 ml de soro fisiológico ou glicosado entre a aplicação de uma droga e outra.
( ) Os sintomas do extravasamento podem aparecer imediatamente ou tardiamente (dias/semanas após aplicação).
( ) As drogas vesicantes provocam edema quando infiltradas, mas não causam necrose ou irritação tecidual, sendo absorvida
pelo organismo, sem causar danos ou seqüelas aos pacientes.
( ) O índice de extravasamento é um importante fator para se medir a qualidade de um serviço de quimioterapia, devendo
estar próximo de 0.
( ) Devem ser administrados, no mínimo, 20 ml de soro fisiológico ou glicosado após o término da administração de drogas
antineoplásicas.
( ) Deve-se evitar a punção em membros submetidos a irradiação, edemaciados, excessivamente puncionados, com linfedema,
veias próximas a nervos e articulações, membros inferiores, com lesões ou metástases;
( ) É importante registrar data e horário, tipo de agulha e calibre, local da punção, drogas e sequência administradas.
9. Assinale as ações que podem prevenir o extravasamento de drogas antineoplásicas:
( ) Não administrar drogas vesicantes por mais de 30 minutos em veia periférica.
( ) Dar “tapinhas” sobre a veia.
( ) Evitar o uso de veias puncionadas em menos 24 horas.
( ) Escolher veias rígidas e endurecidas, com alterações de cor e doloridas.
( ) Caso a primeira punção seja malsucedida, puncioná-la veia abaixo ou próximo à região.
( ) Puncionar o membro com o dispositivo adequado (tipo e calibre), de acordo com a velocidade de infusão desejada.
( ) Fixação do dispositivo: micropore largo, em grande quantidade, firme e seguro.
( ) Orientar paciente que evite a movimentação excessiva.
( ) Orientar paciente sobre sinais e sintomas do extravasamento.
( ) Certificar-se do posicionamento correto do dispositivo antes de aplicar a droga antineoplásica.
( ) No cateter venoso central, não é necessário checar o retorno venoso ou certificar-se da imobilização do dispositivo de punção
antes da infusão.
( ) Infundir as drogas antineoplásicas, especialmente os vesicantes, em “Y” juntamente com soro fisiológico ou glicosado.
( ) Manter a área puncionada sob observação constante durante o período de infusão.
( ) Dar importância a queixas do paciente.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 522-529, out./dez., 2011
529
SISTEMA DE INFORMAÇÃO DOS CENTROS DE TESTAGEM E
ACONSELHAMENTO: DIFICULDADES, DIVERGÊNCIAS E PADRONIZAÇÃO
NO PREENCHIMENTO
INFORMATION SYSTEM OF TESTING AND COUNSELING CENTERS: DIFFICULTIES, DIVERGENCES AND
STANDARDIZATION
SISTEMA DE INFORMACIÓN DE LOS CENTROS DE TEST Y CONSEJO: DIFICULTADES, DIVERGENCIAS Y
ESTANDARIZACIÓN EN EL RELLENO
Vânia de Souza1
Joice Silva Rodrigues Cardoso2
Juliana Dias Paes Nahass3
RESUMO
O sistema de informação implantado nos Centros de Testagem e Aconselhamento (SI-CTA), em 1996, é importante na
produção de indicadores do perfil de seus usuários e na definição de estratégias para a redução de vulnerabilidade às
DST/HIV/Aids. Falhas no seu preenchimento conferem perdas para o alcance desses resultados. O objetivo com esta
pesquisa foi analisar as divergências e as dificuldades no preenchimento do formulário SI-CTA, versão 2005, tendo em
vista a padronização dos registros. Trata-se de estudo descritivo e exploratório, realizado de janeiro a dezembro de 2009,
com toda a equipe multiprofissional do CTA de Belo Horizonte. Utilizou-se a técnica de grupo focal em 12 encontros
mensais. Dados secundários foram empregados para a detecção de falhas no preenchimento. As principais divergências
referiram-se aos registros nos campos“Encaminhamento pós-teste”,“Uso de drogas”,“Recorte populacional”e“Legenda
de resultados”. A convenção dos itens conflitantes permitiu a elaboração de um formulário complementar às Instruções
de Preenchimento já existentes do MS. Também contribuiu para a redução da perda de dados e a reflexão sobre a prática
do aconselhamento. Após a realização deste estudo, a permanência de determinadas falhas nos registros sinalizou a
necessidade de os profissionais desenvolverem o hábito de consulta aos formulários de Instrução do Preenchimento,
de treinamentos periódicos e de esforço contínuo para a assimilação das mudanças. A interlocução com os demais
CTAs e com a Coordenação Nacional de DST/aids foi considerada pertinente para aperfeiçoar a utilização do SI-CTA
para a divulgação e o planejamento de ações e estratégias calcadas em dados confiáveis, bem como para as adaptações
necessárias à realidade de cada serviço.
Palavras-chave: Aconselhamento; Síndrome de Imunodeficiência Adquirida; Formulários; Serviço de Saúde; Sistema
de Informação; Vigilância Epidemiológica.
ABSTRACT
Launched in 1996 the Testing and Counseling Centre Information System(IS-TCC) represents a key tool to the delineation
of users profile indicators and to the definition of strategies for reducing vulnerability to STD/HIV/AIDS. Failure to fill out
its form properly hampers the achievement of those goals. This research aimed to analyze discrepancies and difficulties
when filling out the IS-TCC 2005 Version, in view of the standardization of records. It is a descriptive and exploratory
study conducted with a CTA (Portuguese acronym for Testing and Counseling Centre) multidisciplinary team in Belo
Horizonte from January to December 2009. Focus group technique was used in 12 monthly sessions. Secondary data
were applied for detecting errors in filling the form. The main discrepancies were detected in the fields “post-test
referral”, “Drug Use,” “ Population Profile” and “ Legend of Results”. The conflicting items standardization helped the
preparation of a supplementary form for the field “Instructions” already in use for filling out the Department of Health
form and contributed in reducing data loss and evaluating the counseling practice. The persistence of certain errors
on registers indicates the professionals need to get used to consult the Filling Instructions Form, to receive periodic
training, and to adapt themselves to continuous changes. The interaction with other CTA’s and with the National STD/
AIDS Program is vital to optimize the use of the SI-CTA in the planning and promotion of actions and strategies based
on reliable data, as well as the customization of services.
Key words: Counseling; Acquired Immunodeficiency Syndrome; Forms; Healthcare Services; Information System;
Epidemiologic Surveillance.
1
2
3
Enfermeira. Doutora em Ciências da Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz. Docente da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais.
Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública. E-mail: vaniaxsouza@yahoo.com.br.
Enfermeira. Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Docente da Fundação Comunitária de Ensino
Superior de Itabira, da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e da Universidade Salgado de Oliveira. E-mail: joicesangel@hotmail.com.
Psicóloga. Especialista em Saúde Mental. Técnica Superior de Saúde do Centro de Testagem e Aconselhamento de Belo Horizonte. E-mail: jnahass1@yahoo.com.br.
Endereço para correspondência – Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Alfredo Balena 190, sala 414, Belo Horizonte, MG. CEP: 30130-100, Brasil.
E-mail: vaniaxsouza@yahoo.com.br.
530
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 530-538, out./dez., 2011
RESUMEN
El sistema de información instalado en 1996 en los Centros de Prueba y Aconsejamiento (SI-CTC) es importante en
la producción de indicadores de perfil de los usuarios del servicio y en la definición de estrategias para la reducción
de la vulnerabilidad al VIH/SIDA. Fallos en la inserción de datos causan pérdidas en el alcance de estos resultados. Se
analizaron las divergencias y dificultades en el registro del SI-CTC, versión 2005, considerando la estandarización de
los registros. Se trata de un estudio exploratorio descriptivo realizado con el equipo multiprofesional del CTC de Belo
Horizonte, de enero a diciembre de 2009. Fueron utilizadas las técnicas de grupo focal. Se emplearon datos secundarios
para la detección de fallos para completar los registros. Las principales divergencias se referían a los campos de los
registros “Envíos post-test”, “Uso de drogas”, “Recorte de la población” y “Leyenda de los Resultados”. La convención
de los puntos conflictivos permitió la elaboración de un formulario complementario a las actuales Instrucciones para
Completar Formularios del Ministerio de Salud (MS). También ayudó a disminuir la pérdida de datos y a repensar la
práctica del aconsejamiento. Después de la realización de este estudio la permanencia de determinados fallos en
los registros señala la necesidad de que los profesionales se acostumbren a consultar la guía de instrucciones para
completar los formularios, de realizar entrenamientos periódicos y de hacer esfuerzos continuos para asimilar los
cambios. La interlocución con demás CTC’s y Coordinación Nacional de ETS/SIDA fue considerada pertinente para
mejorar la utilización del SI-CTC y planear acciones y estrategias fundamentadas en datos confiables, sin considerar
las especificidades de cada servicio ni de su clientela.
Palabras clave: Consejo; Síndrome de Inmunodeficiencia Adquirida; Formularios; Servicio de Salud; Sistema de
Información; Vigilancia
INTRODUÇÃO
A Coordenação do Programa Nacional de Doenças
Sexualmente Transmissíveis e Aids do Ministério da
Saúde (CN-DST/Aids/MS) trabalha, desde a sua criação,
em 1985, na definição de diretrizes para o enfrentamento
da epidemia da aids. Foi responsável pela implantação
e ampliação de uma rede de Centros de Testagem e
Aconselhamento (CTA), que funcionam como uma
modalidade de serviço de saúde que associa a prática
do aconselhamento ao oferecimento de sorologia antiHIV.1,2 Em alguns CTAs, é também garantida a oferta dos
exames Venereal Disease Research Laboratory (VDRL) e
de Hepatites tipos B e C.
Os CTAs foram criados, a partir de 1988, como unidades
da rede básica do Sistema Único de Saúde (SUS –
atenção primária), com o intuito de: facilitar o acesso da
população aos testes sorológicos; absorver a demanda
dos bancos de sangue para a realização desses testes;
auxiliar os serviços de pré-natal na testagem sorológica
de gestantes; encaminhar as pessoas infectadas pelo HIV
para os Serviços de Assistência Especializada (SAE), de
atenção secundária; auxiliar sua clientela na avaliação de
suas condições de vulnerabilidade às DSTs/HIV/aids e na
busca de alternativas viáveis de medidas preventivas e
de melhoria da qualidade de vida, independentemente
de sua condição sorológica; estimular o diagnóstico de
parceiro(a)s sexuais; propiciar atividades educativas de
promoção da saúde e redução de danos pelo uso de
drogas injetáveis.1,3
Diante da necessidade de registrar os atendimentos
realizados pela equipe do CTA, de obter indicadores
demográficos, comportamentais e biológicos das
pessoas atendidas nesse serviço para o planejamento de
ações e de estratégias com enfoque no indivíduo e na
coletividade e de fornecer informações para subsidiar a
gestão dessas ações, em todos os níveis de competência,
a CN-DST/Aids/MS disponibilizou, em 2002, o Formulário
de Atendimento do Sistema de Informação dos
CTA (SI-CTA).4 Suas informações passaram, também, a
ser utilizadas no incremento de pesquisas, beneficiando
a divulgação desses resultados e novos investimentos
nessa área.5-7
Para o registro nesse impresso, o MS divulgou as
Instruções de preenchimento do formulário de
atendimento – SI-CTA.8 No entanto, a falta de orientação
para o apontamento de determinados campos
nesse formulário foi responsável pela ocorrência de
lançamentos de dados incompletos, contraditórios e
inconsistentes. A perda na produção dos indicadores
epidemiológicos,6,9 associada à identificação de uma
carência investigativa com enfoque na padronização do
registro e no lançamento dos dados no sistema, gerou
o interesse pelo tema.
O objetivo com este estudo foi analisar as divergências e
as dificuldades no preenchimento do Formulário SI-CTA
versão 2005, tendo em vista a padronização dos registros,
a redução da perda de informações, de repetição de
trabalho e de atrasos na digitação. Nesse contexto, a
padronização no preenchimento surgiu como uma forma
de contribuição para o monitoramento refinado, com
maior confiabilidade das informações quanto ao perfil
dos usuários atendidos neste e em outros serviços.
METODOLOGIA
Estudo descritivo e exploratório, realizado no período
de janeiro a dezembro de 2009, no Centro de Testagem
e Aconselhamento de Belo Horizonte (CTA-BH). Tratase de um serviço de referência do Ministério da Saúde,
implantado em 1996 e que atende a uma média de
trezentos usuários por mês, decorrentes de demanda
espontânea e direcionada. Esta última ocorre, sobretudo,
mediante encaminhamentos de serviços públicos
e privados em saúde, instituições de ensino e de
Organizações não Governamentais (ONGs).
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 530-538, out./dez., 2011
531
Sistema de informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento: dificuldades, divergências e padronização no preenchimento
O CTA-BH oferece aconselhamento pré-teste coletivo
e pós-teste individual. No aconselhamento coletivo,
existe a troca de informações, a realização dos exames
laboratoriais e as abordagens sobre a promoção da saúde,
das situações de vulnerabilidade e das possibilidades de
prevenção das DST/HIV/aids2,3. No pós-teste, além da
entrega do resultado, existe um enfoque direcionado
às demandas, necessidades e singularidades de cada
indivíduo atendido no serviço.
Participaram da pesquisa toda a equipe do CTA-BH,
formada por oito aconselhadores – enfermeiros e
psicólogos – além de três auxiliares de enfermagem.
O trabalho foi realizado por meio da técnica de grupo
focal, com a finalidade de explorar e clarear a visão dos
participantes,10,11 discutir sobre os registros identificados
como divergentes ou incompletos e padronizar a forma
de preenchimento do SI-CTA. Dados secundários de
formulários previamente preenchidos e informações do
profissional responsável pelo lançamento dos dados no
sistema foram coletados para a detecção de falhas no
preenchimento.
Os encontros foram mensais, no próprio local de
trabalho dos participantes, tendo a duração de duas
horas cada um. Constituiram-se 12 grupos focais com
os mesmos participantes – em nove deles com o
comparecimento integral da equipe – sob a condução
de uma moderadora/pesquisadora, que há atua como
docente nesse serviço. Contou-se, ainda, com a presença
de um observador externo ao serviço.
Os grupos focais foram guiados pela própria estrutura
do formulário, constituído de 11 itens, que neste estudo
foram representados em caixa alta e denominados
categorias: 1) Dados de orientação; 2) DaDos Do usuário;
3) autorização para contato; 4) D aDos De resiDência; 5)
DaDos Da requisição; 6) notas Da orientação; 7) anteceDentes
epiDemiológicos; 8) i nformações De uso De preservativos; 9)
r ecorte; 10) encaminhamento pós-teste; e 11) r esultaDo
laboratorial. As categorias, subdivididas em 64 campos
na folha de registro, foram os eixos norteadores das
discussões, constando em itálico nesse manuscrito.
As opções apresentadas em cada campo foram
apresentadas entre aspas.
Após o debate exaustivo sobre o registro de cada campo,
buscava-se estabelecer o consenso entre os participantes
ou chegava-se à aprovação pelo voto da maioria. No
último encontro, as decisões foram repassadas pelo
moderador, abrindo-se espaço para reconsiderações,
com o intuito de, finalmente, chegar-se à padronização
do preenchimento.
Os participantes foram convocados pela coordenação
para a reunião mensal da equipe, de modo que
pudessem opinar sobre o interesse e a disponibilidade
para a realização do estudo. Foram informados quanto
ao objetivo, a metodologia, o cronograma, a forma de
divulgação dos resultados e a liberdade de participação.
A pesquisa foi iniciada após o parecer favorável da
equipe e a assinatura do Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido (TCLE). O projeto foi aprovado pelo Comitê
532
de Ética com Seres Humanos da Prefeitura Municipal de
Belo Horizonte, sob o Parecer nº 0013.0.410.203-09A.
RESULTADOS
Na primeira categoria, sobre os DaDos De orientação (FIG.
1), o item polêmico referiu-se ao campo 1º atendimento
no CTA [nº 5]. O registro será “Sim” para todos os
usuários que realizam a 1ª coleta no serviço, também
denominada 1ª amostra. Nesse caso, será emitido um
prontuário e um cartão de atendimento com o número
de identificação do usuário. A resposta será “Não”
somente para aqueles em que a 1ª amostra de sangue
já foi positiva, sendo, portanto necessária a realização de
um teste confirmatório, designado 2ª amostra, conforme
o fluxo estabelecido pelo MS.12
A dificuldade de entendimento da equipe estava
relacionada às circunstâncias em que o usuário é
egresso – retorna ao CTA por causa de outra situação
de vulnerabilidade, demandando a realização de
nova coleta. Esse procedimento, muitas vezes, era
erroneamente registrado como “Não” para o 1º
atendimento. Ressalte-se que quando o cliente é
egresso, embora ele tenha seu prontuário localizado no
serviço, ele será registrado como 1º atendimento no CTA
– referindo-se à sua 1ª amostra coletada. No caso de o
usuário retornar ao serviço para nova testagem e não for
possível localizar seu prontuário, ele entrará no sistema
com um novo número, será emitido outro prontuário e
o registro permanecerá “Sim” para o 1º Atendimento.
Essa situação do 1º atendimento foi a mesma encontrada
no campo 7, no qual existe a opção“Sim”ou“Não”para a
1ª amostra (FIG. 1). Neste caso, fez-se necessário reforçar
com a equipe o que já estaria definido como 1ª amostra,
no formulário de instruções para o preenchimento,
disponibilizado pelo MS.8 A resposta será “Não” tanto
para o 1º atendimento [nº 5] e quanto para a 1ª amostra
[nº 7] exclusivamente nos casos em que a 1ª amostra
deu resultado positivo, sendo necessária uma segunda
testagem confirmatória – 2ª amostra.
No campo Vai fazer coleta [nº 6] (FIG. 1), o registro
será sempre “Sim”, pois no momento de lançar os
dados no sistema ele só disponibiliza essa opção. Os
erros ai evidenciados relacionavam-se à distração dos
aconselhadores por assinalarem “Não” ou deixarem o
campo em branco. Nesse caso, para dar continuidade ao
lançamento dos dados, o profissional digitador teria de
alterar a resposta no formulário para“Sim”, pois o sistema
não abre o campo seguinte na falta da informação.
Após ter participado do aconselhamento pré-teste se
o usuário, por qualquer motivo, desistir da realização
do exame naquele momento, não será realizado o
preenchimento do SI-CTA. Neste caso, o CTA-BH poderá
disponibilizar a emissão de um cartão provisório, para
posterior realização dos testes laboratoriais, sem que o
usuário tenha de participar novamente dessa etapa do
aconselhamento, embora não exista mais no serviço a
exigência de participação no aconselhamento coletivo
pré-teste.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 530-538, out./dez., 2011
Quanto à identificação ou não do nome do usuário no
campo Mostra nome na etiqueta [nº 10] (FIG. 1), o registro
será sempre“Não”, pois nesse serviço todas as etiquetas
são emitidas apenas com número. Quando se tratar do
atendimento de egresso, o aconselhador preenche uma
etiqueta manualmente com a repetição do número em
que o usuário deu entrada no CTA pela primeira vez. Aqui,
novamente as falhas no registro estiveram relacionadas
mais à distração dos aconselhadores do que à falta de
entendimento ou de divergências no registro.
como “vendedor ambulante”, “atacadista”, “varejista” ou
“representante comercial”. Para professores, é preciso
distingui-los entre os níveis “fundamental”, “médio” ou
“superior”, bem como pela área de atuação –“humanas”,
“exatas” e “biológicas”. No caso de “auxiliar de serviços
gerais”, “diarista”ou“faxineiro”, deve-se especificar o local
de trabalho, tais como residência, hotel, condomínio
e hospital. Na falta dessas informações, a profissão só
poderá ser lançada na opção“Outros”, implicando perda
de dados para efeito de uma análise mais apurada.
Nos serviços em que existe a possibilidade de emissão
da etiqueta com código de barra acrescido do nome
do usuário, o aconselhador deverá assinalar “Sim” para
aqueles que optaram pelo aparecimento do seu nome
no resultado do exame. A anotação será “Não” quando
se tratar de teste anônimo, constando apenas o número
de identificação do usuário.
Observou-se, nesses casos, que os aconselhadores
não acrescentavam essa informação pela falta de
conhecimento dessa necessidade ou por esquecimento.
Este último pode ser decorrente do fato de que não
há no formulário do SI-CTA um espaço específico para
complementar as informações sobre o tipo de ocupação,
sendo esse dado requerido apenas no momento de
lançar os dados no sistema.
Na segunda categoria, sobre os DaDos Do usuário (FIG.
2), a discussão referiu-se às frequentes ausências de
preenchimento do campo Data de nascimento [nº 16].
Observou-se que parte da equipe desconhecia que esta
essa informação é imprescindível para salvar os dados e
gerar o número da requisição, que representa a entrada
do usuário no sistema.
No campo Ocupação [nº 20], é necessária a realização
de um registro mais específico quanto ao trabalho
atual do usuário (FIG. 2). Para isso, deve-se tomar como
referência a Classificação Brasileira de Ocupações,13
conforme explicitado nas instruções do MS.9 Profissões
de vendedor necessitam ser especificadas, por exemplo,
Na quarta categoria, DaDos De resiDência, os registros
dos campos Município [nº 28] e Bairro [nº 29] são
obrigatórios, pois o programa não permite salvar os
dados no sistema sem essa informação. Nesse campo,
as falhas evidenciadas estavam novamente relacionadas
à distração e à falta de conhecimento dos profissionais
de que a falta dessa única informação seria suficiente
para inviabilizar a entrada dos dados daquele usuário
no sistema.
Quanto aos DaDos De requisição, concernente à quinta
categoria, sempre que o aconselhador assinalar a opção
“Outros”nos campos Motivo da procura [nº 35], Origem
FIGURA 1 – Campo do formulário SI-CTA/2005 sobre Dados de orientação do usuário
Fonte: Sistema de Informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento em Aids SI-CTA.
FIGURA 2 – Campo do formulário SI-CTA/2005 sobre Dados do usuário
Fonte: Sistema de Informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento em Aids SI-CTA.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 530-538, out./dez., 2011
533
Sistema de informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento: dificuldades, divergências e padronização no preenchimento
da clientela [nº 36] e Encaminhamento pré-teste [nº
37], é necessário informar a razão dessa escolha, pois
o sistema abre uma janela solicitando esse dado. Caso
isso não seja explicitado, as informações não poderão ser
salvas porque o campo não foi totalmente preenchido.
A alternativa encontrada para evitar a perda dos dados
desse usuário seria o digitador assinalar a opção “Não
informado” ao entrar com os dados no sistema. Essa
escolha deve, entretanto, ser reavaliada em outros
CTAs e com a própria CN-DST/Aids/MS, uma vez que
gera um valor elevado de falsas informações. Nessas
condições, a opção“não informado”decorre, quase que
exclusivamente, da solicitação incompleta dos dados
pelo aconselhador do que pelo fato de o usuário do
serviço não ter respondido a essa questão.
Um exemplo para o preenchimento da opção “Outros”
no campo Motivo da procura seria a situação em que o
usuário necessita de testagem para a realização de visitas
íntimas ao presídio. No campo Origem da clientela,
caberiam os encaminhamentos por meio de grupos de
apoio, religiosos ou das Forças Armadas. Para a categoria
Encaminhamento pré-teste, um exemplo seria a inclusão
de outros exames não contemplados nesse campo,
como o do Projeto Sentinela de Testagem dos Conscritos
do Exército, em que, além do encaminhamento para o
exame anti-HIV, também foi incluída a realização do
exame de HumanT cell LymphotropicVirus (HTLV) – vírus
linfotrópico para células T humanas .
Nos “Antecedentes epidemiológicos” (FIG. 3), sétima
categoria, o problema identificado relacionava-se ao
campo 44, Se fez uso de drogas nos últimos doze meses,
especifique quais e suas frequências. Entre as opções
quanto à frequência, a dificuldade relacionava-se ao
preenchimento das alternativas “Usa vez em quando”
e “Usa frequentemente”. Definiu-se que o item “Usa vez
em quando”estaria relacionado ao uso esporádico, como
em eventos sociais. O item “Usa frequentemente” seria
considerado nos casos de regularidade de uso diário,
semanal e fins de semana. Na alternativa “Já usou, mas
não usa mais”, estabeleceu-se que ela seria assinalada
quando o usuário informasse que parou de beber, ainda
que o período de abstinência fosse recente.
No campo Tipo de exposição [nº 47] (FIG. 3), houve
discordância entre os membros da equipe, pois alguns
consideravam o tipo de exposição ao longo da vida
para a realização desse registro e outros contemplavam
apenas os últimos doze meses. Ficou esclarecido para
os membros da equipe que esse campo faz referência
a todas as exposições ocorridas na vida. Se uma pessoa
relata uma vulnerabilidade há mais de um ano, por
exemplo, não há como desconsiderar esse fato para
uma avaliação mais apurada de suas condições de
vulnerabilidade às DST/HIV/aids.
Ainda no Tipo de exposição, ressalte-se que, no preenchimento da opção “Outros”, o sistema abre uma
janela solicitando que se especifique o que aí foi
considerado. Um exemplo de registro que poderia ser
inserido na opção “Outros” são as situações em que o
tipo de exposição foi decorrente do contato domiciliar
com portadores de hepatite B ou C, ou no caso de
transplantado. Na falta dessa especificação, não será
possível a continuidade do lançamento dos dados
porque o sistema não possibilita o preenchimento do
campo seguinte. Outra questão importante refere-se
à alternativa “Não relata risco biológico”, que ficou de
ser preenchida somente na ausência de qualquer tipo
de exposição contemplada no formulário (FIG. 3), até
mesmo daquelas consideradas na opção “Outros”.
Naoitavacategoria,“Informaçõesdeusodepreservativos”
(fig. 4), tanto no campo Motivo de não usar preservativo
com parceiro fixo [nº 50] quanto no Motivo de não usar
preservativos com parceiro(s) eventual(is) nos últimos
12 meses [nº 54], existe a possibilidade de selecionar
a opção “Outros”. Nesse caso, mais uma vez, o sistema
exige a especificação do que foi considerado nessa
alternativa. Um exemplo seriam os casos em que o
usuário revela não ter feito uso do preservativo por causa
de um “vacilo” ou de “irresponsabilidade”.
FIGURA 3 – Campo do formulário SI-CTA/2005 sobre Antecedentes epidemiológicos
Fonte: Sistema de Informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento em AidS SI-CTA.
534
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 530-538, out./dez., 2011
FIGURA 4 – Campo do formulário SI-CTA/2005 sobre Informações de uso do preservativo
Fonte: Sistema de Informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento em Aids SI-CTA.
No campo Risco do parceiro fixo [nº 51] – (FIG. 4), a opção
“Outros”não exige especificação mais detalhada, pois o sistema não abre uma janela para ser preenchida. Ficou
estabelecido que, nos casos em que o usuário informou ter
dúvida quanto ao risco do parceiro ou respondeu que não
sabia, tais respostas seriam registradas na opção“Outros”.
O problema detectado na nona categoria, r ecorte,
concernente ao campo Recorte populacional [nº 55] (FIG.
5), foi relativo à indefinição de um período de tempo na
vida do usuário que auxiliasse nesse preenchimento.
Quando o sujeito relata, por exemplo, uma situação
ocorrida na adolescência ou uma atividade profissional,
entre as listadas no formulário, que já deixou de fazer, tais
circunstâncias acabam por confundir o aconselhador.
Para reduzir o risco de classificar erroneamente, a
equipe optou por considerar o tempo correspondente
aos últimos 12 meses. Sugere-se, no entanto, que
essa escolha seja também discutida e reavaliada com
profissionais de outros CTAs e com a CN-DST/Aids/MS.
Ainda no campo Recorte populacional [55], ficou
estabelecido que, nas relações de homens bissexuais,
não disponibilizadas entre as alternativas do formulário,
devia-se assinalar a alternativa 5: “Homem que faz sexo
com homem”.
Quanto ao preenchimento da opção 7, “Usuário de
outras drogas”, após consulta à CN-DST/Aids/MS, o
grupo foi orientado a registrar, aí, os usuários de bebidas
alcoólicas de “Uso frequente”, bem como aqueles que
faziam uso “vez em quando” e “frequentemente” dos
outros tipos de drogas que não as injetáveis.
Outro aspecto identificado no Recorte populacional
[55] foram as frequentes faltas de sua correlação com os
registros das alternativas realizados nos campos 43, 44
e 45, referentes ao uso de drogas nos últimos 12 meses.
Na discussão do grupo, foi reforçada a necessidade de
registrar o usuário de drogas tanto no campo 44 quanto
no Recorte populacional.
FIGURA 5 – Campo do formulário SI-CTA/2005 referente ao Recorte populacional
Fonte: Sistema de Informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento em Aids SI-CTA.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 530-538, out./dez., 2011
535
Sistema de informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento: dificuldades, divergências e padronização no preenchimento
Do mesmo modo, estudantes e profissionais de saúde,
assinalados no campo Ocupação [20], não eram muitas
vezes considerados no Recorte populacional. Observou-se,
ainda, habitual falta de registro dos usuários portadores
de hepatites B e C, referenciados na categoria “Resultado
laboratorial” (FIG. 7) e que também deveriam ser
assinalados na opção 14, do Recorte populacional [55].
Na décima categoria de “Encaminhamentos pós-teste”
(FIG. 6), a opção “Outros” do campo Encaminhamentos
[nº 56], é necessária, também, uma especificação mais
detalhada do que foi considerado nesse item. Um
exemplo refere-se aos casos de encaminhamento do
usuário ao SAE em decorrência de recomendação da
profilaxia antirretroviral após exposição sexual com
potencial transmissão de HIV. Nessas circunstâncias, o
usuário é submetido ao Teste Rápido anti HIV e, caso
seu resultado seja negativo, ele será encaminhado
ao SAE para avaliação da necessidade da iniciação da
quimioprofilaxia antirretroviral.
Nas situações de encaminhamento para a “Vacina
hepatite B”, opção 11, quando se verifica a falta
de cobertura vacinal ou a ocorrência do esquema
incompleto e que a pessoa não se insere nos critérios
de encaminhamento estabelecidos pelo MS14, ficou
acordado que o aconselhador deveria registrar, na folha
de evolução do usuário, que ele foi orientado quanto
à importância de iniciar ou completar todas as doses,
ainda que não tivesse o direito ao recebimento gratuito
da vacina nas unidades básicas de saúde.
Na última categoria, “Resultado laboratorial” (FIG. 7),
foi reforçado que o campo Tipo de teste realizado
triagem [nº 61] está relacionado somente ao exame
Elisa anti-HIV. O Teste Rápido não é considerado triagem,
por ser realizado com mais de uma metodologia,
não requerendo, portanto, nova coleta para o exame
confirmatório. No Teste Rápido, o registro no campo
Resultado triagem [61] deverá ser o 6, que corresponde
ao item “Não realizado” da Legenda de resultados (FIG.
7). Na opção Resultado final, deverá ser assinalado o nº
1 para o “Não reagente”, e nº 2 para “Reagente”.
No campo Sífilis [nº 63], o problema identificado foi
decorrente da dificuldade de estabelecer quando se
trata de“Doença ativa”ou“Cicatriz sorológica”. Nos casos
de titulação de 1:2 e 1:4, por exemplo, é impossível
determinar, apenas com esse exame, se a reação é
concernente a uma doença ativa, em fase inicial, ou a
uma cicatriz sorológica. Para o preenchimento desse
campo, ficou estabelecido que todos os resultados com
reação acima de 1:2 serão considerados doença ativa e
encaminhados para avaliação médica. A permanência
dessa informação no formulário deve, no entanto, ser
reavaliada com a própria CN-DST/Aids/MS, pois esse
dado pode tornar-se irrelevante, uma vez que todos os
casos de reação para sífilis deverão ser encaminhados
para um avaliação médica.
Finalizada a abordagem dos pontos polêmicos,
divergentes e dificultadores do preenchimento do
formulário SI-CTA, vale a pena ressaltar os acordos
concernentes à especificidade desse serviço, bem como
os entraves decorrentes, exclusivamente, da distração,
do esquecimento e da falta de consulta às Instruções de
preenchimento do formulário, elaboradas pelo MS.9
Esse fato levou à ocorrência de registros incompletos,
contraditórios ou incorretos, principalmente das questões referentes ao: 1) Estado civil [nº 17] (FIG. 2), quando
se devia registrar apenas a situação conjugal atual do
usuário; 2) Escolaridade [nº 19], devendo-se lembrar de
que se trata de anos de estudo concluídos; 3) Nome da
mãe [nº 22], que somente devia ser preenchido quando
o usuário tivesse optado pela realização do teste nominal;
FIGURA 6 – Campo do formulário SI-CTA/2005 sobre Encaminhamento Pós-Teste
Fonte: Sistema de Informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento em Aids SI-CTA.
FIGURA 7 – Campo do formulário SI-CTA/2005 sobre Resultado laboratorial
Fonte: Sistema de Informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento em Aids SI-CTA.
536
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 530-538, out./dez., 2011
4) Dados de residência [nº 25 a 34], que deviam ser
preenchidos apenas para as pessoas que autorizaram
o contato telefônico ou por e-mail, para que fossem
lembrados de que o resultado estaria disponível no
serviço, se não forem buscá-lo na data prevista. Para
aqueles que não autorizaram o contato [nº 23], o
preenchimento dos dados de residência deveria ser
apenas dos campos Município [nº 28] e Bairro [nº 29].
Encaminhamento pós-teste [nº 56], na definição quanto
ao uso frequente ou esporádico de drogas [nº 44], e ao
registro do Recorte populacional [nº 55]. Sinalizou, ainda,
a necessidade de uma padronização no preenchimento
do formulário com os demais CTAs. Isso possibilitaria
o planejamento nacional de ações calcadas em dados
confiáveis, sem desconsiderar as especificidades de cada
serviço e de sua clientela.
No campo Tipo de orientação (pré-teste) [nº 3] (FIG. 1)
para os casos de Teste Rápido anti-HIV, foi corroborado
pela equipe que seria assinalada a opção 4 –“Individual
e coletiva” – quando o usuário tivesse participado do
aconselhamento pré-teste coletivo.
A interlocução entre as equipes dos CTAs e a CN-DST/
Aids/MS seria também pertinente para otimizar a
utilização do SI-CTA como ferramenta importante para
o estudo do perfil da clientela atendida nesse serviço.
Representaria, ainda, uma oportunidade de discussão
sobre determinados campos do formulário não considerados no sistema, que propiciam preenchimentos
errôneos ou, ainda, que estão além do poder de
decisão das equipes. É também importante chamar a
atenção para a subjetividade inerente ao processo de
aconselhamento, que não pode ser desconsiderada no
momento de preenchimento do formulário.
Quanto ao campo Número de requisição anterior
(obrigatório para a 2ª amostra) [8], (FIG. 1), foi lembrado que
esse número seria o mesmo utilizado no 1º atendimento
no serviço, sendo repetido no preenchimento do outro
SI-CTA, referente à coleta de 2ª amostra, ou seja, do exame
confirmatório. Isso permitiria o acesso aos dados iniciais do
usuário, vinculando seus resultados de 1ª e 2ª amostras.
Saliente-se que em todas as opções “Outros”, com
exceção do campo Risco do parceiro fixo [nº 51], deviam
ser acrescidas as informações adicionais, pois o sistema
abre uma janela para esse detalhamento.
É interessante observar que o campo Materiais/preservativo fornecidos [nº 59] não é contemplado no
sistema, servindo apenas para o controle de dispensação
de preservativos e de materiais de cunho educativo.
Do item 48 ao 54 (FIG. 4), sobre o uso de preservativos,
ficou estabelecido que não fosse considerado o sexo oral,
pois o documento não permite registrar separadamente
se a vulnerabilidade ou proteção foi referente ao sexo
oral ou à penetração. O registro referente ao sexo oral
deveria ser realizado na folha de evolução do usuário.
Questões atinentes a rasuras ou ao uso de corretivos no
formulário foram também discutidas e convencionadas.
Para a correção de um registro, deveria circular a opção
errada e remarcar com um X a desejada.
Com base em um trabalho minucioso da equipe
multiprofissional que atua no CTA-BH, perpassando
os campos e opções do SI-CTA, foi possível detectar
e analisar as falhas, divergências e dificuldades dos
registros. A convenção dos itens conflitantes permitiu
a elaboração de um formulário complementar às
Instruções de preenchimento do MS e contribuiu para
a redução da perda de dados, bem como para a reflexão
da equipe sobre a prática do aconselhamento.
Após a realização dos sucessivos encontros, a repetição de determinadas falhas nos registros sinaliza
a importância de consultar os formulários de preenchimento – um elaborado pelo MS e o outro com
base nesta pesquisa. A permanência de discussões
periódicas sobre quaisquer problemas identificados
nos registros e o esforço dos profissionais para assimilar
as mudanças revelam-se imprescindíveis para a
confiabilidade dos dados.
AGRADECIMENTOS
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo revelou que as principais divergências no
preenchimento do SI-CTA referiram-se aos campos
Aos profissionais do Centro de Testagem e Aconselhamento de Belo Horizonte pela dedicação na elaboração deste estudo.
REFERÊNCIAS
1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação Nacional de DST e AIDS. Diretrizes dos Centros de Testagem e
Aconselhamento (CTA): manual. Brasília: Ministério da Saúde; 1999a.
2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação Nacional de DST e AIDS. Aconselhamento em DST, HIV e AIDS:
diretrizes e procedimentos básicos. 3ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 1999b.
3. Souza V, Czeresnia D. Considerações sobre os discursos do aconselhamento nos centros de testagem anti-HIV. Interface Comunic Saúde
Educ. 2007; 11: 531-48.
4. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação Nacional de DST e Aids. Sistema de informação dos Centros de
Testagem e Aconselhamento em Aids SI-CTA: manual de utilização. Brasília: Ministério da Saúde; 2002.
5. Bassichetto KC, Mesquita F, Zacaro C, et al. Perfil epidemiológico dos usuários de um Centro de Testagem e Aconselhamento para DST/HIV
da Rede Municipal de São Paulo, com sorologia positiva para o HIV. Rev Bras Epidemiol. 2004; 7(3): 302-10.
6. Cruz MMC, Toledo LM, Santos EM. O sistema de informação de Aids do município do Rio de Janeiro: suas limitações e potencialidades enquanto
instrumento da vigilância epidemiológica. Cad Saúde Pública. 2003; 19(1):81-9.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 530-538, out./dez., 2011
537
Sistema de informação dos Centros de Testagem e Aconselhamento: dificuldades, divergências e padronização no preenchimento
7. Freitas FP, Pinto IC. Percepção da equipe de saúde da família sobre a utilização do Sistema de Informação da Atenção Básica – SIAB. Rev
Latinoam Enferm. 2005; 13(4): 547-54.
8. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Programa Nacional de DST e Aids. Sistema de Informação dos Centros de Testagem
e Aconselhamento em Aids SI-CTA: manual de utilização. Brasília: Ministério da Saúde; 2005.
9. Nichiata LYI, Shima H. Sistema de informação em Aids: limites e possibilidades. Rev Esc Enferm USP. 1999; 33(3): 305-12.
10. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa e saúde. São Paulo: Hucitec / Rio de Janeiro: Abrasco;1992.
11. Pope C, Mays M. Pesquisa Qualitativa na Atenção à Saúde. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2005.
12. Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes para organização e funcionamento dos CTA do Brasil. Brasília: Ministério da Saúde; 2010.
13. Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego. Classificação Brasileira de Ocupações. Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego. [Citado 2009 out.
22]. Disponível em: http://www.mtecbo.gov.br/ cbosite/pages/informacoesGerais.jsf
14. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Hepatites virais: o Brasil está
atento. Brasília: Ministério da Saúde; 2008.
Data de submissão: 4/10/2010
Data de aprovação: 8/10/2011
538
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 530-538, out./dez., 2011
O ENSINO DA ENFERMAGEM PSIQUIÁTRICA E SAÚDE MENTAL NO
CURRICULO POR COMPETÊNCIAS
THE TEACHING OF PSYCHIATRIC NURSING AND MENTAL HEALTH IN THE CURRICULUM BY COMPETENCE
LA ENSEÑANZA DE LA ENFERMERIA PSIQUIÁTRICA Y SALUD MENTAL EN EL CURÍCULO PARA LAS
COMPETENCIAS
Antonio Carlos Siqueira Júnior1
Márcia Ap. Padovan Otani2
RESUMO
As Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos na Área da Saúde, lançadas em 2001, corroboraram com o currículo
já desenvolvido na Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA) e apontaram um novo desafio: o de trabalhar com
um currículo integrado, orientado por competência profissional e baseado nas necessidades de saúde da população.
Com a mudança do método, a abordagem de temas relacionados a disciplina de Enfermagem Psiquiátrica passou a
ser trabalhada com os estudantes com base na sua vivência nos diversos cenários de ensino aprendizagem. O objetivo
com esta pesquisa foi identificar se o profissional enfermeiro formado na FAMEMA tem conhecimento teórico para
desenvolver as tarefas de enfermagem relacionadas às atividades assistenciais designadas à equipe multiprofissional dos
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), nível 1. Trata-se de um estudo transversal. Para coleta de dados foi aplicado um
questionário com questões abertas. A análise descritiva dos dados foi realizada por meio da comparação das respostas
tendo como parâmetro as referências bibliográficas relacionadas aos temas investigados. Os resultados evidenciaram
que o conhecimento construído pelos estudantes ao final do curso mostra-se insuficiente para o desenvolvimento das
atividades assistenciais designadas à equipe multiprofissional dos Centros de Atenção Psicossocial. Conclui-se que, na
área específica de enfermagem psiquiátrica e em saúde mental é preciso que os cenários de prática sejam reorganizados,
buscando oferecer maior oportunidade de aprendizado aos estudantes, e que os professores, cumprindo o papel de
facilitadores do processo de ensino aprendizagem, estimulem os estudantes na busca de conhecimentos nesta área.
Palavras-chave: Currículo; Competência Profissional; Educação em Enfermagem.
ABSTRACT
Introduced in 2001, the National Curriculum Guidelines for Courses in the Health Area corroborated the curriculum
offered at FAMEMA and pointed up the challenge to work with an integrated curriculum, guided by professional
competence and based on the population healthcare needs. The change in the course’s methodology meant that the
course“Psychiatric Nursing”began to consider the student’s experience in the various scenarios of the teaching-learning
process. This study aimed to identify whether nurses graduated at FAMEMA had the necessary theoretical knowledge
to perform the assistance tasks assigned to the multi-professional team at the Psychosocial Attention Centers level
1. It is a transversal study. A questionnaire with open questions was used for the data collection. The data descriptive
analysis was carried out by comparing the answers and had as parameter the bibliographical references related to
the studied themes. The results showed that the knowledge assimilated at the end of the course proved insufficient.
In conclusion, the Psychiatric and Mental Health Nursing area requires the reorganization of the practice settings in
order to offer more learning opportunities to the students. Teachers should play the role of facilitators in the teachinglearning process so as to encourage nursing students to build up more knowledge in this area.
Key words: Curriculum; Professional Competence; Nursing Education.
RESUMEN
Las orientaciones del plan de estudios nacionales para los cursos en el campo de la salud, iniciadas em 2001, corroboraron
el plan de estudios ofrecidos en FAMEMA y señalaron el desafío de trabajar con un plan integrado orientado por
profesionales competentes y basado en las necesidades de salud de la población. Al cambiar de método, los temas
vinculados a la materia Enfermeria Psiquiátrica comenzaron a ser enfocados a partir de la experiencia de los alumnos en
los distintos escenarios de enseñanza – aprendizaje . El objeto del presente estudio ha sido identificar si el profesional
de enfermeria capacitado en FAMEMA tiene el conocimiento teórico suficiente como para llevar a cabo las tareas de
enfermeria relacionadas a actividades de asistencia asignadas al equipo multiprofesional de los Centros de Atención
Psicosocial, nível 1. Se trata de un estúdio transversal cuyos datos fueron recogidos mediante un cuestionario con
preguntas abiertas. El análisis descriptivo de los datos fue realizado comparando las respuestas con las referencias
bibliográficas relacionadas a los temas investigados. Los resultados mostraron que el conocimiento construido por
los alumnos al final del curso es insuficiente como para llevar a cabo las actividades asistenciales asignadas al equipo
multiprofesional de los Centros de Atención Psicosocial. Llegamos a la conclusión de que, en el ámbito especifico de la
enfermeria psiquiátrica y salud mental, los escenarios de la práctica deben ser reorganizados, buscando ofrecer mayores
oportunidades de aprendizaje y para que los profesores, como facilitadores del proceso de enseñanza-aprendizaje,
estimulen a los alumnos a buscar más conocimiento en esta área.
Palabras clave: Plan de estudios; Competencia Profesional; Educación en Enfermería.
1
2
Enfermeiro. Doutor em Enfermagem Psiquiátrica. Docente do curso de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA). E-mail: acsj@famema.br.
Enfermeira. Mestre em Enfermagem Psiquiátrica. Docente do curso de Enfermagem da FAMEMA. E-mail: mm-otani@famema.br.
Endereço para correspondência – Rua Jorge Bernardone, 404. Marília-SP. CEP 17519580.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 539-545, out./dez., 2011
539
O ensino da Enfermagem Psiquiátrica e Saúde mental no curriculo por competências
INTRODUÇÃO
A crescente insatisfação com o modelo de ensino
dos cursos de graduação na área da saúde revelava a
necessidade de mudanças. A formação de profissionais
afastadosdarealidadeeincapazesdeatenderàsdemandas
da população são resultantes desse processo.1
Com base nessa realidade e impulsionados pelo Projeto
Uma Nova Iniciativa (UNI), financiado pela Fundação
W. K. Kellogg, a Faculdade de Medicina de Marília
(FAMEMA) iniciou, em1992, o processo de discussão
sobre as possíveis mudanças na formação de médicos
e enfermeiros, cursos mantidos pela instituição. Assim
como a maioria das escolas de ensino superior, o ensino
na FAMEMA seguia a metodologia tradicional, sendo o
aluno receptor dos conhecimentos transmitidos pelo
professor. A organização curricular não proporcionava
a integração da teoria com a prática, das disciplinas e do
ciclo básico com o clínico. Era enfatizada a assistência
especializada, o uso maciço da tecnologia e as avaliações
tinham cunho punitivo.
Motivados pelo desejo de mudanças no ensino, os
docentes de ambos os cursos (medicina e enfermagem)
participaram de assessorias pedagógicas, grupos de
discussões e reflexões sobre o tema. Como alternativa
ao modelo tradicional, os docentes do curso de medicina
optaram por trabalhar com o método da Aprendizagem
Baseada em Problemas (ABP), que foi implantado em
1997. Os docentes do curso de enfermagem optaram
pela metodologia da problematização, que teve início
em 1998, no primeiro ano da graduação em enfermagem
e, a partir daí, nos anos subsequentes.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos
na área da saúde, lançadas em 2001, indicam uma
concepção mais ampla de saúde e estabelecem
como horizonte desejável os currículos integrados,
possibilitando a articulação de várias disciplinas em
torno de temáticas relevantes e estimulantes. Apontam,
também, a necessidade de o estudante desempenhar
papel ativo em seu processo de ensino aprendizagem.
Propõe-se, então, mudança da ênfase nos conteúdos
para o processo de aprendizagem ativa e independente.
Além da superação entre a teoria e a prática, valorizase o trabalho articulado com os serviços de saúde e a
população. Tal indicação das Diretrizes corroborou o
currículo já em desenvolvimento na FAMEMA e lançou
um novo desafio: o de trabalhar com um currículo
integrado, orientado por competência profissional e
baseado em necessidades de saúde da população,
buscando a integralidade do cuidado.
2
Currículo integrado é entendido como a organização
dos conteúdos de forma interdisciplinar, conectando o
currículo escolar e a realidade, devendo ficar explícita
para os estudantes a relação entre os conteúdos que as
instituições escolares trabalham e sua validade para a
compreensão e intervenção na sociedade.3
A competência profissional é compreendida, na
FAMEMA, como a capacidade circunstancial de mobilizar
540
articuladamente diferentes recursos (cognitivos, afetivos,
psicomotores) que permitam abordar/resolver situações
complexas referentes à prática profissional.4
Como nesta pesquisa tem-se o propósito de refletir sobre
as contribuições do ensino da enfermagem psiquiátrica
para a formação geral do enfermeiro na FAMEMA,
descreve-se, a seguir, a organização da disciplina de
Enfermagem em Psiquiatria e Saúde Mental ao longo
do processo de mudança curricular.
Após o início do novo currículo, em 1997, os docentes
da disciplina Enfermagem em Psiquiatria e Saúde
Mental continuaram com carga horária teórica e prática
definida na grade curricular, utilizando o método da
problematização, em que o professor tem o papel de
facilitar o processo de aprendizagem do estudante nos
diferentes cenários de ensino aprendizagem, seja em
salas de aula, seja em serviços de saúde.
Em 2003, após discussão coletiva entre os docentes do
curso de enfermagem, a carga horária destinada aos
estágios nas áreas de enfermagem psiquiátrica, prontosocorro, moléstias infecciosas e unidade de terapia
intensiva deixou de existir, e a abordagem de temas
relacionados a essas áreas passou a ser trabalhado com
os estudantes de acordo com a necessidade, com base
na vivência deles nos demais campos de estágios da
grade curricular. A decisão baseou-se em argumentos
de que a proposta pedagógica da instituição estava em
consonância com as Diretrizes Curriculares ao buscar a
formação do enfermeiro generalista, sendo tais áreas
vistas como especialidades da enfermagem.
Dessa forma, ao necessitar de embasamento teórico
referente à área de enfermagem psiquiátrica por
demandas da prática profissional, o estudante passou a
buscar na literatura e discutir o conteúdo pesquisado com
o professor que o acompanhava no cenário da prática.
Os estudantes podiam, também, solicitar consultorias
com professores especialistas com a finalidade de
esclarecer dúvidas que não foram esclarecidas com a
busca de informações na literatura ou na discussão com
o professor.
Essa organização curricular é coerente com a opção
pedagógica do curso de enfermagem, ou seja, a
metodologia ativa de ensino, em que o aprendizado
do aluno deve ser construído com base na vivência nos
cenários da prática, e não de conteúdos previamente
selecionados pelo professor.
Segundo as Diretrizes Curriculares, a área da saúde requer profissionais com competências gerais, referentes à
atenção a saúde, à tomada de decisões, à comunicação,
à liderança, à administração e ao gerenciamento e à
educação permanente.1
OdocumentodasDiretrizesCurricularesparaagraduação
em enfermagem admite leituras variadas. Por exemplo, a
expressão“enfermeiro com formação generalista”pode
aceitar múltiplas interpretações e, assim, determinar
uma indefinição sobre o tipo de profissional que se
deseja formar.5 Portanto, vários questionamentos podem
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 539-545, out./dez., 2011
ser levantados: a organização curricular deve enfatizar o
conhecimento geral de enfermagem ou o currículo deve
capacitar o profissional para atuar em todos os cenários
da prática? A formação profissional deve atender à
demanda do mercado de trabalho? De que profissional
o mercado atual necessita?
Com as recentes mudanças nas políticas de saúde,
incluindo a saúde mental, o mercado de trabalho,
compreendendo os diferentes níveis de atenção à saúde,
exige, atualmente, que os profissionais saibam atuar na
promoção, prevenção, recuperação e reabilitação da
saúde da população assistida.
Acompanhando as iniciativas da atual política de saúde,
o Programa de Saúde da Família (PSF) foi criado como
estratégia para a reorientação da atenção básica e do
modelo de atenção à saúde no país. No que se refere
à política de saúde mental, a criação dos Centros de
Atenção Psicossocial (CAPS) também tem o propósito
de redirecionar a atenção psiquiátrica. Tais iniciativas
compõem grande parte do mercado de trabalho que
absorve os profissionais de enfermagem.
As equipes dos CAPS têm como uma de suas propostas
de atuação apoiar e supervisionar a atenção à saúde
mental na rede básica, incluindo o PSF e o Programa
de Agentes Comunitários de Saúde (PACS). Os CAPS
estão divididos em grau de complexidade e, portanto,
os requisitos para o trabalho aumentam de acordo com
a complexidade do serviço.
Segundo a Lei nº 10.216/2001, que dispõe sobre o
funcionamento dos CAPS,6 o CAPS I é responsável
por prestar atendimento individual e em grupos, em
oficinas terapêuticas, realizar visitas domiciliares e
prestar atendimento à família, assim como participar
de atividades comunitárias, enfocando a integração do
paciente na comunidade e sua inserção familiar e social.
Em vista disso, faz-se necessário que os profissionais
envolvidos nesses atendimentos tenham conhecimento
e preparo para implementar tal proposta, ou seja,
devem ter a capacidade de mobilizar recursos para
resolver as diferentes situações no trabalho. Diante
do exposto, os questionamentos que motivaram esta
pesquisa foram:
assistenciais designadas à equipe multiprofissional dos
CAPS, nível 1.
JUSTIFICATIVA
Baseando-se nas ações educativas desenvolvidas
no currículo do curso de enfermagem da FAMEMA,
cuja finalidade é preparar os indivíduos para a ação
social, articulando os propósitos educacionais às
necessidades políticas, sociais, individuais e coletivas
da população, esta pesquisa torna-se relevante para
identificar possíveis lacunas de conhecimento no que
se refere à área de saúde mental e psiquiatria, buscando
melhor qualificação do profissional a ser formado nessa
Instituição.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo transversal, cuja populaçãoalvo foi constituída por 40 estudantes da primeira
série e 40 da quarta série do curso de enfermagem
da FAMEMA, totalizando 80 estudantes. Para a coleta
de dados foi aplicado um questionário com questões
abertas, sendo este respondido por 24 estudantes da
primeira série e 32 estudantes da quarta série que,
após serem orientados em relação aos objetivos do
estudo, assinaram o Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido (TCLE) aprovado pelo Comitê de Ética e
Pesquisa com Seres Humanos da FAMEMA.
O instrumento foi construído, tendo como parâmetro
as atividades desenvolvidas pelo enfermeiro no CAPS 1.
Os temas contidos no questionário estão relacionados
ao conhecimento teórico necessário para a formação
geral do enfermeiro e que, em um currículo tradicional,
são desenvolvidos na disciplina de enfermagem em
psiquiatria e saúde mental. O conhecimento teórico,
fundamentado na literatura, constitui um dos recursos
a serem mobilizados para resolver diferentes situações
no trabalho.
– Estão preparados para o trabalho em equipe
multiprofissional?
O mesmo instrumento foi aplicado aos estudantes
das duas séries, sendo composto por sete questões
relacionadas aos seguintes temas: 1)abordagem
ao paciente depressivo, 2)conceito de empatia, 3)
coordenação de grupos, 4)investigação de sintomas
psicóticos, 5)dependência de álcool, 6) exame do estado mental e 7)política de saúde mental. A análise
descritiva dos dados foi realizada por meio da comparação das respostas das duas séries tendo como
parâmetro as referências bibliográficas relacionadas aos
temas investigados.
OBJETIVO
RESULTADOS
Identificar se os estudantes do último ano (quarta
série) do curso de enfermagem da FAMEMA possuem
conhecimento teórico adequado para desenvolver
as tarefas de enfermagem relacionadas às atividades
Todos os questionários foram avaliados segundo
um gabarito construído pelos autores, tendo como
referência artigos e livros, conforme quadro a
seguir:
– Os estudantes do curso de enfermagem da FAMEMA
estão sendo preparados adequadamente para atuar
nos CAPS de acordo com as atividades desenvolvidas
nesse serviço?
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 539-545, out./dez., 2011
541
O ensino da Enfermagem Psiquiátrica e Saúde mental no curriculo por competências
QUADRO 1 – Temas das questões e referências utilizadas para correção do questionário
QUESTÃO
Tema
Referência
1
Abordagem ao paciente depressivo
Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. 3ª ed ed.,
Guanabara Koogan, 2002, cap 26: disturbios afetivos.
2
Conceito de empatia
Stefanelli, MC; Arantes, E. C.; Fukuda, IMK. Aceitação, empatia e
envolvimento emocional no relacionamento enfermeira-paciente.
Rer. Esc. Enf. USP. São Paulo. 16(3):245-253, 1982.
3
Coordenação de grupos
Atributos desejáveis para um coordenador de grupos, como
trabalhamos com grupos, Porto Alegre: Artes Médicas, 1997
4
Investigação de sintomas psicóticos,
Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. 3. ed.,
Guanabara Koogan, 2002, cap 25: esquizofrenia e outros distúrbios
psicóticos.
5
Dependência de álcool
Alcoolismo hoje
6
Exame do estado mental
Benseñor, I. M.; Atta JA; Martins, MA Semiologia Clínica. São Paulo:
Sarvier, 2002.
Kaplan, HI; Sadock, BJ; Grebb, JA. Compêndio de psiquiatria:
ciências do comportamento e psiquiatria clínica. 7ª ed. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1997.
7
Política de saúde mental
Antunes SMMO, Queiroz MS. A configuração da Reforma
Psiquiátrica em Contexto Local no Brasil: uma análise qualitativa.
Cad Saúde Pública v 23(1) Rio de Janeiro, 2007.
As questões foram corrigidas de acordo com a pontuação
definida previamente pelos autores: 0 ponto, 0,5 ponto
e 1 ponto. Assim, a maior pontuação é igual a 7 pontos,
equivalente ao acerto de todas as questões.
Após a correção, as pontuações foram transformadas em
notas de 0 a 10, utilizando-se a regra de três, de modo
que o estudante que obteve a pontuação 7 tivesse a nota
equivalente igual a 10, como mostra a TAB. 1, a seguir:
TABELA 1 – Notas das questões respondidas pelos estudantes da 4ª série
PONTUAÇÃO DAS QUESTÕES RESPONDIDAS PELO QUARTO ANO
Sujeitos
1
2
3
4
5
6
7
NOTA
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
32
0,0
0,0
0,5
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,5
0,5
0,0
0,0
0,5
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
1.0
0,5
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,5
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,5
0,0
0,0
0,5
0,5
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
1.0
0,0
1.0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
1.0
0,0
0,0
1.0
0,0
1.0
0,0
0,0
0,0
1.0
0,0
1.0
0,5
0,0
1.0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
1.0
0,0
0,0
0,0
1.0
0,0
0,0
1.0
0,5
0,5
0,5
0,5
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
1.0
0,5
1.0
0,5
0,5
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,5
0,5
0,0
0,5
0,0
0,0
0,5
0,5
0,5
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
1,43
2,14
3,57
1,43
2,86
0,00
0,71
2,14
0,71
3,57
0,71
2,86
1,43
2,86
1,43
2,14
2,14
1,43
1,43
0,00
0,71
0,00
1,43
0,00
3,57
1,43
0,71
1,43
2,14
0,71
1,43
2,14
542
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 539-545, out./dez., 2011
TABELA 2 – Notas das questões respondidas pelos estudantes da 1ª série
QUESTÕES RESPONDIDAS PELO PRIMEIRO ANO
Sujeitos
1
2
3
4
5
6
7
Nota
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
0,0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
1.0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
1.0
0,0
0,0
0,0
1.0
1.0
0,0
0,0
0,0
1.0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
0,5
1.0
1.0
0,5
1.0
1.0
1.0
1.0
0,5
1.0
1.0
1.0
0,0
0,0
0,5
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,5
1.0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
2,1
0,7
1,4
2,1
0,7
1,4
2,8
2,1
1,4
0,7
4,2
3,5
1,4
0,0
0,0
2,1
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
0,7
1,4
Na TAB. 2, observa-se que a maior nota foi de 3,57,
alcançada por somente três estudantes. Observa-se,
também, que a maioria dos estudantes (62%) não
possui conhecimento em relação aos temas abordados
no questionário, errando seis das sete perguntas. As
questões 5 e 6, que tratam dos temas dependência de
álcool e exame do estado mental, respectivamente,
foram as mais respondidas e obtiveram maior número
de acertos.
A realização de grupos é uma atividade comum nos
serviços de saúde e os estudantes de enfermagem têm
a oportunidade de participar ou mesmo coordenar
grupos nos cenários de prática profissional. As respostas
à questão 3, que trata desse tema, foram caracterizadas
como superficiais, uma vez que os estudantes abordaram
somente a necessidade de o coordenador conhecer sobre
o assunto a ser discutido, não valorizando as características
pessoais necessárias para coordenar grupos.
A questão 1 refere-se a uma situação real, de ocorrência
comum nos serviços de atenção primária em saúde,
serviços que são cenários de ensino-aprendizagem
para os estudantes de 1ª, 2ª e 4ª séries do curso
de enfermagem da FAMEMA. Ao contrário do que
se esperava, as respostas dos estudantes focaram,
principalmente, a necessidade de administração de
medicamentos, encaminhamento a outros profissionais
e investigação dos sintomas. De modo geral, as respostas
não evidenciaram a valorização da pessoa, por meio
de uma abordagem de acolhimento e também não
relataram a necessidade sobre a investigação sobre o
risco de suicídio apresentado na situação.
Desde a primeira série do curso de enfermagem da
FAMEMA, os estudantes realizam acompanhamento
das famílias nas unidades de saúde da família e têm
como uma das tarefas, referentes à área do cuidado
individual, a coleta de dados por meio da história de vida
e exame clínico. Considerando que as doenças mentais,
especialmente aquelas caracterizadas por sintomas
psicóticos, como a esquizofrenia, o transtorno de humor e
as psicoses decorrentes do uso de substâncias psicoativas,
possuem índices epidemiológicos significativos entre a
população em geral, esperava-se que os estudantes, ao
lidarem com pessoas que apresentam ou apresentaram
sintomas psicóticos, buscassem conhecimentos teóricos
com base na vivência para melhor assistir tais pessoas.
No entanto, as respostas dessa questão limitaram-se à
descrição de sintomas alucinatórios, sendo que 93% dos
estudantes não responderam.
Nas respostas da questão 2, esperava-se a abordagem do
tema empatia com base nas experiências em campos de
estágios, correlacionando-o com os conceitos teóricos.
Contudo, observa-se que, entre os estudantes que
arriscaram essa correlação, o enfoque deu-se somente
em relação aos conceitos teóricos, relatando-os de
forma incompleta e, muitas vezes, distante dos conceitos
corretos.
Da mesma forma, o alcoolismo, outro problema de saúde
com alta incidência (11,7%) no Brasil e nos cenários
vivenciados pelos estudantes, foi abordado na questão
5. De acordo com aTAB. 2, observa-se que o desempenho
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 539-545, out./dez., 2011
543
O ensino da Enfermagem Psiquiátrica e Saúde mental no curriculo por competências
dos estudantes nessa questão foi melhor do que em
outras, embora as respostas refiram-se a sintomas que
não caracterizam a dependência ao álcool.
Na questão 6, buscou-se identificar o conhecimento
dos estudantes em relação ao exame do estado mental,
considerando que este faz parte da coleta de dados
realizada por meio da história de vida e exame clínico.
Foi constatado que as respostas referiam-se a algumas
das funções psíquicas que devem ser avaliadas nesse
exame, porém nenhum estudante descreveu o exame
do estado mental completo.
Tendo em vista a preocupação da FAMEMA em favorecer o
contato dos estudantes com o mundo do trabalho desde
a primeira série de enfermagem e diante da necessidade
de compreensão, por parte dos estudantes e profissionais
de saúde, sobre o sistema de saúde no Brasil, assim como
o conhecimento das políticas públicas nacionais que
direcionam o cuidado em saúde, na questão 7, a finalidade
foi investigar o conhecimento dos estudantes sobre as
políticas de saúde mental que, nas últimas décadas, têm
redirecionado a assistência psiquiátrica no Brasil. A análise
dessa questão evidenciou que nenhum dos estudantes
respondeu corretamente e que a maioria (80%) não
respondeu. Além disso, vários declararam que nunca
tiveram aproximação com o tema.
DISCUSSÃO
Considerando a definição de competência descrita, por
meio da qual o conhecimento teórico e as habilidades
e atitudes compõem os recursos a serem mobilizados
para o desempenho profissional, e que, por meio da
observação, avalia-se a competência profissional,
tornam-se claros os limites deste estudo, uma vez que
se avalia somente o recurso cognitivo.
Os resultados apontam que o conhecimento teórico
referente à enfermagem em psiquiatria e saúde mental,
necessário ao enfermeiro generalista, está deficitário
entre a maioria dos estudantes da quarta série de
enfermagem da FAMEMA. Entende-se que tal evidência
pode trazer dificuldades no desempenho dos futuros
profissionais ao atuarem em serviços de saúde mental
ou mesmo em serviços de atenção básica em saúde,
atividades que requerem conhecimentos para lidar com
as diversas situações que envolvem os temas abordados
nas questões do instrumento utilizado.
Os processos de transformação, na formação, são
complexos e envolvem mudanças conceituais, de
postura, de lugares e de relações institucionais, assim
como o enfrentamento de conhecimento e valores
cristalizados hegemônicos, além da construção de
alternativas que não estão dadas.7
Esses processos implicam reflexão contínua, não
devendo ser levada em conta somente a visão de
especialistas, mas também da sociedade, que começa a
exigir melhores serviços de saúde. Isso nos leva a buscar
estratégias para a formação de profissionais capazes
de prestar atendimento integral e mais humanizado,
544
de trabalhar em equipe e de compreender melhor a
realidade em que vive a população.
O conceito de competência nos remete à modificação
do paradigma na formação profissional em saúde e
exige-nos a reflexão sobre as estratégias utilizadas para
favorecer a aprendizagem significativa do conhecimento
dos estudantes durante o curso de graduação.
A formação por competência exige uma pedagogia
diferenciada e tem como fundamentos o processo
centrado mais na aprendizagem do que no ensino, a
valorização do aluno como sujeito da aprendizagem e
na construção significativa do seu conhecimento.8
Ao contrário do ensino tradicional, que prioriza a
transmissão de conhecimentos, e com base nos
fundamentos descritos, o curso de enfermagem da
FAMEMA adotou a metodologia ativa, valorizando a
interdisciplinaridade e o aprender a aprender. Isso tornou
necessária uma série de modificações curriculares e
mudanças no papel dos estudantes e dos docentes.9 Tais
mudanças requerem reflexões e avaliações contínuas,
durante todo o processo de ensino aprendizagem, e não
somente no processo de implantação do novo currículo.
Tendo em vista que a finalidade principal dessas reflexões
é a transformação da prática profissional, da formação
dos profissionais de saúde, dos processos de trabalho
e da qualidade de vida e de saúde das pessoas e da
população, os resultados evidenciados neste estudo
podem contribuir para repensar as estratégias utilizadas
pelos docentes do curso de enfermagem nos diferentes
cenários de ensino-aprendizagem para estimular os
estudantes a buscar fundamentos teóricos na literatura,
de modo que aproveitem melhor as experiências do
mundo do trabalho para a construção dos conhecimentos
que lhes embasarão a prática profissional.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos na
área da saúde apontam para uma concepção mais ampla
de saúde e estabelecem como horizonte desejável o
currículo integrado, possibilitando a articulação de
várias disciplinas em torno de temáticas relevantes e
estimulantes. Destaque-se, também, a necessidade de
o estudante desempenhar papel ativo no processo de
ensino aprendizagem, propondo mudanças de ênfase
que, antes, eram dadas aos conteúdos e passem, agora,
para o processo de aprendizagem ativa e independente,
além da superação da dicotomia entre a teoria e a
prática, valorizando o trabalho articulado com os
serviços de saúde e a população.
Considerando os limites deste estudo, a complexidade
e a relevância do tema, acredita-se que é necessário
maior aprofundamento no assunto por meio de
outros estudos. Contudo, entende-se que o ensino por
competência constitui um desafio para os serviços de
saúde e para as escolas que formam os profissionais na
área da saúde.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 539-545, out./dez., 2011
Outro destaque a ser dado sobre a limitação deste estudo
é que nele preocupou-se em avaliar somente a aquisição
de conhecimento (cognitivo), e a proposta curricular
prevê a formação como um todo, não dissociando as
áreas cognitiva, afetiva e psicomotora.
para a formação de profissionais de saúde. Entende-se
que esses resultados mostram a necessidade de rever à
forma pela qual se está desenvolvendo o ensino neste
momento e de refletir sobre os aspectos em que se
pode melhorar.
Vale ressaltar que a proposta curricular desenvolvida
na FAMEMA busca formar o profissional capacitado em
aprender a aprender, para que ele consiga mobilizar
recursos afetivos, cognitivos e psicomotores diante
das diversas situações da prática que exijam sua
intervenção.
Considerando que um currículo exige avaliações contínuas para adequar-se às necessidades da profissão,
com os resultados deste estudo, conclui-se que, na
área específica de enfermagem psiquiátrica e em saúde
mental, é preciso que os cenários de prática sejam
reorganizados, buscando oferecer maior oportunidade
de aprendizado aos estudantes, e que os professores,
cumprindo o papel de facilitadores do processo de
ensino aprendizagem, estimulem os estudantes na
busca de conhecimentos nessa área.
Mostrou-se, neste estudo, que o desempenho cognitivo
dos alunos ficou abaixo do que era esperado, mas isso
não indica que o ensino por competência seja impróprio
REFERÊNCIAS
1. Noronha AB. Graduação: é preciso mudar. Radis. 2002; 5: 9-16.
2. Brasil. Parecer CNE/CES nº 1133 de 7 agosto de 2001. Institui diretrizes curriculares nacionais dos cursos de graduação em Enfermagem,
Medicina e Nutrição. Diário Oficial da União. Brasília; 2001.
3. Torres SJ. A instituição escolar e a compreensão da realidade: o currículo integrado. In: Silva LH, Azevedo JC, Santos ES, organizadores. Novos
mapas culturais, novas perspectivas educacionais. Porto Alegre: Sulina; 1996. p. 58-74.
4. Faculdade de Medicina de Marília. Manual de avaliação do estudante: cursos de Medicina e Enfermagem. Marília: Faculdade de Medicina
de Marília; 2006.
5. Meyer DE, Kruse MHL. Acerca de diretrizes curriculares e projetos pedagógicos: um início de reflexão. Rev Bras Enferm. 2003; 56(4): 335-9.
6. Brasil. Lei n° 10216 de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona
o modelo assistencial em saúde mental. Diário Oficial da União, Brasília; 2001.
7. Feuerwerker LCM. Além do discurso de mudança na educação médica: processos e resultados. São Paulo: Hucitec; 2002.
8. Perrenoud P. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artmed; 1999.
9. Tsuji H, Aguilar da Silva RH. Relato de experiência de um novo modelo curricular: aprendizagem baseada em problemas, implantada na
unidade educacional do sistema endocrinológico na 2° série do curso médico da Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA. Arq Brás
Endocrinol Metab. 2004; 48(4): 535-43.
Data de submissão: 29/3/2010
Data de aprovação: 5/6/2011
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 539-545, out./dez., 2011
545
UM OLHAR DAS ADOLESCENTES SOBRE AS MUDANÇAS NA GRAVIDEZ:
PROMOVENDO À SAÚDE MENTAL NA ATENÇÃO BÁSICA
ONE TO LOOK AT OF THE ADOLESCENTS ON THE CHANGES IN THE PREGNANCY: PROMOTING THE
MENTAL HEALTH IN THE BASIC ATTENTION
UNO PARA MIRAR DE LOS ADOLESCENTES EN LOS CAMBIOS EN EL EMBARAZO: EL PROMOVER A LA
SALUD MENTAL EN LA ATENCIÓN BÁSICA
Aline Alves1
Andreza Teresa Albino2
Maria de Fátima Mota Zampieri3
RESUMO
Pesquisa qualitativa na modalidade convergente assistencial com dez adolescentes grávidas, usuárias de uma Unidade
Básica de Saúde. A finalidade foi conhecer a percepção das adolescentes sobre as mudanças sociais, físicas e emocionais
na gravidez, condutas para enfrentá-las e o apoio recebido. A coleta de dados deu-se em agosto e setembro de 2009,
por meio de entrevista semiestruturada e observação participante até a saturação de dados. Os dados interpretados
pela análise de conteúdo deram origem às categorias: confronto com o novo, mudanças sociais, físicas e emocionais
diante da gravidez e rede de apoio. Os resultados indicam despreparo e imaturidade das adolescentes para assumir a
gestação. A gravidez gerou mudanças tais como: alterações corporais, preocupações com a imagem, o parto e o bebê,
maior responsabilidade, tristeza, alegria, estresse, medo, distanciamento da família e amigos, alterações do estilo de
vida e abandono escolar. Causou reações pessoais, familiares e do companheiro como: elaboração, aceitação, negação,
rejeição, culminando com a tentativa de aborto e suicídio. A rede de apoio mostrou-se fundamental, centrando-se mais
na mãe e pouco nos profissionais de saúde. Este estudo dá voz e vez às adolescentes para expressarem suas vivências
durante a gravidez. Reforça a necessidade de um atendimento interdisciplinar, integral e personalizado à adolescente
grávida, o fortalecimento da sua rede de apoio e de ações de promoção da saúde mental, além de contribuir para a
produção de conhecimentos e servir de subsídio para a transformação das práticas de saúde na atenção básica.
Palavras-chave: Adolescência; Gravidez na Adolescência; Promoção da Saúde; Saúde Mental.
ABSTRACT
This is a qualitative research based on a convergent-care methodology with ten pregnant teenagers’
patients at a Primary Healthcare Unit. It seeks to identify the teenagers’ perception on social, physical and
emotional changes during pregnancy, how to face them, and the support received. The data was collected
from August to September 2009 through semi-structured interview and participant observation until data
saturation. The data was interpreted by content analysis that resulted in the following categories: facing
the new, social, pregnancy physical and emotional changes, and support network. The results indicated the
teenagers appeared unprepared and immature to carry the gestation on. The pregnancy led to alterations
such as body changes, concerns about the image, childbirth and the baby, more responsibility, sadness,
joy, stress, fear, detachment from family and friends, changes in lifestyle and drop out of school. It trigged
personal, family and partner reactions such as elaboration, acceptance, and denial, rejection, culminating
in abortion and suicide attempts. The support network proved to be essential for it focused mainly on the
mother and less on the health professionals. This study gave adolescents an opportunity to express their
experiences during pregnancy. It reinforced the need of an interdisciplinary, integrated and customized
health care service to the pregnant teenager as well as the support network and mental health promotion
actions. It contributed as well to the production of knowledge on the subject and it can subsidize health
care changes on primary care practices.
Key words: Adolescence; Adolescent Pregnancy; Health Promotion; Mental Health.
RESUMEN
Investigación cualitativa en la modalidad convergente asistencial con diez adolescentes embarazadas usuarias de una
unidad básica de salud. Tiene el propósito de conocer la opinión de las adolescentes acerca de los cambios sociales,
físicos y emocionales durante el embarazo, comportamientos para enfrentarlos y ayuda recibida. La recogida de datos
ocurrió en agosto y septiembre de 2009, por medio de entrevista semiestructurada y observación participante hasta
la saturación de los datos que fueron interpretados por el análisis de contenido y originaron las siguientes categorías:
1
2
3
Acadêmica do curso de Enfermagem da UFSC. E-mail: alynealves@ig.com.br.
Acadêmica do curso de Enfermagem da UFSC. E-mail: dezaalbino@hotmail.com.
Professora. Doutoranda do Departamento de Enfermagem da UFSC.
Endereço para correspondência – Rua Duarte Schutell 204 ap. 901 Centro Ed. Fiori de Graziela. CEP.: 88015640. Florianópolis. SC. E-mail: mfatima@nfr.ufsc.br.
546
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 545-555, out./dez., 2011
confrontación con lo nuevo, cambios sociales, físicos y emocionales ante el embarazo y red de ayuda. Los resultados
indican falta de preparación e inmadurez de las adolescentes para asumir el embarazo. El embarazo provoca alteraciones
corporales, preocupación con la imagen, parto y el bebé, más responsabilidad, tristeza, alegría, estrés, miedo, alejamiento
de la familia y de los amigos, cambios en el estilo de vida y abandono escolar. Causa reacciones personales, familiares y
del compañero tales como elaboración, aceptación, negación, rechazo, culminando con la tentativa de aborto y suicidio.
La red de ayuda mostró ser fundamental, centrándose básicamente en la madre y poco en los profesionales de salud.
Este estudio les ofreció a las adolescentes la oportunidad de expresar sus vivencias durante el embarazo. Refuerza la
necesidad de brindar atención interdisciplinaria, integral y personalizada a la adolescente embarazada, fortalecer la
red de apoyo y de acciones de promoción de la salud mental además de contribuir a la producción de conocimiento
y servir de subsidio para transformar las prácticas de salud en la atención básica.
Palabras clave: Adolescencia; Embarazo en la Adolescencia; Promoción de la Salud; Salud Mental.
INTRODUÇÃO
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei n°
8.069/90, determina a adolescência como o período de
vida que vai dos 12 aos 18 anos de idade,1 estendido
pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para 19
anos.2 Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), a população adolescente no Brasil (10
e 19 anos), corresponde a 21% da população nacional,
representando um grupo de grande expressividade
populacional. São 35.302.872 adolescentes, dentre os
quais 49,5% são mulheres.3
A adolescência é um período da existência complexo
e dinâmico de grandes e profundas transformações
físicas, psicológicas e sociais que sinaliza a passagem da
infância para a fase adulta, sendo parte de um processo
de amadurecimento e de intenso aprendizado de vida.
Essa fase caracteriza-se, principalmente, por crescimento
rápido, adaptação e reorganização corporal, maturação
sexual, reestruturação da personalidade, aquisição de
novas habilidades cognitivas e estabelecimento de
diferentes papéis e interações na sociedade.4
A adolescente passa, nessa fase, a ter de lidar com algo
que até então passava despercebido: sua sexualidade,
um universo que tanto os jovens quanto os pais possuem
dificuldade para compreender e agir. Essa sexualidade
emergente, a falta de orientação sexual e o pensamento
de que “não vai acontecer comigo” estão intimamente
ligados com a gravidez na adolescência. A gestação,
quando não desejada, pode induzir casamentos
seguidos de separação, culminar com ações mais
drásticas, como a interrupção da gestação ou resultar
em agravos à saúde, tais como complicações na gravidez
e doenças sexualmente transmissíveis.5 Além disso, o
peso da responsabilidade pela reprodução imposto pela
sociedade à mulher e, por conseguinte, à adolescente,
somado ao sentimento de que infringiu normas da
sociedade e que pode ser alvo de julgamentos, culmina
com o isolamento, o abandono dos estudos, a perda dos
laços familiares e a segregação social da adolescente.6
A gravidez, no entanto, pode ser vista por algumas
adolescentes como uma possibilidade para obter maior
reconhecimento familiar e status social, forma de provar a
fertilidade e motivo de orgulho por materializar o sonho
de ser mãe.7 Pode ser, ainda, um meio para solidificar o
relacionamento com o parceiro, adquirir independência,
demonstrar uma atitude de rebeldia contra a família,
forma de libertar-se de um ambiente familiar abusivo
ou única chance de ter um projeto de vida.
De toda forma, mesmo a gravidez sendo considerada um
período de transição que faz parte do processo normal
do desenvolvimento humano, é vista como uma situação
de crise que pode, em qualquer faixa etária, alterar o
psiquismo da mulher e gerar mudanças significativas
no seu papel sociofamiliar, o que se evidencia na
adolescência.8,9
No que se refere a essas repercussões, as adolescentes
sentem-se menos valorizadas pela família, especialmente
noscasosemqueafamíliareagiumalànotíciadagestação,
apresentam, em sua maioria, baixa autoestima, altos níveis
de estresse, sintomas depressivos e sofrimento psíquico.10
Para que possa se sentir compreendida e amparada nessa
fase difícil de sua vida, a gestante adolescente precisa de
um espaço para expressar e compartilhar sentimentos,
dúvidas e temores, mesmo que seja no horário ocioso,
quando espera a consulta pré-natal.11
Apesar da importância do pré-natal, em Florianópolis,
segundo a Secretaria Municipal de Saúde,12 das 192
gestantes com menos de 20 anos registradas de
janeiro a julho de 2007, apenas 17,93% estavam sendo
acompanhadas pelo Programa da Saúde da Família
(PSF), o que, de acordo com os profissionais de saúde
da Unidade Básica de Saúde (UBS) de Florianópolis,
pode ser decorrente da dificuldade de acesso, falhas na
abordagem e de aderência dessa clientela ao serviço.
O atendimento no pré-natal a essas adolescentes
confirma-se como uma excelente oportunidade para
conjugar esforços de diferentes profissionais, a fim de
melhorar a detecção e a condição psicossocial dessas
gestantes e, consequentemente, de seus futuros
bebês.13 A Atenção Básica pode ser um dispositivo
altamente potente para promover outros modos
de relacionamento com o sofrimento psíquico,
desconstruindo e construindo nos diversos contextos e
populações outras relações com as diferenças e espaço
para promover ações direcionadas à saúde mental à
gestante grávida.14
Essas questões, aliadas à necessidade de ampliar as
publicações nacionais na área da enfermagem sobre esta
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 545-555, out./dez., 2011
547
Um olhar das adolescentes sobre as mudanças na gravidez: promovendo à saúde mental na atenção básica
temática e de trabalhos que deem voz à adolescente e
valorizem sua realidade, sua opinião e seu olhar sobre
suas vivências neste importante e complexo momento
da vida, justificam esta pesquisa. O objetivo foi conhecer
a percepção das adolescentes sobre as mudanças sociais,
físicas e emocionais condicionadas pela gravidez, as
condutas para enfrentá-las e o apoio recebido.
METODOLOGIA
Pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva na
modalidade convergente-assistencial. Nesse tipo de
pesquisa, assiste-se o indivíduo e, concomitantemente,
coletam-se dados. Na assistência, utilizou-se como
referencial conceitos de Paterson e Zderad.15 Por meio
da relação dialógica e presença genuína, procurou-se
atender aos chamados das gestantes e dar respostas
às suas necessidades, com vista ao seu bem-estar e o
vir-a-ser. No estudo, essas adolescentes são vistas como
seres humanos singulares, multidimensionais e integrais,
capazes de fazer escolhas. Relacionam-se com a família,
amigos e pessoas significativas que fazem parte do seu
mundo e que podem influenciar e contribuir para a
formação de sua identidade e tomada de decisões.
A pesquisa foi desenvolvida em uma UBS de Florianópolis,
que, segundo o programa de cadastramento de
gestantes do mês de agosto de 2009, possuía 32
gestantes adolescentes cadastradas. Este estudo foi
realizado com 10 adolescentes de 12 a 19 anos (faixa
etária preconizada pela OMS), gestantes de baixo risco,
usuárias da UBS, que aceitaram participar da pesquisa e
tiveram tempo para colaborar com o estudo.
A coleta de dados foi realizada durante as consultas de prénatal, na sala de espera e na residência das participantes
da pesquisa, por meio das visitas domiciliares. O local foi
definido de acordo com a preferência da gestante, sendo
que, em todas as entrevistas, a adolescente ficou a sós com
a(s) entrevistadora(s) e o sigilo das informações foi mantido.
O número de participantes foi definido pela saturação
de dados, ou seja, quando começaram a se repetir. Das
entrevistas realizadas, todas foram utilizadas para pesquisa,
porém, durante o período de coleta de dados, três
adolescentes se negaram a participar do estudo.
Nessas ocasiões, utilizou-se para coleta de dados a
entrevista semiestruturada com as seguintes perguntas
abertas e fechadas: 1. A gestação foi planejada? 2. Como
você descobriu que estava grávida? 3. Como você se
sentiu com a descoberta da gravidez? 4. Como você
se sente agora? 5. Como se sente grávida? 6. Quais os
comentários dos outros sobre a gravidez? O que você
teve vontade de dizer e fazer? 7. Quais as mudanças
emocionais, sociais e físicas que você observou? 8. O
que mais tem preocupado você? 9. O que modificou na
sua vida e no seu convívio social durante este trimestre?
10. Como você reagiu diante das alterações físicas e
sociais que se tornaram mais evidentes neste trimestre?
11. Quais as condutas tomadas? 12. Que mudanças
emocionais ocorreram neste trimestre que não estavam
presentes no trimestre anterior? 13. Em quem você
548
buscou suporte? 14. Como foi este suporte? 15. Qual
a reação de sua família e companheiro? 16. Como se
deu o apoio da família, dos amigos e do companheiro?
17. Como se deu o apoio da unidade de saúde? 18. Na
unidade de saúde, como você foi recebida e atendida?
19. Quais as ações e condutas da equipe de saúde da
unidade? 20. O que significou para você o atendimento
recebido pelas acadêmicas de enfermagem? 21. Qual
foi a contribuição da atenção recebida em relação aos
aspectos emocionais apresentados por você? 22. Tem
perdido muito o sono por preocupação? 23. Sente-se
nervosa, estressada ou tensa? 24. Sente-se capaz manter
a atenção e a concentração nas coisas que faz? 25. Sentese útil e satisfeita no seu dia a dia? 26. Tem sido capaz
de enfrentar seus problemas? 27. Tem se sentido capaz
de tomar decisões? 28. Tem sentido que está difícil de
superar suas dificuldades? 29. Tem se sentido feliz de
modo geral? 30. Tem se sentido triste ou deprimida? 31.
Perdeu a confiança em você mesma? 32. Tem se achado
uma pessoa sem valor?
Os dados foram coletados no período de agosto a
outubro de 2009; foram classificados e organizados,
sendo analisados e interpretados de acordo com análise
de conteúdo proposta por Minayo,16 seguindo três etapas:
ordenação dos dados, classificação e análise dos dados.
Após a leitura cuidadosa e aprofundada dos discursos,
os dados oriundos das entrevistas foram ordenados e
classificados, recortadas as unidades de registro a serem
referenciadas por temas que, agrupadas por convergência
e relação de ideias, deram origem às seguintes categorias:
confronto com o novo, mudanças sociais, físicas e
emocionais diante da gravidez e rede de apoio.
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da
UFSC, sob o Parecer nº 195/09. Seguiu os princípios
da Resolução nº 196/96. Foi assinado o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido ( TCLE) pelos
responsáveis ou pelas adolescentes, quando estas eram
emancipadas, sendo assegurados às participantes a
confidencialidade das informações, a voluntariedade
e o anonimato por meio da adoção de nomes fictícios
de flores: azaleia, margarida, rosa, gardênia, hortênsia,
gérbera, tulipa, dália, girassol e lírio.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Caracterização das adolescentes
A idade das adolescentes variou de 14 a 19 anos, sendo
que quatro tinham 17 anos. Quanto ao estado civil,
apenas duas adolescentes eram legalmente casadas,
quatro estavam em união consensual e quatro eram
solteiras. As casadas moravam em casa alugada,
paga pelos esposos e longe dos familiares. Aquelas
em união consensual e as solteiras moravam com as
mães ou sogras e uma delas com o companheiro. Seus
companheiros tinham idade superior a 19 anos, sendo
que dois não trabalhavam.
Sete adolescentes apontaram a questão financeira
como um dos problemas mais preocupantes. A
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 545-555, out./dez., 2011
média da renda familiar mensal das entrevistadas não
ultrapassou três salários mínimos. Todas as gestantes
eram financeiramente dependentes do companheiro
ou da mãe.
Minha mãe descobriu com quase cinco; usava roupa só
larga, só que não adianta, né? Aí ela começou a perceber
que eu comia demais e enjoava demais até os cinco
meses e uma semana mais ou menos. (Tulipa)
Em relação à escolaridade, uma das entrevistadas tinha
o ensino fundamental, duas o estavam finalizando e
sete haviam parado de estudar. Todas ressaltaram a
importância dos estudos, desejando continuar quando
possível, o que reforça o desejo das adolescentes de
buscarem um futuro melhor e mais estável.
Tal quadro culminou com a procura de atenção prénatal tardiamente, em alguns casos, após 20 semanas de
gestação. Cavalcanti et al.19 aponta resultados similares
reforçando que, na adolescência, a gestação é quase
sempre uma desagradável surpresa, ocultada em razão
da vergonha, tendo por consequência a não realização
do pré-natal de forma adequada.
Nenhuma das gestantes havia planejado previamente
a gravidez, oito delas encararam a gestação como uma
casualidade e duas desejavam a gravidez.
O fato de as gestantes serem solteiras e dependentes
da família e abandonarem os estudos, de certa forma,
contribuiu para agravar a situação socioeconômica
dessas gestantes e da família, o que é ratificado por
um dos diversos estudos envolvendo adolescentes
grávidas que apontam tais fatores como determinantes
pauperização nas famílias menos favorecidas. 2,17
Confronto com o novo
A maioria das gestantes entrevistadas não planejou a
gravidez, denotando-se, por meio das falas, despreparo
para exercer sua sexualidade de forma segura,
assumir uma gestação, os novos papéis sociais, as
responsabilidades, bem como as mudanças decorrentes;
desconhecimento e falta de amadurecimento para
controlar sua reprodução e garantir a autodeterminação
e o exercício dos seus direitos sexuais e reprodutivos,
reforçando, dessa forma, a necessidade de uma
orientação sexual tanto na família como na escola e um
esclarecimento sobre a gravidez e suas repercussões:
A maioria, ao receber a notícia, procurou aceitar o fato de
ter um filho, porém algumas tentaram fugir da realidade
negando, rejeitando e buscando meios para impedir
a continuidade da gestação. O desespero, a angústia
e a ansiedade causados pela notícia de uma gravidez
levaram, em alguns casos, a adolescente a tomar atitudes
drásticas, como tentar o suicídio ou aborto como na
fala a seguir:
Queria morrer e queria abortar de qualquer jeito...
Não queria de jeito nenhum. Sinceramente eu cheguei
a quase a tomar veneno. Eu queria sumir, eu queria
morrer. (Tulipa)
O impacto diante da confirmação da gravidez gera para
algumas gestantes um sentimento inicial de desespero.
Na tentativa de resolver o problema, neste caso a
gestação, o aborto acaba surgindo como uma opção,
principalmente quando a adolescente não possui uma
rede de apoio para lhe dar suporte.20
A decisão de abortar emerge no depoimento de Tulipa,
que utiliza uma série de alternativas propostas por
pessoas do seu meio para solucionar seus problemas:
Ah, me senti um pouco mal, bem perdida... Brigando
bastante em casa com minha mãe, meu pai. Não
estava esperando esta notícia. Não estava com ele
[namorado]. (Margarida)
Tomei quentão com canela, chá de canela, cachaça
com canela forte e ruim (risos), buchinha do Pará, outro
que é muito ruim. Mandaram tomar duas pílulas do dia
seguinte com vinho quente. (Tulipa)
Nessa transição abrupta do seu papel de mulher, ainda
em formação, para o de mulher-mãe, a adolescente
vive uma situação de crise, em muitos casos penosa.
A maioria das adolescentes é despreparada física,
psicológica, social e economicamente para exercer o
novo papel materno, o que compromete as condições
para assumir adequadamente a gravidez, agravando-se a
situação quando são abandonadas pelo parceiro, muitas
vezes, também adolescente.18
Frustrada a tentativa de aborto e após a elaboração e
aceitação da gravidez, Tulipa passou a se preocupar
com a condição e formação física e emocional do bebê,
exemplificada na fala:
Confrontando com o novo e desconhecido, as adolescentes relataram surpresa, alegria, tristeza, indiferença,
sofrimento, vergonha, revolta e medo da reação dos
outros.
Grande parte das entrevistadas, após a confirmação,
escondeu a gravidez dos familiares por vergonha,
sentimento de culpa, medo de represálias e julgamentos.
Duas delas ocultaram a gestação por medo de
decepcionar e perder a confiança da mãe:
Hoje em dia até tenho medo que o neném nasça com
algum problema, por causa de todas as besteiras que
eu fiz. (Tulipa)
A idealização do aborto gera um sentimento de culpa
e de responsabilidade por qualquer dano ao filho,
causando grandes conflitos emocionais e morais.
Segundo Panjola, Bucher e Queiroz,20 quando a tentativa de realizar o aborto é frustrada, a adolescente
passa a carregar um sentimento de culpa por ter
tentado tirar a vida do filho. Além do mais, permanece
o temor de que a criança apresente má-formação ao
nascer. Sentimentos esses que são percebidos na fala
da gestante.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 545-555, out./dez., 2011
549
Um olhar das adolescentes sobre as mudanças na gravidez: promovendo à saúde mental na atenção básica
Apesar da falta de planejamento da gravidez, duas
das adolescentes aceitaram prontamente a notícia e
sentiram-se felizes, porém não consideraram ser aquele
o momento ideal para ter filhos, sendo que uma delas
desejava a gravidez por recear que a mãe morresse
em razão do “lúpus” e não pudesse compartilhar sua
experiência e ver o neto:
Na verdade, assim, eu sempre quis engravidar... Desde
que conheci o pai da criança sempre falei para ele. A
gente não planejou, mas falou que quando viesse ia
ser bem-vindo. Não foi planejada, mas foi desejada.
(Dália)
Com o crescimento do abdome, os movimentos do
bebê, a elaboração e a concretização da nova realidade,
sete das gestantes passaram a aceitar a situação. Uma
delas, em tom de conformação diante do inevitável,
revela: Eu tive que aceitar, né? (Hortênsia). Três delas
procuraram estabelecer vínculos com o novo ser por
meio do diálogo e toque. Segundo Maldonado9 e Frizzo,
Kalh e Oliveira,21 um bom vínculo entre mãe e filho é
de grande valia para promover a saúde mental tanto
da criança quanto da própria mãe. As expectativas são
importantes porque podem dar indícios de como será
a futura relação mãe-bebê. Contudo, vale destacar que,
mesmo após a aceitação da gravidez, sete adolescentes
afirmaram: Queria estar sem a barriga (Azaleia); ou seja,
não desejavam estar grávidas naquele momento.
Uma vez descoberta a gravidez, para algumas delas é
um projeto de vida e para grande parte é uma frustração
às aspirações futuras e quebra do pensamento mágico
que está “imune” à gravidez.9
Mudanças: sociais, físicas e emocionais
A gravidez, nessa fase de vida, acarreta mudanças sociais,
físicas e emocionais, algumas em decorrência das próprias
características da gravidez e outras, da realidade, idade,
situação relacional, econômica e psíquica.
cerceadas, tendo de se submeter às exigências do
companheiro, morar com a sogra, ter de cuidar dos filhos
dela e assumir os afazeres domésticos sem a presença
e apoio do companheiro, aumentando-lhe a solidão e
o desânimo:
Porque se eu tomar minhas decisões ele não aceita;
tem que ser as decisões dele que eu tenho que tomar.
(Girassol)
A vida impõe a adolescente nova experiência, vinculada,
principalmente, às pressões sociais e às cobranças
internas, que estabelecem comportamentos de maturidade e configuram uma passagem direta ao“mundo
dos adultos”.20 Algumas famílias aceitam e acolhem a
adolescente grávida sem fazer pressão para que ocorra o
casamento e outras, nem tanto. Unir-se ao pai da criança
não raro significa submeter-se à família dele.22 Significa
socializar seu eu na família e no social, o que pode
interferir diretamente na formação de sua identidade e
na sua autonomia para agir e decidir.
A descoberta da gravidez também gerou reações nos
ciclos familiar e social onde as adolescentes viviam,
gerando algumas vezes, desestruturação desta e
rearranjos e mudanças, bem como reações por parte do
pai da criança, divergindo em razão dos relacionamentos
afetivos estabelecidos com a adolescente. Apenas
dois pais desejaram e aceitaram a gravidez. Alguns
questionaram sobre a paternidade, outros mostraram
indiferença ou responsabilizaram a mulher pela
gestação, um deles desapareceu e houve aqueles que
rejeitaram a gravidez. Alguns, procurando se eximirem
de sua responsabilidade, pressionaram a adolescente
para realizar o aborto e um deles usou de violência física
e psicológica. Isso se repete no estudo sobre a gravidez
na adolescência na perspectiva de jovens pais. Segundo
a autora, a cultura de gênero impele/incita o homem ao
não controle sobre seus impulsos sexuais e deixa nas
mãos das mulheres certa responsabilização sobre as
questões contraceptivas e a gravidez23:
Ele queria que eu fizesse o aborto. Ele falou: ‘Ah, por que
tu não tira?’ Daí ele falou para mim tomar remédio tal...
Conversei com ele, que aceitou aquela coisa assim: ‘Vou
ser pai. Não se preocupa com nada’. Toda a preocupação
ficou para mim. (Rosa)
Mudanças sociais
As grandes mudanças sociais enfrentadas, expressas
pela maioria das adolescentes nessa fase, foram: o
distanciamento da família, a mudança de casa, o convívio
diário com o companheiro com costumes diferentes dos
seus e ter de assumir todas as responsabilidades de um
lar, incluindo as financeiras.
Limpar a casa me deixa nervosa; qualquer coisa assim.
(Hortênsia)
Eu não queria tá casada, eu não queria tá grávida, eu
não queria ter saído da casa da minha mãe. Eu falo pra
ele que eu tô feliz, mas eu não tô. (Gérbera)
Ao ir morar com o companheiro, pressionadas ou
não pela família, algumas adolescentes entrevistadas
revelaram que tiveram sua autonomia e liberdade
550
Ele sumiu. A família dele fala que a errada fui eu por ter
engravidado, que eu não me cuidei. Eu não me cuidei
porque nenhum dos dois quis se cuidar. Se ele me
dissesse que não queria, não tinha condição de cuidar,
eu teria me cuidado. (Dália)
Os julgamentos, críticas, abandono e preconceitos da
família, dos vizinhos e da sociedade em geral estavam
fortemente presentes nos depoimentos. Nesses, em vez
de os familiares darem apoio, questionaram sobre a falta
de prevenção e de responsabilidade, sobre incapacidade
para cuidar de si e da criança ou as discriminaram. Um deles
apontou a gravidez como falta de vergonha e vulgaridade
nas relações, taxando a adolescente de imoral:
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 545-555, out./dez., 2011
Ah, eles dizem que agora estraguei minha vida, que
falam assim essas coisas, que daí eles falam que agora
não adianta fazer mais nada, tem que esperar ele vim
e cuidar. (Azaleia)
Comentam com minha mãe que sou irresponsável,
que não presto, acho que até de vagabunda elas me
chamam. (Margarida)
A gravidez mobiliza o ciclo familiar, que reage de acordo
com suas vivências, seus valores e crenças e padrões
morais. Os fatores culturais influenciam na maneira de
as pessoas lidarem com a maternidade precoce. Nas
famílias em que já ocorreram outros casos, a tendência é
serem mais acessíveis para aceitar a situação; já naquelas
extremamente religiosas ou com padrões rígidos de
moral, há maior dificuldade para lidarem a situação.24
Alémdodistanciamentofamiliar,daadaptaçãodoconvívio
conjugal, a maioria das adolescentes relatou que se afastou
de seus amigos, o que diminuiu-lhes as atividades sociais
e agravou-lhes o quadro de isolamento:
Eu era, alegre, andava, só queria ficar na rua, só queria
sair... Não, não saio, não faço mais nada, só fico dentro
de casa. (Azaleia)
Não saio mais de casa, me afastei das amigas, parei
de ir para escola... Ah porque minhas amigas não
eram verdadeiras. Aos poucos acabam se afastando.
(Margarida)
Sinto solidão demais. (Rosa)
Uma das gestantes destacou a perda das vivências
da adolescência, implicitamente reforçado nas falas
das demais, em especial a restrição das atividades de
lazer e dos encontros grupais, como um dos principais
problemas:
Não queria que eu estivesse grávida porque pra mim
eu ia perder toda a adolescência, não ia fazer nada.
(Gérbera)
Todas as adolescentes, mesmo aquelas que desejaram e
aceitaram a gravidez, mencionaram que tiveram de lidar
com a interrupção de seus planos para o futuro, como
parar de estudar e de trabalhar:
É que eu queria estudar e agora eu não posso mais.
Só isso. Queria estudar e agora eu não vou poder.
(Hortênsia)
Constrangimento e pressões de diretores, professores,
colegas e pais de colegas por causa da gravidez estão
entre os fatores que determinam que a adolescente
abandone os estudos,22 mude os planos e impulsione-a,
bem como a família, a refazer os projetos de vida.25
Mudanças físicas
Ao serem indagadas sobre as mudanças físicas, as
adolescentes centraram-se, principalmente, nas
alterações corporais, dentre elas o aumento do abdome,
dos seios, a presença de estrias, manchas e varizes e a
obesidade. Não mencionaram os desconfortos e outras
modificações características da gravidez. Ao perceberem
o ganho de peso e tais mudanças na forma do seu
corpo oriundas da gravidez, as adolescentes sentiramse feias, gordas e sem valor, rejeitaram o próprio corpo
e tiveram a autoestima diminuída. Expressaram uma
grande apreensão com relação à autoimagem e estética,
sentiram-se frustradas e infelizes, o que dificultou
que alcançassem o bem-estar e o estar melhor como
indivíduos:
Não. Não vou ter coragem de mostrar meu barrigão lá
na praia. É muito feio... Me acho feia... Não sinto nada,
mas me dá um desânimo de me olhar no espelho.
(Azaleia)
As mudanças corporais geram sentimentos diversos
sobre as gestantes adolescentes, causando ansiedade
e desejo em retornar brevemente às condições físicas
anteriores.26
A vergonha do corpo e a insatisfação com a aparência
física colaboram para que a adolescente fique ainda
mais retraída. Em um dos casos, a adolescente referiu
que o companheiro também estava insatisfeito com as
mudanças físicas apresentadas por ela, o que colaborou
para o aumento da vergonha e do isolamento:
É que, às vezes, o L. me xinga que estou gorda, que tô
feia, estou caruda, daí, eu fico triste que ele fala isso.
(Azaleia)
O descontentamento com relação às modificações no
corpo, nas relações sociais e no emocional influencia
o mundo das adolescentes, como também a forma de
experimentar esse mundo. A perspectiva de mundo e da
comunidade da adolescente é um ponto que deve ser
considerado pelos profissionais de saúde da UBS em que
está inserida para a promoção de sua saúde mental.
Mudanças emocionais
A gestação é permeada por sentimentos profundos
e complexos e pode ser vivida com plenitude ou ser
angustiante, dependendo da história pessoal de cada
adolescente.26 As entrevistadas expressaram, nas falas,
desespero sentimento de impotência e apatia, tristeza,
depressão, desânimo, solidão, angústia, ansiedade,
nervosismo, estresse, culpa, medo e vergonha, gerados,
na ótica delas, pela inesperada constatação da gravidez,
por conflitos pessoais diante do novo e reações sociais,
em especial da família e do companheiro.
De vez em quando choro por qualquer coisa, me sinto
mal, os problemas que acontecem aqui em casa a culpa
acaba vindo pra mim. (Margarida)
Tô muito chorona, assim eu deito fico pensando nos
meus erros, pensando nas coisas diferentes que poderia
ter feito. Não me culpo pela gravidez, mas poderia ser
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 545-555, out./dez., 2011
551
Um olhar das adolescentes sobre as mudanças na gravidez: promovendo à saúde mental na atenção básica
diferente, vou dar ao meu filho a mesma história que
eu tive, de ter problemas com o pai. (Dália)
Operíodogravídico-puerperaléafasedemaiorincidência
de transtornos psíquicos na mulher, necessitando de
atenção especial para manter ou recuperar o bem-estar
e prevenir dificuldades futuras para o filho. O corte no
desenvolvimento da adolescência, a reestruturação
de identidade, a interrupção dos estudos, a perda da
confiabilidade da família e, em alguns casos, a perda do
namorado e das expectativas para o futuro provocam
grande estabilidade psíquica.
Essas perdas ou renúncias vivenciadas na gravidez,
associadas às já inerentes à adolescência, podem
repercutir emocionalmente e levar a adolescente a
somatizar alguns sinais e sintomas, colocando em risco
a gestação saudável.19 Contudo, a intensidade das
alterações psicológicas depende de fatores familiares,
conjugais, sociais, culturais e da personalidade da
adolescente.8 Depende da rede de apoio e de práticas
que promovem o bem-estar e a saúde mental dessa
clientela.
Após o processo de elaboração da gravidez, as adolescentes referiram grande labilidade emocional e
ambivalência de sentimentos e dificuldade de lidar com
eles, indo da alegria de estar grávida e gerar um novo ser
à tristeza e depressão. Surgem ainda, nesse momento,
preocupações com as questões financeiras, o parto, os
cuidados com o recém-nascido, com a maternidade e
com o futuro do bebê:
Tô feliz, e tô preocupada como vou criar. Sustentar uma
criança também não é fácil, mas tô feliz. (Margarida)
A labilidade emocional é característica da gravidez
em razão das alterações hormonais e das mudanças
físicas e sociais. As inquietações citadas são comuns na
gravidez, sobretudo no terceiro trimestre da gestação,
surgindo sentimentos contraditórios, a vontade de
ter um filho logo e a de prolongá-la para evitar novas
mudanças com a chegada do bebê.9 Na adolescência,
isso se exacerba em razão da instabilidade emocional
própria desse período.
Das entrevistadas, algumas referiram que sentiam
medo em relação ao parto, relacionado ao sofrimento,
à integridade física e às intercorrências a ele relacionadas:
O parto. Eu tô morrendo de medo, apesar de ser parto
normal eu morro de medo de me rasgar assim...
aí a minha irmã tomou agora nove pontos, eu me
apavorei, eu to morrendo de medo disso só, só do
parto. (Tulipa)
As gestantes possuem muitas expectativas em relação
ao parto, que é encarado como algo inevitável
a ser enfrentado por elas. É um período em que
sentimentos como medo e angústia do risco de morrer
se intensificam.26
552
Rede de apoio
As entrevistadas revelaram que o apoio recebido na
gestação ficou centralizado na figura materna, no
companheiro ou nas amigas:
Minha mãe, é com ela, há tenho coisas que não sei daí eu
pergunto ai ela me diz, a não é assim e desse jeito, não
faz isso que vai te prejudicar, essas coisas. (Gardênia)
Busquei suporte em meu esposo, ele que me dá força,
que me ergue a cabeça, seguir em frente. (Lírio)
Ao descobrirem que estão grávidas, as adolescentes,
normalmente, recorrem primeiramente ao parceiro,
depois à mãe e, em seguida, aos amigos, sendo que,
habitualmente, a comunicação pode ser mais bem
estabelecida com a mãe.27
Nesse período da vida, na ocorrência da gravidez, é
fundamental, conforme as adolescentes, a estruturação
de um apoio social. Segundo as falas de todas as
entrevistadas, o apoio mais desejado é o da mãe. Mesmo
aquelas que estavam com o companheiro ou morando
com a sogra aspiravam poder estar perto da mãe, em
especial após o nascimento do bebê:
A minha mãe querida. Apesar das nossas brigas
incessantes, é sempre ela, qualquer coisa, tudo que eu
passei na minha vida e tudo que eu ainda posso passar
é ela que é meu ponto forte. (Tulipa)
Durante a gestação, como já foi colocado, as adolescentes
buscaram o apoio da mãe em primeiro lugar, e mesmo
as que não receberam esse apoio permaneceram ao
lado da mãe e tentaram estabelecer vínculos, receber
atenção e conquistar-lhe a aceitação. Esse vínculo pode
ser justificado pelo fato de a mãe ser mulher, ter uma
história parecida com a da adolescente ou pela ausência
da figura paterna.
As adolescentes sentem-se altamente satisfeitas em
relação à rede de apoio quando este é oriundo da figura
materna. Para elas, a convivência diária funciona como
suporte tanto emocional como financeiro e potencializa
os recursos internos e externos para enfrentar as
dificuldades desse período e o exercício da maternidade
com os cuidados do bebê.28
As adolescentes que contaram com uma rede de apoio,
seja ela vinda da família, em especial da mãe, seja do
companheiro ou da comunidade, conseguiram vivenciar
o processo de elaboração da gravidez com maior
tranquilidade. Dessa forma, foi-lhes possível estabelecer
planos para o futuro ou refazer seus antigos projetos de
vida, formar vínculo com o bebê, aproximar-se mais da
mãe e procurar mais precocemente o cuidado pré-natal,
sendo motivada pela mãe:
Agora me acostumei com a ideia, assim, digamos que
mais preparada que estava antes. (Margarida)
As jovens, ao receberem apoio, podem sentir-se mais
bem preparadas para lidar com as dificuldades oriundas
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 545-555, out./dez., 2011
da gestação,28 atingindo, possivelmente, maior nível de
saúde e bem-estar.
A maiorpartedas entrevistadas,ouseja,seisadolescentes,
está convivendo com o pai da criança, que, de forma
natural, constituiria um apoio para a gestante nessa fase
delicada de sua existência, porém as falas não revelam
isso, quando dizem:
É que ele sempre fala que tá cansado... É, eu convido
ele, mas ele sempre fala que não tem dinheiro, mas eu
convido ele pra ir na casa da minha amiga e ele não
vai. (Gérbera).
Esse tipo de conduta denota falta de atenção, abandono
por parte do companheiro e incompreensão do
processo que a companheira está vivenciando, deixando
transparecer que a gravidez é responsabilidade
somente da mulher, como se ele não tivesse nada a
ver com a situação. Quando Hortência, ao referir-se ao
companheiro, diz que ele tem que ficar mais em casa, ele
sai muito, revela o descaso do companheiro, a ausência,
a carência de atenção, de apoio, de carinho e, acima
de tudo, da presença de alguém que se preocupa,
compreende e acolhe.
Os dados também revelam a falta de liberdade e de
vínculo das adolescentes com os profissionais de saúde.
As adolescentes relataram que não se sentem à vontade
para colocar suas questões sociais e emocionais. A
maioria referiu que a atenção no pré-natal, dada pelos
médicos e enfermeiros, centra-se apenas no físico,
limitando a possibilidade de expressar sentimentos,
preocupações e dúvidas. Dessa forma, a necessidade de
maior preparo dos profissionais para cuidarem da saúde
das adolescentes grávidas fica evidente. Na maioria das
vezes, o que adolescente espera do profissional é que
ele se comprometa emocionalmente com ela, escute-a,
estimule a expressão de seus sentimentos, oriente-a e
fortaleça-a para que possa atuar no seu mundo.
Essa médica que eu estou agora ela é meio arrogante.
A gente pergunta as coisas e ela acha que eu sou tensa;
é meu primeiro filho, eu tenho direito a perguntar não
sei... Não perguntam sobre a minha família e sobre o
que sinto. (Rosa)
Não o médico só olha a gravidez. (Margarida)
É preciso ouvir e valorizar os sentimentos e as preocupações das gestantes para conhecer o mundo em
que está inserida e poder ajudá-la. Os profissionais, em
especial os de enfermagem, precisam estabelecer uma
relação dialógica e estarem presentes de forma genuína
para que a adolescente alcance seu bem-estar e esteja
melhor.
Nessa perspectiva, os profissionais de saúde devem
procurar estabelecer um relacionamento de confiança
e livre de preconceitos, de forma que as adolescentes
grávidas se sintam compreendidas e possam expressar
seus sentimentos amenizando a situação vivida.
A adolescente deve receber apoio psicológico, ser
estimulada para participar de ações educativas,
receber orientações sobre métodos contraceptivos e
ser sensibilizada para realizar o pré-natal, no caso da
gravidez.18
A gravidez na adolescência tem suas especificidades,
necessitando de um acompanhamento mais detalhado,
voltado para a saúde física e mental, tanto da adolescente
como dos familiares envolvidos no processo da gravidez. Seria interessante que os serviços de saúde se
conscientizassem de tais particularidades a fim de
oferecerem o melhor atendimento à adolescente, tanto
em relação ao atendimento pré-natal quanto às políticas
públicas de planejamento familiar.21
Nesse sentido, os grupos educativos devem ser direcionados a essa população e trabalhar questões e
necessidades do seu cotidiano. A família, especialmente
a mãe, por ser um suporte essencial para as gestantes,
deve ser incluída nos programas de atenção à gestação
na adolescência. Os profissionais precisam estar
atentos aos chamados da adolescente grávida e de
suas famílias, conhecer sua comunidade, valorizar suas
crenças, estabelecer uma relação dialógica, uma escuta
qualificada e estar presente genuinamente para que
possam compreendê-los e, dessa forma, ajudar no
fortalecimento do potencial delas. Assim, poderão fazer
escolhas conscientes para que alcancem o bem-estar na
gestação e sejam e estejam melhores na vida.
Fortalecidas e apoiadas, as adolescentes terão condições
de buscar formas de superação dos confrontos normais
da vida, de exercer atividades produtivas que lhes
darão autonomia e de se relacionarem com os outros,
ocupando seu espaço na comunidade onde vivem como
ser único e social.
Os sentimentos, percepções e vivências interferem
inconscientemente na manutenção da saúde mental
materna. 8 Dessa forma, os profissionais de saúde
necessitam acolher as adolescentes grávidas com
esse olhar ampliado e interdisciplinar, desenvolvendo
um atendimento que atenda aos conceitos de
integralidade, universalidade e equidade, sejam
acolhedores considerando as mudanças sociais, físicas
e emocionais.
Assim, um trabalho interdisciplinar com esse olhar para
a promoção da saúde mental da adolescente grávida
lhe propiciará maior compreensão do processo que está
vivendo, favorecendo a criação e o estabelecimento de
vínculos com o filho e, consequentemente, a saúde física
e mental dele.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados apontaram que as adolescentes não se
sentiam preparadas, financeira e emocionalmente, para
assumir uma gravidez, ao apresentarem sentimentos
ambivalentes, medos e preocupações. A gravidez gerou
mudanças sociais, físicas e emocionais e repercussões
pessoais e sociais (perda da adolescência, interrupção
dos estudos, afastamento de amigos e familiares,
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 545-555, out./dez., 2011
553
Um olhar das adolescentes sobre as mudanças na gravidez: promovendo à saúde mental na atenção básica
adiamento de planos para o futuro e mudanças de estilo
de vida) que contribuíram para aumentar a instabilidade
emocional já oriunda da gravidez e os conflitos pessoais
e familiares.
Os envolvidos, principalmente a mãe e o pai da criança,
reagiram de forma divergente de acordo com a cultura,
educação, ocasião da gravidez e modo de ver e se
comportar na vida, sobressaindo a rejeição, a crítica
pela sociedade, pela família, pelo companheiro e até
mesmo pelos profissionais de saúde, em vez de aceitação
e apoio.
Para enfrentar essa realidade que lhes foi imposta,
as adolescentes seguiram diferentes caminhos, indo
do isolamento, aborto e tentativas de suicídio ao
estabelecimento de vínculos com o filho e a formulação
de planos para seu futuro e o de seu bebê. O apoio
recebido, para a maioria das adolescentes, se mostrou
frágil por parte dos familiares, companheiro e do serviço
de saúde, sendo que para muitas a figura materna
constituiu o único ponto de apoio.
Assim, neste estudo, alerta-se para a necessidade de
uma olhar cuidadoso da equipe de saúde, em especial
da enfermagem, para essa parcela da população.
Reforça-se que é necessário compreender suas vivências e sentimentos, ajudar no fortalecimento de
suas capacidades, para que façam escolhas conscientes, responsabilizem-se pelo seu autocuidado e
pela promoção de sua saúde mental e do seu filho
e redirecionem suas condutas de forma que sejam
protagonistas de sua vida e vivenciem o processo de
gravidez com tranquilidade. Os dados destacam que é
importante incluir a família nos planos de cuidado, já que
estes, em especial a mãe, são importantes membros da
rede de apoio da adolescente.
Nesse processo, a metodologia convergente assistencial
colaborou para que, ao mesmo tempo em que se
coletavam dados, se pudesse, nas visitas, na sala de
espera e nas consultas, acolher, ouvir, dialogar, apoiar
e auxiliar as gestantes na superação de seus medos e
de suas dificuldades. Permitiu identificar situações com
as adolescentes que resultaram em encaminhamentos
ao serviço de psicologia da UBS para receberem uma
atenção especializada. O referencial teórico contribuiu
para que se olhasse a adolescente como um ser singular,
multidimensional e integral que vive sua individualidade,
socializa seu eu na família, na comunidade e na sociedade
em geral, e nessas relações procura ser mais, ser melhor
e viver bem. O profissional faz parte da rede de apoio e
pode auxiliar nessa caminhada
Nesteestudoemergiramasparticularidadesdaadolescente
que vivencia a gravidez, reforçando a importância de que
ela seja atendida de forma personalizada, de lhe serem
dadas voz e vez para conduzir o pré-natal e sua vida.
Compreender esse processo sob a ótica das adolescentes
serviu para reforçar a necessidade de atender essas
gestantes integralmente, de forma que a atenção não
se restrinja ao físico, mas se estenda às questões sociais
e, principalmente, psicológicas. Serviu, sobretudo, para
considerar a importância da promoção da saúde mental
a esse grupo que se apresentou tão fragilizado.
Nesse sentido, destaca-se a importância de os profissionais
serem capacitados para compreender as particularidades
dasadolescentesesuasvivências,sobretudoasemocionais
e psíquicas, desenvolver atividades coletivas e individuais
específicas para essa clientela, trabalhar a questão
da sexualidade e o planejamento familiar, bem como
desenvolver ações com vista à promoção da saúde
mental. Com este estudo, contribuiu-se para ampliar
a produção de novos conhecimentos sobre a gravidez
na adolescência que poderão servir de subsídio para o
planejamento das ações na atenção básica, podendo
gerar mudanças no cotidiano do cuidado.
Assim, reforçamos a importância de dar continuidade
a este estudo, aprofundando o tema na ótica dos
profissionais e dessas adolescentes na condição de
puérperas. Recomendamos a realização de novas
pesquisas sobre esta temática, ampliando a amostra
com a utilização de outros contextos sociais e níveis
socioculturais.
REFERÊNCIAS
1. Brasil. Ministério da Saúde. Decreto no 8.069, 13 de Julho de 1990. Dispõe sobre o estatuto da criança e do adolescente e dá outras providências.
O Estatuto da criança e do adolescente. Brasília: MS; 1990.
2. Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Marco teórico e referencial Saúde sexual e saúde reprodutiva
de adolescentes e jovens. Brasília: Ministério da Saúde; 2006.
3. Brasil. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Censo demográfico 2000. Brasília: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2003.
4. Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Saúde do adolescente: competências e habilidades. Brasília:
Ministério da Saúde; 2008.
5. Ximenes Neto FRG, Dias MAS, Rocha J, et al. Gravidez na adolescência: motivos e percepções de adolescentes. Rev Bras Enferm. 2007; 60(3):
279-85.
6. Aquino PS, Eduardo KGT, Barbosa RCM, et al. Reações da adolescente frente à gravidez. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2005; 9(2): 214-20.
7. Meneses CRAM. Fatores associados a transtornos mentais comuns e desejo de engravidar em gestantes adolescentes [Tese]. Rio de Janeiro:
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2008.
8. Falcone VM, Mader CVN, Nascimento CFL, et al. Atuação multiprofissional e a saúde mental de gestantes. Rev Saúde Pública. 2005; 39(4):
612-8.
9. Maldonado MT. Psicologia da gravidez: parto e puerpério. 16ª ed. São Paulo: Saraiva; 2005.
554
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 545-555, out./dez., 2011
10. Sabroza AR, Leal MC, Souza PRJr, et al. Algumas repercussões emocionais negativas da gravidez precoce em adolescentes do Município do
Rio de Janeiro (1999-2001). Cad Saúde Pública. 2004; 20(supl l): 130-7.
11. Guimarães GP, Collaço VS, Nascimento MGP. Gravidez na adolescência. In: Zampieri MFM, Garcia ORZ, Boehs AE, et al. Enfermagem na atenção
primária à saúde da mulher. Florianópolis: UFSC; 2005. p.311-29.
12. Florianópolis. Secretaria Municipal de Saúde. Relatório do Modelo de Atenção Básica de 2007. Sistema de Informação de Atenção Básica.
Florianópolis: Secretaria Municipal de Saúde; 2007.
13. Freitas GVS, Botega NJ. Gravidez na adolescência: prevalência de depressão, ansiedade e ideação suicida. Rev Assoc Med Bras. 2002; 48(3):
245-9.
14. Souza AC. Ampliando o campo da atenção psicossocial: a articulação dos centros de atenção psicosocial com a saúde da família. Esc Anna
Nery Rev Enferm. 2006; 10(4): 703-10.
15. Paterson JG, Zderad LT. Enfermeria humanistica México: Limusa; 1979.
16. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 4ª ed. Rio de Janeiro: Hucitec-Abrasco; 1999.
17. Hirata M, Capelloto NC, Santos GRS. Os aspectos psicossociais da gravidez na adolescência. Iniciação Científica Cesumar. 2005; 7(2): 157-68.
18. Moreira TMM, Viana DS, Queiroz MVO, et al. Conflitos vivenciados pelas adolescentes com a descoberta da gravidez. Rev Esc Enferm USP.
2008; 42(2): 312-20.
19. Cavalcanti APLS, Zeni AP, Pinheiro EB, et al. Aspectos psicossociais de adolescentes gestantes atendidas em um serviço público da cidade
do recife. In: Ramos FRS, Monticelli M, Nitschke RG, organizadores. Um encontro da enfermagem com o adolescente brasileiro. Brasília DF:
ABEn; 2000.
20. Pantoja FC, Bucher JSNF, Queiroz CH. Adolescentes grávidas: vivências de uma nova realidade. Psicol Cienc Prof. 2007; 27(3): 510-24.
21. Frizzo GB, Kahl MLF, Oliveira AF. Aspectos psicológicos da gravidez na adolescência. Psicov. 2005; 36(1): 13-20
22. Oliveira MW. Gravidez na adolescência: dimensões do problema. Cad CEDES. 1998; 19(45): 48-70.
23. Cabral CS. Contracepção e gravidez na adolescência na perspectiva de jovens pais de uma comunidade favelada do Rio de Janeiro. Cad
Saúde Pública. 2003; 19(supl 2): 283-92.
24. Pelloso SM, Carvalho MDB, Valsecchi EASS. O vivenciar da gravidez na adolescência. Acta Sci Health Sci. 2002; 24(3): 775 –81.
25. Silvia L, Tonete VLP. A gravidez na adolescência sob a perspectiva dos familiares: compartilhando projetos de vida e cuidado. Rev. Latinoam
Enferm. 2006; 14(2): 199-206.
26. Jeneral RBR, Hoga LAK. A incerteza do futuro: a vivência da gravidez em uma comunidade brasileira de baixa renda. REME Rev Min Enferm.
2004; 8(2): 268-74.
27. Godinho RA, Schelp JRB, Parada CMGL, et al. Adolescentes e grávidas: onde buscam apoio? Rev Latinoam Enferm. 2000; 8(2): 25-32.
28. Moreira MC, Sarrieira JC. Satisfação e composição da rede de apoio social a gestantes adolescentes. Psicol Estud. 2008; 13(4): 781-9.
Data de submissão: 20/9/2010
Data de aprovação: 4/7/2011
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 545-555, out./dez., 2011
555
GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: CONHECENDO A EXPERIÊNCIA DA
FAMÍLIA
TEENAGE PREGNANCY: KNOWING THE FAMILY’S EXPERIENCE
EMBARAZO EN LA ADOLESCENCIA: CONOCER LA EXPERIENCIA DE LA FAMILIA
Michele Guerreiro Valila1
Nádia Alessandra Moraes2
Natália Nacca Dalbello 2
Sheila de Souza Vieira2
Maria Isabel Ruiz Beretta3
Giselle Dupas 4
RESUMO
A adolescência é um período de intensas transformações físicas e fisiológicas, no qual ocorre a formação da identidade,
caracterizado por muitas e repentinas alterações de humor. Nessa nova fase, há, também, o início da atividade sexual
desses adolescentes, podendo ocorrer a gravidez por falta de informação e o acesso aos métodos contraceptivos ou até
mesmo por vontade própria, pois muitas jovens acreditam que essa é uma forma de se afirmar como adultas. Quando
essa gravidez surge de relacionamentos não estáveis, a responsabilidade é dividida, também, com a família dessas
adolescentes. O objetivo com este estudo foi compreender a experiência da família na vivência com a adolescente
puérpera, além de identificar quais as mudanças significativas ocorridas na vida familiar, compreender o que significa
ter uma adolescente puérpera na família e levantar quais os mecanismos de enfrentamento que a família utiliza,
bem como suas implicações. Os referenciais escolhidos foram o Interacionismo Simbólico (IS) e a Narrativa, teórica
e metodológica, respectivamente. Para a obtenção dos dados, utilizamos a entrevista semiestruturada consentida,
uma vez que esta nos permitiu compreender mais amplamente as vivências e as necessidades dos entrevistados. As
famílias evidenciaram mudanças na rotina e em suas prioridades. A gravidez das adolescentes criou uma nova forma
de enfrentar os problemas pelos quais as famílias passavam.
Palavras-chave: Período Pós-Parto; Adolescente; Família; Enfermagem.
ABSTRACT
Adolescence is a period of intense physical and physiological changes, since identity formation is often characterized
by mood swings. This new stage sees also the beginning of the adolescent sexual activity. Pregnancy may occur due to
the lack of information and no access to contraceptive methods or it can even be sought after as many young women
believe it to be their passport to adulthood. When pregnancy happens in non-stable relationships the responsibility
is often shared with the teenager’s family. This study aimed to understand the family’s experience in adolescent
postpartum, to identify significant changes in family life, to understand what it means to have a teenager in the family
who has recently given birth, and to recognize the family coping mechanisms and its implications. The theoretical
benchmark was the Symbolic Interactionism (SI) and the methodology the Narrative Method. Data was collected
through consented semi-structured interviews, since it allowed us to understand more fully the experiences and needs
of the respondents. The families studied changed their routines and reassessed their priorities. In this teenage group
the pregnancy supplied new mechanisms to deal with the problems experienced by their families.
Key words: Postnatal; Teenager; Family; Experience; Nursing.
RESUMEN
La adolescencia, período de intensos cambios físicos y fisiológicos donde se forma la identidad, se caracteriza por las
variaciones repentinas del humor. En esta nueva etapa los adolescentes también comienzan su vida sexual. El embarazo
en esta época puede ocurrir debido a la falta de información y acceso a los métodos anticonceptivos, o incluso porque lo
desean ya que muchas jóvenes piensan que así se tornan adultas. Cuando el embarazo proviene de relaciones no-estables,
la responsabilidad se comparte también con la familia de las adolescentes. El objeto del presente estudio fue comprender
la experiencia de la familia con la adolescente en el posparto, identificar las alteraciones en la vida familiar, entender lo que
significa tener una adolescente viviendo esta situación y relevar los mecanismos empleados por la familia para enfrentar
el hecho y, asimismo, sus implicaciones. Se optó por utilizar los referentes del Interaccionismo Simbólico (IS) y la Narrativa
teórico metodológica, respectivamente. Los datos se recogieron mediante una entrevista semiestructurada consentida que
nos permitiu compreender mejor las experiencias y necesidades de los entrevistados. Las familias sintieron cambios en su
rutina y en sus prioridades. El embarazo de las adolescentes creo una nueva forma de enfrentar los problemas familiares.
Palabras clave: Posparto; Adolescencia; Familia; Experiencia; Enfermería.
*
1
2
3
4
Projeto financiado pelo CNPq. Edital 551159/2007-3.
Graduandas em Enfermagem do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Enfermeira. Mestranda do Programa de Pós Graduação em Enfermagem do Departamento de Enfermagem UFSCar, Membro do Grupo de Pesquisa Saúde e
Família/CNPq.
Doutora em Enfermagem. Docente Associada do Departamento de Enfermagem da UFSCar.
Doutora em Enfermagem. Docente Associada do Departamento de Enfermagem da UFSCar. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Saúde e Família/CNPq.
Endereço para correspondência – Av. Dr. Renato de Toledo Porto, 460, Santa Martha, São Carlos, São Paulo. CEP 13.564-190. E-mail: gdupas@ufscar.br.
556
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566 out./dez., 2011
INTRODUÇÃO
A adolescência deve ser entendida como um período e
um processo de transição entre a infância e a fase adulta,
que depende das circunstâncias sociais e históricas para
a formação do sujeito.1 A Organização Mundial da Saúde
(OMS) delimita a adolescência como a segunda década
de vida (10 aos 19 anos) e a juventude como o período
que vai dos 15 aos 24 anos,2 por conseguinte, o Ministério
da Saúde com base nesta definição, define esse público
beneficiário como o contingente da população entre 10
e 24 anos de idade.3
Dentre as várias transformações, as relacionadas à vida
sexual do adolescente é uma realidade inegável, o que
torna imprescindível sua conscientização e orientação,
com a finalidade de ser evitada gravidez não planejada,
bem como qualquer outra intercorrência de saúde. 4
Segundo a OMS, em cada cinco pessoas no mundo,
uma é adolescente com idade entre 10 e 19 anos. A
população mundial de adolescentes já passou de 1
bilhão, e a cada ano cerca de 60 em mil delas se tornam
mães, correspondendo ao nascimento de 17 milhões de
bebês a cada ano.5
Nessa fase da vida, ao invés de uma situação de equilíbrio, existe uma situação de crise e de mudanças, e
o evento de uma gravidez não planejada pode, nesse
momento, desencadear vários efeitos sociais negativos
e severas consequências na vida da adolescente.
Dados do Ministério da Saúde informam que, em
2005, no Brasil, 22,7% dos nascidos vivos eram filhos
de mulheres com menos de 20 anos; tal frequência,
no mesmo ano, no Estado de São Paulo, foi de 17% e,
na cidade de Campinas, em São Paulo, 14,5%.2 Mais
especificamente no municipio de São Carlos, onde
realizamos esta pesquisa, em 2005, a taxa de nascidos
vivos para mães entre 10 e 14 anos foi de 21 e de 411
nascidos vivos de mães entre 15 e 19 anos.6
A gravidez na adolescência tem sido um tema polêmico
e controverso nos debates sobre saúde sexual e saúde
reprodutiva desse segmento. Em geral, a gravidez na
adolescência tem sido considerada uma situação de risco
e um elemento desestruturador da vida de adolescentes
e, em última instância, elemento determinante na
reprodução do ciclo de pobreza das populações, ao
colocar impedimentos na continuidade de estudos e
no acesso ao mercado de trabalho, sobretudo entre
as adolescentes.3 Acomete todas as classes sociais,
mas predomina nas classes econômicas inferiores e de
menor escolaridade, tanto dos pais quanto dos próprios
adolescentes.7,8 Historicamente, não se trata de um
evento novo; no entanto, preocupa os responsáveis
pela saúde materno-infantil no que diz respeito aos
resultados gestacionais e aos cuidados que tais mães
seriam capazes de destinar aos seus filhos.9
Parte expressiva do conhecimento que circula na
sociedade sobre gravidez adolescente trata tal
ocorrência como acontecimento marcante que
repercute, inevitável e negativamente, na continuidade
da vida da jovem mãe, além de vê-la como associada
a um conjunto de implicações negativas (para o
bebê, para a gestante/mãe ou para ambos) na esfera
biomédica: maior risco de morbimortalidade da mãe
e da criança, prematuridade, baixo peso ao nascer,
restrição de crescimento intrauterino, sofrimento fetal
agudo intraparto, desproporção fetopélvica, diabetes
gestacional, anemia, retardo do desenvolvimento
uterino, pré-eclampsia.10
No Brasil, a literatura científica é ainda carente em
investigações a respeito da vivência da maternidade na
adolescência, particularmente no grupo de jovens entre
10 e 14 anos, e o tema permanece polêmico.11 Ao revisar
a literatura científica, observamos que esta privilegia
a gravidez na adolescência sob uma abordagem
compreensiva, com uma crescente preocupação em
apreender a perspectiva das adolescentes sobre esse
fenômeno; entretanto, constata-se, ao mesmo tempo,
que existe uma produção ainda incipiente de pesquisas
explorando a visão dos familiares quando vivenciam esse
processo em suas famílias.12
Com o propósito de complementar outro projeto de
pesquisa já em andamento (Processo n. 551159/2007-3;
CNPq, Edital Saúde da Mulher – “Adolescência e
maternidade: uma proposta de intervenção”, cujo
objetivo geral é desenvolver um programa de apoio à
maternidade na adolescência), este trabalho contribui
para o desenvolvimento do projeto mencionado, tendo
como objetivo geral compreender a experiência da
família na vivência com a adolescente puérpera e, mais
especificamente, compreender o que significa ter entre
um dos membros da família uma adolescente puérpera;
identificar quais as mudanças ocorridas na família em
função deste fenômeno; levantar quais os mecanismos
de enfrentamento que a família utiliza.
MATERIAIS E MÉTODOS
Referencial teórico e metodológico
A intenção de compreender a experiência da família
na vivência com a adolescente puérpera fez-nos optar
pelo Interacionismo Simbólico (IS), uma teoria das
relações humanas difundidas por George Herbet Mead
e seu seguidor e maior intérprete Herbert Blummer,13,14
porque possibilita maior compreensão do mundo das
experiências vivenciadas pelas famílias e a apreensão
dos significados que elas dão às inúmeras situações com
as quais têm de interagir e enfrentar no dia a dia.
O referencial metodológico eleito foi a Narrativa, um
desenho de pesquisa determinado e interpretado
de forma ampla que envolve narrativas individuais
e a interpretação de seus significados. 15 Por meio
das narrativas, a pessoa fala de suas experiências,
reconstruindo eventos passados de maneira congruente
com sua compreensão atual; o presente é explicado
tendo como referência o passado reconstruído, e ambos
são usados para gerar expectativas sobre o futuro.16
Por conseguinte, buscam-se estabelecer a estrutura
de um episódio, organizar a sequência dos eventos,
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566, out./dez., 2011
557
gravidez na adolescência: conhecendo a experiência da família
estabelecer explicações por meio da interpretação dos
eventos, identificando os dramas e/ou conflitos sociais,
os significados que dão sentido à experiênciavivenciada
pela família.17,18
Desenvolvimento da pesquisa
era a história que estavam contando, o que estavam
procurando dizer ao selecionarem aqueles fatos,
situações ou comentários, sendo compreendido como
a mensagem central da narrativa.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética
em Pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (CAAE
0107.0.135.000-08, Parecer nº 413/2008). Foram incluídas
na pesquisa famílias de adolescentes que aceitaram
livremente participar, após o oferecimento de todos os
esclarecimentos necessários, bem como a assinatura
do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)
por todos os membros participantes. Os critérios de
inclusão foram: adolescentes que vivessem com os
pais, adolescentes primíparas e famílias que estivessem
vivenciando a maternidade na adolescência pela
primeira vez.
O instrumento de coleta de dados usado foi a entrevista.
A questão norteadora foi: Como tem sido a vida familiar
agora que a (nome da adolescente) teve neném? As
entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas
na íntegra e, então, analisadas. O estudo envolveu oito
famílias (QUADRO 1). As mães foram as integrantes
que mais se manifestaram, mas sempre trazendo a
perspectiva familiar.
A análise das narrativas ocorreu da seguinte maneira:
reelaboração das entrevistas de modo a transformálas em discursos (códigos); identificação dos conflitos
vividos, procurando reorganizá-los em uma sequência
que permitisse encontrar conexões com outros
momentos dos relatos e com a história que estava
sendo contada; destaque das palavras ou frases que
se repetiam e de temas abordados com maior ênfase,
verificando onde colocavam peso especial em seus
discursos; identificação das conexões temáticas, ou seja,
o que era colocado para unir os diferentes temas e que
ajudou a encontrar o fio condutor em cada narrativa;
identificação do enredo da narrativa, ou seja, qual
CATEGORIA 1: Lamentando a gravidez inesperada
A partir do momento em que a adolescente recebe
o diagnóstico da gravidez, inicia-se um turbilhão de
sentimentos. É o princípio de um processo que varia
dependendo de cada situação e de cada família. Os
planos traçados para o futuro da adolescente tomam
direções diferentes do planejado. É difícil aceitar a
situação, principalmente porque orientaram suas filhas
sobre prevenção de gravidez e de doenças sexualmente
transmissíveis (DSTs), de diversas maneiras e por diversos
meios, mas ainda assim aconteceu.
Descoberta gerando sentimentos distintos
O diagnóstico da gravidez acaba sendo uma surpresa
para a adolescente e seus familiares, surgindo com essa
notícia diversos sentimentos. As famílias e seus membros
reagem de maneira diferente. Para uns, os sentimentos
gerados são de vergonha, constrangimento, tristeza,
pena, preocupação, raiva, revolta, desespero, nervosismo,
medo. As adolescentes, em sua maioria, sentem receio
ao contar aos pais sobre o fato, pois não sabem qual
será a reação deles; sentem medo de apanhar ou até
mesmo serem expulsas de casa. Para os pais, avós e
outros familiares, a notícia acaba sendo um choque,
um susto,“uma notícia horrível”. Vivem um momento de
negação e rejeição. Alguns sentem vontade de chorar e
ficam chateados; outros até mesmo ficam sem conversar
com a adolescente. Assim, diante da preocupação com
o futuro de suas filhas, esse primeiro impacto é o que
mais gera sentimentos negativos. Há, ainda, familiares
que reagem de modo diferente: relatam não terem se
QUADRO 1 – Caracterização dos familiares das adolescentes estudadas
Idade da
adolescente
Idade da criança
por ocasião da
entrevista
18 anos
558
Grau de parentesco dos membros
considerados da família
Membros participantes
da entrevista
Duração da
entrevista
6 meses
Mãe, padrasto, irmãs (2), filha
Mãe e adolescente
20 minutos
17 anos
5 meses
Mãe, pai, irmão e filho
Mãe e adolescente
15 minutos
19 anos
6 meses
Mãe, irmão e filho
Mãe e adolescente
30 minutos
19 anos
10 meses
Mãe, pai, irmão, marido e filha
Mãe, pai e adolescente
27 minutos
16 anos
9 meses
Mãe, pai, irmãs (2)
Mãe, pai e adolescente
28 minutos
19 anos
6 meses
Mãe, padrasto, irmãos (6) e filho
Mãe e adolescente
10 minutos
19 anos
5 meses
Mãe, padrasto, irmãos (3) e filha
Adolescente
20 minutos
18 anos
4 meses
Mãe, pai, irmã e filha
Adolescente
25 minutos
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566 out./dez., 2011
importado nem ficado bravos diante gravidez, mas
sentindo “muita alegria”, e não arrependimento.
Ih, mudou muito. A gente não esperava, foi um choque
[...] Eu fiquei tão nervosa com a I porque ela tinha
engravidado [...]. Também não tô brava, não fiquei
brava com ela sabe?! (M1)
Minha mãe chorou [...]. Ela chorou, mas ficou feliz. Até
hoje está feliz, só fica com o neto [...]. Não ela ficou com
vergonha, ela não gosta de falar muito porque eu passei
por muito sofrimento com o pai do meu filho e ela não
gosta de conversar muito. (A4)
Alegria, alegria... muita alegria [...]. É...aí foi mais uma
surpresa... (M5)
A notícia da gravidez na adolescência representa um
choque, por ser um acontecimento inesperado, assim
como outros problemas que acontecem no contexto
familiar. Paulatinamente é que as famílias passam a
aceitar e a se conformar com a situação.12
Tendo planejado um futuro diferente
As mães das adolescentes tinham outros planos para o
futuro de suas filhas. Esperavam que estas construíssem
uma família aos poucos: namorassem, se casassem e
somente depois tivessem filhos. Além disso, planejavam
que primeiro elas estudassem, trabalhassem e se
estabilizassem financeiramente porque acreditavam que
a chegada de um bebê na adolescência atrapalharia o
futuro que tanto haviam planejado, tomaria o tempo
delas e lhes estragaria a vida:
Eu tinha planos de trabalhar, pra depois engravidar...
Mudou muita coisa! (A1)
Eu queria que ela casasse, que ela saísse de casa casada,
estudada, com um futuro já garantido... (M6)
Ah, pela minha idade?! Eles não aceitavam... Porque ia
estragar... eu ia perder muito tempo! Ia me atrapalhar
os estudos, tudo. Por esse motivo. (A8)
Dentre as representações sobre as mudanças do
contexto familiar após a gravidez das adolescentes
que eram solteiras por ocasião da concepção, pode-se
apreender, por meio das narrativas, que se faz presente
forte sentimento que diz respeito à frustração de ter um
projeto de vida familiar interrompido e/ou modificado
para sempre.12 Porém, por um lado, se a gravidez juvenil
rompe com alguns projetos familiares, por outro, ela dá
continuidade a eles, muitas vezes antes do desejado/
previsto.19
Tendo orientado a filha sobre prevenção de gravidez
e DSTs
A família manifesta que havia conversas sobre como se
prevenir contra gravidez durante o namoro, além das
orientações na escola. As orientações eram estendidas,
também, às doenças sexualmente transmissíveis e às
precauções necessárias para evitá-las. Afirmam que
sempre deram explicações, justificando que não foi por
falta de aviso ou orientação deles e até das amigas. No
entanto, algumas adolescentes colocam a culpa nos pais,
justificando que não souberam educá-las, o que acaba
gerando tristeza nas mães:
Do tanto que eu avisei: ‘C. toma cuidado, se previne’.
(M4)
A gente fala, explica, mas não adianta; aí eles botam a
culpa nos pais, que não soube explicar, mas eu falo a
gente explica [...]. Não é por falta de avisar, a gente vai
falando, vai explicando, mas eu não sei... a cabeça das
crianças... eu falei, [...] elas deviam pensar... (M5)
Os familiares acreditam que fizeram tudo o que estava
ao alcance deles para advertir as adolescentes sobre
os infortúnios de uma gravidez nessa circunstância,
demonstrandoaimpotênciadelesparaevitarumagravidez
precoce na família. De outra maneira, eles imputam a
responsabilidade desse problema às próprias jovens.12
CATEGORIA 2: Nascimento desencadeando
maiores mudanças
A partir do nascimento do bebê, a vida da adolescente e a
de sua família passam por uma grande transformação. A
presençadonovomoradorexigegranderesponsabilidade
e disponibilidade por parte de todos. Faz-se necessário
buscar formas de suprir os gastos adicionais gerados,
levando muitos membros da família a intensificar seu
período de trabalho. A adolescente vê-se obrigada a
adaptar seus horários às necessidades do bebê e a deixar
suas vontades pessoais de lado. Isso acarreta, na maioria
dos casos, grande tristeza na adolescente, porém elas
compreendem que essa é uma atitude imprescindível.
Na maioria das vezes, a adolescente sente necessidade
de abandonar os estudos.Tal fato pode ocorrer durante a
gravidez, por motivos como vergonha ou por apresentar
sintomas fisiológicos típicos da gravidez, ou após a
gravidez, dada a necessidade de realizar os cuidados
diários do filho.
Mudando a rotina da família
Afamíliapercebeoaumentodepreocupações,problemas,
responsabilidades e tarefas domésticas, o que acaba
tomando o tempo livre dos familiares. A atenção é
direcionada para o bebê. Com a adolescente os familiares
revezam as horas de sono e ficam acordados até a
madrugada em decorrência dos cuidados com o neném.
Algumas adolescentes precisam deixar o trabalho e ajudar
mais a mãe nas tarefas de casa e, ao mesmo tempo, outros
membros têm necessidade de trabalhar mais para suprir
as demandas dos gastos adicionais.
As famílias entrevistadas têm ao menos um membro que
trabalha para prover-lhes o sustento. Algumas têm seu
núcleo muito pequeno com apenas um adulto, o qual
sai para trabalhar e quando retorna tem também suas
tarefas domésticas para realizar, além de ter de ajudar
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566, out./dez., 2011
559
gravidez na adolescência: conhecendo a experiência da família
no cuidado com o bebê, o que acaba trazendo uma
sobrecarga de serviços para o membro adulto:
Vou, de vez em quando, mais de final de semana, não
mais como era antes, que todo dia tinha uma festa,
agora é só de final de semana. Vou nesses lugares só,
em barzinho essas coisas. Agora parei de sair; não tô
saindo mais. (A4)
Depois que aconteceu, mudou muito! Mudou, mudou
muito assim, porque não tava nos nossos planos! [...]
Muda bastante a rotina da gente.[...] Até cinco horas,
cinco e meia da manhã fico acordada com ela [...]. Fico
assistindo a todas as programação da televisão, aqui
sentada com ela. (M1)
Nunca mais saímos, não pode... aí eu falei estragou com
15 anos, agora fica aí dentro de casa. (M5)
Acaba a liberdade, né? Não tem mais liberdade pra
nada, é só o neném e o neném [...]. Todo fim de semana
eu saía e não saio mais [...]. A gente acaba deixando
mesmo de sair, de ir em muito lugar. Eu, assim, nunca
mais saí, viajei, junto com a minha sogra. (A6)
Ah, eu tô ajudando bastante minha mãe [...]. Antes,
quando eu não ia trabalhar, ficava sozinha em casa.
Agora não. Agora tem ele em casa. (A2)
Minha mãe trabalha de dia e de noite, o pai dela
também, então não tem jeito [...]. No geral, mudou
tudo. (A6)
Ah... a ela não pode mais fazer nada, não pode sair, ela
não pode abandonar a filha. (M6)
Saía um pouco, sim. com o namorado... saía. Agora
não saio mais não. Em lugar nenhum, fico trancada o
dia inteiro [...]. Ah, é ruim né?! Porque eu viro uma dona
de casa, eu cuido da casa. Eu só saio pra ir pra escola à
noite, que aí já ajuda também a dar uma espairecida.
Mas sair assim, com os amigos... Até nesse final de
semana eu queria, teve o show, eu pedi pra minha mãe
se ela ficava com a neném, mas ela falou que de jeito
nenhum, que eu pensasse antes, então eu vou ter que
esperar ela crescer mais. Então eu vou esperar. (A8)
É um pouquinho complicado sair e ter que deixar com
a minha mãe; aí ela chega cansada do serviço, então é
ruim pra ela também porque ela chega cansada e quer
descansar, aí tem que ficar com a neném. (A8)
Os resultados de um estudo demonstraram que, no
processo de cuidar do RN, as adolescentes expressaram
sentimentos de medo, decorrentes do período de
adaptação mãe-filho e dos cuidados a serem prestados,
que demandavam períodos noturnos sem dormir e,
consequentemente, cansaço físico e emocional.20
Interrompendo as atividades de lazer
A adolescente assume a responsabilidade de realizar os
cuidados diários necessários, dedicando a maior parte
de seu tempo à criança, por isso tem de interromper as
atividades de lazer. Os horários das adolescentes para
acordar e dormir se modificam a fim de que elas se
ajustem aos horários de mamadas, banho e alimentação
da criança. Além disso, algumas adolescentes diminuem
a frequência dos passeios ou deixam de sair com os
amigos e familiares para os lugares que costumavam
ir antes da gravidez, pois alguns bebês choram muito
quando elas saem e acabam prendendo-as em casa,
gerando tristeza para a maioria delas.
As adolescentes choram por não poderem mais ir a festas
com as amigas; relatam que agora só podem sair de finais
de semana para barzinhos, e as baladas deixam de ser
frequentadas. Em contrapartida, para outras, deixar de
sair não se torna um problema, sendo agradável cuidar
da criança em casa. Mas, em geral, acabam deixando
de lado seus planos para o futuro e só conseguem se
imaginar retomando-o depois que seus filhos estiverem
com mais de um ano de idade, e só então seguirem com
o que foi interrompido pela gestação:
Ela parou a rotina da vida dela bem, ela tinha liberdade
para sair com as amigas, para festinhas. Agora não sai
mais; outro dia ela chorou (M1)
E eu deixei de sair um pouco, sabe? Agora eu não tenho
mais como eu sair, por causa dele. (A2)
Me prendeu um pouco, mas mesmo assim eu saio [...].
Ah, saía com as minhas amigas para a balada [...].
560
A gravidez é pensada como muito precoce no sentido
de deslocada da idade e do “momento de vida certo.
Ela ocorre justamente em um período em que há mais
o que fazer por si e menos o que se responsabilizar
pelo(s) outro(s). Poder-se-ia pensar que, por ser assim,
na concepção de curtir a vida, a gravidez adolescente é
vista como uma forma de abreviar a juventude.19,20
É possível identificar que os familiares percebem o
crescimento pessoal da adolescente uma vez que ela se
tornamaisresponsávelcomoacontecimentodagravidez.
As novas responsabilidades e o amadurecimento pessoal
são fatores que podem estimular até mesmo o cuidado
ao recém-nascido.21 Em muitas famílias, o cuidado das
jovens com os bebês é percebido como atencioso,
zeloso, dedicado e supridor das necessidades básicas
da criança.22
Interrompendo os estudos
Durante a gravidez ou após o nascimento da criança, os
estudos podem ser interrompidos em virtude de motivos
diversos. Quando a interrupção acadêmica ocorre
enquanto gestante, a justificativa advém dos sintomas
e sentimentos desagradáveis que as adolescentes
grávidas passam a apresentar, como mal-estar, vômito,
desânimo, aumento de peso (percebendo-se gorda), e a
vergonha dos colegas ao serem interrogadas quanto ao
pai da criança. Como este, frequentemente, não assume
a criança como filho, elas sentem-se constrangidas ao
falar sobre ele e optam por não mais ir à escola. Há as
que precisam abandonar os estudos após o nascimento
do filho, por causa das demandas que ele exige. Assim,
algumas percebem após o nascimento que a retomada
dos estudos não será imediata, dada a dificuldade em
conciliar a escola e os cuidados ao bebê.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566 out./dez., 2011
Faz-se necessário destacar o fato de todas as adolescentes
entrevistadas terem interrompido os estudos nesse
contexto enquanto grávidas ou logo após o nascimento,
não sendo diferente do encontrado na literatura,
pois em outras pesquisas esse é um dos fatores mais
comuns.12 Em apenas uma entrevista, identificamos uma
adolescente que tirou licença maternidade na faculdade
e retornou após seu término, pois contava com a ajuda
da mãe nos cuidados com o bebê:
Parou, porque ela engravidou e ficou, passava muito
mal na sala de aula, até vomitava. Então ela, depois ela
ficou desanimada, ficou muito gorda. Então ela parou
de estudar. (M1)
Eu estava estudando, mas eu parei. Quando deu quatro
meses de gravidez, fiquei com vergonha de ir para
escola, aí eu parei [...]. Ah, porque eu acho que todo
mundo ia ficar perguntando do pai da criança, eu não
queria ficar entrando em detalhes sabe, e eu não queria
ficar falando do pai. (A4)
Eu parei, peguei licença de três meses, aí um mês foi de
férias, aí então, eu perdi dois meses de aula . (A8)
Autores afirmam que os sistemas convencionais de
ensino não dispõem de estrutura adequada para acolher
uma adolescente grávida e, comumente, as induzem a
interromper a escolarização. A interrupção dos estudos
durante a gestação ou após o nascimento da criança
acarreta perdas de oportunidades e piora da qualidade
de vida no futuro.23
CATEGORIA 3: Aceitação gerando um novo modo
de enfrentar
Após cessar o período conturbado da descoberta da
gravidez, a chegada de um novo membro passa a ser
aceita pelos familiares. A adolescente começa a assumir
uma postura mais responsável pelas novas atribuições
que são delegadas, tanto no cuidado com o bebê
quanto nas tarefas domésticas que lhe são atribuídas.
Nesse período de grandes mudanças na rotina, o
apoio da família é essencial. Para os avós, a chegada do
bebê também gera alterações em sua rotina de vida,
pois auxiliam nos cuidados da criança e percebem a
importância de doar carinho, amor, atenção e educação
ao neto. Para eles ter a família como suporte no cuidado
desde o nascimento tornará aquela criança um adulto
responsável e de boa índole.
Gravidez gerando mudança de comportamento
Afamíliacomparaocomportamentodaadolescenteantese
depois da gravidez, percebendo-a passar de irresponsável,
despreocupada, imatura e descomprometida com sua
vida educacional e profissional para comprometida
com o cuidado da criança, compartilhando as tarefas
domésticas:
Olha, mudou muito viu.. Mudou tudo! No geral, mudou
tudo. A K era uma irresponsável, completa. Que só
quer saber de ficar pra rua, não quer saber estudar,
não quer saber trabalhar, não quer fazer nada da vida,
sabe? O negócio dela era as amigas e balada. Não
queria saber de nada da vida. Aí, depois que a neném
nasceu, ela ficou bem melhor. Num tudo! Ela tem mais
responsabilidade, ela sabe os horários das coisas, ela
cuida direitinho da neném. Assim, no geral, eu acho que
ela amadureceu muito! Amadureceu, hein... E aí depois
que ela engravidou e teve a K aí que ela mudou, mudou
completamente. Acho que a fichinha dela caiu, aí ela
viu o que aconteceu, que a vida era outra coisa, não era
nada do que ela tava achando que era, aí ela mudou!
Mudou completamente... em tudo! (A6)
Agora parece que depois que eu fiquei grávida, eu
mesma fui tomando a responsabilidade maior, sabe?
Quando eu fique grávida, parecia que era até uma
doença; assim, que eu queria ver as coisas limpas,
sabe?! (A8)
Pesquisa realizada com 53 mães inglesas também
revelou sentimentos positivos em relação à criança,
mesmo quando a gravidez não havia sido planejada
e elas enfrentavam dificuldades. A maioria estava
determinada a ser boa mãe, aproveitando dicas de
profissionais e de suas mães quanto aos cuidados com
o filho. Percebe-se, assim, que muitas jovens referem
sentimento de orgulho e felicidade em relação à gravidez
e à maternidade, apesar do arrependimento inicial
pela gestação. A maternidade foi vista positivamente,
preenchendo um vazio afetivo. As jovens assumiram
o papel materno, não relataram dificuldades no seu
grupo social e a vida delas estava centrada na figura
do filho.24
Os dados confirmam que as adolescentes assumiram
suas responsabilidades e passaram a sentir-se mais
seguras e confiantes na sua capacidade de ser mãe, e
que para elas a gravidez e a maternidade significaram
um ganho, em razão da conquista da autonomia, a qual
está diretamente relacionada com a passagem para a
vida adulta.25
Bebê fortalecendo o vínculo da família
Após o nascimento cria-se um vínculo intenso entre o bebê
e a família. Esse vínculo é mantido pelo carinho, atenção
e companhia diários, além de ser visto como essencial
para os avós. Eles relataram que haviam se recuperado
do primeiro impacto da descoberta e que estavam
extremamente contentes com a chegada do bebê.
Ele é minha alegria... e do avô dele também! Ele dorme
com o avô dele depois das 5 horas... Ele acostumou,
toda vez que ele acorda fica um tempão lá na cama
com a gente. (M2)
É gostoso, porque a criança vai, vai passando os dias e
vai se desenvolvendo, vai tendo um acompanhamento
e tá sendo legal, sim. (M3)
Todo mundo aqui em casa adora a criança, então, a
neném tá uma beleza [...]. O avô é um grude com ela, que
nossa! Esse avô baba nela... Então ele vai trabalhar, ele
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566, out./dez., 2011
561
gravidez na adolescência: conhecendo a experiência da família
chega e ela já gruda nele. Não quer dormir, quer dormir
no colo dele. Outro dia não queria dormir com a mãe,
vem no colo da avó! (M6)
você tá perguntando, pra você tá falando, pra você tá
contando, eu acho que é muito melhor (M6)
Ela (avó) me ajuda bastante a cuidar da neném, mas
só dentro da minha casa [...]. Tenho uma avó minha
que é de fora, aí ela ficou os dois primeiros meses aqui
me ajudando, me ajudou bastante assim, ela veio na
verdade para ajudar com a bebê, mas nem precisou, ela
cuidavadacasapramim,dacomida,dasroupinhasdela
[...]. ainda bem que eu tenho os meus pais que ajudam
mais ainda, que ajudaram a montar o quartinho da
neném, que compra até o leite que eu dou pra neném
pra quando eu não tô aqui eles que compram, quando
falta alguma coisa... roupinha. (M8)
Um aspecto que aparece de forma bem clara é a relação
estabelecida com o filho, indicando o fortalecimento do
vínculo, investimento afetivo, dedicação total ao bebê,
que se torna o sentido único da vida da adolescente,
neste momento.
Parece que a sensibilidade materna e a maneira como
mãe e filho se relacionam vão efetivando a convivência,
fortalecendo ainda mais o vínculo entre ambos. Estudo
sobre a construção da identidade materna26 aponta que,
embora tenham recebido apoio durante esse período,
aprenderam progressivamente a cuidar dos filhos,
delineando uma rotina de tarefas que lhes supria as
necessidades e, também, possibilitava a efetivação do
vínculo.
Tendo a família como suporte após a aceitação da
gravidez
Após os sentimentos de desgosto, frustração, culpa e
impotência pelo fato de uma gravidez indesejada ter
acontecido dentro do lar, o impacto da notícia vai sendo
deixado para trás e “com o tempo” a família passa a ser
o principal suporte para a adolescente enfrentar essa
situação, contando sempre com o apoio, principalmente,
dos pais nos cuidados à criança. Para eles, o fato de
estarem presentes e acompanhando esse processo de
perto ameniza essa fase e permite que a adolescente
sofra menos.
Todos esses obstáculos foram superados à medida que
o tempo foi passando e essa nova fase conseguiu ser
administrada pelos membros da família.
As mães das adolescentes, por já terem passado pelo
processo de ser mãe, sempre ajudam nos cuidados do
bebê, por saberem que é uma experiência nova para a
filha. No entanto, além destes cuidados há outras tarefas
para realizar dentro e fora de casa, o que aumenta sua
demanda de trabalho e faz com que ela abra mão de seu
tempo em favor da adolescente e da criança.
Contam também com o suporte financeiro dos
familiares, que realocam o orçamento, dado o aumento
dos gastos da família, com fraldas, roupas, leite e outras
coisas do bebê:
Minha mãe ajuda, quando eu saio ela fica com ele, é
tudo ela quem faz. (A4)
A gente tem tentado ajudar, porque pra ela que é o
primeiro filho, que ainda não tem experiência de nada,
a cabeça ainda não tá muito preparada [...]. Eu acho
que é muito mais difícil quando não tem uma mãe
por perto, porque se não tiver uma pessoa ali, uma
estrutura, você não aguenta, porque é ali, neném no
braço, comida pra fazer, você tem que cuidar do neném,
você tem que fazer tudo, você não ter pra quem pedir,
é horrível! Então quando você tem mãe por perto pra
562
Em outro estudo, ao perguntar às famílias quais foram
as mudanças na rotina, elas indicaram melhoria da
convivência entre os membros, assim como mobilização
para a formação de uma verdadeira rede de ajuda.12
Relataram, ainda, que na percepção das próprias
adolescentes o suporte familiar recebido durante a
gravidez pode ser composto por ajuda financeira,
explicações, conselhos, carinho, apoio emocional.
Quanto à rede de apoio, outro trabalho a menciona,
referindo que poderá contribuir para a diminuição do
estresse do jovem, o aumento do conhecimento sobre
desenvolvimento infantil, a promoção da autoestima e
da efetividade percebidas e/ou mediante o fornecimento
de uma ajuda prática. O apoio mais importante parece
ser o emocional, principalmente quando proveniente
da família de origem.27
A busca por auxílio familiar é evidente, bem como a
percepçãosobrequãoimportanteesteénoesclarecimento
de suas dúvidas, fazendo com que a adolescente se
sinta mais segura e tranquila, pois sabe que tem com
quem contar e quando necessitar terá alguém junto
dela, apoiando, ensinando ou exercendo supervisão,
principalmente nesse período de adaptação.27
Os avós maternos foram referidos como dando apoio
financeiro, tanto para o cuidado à criança como para a
manutenção do casal, além de oferecer cuidados diários
com a criança, possibilitando ou facilitando o estudo
e/ou o trabalho dos pais e o acompanhamento das
atividades de lazer em fins de semana. Os avós também
foram mencionados como fonte de orientação para a
resolução de problemas corriqueiros com as crianças
e, em alguns casos, considerados pelos jovens como
aqueles que efetivamente criavam a criança.28
Além disso, levando em consideração as crenças, os
valores e o modo como representa e age a família perante
a situação, ou seja, considerando as potencialidades e
os limites da família, os profissionais de saúde têm
a possibilidade de exercer a escuta, o acolhimento
e o cuidado, tanto da adolescente grávida quanto
dessa família, inseridos em seu contexto familiar
e social. Dessa forma, facilita-se a aquisição e o
desenvolvimento de recursos próprios, por parte do
núcleo familiar, no enfrentamento de momentos
conflituosos, reconhecendo a família como sujeito ativo
nesse processo.12
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566 out./dez., 2011
Percebendo como positivo priorizar o cuidado à
criança
Colocar o cuidado do bebê em primeiro lugar, em
prol de sua saúde, do bem-estar, do crescimento e do
desenvolvimento adequados é o pensamento da família. Para isso, frequentemente a família deixa de suprir
suas vontades e rotinas antigas para garantir que a saúde
e a educação do bebê não sejam colocadas em risco;
restringe-se o orçamento familiar para conseguir pagar
uma escola de qualidade ou trabalhar mais para garantir
uma vida melhor à criança.
É considerado de extrema importância pela família da
adolescente o cuidado integral à criança durante sua
infância para assegurar-lhe moral e costumes adequados.
Para os avós, é necessário que os netos recebam amor
e carinho enquanto são novos e é imprescindível
alguém cuidar deles enquanto os membros da família
se ausentam de casa para trabalhar. Além disso, os avós
consideram que crianças que crescem longe de seus pais
se desenvolvem sem amor, carinho, ficam muito tempo
sozinhas em casa ou na rua, aprendem condutas erradas
e se tornam rebeldes:
A família precisa trabalhar para dar uma vida melhor
para ela, mas, por enquanto, enquanto ela é pequena,
eu acho que a gente tem que dar toda atenção e todo
amor. Por isso, se eu for voltar a trabalhar amanhã e pôr
ela na creche, hoje a criança vai estar maior. Eu acho
distante da mãe, do pai, sem amor, sem carinho... sem
nenhum vínculo. (M1)
Por meio de outro estudo, foi detectado que o cuidado
ao RN torna-se o fato mais importante da vida das mães
adolescentes, apesar de ser ressaltado que a dedicação
exclusiva ao RN e ao reduto doméstico leva à interrupção
dos estudos, do trabalho e da diversão.29
CATEGORIA 4: Passando por momentos difíceis
A adolescente e sua família passam por momentos
difíceis, seja durante a gestação, seja no momento
do parto ou após o nascimento da criança. Precisam
enfrentar novas mudanças na rotina, problemas de
ordem financeira e de relacionamento. Isso gera
momentos de estresse e de dúvida. A adolescente
tem dificuldade de realizar os cuidados necessários à
criança dada a falta de prática, assim como conciliar
seu autocuidado. Esses momentos se tornam ainda
mais difíceis quando recebem informações antagônicas
sobre o cuidado da criança e quando não têm o apoio e
a participação do pai da criança nesse processo.
sente bastante sobrecarregada com os cuidados diários
do bebê: trocar fraldas, dar banho, amamentar, acordar
à noite por causa do choro do filho por fome, dor ou
por não querer dormir e não permitir que os outros
membros da família durmam, ter de lidar com novas
situações e, por conseguinte, não conseguir conciliar
seu autocuidado com o cuidado ao filho.
O ato de cuidar do filho, por si só, já exige muito da mãe
que por não estar madura o suficiente para exercer esse
papel, sente-se despreparada, estressada desesperada
e inexperiente:
É bonito dos outros, porque dentro de casa, porque
assim no começo eu não tinha muita paciência. Eu não
tenho muita paciência, quando ficava chorando a noite
inteira, não deixava ninguém dormir, chorava, gritava.
Agora não estou como era antes, estou mais calma
com ele [...]. Olha, no começo foi difícil, Nossa Senhora.
Nossa foi muito difícil, ele deu muito trabalho, era cólica,
ele não dormia direito, era dor de ouvido, mas agora,
graças a Deus, ele dorme a noite inteira. A noite inteira
ele dorme, mama e dorme. (A4)
Vai dando uma canseira... Tem dia que eu trabalho o
dia inteiro, chego em casa, ela tá desesperada: Mãe,
eu não aguento mais, eu preciso dormir, eu preciso
comer, eu preciso tomar banho . Aí eu chego morrendo
de canseira e pego pra ela tomar banho, pra ela comer,
pra descansar também. (M6)
Nas entrevistas realizadas, assim como em outros
estudos,25,27a percepção da dificuldade de ser mãe é
relatada pelas adolescentes a partir do momento em que
deixam a instituição hospitalar e assumem os cuidados
do bebê em casa.
Ao realizar um estudo com o objetivo de verificar
como se dava a experiência de cuidar do bebê para as
adolescentes puérperas, observou-se que elas deixavam
transparecer um misto de preocupação, impaciência
e insegurança, verbalizado pelo fato de acreditar que
é preciso ter responsabilidade para cuidar do filho.
Os sentimentos de impaciência e de irritação podem
ser explicados pelo comportamento característico da
própria fase da adolescência, quando há constantes
flutuações de humor e do estado de ânimo da
adolescente, que pode ser turbulento, violentamente
contestador, alegre e triste.28
Em um estudo realizado com adolescentes norteamericanas, estas referiram vivenciar maior estresse no
desempenho do papel materno do que as adultas, além
de apresentarem menor preparação cognitiva para a
maternidade e um estilo parental menos adaptativo.25
Sendo difícil ser mãe
Recebendo orientações antagônicas de fora do
ambiente familiar
A gravidez, de maneira geral, é considerada uma
experiência muito difícil para a adolescente, pois trazlhe muitas mudanças na rotina, exige paciência para
aprender a cuidar do filho, precisa enfrentar uma nova
fase, que envolve uma mistura de sentimentos. Ela se
Se para as mães o cuidado do recém-nascido é exigente
e difícil, acrescido da sensação de inexperiência e
despreparo, o fato de receber orientações conflitantes
e divergentes sobre como realizar os cuidados do
bebê é sentido como provocador de mais insegurança.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566, out./dez., 2011
563
gravidez na adolescência: conhecendo a experiência da família
Informações passadas por amigos, outros familiares
e, até mesmo, por médicos confundem a família. A
incoerência e a falta de padronização das informações
transmitidas causam dúvidas sobre qual direção
seguir. A família sente-se perdida e confusa em meio
às informações, confundindo também as adolescentes,
que se encontram em uma nova fase, com diversas
adaptações na rotina e novos conhecimentos sendo
adquiridos para poder cuidar dos bebês.
Eles falam que tem que da água, tem que dá as fruta.
(M2)
Aí o pediatra disse que era para dar o leite do peito.
(M7)
Ainda na gravidez, alguns autores recomendam o
aconselhamento por um profissional de saúde às
adolescentes, de forma confidencial e sem o julgamento,
a fim de auxiliar na orientação à maturidade cognitiva,
facilitar a tomada de decisão informada e a discussão
de temas como o aborto, o pré-natal e na formulação de
planos para após o nascimento. Esse profissional deve,
utilizando técnicas adequadas, explorar as relações
familiares, que serão fundamentais para futuras decisões
e comportamentos, melhorando, assim, as perspectivas
dessas jovens para o futuro.30 Com a pesquisa pudemos
perceber que esses profissionais muitas vezes divergem
ao passar as informações para as adolescentes, deixandoas ainda mais confusas nessa nova fase.
Desejando retomar os estudos e trabalhar
As adolescentes anseiam pelo regresso às atividades
acadêmicas, as quais, por motivos diversos, tiveram de
ser interrompidas antes ou após a gestação. Vislumbram
muitos benefícios com a retomada da vida acadêmica,
tais como: alegria de suas mães ao vê-las estudando
novamente, a possibilidade de possuir um diploma, de
conseguir um bom emprego, de melhorar de vida, bem
como o direito a receber pensão do pai falecido.
Elas acreditam que tal retomada deverá ocorrer quando
seus bebês já estiverem crescendo ou em uma idade
em que não necessitarão mais de aleitamento materno
exclusivo, quando outras pessoas poderão alimentá-los
nos períodos em que elas estiverem na escola; momento
que, segundo elas, será quando o bebê atingir seis meses
ou um ano.
A família também apoia essa decisão e planeja oferecer
outra oportunidade à adolescente para voltar a estudar e
arranjar um emprego; as avós se reorganizam, saem mais
cedo do trabalho para ficar com o bebê, para possibilitar
que a adolescente volte a estudar. Os planos têm como
finalidade proporcionar melhor qualidade de vida tanto
para o bebê quanto para o restante da família.
Então ano que vem ela vai retomar os estudos dela, vai
terminar, que esse ano já era para ela está no terceiro
colegial, mas ela teve que parar, porque engravidou. [...].
Então ela pretende faze cursos, ela falou que pretende
fazer curso e arrumar um serviço, é, fazer uma faculdade.
Aí fico feliz. [...] Dizendo que voltará a estudar quando
ele estiver maiorzinho [...]. Voltando a estudar de novo
quando ele tiver uns 6 meses [...]. Podendo retomar os
estudos após os 6 meses de idade do neném porque
poderá dar mamadeira [...]. Ela não pode parar, porque
ela tem a pensão do pai, e a pessoa só tem direito, se a
pessoa estuda ou faz faculdade. (M1)
Sabemos quão importante é o cuidado individualizado e
humanizado desenvolvido com a adolescente gestante,
com vista à sua saúde e à do bebê. Esse cuidado deve
ter como objetivo compreender a subjetividade do ser
adolescente gestante como ser cuidado, percebendo-o
em suas dimensões humanas, uma vez que deve tratar
da saúde de forma integral, englobando o processo de
cuidar para promover, manter e/ou recuperar a dignidade
e a totalidade humanas. O profissional enfermeiro, ao
cuidar da adolescente gestante, deverá considerar que
humanizar é cuidar por meios de parâmetros técnicos,
éticos, científicos, políticos, solidários e humanísticos,
reconhecendo o usuário como sujeito e participante ativo
no processo de produção de saúde; é também buscar a
melhoria dos ambientes de cuidado e das condições de
trabalho profissional.31
CATEGORIA 5: Planejando o futuro
É o desejo, apresentado pelas adolescentes e familiares,
de retornar às atividades acadêmicas e/ou laborais, os
quais haviam sido interrompidas, por motivos diversos,
durante a gestação. A família deseja vê-las estudando
novamente e, com isso, obtendo chances de conseguir
um diploma, um bom emprego e melhorar a qualidade
de vida. Além disso, há um apego à religiosidade e
existe uma preocupação de reorientação, por parte
dos avós, de se prevenirem de uma segunda gravidez,
para que nenhum desses planos seja interrompido
futuramente.
564
Eu quero voltar, para pegar meu diploma; pior é quem
tem até a oitava série não consegue arrumar nada bom,
nada [...]. Eu tenho que terminar a oitava, eu quero fazer
tipo, em meio ano sabe?! De seis em seis meses [...]. A
enfermeira vem uma vez por mês. Ela falou: ‘Mocinha,
volta a estudar, volta a estudar. Você vai ver como vai
mudar sua vida, você vai ver. Você vai arrumar emprego’.
Eu vou voltar a estudar [...]. Ano que vem, ele já vai estar
com um ano, já vai estar mais espertinho. Ai eu volto a
estudar. Eu cuido dele e estudo à noite. (A4)
Os principais sonhos de mães adolescentes consistem
em melhorar a própria condição de vida, bem como
das crianças, procurando um futuro melhor para
ambos e para a manutenção da família. A incorporação
do papel materno na identidade delas significa a
existência de uma criança que necessita de atenção,
foi um estímulo para os adolescentes para conquistar
seus desejos e persistir na luta por uma qualidade de
vida melhor.32
Querendo evitar uma segunda gravidez
Asmãesdasadolescentesbuscamevitarnovainsatisfação
de outra gravidez não planejada. Algumas repreendem,
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566 out./dez., 2011
outras ameaçam, outras reorientam, tudo com o intuito
de que não ocorra uma segunda vez. Conscientes de que
é uma situação irreversível, tentam explicitar às filhas a
importância de ter responsabilidade para lidar com a
situação e evitar que seja um fato recorrente.
Brinco com ela: ‘Toma cuidado hein, para você não
pegar outra barriga, porque se você pegar outra
barriga você vai para debaixo da ponte, você e essa
barriga’. (M1)
Mas foi isso que eu falei pra ela, entendeu? O que tá
feito, tá feito. Já tá feito, agora você vai ter que cuidar.
Você fez, você teve cabeça pra fazer, agora espero que
você tenha cabeça pra tomar conta da situação; agora
é com você. A gente só aprende a ser mãe a partir do
momento que a gente é mãe, então a gente entende o
que é mãe [...]. Então, agora ela tá tentando, ela não
tá ainda muito afiada, eu tenho que ta ali, sabe? ...
puxando a orelhinha dela... (M6)
Nas falas é possível identificar o desejo da não ocorrência
de uma nova gestação, mas autores apontam o
fato de que mulheres que iniciam a maternidade na
adolescência tendem a ter um número maior de filhos
durante sua vida reprodutiva, sendo, na maioria dos
casos, a primeira gravidez não planejada e algumas
vezes indesejada. Salientam, ainda, a probabilidade
de as gestações posteriores adquirirem, também, um
caráter não desejado.33
CONSIDERAÇOES FINAIS
O trabalho desenvolvido foi importante para a interação
entre os artigos científicos estudados e o estudo
realizado, proporcionando maior conhecimento
da estrutura familiar diante da situação. Uma parte
corrobora e outra evidencia as mudanças realizadas na
família com o objetivo de formar uma rede de apoio à
adolescente, as mudanças que ocorrem na rotina familiar,
nas finanças e no fortalecimento do vínculo entre seus
membros. Com esta pesquisa, notou-se que a gravidez
não planejada gera sentimentos indesejáveis e distintos,
como nervosismo, tristeza e medo na adolescente e
sua família, pois os familiares sabem que o futuro dessa
adolescente, com o nascimento da criança, sofrerá
alterações. Com a gestação e o nascimento da criança,
a adolescente abandona os estudos, suas atividades de
lazer e passa a dedicar a maior parte do seu tempo aos
cuidados diários da criança, recebendo apoio familiar
significativo, que a auxilia a superar as dificuldades
encontradas no ato de ser mãe e a planejar o retorno às
atividades interrompidas anteriormente.
Dessa forma, considera-se que cabe ao enfermeiro
apoiar a adolescente e sua família nas necessidades que
eles apresentam, englobando aspectos para além dos
biológicos, ou seja, também os psicológicos e sociais,
para o enfrentamento de dificuldades e o esclarecimento
de dúvidas oriundas dessa nova fase.
REFERÊNCIAS
1. Martins PO, Trindade ZA, Almeida AMO. O ter e o ser: representações sociais da adolescência entre adolescentes de inserção urbana e rural.
Psicol Reflex Crit. 2003;16 (3): 555-68.
2. Organização Mundial de Saúde. La salud de los jóvenes: un reto y una esperanza. Genebra: OMS; 1995. 120 p.
3. Brasil. Ministério da Saúde. Saúde sexual e saúde reprodutiva de adolescentes e jovens. Brasília: Ministério da Saúde; 2006.
4. Guimarães AMAN, Vieira MJ, Palmeira JA. Informações dos adolescentes sobre métodos anticoncepcionais. Rev Latinoam Enferm. 2003; 11
(3): 293-8.
5. World Health Organization. Child and adolescent health and development. Geneva; 2006. [Cited 2006 Mar18]. Available: http://www.who.
int/child-adolescent-health
6. Brasil. Ministério da Saúde. [Citado 2008 jul 20]. Disponível em: http://www.saude.gov.br.
7. Gonzalez AE, Molina GT. Características de la maternidad adolescente de madres a hijas. Rev Chil Obstet Ginecol. 2007; 72(6): 374-82.
8. Molina SM, Ferrada NC, Perez VR, et al. Embarazo en la adolescencia y su relación con la deserción escolar. Rev Med Chile. 2004; 132(1): 6570.
9. Vieira MLF, Bicalho GG, Silva JLCP, et al. Crescimento e desenvolvimento de filhos de mães adolescentes no primeiro ano de vida. Rev Paul
Pediatr. 2007; 25(4): 343-8.
10. Esteves JR, Menandro PRM.Trajetórias de vida: repercussões da maternidade adolescente na biografia de mulheres que viveram tal experiência.
Estud Psicol Natal. 2005; 10(3): 363-70.
11. Santos SR, Schor N. Vivências da maternidade na adolescência precoce. Rev Saúde Pública. 2003; 37(1): 15-23.
12. Silva L, Tonete VLP. A gravidez na adolescência sob a perspectiva dos familiares: compartilhando projetos de vida e cuidado. Rev Latinoam
Enferm. 2006; 14(2): 199-206.
13. Charon JM. Symbolic interacionism: na introduction, na interpretacion, na integration. 3ª ed. Englewood Cliffs: Prentice Hall; 1989 .205 p.
14. Blummer H. Symbolic interacionism: perspective and method. Berkeley: University of California; 1969. 208 p.
15. Driessnack M, Sousa VD, Mendes IAC. Revisão dos desenhos de pesquisa relevantes para enfermagem: parte 2: desenhos de pesquisa
qualitativa. Rev Latinoam Enferm. 2007; 15(4): 684-8.
16. Garro LC. Narrative representations of chronic illness experience: cultural models of illness, mind, and body in stories concerning the
temporomandibular joint. Soc Sci Med. 1994; 38(6): 775-88.
17. Silva DGV, Trentini M. Narrativas como técnica de pesquisa em enfermagem. Rev Latinoam Enferm. 2002; 10(3): 5-10.
18. Wright LM, Leahey M. Enfermeiras e famílias: um guia para avaliação e intervenção na família. São Paulo: Roca; 2002. 327 p.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566, out./dez., 2011
565
gravidez na adolescência: conhecendo a experiência da família
19. Gonçalves H, Knauth DR. Aproveitar a vida, juventude e gravidez. Rev Antropol. 2006; 49(2): 625-43.
20. Bergamaschi SFF, Praça NS. Vivência da puérpera-adolescente no cuidado do recém-nascido, no domicílio. Rev Esc Enferm USP. 2008; 42(3):
454-60.
21. Folle E, Geib LTC. Representações sociais das primíparas adolescentes sobre o cuidado materno ao recém-nascido. Rev Latinoam Enferm.
2004; 12(2):183-90.
22. Machado FN, Meira DC, Madeira AMF. Percepções da família sobre a forma como a adolescente cuida do filho. Rev Esc Enferm USP. 2003;
37(1):11-8.
23. Moreira TMM, Viana DS, Queiroz MVO, et al. Conflitos vivenciados pelas adolescentes com a descoberta da gravidez. Rev Esc Enferm USP.
2008; 42(2): 312-20.
24. Levandowski DC. Maternidade adolescente. Estud Psicol. 2008; 25(2): 251-63.
25. Mazzini MLH. Mães adolescentes: a construção de sua identidade materna. Ciênc Cuid Saúde. 2008; 7 (4): 493-502.
26. Levandowski DC, Piccinini CA. The father-baby interaction between adolescent and adult fathers. Psicol Reflex Crit. 2002; 15(2): 413-24.
27. Bergamaschi SFF, Praça NS. Vivência da puérpera-adolescente no cuidado do recém-nascido, no domicílio. Rev Esc Enferm USP. 2008; 42(3):
454-60.
28. Trindade AZ, Menandro SCM. Pais adolescentes: vivência e significação. Estud Psicol. 2002; 7(1): 15-23.
29. Trindade RCF. Entre o sonho e a realidade: a maternidade na adolescência sob a ótica de um grupo de mulheres da periferia da cidade de
Maceió-Al. Rev Eletrônica Enferm. 2007; 9(1): 277-8.
30. Bluestein D, Starling ME. Helping pregnant teenagers. West J Med. 1994; 161(2): 140-3.
31. Santos DR, Maraschin MS, Caldeira S. Percepção dos enfermeiros frente à gravidez na adolescência. Cienc Cuid Saude. 2007; 6 (4): 479-85.
32. Kamura HLA. Adolescent maternity in a low income community: experiences revealed by oral history. Rev Latinoam Enferm. 2008; 16(2):
280-6.
33. Berlofi LM, Alkimin ELC, Barbieri M, et al. Prevenção da reincidência de gravidez em adolescentes: efeitos de um Programa de Planejamento
Familiar. Acta Paul Enferm 2006; 19(2): 196-200.
Data de submissão: 27/4/2010
Data de aprovação: 16/7/2011
566
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 556-566 out./dez., 2011
RELACIONAMENTOS AFETIVOS NO COTIDIANO DO ADOLESCENTE
PORTADOR DO HIV: DESVELANDO SEUS SIGNIFICADOS
AFFECTIVE RELATIONSHIPS IN THE EVERYDAY ADOLESCENT HIV: DESENSURING THEIR MEANINGS
RELACIONES AFECTIVAS EN LA VIDA COTIDIANA ADOLESCENTE VIH: DESASEGURAR SUS
SIGNIFICADOS
Zuleyce Maria Lessa Pacheco1
Elisabete Pimenta Araújo Paz2
Girlene Alves da Silva3
RESUMO
O objetivo com este estudo foi compreender como o adolescente portador do HIV vivencia, no cotidiano, seus
relacionamentos afetivos. Os dados foram coletados por meio da técnica de entrevista fenomenológica, com nove
adolescentes de um serviço de referência. A análise foi efetuada com base na fenomenologia de Martin Heidegger. A
análise permitiu inferir que eles conhecem algumas formas de transmissão do HIV, mas não as compreendem bem. Muitos
desses adolescentes já tiveram relacionamentos afetivos com outras pessoas, preocupam-se em usar o preservativo
caso tenham relação sexual, mas a maioria prefere manter em segredo sua condição de portador. Eles desejam,
futuramente, ter uma família, preocupam-se em não contaminar seu parceiro sexual e com as consequências que a
gravidez pode ter na vida deles. Essa preocupação se traduz em cuidado com-o-outro. Experienciar relacionamentos
afetivos é uma possibilidade de ser-aí-no-mundo, que pode ser mais bem vivenciada com a ajuda dos profissionais de
saúde na superação dos receios característicos que uma doença como a aids impõe.
Palavras-chave: Adolescente; Sexualidade; HIV; Comportamento Sexual; Filosofia.
ABSTRACT
This study seeks to understand how adolescents with HIV experience his/her emotional relationships in daily life. Data
was collected through phenomenological interview with nine adolescents coming from a referral unit service. The
data analysis was based on Martin Heidegger’s phenomenology. The analysis allowed us to infer that the adolescents
are aware of some the forms of HIV transmission, but do not completely understand them. Many have already had
emotional relationships with other people, are conscious of the importance of using protection when having sexual
intercourse, but the majority prefers to keep his/her condition a secret. They would like to have a family in the future,
are concerned with not contaminating their sexual partner and are aware of the consequences a pregnancy may bring
to their lives. This concern is reflected in the way they care about the other. Experiencing emotional relationships is a
sign of being emotionally alive and the process could be more appreciated with the support of a healthcare professional
that could help the adolescents to overcome the typical uncertainties of a person with HIV.
Key words: Adolescent; Sexuality; HIV; Sexual Behavior; Philosophy.
RESUMEN
Este estudio tiene como objetivo comprender cómo el adolescente portador de VIH vive sus relaciones afectivas en el
día a día. Los datos fueron recogidos por medio de la técnica de entrevista fenomenológica con nueve adolescentes
de una unidad de referencia. El análisis se realizó en base a la fenomenología de Martin Heidegger. El análisis reveló
que los adolescentes conocen algunas formas de la transmisión del VIH pero no las entienden bien. Muchos de ellos ya
habían tenido relaciones afectivas con otras personas, se preocupaban por usar preservativos pero la mayoría prefería
mantener en secreto su condición de portador del virus. Desean tener una familia, se preocupan por no contaminar a su
compañero sexual y con las consecuencias que el embarazo puede traerles. Esta preocupación se traduce en cuidado
con el otro. Tener relaciones afectivas significa estar vivo emocionalmente y este proceso podría ser más positivo con
el respaldo de profesionales de la salud para ayudar a los adolescentes a superar los temores característicos de las
personas con VIH.
Palabras clave: Adolescente; Sexualidad; VIH; Conducta Sexual; Filosofía.
1
2
3
Professora assistente IV do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Enfermagem.
Pós-graduanda (Doutorado) do programa de Pós-Graduação da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EEAN/UFRJ).
Professora associada do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da EEAN/UFRJ. Doutora em Enfermagem.
Professora adjunta IV do Departamento de Enfermagem Aplicada da Universidade Federal de Juiz de Fora. Doutora em Enfermagem.
Endereço para correspondência – Avenida Getúlio Vargas nº 840/303, Centro, Juiz de Fora (MG), CEP: 36013-011. E-mail: zuleycelessa@yahoo.com.br.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 567-572 out./dez., 2011
567
Relacionamentos afetivos no cotidiano do adolescente portador do hIv: des-velando seus significados
INTRODUÇÃO
A adolescência é um período relativamente curto na
vida do homem, sendo caracterizada como uma fase de
transição da vida infantil para a adulta. Trata-se de um
período cronológico que compreende a faixa etária entre
10 e 19 anos.1 Esse período sofre variações de acordo
com o contexto social em que o sujeito está inserido.
Nesse sentido, podem ser encontrados jovens iniciando
precocemente a vida sexual,2 o que os coloca vulneráveis
às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), dentre
as quais destacamos a Síndrome da Imunodeficiência
Adquirida (aids).
Apesar de o número de casos notificados de aids entre
adolescentes não ser grande, o crescimento deles vem
obedecendo às tendências de evolução da doença
no país, tais como a interiorização, a feminização e a
pauperização.3 A vulnerabilidade à aids vivenciada pelo
adolescente pode ser vista como produto da interação
entre suas características individuais e suas estruturas
sociais de desigualdade, que envolvem o gênero, a classe
social e o nível de escolaridade.4,5
Desde o início da epidemia até 2006, o município de Juiz
de Fora aparecia como o segundo com maior número
de casos notificados de aids no Estado de Minas Gerais.6
O Sistema de Informações de Agravos de Juiz de Fora,
no período entre 1987 e 2006, registrou 24 casos em
mulheres entre 15 e 19 anos e 39 casos em homens
entre 10 e 19 anos. Desde 2009 a cidade lidera a taxa de
incidência de casos de aids em Minas Gerais, segundo
dados do Boletim Epidemiológico DST/aids.7
O município de Juiz de Fora conta com o Serviço de
Atendimento Especializado (SAE), que presta assistência
ambulatorial às pessoas portadoras do HIV e também a
pacientes com aids. De 2007 até outubro de 2008, o SAE
atendeu 83 adolescentes,7 os quais, de acordo com as
informações fornecidas por profissionais que gerenciam
o atendimento, foram considerados como portadores
com base no teste feito com a mãe HIV positiva, ou o
não seguimento pelas gestantes das Recomendações
de Terapia Antirretroviral (TARV) e demais condutas
relacionadas com a profilaxia da transmissão vertical
do HIV.8
Como profissionais da saúde, muitas vezes desconhecemos como é a vida desses jovens; as experiências
no manejo do quadro clínico; a dinâmica nas escolas com
os demais estudantes; o que desejam dos profissionais,
quer da área da educação, quando discutem as questões sobre sexualidade ou saúde, quer das escolas,
quer dos profissionais de saúde que trabalham nos
serviços assistenciais com as mesmas questões. Essas
inquietações nos impulsionaram a conhecer que práticas
de cuidado eles realizam para se protegerem ou ao (à)
companheiro (a) da transmissão do HIV. Esses jovens
têm dúvidas em relação ao início da atividade sexual e
à própria atividade sexual? O que pensam sobre o risco
de uma gravidez, da contaminação de outras pessoas
ou da autocontaminação? A condição de ser portador
do HIV é um segredo na vida deles?
568
Buscando compreender o significado de ser adolescente
com HIV, é que se delimitou como objetivo deste estudo
compreender como o adolescente portador do HIV
vivencia no cotidiano seus relacionamentos afetivos.
MÉTODO
Trata-se de um estudo qualitativo em que se elegeu
a fenomenologia como método de investigação. O
método fenomenológico é uma possibilidade de se ir às
coisas mesmas, ou seja, aos fenômenos, aquilo que se
revela. Permite mergulhar no mundo da subjetividade,
chegar ao EU interior e se enveredar por caminhos ora da
razão, ora da emoção, visto que se vive continuamente
oscilando entre esses dois momentos.9
O método fenomenológico permite ao pesquisador
entrar em contato com o vivido, com as experiências e
o falar humano, o que o coloca em uma posição de um
"en-volver", um compartilhar, por meio do contato direto
com o fenômeno estudado, buscando entendê-lo com
base na experiência descrita pelo ser-no-mundo.10
OlocaldoestudofoioServiçodeAssistênciaEspecializada
(SAE) do município de Juiz de Fora. Para a coleta dos
dados, utilizou-se o método de autorrelato, com a técnica
de entrevista fenomenológica, composta por perguntas
que permitiram maior interação dos pesquisadores
com os adolescentes portadores do HIV. Nesse tipo
de entrevista, o pesquisador procura estar com o
entrevistado sem intencionalidade preestabelecida; ele
apenas estimula a conversação e, com base na fala do
entrevistado, conduzi as perguntas.11
Antes, porém, de iniciar as entrevistas, realizou-se um
teste piloto com a finalidade de adequar o roteiro de
coleta de dados aos objetivos do estudo. Para isso, foram
entrevistados nove adolescentes com HIV atendidos pelo
SAE que não residem no município de Juiz de Fora. Para
participar do estudo, os adolescentes obedeceram aos
seguintes critérios de inclusão: ter a idade entre 13 e 19
anos, apresentar condições cognitivas para participação
em uma entrevista, ter conhecimento de seu diagnóstico
como portador do HIV, residir em Juiz de Fora e estar em
tratamento ambulatorial regular no SAE.
Os contatos com os adolescentes foram feitos após a
autorização formal da Secretaria Municipal de Saúde
de Juiz de Fora e da chefia do Serviço de Assistência
Especializada (SAE). A participação no estudo se deu
de forma voluntária, após o consentimento formal
do responsável legal e seu assentimento por escrito.
Conforme as recomendações da Resolução nº 196/96
do Conselho Nacional de Saúde,12 o projeto de pesquisa
foi submetido à apreciação do Comitê de Ética da
Universidade Federal de Juiz de Fora e aprovado sob o
Parecer nº 024/2009.
As entrevistas ocorreram nos meses de agosto e setembro
de 2009, foram realizadas no SAE e gravadas em MP4.
Algumas ocorreram na parte da tarde e outras pela
manhã, dependendo do horário que estava agendado
o atendimento médico do adolescente portador do
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 567-572 out./dez., 2011
HIV. À tarde, as entrevistas ocorreram no consultório da
psicologia; no horário da manhã, utilizou-se a sala anexa
à de repouso, no final do ambulatório do SAE. Essas duas
salas foram as que estavam disponíveis no ambulatório
e apresentavam conforto e privacidade tanto para o
entrevistador quanto para os entrevistados.
de HIV pelo medo de ser abandonado. Eu ia contar pra
ela [sobre ser portador] só que eu desisti na hora. É, me
deu nervoso aí eu desisti [...] Aí eu falei: ‘Ah, deixa pra
lá depois a gente conversa’. Aí depois eu inventei outra
historinha lá, falei que era outra roupa que eu precisava
pra dançar. (E2M)
Apenas uma entrevista teve de ser realizada na casa do adolescente portador do HIV, uma vez que,
após várias tentativas de agendamento de consultas,
ele não compareceu a nenhuma. Quando seu responsável dirigiu-se ao serviço e a pesquisadora estava
presente, a entrevista foi agendada para o domicílio do
adolescente.
Eu penso em contar porque parece que fica alguma
coisa entalada, eu fico passando mal do estômago... Isso
foi mais no início, quando eu fiquei sabendo... Eu sinto
medo deles pararem de conversar comigo. (E3F)
A análise dos depoimentos dos adolescentes foi realizada
com base na fenomenologia de Martin Heidegger e
visou à compreensão do sentido que funda a analítica
existencial do ser-no-mundo13. A primeira etapa foi
identificar a compreensão imediata sobre o que se
questionou. Trata-se de uma compreensão vaga que
vela o sentido do ser do indivíduo. A compreensão vaga
e mediana consiste naquilo que o ente pensa e fala do
ser.9 Foram construídas as unidades de significação,
que trazem significados comuns e diferentes atribuídos
aos questionamentos que foram direcionados ao ser
adolescente portador de HIV.
Ah, eu não contei pra ninguém não [...]. Só usamos
camisinha. (E6M)
A seguir, partindo das unidades de significação, buscouse, por meio da hermenêutica heideggeriana, o sentido da
experiência que foi vivenciada pelo sujeito, pois só depois
de compreender o que está velado é que o pesquisador
poderá partir para o exercício da interpretação.
RESULTADOS
Com a compreensão vaga e mediana, iniciou-se
o clareamento do ser-aí-adolescente portador do
HIV e a vivência de sua sexualidade, anunciando as
possibilidades dos modos próprios de ser no cotidiano
e que aparecem organizadas em quatro unidades de
significação:
Os adolescentes portadores do HIV conhecem algumas
formas de transmissão do HIV, mas ainda não as
compreendem bem:
Eu sei que ele transmite através de relações sexuais, se
eu cortar o dedo e uma pessoa cortar também, aí, se eu
encostar, transmite. É, não lembro mais de nenhuma
não. Eu adquiri na barriga da minha mãe mesmo. Ah,
essa é a outra forma que transmite. Ah, eu não sei como
que meu pai não pegou. Meu pai não tem, meu irmão
não é, meu outro irmão não é, minha outra irmã não
é. Só eu mesmo, só eu! (E2M)
Ele transmite através de sexo e no negócio de sangue,
se um encostar no machucado do outro. Acho que só
isso aí. (E6M)
Que é uma doença [...], pega quando tem relação sexual
sem camisinha. (E8F)
Quando o adolescente se envolve em relacionamentos
afetivos, mantém em segredo sua condição de portador
Ah, eu tenho medo da discriminação; já vi várias pessoas
falando que as pessoas, quando sabem, não querem
ficar mais perto. Isso me dá angústia, tristeza. (E4M)
Em seus relacionamentos afetivos, os adolescentes
portadores do HIV vivenciam intimidades, como troca de
carícias, beijo na boca, abraço, e alguns, o ato sexual:
Já passei a mão, já vi a parte íntima, já pus a boca, mas
foi só com uma namorada. Mas não teve sexo, não. A
gente ficou só uma vez, a menina tinha a minha idade.
(E1M)
Antes dessa namorada, eu já namorei umas duas
meninas, uma que mora do lado da minha casa e a
outra que mora um pouco mais na frente [...]. Só rolou
beijo e sem sacanagem, só isso! (E2M)
Ah, eu já fiquei com uma menina dois meses, rolou só
beijo, abraço, sarrinho, mas não tive relação [...]. Eu
transei com uma menina aí, não era namorada, não.
(E6M)
As adolescentes portadoras do HIV preocupam-se com
a gestação e suas consequências: contaminar o bebê e
o parceiro. Por isso reconhecem que é necessário usar o
preservativo quando o contato sexual acontece:
Penso, eu acho que, se eu tiver filho, eu vou contaminar
ele também [...]. Eu li numa revista que a mulher tem
que ter parto cesariana, para a criança não vir com o
vírus, é isso o que eu estudei, mas tem mais de um ano
que eu estudei isso [...]. Usando camisinha em todas as
relações. (E3F)
Ah, [...] usando camisinha pra me proteger, não ficar
grávida cedo [...]. Eu tenho medo de engravidar cedo.
Depois, eu não vou ter mais liberdade, vou ter que
ficar cuidando da criança, ter mais responsabilidade,
é isso! [...] Ah, eu posso sair pra onde eu quiser, minha
avó deixa eu sair, e aí, se eu engravidar, eu não vou
poder sair mais, claro que vou poder, mas tenho que
carregar a criança, e tem certos lugares que não vai dar
[...]. Os dois se cuidando, usando camisinha em toda a
relação. (E4M)
Eu tô com medo de ter relação sexual, por causa do HIV
de passar pra outra pessoa [...], da camisinha estourar,
e eu não saber colocar direito, aí ela pode estourar [...].
Muita responsabilidade, porque tem que cuidar do
filho, igual os pais. Cuidar, dar de mamar, essas coisas
assim. É complicado, porque a pessoa vai pegar o HIV
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 567-572 out./dez., 2011
569
Relacionamentos afetivos no cotidiano do adolescente portador do hIv: des-velando seus significados
e o neném também vai [...]. Com muitos cuidados, na
hora que for fazer relação sexual, colocar camisinha,
toda vez vai ter que usar. (E5M)
Colocar camisinha [...]. Ah, eu fico preocupado com a
pessoa [...], de eu passar pra ela [...]. Eu não penso em
ter filho [...]. Eu penso se vai ter alguma coisa, se passar
pela gravidez, se meu filho vai ter também, penso
nisso. (E6M)
DISCUSSÃO
Após finalizar a compreensão vaga e mediana, com
base nos discursos dos adolescentes, o modo de
abertura deles para o mundo compartilhado, buscouse o sentido que funda o movimento existencial do ser
adolescente portador do HIV. Passou-se, então, para a
etapa seguinte do processo de análise interpretativa,
ou seja, a compreensão do sentido desse cotidiano
velado pelos significados expressos em seus discursos,
fundamentada no referencial teórico-filosófico de Martin
Heidegger.
Ao captar a singularidade do ser adolescente portador do
HIV, percebe-se que os adolescentes têm conhecimento
sobre a doença, pois são informados no SAE sobre o que
acontece com quem traz o vírus no organismo. Sabem
que a aids é uma doença séria, que não tem cura e que
eles podem transmiti-la. Note-se que eles conhecem
algumas formas de transmissão, provavelmente
informadas no serviço de saúde. No entanto, em seus
discursos demonstraram dúvidas e insegurança quanto
ao uso correto do preservativo e pontos de equívocos,
como pensar que, ao deixar que seu sangue toque em
pessoas que possuem um machucado, estas possam ser
contaminadas pelo vírus.
Em relação às práticas preventivas, os resultados mostram uma contradição sobre o uso do preservativo entre
os adolescentes portadores do HIV entrevistados. Por
um lado, sabem da importância de sua utilização em
todas as relações sexuais; por outro, sabem que ainda
precisam de informações mais claras sobre como utilizálo, para não se colocarem vulneráveis à reinfeçção e não
contaminarem os futuros parceiros.
O ser adolescente portador do HIV é um ser-aí lançado
nessa situação de risco, como qualquer outro que realiza
relação sexual sem proteção ou que tem dúvidas e por
isso não sabe como usar corretamente o preservativo.14,15
Entre os adolescentes, esta dúvida essa presente, apesar
de terem sido orientados pelos profissionais do SAE.
Eles repetem a fala técnica dos ambientes de tratamento
com suas palavras, o que caracteriza, no modo ôntico de
ser, o falatório. Os adolescentes não se apropriaram dos
conceitos, perderam-se da linguagem reveladora, o que
originou uma compreensão inadequada das coisas.9
Os adolescentes demonstraram querer tomar conhecimento sobre a doença e seu tratamento, e isso, no
fenômeno do falatório, é denominado de curiosidade.9
Ela leva o ente à dispersão, a novas possibilidades, e,
com isso, os adolescentes acabam não se apropriando
originariamente das informações que lhes são passadas;
570
eles apenas as repetem sem questioná-las, sendo,
assim, levados por um modo impessoal, impróprio e
inautêntico de ser que os dispersa, torna-os confusos
quanto ao caminho ou à decisão que deverão tomar.
Essa dispersão, fruto da curiosidade, ocorre em razão
das novas possibilidades sobre o que se compreende,
e isso os leva ao entendimento de que tudo o que
lhes foi passado por meio do falatório, investigado
pela curiosidade, foi totalmente compreendido. Dessa
forma, faz-se presente outro fenômeno da abertura da
presença cotidiana denominada ambiguidade.9 O fato
de não conhecerem ao certo o mecanismo de ação da
doença faz com que esses adolescentes continuem
como grupo vulnerável para a transmissão do vírus.
O envolvimento em relacionamentos afetivos não
se dá sem preocupação, que se traduz em cuidado
com-o-outro. Em seus discursos, os jovens têm dúvidas relacionadas ao risco de vir a contaminar o(a)
companheiro(a), as consequências que a gravidez pode
ter na vida deles e todas as responsabilidades que dela
advêm, como ter de prover o sustento familiar, saber
cuidar do bebê, perder a liberdade conquistada na
adolescência por causa da presença de um filho.
O cuidado é um modo de ser do dasein (o aqui, agora,
isto é, o lugar em que o ser se manifesta no modo da
compreensão), é a forma como o ente se estrutura e
se realiza como ser-no-mundo e com-os-outros. No
que diz respeito aos seus semelhantes, o dasein, de
forma positiva, preocupa-se cotidianamente com suas
relações.9 Essa preocupação é intencional e busca não
causar dano à saúde de outrem, e, sim, promover a vida
do outro.
Como ser-aí, vivendo suas possibilidades, vê-se que o
adolescente, por não compreender muito bem o peso
de ser portador de um vírus que pode ser transmitido a
outrem por meio do contato sexual sem proteção, teme
ser responsável pelo adoecimento de outra pessoa.
Esse temor traz para o presente a responsabilidade de
não querer que o outro experiencie a mesma rotina de
cuidados que ele já vivencia.
Os jovens também fizeram referência ao fato de a vida
tornar-se mais difícil para os futuros parceiros, que terão
de se adaptar às condições de viver com alguém que é
portador de uma doença sexualmente transmissível. Isso
demonstra que estão dando ouvidos ao fenômeno que
Heidegger chama de “voz da consciência” que motiva o
dasein para sua deficiência constitutiva, considerada por
meio da noção de culpa. Em contraste com o barulhento
falatório, a consciência chama de forma silenciosa o
dasein a si.16
Ao ser tomado pela voz da consciência, os adolescentes
compreendem em que consiste a condição de sua própria
autenticidade, assumindo-se naquilo que propriamente
é: um portador do HIV. Ao olhar para dentro de si, eles
percebem as possibilidades futuras e projetam-se para
elas. O dasein é lançado em um poder ser denominado
“projeto”,10 que é o modo em que a compreensão atua.
Ele se compreende como um pro-jeto lançado além de
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 567-572 out./dez., 2011
si mesmo, estando destinado às possibilidades com os
outros entes no mundo.
Desde os primeiros anos da epidemia de aids que
seus portadores são vítimas de estigma e preconceito,
processos de desvalorização humana que vêm produzindo e reforçando diferenças sociais.17 A condição
de diferença em que vive o adolescente portador do HIV
(estar com o vírus, ter de tomar medicamentos, ter de
ir ao acompanhamento no serviço especializado, ter de
fazer exames laboratoriais para dosagem de carga viral)
traz-lhe o temor de sofrer preconceito.
Na existência cotidiana, ao se relacionarem afetivamente
ou sexualmente com-os-outros, vivenciam o temor de ser
rejeitados por serem portadores do vírus HIV, o que lhes
retira a naturalidade da convivência cotidiana. O temor
é um modo da disposição, ou seja, um estado de humor
no qual o dasein pode ser encontrado. Como dasein, o
adolescente portador do vírus descobre-se lançado no
mundo cotidiano sob condições e circunstâncias que vão
além do seu controle e das quais não pode fugir – é o
que se denomina“facticidade”.9 O que se teme (temível)
tem caráter ameaçador, e para esses jovens a ameaça
é a de ficar sós, distantes daqueles com quem podem
compartilhar carinho, afetos e prazeres.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
À luz do referencial teórico fenomenológico de Martin
Heidegger, compreendemos que no percurso da
historicidade desses adolescentes há uma apropriação
fragmentada sobre o desenvolvimento da doença e
as práticas preventivas da disseminação do vírus. A
informação recebida nos serviços de saúde, na mídia e
na escola não encontrou ancoragem no plano cognitivo
deles. Assim, eles têm um comportamento oscilante
entre seguir as orientações dos profissionais de saúde
todo o tempo e fazer o que consideram adequado,
principalmente quando se referem aos programas
com os amigos que possam interferir na ingestão da
medicação, na participação em atividades recreativas,
dentre outras.
A prática assistencial, mormente prescritiva e informativa,
pouco valoriza o sujeito, não o deixando livre para
expressaro seu ser mais próprio, suas dúvidas eincertezas,
ainda mais quando as consultas acontecem em tempo
reduzido e as esperas por elas, paradoxalmente, ocorrem
em tempo prolongado.
Em relação às práticas preventivas, no estudo mostrou-se
que há contradição sobre o uso do preservativo entre
os adolescentes portadores do HIV entrevistados. Por
um lado, sabem da importância de sua utilização em
todas as relações sexuais; por outro, sabem que ainda
precisam de informações mais claras sobre como utilizálo, para não se colocarem vulneráveis à reinfeçção e não
contaminarem os futuros parceiros.
Ao se projetarem para o futuro, os adolescentes
portadores do HIV realizam um movimento reflexivo
e passam a ter a consciência de que a relação sexual
não é impossível de acontecer, pois experienciar
relacionamentos afetivos também é uma de suas
possibilidades de ser-aí-no-mundo. Esse porvir faz parte
do existir-com-o vírus e não lhes tira a possibilidade de
experimentar sua sexualidade e afetividade.
Possibilidades para a assistência e para a promoção da
saúde desses jovens foram desveladas no estudo. O
profissional de saúde deve considerar o adolescente
portador do HIV como um ser com as mesmas
características de outros jovens de sua idade e que,
como os demais, possui necessidades especiais de
saúde. Em relação à enfermagem, suas práticas devem
aliar o conhecimento técnico-científico à concepção
filosófica do cuidar, valorizando e considerando o outro
em sua totalidade, como adolescente que está em
desenvolvimento de sua potencialidade como ser-aí
humano.
Mesmo diante da possibilidade de um tratamento
multiprofissional, os enfermeiros podem fazer a
diferença no cuidado a esse grupo, ao assumirem o
diálogo com seus clientes como parte importante
deste e, a cada encontro, restaurar o que se mostrar
fragilizado, podendo, dessa forma, distanciar-se do
cuidado impróprio e tecnicista que ainda domina a
prática em saúde.
O portador do HIV tem garantido pela Constituição
Federal do Brasil, dentre outras ações, o direito às
informações sobre sua condição de portador a não sofrer
qualquer tipo de discriminação, de não ter restringido
seu direito à liberdade e à participação em qualquer tipo
de atividade social. Neste estudo, foi possível desvelar
que os adolescentes ainda sentem medo de uma rejeição
social dada a condição de ser portador do HIV.
Os profissionais de saúde podem contribuir para
modificar essa situação ampliando a efetividade de suas
ações nos espaços públicos e privados, mobilizando
estudantes, docentes e a sociedade em geral a participar
de debates éticos e políticos sobre viver em situações
de vulnerabilidade, pois o que está em jogo é o ser-dooutro com o qual encontram para o cuidar, pois cuidar
também é “com-viver”.
As escolas podem aprimorar suas ações políticopedagógicas aos jovens portadores do HIV em um
trabalho conjunto com a Coordenação do Programa
Municipal de DST/aids, utilizando abordagens de
prevenção que ultrapassem as palestras meramente
informativas ou a distribuição dos preservativos que
ocorrem de forma pontual, bem como capacitar seus
docentes para abordar o tema aids de forma segura,
uma vez que esta é uma questão que faz parte do dia
a dia dos jovens. Tais estratégias ajudam a superar
diferenças culturais e sociais e o preconceito velado que
ainda persiste no grupo de estudantes. Ações voltadas
para todos os estudantes favorecem que estes possam
ser multiplicadores da boa informação para seus pais e
pares, pois no jogo do cotidiano a aids não tem rótulo.
Em relação à assistência oferecida no SAE, pode-se
sugerir a abertura de um espaço para que os jovens
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 567-572 out./dez., 2011
571
Relacionamentos afetivos no cotidiano do adolescente portador do hIv: des-velando seus significados
em tratamento possam discutir de maneira mais
sistematizada as questões que lhes permeiam o
cotidiano, os temores, as conquistas e, também, os
aspectos práticos relacionados com a prevenção da(s)
DST/aids.
Este estudo permitiu-nos compreender que os
adolescentes portadores do HIV, em seu movimento
existencial e ontológico, podem compartilhar o cuidado
por meio da consideração e na paciência. Além disso,
os resultados aqui apresentados, em conjunto com
as evidências dos dados epidemiológicos dos últimos
boletins do Programa Nacional de DST/aids, apontam
para a necessidade de formulação de estratégias de
enfrentamento ao(à) HIV/aids para o segmento dos
adolescentes portadores do HIV, envolvendo os diversos
atores sociais, as instituições governamentais nas três
esferas de gestão em saúde, bem como as instituições
não governamentais.
REFERÊNCIAS
1. Brasil. Ministério da Saúde. Programa Saúde do Adolescente (PROSAD): bases programáticas. 2ª ed. Brasília (DF): MS; 1996a.
2. Costa JF, Pacheco ZML, Silva GA. Compreendendo a sexualidade dos adolescentes. REME Rev Min Enferm. 2007; 11(2). [Citado 2004 abr. 10].
Disponível em: http://www.enf.ufmg.br/site_novo/modules/mastop_publish/files/files_4c0e3c640d7c9.pdf.
3. Brasil. Ministério da Saúde. Coordenação Nacional DST/AIDS. Revisão da definição nacional de casos de aids em indivíduos com 13 anos ou
mais, para fins de vigilância epidemiológica. Brasília (DF): MS; 2000.
4. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST/AIDS. Boletim Epidemiológico Aids e DST. Brasília
(DF); 2007a. [Citado 2003 jul. 15]. Disponível em: http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMIS624DE984PTBRIE.htm.
5. Reis CT, Czeresnia D, Barcellos C, et al. Decentralization of the HIV/AIDS epidemic and inter-municipal flow of hospital admissions in the Zona
da Mata, Minas Gerais State, Brazil: a spatial analysis. Cad Saúde Pública. 2008; 24(6). [Citado 2008 out. 25]. Disponível em: http://www.scielo.
br/pdf/csp/v24n6/03.pdf.
6. Minas Gerais. Secretaria de Estado de Saúde. Coordenação Estadual de DST/Aids. Boletim Epidemiológico. Belo Horizonte. 2007 [Citado 2007
nov. 30]. Disponível em: http://www.agenciaminas.mg.gov.br.
7. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST/AIDS. Brasília (DF); 2009. [Citado 2003 jul. 15].
Disponível em: http://www.aids.gov.br/data/documents/storedDocuments/%7BB8EF5DAF-23AE-4891-AD36-1903553A3174%7D/%7B12B1EBBC1113-40B5-A4D5-0D614224269E%7D/Boletim2010.pdf.
8. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Coordenação Nacional DST/AIDS. Recomendações para profilaxia da transmissão
materno-infantil do HIV e terapia antirretroviral. Brasília (DF): MS; 2004.
9. Heidegger M. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes; 1989.
10. Carvalho AS. Metodologia da entrevista: uma abordagem fenomenológica. Rio de Janeiro: Agir; 1987.
11. Trentini M, Paim L. Pesquisa em enfermagem: uma modalidade convergente-assistencial. Florianópolis: UFSC; 1999. 162 p.
12. Brasil. Ministério da Saúde. Resolução 196/96,dispõe sobre pesquisa envolvendo seres humanos.Conselho Nacional de Saúde. Brasília (DF):
MS; 1996b.
13. Heidegger M. Sobre o humanismo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; 1995.
14. Rodrigues EAS, Souza EP, Guedes CC, et al. O adolescente e a vivência da paternidade: uma abordagem fenomenológica. REME Rev Min Enferm.
2003; 7(2). [Citado 2003 jul. 15]. Disponível em: http://www.enf.ufmg.br/site_novo/modules/mastop_publish/files/files_4c1222440e3f9.pdf.
15. Moura ERF, Souza CBJ, Evangelista DR. Saúde sexual e reprodutiva de adolescentes de escola públicas e privadas de fortaleza-CE, Brasil.
REME Rev Min Enferm. 2009; 3(2). [Citado 2009 jul. 15]. Disponível em: http://www.enf.ufmg.br/site_novo/modules/mastop_publish/files/
files_4c0e49f32d824.pdf.
16. Heidegger M. Ser e tempo: parte 2. 3ª ed. Petrópolis: Vozes; 1990.
17. Ayres JRCM. Cuidado: trabalho e interação nas práticas de saúde. Rio de Janeiro: Cepesc/ UERJ/IMS/ Abrasco; 2009.
Data de submissão: 29/9/2010
Data de aprovação: 30/8/2011
572
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 567-572 out./dez., 2011
OFICINA SOBRE SEXUALIDADE NA ADOLESCÊNCIA: UMA EXPERIÊNCIA
DA EQUIPE SAÚDE DA FAMÍLIA COM ADOLESCENTES DO ENSINO MÉDIO
WORKSHOP ON SEXUALITY IN THE ADOLESCENCE: AN EXPERIENCE OF THE TEAM HEALTH OF THE
FAMILY WITH ADOLESCENTS OF AVERAGE EDUCATION
TALLER SOBRE SEXUALIDAD EN LA ADOLESCENCIA: UNA EXPERIENCIA DE LA SALUD DEL EQUIPO
DE LA FAMILIA CON LOS ADOLESCENTES DE LA EDUCACIÓN MEDIA
Christine Baccarat de Godoy Martins1
Lilian Ortega Ferreira2
Paula Renata Miranda dos Santos2
Mara Wanderbil Lopes Sobrinho3
Maria Clara Vieira Weiss4
Solange Pires Salomé Souza5
RESUMO
Atualmente, os altos índices de gravidez e DST/aids na adolescência têm implicado o desenvolvimento de políticas de
saúde direcionadas para esse grupo etário. Nessa perspectiva, o Programa Saúde da Família (PSF) tem sido apontado
como essencial para a formação de vínculo com essa clientela, utilizando a escola como espaço de reflexão e mudança
de comportamento. O objetivo com este trabalho foi descrever uma experiência de orientação sexual para adolescentes,
desenvolvida em uma escola pública de Cuiabá-MT, na área de abrangência de uma Unidade Básica de Saúde da Família
(USBF), incluída no Programa de Educação peloTrabalho para a Saúde (PET-Saúde). A experiência constituiu-se de oficinas
com alunos do 1° ano do ensino médio, divididos em grupos pequenos, utilizando-se dinâmicas participativas, abordando
os seguintes temas: conhecimento do corpo, transmissão e prevenção de DST/aids/gravidez, uso de drogas, mitos e tabus
relativos à sexualidade e projeto de vida. O trabalho na escola mostrou-se como uma oportunidade importante de reflexão
e discussão, ampliando o campo de conhecimento dos adolescentes sobre a sexualidade. Observou-se a necessidade
da interface entre a Equipe de Saúde da Família e os professores da escola, otimizando-lhes o espaço para a prevenção
e a promoção da saúde sexual e reprodutiva do adolescente. Sugere-se a introdução do tema nos cursos técnicos de
graduação e pós-graduação, visando à formação de profissionais para essa nova demanda.
Palavras-chave: Adolescente; Doenças Sexualmente Transmissíveis; Educação em Saúde; Programa Saúde da Família;
Sexualidade.
ABSTRACT
The high rates of teenage pregnancy and STD/AIDS infection in adolescence is responsible for the development
of healthcare policies directed to this age group. In this context, the Family Health Program (in Portuguese, PSF) is
considered a vital element in establishing bonds with this specific clientele. The program uses the school as a space
for reflection and behavior change. This study aims to describe an experience of sex education for teenagers. It was
carried out in a public school in Cuiabá-MT, Brazil in an area under the responsibility of a Family Health Primary Unit
and included in the Education thru Work Program (in Portuguese, PET-Saúde). The experience consisted in workshops
with 1st grade pupils that were divided in small groups. Using group dynamics strategies the following subjects were
approached: familiarity with one’s own body, transmission and prevention of STD/AIDS, pregnancy prevention, drug
use, sexuality myths and taboos, and life project. The workshops proved to be a valuable opportunity to reflect about
sexuality and to broaden the pupil’s awareness about that topic. We detected the necessity of an interface between
the Family Health team and the school’s teachers so as to optimize the school as the space for the STD/AIDS prevention
and the adolescent’s sexual and reproductive health promotion. In conclusion this subject should be introduced in
vocational and post-graduation courses so as to form new healthcare professionals in this area of expertise.
Key-words: Adolescent; Sexually Transmissible Diseases; Health Education; Family Health Program; Sexuality.
RESUMEN
Actualmente, los altos índices de embarazo y de ETS/SIDA en la adolescencia son responsables del desarrollo de
políticas de salud dirigidas a este grupo de edad. Dentro de tal perspectiva, el programa Salud de la Familia (PSF) ha sido
considerado esencial para formar el vínculo con esta clientela usando al colegio como espacio de reflexión y cambio
de comportamiento. El presente trabajo ha buscado describir la experiencia de orientación sexual para adolescentes
1
2
3
4
5
Docente da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMT), Departamento de Enfermagem, Área Saúde da Criança e do Adolescente. Doutora em Saúde
Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
Acadêmicas do oitavo semestre de Enfermagem da UFMT e bolsistas PIBIC do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET – Saúde).
Enfermeira especialista em Saúde da Família e em Administração em Serviços de Saúde.
Docente da UFMT, Departamento de Saúde Coletiva. Mestre em Sociologia. Doutora em Saúde Pública e Pós-Doutorado em Administração pela UFMT
Docente da UFMT, Departamento de Enfermagem, Área Saúde da Criança e do Adolescente. Doutora em Enfermagem em Saúde Pública pela Escola de
Enfermagem de Ribeirão Preto da USP.
Endereço para correspondência – Rua Fortaleza, 70, Jardim Paulista, Cuiabá-MT. CEP: 78.065-350. E-mail: leocris2001@terra.com.br.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 573-578 out./dez., 2011
573
Oficina sobre sexualidade na adolescência: uma experiência da equipe Saúde da Família com adolescentes do Ensino médio
llevada a cabo en un colegio público de Cuiabá – MT - Brasil, dentro del área de alcance de una Unidad Básica
de Salud de la Familia, incluida en el Programa de Educación por el Trabajo para la Salud (PET-Salud). La
experiencia consistió en talleres con alumnos del 1° año del secundario, divididos en pequeños grupos, usando
dinámicas participas, con enfoque en temas tales como conocimiento del cuerpo, transmisión y prevención de
ETS/Sida/embarazo, uso de drogas, mitos y tabúes de la sexualidad y proyecto de vida. El trabajo en la escuela
demostró ser una excelente oportunidad para reflexionar y discutir tales asuntos y para ampliar el campo de
conocimiento de los adolescentes en cuanto a la sexualidad. Se observó la necesidad de interfaz entre el equipo
de salud de la familia y los profesores para que el colegio sirva de lugar para enseñar a prevenir las ETS y Sida y
para promover la salud sexual y reproductiva de los adolescentes. Sugerimos que este tema comience a tratarse
en los cursos de grado y de posgrado con miras a formar profesionales que atiendan esta nueva demanda.
Palabras clave: Adolescente; Enfermedades de Transmisión Sexual; Educación en Salud; Programa Salud de la Familia;
Sexualidad.
INTRODUÇÃO
A adolescência, de acordo com a Organização Mundial
de Saúde (OMS), compreende a faixa etária entre 10
e 19 anos e 11 meses, sendo que para a legislação
brasileira são consideradas a idade entre 12 e 18 anos.1
É um período de grandes transformações não apenas
no aspecto biológico, mas também no psicológico e
em todo seu contexto social e cultural.2 Nessa fase, há
maior interesse em conhecer o próprio corpo, agora
em processo de mudança, há um “despertar” para a
sexualidade, além de conflitos e curiosidade diante
do novo, que os leva à maior exposição a riscos nesse
período de intensa vulnerabilidade.3
Nas últimas décadas, vêm ocorrendo a antecipação
da idade de início da atividade sexual, o aumento do
número de parceiros sexuais e a associação entre o
início da vida sexual e o menor nível de escolarização
dos adolescentes.4
Esses fatores, somados à falta de informações consistentes sobre sexualidade e de acesso a serviços de
planejamento familiar, têm levado ao aumento no
número de internações por gravidez, parto e puerpério,
além da ocorrência de DSTs ou gestação não planejada
na adolescência.2,5,6
Para alguns autores, a ocorrência de uma DST ou uma
gestação não planejada pode trazer consequências
para o desenvolvimento social da mãe e/ou do pai
adolescente, destacando-se o abandono à escola
formal, a dificuldade para inserção precoce no mercado
de trabalho e a interrupção no processo normal de
desenvolvimento psicoafetivo e social, a fim de assumir
o papel de mãe ou pai que, consequentemente,
interferirão em sua saúde integral.7
A discussão sobre sexualidade nas escolas foi introduzida pelo Ministério da Saúde em 1998, por meio
dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que
preconizam o tema sexualidade nas turmas do ensino
médio8, porém há grande dificuldade por parte das
escolas em abordar a questão, muitas vezes por falta
de preparo dos professores, que já acumulam uma série
atividades no seu cotidiano.2
Visando preencher essa lacuna, o Programa Saúde
da Família (PSF) tem sido apontado como essencial
574
para atender a essa atual e crescente demanda, por
ser a estratégia que mais se aproxima das condições
socioculturais do adolescente, cumprindo, assim, os
princípios do SUS. Entre os profissionais que compõem
a ESF, o enfermeiro e o agente comunitário de saúde
desempenham papel estratégico para a reorientação do
modelo assistencial por meio de parcerias com outras
redes sociais para a criação de laços de compromisso
e de corresponsabilidade entre profissionais de saúde,
escola e adolescentes.9
A escola tem sido considerada por muitos autores como
espaço ideal de reflexão e mudança de comportamento,
por meio de práticas educativas que abordam questões
do cotidiano dos adolescentes. Segundo Hoffmann e
Zampieri,2 as práticas de saúde nas escolas“parecem ser
um dos caminhos para o atendimento das necessidades
desse grupo, principalmente para abordagem de
assuntos relacionados à saúde sexual e reprodutiva”.
Além disso, compartilhar informações em um espaço de
debate e liberdade de expressão contribui para a adoção
de uma postura mais crítica em relação aos temas
abordados, o desenvolvimento de uma sexualidade
mais saudável e responsável e a redução do número de
jovens em situação de vulnerabilidade, por aumentar
seu conhecimento e o despertar para novas perspectivas
de vida.10
Partindo dessa necessidade, o objetivo com este
trabalho foi descrever uma experiência de orientação
sexual para adolescentes, desenvolvida em uma escola
pública de Cuiabá-MT, situada na área de abrangência
de uma Unidade Básica de Saúde da Família (UBSF),
incluída no Programa de Educação pelo Trabalho para
a Saúde (PET-Saúde). Buscou-se verificar as lacunas do
conhecimento dos adolescentes sobre sexualidade, DST/
aids e drogadição, trazendo elementos novos a serem
somados, sanando-lhes as dúvidas mais frequentes,
promovendo o empoderamento, que permite mudança
de atitude e maior responsabilidade em relação a si
próprio, ao outro e à sociedade.
Trata-se de um relato de experiência de duas bolsistas
do Programa PET-Saúde, bem como da preceptora da
UBSFamília e da tutora do Programa, vinculadas a um
Projeto de Extensão da Universidade Federal de Mato
Grosso (UFMT). Considerando as recomendações do
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em que o
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 573-578 out./dez., 2011
“adolescente tem direito a proteção à vida e à saúde,
mediante a efetivação de políticas sociais públicas que
permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e
harmonioso, em condições dignas de existência”11, as
autoras deste manuscrito se propuseram a desenvolver
e coordenar oficinas com adolescentes, em uma escola
pública de Cuiabá, abordando o tema sexualidade.
Os adolescentes foram separados em grupos mistos e
pequenos de, em média, cinco alunos em cada grupo,
coordenados por acadêmicas de enfermagem e pela
enfermeira da UBSF. Houve a participação de agentes
comunitárias de saúde (ACSs) como observadoras na
possibilidade de se tornarem multiplicadoras. Os grupos
eram independentes entre si para ditar o ritmo de cada
atividade.
PERCURSO METODOLÓGICO
Anteriormente às oficinas, cada coordenador recebeu
um kit com material para as dinâmicas (roteiro com
descrição das dinâmicas a serem aplicadas, álbum
ilustrativo sobre o parelho reprodutor masculino e
feminino, preservativo, jogos para trabalhar as questões
de tabus e transmissão de DST/aids, materiais diversos).
Os coordenadores foram treinados pela docente
da UFMT, que coordena um projeto de extensão de
educação sexual para adolescentes. O material utilizado
nas oficinas foi cedido pelo referido projeto.
O trabalho de orientação sexual para os adolescentes
desenvolveu-se por meio de oficinas participativas.
Segundo Afonso,12 a modalidade de oficina é definida
por apresentar uma proposta de aprendizagem
compartilhada, por meio de atividade grupal, cujo
objetivo é construir coletivamente o conhecimento.
A pessoa que desenvolve o trabalho com o grupo é
denominada de coordenador, moderador ou facilitador.
Ele deve conduzir o grupo de forma participativa e
problematizadora, mediante uma postura ética, além
de possibilitar a participação de todos de maneira
organizada.
As oficinas têm abordagem qualitativa, pois permite
que o pesquisador explore os dados relativos à vivência
dos indivíduos diante de situações emergentes. Tal
abordagem caracteriza-se como dinâmica e holística,
pois a preocupação é com o indivíduo em seu ambiente.
Essas características de metodologia possibilitam
compreender as experiências reveladas pelos indivíduos
tão próximos à sua realidade quanto possível.7
Para a realização das oficinas, o projeto foi aprovado pelo
Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG – CEP 613/2009). Assim, foram
realizadas oficinas com cinco turmas do 1° ano do ensino
médio, do período matutino, em uma escola pública de
Cuiabá-MT, totalizando 76 alunos, entre 14 e 17 anos. A
escola está localizada na região Sul de Cuiabá-MT, na
área de cobertura de uma UBSF que participa do PETSaúde em parceria com a UFMG.
Nas oficinas foram utilizadas dinâmicas de caráter
participativo, realizadas nos horários das aulas e na sala
dos alunos, com o seguinte conteúdo programático:
1. Sexualidade – o corpo que sente prazer (namoro, virgindade, prazer, masturbação, orgas-mo,
homossexualidade/bissexualidade/heterosexualidade);
2. O corpo que se reproduz (gestação, parto, aborto,
métodos contraceptivos);
3. O corpo que adoece – DST/aids (formas de transmissão
e prevenção);
4. Sexo mais seguro – uso do preservativo masculino e
feminino;
5. Tabus e mitos em relação à sexualidade;
6. Vulnerabilidade – drogas e violência;
7. Projeto de vida – expectativas para o futuro e condições facilitadoras/dificultadoras.
Ao iniciar a oficina, cada coordenador fez um“contrato”com
os alunos, onde foi acordado o sigilo das informações ali
debatidas e o respeito quanto às colocações dos demais.
Com o intuito de trabalhar o conhecimento do próprio
corpo, a primeira dinâmica consistiu em separar o
pequeno grupo em meninos e meninas. Aos meninos
solicitou-se que desenhassem em papel pardo o corpo
feminino e às meninas, o corpo masculino. Para que os
adolescentes pudessem partir da própria imagem, o
coordenador solicitou que um deles deitasse no papel
pardo e os demais lhe fizessem o contorno. Partindo
desse contorno, os adolescentes desenharam os órgãos
reprodutores internos e externos.
Com base nos desenhos, foram discutidas as transformações na adolescência (crescimento e desenvolvimento, distribuição de pelos/musculatura/tecido
gorduroso, diferenças entre meninos e meninas,
namoro, interesse pelo outro) e as questões fisiológicas
e anatômicas relacionadas ao corpo masculino (pênis,
glande, prepúcio/fimose, uretra, bolsa escrotal, testículos
quanto à função/tamanho/forma, espermatozoides,
vesícula seminal/sêmen, próstata, vasectomia, ereção,
ejaculação/orgasmo, semenarca, polução noturna, ânus)
e ao corpo feminino (mamas quanto à função/tamanho/
formato/diferenças, púbis, pequenos e grandes lábios,
clitóris, orgasmo, meato uretral, intróito vaginal,
diferentes tipos de hímen, canal vaginal, útero e trompas,
ovários/óvulo, menarca/menstruação, fecundação,
gravidez, gravidezes gemelar uni e bivitelina, parto
normal e cesariano, aborto natural/provocado e a
legislação brasileira, ânus).
Foi utilizado como material de apoio o álbum ilustrativo
elaborado previamente pelo projeto de extensão da
UFMT.
A segunda dinâmica consistiu em listar sobre o desenho
quais as doenças que os adolescentes consideravam
sexualmente transmissíveis (DSTs). O objetivo com essa
dinâmica foi esclarecer quais doenças são realmente
sexualmente transmissíveis e discutir sinais e sintomas
comuns, com ênfase na forma de prevenção.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 573-578 out./dez., 2011
575
Oficina sobre sexualidade na adolescência: uma experiência da equipe Saúde da Família com adolescentes do Ensino médio
Na terceira dinâmica, denominada “Verdadeiro ou falso”,
os coordenadores dividiram o papel pardo com um traço,
escrevendo de um lado verdadeiro e no outro falso. Em
seguida, eram passadas para os adolescentes algumas
afirmações (tarjas elaboradas previamente), que eles
deveriam ler, um de cada vez, em voz alta para o grupo
e colocar no campo do verdadeiro ou do falso, do modo
que achassem correto. Essas frases traziam afirmativas
relacionadas a alguns tabus e mitos, como:“Não pega aids
de pessoas conhecidas”, “A primeira relação sexual não
engravida”,“A bebida alcoólica e outras drogas aumentam
o desejo sexual”,“Tem idade certa para começar a transar”,
dentre outras. Dessa forma, foi possível desmistificar
alguns tabus sobre virgindade, conhecimento do próprio
corpo, sexualidade e gênero.
Na quarta dinâmica, denominada “Semáforo”, foram
utilizados três pequenos círculos coloridos (verde,
amarelo e vermelho) que imitavam os significados do
semáforo convencional. Esses círculos foram dispostos
para que os adolescentes lessem algumas sentenças
(tarjas elaboradas previamente) e as classificassem
em: afirmativa livre de riscos à transmissão de DSTs/
Aids (círculo verde), atentar-se quanto ao risco (círculo
amarelo) e risco total para a transmissão (círculo
vermelho). Nessa etapa, havia frases como: “Sexo oral
sem camisinha”,“Sexo anal com camisinha”,“Compartilhar
seringas ao usar drogas”, “Beijar na boca”, “Sentar-se no
vaso sanitário”, “Compartilhar toalhas”, dentre outras.
A quinta dinâmica foi uma “gincana”, em que os
adolescentes teriam de colocar e tirar um preservativo.
Eles foram divididos em dois grupos. Um membro do
grupo teria de esticar dois dedos (simulando um pênis),
outro colocaria e tiraria o preservativo e os demais
seriam os avaliadores que teriam de julgar se os seus
companheiros colocaram o preservativo de maneira
correta ou não. Ao final, quem cometesse menos erros
era premiado com um preservativo. Essa dinâmica
possibilitou discutir o uso correto do preservativo, desde
a verificação da embalagem e data de validade até sua
colocação e retirada de forma correta.
O objetivo com a sexta dinâmica foi levantar os projetos
de vida dos adolescentes (metas profissionais e/ou
pessoais). Depois que cada um escreveu seus sonhos
no papel pardo, eles eram estimulados a pensar sobre
o caminho que deveriam percorrer dos dias de hoje
até a chegada dos seus objetivos, pontuando o que
poderia facilitar ou dificultar seus projetos. Nesse
sentido, foi possível trabalhar as questões de autoestima,
importância e necessidade dos estudos, família,
relações saudáveis, prevenção de gravidez/dst/aids,
o envolvimento com drogas e violência, dentre outras
questões relativas aos projetos de vida de cada um.
Nas duas últimas dinâmicas, os grupos menores uniramse, formando um grande grupo.
Na penúltima dinâmica, foram distribuídos cartões em
branco para cada adolescente, supondo que haviam
viajado em grupo e que, ao final do passeio, eles deveriam
recolher a assinatura de três colegas com os quais eles
mais se identificaram. Entre os cartões distribuídos para
576
as assinaturas havia dois com marcações: um era um“X”
e o outro, um“círculo”. Após cada um pegar a assinatura
dos colegas, era-lhes revelado que, na verdade, as
assinaturas recolhidas referiam-se a pessoas com as quais
supostamente eles haviam mantido relação sexual sem
camisinha e que quem tinha o“X”marcado no canto do
papel era aquele que estaria infectado com o vírus HIV.
Todos os que haviam assinado o cartão eram chamados
ao centro da roda, pois haviam se contaminado, e assim
sucessivamente. Ao final da brincadeira, todos estavam
no centro da roda. Então, era revelado que apenas
quem tinha um “círculo” no canto do papel não estaria
infectado pelo vírus, pois havia sido o único a usar o
preservativo. O objetivo com dinâmica foi alertar para a
fácil e rápida propagação das DSTs/Aids e a importância
da prevenção.
Na oitava e última dinâmica, ainda dispostos no grande
grupo, balas de goma foram-lhes oferecidas, e durante
esse processo os adolescentes cantavam uma música da
preferência deles. Ao final dessa brincadeira, foi possível
refletir sobre o consumo de drogas, os cuidados com
as “facilidades” para adquiri-las e a forma sutil com que
são oferecidas.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
O objetivo com a participação das agentes comunitárias
nas oficinas foi formá-las coordenadoras para darem
continuidade ao trabalho no próximo ano, tendo em vista
que a assistência à saúde do adolescente vem ganhando
importância nos serviços de saúde do país, uma vez
que o Ministério da Saúde incentiva os profissionais de
enfermagem a implementar e divulgar suas práticas e
reflexões sobre a saúde do adolescente.13
Para tanto, foi preciso extrapolar os muros da UBSF e
ir até onde o jovem se encontra, tornando o PSF uma
referência em prevenção e promoção da saúde para este
público. Autores reforçam a ideia de que a Estratégia de
Saúde da Família é a que mais se aproxima das condições
socioculturais dos adolescentes, podendo trabalhar de
forma articulada com outros setores, serviços e redes.9
Ao aproximar-se dessa realidade, a Equipe Saúde da
Família pode conhecer suas necessidades e elaborar/
implantar novas estratégias para dar continuidade
neste trabalho, acolhendo-os e sendo resolutiva
quando é solicitada. Outros autores têm destacado a
importância de planejar e implementar ações de saúde
que contemplem as necessidades dos adolescentes nas
dimensões individual e coletiva, tendo sua realidade
como ponto de partida.2,9,14
Vale a pena ressaltar que a participação das agentes
comunitárias de saúde nas oficinas foi uma experiência
inédita, uma vez que elas ainda não haviam realizado
atividades semelhantes. Em seus estudos, Bastiani e
Padilha15 afirmam que o trabalho desenvolvido por meio
de oficinas, percebe e resgata nas ACSs a experiência
vivenciada e as coloca em um patamar de igualdade em
relação à comunidade assistida.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 573-578 out./dez., 2011
No decorrer das atividades, pôde-se perceber que
a escolha do grupo misto favoreceu a discussão de
assuntos de ambos os sexos, de modo que fossem
conhecidos por todos, compartilhando, assim, dúvidas e
vivências sobre a sexualidade particular de cada gênero.
Em sua pesquisa, Hoffmann e Zampieri2 observaram
que a separação dos grupos de discussão em meninos
e meninas sinaliza a falta de preparo dos profissionais
ao abordarem o tema sexualidade.
O número reduzido de integrantes em cada grupo
favoreceu a informalidade e o estabelecimento de
um vínculo de confiança com os adolescentes, sem
que estes se sentissem expostos e/ou ridicularizados.
A partir de então, eles começaram a ver a Unidade de
Saúde da Família como um ponto de referência para suas
necessidades, despertando-os para a preocupação com
sua saúde e o auto cuidado.
Um exemplo disso foi que alguns adolescentes, dentre os
que participaram das atividades na escola, procuraram
a Unidade de Saúde tanto para realizarem o exame
preventivo de câncer de colo de útero pela primeira vez
quanto para orientação sobre o uso do preservativo.
Para Carvalho et al.,16 o estabelecimento de vínculos
de confiança é importante para que os adolescentes
se exponham mais espontaneamente, revelando seus
medos, seus preconceitos e se abrindo ao diálogo e à
opinião dos demais participantes, proporcionando um
rico espaço de discussão e reflexão sobre a sexualidade
na adolescência.
Observou-se, no decorrer das oficinas, que, para a
maioria, o significado do termo sexualidade expressava
exclusivamente o ato sexual, bem como a utilização
de termos do senso comum para denominarem
os órgãos genitais. No decorrer das dinâmicas,
foi possível contextualizar a sexualidade em suas
diferentes expressões e apresentar os nomes científicos
correspondentes aos termos do senso comum, sem que
houvesse dificuldades ou recusas.
Esses mesmos fatos foram observados por Cipriano
et al. 17 em um trabalho com adolescentes de uma
escola pública de Cajazeiras-PB, onde foram realizadas
dinâmicas para conhecer os termos populares utilizados
para denominar os órgãos sexuais, apresentar-lhes os
termos científicos e verificar qual seu conceito sobre
sexualidade. As autoras ressaltaram que a identificação,
pelos participantes das oficinas, de que a sexualidade
abrange outros fatores além do ato sexual coopera para
a promoção do bem-estar físico, psicológico e social dos
adolescentes, permitindo o exercício da sexualidade de
forma mais segura e preventiva.
O fato de as atividades terem sido realizadas na própria
escola e no horário das aulas facilitou a integração
entre a escola e a UBSF. A parceria escola/família/saúde
constitui uma das alternativas para buscar “maneiras”
de orientação sexual aos adolescentes, facilitando a
tarefa educativa de pais e professores.18,10 Além disso,
o tema sexualidade ainda é pouco debatido em casa
e nas escolas, seja por falta de preparo dos pais e
profissionais da educação, seja por preconceitos e tabus
que necessitam ser desmistificados.2,10
CONCLUSÃO
O trabalho na escola mostrou-se uma oportunidade
importante de reflexão e discussão, ampliando o campo
de conhecimento dos adolescentes sobre a sexualidade
e a vulnerabilidade dessa fase de vida, em um espaço
onde os adolescentes passam grande parte do dia e que
lhes é familiar, favorecendo a expressão de suas dúvidas,
medos e sentimentos.
As oficinas também favoreceram a aproximação entre a
Equipe Saúde da Família e os adolescentes, o que permitiu
conhecermos o que eles entendem por sexualidade,
preenchendo as lacunas existentes sobre o assunto.
Conhecer o contexto de vida desses jovens, suas necessidades de saúde e o modo como vivem sua sexualidade é imprescindível para que se possa explorar
melhor o ambiente escolar no sentido de prevenir
agravos e promover-lhes a saúde sexual e reprodutiva,
com consequente melhoria da qualidade de vida.
No entanto, o atendimento integral às necessidades desse
grupo demanda intervenções não apenas da equipe da
UBSF, mas de ações conjuntas dos profissionais de saúde,
da escola – em especial professores e coordenadores
de ensino – e da família. Nesse sentido, sugere-se a
criação de projetos que permitam envolver família/
escola/equipe de saúde a fim de vincular a informação
à reflexão, para que cada adolescente possa exercer sua
sexualidade de forma saudável, melhorando o perfil
epidemiológico desse grupo em nosso país.
Uma parceria maior entre a escola e a UBSF é importante
para a implantação de trabalhos similares a este, fazendo
com que uma aproximação maior entre essas instituições
e os adolescentes favoreça o fortalecimento desse vínculo.
A participação dos professores juntamente com a Equipe
Saúde da Família seria uma das estratégias utilizadas para a
formação do vínculo, já que esses profissionais são os mais
próximos do público adolescente.
É preciso investir na formação de profissionais de saúde e
educadores, compreendendo as dificuldades encontradas
pelos professores em abordar esses temas com seus
alunos, pois sabemos que a participação e o envolvimento
da escola vão além da liberação do espaço físico.
Destaque-se a necessidade de os profissionais de saúde,
em especial os enfermeiros da família, conhecerem
bem as especificidades da adolescência para prestar
uma assistência integral aos adolescentes. Para isso, é
indispensável que o enfermeiro desenvolva práticas
que orientem os pais a lidar com as transformações
típicas da fase.
As práticas educativas dos enfermeiros da saúde da
família, somadas à capacitação dos profissionais da
educação, auxiliam na construção de estratégias mais
efetivas visando ao desenvolvimento saudável dos
adolescentes.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 573-578 out./dez., 2011
577
Oficina sobre sexualidade na adolescência: uma experiência da equipe Saúde da Família com adolescentes do Ensino médio
Espera-se que essa experiência possa embasar novos
trabalhos de atenção à saúde dos adolescentes e
sugere-se a introdução do tema nos cursos técnicos, de
graduação e pós-graduação na área da saúde, visando
à formação de profissionais conforme os parâmetros do
MEC e recomendações do ECA.11
Neste trabalho, envolvendo os setores de educação e
saúde em parceria com a UFMT, procurou-se ampliar
o acesso do adolescente às informações e propiciar a
reflexão e expressão de ideias sobre sexualidade, na
perspectiva de motivar mudanças de atitudes em favor
de sua qualidade de vida.
REFERÊNCIAS
1. Oliveira TC, Carvalho LP, Silva MA. O enfermeiro na atenção à saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes. Rev Bras Enferm. 2008; 61(3):
306-11.
2. Hoffmann ACOS, Zampieri MFM. A atuação do profissional da enfermagem na socialização de conhecimentos sobre sexualidade na adolescência.
Rev Saúde Pública. 2009; 2(1): 56-69.
3. Beserra EP, Pinheiro PNC, Barroso MGT. Ação educativa do enfermeiro na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis: uma investigação
a partir das adolescentes. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2008; 12(3): 522-8.
4. Amaral MA, Fonseca RMGS. Entre o desejo e o medo: as representações sociais das adolescentes acerca da iniciação sexual. Rev Esc Enferm
USP. 2006; 40(4): 469-76.
5. Borges ALV, Latorre MRDO, Schor N. Fatores associados ao início da vida sexual de adolescentes matriculados em uma unidade de saúde da
família da zona leste do Município de São Paulo, Brasil. Cad Saúde Pública. 2007; 23(7): 1583-94.
6. Romero KT, Medeiros SEHGR, Vitalle MSS, et al. O conhecimento das adolescentes sobre questões relacionadas ao sexo. Rev Assoc Med Bras.
2007; 53(1): 14-9.
7. Soares SM, Amaral MA, Silva LB, et al. Oficinas sobre sexualidade na adolescência: revelando vozes, desvelando olhares de estudantes do
ensino médio. Esc Anna Nery Rev de Enferm. 2008; 12(3): 485-91.
8. Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos: apresentação
dos temas transversais. Brasília: MS; 1998. p. 436.
9. Ferrari RAP, Thomson Z, Melchior R. Atenção à saúde dos adolescentes: percepção dos médicos e enfermeiros das equipes da saúde da família.
Cad Saúde Pública. 2006; 22(11): 2491-5.
10. Camargo EAI, Ferrari RAP. Adolescentes: conhecimentos sobre sexualidade antes e após a participação em oficinas de prevenção. Ciênc
Saúde Coletiva. 2009; 14(3): 937-46.
11. Brasil. Ministério da Educação. Assessoria de Comunicação Social. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Estatuto da Criança e do
Adolescente. Brasília: MEC; 2005.
12. Afonso L. Oficinas em dinâmica de grupo: um método de intervenção psicossocial. Belo Horizonte: Campo Social; 2000. p. 171.
13. Brasil. Ministério da Saúde. ABEn. Projeto Acolher: um encontro da enfermagem com o adolescente brasileiro. Brasília: MS; 2000. 195p.
14. Girondi JBR, Nothaft SCS, Mallmann FMB. A metodologia problematizadora utilizada pelo enfermeiro na educação sexual de adolescentes.
Cogitare Enferm. 2006; 11(2):161-5 .
15. Bastiani JAN, Padilha MICS. Experiência dos agentes comunitários de saúde em doenças sexualmente transmissíveis. Rev Bras Enferm. 2007;
60(2): 233-6.
16. Carvalho AM, Rodrigues CS e Medrado KS. Oficinas em sexualidade humana com adolescentes. Estud Psicol. 2005; 10(3): 377-84.
17. Cipriano MA, Farias MCAD, Abrantes MJG, et al. Sexualidade na escola: proposta educativa para adolescentes. IV Encontro de Extensão da
UFCG/IV Mostra Universitária de Ciência, Cultura e Arte. Campo Grande: UFCG; 2007.
18. Cano MAT, Ferriani MGC, Gomes R. Sexualidade na adolescência: um estudo bibliográfico. Rev Latinoam Enferm. 2000; 8(2): 18-24.
Data de submissão: 2/3/2010
Data de aprovação: 15/9/2011
578
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 573-578 out./dez., 2011
Revisão teórica
GRAVIDEZ DEPOIS DOS 35 ANOS: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DA
LITERATURA
PREGNANCY AFTER 35: A SYSTEMATIC REVIEW OF THE LITERATURE
EL EMBARAZO DESPUÉS DE LOS 35: UNA REVISIÓN SISTEMÁTICA DE LA LITERATURA
Laíse Conceição Caetano1
Luciana Netto2
Juliana Natália de Lima Manduca3
RESUMO
A gravidez tardia exige dos profissionais de saúde maior atenção, dada a possibilidade de complicações para a mulher,
o feto e, posteriormente, para o recém-nascido. Constatam-se a escassez de estudos sobre o assunto e a existência de
relatos e dados conflitantes em estudos realizados, justificando a proposta de fazer um levantamento bibliográfico de
artigos disponíveis nas bases de dados, de 1990-2008, sobre a gravidez após os 35 anos. Foram selecionados 74 artigos
considerando“tipo de estudo”;“enfoque”;“sujeitos da pesquisa”;“tipo de publicação”;“abordagem”;“origem”e“idioma
de publicação”. Predominaram artigos da PUBMED (91,9%), publicados em inglês (90,5%), a partir de 2003 (47,3%), na
forma de resumos (74,3%), experimentos (82,4%), quantitativos (83,8%), de origem internacional (95,9%), abordando a
mulher como sujeito de pesquisa (53,9%). Fica evidente que o evento da gravidez tardia é uma realidade em ascensão
no mundo e que há um interesse crescente no tema, porém com enfoque essencialmente biológico (58,9%). Na série
considerada, não há consenso quanto ao fator “idade materna” no desenvolvimento da gravidez de risco; a gravidez,
em qualquer faixa etária, pode vir acompanhada de condições desfavoráveis, tanto para mulher quanto para o feto,
dependendo das condições de saúde e do contexto que envolve a concepção e seu desfecho. Há necessidade de
estudos mais abrangentes, envolvendo contextos sociais, familiares e culturais, de modo a subsidiar uma atenção de
qualidade à mulher e à família, e, também, os serviços de saúde voltados para esse “novo público”.
Palavras-chave: Pesquisa; Idade Materna; Gravidez; Bases de Dados Bibliográficas.
ABSTRACT
Late pregnancy requires more attention from health professionals, once there may be more risks involving the woman,
the fetus and the newborn babies. There is a lack of studies on the subject, as well as reports and conflicting data in
some studies, justifying the proposal to draw up a bibliography of articles available in databases on pregnancy after
35, between the years 1990-2008. We selected 74 articles considering type of study, focus, research subjects, type of
publication, approach, origin and language of publication. The majority of the articles come from PUBMED (91.9%),
published in English (90.5%), from 2003 (47.3%), in the form of abstracts (74.3%), experiments (82.4 %), quantitative
(83.8%), of international origin (95.9%), addressing the woman as a subject of research (53.9%). It is evident that the
event of late pregnancy is a reality on the rise in the world and there is a growing interest in the subject, but the focus is
primarily biological (58.9%). In this specific series, there is no consensus regarding the“maternal age”in the development
of a high risk pregnancy; pregnancy at any age can be accompanied by unfavorable conditions for both woman and
the fetus, depending on health conditions and any context involving the conception and its outcome. There is need
for more comprehensive studies, considering the social, family and cultural environment, to provide quality care to the
women and the family, and also prepare the health services to give proper support to this “new public”.
Key words: Research; Maternal age; Pregnancy; Bibliographic Databases.
RESUMEN
El embarazo tardío requiere que los profesionales de la salud presten más atención debido a las posibles complicaciones
para la mujer, el feto y el recién nacido. Hay una falta de estudios sobre el tema, pero también hay informes y datos
contradictorios en los estudios, lo que justifica la propuesta de celebrar una bibliografía de artículos disponibles en bases
de datos, de 1990-2008, sobre el embarazo después de los 35. Se seleccionaron 74 artículos teniendo en cuenta el tipo
de estudio, el enfoque, los sujetos de investigación, el tipo de publicación; enfoque, el origen y el idioma de publicación.
Predominaron los artículos: de PUBMED (91,9%), en Inglés (90,5%), de 2003 (47,3%), en forma de resúmenes (74,3%),
los experimentos (82,4 %), cuantitativas (83,8%), de origen internacional (95,9%), frente a la mujer como sujeto de la
investigación (53,9%). Es evidente que hay un creciente interés en el tema, pero se centró principalmente biológicos
(58,9%). No hay consenso en cuanto al factor “edad de la madre” en el desarrollo del embarazo de riesgo, el embarazo
a cualquier edad puede ir acompañado de condiciones desfavorables, tanto para la mujer y el feto, teniendo en cuenta
la salud de la mujer y el contexto que participan en la concepción y sus resultados. Existe la necesidad de estudios
más amplios, para subvencionar una atención de calidad a las mujeres y las familias, y también a los servicios de salud
diseñados para atender a este “nuevo público”.
Palabras clave: Pesquisa; La Edad Materna; Embarazo; Bases de Datos Bibliográficos
1
2
3
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora adjunta da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora assistente da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ).
Acadêmica de Enfermagem pela UFMG.
Endereço para correspondência – Rua Bolívia nº 137, apto. 201, São Pedro, Belo Horizonte-MG. CEP: 30330-360. E-mail: laise13@yahoo.com.br.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 579-587 out./dez., 2011
579
gravidez depois dos 35 anos: uma revisão sistemática da literatura
INTRODUÇÃO
A vida de uma mulher parece seguir uma ordem lógica
de acontecimentos fisiológicos: ela nasce, cresce,
reproduz-se e morre. Para que essas etapas sejam
cumpridas, seu corpo passa por diversas modificações.
Momentos como a gravidez alteram-lhe o corpo, mas
também a mente e, por conseguinte, sua interação com
o mundo. Foi pensando nessas mudanças que a atenção
à saúde da mulher esteve, desde o início, voltada para
a maternidade, mas, à medida que o mundo evolui e
outros papéis surgem na vida em sociedade, torna-se
imperativo ampliar esse cuidado.1
Em relação ao processo de reprodução humana,
registra-se uma tendência cada vez maior de gravidez
entre mulheres que se encontram na faixa dos 35, 40
e até 45 anos. Uma gravidez, nessa faixa etária, exige
dos profissionais de saúde maior atenção, dada a
possibilidade de complicações para a mulher, para o feto
e, posteriormente, para o recém-nascido.2
Com base na literatura, Schupp2 assinala que a idade
ideal para ter filhos está entre 20 e 29 anos, e que os
extremos da vida reprodutiva estão sempre ligados a
complicações perinatais. A autora afirma, ainda, que há
variações quanto à definição de idade materna avançada
para a gravidez, sendo que alguns autores consideram o
limite de 35 anos, outros a partir dos 40 e há aqueles que
vão mais além, considerando as gestantes com idade de
45 anos ou mais.
Na faixa de idade mais avançada, pode-se observar, com
certa frequência, o aparecimento de doenças crônicas,
como hipertensão arterial, diabetes mellitus e outras,
associadas diretamente ao processo da gestação, como
abortamentos, anomalias cromossômicas, mortalidade
materna, gestação múltipla, pré-eclampsia e suas
complicações.2 Assim, a idade materna elevada é, hoje,
um motivo de preocupação, principalmente se está
relacionada à gestação e sua evolução. As estatísticas e
os estudos relacionados à saúde são, ainda, incipientes
e exigem esforço de profissionais de saúde, cuja tarefa
é cuidar dessas mulheres e de suas famílias em um
momento especial da vida.
No âmbito familiar, a mulher participa plenamente
da vida do casal. De modo geral, cabe-lhe cuidar
da casa, do relacionamento conjugal, da vida social
e, além disso, contribuir no orçamento familiar. Em
razão desse acúmulo de atribuições, modernamente,
a maternidade e o matrimônio têm sido postergados
para fases da vida nas quais nem sempre a capacidade
reprodutiva acompanha o desejo de um casal.3 O que
se percebe é que o processo de mudança nos padrões
familiares influencia diretamente as características da
natalidade, dando um direcionamento para a diminuição
progressiva de suas taxas globais e adiamento da
gravidez planejada.2
Com as modificações ocorridas na relação mulhersexualidade e mulher-realização profissional, atualmente,
os relacionamentos conjugais também se alteram. A
mulher não se vê mais obrigada a permanecer casada
580
quando chega à conclusão de que o relacionamento se
esgotou. Um novo casamento pode acontecer e, logo,
o desejo de ter um filho com o novo parceiro, o que
explica o fato de muitas mulheres procurarem clínicas
de infertilidade, na tentativa de recanalizar uma trompa
ligada. Como a fertilidade geral da mulher decai a partir
de 35 anos, também é comum ocorrer dificuldades em
engravidar, principalmente após os 40 anos.4
A gravidez tardia é considerada um fenômeno mundial.
Somente nos Estados Unidos, estima-se que uma em
cada cinco mulheres tem o seu primeiro filho após os 35
anos. Mais especificamente, na última década, a gravidez
tardia cresceu, no país, 84%, resultado da mudança de
comportamento que está redesenhando a família no
mundo.3 Estudos apontam, ainda, que a proporção de
parturições nas mulheres acima de 40 anos varia de
2%-5%.2
Dados apresentados, em 2005, pelo Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), do Ministério
da Saúde, mostram, em nosso país, aumento na
proporção de nascimentos em mães com 40 anos ou
mais, com incidência de 1,75% em 1996 e 1,95% em
2002.2 Em 2004, a Região Sudeste registrou o índice
de nascimentos de 2,17%, por idade materna, na faixa
entre 40-44 anos e de 0,11% para mulheres entre 45-49
anos, em relação a todos os nascimentos do mesmo
período.5
Os dados e as informações sobre essa realidade na
vida da mulher brasileira não são amplos e também
não permitem uma análise profunda, mas sinalizam
uma mudança na sua vida reprodutiva. A proximidade
com o tema e a prática assistencial revela a escassez de
estudos sobre o assunto, bem como relatos e dados
conflitantes em estudos já realizados. Além disso, é
preciso ressaltar que a situação de saúde materna,
no Brasil, é preocupante, pois mostra o grave quadro
epidemiológico vivido pelas mulheres e seus filhos
diante da fragilidade da assistência prestada à população.
A atenção à mulher com gravidez tardia é, então, mais
uma condição a ser somada ao quadro existente, que
pode apresentar e necessitar de especificidades na
assistência pré-natal e ao parto.
Trazer à baila um tema novo tornou-se um desafio de
suma importância para o conhecimento e a atuação
dos profissionais de saúde. Mostrou-se pertinente,
portanto, a proposta de realizar, inicialmente, um estudo
bibliográfico, por meio do levantamento de artigos
publicados e disponíveis para a pesquisa, nas bases
de dados da Literatura Latino-Americana e do Caribe
em Ciências da Saúde (LILACS), da Scientific Electronic
Library Online (SCIELO) e das Publicações Médicas
(PUBMED).
O objetivo com este estudo foi realizar um levantamento
bibliográfico de resumos e de artigos completos,
publicados e disponíveis para pesquisa, nas bases
de dados citadas, sobre o tema "gravidez após os 35
anos".
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 579-587 out./dez., 2011
METODOLOGIA
Para o estudo bibliográfico, de caráter descritivo,
realizou-se uma pesquisa nas bases de dados LILACS,
SCIELO e PUBMED, considerando publicações no período
de 1990-2008, nos idiomas português, inglês e espanhol.
Foram incluídos, ainda, os artigos, capítulos de livros e
teses utilizados para a elaboração do presente artigo.
comparativos) dificultaram a análise, de acordo com os
nossos objetivos, pois traziam variáveis comuns (grupos
de mulheres jovens e grupos de mulheres acima de 35
anos ou mais) e não permitiram extrair especificidades
relativas à gravidez tardia.
No estudo do material, foram considerados os seguintes
aspectos: tipo de estudo (experimental bibliográfico e
outros); enfoque (implicações físicas, psicioemocionais
para feto/recém-nascido, socioeconômicas e culturais,
infertilidade); sujeitos da pesquisa (somente a mulher,
a mulher e o bebê, a mulher e a família, e a idade
materna); tipo de publicação (resumo, artigo completo,
capítulo de livro, anais, outros); abordagem (qualitativa e
quantitativa); origem (nacional e internacional); e idioma
de publicação (português, inglês e espanhol).
Após a leitura exaustiva e criteriosa do material selecionado, os dados obtidos foram analisados e distribuídos de acordo com as seguintes variáveis: “tipo de
estudo”, “idioma de publicação”, “origem” (local de
publicação), “tipo de publicação”, “enfoque do estudo”,
“sujeitos da pesquisa”, “idade materna”, “abordagem” e
“ano de publicação”. Na análise, deteve-se na descrição
dos temas de cada variante eleita previamente. Com
esse procedimento, buscou-se possibilitar a oferta
organizada e facilitar a manipulação de ligações entre
os artigos que versassem sobre aspectos específicos do
tema “gravidez após os 35 anos”, publicados nas bases
de dados investigadas.
A ordem de apresentação dos resultados foi a seguinte:
base de dados, tipo de estudo, idioma de publicação,
local de publicação, origem, tipo de publicação, natureza
do estudo, ano de publicação, enfoque do estudo,
sujeitos, idade materna.
Inicialmente, outras variáveis, como a de profissionais
que desenvolveram o estudo e os descritores, foram
pensadas, entretanto a descontinuidade delas nos
materiais pesquisados impossibilitou-lhes a análise
neste estudo.
Nas consultas feitas às bases de dados citadas, foram
utilizados a expressão “idade materna” e os termos
“gravidez”,“complicações”,“fisiologia”e“psicologia”, bem
como as possíveis combinações entre eles.
RESULTADOS
No primeiro momento, foram encontrados 536 artigos
dentre os quais foram selecionados apenas os que
apresentavam resumo que permitisse avaliar, com
clareza, a associação com o tema de pesquisa.
Na pesquisa no banco de dados LILACS, foram
encontrados 108 artigos, dentre os quais 21 foram
selecionados pelo título e/ou resumo, e, após uma
seleção mais criteriosa, foi possível chegar àqueles que
abordavam mais especificamente o assunto. Assim,
foram adquiridos cinco artigos. Na base de dados SCIELO,
foi selecionado apenas um artigo.
Na pesquisa na PUBMED foram encontrados 428 artigos,
dentre os quais foram selecionados 151, pela análise do
título e/ou resumo, e, posteriormente, seguiu-se para
uma seleção mais criteriosa, na tentativa de adquirir
aqueles que realmente fossem relevantes ao estudo,
chegando ao total de 90 artigos, dentre os quais foram
descartados 22, dada a repetição na série encontrada.
Na seleção dos artigos encontrados nas bases de
dados, foram descartados 61, tendo sido eliminados
aqueles que abordavam temas referentes a técnicas
de fertilização; infertilidade; tratamento pós-menopausa; rastreamento de malformações (técnicas de
diagnóstico); e gravidez na adolescência. Tais temas
surgiram quando foram estabelecidas combinações
entre os descritores: “gravidez”, “idade materna” e
“complicações”. A utilização do descritor“idade materna
avançada”nas combinações reduziu significativamente
a quantidade de artigos encontrados. As mulheres
com idade acima de 35 anos que faziam parte de
estudos com sujeitos de outras faixas etárias (estudos
Para melhor visualização, os dados foram apresentados
em tabelas, utilizando-se as de frequência simples.
De acordo com a TAB. 1, abaixo, predomina a base
de dados da PUBMED, pela indexação MEDLINE, que
permitiu um período maior de busca, ou seja, desde
1990.
TABELA 1 – Distribuição dos artigos segundo a“base
de dados pesquisada”– Belo Horizonte, 2009
Base de dados
N°
%
Pubmed
68
91,90
Lilacs
05
6,75
Scielo
01
1,35
Total
74
100
Fonte: National Center for Biotechnology Information
Na TAB. 2, os estudos experimentais destacaram-se
em relação aos demais tipos de estudo, uma vez
que neles se encontram trabalhos nas mais diversas
modalidades: retrospectivo (n=17 – 27,9%), descritivo
(n=11 – 18%), caso-controle (n=9 – 14,8%), comparativo
(n=8 – 13,1%), coorte (n=5 – 8,2%), cross sectional,
prospectivo, longitudinal, preditivo, regressão logística,
randomização, metanálise e estudo epidemiológico (n=1
– 1,6% para cada modalidade). Três artigos não deixaram
claro o tipo de modalidade usada no experimento.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 579-587 out./dez., 2011
581
gravidez depois dos 35 anos: uma revisão sistemática da literatura
TABELA 2 – Distribuição dos artigos segundo o“tipo
de estudo” – Belo Horizonte, 2009
Tipo de estudo
N°
%
Experimental
61
82,4
Bibliográfico
9
12,2
Outros
4
5,4
Total
74
100
Fonte: National Center for Biotechnology Information
Cabe ressaltar que nos “estudos experimentais” há
artigos com ensaios e experimentos que validam a
gravidez tardia, enquanto os “estudos bibliográficos”
contemplam artigos que compilam trabalhos já
publicados, principalmente sob a forma de revisão.
Na variável“outros”, foram encontradas publicações que
não se enquadravam nas modalidades previamente
definidas. Foram reunidas, nesse item, reportagens,
debates, questionário e editoriais, dentre outros (n=1
para cada modalidade).
No Brasil, além da escassez de estudos sobre o tema,
percebe-se que, segundo o idioma, a tendência e o
direcionamento dados às produções científicas são
semelhantes às publicações de maneira geral.
A geração de conhecimento dá-se por meio de pesquisas, que estão fortemente vinculadas à produção
científica de cursos de pós-graduação. Estes, por
sua vez, estão expostos a critérios da Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior
(CAPES) – órgão do Ministério da Saúde que atribui
uma pontuação aos periódicos e à quantidade de
produção, estabelecendo, em uma escala de 1 a 7,
níveis classificatórios para os cursos. No resultado final,
dentre outros fatores avaliados pela CAPES, cada curso
de pós-graduação, a fim de ser classificado nos melhores
níveis e não ser excluído, deve apresentar produção
internacional.6 No caso específico do tema em estudo,
no que concerne ao idioma de publicação, a tendência
encontrada não difere do cenário geral.
TABELA 4 – Distribuição dos artigos segundo o“local
de publicação” – Belo Horizonte, 2009
TABELA 3 – Distribuição dos artigos segundo o
“idioma de publicação” – Belo Horizonte, 2009
Idioma de publicação
N°
%
Inglês
67
90,5
Espanhol
3
4,1
Português
2
2,7
Outros
2
2,7
Total
74
100
Fonte: National Center for Biotechnology Information
Na TAB. 3, destaca-se a distribuição dos artigos segundo
o “idioma de publicação”. Nela, comparando-se com as
demais, fica clara a tendência atual de publicação de
artigos em língua inglesa (n=67 – 90,5%), possivelmente
por ser o idioma mais difundido no mundo. Na
modalidade “outros”, foram encontradas, também,
publicações em polonês (n=2 – 2,7%).
Evidencia-se, ainda, a escassez de estudos publicados
em língua portuguesa (n=2 – 2,7%). Pela análise dos
artigos, nota-se que, mesmo estudos realizados no país
foram publicados em outro idioma, como se demonstra
na TAB. 4, em que se pode verificar a publicação de três
estudos nacionais. Como somente dois foram publicados
em português, conclui-se que o terceiro foi publicado em
outro idioma. Mais precisamente, dois estudos, realizados
no Rio de Janeiro, foram publicados em português e outro,
realizado em São Paulo, em inglês.
582
Local de publicação
N°
%
Internacional
71
95,9
Nacional
3
4,1
Total
74
100
Fonte: National Center for Biotechnology Information
De acordo com a TAB. 4, a maior parte dos artigos
encontrados se refere a estudos de origem internacional,
demonstrando o interesse de outros países em abordar
o tema “gravidez após os 35 anos” em seus estudos.
Fatores sociais, econômicos e culturais, além da presença
frequente de gravidez tardia e seus desdobramentos,
em outros países, podem ter direcionado o interesse e
a realização de trabalhos sobre o tema.
No Brasil, a tendência encontrada nos dados disponíveis
sobre fecundidade pode explicar a situação do número
de trabalhos sobre gravidez tardia. Por meio dos
resultados obtidos pelo Censo Demográfico de 2000,
verifica-se que há uma relação inversa entre fecundidade
e escolaridade, pois, à medida que se elevam os anos de
estudo, o padrão etário da fecundidade se torna mais
tardio e a quantidade de filhos por mulher diminui.
Entre mulheres sem instrução ou com menos de um ano
de estudo, a taxa de fecundidade era de 4,1 filhos por
mulher; já entre as que tinham onze anos ou mais de
estudo, a taxa ficou abaixo de 1,5 filho por mulher.7
É perceptível, também, que o aumento da escolaridade
tem levado à postergação da gravidez; entretanto,
no Brasil, embora essa tendência seja igualmente
confirmada, o país tem, ainda, um padrão etário de
fecundidade predominantemente jovem. Observou-se
que, em 2000, o padrão tardio da fecundidade feminina
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 579-587 out./dez., 2011
ainda não havia sobressaído sobre a média nacional,
provavelmente porque, à época do Censo, quase 70%
das mulheres em idade fértil (15-49 anos) tinham menos
de onze anos de estudo.7
É importante ressaltar que com a incorporação da
mulher ao mercado de trabalho a maior importância
dada ao desenvolvimento de sua escolaridade e as novas
técnicas de controle da fertilidade e de reprodução
assistida possibilitou à mulher com idade acima de 40
anos planejar, então, ter o primeiro filho.3,2
Nesse âmbito, tem-se que a gravidez tardia é um
fenômeno mundial. Entre os países que registraram
publicações sobre o assunto, pôde-se encontrar: Estados
Unidos (n=29 – 40,8%); Reino Unido (englobando a
Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales),
com n=6 (8,5%); Holanda e Canadá (n=4 – 5,6%); Israel,
Austrália e Itália (n=3 – 4,2%); Jordânia, Japão, Polônia e
México (n=2 – 2,8%); Bangladesh, Suécia, Grécia, Nigéria,
Chile, Malásia, China, Singapura, Espanha, Arábia Saudita
e Paquistão (n=1 – 1,4%).
TABELA 5 – Distribuição dos artigos segundo o“tipo
de publicação” – Belo Horizonte, 2009
como próprios ou específicos da gestação na faixa etária
considerada.
No que diz respeito ao “ano de publicação”, um número
maior de artigos foi publicado a partir de 2003 (n=35
– 47,3%), possivelmente por ser este um tema mais
condizente com a nova realidade da assistência à saúde
da mulher. Além disso, há, ainda, outros fatores que
têm contribuído para a tendência detectada no que se
refere à atenção na gravidez tardia: a maior expectativa
de vida, a consolidação da inserção da mulher no
mercado de trabalho e a jornada múltipla de afazeres
têm reforçado a postergação desse momento na vida
da mulher. Ao se estender a faixa do período, observa-se
que mais da metade dos textos foram publicados neste
século, precisamente, a partir de 1999 (n= 44 – 59,5%).
Nota-se, também, um concentrado de textos publicados
no período compreendido entre 1993 e 1995 (n=16 –
21,6%).
De acordo com a TAB. 6, abaixo, os artigos abordam
aspectos ligados, principalmente, a questões físicas e à
influência de aspectos socioeconômicos e culturais, em
se tratando de gravidez após os 35 anos (n=56 – 58,9%,
e n=23 – 24,2%, respectivamente).
TABELA 6 – Distribuição dos artigos segundo o
“enfoque do estudo” – Belo Horizonte, 2009
Tipo de publicação
N°
%
Resumo
55
74,3
Artigo completo
16
21,6
Outros
3
4,1
Total
74
100
Fonte: National Center for Biotechnology Information
Na TAB. 5, indica-se que a maioria dos textos disponibilizados nas bases de dados pesquisadas encontra-se
sob a forma de resumos (n=55 – 74,3%) e, em menor
escala, sob a forma de artigos completos (n=16 –
21,6%), apesar de a atualidade constituir-se uma era
digital, em que as informações circulam com mais
facilidade, comparando-se com tempos remotos. Não
foram encontrados textos publicados em capítulo
de livro, anais de evento ou banco de teses, variáveis
previstas neste estudo. Na modalidade “outros”, foram
encontrados editoriais (n=2) e debate (n=1).
Quanto à“abordagem dos estudos”, tem-se a tendência
de desenvolvimento de trabalhos usando o tratamento
quantitativo (n=62 – 83,8%), em relação aos de natureza
qualitativa (n=12 – 16,2%), possivelmente por ser essa
uma abordagem mais dinâmica e precisa e que se ajusta
às variáveis eleitas e de interesse dos pesquisadores
no tema em estudo. O fenômeno da gravidez tardia
é cada vez mais frequente na prática assistencial e os
questionamentos sobre as repercussões físicas para a
mulher e seu filho ainda necessitam de atenção; a busca
por evidências científicas está circunscrita aos eventos
clínicos perinatais, pois, muitas vezes, não se apresentam
Enfoque do estudo
N°
%
Implicação física
56
58,9
Socioeconômico e cultural
23
24,2
Infertilidade
9
9,5
Implicação psicoemocional
7
7,4
Total
95
100
Fonte: National Center for Biotechnology Information
O enfoque no aspecto físico justifica-se pelo fato de a
informação sobre a idade materna ter um impacto sobre
o resultado da gestação. Atualmente, cerca de 10% das
gestações ocorrem em mulheres com idade superior a
35 anos e que podem apresentar risco aumentado para
complicações obstétricas, morbidade e mortalidade
perinatal, caso apresentem doença crônica ou estejam
em má condição física. Para a mulher de peso normal e
fisicamente bem, sem problemas médicos, os riscos não
são muito elevados.8
Em estudo realizado na Inglaterra, por Anne-Marie Nybo
Andersen,9 assinala-se que 13,5% das gestações, em
mulheres entre 20 e 29 anos, terminam com morte fetal
e o risco de aborto espontâneo é de 8,9%. Em mulheres
com idade de 42 anos ou mais, essa taxa sobe para mais
de 50%, para os casos de morte fetal, e para 74,7%, para
o risco de aborto espontâneo.
Durante a evolução da gestação, a mulher tem maior
probabilidade de apresentar doença hipertensiva
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 579-587 out./dez., 2011
583
gravidez depois dos 35 anos: uma revisão sistemática da literatura
específica da gravidez (DHEG), ao passo que fatores
como obesidade contribuem para o aparecimento de
diabetes gestacional, considerado um sério risco para a
gestante na faixa dos 35 anos. Na gestação tardia, pode
ocorrer, ainda, aumento de complicações obstétricas,
como trabalho de parto prematuro, hemorragia
anteparto, trabalho de parto prolongado, gestação
múltipla, apresentações anômalas, placenta prévia e
hemorragia puerperal. 2, 19,20,21
Outros estudos também comprovam que mulheres
com idade superior a 40 anos, em sua primeira gravidez,
correm maior risco de complicações do que aquelas
que já tiveram filhos. Ressalte-se, contudo, que a
obesidade tem pior prognóstico materno-fetal em
relação à gravidez tardia, pois contribui para o aumento
da incidência de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional,
complicações obstétricas, parto prematuro, parto
cesáreo e macrossomia.2, 18,21
Outro fato importante que pode ser visualizado é
a abordagem de múltiplos aspectos num mesmo
estudo (n=18 – 18,9%). A associação entre implicações
físicas e aspectos socioeconômicos e culturais foi
a mais comumente encontrada (n=14 – 77,8% dos
casos de associações), porém, além desta, houve
outras associações, como aspectos psicoemocionais e
socioeconômicos e culturais; aspectos socioeconômicos
e culturais e infertilidade, bem como a associação de três
fatores: implicações físicas, aspectos psicoemocionais
e socioeconômicos e culturais; ou, ainda, aspectos
psicoemocionais, socioeconômicos e culturais e
infertilidade (n=1 – 5,6% para cada tipo de associação).
Apesar da ênfase nos aspectos físicos, as considerações
sociais, econômicas, culturais e emocionais encontradas
também trouxeram informações relevantes, mas
sinalizam a necessidade de enfoque mais específico em
estudos futuros.
A mulher com 40 anos ou mais que nunca teve filhos,
seja por postergação da gravidez, seja por problemas
de fertilidade, sente-se depreciada socialmente, pois o
papel da mulher está relacionado à maternidade. Para
Montgomery,10 a incapacidade de gerar descendentes
causa frustração, seja pelas cobranças advindas do
seu círculo familiar, seja pela inabilidade em dar
prosseguimento à própria existência, e, de maneira
geral, o papel da mulher como mãe está impregnado de
estereótipos e convencionalismos, o que faz com que ela
deseje sair do papel de filha para assumir o de mãe.
As mudanças nos contextos familiares e sociais têm
levado a mulher a passar pelo ciclo da maternidade
mais rapidamente do que suas avós, mas elas precisam,
ainda, exercer funções concorrentes, ao assumirem a
família e outras funções fora dela. Ter um filho muda
a perspectiva de vida da mulher e requer que sejam
assumidas responsabilidades e tarefas específicas
ligadas ao cuidado do filho. As mães de 40 anos ou
mais, em virtude do baixo índice de natalidade e, muitas
vezes, do desejo de ter um filho, acabam por concentrar
grande energia na criação dele, podendo até mudar sua
perspectiva profissional.3,11
584
A maturidade materna pode favorecer o enfrentamento
das situações de estresse e dificuldades em relação
ao filho, em sua evolução após o nascimento. Agindo
pelos significados construídos ao longo do processo
da gestação e do parto, mães e familiares procedem
de forma a garantir a sobrevivência, a evolução e o
bem-estar de uma criança que, diante, por exemplo,
de um quadro de prematuridade ou de malformações
congênitas, encontra, ao nascer, condições diferentes
do esperado para o início de uma vida.12
Apesar do aumento das taxas de sobrevivência da
mulher nos dias de hoje, os pais precisam ter maior
longevidade para cuidar e criar o filho que tiveram após
os 40 anos. Mudanças sociais e culturais ocorrem de
forma bastante dinâmica e, já mais velhos, os pais nem
sempre conseguem acompanhar os ciclos de vida dos
filhos (infância, adolescência). Conflitos nas fases tardias
do desenvolvimento do ser humano, assim como na
puberdade, podem ocorrer na forma de preconceitos
mútuos e diferenças marcantes no modo de ver o
mundo. Assim, o espaçamento entre as idades pode ser
um fator interveniente nas relações entre filhos e pais
mais velhos.11,13,14
TABELA 7 – Distribuição dos artigos segundo
“sujeitos da pesquisa” – Belo Horizonte, 2009
Sujeitos da pesquisa
N°
%
Mulher
41
53,9
Mulher - bebê
31
40,8
Mulher - família
4
5,3
Total
76
100
Fonte: National Center for Biotechnology Information
De acordo com a TAB. 7, os estudos têm trabalhado
basicamente com a mulher (n=41 – 53,9%) e com
a mulher / bebê (n=31 – 40,8%) como sujeitos de
pesquisa. Em poucos trabalhos a questão da família
como sujeito nesse processo de gravidez tardia (n=4 –
5,3%) é abordada. Alguns textos apresentaram aspectos
relacionados, especificamente, ao papel da mulher
profissional obstetra ou de enfermagem (n=2), e apenas
um trabalha a questão do companheiro no processo de
gravidez tardia (n=1). Os aspectos mais observados nos
estudos com “mulher e bebê” ressaltam a importância
do recém-nascido (RN) como sujeito desse processo,
e alguns estudos mostram que o RN é, por vezes, o
detentor do maior quantitativo de complicações. Houve,
também, a associação entre os sujeitos considerados nos
estudos, como“mulher-bebê”e“mulher-família”(n=1), e
“mulher” e “mulher-bebê” (n=1).
O maior enfoque para os sujeitos mãe e bebê tem
substrato na condição materna já apresentada, mas
também nas condições do neonato e no processo do
nascimento. A idade parece ser responsável pela maior
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 579-587 out./dez., 2011
incidência de doenças genéticas em neonato cuja mãe
tenha mais de 35 anos. O maior exemplo desse risco é
o da trissomia do cromossomo 21, síndrome de Down,
que aumenta sua incidência global de 1 em cada 600
ou 700 nascimentos, em mulheres de 20-29 anos, para
1 em 100, em maiores de 35 anos. Após a mãe atingir os
40 anos, a taxa é de 1 em 50.2, 19, 20
Há, também, riscos de ocorrência de outras anormalidades
cromossômicas, abortamento espontâneo, baixo peso ao
nascer, sofrimento fetal, macrossomia, rotura prematura
de membrana (RPM), mecônio intraparto, restrição
do crescimento fetal, distocias, placenta prévia, pósdatismo, oligoidrâmnio e polidrâmnio, internação em
UTI e óbito neonatal. Acredita-se que isso se deva ao
envelhecimento dos óvulos que se desenvolvem durante
a vida embrionária e permanecem armazenados no ovário
até a liberação, em uma ovulação mensal, como também
à condição circulatória da mulher na idade avançada.2,23
Em casos de gravidez tardia, o parto pré-termo apresenta
uma incidência de 6,6%, em mulheres de idade entre
25 e 29 anos; de 9,8%, em maiores de 35 anos; e de
7,23%, em maiores de 40 anos. Esse aumento devese, principalmente, a complicações decorridas na
gestação que terminam com a retirada do feto antes
do termo.2,19
Neonatos que passaram por complicações durante a
gestação tendem a apresentar baixo índice de Apgar –
nota que se dá ao recém-nascido, no primeiro e quinto
minutos de vida, em que são avaliados batimentos
cardíacos, respiração, tônus muscular, cor da pele e
irritabilidade reflexa. Segundo Schupp,2 as diferenças de
valores no índice de Apgar, para recém-nascidos de mães
mais jovens e daquelas maiores de 40 anos, referem-se
ao primeiro minuto. Dadas as intervenções médicas, o
recém-nascido recupera o baixo valor quando é avaliado
no quinto minuto de vida.
TABELA 8 – Distribuição dos artigos segundo“idade
materna” – Belo Horizonte, 2009
Idade materna
N°
%
> 30 anos
2
2,7
≥ 30 anos
8
10,8
> 35 anos
3
4,0
≥ 35 anos
23
31,1
> 40 anos
2
2,7
≥ 40 anos
17
23,0
≥ 45 anos
3
4,0
≥ 50 anos
2
2,7
> 60 anos
2
2,7
Outros
12
16,2
Total
74
100
Fonte: National Center for Biotechnology Information
Na TAB. 8, nota-se que não há definição de idade a
ser considerada de risco para a gravidez. Na faixa de
idade encontrada nos estudos, a maioria com apenas
um estudo correlato, confirma a ideia dos autores
que defendem que a idade, por si só, não pode ser
considerada um fator de risco sem que haja associação
com outros fatores de risco para a gravidez. Há certo
consenso relacionado ao maior risco em idade superior
à faixa de 35 a 45 anos, em que se pode verificar o
maior aglomerado de trabalhos usando esse mesmo
referencial etário. Cumpre salientar que a mulher que
opta por engravidar após os 35 anos necessita conhecer
plenamente os fatores associados aos maiores riscos,
de modo que possa buscar assistência adequada e
planejar o nascimento. Há controvérsias quanto aos reais
riscos materno-fetais nas gestações tardias, mas grande
parcela dos autores concorda que, nesses casos, trata-se
de uma gestação de risco e que necessita de cuidados
pré-natais específicos.2,22,23
Shupp2 ressalta, ainda, que, na literatura pertinente,
apesar de existirem evidências de contraposição,
os efeitos adversos da gestação tardia, em relação a
gestantes mais jovens, são similares. Em seu estudo,
realizado com mais de 240 mulheres com idades
acima de 35 anos, mostrou-se que a gestação e o
parto resultaram em crianças saudáveis, ressaltando a
importância de não se considerar somente a idade como
parâmetro para aconselhar uma mulher acima dessa
idade que deseja ter um filho.
Dados estatísticos do Ministério da Saúde/Sinasc,15,16,17
oriundos de todas as regiões do Brasil, mostram uma
realidade semelhante ao que é enfatizado por Schupp.2
Das mulheres com idade entre 40-44 anos, 89% tiveram
gestação a termo e 7,3% tiveram gestação com duração
menor que 37 semanas. Na faixa entre 45-49 anos, 86%
das mulheres tiveram gestação a termo e 9% gestação
menor que 37 semanas. Quanto ao tipo de parto das
mulheres com 40-44 anos, 48% tiveram partos vaginal
e 51,6% cesáreo. Quanto à avaliação do índice de Apgar,
no primeiro minuto, 74,7% dos recém-nascidos tiveram
escore entre 8-10, com mães na faixa de 40-44 anos.
Com idade entre 45-49 anos, 68,5% dos recém-nascidos
receberam Apagar 8-10.
O Ministério da Saúde revela, com base em dados
aferidos em 2004, que a maior parte dos nascimentos,
cerca de 70% ou 74%, entre mães de 40-44 anos,
alcançou índice de Apgar de primeiro minuto entre 8 e
10, fato que contraria a expectativa de que a maioria das
gestações tardias desenvolva complicações.17
O estudo mostra, ainda, que uma mulher com idade
entre 60-64 anos teve um filho por parto vaginal, escore
de Apgar entre 8-10 e peso ao nascer entre 2.500-2.999g.
Nota-se que 57,9% dos recém-nascidos, com mães entre
40-44 anos, tiveram peso ao nascer entre 3.000-3.999g,
enquanto 9,9% registraram baixo peso ao nascer (menos
de 2.500g). A complicação mais frequente se refere à
doença hipertensiva específica da gravidez. Os dados
indicam que a gestação, nas faixas etárias consideradas,
não necessariamente resulta em complicações que
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 579-587 out./dez., 2011
585
gravidez depois dos 35 anos: uma revisão sistemática da literatura
podem afetar mãe e filho na gestação e no parto,
mantendo, portanto, a ressalva de que a idade materna
não deve ser um fator isolado para orientar e assistir à
mulher.15,16,17
A variabilidade das faixas etárias encontradas nos textos
analisados pode estar situada na imprecisão quanto às
relações entre idade materna, evolução das gestações,
riscos e fatores relacionados à saúde da mulher. Entre os
textos selecionados para estudo que não apresentam
exatidão quanto à idade materna, há trabalhos que usam
a expressão “idade média” das mulheres.
Por fim, na modalidade“outros”, observam-se, também,
análises de gestações em idades superiores a 38 anos e
39 anos, bem como um trabalho que apresenta somente
a distinção entre “velha” e “nova”. Há, ainda, textos sem
explicitação da idade materna do estudo, encontrandose trabalhos que utilizam a expressão“idade média”das
mulheres.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conforme assinalado no início do trabalho, a gravidez
tardia é uma realidade em ascensão no mundo, havendo
um crescente interesse pelo tema, porém, com enfoque
essencialmente biológico.
Destaque-se que, na série considerada, não há posição
consensual quanto ao fator “idade materna” associado
à condição de risco, no desenvolvimento da gravidez; a
gravidez, em todas as faixas etárias, pode vir acompanhada
de condições desfavoráveis tanto para mulher quanto
para o feto, dependendo da condição de saúde e do
contexto (físico, psicoemocional, social, econômico e
cultural) que envolve a concepção e seu desfecho.
Está demonstrada a necessidade de estudos mais
aprofundados e abrangentes que envolvam demais
contextos, ou seja, sociais, familiares e culturais, não
apenas com vista à atenção de qualidade à mulher e à
família, mas também para subsidiar os serviços de saúde,
que devem se preparar para esse “novo público”, cada
vez mais presente na realidade do país.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Juliana Moreira A. Sant’Ana, pela
participação no trabalho iniciando o estudo sobre o tema,
e à Amanda Nathale Soares, pela revisão final do texto.
REFERÊNCIAS
1. Alexandre LBSP. Políticas públicas de saúde da mulher. In: Fernandes RA, Narchi NZ, organizadores. Enfermagem e saúde da mulher. São
Paulo: Manole; 2007. p.1-29.
2. Schupp TR. Gravidez após os 40 anos de idade: análise dos fatores prognósticos para resultados maternos e perinatais diversos. São Paulo:
USP; 2006.
3. Ueno J. Vida moderna faz mulher retardar gravidez. São Paulo; 2009. [Citado 2009 out 23]. Disponível em: http://www.minhavida.uol.com.br.
4. Silva HMS, Junqueira JPC, Pacheco F, et al. Gravidez depois dos 40. Belo Horizonte; 2004. [Citado 2007 maio 20]. Disponível em: http://www.
materdei.com.br/qvc/informacoes/gravidez_40.jsp.
5. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de informações sobre nascidos vivos – SINASC. Nascimento por ocorrência por idade da mãe segundo
região. Brasília: MS; 2004.
6. Passos MRL. Soberania científica brasileira. J Bras Doenças Sex Trans. 2005; 17(4): 249-50.
7. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Censo Demográfico – 2000: nupcialidade e fecundidade: resultados da amostra. Brasil;
2003. [Citado 2007 maio 27]. Disponível em: http://www1.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/26122003censofecund html.shtm.
8. Leveno KJ, Cunningham FG, MacDonald PC, et al. Manual de obstetrícia de Williams. 21ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2005.
9. Andersen A-MN, Wohlfahrt J, Christens P, et al. Maternal age and fetal loss: population based register linkage study. BMJ. 2000; 320: 1708-12.
10. Romero-Maldonado S, Quezada-Salazar CA, Barrera MD, Cabrales LM. Efecto de riesgo en el hijo de madre con edad avanzada (estúdio de
casos y controles). Ginecol Obstet Mex. 2002 Jun; 70(6): 295-302.
11. Delpished A, Brabin L, Attia E, Brabin BJ. Pregnancy late in life: a hospital based study of birth outcomes. J Womens Health (Larchmt). 2008
jul-aug; 17(6): 965-70.
12. Luke B, Brown MB. Elevated risks of pregnancy complications and adverse outcomes with increasing maternal age. Hum Reprod. 2007 may;
22(5): 1264-72.
13. Andrade PC, Linhares JJ, Martinelli S, et al. Resultados perinatais em grávidas com mais de 35 anos: estudo controlado. Rev Bras Ginecol
Obstetr. 2004 out; 26(9): 697-701.
14. Montgomery M. Mecanismos psíquicos da gravidez tardia. In: Tedesco JA, Zugaib M, Quayle J. Obstetrícia psicossomática. São Paulo:
Atheneu; 1998. p. 291.
15. Carter B, Mcgoldrick M. As mudanças no ciclo de vida familiar: uma estrutura para terapia familiar. 2ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 2001.
16. Caetano LC. Vivendo no método canguru: a tríade mãe-filho-família [Tese]. Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem, Universidade de São
Paulo; 2004.
17. Riechelmann JC. A mulher atual: perspectivas frente à gestação. In: Tedesco JA, Zugaib M, Quayle J. Obstetrícia Psicossomática. São Paulo:
Atheneu; 1998. p.40.
18. Tedesco JA, Zugaib M, Quayle J. Obstetrícia psicossomática. São Paulo: Atheneu; 1998.
19. Oboro VO, Dare FO. Pregnancy outcome in nulliparous women aged 35 ou order. West Afr J Med. 2006 jan-fev; 25(1): 65-8.
586
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 579-587 out./dez., 2011
20. Glasier A. Pregnancy in women over 45: should this be encouraged? Menopause Int. 2007; 13(1): 6-7.
21. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos – SINASC. Nascimento por ocorrência por idade da mãe segundo
duração da gestação. Brasília/DF: MS; 2004.
22. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos – SINASC. Nascimentos por ocorrência por idade da mãe segundo
tipo de parto. Brasília/DF: MS; 2004.
23. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos – SINASC. Nascimentos por ocorrência por idade da mãe segundo
Apgar 1º minuto. Brasília/DF: MS; 2004.
Data de submissão: 25/1/2010
Data de aprovação: 8/7/2011
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 579-587 out./dez., 2011
587
FAMILIARES CUIDADORES E A TERMINALIDADE: TENDÊNCIA DA
PRODUÇÃO CIENTÍFICA NA ÁREA DE SAÚDE
FAMILY CAREGIVERS AND ENDOFLIFE: TENDENCIES OF THE SCIENTIFIC PRODUCTION IN THE
HEALTH FIELD
FAMILIARES CUIDADORES Y LA TERMINALIDAD: TENDENCIAS DE LA PRODUCCIÓN CIENTÍFICA EN
EL ÁREA DE LA SALUD
Stefanie Griebeler Oliveira1
Alberto Manuel Quintana2
Maria de Lourdes Denardin Budó3
Manoela Fonseca Lüdtke4
Paula Argemi Cassel5
Shana Hastenpflug Wottrich6
RESUMO
Neste estudo objetivou-se investigar as tendências das publicações relacionadas ao familiar cuidador do doente
terminal. Esta pesquisa bibliográfica foi realizada na Biblioteca Virtual de Saúde, no mês de maio de 2009. O método
de busca dos artigos foi pela forma integrada, utilizando-se os seguintes descritores: assistência domiciliar, oncologia,
doente terminal, família e cuidados paliativos. Os cruzamentos entre esses descritores foram feitos sempre em trios, até
o esgotamento de sua probabilidade. Faz-se necessário destacar que não se realizou nenhum refinamento na Bireme,
após os achados com esses cruzamentos. O refinamento foi efetuado após a leitura exaustiva de todos os resumos
disponíveis desses trabalhos publicados. Assim, os resumos encontrados foram colocados em uma tabela organizada
com dados para análise quantiqualitativa desta pesquisa bibliográfica. Do total de 193 artigos encontrados na busca,
5 estavam repetidos, restando 188. Apenas 9 artigos foram selecionados para análise, por abordarem significados e
representações expressos pelos cuidadores familiares de pacientes terminais, no local onde se realizava o cuidado. Com
suporte nos conteúdos dos 9 artigos, sendo apenas uma publicação brasileira, organizaram-se três categorias: Equipe
de saúde como suporte na terminalidade, Decisão para o local do processo de morte e morrer e Terminalidade no
domicílio. Percebe-se a relevância deste estudo bibliográfico, dadas as poucas publicações brasileiras sobre essa temática,
tão importante para consolidação de políticas de saúde que atendam às demandas do processo de terminalidade que
envolve não somente o indivíduo, mas também sua família.
Palavras chaves: Assistência Domiciliar; Oncologia; Doente Terminal; Cuidados Paliativos.
ABSTRACT
This study aimed to investigate the trends in publications related to the family care of a terminally ill patient. This
bibliographic research was carried out in the Virtual Health Library in May 2009. The articles search methodology was
the integrated form using the following descriptors: home care; oncology; terminally ill patient; family and hospice
care. Cross-reference was carried out every three descriptors until all the probabilities were exhausted. Refinement was
conducted at Bireme after exhaustive reading of all the available abstracts of the published studies and not after the
cross-referencing. The abstracts were organized in a table containing data to be analyzed quantitatively and qualitatively.
From the 193 articles found, five had been published twice so 188 remained. Only one was published in Brazil. The nine
articles selected for analysis addressed the meanings and representations expressed by family caregivers of terminally
ill patients where the caring took place. Considering the content of such articles three categories were organized: the
health care team as support during terminality; decision regarding the place of death and dying and dying at home.
Such bibliographic studies are very important given the small number of Brazilian publications on the subject whose
consolidation is vital for the public health policies trying to meet the demands of the terminality process that affect
the individual and his/her family.
Key words: Home Care; Oncology; Terminally Ill; Hospice Care.
1
2
3
4
5
6
Enfermeira. Mestranda em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Professora substituta do Departamento de Enfermagem da UFSM. Integrante dos Grupos de Pesquisa Núcleo de Estudos Interdisciplinares em Saúde e Cuidado
Saúde e Enfermagem da UFSM. E-mail: stefaniegriebeler@yahoo.com.br.
Psicólogo. Doutor em Ciências Sociais (Antropologia Clínica). Professor Associado do Departamento de Psicologia e dos Programas de Pós-Graduação em
Psicologia (Mestrado) e em Enfermagem (Mestrado) da UFSM. E-mail: albertom.quintana@gmail.com.
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora adjunta do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (Mestrado) da
UFSM. Vice-coordenadora do Grupo de Pesquisa Cuidado, Saúde e Enfermagem. E-mail: lourdesdenardin@gmail.com.
Acadêmica do Curso de Psicologia da UFSM. Integrante do NEIS. E-mail: manuludke@hotmail.com.
Acadêmica do Curso de Psicologia da UFSM. Integrante do NEIS. E-mail: paula.acassel@gmail.com.
Psicóloga. Especialista em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do RS/Fundação Universitária de Cardiologia. Mestranda em Psicologia pela UFSM. Bolsista
CAPES/Demanda Social. Integrante do NEIS. E-mail: shana.wottrich@gmail.com
Endereço para correspondência – Avenida João Machado Soares-1250, bloco C4, Ap. 232, Bairro Camobi, Santa Maria-RS. CEP.97110-000. E-mail:
stefaniegriebeler@yahoo.com.br.
588
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 588-594 out./dez., 2011
RESUMEN
El presente estudio ha buscado investigar las tendencias de las publicaciones relacionadas al familiar cuidador de
enfermos terminales. La investigación bibliográfica fue realizada en la Biblioteca Virtual de la Salud, en mayo de 2009.
El método de búsqueda de los artículos fue de forma integrada, utilizándose los siguientes descriptores: atención
domiciliaria; oncología; enfermo terminal; familia y cuidados paliativos. Las referencias cruzadas entre los descriptores se
realizaron siempre en tríos, hasta agotar la probabilidad de los mismos. Es necesario destacar que no se realizó ningún
refinamiento en Bireme, después de los encontrados con las referencias cruzadas. El refinamiento fue efectuado después
de la lectura exhaustiva de todos los resúmenes disponibles de los trabajos publicados. Los resúmenes encontrados
fueron incluidos en una tabla organizada con datos para el análisis cualitativo y cuantitativo de esta investigación
bibliográfica. Del total de 193 artículos encontrados en la búsqueda cinco estaban repetidos, restando 188. Apenas
nueve artículos fueron seleccionados para el análisis, por enfoque de significados y representaciones expresadas
por cuidadores familiares de pacientes terminales, frente al local donde se realizaba el cuidado. Con respaldo en los
contenidos de los nueve artículos - apenas una publicación brasileña - se organizaron tres categorías: Equipos de salud
como apoyo en la terminalidad, Decisión para el lugar del proceso de muerte y morir y Terminalidad en el domicilio.
Se observa la importancia del presente estudio bibliográfico dadas las pocas publicaciones brasileñas acerca de esa
temática, sumamente importante para la consolidación de políticas de salud que atiendan a las demandas del proceso
de terminalidad, que involucra no sólo al individuo sino también a su familia.
Palabras clave: Atención Domiciliaria; Oncología ; Enfermo Terminal; Cuidados Palitativos.
INTRODUÇÃO
O processo de terminalidade da vida de um indivíduo,
que envolve um cuidador familiar, tema que permeia
esta pesquisa bibliográfica, contempla aquele que
possui uma doença considerada fora das possibilidades
terapêuticas. Em outras palavras, é o paciente que
apresenta um prognóstico de morte iminente, pois
sofre de doença avançada, progressiva e incurável,
sem resposta a tratamentos curativos, o que implica o
enfrentamento de numerosos problemas ou sintomas
intensos, que representam grande impacto emocional
para o paciente, para seus familiares e para a equipe de
saúde que o assiste.1
Esses pacientes em processo de terminalidade podem ser
encontrados em três cenários: no hospital, em um hospice
ou no domicílio. O primeiro consolidou-se diante dos
avanços tecnológicos, especificamente na área da saúde,
proporcionando que muitos fenômenos pertencentes
ao ciclo vital do ser humano fossem transformados
em acontecimentos técnicos, tais como o nascimento,
o desenvolvimento e a morte. Esses fenômenos que
aconteciam naturalmente no domicílio passaram, no
século XX, a ocorrer no hospital, sendo determinados
pela equipe de saúde em relação à sua previsibilidade.2
Esse ambiente ocupa um lugar de conhecimento e
tecnologias, aos quais se pode ter acesso rapidamente.
Mas é também um ambiente no qual, muitas vezes, se
perde a individualidade, pois os costumes e hábitos
dos pacientes não são respeitados e as rotinas lhes são
impostas.3 Já o hospice seria um ambiente específico
para cuidar de alguém em fase terminal, pois possui
profissionais especializados para atuar na busca da
qualidade de vida e do conforto do paciente, em vez da
perseguição de uma cura impossível.1
O terceiro cenário, ou seja, o domicílio do paciente,
recentemente vem sendo abordado e requisitado como
o melhor ambiente para o processo de terminalidade.
Nessa direção, há movimentos para resgatar os aspectos
humanos nas práticas de saúde, sendo um deles a
proposta do processo de morte e morrer no domicílio.4
Acredita-se que esse ambiente poderia trazer mais
conforto ao paciente terminal, já que ele se encontraria
em seu contexto, com sua família, conferindo aspectos
humanizados ao cuidado. Tal prática de cuidados, com
seus objetos e uma rotina mais individualizada, seria
prestada por um cuidador informal, familiar ou não, com
apoio de uma equipe de referência. No hospital, ocorre
o contrário. A rotina institucional hospitalar, o número
limitado de acompanhantes e visitantes, somados ao
ambiente estressante, dentre outros fatores, poderiam
potencializar diversas manifestações, tanto físicas como
psicológicas, não alcançando os objetivos de conforto e
qualidade de vida para o paciente.
No Brasil, a proposta de morte domiciliar ainda caminha
a passos lentos, pois há poucos Programas de Cuidados
Paliativos e de Serviços de Internação Domiciliar5
implantados e efetivados. Essa realidade vai ao encontro
da ênfase que ainda se dá à tecnologia, impulsionando
a ocorrência da morte na instituição. Além disso, o
Programa de Cuidados Paliativos do Brasil tem seu
principal foco no controle da dor e dos sintomas físicos,6
reforçando a visão biomédica. Outro ponto é o fato de
atender somente pacientes oncológicos, o que faz o
programa adquirir caráter de exclusão, já que existem
outras situações de terminalidade.
No que se refere à internação domiciliar, a família do
paciente tem papel fundamental no cuidar, visto que
ela constitui uma referência para o indivíduo enfermo.
Apesar de a doença ser uma vivência individual, aqueles
que ficam junto ao ser doente compartilham muitas
de suas experiências, tornando-se fonte primária
de apoio para o enfrentamento da enfermidade.7
Nessa conjuntura, o cuidado no domicílio modifica
completamente a dinâmica familiar, já que os membros
da família deparam com a necessidade de se (re)
estruturarem, havendo mudanças e inversões de papéis
a fim de realizarem os cuidados ao paciente.8 Assim,
pretendendo manter o funcionamento familiar, ocorre
uma mobilização no seio da família, que cria uma nova
organização para adaptar-se à realidade apresentada.7
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 588-594 out./dez., 2011
589
Familiares cuidadores e a terminalidade: tendência da produção científica na área de Saúde
Diante dessas considerações, com esta pesquisa objetivou-se investigar as tendências das publicações
relacionadas aos familiares cuidadores do doente
terminal no local de cuidado, sobretudo no que se refere
aos enfrentamentos, às representações e aos significados
revelados por esses sujeitos.
DESCRIÇÃO DA METODOLOGIA
Esta pesquisa bibliográfica foi realizada no mês de maio
de 2009, na Biblioteca Virtual de Saúde (Bireme), que
agrega várias bases de dados, sobretudo a Medical Line
(Medline), Literatura Latino-Americana e do Caribe em
Ciências da Saúde (Lilacs) e Scientific Eletronic Library
Online Scielo, e também permite a busca associandose vários descritores. O método de busca dos artigos
foi realizado pela forma integrada, utilizando-se os
seguintes descritores: assistência domiciliar, oncologia,
doente terminal, cuidados paliativos e família. Faz-se
necessário destacar que não foi delimitado o período
de publicações, visto que o tema buscado responde às
demandas mais recentes na área de saúde.
A justificativa para a seleção desses descritores foi seu
significado e sua relação com esta pesquisa bibliográfica.
Assim, “assistência domiciliar” corresponde ao cuidado
informal, aquele que não é realizado pelo profissional de
saúde, podendo ser executado pelo familiar ou por outra
pessoa;“doente terminal”refere-se àquele indivíduo que
está fora de possibilidades terapêuticas com o intuito de
cura, cabendo apenas os cuidados paliativos; “cuidados
paliativos”englobam toda a filosofia de cuidados com o
objetivo de proporcionar qualidade de vida e conforto
ao doente terminal e à família. O descritor“oncologia”foi
selecionado pelo fato de o câncer, em determinada fase,
ser mais facilmente aceito pelos familiares como uma
doença terminal. E, por fim, o descritor família, o qual
foi utilizado para resgatar a perspectiva dos familiares
dos doentes terminais nas publicações.
Os cruzamentos entre esses descritores foram feitos
sempre em trios, até o esgotamento de sua probabilidade.
Faz-se necessário destacar que não se realizou nenhum
refinamento na Bireme após os achados com esses
cruzamentos. O refinamento foi efetuado após a leitura
exaustiva de todos os resumos disponíveis desses
trabalhos publicados. Assim, os resumos encontrados
foram colocados em um quadro organizado com dados
para análise desta pesquisa bibliográfica. A tabela foi
composta com dados como a referência da publicação, a
base de dados em que se encontra o trabalho, a área do
estudo, o tipo de artigo, o objeto de pesquisa, o objetivo,
o método e os resultados. Também constavam nela os
itens sobre a existência de informações completas ou
limitadas no resumo, bem como sobre a disponibilidade
do artigo. Esses dados foram quantificados em
números absolutos e relativos, possibilitando uma visão
panorâmica da produção encontrada.
Para a análise qualitativa, os critérios de inclusão foram
que as publicações fossem pesquisas; possuíssem
informações completas; tivessem relação com o objetivo
590
desta investigação, bem como demonstrassem as representações, significados, desafios, implicações para
os cuidadores familiares de pacientes terminais no
espaço em que o cuidado é realizado. Dessa forma, as
publicações que preencheram esses critérios foram
analisadas na íntegra.
Como critérios de exclusão para a análise qualitativa, foram retirados dessa etapa do trabalho os artigos que não
fossem pesquisas, os que se repetiam, os que não possuíam
relação com o objetivo desta investigação e os que não
possuíam informações completas. Dessa forma, totalizaram nove artigos. Destes, oito foram publicados após o ano
de 2000 e somente um foi publicado em 1999.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Do total de 193 artigos encontrados na busca, 5 eram
repetidos, restando 188. Dos artigos localizados, 167
(89%) estavam na MEDLINE, 21 (11%) na LILACS e,
destes últimos, 5 encontravam-se, também, na Scielo.
A identificação por área de estudo nem sempre era
facilmente realizada. Quando ela ficava difícil nos dados
disponíveis, a publicação era notificada como da área
da saúde. Assim, encontraram-se 64 (34%) publicações
realizadas pela medicina, 28 (14%) pela enfermagem, 12
(6%) da psicologia e as outras se enquadraram na área geral
de saúde, na qual se encontram a maioria das publicações,
sendo 84 (46%) ao todo. Nesta última categoria, entraram
as publicações com informações limitadas na Bireme.
Quanto à classificação desses artigos encontrados,
90 (47%) eram de pesquisa com seres humanos, 19
(10%) eram de reflexão teórica, 1 (0,5%) de pesquisa
bibliográfica, 30 (16, 5%) como relato de experiência ou
de caso e 48 (26%), enquadrados na categoria“outros”, por
serem editoriais, cartas ou pela falta de informações. Em
relação às informações disponíveis sobre a publicação,
80 (42%) possuíam informações completas; 45 (24%)
tinham dados parciais, contendo apenas título, objetivo,
sem metodologia clara ou definida; e 63 (34%) possuíam
dados incompletos, constando apenas os autores, o título
da publicação e a revista.
Diante desses resultados, ressalte-se que, apesar
de a medicina ter o maior número de publicações
encontradas nessa busca, esses estudos se referiam
mais a terapêuticas utilizadas na atenção aos pacientes
terminais, o que não interessava ao objetivo deste estudo
bibliográfico. Dessa forma, os estudos selecionados para
a análise qualitativa abarcaram mais os desenvolvidos
pela enfermagem e também pela psicologia.
Dos nove artigos selecionados para análise qualitativa
(QUADRO 1), oito foram publicados após o ano de 2000,
o que pode estar relacionado à emergente demanda de
cuidados paliativos, aos movimentos de humanização
das práticas de saúde, dentre outros fatores. Apenas uma
dessas publicações pertence ao Brasil, sendo o restante
de abrangência internacional. Esses estudos foram
selecionados para esta etapa da pesquisa bibliográfica
justamente por abordarem significados e representações
expressos pelos cuidadores familiares de pacientes
terminais no local onde realizam o cuidado.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 588-594 out./dez., 2011
QUADRO 1 – Artigos selecionados para análise
Abrangência/
Origem
Periódico
Artigo
Autores
Ano
Método
Revista Brasileira
de Enfermagem
O cuidado paliativo domiciliar
sob a ótica de familiares
responsáveis pela pessoa
portadora de neoplasia
Silva CAM, Acker
JIBV.
2007
Pesquisa
Qualitativa/
Entrevista
Nacional/
Brasil
JAMA
Family Perspectives on
End-of-Life Care at the Last
Place of Care
Joan M. Teno;
Brian R. Clarridge;
Virginia Casey;
et al.
2004
Enquete
retrospectiva/
quantitative
Internacional/
Estados
Unidos da
América
Palliative Medicine
The progress of awareness and
acceptance of dying assessed
in cancer patients and their
caring relatives
John Hinton
1999
Estudo coorte/
quali-quantitativa
Internacional/
Inglaterra
Cancer
Mental Health, Treatment
Preferences, Advance Care
Planning, Location, and Quality
of Death in Advanced Cancer
Patients With Dependent
Children
Matthew E.
Nilsson, BS et al.
2009
Estudo Coorte
Prospectivo,
Quantitativo
Internacional/
Estados
Unidos da
América
Social Science &
Medicine
Discrepancy in the preferences
of place of death between
terminally ill cancer patients
and their primary family
caregivers in Taiwan
Siew Tzuh Tang,_,
Tsang-Wu Liu,
Mei-Shu Lai, Ruth
McCorkle
2005
Estudo quanti/
qualitativo
Internacional/
Taiwan
Palliative Medicine
Variations in and factors
influencing family members’
decisions for palliative home
care
Kelli I Stajduhar
and Betty Davies
2005
Estudo
Etnográfico/
qualitative
Internacional/
Estados
Unidos da
América
Pallitative
Medicine
Advanced cancer at home:
caregiving and bereavement
Silvia Rossi
Ferrario et al.
2004
Estudo
quantitativo
Internacional/
Itália
European Journal
of Cancer Care
Caregivers’ perceptions about
terminally ill family members’
quality of life
Melin-Johansson
C., Axelsson B.,
Danielson E.
2007
Estudo qualitativo
Internacional/
Suécia
Palliative and
Supportive Care
Family caregiver’s experiences
in caring for a patient with
terminal cancer at home in
Japan
Tomomi Sano et al.
2007
Estudo
quantitativo
Internacional/
Japão
Fonte: Dados da pesquisa.
Com relação aos países de origem dos estudos, esta
revisão abarcou uma amplitude de cenários. À medida
que os artigos trazem realidades culturais de contextos
diversos, desde asiático, americano, até europeu, cabe
ressaltar que a categorização realizada para os fins deste
estudo precisou levar em consideração as diferenças
biopsicossociais, ao se buscar generalizações para a
temática. Além disso, identificou-se uma ampla gama
de desenhos e métodos para a realização de estudos
sobre o assunto, tanto de abordagem qualitativa quanto
quantitativa. Tal realidade pode retratar a necessidade
de uso de variados recursos para o entendimento dos
diversos aspectos do cenário da morte domiciliar, por se
tratar de um tema bastante complexo e abordado por
diversas áreas do conhecimento científico.
Com suporte nos conteúdos dos nove artigos, foram
categorizadas três temáticas9: Equipe de saúde como
suporte na terminalidade; Decisão para o local do processo
de morte e morrer; e Terminalidade no domicílio.
Equipe de saúde como suporte na terminalidade
Nos estudos10,11 realizados com cuidadores familiares, foi
desvelada a insatisfação desses sujeitos com a equipe
de saúde de referência, pois relataram fraco suporte
emocional prestado, tanto para o paciente quanto para
a família. Além disso, em um desses estudos10 foram
reveladas queixas em relação ao apoio da equipe na
estruturação do ambiente para atender às necessidades
do paciente e do cuidador.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 588-594 out./dez., 2011
591
Familiares cuidadores e a terminalidade: tendência da produção científica na área de Saúde
Nessadireção,destaque-sequeosprogramasdeCuidados
Paliativos e de Internação Domiciliar preconizam como
fundamental a presença de uma equipe de suporte
nas dimensões físicas e emocionais de atendimento ao
cuidador familiar do doente terminal no domicílio. Além
disso, a equipe de saúde tem a incumbência de avaliar
as condições do paciente e do domicílio, para que ele
seja cuidado nesse cenário.5,6 Somam-se, também, as
atribuições da equipe de saúde, em que também se
ressalta a avaliação da possibilidade de delegar as ações
específicas de cuidado do enfermeiro aos familiares,
como a supervisão de alimentação, trocas de decúbito,
higiene e trocas de roupas, entre outras atividades.
Pesquisas referem que, com um bom treinamento,
os familiares tendem a assumir tranquilamente essas
tarefas e a adquirir confiança em suas ações.12
Em contrapartida, em outro estudo mostrou-se que,
quando os cuidadores familiares possuíam acesso
à equipe durante as 24 horas, predominava neles o
sentimento de segurança.11 Da mesma forma, se havia
o acesso aos hospices, como se demonstrou em um dos
estudos,13 a aceitação da morte por parte dos familiares
e do próprio paciente era mais precoce. Em outro
estudo revelou-se a satisfação com as intervenções da
equipe de cuidados paliativos em relação ao cuidado
no domicílio.14
Estar fora de possibilidade de cura não significa
estar fora de possibilidade de vida. Dessa forma, o
acompanhamento da equipe de saúde ao paciente e
à família deve ser consolidado com disponibilidade,
atenção, carinho, zelo, conforto, para que sejam
atingidos os objetivos de proporcionar qualidade de
vida na terminalidade.15 Diante disso, percebe-se que é
relevante a presença da equipe de saúde como suporte
no processo de morte e morrer do doente terminal, já
que tal situação abrange tanto as dimensões físicas
quanto as psicológicas. Dessa forma, reforça-se que a
equipe necessita estar atenta não somente às condições
emocionais da família, mas também estruturais, para
cuidar do doente terminal no domicílio.
Além disso, quando a comunicação entre a equipe e o
núcleo paciente-família é efetiva, aceitar a morte como
natural parece favorecer o bem-estar e o conforto na
terminalidade da vida, sobretudo quando o processo
de morte e morrer ocorre no domicílio. Em tal contexto,
o paciente encontra-se em um ambiente familiar
confortável, com dinâmica diferente do hospital, que
limita o número de visitas, possui horários próprios de
alimentação, higiene e administração de medicamentos.
Tais características dos ambientes institucionais
podem representar um cuidado que despersonifica
o indivíduo,16 contrapondo-se ao ambiente propício
para um cuidado que implique real consideração das
necessidades daquele paciente terminal.
Decisão para o local do processo de morte e morrer
Os determinantes para a escolha do local do processo
de morte e morrer permeiam o desejo do paciente.10,11,16
592
As preferências dos locais dependem tanto do doente
quanto da família,10, 16 do acesso aos serviços de saúde,11,
16
dentre outros. O poder dessa escolha pressupõe
a autonomia do indivíduo, também prevista nos
Programas de Cuidados Paliativos.6
A institucionalização da morte, ou seja, a morte que
ocorre no hospital, ainda parece prevalecer. Nessa direção,
em um estudo17 revelou-se que a maioria dos casos de
pacientes terminais investigados teve sua morte no
hospital ou numa instituição de cuidados, sendo a casa o
local onde aconteciam as mortes com menor frequência.
Entre a parcela que teve o processo de morte no domicílio,
grande parte dos pacientes teve acesso ao serviço de
hospice. Nesse contexto, segundo relatos de familiares
de pacientes terminais, em momento póstumo à morte,
houve maior preocupação sobre a qualidade do cuidado
no final da vida para aqueles pacientes cujo último local
de cuidado foi o ambiente hospitalar ou uma instituição
de cuidados, em comparação com os que morreram
em ambiente domiciliar com cuidados de hospice.1 Em
contrapartida, em outro estudo18 realizado com pacientes
em estágio avançado de câncer e seus companheiros
conjugais, que possuíam acompanhamento de equipes
de saúde, revelou-se que grande parte deles morreu no
domicílio.18 Nesse sentido, sugere-se nas publicações
encontradas que, quando há presença da equipe de
saúde para suporte de cuidado ao paciente e à família, a
tendência é que esses doentes morram em casa.
Em outra pesquisa, grande proporção dos pacientes
relatou que sua escolha para o processo de morte e
morrer seria pelo ambiente doméstico. Já os familiares
cuidadores tendiam a selecionar o hospital como espaço
mais adequado para o cuidado, mesmo considerando
que o domicílio potencializa a qualidade de vida. Nesse
sentido, eles demonstraram que tinham ciência sobre os
sistemas de apoio necessários para conseguir sustentar
essa escolha. Além disso, os familiares expressaram
a extrema exigência física e emocional que envolve
o processo de cuidar na terminalidade. Assim, essas
distintas tendências entre pacientes e familiares trazem
importantes considerações, demonstrando que as
decisões diante da terminalidade da vida não são eventos
isolados, mas dependem da dinâmica familiar.19
Ainda em relação à escolha do local para o processo
de morte e morrer, em outra investigação16 revelouse que as decisões em favor da internação domiciliar
frequentemente se mostram dependentes do desejo
do doente terminal. No entanto, a possibilidade de os
familiares proporcionarem a realização dos cuidados
no domicílio nem sempre é discutida, pois depende de
recursos para assumi-los, além de não se considerar, por
parte dos familiares, que o acesso à equipe de saúde
possa minimizar a sobrecarga.16
Outro determinante para a escolha do cenário para o
processo de morte e morrer, destacado nesse mesmo
estudo, 16 concerne à existência de experiências
negativas prévias relacionadas às instituições. Nesse
caso, os depoimentos apontaram a frustração mediante
o cuidado provido pelo hospital, caracterizado como
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 588-594 out./dez., 2011
despersonalizante e paternalista. Houve relatos de
situações em que os pedidos do paciente e de seus
familiares eram minimizados pela equipe, juntamente
com a descrição da necessidade sentida pelo familiar
de que tinha de lutar por cuidados adequados, o que
ocasionava extremo desgaste e reações abruptas, tais
como o pedido de alta hospitalar.16
Assim, entende-se que a escolha do ambiente para
ocorrer o processo de morte e morrer não é um evento
isolado, pois há inúmeros determinantes para essa
decisão. Contudo, a presença de uma equipe que dê
suporte nas dimensões físicas e emocionais permeia
grande parte dessas decisões. O fator acesso, tanto a
leitos quanto às equipes de suporte, demonstra ainda ser
precário, sendo uma necessidade a ser atendida, dadas
as demandas emergentes de cuidados paliativos. Nesse
sentido, acredita-se que o aumento da disponibilidade de
serviços, tanto de cuidados paliativos como de internação
domiciliar, poderia diminuir consideravelmente a
tendência da morte institucionalizada.
Terminalidade no domicílio
A escolha do cenário domiciliar para o processo de
morte e morrer relaciona-se densamente com o fato
de o paciente estar com sua família, envolvido em um
ambiente confortável, além de ter maior autonomia
e aproveitar uma vida “normal”.16,19,20 Nesse sentido,
os horários em relação à alimentação, administração
de medicamentos, higiene e visitas ficam a critério do
paciente e da família, buscando manter uma vida social
mais aproximada do cotidiano normal.
Os familiares entrevistados em um dos estudos
mencionaram a crença de que seria benéfico para os
doentes estarem em casa, muito embora relatassem
medo a respeito do manejo adequado com os pacientes
em concomitância com uma boa relação entre paciente
e familiar. Além disso, tal escolha foi apontada como
favorável também para os familiares, uma vez que
dispensa idas ao hospital. Pela proximidade do familiar,
há redução no nível de ansiedade.11
Outra implicação apontada em um dos estudos em
relação ao cuidar no domicílio remete-se às adaptações
na estrutura física da casa, o que demanda tempo
e dinheiro. Muitas vezes, as pessoas só descobriam
essas necessidades quando já estavam com o doente
no domicílio. 19 Tais dados evidenciam os aspectos
socioeconômicos também envolvidos no contexto de
desafios e limitações presentes na situação de internação
domiciliar, na terminalidade.
Em um dos estudos14 confirma-se que 60% dos familiares
cuidadores não se sentiram sobrecarregados com tal
papel. Muitos deles relataram que o vínculo com o
doente e com a família tornou-se mais profundo, em
decorrência da situação. Assim, em geral, a avaliação dos
familiares cuidadores, em relação ao cuidado paliativo
domiciliar prestado, foi considerada boa para os doentes,
para o cuidador e para a família, havendo descrições
positivas relacionadas à manutenção da integridade
(características pessoais) do paciente até o momento
de sua morte.14
Dessa forma, pode-se pensar que a decisão sobre o
local da morte mostra-se pautada por valores pessoais
(autonomia, privacidade, proximidade da família),
mas também pela consideração de o doente ser uma
sobrecarga para a família. As necessidades específicas
de cuidado, além da disponibilidade de recursos para
os cuidados necessários no final da vida, envolvem não
somente dimensões físicas e psicológicas, mas também
sociais, econômicas e culturais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
De forma geral, os estudos constituintes desta revisão
remetem às representações, enfrentamentos e
significados do cuidado familiar do paciente terminal
nos espaços onde o cuidado é realizado, revelando
repercussões positivas quanto a este ser realizado no
espaço domiciliar. O ambiente domiciliar parece trazer
aspectos que aludem à situação de normalidade na vida
do paciente, opondo-se às características paternalistas e
despersonalizantes do ambiente institucional.
Ainda, nos estudos, mostra-se que tal realidade deve
ser investigada considerando a relação entre o doente
e seu cuidador, por formarem uma díade inseparável,
no que concerne à vivência desse momento. Enfatizese a necessidade de existir um ambiente aberto
para o compartilhamento de informações e para a
comunicação entre paciente, familiar e equipe de saúde.
Dessa maneira, quando está em ambiente doméstico, a
díade paciente-cuidador pode ter maior autonomia em
suas decisões e incremento da sensação de intimidade,
o que parece gerar maior conforto e bem-estar.
Em suma, embora seja amplamente preconizado, o
cenário de cuidados domiciliares na terminalidade
ainda não parece ser o mais presente na realidade
do doente terminal. Nessa conjuntura, os estudos
apontam a existência de um contexto de despreparo
para o cuidado do paciente em ambiente domiciliar.
Ao se considerar que o número de estudos existentes
nesta revisão pode refletir a realidade contingencial de
cuidados domiciliares na terminalidade, pode-se pensar
que a escassez de estudos brasileiros sobre a temática
esteja refletindo uma realidade de inserção de cuidados
domiciliares para pacientes terminais ainda incipiente.
Portanto, enfatize-se a relevância de estudos sobre o tema
na realidade brasileira, a fim de amparar a instituição de
uma política de saúde governamental que considere os
dados epidemiológicos e subjetivos oriundos da realidade
nacional, para atender às demandas do processo de
terminalidade, o qual envolve não somente o indivíduo
doente, mas também sua família.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 588-594 out./dez., 2011
593
Familiares cuidadores e a terminalidade: tendência da produção científica na área de Saúde
REFERÊNCIAS
1. Pessini L, Bertachini L. O que entender por cuidados paliativos? São Paulo: Paulus; 2006.
2. Ariès P. História da morte no ocidente: da idade média aos nossos dias. Rio de Janeiro: Francisco Alves; 2003.
3. Wingeste ELC, Ferraz AF. Ser assistido pelo serviço de assistência domiciliar: uma rica experiência para o doente de aids e seu cuidador. REME
Rev Min Enferm. 2008; 12(1): 34-9.
4. Hennezel M. A morte no centro da vida. In: Hennezel M. Morrer de olhos abertos. Portugal: Casa das Letras; 2006.
5. Brasil. Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (CONASS). Política Nacional de Internação Domiciliar: Nota técnica 02. Brasília; 2006 [Citado
2009 jun. 10]. Disponível em: http://www.abrasad.org.br/images/legislacao/NT02-06.pdf
6. Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Nacional do Câncer. Cuidados paliativos oncológicos: controle de sintomas. Rio de Janeiro: INCA; 2001.
7. Bielemann VLM. Uma experiência de adoecer e morrer em família. In: Elsen I, Marcon SS, Silva MRS, editores. O viver em família e sua interface
com a saúde a doença. Maringá: Eduem; 2004. p. 221-46.
8. Brondani CM. Desafios de cuidadores familiares no contexto da internação familiar [Dissertação]. Santa Maria: Universidade Federal de Santa
Maria. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem; 2008.
9. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 8ª ed. São Paulo: Hucitec; 2008.
10. Silva CAM, Acker JIBV. O cuidado paliativo domiciliar sob a ótica de familiares responsáveis pela pessoa portadora de neoplasia. Rev Bras
Enferm. 2007; 60(2): 150-54.
11. Rossi FS, Cardillo V, Vicario F, et al. Advanced cancer at home: caregiving and bereavement. Palliat Med. 2004 mar; 18(2): 129-36.
12. Echeburúa E, Corral Pde. Cómo sobrellevar mejor el proceso de duelo? In: Astudillo W, Orbegozo A, Albo ED, et al. Los cuidados paliativos,
una labor de todos. San Sebastián: Sociedad Vasca de Cuidados Paliativos; 2007. p.231-46.
13. Hinton J. The progress of awareness and acceptance of dying assessed in cancer patients and their caring relatives. Palliat Med. 1999;
13:19-35
14. Sano T, Maeyama E, Kawa M, et al. Family caregiver’s experiences in caring for a patient with terminal cancer at home in Japan. Palliat
Support Care. 2007 dec;5(4): 389-95.
15. Maciel G, Mota G, Pimentel S. Tempo de amor: a essência da vida na proximidade da morte. São Caetano do Sul (SP): Difusão; 2007.
16. Stajduhar KI, Davies B. Variations in and factors influencing family members’ decisions for palliative home care. Palliat Med. 2005 jan;19(1):
21-32.
17. Teno JM, Clarride BR, Casey V, et al. Family perspectives on end-of-life care at the last place of care. JAMA. 2004 jan; 291(1): 88-93.
18. Nilsson ME, Maciejewski PK, Zhang B, et al. Mental health, treatment preferences, advance care planning, location, and quality of death in
advanced cancer patients with dependent children. Cancer. 2009 jan;115(2): 399-409.
19. Tang ST, Liu TW, Lai MS, et al. Discrepancy in the preferences of place of death between terminally ill cancer patients and their primary family
caregivers in Taiwan. Soc Sci Med. 2005 oct; 61(7): 1560-6.
20. Melin-Johansson C, Axelsson B, Danielson E. Caregivers’ perceptions about terminally ill family members’ quality of life. Eur J Cancer Care
(Engl). 2007 jul;16(4): 338-45.
Data de submissão: 2/8/2010
Data de aprovação: 14/4/2011
594
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 588-594 out./dez., 2011
Artigo reflexivo
ESTRATÉGIAS DE IMPLANTAÇÃO DOS CONTROLES AMBIENTAIS PARA
PREVENIR A DISSEMINAÇÃO DA TUBERCULOSE HOSPITALAR
STRATEGIES FOR IMPLEMENTATION OF ENVIRONMENTAL CONTROLS TO PREVENT THE SPREAD OF
TUBERCULOSIS IN HEALTHCARE SETTINGS
ESTRATEGIAS PARA LA IMPLEMENTACIÓN DE CONTROLES AMBIENTALES EN LA PREVENCIÓN DE LA
PROPAGACIÓN DE LA TUBERCULOSIS EN LOS ESTABLECIMIENTOS DE SALUD
Vania Regina Goveia1
Silma Maria Cunha Pinheiro Ribeiro1
Eduardo Alexandrino Sérvolo de Medeiros2
Antonio Carlos Campos Pignatari3
Relato de experiência
RESUMO
A transmissão intra-hospitalar da tuberculose consiste em um problema de saúde ocupacional, e as medidas de controle
efetivas incluem os controles ambientais que visam prevenir a disseminação dessa doença e reduzir as partículas
infecciosas aéreas. Trata-se de um estudo descritivo, realizado com o objetivo de descrever a estrutura necessária para
implantar e operacionalizar uma unidade de isolamento para tuberculose com pressão negativa do ar. A unidade foi
projetada com um sistema de climatização com controle de temperatura de 22±2 oC, recirculação do ar, filtragem HEPA,
20 trocas de ar por hora e pressão negativa. Após a reforma da unidade e a implantação dos controles ambientais,
o funcionamento do isolamento respiratório foi monitorizado por 12 meses. As ocasiões em que a pressão negativa
se tornou neutra foram identificadas pelos manômetros nos quartos e nos filtros, indicando a saturação deles e sua
substituição. Em seguida, a pressão negativa foi restabelecida. O investimento para a implantação do isolamento foi
de 75 mil dólares e o custo mensal de manutenção, 550 dólares. A unidade requer gerenciamento apropriado para
assegurar a proteção dos profissionais da saúde e demais pacientes.
Descritores: Tuberculose Pulmonar; Isolamento de Pacientes; Risco Ocupacional; Ar Condicionado.
ABSTRACT
The nosocomial transmission of tuberculosis is a serious occupational health problem. An effective prevention of this disease
includes environmental measures to avoid its dissemination and to reduce the amount of droplet nuclei in the air. It is a
descriptive study that aimed to describe the necessary structure for the implementation of an isolation room with negative
air pressure for patients with tuberculosis. The units were projected with HVAC system with temperature control at 22±2
ºC, air recirculation system, HEPA filters, twenty two air changes per hour and negative air pressure. After repairs and the
implementation of the environmental control the functioning of the respiratory isolation was monitored for 12 months. In
the event of the negative air pressure becoming neutral the manometers in the room would display the filters saturation
level and the need for their replacement. Soon after that the negative air pressure could be restarted. The isolation unit
implementation required an investment of US$ 75,000.00 being the monthly repair cost US$ 550.00.The respiratory isolation
unit requires specific management strategies so as to ensure the protection of healthcare workers and patients.
Keywords: Pulmonary Tuberculosis; Patient Isolation; Occupational Risk; Air Conditioning.
RESUMEN
La transmisión intrahospitalaria de la tuberculosis es un problema de salud en el trabajo y las medidas efectivas de
control incluyen controles ambientales destinados a prevenir la diseminación de la enfermedad y reducir la cantidad
de partículas infecciosas en el aire. Este estudio se realizó con el objetivo de describir la estructura necesaria para
implementar y operar una unidad de aislamiento para la tuberculosis con presión de aire negativa. La unidad fue
diseñada con un sistema de climatización con control de temperatura de 22 ± 2 ° C, recirculación del aire, filtros HEPA,
veinte cambios de aire por hora y presión negativa. Después del proceso de reforma e implementación de los controles
ambientales, el funcionamiento del aislamiento respiratorio fue monitoreado durante doce meses. Las ocasiones en
que la presión negativa se convirtió en neutra fueron identificadas por manómetros en las habitaciones y en los filtros,
señalando saturación y necesidad de sustitución. En seguida, la presión negativa fue restablecida. La inversión para
instalar el aislamiento fue de U$S 75.000,00 y el costo de mantenimiento mensual es de U$S 550,00. La unidad requiere
estrategias de gestión adecuadas para garantizar la protección de los profesionales de la salud y de los pacientes.
Palabras clave: Tuberculosis Pulmonar, Aislamiento de Pacientes, Riesgo Ocupacional, Aire Acondicionado.
1
2
3
Professora adjunta do Departamento de Enfermagem Básica da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (ENB-EE-UFMG).
Professora adjunta da Disciplina de Infectologia do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal
de São Paulo (DIPA-EPM-UNIFESP).
Professor titular da Disciplina de Infectologia do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de
São Paulo (DIPA-EPM-UNIFESP).
Endereço para correspondência – Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EE-UFMG). Departamento de Enfermagem Básica. Rua
Alfredo Balena, 190. CEP 30130100. Belo Horizonte-MG. Telefones: (031) 3409-9854; (031) 3786-2738; (031) 9691-6122. E-mail: vaniagoveia@uol.com.br;
vaniagoveia@ufmg.br.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 595-599 out./dez., 2011
595
Estratégias de implantação dos controles ambientais para prevenir a disseminação da tuberculose hospitalar
INTRODUÇÃO
A tuberculose constitui grave problema de saúde no
mundo inteiro. A estimativa da Organização Mundial da
Saúde (OMS) é de que um terço da população mundial
esteja infectada pelo Mycobacterium tuberculosis. Vinte
e dois países são responsáveis por 80% dos casos de
tuberculose no mundo, e o Brasil ocupa o 15º lugar nesse
ranking. A incidência anual de casos no Brasil é de 48 por
100 mil habitantes.1,2
A disseminação do Mycobacterium tuberculosis ocorre
pelas partículas aéreas geradas pela tosse ou espirro
de pessoas com tuberculose pulmonar ou laríngea.
Essas minúsculas partículas infecciosas, que medem
de 1 a 5 μm, podem permanecer suspensas no ar por
longos períodos de tempo e ser transportadas através de
correntes de ar, podendo atingir os alvéolos pulmonares
de pessoas suscetíveis e causar infecção ou doença. O
risco para uma pessoa tornar-se infectada depende
da concentração de partículas no ar e da duração da
exposição ao ar contaminado. Após a contaminação
pelo Mycobacterium tuberculosis, a pessoa pode
permanecer infectada por vários anos ou para o resto
da vida, a menos que seja tratada. Apenas 5% a 10%
das pessoas infectadas desenvolverão a doença clínica.
A maioria permanece assintomática, e a única evidência
da infecção é o teste tuberculínico positivo.3
O risco ocupacional de profissionais da saúde se
infectarem pelo Mycobacteriumtuberculosis nas unidades
assistenciais foi documentado por investigações de
surtos ocorridos na década de 1990. A ocorrência da
contaminação foi associada ao atraso no início do
isolamento dos pacientes com tuberculose pulmonar,
bem como a práticas assistenciais inadequadas, a saber,
ventilação imprópria do local, falha na manutenção do
sistema de ventilação e falta de proteção respiratória
para os profissionais envolvidos com a assistência.4-9
Em estudo multicêntrico brasileiro, identificou-se alto
risco ocupacional para tuberculose com taxa de prova
tuberculínica positiva de 63,1%, que foi associada à
ausência de medidas de biossegurança nos hospitais.10
A magnitude do risco de infecção pode variar conforme
as características da instituição, a prevalência de
tuberculose na comunidade, as características dos
pacientes atendidos, o grupo de profissionais da saúde,
a unidade assistencial onde os profissionais da saúde
trabalham e a efetividade das intervenções para o
controle da tuberculose. O risco pode ser maior nas
áreas onde os pacientes com tuberculose são assistidos
antes do diagnóstico, antes do início do tratamento e
onde não estão disponíveis as medidas de prevenção
e controle. Em vários estudos sugere-se que o controle
da disseminação da tuberculose nas unidades de saúde
pode ser associado à adesão às medidas de controle de
infecção padronizadas, porém o fato de várias medidas
terem sido implantadas simultaneamente impossibilitou
avaliar a efetividade de cada intervenção.3,11
Os controles ambientais para áreas de risco de exposição
ao Mycobacterium tuberculosis visam prevenir a
596
disseminação e reduzir a concentração de partículas
infecciosas e incluem: controle da fonte infecciosa
usando exaustão local, diluição e remoção do ar
contaminado pela ventilação geral, controle da direção
do fluxo de ar para prevenir a contaminação de áreas
adjacentes e limpeza do ar por meio de filtragem.3 A
Agência Nacional deVigilância Sanitária (ANVISA) avaliou
a adequação das unidades de isolamento respiratório
dos hospitais brasileiros de referência do Sistema Único
de Saúde (SUS). Entre 47 hospitais, apenas 10 dispunham
de infraestrutura apropriada com pressão negativa e
filtragem HEPA (high efficiency particulate air) do ar.12
Apesardasrecomendaçõesnacionaiseinternacionais3,13,14
de isolamento respiratório com pressão negativa do ar
como medida de controle da disseminação de doenças
de transmissão por aerossóis, em nosso meio, não há
regulamentação ou legislação que oriente os gestores
de instituições de saúde para a criação e a manutenção
de isolamento respiratório.
Independentemente da regulamentação, considera-se
essencial avaliar o risco de transmissão de tuberculose
em instituições de saúde para o planejamento e a
implantação de isolamento respiratório com pressão
negativa do ar. Diante desse contexto, optou-se por
realizar este estudo, com o objetivo de descrever
a estrutura necessária para a implantação e a operacionalizaçãodeumaunidadedeisolamentorespiratório
para tuberculose, fundamentado nas recomendações
do Centro de Prevenção e Controle de Doenças do
Departamento de Saúde norte-americano – Centers for
Disease Control and Prevention, Department of Health
and Human Services (CDC-DHHS)3 –, bem como definir e
recomendar estratégias para a estruturação e a utilização
dos controles ambientais na prevenção da disseminação
da tuberculose intra-hospitalar.
MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de um estudo descritivo do funcionamento
de uma unidade nova de isolamento respiratório
com pressão negativa do ar e filtragem HEPA, que foi
monitorizada durante o período de 12 meses. Esta
unidade de isolamento com 8 leitos foi projetada e
implantada com um sistema de climatização com a
recirculação do ar que incluiu: o condicionamento com
controle de temperatura, a filtragem HEPA, o controle de
velocidade e a pressão negativa, tendo como referência
a American Society of Heating, Refrigerating and AirConditioning Engineers (ASHRAE) e o Centers for Disease
Control and Prevention (CDC).3, 15
Descrição do sistema de climatização da unidade
O sistema foi projetado nas limitações da área física, que
não permitia a exaustão do ar no piso ou no lado oposto
ao insuflamento. Portanto, o insuflamento e a exaustão
foram instalados na mesma parede e configurados
de forma a obter o fluxo adequado do ar dentro dos
quartos, prevenindo sua estagnação ou o curto-
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 595-599 out./dez., 2011
circuito. As grelhas foram instaladas a 30 cm do forro
para proporcionar o fluxo do insuflamento horizontal,
direcionando para a parede oposta e com um padrão
de difusão de 360o, de modo a condicionar o ambiente
e retornar para a grelha de exaustão.
Aproximadamente 20% do ar da exaustão foi projetado
para ser descarregado para o lado de fora após a
passagem pelo conjunto de filtros e substituído por
ar fresco externo, que se mistura com 80% do restante
que não foi descarregado. Esse ar passa pelo conjunto
de filtros no ducto de insuflamento, permitindo a
recirculação do ar sem contaminação. A filtragem HEPA
do ar remove 99,97% das partículas com diâmetro ≥
0,3 µm em suspensão e foi instalada nos ductos de
insuflamento e de exaustão. Para prolongar a vida
útil do filtro HEPA, denominado filtro absoluto (A) na
classificação descrita por Goveia,3,16 foram utilizados
dois tipos de pré-filtros – grosso (G) e fino (F) –, sendo o
conjunto do insuflamento formado por filtro G2, filtro
F2 e filtro A1. O conjunto de filtros da exaustão formado
por filtro G2, filtro F2 e filtro A3.
Foram instalados, nos sistemas de filtros do insuflamento
e da exaustão do ar, manômetros diferenciais tipo U para
fornecer dados exatos e objetivos da perda de carga
dos filtros que indica a saturação e a necessidade de
troca quando esta é igual a 2,5 vezes a perda da carga
inicial.
A taxa de ventilação expressa em número de trocas de
ar por hora foi estabelecida em razão das necessidades
do sistema de climatização para mover e resfriar o ar
entre 22 e 23 trocas de ar por hora, em cada quarto de
isolamento, e a temperatura em 22 ± 2 oC. A pressão
negativa foi estabelecida com o balanceamento do fluxo
de exaustão maior do que o fluxo do insuflamento do
ar, considerando a abertura e o fechamento das portas
durante a entrada e a saída de pessoas nos quartos; e,
ainda, uma antessala em cada quarto para reduzir o
escape de partículas. Foram instalados manômetros
na parede interna de cada quarto para monitorizar a
pressão negativa.
e limpeza externa dos gabinetes e painéis elétricos. As
manutenções preventivas mensais e as manutenções
corretivas foram registradas.
RESULTADOS
Controles ambientais
Pressão negativa do ar
Por meio da leitura diária dos manômetros dos quartos
de isolamento, foi detectada, em duas ocasiões, a
pressão neutra no 4º e no 11º mês de funcionamento.
O serviço de manutenção especializada foi solicitado
para a averiguação do sistema. Na primeira ocasião, foi
realizada a troca do filtro classe G2 do conjunto de filtros
da exaustão do ar, sendo restaurada a pressão negativa.
Na segunda ocasião, foi realizada a troca dos filtros G2 e
F2 do ducto de exaustão do ar, dada a saturação deles,
também indicada pela leitura do manômetro em U,
instalado no conjunto de filtros. Novamente a pressão
negativa foi restaurada em todos os quartos da unidade
de isolamento.
Após a primeira manutenção corretiva, no quarto mês de
funcionamento, decidiu-se, com a equipe de engenharia,
a troca do filtro grosso do conjunto de exaustão a
cada três meses, a fim de preservar o funcionamento
adequado do sistema.
Ao término de 12 meses, observou-se que o conjunto
de filtros do insuflamento não apresentou saturação,
não indicando substituição. Assim, foi estabelecida a
periodicidade de troca dos filtros, juntamente com a
equipe de engenharia, para o conjunto da exaustão:
filtro grosso a cada 3 meses; filtro fino a cada 12 meses
e filtro absoluto a cada 20 meses. Para o conjunto de
filtros do insuflamento de ar, foi estabelecido o prazo de
20 meses, além da averiguação dos manômetros em U
durante as manutenções preventivas.
Temperatura
Monitorização do funcionamento do isolamento
respiratório
A temperatura foi mantida em 22 ± 2 ºC.
A monitorização foi realizada pelo registro dos dados em
impressos específicos por um período de 12 meses. As
medidas de temperatura e pressão no interior de cada
quarto foram tomadas diariamente e registradas. Caso
o manômetro indicasse pressão neutra ou positiva, o
técnico da empresa de engenharia deveria ser solicitado
para a manutenção do sistema.
Manutenção preventiva, corretiva e troca dos filtros
Foi elaborado um cronograma de manutenção preventiva mensal, executado pelo técnico da empresa de
engenharia, que consistia em: inspeção do filtro de ar
do condicionador; verificação de correias, polias, fios e
cabos; leitura das temperaturas e pressões dos quartos
no controlador eletrônico, dos manômetros diferenciais
dos filtros e da pressão de baixa e alta do circuito
frigorífico; medições de correntes e tensões elétricas;
O cronograma de manutenção preventiva foi cumprido
com visitas técnicas mensais de inspeção, medição e
limpeza externa. As corretivas foram realizadas conforme
a necessidade identificada na preventiva ou quando
solicitada pelo enfermeiro responsável pela unidade
de isolamento.
A troca de filtros foi determinada por dois indicadores
independentes: manômetro dos quartos indicando
pressão neutra ou positiva e manômetro diferencial
em U mostrando perda da carga dos filtros. Entretanto,
a periodicidade para as trocas foi estabelecida como
medida de segurança para manter a pressão negativa.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 595-599 out./dez., 2011
597
Estratégias de implantação dos controles ambientais para prevenir a disseminação da tuberculose hospitalar
Investimento para a implantação dos controles
ambientais
O investimento na reforma da enfermaria para instalar
a unidade de isolamentos respiratórios com pressão
negativa do ar gerou o custo de 75 mil dólares,
incluindo todo o sistema de climatização. O contrato
de manutenção preventiva mensal com a empresa de
engenharia especializada, que incluiu as trocas dos filtros,
quando necessárias, teve o custo de 550 dólares.
DISCUSSÃO
A unidade foi estruturada à luz das recomendações
internacionais,masajustadaàrealidadefísicainstitucional
em questão. O sistema de ventilação implantado
combinou a recirculação do ar com a filtragem HEPA,
renovação em torno de 20 trocas por hora, pressão
negativa e climatização em 22oC para o conforto de
pacientes e profissionais. Dessa forma foi possível utilizar
um equipamento comercial unitário de expansão direta
e diminuir a carga térmica, minimizando o custo da
implantação, bem como o consumo de energia elétrica
e o espaço para a instalação de equipamentos.
A verificação sistemática da pressão negativa foi uma
forma de assegurar um ambiente apropriado para os
profissionais da saúde. Vários hospitais que investigaram
a ocorrência de surtos de tuberculose ocupacional
não monitorizavam rotineiramente a pressão e
identificaram falhas na manutenção da pressão negativa
do ar.4,5,7,17,18 Esses resultados reforçam a importância da
monitorização da pressão negativa, pois existem fatores
ambientais que interferem na saturação dos filtros, tais
como localização, tráfego de pessoas e quantidade de
poeira ambiental. Nesse contexto foi estabelecida a
periodicidade de troca dos filtros.
Os custos para a implantação de controles ambientais
em cinco hospitais americanos foram avaliados pelo
CDC e estão muito acima do investimento empregado
à unidade do estudo. A renovação da planta física para
novas construções foi de 163 mil dólares (variação de 45
mil a 524 mil dólares); a aquisição de novos equipamentos
foi de 70 mil dólares (variação de 31 mil a 93 mil dólares).
Um desses hospitais reformou uma unidade com dez
quartos destinados à tuberculose pelo custo de 484 mil
dólares, incluindo as mudanças no sistema de ventilação
central. Outro investiu 42 mil dólares para converter o
sistema de ventilação existente, para pressão negativa,
em dois quartos para tuberculose.19 O custo da unidade
do estudo foi menor para a renovação da planta física,
provavelmente, em razão do aproveitamento da área
física existente, incluindo quartos no final do corredor
e uma área externa que foi utilizada para a instalação
dos equipamentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As estratégias adotadas para a implantação dos controles ambientais demonstraram-se eficazes quando
planejadas e gerenciadas por profissionais competentes.
Faz-se necessário o gerenciamento adequado da unidade
com a monitorização do funcionamento do sistema de
ventilação e padronização de medidas de manutenção
para assegurar a proteção dos profissionais da saúde e
minimizar os riscos ocupacionais.
Profissionais de enfermagem, engenharia e controle de
infecçãodevemsomaresforçosparaoferecerumambiente
que assegure a saúde dos trabalhadores. Recomenda-se
a implantação de um sistema de climatização com
pressão negativa do ar para instituições com risco para a
transmissão de tuberculose.
REFERÊNCIAS
1. Brasil. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Controle da tuberculose (PNCT). [Citado 2009 dez. 4]. Disponível em: <http://portal.saude.
gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=28055>
2. World Health Organization. WHO Report, 2009 Global tuberculosis control – Brazil. [Citado 2009 dez. 4]. Disponível em: <http://www.who.int/
tb/publications/global_report/2009/pdf/bra.pdf >
3. Centers for Disease Control and Prevention. Guidelines for preventing the transmission of Mycobacterium tuberculosis in health-care settings,
2005. MMWR. 2005; 54(RR17): 1-141.
4. Beck-Sagué C, Dooley SW, Hutton MD, et al. Hospital outbreak of multidrug-resistant Mycobacterium tuberculosis infections. JAMA. 1992;
268: 1280-6.
5. Edlin BR, Tokars JI, Grieco MH, et al. An outbreak of multidrug-resistant tuberculosis among hospitalized patients with the acquired
immunodeficiency syndrome. N Engl J Med. 1992; 326: 1514-21.
6. Haas DW, Milton S, Kreiswirth BN, et al. Nosocomial transmission of a drug-sensitive W-variant Mycobacterium tuberculosis strain among
patients with acquired immunodeficiency syndrome in Tennessee. Infect Control Hosp Epidemiol. 1998; 19(9): 635-9.
7. Pearson ML, Jereb JA, Frieden TR, et al. Nosocomial transmission of multidrug-resistant Mycobacterium tuberculosis: a risk to patients and
health care workers. Ann Intern Med. 1992; 117(3): 191-6.
8. Ridzon R, KenyonT, Luskin-Hawk R, Schultz C, Valway S, Onorato IM. Nosocomial transmission of human immunodeficiency virus and subsequent
transmission of multidrug-resistant tuberculosis in a healthcare worker. Infect Control Hosp Epidemiol. 1997; 18(6): 422-3.
9. Joshi R, Reingold AL, Menzies D, Pai M. Tuberculosis among health-care workers in low and middle-income countries: a systematic review.
PLoS Med. 2006; 3(12):e494.
10. Roth VR, Garrett DO, Laserson KF, Starling CE, Kritski AL, Medeiros EAS. A multicenter evaluation of tuberculin skin test positivity and conversion
among health care workers in Brazilian hospitals. Int J Tuberc Lung Dis. 2005; 9(12):1335-42.
11. Li Y, Leung GM, Tang JW, et al. Role of ventilation in airborne transmission of infectious agents in the built environment – a multidisciplinary
systematic review. Indoor Air. 2007; 17:2-18.
598
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 595-599 out./dez., 2011
12. Parenti CF, Purificação MDS, Santos AAM, Nogueira MAA, Gomes SMT. Diagnóstico da situação das unidades de isolamento respiratório dos
hospitais de referência para atendimento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave. In: Encontro Nacional de Vigilância Sanitária sobre a
Pandemia de Influenza; 2006. [Citado 2009 jan. 11] Disponível em: <http://www.abev.com.br/controledeinfeccao/temaslivres/poster/id786.doc >
13. Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. II Consenso Brasileiro de Tuberculose. Diretrizes Brasileiras para Tuberculose 2004. J Bras
Pneumol. 2004; 30(S1):1-56.
14. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual de recomendações para o controle da tuberculose no Brasil. PNCT
2010. [Citado 2010 ago. 30]. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/manual_de_recomendacoes_controle_tb_novo.pdf>
15. American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers, Inc., ASHRAE Handbook. Fundamentals Volume. Atlanta, GA;
1993.
16. Goveia VR. Avaliação de uma unidade de isolamento respiratório para tuberculose com pressão negativa [Dissertação]. São Paulo: UNIFESP;
2000.
17. Fraser VJ, Johnson K, Primack J, Jones M, Medoff G, Dunagan WC. Evaluation of rooms with negative pressure ventilation used for respiratory
isolation in seven midwestern hospitals. Infect Control Hosp Epidemiol. 1993; 14(11): 623-8.
18. Sutton PM, Nicas M, Reinisch F, Harrison RJ. Evaluating the control of tuberculosis among healthcare workers: adherence to CDC guidelines
of three urban hospitals in California. Infect Control Hosp Epidemiol. 1998; 19(7): 487-93.
19. Kellerman S, Tokars JI, Jarvis WR. The cost of selected tuberculosis control measures at hospitals with a history of Mycobacterium tuberculosis
outbreaks. Infect Control Hosp Epidemiol. 1997; 18(08): 542-7.
Data de submissão: 5/7/2011
Data de aprovação: 8/7/2011
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 595-599 out./dez., 2011
599
Relato de experiência
METODOLOGIAS INOVADORAS NA FORMAÇÃO DE NÍVEL MÉDIO EM SAÚDE
INNOVATIVE METHODOLOGIES IN HIGH SCHOOL EDUCATION
METODOLOGÍAS INNOVADORAS EN LA FORMACIÓN DE NIVEL MEDIO
Fabíola Carvalho de A. Lima Baroni1
Paula Cambraia de Mendonça Vianna2
Suelene Coelho3
RESUMO
A Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG) incorporou-se à formação de trabalhadores
de nível médio há mais de 25 anos, em consonância com os movimentos na área da saúde e enfermagem. O objetivo
com este estudo foi analisar a proposta metodológica utilizada pela EEUFMG em parceria com o Ministério da Saúde,
tendo como referência o instrumento de avaliação do curso aplicado nas turmas de alunos (técnicos de enfermagem e
agentes comunitários de saúde). Na construção dos currículos, foi utilizada a concepção pedagógica crítico-reflexiva, e
sua organização possibilitou a articulação entre teoria e prática e a interdisciplinaridade dos conteúdos. Na construção do
modelo avaliativo, utilizou-se uma concepção de avaliação que supera a ênfase na mensuração, descrição e julgamento.
Como resultado, observou-se que a maior parte dos alunos apontou a metodologia problematizadora e a organização
curricular integrada como principais fatores que facilitaram o processo de ensino-aprendizagem.
Palavras-chave: Metodologia; Educação em Enfermagem; Recursos Humanos.
ABSTRACT
The Nursing School at the Federal University of Minas Gerais (EEUFMG) has taken part in the education of technical
health workers for 25 years keeping in line with the developments in the health and nursing area. The objective of this
study was to analyse the methodological proposal employed by the EEUFMG in partnership with the Ministry of Health,
taking as reference the evaluation process used in the courses (nursing technicians and community health workers).
The construction of the syllabuses was based in the critical reflective pedagogical concept and its organization enabled
the articulation between theory and practice and the topics interdisciplinarity. In constructing the evaluation criteria
an evaluation conception that goes beyond the emphasis on measurement, description, and judgment was used. As
a result, most students pointed out that the critical methodology and the integrated curriculum model facilitated the
teaching-earning process.
Key words: Methodologies; Nursing Education; Human Resources.
RESUMEN
Hace más de veinticinco años que la Escuela de Enfermería de la Universidad Federal de Minas Gerais (EEUFMG),
en armonía con los movimientos en el área de salud y enfermería, se dedica a la formación de trabajadores de
nivel medio. El presente estudio tiene como objeto analizar la propuesta metodológica empleada por la EEUFMG,
conjuntamente con el Ministerio de Salud, teniendo como referencia la herramienta de evaluación del curso aplicado
en las promociones de alumnos (Técnicos en Enfermería y Agentes Comunitarios de Salud). En la construcción de los
currículos se utilizó la concepción pedagógica crítico reflexiva y su organización permitió articular teoría/ práctica a la
interdisciplinariedad de los contenidos. El modelo de evaluación se construyó con una concepción de evaluación que
supera el énfasis en la mensuración, descripción y juicio. El resultado señala que la mayoría de los alumnos considera
que la metodología problematizadora y la organización curricular integrada son los factores principales para facilitar
el proceso de enseñanza- aprendizaje.
Palabras clave: Metodologías; Educacióne en Enfermería; Recursos Humanos.
1
2
3
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora adjunta da EEUFMG. E-mail: fabiolabaroni@gmail.com.
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora adjunta da EEUFMG. E-mail: paulacmv@gmail.com.
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora aposentada da EEUFMG. E-mail: suelenecoelho@hotmail.com.
Endereço para correspondência - Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG) - Av: Professor Alfredo Balena, 190. CEP:30130-100.
Santa Efigênia, Belo Horizonte - MG. E-mail: paulacmvgmail.com
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 601-606 out./dez., 2011
601
metodologias inovadoras na formação de nível médio em saúde
INTRODUÇÃO
A Escola de Enfermagem da Universidade Federal de
Minas Gerais (EEUFMG) incorporou-se à luta em prol da
formação de trabalhadores de nível médio há mais de
25 anos em consonância com os movimentos na área
da saúde e enfermagem.
No período de 2000 a 2005 a EEUFMG constituiu parceria
com o Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores
da Área de Enfermagem PROFAE/MS (BRASIL, 2001)
para a qualificação do Auxiliar de Enfermagem e, para
a Habilitação Profissional de Técnico de Enfermagem e
de 2004 a 2010, desenvolveu o processo de Formação
Inicial do Agente Comunitário de Saúde no Estado de
Minas Gerais (BRASIL, 2004).
O currículo de cada curso foi construído com base na
concepção pedagógica crítico-reflexiva, considerando
as formas de aprender do aluno adulto, seus esquemas
de assimilação, os determinantes histórico-sociais e a
influência dos padrões culturais nos processos de ensino/
aprendizagem. A organização curricular possibilitou a
articulação entre teoria e prática e a interdisciplinaridade
dos conteúdos.3 O desenvolvimento de atitudes, tais
como responsabilidade, solidariedade, iniciativa,
compromisso, respeito e trabalho em equipe, perpassou
todo o processo de ensino/aprendizagem, buscando-se
garantir o desenvolvimento de valores e atitudes que
dão expressão técnica, social e política à profissão.
do Curso de Qualificação Profissional Auxiliar de
Enfermagem (CQPAE) na modalidade de ensino
descentralizado, voltado para a clientela de trabalhadores
de enfermagem inseridos na rede de serviços de saúde.
O curso foi desenvolvido em parceria com as instituições
de serviços de saúde do Estado de Minas Gerais.
No final de 2000, a EEUFMG tornou-se parceira do
Ministério da Saúde na execução do Projeto de
Profissionalização dos Trabalhadores da Área de
Enfermagem (PROFAE), com o objetivo de promover
a melhoria da qualidade da atenção ambulatorial e
hospitalar, por meio da redução do déficit de pessoal
auxiliar de enfermagem qualificado. O projeto se insere
no cerne da implantação de uma política nacional
de recursos humanos para a saúde, com ênfase na
qualificação dos trabalhadores da área da saúde e na
humanização do atendimento em saúde, questões, por
sua vez, indissociáveis do ideário de criação do Sistema
Único de Saúde (SUS) e da institucionalização da saúde
como direito de cidadania.
Em 2002, foi criado o Curso de Educação Profissional de
Nível Técnico em Enfermagem (CEPTENF), no sentido
de se ajustar às demandas do mercado de trabalho
em saúde e atender ao Parecer CNE/CEB nº 16/99 à
Resolução CEB nº 04/99. 5,6
Na construção do modelo avaliativo, utilizou-se
uma concepção de avaliação que supera a ênfase na
mensuração, descrição e julgamento.4 Nesse sentido,
o objetivo com este estudo foi analisar a proposta
metodológica utilizada pelo Curso de Educação
Profissional da EEUFMG, tendo como referência o
instrumento de avaliação do curso aplicado nas turmas
de alunos dos cursos Técnico de Enfermagem e Agente
Comunitário de Saúde.
O CEPTENF participou da formação de pessoal de nível
médio na área da enfermagem, em parceria com o
Ministério da Saúde,1 em duas modalidades: qualificação
profissional de auxiliar de enfermagem e habilitação
profissional de técnico em enfermagem, com vista a
contribuir para a melhoria da assistência de enfermagem
e de saúde da população. Para tal, foram estabelecidos
convênios com as instituições prestadoras de serviços de
saúde tais como secretarias municipais de saúde, hospitais
e escolas de graduação em enfermagem do Estado de
Minas Gerais. Sua execução ocorreu na modalidade
descentralizada, oferecendo turmas em 242 municípios.
A TRAJETÓRIA DA EEUMG NA FORMAÇÃO DE
NÍVEL MÉDIO
O PROFAE foi finalizado em julho de 2005, sendo que
a EEUFMG formou 2.300 auxiliares e 3.520 técnicos de
enfermagem, durante a operacionalização do projeto.
Em 1980, a EEUFMG integrou-se ao Projeto Larga Escala,
proposto por convênio Interministerial − Ministério da
Saúde, Previdência e Assistência Social e Organização
Panamericana de Saúde. O propósito com esse projeto
era estabelecer uma estratégia nacional para a formação
dos trabalhadores que atuavam na rede de serviços de
saúde sem possuir qualificação e formação adequada.
Dentre eles se destacavam, por sua importância numérica e imprescindibilidade, os atendentes de
enfermagem. Engajada nesse processo, a Escola
participou da produção e revisão dos Guias Curriculares,
implantou o Curso de Especialização em Enfermagem
de Saúde Pública (CEESP), objetivando a preparação de
enfermeiros para atuar no processo de qualificação do
pessoal auxiliar, tendo sido referência para o processo
de formação em outros Estados.
Em 1996, a Escola ampliou sua ação na formação de
recursos humanos de enfermagem com a criação
602
Em decorrência do PROFAE, a Escola vem participando
da elaboração e da implementação da metodologia
utilizada no processo de avaliação e certificação
profissional proposto pelo Sistema de Certificação de
Competências (SCC/PROFAE/MS) desde 2001.
Nesse mesmo ano, participou da construção do perfil de
competências profissionais do auxiliar de enfermagem,
bem como da elaboração do banco de questões
avaliativas, junto com outras instituições de ensino do
País. Em 2006, participou da elaboração da dimensão do
saber-ser do processo de avaliação das competências
profissional do auxiliar de enfermagem promovida pelo
SCC/PROFAE/MS.
Em 2007, a EEUFMG participou do processo de Validação
da Metodologia de Avaliação de Competências/PROFAE,
juntamente com as Escolas Técnicas do SUS do Paraná,
Rio Grande do Norte, Acre e Distrito Federal. Foram
avaliados 128 auxiliares/técnicos de enfermagem.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 601-606 out./dez., 2011
Desde 2004, a EEUFMG vem participando da formação
inicial do agente comunitário de saúde, em parceria
com o Ministério da Saúde, cuja formação está pautada
pela política de educação profissional em curso. Dessa
maneira, considera a atuação do ACS no contexto
das transformações das práticas de saúde, integrante
das Equipes do Programa de Saúde da Família (ESF)
desenvolvendo seu papel social nas comunidades, por
meio de ações intersetoriais na assistência social, na
família e no meio ambiente. As ações do ACS destacamse na promoção da saúde e prevenção de agravos, o que
exige domínio do processo de trabalho, capacidade de
analisar criticamente sua prática de forma contextualizada.
Até o momento, foi realizada a educação permanente de
4.757 agentes comunitários de saúde, pertencentes a sete
Gerências Regionais de Saúde de Minas Gerais (Alfenas,
Belo Horizonte, Coronel Fabriciano, GovernadorValadares,
Nova Lima e Pouso Alegre).
O DESENVOLVIMENTO DE METODOLOGIAS
INOVADORAS NA FORMAÇÃO DE NÍVEL MÉDIO
O projeto político-pedagógico e os Guias Curriculares
do CEPTENF, compostos por módulos de ensinoaprendizagem, constituíram uma proposta pedagógica
crítico-reflexiva. A metodologia do curso ancora-se no
currículo integrado, no qual se articulam as áreas de
conhecimento, a teoria e a prática. Por outro lado, a
concepção pedagógica problematizadora possibilitou
a real integração entre o mundo do ensino e o mundo
do trabalho.
Do ponto de vista pedagógico, tanto a formação
profissional do auxiliar e técnico de enfermagem como
do agente comunitário de saúde estão fundamentados
em concepções filosóficas crítico-reflexivas que têm
como eixo norteador o aprender a aprender, que engloba
aprender a conhecer, aprender a fazer e aprender a ser.
Além disso, buscou-se desenvolver a autonomia e o
discernimento, no âmbito de sua competência, para
assegurar a integralidade, a equidade, a qualidade e a
humanização das ações prestadas ao indivíduo, à família
e à comunidade. Para tal, foi necessário desenvolver
estratégias para garantir a integração entre teoria e
prática, a articulação do processo-ensino aprendizagem e
do trabalho em saúde, bem como atitudes e valores éticos
orientados para a cidadania e para a solidariedade. Para o
acessoaoscursosdeformaçãoprofissional,exigiu-secomo
requisito que os alunos fossem trabalhadores dos serviços
de saúde existentes nos municípios conveniados.
Por se tratar de curso com turmas fora da sede e integrada
com os serviços de saúde (hospitais, ambulatórios
e Unidades Básicas de Saúde), os equipamentos e
instrumentos de rotina foram considerados como
recursos didáticos para o desenvolvimento do curso.
No caso do curso de Formação do Agente Comunitário
de Saúde, destaca-se a parceria estabelecida com as
secretarias municipais de saúde, por meio da liberação
dos enfermeiros e ACSs, durante o horário de trabalho.
Assim, os enfermeiros das secretarias municipais de
saúde atuaram como instrutores do processo ensinoaprendizagem.
A avaliação dos alunos ocorreu de forma processual
e contínua, acompanhando a aprendizagem na identificação do sucesso e das dificuldades apresentadas
durante as unidades didáticas do curso.7 Dessa maneira, a avaliação tornou-se um ato exercido habitual
e cotidianamente.8 Foi realizada por meio do acompanhamento das atividades, nos períodos de
concentração e dispersão, por docentes e profissionais de
saúde envolvidos no processo de formação, verificandose o alcance de competências e desempenhos específicos
esperados, segundo os critérios estabelecidos em cada
Unidade Didática. Os resultados foram registrados em
fichas próprias.
ANÁLISE DA PROPOSTA METODOLÓGICA
UTILIZADA PELO CEPTENF/UFMG
Asinformaçõesconstantesparaaanáliseforamcompiladas
dos instrumentos de avaliação do desenvolvimento geral
dos cursos, preenchidos pelos alunos ao final destes.
Esse instrumento permitiu uma visão geral das opiniões
expressas em cada uma das turmas, possibilitando uma
atuação mais efetiva.
No que se refere ao desempenho dos alunos, a metodologia utilizada possibilitou:
• a aproximação da teoria com a realidade profissional
proporcionando melhor assistência à saúde individual
e da comunidade;
• o interesse e a responsabilidade para com os colegas,
instrutores e para com os pacientes;
• o desenvolvimento de habilidades profissionais e a
realização de ações de saúde com maior segurança;
• a troca de experiências e vivências entre os alunos
e o instrutor, gerando melhor desempenho e relacionamento entre todos;
• a mudança de comportamento e de postura profissional
com valorização e oportunidade do trabalho em
equipe;
• a oportunidade de conhecer, analisar e refletir sobre
a realidade das instituições, pacientes e famílias sob
responsabilidade de tais trabalhadores;
• o desenvolvimento de habilidades técnicas, principalmente para as visitas domiciliares;
• a melhora da autoestima e oportunidades para aluno
se desinibir, bem como o despertar de interesse por
áreas que até então não conhecia ou dominava;
• a valorização da prática profissional, resultando em
melhora na condução das ações a serem desempenhadas;
• a criação de um espaço livre para o esclarecimento
de dúvidas e criatividade diante das atividades
propostas;
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 601-606 out./dez., 2011
603
metodologias inovadoras na formação de nível médio em saúde
• a aprendizagem por meio da interpretação dos
textos, embora alguns tenham sido apontados como
complexos;
• desempenho de atividades com clareza, precisão e
objetividade, com estímulo ao aproveitamento de
conhecimentos e experiências prévias;
• o crescimento como pessoa e o reconhecimento como
cidadão de direitos e deveres.
• disponibilidade e paciência para esclarecer dúvidas,
criatividade em sala de aula e na prática;
Para ensinar, é necessário que exista a convicção de
que a mudança é possível,9 e esse fato ficou visível nos
relatos dos alunos do Curso de Educação Profissional
da EEUFMG. Para o autor, um dos primeiros saberes
do educador é de que sua presença vá se tornando
convivência com o aluno, partindo de seu contexto de
trabalho, buscando estar com ele diante dos problemas
que apresenta. Assim, a história pode ser vista como
uma possibilidade, algo que“está sendo”. Nesse contexto
de ensino, o indivíduo não é somente aquele que
constata, mas também o que intervém como sujeito
das mudanças. O sujeito tem oportunidade de construir
o mundo com sua “subjetividade curiosa, inteligente,
interferidora na objetividade”com a qual dialeticamente
ele se relaciona.9 Assim, o indivíduo não é apenas objeto
da história, mas sujeito, que, ao constatar algo, utiliza seu
conhecimento não para ficar estático, mas para mudar.
Podemos constatar, também, que a metodologia do
curso permitiu um espaço de liberdade necessário
para o processo criativo, como pode ser constatado no
seguinte comentário dos alunos: Houve a criação de um
espaço livre para o esclarecimento de dúvidas e criatividade frente
às atividades propostas.
O grande problema que se coloca ao educador ou à
educadora de opção democrática é como trabalhar
no sentido de fazer possível que a necessidade de
limite seja assumida eticamente pela liberdade.
Quanto mais criticamente a liberdade assuma o limite
necessário tanto mais autoridade tem ela, eticamente
falando, para continuar lutando em seu nome.9
Em relação ao desempenho docente, tanto nos momentos de concentração (teoria) quanto da dispersão
(prática), salientamos que houve:
• participação ativa dos instrutores durante as atividades
de concentração;
• interesse e disposição para aprender e ensinar,
promover o diálogo e a troca de experiências;
• bom desempenho e domínio do conteúdo dos Guias
Curriculares e estímulo ao trabalho em equipe;
• responsabilidadecomoprocessoensino-aprendizagem
e na relação com o serviço.
Pelos relatos, verifica-se que a prática político-pedagógica
do curso indica estreita coerência entre teoria e prática.
Isso se deve, em parte, à educação permanente dos
instrutores, com carga horária de 90 horas, ofertada
entre as unidades didáticas do curso.
Diante de novos espaços de formação e de inovação
educacionais que se abrem hoje, a escola, mais do
que lecionadora, deve ser gestora do conhecimento,
e o professor, mais que um transmissor do
conhecimento deve ser um animador, ‘um amigo do
conhecimento’.8
Ainda para o autor, discorrer sobre as perspectivas atuais
da educação implica“falar, discutir, identificar o espírito
presente no campo das idéias, dos valores e das práticas
educacionais”.8
Quanto aos recursos didáticos do curso, a percepção
dos alunos foi de que:
• os Guias Curriculares possuem uma metodologia
interessante, facilitam a abordagem dos temas e
direcionam a metodologia;
• os conteúdos dos Guias Curriculares são de ótima
qualidade, com informações que promovem o
raciocínio crítico, analítico e reflexivo;
• os Guias Curriculares aumentam a criatividade e o
desempenho dos alunos tanto em sala de aula quanto
na dispersão (prática dos serviços);
• possuem textos atualizados e direcionados para a
prática dos cursos desenvolvidos;
• há a utilização de instrumentos adequados no
processo de avaliação de desempenho dos alunos.
O desenho curricular do curso e sua operacionalização
têm como princípio o currículo integrado. De acordo
com os relatos dos professores e alunos, ele favoreceu a
articulação entre teoria e prática ensino e serviço.
A finalidade da organização dos conhecimentos em
experiências substantivas de aprendizagem num
currículo integrado não é favorecer a capacidade de
aprender conteúdos de uma maneira fragmentada, e
sim interpretar os conhecimentos que se encontram
nessas experiências.10
• resolução de problemas com tomadas de decisões
coerentes e empenho para o alcance dos objetivos
do curso;
• interação dos professores com os alunos tanto na
concentração quanto na dispersão;
• interação dos professores da concentração com os da
dispersão e os alunos, propiciando a participação de
todos;
• interesse pela busca de informações, sobretudo
quando estas não constavam no material didático;
604
Os Guias Curriculares foram elaborados com sequências
de atividades, cuja metodologia problematizadora
possibilitou a construção do conhecimento partindose de uma situação concreta da realidade profissional
dos alunos.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 601-606 out./dez., 2011
A interdisciplinaridade vinculada ao currículo
integrado implica criar novos objetos de
conhecimento para fazer do conhecimento algo
efetivo que permita continuar aprendendo e
converta, de novo, a atividade de ensino numa
aventura social e intelectual.10
Como pode ser visualizada nos relatos, a construção do
Guia curricular parece ter servido como facilitador do
processo ensino aprendizagem tanto para professores
quanto para os alunos.
A avaliação dos alunos foi realizada por meio do acompanhamento de suas atividades, nas aulas teóricas
(período de concentração) e práticas (período de
dispersão), verificando-se o alcance de competências e
desempenhos específicos esperados. A avaliação implica
criar hierarquias de excelência, por meio das quais se
decidirão a progressão no curso seguido.7 Para o autor,
avaliação também pode ser "privilegiar um modo de
estar em aula e no mundo, valorizar formas e normas
de excelência, definir um aluno modelo, aplicado e dócil
para uns, imaginativo e autônomo para outros."7
Com relação ao desenvolvimento do curso, alguns
fatores facilitadores e dificultadores sobressaíram no
andamento das atividades.
Fatores facilitadores:
• pedagogia problematizadora, currículo integrado,
material didático e capacitação dos docentes;
• apoiodosgestores/secretáriosdesaúdedosmunicípios
envolvidos, com a aquisição de material necessário ao
curso por parte do município;
• motivação e envolvimento dos professores e alunos
para o desenvolvimento do curso;
• apoio dos coordenadores pedagógicos aos locais e
dos locais aos instrutores, com educação continuada
em serviço:
• reuniões da coordenação local com os docentes da
concentração e dispersão;
• reuniões da coordenação pedagógica de turma com
os coordenadores locais;
• local apropriado para atividades de concentração,
localização do local do curso, flexibilidade do
programa.
Fatores dificultadores:
• distância entre os municípios sedes e os municípios
dos ACSs e condições físicas das estradas e condições
climáticas desfavoráveis (período das chuvas);
• dificuldade de locomoção dos alunos da zona rural de
alguns municípios para os municípios sede por ocasião
da concentração;
• alguns instrutores e alunos tiveram de assumir despesas com material para as atividades propostas e
alimentação dos alunos em decorrência de problemas
de infraestrutura dos municípios e da falta de
compromisso de alguns gestores;
• alguns textos do Guia Curricular foram complexos e
de difícil compreensão por parte dos alunos, daí a
necessidade de buscar outros textos de apoio;
• instrumentos de avaliação extensos e redundantes.
Acredita-se que a divergência observada nos relatos
pode estar ligada a diferentes maneiras de apreensão
e assimilação de conteúdos, bem como às diferentes
formas de inserção e participação dos diversos atores
envolvidos no processo de formação. Entretanto, faz-se
necessária melhor compreensão dos fatos, visando à
superação de possíveis obstáculos encontrados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise da proposta político-pedagógica do curso de
Educação Profissional da EEUFMG denota a utilização
de metodologias inovadoras no ensino médio – por
exemplo, o currículo integrado possibilitou a real
integração entre o mundo do ensino e o mundo do
trabalho. Embora tenham sido apontados aspectos
dificultadores no desenvolvimento do curso, verificouse que os facilitadores os superaram, tanto na visão dos
alunos quanto dos professores.
O Ministério da Saúde tem investido fortemente na
política de educação profissional, articulando estratégias que envolvem o aumento da escolaridade,
a profissionalização e a educação permanente dos
trabalhadores do setor. Nesse contexto, a EEUFMG vem
cumprindo seu compromisso social e histórico com
a qualidade da assistência à saúde da população, ao
realizar a formação de 2.300 auxiliares e 3.520 técnicos
de enfermagem e 4.757 agentes comunitários de saúde,
totalizando 10.577 profissionais da saúde.
Com base nas orientações da atual política de
educação profissional, a Escola vem aprofundando as
discussões e reflexões sobre o processo de regulação da
formação dos trabalhadores de saúde, cuja perspectiva
explicita uma concepção de formação que lhes
permita a elevação da escolaridade e do desempenho
profissional.
REFERÊNCIAS
1. Brasil. Ministério da Saúde. Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da área de Enfermagem. Brasília: MS; 2001.
2. Brasil. Ministério da Saúde. Ministério da Educação. Referencial curricular para o curso técnico de agente comunitário de saúde. Brasília: MS; 2004.
3. Davini MC. Currículo Integrado. In: Brasil. Ministério da Saúde. Coordenação Geral de Desenvolvimento de Recursos Humanos para o SUS.
Capacitação pedagógica para instrutor /supervisor– Área da saúde.Brasília: MS; 1994.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 601-606 out./dez., 2011
605
metodologias inovadoras na formação de nível médio em saúde
4. Deffune D, Depresbiteris L. Competências, habilidades e currículos de educação profissional: crônicas e reflexões. São Paulo: Senac; 2000.
102 p.
5. Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. Parecer CNE/CEB nº 16/99 – Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educação Profissional de Nível Técnico. Educação profissional e tecnológica: legislação básica. 6ª ed. – Brasília: Secretaria de Educação
Profissional e Tecnológica; 2005.
6. Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. Resolução CNE/CEB nº 04/99 – Institui as Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação Profissional de Nível Técnico. Educação profissional e tecnológica: legislação básica. 6ª ed. – Brasília: Secretaria de
Educação Profissional e Tecnológica; 2005.
7. Perrenoud P. Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens: entre duas lógicas. Porto Alegre: Artes Médicas; 1999.
8. Gadotti M. Perspectivas atuais da educação. Porto Alegre: Artes Médicas Sul; 2000.
9. Freire P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra; 1996.
10. Hernandez H. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: ArtMed;1998.
Data de submissão: 4/11/2010
Data de aprovação: 4/4/2011
606
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 601-606 out./dez., 2011
A EDUCAÇÃO EM SAÚDE JUNTO AOS ADOLESCENTES PARA A
PREVENÇÃO DE DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS
HEALTH EDUCATION AMONG TEENAGENS FOR THE PREVENTION OF SEXUALLY TRANSMITTED
DISEASES
LA EDUCACIÓN EN SALUD CON LOS ADOLESCENTS PARA LA PREVENSIÓN DE ENFERMEDADES DE
TRANSMISIÓN SEXUAL
Kelanne Lima da Silva1
Carlos Colares Maia2
Fernanda Lima Aragão Dias3
Neiva Francenely Cunha Vieira4
Patrícia Neyva da Costa Pinheiro5
RESUMO
Neste artigo, relata-se uma atividade educativa realizada em uma escola com adolescentes, a qual proporcionou, por
meio de recursos tecnológicos, reflexões críticas em relação à prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis
(DSTs) e infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Adquirida (HIV). A atividade foi realizada com alunos pertencentes à
faixa etária entre 14 e 18 anos, que cursavam o ensino médio numa escola pertencente à Secretaria Executiva Regional
III, Fortaleza-CE. Foram realizados seis encontros com técnica de dinâmica grupal, nos quais foram abordados temas
como: características secundárias, sexualidade, métodos contraceptivos, DSTs e HIV. Essas oficinas possibilitaram aos
adolescentes discutir sobre a prevenção de DSTs e a infecção pelo vírus HIV, com participação ativa e interação com
seus pares e educadores. Os adolescentes participantes demonstraram interesse em adquirir mais conhecimentos e
ampliar os já existentes.
Palavras-chave: Educação em Saúde; Saúde do Adolescente; Doenças Sexualmente Transmissíveis.
ABSTRACT
This article describes an educational activity carried out in school with adolescents. Via technological resources the
activity provided the opportunity to reflect critically about the prevention of Sexually Transmitted Diseases (STDs) and
the infection by the Human Immunodeficiency Virus (HIV). It was carried out with high school students between 14 to
18 years old from the 3rd Regional Executive Office in Fortaleza-CE, Brazil. Six group dynamics seminars were performed.
They approached themes like secondary sexual characteristics, sexuality, contraceptive methods, STDs and HIV. These
workshops made possible the discussion of STD’s prevention and HIV infection with the adolescents’active participation
and interaction with their colleagues and educators. The participants demonstrated great interest in obtaining more
information about the subject as well as in broadening the knowledge they already had about theme.
Key words: Health Education; Adolescent Health; Sexually Transmitted Diseases.
RESUMEN
En este artículo se describe la actividad educativa llevada a cabo en un colegio con adolescentes. A través de recursos
tecnológicos se brindó la oportunidad de reflexionar sobre la prevención de enfermedades de transmisión sexual
(ETS) y de infección por el virus de inmunodeficiencia humana (VIH). La actividad se realizó con estudiantes entre
14 y 18 años del secundario de un colegio de la Secretaría Ejecutiva Regional III de Fortaleza-CE, Brasil. Se realizaron
seis encuentros con la técnica de dinámica en grupo donde se trataron temas tales como características secundarias,
sexualidad, anticoncepción, ETS y VIH. En estos talleres los adolescentes pudieron hablar sobre la prevención de ETS e
infección por VIH y, asimismo, participar activamente e interactuar con sus compañeros y educadores. Los adolescentes
manifestaron interés en adquirir más conocimiento y ampliar los existentes.
Palabras clave: Educación en Salud; Salud del Adolescente; Enfermedades de Transmisión Sexual.
1
2
3
4
5
Acadêmica de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza-CE. Integrante do Projeto de Pesquisa “Aids: educação e prevenção”. Bolsista
do Projeto de Pesquisa “Desmistificando crenças e valores de adolescentes do sexo masculino em favor da prevenção de DST/aids, da UFC, financiado pela
FUNCAP/CNPq/PPP.
Acadêmico de Enfermagem da UFC. Integrante do Projeto de Pesquisa “Aids: educação e prevenção”.
Enfermeira. Especialista em Enfermagem Clínica pela Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza-CE. Mestranda do Curso de Mestrado em Enfermagem da UFC.
Integrante do Projeto de Pesquisa “Aids: educação e prevenção”. E- mail: ferlimara@yahoo.com.br.
Enfermeira, PhD. Universidade de Bristol. Professora adjunta da UFC. Coordenadora do Projeto de Pesquisa “A tecnologia educacional e os modelos de
Educação em Saúde nas ações de enfermagem e promoção da saúde”. CNPq. Processo: 409365/2006-8. E-mail: neiva_cunha@pesquisador.cnpq.br.
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora adjunta da UFC. Coordenadora do Projeto de Pesquisa “Desmistificando crenças e valores de adolescentes do
sexo masculino em favor da prevenção de DST/aids”. FUNCAP/CNPq/PPP. Processo nº 0006-00/2006. E-mail: neyva.pinheiro@bol.com.br.
Endereço para correspondência – Rua Marquesa dos Santos, 270, Messejana, Fortaleza-CE, Brasil. CEP: 60871645. E-mail: lany_lds@hotmail.com.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 607-611 out./dez., 2011
607
A Educação em Saúde junto aos adolescentes para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis
INTRODUÇÃO
A adolescência é uma fase da vida caracterizada pelo
rápido crescimento corporal, pelo aparecimento e
desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários e
pelo processo de maturação cognitiva, social e emocional.
Cronologicamente, é o período da vida situado entre,
aproximadamente, 12 e 18 anos de idade.1
Assim, o processo de adolescer é marcado pela
manifestação de inúmeros sentimentos, como ansiedade,
medo, dúvida, já que eles vivenciam não somente
alterações físicas, mas também alterações hormonais,
comportamentais e sociais.2
Vivenciar a sexualidade com um parceiro ou parceira
é uma das experiências de maior repercussão na vida
do adolescente. É a vivência do novo e um processo
de experimentação pessoal fortemente influenciado
por fatores sociais e culturais do grupo ao qual o jovem
pertence, que ocasiona o surgimento de dúvidas sobre
as quais, muitas vezes, a família e a escola não discutem,
conduzindo muitos a conversar sobre sexo e sexualidade
com amigos, outros a buscar informações na mídia e
alguns a não esclarecer suas dúvidas.3-5
Diante disso, reforça-se que o ambiente escolar
é um espaço de interação social que influencia o
comportamento dos jovens, sendo referência para o
seu modo de agir, pensar e de conduzir seus problemas.
Por isso, a escola deve ser um meio para promover a
saúde dos educandos, mediante o compartilhamento
de experiências. Isso os leva a constituir ambientes
saudáveis ao exercício da cidadania, capacitando-os a
cuidar de si e a agir na defesa da promoção da sua saúde
física, emocional e sexual.6-8
Um dos temas fundamentais para a realização de
atividades educativas críticas e reflexivas é a prevenção
das Doenças Sexualmente Transmissíveis/Vírus da
Imunodeficiência Adquirida (DSTs/HIV), sobretudo
porque, aproximadamente, 1 milhão de pessoas no
mundo inteiro são acometidas por DSTs e pelo HIV. A
estimativa é de que ocorram 12 milhões de novos casos
de DSTs curáveis anualmente no Brasil e, dentre esses
casos, 25% devem acometer jovens menores de 25 anos.
Além desse fator, o acometimento por DSTs representa
sério impacto na saúde reprodutiva dos adolescentes e
aumenta o risco de infecção pelo HIV em 40%.9-11
Associado a esses dados, há 57,7% de casos de Aids
em indivíduos na faixa etária entre 20 e 39 anos.12
Considerando o período de latência da infecção pelo HIV,
que dura em média dez anos,13 pode-se especular que
a maioria dos casos ocorreu na adolescência, quando,
provavelmente, esses indivíduos iniciaram a vida sexual.
De fato, um estudo conduzido por Abramovay et al.14
mostrou que 40% dos adolescentes brasileiros começam
a vida sexual com, no máximo, 15 anos de idade.
Esse cenário justifica a necessidade de implementação
de atividades educativas pelos importantes setores
sociais, como a escola, uma vez que os adolescentes,
608
cada vez mais, iniciam precocemente a vida sexual,
estando vulneráveis às DSTs.15
As atividades de Educação em Saúde podem ser
praticadas no espaço escolar, mediante a realização de
oficinas, uma vez que facilitam a interação entre educador
e educando mediante o desenvolvimento de dinâmicas
de grupo e o emprego de comunicação adequada, o que
favorece a aprendizagem compartilhada, a formulação
coletiva do conhecimento e a aquisição da autonomia
pelos adolescentes no cuidado de sua saúde física,
mental e emocional 16-18
Já que é significativo o número de adolescentes acometidos por DSTs e que o decurso de adolescer é
caracterizado por ser um período de maturação física,
psíquica e emocional, é salutar a realização de oficinas,
com o intuito de conversar com os adolescentes sobre
sexualidade e sexo seguro para a prevenção de DSTs/HIV,
além de esclarecer-lhes as dúvidas sobre tais assuntos
e conscientizá-los sobre a adoção de comportamentos
favoráveis à saúde sexual deles.
Por tal razão, foi relevante relatar uma atividade educativa com adolescentes abordando temáticas
relacionadas à prevenção das DSTs/HIV, mediante
recursos tecnológicos e descoberta de curiosidades,
dúvidas e anseios de aprendizagem dos participantes,
verificando o conhecimento que eles demonstram
sobre a temática apresentada, contribuindo, assim, para
a mudança de comportamento dos adolescentes em
relação à prevenção das DSTs/HIV.
DESCREVENDO A EXPERIÊNCIA
Foram realizadas seis atividades educativas com duração
de duas horas cada, com estudantes do 1º ano do ensino
médio de uma escola pública do Município de FortalezaCE, vinculada ao projeto de extensão do Departamento
de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC),
cuja temática foi “Aids: educação e prevenção”.
Participaram das atividades, efetuadas no decorrer dos
meses de abril, maio e junho de 2008, 31 adolescentes,
de ambos os sexos, na faixa etária entre 14 e 18 anos
de idade.
A primeira oficina foi realizada com 22 alunos, sendo
10 do sexo masculino e 12 do sexo feminino. Dois
alunos não quiseram participar, ficando apenas como
ouvintes. Nesse primeiro encontro foram explicados aos
adolescentes os objetivos almejados com a realização
das atividades educativas e pactuados dias e horários
para a efetuação dos encontros, como também os
assuntos que eles queriam que fossem abordados.
Dessa forma, os temas de interesse dos adolescentes
foram: características secundárias, sexualidade, métodos
contraceptivos, DSTs e HIV.
Depois desse momento, solicitou-se aos adolescentes
que se apresentassem ao grupo e dissessem se já haviam
conversado com alguém sobre sexualidade. A maioria
disse que os amigos eram as pessoas com as quais
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 607-611 out./dez., 2011
comentavam sobre esse assunto. Uma aluna disse que
a mãe já havia conversado com ela sobre “camisinha”
e “pílulas anticoncepcionais”. Além disso, um deles
comentou que as informações que tinha a respeito do
assunto, eram provenientes da televisão, exigindo dos
facilitadores que o papel da mídia fosse debatido.
Para conhecer um pouco dos adolescentes, eles se
dividiram em duplas, e cada um teve de apresentar seu
companheiro relatando suas características pessoais
e atribuindo-lhe um nome identificador mediante
justificativa, enquanto a pessoa que recebia o novo
nome tinha de dizer se concordava ou não. Essa técnica
foi baseada na dinâmica “Tribo indígena”, divulgada na
revista Adolescer, da ABEN,19 e utilizada para conhecer
melhor a personalidade de cada um e observar se a
turma se conhecia. Para finalizar e descontrair, o grupo
foi dividido em duas equipes, e cada uma teve de fazer
três mímicas para o outro grupo descobrir.
Na segunda oficina, foram utilizadas dinâmicas de
grupo, juntamente com o diário de campo, da qual
participaram 18 alunos, 9 homens e 9 mulheres, e um
aluno não quis participar e permaneceu como ouvinte.
O tema era“características secundárias”, cujo objetivo foi
esclarecer as dúvidas a respeito das mudanças no corpo
e as consequências desse desenvolvimento.
Primeiro, questionou-se aos adolescentes quais eram as
diferenças entre os homens e as mulheres, pois, em vez
de esperar que eles aprendessem tudo o que se achava
que precisavam saber, era possível ensiná-los a refletir
sobre as informações que já haviam recebido, aprender a
manejá-las e tomar decisões seguras para a vida deles.20
Assim, com base nos ensinamentos de Paulo Freire,
partiu-se das informações que já sabiam sobre o assunto,
com a finalidade de facilitar a aprendizagem.21
Todas as respostas foram coerentes, mas percebeu-se
que as informações eram expressas de forma insegura.
Cada diferença entre os sexos foi explicada com ênfase
nos efeitos dos hormônios sexuais.
O momento mais importante desse encontro foi quando
se dividiu a turma por sexo, ficando a facilitadora com as
meninas e o facilitador com os meninos. Nesse instante, os
adolescentes puderam esclarecer as dúvidas e se sentiram
mais à vontade para isso. Os assuntos mais questionados
no grupo feminino foram a respeito da menstruação,
preservativo feminino, primeira relação sexual e por que
os homens não gostavam de usar preservativo. Assim,
duas adolescentes revelaram que tinham relação sexual
com o uso do preservativo masculino.
No grupo dos garotos, as principais dúvidas foram sobre
os efeitos da masturbação e a questão do ato sexual.
Um rapaz de 17 anos se sentiu bastante à vontade, de
tal forma que relatou para o grupo alguns aspectos
da sua vida sexual, havendo ressaltado que não usava
preservativo com frequência.
Na terceira oficina, houve 27 participantes, 11 homens e
16 mulheres, e dois alunos optaram por não participar,
mas permaneceram como ouvintes. Havia 11 garotos
e 16 meninas. O propósito com esse encontro foi
esclarecer as dúvidas dos adolescentes a respeito da
sexualidade. Utilizou-se a dinâmica “Jogos dos mitos e
das realidades”, divulgada na revista Adolescer.19 A turma
foi dividida em cinco grupos e cada equipe recebeu
dois papéis, num deles escrita a palavra“realidade”e no
outro, o vocábulo“mito”. As frases que abordavam temas
referentes aos aspectos da sexualidade, que se referiam
às informações que eles tinham no cotidiano, foram lidas
e, na ocasião, todas as equipes tinham de levantar um
dos papéis, classificando as frases. Assim, todos os temas
das sentenças foram discutidos e explicados no sentido
de esclarecer as dúvidas, que foram:“Só com uma relação
sexual a mulher pode engravidar?” “Qual a acessibilidade
ao posto de saúde para receber os preservativos
feminino e masculino, pílulas anticoncepcionais, câncer
de testículos, tamanho do pênis e sua relação com a
potência sexual do homem?” A questão mais polêmica
foi o fato de as drogas não serem estimulantes sexuais,
pois eles informaram que tinham amigos que usavam
drogas e diziam que ter relações sexuais sob o efeito das
drogas era melhor e mais prazeroso.
No final do encontro, os alunos expressaram ter gostado
da experiência, pois havia situações que eles julgavam
certas e que, após as discussões, perceberam que
muitos dos conceitos e atitudes deles eram apenas
embasados em mitos ou preconceitos que precisavam
ser repensados.
Na quarta oficina, o objetivo foi esclarecer as dúvidas
a respeito do emprego de métodos contraceptivos,
mostrar a importância do uso deles, enfocando a
diferença entre prevenir doença e gravidez. Estiveram
presentes 28 alunos, mas 2 não quiseram participar e
ficaram como ouvintes. Eram 11 do sexo masculino e
17 meninas.
Primeiramente, perguntou-se sobre os métodos de
contracepção que eles conheciam, e eles citaram:
Quando o homem não faz mais filho; Mulher ligada;
Quando o homem goza fora; Pílula; Injeção; Pomada que
coloca na vagina. Percebeu-se que eles tinham algum
conhecimento sobre os métodos, mas não sabiam qual
a denominação correta.
De acordo com o que eles citaram, os métodos foram
explicados e, ainda, acrescidos a “tabelinha”, o DIU, o
diafragma e a pílula do dia seguinte. Enfatizou-se a
utilização dos métodos relativos à prevenção das DSTs/
HIV e da gravidez, considerando que alguns previnem
apenas a gravidez.
No final, foi feita a dinâmica “Cores da prevenção”,
publicada na revista Adolescer.19 A turma foi dividida
em cinco grupos e cada equipe recebeu uma folha em
branco para que eles colocassem os métodos de que
se lembravam e classificassem em: VERDE (previne
tanto gravidez como doença); AMARELO (só previne
um dos dois); VERMELHO (não previne nem doença
nem gravidez).
Todos os grupos classificaram corretamente a“tabelinha”,
a pílula anticoncepcional, o espermicida, o DIU e a
camisinha. Apenas três grupos citaram o diafragma, a
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 607-611 out./dez., 2011
609
A Educação em Saúde junto aos adolescentes para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis
ligadura de trompas e a vasectomia como métodos que
previnem apenas a gravidez, e não as DSTs, no entanto,
três grupos erraram em relação ao coito interrompido, e
esse método foi explicado de novo, detalhadamente.
Na quinta oficina, o tema de discussão foi DSTs. Estavam
presentes 29 alunos, mas 2 sempre permaneceram
como ouvintes. Havia 12 meninos e 17 meninas.
Primeiramente, questionou-se quais as doenças que eles
conheciam, e eles citaram: crista-de-galo, gonorreia, sífilis,
clamídia, aids e herpes. Nota-se que eles conheciam as
doenças, mas não se lembravam exatamente do nome
científico de algumas.
Assim, explicou-se cada uma das DSTs, mas sem as fotos
das doenças, e eles ficaram muito dispersos. Então,
resolveu-se deixar a discussão para o encontro seguinte,
pois os facilitadores tentariam conseguir as fotos das
doenças porque os adolescentes pediram para vê-las.
Depois, foi entregue um panfleto sobre DSTs a cada
participante, que havia sido conseguido na Secretaria
Municipal de Saúde de Fortaleza, e lido junto com os
adolescentes. Observou-se que esse meio não favoreceu
a participação. Alguns deles não estavam prestando
atenção, outros nem olharam o panfleto, além de se
perceber, ao sair da sala, que havia três exemplares no
chão, o que mostrou o desinteresse dos adolescentes
em relação ao assunto ou na maneira como o tema foi
retratado e discutido.
Na sexta oficina, o propósito foi caracterizar as doenças
sexualmente transmissíveis e a aids e, também,
esclarecer-lhes as dúvidas e tabus, tentando, dessa
forma, diminuir o preconceito. Estavam presentes 31
adolescentes, dos quais 15 eram do sexo masculino.
A oficina começou com a apresentação das fotos e
simultâneo comentário sobre cada DST. Dessa forma, eles
interagiram, fazendo perguntas, e ficaram entusiasmados
ao verem as fotos; alguns riram e outros ficaram chocados.
As DSTs comentadas foram: HPV, gonorreia, clamídia,
tricomoníase, cancro mole, sífilis, herpes, linfogranuloma
venéreo, hepatite B, candidíase e pediculose do púbis.
Para encerrar as atividades, foi elaborado um jogo
educativo, conhecido como “cruzadinha de palavras”,
pelos facilitadores do processo educativo, como forma
de revisão das doenças sexualmente transmissíveis,
levando em consideração sinais e sintomas e sua forma
de prevenção. Assim, observou-se quanto eles haviam
assimilado. Alguns não se lembravam exatamente do
nome científico, mas sabiam identificar as DSTs.
REFLEXÕES
Com base na realização das oficinas educativas,
percebeu-se que a escola, os pais e os profissionais de
saúde não estão discutindo sobre sexualidade, sexo
e prevenção de DSTs/HIV com os adolescentes, visto
que os amigos são os mais procurados para dialogar
sobre essas temáticas.22 Notou-se, também, que outro
meio de conseguir informações é a mídia televisiva,
mas as imagens e conteúdos televisivos podem estar
610
contribuindo como fator estimulante da prática sexual
dos adolescentes de maneira precoce, uma vez que a
maioria dos programas apresenta conteúdos ligados
à sexualidade, alguns contêm cenas de sexo exibidas
de maneira implícita ou explícita, sem o devido esclarecimento sobre as consequências advindas do
relacionamento sexual sem proteção.23,24
Com a realização dessas oficinas, percebeu-se, também, o
interesse dos adolescentes pelo tema sexo e sexualidade,
pois eles, na maioria das vezes, adotam práticas e/ou
comportamentos que os deixam sob maior risco de
infecção pelo HIV e outras DSTs, sem se considerarem
susceptíveis à infecção. Assim, é necessário abordar
questões sobre papéis sociossexuais, desejos e pulsões,
resposta sexual, mitos, tabus e crendices sexuais, bem
como debater crítica e reflexivamente as práticas sexuais
e comportamentos de risco, pois deve-se estimular o
jovem a repensar valores, atitudes internalizadas e ações
que se exteriorizem no contexto sociocultural.14
Também foi demonstrado, com a realização das oficinas educativas, que as medidas de educação em
saúde realizadas foram bem-sucedidas, dado o
estabelecimento de uma relação de confiança com os
adolescentes e a divisão da turma de acordo com o sexo
em um momento. Isso permitiu um diálogo mais aberto
e franco e facilitou a interação entre os facilitadores
e os adolescentes, bem como efetuou o processo de
aprendizagem coletiva e a discussão reflexiva de temas
como sexualidade, sexo e prevenção de DSTs/HIV.
Dessa forma, os adolescentes precisam, e têm o direito,
de receber informações abertas e claras sobre as DSTs
e a infecção pelo vírus HIV tanto quanto refletir sobre
essas questões e integrá-las à própria vida, por meio da
realização de atividades educativas que discutam aspectos
como modos de infecção e de prevenção, como as oficinas
educativas que foram realizadas e relatadas neste estudo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Encontros com abordagens educativas envolvendo
adolescentes na escola possibilitam a conscientização
desses jovens sobre a prevenção de DSTs/HIV, pois
permitem a realização de exercícios de autorreflexão
sobre temáticas de interesse do adolescente, favorecem a
satisfação das curiosidades e esclarecimento das dúvidas
e dos anseios deles sobre os assuntos relacionados às
DSTs/HIV e formas de preveni-las.
Observou-se que esses encontros, mesmo sendo
realizados em curto período, despertaram a atenção
dos adolescentes, que se mostraram interessados em
ouvir e participar das discussões sobre as temáticas
trabalhadas nas oficinas.
Com efeito, nos seis encontros realizados, notou-se que o
interesse dos adolescentes em participar era maior, e isso
pôde ser comprovado pela frequência, que aumentou
no decorrer das sessões e também pelo fato de pedirem
a continuidade dos encontros. Outro fator que também
pôde comprovar a validade do procedimento foi o fato
de que dois alunos, que nunca queriam participar e
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 607-611 out./dez., 2011
ficavam apenas como ouvintes, no último encontro,
mostraram-se bem receptivos e participaram das
atividades desenvolvidas naquele dia e, nos outros dias,
mesmo não tomando parte diretamente nas atividades,
estavam sempre atentos a tudo o que ocorria durante
as técnicas utilizadas.
As dinâmicas grupais também ajudaram no incentivo
à participação, visto que se fosse uma palestra, com
os adolescentes participando apenas como ouvintes,
a assimilação do assunto seria mínima. Assim, quanto
mais participativa for a dinâmica, principalmente com
a utilização de jogos que despertam a competição,
mais bem-sucedidas serão as atividades realizadas
em educação em saúde. A importância de começar
os encontros com as informações que eles já tinham
foi fator positivo, pois aumentou o vínculo entre os
facilitadores e os adolescentes, uma vez que, quando
o sujeito participa diretamente do seu processo
educativo, há contribuição efetiva para a valorização da
aprendizagem no grupo.20
Averbalizaçãodeexperiênciasporpartedosadolescentes
contribuiu para a elaboração dos encontros, uma vez
que o propósito era abordar assuntos relacionados
ao cotidiano deles e facilitar a interação interpessoal.
Outro fator que também contribuiu para o sucesso dos
encontros foi o uso de uma linguagem acessível para o
grupo de adolescentes.
Assim, é necessária a implementação de estratégias
educativas que utilizem a metodologia participativa,
para que haja um incentivo à participação de todos e a
conscientização dos adolescentes sobre a prevenção da
infecção por DSTs/HIV, a fim de empoderá-los ao cuidado
de sua saúde sexual.
REFERÊNCIAS
1. Brasil. Ministério da Justiça. Estatuto da Criança e do Adolescente: 12 anos. Brasília (DF): Ministério da Justiça; 2002.
2. Hockenberry MJ, Wilson D, Winkelstein ML. Wong Fundamentos de Enfermagem Pediátrica. 7ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2006.
3. Gubert D, Madureira VSF. Iniciação Sexual de Homens Adolescentes. Ciênc Saúde Coletiva. 2008; 13(supl 2): 2247-56.
4. Mello VP, Gandra LRL, Amaral MA, et al. Adolescência, sexualidade e gênero: possibilidades das oficinas de trabalho crítico-emancipatórias.
REME - Rev Min Enferm. 2008; 12(3): 390-5.
5. Caliani MFCJ, Otani MAP. Ações educativas com adolescentes: uma intervenção necessária. REME - Rev Min Enferm. 2008; 12(2): 195-200.
6. Borges ALV, Nichiata LYI, Schor N. Conversando sobre sexo: A rede sociofamiliar como base de promoção da saúde sexual e reprodutiva dos
adolescentes. Rev Latinoam Enferm. 2006; 14(3): 422-7.
7. Catrib AMF, Pordeus AMJ, Ataide MBC, et al. Saúde no espaço escolar. In: Barroso MGT, Vieira NFC, Varela ZMV, organizadoras. Educação em
Saúde: no contexto da promoção humana. Fortaleza (CE): Edições Demócrito Rocha; 2003. p. 39-46.
8. Maheirie K, Urnau LC, Vavassori MB, et al. Oficinas sobre sexualidade com adolescentes: um relato de experiência. Psicol Estud. 2005; 10(3): 537-42.
9. Santos GHN, Martins MG, Sousa MS. Gravidez na adolescência e fatores associados com baixo peso ao nascer. Rev Bras Ginecol Obstet. 2008;
30: 224-31.
10. World Health Organization. Global strategy for the prevention and control of sexually transmitted infections 2006-2015: breaking the chain of
transmission. Geneva: WHO; 2007. [Citado 2010 Jul 13]. Disponível em: http://www.who.int/reproductivehealth/publications/rtis/9789241563475/
en/index.html
11. Brasil. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico: doenças sexualmente transmissíveis. Brasília (DF): MS; 2008.
12. Brasil. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico Aids e DST. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2008.
13. Brasil. Ministério da Saúde. Coordenação Nacional de DST e AIDS. Manual do agente comunitário de saúde. Prevenção e controle das DST
e HIV na comunidade. Brasília (DF): MS; 1998.
14. Abramovay M, Castro MG, Pinheiro LC, et al. Juventude, violência e vulnerabilidade social na América Latina: desafios para políticas públicas.
Brasília(DF): UNESCO-BID; 2002.
15. Monteiro AI, Medeiros JD, Oliveira JR. Estilo de vida e vulnerabilidade social dos adolescentes no bairro de Felipe Camarão, Natal/RN, 2005.
Rev Eletrônica Enferm. 2007; 9(1): 176-90.
16. Jeolás LS, Ferrari RAP. Oficinas de prevenção em um serviço de saúde para adolescentes: espaço de reflexão e de conhecimentos
compartilhados. Ciênc Saúde Coletiva. 2003; 8(2): 611-20.
17. Nietsche EA. Tecnologia emancipatória: possibilidade ou impossibilidade para a práxis de enfermagem. Ijuí (RS): Unijuí; 2000.
18. Araújo A, Rocha RL, Armond LC. O grupo de adolescentes na escola: a percepção dos participantes. REME - Rev Min Enferm. 2008; 12(2): 207-12.
19. Brasil. Ministério da Saúde. Associação Brasileira de Enfermagem. Revista adolescer: compreender, atuar e acolher. Brasília (DF): Ministério
da Saúde; 1999.
20. Brasil. Ministério da Saúde. Manual do multiplicador: adolescentes / Coordenação Nacional de Doenças sexualmente transmissíveis e Aids.
Brasília (DF): Ministério da Saúde; 1997.
21. Albuquerque PC, Stotz EM. A educação popular na atenção básica à saúde no município: em busca da integralidade. Interface Comunic
Saúde Educ. 2004; 8(15): 259-74.
22. Muza GM, Costa MP. Elementos para a elaboração de um projeto de promoção à saúde e desenvolvimento dos adolescentes. O olhar dos
adolescentes. Cad Saúde Pública. 2002; 18(1): 321-8.
23. Escobar-Chaves SL, Tortolero SR, Markham CM, et al. Impact of the media on adolescents sexual attitudes and behaviors. Pediatrics. 2005;
116(1): 303-26.
24. Brêtas JRS, Muroya RL, Shida LY, et al. A percepção de adolescentes sobre sexualidade. REME - Rev Min Enferm. 2007; 11(4): 446-52.
Data de submissão: 4/9/2009
Data de aprovação: 29/4/2011
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 607-611 out./dez., 2011
611
A PESQUISA DE CAMPO NA ÁREA DA EPIDEMIOLOGIA DAS DOENÇAS E
AGRAVOS NÃO TRANSMISSÍVEIS: UMA EXPERIÊNCIA EM ÁREA RURAL DA
REGIÃO DO VALE DO JEQUITINHONHA, MINAS GERAIS
FIELD WORK IN EPIDEMIOLOGY OF NON TRANSMISSIBLE DISEASES RESEARCH: AN EXPERIENCE IN A
RURAL AREA OF JEQUITINHONHA VALLEY, MINAS GERAIS
EL ESTUDIO DE CAMPO EN EL ÁMBITO DE LA EPIDEMIOLOGÍA DE ENFERMEDADES NO
TRANSMISIBLES: UNA INVESTIGACIÓN EN LA ÁREA RURAL DE LA REGIÓN DEL VALLE DEL
JEQUITINHONHA, MINAS GERAIS
Paula Gonçalves Bicalho1
Gustavo Velásquez Meléndez2
Tatiane Géa Horta3
Mariana Santos Felisbino Mendes4
Andréa Gazzinelli5
RESUMO
Neste estudo, discorre-se sobre a experiência de trabalhar com pesquisa de campo sobre as doenças e agravos não
transmissíveis com os moradores de comunidades rurais do Vale do Jequitinhonha-MG. Os pesquisadores relatam a
riqueza da experiência dos profissionais de saúde durante o trabalho de campo com essa população, as dificuldades
enfrentadas no dia a dia deste trabalho e seus desdobramentos perante a equipe de saúde local.
Palavras-chave: Epidemiologia; População Rural; Pesquisa Interdisciplinar; Saúde Pública; Ética em Pesquisa; Doença
Crônica.
ABSTRACT
This study reports the experience of a field research in non-communicable diseases in rural communities of Jequitinhonha
Valley, Minas Gerais. The research reports the wealth of experience of the healthcare team in the course of the research
when dealing with the area’s residents, pointing out the day to day difficulties, and the experiences when working
with the local healthcare professionals.
Key words: Epidemiology; Rural Population; Interdisciplinary Research; Public Health; Ethics in Research; Chronic
Diseases.
RESUMEN
Este estudio narra la experiencia del trabajo de investigación de campo de enfermedades no transmisibles con habitantes
de comunidades rurales del Valle de Jequitinhonha, Estado de Minas Gerais. Los investigadores narran la riqueza de la
experiencia de los profesionales de salud durante estas tareas con las comunidades locales, las dificultades enfrentadas
en el día a día y las experiencias de trabajo con el equipo de salud local.
Palabras clave: Epidemiología; Población Rural; Investigación Interdisciplinaria; Salud Pública; Ética en Experimentos;
Enfermedades no Transmisibles.
1
2
3
4
5
Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora assistente do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da
Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG).
Professor titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da EEUFMG.
Enfermeira. Mestre em Enfermagem pela EEUFMG.
Enfermeira. Mestre em Enfermagem pela EEUFMG.
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da EEUFMG.
Endereço para correspondência – Avenida Alfredo Balena, 190, sala 412, Campus Saúde da Escola de Enfermagem da UFMG.
E-mail: paulag_bicalho@yahoo.com.br
612
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 612-616 out./dez., 2011
INTRODUÇÃO
A PESQUISA DE CAMPO EM ÁREAS RURAIS
O trabalho de campo constitui parte de um estudo
científico. É uma atividade realizada por pesquisadores
na natureza ou no local onde o fenômeno estudado
acontece. Esse trabalho é realizado por meio de
coleta e/ou registro de dados, caracteres, informações
relacionadas ao fenômeno ou objeto de estudo. No
trabalho de campo, portanto, os objetivos são registrar
e apreender o objeto ou fenômeno de pesquisa com ou
sem a interferência ou artificialidade que pode existir
nos ambientes laboratoriais.1
Para a realização de pesquisas de campo em áreas rurais,
devemos acrescentar outras particularidades relativas
a essa população. A distância dos locais de coleta em
relação aos grandes centros, onde estão localizadas as
universidades e os pesquisadores, é uma das primeiras
dificuldades a enfrentar. Dada essa distância, surge a
necessidade de organizar uma infraestrutura e logística
local para o apoio a pesquisa de campo, além daquela
necessária em cada deslocamento. Esta última inclui
o transporte, a estada e o local para a realização dos
procedimentos do trabalho de campo, além do retorno
seguro com os dados coletados para a universidade ou
centro de pesquisa. Essa infraestrutura necessária faz
com que os estudos nessas comunidades se tornem
mais dispendiosos.
Várias são as ciências que utilizam o trabalho de campo
para suas pesquisas. Neste estudo, abordamos a
epidemiologiaeaspesquisasdecampo.Naepidemiologia,
estudam-se os padrões de ocorrência de doenças,
agravos nas populações, além de seus determinantes.
Esses estudos subdividem-se em observacionais
e experimentais ou de intervenção. Os estudos
observacionais são aqueles em que os pesquisadores
não interferem nos fenômenos estudados. Nos estudos
experimentais ou de intervenção, os pesquisadores
propõem formas de intervenção no fenômeno – por
exemplo, a utilização de um novo tratamento de uma
doença ou nova forma de intervenção para modificação
de um fator de risco.2-4
As pesquisas de campo em epidemiologia, geralmente,
são pesquisas em populações, o que as caracteriza
como pesquisas que envolvem seres humanos. No
Brasil, as pesquisas que envolvem seres humanos são
regulamentadas pelos comitês de ética, presentes nas
instituições públicas e privadas. Todos esses comitês
estão subordinados ao Conselho Nacional de Saúde e se
guiam pela Resolução nº 196/96, que prevê que todas as
pesquisas envolvendo seres humanos devem respeitar
os princípios da beneficência e não maleficência,
assegurando, também, o anonimato aos participantes
da pesquisa. 5 Essa resolução prevê, ainda, que os
participantes sejam esclarecidos antecipadamente sobre
os procedimentos e objetivos da pesquisa e que, uma
vez concordando com eles, assinem um termo de
consentimento para tal. A Resolução nº 196/96 teve
como base a Declaração de Helsinque de 1964 e suas
posteriores revisões.5
Por todas as especificidades apresentadas, a pesquisa
de campo na epidemiologia da saúde é extremamente
rigorosa.Ospesquisadoresdevemterclaroocompromisso
ético que assumem com a população ao utilizá-la para o
estudo de doenças, seus fatores de risco e proteção. Dessa
forma, o estudo e seus resultados deverão contribuir para
a melhoria de saúde daquela população. Na aplicação
de um questionário, em uma entrevista ou no momento
de aferição das condições de risco e de dados clínicos,
surgem as demandas dos indivíduos relacionadas à sua
saúde, tanto individual como em nível coletivo. Portanto,
durante o trabalho de campo, devem ser realizados
trabalhos adicionais, como a educação para a saúde, o
atendimento das intercorrências que possam surgir, o
encaminhamento de indivíduos susceptíveis aos serviços
de saúde, dentre outros.
Resolvida essa questão, surgem, também, outros desafios,
como o baixo nível educacional e socioeconômico, bem
como a dificuldade de acesso aos serviços de saúde,
comuns nas comunidades rurais brasileiras. No entanto,
essas mesmas adversidades, somadas às diferenças
culturais e do ambiente, podem transformar-se em
excelentes experiências e benefícios para a equipe de
pesquisadores e para população.
Além das situações descritas acima, muitas vezes,
desconfianças e/ou expectativas excessivas por parte da
comunidade podem ser geradas com a chegada de uma
equipe de pesquisa no campo. Consequentemente, é
imprescindível a realização de parcerias entre a equipe de
pesquisadores, os gestores, a equipe de saúde e líderes
comunitários dos municípios que farão parte do trabalho
de campo.
Descrevemos, aqui, a experiência da pesquisa de campo
em doenças e agravos não transmissíveis (DANT) em
duas comunidades rurais do Vale do Jequitinhonha-MG.
Para a realização da pesquisa de campo, os pesquisadores
viajaram seguindo um cronograma preestabelecido e se
hospedaram no município de Itaobim, a 600 quilômetros
da cidade de Belo Horizonte. Desse município, por meio
de estradas não pavimentadas, deslocaram-se para as
comunidades.
O estudo foi realizado em duas comunidades rurais:Virgem
das Graças, distrito de Ponto dos Volantes, e Caju, distrito
de Jequitinhonha, que estão localizadas na região doVale
do Jequitinhonha, Estado de Minas Gerais. Os municípios
de Jequitinhonha e Ponto dos Volantes, em 2007,
possuíam uma população de aproximadamente 24 mil e
11 mil pessoas, respectivamente.6 Ambos os municípios
possuem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de
0,668 para Jequitinhonha e 0,595 para Ponto dosVolantes,
considerado entre os menores do Estado.7
Segundo dados do DATASUS, em 2006, as doenças
cardiovasculares ocupavam o primeiro lugar (31,7%)
entre as causas de mortalidade em Jequitinhonha e o
segundo (23,3%), em Ponto dos Volantes.
As comunidades de Virgem das Graças e Caju estão
em uma região semiárida, cuja população depende
fortemente da agricultura de subsistência, baseada,
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 612-616 out./dez., 2011
613
A pesquisa de campo na área da epidemiologia das doenças e agravos não transmissíveis: uma experiência em área rural da região do vale do
Jequitinhonha, minas gerais
FIGURA 1 – Minas Gerais – Localização geográfica dos municípios de Pontos dos Volantes e Jequitinhonha
em relação à Belo Horizonte
Fonte: Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Epidemiologia da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais
(NIEPE/EEUFMG), 2005.
principalmente, no plantio de mandioca, feijão, milho
e arroz, além da criação de gado. A maioria das pessoas
trabalha na agricultura, algumas têm seu próprio
negócio, geralmente um pequeno comércio, e outros
indivíduos são migrantes em busca de trabalho em
outras cidades.8
Essa população participa, desde 2001, de vários estudos,
dentre eles epidemiologia da esquistossomose e outras
doenças infectoparasitárias,conduzidos por um consórcio
de pesquisadores da Escola de Enfermagem e do Instituto
de Ciências Biológicas, ambos da Universidade Federal
de Minas Gerais, e também por pesquisadores do Centro
de Pesquisas René Rachou, da Fundação Oswaldo Cruz
(FIOCRUZ), contando, ainda, com parcerias internacionais
(National Institute of Health – NIH). A partir de 2004, o
grupo de pesquisa “Núcleo Interdisciplinar de Estudos
e Pesquisas em Epidemiologia (NIEPE)”, da Escola de
Enfermagem da UFMG, associou-se ao grupo já existente
e, então, foram iniciados estudos relacionados às DANTs
e seus fatores de risco e proteção nessas populações.
Em razão da acessibilidade das populações rurais e
dos recursos disponíveis para a pesquisa, trabalhamos
sempre nessas comunidades com o total de moradores
que aceitam participar do estudo, segundo os critérios
de inclusão ou exclusão.
A infraestrutura necessária, portanto, já havia sido
estabelecida pelo grupo, que atuava no campo desde
2001. Foram realizados apenas alguns ajustes a fim de
atender às especificidades dos projetos que abordavam
as doenças crônicas a partir de 2004. Como exposto,
quando uma equipe de pesquisadores da saúde, no
614
nosso caso, enfermeiros, biólogos, nutricionistas e
acadêmicos de enfermagem, chega a uma comunidade
relativamente isolada, a expectativa dos moradores,
muitas vezes, pode ser de que lhes sejam atendidas
todas as demandas de saúde.
A fim de estudar as doenças crônicas, seus fatores de
risco e proteção, foram realizadas entrevistas com
todos os indivíduos maiores de 18 anos, moradores das
comunidades. Todos os participantes foram informados
sobre o objetivo da pesquisa e seus direitos. Caso
concordassem em participar da pesquisa, assinavam
um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE),
de acordo com a Resolução nº 196/96, do Conselho
Nacional de Saúde.5
Nessasentrevistas,aspessoasrespondiamarespeitodeseus
hábitos de vida – por exemplo, relacionados ao consumo
de alimentos, bebida alcoólica, fumo e a atividades físicas.
Além dessas perguntas, questionávamos, também, os
indivíduos sobre o histórico de saúde deles relacionado
às DANTs, como morbidades e uso de medicamentos.
Às mulheres perguntávamos, ainda, sobre a história
gineco-obstétrica. Após a anamnese, os indivíduos eram
encaminhados para a realização de medidas antropométricas, aferição da pressão arterial e coleta de sangue.
Com o intuito de evitar possíveis constrangimentos e
preservar a privacidade do indivíduo, cada participante
era atendido individualmente em uma sala fechada, sendo
assistidosomenteporumentrevistadorouantropometrista
treinado. Dessa forma, além de garantir a privacidade do
indivíduo, pudemos contribuir, também, para maior
confiabilidade das informações e dados coletados.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 612-616 out./dez., 2011
A abordagem do grupo de pesquisa, portanto, muito
se assemelhava a uma consulta individual, orientada
para o problema das DANTs, e dessa forma, como já
esperado, surgiam várias demandas, tanto por parte
dos indivíduos como por parte dos pesquisadores.
Podemos citar indivíduos que apresentavam queixas
e necessitavam de encaminhamentos para solucionálas. Outras situações que surgiam eram aquelas
comuns às DANTs. Havia indivíduos que, apesar de
não terem queixas, apresentavam sinais de alterações
que necessitavam de avaliações mais aprofundadas
e, algumas vezes, médicas. Entrevistávamos pessoas
que nos referiam hábitos deletérios à saúde, como
o consumo excessivo de álcool, gorduras, fumo,
sedentarismo, dentre outros. Avaliávamos, também,
pessoas que apresentavam níveis pressóricos elevados,
circunferência da cintura alterada, sobrepeso,
obesidade, dentre outros fatores de risco.
Com base na entrevista no trabalho de campo na área
da saúde, portanto, observou-se a necessidade de ações
que chamamos, aqui, de desdobramentos. Essas ações,
por sua vez, relacionam-se, também, aos princípios
éticos. Dois dos princípios, que constam na Declaração
de Helsinque, são os de benevolência e não maleficência.
Visando atender a esses princípios, os pesquisadores
iniciavam as orientações e encaminhamentos necessários
a respeito das demandas que surgiam no momento da
entrevista. A equipe de pesquisa estava sempre em
contato com a equipe de saúde local, para que os
encaminhamentos fossem efetivos. Além da equipe de
saúde local, no transcorrer e ao final dos trabalhos foram
realizados contatos com os gestores de saúde. Nesses
contatos, os pesquisadores apresentavam aos gestores
os resultados encontrados na comunidade e, também, os
casos específicos que necessitavam de maior atenção.
Por meio da pesquisa de campo nessas comunidades,
observou-se que 21,7% da população era maior de 60
anos, situação esperada em áreas rurais, uma vez que a
migração dos indivíduos mais jovens é comum nessas
populações. Observou-se, também, que 36,3% dos
indivíduos eram analfabetos.9
Nos estudos que enfocaram a esquitossomose, verificouse que 58,7% dos indivíduos apresentaram infecção
pelo Schistosoma mansoni. A idade, o contato com a
água contaminada, o número de pessoas por cômodo
e a baixa escolaridade do chefe da família foram fatores
relacionados à infecção.10
Em relação às doenças crônicas não transmissíveis, os
achados forneceram evidências importantes de que
a hipertensão é um importante problema de saúde
pública nessa população, sendo associada à dislipidemia
e à obesidade abdominal.11
Observou-se que o sobrepeso e a obesidade, antes
considerados fenômenos prevalentes no contexto
urbano, acometeram, também, essas comunidades rurais,
afetando 17,4% e 5,5% das pessoas, respectivamente,
sendo que a obesidade esteve fortemente relacionada
à resistência à insulina9 e a distúrbios no metabolismo
de lipídios e de glicose.12
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que a pesquisa de campo, além de contribuir
para o conhecimento científico, com evidências
relacionadasaoestadodaartedasquestõesestudadasnas
comunidades rurais, presta-se, também, como auxiliar no
atendimento das necessidades dessas comunidades.
No âmbito individual, o trabalho de campo pode
auxiliar os indivíduos com as orientações, diagnósticos
e encaminhamentos realizados. Já no coletivo, a
contribuição pode ser no sentido de auxiliar no
diagnóstico de saúde local e apontar as políticas públicas
necessárias para promover a saúde e a qualidade de vida
das populações estudadas.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq) e à Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) o apoio
para a realização deste estudo.
REFERÊNCIAS
1. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 10ª ed. São Paulo: Hucitec; 2007. 406p.
2. Medronho RA, Bloch KV, Luiz RR, et al. Epidemiologia. 2ª ed. São Paulo: Editora Atheneu; 2009. 685p.
3. Marconi MDA, Lakatos EM. Técnicas de pesquisa: planejamento e execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisas, elaboração,
análise e interpretação de dados. 3ª ed. São Paulo: Atlas; 1996.
4. Aschengrau A, Seage III GR. Essentials of epidemiology in Public Health. 2ª ed. Sudbury, Mass: Jones and Bartlett Publishers; 2008. 516p.
5. Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução n. 196, de 10 de outubro de 1996. Aprova as diretrizes e normas
regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Informe epidemiológico do SUS. Brasília: MS; 1996.
6. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Censo 200-2008. [Citado 2010 jan 21]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br.
7. PNUD. Desenvolvimento Humano e IDH. 2007. [Citado 2008 jun 09]. Disponível em: http://www.pnud.org.br/atlas/tabelas/index.php.
8. Gazzinelli MF, Reis DC, Marques RC, et al. Popular beliefs about the infectivity of water among school children in two hyperendemic
schistosomiasis. Acta Trop. 2008; 8(2-3): 202-8.
9. Mendes LL, Velásquez-Meléndez JG, Gazzinelli A. Fatores associados à resistência à insulina em populações rurais. Arq Bras Endocrinol
Metabol. 2009; 53: 332-9.
10. Gazzinelli A, Velásquez-Meléndez G, Crawford SB, et al. Socioeconomic determinants of schistosomiasis in a poor rural area in Brazil. Acta
Trop. 2006; 99: 260-71.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 612-616 out./dez., 2011
615
A pesquisa de campo na área da epidemiologia das doenças e agravos não transmissíveis: uma experiência em área rural da região do vale do
Jequitinhonha, minas gerais
11. Pimenta AM, Kac G, Gazzinelli A, et al. Association Between Central Obesity, Triglycerides and Hypertension in a Rural Area in Brazil. Arq Bras
Cardiol. 2008; 90: 419-25.
12. Silva DA, Felisbino-Mendes MS, Pimenta AM, et al. Distúrbios metabólicos e adiposidade em uma população rural. Arq Bras Endocrinol
Metaból. 2008; 52(3): 489-8.
Data de submissão: 19/2/2010
Data de aprovação: 8/4/2011
616
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 612-616 out./dez., 2011
Normas de publicação
REME  REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM
INSTRUÇÕES AOS AUTORES
1 SOBRE A MISSÃO DA REME
A REME – Revista Mineira de Enfermagem é uma publicação da Escola de Enfermagem da UFMG em parceria com Faculdades, Escolas
e Cursos de Graduação em Enfermagem de Minas Gerais: Escola de Enfermagem Wenceslau Braz; Fundação de Ensino Superior do
Vale do Sapucaí; Fundação de Ensino Superior de Passos; Centro Universitário do Leste de Minas Gerais; Faculdade de Enfermagem da
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Possui periodicidade trimestral e tem por finalidade contribuir para a produção, divulgação
e utilização do conhecimento produzido na enfermagem e áreas correlatas, abrangendo a educação, a pesquisa e a atenção à saúde.
2 SOBRE AS SEÇÕES DA REME
Cada fascículo, editado trimestralmente, terá a seguinte estrutura:
Editorial: refere-se a temas de relevância do contexto científico, acadêmico e político-social;
Pesquisas: incluem artigos com abordagem metodológicas qualitativas e quantitativas, originais e inéditas que contribuem para a
construção do conhecimento em enfermagem e áreas correlatas;
Revisão teórica: avaliações críticas e ordenadas da literatura em relação a temas de importância para a enfermagem e áreas
correlatas;
Relatos de experiência: descrições de intervenções e experiências abrangendo a atenção em saúde e educação;
Artigos reflexivos: textos de especial relevância que trazem contribuições ao pensamento em Enfermagem e Saúde;
Normas de publicação: instruções aos autores referentes à apresentação física dos manuscritos nos idiomas: português, inglês e
espanhol.
3 SOBRE O JULGAMENTO DOS MANUSCRITOS
Os manuscritos recebidos serão analisados pelo Conselho Editorial da REME, que se reserva o direito de aceitar ou recusar os trabalhos
submetidos. O processo de revisão – peer review – consta das etapas a seguir, nas quais os manuscritos serão:
a) protocolados, registrados em base de dados para controle;
b) avaliados quanto à apresentação física – revisão inicial quanto aos padrões mínimos de exigências da REME (folha de rosto com
identificação dos autores e títulos do trabalho) e a documentação; podendo ser devolvido ao autor para adequação às normas antes
do encaminhamento aos consultores;
c) encaminhados ao Editor-Geral, que indica o Editor Associado, que ficará responsável por indicar dois consultores em conformidade
com as áreas de atuação e qualificação;
d) remetidos a dois revisores especialistas na área pertinente, mantidos em anonimato, selecionados de um cadastro de revisores,
sem identificação dos autores e o local de origem do manuscrito. Os revisores serão sempre de instituições diferentes da instituição
de origem do autor do manuscrito.
e) Após receber ambos os pareceres, o Editor Associado avalia e emite parecer final, e este é encaminhado ao Editor-Geral, que decide
pela aceitação do artigo sem modificações, pela recusa ou pela devolução aos autores com as sugestões de modificações. Cada versão
é sempre analisada pelo Editor-Geral, responsável pela aprovação final.
4 SOBRE A APRESENTAÇÃO DOS MANUSCRITOS
4.1 APRESENTAÇÃO GRÁFICA
Os manuscritos devem ser encaminhados gravados em disquete ou CD-ROM, utilizando programa "Word for Windows", versão 6.0 ou
superior, fonte "Times New Roman", estilo normal, tamanho 12, digitados em espaço 1,5 entre linhas, em duas vias impressas em papel
padrão ISO A4 (212 x 297mm), com margens de 2,5 mm, padrão A4, limitando-se a 20 laudas, incluindo as páginas preliminares, texto,
agradecimentos, referências e ilustrações.
4.2 AS PARTES DOS MANUSCRITOS
Todo manuscrito deverá ter a seguinte estrutura e ordem, quando pertinente:
a) Páginas preliminares:
Página 1: Título e subtítulo – nos idiomas: português, inglês, espanhol; Autor(es): nome completo acompanhado da profissão,
titulação, cargo, função e instituição, endereço postal e eletrônico do autor responsável para correspondência; Indicação da Categoria
do artigo: Pesquisa, Revisão Teórica , Relato de Experiência, Artigo Reflexivo/Ensaio.
Página 2: Título do artigo em português; Resumo e palavras-chave; Abstract e Key words; Resumen e Palabras clave. (As Palavraschave (de três a seis), devem ser indicadas de acordo com o DECS – Descritores em Ciências da Saúde/BIREME), disponível em: <http://
decs.bvs.br/>.
O resumo deve conter até 250 palavras, com espaçamento simples em fonte com tamanho 10.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 617-622, out./dez., 2011
617
Página 3: a partir desta página, apresenta-se o conteúdo do manuscrito precedido pelo título em português, que inclui:
b) Texto: – introdução;
– desenvolvimento (material e método ou descrição da metodologia, resultados, discussão e/ou comentários);
– conclusões ou considerações finais;
c) Agradecimentos (opcional);
d) Referências como especificado no item 4.3;
e) Anexos, se necessário.
4.3 SOBRE A NORMALIZAÇÃO DOS MANUSCRITOS:
Para efeito de normalização, serão adotados os Requerimentos do Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (Norma de
Vancouver). Esta norma poderá ser encontrada na íntegra nos endereços:
em português: <http://www.bu.ufsc.br/bsccsm/vancouver.html>
em espanhol: <http://www.enfermeriaencardiologia.com/formacion/vancouver.htm>
em inglês: <http://www.nlm.nih.gov/bsd/uniform_requirements.html>
As referências são numeradas consecutivamente, na ordem em que são mencionadas pela primeira vez no texto.
As citações no texto devem ser indicadas mediante número arábico, sobrescrito, correspondendo às referências no final do artigo.
Os títulos das revistas são abreviados de acordo com o “Journals Database” – Medline/Pubmed, disponível em: <http://www.ncbi.
nlm.nih.gov/entrez/ query. fcgi? db=Journals> ou com o CCN – Catálogo Coletivo Nacional, do Instituto Brasileiro de Informação em
Ciência e Tecnologia (IBICT), disponível em: <http://www.ibict.br.>
As ilustrações devem ser apresentadas em preto & branco imediatamente após a referência a elas, em conformidade com a Norma de
apresentação tabular do IBGE, 3ª ed. de 1993 . Em cada categoria deverão ser numeradas seqüencialmente durante o texto. Exemplo: (TAB.
1, FIG. 1, GRÁF 1). Cada ilustração deve ter um título e a fonte de onde foi extraída. Cabeçalhos e legendas devem ser suficientemente
claros e compreensíveis sem necessidade de consulta ao texto. As referências às ilustrações no texto deverão ser mencionadas entre
parênteses, indicando a categoria e o número da ilustração. Ex. (TAB. 1).
As abreviaturas, grandezas, símbolos e unidades devem observar as Normas Internacionais de Publicação. Ao empregar pela primeira
vez uma abreviatura, esta deve ser precedida do termo ou expressão completos, salvo quando se tratar de uma unidade de medida
comum.
As medidas de comprimento, altura, peso e volume devem ser expressas em unidades do sistema métrico decimal (metro, quilo,
litro) ou seus múltiplos e submúltiplos. As temperaturas, em graus Celsius. Os valores de pressão arterial, em milímetros de mercúrio.
Abreviaturas e símbolos devem obedecer padrões internacionais.
Os agradecimentos devem constar de parágrafo à parte, colocado antes das referências.
5 SOBRE O ENCAMINHAMENTO DOS MANUSCRITOS
Os manuscritos devem vir acompanhados de ofício de encaminhamento contendo nome do(s) autor(es), endereço para correspondência,
e-mail, telefone, fax e declaração de colaboração na realização do trabalho e autorização de transferência dos direitos autorais para a
REME. (Modelos disponíveis em www.enf.ufmg.br/reme)
Para os manuscritos resultados de pesquisas envolvendo seres humanos, deverá ser encaminhada uma cópia de aprovação emitido
pelo Comitê de Ética reconhecido pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), segundo as normas da Resolução do Conselho
Nacional de Saúde (CNS/196/96).
Para os manuscritos resultados de pesquisas envolvendo apoios financeiros, estes deverão estar claramente identificados no manuscrito
e o(s) autor(es) deve(m) declarar, juntamente com a autorização de transferência de autoria, não possuir(em) interesse(s) pessoal,
comercial, acadêmico, político ou financeiro no manuscrito.
Os manuscritos devem ser enviados para:
At/REME – Revista Mineira de Enfermagem
Escola de Enfermagem da UFMG
Av. Alfredo Balena, 190, sala 104 Bloco Norte
CEP.: 30130-100 Belo Horizonte-MG – Brasil – Telefax.: 55(31) 3409-9876
E-mail: reme@enf.ufmg.br
6 SOBRE A RESPONSABILIZAÇÃO EDITORIAL
Os casos omissos serão resolvidos pelo Conselho Editorial.
A REME não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nos artigos.
(Versão de setembro de 2007)
618
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 617-622, out./dez., 2011
Publication norms
REME  REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM
INSTRUCTIONS TO AUTHORS
1. THE MISSION OF THE MINAS GERAIS NURSING MAGAZINE – REME
REME is a journal of the School of Nursing of the Federal University of Minas Gerais in partnership with schools and undergraduate
courses in Nursing in the State of Minas Gerais, Brazil: Wenceslau Braz School of Nursing, Higher Education Foundation of Vale do
Sapucaí, Higher Education Foundation of Passos, University Center of East Minas Gerais, Nursing College of the Federal University of
Juiz de Fora. It is a quarterly publication intended to contribute to the production, dissemination and use of knowledge produced in
nursing and similar fields covering education, research and healthcare.
2. REME SECTIONS
Each quarterly edition is structured as follows:
Editorial: raises relevant issues from the scientific, academic, political and social setting.
Research: articles with qualitative and quantitative approaches, original and unpublished, contributing to build knowledge in nursing
and associated fields.
Review of theory: critical reviews of literature on important issues of nursing and associated fields.
Reports of experience: descriptions of interventions and experiences on healthcare and education.
Critical reflection: texts with special relevance bringing contributions to nursing and health thinking.
Publication norms: instructions to authors on the layout of manuscripts in the languages: Portuguese, English and Spanish.
3. EVALUATION OF MANUSCRIPTS
The manuscripts received are reviewed by REME’s Editorial Council, which has the right to accept or refuse papers submitted. The peer
review has the following stages:
a) protocol, recorded in a database for control
b) evaluated as to layout – initial review as to minimal standards required by REME – (cover note with the name of authors and titles of
the paper) and documentation. They may be sent back to the author for adaptation to the norms before forwarding to consultants.
c) Forwarded to the General Editor who name an Associate Editor who will indicate two consultants according to their spheres of work
and qualification.
d) Forwarded to two specialist reviewers in the relevant field, anonymously, selected from a list of reviewers, without the name of the
authors or origin of the manuscript. The reviewers are always from institutions other than those of the authors.
e) After receiving both opinions, the General Editor and the Executive Director evaluate and decide to accept the article without
alterations, refuse or return to the authors, suggesting alterations. Each copy is always reviewed by the General Editor or the Executive
Director who are responsible for final approval.
4. LAYOUT OF MANUSCRIPTS
4.1 GRAPHICAL LAYOUT
Manuscripts are to be submitted on diskette or CD-ROM in Word for Windows, version 6.0 or higher, Times New Roman normal, size 12,
space 1.5, printed on standard ISO A4 paper (212 x 297 mm), margins 2.5 mm, limited to 20 pages, including preliminary pages, texts,
acknowledgement, references and illustrations.
4.2 PARTS OF THE MANUSCRIPTS
Each manuscript should have the following structure and order, whenever relevant:
REME – Rev. Min. Enf.; 11(1): 99-107, jan/mar, 2007 – 103
a) Preliminary pages:
Page 1: title and subtitle – in Portuguese, English and Spanish. Authors: full name, profession, qualifications, position and institution,
postal and electronic address of the author responsible for correspondence. Indication of paper category: Research, Review of Theory,
Report of Experience, Critical Reflection/Essay.
Page 2: Title of article in Portuguese; Resumo e palavras-chave; Abstract and key-words; Resumen e palavras clave (Key words - 3 to
6 – should agree with the Health Science Descriptors/BIREME, available at http://decs.bvs.br/ .
The abstract should have up to 250 words with simple space, font size 10.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 617-622, out./dez., 2011
619
Page 3: the content of the paper begins on this page, starting with the title in Portuguese, which includes:
b) Text:
• Introduction;
• Main body (material and method or description of methodology, results, discussion and/or comments);
• Conclusions or final comments.
c) Acknowledgements (optional);
d) References as specified in item 4.3
e) Appendices, if necessary.
4.3 REQUIREMENTS FOR MANUSCRIPTS:
The requirements are those of the International Committee of Medical Journal Editors (Vancouver Norm), which can be found in full
at the following sites:
Portuguese: <http://www.bu.ufsc.br/bsccsm/vancouver.html>
Spanish: <http://www.enfermeriaencardiologia.com/formacion/vancouver.htm>
English: <http://www.nlm.nih.gov/bsd/uniform_requirements.html>
References are numbered in the same order in which they are mentioned for the first time in the text.
Quotations in the text should be numbered, in brackets, corresponding to the references at the end of the article.
The titles of journals are abbreviated according to“Journals Database”– Medline/Pubmed, available at: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/
entrez/ query. fcgi? db=Journals> or according to the CCN – National Collective Catalogue of the IBICT- Brazilian Information Institute
in Science and Technology, available at: <http://www.ibict.br.>
Illustrations should be sent in black and white immediately after the reference in the text, according to the tabular presentation norm
of IBGE, 3rd ed. of 1993. Under each category they should be numbered sequentially in the text. (Example: TAB 1, FIG. 1, GRÁF 1). Each
illustration should have a title and the source. Headings and titles should be clear and understandable, without the need to consult the
text. References to illustrations in the text should be in brackets, indicating the category and number of the illustration. Ex. (TAB. 1).
Abbreviations, measurement units, symbols and units should agree with international publication norms. The first time an abbreviation
is used, it should be preceded by the complete term or expression, except when it is a common measurement.
Length, height, weight and volume measures should be quoted in the metric system (meter, kilogram, liter) or their multiples or
sub-multiples. Temperature, in degrees Celsius. Blood pressure, in millimeters of mercury. Abbreviations and symbols must follow
international standards.
Acknowledgements should be in a separate paragraph, placed before the bibliography.
5. SUBMITTAL OF MANUSCRIPTS
Manuscripts must be accompanied by a cover letter containing the names of the authors, address for correspon¬dence, e-mail, telephone
and fax numbers, a declaration of collaboration in the work and the transfer of copyright to REME.
(Samples are available at: www.enfermagem.ufmg.br/reme)
For manuscripts resulting from research involving human beings, there should be a copy of approval by the ethics committee recognized
by the National Ethics Committee for Research (CONEP), according to the norms of the National Health Council – CNS/196/96.
Manuscripts that recived financial support need to have it clearly identified.
The author(s) must sign and send the Responsability Agreement and Copyright Transfer Agreement
and also a statement informing that there are no persnonal, comercial, academic, political or financial
interests on the manuscript.
Manuscripts should be sent to:
ATT/REME- Revista Mineira de Enfermagem
Escola de Enfermagem da UFMG
Av. Alfredo Balena, 190, sala 104 Bloco Norte
CEP.: 30130-100 Belo Horizonte - MG – Brasil - Telefax.: 55(31) 3409-9876 – REME – Rev. Min. Enf.; 11(1): 99-107, jan/mar, 2007 104
E-mail: reme@enf.ufmg.br
6. EDITORS RESPONSIBILITY
Further issues will be decided by the Editorial Council.
REME is not responsible for the opinions stated in articles.
(September version, 2007)
620
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 617-622, out./dez., 2011
Normas de publicación
REME  REVISTA DE ENFERMERÍA DEL ESTADO DE MINAS GERAIS
INSTRUCCIONES A LOS AUTORES
1. SOBRE LA MISIÓN DE LA REVISTA REME
REME – Revista de Enfermería de Minas Gerais – es una publicación trimestral de la Escuela de Enfermería de la Universidad Federal
de Minas Gerais – UFMG – conjuntamente con Facultades, Escuelas y Cursos de Graduación en Enfermería del Estado de Minas Gerais:
Escuela de Enfermería Wenceslao Braz; Fundación de Enseñanza Superior de Passos; Centro Universitario del Este de Minas Gerais;
Facultad de Enfermería de la Universidad Federal de Juiz de Fora – UFJF. Su publicación trimestral tiene la finalidad de contribuir a la
producción, divulgación y utilización del conocimiento generado en enfermería y áreas correlacionadas, incluyendo también temas
de educación, investigación y atención a la salud.
2. SOBRE LAS SECCIONES DE REME
Cada fascículo, editado trimestralmente, tiene la siguiente estructura:
Editorial: considera temas de relevancia del contexto científico, académico y político social;
Investigación: incluye artículos con enfoque metodológico cualitativo y cuantitativo, originales e inéditos que contribuyan a la
construcción del conocimiento en enfermería y áreas correlacionadas;
Revisión teórica: evaluaciones críticas y ordenadas de la literatura sobre temas de importancia para enfermería y áreas
correlacionadas;
Relatos de experiencias: descripciones de intervenciones que incluyen atención en salud y educación;
Artículos reflexivos: textos de especial relevancia que aportan al pensamiento en Enfermería y Salud;
Normas de publicación: instrucciones a los autores sobre la presentación física de los manuscritos en los idiomas portugués, inglés y español.
3. SOBRE CÓMO SE JUZGAN LOS MANUSCRITOS
Los manuscritos recibidos son analizados por el Cuerpo Editorial de la REME, que se reserva el derecho de aceptar o rechazar los trabajos
sometidos. El proceso de revisión – paper review – consta de las siguientes etapas en las cuales los manuscritos son:
a) protocolados, registrados en base de datos para control;
b) evaluados según su presentación física – revisión inicial en cuanto a estándares mínimos de exigencias de la R.E.M.E ( cubierta con
identificación de los autores y títulos del trabajo) y documentación ; el manuscrito puede devolverse al autor para que lo adapte a las
normas antes de enviarlo a los consultores;
c) enviados al Editor General que indica el Editor Asociado que será el responsable por designar dos consul¬tores de conformidad con
el área.
d) remitidos a dos revisores especilistas en el área pertinente, manteniendo el anonimato, seleccionados de una lista de revisores, sin
identificación de los autores y del local de origen del manuscrito. Los revisores siempre serán de instituciones diferentes a las de origen
del autor del manuscrito.
e) después de recibir los dos pareceres, el Editor General y el Director Ejecutivo los evalúan y optan por la aceptación del artículo sin
modificaciones, por su rechazo o por su devolución a los autores con sugerencias de modificaciones. El Editor General y/o el Director
Ejecutivo, a cargo de la aprobación final, siempre analizan todas las versiones.
4. SOBRE LA PRESENTACIÓN DE LOS MANUSCRITOS
4.1 PRESENTACIÓN GRÁFICA
Los manuscritos deberán enviarse grabados en disquete o CD-ROM, programa “Word for Windows”, versión 6.0 ó superior, letra “Times
New Roman”, estilo normal, tamaño 12, digitalizados en espacio 1,5 entre líneas, en dos copias impresas en papel estándar ISO A4
(212x 297mm), con márgenes de 25mm, modelo A4, limitándose a 20 carillas incluyendo páginas preliminares, texto, agradecimientos,
referencias, tablas, notas e ilustraciones. – REME – Rev. Min. Enf.; 11(1): 99-107, jan/mar, 2007 106
4.2 LAS PARTES DE LOS MANUSCRITOS
Los manuscritos deberán tener la siguiente estructura y orden, cuando fuere pertinente:
a) páginas preliminares:
Página 1: Título y subtítulo en idiomas portugués, inglés y español; Autor(es): nombre completo, profesión, título, cargo, función
e institución; dirección postal y electrónica del autor responsable para correspondencia; Indicación de la categoría del artículo:
investigación, revisión teórica, relato de experiencia, artículo reflexivo/ensayo.
Página 2: Título del artículo en portugués; Resumen y palabras clave. Las palabras clave (de tres a seis) deberán indicarse en conformidad
con el DECS – Descriptores en ciencias de la salud /BIREME), disponible en: http://decs.bvs.br/.
El resumen deberá constar de hasta 250 palabras, con espacio simple en letra de tamaño 10.
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 617-622, out./dez., 2011
621
Página 3: a partir de esta página se presentará el contenido del manuscrito precedido del título en portugués que incluye:
b) Texto: – introducción;
• desarrollo (material y método o descripción de la metodología, resultados, discusión y/o comen¬tarios);
• conclusiones o consideraciones finales;
c) Agradecimientos (opcional);
d) Referencias como se especifica en el punto 4.3;
e) Anexos, si fuere necesario.
4.3 SOBRE LA NORMALIZACIÓN DE LOS MANUSCRITOS:
Para efectos de normalización se adoptarán los Requisitos del Comité Internacional de Editores de Revistas Médicas (Norma deVancouver).
Esta norma se encuentra de forma integral en las siguientes direcciones:
En portugués: http://www.bu.ufsc.br/bsccsm/vancouver.html>
En español: http://www.enfermeriaencardiologia.com/formación/vancouver.htm
En inglés: http://www.nlm.nih.gov/bsd/uniform_requirements.html >
Las referencias deberán enumerarse consecutivamente siguiendo el orden en el que se mencionan por primera vez en el texto.
Las citaciones en el texto deberán indicarse con numero arábico, entre paréntesis, sobrescrito, correspondiente a las referencias al final
del articulo.
Los títulos de las revistas deberán abreviarse de acuerdo al “Journals Database” Medline/Pubmed, disponible en: <http://www.ncbi.
nlm.nih.gov/entrez/ query. fcgi? db=Journals> o al CCN – Catálogo Colectivo Nacional, del IBICT- Ins¬tituto Brasileño de Información
en Ciencia y Tocología, disponible en: <http://www.ibict.br.>
Las ilustraciones deberán presentarse en blanco y negro luego después de su referencia, en conformidad con la norma de presentación
tabular del IBGE , 3ª ed. , 1993. Dentro de cada categoría deberán enumerarse en secuencia durante el texto. Por ej.: (TAB.1, FIG.1,
GRAF.1). Cada ilustración deberá tener un titulo e indicar la fuente de donde procede. Encabezamientos y leyendas deberán ser lo
suficientemente claros y comprensibles a fin de que no haya necesidad de recurrir al texto. Las referencias e ilustraciones en el texto
deberán mencionarse entre paréntesis, con indicación de categoría y número de la ilustración. Por ej. (TAB.1).
Las abreviaturas, cantidades, símbolos y unidades deberán seguir las Normas Internacionales de Publicación. Al emplear por primera
vez una abreviatura ésta debe estar precedida del término o expresión completos, salvo cuando se trate de una unidad de medida
común.
Las medidas de longitud, altura, peso y volumen deberán expresarse en unidades del sistema métrico decimal (metro, kilo, litro) o sus
múltiplos y submúltiplos; las temperaturas en grados Celsius; los valores de presión arterial en milímetros de mercurio. Las abreviaturas
y símbolos deberán seguir los estándares internacionales.
Los agradecimientos deberán figurar en un párrafo separado, antes de las referencias bibliográficas.
5. SOBRE EL ENVÍO DE LOS MANUSCRITOS
Los manuscritos deberán enviarse juntamente con el oficio de envío, nombre de los autores, dirección postal, dirección electrónica y fax
así como de la declaración de colaboración en la realización del trabajo y autorización de transferencia de los derechos de autor para la
revista REME. (Modelos disponibles en: www.enfermagem.ufmg.br/reme)
Para los manuscritos resultados de trabajos de investigación que involucren seres humanos deberá enviarse una copia de aprobación
emitida por el Comité de Ética reconocido por la Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) – Comisión Nacional de Ética en
Investigación, en conformidad con las normas de la resolución del Consejo Nacional de Salud – CNS/196/96. – REME – Rev. Min. Enf.;
11(1): 99-107, jan/mar, 2007 – 107
Para los manuscritos resultantes de trabajos de investigación que hubieran recibido algún tipo de apoyo financiero, el mismo deberá
constar, claramente identificado, en el propio manuscrito. El autor o los autores también deberán declarar, juntamente con la autorización
de transferencia del derecho de autor, no tener interés personal, comercial, académico, político o financiero en dicho manuscrito.
Los manuscritos deberán enviarse a:
At/REME – Revista Mineira de Enfermagem
Escola de Enfermagem da UFMG, sala 104 Bloco Norte
CEP 30130- 100 Belo Horizonte MG – Brasil – Telefax **55 (31) 3409-9876
Correo electrónico: reme@enf.ufmg.br
6. SOBRE LA RESPONSABILIDAD EDITORIAL
Los casos omisos serán resueltos por el Consejo Editorial.
REME no se hace responsable de las opiniones emitidas en los artículos.
(Versión del 12 de septiembre de 2007)
622
remE – Rev. Min. Enferm.;15(4): 617-622, out./dez., 2011
!
Revista Mineira de Enfermagem
Nursing Journal of Minas Gerais
remE
Revista de Enfermería de Minas Gerais
FoRMuláRio PARA ASSiNAtuRA dA REME
ASSINATURA ANUAL | ANNUAL SUBSCRIPTION | SUSCRIPCIóN ANUAL
Periodicidade Trimestral | Every Quarter | Periodicidad Trimestral
Nome / Name / Nombre ou Instituição assinante: _______________________________________________________________
Endereço / Adress / Dirección:________________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________________________________________
Cidade / City / Ciudad: ____________________________________País / Country / Pais:__________________________________
UF / State / Provincia: ________________________________________ CEP / Zip Code / Código Postal: _____________________
Tel. / Phone / Tel.: _____________________ fax: ______________________ Celular / Cell Phone / Cellular: ___________________
E-mail:____________________________________________________________________________________________________
Categoria Profissional / Occupation / Profesión: _________________________________________________________________
Data / Date / Fecha: _______/_______/_______
Assinatura / Signature / Firma: ______________________________________________________________________________
Encaminhar este Formulário de Assinatura acompanhado do comprovante de depósito bancário,
por fax (31 3409-9876) ou e-mail (reme@enf.ufmg.br)
Send your subscription to:
Enviar la inscripción a:
Dados para depósito:
BANCO DO BRASIL
Agência / Branch Number / Sucursal Número: 1615-2
Conta / Bank Account / Cuenta de Banco: 480109-1
Código identificador/ Identification code/ Clave de identificación: 4828011
Valores Anuais:
Individual: R$100,00 ( ) US$80,00 ( )
Institucional: R$150,00 ( ) US$100,00 ( )
ESCOLA DE ENFERMAGEM  UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
REME  Revista Mineira de Enfermagem
Av. Alfredo Balena, 190 - sala 104, Bloco Norte
Campus Saúde, Bairro Santa Efigênia - CEP: 30130-100
Belo Horizonte - MG - Brasil
Telefax/Fax: +55 (31) 3409-9876
Home page: www.enf.ufmg.br/reme.php
Download

Versão completa em PDF - Escola de Enfermagem