Tumor adenomatóide do epidídimo
-a propósito de um caso clínico
Adenomatoid tumour of the epididymis
- case report
Vilas-Boas V., Pardal H., Melo P., Morales J.
Serviço de Urologia, Hospital de São José, Centro Hospitalar de Lisboa Central
Director: Dr. Vaz Santos
Correspondência: Vanessa Vilas-Boas, Serviço de Urologia do Hospital de São José
Rua José António Serrano , 1150-199 Lisboa
e-mail: vanessa_vilas_boas@hotmail.com
Titulo breve: tumor adenomatóide do epidídimo – caso clinico
Tumor adenomatóide do epidídimo
- a propósito de um caso clínico
Adenomatoid tumour of the epididymis- case report
RESUMO
Introdução: Os tumores paratesticulares são neoplasias raras, na maioria
benignas, sendo os mais comuns ostumores adenomatóides.Estes localizam-se
mais frequentemente no epidídimoe surgem como um pequeno nódulo, geralmente
indolor, detectado pelo doente ou em exame de rotina.
Caso clínico: Doente do sexo masculino, 32 anos, saudável, que recorreu a
consulta de Urologia por nódulo paratesticular direito ligeiramente doloroso. Ao
exame objectivo verificou-se pequeno nódulo na região caudal do epidídimo direito.
Realizou ecografia escrotal que revelou imagem nodular ecogénica bem delimitada
com cerca de 1,5 cm de maior eixo ao nível da cauda do epididimo direito. O
doente foi submetido a epididimectomia parcial à direita tendo o estudo
histopatológico da peça operatória revelado tumor adenomatóide do epididimo. Aos
23 meses de seguimento encontra-se assintomático e sem sinais de recidiva.
Discussão: O tumor adenomatóide do epididimo é uma neoplasia rara que pode
ser diagnosticada em qualquer idade. Apesar de etiologia desconhecida, o seu
perfil imunohistoquímico sugere uma origem mesotelial. Tem comportamento
benigno, não existindo relatos de metastização por este tumor e o tratamento é
cirúrgico, preferencialmente conservador, com exérese do tumor ou
epididimectomia.
Palavras chave:tumor adenomatoide, epididimo, tumor paratesticular
ABSTRACT
Introduction: Paratesticular tumours are rare neoplasms, mostly benign, the most
common of which are adenomatoid tumours. These are usually located in the
epididimys, and clinically present as a small, usually painless nodule found by the
patient or on routine examination.
Case report: Male patient, age 32, healthy, with slightly painfull right paratesticular
nodule. Physical examination revealed a small nodule in the tail of the right
epididymis. Scrotal ultrasound showed ecogenic nodular lesion, well circunscribed,
with 1,5cm in greatest diameter at the tail of the right epididimys. The patient
underwent partial epididymectomy, with the histological result of adenomatoid
tumour of the epididimys. At 23 months follow-up the patient is asymptomatic and
shows no signs of recurrence.
Discussion: Adenomatoid tumour of the epididimys is a rare tumour that can
appear at any age. Although its etiology is unknown, himmunohistochemical profile
sugests mesotelial origin. It behaves in a benign fashion, with no reports of
metastasis so far and he treatment is surgical, preferably conservative, with
exeresis of the tumour or epididectomy.
Keywords: adenomatoid tumour, epididymis, paratesticular tumour
Tumor adenomatóide do epidídimo – caso clinico
2
Introdução: Os tumores adenomatóides são neoplasias benignas de provável
origem mesotelial que surgem principalmente nos órgãos genitais masculinos e
femininos. No homem correspondem
correspondem a cerca de 30% do total de tumores
paratesticulares, localizando
ndo-se na maioria dos casos no epidídimo,
epidídimo com
predomínio no pólo inferior.Surgem
inferior
habitualmente no adulto como um pequeno
nódulo sólido geralmente indolor sendo o diagnóstico sugerido pelas suas
características clínicas e imagiológicas.
imagiológicas O diagnóstico diferencial com outras
entidades tumorais é de suma importância, uma vez que um elevado grau de
suspeição desta neoplasia permite efectuar um tratamento cirúrgico conservador.
A propósito do caso clínico de um jovem diagnosticado com tumor adenomatóide
a
do epididimo na sequência de investigação clínica e tratamento
tratamento de um nódulo
paratesticular direito,, o presente artigo efectua uma breve revisão deste tipo raro de
tumor.
Caso clínico:: Doente do sexo masculino, 32 anos, raça caucasiana, sem
antecedentes
tecedentes pessoais relevantes,
relevan
nomeadamente traumatismo escrotal ou
orquiepididimite. Recorreu
correu a consulta de Urologia por queixas com cerca de 6
meses de evolução de nódulo paratesticular à direita ligeiramente doloroso e de
crescimento progressivo,
o, sem outros
o
sintomas genito-urinários.. Ao exame objectivo
verificou-se um pequeno nódulo na região caudal do epidídimo direito, bem
delimitado, de consistência
sistência fibro-elástica
fibro
e moderadamente doloroso à palpação. O
restante exame físico foi normal, nomeadamente não se verificaram nódulos ou
alterações de volume ou consistência testiculares ou do epidídimo
dimo esquerdo.
Foi solicitada ecografia escrotal que revelou ao nível da cauda do epididimo direito
imagem nodular bem
em delimitada com cerca de 1,5 cm de maior eixo,
hiperecogénica
ca e discretamente heterogénea, associada a fina lâmina de hidrocele.
Fig 1:Ecografia escrotal: imagem nodular hiperecogénica, bem delimitada, com 1,5
cm de maior eixo, localizada na cauda do epidídimo direito e associada a fina
lâmina de hidrocele.
O doente foi submetido a epididimectomia parcial à direita com abordagem escrotal
que decorreu sem complicações e o pós-operatório
operatório sem intercorrências.
O estudo histopatológico da peça operatória
operatória revelou tumor adenomatóide do
epididimo (AE1/AE3+, Vimentina
imentina +, Calretinina +).
+
Tumor adenomatóide do epidídimo – caso clinico
3
Figura 2)) Estudo histopatológico de nódulo do epididimo – HematoxifilinaHematoxifilina eosina,
400X : imagem com características típicas de Tumor adenomatóide
patológico de nódulo do epididimo – Calretinina, 50X :
Figura 3) Estudo histopatológico
imagem demostrativa de positividade para a calretinina, sugestiva de tumor
adenomatóide
Repetiu ecografia escrotal
scrotal dois meses após a cirurgia,
cirur
a qual revelou discreta
heterogeneidade do epididimo direito em relação com cirurgia prévia, não se
identificando lesões expansivas.
Tumor adenomatóide do epidídimo – caso clinico
4
Fig 4:Ecografia escrotal pós-operatória: discreta heterogeneidade do epididimo
direito em relação com cirurgia prévia, não se identificando lesões expansivas.
Aos vinte e três meses de seguimento o doente encontra-se assintomático e sem
sinais de recidiva.
Discussão: Os tumores paratesticulares constituem apenas 7 a 10% das
neoplasias intra-escrotais3 e são na maioria (70 a 80%) benignos2-4. O tumor
adenomatóide é o mais frequente destes, correspondendo a cerca de 30% dos
casos, seguindo-se o leiomioma e mais raramente o cistadenoma papilar1-3,7. Os
tumores paratesticulares malignos são ainda mais raros, tendo sido descritos casos
de sarcomas, metástases de carcinomas do estômago, pâncreas e rim, assim
como alguns carcinomas primários, entre eles do epidídimo2,5.
Os tumores adenomatóidesdesenvolvem-se principalmente no tracto genito-urinário
em ambos os sexos. Na mulher podem surgir no útero, trompas de Falópio e ovário
ao passo que no homem a localização anatómica mais frequente é o epididimo,
com predomínio esquerdo e na região caudal, podendo também desenvolver-se
nas túnicas testiculares e mais raramente no cordão espermático1-7.
Têm maior incidência entre a terceira e quarta décadas de vida, mas foram
descritos casos dos 20 aos 80 anos4-5.
Clinicamente caracterizam-se por um nódulo sólido, bem delimitado, de
consistência duro-elástica, arredondado ou ovalado, de dimensões entre os 5 e os
50 mm (a maioria com cerca de 2 cm) egeralmente indolor, embora possam mais
raramente associar-se a dor ou desconforto ligeiro1-7. Apresentam crescimento
lento e em cerca de 50% dos casos têm hidrocele associado2.Dadas estas
características, são habitualmente um achado acidental efectuado pelo próprio
doente,em exame de rotina ou aquando da avaliação imagiológica de outras
condições intercorrentes, como processos infecciosos ou traumatismos.
Estão descritas três formas de apresentação dos tumores adenomatóides: tumoral,
na qual o nódulo se distingue facilmente do testículo saudável, inflamatória, que se
confunde clinicamente com uma epididimite aguda ou crónica e maligna, na qual
existe má diferenciação entre o nódulo e o testículo2,7. Em qualquer dos casos
apresentam comportamento benigno e apesar de existirem alguns casos com atipia
celular e invasão local, não existem relatos de metastização.
A origem destes tumores ainda não está totalmente esclarecida. Alguns autores
consideram que estes surgem como resposta a um processo traumático ou
inflamatório, enquanto outros defendem uma origem mesotelial. Esta última é a
mais amplamente aceite, devido às suas carcaterísticas histológicas, com células
semelhantes às do mesotélio normal ou mesotelioma e ao seu perfil
imunohistoquímico, também semelhante ao dos mesoteliomas2,6. Contudo, esta
teoria não justifica a sua localização preferencial a nível dos órgãos genitais.
À observação macroscópica, os tumores adenomatóides são pequenos nódulos
sólidos, comsuperfície de aspecto fibroso branca, amarelada ou acastanhada.
Microscopicamente são constituídos por células epiteliais planas ou cubóides que
delimitam espaços irregulares, rodeadas por estroma fibroso e fibras musculares.
As células epiteliais possuem frequentemente vacúolos de tamanhos variáveis que
podem ocupar todo o citoplasma da célula, o qual é acidófilo e finamente granular.
O núcleo tem localização central, tamanho e distribuição de cromatina uniforme e
um único nucléolo1,3.
Tumor adenomatóide do epidídimo – caso clinico
5
Os tumores adenomatóides apresentam um perfil imunohistoquímico característico,
com expressão das citoqueratinas AE1/AE2 e EMA associada à ausência de
expressão de marcadores epiteliais, factor VIII ou CD341-4. Apresentam também
positividade para a vimentina e calretinina. Esta última é uma proteína fixadora do
cálcio com elevada sensibilidade para a identificação de células mesoteliais e com
expressão muito rara em tumores malignos2-4.
A avaliação imagiológica dos tumores paratesticulares permite demonstrar algumas
características morfológicas que sugerem o seu carácter benigno. Os tumores
adenomatóides surgem na ecografia escrotal como massas sólidas, geralmente
hiperecogénicas, homogéneas e na maioria dos casos bem delimitadas1-2. Nas
formas de apresentação inflamatória e maligna, a distinção com o parênquima
testicular pode não ser evidente e nestes casos poderá serrealizada ressonância
magnética para esclarecimento das características do nódulo1-2. Em caso de
persistência de dúvidas, alguns autores recomendam a realização de biópsia
aspirativa1,8 contudo, dado o risco de sementeira tumoral associada a esta técnica,
a maioria defende a realização de exame extemporâneo aquando do tratamento
cirúrgico1,3.
Em relação ao tratamento, todos os autores recomendam cirurgia conservadora,
com exérese ou enucleação do tumor e preservação das restantes estruturas
anatómicas, principalmente do testículo, sempre que possível. Na maioria dos
casos nos quais a historia clínica e os exames imagiológicos são muito sugestivos
de benignidade pode ser efectuada abordagem escrotal, contudo quando há
suspeita de malignidade, deverá ser efectuada abordagem inguinal, seguida de
exame extemporâneo, conforme previamente mencionado2.
O prognóstico é muito favorável, não estando descritos casos de recidiva ou de
metastização pelos tumores adenomatóides1-7.
Referências bibliográficas:
1. Pérez R, Torres P, Pelaez R, Prieto V, Vargas E. Adenomatoid tumour of the
epididymis: an infrequent case. Arch. Esp. Urol. 2009; 62 (8): 656-660
2. Ibarguren R, Rodrigues J, Grasa I, Arín I, Aller E, Pena C. Tumor adenomatoide
epididimario: aportación de 5 casos. Arch. Esp. Urol. 2008; 61 (7) 831-834
3. Maestro A, González R, Dorrego J, Barthel J, Serrano M. Adenomatoid tumors
of the epididymis and testicle: report of 9 cases and bibliographic review. Arch.
Esp. Urol. 2009; 62 (2) 137-41
4. Calvo JL, Puig J., Vega J, Casanova G, López A. Tumor adenomatóide de
epididimo. Actas Urol Esp. 2007; 31 (4): 417-419
5. Richie J, Steele G. Neoplasms of the Testis. In: Walsh PC, Petik AB, Vaughan
ED, Wein AJ, editors. Campbell’s Urology. 9th ed. Philadelphia: WB Saunders
Company. 2007: 931-935.
6. Kontos S, Fokitis I, Karakosta A, Koritsiadis G, Mitsios K, Koutsikos S,
Koritsiadis S. Adenomatoid tumor of epididymis: a case report. Cases J. 2008.
Oct 2 (1): 206
7. Abad P, Gálvez M, Fernandez L, Fajardo G, Ganán R, Sanz I. Tumor
adenomatoide de edpidídimo. Aportación de dos casos. Arch Esp. Urol. 2007;
60 (6): 700-703
8. Shah V, Shet T, Lad S. Fine needle aspiration cytology of epididymal nodules. J
Cytol. 2011 Jul; 28 (3):103-7.
Tumor adenomatóide do epidídimo – caso clinico
6
Download

Tumor adenomatóide do epidídimo