Jos Hermet
KLAUS
Baseado em Drácula de Bram Stoker
Hot Book
2.000
2
Dedicado a todas as pessoas
que amo, minha mãe, meu pai(inmemorian) meus filhos, sua mãe,
minhas
irmãs,
cunhados
e
sobrinhos.
E especialmente a Adrian
Hermet, precocemente retirada de
mim aos vinte e sete anos em 18
de julho de 2.000.
Moment rebus in
arduis servere mentem.
(Agnus Valerie)
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UM CRIME COMUM
Cacá Das Escolas, proeminente cidadão de Santos, acostumado a vencer, quase no auge
de um acontecimento ousado, iria construir um centro comercial na cidade de fazer inveja a
algumas das maiores cidades do mundo, iria ser eternizado com esta obra, mas parte do local
iria fugir de suas mãos, e a responsável era uma "mulherzinha sem importância" uma
ninguém, em sua opinião.
Ele não se conformava, "a meretriz fugidia", "a rameira esnobe"; Elizabeth Vernaz;
uma vadia, professora de cursos noturnos, ex-prostituta redimida, defensora de delinqüentes,
drogados, menores irrecuperáveis, a "ralé"; também segundo sua ótica; podia atrapalhar seus
planos? Jamais! Iria ensinar a ela qual era seu verdadeiro lugar.
Não iria se expor, criar vínculos, testemunhas, contratar matadores, ele poderiam trai-lo,
no futuro, faria como sempre fez, resolveria o problema pessoalmente, mas o projeto teria
seqüência.
-*Elizabeth Vernaz saiu da escola de alfabetização de adultos onde lecionava e se dirigiu
ao "Beco do Pedro" onde sempre deixava seu carro, era gratuito e ajudava a equilibrar seus
parcos rendimentos de professora. Iria descansar de um dia exaustivo, abriu a porta do
mesmo, ligou o motor e manobrou o mesmo em direção à rua, mas ano conseguiu sair do
local, de repente foi puxada para fora do veículo com violência
- Lamento muito! Vagabunda! Mas seu projeto será engavetado, Alexandre Latorre vai
retirar o apoio da Coexponal logo após sua morte, e ela vai ocorrer em poucos minutos não
antes de você mostrar seu verdadeiro talento, servir os vencedores, e não ser um deles.
Elizabeth quase não sentiu dor ao ser jogada ao chão, só revolta, o homem tinha
silenciador na arma, gritar só iria antecipar os acontecimentos, era imprudente, conhecia
Cacá, odiava seu desdém, sua maneira de olhar os infelizes por cima, conseguiu evitar sua
investidas durante toda sua vida noturna até decidir abandoná-la, pessoas como ele lhe
mostraram o quanto era considerada objeto, chorou baixinho para ele não ouvir, se odiou
quando ele desceu o zíper da calça para iniciar o processo pelo qual iria; finalmente; entrar
vencedor em seu corpo, objeto de seu desejo há muito tempo, agora aconteceria! Isso
aumentava o risco de ser descoberto, mas o monstro precisava sentir sua agonia, demonstrar o
quanto ela era insignificante, "gentinha". Ela analisou o olhar do homem e teve certeza.
Perderia sua vida e o fim de sua dignidade naquele beco sujo, o grande inimigo estava ao
lado.
Cacá agia com incrível indiferença a ela, matar desafetos para ele era normal, a imagem
de filantropo pela qual era conhecido era apenas uma lenda, o antônimo de sua maldade, de
sua determinação e desprezo pela vida humana, apática Elizabeth permaneceu inerte enquanto
ele despia seu tronco, mesmo assim o desafeto rasgou sua blusa antes de atirá-la para o lado.
Cacá parecia não ter pressa, não estavam em um lugar totalmente desolado, poderiam
ser surpreendidos a qualquer momento, mas ele queria tornar este momento tão lento quando
possível, não se incomodou com a inércia da mulher, acariciou com calma seus seios
expostos, beijou aqueles lábios vermelhos, mesmo sem reciproca, passou as mãos pêlos
cabelos morenos, macios, bem cuidados, sempre adorara seu cheiro, continuou se dedicando
ao tórax da mulher com a calma de quem possui todo o tempo do mundo.
Algo a incomodou, enfiou a mão no bolso das largas calças, e retirou o presente de seu
pai, suíço, não estava embrulhado para presente, era usado, mais de excelente qualidade
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Valdir Vernaz era um conservador, poucos nesta época utilizavam tal artefato, e era pequeno
e escuro o suficiente para não ser visto sobre a grama, ainda mais por um homem com o
cérebro guiado pela testoterona.
Para distrair o homem decidiu se mostrar revoltada, soluçou baixinho, fingiu reagir ao
estupro, não foi dócil quando ele tentou tirar suas calças, colocou as mãos sobre a cintura
tentando impedir sua ação, providência inútil, elas foram rasgadas com violência expondo
quase na totalidade sua nudez só protegida por suas botas e uma minúscula peça esta fraca
demais para resistir à fúria do anormal. Caca abriu suas pernas com facilidade, apesar de sua
resistência, era muito forte, seu rosto estampava um sorriso animalesco, doentio, ela seria
humilhada, arrasada antes de morrer, nem se lembrava mais de seu projeto. O veículo
continuava funcionado, era seu instrumento de fuga. O barulho do motor providencialmente
abafava os ruídos.
Ele mantinha suas pernas abertas com as duas mãos enquanto Elizabeth jogava os
quadris para os lados e o empurrava para cima com as duas mãos, tentando dificultar a ação,
mas era só uma questão de tempo e ele estaria dentro dela, a mão esquerda logo abandonou a
luta, ao notar o fim da pressão da mesma ele a olhou, com satisfação, logo a outra mão
também cansaria, aconteceu e ele atingiu seu objetivo, abriu um sorriso sarcástico, e ficou
parado usufruindo o aconchego de seu interior, não havia pressa, ela se enojou com seu
cinismo e tateou a grama, quando a mão direita subiu o objeto brilhava em suas mãos sob a
luz da lua.
O sorriso dele se apagou quando a afiada lamina nas mãos de Elizabete passou pelo seu
pescoço, transformando-se em uma mascara de surpresa e ódio, a mulher pulou para trás
enquanto ele tentava estancar o sangue com as mãos deixando cair o excesso sobre o corpo
nu já esquecido, foi empurrado para o lado caindo ainda vivo sobre a grama alta.
A mulher entrou no carro, mas voltou em seguida, não podia abandonar suas roupas no
local, ao começar a recolhê-las sentiu a situação ridícula na qual estava. teve uma crise
nervosa, desferiu muitos pontapés naquele corpo caído; um para cada pedaço de roupa
recolhida; outro ao recolher a arma, depois o deixou ainda vivo, no local, não lhe parecia
possível com um corte daquele, mas... não fizera medicina... acelerou com violência para fora
do beco ainda nua e ganhou a rua, era muito tarde; a cidade estava vazia, rodou algum tempo
sem direção certa até ver um carro de policia ainda distante jogou os restos das roupas
rasgadas sobre o corpo nu cobrindo as manchas de sangue coaguladas.
Agradeceu aos céus por não encontrar ninguém na rua quando chegou em casa, aqueles
andrajos não podiam ser vestidos, tomou o cuidado de colocar todos em uma sacola,
juntamente com a arma, e desceu do carro como veio ao mundo, exceto as botas, correndo
para a porta da sala, voltando depois vestindo um roupão para recolher o veiculo.
Fez um embrulho com todo o conteúdo da sacola e costurou o mesmo por baixo do
forro traseiro do sofá, só seria encontrado quando ela quisesse.
-*Deveria ser mais um assassinato sem solução, Elizabeth fugira sem a presença de
testemunhas, não havia nada ali para identificar a segunda pessoa, enato não haveria
suspeitos, próximo, mas o morto não era um homem comum, tinha uma história fantástica e
sua morte iria mudar a vida de dezenas de pessoas.
-*Elizabete estava saindo do banho quando Estevam Vernaz entrou em casa, olhou para o
velho lutador, trabalhara muito na estiva naquela noite e para sua felicidade não estava em
casa quando chegou viu seu cansado e comentou.
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- No próximo mês começam as obras da creche, posso indicar dois funcionários de
confiança, o senhor vai parar com este serviço.
- Preciso mesmo, ainda estou acompanhado o pessoal mas cada dia se torna mais difícil,
alguma dificuldade maior para conseguir o negócio?
- Dificuldade maior? Nenhuma, precisei matar alguns ratos, apenas isso.
- Matar alguns ratos?
- Afastar a oposição pai! Mas, não vamos falar nisso, o presente prometido está, sobre a
mesa, desculpe-me mas não tive tempo para embrulhar, é usada.
- Ah, claro.
Estevam Vernaz olhou maravilhado para a navalha.
- Não tenho como lhe agradecer filha, eu não teria coragem de pagar por uma dessas
com o meu salário. Está molhada, não devia.
- Desculpe pai, mas estava muito suja, há muito não era usada.
- A mim parece ter sido usada há poucos minutos, o corte está perfeito.
THOMAS AGUIAR, UMA VÍTIMA DO ACASO.
Poucas horas antes desses acontecimentos, há poucos metros do beco: no Mérlin, o
mais movimentado bar da região. Thomas Aguiar enfrentava a fúria da namorada, já sem
muita paciência para discutir sua atitude, a garota não entendia seus motivos, afinal um
homem com quarenta e três anos, sem formação universitária e exercendo um cargo de
confiança, produto de uma carreira de vinte e cinco anos, percebendo um salário superior ao
pago a muitos elementos com excelentes currículos não podia se dar ao luxo de pedir
demissão de um emprego destes, de repente, sem considerar todos os pontos, nunca tinham
conversado sobre o assunto, ela não influíra em sua decisão, não havia planos definidos;
como podia estar acontecendo?
- Não posso acreditar? E os nossos planos? Eu estava disposta a romper com minha
família para me unir a você contra a vontade deles. Ai me acontece uma coisa dessas?
- Entenda Marina, para mim ficou impossível trabalhar ao lado do Alexandre, uma
situação insustentável. Evitei falar no assunto consigo, não queria preocupá-la, mas venho
analisando essa possibilidade já faz muito tempo.
- Qual o problema, o Alexandre aumentou o lucro da empresa e você está com ciúmes?
- Marina, Marina! Você sabe como nós aumentamos nossos lucros?
- Não! É claro! Sou uma simples Encarregada de Tesouraria, mas vejo a empresa
crescendo dia a dia, a conta bancária cada vez mais abarrotada.
- E como isto pode ocorrer se nosso faturamento permanece igual?
- Como posso saber? Administração eficiente. Creio.
- Roubo! Estamos roubando nossos cooperados, lançando despesas inexistentes,
vendendo os produtos por um valor e lançando os mesmos a menor nos conta-correntes, e no
tocante às perdas? Alexandre Latorre exagera tudo. no meio de nossas importações entra
contrabando. Alexandre está negociando com colombianos. Em breve vamos estar vendendo
drogas, não duvido.
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- Ele deve trabalhar bem, Seu Pedro... bem... ele vive elogiando o irmão. Quanto às
drogas..... ainda não é verdade.
- É uma questão de tempo. Analise nossos balanços, nossos clientes continuam os
mesmos, não conquistamos nada nos dois últimos anos, o lucro operacional não está tendo
nenhum aumento, pelo contrário, está menor.
- Eu não entendo nada de balanços.... e os elogios do Seu Pedro?
- Está entrando mais dinheiro no bolso dele.
- Mas? Você acabou de me dizer o contrário.
- No caixa dois! Não estamos tendo aumentos operacionais mas estamos roubando os
cooperados, lançando despesas inexistentes nas contas deles, comprando por um preço e
contabilizando por outro. Escondendo lucros e sacando o dinheiro do caixa. Pedro me
decepciona, agora sequer se preocupa muito com a documentação, fui obrigado a acertar isto,
ou uma boa fiscalização na nossa contabilidade e iríamos ao chão. Tijolo por tijolo! Eu sou
procurador da empresa, ela afunda e eu respondo solidariamente não ganho tanto assim aqui.
- Não vi ninguém reclamar.
- O roubo é calculado,
despercebido.
dentro dos valores do mercado, e possível de passar
- E dá tanto dinheiro assim?
- Claro, são milhares de cooperados; tire um pouco de cada um e veja quando dá! Livre
de impostos, isso é o mais importante.
- É muito? Os números são realmente significativos? Compensa para a Coexponal o
risco?
- Um milhão, quatrocentos e doze mil dólares no ultimo mês, de lucro não
contabilizado. Dá para comprar um batalhão de corruptos.
- Todo mês dá isto?
- O normal é bem menos, o mês passado foi atípico. Mas em dezembro com o pico de
exportação fizemos dois milhões. Isto somado ao lucro contabilizado totalizou dois milhões,
quatrocentos e setenta mil.
- Você está envolvido nessa história?
- Jamais. Como vou me envolver com esquemas desonestos? Eu apenas verifiquei os
erros e anexei documentos e números justificando os mesmos para escaparmos da fiscalização
enquanto eu era diretor. De agora em diante é por conta deles. Eu estou fora! Vou viver em
paz.
- Entendo. Quais são os seus planos para o futuro?
- Nenhum, não tive tempo para pensar nisso, amanhã se vê.
- E os nossos planos?
- Vamos adiá-los por pouco tempo Sou muito conhecido na área e não vou ter
problemas para me empregar, talvez na Burns.
- Arranje antes um emprego, depois saia da Coexponal. Eles te aceitam de volta.
- Eu já saí. Marina. Como esperar? Se fossem apenas os roubos, talvez eu esperasse um
pouco. Alexandre é idiota, faz tudo a olho. Eu até poderia continuar acertando a
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contabilidade, mas tem o caso do Phillip Anton, da Blue, de Nova Iorque: Alexandre mandou
matá-lo! O cárcere privado de Mariana Zampato.... entre outros. Uma hora tudo explode.
- Mariana Zampato? Pode ser... mas... Phillip Anton? Soube da morte dele mas não
posso ligar o fato a Pedro Latorre, a Coexponal é uma empresa nacional.
- Mas tem dezenas de representantes no exterior, seus tentáculos são longos, Phillip
ameaçou Alexandre por não ter cumprido um acordo e.....
Ficaram conversando durante muito tempo, Marina não compreendia a atitude do
namorado, ou melhor, entendia e não aceitava, seu espirito jovem exigia viver já. Sem esperar
por nada.
Isto a motivara tomar uma posição de romper com o resto da família, ninguém a apoiou,
uma garota de vinte e um anos se envolvendo com um homem de quarenta e um, felizmente
não participara sua decisão a eles.
Foram dois anos de muita discussão, brigas, rompimento definitivo da relação já
abalada com seus dois irmãos; e, agora; quando finalmente resolvera enfrentar os pais sofre
este golpe. Seria necessário adiar todos os seus sonhos, deixar de morar naquela bela casa, em
um bairro limpo e bonito ao contrario do lugar onde atualmente vivia, apesar das propriedades
de seu pai, uma enorme quantidade de terras cujos resultados reais pouco significavam.
Thomas ganhara muito dinheiro na Coexponal e dera uma sorte incrível na bolsa de
valores, enriquecera realmente, mas saíra sem nada do casamento, a não ser uma moto
Harley-Davidson, ainda abandonada na garagem de sua antiga casa e sua Mercedes esporte.
Adorava o carro. Deixara para a ex-esposa a mansão onde morava bem como de todos os
demais bens, doados na verdade aos filhos, mas com usufruto desta, achou esta uma excelente
opção à época; assim ficou livre do pagamento de pensão e garantiu aos filhos um excelente
padrão de vida, lamentou apenas pelos restaurantes. Quando montou o Thomas’S fê-lo com
muito carinho, a casa fez muito sucesso e dai a montar suas filiais foi muito rápido.
Mas menores foram os resultados dos novos investimentos. O valor poupado nos três
anos após o casamento fora suficiente apenas para levar uma bela vida, freqüentar os
melhores lugares da cidade em companhia de Marina, comprar um segundo veículo, (nunca
gostou de ir a nenhum compromisso importante de carro esporte e deixara o carro social da
família para Lúcia, sua ex-esposa) e construir uma bela casa ainda precisando de algum
acabamento e decoração. Mas agora tinha suas finanças totalmente abaladas. Seus cruzados
seqüestrados, gastara muito na obra, a casa estava vazia, precisava mobiliá-la e ainda havia
algumas dívidas. Os valores recebidos, decorrentes de sua demissão, seriam suficientes
apenas para saldá-las e Marina não se conformou. Decidiu acabar com tudo! Depois de deixar
isso claro disse a Thomas:
- Vamos.... vou deixar você em casa e descansar, vou ter um dia cheio amanhã, é dia de
prestação de contas e quero estar bem disposta.
- Vou dormir em Santos, preciso pegar meu carro, está na revisão, vou embora amanhã
bem cedo, e passar a manhã atualizando meu currículo mas acompanho você até o carro. - e
virando-se para o garçom. - Bizarro, não ceda minha mesa a ninguém, vou voltar em seguida,
mas pode tirar a comida, não vou jantar.
Acompanhou Marina até o carro e voltou ao restaurante, não estava com vontade de ir
embora e não tinha nada para fazer no outro dia, havia cumprido seu último dia de aviso
prévio. Fez reserva no hotel pelo telefone e ficou por ali, muito stanheigueres, um chope atrás
do outro. cigarros e petiscos. De repente se sentiu enfastiado, e com o estômago em
frangalhos. Decidiu ir embora.
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O Mérlin, como toda sexta-feira, estava cheio, precisou abrir caminho entre seus
clientes para chegar até a porta. Se fosse mais cedo ele poderia sair pelo salão de jantar, mas
àquela hora ele já estava fechado. Foi obrigado a sair atravessando o bar, um transtorno, seu
estômago estava embrulhado e os poucos minutos nos quais atravessou a multidão de
marinheiros e estivadores pareceram levar horas. Felizmente podia sair sem pagar a conta,
não tinha certeza de poder esperar pela mesma sem explodir dentro do estabelecimento.
Saiu para a rua e respirou o ar puro, sentiu seus pulmões se renovarem, livres do ar
poluído do Mérlin e ambos satisfeitos com a ingestão de oxigênio. Olhou para o outro lado da
rua, a placa azul iluminada estampava:
COEXPONAL - Cooperativa de Exportação e Navegação Latorre, reinando imponente
sobre o enorme armazém. Seus pensamentos viajaram. Recordou de quando a empresa era
apenas uma pequena garagem e a viu agora. Ocupava dois quarteirões. No início, Pedro
Latorre, aparentemente idealista e funcionário de uma companhia exportadora multinacional
achava absurdos os preços pagos por ela aos pequenos produtores e fabricantes e decidiu
formar uma cooperativa. Não comprava as mercadorias de ninguém simplesmente as reunia
em consignação e exportava grandes lotes, com isso melhorava; e muito; o lucro dos
cooperados recebendo uma comissão sobre os produtos, um negócio totalmente sem risco,
muito lucrativo e com crescimento geométrico.
Thomas entrou na empresa quando a mesma tinha um ano, foi contratado por acaso, não
estava procurando emprego, foi à cooperativa entregar uma correspondência a pedido de um
amigo e aproveitar para utilizar seu apartamento no litoral por uns dias.
Como estava havendo seleção de pessoal lhe deram uma proposta de emprego para
preencher, a empresa crescia dia a dia e não havia tantos candidatos aptos, precisavam de
alguém com bom conhecimento da capital, decidiu se candidatar ao cargo. Começou a
trabalhar imediatamente.
Ao final do expediente, como o calor fosse muito forte saiu para tomar um refrigerante
no Mérlin. O bar estava repleto de clientes e ele decidiu ir para o salão de jantar e fazer uma
refeição leve assim evitaria preparar seu próprio jantar quando chegasse ao apartamento.
Ocupou a única mesa disponível e estava aguardando o garçom quando o empresário parou ao
seu lado.
- Boa noite, você se incomodaria se eu me sentasse com você? Não existe mais
nenhuma mesa disponível.
- Fique a vontade. Assim não janto sozinho. Não conheço ninguém na cidade... moro
em São Paulo.
- Muito bem, então vamos jantar juntos depois se você estiver sem carro, eu lhe dou
uma carona, eu também moro lá. - o empresário levantou a mão olhando para o garçom, em
seguida ele voltou com dois chopes.
- O senhor me desculpe, eu não bebo, só refrigerante.
- Experimente o chope da casa primeiro depois você me diz.
Foi o inicio de uma grande amizade, a partir dai foram mais de vinte anos de chopes e
conversas. Pedro Latorre fora ousado em montar a cooperativa mas, no princípio, tímido ao
explorar seu potencial, o lucro era alto, mas não bem aplicado, aumentava apenas na
proporção dos juros pagos pelo mercado. Thomas, ainda muito jovem conquistou de imediato
a confiança do empresário e foi convidado a trabalhar como seu ajudante direto, ali inovou,
convenceu Pedro a não depender de terceiros para ter as cotações, adquiriram equipamentos
modernos e puderam acompanhar passo a passo a oscilação dos produtos da cooperativa no
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mercado internacional. Quando havia uma perspectiva de alta eles creditavam o valor das
mercadorias ao preço do dia nas contas bancarias dos cooperados e depois de alguns dias as
vendiam. Todo o lucro era canalizado para o "caixa dois" da cooperativa e os lucros
passaram a crescer vertiginosamente.
O estômago de Thomas o obrigou a interromper suas lembranças e a ter preocupações
mais imediatas, seu físico estava reclamando dos abusos levados a efeito contra ele, dos
múltiplos petiscos e da enorme quantidade de stanheigueres e chopes ingeridos. Ele se sentiu
constrangido em aliviar seu mal estar na rua onde ficava a cooperativa e correr o risco de ser
surpreendido por algum funcionário ou amigo, isso geraria uma série de pilhérias, procurou o
beco formado pela parede da Coexponal e um armazém abandonado, este também de
propriedade da empresa, ali daria vazão aos desejos de seu corpo doente cujos espasmos eram
cada vez mais constantes, porém, longe dos olhares do mundo.
Apressou o passo em direção à ruela sem saída, e calçamento, conhecida como Beco do
Pedro. embora não lhe pertencesse, o pessoal da empresa usava-a como estacionamento
durante o dia, não chegou a ver o carro saindo dali em alta velocidade segundos antes, mal
entrou ali e a massa de comida e bile explodiu para fora de seu corpo colorindo o sépia da
parede da Coexponal de um marrom amarelado e fétido e substituindo a sensação de mal estar
por uma de extremo alivio. Sentiu o cérebro fugir de seu controle por alguns instantes, mas
isso durou pouco, levemente refeito se preparou para continuar seu caminho.
Andou os poucos metros que o separavam da calçada e foi obrigado a parar como se
não tivesse controle sobre si, imagens nunca vistas bailaram a sua frente, de repente Marina
desfilou em suas lembranças como se participasse de um desfile de modas através da história.
Sempre muito bem vestida. No entanto. Suas roupas pareciam ir apenas dos mais remotos
tempos até às utilizadas no século passado, sempre com um ar sério, autoritário, só muito
depois sua imagem assumiu o aspecto contemporâneo e ele podia vê-la bailando a sua frente e
desfilando seu lindo sorriso. Como a amava!
Seus sentidos pareciam mais apurados. Os cheiros terrivelmente próximos... vivos, por
um momento teve a impressão de ser possível reconhecer os sons mais diversos, a noite
escura e os transeuntes noturnos da região portuária. Assaltantes, malandros, elementos
acostumados a viver de pequenos golpes já não lhe pareciam perigosos, e sim seres fracos,
submissos, poderia dominar a todos com facilidade. Olhou para o Mérlin e notou: ele já fora
sido azul um dia, a nova pintura cobrira-a bem, mas em minúsculos pontos ela ainda existia,
eram manchas, muito pequenas para serem notadas; ludibriaram o pintor; mas ele as via. O
som de uma briga próximo ao porto o deixou preocupado, eram muitas vozes ameaçando,
possivelmente um encontro de bandidos com sua vítima.
Foi tomado por uma imensa sensação de poder, como se o mundo lhe pertencesse e ele
tivesse autoridade sobre todos os demais. Olhou para umas poucas pessoas andando,
distantes, e foi imbuído de uma certeza: eles se curvariam e lhe prestariam respeito caso esta
fosse sua vontade, olhou para a enorme concha do guindaste era totalmente visível apesar da
distância do porto e da escuridão; e, lhe parecia possível tocá-la, talvez a própria lua se
quisesse. Estava em êxtase.
Veio à sua mente a possibilidade de matar Alexandre Latorre, porque não? Era apenas
um homem, de carne e osso, não deveria ter interferido na sua vida. Estranhou, jamais havia
pensado nisso antes, era o efeito da bebida, teve certeza.
Mas essa sensação durou pouco. Logo ele já não se sentia o mesmo; tão forte, tão
poderoso, ainda assim algo parecia ter mudado nele. Milhares de pequenos círculos multicoloridos bailavam a sua frente, parou um pouco na calçada para esperar uma melhora,
deviam ser os efeitos da indigestão sobre sua visão e seu cérebro embriagado. De repente
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ouviu claramente os sons de passos atrás de si: dentro do beco? Impossível! Quem poderia ter
passado por ele sem ser percebido?
Olhou para trás. Um homem esguio, alto elegante, totalmente de branco estava cercado
por quatro elementos, todos muito fortes, vestiam calças negras aparentemente de cetim,
justas como meias, botas altas, e estavam nus da cintura para cima, com cabelos longos e
lisos, pareciam ter sido moldados na mesma fôrma. (Se assim fossem concebidos os seres
humanos.) - estou tendo uma alucinação - pensou. - Fechou os olhos. - Quando os abrisse
estaria sozinho. - concluiu. - Como podia existir ninguém naquele beco? Estivera em seu
interior por alguns minutos e depois permanecera na entrada, cinco pessoas principalmente
uma totalmente de branco não poderiam ter escapado de sua visão! Mesmo atordoada.
Mas se enganou, quando olhou novamente para o fundo da ruela ainda estavam ali,
ensaiavam o mesmo bale, sem no entanto se tocar. Thomas ficou atônito, entre a alcunha de
valente e covarde a segunda ser-lhe-ia melhor aplicada. Olhou para os lados atras de socorro,
nenhum carro de policia, nenhum ser vivente caminhado pelas calçadas. Onde foram todos?
Pressionou a axila e sentiu a arma sobre ela, nunca tinha pensado em usá-la realmente,
praticava com a mesma regularmente, mas em alvos artificiais. Atirar em seres vivos era algo
totalmente diferente.
Precisava defender o homem de branco. Seu subconsciente lhe garantia, ele era o
“mocinho da historia"; os de negro os bandidos.
Pensou em correr atrás de ajuda, mas agora ao contrário de sua sensação de minutos
antes tudo se apresentava tão distante e difícil para suas pernas bambas, e seu cérebro
desconexo. Quando voltasse o homem de branco já estaria morto. Era o mais provável.
Contrariando seus instintos de auto-sobrevivência foi para dentro do beco e se colocou
entre o "Homem de Branco" e seus perseguidores. Não tinha muita certeza de estar fazendo o
certo nem sabia o porquê de estar agindo assim, apenas não lhe ocorreu nada melhor. Os
homens de preto ficaram parados, não esboçaram nenhuma reação, pressionou novamente a
axila sem saber se sacava a arma ou não, os minutos se passaram e o quadro não se
modificou, sua impressão foi a de ter quatro estátuas à sua frente e outra junto às suas costas,
ninguém pronunciava uma palavra ou tomava qualquer atitude, apenas se entreolhavam como
se estivessem tão atônitos quanto ele com sua interferência.
Ele mesmo permaneceu estático, então tentou puxar a arma e descobriu, não podia
mover um único músculo, quis andar e suas pernas não se moveram, apesar de sua vontade de
ameaçar os homens à sua frente com seu trunfo, a pistola! Seus braços recusavam-se a
obedecer ao comando de seu cérebro.
Tomado de tremendo pavor temeu por sua sorte. Quando aqueles homens se decidissem
a tomar uma atitude, como estava, seria um alvo fácil, fez novo esforço para se mexer. Sem
resultado. Começou a se sentir desesperado, com um tremendo sentimento de fraqueza e
humilhação. Veio a revolta! Sentiu as lágrimas brotando em seu rosto impotente e se esforçou
para manter o controle sobre a bexiga já dando sinais de independência, então pode aquilatar
com precisão os efeitos do medo. Os quatro homens “fabricados em série”, então, fitavam-no
com indiferença, o suor começou a aflorar de sua pele em abundância, gelado. Sentiu o corpo
esfriar e começou a ter tremores.
Quando a viatura estacionou na calçada ele experimentou pode saber exatamente o
significado do termo “sensação de alívio”, a segurança proveniente de sua visão, os policiais
começaram a andar em sua direção e passaram pelos homens de preto como se eles não
existissem, fossem simples projeções holográficas. Não podia estar acontecendo! Sentiu uma
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vertigem, sua vista ficou temporariamente embaçada e suas pernas enfraqueceram, teria caído
se não fosse amparado por eles.
- O senhor está se sentindo bem?
- Agora estou, me desculpem, preciso aliviar a bexiga, estou explodindo.
- Está bem, vá ao canto do beco, aguardamos aqui.
Thomas se afastou e experimentou uma delícia quase suprema ao sentir o esvaziamento
da bexiga, parecia ser tomado por uma nova vida, o suor frio molhara todo o seu corpo, mas
agora um calor gostoso o substituía, não teve pressa ou tentou forçar a ação, deixou o liquido
correr de forma involuntária, o corpo comandando a velocidade da micção. Quando se sentiu
satisfeito se recompôs e voltou- se para os policiais, havia perdido a noção do tempo, parecia
estar ali há horas.
- Boa noite! Sou Thomas Aguiar, até hoje diretor da Coexponal. - entregou um cartão
ao policial.
- Está tudo bem? - perguntou o mesmo.
- Claro, onde estão os outros homens?
- Outros homens? Não havia ninguém aqui, só você.
- Não pode ser, entrei no beco para ajudar um homem de branco. Quatro homens
tentavam agredi-lo.
- O senhor não está bem? Entre na viatura e vamos levá-lo para um hospital.
- Eu estou bem sim. Havia cinco homens neste beco, acreditem.
- Fique calmo. Vamos levá-lo para o hospital é mais seguro, o senhor deve ter bebido
muito. Está delirando.
- *Os sonhos de Thomas nesta noite foram totalmente diferentes dos ocorridos até então:
neles ele se via como um herói, um homem acostumado ao comando e amante do perigo,
lutando contra bárbaros invasores e defendendo suas terras, sendo recebido e homenageado
por nobres e reis. Os mais diversos.
Acordou se sentindo muito bem, tentou se mexer e não conseguiu, notou as amarras e o
curativo do soro preso ao seu braço, olhou para a direita e viu a porta do quarto se abrindo, a
enfermeira entrou e o cumprimentou com simpatia, tomou seu pulso e temperatura e retirou a
agulha.
- Você está ótimo, renovado, vou pedir seu café.
- E estas amarras?
- Já estou tirando.
- Posso ir embora?
- Daqui à uma hora. Não posso dar alta aos pacientes, será necessária a presença do
médico.
A visão do fundo do quarto o deixou estarrecido, o "Homem de Branco" estava sentado
sobre um armário ali existente, a enfermeira foi até lá e fez menção de colocar a bandeja de
remédios sobre ela sem se incomodar com sua presença, ele saltou para o lado e ficou em pé
junto dela.
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A enfermeira foi ao telefone e pediu para servirem seu café, em seguida foi até a
mezinha pegou a bandeja e se retirou. Thomas ficou atônito, a mulher não dirigiu uma palavra
ao homem. Ele ficou parado até vê-la sair da sala, depois se aproximou dele, ia falar alguma
coisa mas não teve oportunidade:
- A enfermeira pelo jeito não gosta de você. - falou Thomas antes dele.
- Porque?
- Ela quase jogou a bandeja em cima de você.
- Ela não tem nada contra mim, apenas não pode me ver.
- Besteira, você é um homem grande e ela não é cega e como entrou aqui? Não ouvi a
porta se abrir?
- Você mesmo não poderia estar me vendo. - respondeu o Homem de Branco sem se
importar com sua pergunta.
- Mas estou! Não, estou falando com os passarinhos. Deixe de ser ridículo.
- Impossível, sempre foi, agora me acontece isso.
- Como impossível, quem não pode ver um homem do seu tamanho?
A enfermeira entrou no quarto, colocou a bandeja com o café da manha sobre a mesa
sem se preocupar com o homem ao lado dela. E ainda sem notá-lo colocou a mesinha auxiliar
sobre Thomas servindo- lhe o desjejum e se retirando do local.
- Não acredito, ela não se incomodou com sua presença na sala?
- Como poderia se não me viu. Eu já lhe disse.
- Viu, claro! Mas sua presença deve ser normal aqui ou é um complô para me confundir.
Mas não vai funcionar!
- Ao contrário. Só estou aqui para evitar males maiores.
- Como assim?
- A cena de ontem à noite. Não quero você procurando um psiquiatra para tentar uma
explicação para esta sua visão, ele não poderia fazer isso e eu o quero lúcido até termos uma
explicação.
Thomas fechou os olhos por alguns momentos. Veio a lembrança dos guardas andando
em sua direção através dos homens de preto e a indiferença deles com os mesmos, o
desaparecimento desses quando ele se voltou após aliviar a bexiga, as dúvidas levantadas
quando a sua sanidade, tudo lhe pareceu tão estranho.
- Esqueça os problema por enquanto, o importante é você se sentir bem. - o "Homem de
Branco" tocou sua fronte. - assim podemos conversar fora daqui.
Novamente Thomas se viu só, mas com uma tremenda sensação de bem estar, esta
transmitiu ao médico e com isso obteve alta.
- "Dos males o menor" - pensou Thomas. Decidiu ir pegar o carro na revisão e
abandonar de vez a cidade. A Coexponal já não fazia parte da sua vida. Ganhou a estrada
dirigindo devagar, sem pressa para chegar em São Paulo, nada lhe esperava lá.
Quando olhou para a direita ficou irritado, ao seu lado o homem de branco, sentado
tranqüilamente como se sempre estivesse ali.
- Como você veio parar aqui? Estava deitado no banco de trás?
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- Posso ir onde quiser, quando quiser, só não deveria estar sendo visto por você.
- Quem é você?
- Sou conhecido por muitos nomes. O mais comum é anjo da guarda. Na verdade sou
seu protetor.
- Protetor? Eu sou seu protetor! Não fosse por mim você seria agredido por aqueles
brutamontes ontem.
- Eles não me fariam mal. Quando muito impediriam meu passeio pela cidade, não
permitiriam minha diversão. São representantes de uma raça de vagabundos no entanto
obrigados a nos respeitar.... dentro de um certo limite.
- Diversão? Se você é meu anjo da guarda deveria estar cuidando de minha saúde.
- Não sou um anjo, apenas conhecido como tal, no entanto, não mandei você se
embriagar, sua saúde e sua vida não corriam perigo. Decidi passear um pouco, agora tenho
outros para atender, só vou deixar sua arma aqui. Como pode deixá-la no hospital?
Quando olhou novamente para a direita o assento estava vazio. Sobre ele: seu revolver.
- *Marina saiu da reunião de prestação de contas e foi para sua sala. Não se sentia
disposta, era uma mulher com os sonhos arrasados, com a construção de sua futura residência
possivelmente paralisada, e já sem o namorado, quando o telefone tocou seu mundo acabou
de desabar. Seu pai fora preso acusado de estupro. Seria alvo de todo tipo de especulação em
uma cidade pequena e provinciana como aquela onde nascera.
Ficou desesperada. Seu pai era um homem orgulhoso e parcialmente arrasado,
descendente de uma família poderosa, chegou a experimentar algum poder até gastar uma
fortuna com seus dois filhos homens. Pagou a eles sua parte na enorme herança a qual teriam
direito para permitir-lhes empreender uma carreira artística. Depois disso; face aos problemas
sofridos com suas lavouras jamais se levantou. Sua mãe, condenada, com a vida se esvaindo,
isto tudo deixara Salvatore Schiavonne excessivamente nervoso, se fosse preso e tentassem
humilhá-lo mataria ou morreria na cadeia.
Precisava contratar um excelente criminalista, ir até Nova Palermo, sede da comarca e
conseguir convencer o juiz a aceitar fiança, mas a cidade estava distante. Precisava ter um
excelente profissional e um jato para fazer tudo isso, uma encarregada de tesouraria não tinha
tanto poder, ou tinha?
Jamais saberia como teve coragem de tomar esta atitude, mas sem pestanejar abriu uma
ordem de serviço colocando uma aeronave da Coexponal a seu serviço, mandou a secretária
contatar o Dr.Ferreira e pedir a ele para esperá-la no aeroporto. Não mediu as conseqüências
de seus atos, no momento seu pai precisava de ajuda, sua única preocupação pessoal foi tentar
conversar com Thomas, demonstrar seu arrependimento e começar a acertar tudo, precisava
muito ouvir sua voz, pelo menos isso. Ninguém atendeu ao telefone, estranhou, .ele deveria
estar atualizando seu currículo,. Tentou mais uma vez e desistiu seu tempo estava esgotado.
Thomas ainda ouviu o telefone enquanto abria a porta, mas ao chegar encontrou apenas
o sinal de discar.
MUITOS DESENCONTROS E O DESESPERO.
Thomas entrou no apartamento e ouviu o telefone tocando, correu para atendê-lo.
Teresa, sua empregada fazia compras toda sexta feira e não voltaria antes das duas horas;
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devia ser Marina; uma das poucas pessoas a ter conhecimento do número do mesmo; mas
quando levou o fone ao ouvido já não havia ninguém na linha. Decidiu tomar um banho, o
cheiro do sabonete usado no hospital, talvez por recordar assuntos desagradáveis já o
incomodava há algum tempo.
Saindo do banho deparou com a foto de Marina. Parou tomado de uma sensação
estranha, amava- a, sabia disso mas nunca o apelo por ela fora tão forte. Não conseguia
desviar o olhar da imagem, estava alucinado, praticamente fora de si.
Decidiu procurar pela namorada, não podia terminar assim, sem uma tentativa. Se
sentiu estranho, outro Thomas, mais desprendido do sentido de honra, honestidade, medo, já
aventava a hipótese de desconsiderar sua demissão, roubaria também se necessário. Pedro
Latorre lhe deixara as portas abertas e ele se conformou em voltar caso ela exigisse. De
repente a amada passou a ser a única coisa importante em sua vida, se tornou imprescindível,
vital, além de Marina nada no mundo parecia lhe interessar, o ar estava impregnado dela,
sentiu precisar de sua presença até para respirar, a vida começou a perder o sentido, mas a
resposta da recepcionista não melhorou em nada o seu humor.
- Sinto muito senhor Thomas, Marina foi para a casa dos pais, só vai estar na empresa
na segunda feira
Desligou o telefone desanimado e foi para a lavanderia jogar a roupa usada no cesto se
as deixasse recipiente do banheiro ou no quarto Teresa ficaria furiosa. Olhou pela janela e não
gostou da visão, a recepcionista havia se enganado, o carro da namorada estava estacionado
no pátio da Coexponal, podia ver a Filial São Paulo dali. Inconformado pegou uma luneta e
verificou a chapa, melhor, era realmente o veiculo dela. Foi para a sala furioso, pretendia
ligar para a empresa e reclamar, depois desistiu, não podia discutir com a secretária, ela não
tinha culpa por cumprir ordens.
Conhecia Marina, tinha um gênio difícil, quando começaram a namorar ela havia
rompido um relacionamento antes e seu ex-noivo tentara inutilmente um contato com ela sem
nunca ter sido atendido.
Decidiu esperar até a noite, ligaria para sua casa, então seria ela a atender ao telefone e
não poderia evitá-lo, se o fizesse ele iria até lá.
Marina estava satisfeita. Conseguira libertar o pai após o uma série de negociações
legais. O Dr.Ferreira era um especialista ainda mais se tratando de um homem com a
reputação de Salvatore Schiavonne, e em uma cidade onde esta família era a “dona” estaria
tranqüila durante algum tempo. A agenda do juiz da comarca estava repleta e o julgamento
não se daria nos próximos seis meses. Conseguiu autorização judicial para leva-lo para São
Paulo e aguardar lá o seu destino, sem traumas, onde não seria alvo dos comentários dos
vizinhos. Isilda Schiavonne sua mãe, não viveria muito, só ela não sabia disso, seria horrível
vê-lo passando seus últimos dias no meio de um inferno, por isso se conformou em sofrer as
conseqüências de seus atos.
Era pouco menos de seis horas quando entravam no aeroporto e se preparavam para
voar com destino à sua residência em São Paulo.
Thomas ligou para Marina. Saia muito pouco e com certeza estaria em casa: eram quase
oito horas. Mas foi atendida pele irmã da mesma.
- Anabela? É Thomas, gostaria de falar com Marina.
- Ela não está e não sei quando volta.
- Transmita meu recado a ela, estou em casa aguardando um telefonema.
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- Está bem quando ela chegar eu digo.
Thomas olhou para o pátio da Coexponal, o carro ainda estava lá, ao lado dele o carro
de Alexandre Latorre. Possivelmente algum problema a retardara, discou ou número da
empresa e a ligação caiu no ramal noturno da portaria e a informação do encarregado da
segurança confirmou a viagem de Marina. Thomas abriu as cortinas, a luz da lua cheia bateu
sobre seu corpo, se alguém estivesse perto dele naquele momento com certeza se estaria aos
gritos, seus braços se levantaram para os céus e seu corpo brilhou, sua voz saiu gutural,
selvagem:
- Marina, motivo de minha espera, eu vou busca-lo. - seus olhos tinham o brilho da
determinação insana, do desespero, era um animal, nada havia de humano nele. - levantou os
braços para o céu, concentrado, ar grave, ficou nesta posição até ouvir o ribombar dos
trovões, pegou uma bola de vidro, presente de Alexandre Latorre, como se fosse de papel; e,
gritou: - Estou te devolvendo infiel. - Atirou a mesma para fora, ela atravessou os três
condomínios separando o seu do pátio da Coexponal caindo sobre teto do carro espalhando
seus destroços por todo o local. - Vá de taxi para casa idiota. - só então se acalmou.
Preparou umas trocas de roupa uma valise e saiu com destino a Morada do Simum,
cidade natal de Marina, ela deveria estar lá, - deduziu. - só poderia voltar a São Paulo no
mesmo dia se tivesse um avião, estava certo, ela não tinha, mas só em parte.
Caso Thomas tivesse atrasado umas frações de segundo sua viagem teria encontrado
Marina saindo da Coexponal com os pais, esta ainda pode ver seu carro passando pela porta
da empresa, acionou a buzina inutilmente, quando ganhou a rua ele já não estava em seu
campo de visão.
Marina entrou em casa, acompanhada pelos pais, Anabela fez questão de demonstrar
toda sua felicidade com a chegada da família, mas não fez nenhuma alegação à ligação de
Thomas, mesmo quando inquirida.
- Alguma ligação para mim?
- Não, ninguém te procurou, pelo menos eu não atendi.
Marina foi para o quarto e entrou em desespero, seu mundo estava desabando, seu pai,
um suposto criminoso, seu amor, talvez perdido, seu emprego? Estava totalmente
comprometido pela utilização pessoal de um jato da empresa em beneficio pessoal.
- *O Sonata rasgou a rodovia em vertiginosa velocidade, a viatura policial à beira da
estrada registrou a velocidade, e o policial passou um radio:
- Sonata azul, o único na estrada, deixaria o Senna para trás se estivessem juntos, a
velocidade é de.....
Thomas viu o sinal para parar e se esforçou muito mas mesmo assim estacionou muitos
metros alem do solicitado, o policial se aproximou e pediu seus documentos, ele perguntou o
motivo.
- O senhor estava trafegando em velocidade excessiva.
Thomas fixou os olhos do policial, houve alguns segundos de silencio e depois ele
perguntou.
- O senhor tem certeza? Me assemelho a alguém capaz de exceder o limite?
O policial parecia sonado. Tentou responder afirmativamente, mas concordou com
Thomas.
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- Devo estar enganado realmente senhor! Boa viagem.
- *Thomas chegou a Morada do Simum e estacionou em frente à casa de Marina, estava
tudo escuro. Normal pelo horário. Procurou o único hotel da cidade onde se hospedou para
aguardar o amanhecer.
- Devo acordá-lo a que horas Thomas?
- Não me acorde, obrigado. - respondeu. Marina detestava acordar cedo aos sábados.
Não pretendia incomodá-lo.
- *- Mas não foi um sábado no qual ela manteve seu costume, ainda muito cedo ela ligou
para Thomas, queria falar com ele antes de sua indefectível partida de futebol, saber onde
seria para encontrá-lo o quanto antes, conversar melhor, seu rompimento fora muito brusco. A
resposta veio de uma secretária eletrônica.
“No momento não estou em casa. Se forem as crianças, liguem para Morada do Simum,
peçam o ramal do hotel. Devo ficar lá o fim de semana, qualquer outra pessoa por favor deixe
recado.....”
Anabela encontrou Marina já na porta de casa com uma valise na mão. Avistou o
bilhete sobre a mesa e reclamou.
- Como viajar? Nossos pais estão aqui, e, você ficou de me emprestar seu carro hoje.
- Nossos pais vão ficar aqui um longo tempo. Quando ao carro.... Vou
viajar de
ônibus, portanto não se preocupe. A chave está no quadro, aproveite e compre alguma coisa
mais para a despensa, os hábitos de deles são bem diferente dos nossos.
- *Marina desceu do ônibus e deste diretamente ao hotel da cidade, Thomas seria obrigado
a usá-lo face não existir ninguém na casa de seus pais. Quando chegou ao mesmo foi outra
decepção.
- O Thomas acabou de sair para São Paulo, não faz um minuto, você ainda pode
encontrá-lo no estacionamento. - informou o dono do hotel; referindo- se ao pequeno pátio
atras do mesmo.
Marina deixou a valise ali mesmo e correu para fora, mas tarde demais, o Sonata de
Thomas já contornava a praça de onde ganharia a rua principal em direção à estrada. Voltou
ao hotel e pediu uma passagem para São Paulo ao dono do hotel. Morada do Simum não tinha
uma linha de ônibus regular, quando havia passageiros o ônibus partindo de Nova Palermo
passava por ali e os recolhia.
Não vai ser possível Marina. O administrador do telefone não pagou a conta e o mesmo
está cortado. Estamos incomunicáveis apenas recebendo ligações e realizando as de
emergência. Esta informação foi seguida de um enorme em silêncio, quase um lamento. Esta
característica de Morada do Simum escravizava toda uma cidade. Ali não existiam telefones
individuais, apenas um grande PABX central e ramais saindo dele para as casas e sujeito a um
administrador irresponsável.
- Então estou presa aqui?
- Vou para Nova Palermo no fim da tarde. Sai um ônibus às sete horas, tudo bem?
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- Certo Vou almoçar no Alivio e dormir um pouco, seis e meia estarei aqui.
- *- Passagem para São Paulo? Impossível, muita gente foi para a Feira Agropecuária de
Sorocaba. Ainda temos ônibus extra. Mas só até lá.
- Dê- me uma passagem. Assim ainda chego em casa hoje.
- *- Claro Thomas ela esteve aqui, mas já foi para São Paulo, eu mesmo a deixei na
rodoviária para pegar o ônibus das sete, ligue para ela umas nove e meia, dez horas.
Thomas desligou o telefone e olhou o relógio, oito horas, sentiu-se feliz. Mais duas
horas e finalmente falaria com a mulher amada.
- *- Ônibus para São Paulo? Moça! Amanha é o grande prêmio de Fórmula Um. não
existem passagens de jeito nenhum. Posso lhe conseguir uma lotação, mas sairão daqui as
cinco da manhã.
- Então vou conseguir um taxi.
- Estão todos no esquema de lotação, só viajam com quatro passageiros. Cento e vinte e
cinco dólares por cabeça. Ida e volta. Se quiser um agora ele vai cobrar a lotação completa.
- Dólares... dólares.... Afinal que pais e este? E a nossa moeda não existe? Não carrego
dólares.
- Eles fazem a conversão, cheque ou dinheiro.
- Não posso gastar tudo isso, e ônibus comum?
- Só a partir das nove horas de amanha. Quer uma passagem?
- E onde vou dormir? Com esta feira todos os hotéis estão lotados.
- Temos um esquema montado para casas de família. Tem muitos quartos e muitos perto
daqui e não é tão caro
- Onde tem um telefone?
- Ali! Veja! Ao lado da banca de jornais.
Marina foi ao telefone, ligaria para Thomas, achou um absurdo gastar quinhentos
dólares para percorrer cerca de cem quilômetros. Se o encontrasse e ele concordasse em
buscá-lo estaria ali em uma hora, talvez um pouco mais.
“No momento não posso atendê-lo, devo estar de volta pela manhã, deixe seu recado....”
Desanimada Marina adquiriu uma passagem para o outro dia e alugou um quarto por
uma noite numa casa de família.
- *Thomas consultou o relógio, meia noite, o último ônibus proveniente de Morada do
Simum já havia chegado e nada de Marina.
- Por favor, ainda vem algum ônibus de Nova Palermo? - perguntou, ninguém conhecia
Morada do Simum.
- Não, já chegaram todos.
- Estou esperando uma pessoa.
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- Talvez tenha vindo em um dos ônibus extra, mas estão desembarcando na plataforma
doze, do outro lado.
- Thomas correu como um louco, mas o percurso era muito longo. O último ônibus
extra chegara há dez minutos não havia mais nenhum passageiro proveniente dele na
plataforma.
- *- Claro Thomas, ela foi embora, eu a deixei na rodoviária e depois voltei lá para me
certificar, qualquer problema ela ia ligar aqui para o hotel, estamos recebendo chamadas
normalmente, só não efetuamos.
- Desculpe o incomodo, mas estou desesperado para falar com ela.
- *- Bom dia Anabela, eu queria falar com Marina.
- Então você perdeu a viagem, ela não está.
- Ela não chegou ontem à noite?
- Aqui? Não, deve estar em Morada! Foi para lá encontrar (com você ia dizendo
Anabela, mas mudou o discurso) um pouco de paz. Quer descansar um fim de semana,
apenas isso.
- Entendo, obrigado então, bom dia.
- Thomas foi para o Coliseu. Um bar no calçadão da casa de Marina, pediu um chope.
Os filhos se encontravam na corrida de Fórmula Um. Não se veriam neste Domingo. Esperou
por algum dos muitos amigos com os quais convivia ali e não apareceu ninguém.
Alguns chopes depois decidiu ir ao banheiro, encontrando-o interditado.
“BANHEIRO EM REFORMA.
UTILIZE O DOS FUNDOS.
SIGA O CORREDOR ATÉ O FIM E VIRE A DIREITA.”
- *Marina desceu do taxi e deixou a valise no corredor de entrada. Separou algum
dinheiro. Apenas o suficiente para comprar cigarros e foi até o Coliseu, quando saiu Thomas
voltava do banheiro. Apenas a tempo de vê-la entrar em casa. Não portava uma bolsa ou
qualquer objeto indicando ter chegado no momento, certamente tinha saído de lá; deduziu.
“Ela não quer mesmo falar comigo. - pensou - É melhor não insistir no território dela.
Amanha vou a Coexponal e conversaremos sem a presença incomoda de Anabela.”
- *Quando chegou em casa estranhou ver Teresa, ela não trabalhava nos fins de semana, a
não ser para fazer a feira no Sábado. Aproveitava e comprava coisas para sua casa deixando a
parte de Thomas no apartamento, mas naquela hora ela já devia ter ido embora
- Algum problema?
- Estiveram uns homens aqui. Traziam um mandato judicial e revistaram o
apartamento. Levaram a roupa utilizada por você na quinta-feira e deixaram uma intimação
exigindo seu comparecimento amanhã às onze horas nesta delegacia, em Santos.
- Sem minha assinatura?
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É só uma copia você não é obrigado a atender. Pediram sua colaboração.
- *Thomas compareceu à delegacia acompanhado pelo Dr.Roberto, advogado da
Coexponal em Santos, prestou depoimento e saiu.
- E dai Doutor, qual a sua opinião.
- A pior possível. O relatório da viatura policial coloca você no local do crime na hora
exata da morte. Tem marcas do local em suas botas e sangue em sua roupa a analise
certamente vai provar ser da vítima. Depois... esta historia de urinar em cima do cadáver... a
opinião publica quer o assassino.
Mas não fui eu. Nem conheço este tal de Cacá. Só pelas colunas sociais.
- No entanto ele mantinha negócios com a Coexponal.
- Só pessoais. Na verdade ele mantinha negócios com Alexandre Latorre. Iriam
importar produtos da Colômbia, nada bom.
- Pior ainda. Comenta-se na empresa ter sido Alexandre o motivo de sua demissão.
- A policia sabe disso?
- Sabe. Conversaram com muitos funcionários na sexta-feira. Agora ouça meu conselho.
Arranje um bom advogado. Eu indicaria o Dr.Ferreira.
- Você é o meu advogado? Sempre foi
- Cível. Não sou criminaliza e não vou poder ajudar muito. Olhe o jornal.
“CACÁ DAS ESCOLAS ASSASSINADO COM REQUINTES DE CRUELDADE”
“O milionário conhecido de todos como Cacá das Escolas por seu envolvimento com as
escolas de samba, filantropo e benfeitor desta cidade foi assassinado com requintes de
crueldade, na ultima quinta feira no terreno baldio apelidado de ”Beco do Pedro”. Depois de
ser agredido com violência com uma série de pontapés sua garganta foi cortada e na
seqüência o facínora urinou sobre o cadáver ainda quente, o único suspeito....”
- *- Não sei como você pode fazer uma coisa dessas, sabe quanto custa tirar um jato do
chão e mantê-lo parado durante horas em Nova Palermo?
-
Sei. Cuido pessoalmente dos números da Latorre Aeronaves.
-
E mesmo assim você fez isso? Não acredito?
- Meu pai é um homem nervoso. Descendente de homens muito ricos, e, o único
realmente decadente entre todos os irmãos. Minha mãe está muito doente, eu a perderei em
breve. Como deixá-lo preso no meio de marginais comuns? Ele seria morto ou mataria
alguém na cadeia. Calculei os prejuízos e vou me responsabilizar por eles.
- Esqueça, a Coexponal esta demitindo você com todos os seus direitos. O erro foi meu
ao dar o poder em mãos erradas. Vou pagar pessoalmente por isso para não esquecer minha
falha. - Pedro Latorre saiu da sala de Marina despedindo-se da mesma com delicadeza e
consideração.
- *- Como não trabalha mais ai?
20
- Eu estou falando senhor Thomas. Não trabalha mais aqui. Foi demitida ainda há
pouco.
- Ela não quer me atender, é isto? - Perguntou Thomas vendo o carro de Marina ainda
estacionado no pátio da empresa.
- Não senhor Thomas. Ela esta fora da empresa, realmente! Um momento por favor.
Thomas desligou o telefone e foi até o bar da sala. Encheu um copo de uísque até a
boca e sorveu quase a metade da bebida.
- Isto não vai adiantar nada. Bebida nunca solucionou problema nenhum.
- Você de novo? Poderia fazer o favor de me deixar em paz Homem de Branco.
- Não posso, sou responsável por você.
- Claro! O meu anjo da guarda! Então me tire dessa.
- Também não posso fazer isso.
- Você sabe a verdade. Não fui eu.
- E dai? Você é o único ser humano vivo com o poder de me ver. Quem mais iria ouvir
minha versão?
- Não posso ir para a cadeia. Ouço historias horríveis sobre os acontecimentos internos
de uma prisão.
- No entanto, você vai ser preso. Mas não se incomode, só vai cumprir seis meses.
Depois disso o verdadeiro assassino vai se entregar.
- Como sabe?
- Isto eu sei, basta isso, serão apenas seis meses de prisão.
- E quanto a Marina? Você sabe quem é ela?
- Claro, sei tudo sobre você.
- Ela vai me compreender?
- Talvez sim, talvez não. Mas tem um fato muito estranho, aliás o verdadeiro motivo
para estarmos muito, mas muito interessado em você. - o Homem de Branco tirou quatro
folhas de papel prateadas do ar e as espalhou sobre a mesa. - Veja isso.
- Estou olhando, e daí? - respondeu Thomas notadamente aborrecido.
- Esta é a sua linha da vida, a do lado a de Marina, até a ultima quinta feira sempre
andaram juntas em ambos os mapas, o seu e o dela. Observe. Agora nesses novos mapas se
separam e seguem paralelas, possivelmente jamais se encontrem. Por isto estamos
trabalhando. Esse desencontro começou naquela noite. Não sabemos o motivo e precisamos
colocar tudo em seu devido lugar. Não sabemos quantos mapas podem ter sido alterados. Os
analisamos os seus e....
- Quem não sabemos o motivo?. - inquiriu Thomas irado.
- Nós, do protetorado, houve uma mudança na sua linha da vida, isso nunca aconteceu
com ninguém em milênios. Veja o mapa antigo, você e Marina andando sempre juntos.
- Então segundo esse papel eu vou para a cadeia, vou ficar sujeito a todo tipo de
violência e jamais vou ver Marina?
- Não sabemos! Realmente são fatos novos para nós. Estamos tentando fazer tudo voltar
ao normal.
21
- Como tentando? Vocês se intrometem na minha vida, arrumam um crime para me
mandar para a cadeia e depois ficam falando em tentar! Grandes anjos da guarda.
- Só podemos prometer isso. Vamos tentar colocar tudo no lugar de novo. Enquanto
isso.... mantenha a calma.
Thomas se viu novamente sozinho. Não tinha motivos lógicos para duvidar do Homem
de Branco, ele realmente tinha poderes. Quais os seus limites? Impossível aquilatar. Mas
havia algo fantástico naquele ser.
No entanto, ao invés de seguir o conselho do seu suposto protetor continuou a encher o
copo até se sentir realmente deprimido, desesperado, rejeitava qualquer possibilidade de ir
para a prisão, ser humilhado por marginais comuns cuja única preocupação era praticar o
crime.
Também não conseguia ver sua vida sem Marina. Nunca mais mergulhar na ternura
daqueles olhos verdes, vivos, ter a prenda imensa de seu sorriso sincero e puro, sentir a
maciez de pêssego da tez amada o doce sabor dos seus lábios, sentir seu maravilhoso cheiro
de fêmea.
Andou até o armário de onde pendia o coldre com sua arma. Não pensou nos filhos,
motivo de sua preocupação constante, aliás, seu cérebro estava embaçado pela bebida,
simplesmente perdera o controle, experimentava um momento de extrema depressão e
irresponsabilidade, a angustia era responsável por seus movimentos. Neste clima nebuloso e
sem esperanças ele levou o cano até a cabeça e apertou o gatilho.
HÁ MAIS COISAS ENTRE O CÉU E A TERRA......
Thomas ouviu o barulho do gatilho sendo acionado e ainda teve um momento de
apreensão, aguardou pela dor torcendo para senti-la o menos possível, mas ela não veio. Seria
a morte algo tão simples? Sem sofrimento? Uma passagem sem traumas? Doce, com o sabor
do ansiado descanso. E o estampido? Deveria acontecer, mas foi só um “plact”, sem explosão,
sem impacto; não havia sangue em sua camisa nem perfurações como podia ser, treinava
tiros com aquela arma regularmente. Nunca havia falhado. Estava carregada, conferira há
poucos minutos. Retirou o pente de arma e ele estava vazio.
- Estão aqui. - ouviu uma voz atrás de si.
O “Homem de branco” estava sentado sobre sua cômoda penteadeira. Uma série de
balas estava em sua mão.
- Você de novo.... como entrou em meu apartamento? - Perguntou ainda em estado de
embriaguez.
- Pela janela, pela parede, não sei bem eu nunca presto muita atenção no caminho, é
tudo muito rápido. E pare de perguntar isso? Como entrou aqui, como chegou, et cetera.
Você já esta se tornando repetitivo.
- Como posso me livrar de você? Morrer em paz?
- Quando chegar seu momento de morrer isto será resolvido. Mas até lá é impossível.
- E quando vai chegar este momento?
- Não sei saberei quando estiver muito próximo. Mas jamais lhe direi, aliás, até lá
espero ter resolvido seu problema e ser invisível para você novamente.
Thomas no entanto não se deu por vencido. Queria a morte de qualquer jeito, e com este
intuito saltou de seu apartamento para o asfalto. Sentiu seu corpo cair e o piso se aproximar
22
rapidamente, mas a velocidade de sua queda foi inconstante. Começou a diminuir até chegar
quase a zero. Tocou suavemente o solo e andou em direção ao apartamento. O porteiro
estranhou vê-lo entrando no prédio de roupão, não se lembrava de tê-lo visto sair. O Homem
de Branco caminhava a seu lado.
- Não responda quando eu falar com você. Vão julgá-lo louco. Vamos para seu
apartamento e vou lhe fazer uma proposta. Se você gostar isso não vai lhe garantir Marina,
mas vai tirá-lo da cadeia.
- Não estou interessado em nenhuma proposta. Só preciso dormir um pouco. Amanha
vai ser outro dia.
- *O dia seguinte encontraria um novo Thomas. Ele havia feito alguns acordos com Pedro
Latorre, já não era o mesmo homem. Concordara com todas as falcatruas decorrentes das
idéias de Alexandre, só queria uma participação neste lucro, o mafioso adorou a idéia.
Thomas sempre fora um sucesso como homem honesto, ajudaria a roubar com eficiência
Seu primeiro dia de trabalho teve inicio apenas na parte da tarde. No período da manhã
tomou providencias para abandonar o velho apartamento mobiliado. Vendeu o telefone e
comprou uma cama e geladeira em um depósito de móveis usados, que mandou entregar no
seu novo lar, um cômodo e cozinha em um prédio mal afamado três quadras abaixo da
Coexponal. Contrariado, demitiu Teresa a quem adiantou três meses de salário. Saiu do local
apenas com algumas malas, vassouras no banco de trás mantimentos e objetos pessoais, saldo
de toda uma vida.
- *Marina entrou no apartamento de Thomas. Se não conseguia falar com ele por telefone,
iria esperá-lo até chegar. Entrou no quarto e estranhou, não havia roupa de cama sobre a
mesma, abriu os armários, todos vazios, a geladeira limpa e sem mantimentos, o mesmo
acontecia com tudo o mais. Apenas a sala estava normal, ligou a televisão, recostou-se ao sofá
e adormeceu, a voz do zelador a acordou, conversava com uma terceira pessoa.
- Como a senhora pode ver, o apartamento está muito conservado, o antigo morador era
extremamente exigente com a limpeza e conservação. - Marina abriu os olhos e olhou para
Júlio.
- Olá Júlio. Aconteceu algo diferente aqui?
- O Thomas abandonou o apartamento hoje e eu estou mostrando o mesmo a esta
senhora.
- Verdade? Bem, por isso está tudo tão estranho por aqui, ele esqueceu a secretária
eletrônica, foi presente meu, vou levá-la.
- Claro fique à vontade linda. - respondeu o ancião. - Procure por ai, se encontrar mais
alguma coisa importante é só pegar. Ele fez tudo muito às pressas.
- *Thomas ainda teve tempo para trabalhar na parte da tarde, precisava se familiarizar com
os programas decorrentes de sua nova função. Não era mais um diretor da empresa, mas um
assessor direto de Pedro Latorre, iria apenas acompanhar os acontecimentos e discuti-los com
o mafioso. No final do expediente, Clara, - sua secretária há muitos anos - entrou em sua
sala.
- Finalmente Aníbal decidiu. - mostrou o dedo com a aliança.
23
- Ora, ora, ora, parabéns. Então precisamos comemorar. Ligue para o Aníbal e eu os
encontro no Teo em meia hora. Preciso terminar um serviço.
- *Marina entrou em casa levando os objetos esquecidos, ou talvez abandonados, por
Thomas. Ligou a secretária eletrónica à tomada na esperança de conseguir alguma
informação.
“Marina, você não tem atendido aos meus recados. Eu falei várias vezes com Anabela.
Estou voltando para a Coexponal e deixei a secretária no apartamento na esperança de receber
uma ligação sua, procure- me”
- Anabela, venha cá e ouça esta gravação, depois me explique o destino de meus
recados. - voltou a fita e ficou observando Anabela enquanto a mesma ouvia a fita.
- Você também procurava por ele?
- Com desespero. Como pode omitir seus recados?
- Marina? Você é jovem, linda! Como pode se prender a um velho desempregado?
Achei melhor mantê-lo a distancia.
- Esta decisão cabia a mim. E você devia ser grata a ele. Graças às promoções oriundas
da autoridade dele você vive comigo de favor. Jamais gastou um centavo nesta casa. Vamos
agora até a Coexponal e você vai me ajudar a me explicar. Se algo sair errado procure um
lugar para morar, ou eu procuro. Não importa a ordem dos acontecimentos.
-
*-
No caminho para a Coexponal Marina ficou assustada com a maneira de dirigir da irmã.
- Marina, você não precisa dirigir deste jeito? Thomas sempre trabalhou até tarde, vá
mais devagar ou desço no primeiro farol.
- Desculpe- me estou fora de mim. Dirija você.
- *Thomas ia trabalhar um pouco mais, no entanto desistiu. Chegaria mais cedo no outro
dia e prepararia o relatório para Pedro Latorre. Quando saiu da sala Clara ainda estava na
porta do elevador.
- Espere por mim. Não vou mais trabalhar hoje, perdi o clima.
Na saída Thomas colocou o braço sobre o ombro de clara e abraçados seguiram para o
Teo enquanto discutiam seu presente de casamento.
Marina e a irmã procuravam um lugar para estacionar e presenciaram a cena vendo o
casal entrar no bar.
- Ei, você pode devolver a minha mulher? - gritou Aníbal encostado ao balcão. - ainda
nem me casei e já estou ganhando uns cornos.
- Pois não, é toda sua. - respondeu Thomas.
Como sempre Thomas se dirigiu à mesma mesa. Ramiro a deixava reservada toda noite
para ele até certo horário. Pouco tempo se passou até ele praticamente ter engolido três
stanheigueres. Fazia o mesmo com os chopes e Aníbal comentou:
- Calma companheiro! - falou preocupado.. - Estamos comemorando e não
lamentando, nesse passo você vai ficar bêbado em alguns minutos.
24
- Tem razão! minha separação de Marina está alterando minhas reações. Vou mais
devagar. - e engoliu mais um.
- *Marina e Anabela estavam conversando em uma lanchonete próxima ao Teo.
- Ele não demorou muito para me substituir. Estava bem à vontade com a outra mulher.
- Não era outra mulher Marina. Era Clara. Tenho certeza!
- Clara tem cabelos compridos. Não é uma loura de joaozinho.
- As pessoas cortam e pintam o cabelo. Clara é louca por Aníbal. Você está fazendo
confusão. Olhe, não custa nada. Vá para o Teo e confirme. Eu vou deixar o carro em um
estacionamento e encontro você lá, aqui ele vai pegar uma multa.
- *Como passa a semana, amanhã já é quinta- feira e eu ainda não cobri a metade de meus
clientes, esta historia de casamento me tomou muito tempo. - comentou Aníbal.
- Quinta- feira? Amanhã é quarta. - respondeu Thomas.
- Quinta- feira?. - confirmou Clara.
- Então vocês me desculpem mas vou precisar me ausentar por algum tempo, quintafeira o Pedro chega muito cedo e quero ter seu relatório pronto, preparo-o em vinte ou trinta
minutos e volto, a música ainda demora um pouco. - Thomas sorveu mais um Stanheiger e
terminou seu chope.
- *Marina entrou no Teo e procurou por Thomas inutilmente, mas avistou Clara.
Realmente estava loura e com os cabelos muito curtos. Aproximou- se e perguntou por
Thomas.
- Foi até a Coexponal terminar um relatório. Mas volta logo; aguarde por ele aqui.
- Aguardo mesmo! Hoje não vou deixar de falar com ele. Temos tido uma série de
desencontros. Isso acaba hoje.... e aqui!
- *Thomas passou pela portaria e deu ordens para não ser incomodado sob qualquer
alegação. Se alguém telefonasse, exceto Marina ou seus filhos, para todos os efeitos ele não
se encontrava no local. Queria voltar logo para a companhia dos amigos. Ao entrar em sua
sala Thomas encontra o Homem de Branco, seu rosto tenso e sua voz enraivecida.
- Thomas. Você está cometendo um grande erro.
- Não diga? Vai me dizer qual?
- Voltar a trabalhar para Pedro Latorre.
- Escute uma coisa. Você pode me livrar da prisão?
- Não, eu já disse isso.
- Então não me aborreça. Quero ter cacife para comprar minha segurança na cadeia.
Deixei meu apartamento mobiliado, vou vender meus carros, minha casa e juntar todo
dinheiro possível trabalhando na Coexponal.
- Arquitetando novas maneiras de roubar os Cooperados?
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- Já não fiz isso antes lançando vendas inexistentes e distribuindo dinheiro a menos para
eles?
- Isto é diferente! Vocês apenas pagavam a todos o valor da cotação do dia da
mercadoria, perdoável, mas os métodos de Alexandre...
- Me livre da cadeia e deixo a Coexponal. - Gritou Thomas
- Não vou conseguir isso.
- Então me deixe em paz. - Gritou novamente.
Seus gritos foram ouvidos pelo segurança do andar,
- Olhe sua linha da vida, esta se afastando demais de Marina.
- Você só me tira da Coexponal me seqüestrando. - sua frase se fez ouvir. - Agora
me deixe em paz.
Alterado pela bebida e a discussão com o Homem de Branco, ligou o computador e
concluiu estar sem condições de trabalhar. Não se lembrava de quantos drinques ingerira,
mas com certeza exagerara. A foto de Marina sobre a mesa não ajudou em nada, deprimiu-o
ainda mais, empurrou o computador e deixou- o quase caindo. No limite de seu eixo de
gravidade.
Depois, sentou- se à frente da mesinha de centro e ficou descansando esperando uma
melhora impossível de acontecer. Irado arremessou o braço contra os objetos nela existentes
jogando-os ao chão. Durante a violência inútil quebrou o cinzeiro e provocou um corte na
mão direita
O vigia atento aos acontecimentos de sua sala ouviu o barulho e bateu na porta,
Thomas estava no banheiro cuidando da ferida e não ouviu, saiu dali com uma toalha
amarrada á mão, foi quando perdeu o equilíbrio e caiu sobre a mesinha de centro destruindoa e fazendo o computador pender ainda mais. O novo estrondo aguçou ainda mais a
curiosidade do segurança, este preocupado tentou falar pelo radio com a portaria, mas não
teve resposta e ganhou a escada em direção ao local.
Thomas chegou à garagem no subsolo do prédio, só havia um carro estacionado ali, o
seu, a área era exclusiva da diretoria, os demais funcionários deixavam seus carros no pátio
ele também era á única pessoa no local.
- *O chefe da segurança bateu na porta da sala de Thomas e ninguém respondeu, bateu
mais forte e tentou forçar a porta, neste momento o computador já há muito em posição
perigosa desabou com estrondo para o chão. Obedecendo as instruções da companhia ele
abandonou o local para acionar o policia. Não deviam se envolver diretamente em confrontos,
e na sua opinião algo estava acontecendo naquela sala.
Quando chegou à portaria viu a porta da garagem sendo aberta e contrariando as normas
de segurança empunhou a arma e correu para o subsolo enquanto o carro de Thomas ganhava
a rua. Na penumbra; vassouras, rodos e pacotes colocados próximo ao vidro deram a ele a
impressão de haver outras pessoas no carro; tentou alcança-lo passando quase deitado pela
porta se fechando, mas quando alcançou a rua o carro já estava longe.
- *Anabela estacionara o carro e entrou no Teo enquanto o barulho ensurdecedor de
sirenes enchia a rua. Alguns clientes começaram a se levantar e perturbaram os garçons
temerosos de ter problemas com a conta.
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- Quem quiser sair primeiro acerte a conta. Todo mundo sentado, muita calma. - gritou
Ramiro.
O pessoal voltou a se sentar e muitos pediram a conta. Marina ao ver todo aquele
tumulto perguntou a Anabela, recém-chegada.
- Onde é o tumulto?
-
Na Coexponal! - respondeu ela. - está assim de viaturas.
-
Vamos até lá, Ramiro, traga nossa conta na frente.
-
Esqueça Marina, vá se informar sobre os acontecimentos e volte depois.
Eu não vou, espero aqui, vocês já se divertiram até agora. Anabela se negou a
acompanhá-los.
- *Clara entrou na Coexponal acompanhada do noivo e Marina, policiais tentaram barrálos mas foram impedidos pelo chefe da segurança.
- Deixe- os passar, podem ajudar, são todos envolvidos com Thomas Aguiar.
- *Thomas entrou no seu novo apartamento, a toalha estava embebida em sangue e sujava
todo o chão. Precisava fazer um curativo decente. Jogou uma das malas ainda fechada sobre a
cama e tirou dali o estojo de pronto socorro e passou a se concentrar no serviço. Limpar o
ferimento, desinfetá-lo e aplicar uma proteção.
- *- Ouve luta aqui, concluiu o policial, praticamente destruíram a sala, tem sangue no
chão. Por favor, fiquem todos do lado de fora. E a vitima? Alguém sabe onde ele mora?
- Mudou- se hoje de manhã. Não sei o endereço, com certeza seus filhos sabem, ele não
dá um passo sem avisá-los. Clara tem o telefone da casa de sua ex-esposa, verifiquem com
ela. - respondeu Marina.
- *“...então de acordo com as informações de nossa equipe de reportagem foi requerida a
prisão preventiva de Thomas Aguiar. Até o momento ele não fora oficialmente indiciado, no
entanto pressões da opinião pública determinaram a medida.....”
Thomas desligou o radio e arremessou o estojo de pronto-socorro contra a janela. O
estrondo foi grande e os estilhaços atingiram a calçada exatamente quando a viatura policial
estacionava em frente ao local.
- Peça reforço! Coletes a prova de balas e cerquem o prédio. Usem os interfones e
avisem aos moradores para permanecer em suas unidades. Não quero ninguém nos
corredores e nem entrando no local.
- Sim senhor tenente. Mando alguém até o apartamento?
- Não. Só quando chegarem os coletes.
O veículo de reportagem estacionou próximo ao local e a equipe de Celso Papagaio
desceu do mesmo correndo em direção ao prédio, sendo impedidos de se aproximar pelos
policiais sob comando do tenente Cordeiro.
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- Não podem fazer isso. Estão cerceando o direito da imprensa.
- Sinto muito seu Celso. Ninguém ultrapassa esta faixa, ordens do tenente.
O repórter correu para o carro de onde se comunicou com a redação e aguardou os
resultados. Enquanto isso o sargento comentava com o tenente.
- O Celso Papagaio vai por a boca no mundo.
- Problema dele. Vai esperar como todo mundo. Se preciso use a força.
O tenente Cordeiro era assim mesmo. Varias reprimendas por impedir o trabalho da
imprensa. Um exagero de homens e material em todas buscas ou perseguições e muita
cautela; nunca tinha perdido um praça em nenhuma das operações sob o seu comando. No
entanto seus superiores não gostavam de suas atitudes impopulares e assim era preterido nas
promoções.
- Tenente, o coronel Mariano está chamando o senhor no rádio da viatura. Deve ser por
causa do Celso.
- Volte ao radio e lamente não ter me encontrado, Já temos coletes e bomba de gás, vou
subir e acabar com esta brincadeira.
- *Pela primeira vez Thomas se sentiu feliz ao ver o homem de branco, a policia já estava
lá para prendê-lo? Como tinham descoberto seu endereço tão rápido?
- Não estão aqui para prendê-lo. Por algum motivo estão aqui para tentar tirá-lo de seus
seqüestradores.
- Seqüestradores? Absurdo, não fui seqüestrado.
- No entanto eles acreditam nisso. A situação está por demais complicada, precisamos
sair daqui, depois conversamos.
- Sair daqui como? Tem um exército lá em baixo.
- Vamos para o subsolo e eu lhe mostro.
Thomas entrou no carro obedecendo às instruções do homem de branco e quando o
mesmo lhe pediu para acelerar para fora do prédio ele pegou o controle do portão, mas e foi
impedido de abri-lo. Então gritou irado
- Você está louco, vou atravessar um portão com grades de quase uma polegada com
meu carro? E a multidão ai fora? Vou atropelar todo mundo?
- Acelere. Não temos muito tempo.
Thomas não ia obedecer, porém não teve alternativa. Seus membros já não estavam sob
seu comando. Os pés, independentes, pisaram violentamente no acelerador e se deslocaram
rapidamente contra o portão atravessando-o como se não existisse; sem choque; viu o cigarro
do policial em frente ao mesmo crescer de encontro aos seus olhos como se fosse cegá-lo,
mas nada aconteceu, passou por ele como se não ocupassem o mesmo lugar no espaço, depois
o veiculo entrou para a esquerda, no sentido contrario ao trânsito e ele usou os braços para
proteger o rosto do desastre eminente. Providencia desnecessária, pareciam não existir
embora estivessem ali e se deslocassem pela pista. A sensação era extremamente
desagradável.
- Estamos contra mão. De um jeito nisso.
- Claro, - respondeu o homem de branco obrigando o veículo a dar um “cavalo de pau”
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no meio da rua e estacionar logo em seguida.
- Você tinha uma proposta para me fazer antes. Quero ouvi-la agora.
- *Quando os policiais chegaram finalmente ao apartamento de Thomas não tiveram o
trabalho de abrir a porta. Esta se encontrava aberta e o apartamento vazio.
- Nosso homem está aqui, tenho certeza, ninguém sair deste prédio, a janela quebrada é
aquela.
- Algumas pessoas querem ir embora, posso liberá-las.
- Não sai ninguém deste prédio, só depois de catalogados e identificados. Quero todos
os apartamentos revistados. - gritou enfurecido o policial.
- *Dois dias depois Marina recebe um telefonema, era Thomas ao telefone, no entanto sua
voz não podia ser reconhecida.
- Marina, aqui é um amigo de Thomas. Eu colaborei com os seqüestradores e agora
estou tentando salvá-lo, mas só estou lhe dando um recado. Passe no cartório do Vanderlei e
assine uma escritura de doação feita em seu favor, pode ser necessário vender a casa para
pagar o resgate e você ficará encarregada disso. - o telefone foi desligado.
- *- Cordeiro, você quer dar uma olhada nisso.
- Uma escritura de doação? Não vejo como isso pode me ajudar?
- Veja quem está doando.
- Thomas Aguiar a Marina Schiavonne e dai?
- Thomas Aguiar é o homem do seqüestro. Você deixou os seqüestradores fugirem
naquela noite.
- Ninguém fugiu! Já estavam fora do prédio quando chegamos.
- Como não? Eles jogaram um estojo de pronto-socorro pela janela enquanto sua viatura
estacionava. e havia marcas recentes de sangue no chão.
- É verdade. Mas ninguém passou por nós, revistamos todos os apartamentos do prédio,
não sei como pode acontecer. De helicóptero não fugiram.
- Estarão fugindo amanhã neste horário para outro esconderijo. Combinaram com
alguém. Olhe este papel. É o cronograma dos seqüestradores vão fugir no próprio carro do
Thomas um Sonata azul.
- História, os seqüestradores não iam deixar você entrar no local e sair vivo.
- Se me matassem quem daria seqüência à escritura? Havia muitos papéis sobre a mesa,
inclusive este. Eu o coloquei dentro do livro e uma casa próxima à torrefação, mas não vou
lhe dar o endereço, ai talvez eles me matem mesmo. Trabalhei muitos anos ali. tem apenas
duas ruas de acesso, espere na avenida.
- E ninguém viu você pegar o papel.?
- Haviam vários papéis meus espalhados sobre a mesa como eu já falei.
- Esta área não está no meu setor. Mas vou dar uma olhada.
29
- Outra coisa. Não comente como conseguiu esta informação. Eu deveria ter denunciado
o fato a uma delegacia. Mas não posso me complicar.
- Fique tranqüilo! Por mim ninguém saberá.
- *O tenente Cordeiro passou a tarde patrulhando as imediações da torrefação. Não sabia o
local exato onde procurar, então decidiu seguir o conselho do escrivão do cartório e aguardou
na avenida. Pediu ao motorista para encostar um pouco e assim permaneceram por um longo
tempo. De repente, um Sonata Azul cruzou a viatura. Ele anotou a placa e passou um radio
confirmando a propriedade do veiculo.
- Localizamos o carro de Thomas Aguiar próximo à Torrefação Lourenço. Preparem
apoio, volto a entrar em contato em seguida.
- Thomas, chegou o momento. Você vai desaparecer oficialmente. Homem de Branco.
informou o
- Estão fugindo tenente. Notaram nossa presença, veja! É o Thomas Aguiar sentando no
banco de trás e quatro homens todos fortemente armados.
- Não é prudente enfrentá-los e é difícil seguir um carro desses com esta droga de
viatura.
- Mande cercá-los. Esta avenida só tem uma saída. A marginal! A esta hora não tem
movimento. Vamos pegá-los fácil, fácil.
Só depois de manter contato com o centro de operações o tenente Cordeiro saiu em
perseguição dos seqüestradores. Tiros emanaram do veiculo perseguido e ele notou atras
deles a van de Celso Papagaio. O maldito repórter parecia conhecer apenas sua viatura, agora
ia entrar na linha de tiro. Não em uma operação sob sua responsabilidade!
- Este desgraçado não pode nos seguir, vai complicar as barreiras. Mande alguém parálo. Só falta ele morrer nesta ação....
O horário facilitou o trabalho policial, o esquema montado para a operação foi enorme,
queriam Thomas Aguiar. Celso Papagaio fizera muito alarde pelo fato dos seqüestradores
terem se evadido apesar do exército de homens existente em volta do prédio, era uma questão
de honra. Em minutos as saídas da pista expressa da Marginal estavam interditadas. Os
seqüestradores não podiam sair e outros veículos não podiam entrar. dois helicópteros
cobriam a operação. Um deles deu ordem à van do repórter para estacionar.
Celso Papagaio ouviu a ordem emanada do helicóptero e obedeceu desanimado
enquanto a perseguição continuava. Thomas de seu carro viu a van e se preocupou Marina
odiava este homem. Odiava a imagem de santo do crápula. Conhecia-o bem desde a infância.
- Você pode fazer alguma coisa Homem de Branco. Não quero este homem cobrindo
minha perseguição. Ele vai se envolver fundo no caso e infernizar a vida de Marina são
inimigos declarados.
- Claro. Com este pózinho aqui quero ver eles seguindo alguém.
Vai faze-los dormir?
- Não, ficar com uma tremenda vontade de tomar banho. É pó de mico.
- *- Atire no pneu traseiro, isto vai pará-los, tente acertar. - ordenou o coronel Mariano ao
atirador de elite.
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- É perigoso, tem viaturas atras deles, posso acertar uma delas é um projetil de longo
alcance.
- Vou passar um radio e mandá-los parar. O carro não tem como sair daquela pista.
Atiradores colocados ao longo da Marginal se concentraram nos pneus do veículo. De
repente o carro saiu de seu percurso e bateu na guia central dando um salto espetacular antes
de voar para dentro do rio.
- Vamos morrer. - gritou Thomas assustado.
- Calma amigo! Ainda não.
- *Thomas de repente notou estar muito longe de casa, a paisagem de montanhas e neve
não tinha nada a ver com o Brasil, no entanto não sentia frio, não sentia nada, apenas se
encontrava parado, a milhares de metros do chão, próximo ao cume de uma delas.
Ali Thomas assistiria ao maior espetáculo de toda a sua vida. O Homem de Branco
segurava um objeto triangular nas mãos e com ele fez um corte horizontal na montanha
próximo uns vinte metros do pico, a parte superior da mesma simplesmente flutuou como se
não tivesse peso e a gravidade fosse uma lei provisoriamente abolida.
Depois o objeto foi apontado para Thomas e refletido no vão aberto ele pode ver, no
platô resultante da divisão aparecer uma depressão, tinha contorno exato da metade do corpo
de Thomas, linha por linha, ponto por ponto.
Quando foi deslocado para dentro daquele contorno Thomas pode ver a parte deslocada
da montanha, nela havia um contorno idêntico correspondendo ao restante de seu corpo ainda
livre, quando o enorme bloco de pedra começou a descer Thomas pensou ser aquele seu
túmulo, depois, se viu fora dali, e não havia nenhuma marca da divisão antes feita, a paisagem
não fora alterada.
- Precisamos de ajuda, urgente.
- Como assim Precisamos de ajuda, você é o anjo.
- Estou sem energia. Conservar seu corpo e criar o casulo onde permanecerá intacto foi
demais para mim. Daqui a pouco podemos nos perder.
O Homem de Branco se sentia muito fraco, seu pedido de ajuda mal seria ouvido neste
estado.
- Precisa de ajuda.
- Estou sem energia, preciso me deslocar daqui para um lugar aquecido. - respondeu o
Homem de Branco.
Thomas olhou preocupado, o socorro veio de elementos identicos aos encontrados por
ele no beco. Embora fossem "do outro lado" seriam obrigados a ajudá-los, Uma lei maior os
forçava a fazer isso, a forma utilizada por eles talvez não fosse a ideal, um problema.
- Descansem e durmam, vamos ajudá-los.
Os quatro elementos construíram um iglu, acomodaram o Homem de Branco e Thomas
dentro dele e tomaram providências para permanecerem aquecidos e vivos.
VIVENDO SEM CORPO
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O "Homem de Branco" acordou: suas energias estavam parcialmente renovadas, o
suficiente para se deslocar por seus próprios meios, quando notou onde estava ficou furioso,
devia estar hibernando há muitos dias, fora deixado aquecido, mas longe do Sol e nestas
condições suas energias demoravam muito para atingir um nível apenas razoável. O espectro
de Thomas estava adormecido ao seu lado na outra cama. Brincadeira de seus amigos do
outro lado, eles não tinham corpos, não queriam mantas ou coisas do gênero, apenas do bom e
reconfortante calor do Astro Rei.
Empunhou o objeto e o apontou para seu protegido e ele abandonou sua postura inerte
ganhando movimentos.
- Abrace- se firme a mim. Precisamos unir nossas energias para ir embora. Não sei há
quanto tempo estamos aqui.
- Não entendi? Você não sabe tudo?
- Quantas vezes vou lhe explicar, não sou um ser divino, apenas diferente, tenho
algumas habilidades, vocês chamam a isso poderes. Mas preciso de informações e alimentos
como todo mundo. Vamos embora.
Thomas não entendia como as coisas aconteciam. Como por encanto eles estavam ao
sol, no centro da Avenida Paulista, fez menção de correr para não ser atropelado mas foi
impedido pelo companheiro:
- Esqueça as preocupações físicas, você é apenas um espectro, não tem moléculas. Não
como as conhece. Nada pode atingi-lo vamos ficar algum tempo no sol. Dentro de pouco
tempo estaremos fortes e passaremos a agir.
Mas Thomas correu para a calçada mesmo assim. Só sabia pensar e se mover como um
ser humano.
- Vou lhe ensinar a se mover como eu. Assim você pode viajar para onde quiser e como
quiser.
- Não quero aprender nada diferente! Em breve não vou ser humano novamente?
- Vai.
- Não quero perder nenhum de meus medos, deixe como está.
- Sou obrigado a lhe dar razão! O cuidado e a prudência mantêm os homens vivos! Mas
seria mais fácil.
- Esqueça, não quero nenhum poder. Uso os seus, não fosse toda minha prudência e
cuidados não teria atingido este século. Vamos verificar a data de hoje.
Athos estranhou parcialmente a resposta de Thomas mas não se manifestou a respeito,
foram até uma banca de jornal e verificaram. ficaram ausentes por uma semana.
- Uma semana? Você falou em algumas frações de hora. E agora veja isto, Marina deve
estar desesperada.
- Leve- me até a casa de Flávia. Com certeza não vai estar na dela.
- Imediatamente..... já estamos lá.
Estavam na sala da casa de Flávia. Não viram Marina.
- Ela deve ter saído. Vamos passear e voltamos mais tarde. - falou o “Homem de
Branco”.
- Que nada ela está na casa, deve estar morta de medo do Celso Papagaio.
32
Flávia atendeu ao telefone e elucidou as dúvidas dos dois.
- Sinto muito Anabela, ela está no banho, ligue em uns quinze minutos.
- Ela está no banho. Vamos vê-la. - falou o "Homem de Branco".
- Fique quieto aqui. Ela está sem roupa.
- E dai? Estou cansado de ver pessoas nuas.
- Você quer ter um pouco mais de respeito, ela é minha garota.
- Então vou assistir à televisão.
Estava na hora do noticiário, e a matéria transmitida pela televisão era no mínimo
hilária, o tenente Cordeiro estava sendo acusado pelo Celso Papagaio de ter bombardeado sua
perua por três vezes com bombas de pó de mico, em função disso o repórter estava entrando
com mais uma representação contra o policial.
“- Sinto muito, mas não dou entrevistas, é contra o regulamento, mesmo em um caso
absurdo como este. Bomba de pó de mico não existe”.
"- Tenente, tenente, o senhor realmente não tem conhecimento da existência destas
bombas?"
"- Imagine! Mas como eu já disse não dou entrevistas, procurem meu oficial superior no
quartel, coronel Mariano e falem com ele."
- Não entendo, provoquei a coceira nele da primeira vez, mas ele está falando em outras
duas. - ponderou o "Homem de Branco".
- Fui eu. - respondeu uma voz atrás deles.
Olharam para trás e viram uma mulher, vestida de branco, nenhumas outra cor, como o
protetor de Thomas.
- Quem é ela?
- Thyphany. - respondeu o "Homem de Branco" a protetora de Marina.
- Também se veste de branco?
- É o nosso uniforme, então você começou esta guerra? - perguntou a Thyphany.
- Achei a sua idéia divertida, então quando Marina estava em perigo de ser encontrada
pelo Celso eu provocava uma coceira neles. O homem é pegajoso. Está se candidatando a
deputado, vai ficar rico com o jornalismo. Um lobo vestido de cordeiro, com esta história de
defender os pobres e perseguir criminosos ele vai longe. Mas é outro bandido.
Marina saiu do banho, parecia cansada e inconformada.
- Aquele corpo não é do Thomas. Eu tenho certeza, ele não está morto ou não foi
encontrado. Ainda está no fundo daquele rio ou foge da polícia.
- Marina. Você está imaginando coisas! As fichas dentárias dele confirmaram!
Infelizmente é verdade.
- Flávia! Eu conheço cada pedaço do corpo dele. Cremaram
alguma coisa podre nessa história e eu vou descobrir. Juro.
o homem errado. Tem
- Marina. Obturações e arcadas dentárias são como impressões digitais. Não existem
duas iguais.
- Mas não era ele, isto eu sei.
33
Thomas olhou para o "Homem de Branco" e perguntou.
- Preciso falar com ela, como faço isto?
- Fale com ela quando ela dormir. - respondeu ele desinteressado.
- Não deste jeito. Não a quero se tornando uma fanática religiosa ou procurando
charlatões para falar comigo, não tem outro jeito?
- Claro. Vamos a um telefone e você liga para ela. Como o amigo de Thomas, o
seqüestrador.
- Ele morreu no carro?
- Mude o amigo, houve um sobrevivente, não estava com os demais.
- Está bem, ela não sabe nada mesmo. Mas antes vamos ligar para aquele repórter, o da
Globo. Gosto dele. É um homem educado e fino, assim tiramos Marina do retiro.
- *- Marina, telefone prá você. Um amigo do Thomas. Um dos seqüestradores! - Flávia
chamou por ela.
- Peça a ele para ligar em cinco minutos, diga qualquer coisa.... estou no banho, é isto
ai.
Tão logo Flávia desligou Marina entrou em contato com o tenente Cordeiro.
- Tenente, ele vai ligar em cinco minutos.
- Não o atenda. Precisamos pelo menos de vinte minutos para chegar e montar o
esquema de localização de chamada.
- *- E agora perguntou ou "Homem de Branco". Qual é o problema?
- Ela ainda não saiu do banho, pediu para ligar de novo em vinte minutos.
- Deve estar bem sujinha a coitada.
- Escute. Vocês anjos deviam ser mais educados, porque você não fala na segunda
pessoa e no imperativo como os como os anjos dos filmes?
- Porque eu não sou um anjo. Já lhe disse, apenas mais evoluído, e como se fôssemos
uma outra raça, embora tenhamos sido semelhantes aos humanos há alguns milhões de anos,
hoje apenas observamos suas vidas e ajudamos aqueles cujas boas intenções justificam nossa
presença. Assim tentamos; alias sem sucesso; melhorar a espécie.
- Como se fôssemos cobaias?
- De certa forma, mas não fazemos experiências com vocês e não usamos seus corpos
para testar remédios.
- Mesmo assim não gosto de ser comparado a ratos brancos.
- Não leve a coisa tão a sério, não fazemos mal a vocês.
- Não fale comigo! cale esta boca! Ratinhos ora essa....
Thomas ficou em silêncio olhando o ponteiro de segundo descrever os círculos. Contou
vinte voltas e voltou a ligar a própria Marina atendeu, aparelhos da técnica já estavam
ligados em seu telefone, ao seu lado profissionais da policia e o tenente Cordeiro, quando
34
atendeu a ligação o número de onde partira a mesma já estava registrado no painel luminoso
e o técnico em condições de localizar a ligação.
- Alo, aqui é Marina.
"- Boa tarde senhorita, aqui é um amigo de Thomas, preciso falar contigo."
- Você já ligou para mim antes não foi?
"- Não, quem ligou da outra vez morreu dentro do carro, nós dois iríamos tentar libertar
Thomas caso não tivesse morrido. Perdi dois grandes amigos, Deus os tenha.
- Você tem alguma novidade deste caso?
"- Nada alem do publicado pelos jornais. Estou ligando por outro motivo.” ·
- Não sei se pode existir algum outro motivo para conversarmos. Você esta precisando
de dinheiro? Eu não tenho, sinceramente.
- Não se trata disso. Eu não a vi cumprir a ultima vontade dele, apenas isso. Você devia
estar morando na casa do Thomas, ele gostaria muito e.....
O tenente Cordeiro bateu de leve no ombro de Marina ela pediu licença a Thomas e
tapou o fone.
- Ele está no prédio ao lado. Segure-o no telefone o máximo possível.
- Está certo.
Ainda um pouco nervosa voltou ao telefone:
- Desculpe- me pela interrupção, - desculpou- se - pode continuar.
"- A casa... ela e sua, ele a queria morando lá."
- Não posso morar lá, não está pintada nem tem mobília. A minha pertence ao
apartamento. Não posso levar para lugar nenhum. Só tenho minhas roupas e algumas panelas.
"- Você devia ir vê-la, está pronta, mobiliada, e só entrar."
- Claro, me conte como ela está? Eu gostaria de saber. Qual a cor da sala?
"- Como posso saber, foi Thomas quem providenciou tudo, eu nunca estive na casa."
- Entendo, ele pintou a casa e mobiliou em uma semana? Colocou cortinas, lâmpadas,
lustres... por quem o senhor me toma?
"- Não vamos discutir sem necessidade, vá até lá e verifique, anote um telefone: é de um
repórter da Globo, um homem fino e educado diferente do "Repete- tudo", já está tudo
combinado. Você da a ele uma entrevista e assina um contrato de exclusividade no assunto
com a emissora e o jornal deles. O outro terá um motivo legal para deixá-la em paz.
- O.k., pode falar, o nome... o telefone.... já anotei, vou ligar para ele logo em seguida,
agora vamos falar da minha casa, conte- me como ela está.
"- Eu não sei, realmente não sei, nunca a vi, não tenho a menor idéia de como foi
mobiliada ou pintada."
-
Me fale sobre Thomas, como era ele no cativeiro? Se comportava....
Marina continuou falando banalidades, Thomas não se importava, não tinha a menor
intenção de desligar até ouvir um estrondo. A porta dos fundos do apartamento onde estavam
35
fora posta abaixo e vários homens invadiram o recinto, ficou no local observando os policiais
trabalhando. O tenente Cordeiro pegou o fone pendente da mesa e falou:
- Senhorita Marina? Ainda está ai?
(- )
- Ele está no apartamento, em algum lugar, não tem como fugir. Todas as saídas estão
vigiadas e são vinte e cinco andares. Em breve teremos tudo esclarecido.
Quando deu por si Thomas estava no corredor, o "Homem de Branco" estava ao seu
lado, comandava um homem vestido de oficial saído não se sabe de onde e emitindo uma
série de ordens.
- Pessoal, o tenente quer todo mundo lá em cima, dois homens na porta dos fundos do
prédio, você e você, dois na saída das escadas do térreo e vocês na garagem vão, logo, e
todos os rádios mudos, ninguém usa o rádio.
- E você não vai conosco?
- Não, vou pegar mais bombas de gás na viatura. - e saiu gritando com todos os guardas
ainda nos carros.
- Todo mundo lá em cima, todo mundo lá em cima. Vigiem a porta dos elevadores.
De repente não havia mais nenhum policial na calçada o corpo comandado pelo
"Homem de Branco" atravessou os curiosos em volta do cordão de isolamento chamando
bastante a atenção, queria ser visto, fez sinal para um táxi e entrou nele.
- A estação mais próxima do metrô, por favor, falou para ser ouvido.
- *O tenente Cordeiro já havia experimentado três rádios pedindo aos policiais para vigiar
as saídas, e todos estavam mudos, inexplicavelmente o seqüestrador não estava no
apartamento; desanimado desistiu e saiu para o corredor, não dava para se mexer lá, o local
estava apinhado de policiais.
Após alguns minutos de conversa ele deduziu exatamente como o "Homem de Branco"
previra: o possível seqüestrador fugira vestido de policial. Desceu para a calçada e conversou
com alguns curiosos.
- Ele pegou um táxi e pediu para ficar na estação do metrô mais próxima, ouvi quando
ele falou com o motorista, era um táxi da Copertel, carro setenta e três.
- *Marina sentiu alguém mexendo em sua bolsa dentro do mercado, quando se voltou não
viu ninguém por perto. Pensou ter sido roubada, ao contrário, adicionaram à mesma um
envelope, nunca estivera ali. Ela jamais o vira, continha um chaveiro, com uma moeda de
prata de mil réis de 1.857 com varias chaves numeradas. Em anexo um papel esclarecendo de
onde elas eram e os números correspondentes aos códigos de acesso das portas externas.
Havia também um aparelho de controle remoto onde se lia: garagem. Pensou em procurar
pelo supermercado para ver se achava alguém suspeito, mas caiu em si da inutilidade de sua
tentativa. Como era uma pessoa suspeita?
Voltou correndo para casa. As coisas estavam acontecendo de forma muito estranha,
decidiu seguir as instruções do "amigo de Thomas", na integra.
No tocante ao repórter da Globo teve algum trabalho para localizá-lo, na verdade não
havia anotado nada quando estava falando com o "amigo de Thomas", tentava apenas ganhar
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tempo mas mesmo assim, com buscas e perseverança combinou uma entrevista, o contrato
de exclusividade e acertaram os últimos detalhes.
- Então estamos entendidos, nada de veículos com símbolos da rede, e vamos nos
encontrar nesse endereço. É uma casa vazia e recém construída, ninguém a conhece. Aqui
não é seguro. Já vi o carro do Repete-tudo passeando pelas imediações, ele não tem certeza do
local onde estou mas sabem a região, lhe espero lá em três horas, tudo certo?
(- )
- Impossível? Então quando?
(- )
- Está bem. Amanhã às dez.
- *Marina aguardou o táxi estacionar e só então saiu de casa. Entrou e mandou o motorista
dirigir sem destino queria se sentir segura. Olhou para trás e viu a perua de Celso Papagaio
atrás dela.
- O senhor consegue se livrar desta perua atrás da gente?
- Dá não Dona. Aquilo é uma máquina. Só se dermos sorte de passar um farol e deixar
eles para trás. Mas eu conheço o Celso, vai ficar colado na gente, se eu passar ele passa.
Marina ficou desesperada, o "amigo de Thomas" a tinha jogado nas mãos do repórter;
Não iria adiantar nada voltar. Ele agora descobriria seu endereço e ia deixar alguém de
plantão na sua porta. Decidiu se conformar. Entraria na casa e ficaria trancada lá.
Celso estava exultante, nunca perdia sua presa.
- Pode ir com calma Walter, eles já se conformaram com nossa presença, nem se
preocupam em fugir... todo mundo pronto ai atrás, quando ela descer nós caímos em cima.
Um carro de policia emparelhou com eles por alguns minutos e depois acelerou
deixando-os para trás, passado algum tempo Celso gritou para o motorista.
- Acelera Walter, rápido....
- Devo ultrapassar o carro deles?
- Não! Vá para a clínica! - enquanto começava a se coçar.
- *Quanto chegou em frente à casa Marina se surpreendeu. O muro da frente estava
totalmente terminado encobrindo a visão da casa e contrariando o projeto inicial, a garagem
onde ficavam as tábuas e caibros velhos estava coberta por uma finíssima porta de madeira
almofadada. Interfones e câmeras podiam ser vistos na entrada de serviço. Abriu a bolsa e
apalpou até encontrar o controle remoto. Apontou-o na direção da porta da garagem e acionou
o botão; ela começou a se abrir. Esperou o fim da operação e deu novo toque, esperou a porta
fechar só então notou: o carro de Celso não estava por perto. O motorista cansado de esperar
uma solução se pronunciou:
- É aqui senhora? - Perguntou o motorista.
- Claro, é aqui, quanto devo?
Pagou a corrida e foi até o portão, digitou o código de acesso e ele se abriu, fez o
mesmo com a porta principal. Quando se viu no interior da casa inicialmente ficou surpresa
depois este sentimento se transformou em espanto, a decoração era completa, nenhum detalhe
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fora esquecido e quanto mais a observava; mais se tornava perplexa. Thomas não pensara em
si quando comprara os objetos. Não havia nada na casa para lembrá-lo, ela conhecia todos os
seus gostos, suas cores favoritas, seus sonhos, seu estilo... a pintura os móveis, pratos pintados
decorando a parede; ele detestava isso, embora Marina achasse lindo; bonecos de pelúcia em
todos os quartos, cortinas tradicionais no lugar dos painéis, O namorado os adorava.
Teve certeza: Thomas mandara fazer tudo para agradá-la. Nada havia dele ali. A casa
fora decorada como se ele jamais fosse utilizá-la, ou talvez para homenagear sua amada. Não
pode impedir o sentimento de frustração de se instalar. Começou a chorar:
- Senhorita Marina?
Ela se voltou assustada, não esperava encontrar ninguém na casa.
- Sou eu. Quem é você?
- Thyphany. Estou tomando conta da casa até a senhora se mudar, prestando um favor
ao Thomas; encontrou tudo em ordem?
- Encontrei obrigada.
- Tem uns homens lá fora, dizem ser da Rede Globo. Vou servir um café para eles
enquanto a senhorita retoca a maquilagem, está toda borrada.
- Você tem maquilagem ai? Eu não trouxe nada.
- Seu toucador está completo, com licença.
- *- Porque ela está chorando, se eu ganhasse uma casa onde todo o meu desejo mais
íntimo estivesse presente eu estaria dando pulos; você me garantiu! Ela ia adorar a casa. vociferou Thomas.
- Gostou demais, por isso não conseguiu conter a tristeza, talvez por ter sonhado em
compartilhar esta casa com você, ou está emocionada por sua renúncia a qualquer coisa de seu
na casa, ali é tudo para ela.
- Entendo. Também sinto vontade de chorar.
- Chore.
- Na sua frente? Depois eu não tenho corpo, como vou chorar?
- Deixe suas emoções fluírem. Mesmo um espectro tem algo semelhante às lágrimas, é
algo divino, o sentimento está nele. O corpo só sente coisas físicas é incapaz de se emocionar,
só dor ou prazer, é quem o habita o responsável pelas emoções.
- *Thyphany acompanhou a equipe de externa até o portão e Marina ficou esperando por
ela. Queria agradecê-la e dispensar seus serviços, uma ex-encarregada de tesouraria e
desempregada não podia se dar ao luxo de manter uma empregada, começou a se preparar
para a desagradável conversa, detestava demitir pessoas. Como ninguém apareceu ela foi
procurá-la, talvez tivesse voltado pela entrada de serviço. Mas na cozinha só achou um
bilhete.
“- Senhorita Marina”.
"Desculpe- me por ter saído sem me despedir, mas já estava atrasada para uma
entrevista em meu novo emprego, não se preocupe com meu pagamento; o senhor Thomas o
fez antecipadamente."
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"Qualquer dúvida deixei meu cartão na capa da agenda, se precisar de mim me
procure."
"Sua correspondência está na gaveta de cima da escrivaninha."
"Foi um prazer conhecê-la pessoalmente, passo um dia para conversarmos, um grande
abraço."
"Thyphany."
Foi até o escritório e apanhou a correspondência, incrível a quantidade de pessoas
cientes de seu novo endereço, no local encontrou.
*Contas de água e luz ainda em nome de Thomas.
*Uma correspondência pessoal de Pedro Latorre convidando-a para retornar ao seu
antigo cargo na Coexponal.
*Uma carta da corretora de seguro para tratar da indenização do Sonata e solicitando a
transferência do salvado do rio; como se ele fosse sua propriedade.
*Uma carta da mesma corretora pedindo os documentos necessários ao recebimento do
seguro feito por Thomas a seu favor.
*Extratos das contas correntes e poupanças de Thomas. Todas em conjunto com ela.
*Uma minuta de contrato de manutenção do elevador e todas as suas correspondências
rotineiras, prospectos de mala-direta e extratos de suas contas pessoais. Normalmente iriam
para o seu apartamento.
Havia sido instalada na casa com todos os detalhes. Ficou impressionada e de repente
estranhou uma das informações. Saiu correndo do escritório, com a correspondência ainda na
mão. Thomas nunca lhe falara de um elevador, havia duas portas na sala, abriu uma e dava
para um terraço, já a conhecia, a outra dava realmente para uma saleta onde o encontrou e
constatou se destinavam a três pavimentos; garagem, térreo e cobertura, a casa não tinha
todos estes pavimentos! Tinha certeza! Sempre vira sua planta na mesa do namorado.
Apertou o botão para verificar e saiu em um terraço sobre a casa, ali havia uma área de
churrasco bastante confortável com piscina cobrindo toda a extensão do imóvel.
Apertou o botão da garagem e encontrou ali o carro esporte do namorado uma Mercedes
SL 280 vermelho, totalmente reformada, sem a avaria do seu pára-lama direito. Esta os
deixava constrangidos em usá-lo já há algum tempo. Ao lado da porta do elevador um
carrinho de compras de supermercado vazio em uma das paredes uma completa bancada de
ferramentas e um macaco hidráulico como ela sempre imaginara. Adorava isso das famílias
dos filmes americanos.
Voltou para o escritório e abriu os estratos bancários e quase todos apresentavam saldos
pequenos, mas quando abriu os extratos do Itaú; estranhou, seu saldo era absurdo, havia muito
dinheiro ali, uma quantia longe de qualquer expectativa, então se lembrou da conversa
mantida com o tenente Cordeiro.
"- Sinto muito dona Marina, aquela correspondência não ajudou em nada, só
encontramos as impressões de Thomas nela, a pessoa responsável por sua entrega devia estar
de luvas."
"- Incrível, as coisas estão acontecendo numa velocidade alarmante e nenhuma delas me
ajuda em nada, fiquei escondida na casa de uma amiga e ninguém me localizou, a não ser
este amigo de Thomas para me mandar ao tabelião para regularizar a escritura de doação."
"- Ele sabia quem era sua melhor amiga."
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"- A Flávia? Claro!"
"- Então, não tem mistério nenhum, está tudo muito claro."
"- Para o senhor, para mim é tudo nebuloso. O corpo encontrado no Tietê não é dele.
Tenho certeza."
"- Era, é claro! As roupas eram dele, a corrente, a pulseira, o relógio, infelizmente seu
rosto e impressões não serviam para mais nada, no entanto o confronto das fichas dentárias foi
conclusivo. Só nos resta dedicar a ele nossas orações."
"- O senhor não entende, eu conheço aquele corpo, ponto por ponto. Thomas não
morreu naquele rio. Está vivo!"
"- As investigações sobre sua morte estão encerradas. Foi cremado, não existe mais um
corpo para fazermos um teste de DNA. Para a policia ele está morto, sinto muito."
"- Eu vou continuar procurando por ele. Será a finalidade da minha vida."
"- Não posso impedi-la de acreditar nisso, mas é totalmente inútil. Uma loucura eu diria.
Posso lhe acompanhar até a casa da ex-esposa dele?"
"- Qual a finalidade?"
"- Tentar um acerto assim talvez ela não reclame a parte das crianças na casa do exmarido."
"- E onde vou arrumar o dinheiro?"
"- Ele se refere a uma poupança no Itaú, se for o caso use."
"- Todas as contas de Thomas são conjuntas eu saberia disto. Aliás, temos realmente
uma conta no Itaú, no entanto o saldo é pequeno. Não é suficiente para acertar nada.
Agradeço sua gentileza, não quero sair de casa e me arriscar a encontrar o Repete-tudo. Além
disso: aquela casa realmente não me interessa Não tenho o dinheiro suficiente para terminá-la.
Voltou a realidade. Agora tinha nas mãos um extrato de conta-corrente onde se
comprovava a existência do dinheiro. Tinha muitas coisas a fazer. Se era a vontade de
Thomas: vê-la morando ali iria providenciar a mudança imediatamente. Decidiu verificar a
despensa, na volta iria passar em um supermercado e comprar gêneros. Anabela levara tudo
de seu apartamento para a casa de Flávia. Muito justo! Afinal estavam morando lá há dias.
Foi até a cozinha e verificou os compartimentos do armário ali existente, todos os
utensílios necessários ao seu funcionamento estavam neles, a geladeira e o freezer estavam
repletos. Na área de serviço e encontrou uma despensa abarrotada de gêneros alimentícios,
latarias, produtos de limpeza e higiene, todas as prateleiras construídas no cômodo estavam
totalmente tomadas. Não precisaria comprar nada, exceto perecíveis, durante muito tempo.
Verificou o resto da casa. A sala de jantar estava completa, talheres, copos, porcelanas.
Os quartos tinham roupas de cama e cobertores nos maleiros, dois deles, destinados a
hospedes, estavam arrumados como se esperassem sua família, o primeiro tinha toalhas no
banheiro para duas pessoas e os produtos favoritos de seus pais no armário e utensílios de
barbear, o segundo tinha tudo para fazer a felicidade de Anabela. Vazios apenas os dois
cômodos destinados às crianças, isto lhe provocou novas emoções.
Foi para o quarto principal, o do casal, abriu o guarda- roupas e se sentiu triste. Thomas
parecia pressentir sua morte ou desaparecimento, para ela, haviam algumas roupas novas; e,
também as deixadas no apartamento desse, no toucador a mesma coisa, suas colônias, cremes
favoritos e alguns semi usados, ele transferira tudo dela em seu poder para lá, dele, só achou
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uma camisa e um de seus roupões, mas isso também lhe entristeceu, o namorado nunca usava
estas duas peças, ela sim; conforme estivesse o dia: frio ou quente.
Um arrepio percorreu todo o seu corpo. Parecia uma seqüência de filme de horror. A
vítima entra na casa e está foi preparada por um vampiro. Encontra tudo pronto esperando
por ela. Quando a noite desce o monstro aparece para aterrorizá-la. Sentiu vontade de correr
para fora dali, mas se conteve e foi para o escritório. abriu uma das gavetas e encontrou lá
notas de compras efetuadas nos últimos quarenta dias. Mesmo antes dele pedir demissão da
Coexponal.
Comprovantes de compra do freezer, da geladeira, enfim de todos os objetos existentes
na casa, estavam amplamente justificados, o extrato da poupança registrava transferências
constantes praticamente diárias para a conta corrente. Só então se deu conta. Este período
fora muito tenso. Thomas reclamava da falta de dinheiro para empregar na casa e não a levou
mais para visitar a obra. Sorriu; um sorriso triste, de saudades, e, deduziu: ele nunca tivera
problemas financeiros. Queria lhe fazer uma surpresa. Mostrar- se capacitado a decorar a casa
de seus sonhos, conhecedor de todos os seus gostos. Se sentiu ainda mais apaixonada e
arrependida por ter perdido sua companhia nos últimos dias.
Em uma das gavetas encontrou também uma caixa de cartões de visita com seu nome,
apanhou alguns e colocou na bolsa, foi quando se deu conta da existência de telefone na casa
e procurou a agenda, achando-a totalmente organizada; talvez por Thyphany; telefones de
seus amigos, assistências técnicas, serviços, e um pequeno recado anexo: “Todos os dados
desta agenda estão no computador, arquivo Amigos.Doc e Serviços.Doc. Marina ficou
impressionada com o esquema montado para a casa. Nada sobrou para ser feito por ela exceto
habitá-la.
Pensou em chamar um táxi, mas desistiu. Iria andar um pouco, contratar uma perua para
trazer seus pertences. Não precisava um caminhão, eram só roupas e uns poucos utensílios de
cozinha. Mudar de um apartamento mobiliado para uma casa idem era fácil e prático.
Quando saiu da casa quase não acreditou em sua sorte. Estacionada ali como se
esperasse por ela uma perua de aluguel. Caminhou até lá e não viu o motorista dentro da
mesma. Já ia se retirando quando alguém a chamou:
- Moça, moça... está querendo alugar a perua?
- Sim senhor, quero trazer uns objetos da minha casa para cá... se não for muito caro.
- Notei a senhora saindo desta casa, tem um mourões de madeira maciça no fundo do
quintal, não lhe servem para nada, mas valem muito para mim, faço a mudança por eles, e
ainda levo meu ajudante. A senhorita não precisa fazer nada.
- Como sabe da existência destes mourões? Eu nunca os vi!
- Fiz alguns serviços para a senhorita Thyphany.
- Feito. Não tenho mesmo utilidade para eles, como o senhor mesmo disse. Eu pego um
táxi na avenida e o senhor me segue.
- Não precisa, a senhorita vai conosco na perua.
- Fica muito apertado. Pode deixar eu vou de táxi.
- Que nada meu ajudante vai lá atrás. Está acostumado a isso.
- Então.... tudo bem.
Marina entrou e a perua e foi ensinando o caminho; em dado momento se sentiu
cansada de chamá-lo apenas motorista e reclamou:
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- Se eu soubesse seu nome ficaria muito mais fácil. O senhor não acha?
- Se é este o problema, meu nome é Thomas.
- É o nome do meu namorado.
- Coincidência, ele ficou na casa?
- Não... está.... desaparecido.... mas eu vou encontrá-lo... e o seu ajudante: como se
chama?
- Eu não sei.
- Não sabe o nome de seu ajudante? Impossível.
- Ninguém sabe, ele é mudo. Mas trabalha muito bem.
- E você chama ele de ajudante? Só isso?
- Não, eu o chamo de Homem de branco.
MARINA EM SUA NOVA VIDA
BRUNO DE SOUZA MARIANO; coronel, filho de coronel e neto de General,
descendente de varias gerações de militares, famosos por excelentes serviços prestados, agora
tinha sua idoneidade e princípios colocados em duvida por um repórter sensacionalista.
Décio Papagaio, ou Repete-tudo; como era conhecido; atingira o limite de sua loucura,
como era possível o repórter sair com uma notícia daquelas? Acusar a equipe do tenente
Cordeiro de bombardear sua perua com bombas de pó de mico? Ele ouvia as declarações do
homem sem acreditar.
"- Todas as vezes, todas as vezes nas quais nossa equipe passou pelo vexame de se
dirigir a uma clínica para ser medicada em função de uma coceira infernal, tivemos como
coincidência, como coincidência a presença de um carro policial da equipe do tenente
Cordeiro passando por nossa perua e infelizmente, infelizmente, infelizmente mesmo, temos
contado, temos sido brindados com a conivência de seus superiores, de seu comandante
direto, mais precisamente do coronel Mariano."
- Sargento Souza! - gritou com satisfação, adorava ver o sargento entrar em sua sala,
se não fosse um homem muito preocupado com sua imagem, em demonstrar sua seriedade....
só essa preocupação o impedia de lhe convidar para um drinque.
- Pois não coronel.
- Leve esta fita ao nosso departamento jurídico. Quero providências severas contra este
repórter.
- Devo mandar um oficio à rede de televisão pedir uma retratação?
- Nada disso. Quero tudo muito claro, retratação pode ser interpretado como acordo.
- Que vamos fazer?
- Quero-o interpelado judicialmente, os laudos de todas as clínicas onde foram
atendidos e também as informações de sua equipe, eles vão fornecer o número de todas as
viaturas com as quais cruzaram antes de começar as coceiras.
- Sim senhor, vou providenciar imediatamente.
- E tem mais!
- Pois não coronel.
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- Quero este idiota mostrando uma única bomba de pó de mico existente. Nunca ouvi
falar nisso.
O sargento Souza se retirou da sala devagar, parecia querer brincar com ele, aquele seu
"Pois não coronel" doce, meigo, o oficial ficou olhando para o seu andar, militar sim, dentro
do regulamento, porém mesmo assim macio e insinuante, então tomou uma decisão, iria ficar
livre daquela tentação.
- Sargento Souza!
- Sargento Souza! - gritou novamente irritado com aquele andar insinuante e tentador.
- Pois não coronel.
- As promoções. Eu vou recomendá-las hoje. Não vou mais protelar, a partir de amanhã
você assume suas novas funções, o sargento Garcia assume as suas.
- Então o senhor também vai assinar a recomendação do tenente Cordeiro não é? Ele só
precisa disso e merece há muito tempo. E o senhor pelo jeito já não morre de amores pelo
Celso Papagaio.
- Está bem! Assino isso também. Hoje vou dormir em estado de graça.
- *Marina estava decidida a descobrir qual o mistério existente na morte de Thomas. Então
ligou para a Doutora Doris, sua dentista,.
- Doutora Doris, aqui fala Mariana Schiavonne, namorada de Thomas Aguiar, a policia
solicitou da senhora as radiografias dele por ocasião de sua suposta morte?
- Não. De mim ninguém solicitou nada. As radiografias dele ainda estão aqui.
- Eu gostaria de pedir uma confrontação entre estas e as existentes no processo, seria
incomodo para a senhora.
- Absolutamente, estou à disposição.
- E agora Homem de Branco, as radiografias são totalmente diferentes.
- Claro, mas não por muito tempo, vou precisar tomar algumas providencias, mas
quando houver esta confrontação com certeza o problema vai estar resolvido.
- *- Mande a senhorita Marina conversar comigo. Recebi uma ligação da policia civil, a
confrontação resultou nula, eu fiz questão de acompanhar todo o processo, embora as
radiografias não tenham sido tiradas do mesmo angulo, pertencem à mesma pessoa.
- Pois não coronel, vou fazer isso imediatamente, e com licença eu gostaria de lhe
passar um recado.
- Qual?
- Vai haver uma festa pelas promoções do sargento Souza e do capitão Cordeiro, me
encarregaram de convidá-lo.
- Claro, vou comparecer, só não esqueçam de me passar o endereço
- *Marina estava feliz com sua decisão de mandar pintar o carro de Thomas, queria-o
branco como ele sempre sonhara, Anabela seguiu a irmã em um Sonata azul novo, na cor
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idêntica ao destruído pela policia, se a casa era a sua imagem a garagem seria a do amado,
agora estava tudo pronto para recebê-lo, só precisava encontrá-lo.
Quando chegaram sua mãe trabalhava na cozinha, se uniram a ela para ajudá-la,
Anabela não estava muito disposta, como sempre, aos trabalhos domésticos.
- Marina, com toda esta grana, nos temos que ficar dando duro? Contrata logo uma
empregada pô, ai é só a gente ficar na sala esperando o cafezinho.
- Não precisamos de uma empregada, somos três mulheres nesta casa, cada uma limpa
o seu quarto, todas juntas limpam o resto, e na sexta feira Elisa vem fazer uma limpeza geral
como já acontecia no apartamento.
- Tá Legal! E se um dia nos dermos um churrasco lá em cima quero ver quem limpa,
ali o negócio é enorme.
- Não estou muito preocupada com festas. Se um dia acontecer pensamos em como
resolver. Por enquanto nada de mordomia com o dinheiro do Thomas. Papai já se
comprometeu a limpar a garagem e o quintal. Está tudo resolvido.
- Este seu espirito de pobre ainda vai te matar. Um sonata e uma Mercedes na garagem e
sujando as mãos com gordura, acabando com a manicure! Ai se fosse eu. Isso sem contar o
Escort, aliás você bem podia me emprestar. Eu continuo indo para o trabalho de ônibus.
- Mas sou eu, então estamos resolvidos. Quanto ao Escort... pode pegar, mas já
entenda uma coisa: multas e problemas decorrentes do mau uso correrão por sua conta.
- Contrate uma empregada poxa! Vamos curtir a vida.
- Convidei Teresa, mas ela está empregada, Thomas gostaria de tê-la aqui, fora isso
esqueça, vamos trabalhar, ajuda a manter a forma.
- E se for a Teresa?
- Se for ela, tudo bem.
- Quando você vai voltar a trabalhar?
- Após o julgamento do papai. Não quero ter compromissos me atrapalhando se
precisar ajudar. Depois disso talvez eu volte para a Coexponal.
- Então você podia bem arrumar a casa. Vai ficar sem fazer nada o dia todo.
- Vamos arrumar a casa juntas! Ninguém vai se acostumar a achar nada pronto, seria
muito difícil mudar os hábitos no futuro.
- Está bem patroa, o dinheiro e seu e você manda.
- Vamos dar um passeio, o dia está bonito, e convém aproveitarmos, não vamos perder
o sábado trancadas dentro de casa.
- De Sonata ou de Mercedes?
- De Escort, fica muito mais difícil sermos assaltadas.
- Poxa mãe! Esta aqui nasceu para ser pobre.
- Pobre? Adoro meu Escort, custou muito sacrifício e ainda é o sonho de muita gente.
Se você não quiser não precisa usar.
- Opa! Não apela, este é o Escort mais lindo do mundo, tão branquinho, agora vou
ligar para a Teresa.
- Ela está empregada, eu já lhe disse.
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- E eu ouvi, mas quando ela pensar em trocar de emprego.........
O "HOMEM DE BRANCO", CUPIDO, MAQUIAVÉLICO E INTROMETIDO.
Marina estava conversando com o coronel Mariano. Não conseguia esconder sua
decepção com os novos exames das fichas.
- Não posso acreditar! Posso ver as fichas?
- Sem duvida, mas você não vai poder tirar nenhuma conclusão olhando as a olho nu.
Marina ficou olhando para as fichas e as observações do perito concluído serem do
mesmo paciente.
- Vou procurar outros caminhos, ainda não acredito.
- Senhorita Marina, não há esperanças. O senhor Thomas está morto.
- Não está. Quando acontecer meu coração saberá. Tenho certeza!
- Você me deixa triste, estou sabendo tudo sobre sua luta, mas ela é inglória e inútil,
passe a viver! Esta sua obsessão ainda vai causar problemas irreparáveis.
- Não se preocupe! Não vou enlouquecer, estou completamente lúcida.
Quando Marina saiu o coronel foi ao telefone:
- Sargento Souza!
"- A disposição coronel! Já está sentindo minha falta"?
- Um pouco! Mas estou me arranjando. Não é hoje a festa do capitão Cordeiro?
"- É."
- Eu não tenho o endereço.
"- Meu convite ficou em casa. Mas o seu está na primeira gaveta à direita da minha
antiga mesa. Peça ao sargento Garcia."
- Ele já foi embora! Pediu dispensa para buscar carvão e outras coisas.
- Eu também estou de saída e bem longe dai. Procure-o, por favor, e, se não encontrar
volte a falar comigo; aguardo por cinco minutos."
Athos deu um murro no ar.
- Tai. Agora eu resolvo o problema.
Foi para a outra sala seguido por Thomas e começou a mexer nas gavetas. Procurava
por algo, mas não sabia exatamente onde estava. Quando encontrou e levou sua idéia avante
foi repreendido pelo seu protegido.
- Isto é algo totalmente irregular! Não acredito!
- Oras! É apenas uma pequena troca. No fim tudo deve acabar bem.
- Nem posso imaginar sua finalidade?
- Depois você vai ver.
- *O coronel andou até a sala anexa e procurou. Quando achou o convite estranhou. Quem
estava convidando era o sargento Souza, achou normal, afinal era o seu aniversário, devia
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estar oferecendo a recepção e comemorando junto a promoção do tenente Cordeiro. Observou
o horário e saiu apressado. Precisava correr para não chegar atrasado e era extremamente
pontual.
- *- Este será o novo Thomas, um grande homem, aguarde um pouco, ele vai ter um infarto
em minutos.
- De jeito nenhum, vou ser obrigado a basear minha vida neste elemento e você pega o
homem errado.
- Ele é perfeito, rico, culto, famoso, livre e desimpedido.
- O homem é estrangeiro. Como posso assumir um corpo de um japonês? Eu não
considero nem meu português satisfatório. Esqueça! Este homem é um poliglota chefe
político, de jeito nenhum.
- Você tem alguma coisa contra os japoneses? Este fala português perfeitamente.
- Nada até os admiro, reconstruíram um país do nada em menos de cinqüenta anos. Mas
as nossas diferenças culturais são enormes. Eu quero ser brasileiro, se eu for jogar uma
partida de futebol ninguém vai me dar um passe, não vou ser respeitado no samba e.... vamos
embora, não quero ver este homem morrer.
- Então por hoje não temos mais nada a fazer.
- Athos, os corpos encontrados em meu carro, de onde vieram?
- Das ruas, alguns mendigos mortos e um policial militar corrupto cuja vida terminou
com um colapso cardíaco. Pessoas cuja história não tem a menor importância. Apenas um
deles não seria enterrado como indigente, e não foi, nada se alterou no decurso dos fatos.
- *O coronel Mariano estranhou a falta de movimento. O coquetel estava marcado para as
sete horas e ele conhecia os carros do seu pessoal, todos ausentes. Realmente pontualidade
não era o forte dos brasileiros. - “Nem entre os militares? Deviam dar o exemplo.” - pensou
furioso. - Consultou o relógio, faltavam dois minutos para as sete. Chegaria exatamente no
horário marcado! Aguardou este tempo e procurou pela campainha, como estava quebrada ele
abriu o portão e foi até a entrada da casa, bateu levemente e aguardou.
O sargento Souza abriu a janelinha da porta. Só foi possível ver parte de seu rosto.
- Ah, é o senhor. - falou como quem não o esperava e abriu a porta - Entre por favor. ele quase teve um infarto. O sargento não estava com trajes de festa, usava um conjunto
próprio para passear pela praia, calções muito cavados e uma blusa amarrada na cintura, ele
hesitou e foi chamado à realidade. - Entre por favor, não podemos ficar aqui o resto na noite,
o senhor chegou muito cedo e no endereço errado.
- Estou no horário; como sempre; e no endereço certo, se vocês mudaram alguma coisa
deviam ter me avisado! - entregou o convite a ela.
- Como o senhor conseguiu isto, estes convites nem foram distribuídos, eram para
minha festa de aniversário, mas juntamos a comemoração com o do capitão Cordeiro e
emitimos outros.
- Estava na sua gaveta, onde foi indicado.
- Seu novo estafeta deve ter aberto o pacote.... mas.... vamos entrar, tudo isso não tem a
menor importância.
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O coronel entrou finalmente e ficou em pé no meio da sala sem saber como agir e
entregou o pacote em seu poder para ela.
- Acho melhor entregar seu presente aqui, é menos embrulho para levar mais tarde,
parabéns pelo aniversário e pela promoção.
O sargento abriu o pacote, e se surpreendeu com o bom gosto do coronel. Sempre o
considerara um homem voltado para as regras, armas e disciplina.
- Lindo, você tem muito bom gosto, adorei.
- Na verdade o mérito não é meu, meu bom gosto é discutível. Mas quando quero
agradar alguém recorro a ajuda das balconistas, e, pelo jeito fui bem assessorado.
- Se o senhor queria me agradar se saiu muito bem. Adorei mesmo! Uísque? Vodca?
Um Campari?
- Eu preferia uma cerveja, está muito quente.
- Vou buscar na cozinha, tire este paletó e a gravata, a festa vai ser daqui a três horas... e
é informal.
- Eu não sabia.
- Quando ela voltou trazia uma camisa pólo, um agasalho e um par de tênis.
- Meu quarto e naquela porta, troque esta roupa fique mais a vontade. Não quero ver o
senhor muito diferente do resto do pessoal.
O coronel obedeceu dócil. Quando voltou tinha outra aparência, mais jovem e
descontraída. Pegou um dos copos sobre a bandeja e sorveu a bebida perguntando:
- Eu nunca soube seu primeiro nome, estou curioso.
- Ângela. Ângela Pinheiro Torres de Souza.
- Bonito nome, Ângela é bem doce: vamos brindar à?
- Minha carona! Acho uma boa idéia?
- Carona?
- Meu carro ficou com o Pitangueira. Ele vai buscar o gelo e o chope, eu iria para a festa
de táxi.
- Certo! - A sua carona. - respondeu o coronel enquanto tocava seu copo no dela.
Depois ele sorveu a bebida com vontade, e perguntou.
- Quanto tempo levamos daqui à casa do capitão Cordeiro?
- Dez minutos no máximo.
- Então eu pego você às nove e cinqüenta.
- De jeito nenhum, agora tenho companhia e não vou ficar todo este tempo sozinha.
Ainda tem muita cerveja na geladeira.
Bateram na porta e Ângela se apressou em atender, sem permitir no entanto ao novo
visitante ingressar na sala. Queria evitar comentários.
- Sargento Souza! - falou Pitangueira esbaforido. - O chope não cabe todo no porta
malas. Vim saber se posso colocar em cima do banco traseiro.
- Espere. Vou buscar uns lençóis velhos para você cobri-los.
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- Leve o meu carro. - gritou o coronel enquanto se encaminhava para a porta e
entregava a chave ao soldado. - É uma Quantun, cabe muito chope nela. Tem um plástico
enrolado lá e uns panos velhos, forre o porta malas para protegê-lo do gelo.
- Senhor coronel! Desculpe- me eu não sabia... se eu imaginasse... enfim....
- Não se preocupe, eu também não sabia. Não leve sua imaginação muito à sério, peguei
o convite errado e vim parar aqui. Agora vá e não atrase a festa, quero encontrar o chope lá
quando chegar.
Ao ver o soldado se afastando o coronel brincou:
- Pelo jeito quem precisa de carona agora sou eu.
- Será um prazer. - afirmou Ângela enquanto se pendurava em seu braço, vamos
comigo até a cozinha buscar outra cerveja.
- *- Vamos embora. - falou Athos, aqui já está tudo encaminhado, só mais uma detalhe, e
foi até o paletó do coronel, abandonado na sala, de onde tirou a carteira e os documentos.
- Athos, você é um ladrão incorrigível, devolva a carteira do homem.
- Estou devolvendo. - respondeu Athos enquanto jogava a carteira sobre uma cama.
- Onde estamos?
- Na casa do coronel. Mais precisamente no quarto dele.
- Athos, eu não entendo, um anjo devia ser um elemento bom e gentil, e você não é
assim, lamentável, o coronel vai ficar doido atrás da carteira.
- Espere e verá! Agora vamos dar uma olhada nos outros candidatos à sua disposição.
- Me passe uma lista de todos os homens cuja existência terminará nos próximos dias e
eu escolho.
- Não pode ser assim. Só posso usar as pessoas sob minha guarda, e precisam ser
totalmente livres de compromissos e responsabilidades. Vou lhe mostrar todas as minhas
opções, levantou a mão e quando a abaixou havia uma fita em sua mão. Colocou a mesma no
aparelho de vídeo do quarto do coronel e apareceu o primeiro candidato. Um atleta, Thomas
era seu fã, não perdia uma partida na qual ele atuasse.
- Negativo, o homem é negro.
- Deixe de ser preconceituoso, não pode ser um negro, não pode ser um japonês! É tudo
a mesma coisa, ele tem uma vida maravilhosa, fama, mulheres, alguns milhões de dólares de
rendimento por ano, só os pobres tem cor e nacionalidade, os ricos não tem nada disso, depois
posso mexer os pauzinhos e na próxima semana você estará jogando no seu time favorito e...
eu lhe garanto três campeonatos seguidos.
- Escute uma coisa anjo maldito! A beleza do esporte está na incerteza, senão como
saborear a vitória? Também não quero saber o meu futuro, gera muita ansiedade.
- Posso deixar você jogar algumas partidas sem importância por sua conta para variar.
- Athos! Pelo amor de Deus! Você já me disse mil vezes não ser um anjo, e não é
mesmo: é um duende, um irresponsável. Me entenda. Eu sou um homem branco, brasileiro,
nem muito alto, nem muito baixo e quero permanecer assim. Não é preconceito,
discriminação ou coisa assemelhada, é um sentimento arraigado, é estar satisfeito consigo
mesmo. Pergunte ao Cassius Clay se ele quer ser branco, você já me viu no Coliseu?
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- Já.
- Quantos brancos tem lá alem de mim?
- Geralmente nenhum.
- E estou entre os negros! Entenda.... não quero ser obrigado a administrar situações
novas, muito diferentes em relação à família de Marina e aos meus filhos. Não quero ser
negro, japonês, budista, judeu, islamita, sei lá mais o que.
- Então só temos duas opções. - a fita correu e parou em uma imagem. - Olhe ai,
branco, brasileiro e cristão.
- Este homem vai morrer?
- Em dois dias.
- Você não pode salvá-lo? Vai ser uma grande perda.
- Não, e acredite, se ele pudesse optar não iria querer. Viver é algo complicado, tem
muitas tristezas. Quando ele tiver o infarto responsável pela sua morte será em conseqüência
de uma enorme depressão, estará em lágrimas e querendo isso, depois seu espectro vai ficar;
talvez; em paz, quando livre dos sentimentos humanos, não tenho muita certeza também.
- Eu ainda sinto as mesmas coisas.
- Claro, você não morreu. Está em um estado temporário.
- Me explique como é depois da morte.
- Não! Na verdade eu não sei exatamente o destino dos espectros dos mortos, mas se
soubesse: você não iria ter acesso a nenhum mistério. Todas as suas dúvidas atuais vão
perdurar até sua morte definitiva. Muito conhecimento pode impedir o homem de ser feliz.
- Eu não gostaria de ser este homem. É um cantor, não tem parada, não tem um porto
definitivo.
- Abandone a carreira e se torne um escritor. Posso lhe dar alguns romances prontos,
tenho algumas idéias fabulosas e romances inéditos de grandes escritores do passado. Serão
sucesso garantido.
- Esqueça, se eu aceitar a vida dele vou tentar continuar seu trabalho, acho muito bom.
Vamos a outra opção.
A fita correu novamente, quando parou ele ficou decepcionado. Detestava Diego
Montone. Um conhecido radical de esquerda.
- É uma opção pior ainda, este homem é um jornalista comprometido com a esquerda e
ainda por cima usa óculos. eu não consigo usá-los, você sabe disso. Já mandei fazer dois e não
uso nenhum. Não vou querer viver como um milionário cheio de criados e demagogicamente
viver posando de salvador da pátria.
- Então espere! Ele não é de esquerda coisa nenhuma, o pessoal da esquerda tem alguns
podres dele nas mãos: alguns erros da juventude e o fato de ser viciado em drogas injetáveis,
então ele se submete. A chantagem e o vicio das drogas vão levá-lo ao suicídio, ele vai jogar
o carro por um viaduto enquanto estiver dirigindo para Campinas para tentar uma cirurgia
inútil na vista. E ele não tem chance de se recuperar.
- E onde eu entro se aceitar este.
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- Vamos esperar ele jogar o carro. Não posso matá-lo, embora eu saiba todo o resultado
preciso esperar a atitude dele e quando eu corrigir a trajetória do veiculo já será você dentro
do carro.
- Talvez seja melhor eu escolher o cantor, não quero ser escravo da esquerda.
- Espere antes de decidir, eu vou procurar os lideres da esquerda com estes dossiês, e
vou trocá-los pelas provas contra você, caso escolha o repórter. Ao sair da clínica não será
mais um homem com nenhum compromisso.
- E a dependência das drogas?
- É do Diego e não sua, para todos os efeitos você decidiu parar.
- E as seqüelas no corpo? HIV e coisas assim.
- Não haverá nada disso, vou lhe dar um corpo limpo e sadio, o seu atual não é tão bom.
- Você não tem nenhum protegido desconhecido? Não precisa ser pobre ou com
problemas, eu também não era assim. Mas sem fama.
- De todos os meus protegidos só um não é um sucesso absoluto, os demais são todos
figuras proeminentes.
- Esse homem? O sem muito sucesso... vai viver muito?
- Estou me referindo a você.
- Muito obrigado! Eu podia ter ficado com a boca fechada.
- E então? Qual dos dois?
- Quanto tempo tenho para decidir?
- Até a meia- noite de depois de amanhã, logo a seguir o cantor terá o infarto.
- *- Ora Albano! Eu estava brincando quando fiz aquelas afirmações, eu jamais iria
testemunhar contra Pedro Latorre, disse aquilo em função da bebida, eu não sou louco.
- Está certo Braulio. Nós acreditamos na sua lealdade, por isso vamos fazer esta
pequena viagem. Vamos deixar você na fazenda dele por uns tempos, liquidado o processo e
portanto não havendo mais possibilidade de perigo nesse sentido nós o trazemos de volta.
Para intimá-lo precisam encontra-lo.
- Não precisa! Tenho uns parentes no norte, vou para lá e ninguém me encontra, nem a
policia.
- Olhe, a fazenda é mais confortável, tem piscina, televisão, antena parabólica... e você
pode até levar uma gatinha para lhe fazer companhia. O promotor tem prazo para apresentar o
processo, se ele for arquivado logo, tudo bem.
Braulio olhou para os lados, três homens enormes esperando o resultado da conversa à
distância acompanhavam Albano, era mais fácil ele concordar e ir até a fazenda, lá fugiria
para o mato tentar qualquer coisa ali, naquele momento era tolice e quando não os viu
acompanhá-los ficou totalmente tranqüilo, a intenção de Albano era realmente cumprir o
combinado, agira da maneira certa.
- *-
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O coronel Mariano terminara de sair do banho e lamentava o pouco tempo passado ao
lado de Ângela, era a realização de um sonho, ainda estava preocupado com as possíveis
conseqüências, mas feliz.
- Podemos voltar para cá depois da festa, não mora ninguém nessa casa alem de mim. sugeriu ela.
- E estas roupas?
- São de meu irmão, mas já não mora mais aqui, felizmente ele tem o seu corpo, lhe
caíram muito bem.
- Infelizmente eu não posso, ainda sou um homem casado e com obrigações, na volta
vou estar com meu carro, meus amigos o conhecem e estou muito próximo de minha casa.
- Na minha garagem cabem dois carros, é grande.
- Vamos fazer o seguinte, na volta vamos para um motel, acho mais seguro, mas saiba
de uma coisa, quando eu disse te amar, fui sincero, mas não vou abandonar minha esposa.
Pelo menos por enquanto.... nunca pensei no assunto.
- Não estou pedindo nada, eu posso esperar, já esperei muito... todos estes anos sem
ninguém. Simplesmente esperando por você. Já tive alguma coisa, é cedo para exigir mais.
- Minha carteira. - reclamou o coronel. - Eu a deixei em casa, preciso ir buscá-la.
- Para que,? Não vamos precisar de dinheiro, eu tenho o suficiente para o motel.
- De jeito nenhum, vamos buscar na minha casa. Eu sou um porco chauvinista e trato
mulheres como mulheres, minha esposa foi a um bingo beneficente, não vai ter ninguém em
lá, você me espera um pouco na porta e eu volto em seguida.
- E os vizinhos?
- Você se incomodaria em usar esta jaqueta e um quepi enquanto me espera?
- Não! Vai ser até divertido. O estafeta esperando o coronel.
Na saída ele pegou o pacote destinado ao capitão Cordeiro e deu mais um beijo em
Ângela:
- Será o último até o fim da festa.
- Mais não o último de nossas longas vidas. - respondeu a garota sorridente.
Entraram no carro, não precisou dar o endereço à Ângela, ela estava acostumada a ir à
sua casa em função do trabalho, o coronel passou uma das mãos em sua perna e ela reclamou.
- Eu não vou conseguir dirigir assim fique quieto.
- Esta bem, porem vá devagar, quero ficar mais tempo olhando para você.
- Sente-se quieto e olhe para a rua, senão eu estar de quepi e gandola não vai fazer a
menor diferença.
Mariano se recompôs à contragosto e ficou olhando para a calçada conforme ela
indicara. Ângela nunca poderia explicar o motivo por ter agido desta forma, mas não foi
direto para sua casa e pegou o caminho mais longo, passando por trás da academia militar isso
daria alguns quarteirões a mais.
- Porque está fazendo isso. - perguntou o coronel surpreso com a atitude da mulher.
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- Não sei, me deu vontade, talvez por estar longe de sua casa e aqui eu possa lhe dar um
beijo depois você vai precisar viajar no banco de traseiro. - respondeu, estacionando em
seguida e puxando o amante para si, porém ele resistiu.
- Ei... ficou bravo porque eu não deixei você me acariciar? Não estou acostumada a
dirigir assim, me desculpe.
- Este Monza à nossa frente.
- Qual o problema, não está acontecendo nada com ele, não tem ninguém dentro, deixe
de ser policial por uns minutos.
- Está bem. Venha cá. Vamos nos atrasar um pouco para a festa. - em seguida tirou a
arma do bolso do agasalho e a colocou sobre o painel.
- Não muito, também sou anfitriã.
Mariano continuou sentado e puxou Ângela para junto de si, deixando-a de costas para
o pára- brisa. Sentiu um aperto no peito. Isabel deveria estar em um bingo no Clube Pinheiros
e um de seus carros estava estacionado ali, era um carro velho, estranhou quando a esposa o
comprou, era uma mulher rica, pareceu- lhe ouvir a voz dela.
"- É para sair a noite ou visitar clientes em locais sem estacionamento perto, se for
roubado o prejuízo será pequeno".
Quando começou a trocar carícias com Ângela esqueceu Isabel. Ele e a esposa já não
trocavam carícias apaixonadas há muito tempo, depois, quem sabe tinha ido com alguma
amiga. Decidiu ir embora, quanto antes chegassem na festa mais cedo sairiam.
- Ângela.
- Humm....
- Precisamos ir embora.
- Eu sei. - e fez menção de se mexer mais foi impedida por ele. Um Fiat encostou no
outro lado da rua e ele reconheceu a mulher dentro dele.
- Fique mais um pouco assim abraçada a mim! Quero sentir você mais um pouco.
- Só mais um pouquinho?
- Só mais um pouquinho.
Isabel desceu do carro e deu a volta no mesmo, enfiou a metade do corpo dentro do
veiculo e ficou trocado beijos com o garoto dentro dele, depois se recompôs, tirou algumas
notas de dentro da bolsa entregando-as ao motorista, na seqüência entrou calma e tranqüila no
Monza, deu partida e pegou a rampa de acesso à avenida. Devia estar indo para casa.
Mariano ficou pensando na cena, Acabara de descobrir como sua mulher, dona de um
renomado escritório especializado em concordatas fraudulentas e problemas tributários
gastava o dinheiro ganho de seus clientes bem sucedidos: pagando garotos recém saídos da
puberdade para satisfazer sonhos de juventude. Devia tê-la feito muito infeliz, transformado-a
em uma mulher terrivelmente frustrada, insatisfeita no casamento e gastando o produto de
uma renda oriunda de um mar de corrupção para comprar sexo. Não sentiu tristeza, mas dó, a
empresária invejada por quase todas as suas amigas, o exemplo de uma vida vitoriosa era uma
fraude. Sempre tivera medo de magoá-la, agora podia seguir seu caminho. Há quanto tempo
amava Ângela e reprimira seu amor em respeito a ela? Sentiu um certo clima de vitória por têla traído antes de saber de tudo. Pela primeira vez saia com outra pessoa desde o seu
casamento e não teve tempo para se sentir culpado. O remorso vem no dia seguinte: dizem,
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foi tomado por um sentimento de euforia e liberdade encheu os pulmões de ar e empurrou
carinhosamente a amante.
- Meu amor, tire esta indumentária ridícula e passe para o banco do carona.
- Não confia em mim como motorista?
- Nada disso, quero mostrar a você como é possível dirigir e acariciar uma mulher ao
mesmo tempo.
- E como você vai pegar sua carteira? Vai chegar em casa com uma mulher em trajes
civis, entrar sair de novo sem mais nem menos.
- Decidi aceitar sua sugestão. Vou dormir na sua casa.
- E os vizinhos?
- Eles vão dormir nas casas deles como sempre fizeram.
Ângela desceu e deu a volta no carro, quando se sentou comentou com ele:
- O Monza... foi embora.
- Monza? Não me lembro de nenhum. Quem pode estar preocupado com um automóvel
tendo um avião do seu lado?
- Eu não disse? No final tudo ia acabar bem. - Athos olhou para Thomas.
DECIDINDO CONTRA A VONTADE, MARINA PRECISAVA VIVER.
Thomas estava com Athos na sala da casa de Marina; todos dormiam.
- Eu consigo ligar a televisão?
- Teoricamente sim, um espectro, pode se misturar momentaneamente com átomos de
matéria, mas você ainda não sabe fazer isso.
Thomas correu para o banheiro por dentro das paredes, qual seria sua aparência? Como
era um espectro? Quando se colocou em frete ao espelho ficou decepcionado. Não havia
reflexo. Mas ele existia! Podia tocar em Athos, segurá-lo; impedir seus movimentos; andar,
falar, ouvir, ver, sentir os aromas.... não sentia fome ou dor; fato. Não podia se machucar ou
atingir ninguém, mas, e se Marina estivesse morta? Poderiam se amar sem os problemas
terrenos?
- Athos.
- Estou aqui.
- Você pode deixar Marina como eu?
- Eu não, mas Thyphany pode.
- Vamos fazer isso, podemos ficar juntos por toda a eternidade, ela está sofrendo por
minha causa, só amor, aromas, um universo todo para visitar, milhares de mistérios para
serem desvendados, sem fome ou frio, maravilhoso.
- As coisas não são assim, seu estado é intermediário, o dela também seria.
- Como é estar realmente morto, não existir?
- Eu não sei, nunca morri.
- Você não sabe tudo?
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- Não, é claro, só trabalho com pessoas vivas, quando elas morrem, as vezes, eu ainda
as vejo por algum tempo, mas não as contato, depois.... nada. Mas se eu soubesse não lhe
contaria, alguns mistérios pertencem a Deus.
- Ele existe? Existe mesmo?
- Eu acredito nele.
- E já teve uma prova concreta de seu poder?
- Milhões delas.... veja!
Thomas se sentiu enorme, os planetas muito pequenos, poderia estender o braço e
"tocar" Plutão com uma das mãos e o Sol com a outra sem se esforçar e abrir todo o braço,
mas não os sentia, não sabia se eram quentes ou frios. No entanto estavam ali! Descreviam
seus movimentos circulares e elípticos, giravam em torno de si mesmo e de outros corpos
celestes, levavam consigo minúsculos pontos, seus satélites - presumiu - vistos tão pequenos
- iluminados por tantas estrelas não permitiam a noção da escuridão, antes conhecida ou de
tempestades e furacões, vez ou outra se via algum pequeno brilho em algum deles, como uma
faisca de um acendedor, quase invisível, talvez fossem imensos troves, mas pareciam fagulhas
sem importância face a grandeza de sua visão. A vida parecia ausente em todos eles, inclusive
na Terra. Qual seria o tamanho de um homem em relação a ela? - pensou - O de um
micróbio? Ele também não podia distingui-los em uma uva! Era um espetáculo de luz,
coordenação, grandeza, pois mesmo em seu imenso tamanho, superior ao do Sistema Solar,
não conseguia ver o fim de nada, alguns pontos continuavam muito distantes, como as estrelas
vistas da terra a olho nu, começou a aproximar a cabeça de Marte, queria vê-lo mais de perto,
mas já estava de novo no centro da sala de Marina.
- Você precisa de uma prova maior? - perguntou Athos.
- Eu não consegui ver nada. Ainda não sei se tem vida em Marte ou Plutão.
- Ironias do criador. Nós só conseguimos assumir duas formas: ou pequenos demais e
nossas vistas não alcançam muito longe, ou grandes demais e não podemos distinguir quase
nada. Acho maravilhoso, isso mantém o mistério.
- Você vai a qualquer lugar. Visite estes planetas. Leve-me com você.
- Não vamos à qualquer lugar! Somos limitados à Terra, o lugar mais longe no qual já
fomos é a Lua, e para acompanhar os astronautas, nossa visão foi exatamente a deles: o nada!
Só pedras; sem dragão, São Jorge ou Selenitas.
- Então podemos ir até lá.
- Quem sabe? Já lhe causei tantos problemas, posso lhe dar um prêmio. Mas primeiro
vamos resolver nossos problemas aqui.
- Vou ver Marina.
- Vamos lá.
- Nós não! Você fica aqui. Ela tem o hábito de dormir nua, por isso sempre dorme com
o quarto trancado.
- Está bem, vou assistir televisão, talvez exista algum filme bom em algum canal.
- Não acorde a casa toda.
- Ninguém acordará enquanto estivermos aqui.
Thomas entrou no quarto de Marina e se deitou ao seu lado. Não sentiu o seu corpo
mais podia sentir a energia emanada dele, a vida vibrando em todos os seus átomos, podia
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roçar seu espectro, senti-lo! Foi percorrido por uma sensação semelhante à produzida por uma
corrente elétrica, mas totalmente indolor quase um prazer.
Marina se virou ao seu contato, porém ele não acompanhou seu movimento, não houve
coordenação, ela caiu sobre ele e o atravessou, parecia estar vestindo seu corpo, então ela
disse sem acordar.
- Eu sei! Você está vivo, fale comigo.
- Estou! Sempre estarei esperando por você não importa quantos séculos decorram,
estaremos juntos em breve minha rainha. Será como sempre foi. - respondeu estranhando sua
resposta e calou- se, tentando um contato físico com a amada, achou isso impossível mas se
surpreendeu.
Marina se moveu agora coordenada com seu espectro. Era como se estivessem se
abraçando realmente, ele podia senti-la como se ambos tivessem corpos concretos. Passou a
ser percorrido por uma enorme sensação de prazer e viu recíproca no corpo adormecido da
amada.
Então ele se sentiu sugado com violência. Pela primeira vez após se separar de seu
corpo houve algo semelhante à dor. Estava prostrado na sala sem forças para levantar.
- Athos! Como você deixa um espectro solto sem vigilância.
- Ele só foi até o quarto ver Marina.
- Ver? Ele se deitou com ela. Mais um minuto e estariam conversando como velhos
amigos. Não é permitido, você sabe. - murmurou Thyphany com ar compreensivo.
- Ele não sabe fazer isso. Não tem o conhecimento. Como foi possível?
- De alguma maneira ele desenvolveu o conhecimento. Thomas é um mistério para nós,
diferente de todo o resto da humanidade. Precisamos vigiá-lo a cada momento.
- Está bem. - e virando-se para Thomas avisou. - A partir de agora vou deixá-lo preso
junto a mim.
- Preso?
- Claro! A partir de agora você só se mexe junto comigo e fim.
- Espere! Não faça isso comigo. É desumano.
- Eu não sou humano e não quero nem imaginar isso. Vamos passear. Não tem nada de
interessante na televisão, só este entrevistador chato e aquele programa religioso para tomar
dinheiro dos incautos. Esqueci de colocar uma TV por assinatura aqui. Preciso tomar
providencias neste sentido. Vamos até a festa do capitão Cordeiro.
- *Mariano estava eufórico, não assumira seu relacionamento com Ângela, não queria
falatórios no quartel, porém se mostrava um garoto e participava animado de todas as
brincadeiras. Estavam jogando dardos e de repente alguém quis apostar.
- Eu não tenho dinheiro! Estou sem um tostão juro. Deixei minha carteira em casa.
- Ora coronel! O senhor é o maior salário da sala. Vamos gastar um pouco daquela
fortuna acumulada.
- Espere! Eu tenho dinheiro! Muitos cheques de viagem na Quantun, esperem ai.
Dentro em pouco ele voltava com um calhamaço de cheques.
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- Eu os comprei para fazer uma viagem com Isabel... mas de repente perdi a vontade de
conhecer o exterior,
- Não dá para apostar com dólar. Todo mundo aqui só tem cruzeiros.
- Cordeiro! Traga o fichário de pôquer. - gritou um deles. - Nós compramos as fichas e
você é o banco. Feito?
- Feito.
Mariano estava embriagado. Pegou algumas fichas e aguardou:
- Quem vai contra mim? - todo mundo ficou quieto.
- Eu vou coronel. - Tiago era o melhor jogador de dardos da turma.
- Quantas fichas?
- Três.
- Está casado. Jogue primeiro.
Tiago se concentrou e jogou. Quando o dardo atingiu o alvo ele pegou as fichas e
colocou no bolso. Thomas e Athos assistiam tranqüilos.
- Espera ai, eu ainda não joguei.
- E como o coronel vai bater aquele ponto?
Foram até o alvo. O dardo de Tiago estava a meio centímetro da pequena "mosca" o
centro do alvo.
- É coronel. Não vai dar não.
- Como não? É só eu atingir a mosca.
- Coronel! Todos nós já vimos o senhor jogar, o seu máximo é o quarto círculo.
- Espera um pouco! Eu tenho o direito de jogar?
- Tem.... é claro.
- Coloque as seis fichas em cima da mesa Tiago!
- Vou ter o trabalho de por e pegar de novo coronel! Mas tudo bem.
- Quer por mais sete? Assim completa dez fichas cada um.
- Tudo bem. - e Tiago casou mais sete fichas, sendo imitado pelo coronel.
Colocaram o pequeno adesivo marcando o ponto de Tiago. Mariano olhou para o alvo e
jogou o dardo sem se concentrar, simplesmente levou o braço para trás e jogou. Tiago já
estava pegando as fichas quando alguém gritou.
- Não acredito! Vai dar para medir.
Não foi necessário. Mosca é mosca. Tiago olhava incrédulo.
- Foi sorte! Se eu jogar cem partidas com o coronel ganho as cem. Me venceu por obra
do acaso.
- Podemos ir de novo. - respondeu o coronel.
- Vinte fichas?
- Vinte fichas, pode casar.
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Tiago jogou novamente, um pouco nervoso, seu dardo ficou um pouco mais longe, mas
dentro do segundo círculo central, era suficiente. O coronel nunca em sua vida, a não ser
naquele tiro, fora além do quarto.
Quando o coronel jogou foi um murmúrio geral.
``- Mosca- ''
Mariano andou até o alvo, e tirou o dardo, e foi caminhando para a linha de tiro quando
o Tiago falou:
- Foi sorte.
- Quarenta fichas?
- Cinqüenta, quero sair com lucro. - respondeu Tiago.
Quando viu a mosca ser atingida pela terceira vez terceira vez o Tiago desistiu. - O
senhor não tem feito outra coisa na vida a não ser jogar dardo. - Então o coronel extrapolou.
Estava voltando do alvo, atirou o dardo de costas para o mesmo e disse:
- Tiago, vê se aprende. - e se acomodou ao lado de Ângela tranqüilo, como quem tinha
a certeza de ter se saído bem.
A platéia ficou como se estivesse hipnotizada enquanto o dardo descrevia seu arco.
Quando começaram os aplausos o coronel olhou para o alvo e viu a façanha da qual tinha sido
protagonista, ele repousava tranqüilamente no centro do alvo, então ele juntou a ponta dos
quatro dedos, soprou-os displicentemente e passou na camisa.
- Não tem prá ninguém.
- Cem contra um O senhor não faz isso de novo. - desafiou Tiago.
- Pau a pau. - respondeu tranqüilamente.
- Não entendi, o senhor disse pau a pau, um contra um.
- Claro, posso fazer estas coisinhas quando quero, não é um esforço extraordinário.
Tiago ficou olhando para o coronel, só podia estar blefando. Era muita ousadia.
Vou trocar todo meu dinheiro em fichas, tem limite?
- Tenho quatro mil dólares em cheques de viagem, e minhas fichas. É o limite.
- Entra quem quer? - perguntou o Sargento Garcia.
- Dentro do limite, sem problema. - respondeu altivo.
Ângela olhou aquilo e ficou desesperada, ele ia perder todo o dinheiro, então correu até
a bolsa, e mostrou o extrato de sua conta e da caderneta de poupança ao amigo Cordeiro.
- Quanto dá isso, em dólar?
- Entre dois mil e quinhentos e dois mil e seiscentos, vou precisar da calculadora.
- Espere um pouco. - ela pegou todo o dinheiro da carteira preencheu o cheque e o
entregou junto com as notas.
- Quanto deu agora.
- Dois mil, novecentos e quarenta.
- Casa tudo.
- Esperem nos também queremos apostar.
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- Ela já casou, agora é a vez do Tiago.
Em poucos minutos estava casado o equivalente aos quatro mil dólares do coronel.
Apostas maiores só as de Ângela e Tiago. Mas todo mundo queria uma casquinha.
Era em função da bebida. Mas Mariano estava tranqüilo, parecia acostumado a fazer
aquilo, andou até o alvo, molhou o dedo na ponta da língua e o levantou como quem estivesse
medindo alguma coisa ininteligível aos demais.
- Quem quiser desistir está em tempo, - falou - ultima chance, todo mundo vai?
Como ninguém se manifestou ele andou até a linha de tiro e jogou o dardo. Thomas viu
quando Athos se movimentou com a mesma velocidade do projétil e o conduziu até o centro
do alvo. O coronel nem olhou para trás.
- Eu avisei, agora vou buscar meu dinheiro. - falou mais por farra; havia errado! Tinha
certeza. Queria perder aquele dinheiro. Considerava-o como o último elo sentimental a ligá-lo
a Isabel. Mas o silêncio reinante lhe deu uma estranha sensação, um frio no estômago. Ele
havia realmente ganho a aposta... era impossível. Não tinha capacidade para fazer aquilo nem
para os lançamentos anteriores. Mas havia ganho.
- Alguém mais vai?
- É impossível ganhar do senhor coronel, eu nunca vi nada parecido, eu estou fora, vou
tomar um chope.
- Cordeiro, devolve todo o dinheiro para o pessoal, jogar dardo comigo é covardia,
estou me aposentando disso..... também vou tomar um chope.
- Você trapaceou, eu vi! Era uma aposta. - Thomas estava revoltado.
- Que aposta? O pessoal queria tomar o dinheiro dele, depois, ele devolveu! Ninguém
perdeu nada.
Ângela se aproximou do coronel e perguntou:
- Podemos ir embora?
- Quando você quiser.
- Vamos com seu carro, eu dirijo, você bebeu demais.
- Tudo bem! Te espero lá fora onde o ar é mais puro. Despeça- se do pessoal por mim.
Ângela procurou pelo Pitangueira.
- Pitangueira, você está bem?
- Para ser sincero não, estou embriagado, só querendo um canto para dormir.
- Eu preciso de um favor Leve meu carro embora. O coronel está bêbado e vou deixá-lo
em casa.
- Eu vou dormir aqui. A garagem do tenente está aberta, deixe seu carro lá com a chave
no contato. Amanhã cedo levo ele prá sua casa.
- Tudo bem, obrigada, mas não leve muito cedo, quero dormir um pouco.
- Ligue para cá quando quiser o carro, assim não corro o risco de perturbar seu sono.
- Faça melhor, leve o carro diretamente para o quartel. Eu vou trabalhar de metrô.
- *- Então, qual a sua decisão, temos meia hora, ele ou o repórter?
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- Nenhum dos dois, vou esperar mais, vai aparecer alguém mais apropriado. Mais uns
dias não vão fazer diferença, nem sinto o tempo passar como estou.
- Por mim, tudo bem! Estou adorando ficar aqui fora.
- Como assim? Aqui fora? Não é aqui embaixo?
- Não! Eu não moro no espaço ou lá em cima. Onde moramos é aqui mesmo. Mas é um
lugar fechado, não sentimos o sol o tempo todo. Só quando estamos trabalhando o resto do
tempo passamos no interior de montanhas, na própria terra.
- Onde?
- Por toda a Terra! Sempre escolhemos uma montanha sem o menor valor em minerais
ou valiosa demais para a paisagem. Intocáveis e próximas ao mar, e, quando usamos
transportes eles podem ser vistos.
- Discos voadores?
- Você pergunta demais, mas não vai obter respostas.
- *Mariano acordou feliz como não se sentia há muitos anos, Ângela ainda dormia.
Observou o quarto. Era muito comum. Gostava de algo mais aconchegante. Olhou o relógio.
Tinha compromissos urgentes. Tomou um banho e se vestiu, formal, como seus encontros da
manhã exigia. Deixou os cheques de viagem sobre a mesa e um bilhete:
“Querida, deixei a Quantun na garagem, vou pegar seu carro na casa do Cordeiro.
Tenho um compromisso inadiável, não quis acordá-la, procure pelo Armando, o armênio, e
troque estes cheques, peça a ele o endereço de Pedro, o marceneiro e encomende uma cama,
sendo para mim ele saberá como fazê-la. Pague uma televisão e um vídeo para o quarto,
procure o Sr.Macedo, já combinei tudo com ele. Todos os endereços conhecidos por mim
estão anotados no verso. O Pedro vai lhe dar o telefone do Bili, peça a ele para vir amanhã
na parte da tarde para escolhermos papel para a parede e cortinas novas e o padrão do
estofamento do sofá, estarei aqui as cinco. Quero nosso ninho pronto na semana que vem,
acordar sempre num lugar onde me sinta bem.
Com amor,
Bruno.”
Ps. A televisão e o vídeo virão ainda hoje, me espere para jantar, eu trago
Angela estranhou a atitude de Bruno. Para quem não pretendia abandonar a esposa ele
estava tomando muitas providências, mas ficou feliz. Pouco lhe importava se ele queria fazer
dali seu motel particular com uma amante sem custo. Ansiara tanto pôr esses momentos e
agora os tinha, não queria nem pensar em problemas. Se preparou para uma maratona, mas
logo ficou calma.
- O Armênio também é perto do quartel, o Pedro marceneiro eu conheço, a loja também
não e longe, estarei aqui na hora do almoço. - falou consigo mesmo.
59
- *Isabel, no domingo pela manhã, ficou sentada no quarto esperando o marido acordar.
Ele não tinha um horário preciso para fazê-lo neste dia, mas não iria sair sem conversar com
ela. Na última semana ele não havia dormido em casa um único dia, inadmissível! Em breve
os comentários da vizinhança, grande parte composta por seus clientes, seria inevitável. Um
escândalo podia significar o fim de muitas contas.
Quando notou seus primeiro movimentos ela saiu do quarto. Bruno, como o chamava,
não Mariano como os demais, permaneceria ainda alguns minutos no seu costumeiro
espreguiçar, faria uma série de movimentos e só depois abriria os olhos, sempre virado para o
lado contrário da janela, seus olhos eram muito claros e a luz do sol batendo nas cortinas
sempre o incomodaram sobremaneira, era domingo e ele não desceria para o salão de jantar.
Neste dia fazia seu desjejum na cama, fora assim nos últimos anos. Era o único habito
sofisticado do marido.
Mariano se levantava muito cedo durante a semana e tomava seu primeiro café no
quartel. Ela iria esperar, quando chamasse a empregada e fosse servido, só depois entraria.
Não era aconselhável iniciar uma conversa delicada, na frente de criados.
- Beth, hoje não precisa retirar a bandeja do quarto do Bruno. Eu faço isso.
- Ótimo dona Isabel. Com o seu cardápio para o almoço eu até agradeço.
- Quero um almoço especial para o Bruno.
O tempo passou e ela não ouviu o interfone ser acionado. Quando viu o marido
passando de agasalho e tênis correndo para a rua estranhou. Não se preocupava com o físico
há anos. Seria possível a empregada ter subido com seu desjejum e ela não notar? Correu para
o quarto, havia um envelope em cima da cama com seu nome. Dentro uma série de fotos e
uma fita de vídeo.
Quando viu as fotos não se deu ao trabalho de assistir a fita. Certamente fora filmada e
fotografada a semana inteira, trocando de carro e pagando garotos de programa. Foram só três
vezes durante estes dias mas produzira um farto material era farto. O suficiente para instruir
um divórcio litigioso. Começou a pensar em seu patrimônio. Enorme! Mas fora ela a construilo. Mariano tivera o mérito de sustentá-la na faculdade quando ainda era um simples tenente,
é verdade, mas quem construíra a fortuna da família? Fora ela! A mansão onde moravam, o
imponente edifício onde estava instalado seu escritório e do qual se beneficiava dos aluguéis
nas salas não ocupadas por seu escritório, ainda haviam dezenas de imóveis e muito dinheiro
aplicado.
"- É bem verdade! - pensou- Sua posição na policia militar e seus contatos haviam
ajudado; e, muito, a conseguir seus clientes. " - e continuou suas considerações. - Ele nunca
se envolvera na administração financeira da casa."
Na verdade Bruno era um homem muito simples, não dava nem a despesa equivalente
aos seus vencimentos na Policia Militar, insignificantes na opinião dela. Agora seria obrigada
a dividir tudo; estava claro! Ele pediria o divórcio! Não achou justo.
Mas de repente esqueceu os problemas financeiros e se sentiu triste. Bruno era um
homem bom, carinhoso, nunca esquecia uma data, confiava nela, como poderia encará-lo
novamente? Se pelo menos fosse por um romance, se ela tivesse se apaixonado por alguém,
mas não! Ela contratava garotos para se sentir jovem. - Um vexame - pensou enquanto
observava o console da penteadeira e procurou por suas colônias. Haviam sumido!
Correu para o armário e ficou pálida, as roupas preferidas dele não estavam lá,
nenhuma farda. Verificou as gavetas, todas vazias. Desorientada foi para a cozinha.
60
- Beth, você já começou a preparar o almoço?
- Não, a senhora mandou servir às três horas.
- Suspenda o Bruno não vai ficar para o almoço, onde está o Martin?
- Na biblioteca, chegaram as novas coleções jurídicas.
Isabel foi para a biblioteca, o mordomo já estava terminando de organizar as prateleiras.
- Martin, de o dia de folga para todos, providencie a verba para se divertirem, quero
ficar sozinha em casa.
Isabel tinha este hábito, quando seus funcionários estavam de folga recebiam uma verba
para se divertir, dinheiro suficiente para despesas com cinema, alimentação e drinques, uma
boa quantia. Mesmo sem programa ninguém ficava na casa todos temiam perder a regalia.
- Todos? Inclusive o motorista?
- Inclusive você, a folga é coletiva.
- Eu gostaria de ficar, a senhora pode precisar de alguma coisa. Tiro minha folga nos
meus aposentos. Qualquer coisa estarei lá. - Martin sentiu alguma coisa errada, adorava a
patroa, para ele a mulher mais importante do mundo.
- Como queira Martin.
- E o telefone?
- Se tocar esqueça! Não quero falar com ninguém.
- *Thomas estava chateado no Jóquei Clube. Geralmente ele gostava dos passeios com
Athos, não tivera muito tempo para si nos últimos anos e ser obrigado a acompanha-lo acabou
se provando útil, seus conhecimentos sobre a cidade se renovavam, nunca dormiam e eram
vinte e quatro horas de visitas aos mais diversos lugares, mas ainda não aprendera a ser
paciente, estavam por ali desde a madrugada, acompanharam os cavalos serem preparados,
alimentados, aquecidos e agora se cansara do local.
- Athos! Essa história de me deixar preso é muito ruim. Sinto-me... como direi?
Impotente!
- Lamento! Não queria magoá-lo. Não é esta nossa intenção. Quer ir embora? Sou
obrigado a acompanhá-lo e não você a mim.
- Vamos para a sala de Marina, vou me comportar, nem chego perto dela. Ouça- me,
estou me sentindo desesperado e fraco, preciso muito vê-la, muito, muito mesmo.
- Está bem, vou lhe dar mais uma chance. Acredito em você, vou manda-lo, posso ficar
aqui? Adoro cavalos.
- Claro. Mas espere um pouco. Não tão rápido. Como faço para chamar você?
- Se você precisar de mim estarei lá. Não me decepcione, eu não vou perdoar uma
segunda vez, não sou um ser divino, já deixei claro.
Thomas se viu na sala de Marina. Observou-a deitada no chão com a cabeça apoiada em
uma almofada, extremamente triste. Nunca a vira assim até então.
Thyphany estava ali. Não estava bela como ele se acostumara a ver. Apenas um rosto
sem nariz e boca, olhos muito pequenos, e com a forma bem aproximada a dos humanos,
embora as pernas e braços proporcionais ao corpo esquio e assexuado fossem totalmente
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desprovidos de pelos. Não tinha nenhum sinal indicando um dia a existência de umbigo para a
alimentação intra-uterina; marcas de utilização de vacinas para se proteger de doenças, ou
qualquer outro tipo de cicatriz.
Não usava roupas ou adorno de nenhuma espécie, uma cor única clara, próximo ao
branco, não era possível distinguir a existência de veias, ou peles diferenciadas; os dedos
eram desprovidos de unhas e esguios; as mãos muito assemelhadas às humanas, porém sem
rugas nas articulações. Não era possível notar a existência de nenhum outro órgão além dos
olhos: impossível determinar seu sexo através dos padrões usuais.
Estava ereta, olhos fechados, a fronte levemente elevada, sem se incomodar com sua
presença. Ele se assustou. Não com sua aparência não fora surpresa. Athos já havia se
descrito muitas vezes embora fizesse questão de se apresentar sempre vestido e com aparência
humana, mas com sua atitude. Ela estava fazendo algo com Marina. Foram simultâneos, tanto
sua angustia como a presença de seu protetor atendendo sua apreensão.
- Qual é a finalidade de Thyphany?
- Entristecer Marina, deixa-la deprimida.
- Não pode ser, é desumano, pensei exatamente o contrario, para mim ela estava
animando Marina, isto não pode acontecer.
- É necessário, o ser humano é muito volúvel, Anabela quer ir a um churrasco, vai ter
música, alegria, bebida, Marina pode conhecer alguém e se apaixonar, ela está frágil, carente,
pode confundir sentimentos, pensar estar amando alguém em função de uma gentileza,
quando na verdade ainda ama Thomas e este deva ser seu destino.
- Liberte-a! Deixe-a sair! Se divertir! Ela sempre saiu sem mim quando eu não pude
acompanhá-la.
Thomas saiu para fora da casa, a lua cheia brilhava no céu enquanto Athos tentava
chamar- lhe a atenção.
- Sinto muito Thomas, você não pode interferir em nosso trabalho.
- Como ela está? - perguntou Thomas a Thyphany?
- Arrasada. Depois da confrontação das fichas dentárias ela piorou muito.
- Então vamos ao cantor. Eu quero voltar a viver imediatamente.
- O cantor já não existe! Apenas o repórter e não sei quando teremos outra opção.
- Então será ele, Marina precisa viver, não se transformar na parasita rica criada por nós.
- *Braulio estava sentado junto ao laticínio, da fazenda de Pedro Latorre. Gostava muito
de leite e principalmente gelado quando saia da pasteurização para ser embalado. No entanto
a porta do mesmo não abria antes das sete, então quando acordava cedo e aguardava
observando a paisagem. Viu a limusine do patrão se aproximando, abandonou sua posição
andando em direção a ela.
No entanto esse não desceu do veículo, e sim Albano, mostrava um sorriso amigável no
rosto, deu um abraço em Braulio e perguntou:
- Acordou cedo? Você devia estar dormindo esta hora.
- Gosto de tomar meu leite logo cedo, ajuda minha ulcera, e se não fosse ela eu faria o
mesmo, eu realmente gosto muito, mas o laticínio estava fechado, esta abrindo agora.
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- Ótimo, é um excelente pedido, vamos até lá.
Entraram. O atendente providenciou uma jarra de leite para eles. Não vendiam o
produto ali, apenas nos supermercados. Produziam, segundo eles, o melhores leite “A” do
pais.
Com a jarra na mão e dois copos foram para a mesa existente no terraço do laticínio,
Albano foi o primeiro a se manifestar.
- Hora de voltar para casa Braulio! O processo de Pedro Latorre está encerrado. Pronto
para trabalhar?
- Pronto e ansioso, já não estava agüentando mais a vida neste local, muito monótono.
- Você devia ter trazido uma gatinha com você como eu sugeri, enfim.... bem tudo isso
não interessa mais, acabou. Eu vou indo, tenho pressa, você me encontra na cidade quando for
embora. Vou resolver alguns negócios lá antes de ir embora não demore muito por favor.
- Onde eu lhe encontro?
- No Galhardo, uma hora, tudo bem? A propósito, liguei para Iasmim. Ela vai esperar
por você, nove horas no Teo. Tudo por nossa conta!
- *Braulio ligou o carro e o deixou esquentando, já estava parado há algum tempo, não
ia ligá-lo e sair. Foi buscar suas roupas, estava feliz, fora perdoado por Pedro Latorre. O
tempo decorrido na fazenda foi terrível, agora estava sendo chamado de volta ao trabalho,
ansiava por retornar à sua vida normal. Não era dependente, mas gostava de dar uma
“cheiradinha” as vezes. Nunca na presença de Iasmin, ela não suportava viciados; e havia
outras garotas, Maria Helena, Lurdinha, e Lenir? Que graça! Quantas noitadas havia perdido?
Iria pedir dispensa do serviço por uns dois dias, pelo menos. Queria farrear até não mais
poder antes de qualquer compromisso. Seria atendido. Tinha certeza disso.
A primeira providencia seria retirar o Rex do hotel, o cão era sua paixão. O único ser
vivo permanente em sua casa. Devia estar morto de saudades, quando saiu na estrada
principal não andou muito e viu a limusine de Pedro Latorre estacionada, a tampa do motor
levantada e parou para tentar ajudar.
- Algum problema?
- Falta de água no radiador, não sei como fazer, um problema e tanto, não sei como
consegui-la por aqui o pessoal está procurando.
- Problema nenhum, tem um rio logo ali na frente, eu vou buscar.
- Tem mesmo? - perguntou o motorista - Onde?
- Corre paralelo à estrada. Poucos sabem de sua existência, mas eu fiquei muito tempo
aqui. Acabei conhecendo a região.
Braulio pegou um galão, entrou mato a dentro para buscar a água solicitada pelo
motorista. Já havia andado uns duzentos metros quando sentiu o impacto do projetil na base
da coluna, ainda permaneceu algum tempo em pé, não pode ouvir o disparo da arma equipada
com silenciador, mas sentiu a carne sendo rasgada, aos poucos deixou de sentir as pernas e
caiu para a frente, próximo ao do local onde estava sendo aberta uma cova, quase não sentiu
dor ao ser jogado nela. Viu Albano se aproximar com a arma em punho e fechou os olhos.
Não por medo, desconhecia-o, mas para ter outras imagens em sua retina. Lenir, a maravilha,
Iasmin, Maria Helena, Lurdinha.... e o Rex? Devia esta morrendo de saudades. Felizmente era
um lindo animal, quando os pagamentos fossem suspensos ele seria adotado com facilidade,
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isto o fez sorrir satisfeito, assustando Albano. Um novo impacto no peito, mais um, outro e
ele já não recordava ou sentia mais nada, seja as luvas de seu algoz e a arma caindo sobre seu
corpo ou a terra sendo amassada com violência, o barulho das folhas e galhos sendo
espalhadas no local, os passos se afastando em direção à estrada.
Albano observou o galão uma prova, andou até o rio encheu-o de água, e foi
calmamente para o carro, não sabia como ia se sentir depois, Braulio era seu melhor amigo,
não entendeu seu sorriso, estaria ele zombando de sua inocência, quem sabe fora uma forma
de perdoá-lo, de entender? Afinal não fora nada pessoal, apenas negócios.
- E o carro? Vamos jogá-lo no rio?
- Não, vale muito dinheiro, estamos a poucas horas da fronteira, vendam o veículo lá e
dividam o dinheiro, os documentos estão ai, considerem isso um bônus, dois dias de folga
para cada um.
- Verdade, podemos ficar com ele?
- Para vender na fronteira. Este carro em São Paulo vai chamar atenção. Passem em um
posto e mandem trocar o óleo, ver o freio, estas coisas ficou muito tempo parado.
Os homens entraram no carro e ganharam a estrada.
- Quando eles vão encostar?
- Um ou dois minutos e ele vai começar a falhar.
- E o alcance do sinal?
- Enquanto forem visíveis.
O veiculo começou a falhar, Armando, o motorista levou o carro para o meio fio.
- Droga, não existe um mecânico a quilômetros daqui, vamos andar muito.
- Albano logo vai nos alcançar.
- Como, São Paulo fica para o outra lado.
Armando olhou para trás, viu as mão de Alcindo estendidas com o sinalizador e
entendeu tudo:
- Saiam deste carro, ele vai explo....
- Não terminou a frase, alias numa mais ira proferir uma.
A limusine de Pedro Latorre se colocou em movimento, olhou preocupado para o carro
em chamas, poderia provocar um incêndio na mata.
- Pare no primeiro posto de gasolina, vamos ligar para os bombeiros.
- Porque?
- A mata pode pegar fogo, sou ecologista.
UM NOVO CORPO; UMA NOVA CASA E A MESMA MARINA.
- Athos de onde nós viemos? Como nós surgimos? Você deve saber disso, sua vida é
infinita, talvez você nem se lembre quando nasceu, quem mais teria este conhecimento?
- Pergunta interessante. Preste atenção, vou resumir ao máximo. Houve a grande
nebulosa, uma enorme explosão e várias bolas de fogo, se formaram a mais forte delas era a
Terra, embora não fosse a maior, envolta em gases a distância se assemelhava mais a uma
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nuvem gigantesca, espessa, impenetrável. Essa bola mista de gases com um núcleo sólido
constantemente em chamas ultrapassava em muito o volume da atual atmosfera e os seus
elementos eram dispostos em camadas e seu volume aumentava de tal maneira, com tal
velocidade, com tal coesão... capaz de impedir a passagem da luz do sol. Era um processo
fantástico..
Thomas ouvia em silêncio.
- O equilíbrio do universo é realmente perfeito, a Terra parecia querer quebrá-lo, estava
se tornando uma ameaça um perigo para todo o sistema e houve reações involuntárias dos
demais planetas protegendo suas atmosferas e forçando o encolhimento daquele corpo fora de
controle. A nuvem gigantesca comprimida ao máximo acabou por criar uma camada gelada
protegida do luz do sol em volta do sólido ardente em seu interior formando uma nova crosta,
uma estufa gelada contendo uma caldeira.
- Mas, era uma estufa, tinha calor próprio, e desta forma, a temperatura da atmosfera
foi subindo até começar aos poucos a derreter a camada a contê-la, formando pequenas
chuvas as quais imediatamente evaporavam, e, ou se agregavam ao gelo de onde saiam, ou
provocavam o aumento do volume gasoso entre os dois sólidos dos quais apenas um estava
sujeito a se transformar em gás.
- E como foi interrompido o processo?
- Surgiram buracos em volta da camada gasosa e quando a luz do sol conseguiu romper
a camada exterior encontrou uma massa gelada de proporções inimagináveis para um ser
humano, ou mesmo para um protetor iniciando o maior processo de fusão registrado na
história da terra, e da luta do calor e do gelo começou a se formar um oceano estratosférico,
separado do núcleo por uma camada sólida e fraca. Em dado momento a crosta externa Não
resistindo a pressão interna e a doação de calor do sol ao mar sobre ela simplesmente
explodiu perdendo sua coesão, uma quantidade incalculável de água e pedaços de gelo caiu
sobre a bola de fogo inquieta. Tomada de surpresa ela se encolheu e se contraiu criando de
imediato uma camada sólida para se proteger surgindo uma nova situação onde o núcleo ficou
encoberto por água fervendo e uma enorme nuvem de gás, enxofre e outros elementos onde a
vida Não podia existir.
- A camada sólida criou então vários condutos de escape para seu próprio calor tentando
em vão combater a massa liquida fervendo sobre ela, pela emissão de material incandescente,
mas começou a perder a luta e foi obrigada a proteger seu núcleo aumentando ainda mais sua
crosta, e nesse processo cada dia mais isolava o calor cedido permitindo às águas se
acalmarem e formaram o grande lago exterior.
- A queda da temperatura da crosta agiu como um catalizador implacável e cruel,
alterando seu formato e enrugando-a, os gases da queima interior cobriram a terra com
elementos irrespiráveis e deu- se inicio da luta entre a água e o interior da terra até hoje sem
vencedores.
- Mas a água conseguiu vencer muitas etapas, acomodou- se nas partes baixas da crosta
deformada e de alguma maneira a vida começou a surgir, em toda a crosta sólida da terra,
coberta ou não por ela começaram a se formar musgos cujo crescimento se deu de maneira
desordenada, em seguida seres vivos animados começaram a surgir em velocidade espantosa.
- Os primeiros seres a habitar os oceanos começaram a se reproduzir, a radiação intensa
à qual a terra era submetida causou mutações e em breve haviam os peixes, os lagartos os
mamíferos e os ancestrais do homens, batráquios.
- Rãs?
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- Não, batráquios mamíferos, no entanto a composição do mar Não era definitiva, havia
muito oxigênio nos mares e os lagartos, alguns mamíferos e os ancestrais do homem o
abandonaram para tentar sobreviver com mais conforto respirando na terra o bom, e quase
puro dióxido de carbono misturado com enxofre.
- Dióxido de carbono e enxofre?
- Exatamente.
- Os fungos também adoravam o gás carbônico existente em abundância e se
alimentavam dele, os demais animais eram obrigados a voltar ao mar com alguma freqüência
para se alimentar, Não podiam comer a vegetação rasteira e esta prosperou, ocupou todo o
espaço existente e ele se tornou insuficiente, Não podendo sobreviver no mesmo espaço
alguns fungos passaram a crescer para cima e dai se deu inicio à pequenos arbustos, mas estes
usavam o ar como alimento retirando a mistura ideal em grande quantidade e poluindo a
atmosfera com o seu resíduo, o oxigênio.
- Reagindo instintivamente contra isso, por um instinto forte e sem controle os lagartos
pararam de voltar ao oceano e se dedicaram a devorar toda vegetação não rasteira em
formação tentando defender seu ar pobre em oxigênio considerado bom, resguardando- se
assim de ficar sem espaço para respirar e nesse processo sem fim se tornaram cada vez
maiores, destruindo num processo crescente as plantas nocivas à sua respiração e essas
acabaram se tornando excelentes para sua dieta.
- O futuro homem era fraco e sem vontade, um parasita, como os grandes lagartos eram
mansos e deixavam o ar bom em volta deles. Os quadrúmanos passaram a segui-los e assim
tinham garantida sua cota de dióxido de carbono e no caminho encontravam às vezes algum
resto de animal abatido por predadores aos quais devoravam com selvageria, para isso tinham
presas longas, quando não os encontravam se alimentavam de plantas como seus amigos
enormes, com os quais conviviam em perfeita harmonia utilizando-os inclusive como
transporte quando se cansavam.
- Mas a radiação constante sobre o planeta causou outras mutações, uma parte dos
lagartos recém nascidos eram diferentes e se tornavam carnívoros ameaçando a vida dos
animais menores dos quais não deixavam sequer restos incomodando os quadrúmanos, pois
ainda andavam como a natureza os havia criado sobre as quatro mãos.
- Revoltados contra os lagartos carnívoros os homens começaram a combatê-los
apedrejando- os à distância e com algum sucesso, mas era necessário uma grande quantidade
deles para combater um único lagarto e os ovos eclodiam em grande quantidade.
- Matando os grandes carnívoros os quadrúmanos começaram a mudar, passando de
carniceiros parasitas a caçadores com a capacidade de caçar e escolher o próprio cardápio,
mas não eram dotados de muita coragem e evitavam caçar quem lhes oferecia perigo, eles
podiam enfrentá-los, e, no entanto matavam pequenos animais herbívoros, também caçados
pelos grandes lagartos e outros predadores, esses acabaram se tornando escassos.
- Fracos, sem garras tendo como única arma mortal os caninos mesmo assim
insuficientes para animais de grande porte estavam ameaçados pela fome ate descobrir a
possibilidade de terem garras artificiais como prolongamento de suas mãos dianteiras e mais
adiante descobriram ainda a possibilidade de alongar esses substitutos de órgão inexistentes
afiando-os e lançando-os de encontro aos inimigos se tornando, em bando, invencíveis.
- Esses seres invencíveis no entanto quebravam uma regra da evolução, todos os demais
animais caçavam e se defendiam por seu dote natural, seja pelo seu tamanho, por sua
velocidade, por sua capacidade de voar, por suas longas garras ou dentes, faziam parte da
cadeia alimentar, caçando e sendo caçados.
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- Os quadrúmanos, agora já quase eretos não eram mais abatidos nem passavam fome,
apenas caçavam, se alimentavam, copulavam e se reproduziam em velocidade vertiginosa.
Reunidos em bandos e com um poder de comunicação fora do comum, um cérebro
privilegiado, causarão o desequilibro natural em pouco tempo exterminavam os pequenos
animais forçando os lagartos carnívoros a caçar os grandes herbívoros, defensores da
atmosfera
- Então passaram a se dedicar à caça constante dos lagartos carnívoros, se importavam
realmente com o destino dos herbívoros. - nenhum sentimento especial - apenas precisavam
de alguém destruindo a vegetação e mantendo o ar respirável.
- Até este evento a caça se dava apenas com a finalidade da alimentação e toda ela,
mesmo os animais cuja morte fora natural era rapidamente devorada, seja por seu predador,
pelos carniceiros terrestres ou pelas aves de rapina, mas com essa caça indiscriminada
cadáveres de lagartos se espalharam por toda a crosta se transformando em alimento de
animais até então desconhecidos e com o crescimento tolhido pelo sistema e os vermes
tiveram então a sua vez, prosperaram, ajudaram a adubar o chão e deram inicio às suas
mutações fora dos corpos onde viviam como hospedeiros e passaram a ocupar o solo,
fertilizando-o e fortalecendo por demais o crescimento de florestas enormes.
- Levou muito tempo, mas os então homus-erectus venceram alguns lagartos carnívoros
gigantes aprenderam a importância de viver longe deles e, poucos então, só sobreviviam por
seu medo dos donos da terra.
- Escassa a caça a fome surgiu entre os homens, os lagartos gigantes eram considerados
sagrados e intocáveis, então para se alimentar eles passaram a caçar elementos de outras
tribos se tornando canibais.
- No entanto, a terra rica em adubos orgânicos passou a produzir uma quantidade
enorme de espécies vegetais às quais os lagartos Não podiam mais combater. Grandes demais
e com gestações longas eles não conseguiram se adaptar, Não podiam voltar ao mar nem
respirar um ar tão rico em oxigênio. Não morreram de imediato, mas se tornaram fracos e
indolentes, negligenciaram seu trabalho de impedir o avanço da vegetação e uns poucos
sobreviveram como também alguns carnívoros, algumas espécies de animais menores e os
homus-erectus agora mais selvagens e eremitas, Não haviam mais as grandes tribos apenas
pequenos grupos espalhados pela crosta e com um cérebro, então, inferior ao de seus
antepassados.
- As florestas se multiplicaram com rapidez espantosa, as imensas copas das arvores
tomaram conta de toda a crosta e a luz do sol passou praticamente a inexistir a não ser nos
pontos muito altos formados por rochas, atraindo chuvas e transformando a terra em algo até
então desconhecido, extremamente fria e úmida.
- Este frio excessivo iria piorar com as grandes explosões, o núcleo a muito tempo
comprimido e adormecido explodiu por todos os poros possíveis criando a "atmosfera negra"
barrando novamente a luz do sol e cobrindo o planeta de gelo, causando uma nova
compressão da crosta e os grandes terremotos dos quais apenas espécies pequenas e o homem
sobreviveram.
- A esta altura a atmosfera da terra já era formada basicamente de oxigênio, habitada
por quem conseguiu se adaptar a ele, o homem, as baratas.....
- Aconteceu assim mesmo?
- Como vou saber, cada um conta uma história, existem centenas de versões. Ouça:
No principio Deus criou os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia,
havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas..
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- Disse Deus: Haja luz; e houve luz.
- E viu Deus que a luz era boa...
- Espere, - esbravejou Thomas. - Isso é da Bíblia, os primeiros versículos do livro de
Gênesis..
- Exatamente, é uma outra versão, existem centenas delas.
- Como outra versão? eu lhe perguntei claramente de onde nós viemos? Como nós
surgimos? Não quero ouvir versões quero a verdade, saber como surgiu o homem.
- Porque você se acha tão especial? Esta dúvida assalta a todos os humanos, inclusive a
nós, muitos deles dedicam sua vida a tentar descobrir apenas um elo e geralmente morrem
sem esta certeza, Não há de ser com uma única pergunta...
- Pare, você está tentando me gozar.
- De jeito nenhum, estamos esperando o tempo passar, daqui a pouco o carro dele vai
passar por aqui então vamos precisar trabalhar muito, veja está saindo daquela avenida para a
marginal.- É um Sonata. - falou Thomas.
- Não entendi. - respondeu o Homem de Branco.- O carro dele, é um Sonata, igual ao
meu, o mesmo modelo, mesma cor.
- Qual a importância disso?
- Não sei, estou tenso, preciso conversar.
- Eu não posso, vou ter uma fração insignificante de segundos para fazer tudo e não é
mágica, e sim ciência, portanto fique quieto.
Thomas concentrou sua atenção em Diego Montone. Inexplicavelmente não sentia nada
em relação ao homem na condução do veículo, nem dó, nem amizade, nem desprezo. Era um
infeliz. Iria atentar contra a própria vida em segundos, mas ele não o classificaria como um
suicida, não podia estar consciente de seus atos. Era um farrapo, seus olhos, muito pequenos
quando vistos através das grossas lentes dos óculos deixavam claro sua situação: as pupilas
dilatadas e os globos oculares; normalmente deveriam ser brancos; mas eram de um vermelho
vivo, brilhante, os vasos estavam à ponto de estourar tal a pressão a qual estavam submetidos,
a manga arregaçada da camisa deixava a mostra uma quantidade enorme de picadas, o outro
braço estava coberto, mas; por dedução; não podia ser muito diferente.
Em dado momento tentou; com as mãos visivelmente trêmulas; acertar a estação do
rádio e se livrar dos ruídos, sem sucesso, então desesperado esmurrou o painel do veiculo
acertando nas alavancas de controle e fazendo o sangue jorrar da ferida aberta na mão direita
e transformando couro do estofamento em uma mistura de azul petróleo e vermelho. Quando
viu o sangue atingindo o vidro ficou transtornado, olhou para as mãos segurou com firmeza o
volante e dirigiu o veiculo para a mureta de proteção da ponte não queria mais aquela vida.
Thomas se sentiu afundar no banco, saindo quase para fora do veículo, em dado momento
enxergou os auto- falantes instalados no porta malas traseiro, depois veio a vista embaçada,
não estava enxergando quase nada, deviam estar caindo no sentido da pista perpendicular à
Rodovia dos Bandeirantes abaixo do viaduto.
Quanto tempo levaria para atingirem a outra pista, para acontecer o impacto, não o
sentiria; é verdade; mas poderia ouvi-lo, a demora fê-lo imaginar a tensão como responsável
por tornar o intervalo tão longo, nunca pensou na tensão com o poder de retardar tanto um
acontecimento, tinha a audição perfeita e o barulho não acontecia, então ouviu a voz do
Homem de Branco.
- Tire os óculos.
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- Como?
- Tire os óculos, sua visão é perfeita. Enquanto você estiver com essas lentes grossas à
frente dos olhos ficará completamente cego. Não vai enxergar nada.
Thomas obedeceu e olhou para o mundo, nunca fora tão belo, sua visão era imperfeita
desde a mais tenra idade, mas os pais de sua época nunca levavam as crianças a um
oftalmologista, então ele se adaptou a ela, fez seu primeiro exame de vista aos vinte anos e
nunca se acostumou aos óculos, só os usava, e muito raramente para assistir filmes
legendados. Depois ao trabalhar com exportação foi obrigado a aprender inglês e eles se
tornaram peça de museu em sua casa. Agora tudo estava mudado! Sua nova condição, era
maravilhosa, não existia mais a mínima lesão, enxergava com perfeição! Se sentiu
redescobrindo o quadro no qual fora pintado o mundo. O verde das matas e da área gramada à
beira e ao centro da estrada nunca foram tão nítidos, o marrom dos campos arados e seus
sulcos agora eram visíveis, bem acentuados, podia ler as placas de sinalização à sua frente
com clareza e à grande distância e não apenas quando se aproximava delas como fora até
então.
Olhou para suas mãos, para seu corpo, estava novamente vestido e tinham formas mais
assemelhadas às suas lembranças de um vivente comum e de carne e osso, usava um terno de
linho creme, não havia marcas do machucado sofrido por Diego Montone, nem marcas de
sangue no estofado dos bancos, olhou para o paletó e lhe pareceu tremendamente familiar,
abriu- o e verificou a etiqueta, então perguntou a Athos, sentado displicentemente ao seu lado.
- Você pegou roupas minhas em casa?
- Não, simplesmente vocês utilizavam a mesma alfaiataria, Diego era um homem
pratico.
- Bom! Gosto mesmo das roupas do Colella.
Thomas estava sentado no banco do motorista mas nada fazia, o veiculo continuava em
sua trajetória como se tivesse vida própria, e sem comando alterou seu curso estacionando
junto à lanchonete de um posto de gasolina.
- Vamos à toalete agora, está vazia e quero você se vendo sem testemunhas, não vai ser
bom alguém de repente se assustando com o próprio rosto e coloque estes óculos, Diego
Montone não conseguia sair nem de sua cadeira sem eles.
- Ai eu não vou enxergar nada.
- Estes não tem grau, é uma lente comum, especial, apesar de grossas são de um vidro
absolutamente transparente.
Thomas entrou no banheiro preparado para ver em sua frente o repórter como o
conhecia, cabelos longos e desarrumados, uma espessa barba não muito cuidada e a gravata
meio solta junto ao colarinho aberto, e se impressionou com o reflexo no espelho.
- Tomei a liberdade de cortar seu cabelo, aparar a barba, e dar um nó decente na
gravata, tenho minhas opiniões, terno, usa-se ou não. Diego Montone parecia mais um cabide
de molambo.
Thomas olhou para o espelho e não se assustou realmente, Diego era um pouco mais
alto, mas tinham os físicos semelhantes, com a barba e o cabelo cortados ao seu estilo ficavam
diferentes, é claro, mas não era um rosto totalmente estranho.
- Gostei, ficou muito bom, agora vamos tomar um café, não como ou bebo nada há
muito tempo, estou saudoso dessa sensação.
Quando entraram na lanchonete o garçom se apressou em atendê-lo:
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- É muita sorte senhor Diego, sua mesa está livre e temos aqueles pães de queijo saindo
agora.
- Obrigado Márcio, - respondeu sem pensar. - estou com muita fome, me traga quatro
ao invés dos dois de costume.
Thomas andou até a mesa e se acomodou como se fosse algo totalmente normal e
estranhou sua atitude.
- Como fiz isso? - perguntou.
- Você tem todas as lembranças de Diego, logo você vai assumi-las todas, é normal,
mas não converse comigo em público, ninguém está me vendo ou ouvindo e vão considerá-lo
louco, posso ler seus pensamentos e responder, não se esqueça disso.
O garçom voltou com quatro pães de queijo e dois chopes, instintivamente ele pegou
um deles e bebeu sem tirar o copo da boca, devolvendo-o em seguida, depois passou a comer
os pães e a bebericar com calma o segundo copo.
Quando entrou no carro ele foi no sentido da placa indicando o retorno para São Paulo e
o veiculo não obedeceu, saiu de novo na estrada seguindo para Campinas.
- Athos, vamos embora, estou enxergando perfeitamente e já não preciso fazer nenhuma
cirurgia.
- E nem vai fazer, mas os médicos pensarão tê-lo operado.
- Como meus feiticeiros iludiam meus inimigos?
- Feiticeiros? Não estou entendendo.
- Não sei, deve ser alguma lembrança de alguma brincadeira de Diego Montone, deverei
falar alguma besteira neste período de adaptação.
- É possível. Nunca convivi com um corpo reaproveitado, para mim também é uma
experiência nova.
- Eu pensei... quero dizer... vocês não fazem sempre isso?
- Não! Embora sempre soubéssemos ser possível nunca o fizemos, tínhamos apenas
consciência da possibilidade.
- E testaram isso comigo? E se falhassem? Eu estaria morto?
- Sempre poderíamos utilizar seu velho corpo, está perfeitamente conservado, mas
tínhamos a certeza do sucesso. Não falharíamos, não brincamos com coisas sérias.
- Vamos embora, perdi a vontade de conversar.
- *Estava na sala de espera da clínica sentado em uma cadeira de rodas, a enfermeira
parecia procurar por alguém, de repente ela viu Athos parado á porta e disse.
- Achei senhor Diego, seu motorista está ali.
- Não há ninguém ali. - respondeu, era Athos o elemento à sua frente e ele não podia
concordar com ela sob pena de ser ridicularizado.
- Claro, o senhor não pode vê-lo sua vista está totalmente turva.
Thomas, sem entender nada ficou calado, a enfermeira foi até Athos e caminharam
juntos até onde ele estava.
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- Vou acompanhá-los até o carro, ministre a medicação como está indicada, em poucos
dias ele já poderá caminhar sozinho, no entanto não vai poder dirigir ainda por um bom
tempo, não dê o carro na mão dele.
- Certo, só eu dirijo.
- Tem o endereço ai em São Paulo para fazer os testes, não é necessário vir aqui....
bonito terno este seu, gostei.
- Era do Ricardo Montalban.
- Seu motorista e um gozador senhor Diego, imagine o terno ser do Ricardo Montalban.
- Eu fiz... ou melhor mandei fazer alguns ajustes. - respondeu Athos indignado.
- Não duvide do Athos, ele faz algumas coisas difíceis de acreditar.
- Então o terno... era do Ricardo Montalban mesmo?
- Possivelmente. Agora vamos embora, tenho muito a fazer em São Paulo. instintivamente tirou a carteira do bolso e colocou algumas notas na mão dela, a enfermeira
era belíssima.
- Você me tratou muito bem na clínica. Compre um presente para você, eu não vou ter
tempo, é uma pena, gostaria de vesti-lo pessoalmente.
- O senhor estava pensando em uma blusa ou um vestido?
Thomas falou algo no ouvido da enfermeira como se pudesse esconder a brincadeira de
Athos e ela respondeu maliciosamente.
- Não vamos morrer ainda, traga- me outro de São Paulo quando vier aqui, quarenta e
dois embaixo e quarenta e quatro em cima, terei prazer em experimentar para você.
- Não vou me esquecer disso, tenha certeza.
- *- Athos, como a enfermeira pode ver você?
- Todo mundo estava me vendo, já fizemos isso antes, lembra-se de quando realizamos
a mudança de Marina. A partir de agora vamos ficar juntos o tempo todo.
- Como assim?
- Estamos preocupados, quando colocamos você neste corpo sabíamos das
conseqüências: você compartilharia as lembranças de Diego Montone, mas quanto aos seus
hábitos... acreditávamos serem esquecidos, no entanto da maneira pela qual você tomou
aquele chope, quase sem respirar ficamos preocupados, ele era viciado em drogas.
- Eu sempre tomei um chopinho direto, era eu mesmo fazendo aquilo.
- O garçom trouxe os dois chopes e você não estranhou.
- Realmente, eu deveria ter estranhado, mas se eu tenho as lembranças dele não foi
normal?
- Não sei. Vamos descobrir com o tempo, também tem a sua brincadeira com a
enfermeira. Thomas Aguiar não o faria.
- Esqueça isso por enquanto e vamos falar de coisas práticas. Estamos atrasados. Diego
tem um compromisso com o pessoal da esquerda e quero trocar de roupa. Este terno ficou
muito tempo dentro de uma clínica, vou mandar para a lavanderia, detesto hospitais.
- Você não vai a este compromisso. Eu vou.
- Eles não vão querer atendê-lo, esperam por Diego.
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- Não se preocupe, eu sei ser persuasivo.
Athos encostou em uma residência demasiadamente sofisticada. Estava a quatro
quarteirões da casa de Marina, afinal Thomas construíra sua casa em um bairro nobre, sua
nova morada era aquela, sabia, mas não pode deixar de fazer um comentário irônico e de certa
forma desconexo.
- Eu sempre imaginei este pessoal da esquerda morando em bairros operários e
freqüentando fábricas. Diego não tem nada a ver com a pobreza, quadra de tênis, piscina, este
carro, a Mercedes esporte estacionada, uma cabina dupla... vou vendê-la.... não gosto de
utilitários.... eles estragam a visão da casa.... vou mandar pintar o exterior de branco, ainda
esta semana, não gosto de casas coloridas.
- Os Montones são ricos, uma família tradicional, Diego entrou para o jornalismo por
vaidade. Não precisa do emprego para viver, queria a fama, mulheres, aparecer na televisão...
ser fotografado... coisas do gênero. Infelizmente se perdeu na convivência com a fama,
cometeu excessos e estragou a própria vida.
- Vou deixá-lo em seu quarto, lembre- se, você vai comer sanduíches, sucos ou bebidas
em garrafas com canudinho, finja tatear para comer, para todos os efeitos você hoje não vai
enxergar praticamente nada, amanhã já haverá uma melhora, mas não será total... ao menos na
teoria. Então não fique andando pela casa e se for ao banheiro vá acompanhando as paredes.
- Não quero representar nada! Eu estou ótimo!
- Você é um homem famoso, sua operação estará em todos os jornais, ainda mais depois
da repercussão de seu manifesto de hoje em todos os principais matutinos do pais para os
quais escreve. Uma manifestação de reconhecimento à direita impressionante.
- Meu manifesto? Eu não escrevi nada, estou desde ontem naquela clínica, passei o dia
dopado.
-
Eu escrevi, tem uma copia nesta pasta. Leia depois.
- *Marina assistia a televisão, a figura de Diego Montone estava estampada, fora para
Campinas fazer uma cirurgia na vista, um ícone da esquerda, um paladino da justiça, este era
o homem talhado para trazer o caso de Thomas a tona, se aquele não era o cadáver de Thomas
estava acontecendo alguma trama, algo sórdido, já tentara contato com ele inutilmente, mas
agora as imagens mostravam a casa dele, ela a conhecia, era aquela com colunas gregas no
vale de seu bairro, podia vê-la da janela, então decidiu, iria conversar com esse homem, ele
não a atendia por telefone, não precisava mais disso, sabia onde encontrá-lo.
- *Thomas acordou e olhou em volta, achou o quarto onde estava simplesmente
maravilhoso, painéis de cortina na janela, degradê, como sempre gostara, o estilo da cama,
enorme, quadrada, apenas com os cantos arredondados como era a sua quando casado, os tons
da decoração, claros, suaves, nada cansativos, estranhou apenas sua roupa, escura, como o
roupão ao lado, da mesma cor, então ouviu as batidas na porta, leves, mas audíveis.
- Entre Ítalo. - respondeu de forma automática, jamais tivera alguém batendo daquela
forma à porta de seu quarto.
- Bom dia senhor, finalmente acordou, deve ser o efeito da anestesia, sequer jantou
gostaria de um desjejum mais reforçado?
- Não, o normal, não sinto muita fome.
- Pois não senhor, será servido em seguida.
72
- Ítalo, após meu café não quero ser incomodado, deixe- me dormir até chamar alguém,
ainda sinto muito cansaço, antes disso mande Athos até o aqui.
- Como queira senhor.
Thomas tomou seu café e esperou Ítalo se retirar, não conseguia mais conter a
curiosidade por conhecer de perto seu novo lar.
O “closed” ao lado fê-lo se sentir no seu velho apartamento, ternos do Colella, camisas
brancas, tradicionais, quase idênticos aos usados por ele, uma cigarreira com Jhon Player
Special, seu cigarro, no armário do banheiro um vidro de Paco Rabame e creme de barbear
sem mentol, na sapateira, de social, só botas, todas da Rendel, as cores eram totalmente ao
seu gosto, poderia ter instruído o decorador a realizar o serviço.
A única diferença real foi a existência de vários conjuntos de dormir e banho. roupões,
pijamas, e toalhas iguais na cor, como o utilizado por ele no momento, uma cor para cada dia,
ao todo tinha sete tons diferentes, no mais estaria em seu velho apartamento guardadas as
diferenças de espaço totalmente fora de propósito.
- Como pode ser uma coisa dessas?
- Almas gêmeas. - ouviu a resposta do Homem de Branco atras dele.
- Como assim?
- Todos os meus protegidos, independente de sua raça, cor, religião ou país são pessoas
praticamente iguais, gostam dos mesmos artistas, dos mesmos produtos e se identificam
totalmente.
- Claro, seu carro é igual ao meu, sua colônia, seu creme de barbear, seu cigarro, isto só
me traz uma preocupação
- Qual?
- Certamente seriamos rivais por Marina.
- Possivelmente. Mas Ítalo me mandou ao seu quarto, qual o motivo.
- A agenda de Diego, é repleta de mulheres, tenho quatro recados delas quero me ver
livre deste assédio, responda aos recados, verifique a real necessidade dos mesmos, se forem
casos amorosos, ache uma maneira me livrar deles, não quero desviar minha atenção de
Marina.
Foram interrompidos pelo interfone.
- Tem uma pessoa querendo falar com o senhor Diego.
- Livre-se dela! Não estou em casa. Mande ligar mais tarde.
- Ela está no portão, Não ao telefone.
- De qualquer forma não estou em casa.
- Ela diz não ir embora sem falar consigo, vai acampar lá.
Diego teria mandado chamar a policia, mas agora era Thomas habitando aquele corpo.
Chegou a janela e viu uma Mercedes esporte branco estacionada junto ao portão, queria ficar
sozinho, se familiarizar mais com sua nova vida mas desistiu.
- Está bem, mande-a entrar, mas vou atendê-la em meu quarto. É muito tarde?
- Quatorze horas! O senhor dormiu até muito tarde. - respondeu Ítalo se retirando do
quarto.
73
- Bem, agora vou embora, - Athos se manifestou - só tenho cinco minutos antes da
entrevista com o pessoal da esquerda depois preciso ir ao escritórios do Dr.Moreira. Fique
com meus óculos escuros, evitara notarem os movimentos de seus olhos.
- E como você vai chegar lá, é um homem comum agora.
- Não sou! Jamais serei um homem comum. Apenas estou visível... quando quero.
-*Quando Gianne introduziu a visitante Diego ficou pálido, Marina estava em seu quarto,
vestida acordo com o dia muito quente um conjuntinho jovem amarelo claro, muito curto, de
tecido muito leve, a blusa deixava grande parte de sua cintura visível, sandálias soltas e
óculos escuros, de repente os tirou, talvez sentido a inutilidade deles em ambiente fechado.
- O senhor esta bem?
- Muito bem Gianne, pode sair.
- O senhor pode precisar de...
- Se eu precisar não estarei sozinho.
Gianne se retirou visivelmente aborrecida, Thomas se dirigiu à visitante.
- Precisamos nos conhecer senhorita? Como se chama?
- Marina Schiavonne! É um imenso prazer conhecê-lo. estendeu a mão.
- Diego Perazzone Montone! O prazer é reciproco. - respondeu Thomas repetindo o
gesto de Marina, mas suas mãos não se encontraram. Thomas abanou a mão no ar. Marina
olhou para ele. Mão sem direção e óculos escuros, jamais poderia imaginar isso. Ficou sem
ação.
- Meu Deus! O senhor é.... é.... - não conseguiu terminar a frase.
- Apenas temporariamente. - respondeu Thomas, entendendo sua pergunta, no entanto
Marina chocada se sentiu sem forças e sentou na borda da cama.
- Algum problema?
- Um mal estar passageiro.
- Vá até minha cômoda, apanhe um vidro com pílulas rosa, tome duas delas, e me faca
um favor, traga duas para mim também, aparentemente nós dois não estamos muito bem.
Marina tomou as pílulas e serviu-as a Thomas, depois ficou sem saber como se portar
em pé ao lado da cama.
- Onde está a senhorita?
- Aqui ao seu lado.
- Já vai ser difícil conversar sem visão, ainda mais tão distante, sente- se aqui.
Marina obedeceu prontamente, não se importou com a maneira como estava vestida,
sentada na beirada da cama com aquela roupa ficava totalmente exposta. "Mas para quem? O
homem não enxergava absolutamente nada? - pensou.
- Posso tocá-la?
- Como?
- Tocá-la, a única maneira de lhe conhecer, não posso ver nada, gostaria de ter uma
idéia sobre a pessoa com a qual estou conversando.
- Penso... bem.... oras, na verdade não pode haver mal nenhum.
74
Thomas a tocou, suas mãos percorreram seu rosto, mas com habilidade, os pontos onde
se prolongava e as pressões exercidas eram todas dedicadas à sua Marina, como ela gostava!
A garota não sabia como reagir. Na verdade já não queria! Ele pode ver quando suas pernas
se contraíram, juntaram-se com força como se quisesse algo mais alem do contato com seu
rosto. Ele ainda passou os dedos sobre seu pescoço, depois desceu até os braços.
Marina se sentiu totalmente sem controle, era uma reprise dos carinhos de Thomas e o
mesmo cheiro em suas mãos, fechou os olhos quase vencida. Esperou que suas mãos
descessem para suas pernas, que as acariciasse enquanto dava pequenas mordidas em seu
pescoço, mas não aconteceu, o homem parou.
- Você é uma garota muito bonita, pude sentir.
- O senhor não pode saber tanto sobre toques, seu estado é temporário. - respondeu
pausadamente, sua voz quente, carregada de desejo.
- Mas pude sentir suas linhas, tenha certeza, agora gostaria de saber o motivo de sua
visita.
Marina começou a expor todos os seus motivos, suas dúvidas, e quanto mais conversava
com Diego, mais sentia sua semelhança com Thomas, seu tom compreensivo, sua maneira de
responder ou inquirir começou a se sentir obcecada pelo homem sequer ouviu os trovões e a
torrencial chuva de verão caindo sobre a cidade.
- *Athos assustou o faxineiro, este não ouvira o elevador nem o barulho da porta cortaincêndio, então estranhou aquele homem de branco saindo do banheiro dos homens com uma
maleta nas mãos. Não o vira entrar e achou difícil entender como alguém conseguira ter
atravessado o centro velho da cidade e chegar ali impecavelmente limpo com aquela roupa
toda branca, inclusive a pasta e bengala. La fora caia uma chuva torrencial, qualquer um devia
estar molhado e com marcas da poluição.
- Como o senhor entrou ai?
- Pela porta, por onde mais eu poderia ter entrado, estamos no décimo primeiro andar,
pela janela não seria possível.
- É.... tem razão.
Impassível ele passou pelo homem, e andou até a porta onde se lia "DR.EDUARDO M.
MOREIRA", entrou sem bater e se defrontou com a secretária.
- Eu precisava falar com o Dr.Moreira.
- Sinto muito, mas não vai ser possível, ele só atende com hora marcada.
A mim ele vai atender, tenha certeza - Athos entregou um cartão a ela.
- O senhor é da Montone?
- No momento eu a comando, conhece nossa empresa?
- Conheço Diego, a empresa não. Quer dizer só de nome.
- Conhece? Qual o seu nome?
- Marta Saint'Clair, estou passando meu último dia neste escritório. Minha amizade com
Diego abriu todas as portas necessárias.
Athos foi realmente atendido, seu encontro com o advogado foi breve, na saída abordou
Marta.
- Tenho a tarde livre, podemos tomar um drinque em algum lugar, quem sabe dois.
75
- Lamento, mas ainda tenho uma tarde toda para trabalhar.
- Espero por você, tenho uma impressão muito forte! Seu expediente hoje vai ser muito
curto.
Quando Athos saiu o advogado entrou na recepção
atingido por problemas inadministraveis.
exasperado. Parecia ter sido
- Marta me ligue com... ou melhor não me ligue com ninguém. estou saindo agora e
levando as audiências de hoje, vou direto para o fórum e não volto mais, desligue a secretária
eletrónica, chame a companhia a telefônica... ou melhor o nosso técnico, quero-o aqui amanha
cedo. Estamos com grampos em nossas linhas.
- Claro, vou ligar já.
- Não ligue daqui. Talvez tenhamos uma chance de saber quem fez isso, mas não atenda
mais o telefone, se tocar deixe, a propósito, aqui está seu cheque e.... bem.... boa sorte em
sua nova vida, feche a porta quando sair. Nem isso Diego me deixou.
- *Marta Saint'Clair saiu do escritório do advogado feliz, iniciaria uma nova vida, tentara
falar com Diego várias vezes para lhe dar a boa noticia mas não conseguiu, quando se viu no
subsolo percebeu a tolice de seu ato, não viera de carro neste dia, entregara-o na revenda onde
adquirira outro novo, só o pegaria em dois dias.
- Algum problema? - Viu Athos parado junto à Mercedes esporte de Diego.
- Nenhum realmente. Apenas não sei porque vim aqui, estou sem carro hoje e com essa
chuva.
- Veio procurar por mim. Não nos propusemos a tomar um drinque?
- Eu não me propus a nada. Adeus.
- Ouça a chuva lá fora e pense nesse seu cabelo enfrentando- a até o metrô.
Marta olhou para Diego. Perigoso não era. Assessor direto de Diego Montone,
aparentemente um homem fino... depois, tinha um carro. No momento isto era muito
importante.
- Antes preciso fazer uma ligação para a companhia telefônica e para nosso técnico.
- Daqui? Como? Ligamos de sua casa.
- Minha casa? Eu não o convidei.
- Faça isso durante o almoço.
- *Marina terminou seu relato e concluiu.
- Agora não tenho mais certeza de contar com sua ajuda. Não depois de sua coluna de
ontem.
- Não gostou de minha coluna de ontem?
- Não é na sua linha.
Thomas parou para pensar, não sabia nada sobre esta coluna, então teve uma idéia.
- A senhorita pode me ajudar?
- Claro, sem problemas,
- Preciso mesmo tomar um banho, vá ao meu closed e......
76
Enquanto Marina estava no reservado procurando as roupas solicitados por ele pegou o
jornal da cabeceira da cama, separou a parte política e escondeu sobre o roupão.
- Não encontrei suas roupas e toalhas. Não as solicitadas.
- Ítalo deve tê-las deixado no banheiro, verifique por favor.
- Estão aqui respondeu Marina. - logo em seguida.
- Então me ajude a chegar até o banheiro, lá dentro eu consigo me arrumar bem, ligue a
televisão, o painel digital fica ali a direita.
No banheiro leu sua coluna do dia anterior, nela assumia uma nova posição, de direita,
negava os valores defendidos até então e se declarava um novo homem. Isto motivara a
reportagem sobre sua casa.
Marina está assistindo a televisão e as cenas finais de Gosta, ela se emociona como
sempre o fez com o filme, e se assusta quando Ítalo entra perguntando por Diego.
- Está no banho, já deve ter terminado.
Ítalo bate levemente á porta do banheiro.
- Senhor Diego, precisa de alguma coisa?
- Realmente, preciso me barbear e não tenho como, pode me ajudar?
- Claro, quantas vezes já não o fiz?
Ítalo se retirou e deixou Diego ainda no banheiro, quando o mesmo se abre Marina
sente um sobressalto. O aroma emanado dele a coloca dentro da suite de Thomas, por
segundos o quarto empapelado perde os padrões de seu revestimento, assume a cor gelo e o
aparelho de televisão se torna menor, não existe aquele enorme toucador e o espelho é
redondo, ela olha para a porta esperando por Thomas, mas não é ele a sair tateando a parede
em direção à cama. Um tremendo sentimento de frustração se abate sobre ela, coisas
impossíveis de assimilar por alguém cujo coração jamais esteve realmente apaixonado.
Mas, tudo passa, ela se recompõe, não está ali para um encontro amoroso, mas obter
ajuda e localizar Thomas. Quando ele se acomoda ela volta à beirada da cama, certa de estar
diante de um homem cego adota uma postura mais confortável expondo-se totalmente aos
seus olhos, ele se alegra com a visão quase total da mulher amada.
- Continue sua narrativa, quero todos os detalhes. - pediu Thomas fingindo interesse no
problema de Marina.
- Existe muito pouco a acrescentar, detalhes legais talvez, inclusive o fato do processo
se encontrar nas mãos da Policia Militar, normalmente seria incumbência da civil.
- Isto se explica, Mariano está colaborando com a corredeira, havia um policial militar
entre os mortos no carro de Thomas, muitos de seus amigos estão sendo ouvidos, a Policia
Civil já deu o caso por encerrado. - respondeu automaticamente. Na realidade não tinha
conhecimento do fato, mas como compartilhava a memória de Diego, então se perguntou
como não sabia nada sobre o editorial.
O tempo passa, o quarto de Diego é invadido pela penumbra, depois pelas trevas,
Mariana se assusta.
- Estamos conversando no escuro, na verdade detesto isso, seria possível acender a luz?
- Claro. - respondeu Thomas tateando em silêncio o painel ao lado da cama, logo o
quarto ficou totalmente claro.
Marina aproveitara esta pequena pausa para espreguiçar seu corpo se ressentia da
posição na qual passara o dia, Thomas olhava maravilhado enquanto sua minúscula roupa
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deixava aquele corpo objeto de seu desejo quase despido, seus braços jogados para trás
elevavam a blusa e descobriam parcialmente seus seio, mas o encanto foi breve, logo ela se
recompôs e perguntou:
- O senhor acha possível me ajudar?
- O senhor possivelmente não, Diego talvez sim, e, talvez Diego possa deixar de chamála de senhorita e ser chamado por você, é possível?
- Claro Diego, - respondeu Marina muito à vontade.
- Muito bem Marina, já trabalhamos muito hoje, agora é a hora de jantarmos, até o
momento estou apenas com meu desjejum.
- Imagine, isto seria levar meu incomodo ao máximo.
- Incomodo máximo seria você me deixar jantar sozinho.
- Bem... desta forma não vejo com não aceitar, só gostaria de ligar para casa e avisar,
talvez estejam me esperando, meus pais gostam de uma mesa bem familiar.
- Claro, faça isto, tem um telefone logo ai, na saída do quarto, enquanto isso Ítalo me
ajuda com as roupas, não quero jantar com uma hospede tão bonita de roupão e pijamas.
Quando Ítalo se retirou do quarto, deixando-os novamente a sós, Thomas vestia
bermudas, camisa esporte e sandálias. Não estava vestido para jantar.
- Ítalo quis assim, combina com seu traje amarelo claro.
- Ele é muito observador. Mas como sabe a cor de meu traje?
- Ele me informou. Eu realmente não posso enxergar nada.
- Ainda bem. - respondeu Marina corada.
- Agora preciso de sua ajuda. Não tenho como descer as escadas, vou precisar de seu
apoio.
Marina se deixou abraçar por Thomas, este a segurou como sempre fizera, suas mãos
tocaram os mesmos pontos e exerceram uma pressão quase igual. Ela se sentiu como se
estivesse sendo invadida em sua intimidade, mas não fez nada para impedir. Na verdade
qualquer outra pessoa poderia acidentalmente fazer o mesmo sem nenhuma intenção maldosa,
mas conforme andavam em direção a escada as mãos de seu protegido assumiam de maneira
inequívoca as atitudes de seu amado. Mesmo sua maneira de andar, de segurá-la tinha a
mesma autoridade, comando, parecia dirigi-la e não o contrário, seu cheiro, a mesma textura
na pele, de repente quis continuar experimentando tudo aquilo, sua pele livre de proteção pela
diminutas roupas se aquecia demasiadamente ao contato de Diego Montone.
Andando devagar atingiram o topo da escada, Marina estava totalmente fora de
controle, seu corpo lutava com seu cérebro, enquanto um desejava ardentemente estar a frente
de uma escada interminável, o outro queria ficar livre daquele abraço. Mas ela estava frágil,
sem forças para combater o desejo crescente de se entregar totalmente de se voltar para o
homem ao seu lado e transformar aquele abraço aparentemente inocente em algo forte, sem
um fim próximo, com uma continuidade intensa, violenta.
O libido continuou crescendo em Marina, seu corpo de repente não resistiu aos
acontecimentos, enfraqueceu e perdeu a capacidade de permanecer ereta, estavam no meio da
escada e Thomas precisou fazer um esforço enorme para não caírem, pararam encostados na
parede sua mão direita pressionando seu seio sob a diminuta blusa enquanto a outra segurava
firmemente sua cintura, seu corpo encostado pesadamente ao seu e sua respiração ofegante
atingindo seu pescoço, ela não desejava nada mais, apenas o prolongamento infinito daquele
78
momento, mas não aconteceu, ele se afastou com delicadeza e da mesma maneira puxou sua
blusa cobrindo o peito nu e perguntou:
- Você se machucou?
- Não, estou muito bem, pelo menos penso estar.
- Então me conduza novamente até o corrimão, ainda deve existir muita escada.
Marina obedeceu docilmente, e olhando quanto ainda faltava de escada desejou uma
com mais degraus, não queria jamais o fim daquele momento, mas houve, atingiram a sala e
ali encontraram Ítalo. Este se dirigiu a Thomas.
- Não arrumei a sala de jantar. Está muito quente e achei mais aconchegante jantar no
terraço fechado, uma mesa para duas pessoas e toda a visão do jardim, para o senhor não
muda muito, mas para a senhorita... Vamos eu o conduzo até lá.
- Perfeito Ítalo, adoro aquele local, a mesa de jantar é muito formal assim ficaremos a
vontade.
- Outra coisa! Não estávamos esperando ninguém para jantar e não fiz nada muito
especial, uma salada temperada com pó de mostarda e picadinho para a senhorita e sanduíches
para o senhor, afinal é difícil comer no prato sem enxergar e estar acostumado a isso.
- Perfeito, não se preocupe, ela ficará satisfeita.
Marina sentiu uma ponta de decepção quando Ítalo pegou Diego pelo braço e o levou
até o local, um terraço florido e envidraçado, quando o mordomo se retirou Thomas falou de
maneira divertida.
- Ítalo está sendo modesto, seu picadinho e a salada com pó de mostarda é uma das
muitas receitas guardadas por ele a sete chaves. Uma maravilha! Mas para ter mais elogios ele
os coloca como um improviso.
- Ele gosta assim dos elogios?
- Não sei? Mas é impossível deixar de faze-los! Experimente também um pouco de
meus sanduíches, uma delicia! A família dele trabalha para a minha a gerações, Ítalo é
formado, Poderia exercer sua profissão mas tem orgulho em ser mordomo. Seus filhos são
todos doutores, no entanto Max só trabalha como advogado por não poder estar aqui. E diz
aguardar a aposentadoria do pai para assumir sua função. Para treinar o substitui em suas
folgas.
- Você se incomoda com cigarros?
- De maneira nenhuma, aliás, não deixa de ser uma boa idéia.
- Então vou buscar minha bolsa lá em cima, estou estourando de vontade de fumar.
- Não precisa, Sofia, por favor nos traga cigarros.
Em minutos uma cigarreira dupla foi colocada à frente de Marina, duas marcas de
cigarros estavam estampadas sobre as tampas muito bem acabadas, Jhon Player Special e
Shelton Ligths, Thomas perguntou?
- Agrada- lhe algum destes?
- Shelton Ligths é o meu cigarro, mas eu não queria abusar.
- Abusar? Jamais! Eles estão aqui para meus hospedes, senão não haveria motivos para
a cigarreira, por favor, acenda dois, para mim um Jhon Player.
- *-
79
Thomas não havia exagerado absolutamente nada ao se referir aos pratos servidos por
Ítalo, Marina comeu com prazer, depois ainda experimentou um dos sanduíches de Thomas,
quando foi servida a sobremesa ela se recusou a aceitá-la.
- De maneira nenhuma, não posso comer mais nada ou minha linha jamais será a
mesma.
- A senhorita? Não será minha sobremesa a responsável por destruir um corpo tão lindo.
Infelizmente o senhor Thomas não pode vê-la, ou concordaria comigo, só um pouquinho,
senão terei perdido todo meu trabalho.
Marina se viu obrigada a experimentar, e novamente adorou realmente Ítalo era fora de
série, fazia tudo com perfeição.
- Ítalo você realmente é o máximo, poderia ser o chefe de qualquer hotel do mundo.
- Senhorita, estou lisongeado mas jamais seria chefe de nenhum hotel na atualidade.
Talvez no passado. Hoje o dinheiro está quase todo nas mãos de novos ricos, elementos sem
tradição, sem educação e classe. Ser obrigado a servi-los me mataria, mas, fico imensamente
grato por seu elogio, e quero dividi-lo com Sofia.
Ítalo saiu da sala e Thomas explicou.
- Sofia é esposa de Ítalo! Tem um ajudante mas ele só descasca legumes, lava, escolhe,
na hora de cozinhar é Sofia quem o faz sob supervisão rigorosa de Ítalo. Alguns temperos
nem ela conhece.
- Precisa tanto segredo?
- O exagero é total! Nossos legumes, cereais e carne vem de nossas próprias fazendas,
até nosso pão é feito em casa, veja este azeite.
"Produzido na Itália por Montone e Schapia."
- É claro, Schapia hoje não existe mais! Um ancestral meu colocou o homem no
negócio por ser grande amigo, mas quando ele morreu foi o fim da sociedade, ele indenizou
os herdeiros e só manteve a marca por sua tradição.
- Isto tudo deve custar uma fortuna.
- Já custou, hoje nem tanto.
- E os funcionários?
- Não são tantos assim, meu pai tinha muitos empregados, quando eu fiquei com a casa
desmanchei o pessoal. Mas Ítalo se negou a ir embora, com sua esposa e duas faxineiras
muito antigas, fora eles tenho um jardineiro e uma empregada contratada recentemente. Fui
obrigado a fazê-lo, a casa é muito grande para o Ítalo sozinho verificar, embora muitos
cômodos estejam lacrados, ainda mantenho escritório e a biblioteca e dois quartos para
hospedes, quando necessário montamos outros e contratamos funcionários eventuais quanto
aos produtos, utilizamo-nos deles, mas também os vendemos, acaba gerando lucro.
- Um licor para a senhorita. - ofereceu Ítalo entrando na sala, o mesmo símbolo do
azeite no rótulo.
- E para mim? - reclamou Thomas?
- Segundo suas instruções médicas álcool só 24 horas após tomar o ultimo comprimido
pós-operatório, ou seja daqui a três dias, e... veja quem está chegando, o senhor Athos.
- Olá Diego, boa noite, está em muito boa companhia, não vai me apresentar?
- Claro, esta e Marina, uma amiga.
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- Imenso, mas imenso prazer mesmo, sou Athos.
- O prazer é reciproco, é amigo de Diego eu já lhe conheço creio.
- Impossível! Cheguei ao Brasil na semana passada, cuidava de uma empresa no
exterior.
- Perdoe- me, como pude confundi-lo. - com um ajudante de caminhão, ia explicar mas
achou melhor se calar.
- E normal, o mundo esta cheio de pessoas interessantes,
inteligentes e modestos como eu.
charmosas, elegantes,
- Principalmente modestos. - brincou Marina. - Qual o seu serviço na Montone.
- Seu assessor direto, resolvo os problemas para ele se os mesmos o aborrecem.
- Entendo.
- Experimentem um chocolate caseiro, uma delicia. - Athos estendeu colocou uma
caixa sobre a mesa, foi feito por uma amiga minha.
- Eu não devia comer mais nada. - respondeu Marina. - Mas parece um complô, não
consigo resistir a chocolate.
- Vocês também, experimentem é uma delicia. provaram a iguaria, aprovando-a.
Ítalo e Sofia se aproximaram e
Quando Marina vai embora Thomas olha para Athos e estranha o protetor.
- Anjo! Você está bêbado.
- Eu não! Não fico neste estado, meu corpo está um pouco desgastado, Marta Saint'Clair
adora vinho alemão.
- Estiveram juntos?
- A tarde toda, nos separamos a pouco, lindíssima.
Thomas ficou olhando surpreso para Athos, não o julgava capaz de certos Athos e não
quis se alongar, tinha outros interesses.
- Me leve à casa de Marina
- Então vamos cada um para o seu quarto, avise a todos para não sermos incomodado
sob qualquer pretexto nossos corpos não podem ser surpreendidos sem espectros, vão nos
julgar mortos.
THOMAS ASSUSTA ATHOS; REVIVE FATOS HÁ SÉCULOS ESQUECIDOS.
Marina correu para o elevador, não esperou a porta da garagem se fechar, ela
continuaria a fazê-lo de qualquer maneira, precisava conversar com Anabela, o dia fora por
demais excitante, diferente, incrível radiante talvez fosse o termo mais correto, mas ela não
conseguia se decidir por um.
- Porque estamos subindo de elevador perguntou Athos?
- Quero ficar perto dela o maior tempo possível.
A porta se abriu e Anabela estava esperando, ela agora torcia pela irmã, por alguma
razão começara a acreditar na possibilidade de Thomas estar vivo. Gostava dele então,
desejava isto. O quarto preparado para ela suplantava a mais fantástica expectativa, passou a
considerá-lo um homem sensacional, não tinha a menor dúvida. Queria ter uma oportunidade
de encontrá-lo e dizer o quando o estimava.
81
- E ai, o homem te recebeu?
- Recebeu sim. Mas te conto no banheiro, vamos, preciso de um banho urgente, e
gelado, estou explodindo.
Athos já estava se dirigindo para o banheiro quando foi barrado por Thomas.
- Você fica aqui fora, dá para escutar daqui?
- Claro, tenho excelente audição.
- Então fique aqui. Eu entro.
- Deixe disso. É apenas uma mulher sem roupa.
- Eu não sou tão evoluído quanto você droga. Espere aqui.
Thomas ficou observando enquanto Marina se despia, mesmo sob tensão ela o fazia
como sempre, metódica e lentamente, não jogava as roupas sujas no cesto ao acaso, dobravaas cuidadosamente e a acomodava no local, manteve a calcinha, sempre fazia isso, apenas
após entrar no box ela tirava esta peça, lavava-a cuidadosa e carinhosamente com sabonete e
pendurava na torneira, iria juntá-la as outras peças devidamente torcida e limpa ao final do
banho. Era um habito imutável, não importava a hora ou o quanto estivesse cansada, só então
entrou embaixo da ducha. E deixou a água escorrer pelo corpo. Conversaram.
- .... dai, eu pensei se tratar de um cego, fiquei sensibilizada, fiz tanta força para entrar
na casa....
- .... deixei ele me tocar, é normal, vejo isso em filmes de pessoas cegas, mas o jeito
dele me tocar, se eu fechasse os olhos eu me jogava em cima dele, parecia me conhecer
durante uma vida toda, foi como se uma corrente inquebrantável nos unisse, não foi ousado
realmente, nem podia, desconhecia meus anseios, mas foi direto aos meus pontos mais
sensíveis, eu juraria ser o Thomas. Fui obrigada a morder os lábios para não pedir a ele para
não parar....
- ..... descíamos as escadas, ele já vinha me segurando de daquela maneira há algum
tempo. Eu estava por demais excitada, já havia começado no quarto, foi impossível evitar
nem sei se foi um orgasmo, ou foi, ou algo muito próximo, quase desfaleci e caímos
felizmente graças ao esforço de Diego paramos colados à parede, uma de suas mãos continha
totalmente um de meus seios, seu corpo desequilibrado me pressionava contra a greve, eu
queria mais, ser amassada contra o concreto, suas mãos percorrendo minha intimidade,
explorando meu corpo, um beijo pelo menos, onde estávamos encostados, precisei segurar
meus impulsos para não agarrá-lo ali mesmo, mas estava fraca demais para qualquer coisa.
No entanto, quando finalmente ele se equilibrou totalmente, simplesmente se afastou de mim,
desceu delicadamente minha blusa cobrindo meu seio nu....
- ...o mesmo jeito de se portar, também fuma John Player; e, da mesma maneira, segura
o cigarro com carinho, acaricia-o com a ponta dos dedos antes de acender, como se fosse um
havana, depois sorve a fumaça de vagar, saboreando-a, eu juraria estar na frente....
- .... uma delicia, até o azeite com o qual a comida é feita e oriunda de fazendas deles, o
mordomo? Parece aqueles de filmes de vampiros, magro, cabelos lisos penteados para trás,
um fraque dos mais tradicionais, luvas impecavelmente brancas, maneiras formais, olhe foi
um dia inesquecível, alem do mais ele vai me ajudar a encontrar Thomas.
- Se Thomas estiver vivo.
- Se estiver vivo? Está, é claro, quando ele estiver morto eu saberei, vai se apagar algo
dentro de mim, isto ainda esta aceso, apesar de hoje.... um acidente... eu precisei refrear; e,
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muito meus anseios carnais, forçar a preservação de minha fidelidade, agora estou bem, mas
o dia todo foi um misto de luta de minha fome de sexo, meus desejos quase incontidos por
Diego e meu amor por Thomas. Meu corpo ainda pede quase implora.
- *- Você fez realmente isso, brincou de voyer com Marina, usou seus conhecimentos
sobre ele para excitá-la? Abusou de todo seu conhecimento para brincar com os sentimentos
dela?
- Como brincar? Eu a acariciei, a fiz feliz por alguns instantes, fi-la sentir prazer, quase
como quando estávamos juntos.
- Prazer? Você a fez se sentir a pior das mulheres, estar amando um homem e sentir um
desejo fantástico por outro e lutar contra si mesmo para não ceder, você fez o papel de... sei lá
como qualificar, de um maníaco sexual barato, um anormal sádico dos mais insignificantes,
alguém disposto a estuprar Marina, um bandido barato.
- Não posso ter agido assim, eu a amo, do mais profundo de meu ser.
- Começo a ter minhas dúvidas a este respeito, amor deve ser demonstrado com
respeito, dedicação, compreensão, e não com lasciva de filmes de terceira, não sei se tudo isto
vai resultar em algo inútil, nem sei mais como classificar seu caráter eu o conheci desde seu
nascimento, agora....
- Como posso me perdoar? Só agora sinto como fui indigno, abjeto, não tinha o direito
de agir daquela maneira, talvez realmente sua luta seja inglória, sou um ser repugnante, vil,
não mereço a dádiva de continuar existindo - Thomas entrou em depressão.
Athos olhou para Thomas, seu espectro começava a se apagar, definhar, outro
problema. Estava fora do corpo, gastava muita energia, em breve não existiria mais,
atravessaria o túnel para o outro lado, aquele também desconhecido por ele, de onde nunca
vira ninguém retornar.
- Thyphany, ajude- me por favor, preciso recolocar Thomas em seu corpo, senão ele não
terá chance.
- Não vamos conseguir, um espectro humano deprimido pesa como muito para dois.
- Vamos conseguir sim, não quero ajuda já estou muito complicado com o Empíreo.
- *O dia seguinte foi terrível para Athos, precisava urgentemente de sol, de recarregar suas
energias e a chuva ainda caia sobre a cidade. Transportar um espirito deprimido esgotara suas
energias, seu corpo jazia fraco sobre a cama, não podia abandoná-lo, se o encontrassem
presumiriam-no morto e não podia deixar de proteger Thomas. Este estava fraco e quase sem
vida, mas não tinha como se locomover até ele carregando aquela massa artificial usada como
capa, decidiu descansar um pouco.
Marina chegou cedo à casa de Diego, queria dar seqüência à procura de Thomas e ao
chegar foi informado por Ítalo do estado de saúde do patrão. Não muito disposto.
Athos se esforçou para fazer escorregar o corpo para fora da cama, dai para debaixo
desta, e quando se sentiu seguro se esforçou para levar seu espectro enfraquecido ao quarto de
Thomas e viu Marina sentada ao seu lado, preocupada, tensa, segurava em suas mãos e desta
forma um melhorava enquanto outro definhava, ele absorvia de forma selvagem sua energia.
Athos percebeu o quanto aquilo era apavorante, sentiu a realidade, a terrível verdade
dos fatos em andamento, Estava acontecendo de novo! Parecia ter acabado mas não! Ali, na
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sua frente poderia recomeçar! Séculos depois alguém estava tentando reviver a maldição de
Klaus Rardemuc, o pior perigo experimentado pela humanidade desde os mais remotos
tempos por sorte não a destruiu.
KLAUS RARDEMUC, PODER, DETERMINAÇÃO E PAIXÃO.
Por ocasião do nascimento de Cristo os protetores viram algo de muito importante
acontecendo na Terra; e, sábios, deduziram se tratar de algo definitivo e real, um
acontecimento único, sem retrocesso isso os obrigou a pesar suas propostas de neutralidade.
Não conseguiram permanecer alheios a tais fatos e em função da existência deles
tomaram uma decisão contrária aos seus princípios seculares e muitos de sua raça foram
enviados para tentar ajudar nas transformações ora ocorrendo na vida do povo do planeta,
insensíveis; talvez; para um espectador contemporâneo, mas não sob a ótica dos protetores.
Seriam muito fortes; sabiam! As interpretações do ocorrido, difíceis de serem entendidas
podiam ser manipuladas por pessoas sem o menor escrúpulo e tomar rumos incontroláveis.
A Mesa do Protetorado; responsável pela administração dos poderosos seres; achou por
bem espalhar alguns dos seus entre os homens e ajudar o povo a se organizar, visto serem
impedidos de usar seus poderes para obriga-los a tomar uma decisão, isso feriria de vez o
livre arbítrio quebrando uma regra à qual estavam presos e não podiam alterar.
Não podiam se misturar aos homens como eram, seu aspecto físico embora levemente
assemelhado e praticamente com a mesma origem, sofrera outras mutações, mas tinham uma
vantagem fantástica, seus corpos reais podiam abandonados e novamente habitados por seus
espectros, mesmos depois de anos ou séculos, estariam perfeitamente conservados. No
entanto estes tinham outra estrutura, não podiam ser vistos pelos seus protegidos.
Para resolver o problema seus cientistas então criaram corpos artificiais para serem
comandados por espectros protetores; e, acharam ter feito um excelente trabalho tendo como
base anotações e reproduções fotográficas dos homens existentes em seu poder, como
resultado produziram seres altos, fortes, dotados da capacidade experimentar sensações como
se fossem realmente humanos, precisavam sentir todos os problemas, anseios, medos, desejos,
ser iguais na essência para saber como seus protegidos reagiam, suas necessidades reais,
mas! Artificiais! Não podiam sintetizar proteínas, aminoácidos como os corpos dos homens
então precisavam usar suplementos alimentares especiais fornecidos pelo protetorado.
Mas não podiam surgir do nada, foram introduzidos entre os humanos como fugitivos
de um pais ameaçado pela guerra, naves de combate Romanas viram quando aquele enorme
navio veio navegando à deriva até atingir a ilha de Ilva, colidindo com a mesma e permitindo
a seus tripulantes saltaram para a terra e a segurança.
Não se aproximaram daqueles homens, altos, fortes, cabelos escuros e extremamente
lisos, mão esguias e fortes, olhos escuros um rosto clássico, não fossem a ponta dos dedos
muito delgadas dando às unhas um aspecto assemelhado ao de garras, as orelhas pontiagudas
e os caninos levemente proeminentes podiam ser considerados como um modelo futuro do
homem, no entanto esses detalhes não chamaram a atenção havia uma mistura de raças muito
grande resultante das conquistas romanas formando um povo por demais heterogêneo, então
qualquer outra forma era aceita com facilidade. Mas os romanos temiam doenças
desconhecidas, legiões inteiras já haviam sido dizimadas por elas no decorrer dos séculos.
Os pleitunianos, como se chamaram se diziam sobreviventes de uma nação destruída
pelos bárbaros em uma distante ilha ao norte à qual não sabiam como voltar, pediram abrigo a
Roma mas não foram atendidos de imediato, foram de barco até Misenum e dai levados para
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Corfinium onde ficaram isolados com condenados e os soldados responsáveis pelo transporte,
passado algum tempo sem nenhum acontecimento especial foram aceitos entre os demais.
Os enviados se misturaram aos homens e conseguiram algum sucesso; nada
significativo; a humanidade é determinada em seus ideais e quanto mais egoístas mais fortes.
Em função disso surgiram não só os movimentos anti-cristão como uma série de outros
tentando fazer valer suas crenças e tentar impor os mais diferentes credos e seitas.
Ninguém queria ser subjugado, muitos tinham seus próprios profetas e não queriam; e,
nem seria humano imaginar diferente; se curvar ao "Filho do Deus Todo Poderoso" e sim
tentar manter seus próprios credos, pois isso serviam aos interesses dos mais diversos líderes
religiosos alguns com influência tão forte quanto a dos reis. No entanto foram obrigados a
enfrentar a tentativa de interferência dos protetores convencidos de um único fato: Nenhum
profeta até então existente apresentara uma proposta tão importante para a evolução da
humanidade. No entanto, os enviados, "vestindo" aqueles corpos e vivendo entre os homens
gradativamente foram se tornando cada vez mais parecido com aqueles cuja missão era
proteger.
Este acontecimento inesperado determinou o fim da única missão física dos protetores
na Terra. A necessidade de acabar com ela surgiu quando a Mesa do Protetorado constatou o
quanto estavam complicados os seus enviados, mesmo os mais evoluídos: presos nas
armadilhas do orgulho e das vaidades, à convivência muito próxima aos homens e aos apelos
da carne, muitos haviam se rendido às fraquezas terrenas e à cobiça.
Não estavam mais ajudando nem aperfeiçoando os homens com conselhos altruísticos e
sabedoria construtiva, nem mesmo preocupados com a mensagem do profeta já não tentavam
influir no destino da humanidade queriam usufruir do poder.
Os enviados foram submetidos ao convívio dos humanos e a um corpo similar; artificial
na verdade; absolutamente perfeitos, tinham as mesmas sensações, aperfeiçoadas e mais
sujeitos às "exigências da carne" influenciaram menos, se influenciaram mais. Atingidos em
suas vaidades e desejos passaram a agir como seu protegidos. Para gozar dos privilégios dos
poderosos e pouco afeitos à política; enojava-os; dedicaram-se à guerra. Usavam seus
conhecimentos para desenvolver armas, estratégias bélicas, e uma intuição fantástica os fazia
se antecipar aos passos dos inimigos e vencer batalhas.
Decepcionados com a falência moral de seus enviados os lideres do Protetorado
decidiram deixar os homens administrar seu próprio destino e voltar a auxiliar uns poucos
escolhidos como sempre fizeram, seus protegidos podiam ser ignorantes e ter o cérebro pouco
desenvolvido, mas venceram-nos; eram extremamente determinados, egoístas, complexos e
tinham hábitos por demais perniciosos.
Em cinqüenta e cinco DC o Cristianismo praticamente inexistia política e socialmente
e seus enviados já eram inúteis, tinham sido chamados de volta, a raça dos protetores não
tinha a finalidade de interferir em guerras: estava tudo errado! Durante os séculos tinham
ajudado a humanidade influindo sobre alguns. Quando um homem mais inteligente
desenvolvia por si uma idéia e chegava a um ponto por demais obscuro, iluminava-o, não iam
além disso, mesmo assim jamais ajudaram a criar nenhuma arma letal ou produtos com os
quais fosse possível sua construção.
Os enviados quebraram mais essa regra, apesar do pouco tempo na terra; por sua
sabedoria milenar; todos se tornaram pessoas importantes, conselheiros de reis, magistrados,
governadores, generais; e, apegados como estavam aos prazeres terrenos, às vaidades, ao
poder e suas prerrogativas alguns acharam por bem não atender ao chamado dos lideres e
passaram a viver escondidos entre os homens, os protetores sabiam ser impossível reconhecer
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um espectro incorporado se ele não quisesse ser localizado, não tinham acesso irrestrito a
nenhuma entidade encarnada, mesmo de um deles, se esta não o desejasse, passado algum
tempo os lideres desistiram de procurá-los, consideraram perda de tempo, eles podiam ser
tremendamente ricos, mas não eram fortes como os humanos; apesar de terrivelmente
assemelhados. Seus corpos, embora diferentes dos andróides dos filmes de ficção; eram
produto da inteligência de uma raça muito avançada e não da inseminação natural de um
óvulo; e, artificiais, não podiam se reproduzir; sem o apoio dos protetores fornecendo-lhes o
alimento adequado envelheceriam e morreriam em poucos anos, então era uma questão de
tempo e eles voltarem ao Protetorado. De fato isto ocorreu durante um certo período no qual
os corpos de cento e setenta e quatro dissidentes pereceram.
Alguns ainda vivos se reuniram em propriedades na regiões entre o Pontes Euxinus e o
Mare Adriaticum ajudando na sedimentação do Império Romano na região e comandando
com muita capacidade as legiões sob seu comando, em quarenta e seis já haviam ajudado a
anexar Thracia ao império e passaram a combater ao norte da Moésia, aterrorizando a todos
por onde passavam com suas armadura imbatíveis e suas espadas tremendamente pesadas
para serem manejadas por homens comuns, deixando patente sua ferocidade nas batalhas
escravizando milhares de inimigos os quais foram colocados ao seu serviço construindo
várias fortalezas para seu uso nas montanhas.
Combatiam com muito pouco descanso, durante à noite se aventuravam sozinhos entre
os inimigos causando baixas em suas sentinelas facilitando o trabalho das legiões.
Conforme as fortalezas ficavam prontas foram se estabelecendo ao longo dos montes e
erguendo suas moradas nos Cárpatos onde sedimentaram seus próprios domínios.
Momentaneamente livres da guerra tomaram mulheres para esposas e tiveram um breve
momento de descanso.
Não podiam se reproduzir, mas pouco importava, julgavam ser eternos, a palavra morte
não existia entre os protetores; realmente o eram; mas não os seus corpos; então descobriram
a terrível verdade: se alimentando normalmente como seres humanos sobreviviam, mas
envelheciam rapidamente e contraiam doenças.
Já haviam se conformado em aproveitar o curto período de duração de seus corpos
imperfeitos criados por cientistas, grandes físicos, mas sem poderes divinos. Era apenas um
conjunto artificial instável, incapazes de sintetizar uma série de compostos necessários à vida.
Quando um deles descobriu como sobreviver, permanecer jovem e ensinou aos outros.
Consistia em uma rotina demasiadamente simples: ao alvorecer seus espectros
abandonavam seus corpos na cama e se deitavam ao sol uma fonte de energia inesgotável,
desta forma conseguiam permanecer fortes e até rejuvenescer. Controlavam com mestria essa
habilidade então decidiram se deixar envelhecer até certo ponto depois se deixavam
envelhecer até certo ponto e depois simulavam morte em combate e retornando jovens como
filhos de uniões nunca existentes refugiados no exterior para continuar a comandar seus
territórios, criando suas próprias dinastias.
No inicio do ano de cento e seis, Klaus Marante II, ou simplesmente Klaus Marante, por
se tratar na realidade do mesmo indivíduo, ajudava a estabelecer o Império Romano na Dácia,
ele e seus companheiros já governavam vários territórios do império. Eram obrigados a
defendê-las com mãos de ferro, é verdade, pois a região nunca foi totalmente pacificada.
Ainda haviam muitas vilas rebeldes.
Os domínios de alguns protetores atingiram a um ponto ideal para Roma, se não
conseguiram vencer os revoltosos isolaram-nos do resto do mundo e formaram uma muralha
sufocando a resistência ao Império. Seus domínios compreendiam então várias áreas entre a
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Dácia e a Mesopotâmia, se instalavam sempre nas montanhas, nos Cárpatos nos Zagros e nos
Cáucasos em fortalezas construídas por prisioneiros escravos, todas de difícil acesso, em
terras pouco populosas e longe de Roma onde algumas coincidências passavam
despercebidas; eram ao todo em sessenta e três.
Já haviam assistido ao aparecimento e ao fim de muitos povos, sabiam como se manter
em paz com um governo central, não sonegavam impostos nem entravam em conflito com
Roma. Portanto eram considerados aliados fortes e interessantes para o império.
Klaus e alguns de seus companheiros por excelentes serviços prestados seus primeiros
domínios Britannia, terras maravilhosas e verdes onde a caça era farta e a vida agradável, ali
ele conhece Karina, ainda uma menina mas tal era sua beleza, tão maravilhosamente verde
seus olhos, tão macia sua pele, tão magnético seu sorriso.... enfim, ele fica perdidamente
apaixonado, toma-a sob sua proteção e a vê se tornar cada dia mais bela. Finalmente a toma
por esposa, não antes de cativá-la, conquistá-la realmente. Não a queria a força, podia fazê-lo,
mas seu sentimento por ela era por demais forte, extremamente doentio, quase louco,
demasiadamente sincero. Tornava-se fraco na sua presença, idolatrava-a. Teria mesmo
desistido dela se ela o rejeitasse, mas para sua felicidade ela correspondeu aos seus
sentimentos na mesma proporção, talvez até com mais intensidade.
Karina o amou o com loucura, transformou sua vida em um delicioso sofrimento.
Klaus sofria por saber, ela era mortal! Não a teria para sempre. Lamentava ser obrigado a
cumprir suas obrigações ligadas ao poder e só depois ter o direito à prenda imensa de sua
companhia, por quanto tempo poderia desfrutar da mulher amada ainda jovem? Era humana,
não podia sintetizar energia do sol, procurava não pensar nisso e viver feliz em doce agonia.
Mas sua felicidade sofreria um revés. Alguns dissidentes começaram a não regressar
das batalhas, morriam durante o sono, os Romanos ficaram preocupados com a inexplicável
doença dos pleitonianos não queriam perder tão valorosos soldados.
Médicos foram trazidos do Egito para examinar os pleitonianos, eram aliados
importantes ajudando o império de Augusto a Vespasiano, queriam-nos vivos e lutando.
Mas não havia nenhuma doença, o protetorado, como não os via retornar, sabia:
haviam descoberto uma forma de conseguir energizar seus corpos artificiais; e, pesquisaram
exaustivamente até descobrir o processo e como captura-los: quando abandonavam seus
corpos para se reconstituir podiam ser reconhecidos e resgatados.
Quando os dissidentes abandonavam seus corpos para absorver a energia do sol
transmitiam ordens severas para não serem incomodados em suas tendas, nessa oportunidade
assumiam a aparência de um morto, mas essas determinações começaram a ser
desobedecidas, passado determinado tempo após a captura do espectro pelos lideres sua
ausência causava preocupação e o cômodo onde seus corpos repousavam era invadidos e
sendo encontrados sem nenhuma função vital. Examinados por uma autoridade e atestado seu
falecimento passaram a ser enterrados ou cremados dependendo da região onde se
encontravam.
A noticia se espalhou, os poucos sobreviventes desta caçada ficaram desesperados,
eram então quinze, apenas Klaus; entre os ainda residentes na Britannia; havia escapado, e
apavorado fugiu para os Cárpatos em companhia de Karina, sua amada esposa para se juntar
aos dissidentes em luta naquela região onde nunca ninguém fora capturado.
Chegou de carruagem a estalagem no condado de Rardemuc, procurava abrigo com o
conde local, não dissidente, no entanto não conseguiu, este havia morrido e o castelo não
admitia ninguém ali até novas ordens de Roma.
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Observou local, um bando de miseráveis, desorganizados, sem comando, após a morte
do Conde de Rardemuc, mas as terras eram férteis e as muralhas da fortaleza e da cidade era
fortes o suficiente para deter um exército.
Enviou uma carta a Roma, disporia de seus domínios na Britannia em troca daquele
condado e aguardou, não podia mesmo voltar. A proposta incluía também o retorno de todos
os feudos dos demais dissidentes naquele pais ao Império, em troca de outros naquela região.
Foram atendidos de imediato pois deixavam muitas terras livres para serem atribuídas a
outrem, isso ajudava a consolidar o império, ademais sua recente e não identificada doença
poderia se espalhar entre os demais. Um mapa foi providenciado criando os feudos nas
imediações da Dácia, Capadócia e Mesopotâmia, nos Cárpatos, onde nunca foram
perseguidos e foram instalados definitivamente naquela região ligados a um único governo
central: o condado de Rardemuc e destituídos das demais propriedades.
No entanto, embora tudo estivesse certo em Roma, as noticias não chegavam aos
Cárpatos e Klaus Marante II, se viu obrigado a viver naquela estalagem imunda durante
algum tempo.
As ordens de Klaus era para não ser incomodado em seu quarto, durante seu sono
matinal, mas crianças são indisciplinadas, o garoto olhou pela janela, observou durante algum
tempo seu corpo não fazia qualquer movimento, não teve dúvida em alarmar todo mundo.
- O romano está morto, o romano está morto.
Karina passeava correu para o quarto e chegando lá encontrou o estalajadeiro
acompanhado de outras pessoas observando Klaus, acreditando na morte do hospede foram o
inspetor alfandegário, maior autoridade local.
No entanto quando este chegou encontrou Klaus sentado sobre a cama gozando da mais
perfeita saúde.
Isto causou um mal estar geral, todos haviam examinado o homem, não podia estar vivo
e bem assim de repente, murmúrios sobre sua condição de um ser diferente dos demais
começou a se disseminar pela região.
A resposta de Roma chegou, Klaus nomeado o novo conde de Rardemuc, no documento
seu nome inteiro fora alterado para Klaus Marante Rardemuc.
Cinco anos se passaram, anos de guerra, lutas, resistência, os dissidentes não se
incomodavam, amavam a batalha, consideravam sua vida ausente de problemas, até
receberem a terrível noticia.
Kank fora capturado, o esquadrão do Empíreo havia chegado aos Cárpatos.
Os dissidentes se reuniram e deliberaram, tinham duas opções, correr o risco da captura
ou viver uma vida mais curta, optaram pela segunda, na Britannia e no resto do mundo em um
período muito curto este esquadrão capturara quarenta e oito espectros agora só tinham os
Cárpatos para patrulhar.
Não se atreveria a sair ao sol, mas seus corpos de mais de um século precisavam muita
energia e ela não era proporcionada pela alimentação regular, como resultado seu
envelhecimento passou a ser muito rápido se comparado aos dos humanos normais, em breve
a Terra estaria livre deles, não se atreviam mais a sair ao sol, sob a forma de espectros para
serem capturados e quando incorporados a energia não podia ser absorvida seriam eles os
primeiros enviados a morrer de velhice.
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Klaus Rardemuc, o mais velho deles, o grande líder da então famosa "Legião do
Morcego" famosa por suas incursões noturnas e vitoriosas sobre os inimigos foi o primeiro a
ser atingido com violência pelos sintomas senis.
Era um homem apaixonado, tinha uma esposa jovem e acabou se tornando o criador dos
seres responsáveis pelo terror nos Cárpatos e regiões satélites.
Uma determinada manhã acordou e viu seu corpo refletido na chapa polida usada para
se vestir, seus cabelos, os pelos pubianos, do tórax, dos braços, outrora negros e brilhantes
estavam completamente brancos, seu corpo, moldado por anos de guerra e sessões
intermináveis de esgrima ainda estava elegante como o de um jovem, mesmo sua pele ainda
era perfeita, sequer se sentia fraco. No entanto seus pelos denunciavam uma anormalidade,
olhou para o leito e sua esposa ainda dormia, abandonou-a onde estava e se trancou em um
quarto vizinho, mandou o chefe da guarda buscar na cidade um homem famoso por tingir
cabelos e quando ele se foi seu rosto estava novamente jovem, mas não era possível fazê-lo
com os demais pelos do corpo, então se conformou em jamais se deixar ver nu por ninguém e
não sentiu coragem para voltar ao leito nupcial. Amava Karina acima de todas as coisas e
sofreu com o medo de se tornar ridículo aos olhos dela.
Então outros sinais de envelhecimento apareceram, fez as contas e comparou seu
envelhecimento com o dos humanos, deduziu não ter além de poucos meses, talvez semanas
de vida embora se sentisse forte como sempre sabia: a anormalidade estava destruindo seu
corpo de laboratório.
Sentado na cadeira onde recebia seus súditos observou com tristeza o "Brasão do
Morcego"; ele decorava seu escudo pendente na parede abaixo da bandeira de Rardemuc,
acariciou o anel com o mesmo motivo em seu dedo, este símbolo era motivo de orgulho, ele o
tornara famoso por todo o império, motivo de inveja para muitos generais agora esta
"dinastia" de bravos estava prestes a desaparecer, era o fim.
A saudade da esposa a quem não ousava enfrentar, o envelhecimento acelerado, a
proximidade eminente da morte o tornaram um ser desesperado, acuado, triste e solitário;
quase insano; não lamentava a perda do poder e dos prazeres terrenos, de sua riqueza, suas
posses e das homenagens às quais havia se acostumado, tudo isso agora era totalmente sem
sentido, mas Karina; a doce e maravilhosa companheira; aqueles olhos verdes, o mar onde ele
mergulhava toda sua fantasia, motivo de sua alegria, aquele sorriso poderoso o suficiente para
transformar o feroz general em um doce e apaixonado escravo. Não admitia perdê-la e não
podia mais ficar pensando nela durante todos os minutos do dia, precisava fazer algo para
esquecê-la e amenizar a solidão na qual se encontrava.
Mas então já podia ser considerado um louco transigiu em sua moral pedindo ao chefe
da guarda para capturar para si algumas virgens entre os rebeldes de uma das regiões vizinhas
cuja pouca importância financeira e a dificuldade de acesso não motivara Roma a lutar com
muito empenho por sua posse. Deveria permanecer lá e capturar tantas quantas pudesse, o
reino era pródigo em produzir lindas mulheres; e, as conservava virgens até o casamento, a
partir de então teria uma por dia, ou por semana, conforme suas energias permitissem até a
chegada do fim, era sua vingança da humanidade, de seus corpos perfeitos e do seu
envelhecimento lento.
Não foi como ele esperava, seus inimigos haviam se tornado mais fortes com o apoio
dos turcos e seus comandados demoraram três semanas para voltar e traziam consigo pouco
mais de algumas dezenas de prisioneiros, homens para trabalhar no campo e algumas; poucas;
virgens para satisfazer o desejo de seu soberano.
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Klaus mandara construir próximo ao seu quarto um enorme forno, o chefe da guarda
sabia qual a sua finalidade, as virgens seriam assassinadas e cremadas, Ele não deixaria viva;
uma prova de estupro; se uma delas escapasse e o acusasse ele seria morto por seus
companheiros dissidentes, atentar sexualmente contra qualquer pessoa era considerado o
crime dos crimes, hediondo, asqueroso, imperdoável, sob qualquer circunstância. Mas não
havia julgamento de estupro sem a presença da vítima, era a lei, matar prisioneiros era um
direito do senhor das terras, então ele não deixaria provas da violência máxima à qual se
propunha.
Nenhum homem de sua raça jamais havia atentado sexualmente contra uma mulher, ele
sabia estar errado, mas a proximidade da morte, do fim de mais de cem anos de uma vida farta
e principalmente da definitiva separação de Karina eliminara seus últimos vestígios de
moralidade e minara sua sanidade.
Estava perdido em seus pensamentos quando a porta foi aberta. Uma garota foi
introduzida em seu quarto e logo em seguida estavam os dois sozinhos.
- Qual o seu nome. - perguntou Klaus.
- Thaís senhor. Esse é o meu nome.
- Sabe porque está aqui?
- Fui preparada durante o dia para ser amada, deve ser por isso, não me faça mal, vou
me submeter voluntariamente. - a garota começou a andar em direção à cama, sem saber
qual seria o seu destino, ser cúmplice não iria mudar nada, mas ela não tinha conhecimento do
forno e da intenção do senhor das Terras, nem das severas e inquebrantáveis leis dos
protetores, quis tornar tudo o menos doloroso possível.
Quando Klaus tirou o roupão deixou à mostra sua condição, Thaís esqueceu sua
condição de escrava e reagiu naturalmente, era uma garota inteligente e espontânea, ainda
com a inocência e a petulância da juventude. Começou a rir e falou quase sem perceber.
- É um velho de corpo bonito e cabelo pintado, vou ser iniciada por um velho. completando - Maquiado! - e continuou rindo até o escárnio.
Klaus se sentiu humilhado, mas ainda era muito forte, jogou a sobre a cama com
facilidade e levantou o braço para agredi-la, Thaís caiu em si! Havia exagerado e descobriu:
estava para ser espancada. Então se fez humilde demonstrando seu medo e respeito.
- Não me batas senhor, perdoe e compreenda. Não deves possuir uma mulher marcada,
és um rei, mas vou compensar minha insolência! Tenha certeza! Vou amar-te como mereces.
Klaus se segurou e acariciou a jovem, mas não conseguiu dissipar a imagem do medo
do semblante de Thaís, nem a de ódio estampado em sua face.
Thaís não queria ser espancada, era uma prisioneira de guerra, não se lembrava de já ter
visto nenhum prisioneiro retornando para casa, só lhe restava tentar ter uma boa vida, a
melhor maneira seria agradando o seu senhor, assim quando seus corpos se fundiram, a
garota, mesmo sem ter experiência colocou no ato toda sua concentração e esforço,
participou efetivamente, sem conhecimento, mas com loucura, sem mestria, mas com
aplicação, sem malícia mas com toda a energia existente na juventude; e; apenas nela.
Klaus sentiu toda a força existente naquilo, já não estava entusiasmado com o ato em si,
não com o sexo, mas com o vigor da parceira, a energia, a tenacidade, a facilidade com a qual
ela se movimentava, com o calor, a eletricidade emanada daquele corpo, queria para si este
viço, essa exuberância, a suprema loucura de ser jovem, estava passando os lábios abertos
sobre seu pescoço e invocando aquela juventude, então começou a ser percorrido por uma
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onda de energia, um combustível até então desconhecido parecia invadir seu corpo por todos
os pontos onde se tocavam, renovar os seu sangue, um rio de vitalidade fluía do corpo de
Thaís e conforme ele acelerava ela abreviava os movimentos, se soltava dele.... e da vida... até
desfalecer e finalmente quedar: pálida, fria, inerte como se estivesse morta há horas... talvez
dias.
Seu pescoço, seu lindo rosto.... todo aquele jovem corpo parecia ser feito de porcelana
de tão liso e pálido, o vermelho de seu rosto há pouco admirado já não existia, não fossem
algumas minúsculas manchas roxas deixadas nos locais onde ela fora tocada e por onde
emanara a energia de todos os pontos de seu corpo, pescoço, seios, barriga, ventre, pernas,
braços, costas.... enfim elas estavam lá, seguidas de pequenos hematomas, não fossem por
elas poder-se ia jurar ser uma estátua. Não fora jamais a habitação de uma alma e o sangue
nunca circulara ali.
Klaus levantou a garota, se sentia forte como nunca fora, Tais fora uma mulher alta,
saudável, ele sempre ouvira falar no peso dos mortos, em muito superior aos dos vivos, jamais
carregara um cadáver, no entanto zombou desta crença, em seus braços ela parecia moldada
em algodão e completamente oca.
Jogou o corpo no forno ardente e voltou para o quarto, a robusta porta com a qual
aquela área fora protegida também parecia não pesar nada, como se estivesse solta no ar,
olhou-se na chapa polida e os pelos de seu corpo agora estavam grisalhos e não totalmente
brancos, então pediu ao guarda outra mulher de imediato e no dia seguinte já era bem mais
jovem, mas não voltou para o quarto da esposa amada, não sabia controlar este poder, não
desejara a morte da segunda mulher, no entanto ela acontecera.
Demorou alguns dias trancado naquele quarto mas conseguiu o completo domínio de
sua fonte de juventude e a aparência do dia anterior ao qual seus cabelos se tornaram brancos.
Só então resolveu usufruir do calor de Karina, a noite estava se pondo e o dia já se fazia
sentir, perdera a noite decidindo se a procurava ou não; e, só com ela o sexo era considerado
lícito, mas amava a tanto... não quis esperar pelas horas de trevas, não a amaria contrariando
os costumes, mas podiam conversar o dia todo até o astro rei abandonar o horizonte.
No entanto ele já não era o mesmo homem, descobriu uma de suas fraquezas: quando
abriu a porta do quarto da mulher objeto de sua paixão foi obrigado a fechá-la de imediato, o
pouco de sol, ainda nascendo o atingiu e provocou queimaduras em sua pele, sentiu-se
assustado e correu para o quarto onde estivera até então, não seria incomodado até o
anoitecer. Mas não conseguiu pensar em mais nada e foi vencido pelo sono ao entrar.
Este sono seria motivo de seu medo pelo resto de sua longa vida.
Acordou deitado no chão do quarto, não tinha conseguido atingir a cama em sua volta,
só então se deu conta de uma realidade assustadora: não vira um único dia desde a noite na
qual matara sua primeira virgem, neste período dormira durante o dia todo sem sequer sonhar,
o barulho do castelo e todo o movimento do treinamento dos soldados, o brandir de espadas e
o tropel dos cavalos não o acordavam, não tinha mais controle sobre o corpo durante o dia,
era extremamente vulnerável então! Precisava de um lugar mais seguro.
Chamou o chefe da guarda e pediu outra virgem, nas elas já não existiam, ele havia
consumido algumas e outros nobres haviam se encarregado das outras, ainda estavam pelo
castelo mas já eram usadas no serviço de cozinha e limpeza, seus nobres eram humanos
comuns e não estavam sujeitos às mesmas leis, eram bárbaros e praticavam a violência sexual
sem a menor hesitação. Não havia a não ser um protetor por acampamento ou condado.
Ficou desesperado, abriu a janela pela primeira vez desde o dia no qual se trancara
naquele quarto e se sentiu tomado de uma força até então inexistente, mas seu espectro estava
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extremamente forte, exageradamente confiante, um sentimento de onipotência apossou-se
dele, achou possível se mover como um pássaro e carregar aquele corpo artificial usado como
disfarce consigo e quando deu por si estava se deslocando a enorme velocidade sobre os
campos; em minutos estaria andando pelas terras dos inimigos.
Na primeira vila rebelde encontrada perambulou até encontrar uma virgem na rua,
seguiu-a à distância e quando sentiu estarem em lugar seguro e longe dos olhares de terceiros
abateu-se sobre ela e a submeteu, obtendo a energia necessária e sentindo saradas suas
feridas.
Quando obtinha a energia das virgens em seu quarto o fazia a vontade, ela fluía para ele
de vários contatos, através das mãos, porem agora estava amedrontado e com pressa, não
podia ser surpreendido, então não se preocupou em despi-la, encostou a boca sobre seu
pescoço nu enquanto usava as mãos como mordaça e algema, deixou a energia fluir dali para
o seu corpo até senti-la sem vida e com isso o fim das feridas e seus problemas. Agora podia
ter uma existência quase normal, mas o mais importante era a volta ao leito de Karina.
Assim ele resolveu seu problema durante muito tempo, deixando leves hematomas nos
lábios e nos braços de suas vítimas e outro; muito forte; no pescoço.
Os aldeões choraram a morte de muitas garotas até um deles descobrir: seu inimigo,
podia ser um animal até então desconhecido, um ser das trevas, qualquer coisa, afinal era
muito rápido e forte, jamais fora surpreendido e nenhuma de suas vítimas conseguira esboçar
uma reação, mas tinham algo contra ele. Só atacava virgens e à noite os aldeões passaram a
recolhe-las ao entardecer tirando-lhe a alimentação de rotina.
Tomado de desespero em uma determinada noite ele perambulou além no tempo para
ver se sua sorte melhorava além de não lograr êxito arrumou novas queimaduras no braço
fechando a janela de seu quarto já com o sol penetrando parcialmente nele.
Gostava de passear por Rardemuc à noite e o fez, ali havia vida, ele gostava do
movimento, nunca houvera ou haveria um ataque lá, mas fosse essa sua intenção resultaria
inútil. Superstições voam rápido, suas ruas também estavam vazias de virgens, o medo havia
se espalhado por toda a região. Verificou outras cidades próximas e descobriu: fora
estabelecido um padrão, elas não circulavam à noite.
Não tinha escolha; decidiu buscar seu alimento dentro das casas inimigas, não
agüentava mais as dores das queimaduras, no entanto não podia ser reconhecido, então
muniu-se de uma capa negra e fez uma mascara cobrindo todo o rosto, iria invadir uma
cabana, se fosse surpreendido, paciência, sua força era bem superior à de dois ou três aldeões.
Foi a aldeia inimiga vizinha já tarde da noite, precisava aproveitar a hora de sono dos
aldeões, procurou até achar uma virgem dormindo, apenas elas podiam usar branco, mesmo à
noite, era um privilégio. Suas feridas doíam horrivelmente; em breve estariam cicatrizadas, pensou - mas quando tentou entrar na casa encontrou uma barreira intransponível, embora
ocupasse um corpo seu espectro ainda era de um protetor, não podia entrar na casa ou no
estabelecimento de ninguém se essa pessoa não o desejasse, aceitasse, precisasse ou chamasse
por ele. Queria a garota de qualquer maneira. Mas suas tentativas foram inúteis. Guardou a
mascara no bolso e andou até uma taberna onde também não conseguiu penetrar. O
estalajadeiro vendo aquele homem trajado com extrema elegância à sua porta pensou em todo
o dinheiro existente em sua bolsa e o chamou.
- Entre e se sirva de um bom vinho, um quartin por jarra, o melhor da região.
- Aceita dinheiro Romano ou Grego? Sou um viajante e não sei onde me encontro,
minha carruagem foi assaltada na estrada.
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- Um décimo de denario ou um décimo de dracma por jarra, qualquer dinheiro é bem
vindo, aceitamos até Karins por aqui.
- Karins? Não conheço esta moeda. - Mentiu.
- É o dinheiro de Rardemuc, precisamos dele para comprar vinho contrabandeado
através da fronteira, é o melhor da região, garanto.
Klaus ficou furioso andou até um barril de vinho abandonado sobre a calçada vendo-o
se acalmou. Então descobriu o quanto seu povo temia sua ferocidade, algo além da
imaginação, mesmo o vinho contrabandeado tinha o selo de Rardemuc, não era proveniente
de sonegação, tivera sua venda autorizada surpreendeu-se com o fato e só não sorriu por
sentir a dor emanada do braço machucado. Hesitou, mas resolveu entrar, não tinha muitas
esperanças quanto a conseguir energia, no entanto resolveu arriscar. Olhar em volta
confirmou suas suspeitas, as garotas presentes à casa, todas elas, usavam cores nas roupas,
uma mulher decente não freqüentaria uma taverna, daquelas, deviam ser prostitutas, não
conseguiria nada ali, era o lugar errado para procurar uma virgem, voltar não adiantava, não
podia profanar uma das mulheres de seu povo, seria linchado por eles, mesmo sendo o senhor,
a não ser reclamando a noiva na noite de núpcias, isto sim era licito e não causava traumas,
mas quando o fizera, antes de desposar Karina, nunca conseguira uma, próximo às bodas o
próprio noivo as iniciava, não deixavam tão precioso tesouro para ele e não podiam ser
castigado por isso, reparavam o crime de ter possuído uma mulher antes do casamento
simplesmente oficializando a união dos corpos, era a lei; e, mesmo assim: não podia matálas.
Deu um passeio pelo vilarejo mas não encontrou ninguém, fato esperado, nenhuma
virgem em um raio de quilômetros saia à rua à noite. Voltou à taberna e descobriu uma, a
filha do estalajadeiro, mas não podia agir no meio de tanta gente, haviam muitas tochas
espalhadas e ele não era imune ao fogo: sabia.
Quando a estalagem fechou ele decidiu agir, tinha entrado e saído dali, estava livre para
voltar quando quisesse, mas não conseguiu, o homem tinha uma amante e fora para a casa
dela, se quem o convidou estivesse ausente sua entrada ficava novamente impossível, depois
nem sabia se teria acesso ao quarto da garota, para transpor sua porta precisaria de um convite
e não tinha como provocá-lo, ele só poderia entrar se fosse a vontade dela.
O fim da noite estava próximo, precisava se recolher e suas feridas doíam muito, o
vilarejo completamente vazio, então se preparou para voltar ao castelo, haveriam outras
noites; e outras virgens ele podia suportar mais um dia agonia. Começou a andar lentamente
para a saída do vilarejo.
- *Edmond fora o último homem a sair da taberna, andara trôpego tentando chegar em
casa, mas sentiu os efeitos da bebida e seus membros falharam, caiu próximo á calçada e não
conseguiu mais se mover, quando viu o fio de água correndo ficou apavorado. Não chovia
ali, mas devia estar acontecendo nas montanhas, estava formando uma poça próximo a sua
cabeça e ele temeu por sua vida, a rua alagava e sem duvida ele em breve morreria afogado.
Ficou feliz quando aquele homem incrivelmente forte o recolheu e começou a levá-lo
dali para um lugar seguro.Klaus, ainda era um protetor e algumas vezes agia como tal,
colocou os braços por baixo dele e o levantou, começou a carregá-lo até uma calçada alta
sobre uma coberta, se a chuva atingisse a cidade ele estaria a salvo ali, e quando estava quase
chegando ao local tocou na pele do infeliz, sentiu energia emanando dela, abriu a camisa do
camponês e colocou as mãos sobre o seu peito ela continuou fluindo. Edmond pareceu
pressentir os acontecimentos, ficou apavorado com a morte eminente mas não quis reagir, se
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entregou àquele homem sem reservas, sentiu sua vida se esvair enquanto as feridas de seu
algoz cicatrizavam frente aos seus olhos.
Klaus olhou para as partes nuas onde suas mãos tocaram tinham as manchas e
hematomas antes provocadas nos pescoços das virgens, o infeliz beberrão tinha agora a
aparência de cerâmica antes só observada nas garotas! Havia retirado sua força de um
homem; e, velho.
Descobriu seu engano, sua energia não estava ligado à juventude ou à virgindade de
garotas, ele imaginara isso por si, era a força do espectro humano, podia sugá-lo de qualquer
um, bastaria um passeio pelas terras inimigas de quando em quando e seria eternamente
jovem, jamais veria a luz do sol, sabia disso, mas podia desfrutar do leito da esposa amada, os
momentos com ela valiam qualquer preço.
Quando se preparava para voltar para casa foi atingido por uns poucos pingos de chuva
e sentiu seu braço queimar em cada ponto desprotegido de seu corpo onde a água batia, correu
para o único abrigo existente por perto, um cemitério, entrou na pequena capela construída
como um prolongamento de uma grande pedra mas não se sentiu protegido, em breve o sol
nasceria e iria feri-lo, não sabia se morreria ou o grau no qual as feridas seriam produzidas,
mas nem pensou em descobrir, levantou sem esforço a pesada laje protegendo a entrada da
gruta onde ficavam os caixões e pensou em se esconder em um deles, mas o sono sem sonhos
o dominou antes e ele adormeceu sobre a terra da qual era constituído o seu piso.
Quando acordou ainda não era noite, podia pressentir isso... estranhou.... foi acordado
por vozes vindo do exterior da capela, jamais acordara de seu sono sem sonhos antes, pensou
em como explicar o fato e deduziu com inteligência: aquela capacidade de ouvir sons durante
seu descanso vinha do fato de estar em contato com a terra, junto à sujeira, ali ele estava no
lugar correto e não sobre lençóis limpos e decentes, eles deviam servir aos justos, os tementes
a Deus, aos herdeiros do Cristo, aqueles pelos quais ele devia lutar e não abrigar um
assassino. Os dias posteriores provariam isso definitivamente.
- Ele está aqui, tenho certeza, vi quando entrou após matar Edmond.
- Você está louco homem, não há outra saída da gruta e você afirma ter vigiado a
mesma desde a madrugada e o dia inteiro.
- Ele está lá embaixo, entrou para o interior da gruta.
- Impossível, está é a capela real, são necessários vinte homens ou mais para mover esta
pedra.
- No entanto ela foi movida olhe. - falou o homem responsável por vigiar a capela devem existir muitos homens de Klaus lá embaixo, chegou o nosso dia, hoje nós levaremos a
melhor, vá buscar homens e armas, devem ter bem mais de vinte homens esperando para nos
atacar à noite como é o seu costume, Edmond deve ter sido morto por surpreendê-los se
escondendo, tragam muitos guerreiros, não os quero tendo nenhuma chance.
Klaus se aprofundou na gruta como pode, rastejando como um réptil, não tinha forças
para se colocar de pé, era o efeito do dia sobre ele; o corpo quase alheio à sua vontade; nos
fundos da mesma havia uma passagem, no entanto não iria ajudá-lo. Era suficiente apenas
para passar um rato; talvez um pequeno coelho, mas nunca um homem e ademais não podia se
aproximar dela, um raio de luz do sol, seu velho inimigo emanava dali, atingindo o chão,
abandonou sua luta e ficou esperando.
A noite caiu: ele poderia sair, mas por onde? O movimento do lado de fora aumentou. O
ruído da pesada pedra sendo removida lentamente dava-lhe a exata noção do perigo eminente,
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os homens em breve iriam encontrá-lo, não temia as armas, o corpo de um protetor, era
imune à elas, mas haveriam tochas, o fogo o mataria. Não havia onde se esconder.
Sentiu-se tomado pelo desespero, olhou para o buraco existente na tumba e; até
inocentemente; desejou ser capaz de passar por ele, então sentiu-se contrair, tornar-se cada
vez mais fino e se deslocar como se fora névoa através na minúscula passagem, conforme se
aprofundava seu caminho afunilava, ou mudava de forma e seu corpo se amoldava a ele, até
finalmente sair em outra gruta maior próxima ao topo da montanha, o enorme buraco em seu
teto lhe permitia ver as estrelas, caminhou para fora dela, tropeçando na saída e indo ao solo,
sentiu apavorado a terra molhada e temeu por novas feridas, no entanto desta vez a água não
lhe provocou nenhum mal, ainda sentia as provocadas pela chuva no dia anterior, embora
poucas e suportáveis então compreendeu, somente a água totalmente pura lhe era nociva,
como os lençóis limpos tiravam sua consciência e o sol queimava sua pele, como se não
tivesse direito a nada puro ou belo, estaria bem na terra, no lodo e nas trevas se tornara
alguém com direito apenas às coisas consideradas sujas, profanas ou demoníacas.
Mas, tinha ajuda nesta vida de escuridão eterna, a noite ampliava seus sentidos.
observou o vale abaixo dele e se surpreendeu com sua extraordinária visão, podia reconhecer
as pessoas no sopé, distinguir a cor dos olhos de cada um, ouviu um uivo e se concentrou
nele; maravilhou-se; não só pode ouvir o som dos lobos como também entender seu
significado. Se sentiu um deus, ou melhor, um demônio, um príncipe das trevas, dominava-as
a totalmente. A noite lhe pertencia por inteiro!
Na noite ele era um rei, olhou para ela com fascínio, ela se apresentava bela tal qual o
dia, seus olhos estavam transformados em algo poderoso, não precisavam refletir a luz forte e
vibrante responsável pela visão dos demais mortais, as imagens lhe pareciam nítidas, só muito
longe havia trevas.
Mas não teria na noite em si dificuldades, seus olhos haviam se tornado algo diferente,
inexplicável, não precisavam da claridade responsável pela sua antiga capacidade de
discernir, ao longe havia trevas, mas os objetos próximos a ele se apresentavam nítidos,
coloridos, exatos, seus contornos corretamente acentuados, perfeitos, as cores fartas como se
houvesse um dia, claro e limpo, só para ele dentro da escuridão cobrindo aquela parte do
planeta, isso não se devia à luz da lua cheia agora livre das nuvens responsáveis pelo temporal
de ainda há pouco, mas as transformações às quais agora estava sujeito sem saber exatamente
onde chegaria e quais as conseqüências de uma metamorfose com surpresas a cada dia.
Assombrou-se também com a facilidade com a qual percebia os acontecimentos.
Mas qual a importância disso se mesmo graves e desconhecidas as mudanças ocorridas
nos últimos dias lhe traziam Karina?
Qual a importância de tudo isso se ele recuperara o direito ao leito da mulher amada, se
lhe concedia, mesmo por curtos períodos separados pelas trevas e pela luz o direito de
repousar cansado sobre o seu colo e se inebriar com os seu cheiro, sentir sua pele macia onde
descansava já saciado buscando apenas a paz do amor consumado e praticado com a fúria de
mais louca das paixões?
Nada mais tinha importância!
Analisou todo o vale à sua frente, centenas de inimigos se dirigindo para casa após o
término no serviço, a energia pululando como se fosse um cardume recém eclodido, bem
próxima, mas representavam perigo! Muitos usavam tochas para iluminar o caminho, um
perigo eminente, no entanto, um deles estava na condição ideal, era muito cuidadoso com
suas parreiras e se esqueceu do tempo na poda não se unindo aos demais, só precisaria
conversar com o infeliz o tempo suficiente para segurar seu braço e lhe tomar a tocha.....
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-*Seus companheiros de dissidência embora bem mais jovens, (Klaus deixar de acumular
energias muito antes deles na Britannia e não as recuperara totalmente em Rardemuc)
começaram também a sentir a velhice chegando e tiveram noticias de sua ótima saúde, apesar
de ter se tornado um homem de hábitos estranhos, então foram visitá-los em grupo estavam
todos em sua fortaleza naquele dia, eram treze os não capturados pelos esquadrões enviados
pelos lideres, além de Klaus, haviam sido responsáveis por um período negro e muitas mortes
em sua rebeldia, uma mácula para sua espécie, os protetores sempre trabalharam para manter
o equilíbrio da humanidade, no inicio os dissidentes eram muitos e eles abandonaram seus
serviços normais para se dedicar à sua captura deixando a humanidade totalmente a mercê de
sua própria loucura, por isso depois de algum tempo decidiram desistir da busca e tentar
equilibrar as coisas, buscando novamente iluminar pessoas e tentar torná-las úteis aos seus
semelhantes. embora alguns estragos fossem definitivos e muitas maldades novas já
estivessem enraizadas.
Eles eram egoístas e mesquinhos, não viam nada além deles, quando chegaram ao
castelo e foram avisados sobre as normas de Klaus: não seriam recebidos durante o dia. Não
se conformaram! Não haveria regras! Eram iguais e não precisavam obedecer a um rebelde
como eles, um fugitivo nas mesmas condições, então não respeitaram o período de espera:
invadiram o quarto de Klaus para serem surpreendidos com seu conteúdo.
Não havia ninguém dormindo naquela cama, nem naquele quarto, os soldados
montavam guarda a um protegido inexistente, mas eles souberam pelos mesmos: Klaus saia
daquele quarto todas as noites e ia para os aposentos de Karina, depois voltava para lá de
manhã e nunca saia a não ser em dias de tempestade quando passeava pelo castelo fazendo
uma vistoria completa pelo mesmo. Verificaram as paredes, eram sólidas, os guardas deviam
estar enganados. Dando ênfase ao seu inconformismo procuraram por toda a fortaleza e não
encontraram nada. Só então se resignaram e esperaram.
Naquela noite Klaus apareceu, bem disposto e jovem, alguns deles já tinham os cabelos
brancos; não passavam pelo processo natural dos humanos se tornando grisalhos; tentaram
conversar, mas seu anfitrião alegou pressa: Karina esperava por ele, então se preparou para
deixá-los, Igor o mais jovem e robusto deles barrou sua passagem sendo jogado de lado como
se tivesse o peso de uma túnica, os demais não esboçaram qualquer reação, sentiram ser inútil
mediante àquela demonstração de força. Durante a madrugada um deles observou-o entrando
no quarto e se colocou em frente à porta, então mandou chamar os demais, assim Klaus não
passaria por ele iludindo-os como fazia com os guardas néscios e indolentes, quando estavam
todos juntos invadiram o aposento e ele continuava vazio, um corredor saia dele, acabava em
uma sala com um forno fétido e cheio de ossadas, no entanto era fácil deduzir: há muito já
não era utilizado.
Olharam pela janela e concluíram ser impossível alguém escapar por ali, aquela parte da
fortaleza sequer utilizava guardas, ela fora construída com três quartos à beira de um abismo,
era inexpugnável, a não ser pelo setor norte distante centenas de metros dali. Estavam no
pavimento térreo construído sobre pedra maciça, não deveria existir cômodos abaixo deles,
mesmo assim vistoriaram-no com cuidado: não havia passagens secretas.
Verificaram a planta do castelo, havia realmente uma falha abaixo deles: a adega.
Pensando ter descoberto seu paradeiro acompanharam os desenhos e localizaram sua entrada
decepcionados, estava lacrada com uma enorme pedra, nenhum homem poderia movê-la,
mesmo dotado de uma força incomum, se alguém estava lá entrara por uma janela! Ela podia
não constar em nenhum documento, mas deveria obrigatoriamente existir. Voltaram ao quarto
e decidiram procurá-la.
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- Vou descer a encosta, tragam-me cordas.
Os fortes ventos tornaram a tarefa difícil, mas mesmo assim o protetor achou uma
pequena abertura e entrou por ela, mais na frente achou um local onde poderia haver uma
entrada, mas estava obstruída por uma enorme pedra, como a da adega, os dissidentes
possuíam uma força descomunal, o equivalente a uma dezena ou mais de homens fortes e
treinados, mas ele não conseguiu sequer o prazer de se fazer sentir por ela, era impossível
movê-la, desistiu e voltou para junto dos demais, decidiram esperar pela vontade de Klaus iria
atendê-los quando quisesse, fosse qual fosse seu paradeiro estava acima de suas compressões.
Nesta noite não o viram, mas havia um bilhete endereçado a Dagul, o mais velho entre
eles, e consequentemente o líder em exercício, quando se encontrassem com Klaus o
comando seria dele.
"Hoje, duas frações de dia após o por sol a dirijam-se à adega, a pedra existente em sua
entrada não estará lá, não compareçam antes disso, as conseqüências serão imprevisíveis."
"Klaus"
Os dissidentes tentaram aguardar o tempo determinado mas estavam ansiosos demais e
se dirigiram ao local imediatamente, realmente a pedra havia se movido, a abertura deixada
permitia mesmo a um homem grande como Igor invadir a antiga entrada da adega.
Andaram pelos corredores apinhados de ratos e morcegos, eles fizeram um tremendo
alarido á sua passagem, seja por guinchos ou por bater de asas, no entanto não os molestaram.
Finalmente saíram em uma sala confortável, limpa e mobiliada, embora um pouco
úmida, totalmente isenta de insetos ou roedores, quinze poltronas, uma delas certamente feita
para uma mulher tal sua delicadeza, elas formavam um circulo em volta de uma mesa ornada
com o Brasão do Morcego identificando o acento reservado a Klaus. Uma lareira tornava a
sala mais quente, eles detestavam o frio, o ar corrente levava a fumaça por uma abertura na
rocha e a misturava com a névoa existente junto à lateral da montanha o ano todo, como um
manto.
No canto da sala haviam três caixas de aproximadamente dois metros e vinte, uma com
o símbolo de Rardemuc tinha um metro e setenta de largura as outras duas um metro, todas
com noventa centímetros de altura, moldadas em aço, não tinham dobradiças ou fechaduras
aparentes, tentaram abri-la sem sucesso e quando cansados de tentar se acomodaram em volta
da mesa e se serviram da farta comida ali existente.
Na hora determinada a tampa de uma das caixas girou e duas mãos magras, embora
fortes, com certeza, surgiram em suas bordas, em seguida Klaus estava em pé sobre ela,
totalmente vestido de negro e um capuz da mesma cor pendente de uma das mãos.
- Vocês provaram ser convidados mal educados, chegaram antes da hora da festa e
atrapalharam o meu sono.
- Perdoe-nos Klaus, é o desespero, nos também queremos saber seu segredo, você está
jovem e forte, nós estamos morrendo.
- Existe um preço para essa juventude, quem quiser pagar a terá.
- Diga quanta terra você quer e nós conquistaremos, ou quanto ouro e nós roubaremos,
não importa qual o seu desejo, será realizado, se quiser o império nós lhe daremos.
97
- Estas coisas já não me atraem, eu mesmo tenho gasto grande parte de minha renda
para investir na minha segurança, preciso guardas fiéis e um sono tranqüilo, não penso em
valores materiais.
- Então qual o seu preço?
- Não é o meu preço.... é o preço! Eu também o pago, vocês jamais vero a luz do sol,
viverão praticamente à noite, e com certa raridade ainda poderão andar por suas fortalezas,
embora apenas em dias de tempestade, mas não poderão mais sentir a chuva, ou tomar um
banho em água pura isso certamente os matará, não conseguiram mais invadir as casas de seus
vassalos, pois estarão novamente sujeitos às leis de seus espectros, se eles não quiserem suas
presenças ali precisaram permanecer do lado de fora e periodicamente serão obrigados a
matar, tirarão dos humanos o seu sustento, em compensação, todos os seus sentidos serão
tremendamente aguçados, comer será um prazer excepcional, nunca experimentado, mas
raro, a digestão de sólidos é muito lenta, não vão provar este prazer com freqüência, o vinho
será uma delícia, poderá ser apreciado na plenitude de seu sabor, mas extremamente perigoso,
no caso de se embebedarem e dormirem fora de local abrigado certamente morrerão, e ainda
devem existir muitos outros problemas, no entanto será necessário descobri-los, faremos isso
juntos.
- E temos escolha? Quanto tempo viveremos? Nesta velocidade o mais jovem de nós
não durará além de poucos anos, e o mais velho não ira além de poucos meses.
- Acredito, não há escolha. - respondeu Klaus.
- E quando teremos o segredo?
- Em alguns dias, esta é a planta das fortalezas de vocês, preparem em segredo os
cômodos aqui indicados e não se preocupem com o material pesado aqui descrito, preparemno em local próximo e eu as levarei até lá, Dagul e Flamar ficarão aqui para aprender a viver
como eu até seus castelos ficarem prontos e me ajudarão nesta tarefa, eles não podem esperar
muito tempo.
- E a caixa.
- Serão feitas com o material deixado próximo de suas fortalezas e nós o levaremos para
os cômodos, não existem homens fortes o suficiente para fazê-lo além de nós, vocês a
construirão depois de transformados, por enquanto preparem os aposentos e uma caixa de
madeira, mas antes todos irão trabalhar no castelo de Dagul, em seguida no de Flamar e assim
por diante, cada cômodo pronto gerará mais dois de vocês transformados e esses irão
trabalhar à noite para os demais, em seis meses, um ano no máximo teremos tudo pronto.
O DESTINO SELADO E AS LENDAS.
Klaus ainda fez se esforçou para não se envolver com humanos para conseguir sua
energia, deveria ser possível tirá-la das plantas, eram seres vivos afinal! Talvez pudesse
sobreviver tirando a energia delas. Escolheu uma área próxima ao castelo e experimentou uma
árvore, houve uma ligeira melhora em seu estado físico, depois parou, então procurou outra,
depois outra e continuou se "abastecendo" por um longo período foi demorado mais
totalmente satisfatório, ao final se sentiu perfeito sem causar nenhum mal a ninguém, olhou
em volta e tudo continuava perfeito, as mesmas árvores, os mesmos arbustos, o mesmo verde;
e, ele totalmente refeito, sua energia viera do sol, o maravilhoso responsável pelo calor da
terra, capaz de gerar alimentar sua foram de vida, o mesmo aconteceria com elas, deduziu, as
arvores seria recarregadas pelo astro rei durante o dia e sua fonte de suprimento seria infinita
e sem riscos, matar pessoas era algo complicado, gerava perseguição de seus iguais.
98
Não precisaria mais matar, a não ser nas lutas, lamentou as mortes causadas e até chegar
onde estava, mas fora necessário, o único crime do amor é não lutar por ele, Karina merecia
tudo aquilo e muito mais, ademais, não matara nenhum de seus cidadãos e sim inimigos,
infiéis, matá-los-ia em combate algum dia, fazê-lo para preservar sua vida era totalmente
válido, tentava se justificar.
Foi para casa e não sentiu o sono da morte ao qual estava acostumado, permaneceu
acordado e arriscou abrir um pouco a janela, enfrentou o sol frente a frente, não lhe fez mal,
alcançou o pátio e andou entre os demais, mandou selar um cavalo e galopou até o manso
regato existente ao sul do castelo onde se banhou nas águas límpidas como qualquer homem
comum. Não sabia como julgar o acontecimento, se estava curado ou livre, mas os dias de
agonia haviam terminado, podia sobreviver sem matar e não estava mais condenado à noite
eterna na qual se transformara a sua vida, seria totalmente feliz afinal.
Podia se comunicar com os demais, havia uma simbiose entre eles, então provocou a
vinda deles a Rardemuc para a grande noticia, e, levá-los ao mesmo local onde fizera seu
teste, haviam muitas arvores ali, iriam se alimentar da natureza e no dia seguinte finalmente
poderiam juntos dar um passeio por Rardemuc ao sol para ver a vida sob o mesmo prisma dos
demais viventes e à tarde iriam todos se banhar no regato, seria maravilhoso, passaram muito
tempo festejando o acontecido, e depois decidiram sair para se "alimentar".
Todos os acompanharam radiantes, até o local onde no dia anterior ele se refizera e ao
chegar seus olhares se cruzaram em silêncio, a parte do bosque onde Klaus se refizera se
transformara em um enorme deserto, ele mesmo não fazia idéia de quantas arvores havia
utilizado em uma única "refeição", mas devastara uma área enorme, ali então havia apenas a
terra pobre e sem vida, nem mesmo a grama onde ele sequer tocara havia sobrado, não havia
saída, todo o reino de Rardemuc seria insuficiente para alimentá-los se entreolharam
desolados, caso tentassem se alimentar dos vegetais em breve transformariam todo o
continente num enorme deserto, e interromperiam a cadeia alimentar, ademais o desastre
causado á vegetação chamaria muita atenção, não só dos humanos como também do
protetorado, seriam novamente perseguidos à exaustão por entes cujo poder se eqüivalia ao
deles, a morte de alguns humanos aqui e ali pouco significava. Estavam condenados à noite e
a matar eternamente e ainda a gerar lendas por toda a terra graças às conseqüências ainda
desconhecidas de seus atos futuros.
Quando Klaus matou a primeira vez estava exaurido, quase no fim de sua energia, e
queria rejuvenescer para Karina, então sugava suas vitimas até matá-las, agora, refeito não
precisava nem matar com freqüência, podia passar longos períodos sem fazê-lo. Ao passar o
conhecimento para os demais dissidentes houve problemas, os mais jovens não precisavam de
muita energia e as vezes deixavam a vitima viva, destruindo-as em uma segunda ou terceira
investida dias depois. No entanto, descobriram algo impressionante, a vitima ficava com um
espectro doente e faminto e se acidentalmente começasse a sugar energia de alguém não
sabia como parar o processo e seguia até matá-lo se transformando também em um ser da
noite, sem ter conhecimento disso, então em alguns condados pessoas gritando ao sair ao sol,
morrendo cobertas de feridas e geralmente deixando morto um ente querido ou amigo
próximo começou a ser um fato não muito raro e sem explicação a não ser a decorrente de
superstições e no inicio sem sobreviventes.
Mas de tanto acontecer veio o verdadeiro problema, algumas vítimas tidas como mortas
e enterradas antes do fim definitivo descobriram como sobreviver e se tornaram quase tão
poderosos quanto seus criadores, mas com uma dose de maldade muito maior, espalhando a
praga agindo nas trevas onde causaram muitas mortes. Estes novos monstros, pessoas do povo
e sem todo o poder econômico de Klaus e seus amigos não tinham condições de manter uma
fortaleza e acabaram por achar suas próprias tumbas o lugar mais seguro onde podiam estar,
99
alimentando lendas sobre homens e mulheres vestidos de negro ou com mortalhas
alimentando da vida de outrem e morando em caixões.
se
UM DIA TERRÍVEL PARA ATHOS. UM PROTETOR CAUSANDO A MORTE.
Athos deixou suas lembranças de lado e passou a dedicar sua atenção ao problema ora
enfrentado, Klaus, até por sua cultura de incontáveis séculos fora previdente e conseguira
aprender a dominar a energia antes de voltar ao leito de Karina, Thomas não sabia como fazêlo, iria sugar Marina até não existir um só átomo de energia nela, no entanto o processo seria
lento, o "parasita" não estava agindo voluntariamente; se estivesse; e quisesse; podia liquidar
o assunto em tempo recorde, porém, mesmo assim mais dez ou quinze minutos e ela não
resistiria, estaria morta e ele transformado definitivamente, ai precisaria ser destruído.
Mas de certa forma a sorte estava ao seu lado, ao ver Ítalo entrar e retirá-la de cima dele
para leva-la para o outro quarto Athos se sentiu aliviado, ela acordaria em breve e estaria
quase perfeita, porem um pouco febril, então ele seria obrigado a recompor totalmente suas
energias, isso poderia ser feito apenas com um pouco de sol, mas, como estava era também
terrivelmente perigosa.
- *Conforme caminhava para o outro quarto Ítalo sentia a perna de Marina em contato com
seu braço, uma onda de prazer percorria seu corpo, sentiu-se culpado com isso, embora não
pudesse evitar, não era um prazer comum decorrente do desejo, era algo estranho e
inexplicável. Conforme andava suas forças pareciam diminuir, precisou muito esforço para
atingir o outro cômodo e coloca-la na cama, então mal podia se mover, tal o cansaço; andou
cambaleaste até o quarto onde estava Athos e achou a cama o lugar mais convidativo do
mundo jogou-se sobre ela e adormeceu. Sofia veio até o quarto e o encontrou, tocou sua testa
para ver se tinha febre e começou a se sentir mal, mesmo assim não queria deixá-lo, ate cair
ao lado da cama, não tão fraca como os outros, caminhou até seu quarto e pediu a Gianne para
chamar o Doutor Campos, médico da família.
- *O Doutor Campos chegou e foi atendido por Gianne, quando soube dos últimos
acontecimentos ficou preocupado, todos os moradores da casa doentes? Com febre? Era uma
epidemia, tinha pouca dúvida disso. Isolou a ala superior da casa onde deveriam ficar apenas
Marina, Ítalo, Diego e Sofia, os atendeu usando mascara cirúrgica e luvas, sem nenhuma
conclusão definitiva, mas também sem maiores problemas. A energia só fluía através do
contato direto da pele, não foi afetado.
A situação estava ficando fora de controle, um espectro desesperado e preso é perigoso,
é como se fosse nosso coração, não o faz por nossa vontade, o pulsar desse é natural enquanto
existe a vida, como também o são os atos assassinos cometidos por aquele e Athos tinha no
momento três deles, ficava difícil saber qual a conclusão dos acontecimentos.
- *Thomas, Marina, Ítalo e Sofia estavam todos nesse estágio agora, se um deles sugasse
alguém até o fim estaria irremediavelmente perdido, seria transformado em uma criatura da
noite; Thomas quase fizera isso; então quando o Doutor Campos colocou os quatro de
quarentena Athos achou ótimo, mas a noite ia chegar, Sofia, a esposa de Ítalo já deixara claro:
não iria deixar o marido sozinho à noite. Se fosse uma praga já estava contaminada;
justificou. Athos estava desesperado, seu corpo estava sem espectro sob a cama e ele não
tinha força para movê-lo, se alguém o localizasse suporia- no morto, a casa ia ficar cheia de
policiais e ele sujeito a uma autopsia; precisava de ajuda.
100
- Preciso de ajuda. - gritou.
- Vamos ajudá-lo, estamos aqui para isso, viu os homens de preto ao seu lado.
- Quero um canal direto com a mesa do protetorado.
- Não precisa, nós ajudamos.
- Como aquela ajuda lá na montanha, não obrigado, estou em sérias complicações: um
canal.
- Você e quem sabe, mas lembre- se: sua moral já não está lá estas coisas.
- Quero um canal.
Athos expôs todos os seus problemas, uma situação iniciada no inicio do Cristianismo e
combatida por séculos sem sucesso completo, ainda haviam alguns dissidentes foragidos,
embora não se constatassem novas mortes por eles já há muitas décadas.
A presente situação estava quase criando um novo foco, se alguém fizesse uma vitima
não seria um camponês ignorante, e sim um elemento instruído, e conhecedor de muitas
histórias e lendas originadas pelos dissidentes, poderia entender o os acontecimentos e se
transformar em um monstro difícil de controlar.
- Athos, estamos tristes com Você, uma folha de serviço perfeita há séculos de repente
começa a desmoronar, tiramos Você e Thyphany do serviço para se dedicarem cada um a uma
única pessoa sobrecarregando os demais, e vocês não conseguem cuidar cada um de um
mortal, vou substituir vocês no serviço.
- Não podem! É pelos protegidos, já estão acostumados conosco, depois não é culpa
nossa, Thomas não é um mortal comum. Estamos falando de um espectro poderoso e
extremamente determinado, de um ser totalmente consciente de sua vontade e diferente dos
demais mortais. Lembrem- se: o fato dele poder me ver começou tudo isso, nunca aconteceu
antes, portanto não se trata de um homem como os demais. Ele é obstinado e as vezes suas
reações tornam-no diferente de qualquer habitante da Terra.
- Você se fez visível, foi um erro.
- Não me fiz visível, os policiais não me viram.... e os quatro do lado de lá? Ele também
os viu! Vocês ficaram de fazer pesquisas nesse sentido, lembram- se?
- Isso é demorado, pode levar anos, talvez séculos. Não temos nenhuma novidade
pesquisando os bêbados. Não acontece nada diferente com eles, temos feito testes com ......
- Esperem! Não podemos nos perder no assunto agora, queremos continuar com o caso
até o fim, olhe nossa história? E a de Thyphany? Estamos entre as melhores dos protetores em
milênios.
- Está bem. Estamos enviando ajuda Athos, vamos tirar mais gente do serviço para
ajudá-lo, mas limitando seus poderes. O espectro de Thomas não estará mais sobre o seu
controle. Você não o levará mais para passear fora do corpo e só se moverão quando juntos,
como todos os mortais, usando suas pernas, maquinas e animais.
Athos se sentiu cada vez mais forte enquanto vários protetores passavam perto deles,
mas como doavam, cada um, uma parcela mínima de energia para não serem também
afetados, foi demorado, mesmo assim quase ao cair da noite estava refeito Deveria estar
acontecendo o mesmo com os outros.
Saiu de sua posição sob a cama e se transportou para a entrada da casa, tocando a
campainha.
101
Estava conversando com Gianne pelo interfone quando um carro da saúde pública
encostou em frente:
- Senhor, senhor.... não pode entrar ai, a casa está de quarentena.
Athos não esperava uma situação destas, agora era inútil tentar revertê-la com truques e
seus conhecimentos. o Doutor Campos era um sanitarista dos mais respeitados e quando
detectou uma febre com aquela capacidade de se multiplicar, ele mesmo não abandonou mais
a casa. Precisava jogar conforme as regras.
- Você está falando da febre?
- Sim senhor.
- Indigestão! Chocolate estragado! Todos comemos eu também passei o dia com febre,
sinta minha temperatura agora: está normal, eu trouxe o remédio para os demais infectados.
- De jeito nenhum! Fique longe de nós.
- Existem amostras desse chocolate? - perguntou o médico de serviço.
- Claro! Estão no meu quarto. Alguém pode subir comigo para buscar?
- Não! O senhor traz as amostras aqui e joga dentro deste recipiente e vamos pedir um
carro para buscá-las. Enquanto não sair o resultado todos ficam dentro de casa.
- *Os suspeitos de infeção contagiosa, inclusive Athos, foram obrigados a permanecer em
seus quartos, o Doutor Campos analisou o remédio entregue por Athos, mal não faria, então
ministrou a todos. Gianne serviu o jantar a todos usando luvas e mascará cirúrgica, quando
mesmo assim desmaiou na saída do corredor ele ficou desesperado e ela, mesmo não tendo
febre, não teve mais autorização para abandonar o pavimento superior da casa. No dia
seguinte teria os primeiros resultados dos exames de sangue colhidos dos pacientes e das
amostras de chocolate fornecidas por Athos e suas decisões seriam guiadas por eles, mas
como Athos preparara tudo, o resultado foi conclusivo: o chocolate analisado continha uma
bactéria extremamente nociva, mas facilmente combatida pelo organismo, e todos na casa se
encontravam em perfeita saúde.
- *- Agora você vai ficar quietinho dentro de seu corpo, passear nunca mais. Marina vai
visitá-lo quando quiser e pronto. Não tenho mais como controlar seu espectro, e você, claro,
não tem o poder de movê-lo, mas pense: está tudo correndo como queríamos, então sinta- se
feliz. Amanhã vai ser outro dia.
- Ótimo Athos. Mas como ainda é cedo, eu sugiro umas cervejas, Ítalo é claro não as
trará, então providencie uns salgadinhos gostosos as geladinhas.
- Adorei a idéia. Tive um dia terrível e este meu corpo material está terrivelmente tenso.
- Uns Stanheingeres também viriam bem, enroladinhos de siri e camarões podem
acompanhar os salgados.
- *- Muito bem, então Você agora se julga o novo amor de Marta Saint'Clair? Ela no
momento já não pensa em mim? Tolice! Ela é apaixonada por Diego Montone.
- Pelo menos acho, passamos uma bela tarde juntos e amanhã vou marcar com ela de
novo. Tente chamá-la para sair.
102
- Não acredito em Você, vou ligar e ela com certeza vai aceitar, quanto vale?
- Não posso apostar dinheiro. Digamos uma rodada igual a essa por sua conta, eu trago
mas Você paga.
- Feito, agora vamos dormir, estou cansado.
Thomas ficou só, ouviu a maçaneta da porta se mexer e Gianne se deitar junto a ele, na
verdade não desejava este fim de noite, mas, não tinha como explicar a garota, não fora esta
sua única incursão ao seu quarto - deduziu - e seu corpo se excitara muito nas últimas horas,
aceitou e correspondeu aos carinhos da governanta como Diego havia feito tantas vezes
antes.
- *Na manhã seguinte conversou com Athos, precisava se ver livre da garota, mas não a
queria com problemas. Ele a assediara, tirara proveito de sua condição de patrão, seu charme,
enfim, tinha culpa naquele relacionamento, não podia simplesmente demiti-la e lhe dar algum
dinheiro como indenização por serviços prestados, queria a felicidade dela, adorava-a, mas
amava Marina e Gianne era mais um empecilho em seu caminho.
- *Ítalo entrou no quarto do patrão logo cedo, se sentia bem e sem febre, abriu as janelas e
deixou o ar fresco penetrar no ambiente, foi ao banheiro e colocou o conjunto bordô a
disposição do mesmo, pediu a Gianne para trazer o café e se preparou para acordá-lo, mas não
foi necessário, Thomas olhava para ele, olhar compenetrado, grave.
- Algum problema senhor?
- Na verdade sim Ítalo, nosso relacionamento precisa ser revisto.
- Eu o ofendi de alguma maneira?
- Ao contrário, jamais me ofendeu, de repente me ocorreu algo, estamos vivendo em um
mundo diferente, o dinheiro migrou das mãos nobres, diariamente me vejo obrigado a
conviver com novos ricos, homens sem história, sem passado, nem sabem quem foram seu
avós, mas querem ser iguais a mim.
- E não são senhor? São homens ricos, tem dinheiro, poder.
- Poder? Sim. Dinheiro? Claro! Mas apenas isso, não tem nada para contar a não ser
quanto ganharam na bolsa, nas aplicações, na valorização imobiliária, qualquer idiota
agraciado com um prêmio milionário na loteria logo se comparará a eles, aprenderá a ganhar
dinheiro, a multiplicá-lo, isto é fácil! Mas algo nosso, meu e seu, jamais terão! Estirpe,
classe, orgulho de seu sobrenome, de seus antepassados nobres.
- Temos tudo isso senhor? - perguntou Ítalo estranhando o patrão.
- Sem duvida nenhuma, sabemos quem foram nossos antepassados, quais reis ajudamos
ou servimos como nobres ou serviçais especiais, fazemos parte de uma raça em extinção,
sufocados pelo capitalismo e a falsa democracia, podre, decadente como eram os reinados,
quero ser igual aos meus iguais e isso exige algumas mudanças.
- Quais senhor?
- Primeiro, não quero mais ser chamado de senhor por você nem por nenhum
empregado desta casa. Todos aqui tem uma história. Saburo descende de grandes samurais,
Gianne de nobres italianos, Sofia de nobres portugueses, e todos os demais tem seus méritos.
Fico feliz por viver entre iguais. Há muito não me sinto tão bem cercado. Agora por favor,
seja o Primeiro a obedecer a nova ordem.
103
- Claro Sen... digo Diego, agradeço por suas palavras, eu me orgulho de minha estirpe,
mesmo serviçais.
- Outra coisa. Quero fazer uma revisão em nossa relação de convidados, faça um prévia,
marque em azul quem deve permanecer com acesso a esta casa, depois eu marcarei em
vermelho, o resto deve ser eliminado.
- Minha opinião não deve ser levada em consideração.
- Não sei qual deve ser mais importante, alguns de nossos convidados eu nunca vi, você
sim! Suportou a todos, sabe quem tem classe ou não, quero os novos ricos e esquerdistas de
plantão fora da minha vida.
Ítalo se retirou do quarto quase a explodir de orgulho, Diego Montone agora já não era
mais um patrão para ele, era um Deus. Mataria por ele.
- *- Vou tomar outra cerveja por sua conta. Você já não conta para Marta Saint'Clair,
Athos é o novo rei! Isso acontecerá com toda a sua agenda, muito em breve. É só uma questão
de tempo, como seus amigos da esquerda, todos passarão a fazer parte do passado..
- Ótimo. Na verdade só tenho tempo para Marina, e quanto a Gianne?
- Já dei um jeito nisso.
- Sem se envolver com ela é claro?
- Ciúmes?
- De jeito nenhum. Mas ela está nesta casa. Todos deviam saber a respeito dela e Diego.
Não quero comentários maldosos, ou vê-la machucada.
- Arrumei um teste para ela na televisão, ela vai combinar com os produtores, em um ou
dois dias ela não estará mais aqui.
- Veja isso! O canalha ainda tem o desplante de se candidatar depois de todos os
escândalos.
- Quem? - perguntou Athos com a voz mole de quem já ingerira muita bebida.
- Paulo Marconi, um dos maiores canalhas de nossa política, mas com um eleitorado
incrível, como eu gostaria de matá-lo.
- Pensando bem não seria difícil. - Athos trouxe uma barra de cristal em suas mãos Esta é a linha da vida dele, quebrada ela se extingue.
- Vou rompê-la! - Thomas bateu as mãos sobre a tenra peça enquanto Paulo Marconi
desfalecia em frete às câmeras e pessoas corriam com ele para o hospital.
- Eu estava brincando Thomas! Mas nem tudo está perdido. Vou salvá-lo. Ainda não é
tarde demais. - Athos correu para o seu próprio quarto, Gianne vendo- o sair foi para o de seu
amado. Diego Montone.
- *Athos se viu no túnel de onde ninguém retornava, Paulo Marconi estava ali,
desesperado, sem saber para onde ir e foi abordado.
- Senhor Paulo, estou aqui para ajudá-lo, deseje viver e viverá.
- Eu faço tudo da minha maneira, não preciso ouvir seus conselhos, quem é você?
104
- Não posso revelar isso! Apenas deseje viver, peça- me isso, não sou seu protetor,
preciso ter seu pedido formalizado.
- Entendi. É um agente da esquerda tentando me fazer dever um favor. Quero discutir o
preço. Não vou pagar nada alem do equivalente ao seu serviço.
- Não sou político. Estou tentando salvar sua vida, o senhor não tem protetor. Se não me
pedir isso não posso ajudá-lo.
- Quem você pensa ser? Já reverti convenções, venci tribunais de contas, a opinião
pública...
- Veja isto. É seu corpo sobre uma mesa de cirurgia. Os médicos já estão desistindo.
Deseje viver! Tudo se apagará de sua lembrança e estará vivo. Por favor. O fim do túnel se
aproxima. Não posso tirá-lo de lá, eu mesmo não posso atravessá-lo meus poderes são
limitados por regras inquebrantáveis. Se demorarmos muito para agir não poderei fazer mais
nada, sua vida estará irremediavelmente perdida.
- Esqueça! Não sou idiota. Vocês me drogaram, querem tirar alguma vantagem disso.
Mas mesmo sob o efeito de drogas eu sei negociar, é não sei qual o seu jogo. Mas vou perder
se não conseguir dar as cartas, ou ao menos saber pedir outras. Quero tudo muito claro:
quantas cadeiras vamos perder ou ganhar, quantos votos preciso conseguir,
- Não quero nada, apenas peça minha proteção.
- Pedir não está em meu dicionário, eu exijo, negocio, troco, dou e recebo, jamais
peço! Faça seu preço e pagarei se achar justo, mas não me aborreça com tolices,
- Observe os médicos, veja você mesmo, estão desistindo, e o farão se não me pedir.
- Dane-se! Eu só farei algo se souber quais as conseqüências de meu ato. A droga de
vocês não vai tirar nada de mim.
- Você não está drogado, e sim morrendo.
- A propósito. Não sei quem o autorizou a me chamar de você. Chame- me de senhor ou
governador, saiba com quem está falando.
- Já não tenho mais tempo, peça- me ou deixe de existir. Não vou poder ajudá-lo
sozinho.
- Jamais, eu nunca vou pedir nada a ninguém, eu compro ou ven...
Athos observou os médicos. Eles havia desistido. Um lençol foi colocado sobre o corpo
de Paulo Marconi. Tudo havia acabado. Voltou ao seu corpo e foi ver Thomas, este já dormia.
Inconformado foi pedir ajuda ao Empíreo, o corpo ainda estava intacto. Antes da autópsia
ainda conseguiria resgatá-lo com ajuda.
- *Thomas não agüentou ficar sozinho no quarto, não podia ver Marina e isto o deixava
terrivelmente nervoso, colocou um chapéu, óculos escuros e uma velha barba postiça
comprada para o carnaval e de taxi foi para o Coliseu, estava com saudade do bar, talvez
avistasse algum amigo por lá, não o reconheceriam mas ele podia convidá-los para uma
cerveja, já fizera isso antes, no entanto um surpresa desagradável o aguardava lá.
Júlio, um ex-namorado de Anabela desconfiara de um romance dela com Mario
Sandoval - nome de batismo de famoso integrante de uma dupla sertaneja amiga dos irmão
dessa, também cantores - e mandou segui-los, o detetive entregou a ele uma série de fotos
bastante comprometedoras, material suficiente para provocar um escândalo e ele pode ouvir
quando ele combinava com um companheiro uma forma de tirar dinheiro da ex-namorada.
105
- Veja bem, eu rompi com Anabela sem lhe mostrar este material, isso me deixou com o
orgulho ferido, mas preciso ser frio. Tirar proveito disso. O pai dela vendeu todas as terras,
entrou muito dinheiro. Eu a segui estes dias, estão morando em uma casa de dar inveja, ele
com certeza não vai querer ver este material nas mãos da imprensa.
- E qual o meu papel nisso?
- Quando este material for do conhecimento deles posso ser suspeito. Então você
guarda tudo na sua casa, amanhã você pega duas fotos dessas e manda pelo correio, uma para
este endereço: é do pai dela, e outra para este: é do Mario Sandoval. Vamos tirar dinheiro dos
dois.
- Quanto?
- Ainda não pensei nisso. Quando imagino um número, primeiro acho pouco, depois
acho muito, não sei mas mixaria não vai ser.
- E a minha parte?
- A metade! Nem um tostão a menos.
Thomas sentiu a revolta dentro de si. Já a sentira antes quando foi procurar Marina em
Morada do Simum. Seus olhos brilharam perigosamente. Aqueles elementos estavam
tramando para complicar ainda mais a vida de Marina. Poderiam matar Isilda Schiavonne, já
doente, de desgosto, para esta as duas filhas eram puras, aguardavam o casamento para se
tornar mulher, aquelas fotos e ainda mais com um homem casado iria destruir suas ilusões.
Eles não perderiam por esperar. Disse consigo.
Os dois amigos saíram e Thomas os seguiu, quando eles entraram na Rua Canteiros
deixaram claro sua intenção, esta só ligava o local onde estavam com a Av.Barcelos recém
inaugurada, não havia uma única casa naquele trecho só terrenos baldios, não precisava seguilos de tão perto. Não podiam se evadir com facilidade.
Os rapazes desceram a rua erma, mas não foram até a avenida nova. Entraram em um
dos terrenos para se drogar. Quando os encontrou eles estavam bastante tranqüilos, não
esperavam ninguém ali, mas um almofadinha não lhes inspirou medo, não parecia policial.
- Ola rapazes vocês tem algo muito importante para mim, e só me entregar e eu vou
embora.
- Você está louco otário? Não temos nada de seu não. Vai saindo! Ou vai ficar aqui
mesmo até o rabecão vir te buscar.
- Eu estou pedindo com jeito, não me obriguem a ser violento, não vou pedir uma
terceira vez.
Júlio olhou para aquele homem e não perdeu a tranqüilidade, ele falava sério, pode
sentir, mas eram dois, tinham duas facas, era o momento de mostrar a ele quem dava as
ordens no local.
Mas toda sua calma acabou quando viu o homem, com facilidade e rapidez espantosa,
levantar o companheiro como se fosse de papel e quebrar sua espinha contra os joelhos,
jogando-o já morto para o chão. Queria correr, queria chorar, implorar, mas não fez nada
disso, o brilho nos olhos do adversário deixou claro a inutilidade de qualquer reação, teve
morte instantânea ao ser jogado contra uma árvore como se fosse um pequeno gato.
Thomas queimou as fotos e os negativos ali mesmo no local, não se preocupou em
fugir, naquela hora só loucos ou pervertidos desciam a Rua Canteiros.
106
Quando chegou na avenida para pegar um taxi seu semblante já era sereno, ao acordar e
ver seus sapatos sujos de lama achou estranho, o Coliseu era um bar muito limpo e ele não se
lembrava de ter caminhado por nenhum trecho sem asfalto.
O PASSADO NÃO PODE SE REPETIR; O FIM DE THOMAS
Na manhã seguinte Thomas ficou inutilmente parado em frente à janela. Viu quando
Ítalo saia com o velho Landau para levar Gianne ao aeroporto, mas sua expectativa, seu
grande desejo não se transformou em realidade, Marina não apareceu para conversarem
conforme esperado.
Não tinha o numero do telefone dela, fora adquirido por Athos, ausente, mas sabia onde
era a casa, eram poucos quarteirões, então acompanhado por Saburo andou até lá, olhou a
fachada da mesma e achou linda, seu protetor havia realizado um trabalho irrepreensível, o
jardineiro apertou a campainha e aguardaram, ninguém se comunicou com ele, o portão foi
aberto e Salvatore Schiavonne apareceu à sua frente.
- Desculpe a demora, não estou acostumado com estas coisas malucas colocadas na
casa, inter.... inter não sei da quantas, vi o senhor pelo monitor e reconheci imediatamente. É
o Diego Montone não? Já o vi algumas vezes na televisão.
- Sim senhor, muito prazer. - estendeu a mão a Salvatore.
- Vamos entrando. Marina me falou de você, eu devia ter te ligado, mas.... cê sabe, os
ricos acordam tarde e eu estava esperando um pouco, mas entre... entre...
- Já vou entrar. A propósito Saburo. Pode ir embora, o senhor Salvatore me ajudará de
agora em diante. Athos virá me buscar..
Na sala, ficou esperando Marina aparecer, inutilmente, quando o pai dela retornou trazia
uns copos de refresco.
- E Marina?
- Ela não está, por isso eu deveria ter ligado, ela ficou dois dias inteiros presa em sua
casa e deixou muitas coisas pendentes. Foi resolver.
- Bem nesse caso acho melhor eu me retirar. Só vim aqui para falar com Marina.
- Espere. Antes venha conhecer nossa casa, dela na verdade, mas penso ser essa minha
morada o resto da vida, não tenho mais coragem de voltar à minha cidade.
- Vou conhecer a casa em outra ocasião, não enxergo então não há motivo para esta
excursão, sobre não voltar a sua cidade, me explique o motivo.
- Eu tinha uma empregada, Sandra.... uma tentação... Morada do Simum é um dos
vilarejos mais atrasados deste país..... meus interesses estão todos lá. Os Schiavonnes
desbravaram aquela região, quando meu bisavô, Ladislaw Schiavonne, se interessou pelo
local... era tudo selva, comprou todas as terras próximas pois eram baratas e improdutivas,
investiu e transformou tudo em um paraíso cafeeiro e não parou de adquirir propriedades,
uma imensidão, mas queria Morada do Simum como existe, uma réplica de sua antiga vila na
Itália. Não era para crescer como Palermo, Roma, Milão... e sim para ficar daquele tamanho,
só cresceria o suficiente para alojar mais colonos. Ainda vivo dividiu as terras entre seus
dezesseis filhos e seus incontáveis netos, mantendo as próximas da vila nas mãos dos mais
fieis. Os mais exaltados impedidos de fazer alterações no local fizeram um consórcio de suas
terras e fundaram outra vila, também nas terras dos Schiavonnes, próxima..... mas com outra
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filosofia..... pensavam diferente, queriam o progresso, tinham muito dinheiro... em poucos
anos havia uma enorme cidade ali, emancipada e nos comandando.
- E sua empregada onde entra nisso?
- Desculpe- me estou divagando, mas deixe um pobre velho recordar um pouco.
- Claro.
- Quando a "Cidade Maldita", cresceu demais - Salvatore jamais se referia à Nova
Palermo pelo nome - trouxe estradas e valorizou todas as terras da região, muitos de meus
tios e primos então já donos de suas terras venderam tudo e se mudaram para São Paulo, meus
pais não quiseram vir, ficaram lá e lutaram contra a emancipação de Morada do Simum.
Tolices! Não aceitar a nova metrópole..... outro erro..... nossos filhos precisam vir morar em
São Paulo para estudar.
- Vocês tem uma cidade grande perto.
- Eu jamais deixaria meus filhos freqüentar aquela maldita cidade.
- E então?
- Morada do Simum não tem indústria, comercio, nada! Só empresas familiares; e ainda
assim botecos, o hotel conjugado com o armazém, a escola e o PABX. O único trabalho
possível é a lavoura. A escola é freqüentada na grande maioria por mulheres e elas para
estudar são obrigadas a trabalhar em casas de família, então eu tinha aquela tentação a nosso
serviço. Acredite! Eu sou um homem decente. Mas Sandra... se mostrou insinuante,
apaixonada, quase maldosa naquela situação.... começou a me provocar e quando notou
mexer comigo; mexia é claro; e como! Acentuou sobremaneira essa provocação, eu
normalmente saia da casa e ia para o bar esperando minha mulher voltar da escola.
- Ela é professora?
- Não, Isilda não tem formação pedagógica, é secretária, faz fichas dos interessados,
recebe papéis, coisa fácil: um emprego político. Para mim ela é maravilhosa, me ajuda por
acreditar na minha inocência, mas está muito doente, não vai viver muito.
- Lamento, sinceramente.
- Quando descobri a doença de Isilda deixei de freqüentar o bar e Sandra descarregou
toda sua provocação para cima de mim, naquela manhã ela exagerou, estava um dia muito
quente e a preguiça me pegou, quando acordei ela me acariciava, jurava me amar com sua voz
quente e macia, deixava claro sua paixão por mim desde sua mais tenra idade, falou de seus
sonhos comigo e agradeceu aos santos ter neste momento a oportunidade de transformar seu
sonho de menina em realidade, de viver ao meu lado.
- Então ela simplesmente saiu gritando para a rua?
- Não, desta vez, nessa oportunidade ela me amou, fê-lo muitas outras vezes.... se Isilda
souber disso.... mas no dia fatídico, naquele maldito dia.... estávamos apaixonados e era seu
aniversário, eu devia ir à Cidade Maldita e lhe comprar um presente. Ela queria um anel e eu
não pude sair do vilarejo, ela ficou muito magoada. Fui tentar levá-la para a cama e ela se
negou, eu fui puxá-la para mim pelo vestido e ele rasgou, então ela ficou apavorada.
"- Meu deus, como vou explicar isto em casa? Meu pai me mata de bater! Comprou este
vestido a contragosto na semana passada."
- Eu respondi: não se preocupe! Vou dar um jeito. Havia um vestido idêntico no guardaroupas. Marina o comprara e não gostou dele. Elas tem praticamente o mesmo corpo. Então
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fui buscá-lo. Quando voltei ela já havia corrido para a rua gritando. Não demorou muito e o
delegado estava em minha casa. Agora estou aguardando o julgamento.
- Então não vai ter problema. É só provar isto.
- Como? Tudo aconteceu entre quatro paredes, a cidade está revoltada contra mim, vai
ser a palavra dela contra a minha. Quem sabe.
Se ela confessar voluntariamente. Mas não
acredito nisso. Ela morre de medo do pai.
- Posso ir falar com ele. Tentar um acordo.
- Impossível! Aquela gente não faz acordo com questões de honra. Mata por isso.
- Mesmo assim vou até lá. Quem sabe consigo alguma coisa. Sou muito persuasivo.
Agora eu gostaria de voltar para casa. O senhor pode telefonar e pedir para alguém vir me
buscar?
- Absolutamente, eu o levo, será um prazer.
- *Thomas estava descansando no quiosque da piscina, Ítalo apareceu na frente dele
vestido com roupas rotas e baratas empurrando uma velha moto Harley-Davidson, subiu a
escada de acesso ao local e pediu dinheiro ao patrão.
- Porque dinheiro Ítalo? As compras chegaram ontem, vi o caminhão entregando.
- Hoje é quinta- feira Diego. Vou comprar seu remédio como sempre.
Diego ficou olhando para Ítalo, devia muito ao mordomo, às quintas-feiras ele não
tomava banho pela manhã, vestia uma roupa surrada e torrava uma quantidade de café
suficiente para uma semana, depois, suado como estava e exalando um cheiro desagradável
pegava aquela velha moto e se misturava aos maus elementos dos bares dos bairros próximos
ao centro da cidade e quando voltava trazia consigo a droga do patrão, a quantidade não era
suficiente para enquadra-lo como traficante, mas garantia o usuário por uma semana, assim o
repórter inatacável continuaria assim, se acontecesse uma apreensão seria nas mão de seu
mordomo.
- Ítalo, você está fedido, acho melhor tomar um banho e mandar esta moto para uma
bela reforma, gosto dela.
- Mas senhor! - respondeu Ítalo inconformado. - Não posso me misturar com aquela
gente muito bem vestido como é o meu habito, o preço iria triplicar e fica mais fácil alguém
me reconhecer.
- Ítalo, você nunca mais vai se misturar a eles, resolvi seguir seus conselhos. Este
capitulo da minha vida está encerrado. Droga para mim, a partir de hoje, só alguns programas
de entrevista, afinal às vezes sou obrigado a assisti-los.
- O senhor está falando sério.
- Como nunca falei.
- Deus seja louvado. - e acelerou a moto para fora da mansão.
- Ele não deve ter entendido! - falou Diego para si mesmo.
Athos andava em direção ao quiosque, estava desanimado e cabisbaixo, sua roupa
sempre impecável já não parecia tão bem cuidada, seus sapatos estavam sujos.
- Como alguém pode ser tão teimoso e obstinado! - gritou antes de chegar ao local.
- Não entendi, repita! - respondeu Thomas
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- Como alguém pode ser tão teimoso e obstinado! - gritou, desta vez bem alto, mas já
subindo a pequena escada de acesso ao quiosque.
- Agora não precisa mais gritar, estamos próximos.
- É para descarregar a minha raiva, o homem era teimoso, desonesto, egoísta,
competitivo, corrupto, obstinado.... não conheço todos os adjetivos capazes de determiná-lo.
- De quem você está falando?
- Paulo Marconi. Eu estava com ele até agora tentando salvá-lo.
- Não é possível, ele já morreu há horas.
- Para vocês talvez. Não para mim. Enquanto não houvesse a autópsia eu poderia salválo. Agora não dá mais.
- Esqueça este crápula. Preciso falar com você.
- Não posso esquecer. Nós o matamos!
- Nós não. Eu. A responsabilidade é toda minha, você não atingiu a linha da vida dele.
Esqueça. O país estará melhor sem ele.
- Eu lhe dei a condição de fazê-lo. Sou tão culpado, ou mais. Você não tinha certeza das
conseqüências de seus atos. Estava embriagado e desconhecia o significado real daquela
pequeno bastão de cristal
Athos não se conformou com a culpa assumida por Thomas e se afastou, deu a volta na
piscina e estava se dirigindo para a casa quando Thomas gritou:
- Athos, Athos.... venha cá, preciso falar com você, tenho um assunto importante.
- Agora não, preciso ficar só, estou arrasado.
- Eu estou arrasado, você não pode estar mais....
- Está bem, espere um pouco, já estou indo.
Ele veio andando vagarosamente e quando chegou a piscina não a contornou.
Continuou andando como se houvesse chão e subiu até o quiosque, seus ouvidos aguçados
ouviram quando alguém gritou:
- Dona Isabel, Dona Isabel, o homem está andando sobre as águas, ele anda sobre
as águas, venha ver.
Isabel Maldonado Mariano chegou até a janela.
- Quem está andando sobre as águas, Ireneide?
- Aquele homem de branco. Veja, está conversando com Diego Montone. Ele
atravessou a piscina andando, deve ser o Kung-Fu.
- Kung-Fu, Ireneide? Mais uma coisa dessas e eu tiro a televisão do seu quarto e vou dar
livros de filosofia para você ler.
- Não senhora! Não vai ficar assim. Vamos até a sala da segurança.
Isabel não estava acreditado, mas Ireneide não era uma sonhadora, então concordou em
segui-la.
Ireneide olhou o pequeno mapa e falou para a patroa:
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- Câmera três. - então foi ao aparelho de vídeo correspondente e tirou a fita
substituindo-a por outra e foram para o quarto do casal, ali ela rebobinou a mesma por alguns
segundos e soltou a imagem.
Ela não estava brincando. O muro não permitia ver as pernas de Athos, mas ele
realmente não havia dado a volta na piscina. Quando Ireneide o viu estava um andar acima do
local onde a câmera estava instalada.
- O homem estava realmente andando sobre as águas. Eu não estou louca.
- Vamos visitar Diego Montone e conhecer este fenômeno.
- Eu também?
- Claro! Se ele benze ou coisa assim você também tem direito. Afinal você o descobriu.
- *- Athos, a decoração daquela casa, aquilo custou uma fortuna! Como você faz para
materializar coisas tão bonitas, você estala os dedos e elas aparecem ou murmura palavras
mágicas?
- Como o gênio de Aladim?
- Isso.
- Nada disso. Já conversamos sobre isso antes.
- Não me recordo, sinceramente.
- Foram todos fabricados por pessoas da terra. Eu só os transportei.
- E de onde saiu o dinheiro?
- Dinheiro?
- É dinheiro! Para pagar os móveis.
- Eu não paguei. Eu os ganhei.
- Quem iria lhe dar tudo aquilo? Você trapaceou em algum concurso de televisão?
- Não, eu mostrei minhas carteirinhas aos donos das fábricas os estratos de suas contas
de caixa dois, onde entregavam suas mercadorias sem nota e coisas parecidas.
- Você fez chantagem?
- Ficou barato. Alguns sofás, uns eletrodomésticos, algumas peças de mármore e coisas
assim. Outro fiscal iria tornar tudo muito caro, e eu....
- E o elevador... isto demora para instalar.
- Eu sou rápido, peguei em uma obra abandonada do governo, iria ficar lá por anos e ser
jogado fora mesmo. Desta forma o dinheiro do contribuinte serviu para uma boa causa.
- Os quadros, as esculturas, eu entendo disso; e muito. São todos originais, você
chantageou os artistas? Eles já vivem muito mal, quem ganha o dinheiro são os
intermediários... e você aparece e rouba os coitados, não acredito.
- Eles foram muito bem pagos! Nunca receberam tanto por suas obras.
- De onde veio o dinheiro? Eu não tinha nada, o valor depositado na minha poupança é
uma pequena fortuna.
111
- Ai foi um pequeno furto, aliviei de alguns traficantes e bicheiros, eles não mereciam
mesmo aquele dinheiro. Também furtei alguns objetos, tirando-os dos armazéns de produtos
apreendidos. O governo nem sabe exatamente o conteúdo deles.
- Meu Deus! Felizmente Thomas está morto, senão você ia colocá-lo na cadeia.
- De jeito nenhum! Nada foi entregue diretamente na casa, não existe nenhum perigo,
depois! Quem vai fiscalizar uma residência?
Thomas é chamado ao telefone.
- Senhor Diego? A Doutora Isabel está aqui, devo fazê-la entrar?
- Claro, traga- a direto para cá.
- Quem é ela, perguntou Athos?
- Minha advogada, mora naquela casa fazendo fundos para a nossa.
- Então foi ela! Por isso está aqui, ela me viu atravessando a piscina. Posso sentir a
curiosidade nela.
- E agora?
- Vou dar um jeito na situação.
- Vai congelar a piscina?
- Nada tão espetacular, tchau.
Isabel sentiu uma pequena vertigem quando se aproximava da entrada da casa e foi
obrigada a sentar por alguns minutos. Ítalo lhe trouxe um copo d'água e tão logo se sentiu
melhor seguiu seu trajeto para os fundos da residência, onde ficava a piscina.
Ainda estavam um pouco distantes quando viram Diego em pé no meio da piscina de
costas para elas.
- Ele também pode. Comentou a empregada, está flutuando sobre as águas também,
aqui são todos monges.
- Impressionante! Diego Montone? Um monge com poderes sobrenaturais?
- O Diego monge? A senhora está brincando, ele está mais para demônio, um
mulherengo daqueles, são estes cursos de controle mental. Vou fazer um também, imagine se
minhas amigas me verem fazendo isso.
Diego começou a andar e saiu do outro lado da piscina, elas se aproximaram da borda e
viram a prancha azul clara estendida sobre a mesma.
- Atravessem pela prancha. Economiza uma bela volta! - gritou Diego.
- Não, vamos dar a volta, tenho medo de escorregar.
Diego caiu na água e nadou para sair da piscina, dali foi ajudado por Athos até atingir o
quiosque.
As mulheres deram a volta e decepcionadas com a descoberta da prancha e a
normalidade de tudo, subiram para o quiosque, onde foram apresentadas a Athos.
- Vou pegar umas cervejas para nós, você também toma Ireneide?
- Posso Dona Isabel?
- Claro, estamos a passeio, fique à vontade.
- Me ajude aqui com os copos Athos.
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- Estou indo, não se desespere.
- Tire- a das minhas costas. Quero ficar livre desta mulher. - cochichou Diego para
Athos.
- Esta também? Não está na agenda.
- Claro! É minha vizinha. Está na agenda da casa, quero ela fora da minha vida.
- É o famoso Ted! - ironizou Athos enquanto ia para junto das mulheres, alguns
minutos depois ele se afastava com Ireneide, em direção ao galpão de serviços, uma legitima
representante tradicional dos "três bês", "boa", bonita e "burra"
Isabel tão logo se viu a sós com Diego se transformou. Não era mais a altiva advogada e
sim uma mulher zangada.
- Você não me procurou mais? Fiz algo para lhe desagradar?
- Além do fato de você ser casada com um amigo e ser minha vizinha nada. Gosto de
Mariano. Foi um choque quando descobri quem era o seu marido. Nunca liguei para o fato de
mulheres terem compromissos, mas a alguns eu respeito.
- Não vamos ficar casados por muito tempo. Ele descobriu uns casos meus e vai querer
a separação.
- Uns casos seus! Quem é você? Messalina? Pratica sexo por atacado?
- É uma longa história. Prefiro não comentar agora, quem sabe outro dia. Gostaria de
continuar contando com seu prestígio ao meu escritório após o meu divorcio.
- Não se preocupe. Vocês dão uma excelente assessoria. Quando a contratei eu não
imaginei um romance entre nós ou me preocupei com quem era casada, então se divorciar
dele agora também não altera nada; no entanto; quero manter o respeito por Mariano. E
mesmo vocês estando separados eu não vou mais continuar com nosso relacionamento
- Entendo e aceito. Vou estar muito ocupada preciso conversar com todos os clientes e
vizinhos. Mas vou esperar ele dar o primeiro passo. Estou falando com você porque temos
mais intimidade.
- E vai contar essa história a todos eles?
- De jeito nenhum! Sou uma advogada e não uma idiota, mas se ele tornar a coisa
pública não quero ver você chocado.
- Não estou chocado, agora vamos tomar essa cerveja e falar de outras coisas, posso ter
problemas com o pessoal do partido. Você sabe a respeito da chantagem deles e sempre me
aconselhou a aceitar, mas agora existem alguns fatos novos.... - foram interrompidos por
Athos;
- Thomas? Ireneide quer dar uma volta de Mercedes, posso pegar o carro?
- Claro. Pegue a chave com o Ítalo.
- *Athos retornou com Ireneide apenas no fim da tarde, Thomas estava levando Isabel até
o portão e então foi convidado a entrar no carro:
- Entre ai. Ítalo me pediu para deixar o carro no galpão, vai dar uma polida nele, ficou
bravo com o brilho do carro de Marina.
- Vamos lá! Só não entendi esta história de Ted?
113
- Ted? Terror das Empregadas Domesticas, a garota é um furacão, porém e meio
bobinha. Agora está na minha.
- Não era ela. Você devia ter cortejado Isabel. Eu não tenho nada com a empregada,
nem a conhecia.
- Bem. Ainda está em tempo. Desculpe pela nossa falha!
- Não precisa fazer mais nada, a conversa com Isabel acabou resolvendo o assunto,
deixe- a em paz... já tem problemas suficientes....
- *À noite Diego estava incontrolável. Não conseguira ver Marina durante o dia, ligara
para sua casa às oito e ela ainda estava ausente, depois ficou muito tarde para tentar uma
visita, entristecido ele apelou para Athos.
- Me leva até lá, quero apenas vê-la, nada mais.
- Diego entenda! Os últimos acontecimentos custaram a mim a perda deste poder. Não
posso mais mover seu espectro, se você quiser eu levo você de carro, tocamos a campainha e
fazemos uma visita.
- São onze horas criatura! Vão pensar mil besteiras a meu respeito. Não posso fazer isto.
- Então, o jeito é dormir e aguardar o dia amanhecer. Eu e Thyphany estamos tendo
muitos problemas, mais um mapa de protegido foi modificado. Tudo acontece neste circulo,
Anabela deveria estar dando um grande desgosto à mãe hoje, e nada aconteceu.
- Quem sabe ainda vai acontecer. Espere um pouco.
- Eu já não sei mais. No entanto não deverá ocorrer, a linha de desgosto desapareceu de
seu mapa como por encanto.
- Melhor assim. Aquela família já tem problemas em quantidade suficiente. Marina
procurando por mim, Salvatore sendo julgado, Isilda sendo consumida pelo câncer, precisava
mais?
- Não é esta a questão, nossas previsões jamais falharam, agora alem de você e Marina
tem o caso de Anabela, é tudo muito estranho, algo ou alguém está inferindo.
- Infelizmente não posso lhe ajudar. Sou um simples mortal para interferir na vida de
pessoas vou dormir. - respondeu Thomas sem saber que havia mudado o destino de Anabela.
- *Thomas foi para o quarto inconformado. Não tinha sono nem vontade de conversar com
Athos como era comum. Abriu a janela e sentiu a luz da lua cheia sobre si, olhou para ela,
brilhava no céu em toda sua plenitude, sua depressão foi substituída por uma sensação de
euforia, de repente se sentiu tomado de imenso poder. - Você pode fazer isso sozinho. - se
ouviu falando. Já havia entrado e saído tantas vezes daquele corpo, mas com a ajuda de
Athos, surpreendeu- se... agora lhe parecia muito fácil realizar essa proeza. Aguardou a
costumeira visita de Ítalo para saber se corria tudo a contento e trancou a porta tão logo se
sentiu tranqüilo.
Quando se viu sozinho deitou- se sobre a cama e concentrou seus esforços na viagem
sem saber qual seria o resultado, obteria sucesso, tinha certeza, não sabia de onde vinha essa
confiança na empreitada, mas algo lhe dizia; seria assim.
- *-
114
Marina estava reunida com a família, Thyphany assistia tudo em um canto da sala, outro
protetor lhe fazia companhia, Phylyas era o protetor de Salvatore Schiavonne, sua única
finalidade era mantê-lo com boa saúde, seu estado físico, com os últimos acontecimentos era
preocupante. Não iria morrer; eles sabiam; mas sem ajuda ele seria submetido a sofrimentos
físicos de origem psicossomáticas. Porém a permanência de seu terminaria com o fim da
conversa, ele não era um privilegiado como Marina e Thomas com um protetor exclusivo,
embora de caráter temporário.
- Mas segundo o advogado suas chances de ser absolvido são muito pequenas, havia um
enorme hematoma no rosto da menina e marcas de violência no resto do corpo.
- Eu não toquei nela. Apenas puxei seu vestido para chamar sua atenção. Não imaginei
ser uma peça de roupa tão frágil, não a segurei pelo braço com violência nem a agredi, não
consigo levar avante nenhuma ação violenta. Jamais tive nada com ela.
Salvatore não mentira no todo, só em sua negação de ter um caso com a garota, não
houve nenhuma agressão, na verdade ele não era culpado nem de estupro nem de sedução - aí
fora vítima - muito menos de agressão. No entanto tudo concorria para complicá-lo.
Thyphany olhou para o lado. Tinham companhia, Athos desta vez exagerara, o termo
"tirar o poder" entre eles era simbólico, uma questão de obediência ao Empíreo. Para o
protetorado tinha um significado assemelhado ao Palácio do Planalto, o centro do poder, com
uma diferença, seus lideres eram respeitados e obedecidos, não era possível tirar realmente
qualquer habilidade de um protetor, eles no entanto não faziam uso de nenhuma delas quando
não autorizados, por mais tentados fossem por suas vaidades.
- Vou me ausentar Phylyas, não posso acreditar nas últimas atitudes de Athos. Isto pode
lhe custar muitos séculos de confinamento ao Limiar.
Limiar, o portal entre o mundo dos protetores e o dos humanos, quem estivesse proibido
de cruzá-lo teria uma vida por demais enfadonha: não podiam participar da vida dos seus a
não ser dos eventualmente confinados e nem da dos humanos, nada tinham para fazer, estar
entre os protetores era tão bom como para os humanos participar de um grupo, mas de nada
adianta estarem juntos se for dentro de um campo de concentração, distante do resto do
universo, depois, ali era um lugar de meditação, e não de folguedo.
- Athos, Athos, não acredito em sua atitude, e não posso colaborar com você, estou me
deslocando para o Empíreo agora e você vem comigo, não vou invocar a mesa do protetorado
novamente, vamos até eles.
Athos não teve tempo para reagir, quando deu por si estava diante dos lideres, nem
sabia o motivo, no entanto alguma coisa de muito grave estava acontecendo.
Não havia necessidade de pedir audiência ou marcar hora quando havia um problema,
nenhuma destes empecilhos causados pelas autoridades humanas, ou mesmo guardas
cuidando da segurança dos lideres, não eram considerados em um grau de importância
superior a qualquer outro protetor, apenas tinham um trabalho diferente, ninguém sonhava
em ser um líder, eles já existiam, estavam ali há séculos e estariam ali por muitos outros,
ninguém se lembrava de tê-los eleito, nem se o fizeram, sempre fora assim, eles mesmos na
verdade não sabiam qual a sua origem, atribuíam a Deus e não se preocupavam em procurar
provas de como eram antes, todos estavam felizes com seu papel, talvez por isso a sociedade
dos protetores tivesse evoluído tanto.
- Eu lamento muito. Mas sou obrigada a recomendar o Limiar para Athos.
Thyphany não estava cometendo nenhuma traição contra Athos, eram seres eternos, não
podiam carregar erros consigo, espiavam-nos através da meditação e quando se sentiam
115
prontos para retornar à normalidade simplesmente se declaravam curados O tempo de
clausura era determinado pelo próprio prisioneiro, mas geralmente se tratava de uma alteração
de caráter, e podia levar séculos até acontecer o sentimento de cura, pois o protetor precisava
ser honesto consigo mesmo.
- Não entendo disse Athos, se foi devido àquelas aventuras com as humanas faziam
parte do meu serviço, não pode ser tão grave! Não prometi nada às garotas. Não menti. Não
vai haver traumas. Foi tudo dentro do regulamento, bebidas e cigarros talvez? Já os usamos
tantas vezes. Quando somos humanos devemos ter os hábitos deles, ser visto como tal e não
despertar suspeitas.
- Nada disso é relevante! - falou um dos lideres. - Thyphany não o traria aqui por isso,
foi algo mais grave.
- Ele voltou a libertar o espectro de Thomas. Nós sabemos das conseqüências disto. Ele
já experimentou a troca de energia uma vez, e estava sozinho, vai chegar muito fraco ao
corpo, qualquer humano perto dele será uma possível vítima.
- Primeiro vamos mandar ajuda para ele, quero seu espectro com toda a energia; e, no
corpo, depois cuidamos de Athos.
- Está bem, tomem as providências depois me ouçam. - exigiu Athos, aborrecido com
sua indumentária, o traje usado no Empíreo era cerimonial e aborrecido, longas batas com
golas muito altas e desconfortáveis à quem não estava acostumado com elas, ele nunca se
adaptara. Para andar precisava levanta-la levemente como uma freira andando no chão
molhado, ali ele era como um humano na terra; podia cair e sentir dor.
Passaram-se alguns minutos até Clodophus, um dos lideres se manifestar.
- Fale Athos, estamos ouvindo.
- Eu não libertei Thomas e nem sei como conseguiu fazer isso. Ele não se movia
sozinho nem quando não tinha corpo, é inacreditável.
Ninguém sequer imaginou a mais ínfima possibilidade de uma mentira, os protetores
não o faziam, era um defeito inexistente neles.
- Então isto significa apenas uma coisa, e todos já sabemos qual é, este homem é por
demais determinado, um perigo tão forte quanto os dissidentes. - Kaubhyus se levantou com
um ar grave, e andou até a divisa entre o piso de cristal brilhante e o fosco para recebe-lo.
Iriam se reunir sobre a luz, acreditavam com isso melhorar sua capacidade de julgar. Athos
foi se adiantar para ser introduzido junto aos lideres, eles nunca ultrapassava aquele limite a
não ser para se juntar a familiares homenageados ou quando eram substituídos em uma
missão. Pisou na barra da bata e caiu com estrondo, levantando- se impassível - como
impassível estavam todos na sala, não se divertiam com isso, era apenas uma queda, acidental
e aborrecida - continuou seu trajeto até o piso dos lideres.
- Venha também Thyphany, você precisa saber qual será nossa decisão, seja ela qual
for, está tão envolvida quanto Athos. Thymoty; conduza-a até nos por favor. - pediu Elthon.
Agnus Valerye, "Ab Aeterno, Arbiter De Facto, Ab Imo Pectore Et Infinitum" era uma
protetora, possivelmente a mais velha de todos, a grande mãe, normalmente só falava em
latim, por opção, pois entendia todos os idiomas: vira nascer cada um deles. Como estava em
julgamento um "brasileiro" suas palavras eram traduzidas para o português. Alguns mais
jovens desconheciam a língua e os julgamentos eram raros; e, quando existiam se tornavam
públicos. Quanto aos resultados: geralmente não havia controvérsias, os pensamentos podiam
ser captados era algo uníssono, não havia a necessidade de palavras, usavam- na para tornar a
ocasião solene. A sorte de Thomas estava sendo decidida.
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- Aeqquam momento rebus in arduis servare mentem. (- Lembra-te de manter o
animo justo nos momentos difíceis.
- Ab absurdo... (- Tido como absurdo durante séculos um espectro conseguiu se liberar
de seu corpo sem o auxilio de um protetor.)
- Mens agitat molem.... (- O espectro move a matéria, deveria ser assim, mas sempre
foram prisioneiros dela, embora tivessem o desejo de se locomover com liberdade jamais
conseguiram.)
- Mens sana in corpore sano... (- Uma mente sã em um corpo são é a meta, nosso
motivo, razão de nossa existência, pouco conseguimos avançar, em todos estes séculos, mas
mantivemos tudo sobre controle.)
- Homo hominis lupus... (- O homem é o seu próprio lobo, responsável por todos os
seus problemas, egoísta, inconformado e buscando o impossível e fora dos seus direitos.)
- Abusus non tollit usum... (- Não devemos condenar porque houve abuso, é uma
máxima aplicada a nós, nosso arrependimento é sincero, mas podemos dizer o dos homens?
Recuperamos quase todos os nossos dissidentes à exceção de cinco, mas mesmo assim eles já
não matam, descobriram outra forma de sobreviver. No entanto os humanos ao descobrir este
poder, tentaram formar um exercito e dominar todo o planeta, e são difíceis de controlar, não
podemos ir até eles se não quiserem, foi preciso iluminar outros humanos para destrui-los)
- Audaces fortuna juvat... (- A sorte ajuda os audazes, essa frase agora toma um
sentido apocalíptico, pois Thomas é um homem determinado, já notamos por todas as suas
atitudes, não aceita uma derrota, não recebe ordens e não se conforma com seu destino, quer
fazê-lo algo ininteligível, mesmo para mim.)
- Necissitas caret lege... (- Diante de uma necessidade imperiosa cessam as leis, não
podemos aplicar as leis pelas quais nos guiamos a séculos neste caso.)
- Nihil voni sub sole......(- Não há nada de novo sobre o sol, já vimos o resultado de um
espectro decidir permanecer vivo e ter controle sobre si e podemos estar iniciando um novo
ciclo de muitas mortes.)
- Absente reo, ad cautelam, a contrario sensu...(- Ausente o réu, por cautela,
contrariando o sentido normal de um julgamento precisamos fazê-lo a revelia.)
- Cum laude máxima....(- Aprovação com louvor seria pedir muito; eu mesmo após
muitos séculos nunca recomendei uma destruição.)
- ....dies infaustos, sine die.(- Mas não podemos esperar pelo dia aziago sem data
marcada.)
- Perdão Agnus Valerye, se estou entendendo certo vamos matá-lo, gostaria de
apresentar alguns atenuantes. - Athos interrompeu, estava no seu direito, Thomas era seu
protegido.
- Mors ultima ratio.(- A morte é a ultima solução.) ...deleatum memoriam. - (Mas
não tenho saída a não ser recomendar a destruição de sua memória.)
- Ele vai se esquecer de Marina?
- Amor omnia vincit, vixi. Ad augusta per angusta...(- O amor vence tudo, tenho
dito. Através das dificuldades se chega aos grandes resultados, vamos destruir suas memórias,
mas ele continuará sendo Thomas, seus valores prevalecerão sobre os de Diego.)
117
- E se eles ficarem separados?
- Minima de males, acta est fabula.... (- Dos males o menor, e acabou- se esta história
e a humanidade não vai sofrer os malefícios mas quem for contra deve votar.)
- Ad Maiorem Gloriam, aequo animo, consensus ominiun, alea jactea est...(- Para a
maior gloria, com equilíbrio e isenção de animo e o consenso de todos, a sorte está lançada.)
Alguns soldados aguardavam a decisão da Mesa Protetora, já sabiam o resultado, toda a
comunidade sabia concumitantemente qual a decisão, mas disciplinadamente aguardavam a
ordem.
Agnus Valerye andou até o limite do piso e aguardou a aproximação do soldado mais
antigo, colocou a mão sobre o seu ombro e deu a ordem. Selando a sorte de Thomas:
- Dei grata et de jure, exequator! Brevis esto et placebis. (- Pela graça de Deus e de
justiça, execute- se! Sê breve e agradarás)
Todas as pessoas envolvidas permaneceram na sala, Athos não conseguiu se manter
sereno.
- Id est ad nutun! Ad Arbitrum! Absente reo! Dei gratia et de jure? (- Isto é pela
vontade de uma das partes em posição superior! Segundo a vontade de alguém! Sem a
presença do réu! Pela Graça de Deus e de Justiça?) - declarou Athos irado.
- Favete linguis, castigat ridendo mores.(- Contenha sua língua, corrige o defeito de
outrem sorrindo, sem ofender.)
- Habeas-corpus!(- Exijo o direito de defesa.)
Athos desistiu, os quatro soldados entravam na sala, não havia mais porque lutar.
- Consummatum est.(Está acabado.) - Agnus Valerye encerrou o assunto, não havia
mais porque discutir,
Athos ficou prostrado, não tinha coragem para se mexer, então pela primeira vez em
toda a história eles viram Agnus Valerye atravessar a linha entre o piso de cristal brilhante e o
fosco e consolar um protetor, ela agira pelo principio nem sempre justo mas às vezes
necessário: o fim justifica os meios. Tinha a certeza de ter agido certo, embora tenha
impedido o livre arbítrio, neste caso o preço para a humanidade poderia ser muito caro.
- Dum vita est, apes est. Omnia vincit amor.(- Enquanto há vida há esperança, tudo é
vencido pelo amor.) - declarou abraçando- se a ele.
THOMAS JÁ NÃO EXISTE MESMO? DIEGO NÃO SE ENTENDE; MAS SE GOSTA.
118
A memória de Thomas Aguiar não existia mais. Foi apenas a de Diego Montone quem
acordou para mais um dia. Se sentia estranho. Com vontade de nadar, não o fazia desde a
morte de Pepe. Perder o irmão e cúmplice foi um duro golpe, ele ficara muito tempo na mais
profunda depressão. Abriu os olhos e notou como seu quarto estava embaçado, procurou os
óculos na cabeceira e não os encontrou. Apertou a campainha chamando Ítalo e ele atendeu
prontamente, entrando com o carrinho e seu café para ele era apenas um vulto.
- Ítalo! Não encontro meus óculos e não consigo enxergar nada sem eles só vultos.
- Você não os usa mais Diego já não adiantam.
- Como não adiantam? Estou ficando cego por acaso?
- Em absoluto, apenas operou a vista na segunda- feira.
- hoje é segunda feira! Eu vou para Campinas fazer uma cirurgia e preciso dos óculos.
- Você já fez a cirurgia, não é segunda- feira.
- Está tudo muito confuso. Não é Segunda-feira?
- Sexta- feira.
- Eu dormi de segunda-feira até agora?
- Como dormiu? Você passou a semana toda com Marina.
- Marina? Nunca ouvi falar nela.
- Deve ter sido a febre. Vou chamar o Doutor Campos.
- Está bem, mas me acompanhe até a piscina, quero nadar um pouco.
- Nadar? Você tem certeza, nunca mais o vi praticar nenhum esporte.
- Me deu vontade.
- Que faço com o seu café?
- Sirva na piscina! É muito tarde?
- Nove horas!
- Sirva o café as nove e vinte. Não vou conseguir nadar mais de quinze minutos depois
de tanto tempo, se o fizer estarei feliz.
- *Diego nadou como nunca, seu corpo nunca fora tão perfeito, mas como já exagerava em
seu tempo na piscina Ítalo chamou sua atenção:
- Diego, seu café já está servido, o senhor Athos já está na mesa aguardando.
- Athos?
- Seu novo assessor. Não se lembra? Começou na segunda- feira, considerei uma
excelente aquisição, está tocando a Montone com muita competência; pelos comentários, é
claro.
- Existe mais alguma coisa importante fora do meu conhecimento?
- O senhor Athos ficou estes dias todos ao seu lado de manhã até à noite, converse com
ele e possivelmente vai lembrar os fatos, enquanto isso o Doutor Campos chega.
- Diego. - Sofia se aproximou dele. - a senhorita Marina ligou, vai se atrasar um pouco,
estará aqui as onze horas.
119
- Esta bem Sofia. Não vou fazer nada mesmo, nem sei exatamente qual a data de hoje.
- Sexta- feira Diego.
Diego caminhava em direção ao quiosque, Saburo, o jardineiro se aproximou dele:
- Diego, fiz este arranjo para a senhorita Marina, só rosas vermelhas como você pediu.
Devo entregar a ela quando chegar?
- Espere, se vou dar flores a alguém quero saber quem é. Coloque-as em um vaso.
Talvez entreguemos as mesmas quando ela sair.
Diego subiu para o quiosque e se acomodou na mesa.
- Então você é meu assessor? Interessante, não me lembro de tê-lo contratado.
- Temos um contrato de dois anos.
- Não entendo o motivo para contratar um estranho por dois anos.
- Os papéis com os quais se livrou de seus chantagistas e o meu currículo: formado em
medicina, administração e direito.
- Estou lhe pagando muito?
- Não pela minha importância. Mas aceitei assim mesmo.
- Sabe de uma coisa? Eu estou com amnésia.
- Deve ser temporária, não se preocupe.
- E estou achando tudo estranho, meus funcionários estão me tratando por você, não sei
como decidiram isso, embora eu esteja gostando muito.
- Foram ordens suas. Tão logo chegamos de Campinas.
- Interessante.. então não tem volta! E essa garota? Marina?
- Você não se lembra dela?
- Não!
- Então você está ruim mesmo. Depois de conhecê-la você me deu sua agenda pessoal e
me pediu para livrar você de todas as mulheres constantes nela.
- Isto é bom, eu já estava mesmo cansado dessas garotas, você no entanto está
afirmando algo incrível, segundo sua afirmação eu me apaixonei por uma mulher à primeira
vista... sem enxergar? Faça-me entender isso.
- Foi você a se apaixonar, não eu, portanto não me peça explicações.
- Está certo, realmente é um problema meu.
- Vou lhe dar um remedinho. Mas é segredo, meu CRM foi cassado e agora prescrevêlos é exercício ilegal de medicina.
- Remédio?
- Para sua visão, deixe- me pingar um pouco.
Athos ministrou umas gotas nos olhos de Diego e em poucos minutos ele tinha a visão
perfeita. Não se lembrava de tê-la tão boa com os óculos.
- Rapaz! Nunca enxerguei tão bem, este remédio é maravilhoso, no entanto meus
médicos não o prescreveram, não entendo?
120
- Eles não o conhecem, é exclusividade de um laboratório onde tenho amigos, não está
liberado para venda ao público, mas fique tranqüilo! Não tem efeitos colaterais.
- Muito bom.
- Mas não diga nada a ninguém sobre ele, nem dirija, se souberem de sua condição vão
querer saber o motivo e eu posso até ser preso, depois não lhe dou mais remédio algum e tudo
volta a ser como antes.
- Pode deixar, não estar enxergando bem pode até ser uma vantagem a meu favor, vou
sentir falta de dirigir, mas.... quanto tempo vou precisar fingir?
- Mais alguns dias e, depois tudo fica normal e você não vai mais precisar do remédio
enquanto isso continuo escrevendo seus artigos.
- Você está realmente fazendo isto? É uma loucura!
- Você tem dado a linha, não se preocupe, está tudo sob controle mas vou colocá-lo a
par de todos os acontecimentos da semana, ouça....
Ficaram conversando durante algum tempo, Diego cada vez mais surpreso com as
mudanças em sua vida.
- O Doutor Moreira no telefone. - foram interrompidos por Ítalo.
- Alo, aqui é Diego.
"- Diego, é Mariano, demorei para ligar porque tínhamos muita coisa para discutir e
decidimos encerrar nossos negócios, você pelo jeito já liquidou a julgar pelos seus memoriais
desta semana."
- Você gostou deles?
"- Esta é uma pergunta idiota. Não gostei, é lógico. Eu só queria lhe dar um aviso, se
algum daqueles papéis transpirar não pense ser possível ver o outro dia."
- Devo considerar isso uma ameaça?
"- Com todas as letras."
- Sou um repórter. Se eu descobrir alguma coisa sobre vocês vou precisar esconder?
"- Entenda como quiser."
- Um momento por favor.
Athos mostrou a Diego um bilhete e ele voltou ao telefone.
- Moreira, ainda vou lhe fazer um favor. Sei tudo sobre a negociata com a Construtora
Holanda e vou incluir ela no pacote dos nossos segredos, se eu descobrir algo de hoje em
diante será de domínio público, se eu sofrer nova pressão então vou tomar outras
providências.
"- Por exemplo?"
- Divulgar esta fita e esquecer minha promessa no tocante à já citada construtora e o
dossiê entregue ontem em seu escritório. Seus correligionários vão cair fora e deixar você
sozinho sendo processado por ameaçar um repórter.
Diego ouviu apenas o barulho do telefone sendo desligado, não sabia se amedrontara o
homem, mas se sentia tranqüilo.
- *-
121
Ítalo aparece no lado contrário do quiosque onde ficava o jardim acompanhado de uma
garota, Diego olhou para o local e perguntou:
- Quem é a garota com Ítalo?
- Marina.
- Não e a pessoa sobre a qual conversamos?
- É.
- Minha casa está mesmo uma bagunça! Ela não foi anunciada.
- Ordens suas. Ela deve entrar sem delongas quando vier visitá-lo.
- Eu devo ter tomado uma pancada na cabeça.
Diego levantou do lugar onde estava e prestou atenção na garota então percebeu a
verdade: era realmente possível se apaixonar por essa mulher à primeira vista. Tornou- se
agitado e ansioso.
- Saburo!
O jardineiro estava próximo ao quiosque e atendeu rapidamente.
- Pois não.
- As flores.
- O senhor não queria conhecer ela antes de entregar?
- Não discuta comigo.... não dá tempo....traga-mas.
Enquanto Marina se aproximava do quiosque ele perguntou a Athos:
- Eu afirmei estar apaixonado por essa garota, disse a ela também? Quero dizer.... ela
corresponde?
- Por enquanto não. Como eu lhe disse ela está atras de sua ajuda. Você nem podia ter
dito nada.
Marina já estava se dirigindo ao quiosque, mas Sofia, acompanhada do Doutor Campos,
entrou uma fração de segundos antes deles, com seu jeito desligado e acostumado aos
corredores dos hospitais ele praticamente ignorou os demais presentes.
- Vamos ver qual o problema com o Diego. - e dirigindo-se a este. - Você parece ter
tirado a semana para me preocupar. - e passou a examiná-lo.
- O Diego está doente? - perguntou Marina a Ítalo?
- Não exatamente, tem uma espécie de amnésia de intervalo, se existe isso, não se
lembra de nada ocorrido de segunda- feira até hoje de manhã.
- Então ele não se lembra de mim!
- Receio ser exatamente assim. Não se lembra também de Athos, ele começou a
trabalhar conosco na segunda- feira.
Marina ficou parada do lado de fora do quiosque esperando o fim dos exames, mas não
estava longe o suficiente para deixar de ouvir a conversa dele com o médico.
- Bem! - disse o Doutor Campos. - Aparentemente não há nada de mais grave, casos de
amnésia estão fora de minha especialidade. Mas só pode ter algum fundo psicológico,
geralmente a perda de memória ocorre em função de um trauma físico, uma pancada, uma
122
queda, e no seu caso não há nada disso, estivemos juntos ontem e você não reclamou de
nenhuma dor.
- E a febre Doutor? Poderia ter ocasionado o problema.
- Não posso negar essa possibilidade, no entanto não tenho conhecimento de nenhum
caso análogo. Vou marcar uma consulta com a Doutora Dinah para logo mais, ela conseguira
encaixar você, talvez na hora do seu almoço, é sua fã incondicional, principalmente depois do
memorial de segunda feira.
- Incrível, também não me lembro dele.
- Então seu problema é anterior, pois ele não foi escrito na segunda, com certeza, deve
abranger um ou dois dias antes.
Diego tentou lembrar seus movimentos do fim de semana inutilmente: esteve drogado
desde a madrugada de sábado.
- Realmente também não me lembro dos acontecimentos do fim de semana.
- Então devo me considerar demitido. - brincou Athos.
- De maneira nenhuma, se o contratei sabia o motivo, mas de qualquer maneira ainda
vou avaliar seu currículo, só para saber quem exatamente tenho a meu serviço, é importante.
- Passe- me o telefone, vou ligar para a Doutora Dinah!
- Não marque nada para logo mais, Marina está aqui para falar comigo e vou dedicar o
resto do dia a ela.
Passou o resto da tarde na companhia de Marina e Athos, ouviu novamente toda a
história de Thomas e quando chegaram ao fim ele foi ao telefone.
- Por favor, quero falar com o Tarcisio, é Diego Montone.
(- )
- Tarcisio, é Diego.
(- )
- Agora você está satisfeito não é? Eu não podia continuar naquela linha, sou um
homem de direita, um capitalista, agora vou poder realizar realmente um bom trabalho.
(- )
- Preciso de um favor seu, acontece o seguinte.....
(- )
- Eu sei, normalmente estes documentos não deviam estar com ele, mas ele os solicitou,
trata- se de um processo concluso e arquivado.
(- )
- O Mariano é meu vizinho, posso pedir a ele para trazer os documentos à minha casa
amanhã e verificamos aqui.
(- )
- Está bem, mando o Ítalo preparar aqueles tira-gostos e descongelar um pouco daquela
picanha maturada exclusiva dos Montones. Você vem com a esposa e as crianças?
(- )
123
- Crianças e mania nossa quando nos referimos aos filhos. Então eles já não saem mais
com vocês?
(- )
- Se é para provar os salgadinhos do Ítalo eles vêm? Tudo certo, serão preparados
especialmente para eles, estarei em pé a partir das nove, venha cedo, um abraço.
- Pronto! - disse à Marina. - A roda está girando, agora é só aguardar.
- Ainda temos o caso do meu pai, você foi até lá e prometeu ajuda-lo, agora é meu
assunto mais importante, ele tem sua pessoa como um deus... os advogados não deram muita
esperança a ele.
- Então é melhor você me colocar a par de mais este problema.
- Já está um pouco tarde, vamos deixar para outro dia, só quero tranqüilizar meu pai,
reiterar sua promessa.
- Está reiterada, mas de qualquer maneira você não vai sair sem jantar conosco. Ítalo
não a perdoaria. depois quero falar mais a respeito da função de Thomas na Coexponal,
conheço os Latorres, eles podem muito bem estar envolvidos no desaparecimento dele,
ninguém representa perigo para eles e se dá bem. Embora nunca tenha existido nenhuma
prova contra os dois irmãos. A imprensa inclusive não se atreve a tentar envolvê-los, eles não
pensam duas vezes antes de iniciar um processo.
- Thomas me falou sobre eles, mas não é o Pedro, ele gosta de comercio, o canalha é o
seu irmão.
- Conivência também é crime. Não o perdoe ainda.
- *No sábado pela manhã Marina chegou à casa de Diego perto das dez horas, estavam
todos em volta da piscina, o sol estava convidativo e todos estavam em traje de banho a
exceção do coronel e o sargento Souza, Ambos uniformizados e portando o processo de
Thomas.
- Não podemos examinar este processo aqui, vocês estão todos molhados e eu gosto de
manter tudo em ordem.
- Calma Mariano, quanto mais velho, mais ranzinza, vamos até o quiosque, nos secamos
e fazemos tudo, depois, não queremos examinar o processo. Só as fichas dentárias, elas
determinaram o arquivamento do inquérito.
Tarcisio Del Pichia examinou as chapas e depois se manifestou:
- Afirmar perante o juiz não serem as mesmas fichas eu não vou, posso começar uma
história complicada, vou envolver a policia, os responsáveis pelos arquivos, a dentista, se
nada ficar provado posso ser obrigado a pagar uma tremenda indenização, no entanto, e,
extra-oficialmente, tenho certeza, as fichas examinadas eram opacas. Memória faz parte do
meu trabalho.
- Então não vejo solução. Você vê alguma?
- Procurar os parentes dos mortos no carro de Thomas, e tirar daí alguma conclusão.
- Eles não foram identificados. É um caso incrível, homens muito bem vestidos, com
higiene precisa, e no entanto não portavam nenhum documento, exceto o policial mas
ninguém em sua família jamais ouviu falar em Thomas.
- Tanto mistério e ninguém se interessou por ir mais a fundo no caso?
124
- Não, a policia tem dezenas de processos em andamento e investiga tudo sem muita
condição, viaturas velhas, precariedade de material, quando se chega a um beco sem saída é
melhor esquecer.
- Temos fotos dos cadáveres?
- Claro, estão aqui, mas não vão adiantar muito, seus rostos estão totalmente
deformados, à exceção de um, veja, parece estar vivo.
- Vou publicá-la,
e oferecer uma recompensa, quem sabe alguém o reconheça.
Localizar uma pessoa destas é suficiente para termos um ponto de partida.
- O escrivão.... ele viu Thomas depois do rapto, colheu a assinatura dele na escritura.
- Já temos dois pontos de partida, me empreste esta foto.
- *Vicente o escrivão não queria ajudar a esclarecer o assunto, poderia se incriminar. Não
podia confessar ter entrado em contato com uma vítima de seqüestro e ter se dirigido até ela
sem avisar a policia.
- O Thomas compareceu no cartório para assinar a escritura.
- Quem estava com você quando ele compareceu?
- Ninguém, ele veio fora do expediente e eu esperei, é normal, ele sempre gratificou
muito bem pelo atendimento diferenciado.
- É verdade, ele era assim mesmo. - ratificou Marina quase sem pensar.
- Estão vendo, ela mesmo está confirmando minha história, quem sabe este rapto foi
forjado.
Todos no entanto sabiam ser mentira, os seqüestradores não correriam este risco,
mesmo se a situação fosse forjada a suposta vítima não iria até ele se sujeitando a ser visto em
público.
- Esperem lá fora pediu o capitão Cordeiro.
Quando todos saíram ele falou com Vicente:
- Vicente, todos nós sabemos: está mentindo. Você me mandou atras de Thomas,
segundo você aquele cronograma foi retirado da mesa dos traficantes, então você foi até
aquela casa e eu quero sua colaboração. E agora.
- Ele telefonou, e deixou claro! Eu seria morto se falasse, eu não sou policial, não tenho
nada com essa história, era amigo dele, estava criando condições para ele pagar o resgate e
sair vivo, depois mostrei a você como resgatá-lo. O caso estaria solucionado se os atiradores
de elite não atingissem o pneu errado.
- Está bem, vou livrar você desta, mas quero o endereço, forneça- me e vou esquecer
está nossa conversa.
- *O dono da imobiliária estava voltando com uma pasta, nunca tivera problemas com a
policia e queria continuar assim.
- Está aqui, a casa foi alugada para Otávio Miranda, ele pagou seis meses de depósito e
nestes casos nos dispensamos os fiadores, não tivemos mais contato com ele depois... nem
deve ter vencido o primeiro aluguel ainda, se aconteceu foi há poucos dias.
125
- Ele esteve aqui pessoalmente?
- Não. Mandou tudo através de um garoto, foi recomendado por Thomas Aguiar ele tem
várias casas da Coexponal sob nossa administração, e não criamos muitos problemas em
função disso.
- O senhor não leu os jornais, não ficou sabendo do seqüestro?
- Claro, mas e dai? Quem iria alugar uma casa recomendada pelo seqüestrado e se
instalar nela? Seria absurdo. Meus clientes não tem nada a ver com o caso.
- Existem copias dos documentos do locador?
- Claro, estão aqui, tudo certinho como manda o figurino.
- *As investigações no imóvel onde Thomas, presumivelmente estivera cativo não levaram
a nada, como não poderia levar mesmo. Nenhum vizinhos viu ninguém entrar ou sair, o
telefone instalado nela foi usado para algumas ligações, e verificadas foram para empresas
com as quais ele mantinha negócios. No entanto todos inquiridos afirmaram categoricamente
não ter conversado com o seqüestrado naquele período, os documentos de Otávio Miranda
anexos: eram todos falsos; embora a qualidade fosse surpreendente.
- *O tempo passou. Diego voltou à sua vida normal, até aquele dia, pela manhã na sede da
Montone & Associados.
A secretária observava o homem do lado de fora da grade, não estava nada disposta a
permitir sua entrada, mas não podia deixar de comunicar sua presença ao patrão.
- Diego, tem um mendigo horrível aqui na porta, disse reconhecer o homem da
fotografia.
- Mande-o entrar. É a única pessoa ate agora a nos procurar.
- Mas acho melhor levar ele primeiro para os fundos e jogar água com mangueira nele.
O homem está muito sujo, não acredito ser possível à alguém com estômago conversar com
ele. Pelas manchas nas roupas o cheiro dele deve ser algo difícil de suportar.
- Espere por mim, vou até ai.
Diego chegou perto da janela, se juntando à sua secretária e à recepcionista.
- Nossa! A coisa está feia, o último banho deste homem foi antes da descoberta do
sabonete, fica difícil realmente atender um sujeito desses.
O homem ao lado do portão de entrada estava irritado, esperava já há muito tempo,
primeiro falou com a recepcionista, depois viu a secretária chegar na janela, veio também este
homem mas ninguém o atendia, então pressionou novamente a campainha.
"- Como é? Vão me atender ou não, vocês colocam o anuncio e chega na hora de pagar
querem cair fora!"
- Desculpe amigo, mas sua aparência não é das melhores. - respondeu Diego através do
interfone.
"- Claro, eu sou um mendigo, durmo nas ruas e como quando me dão, o senhor queria
um manequim?"
- Vou fazer o seguinte, estou lhe mandando algum dinheiro, compre uma roupa limpa,
tome um banho, mande aparar este cabelo e a barba e volte aqui.
126
"- E como você sabe se eu volto?
- Não sei, mas se a sua informação for quente vou lhe dar um bom dinheiro, então vou
correr o risco.
O guarda levou o dinheiro e entregou ao mendigo, quando voltou estava passando mal.
- Nossa! O homem cheira muito mal, se ele entrasse nesta recepção colocava todo
mundo para fora.... voltará aqui?
- Não sei, mas só para ficar livre dele eu daria o dinheiro, até mais! - respondeu Diego.
- Marta, vou almoçar com Marina, não sei quando retorno, mas ainda passo aqui hoje.
- Onde lhe encontro se acontecer algum problema?
- Qualquer problema o Athos resolve, não quero ser incomodado quando estou com ela.
- Você está tentando achar o noivo da garota ou conquistá-la? Tantos almoços vão
acabar nisso.
- Não sei Marta, trato-a com respeito. No entanto, quanto a estar apaixonado por ela...
não posso negar. Só ela não nota, porem, é algo para não ser levado em consideração agora.
- *Diego estava almoçando numa lanchonete próxima ao Instituto Mackenzie, quando viu
entrar dois jovens, uma garota e um rapaz, a lanchonete estava toda tomada e então notou
quando ele concluiu chateado:
- ....então vamos comer em pé mesmo, é a terceira lanchonete na qual entramos,
certamente vamos nos atrasar para o período da tarde se não for assim.
Diego observou o casal de jovens, seu pensamento voou longe, imagens se formaram e
ele de repente se viu convidando-os a sentar em sua mesa.
- Se vocês quiserem tem dois lugares vagos aqui na nossa mesa, podem sentar. - falou
sem pensar, se arrependendo logo em seguida, estava com Marina e nestes momentos queria
privacidade, mas havia algo naqueles garotos obrigando-o a ser solidário, uma imagem bem
distante os colocava junto com eles brincando em algum parque ao qual nunca fora.
- Obrigado senhor; detestamos comer em pé, meu pai era muito formal para as
refeições, balcão e comida na mão não fazia parte de sua vida.
- Eu também não gosto muito de desconforto, fiquem a vontade. - ratificou, não tinha
como negar mesmo, fora o autor do convite.
- Obrigado, sou Ramon e está é minha irmã, Rebecca; o senhor não precisa se
apresentar, é Diego Montone, o dissidente da esquerda.
- Devo me sentir ofendido? - perguntou Diego.
- De jeito nenhum, considere como um elogio. Meu pai era contra a esquerda,
sindicatos, e tudo o mais, eles causavam muitos problemas, a ele quando vivo, principalmente
no porto.
- Então só me resta agradecer.
O rapazes comeram rapidamente.
Ramon chamou o garçom e pediu a conta.
127
- Desculpe- nos senhor Diego, seria um prazer ficar conversando com vocês, mas temos
aula na parte da tarde hoje, uma vez por semana estudamos em período integral. - então o
repórter pareceu novamente estar brincando com eles em um pequeno parque.
- Este parque de novo. - falou mais para si mesmo, não para ninguém ouvir, e se
surpreendeu com a pergunta.
- Não entendi! O senhor disse parque? - perguntou Rebecca.
- Esqueça, é apenas uma tolice, de repente vi um pequeno parque com churrasqueira,
um quiosque feito em peroba rosada, duas jaboticabeiras, um grande gramado e uma estátua
de cupido ao fundo, piscina e algumas roseiras. No entanto nunca o vi.
- O senhor pode não acreditar, mas acabou de descrever o meu quintal, não é um
parque, mas de tão florido lembra um, tem pouco mais de quinhentos metros quadrados, era o
local favorito de meu pai antes de se separar de minha mãe; venha nos visitar qualquer dia e
lhe mostro. - e entregou um cartão a ele.
- Claro, vou mesmo será um prazer, olhe, o garçom está demorando e vocês só têm dez
minutos, deixe a conta para mim e quando eu for lhes visitar vocês assam uma carne e
fazemos um churrasco; combinados?
- Quando?
- Que tal sábado? Eu levo o vinho e nós almoçamos juntos.
- Para mim não precisa, eu só tomo sucos naturais, mas minha mãe adora um bom
vinho! Vou esperar por vocês ao meio dia; combinados! - Deixou um cartão sobre a mesa.
Eles se afastaram e Marina perguntou:
- Você é sempre assim para fazer amizades? Aceita convites com essa facilidade?
Sempre pensei se tratar de uma pessoa diferente.
- Não sou assim realmente. Não gosto de companhias estranhas atrapalhando meu
almoço, não sei como agi desta forma, mas de qualquer maneira, já está feito, alguma força
desconhecida me fez marcar este churrasco. Você me acompanha à casa deles no sábado?
- Claro, não tenho mesmo mais nada para fazer.
- Obrigado pela empolgação com a qual aceitou o meu convite.
- Desculpe- me eu não quis realmente dar esta conotação à minha resposta, posso ter
sido indelicada, mas pode ter certeza, sua companhia é realmente um prazer.
- Isso deixa meu ego um pouco menos arrasado, não totalmente satisfeito, claro, no
entanto por enquanto é suficiente.
- *Ítalo estava olhando para o patrão sentado na sala, não estava ouvindo música ou
assistindo televisão, nem mesmo atualizando sua leitura como era seu costume, às vezes no
passado fazia tudo isto ao mesmo tempo, ele nunca conseguiu entender como Diego
conseguia coordenar tudo, nem porque de repente tudo lhe parecia tão sem interesse.
Athos ficava muito tempo ausente, a Mercedes de Diego a qual ele não emprestava para
ninguém agora parecia ser do funcionário, como tudo estava diferente, em muitas coisas para
a melhor, não havia mais droga na casa, o patrão não chegava mais bêbado e a qualidade dos
seus artigos, sempre de boa qualidade, tivera uma melhora sensível e agora podiam ser
considerados excelentes, o pseudônimo de "O Sentinela" com o qual passara a assinar os
artigos referentes ao "Caso Thomas Aguiar" era um sucesso, só não aceitou escrever mais
128
artigos sobre outros crimes por não querer seu nome ligado à crônica policial, era
essencialmente um repórter político. No tocante à saúde parecia ter passado por uma máquina
milagrosa de recuperação, não fosse aquele período ainda obscuro em sua memória, era
fantástica, no entanto: havia se transformado em um homem triste.
Ítalo não gostava quando à cada manhã encontrava uma mulher diferente na cama do
patrão, temia por sua vida, com a síndrome da imuno deficiência adquirida freqüentando
todos os jornais não podia aprovar aquele modo de vida, no entanto, também não aprovava
está vida monástica, se ao menos Marina, a única mulher pela qual ele se interessava agora
correspondesse aos seus olhares apaixonados, mas ela estava tão interessada em localizar o
paradeiro do namorado, praticamente nem o notava, a não ser como um porto seguro onde
podia desembarcar suas suspeitas; já sem apoio em qualquer outro lugar; um parceiro de
investigações, era isso o significado dele, nada mais.
Ficaria por ali ainda algum tempo esperando por Athos, mas se ele demorasse muito
subiria, já em seu quarto entregava- se à sua própria infelicidade e quem passasse bem
próximo à porta às vezes podia ouvir seus soluços.
- *Athos ouvia entristecido as confissões de Diego, era obrigado a sofrer com o
protegido/amigo, não podia contar a verdade, se o fizesse poderia causar danos irreparáveis,
caso contrário seria muito fácil mostrar sua verdadeira identidade: afinal ele na verdade era
Thomas, habitando o corpo de Diego e vivendo as lembranças dele como se fossem suas.
Queria explicar; Diego não existia na realidade, estava morto, só precisava esperar!
Com o tempo ela acabaria esquecendo o antigo Thomas e se apaixonaria pelo novo. No
entanto não podia fazê-lo.
Estavam ali no terraço conversando quando viram Marina chegando, desta vez não
dirigia a já tradicional Mercedes branca, e sim um Sonata azul.
- Você pelo jeito gostou do meu carro. - brincou Diego. - pois comprou um igual.
- Na verdade não... este era o carro de Thomas, não exatamente este, mas quando recebi
o dinheiro do seguro fiz questão de comprar outro exatamente igual e mandar pintar a
Mercedes de branco como ele sempre sonhara ter uma. Ela era vermelha antes.
- Entendi, tudo pelo Thomas. - observou Diego visivelmente decepcionado.
- Você devia tê-lo conhecido, um homem maravilhoso, nunca haverá outro igual.
- Está bem, mas hoje sem Thomas! É sábado, as investigações estão suspensas, temos
um churrasco nos esperando e quero ir para lá, estou curioso para conhecer o parque.
- Um parque? - perguntou Athos. - Não pensei existir um nesta cidade ainda
desconhecido para você. Olhei seus álbuns de fotografia e vi muitas fotos suas em todos os
ambientes ecológicos de São Paulo
- Este não é bem um parque, é um quintal, eu conheci um casal de irmãos e quando os
vi me pareceu já ter brincado com eles em um parque. Segundo Ramon eu estava descrevendo
o seu quintal, fiquei curioso.
- Ramon? - perguntou Athos. - Qual o nome da irmã dele?
- Rebecca.
- Interessante, posso ir com vocês ao churrasco?
- Claro! Não vejo problema nenhum, mas você não tinha um compromisso? Com uma
das páginas de minha agenda!
129
- Levo meu compromisso comigo. Você precisa aprender a dominar os ciúmes, ainda
temos meia hora então eu vou buscá-la e pego vocês daqui a pouco.
- *Diego olhou para o jardim da casa de Ramon, era exatamente como aparecera em sua
visão. Ele brincava ali com os garotos, uma mulher corria para eles e se abraçavam, eram por
demais felizes, ele experimentou uma sensação de êxtase, a primeira impressão de paz e
tranqüilidade desde quando acordou com aquela estranha amnésia, mas logo se refez e achou
estranho. Sua memória estava lhe pregando uma peça. De repente ele se imaginava parte
daquilo tudo. Havia até adicionado uma mulher à sua lembrança, criando uma família feliz,
não podia haver essa instituição bem sucedida sem uma mãe maravilhosa, por isso incluíra
aquela linda esposa à cena, já estava satisfeito com a própria explicação quando ouviu a voz
de Ramon.
- Quero lhe apresentar minha mãe, Dona Lúcia "A Terrível", responsável por todos os
meus complexos.
- Encantado senhora.
- O encanto é meu, é um prazer conhecer um repórter tão respeitado e a quem já aprendi
a admirar, mas não o leve tão a sério nesta história de terrível, eu os deixo praticamente livres.
- se defendeu a mulher.
Mas Diego já não ouvia suas últimas palavras, podia ver os lábios de Lúcia se mexendo
mas não entender o som emitido pelos mesmos, estava desfalecendo, conhecer a mulher foi
demais para ele: ela corria para ele em sua visão do quintal! Nunca a vira antes! Como
pudera inclui-la em seus sonhos?
Todos correram em seu socorro e ele não chegou a tocar o chão. Foi colocado em um
dos bancos do jardim de onde se levantou refeito logo depois.
- O senhor está bem? Perguntou Ramon.
- Estou ótimo, - respondeu muito bem humorado. - fique tranqüilo, só não estou vendo
ninguém acendendo o braseiro, quem é o churrasqueiro?
- Daqui a pouco meu tio chega, esta é a parte dele, eu dou a carne, o senhor trouxe o
vinho e ele assa, um bom arranjo, e assistimos o futebol aqui mesmo no quintal, para isso a
televisão tem sua casinha particular.
- Ótimo, mas eu trouxe também algumas cervejas, vamos comigo buscar, e não me
chame de senhor, eu aboli isto já faz algum tempo.
- Já estão ali, Athos as trouxe. Aceita um chope? Eu vou pegar.
Athos se aproximou de Diego, estava preocupado com o amigo aparentemente distraído
com a televisão.
- Algum problema maior? Posso fazer alguma coisa.
- São problemas decorrentes desta minha amnésia. As vezes não me entendo. Pareço
não ser eu mesmo.
- Isto lhe entristece?
- Nem um pouco, estes percalços acabarão logo, é um período de adaptação, talvez
tenha acontecido alguma coisa comigo lá na clínica, algum conselho, ou fato relevante. Isto
foi bom. Nasceu um novo Diego, e sinceramente, gosto muito mais deste. Me parece estar
redescobrindo a vida.
130
- Entendo, ou pelo menos penso entender.
- Claro, mas desligue esta TV Athos. Detesto filmes de vampiros, não sei como alguém
pode imaginar uma criatura se alimentando de sangue, não se consegue energia deste jeito.
- Não posso desligar, outras pessoas estão gostando do filme, mas não entendi? Você
sabe como os vampiros se alimentam? Realmente? Como obtém a energia?
Ele sentiu o olhar incrédulo de Athos sobre si. No momento pareceu- lhe saber a
resposta, mas preferiu não se alongar.
- Como posso saber? Eles não existem. Apenas não concebo alguém retirando todo o
sangue do corpo de um ser humano em tão pouco tempo. Isto não é um vampiro! É um
aspirador com motor de milhares de cavalos.
- É só uma ficção, não leve a coisa tão a sério.
- Os escritores deviam ser mais sérios, pesquisar mais sobre as criaturas sobre as quais
escreve. Assim não levariam tantas asneiras ao leitor.
- Não é uma questão de seriedade, é pura ficção, imaginação do autor.
- Porcaria pura.
- Rapaz! Você está mesmo revoltado com o roteirista. Calma!
- *Marina estava ao lado deles, pensativa, preocupada, encontrara Albano completamente
bêbado, no dia anterior, este cometera seu quarto assassinado a mando de Alexandre Latorre,
sua estrutura estava abalada, não se conformava com sua nova vida, tinha agora uma
Mercedes, objeto de sua inveja em relação a Thomas, mas essa não conseguia lhe trazer um
prazer tão grande, não justificava seus atos.
- Oi Albano? Sua aparência é péssima.. Algum problema maior?
- Claro, agora eu faço o serviço de Thomas. Dá prá ser feliz?
- Ele também não estava satisfeito nos últimos tempos, por isso pediu demissão.
- Depois de destruir quantas famílias decentes?
- Como assim?
- Eu sou o executor no lugar dele, e, só mato inocentes, só pessoas decentes se opõe a
Pedro Latorre... Meu Deus! Tenha piedade de Minha alma. - e se concentrou no copo de
vodca sobre a mesa sem mais palavras.
- Executor? Thomas era uma administrativo, não colaborava com o esquema sujo de
Pedro Latorre!
- Para afirmar assim você deve ter muita certeza, mas tem mesmo? Sabe exatamente
quais as funções de Thomas na Coexponal?
- Não exatamente, ele manipulava alguns números em favor da empresa, mas nada de
tão desonesto, apenas pagava aos cooperados a mercadoria quando sabia da possibilidade de
aumentos próximos e ela passava a ser propriedade da Coexponal.
- Não considero isso muito honesto.
- Fazia parte do jogo, os cooperados assinavam um contrato onde davam quitação das
mercadorias pagas pelo preço do dia.
131
- Mas a Coexponal sabe dos aumentos futuros quando efetua os pagamentos! É puro
roubo.
- É. Você deve estar certo. É o ladrão agora. Até mais.
Albano não respondeu, baixou o olhar e continuou a se embriagar. Marina olhou para
aquele homem, não estava mentindo, não podia, não tinha raciocínio suficiente para imaginar,
era realmente um executor a serviço de Pedro Latorre.
Mas e Thomas? Seria ele um assassino? Não podia ser! Revoltava-o os roubos
exagerados da Coexponal, não mataria para encobri-los! Ou teria colaborado com o esquema
e isso motivou sua demissão? Quem sabe estivesse arrependido. Como ter certeza?
De onde viera o dinheiro para mobiliar com tanta riqueza aquela casa, para lhe deixar de
herança uma conta-corrente milionária?
Gostaria tanto de encontrá-lo, se livrar de todas as suas angústias e medos, quem teria
sido realmente o homem pelo qual esteve tão apaixonada e ainda tinha um grande peso em
suas decisões?
Não encontrou nada em suas coisas para lhe dar essa impressão, nenhuma anotação,
arma, o menor indício e no entanto alguém ao assumir sua função colocava os assassinatos
como uma de suas obrigações.
E o pior! Um assassino de pessoas decentes, revoltadas contra as falcatruas de Pedro
Latorre, elas também revoltaram Thomas, não podia ser, isso o mataria em seu coração e ela
não queria apagar uma lembrança tão querida. Talvez um dia desistisse de esperá-lo e tivesse
outro companheiro, mas seria tão bom conservar sua imagem gentil e honesta.
Talvez os santos colaborassem para lhe dar a resposta, precisava tanto disso.
Foi se juntar a Athos e Diego, decidiu não comentar este fato, poderia desmotivar as
investigações.
MARINA COMEÇA A VER THOMAS EM DIEGO
Marina observava com atenção o interesse de Diego por Lúcia Aguiar. Não havia
acontecido mais nada entre ambos de marcante quando voltaram a se encontrar depois da
"amnésia" do amigo e embora não deixasse transparecer (amava Thomas e esperava encontrálo ) sabia da paixão de Diego por si embora não o encorajasse. Esse interesse dele pela
"viuva" a incomodou. Não pode deixar de sentir uma pontinha de ciúmes sua vaidade
feminina fora atingida, não o queria mas seu sentimento de posse foi abalado.
Diego estava pensativo, teve a impressão de ter se convidado para uma festa intima,
pois não estavam só eles e a família de Ramon. Encontrou mais pessoas no local, espalhados
era difícil precisar o número exato, mas os presentes seguramente ultrapassavam a casa de
cinqüenta pessoas, tinha certeza.
O som ambiente o distraia, ele ficou atento à música o conjunto The Platers cantava
Orchids in the monnlight, e ele quase se assustou quando foi tocado na perna.
- Você sabe onde é o banheiro? - ele olhou para o baixo e viu um garoto.
- Tem um por baixo da piscina... Não! O de trás da churrasqueira é mais perto, vá por
ali. - respondeu sem sentir.
- Você já conhecia a casa? - perguntou Marina.
- Não! Nunca estive aqui.
132
- E como sabe onde ficam os banheiros?
- Não sei, respondi sem pensar. Devo ter errado.
- *Pliciana, a empregada de Lúcia avançou pelo quintal empurrando um carrinho, sobre
ele, um bolo onde se viam algumas dezenas de velas. Então Diego entendeu o motivo da
presença de tantas pessoas. Como suas rodas de pequena dimensão estavam prendendo no
gramado dois convidados se adiantaram e o levaram para o local determinado por Rebecca.
Logo em seguida os presentes começaram a se juntar e em breve formavam um bloco
em volta do carrinho e Lúcia se manifestou.
- Meus filhos fizeram questão de fazer este bolo e colocar nele todas as quarenta e duas
velinhas representativas de minha idade. Na verdade, tanto o bolo com a presença de todos
vocês para mim é uma surpresa. - fez uma pequena pausa e continuou:
- Eu na verdade estava preparada para receber apenas um convidado das crianças: o
Senhor Diego Montone, todos o conhecemos pelo seu trabalho nos principais órgão de
imprensa da cidade, e seus amigos. Como temos uma platéia gostaria de apresentá-lo s a
todos. (retirou um pequeno cartão do bolso)Diego Montone, Athos Montalbam, Marina
Schiavonne e Beatriz Helena Reis Gonzalez; colunista conhecida de todos nós através dos
jornais e agora pessoalmente. Portanto vejam como se comportam, senão é piche nos
matutinos de amanha. Vamos saudar nossos novos amigos. - iniciou palmas, logo sendo
imitada por todos.
Cessados os aplausos ela continuou.
- Fiz um acordo com as crianças..... - olhou para o lado e notou já ter sido suplantada
em altura pelos filhos, não por ser ela mesma uma mulher de pequena estatura, mas a nova
geração parecia querer suplantar a todos da anterior. - Eles estão um pouco crescidos - risos
geral - mas sempre serão meus bebes!
- Todos sabem da tragédia à qual fomos submetidos há bem pouco tempo e eu ainda não
consegui superá-la, todos nesta casa amavam Thomas embora já não estivéssemos juntos.
Então como disse, temos um acordo, eu vou apagar as velinhas mas não vamos cantar o
tradicional parabéns. O silêncio é uma homenagem ao querido pai de meus filhos.
As velinhas foram acesas e Lúcia as apagou sem o indefectível "Parabéns a Você" e o
"Pique- Pique" de todos os aniversários. Plisciana distribuiu o bolo entre as crianças
presentes, os adultos preferiram continuar a saborear o churrasco.
- Você está muito interessada na viúva. - brincou Marina.
- Não fale assim. Eu simplesmente gostei demais desta família, não sei explicar,
começou com os jovens, depois achei a mãe deles também tremendamente simpática. Quanto
a um possível romance, esqueça. Tenho vinte e cinco, quando eu nasci ela já tinha dezessete.
- Muita gente não liga para isso.
- Eu já estou apaixonado; e, por uma garota na idade certa, mas... bem.... ela não está.
- Sinto muito por você, amar e não ser correspondido é terrível, talvez seja este o
motivo desta sua tristeza recente, posso ajudar?
- Não creio, você têm seus próprios problemas, vamos resolvê-los primeiro e depois
você me ajuda; combinados?
- Combinados! Conte comigo.
133
Rebecca veio se juntar a eles e levou Marina consigo. Ao ficar sozinho Diego pode
pensar na frase a lhe incomodar no discurso de Lúcia, "O silêncio é uma homenagem a
Thomas" procurou o cartão de Ramom nos bolsos até encontrá-lo e quando leu seu nome
"Ramom Vinhal Peres Aguiar" teve quase certeza de suas suspeitas e chamou Athos.
- Athos, venha cá, venha cá!
- Qual o problema?
- Thomas! Ele é o problema.
- Descanse Diego. Hoje é sábado, combinamos não falar no problema. Desfrute do
churrasco e dos amigos.
- Athos! Nós estamos na casa dele, de quando ele era casado.
- Não é possível! É muita coincidência! Como viemos parar aqui?
Diego contou a Athos como conhecera os garotos, como tivera a visão do quintal e
depois o motivo de ter desfalecido ao chegar ao jardim.
- Muito interessante. - observou Athos.
- Tem mais. Um garoto queria saber onde era o banheiro e eu o ensinei. Não sei se certo
na verdade... Nunca estive aqui antes, mas o fiz com tanta segurança....
Athos ficou preocupado, estas lembranças não deviam mais existir. As pertencentes a
Thomas foram destruídas. Podia ser uma coincidência. Os humanos são muito complexos,
sempre ouvira falar em premunição, visões. Os protetores não tinham estes sentidos, eles
podiam compartilhar fatos entre si, mas alguém precisava sabê-los ou serem previstos pelas
suas ciências. Era tudo absolutamente lógico, explicável, não haviam mistérios, perguntas
sem respostas, ele mesmo não tinha recordações desta casa, só iam ate seu protegidos em caso
de eminente perigo, precisavam ser invocados por eles, mesmo inconscientemente, nunca
ocorrera nada de estranho ali enquanto Thomas era vivo.
Não se deu por satisfeito, Diego podia estar enganado, quis estar certo disso. Thomas
não era um nome comum, mas não tão difícil, trancou- se em um dos banheiros e abandonou
seu corpo ali e se transportou para dentro da casa, no corredor encontrou um diploma de
honra ao mérito do serviço militar em nome de Thomas Augusto Peres Aguiar e ao seu lado
varias fotos dele junto com o pelotão e sozinho. não teve mais dúvidas! As suspeitas de Diego
eram corretas: estavam realmente na antiga casa de seu protegido.
Voltou ao quintal e já o encontrou praticamente vazio. Apenas uns poucos convidados e
já se despedindo. Diego também ia se retirar mas foi impedido por Ramom.
- Antes de ir embora gostaria de lhe mostrar alguns trabalhos meus, meu pai gostaria de
fazer de mim um jornalista, preparei tudo para mostrar a ele. Mas não foi possível..... ele foi
seqüestrado naquela semana.
- Será um prazer.
- Espere aqui, vou buscá-lo s.
- Está bem. Mas não se distraia com outras coisas e me deixe esperando aqui.
- Como pode saber disso?
- Não entendi sua pergunta?
- Tenho realmente esse hábito. Eu ia buscar alguma coisa e me distraia. Meu pai ficava
furioso.
134
- Todas as crianças são iguais, nada de espantoso.
- O espantoso é como você falou, igualzinho a ele.... Mas não vamos perder tempo.
Estou indo buscar meu trabalho. Volto já.
Athos ficou observando Diego conversando com Ramom e viu quando eles concluíam a
conversa:
- Sensacional! Seu pai estava certo, você vai ser um grande jornalista se tentar. Depois,
agora já tem um padrinho! Você vai ser o meu orgulho: campeão!
- Obrigado Diego! A providencia divina colocou você no meu caminho, sinto-me como
se tivesse conseguido um segundo pai. Bem mais novo é verdade; nossa diferença de idade é
um pouco menos de dez anos, mas por algum motivo desconhecido sou levado a confiar
cegamente em você.
- *Já era noite quando Athos os deixou na porta da mansão e saiu para levar Beatriz
Helena Reis Gonzalez. Marina precisava entrar para pegar seu carro e foram andando devagar
pelo caminho calçado em direção à casa.
- Marina, - saudou Ítalo. - estou preparando um coquetel especial para vocês. O Diego
terminou seus remédios ontem, vou brindar sua volta ao mundo dos homens normais em
grande estilo.
- Mais bebida? Querem me embebedar, ainda tenho um carro para levar embora.
- Depois eu a levo em casa e aproveito para andar um pouco na volta, será um prazer. retrucou Ítalo.
- Neste caso vou ser obrigada a aceitar. Não tenho saída.
- Ótimo, aguardem no jardim de inverno. Levo os drinques até lá.
Encontraram o ambiente preparado para uma conversa agradável, nada havia sido
esquecido. Um carrinho de bebidas, canapés, cigarros, o ar condicionado regulado para criar
uma temperatura agradável sem torná-lo frio. Flores foram dispostas em vários vasos
completando as já existentes dando ao local uma aparência magnífica. Mal entraram e o local
foi invadido por uma música suave, acariciante, logo em seguida Ítalo entrou com o drinque.
- É o meu drinque favorito. Você vai adorar, tenho certeza.
- Magnífico. - elogiou Marina depois de provar, era fácil fazê-lo com Ítalo, não para
ser gentil, falar a verdade pura e simples.
- Ótimo, seria frustrante se eu não lhe agradasse, quero você acostumada à minha
presença. - Ítalo se afastou para um canto do local e ficou no aguardo dos desejos do casal.
- Ítalo está tentando impressioná-la. Eu o conheço.
- Está tentando me conquistar? Eu não sabia deste lado lobo do Ítalo.
- Está, mas não para ele, para mim. Todos nesta casa estão tentando promover o nosso
casamento e nem sequer somos namorados.
- Eles sempre tentam casar você com as suas convidadas?
- Não, geralmente tentam impedir! Só estão fazendo isso com você.
- Muito simpática a família do Ramon. Adorei todo mundo. - comentou Marina para
fugir ao assunto, estava com medo de magoar Diego.
135
- Você já os conhecia... por certo!
- Não! Absolutamente. Deveria conhecê-lo s?
- Claro! Não sabe quem são?
- Não.
- Então coloque o copo em cima da mesa. Senão quando eu revelar a verdade você vai
derrubá-lo .
- É tão contundente assim? Tão espantoso? - respondeu Marina atendendo ao seu
pedido.
- Uma coincidência surpreendente.
- Então fale, não me deixe nesta ansiedade.
- Estávamos sendo recebidos pela família de Thomas.
- Não posso acreditar! Você sabia disso quando fomos até lá?
- Não, de jeito nenhum! Quando ela tocou no nome dele naquele pequeno discurso eu
desconfiei, então olhei o cartão de Ramon, eles têm o mesmo sobrenome.
- Ramom e Rebecca! Como pude esquecer? Ele vivia falando neles, ao menos agora sei
com quem devo tratar de um assunto. É desejo dele uma conversa com sua esposa sobre
minha casa. Se ela quiser devo pagar às crianças a metade de seu valor.
- Não concordo! Legalmente a casa é sua.
- Nenhum desejo de Thomas, esteja ele vivo ou morto deve ser desrespeitado.
- Tudo bem. É uma questão de foro intimo, não vou tentar interferir.
- Esqueça o assunto, são coisas pessoais. Não devem lhe aborrecer, você já faz muito
por mim.
- *Na manha seguinte Marina se dirigiu à casa de Diego acompanhada de toda sua família,
iriam conversar sobre a estratégia da defesa de Salvatore Schiavonne, O advogado da família
os acompanhava e estava pessimista.
Salvatore Schiavonne assistiu incrédulo seu advogado ser dispensado por Athos.
Faltava uma semana para o julgamento. Mas não entendeu mesmo foi sua própria atitude
concordando com ele.
- Não entendo, - argumentou o advogado. - vai ficar difícil para alguém se assenhorar
de todos os fatos uma semana antes do julgamento.
- Doutor, não se preocupe. Está tudo sobre controle. Quanto aos seus honorários aqui
está um cheque do total combinado pelos serviços e os documentos para serem assinados.
Não queremos seu prejuízo. Deixe todo o material destinado ao julgamento conosco e ficamos
quites e gratos.
O advogado se sentiu desprestigiado mas na vantagem. Recebera o total combinado e
ficara livre de um processo condenado à derrota, ainda se fez de melindrado; mais para não
demonstrar sua satisfação e se retirou aparentemente furioso. Ao entrar no carro um sorriso
substituiu a mascara de ofendido e seus olhos se prenderam durante algum tempo no cheque
recebido sem muito esforço.
136
- Senhor Diego. Me coloquei totalmente em suas mãos, espero ter agido corretamente,
não sei como concordei com isso.
- O Athos me garantiu sua liberdade, confio plenamente nele. Nunca perdeu um caso. murmurou junto ao ouvido de Salvatore.
- Muito bem. Então vamos analisar os fatos.
- Não precisa. - afirmou Athos. - Primeiro vou ler todo este processo e depois nós
conversamos. Passo na sua casa amanhã.
- O Senhor tem certeza? Nunca perdeu um caso?
- Jamais! Depois já sei o bastante sobre o seu caso. Se o senhor for inocente sairá livre.
- Então vamos embora. O assunto está liquidado e não queremos incomodar mais.
- De jeito nenhum. Olhe para aquilo.
Ítalo se aproximava com algumas bandejas, seguido pelos demais funcionários da casa.
- Vamos passar o dia aqui. Temos muita comida, bebida e o sol está maravilhoso. Não
aceito desculpas. - exigiu Diego.
- Então precisamos ir em casa de qualquer maneira, não trouxemos trajes de banho. respondeu Salvatore Schiavonne
- Tomei a liberdade de comprar alguns trajes de banho para presenteá-lo s, - respondeu
Diego. - deixe- me ver.... este e seu, o da dona Isilda, um para Anabela... não estou achando o
pacote de Marina aqui, Sofia, por favor verifique em meu quarto. Ítalo vai lhes mostrar onde é
o vestiário, eu já estou a caráter.
Sofia demorou mas voltou, trazendo um pacote consigo:
- É este?
- Exatamente, não sei como pude deixá-lo lá.
- Eu pensei ter sido esquecida. - ironizou Marina.
- Jamais, eu preferia esquecer de mim mesmo a esquecer você. Não se pode abandonar
uma flor sem cuidados. Ela definha e morre.
- Onde você aprendeu essa frase?
- Em lugar nenhum. Me deu vontade de falar e eu disse, porque? Devo ter lido em
algum lugar.
- ”É uma das frases favoritas de Thomas.” - pensou Marina, mas não quis magoar
Diego e respondeu. - É uma linda frase, eu queria saber quem é o autor.
- Eu a achei propicia, o autor realmente não tem importância.
- Ótimo, agora abra seu presente. Já o comprei há alguns dias. Quando o vi na vitrine
não resisti, tive a impressão de ver você dentro dele.
Marina abriu o pacote e ficou impressionada com seu conteúdo. Um conjunto de praia
completo em preto com uma pequena maçã aplicada nas duas peças do biquíni e na saída de
banho. Estava embrulhado em um papel da Berington, loja de roupas intimas e trajes de
banho favorita de Thomas, mas não obrigatoriamente uma exclusividade dele, era uma casa
dedicada à pessoas bem sucedidas e de bom gosto, nada impedia Diego de usá-la e não se
constituía em um fato extraordinário.
137
- Lindo, adorei. Agora vou me trocar e volto logo, minha mãe e minha irmã não vão sair
do vestiário a não ser comigo.
- *Quando entrou no vestiário encontrou a irmã e a mãe já trocadas e conversando
animadamente.
- Posso saber qual o assunto? Vocês parecem muito animadas.
- Eu estava comentando com a dona Isilda a terrível coincidência. Diego não só acertou
os nossos gostos como também o tamanho. veja! Não caiu como uma luva?
- Está perfeito! Parece ter sido feito sob medida.
Marina se trocou e quando ficou pronta Anabela estranhou:
- Seu amigo esqueceu de você? Foi obrigada a ir em casa buscar sua roupa?
- Foi o presente dele. Não fui buscar nada, Sofia demorou para encontrar o pacote.
-
Ai donti bélivi. - brincou Anabela.
-
Qual o problema ô do norte? - inquiriu Marina.
- Mas..... é igualzinho! Sem tirar nem por!
- Não fale perto dele. Não quero mais falar no Thomas hoje. Parece não existir outro
assunto. Ele está nos fazendo muitos favores e já cuida disso a semana inteira.
- *- Você está linda! - comentou Athos. - Este conjunto é de muito bom gosto.
- Athos você acredita em possessão?
- Possessão?
- É, quando um espírito domina um corpo de terceiros.
- Não sei ao certo, a principio não.
- As vezes eu tenho a impressão.... deve ser bobagem....
- Vamos falar a respeito, podemos andar até o jardim.
Marina foi até o jardim e comentou com Athos suas recentes suspeitas, após conhecer
Diego varias vezes foi levada a pensar estar com Thomas quando estava em sua presença: a
forma pela qual foi tocada por ele em seu primeiro encontro, o fato dele ter atraído seus filhos
para a mesa onde almoçavam e até de estarem naquela lanchonete tão simples sendo ele um
homem exageradamente sofisticado; a frase dita por ele a poucos instantes e o conjunto de
banho idêntico ao presenteado pelo namorado.
Athos ficou preocupado. Não entendia os novos acontecimentos. A memória de Thomas
fora destruída; e, com sucesso, os protetores sabiam realmente como fazer isso. Como podia
se portar como ele as vezes? De onde vinha esta força tão poderosa a lhe provocar estas
lembranças? Então as palavras de Agnus Valerie vieram a sua memória.
- Amor omnia vincit, vixi. Ad augusta per angusta...(- O amor vence tudo, tenho
dito. Através das dificuldades se chega aos grandes resultados, vamos destruir suas memórias,
mas ele continuará sendo Thomas, seus valores prevalecerão sobre os de Diego.)
Devia ser isto! Os valores de Thomas prevalecendo sobre os de Diego. Não havia outra
explicação!
138
- *Marina, quando tocou a campainha da casa de Lúcia, fê-lo com o coração aos pulos.
Clara, a secretária de Thomas, sempre lhe dera as piores informações a respeito dela,
principalmente no tocante ao ódio por sua pessoa. Mas queria respeitar a vontade do amado.
No sábado estivera em sua casa como convidada do filho, mas ambas não sabiam quem eram,
deveria ser diferente então, ela já telefonara e esclarecera sua participação na vida de seu exmarido. Esperava agora encontrar um monstro. Uma mulher com uma mascara de maldade
estampada no rosto. No entanto se surpreendeu, tocou a campainha e respondeu as perguntas
provenientes do auto-falante instalado na mesma, passados alguns minutos o portão se abriu.
Esperava ver uma empregada uniformizada à sua frente, mas não, ela própria a atendeu,
vestida de preto, simpática e embora com um semblante triste, muito cordial.
- Dispensei Pliciana hoje na parte da manhã, fiz questão de atendê-la pessoalmente. Sei
como deve ter sido difícil vir até aqui, embora desconheça os motivos de sua visita. Então
quis tornar tudo o mais íntimo e ameno possível.
- Obrigada, eu esperava ser recebida por alguém com duas pedras na mão,
sinceramente. As referências sobre seus sentimentos para comigo nunca foram muito
agradáveis, Clara sempre falou em ódio.
- Não posso maltratá-la, nem odiar Thomas: eu pedi o divórcio. Nunca quis saber com
quem ele saía. A Clara tem muita imaginação, nós nos afastamos quando descobri suas
mentiras. Ela deve ter falado coisas terríveis a meu respeito, pobre menina. E eu ainda a
ajudei quando ela se complicou financeiramente.
- Isto não importa, estou conhecendo você agora e vou poder fazer meu próprio juízo.
- Vamos entrar, ainda não tomei meu café, você me acompanha?
- Com prazer, eu estava muito nervosa nesta manha; não consegui comer nada; agora
estou mais calma.
- Ótimo, então vamos fazer uma coisa! Deixamos qualquer assunto para depois do café.
Vamos fazer uma refeição tranqüila? Como duas velhas amigas? Gostei do seu casaco, onde o
comprou?
- *Depois do café foram para a sala, e ao invés de conversar sobre o assunto Marina
preferiu entregar a Lúcia a carta recebida de Thomas. Após a leitura a mulher pensou um
pouco e depois se manifestou.
- Vamos fazer diferente: Meus filhos ainda vão levar alguns anos para atingir a
maioridade, quando acontecer, vamos deixar eles decidirem. Não tenho autoridade para
decidir sobre a herança deles. É a lei. Não sou mais herdeira de Thomas, ele devia saber disso,
mas não deve ter tido tempo para analisar o assunto. Eu não preciso deste dinheiro. Meus
filhos também não. Além de tudo, ele fez a doação em vida nem acredito realmente na
existência de qualquer direito, consulte um advogado.
- Não quero advogados envolvidos nisso, a vontade de Thomas é a lei. Vão se passar
muitos anos, eu posso vender a casa amanhã e vocês não terão qualquer garantia.
- Não me preocupo com isso, Thomas não saiu com nada de nosso casamento. - abriu
uma porta e mostrou uma pilha de escrituras. - Veja! São propriedades, dezenas, os
restaurantes, ele abriu mão dos bens e saiu com uma Mercedes esporte, uma moto quebrada;
embora nunca a tenha levado daqui; e a roupa do corpo. No dia seguinte ele, antes dono de
tudo isso, estava pagando aluguel. Nunca ligou para dinheiro enquanto foi vivo. Ainda tem os
139
imóveis e dinheiro de meu pai, sou sua única herdeira, ele sim é muito rico. Sua casa não vale
nada perto dos meus bens. A morte dele não me ajudaria em nada.
-
Ele ainda está vivo!
- Não está! Sua morte foi provada.
- Ninguém provou nada! Não sei como, mas aquelas fichas dentárias foram forjadas.
- De jeito nenhum, a doutora Priscila é por demais honesta, jamais ira colaborar com
uma fraude.
- Você foi ver o corpo?
- Não. Meu pai cuidou de tudo. Quando viu o resultado das fichas e chapas da dentista
se deu por satisfeito, é o ambiente dele.
- Eu fui, o corpo era semelhante, enganaria qualquer um, mas não a mim, e
possivelmente nem a você. Nós o conhecíamos! Mas não era ele, não entendo a razão pela
qual declararam o homem errado como morto? Pode ser coisa do Pedro Latorre, do
Alexandre, talvez ele seja prisioneiro deles. Mas sua morte foi forjada! Tenho certeza!
- Mas como? Seu corpo estava irreconhecível.
- Não, apenas um pouco inchado, só as suas mãos e o rosto estavam destruídos, achei
tudo muito conveniente.
- Entendo....
- Eu fiquei vários dias escondida. Não queria me encontrar com o Repete-tudo. Ontem
conversei com meu advogado para solicitar uma comparação de DNA, e como você sabe, não
vai ser possível.
- Não foi nossa decisão cremá-lo. Era desejo expresso dele. Espere um pouco. - Lúcia
se ausentou e voltou depois de uns minutos. - Veja você mesmo.
- Não importa, eu vou achá-lo , ele está vivo.
- Não concordo com você, mas se houver uma chance dele estar vivo.... vou ajudar
como puder....
- Converse com seu pai, é um grande criminalista, talvez ele tenha alguma idéia.
- Vou falar com ele, no entanto, sinceramente... tenho poucas esperanças.
- Qualquer ajuda será bem vinda. Preciso ir embora. Adorei este nosso encontro,
gostaria de ser considerada sua amiga.
- Claro! As crianças gostaram muito de você, do Athos, do Diego, apareçam quando
quiserem. É só avisar e os esperaremos.
- Obrigada, fico muito feliz.
Enquanto isso, novidades no destino de todos estavam se desenhando na Montone &
Associados.
- Diego, o mendigo voltou, está lá fora. Posso mandá-lo entrar?
- Qual é a aparência dele?
- Está limpo, barba e cabelos rapados. Não está assustando
- Está bem. Deixe-o entrar. Vamos ver se ele tem garrafas para vender mesmo.
140
O mendigo entrou na recepção. Diego o atendeu ali mesmo. Não permitiu sua entrada
em sua sala, evitou prolongar a conversa com ele alem do necessário.
- Então você conhece o homem da fotografia? Pode me levar a conhecidos dele?
- Poder, posso! Mas não acredito na sua coragem em conviver com seus amigos. Jaú e o
resto dos nossos amigos são tão sujos como eu estava naquele dia.
- Mendigo? Impossível! Os relatórios da autópsia se referem a um homem sem
características de indigência: dentes bem cuidados e outros detalhes impossíveis de serem
encontrados em um homem da rua.
- Nós roubamos uma Polaroide dois meses antes do acidente, então demos um jeito na
aparência e tiramos umas fotos. Compare!
Diego olhou as fotos e não teve dúvidas. Se tratava do mesmo homem. Impossível
negar.
- Olhe aqui, vou lhe dar mais algum dinheiro, mas não o prometido. Apesar da
semelhança existente entre eles não podiam ser o mesmo homem. Olhe estas falhas nos dentes
nestas fotos. E observe os relatório da autópsia e do processo.
- Jaú sumiu por uns tempos antes do acidente, quem sabe bolou este golpe e mandou
arrumar os dentes? Era homem de boa família em sua cidade, tem uma irmã morando em São
Paulo: posso levar vocês até ela.
- Vamos então. No entanto, o resto do dinheiro... só se conseguirmos provar sua
identidade. Qual o seu nome?
- Nelson, mas sou conhecido como Judas, não sei porque.
- Quer um emprego?
- Não por enquanto, este dinheiro vai durar muito tempo. Mas prometo pensar no
assunto.
- *Stella Ferreira Munhoz, a irmã do homem conhecido como Jaú, uma mulher muito fina,
olhou a foto e admitiu uma grande semelhança entre o mendigo e seu irmão. Mas concordou
com Diego.
- Não pode ser meu irmão. Ele estava terrivelmente deteriorado. Um farrapo. Cansamos
de chamá-lo para vir morar conosco, não temos problema financeiro. No entanto ele gostava
daquela vida na rua. Aparecia uma vez por semana para tomar um banho em algumas
oportunidades demorava por uns dias. Mas sempre voltava para as calçadas.
- A Senhora tem certeza? Não pode ser ele?
- Não acredito. Ele sumiu das ruas, segundo nosso amigo Judas uns quinze dias antes
do ocorrido. Deve estar enterrado como indigente em algum cemitério da cidade. Em todo
caso vou mandar exumar o corpo e pedir um exame de DNA, se for comprovado ser ele quero
o descansando com dignidade. No jazigo da família.
Diego saiu dali desolado, havia chegado a um beco sem saída. Não havia mais nada a
fazer, seria obrigado a desistir de procurar Thomas e com isso perderia o contato com Marina.
- *Diego Montone e Pedro Latorre já não se encontravam há muito. Este ficara
melindrado com aquele quando o repórter, pressionado pela esquerda, começou uma
141
reportagem sobre a forma de pressão exercida pela Coexponal para seus funcionários não
fundarem seu próprio sindicato.
Pedro Latorre lutou contra os agitadores com suas próprias armas, promovendo alguns
dos menos exaltados e criando uma força contra, implodindo o movimento. Em outra etapa
levou estes a se lançar a uma nova tentativa em um grupo fechado escolhido por ele, desta vez
com sucesso, e passou a negociar com os mesmos, impondo com facilidade sua vontade. E
então pode contar com o apoio do repórter, através de um amigo não comprometido
resolvendo de vez o problema, tornando-se a eminência parda do sindicato e reatando a
amizade com Diego Montone.
- Você está me pedindo para lhe mostrar como mantemos a diretoria de nosso sindicato
no poder? Não posso fazer isso.
- Será uma grande reportagem, com isso pretendo diminuir a força dos sindicatos e
democratizar estas instituições. Quero saber como você controla seus agitadores de comício,
como é utilizada a violência para forçar os sindicalizados a votar no homem escolhido, coisas
assim. Vou usar os conhecimentos mas não atacar o seu sindicato, deixo ele livre.
- Diego, escolha outra linha, essa reportagem será muito perigosa, meu sindicato
controla uma verdadeira fortuna. Seus lideres posam de homens simples e pouco letrados
perante as câmeras, mas podem levar uma vida tremendamente sofisticada, viajar para a
Europa com a desculpa de colher subsídios, roubar os cofres do sindicato com notas frias, é
um maná. Não vão perder isso por sua causa. Mandam matar você ao primeiro sinal de perigo
real. Está fora do meu controle.
- Não vão se atrever a assassinar um jornalista.
- Não abertamente. Mas podem forjar um assalto na frente de seus familiares e a menor
reação provocará sua morte. Eu estou falando de muitos milhões.
- Você participa desta caixinha?
- Por enquanto não! Me basta controlar a força de trabalho. Mas no futuro será
impossível evitar. Meus negócios crescem a olhos vistos e o volume está cada dia mais
tentador. Por enquanto me contento em manter a diretoria sob o meu comando.
- Como você faz para manter os funcionários satisfeitos?
- Eu e outros empresários achamos por bem negociar varias vezes com o sindicato por
exercício. Assim eles mostram muitas conquistas. Uma vez eles colocaram outra diretoria e
nós engrossamos, pediram muito e não tiveram nada, estes nunca mais se elegem.
O calor da sauna era sufocante, Diego se levantou para sair:
- Pelo jeito eu não vou conseguir nada com você, vou atrás de outra fonte.
- Espere! Eu não estou sujeito a apenas um sindicato. Vou colocar a minha diretoria em
contato com você amanhã cedo. Eles vão saber entregar umas falcatruas de outras entidades.
- Amanhã cedo não posso. Vou para Morada do Simum hoje. Mais precisamente para
Nova Palermo. A sede da comarca. Preciso assistir um julgamento e não vou ter tempo.
- Qual o horário do julgamento?
- Vai ter inicio às catorze horas.
- Então não viaje hoje deixe para amanhã. Fazemos a reunião logo cedo e depois um
dos meus aviões leva você.
- Não é um excesso de gentileza?
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- Em absoluto. Não quero você recorrendo a outras fontes. Se vai haver essa reportagem
quero saber tudo sobre ela e ter certeza de ter o nosso sindicato fora. É o nosso trato não?
- Claro, sou um homem de palavra.
- *Já trocados Pedro Latorre convidou Diego a tomar um drinque na entrada da sauna.
- Todo peso perdido lá dentro ganho aqui. Mas paciência.... é a vida.
- Você acha possível os diretores do sindicato se abrirem comigo? Quero dizer.... com
franqueza.
Pedro Latorre não respondeu, tirou um bloco de anotações do bolso rabiscou um bilhete
e o mostrou a Diego:
"Este assunto está encerrado, você está de roupa e elas muitas vezes escondem
gravadores"
Em seguida colocou fogo no bilhete e o colocou sobre o cinzeiro. Quando estava
totalmente queimado ele o reduziu a pó com a ponta do charuto.
- Mesmo queimados, se não virarem pó, podem ser reconstituídos: alguns costumam
acreditar nisso.
Diego se retirou enquanto Pedro Latorre olhava preocupado. Quantos crimes podiam
ser remexidos com uma boa reportagem? Diego era o homem indicado e capaz para levar a
cabo um trabalho prejudicial a ele, precisava ficar ao seu lado o tempo todo. Nada podia
escapar aos seus olhos.
- *O avião seguia seu curso com destino a Nova Palermo, Athos estava curioso.
- Conseguiu alguma coisa nesta reunião de hoje?
- Já tenho um bom material e alguns nomes de sindicalistas liberais e insatisfeitos.
Agora vou poder me dedicar a eles, o caso Thomas entrou em um beco sem saída.
- Já era a hora. Eu também estou convicto da inutilidade da busca de Marina.
- Athos, você levou Beatriz a um encontro junto comigo e ela nem tocou no nosso
relacionamento, como você consegue isso?
- Sexo, descobri o ponto fraco dela. Sem promessas e sem amor. Foi fácil, ela também
não o amava, muitas mulheres gostariam de ter uma relação com Diego Montone. Saía com
você em função disso, nada mais.
- É, muitas querem.... menos Marina.
- De um tempo, quando ela souber dos resultados desta última entrevista com o
mendigo vai se tornar mais céptica. Não existe onde procurar.
- Estou cada dia mais apaixonado. Conforme o tempo passa meu sofrimento aumenta.
- *Mas ao chegarem na cidade foram surpreendidos com o adiamento do julgamento por
uma semana, a família da garota ficara ausente da cidade por um longo período e esta só
recentemente fora intimada precisavam aguardar o prazo legal para a audiência.
Os Schiavonnes decidiram passar a semana na cidade. Afinal todos os seus negócios
foram cuidados à distância neste período, podiam estar com muitos problemas. Marina
143
decidiu ficar com os pais, assim poderia cuidar dos assuntos externos e seu pai não seria
obrigado a se expor muito. Convidaram Athos e Diego a ficar com eles e Diego aceitou sem
pestanejar:
- Você não pode fazer isso. E os seus artigos?
- Para os próximos dois dias já estão entregues, depois escrevo aqui mesmo. Você vai
com o avião para São Paulo e trás meu computador passo tudo por fax, leio os matutinos aqui
e acompanho os assuntos pela televisão. É só uma semana.
- Está bem. Não vou mesmo ganhar a discussão, volto amanhã ou depois. Preciso ver
como estão as coisas na Montone.
- Traga- me também algumas trocas de roupa e para Marina e seus pais... pegue com
Anabela.
- Está bem. - respondeu Athos.
- Como está tudo decidido vamos pegar um ônibus para a rodoviária, tem um ônibus
para Morada do Simum às quatro. - concluiu Marina pensando ter encerrado a conversa e se
surpreendeu com a resposta de Diego.
- Nada disso! Não podemos ficar dependendo de quatro ônibus por dia para a cidade,
vou querer conhecer a região. Tem uma loja de aluguel de carros duas ruas acima. Me
esperem e vou pegar um para nós. - e sem esperar resposta se afastou do grupo.
Marina ficou surpresa. Como Diego podia saber tanto sobre sua cidade? Nunca tinham
sequer conversado à respeito; e, quanto a sua forma de agir? Thomas também sempre alugava
um veiculo quando estavam na cidade e por algum motivo vinham de avião, ou ônibus.
Justamente na loja à qual ele acabara de se referir mas sua tentativa seria inútil ou demorada
era uma "Rent a car" diferente: fechava na parte da tarde se não houvesse vôos programados
para a cidade e eles não eram diários, por isso o grande número de jatos particulares na
região. Depois de muito tempo ele voltou com um carro Marina estava sozinha com Athos,
seus pais decidiram ir embora sozinhos, tinham pressa e foram de ônibus mesmo.
- Como conseguiu um carro? Comprou?
- Não! Fui até a casa do dono da loja. Fica apenas a três quadras do local. Demorei foi
a convencê-lo a abandonar a televisão para me atender. Plebeu idiota.
- Plebeu? Maneira interessante de falar. - observou Marina e recebendo uma resposta
totalmente fora de propósito.
- Esqueça, vamos embora, agora temos nosso veiculo e não será necessário nos
misturar com o povo. As vezes eles não gostam muito da companhia da nobreza, prefiro ficar
em segurança.
- Desde quando nós somos nobres? Não sei de onde você tirou isso!
Diego ficou surpreso com a própria afirmação e respondeu sem pestanejar.
- É apenas uma brincadeira. As vezes gosto de fazer isso. Não me leve a sério. desculpou- se Diego sem se entender, como podia estar preocupado com fatos tão
mesquinhos.
- Bem, não vou mais reter o avião de Pedro, até breve. - Athos se afastou e Diego se
dirigiu a Marina.
- Vamos comer alguma coisa, estou com fome.
- Alguma coisa leve, meu pai foi preparar o jantar, não posso decepcioná-lo .
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DESPERTAR THOMAS EM DIEGO; MARINA PENSA SABER COMO.
Diego e Marina tomaram foram a uma lanchonete próxima ao local onde se
encontravam. O verão convidava à permanência nas mesas das calçadas. Conversaram sobre
uma série de banalidades e o tempo passou, quando se prepararam para ir embora a noite já se
aproximava.
Diego se pôs a caminho com certa hesitação seguindo as placas indicativas de Morada
do Simum e prestando a atenção nelas para não se perder. A luz cheia se fez visível. Marina
achou ter visto nele um lampejo, um brilho diferente, por uma fração de segundo, devia ser o
reflexo de algum neon, nada mais, - pensou - tirando uma fita dos "The Platers" da bolsa e
colocando-a no toca-fitas, cantavam Remember When.
Passaram-se alguns segundos e ele de repente aumentou o ritmo com o qual dirigia o
veículo. Pareceu se desinteressar pela sinalização auxiliar e quando chegou à obscura entrada
da rodovia principal à vicinal com destino ao vilarejo dos Schiavonnes sentiu-a muito familiar
e dirigiu através dela com segurança; surpreendendo a si mesmo; de repente; uma visão:
diminuiu bem a marcha dirigindo o carro para o acostamento, logo em seguida se refez e
voltou a estrada, mas não pode deixar de assustar Marina nem ela conter sua curiosidade.
- Você está se sentindo bem?
- Não sei. Este trecho da estrada... De repente me pareceu ver um cachorro. Tive a
nítida impressão de já ter atropelado um enorme aqui, quase pude sentir o animal passando
por baixo do carro causando danos ao mesmo. Mas como posso ter esta lembrança? Nunca
estive em Morada do Simum e sequer atropelei um cão em qualquer outro lugar.
Marina ficou pensativa, Thomas havia atropelado um cachorro ali. Exatamente naquele
trecho, Tinham um Santana à época, o animal era enorme e o carro ficou muito danificado,
saia dianteira, escapamento, foi quando ele se apaixonou pelo Sonata.
Quando se aproximou da pequena e escondida rotatória de acesso ao vilarejo ele
diminuiu e saiu da estrada ficando na posição de cruzá-la, depois entrou pela única rua de
acesso ao mesmo e desceu por ela, contornou a enorme praça da igreja, único prédio grande
no local e virou à esquerda, quando passou pela praça andou uns cinqüenta metros e
estacionou. Exatamente em frente a casa dos Schiavonnes surpreendendo Marina.
- Como você podia saber?
- Saber? Havia algo para mim saber.
- Estacionou em frente à minha casa.
- Mesmo?
- É claro.
Diego ficou sem ação. Realmente tinha certeza de ter chegado ao final da viagem. Mas
não sabia como explicar o fato nem a si mesmo, então respondeu.
- Coincidência, afinal a cidade não é tão grande.
- Exatamente aqui?
- Como acabei de falar sua cidade não é muito grande, não vejo motivos para tanta
surpresa.
Marina olhou em volta, quantas ruas tinha Morada do Simum? Oito? Doze no máximo!
não era uma coincidência tão absurda, Diego estava certo.
145
Entraram na casa, Salvatore os esperava. Foram conduzidos para os fundos da casa, ali
havia um grande coberto. A mesa de jantar arrumada ali. O homem pegou duas pequenas
canecas das penduradas junto a tantas outras na parede e as passou sob o jorro de água da
torneira do tanque, depois foi ao minúsculo barril depositado sobre a mesa e as encheu.
Entregou uma a Diego e entornou de vez o conteúdo da sua goela abaixo.
- Quanta saudade da minha especial, não existe nada igual em São Paulo, experimente.
Depois chocalhou a barrica e reclamou.
- Meus amigos continuam se servindo aqui, mas encher o curote. bem... isso ninguém
faz. Mas vamos jantar eu o preparei para Marina.
- Aquele feijão especial? - perguntou Diego.
- Como sabe?
- Estou sentindo o cheiro, me parece delicioso? - respondeu Diego extremamente
calmo.
- Quer o seu como o dela?
- Claro, porque não?
Salvatore foi a geladeira. Pegou um pedaço de queijo, fabricação caseira, os
Schiavonnes os faziam como na Itália. Não tinham como adquirir aquele produto em nenhum
laticínio.
- É preciso deixar ele muito tempo na geladeira até atingir este grau de dureza, mas só é
bom assim. - em seguida pegou um ralador e passando o queijo por ele diretamente sobre
cada prato forrou o fundo dos mesmos com uma boa quantidade do produto, depois foi até a
panela colocada sobre o fogão de lenha e adicionou o feijão fervente, mexendo-o, adicionou
o arroz, um grande bife e cebolas, repetindo esta operação ate todos terem seu prato. - Não
espere esfriar. - disse ao entregar o de Diego. - Senão o sabor se altera.
Após terminar de servir todos ele colocou uma travessa de carne sobre a mesa e se
acomodou para jantar.
- Uma delicia. - pronunciou- se Diego. - O senhor precisa dar esta receita de feijão ao
Ítalo.
- Vocês comem feijão naquela casa?
- Não muito na verdade. Apenas às segundas- feiras, o feijão de Ítalo é uma delicia, mas
esta variação vale a pena.
- Não comente com ele. - sugeriu Marina. - Ele é muito melindrado. Convide-o para
almoçar em nossa casa. Se ele gostar pedirá a receita, senão; nada de inventar.
- Você tem razão. Ítalo tem orgulho de seu feijão. Melhor não criar problemas.
Ficaram ali naquele coberto. Morada do Simum era muito quente, não sentiram frio ou
vontade de dormir, conversaram muito e não viram o tempo passar, quando foram para a
cama o amanhecer já estava próximo.
- *ROSE LATORRE viu quando a garrafa de cerveja atingiu seu pára-lamas, fora atirada
com força e possivelmente havia atingido o R.F. pintado sobre ele, adorava aquele Camaro,
ganhara do pai quando ainda solteira, as inicias se referiam a Rosicler Faria, seu nome de
solteira ao qual havia acrescentado o Latorre.
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As palavras a seguir não foram nada elogiosas, e ela lamentou. Cometera dois erros de
trânsito em toda sua vida e sempre com a mesma pessoa.
- Sua vaca sem-vergonha, vá tirar a carteira, está precisando. - talvez tenha sido o
trecho mais leve dos "elogios"
Olhou para Albano ao seu lado aparentemente impassível, porém revoltado, ninguém
podia falar assim com Rose, não permitiria isso nem a Alexandre Latorre.
Ela simplesmente comentou: - Maldito, esta cidade é tão grande não sei como ele me
encontra, já é a terceira vez e hoje eu não fiz nada. Vou ser obrigada a agüentar isto o resto da
vida?
- Vá devagar, ele não está correndo muito e talvez pare em algum barzinho por aqui.
Vou conversar com ele. Pedir desculpas e uma trégua.
Rose não devia ter concordado discussões de trânsito sempre acabam mal. Entretanto,
revoltada, fez como Albano pediu: algumas quadras à frente viu o Maverick de seu desafeto
estacionado e encostou atras deste.
- Deixe-me aqui e vá embora. Discussões de trânsito podem ser desagradáveis,
conversamos amanhã.
Uma hora depois ela recebia um telefonema do funcionário.
- Conversei com o rapaz e fiz ele entender sua preocupação dona Rose. Não se preocupe
não vai lhe incomodar mais.
- Obrigada Albano, cometi um erro, não devia ter concordado com sua idéia, teve algum
problema?
- Não! Ele não me deu problemas, colaborou muito comigo, devia estar arrependido, e
sabe... Nada como uma boa conversa. Compreendeu seu erro, nunca mais vai incomodar
ninguém no trânsito.
Quando desligou o telefone Albano se deu conta da pessoa na qual se transformara. Não
sentiu nada ao apertar o gatilho. O corpo do infeliz rapaz ainda estava sentado sobre o vaso
sanitário. Com tantas cabinas no banheiro da lanchonete, quem sabe quanto tempo levaria
para ser descoberto. Voltou para sua mesa, sem a arma e as luvas. Nunca ficava com elas
depois de usá-las.
Albano consultou o relógio e pediu outro chope, permanecer no local o tornava menos
suspeito, o corpo já devia estar frio, pela lógica, fosse quem fosse o assassino, pela lógica, já
estaria longe.
Pensar em Rose sempre o excitara, matar também, descobrira isso, haviam duas garotas
sozinhas olhando insistentemente para ele, andou até elas.
- Posso me sentar?
- Só depois de responder uma pergunta. É Albano Vallete?
- Como sabe?
- Vi você no Bom Dia São Paulo falando sobre cooperativismo. Trabalho na Burns, sou
Sandra, esta é Sofia.
- Muito prazer! Então somos concorrentes?
- Não leve isso muito a sério, quem sabe conversando comigo você me ensine alguma
coisa, ou até aprenda.
147
- Então tenho permissão para sentar.
- Claro, Sente- se ao meu lado, o namorado de Sofia foi ao banheiro e não volta mais.
- Posso ir verificar se quiser.
- De jeito nenhum! Ele deve ter cheirado. Só vai sair quando estiver de volta da viagem.
- Quero ir embora, - balbuciou Sofia frustrada. - eu nem devia ter vindo.
- Podemos ir a outro lugar se quiserem.
- Qualquer lugar menos aqui. - respondeu Sofia já com um ar menos desgostoso. Quem sabe eu arrume outro namorado, melhor prá mim.
Albano viu a garota se aproximar do carro e pegar uma blusa ali existente só então se
deu conta de quem era o namorado dela. Acabara de lhe fazer um favor. Detestava viciados.
*Albano assistiu o jornal da manha ainda no motel, iria se atrasar nesse dia. Sandra ainda
dormia, não achou por bem acordá-la, não sabia qual o grau de amizade entre ela e o rapaz.
As imagens do assassinato não iriam interessá-la.
Rose Latorre também não acordou Alexandre, ouviu em silencio as ultimas palavras do
repórter - “o rapaz chegou ao local com este Maverick, e segundo testemunhas estava
acompanhado por duas garotas, estas não esperaram por ele”. - Não queria deixar
transparecer seu estado perplexo. As palavras do funcionário começaram a bailar em sua
cabeça.
- Conversei com o rapaz e fiz ele entender sua preocupação dona Rose, não se preocupe
não vai lhe incomodar mais.... não vai lhe incomodar mais.... não vai lhe incomodar mais....
não vai lhe incomodar mais....
Precisou sair da cama e ir até a cozinha tomar um copo de água gelada, e como sempre
quando estava nervosa procurou avidamente algo pronto para comer. Tinha uma idéia dos
serviços de albano na Coexponal, mas não podia imaginar nada nesse nível, o homem era um
assassino frio e implacável. Matara por ela ou por sua fidelidade a família Latorre?
- *Em Morada do Simum acordaram tarde, o sol do meio-dia já se fora não estava mais a
pique. Fizeram um leve desjejum e ficaram conversando no terraço da cozinha, passado
algum tempo Diego ofereceu um cigarro a Marina e pegou um para si, e verificou serem os
últimos.
- Vou comprar cigarros.
- Vou junto, você não conhece a cidade.
- Vamos.
Quando saíram ele não esperou pelas instruções de Marina, andou resolutamente em
direção ao bar em frente ao ponto de ônibus e pediu um pacote de John Player.
- Eu só tenho três maços, eu sempre tenho aqui para o Seu Thomas. Se ele demora
muito eu mesmo fumo. Sou mais do cigarrinho de palha, mas gosto deste também.
- É pouco. Vou passar alguns dias na cidade, amanha vou a Nova Palermo e compro.
- Vai precisar ir mesmo. Eu só vou na Cidade Maldita às segundas feiras; e, se for
preciso. Mas se o senhor estiver a pé eu vou amanhã buscar.
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- Esqueça, eu estou de carro. Fico grato.
Marina até então parada na calçada entrou no bar.
- Senhorita Marina, nem precisa falar, este senhor é seu amigo.
- Como sabe?
- Você está na calçada o jeito pelo qual ele pediu este cigarro, sua maneira de falar tão
familiar, então deduzi.
- Baseado em que?
- Não sei ao certo, apenas tive uma impressão muito forte, esqueça. Vão tomar uma
cerveja? Arrumo uma mesa ai fora para vocês.
- Boa pedida, este vento quente daqui sempre motiva aquela Brahma da geladeira.... não
me traga cerveja do congelador! - respondeu Diego.
O dono do bar arrumou uma mesa para eles em minutos, e a cobriu com uma toalha
limpa. Dentro de uma ou duas horas a enorme calçada estaria totalmente tomada, ele agia
assim para evitar o assedio dos meninos. Se encontrassem mesas livres eles as ocupavam e
criavam muitos problemas para sair então elas eram arrumadas conforme os clientes iam
chegando. Um trabalho diário feito há muitos anos, ele parecia já nem se importar com o fato,
quando fechava o estabelecimento eram todas desmontadas e encostadas à parede do quintal,
sob um pequeno coberto; não pela preocupação em tê-las roubadas, não havia trancas no
portão lateral; ele apenas repetia um hábito de seu pai; este o fazia com o de seu avô; Morada
do Simum assistia essa cena há quase um século.
- Seu Diego, cerveja como o senhor gosta ainda não tem.... coloquei na geladeira há
pouco, pode ser chope? O senhor sabe, nem na Cidade Maldita servem um como o meu!
- Como sabe o gosto dele pela cerveja? Depois ele nem conhece seu chope. - falou
Marina irritada com o comerciante.
- Pelo jeito de pedir. E como ele deve ser amigo do seu Thomas, então conhece o meu
chope; pelo menos de fama.
- Eles nunca se viram Peppino. Você está louco!
- Desculpe Marina. Eu estou tentando ser gentil, é o meu jeito.
- Desculpe você Peppino. Eu não ando muito bem, você sabe, este problema do meu
pai. Traga chope, é realmente o melhor da região, não ligue para minhas malcriações e tente
não ficar chateado comigo. Caso eu seja malcriada novamente, me mande para o inferno.
- Imagine! Eu nunca vou ficar irritado com você, ainda mais passando por tantos
problemas. Vocês já almoçaram?
- Acordamos faz umas duas horas, mas já estou com fome.
- Então vou assar aquele colchão duro, do meu jeito! Seu Thomas adorava, o seu amigo
vai gostar também. Ou preferem uma picanha?
- O colchão duro e a picanha então. Prepare o suficiente para quatro pessoas e avise o
pai de Marina, vamos levar o almoço para eles.
- Aviso e mando entregar o deles, assim vocês ficam a vontade. - respondeu Peppino..
Em alguns minutos havia alguns legumes crus sobre a mesa.
- O serviço aqui é muito bom. Excelente para um vilarejo deste tamanho.
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- Tudo neste vilarejo pertence aos Schiavonnes, o bar mantém o mesmo padrão
implantado por meu avô, vem gente da Cidade Maldita para beber aqui. Logo vai estar
totalmente tomado, dois rapazes ficarão arrumando mesas o tempo todo, uma por uma
conforme os fregueses chegam, tudo muito calmo, ninguém se incomoda em esperar pela
mesa, recebem-na limpa e bem arrumada. Aqui pode se beber até em dia de chuva, este vento
quente sopra toda tarde. O ano todo cobertores por aqui são desnecessários, alguns nem os
têm.
- De onde ele vem?
- Não sei... nunca ninguém se preocupou em explicá-lo. Ele existe e pronto.... quem vai
mudar o fato?
- Como um grande amor! Pode durar séculos, atravessar gerações, faz pulsar o coração
do homem apaixonado e não tem porquê.
- Um homem não dura séculos! Não existe esse amor.
- Desculpe- me, eu quis dizer décadas. Mas alguns amores atravessam gerações, creia
em mim.
- *Na manhã seguinte Diego foi chamado ao telefone. Athos chegara à Nova Palermo e
queria saber se devia levar mais alguma coisa. Queria comprar enquanto estivesse na cidade,
sabia das limitações do vilarejo.
- Onde você está?
- Na rodoviária.
- Espere por mim ai. Estarei ai em vinte minutos, assim devolvo o carro alugado e
compro cigarros.
Já estava abrindo o portão quando Marina surgiu:
- Ei, aonde você está indo?
- Vou buscar o Athos. Está me esperando na rodoviária.
- E não me convidou para ir junto?
- Não quis acordá-la, ainda é muito cedo.
- Acordei antes de você, seu preguiçoso! Vamos embora.
Marina estava vestida bem ao estilo da cidade, um calção vermelho justo, camiseta
verde, bem decotada, quanto menos roupa melhor naquele calor, Diego se arrependeu de estar
tão vestido. O calor o deixava preguiçoso, abriu todos os vidros do carro mas de pouco
adiantou, o vento local muito quente na parte da tarde; mesmo durante o dia; não era nada
agradável.
Ao saírem na Diego ligou o rádio do carro até localizar uma estação a seu gosto. Não
perguntou a Marina se ela queria aquela música ou não tinha certeza de agradá-la, era fã
incondicional do conjunto "The Platers". Marina como sempre fizera quando não tinha bolsos
colocou o cigarro no console e colocou o isqueiro embaixo da coxa esquerda; ele vivia caindo
no chão e sumia por baixo dos bancos; abaixou um pouco o encosto, deixou-se levar pela
música e pelo vento quente, em minutos estava cochilando.
De repente sentiu uma mão em sua perna, não reagiu, foi cautelosa, esperou os
acontecimentos, abriu os olhos e viu Diego retirando o isqueiro sob ela, depois observou-o
acendendo o cigarro com a maior naturalidade e devolver o objeto ao seu local de origem,
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tudo com gestos rápidos e precisos, como quem sempre fizera aquilo, sequer olhou para a
direita para praticar a ação, fê-lo como quem tinha a certeza de encontra-lo ali.
Marina não falou nada ou esboçou alguma reação, ele estava agindo novamente como
Thomas, mais uma coincidência espantosa. Analisou seu semblante modificado, ele não fizera
aquilo a título de abuso. Nem podia ter visto quando guardou o isqueiro sobre a perna, fora
um ato totalmente instintivo, natural, como se estivesse acostumado a fazê-lo. Mesmo o
carinho feito após devolvê-lo dois tapinhas leves sobre sua coxa, foi rápido e preciso,
exatamente como o namorado fazia. Voltou a dormir e não se preocupou, Diego era um
homem respeitador, tivera varias chances de ser ousado e nunca o fez, depois vencida pelo
calor adormeceu.
Quando acordou estavam chegando à ponte de acesso à Nova Palermo, Diego
atravessou por ela e pegou a pequena viela de terra usado para cortar caminho e caiu na
Avenida Santino Schiavonne com destino à Estação Rodoviária Ladislaw Schiavonne,
homenagem ao patriarca da família o primeiro Schiavonne a chegar no Brasil. Andou algum
tempo por ela e depois entrou na rampa de acesso ao estacionamento com a maior
naturalidade parando o carro alugado ao lado do seu. Marina observou enquanto Athos e
Diego tranferiam as coisas existentes no porta-malas para a Mercedes, então desceu para se
juntar a eles e ouviu quando ele ensinava ao funcionário como devolver o carro alugado.
- ....entendeu? Quando ficar contra mão é só você subir e sai em frente ao fórum,
encontro você em uns vinte minutos, meia hora no máximo em frente a loja de aluguel de
carros ou melhor, vá ate aquela lanchonete, - apontou - esperamos lá.
- Deixe comigo. - respondeu Athos se dirigindo ao veículo alugado.
- Devíamos ir juntos, ele pode se perder.
- Nada disso. A loja fica em frente ao fórum, e são apenas poucas quadras daqui até lá...
qualquer coisa ele pergunta... entre ai, vamos tomar um sorvete e comprar cigarros.
Marina obedeceu dócil, não conseguia discutir com Diego, sentia- se cada vez mais
fascinada por ele, na verdade era por uma crença se enraigando nela: o espírito de Thomas
parecia coabitar com o dele.
Entrou no carro e colocou o isqueiro no mesmo lugar e fingiu cochilar, mas quando o
veículo estacionou no calçadão da sorveteria não tinha acontecido nada, no entanto ele fumou
no percurso, usando o isqueiro do painel. Não reagia sempre da mesma forma, talvez fosse a
música? O "The Platers" era o conjunto deles, isto despertava Thomas! Não podia haver
outra explicação! Ela iria saber em breve, veria se ele se manifestaria novamente. Queria
conseguir isso. Descobrir como ter acesso ao seu amado ou ao seu espirito significava a
diferença entre ser feliz ou não.
- Bem, deixe- me ver... Feitiço Havaiano, vou querer este.
- Você nunca consegue comer este sorvete inteiro. - observou Marina esperando uma
resposta de Thomas.
- Como sabe? Eu nunca experimentei. - retrucou Diego de pronto.
- Desculpe- me, falei sem pensar.
Diego abandonou o sorvete pela metade, era realmente muito grande, a sorveteira tirava
a carne do meio abacaxi e depois a cortava em cubos, devolvendo para dentro da casca,
intacta, adicionava três bolas de sorvete; flocos, creme e abacaxi, alguns pedacinhos de
melancia; depois dava todo aquele tratamento de varias coberturas, frutas cristalizadas e
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diversas castanhas; muito para uma pessoa. Ele ainda forçou um pouco para não dar o braço a
torcer; mas não teve jeito.
- Sou obrigado a reconhecer, você estava certa, e olhe! Tentei comer tudo para não
aceitar a derrota.
- Foi sempre assim.
- Como! Foi sempre assim?
- É que... bem.... todo mundo pede este sorvete e não consegue comer inteiro.
Diego chamou o garçom e comprou três pacotes de Jonh Player.
- Vou levar um pacote a mais e deixar com o Peppino, quando ele vier às compras ele
me devolve.
- Eu tinha quase certeza disso.
- Você está sabendo muito sobre mim, fico impressionado. Mas eu mesmo tenho um
buraco na cabeça, então não me surpreendo, e o Athos?
Como Athos não apareceu, foram até a loja, ele já fora, tinha deixado um recado com o
proprietário, queria fazer umas compras e iria mais tarde para a cidade.
- E se ele se perder?
- Athos? Já esteve em São Paulo, Hong- Kong, Nova Iorque, Tóquio e outras grandes
cidades, não vai ficar perdido em Nova Palermo.
- Está certo, vamos embora.
No caminho para Morada do Simun Marina tentou testar sua teoria, procurou entre os
CDs existentes no carro e achou um "The Platers", introduziu o disco no aparelho e esperou.
Logo a música gostosa de seu conjunto favorito invadiu o carro, observou Diego assumir um
ar diferente, mais doce, seu rosto era normalmente sério, compenetrado, ao contrário de
Thomas, agora estava parecido com ele. Quando o conjunto começou a interpretar Smoke
Gets In Your Eyes, foi automático ele pegou um cigarro, sempre fazia isso, sua mão procurou
o isqueiro no lugar de sempre, e logo em seguida o devolveu, ela colocou sua mão sobre a
dele como sempre fazia quando queria um carinho a mais, então ele acariciou o interior de sua
coxa por algum tempo exatamente como Thomas, apertou seu ventre e deslizou os dedos por
dentro de seu short até sentir seus pêlos, brincou um pouco por baixo de sua calcinha mas
logo voltou a apoiar a mão no volante, em silêncio. Sempre falava pouco quando dirigia por
aquela estrada, as constantes curvas e animais atravessando a pista exigia muita atenção,
observou seu semblante, era ele, iria beijá-la tão logo chegassem na grande reta, tinha certeza.
Mas! Caso isso ocorresse, seria em outra oportunidade passaram por um Escort
conversível, Athos, acenou para eles, e o veiculo saiu para o acostamento. Imitando-o Diego
fez o mesmo e Athos se uniu a eles se apertando no banco de trás abarrotado de malas e
pacotes. Marina conseguiu esconder sua irritação, mas não gostou da intromissão, queria
saber até onde Diego iria em sua "possessão" e permitiria a ele avançar o quanto quisesse,
tinha certeza de não estar traindo Thomas e sim amando- o; haviam recuperado o corpo
errado no rio, sempre acreditara nisso. Mas agora era assaltada por dúvidas. Talvez seu corpo
estivesse realmente morto, e seu espírito tentasse assumir por vezes o de seu novo amigo e
amá-la através dele.
Vira algo parecido em Ghost. Não tinha mais como procurar o namorado, depois, se
ainda estivesse na mão de seqüestradores já deviam ter tentado um contato, já se passara
muito tempo.
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Os pais de Marina estavam prontos para sair quando eles chegaram. Só esperavam por
eles, a velha Brasília amarela estava do lado de fora da casa, sacos de estopa estavam sobre
seu banco e eles usavam botas.
- Oi filha. Só esperei você para evitar trabalho a toa, não faça almoço. O Peppino vai
preparar para nós, quando voltarmos da plantação de milho passamos lá e pegamos.
- Tudo bem mãe.
- Seu pai está com vontade de comer pamonha e se deixarmos para mais tarde o calor
vai estar infernal, vamos almoçar um pouco tarde, se tiverem fome tem queijo e salame na
geladeira; e, é só. O armazém não entregou nossa encomenda.
- Esperem por mim, - pediu Athos. - também vou, nunca estive em uma plantação de
milho. - mentiu. - Athos não pode deixar de notar a irritação de Marina com sua presença
apesar do esforço feito por ela tentando disfarçar.
- Está bem, mas não com estas roupas, são próprias para a cidade. Vou pegar outra para
você, qual o numero?
- Não precisa. Tenho uma apropriada em minha bagagem.
Pela primeira vez Diego esperava ver Athos usando uma roupa colorida, até seu calção
de banho era branco, mas ainda não foi desta vez, ele vestia calças de brins, uma grossa
camisa de algodão e botas de montaria, no entanto brancas como sempre. Onde as
conseguira? Ele nunca as vira em sua casa. Apenas os tradicionais ternos brancos estilo "Ilha
da Fantasia."
Diego descarregou o carro e montou o computador no quarto a ele destinado. Marina
assistia tudo de longe, era bem diferente de Thomas quando trabalhava, o namorado não se
preocupava com detalhes, mas ele fazia questão de envolver os cabos com fita crepe e
acomodá-los bem junto à parede dando aos mesmos um sentido mais estético,
Depois foram ao quarto destinado à Athos desfazer suas malas, chegaria cansado e sujo
da roça poderia tomar um banho, comer e descansar, era costume da casa acompanhar a carne
com grande quantidade de vinho e dormir praticamente a tarde inteira após o almoço. O calor
local convidava à sesta.
Abriram as malas de Athos e não puderam deixar de achar interessante quatro ternos
exatamente iguais, dez camisas, quatro gravatas, e quatro calças de brim, algumas meias,
cuecas, dois calções de banho, pijamas e dois roupões, tudo imaculadamente branco, em uma
sacola três pares de botas sociais e produtos brancos para mantê-los limpos.
- Nossa, este é realmente fanático pelo branco, nunca vi.
Finalmente Marina ira arrumar seu próprio quarto, antes passou pela sala e colocou uma
fita dos "The Platers" para tocar, alguns pacotes retirados do carro continuavam fechados
sobre a mesa de centro da sala, Diego olhava para eles.
- Eu comprei estas roupas quando fui alugar o carro, para sairmos à noite. Queria ir
tomar um chope no Peppino. Depois me esqueci delas, um erro lamentável.
- Como você é exagerado.
- Exagerado? Não pelas minhas atitudes, mas pela sua opinião, é linda, veja se gosta.
- Vou abrir lá no quarto, assim eu já aproveito e guardo. Venha comigo.
Chegando Marina foi até a cabeceira da cama e acionou o botão de volume, os altofalantes instalados no quarto inundaram o ambiente de música enquanto ela abria o pacote,
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quando viu o seu conteúdo pulou feliz como uma garota abrindo seu ovo de chocolate na
Páscoa.
- Como você conseguiu acertar e achar este conjuntinho aqui em Nova Palermo?
Lembra- se de quando você me disse lá na Aninha: - Este é um conjunto ideal para Morada do
Simum? Não tinha o meu numero!
- Sinceramente, eu não me lembro.
- Não se lembra mesmo, tem certeza?
Diego fez um esforço para se lembrar de alguma coisa. Seu semblante ficou mais terno
e ele falou; mas não respondeu exatamente como ela tinha dito, as palavras foram
contundentes, estavam sendo pronunciadas por Thomas, não podia ser outra pessoa.
- Talvez eu tenha dito: Ver este conjunto é como ver você tomando um chope no
Peppino.... posso vê-la nele.... doce como sua dona.
- Pode ter sido, pode ter sido. - Marina se jogou nos braços de Diego e empurrou a
mala sobre a cama para o chão. - Thomas, Thomas, como tenho sofrido com esta saudade.
- *Quando ouviu o barulho da Brasília estacionando Diego saiu para fora, vestia apenas
calções, tinha acabado de sair do banho, passou por Marina na cozinha mas não lhe disse
nenhuma palavra amiga ou fez algum carinho. Parecia não se lembrar de estarem se amando
poucos minutos atrás.
- Querem ajuda para descarregar o carro?
- De jeito nenhum. Vou encostar lá no fundo junto ao balcão, eu e o Athos já estamos
sujos, trouxe uma das garotas do sitio para nos ajudar durante a semana. O almoço vai estar
pronto em quinze minutos, quem sabe você pode ir buscar enquanto tomamos banho, leve a
Brasília, vai estar pegando fogo e não dá para trazer na mão.
- Está bem pai, mas então descarregue logo esta lacraia assim ainda vamos ter tempo
para tomar um chope. - gritou Marina saindo da cozinha ainda com os cabelos molhados.
- *Deste dia em diante não tiveram mais nenhuma oportunidade de ficar à sós, nem
falaram nada sobre o fato de terem se amado enquanto seus pais estavam no sitio, talvez fosse
inútil falar no assunto. Diego parecia não se lembrar, talvez não se lembrasse mesmo. Marina
não sabia. Ele as vezes tinha a impressão de ter acontecido, mas sem muita certeza. Como se
tivesse sido um sonho a exemplo das demais visões a persegui-lo nos últimos tempos. Assim,
cada um por seu motivo agia como se não tivesse acontecido nada.
Finalmente chegou o dia do julgamento de Salvatore Schiavonne, Marina não quis
assistir, temia o resultado desfavorável prenunciado pelo antigo advogado. Ficou sozinha na
casa, os demais foram para o fórum.
Lá Athos se afastou um pouco do pessoal e foi até a sala de audiência, vários homens
usavam preto, e só então se deu conta; nos tribunais do Brasil os advogados participavam do
júri togados; até agora só assistira julgamentos em filmes americanos, onde os advogados
usavam ternos comuns. Não tinha a menor idéia de onde conseguir uma, então deu um passeio
pelo fórum e se apoderou de uma encontrada em uma sala aberta, deviam haver muitas por
ali, quem estivesse acostumado com o lugar se arranjaria, ele estava defendendo um inocente
e não podia prescindir dela, foi para o banheiro onde procedeu aos ajustes, era enorme, dali
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foi para a sala do júri um pouco atrasado e esperando pela reprimenda do juiz. Não podiam
começar o julgamento sem ele.
- Desculpem-me estou atrasado, espero não ter aborrecido muito ao juiz, onde está ele?
Não se encontra no recinto; não estaria me procurando?
- Como poderia, roubaram a toga dele e estão providenciando outra, o julgamento vai
atrasar um pouco. O juiz é um homem enorme e só a de um advogado um pouco distante vai
servir. - elucidou Salvatore Schiavonne.
- Ótimo, eu não gostaria de ter nenhuma responsabilidade sobre o atraso. - respondeu
Athos muito calmo, indiferente aos acontecimentos.
- Me admira o senhor, um homem tão experiente em julgamentos chegar atrasado e
pensar no absurdo de ser procurado pelo juiz, isto não acontece, nem no cinema.
- Enganos acontecem, não se preocupe.
- Você nunca perdeu uma causa mesmo, não é verdade?
- Claro, nunca perdi.
- Conheço alguma de suas defesas, alguma famosa?
- Nenhuma, hoje vai ser a primeira.
- E está história de nunca ter perdido uma causa?
- Quem pode afirmar ser isso uma mentira?
Quando começou o julgamento Athos conversou com o juiz, gostaria de interrogar
apenas uma testemunha; e, apenas a vitima da agressão, dispensando todas as demais
arroladas pelo antigo advogado de defesa.
- Você não pode fazer isso, minha única chance está nas minhas testemunhas, preciso
provar sem qualquer dúvida meu caráter totalmente honesto.
- Deixe comigo, vai dar tudo certo.
- O testemunho dela vai acabar comigo, ela não vai admitir termos mantido relações
sexuais já há muito tempo, vai insistir na história do estupro.
- Ou você confia em mim ou não, estudei seu caso a semana inteira e tenho certeza do
resultado, lembre- se: eu nunca perdi um caso.
- Como poderia, nunca defendeu ninguém. - Salvatore queria gritar, pedir adiamento do
sessão e do julgamento, estava sendo prejudicado por seu defensor, mas não conseguia reagir.
Quando Athos se dirigiu à vitima para ouvir sua versão ele sentiu a derrota muito próxima.
- Senhorita Sandra, está calma, tranqüila? - ela se sentiu penetrada pelo olhar de Athos
até o fundo de seu ser.
- Sim, claro!
- Não vou ouvir mais nenhuma testemunha, então suas palavras irão condenar ou
absolver meu cliente, posso contar com sua sinceridade?
- Sim.
- Qual a sua idade?
- Vinte e dois anos, na verdade vinte e um, mas faço vinte e dois na próxima semana.
- A senhorita e livre perante a lei para escolher seus parceiros sexuais sem, interferência
de ninguém, estou certo?
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- Está.
- Tem um namorado?
- Não, nunca tive.
- Então, a princípio devo crer e todos os presentes estarmos diante de uma garota sem
qualquer experiência sexual, pelas informações de meu cliente a senhorita sempre foi uma
moça correta e ele sempre a viu como uma garota, usando aquele termo tão ultrapassado e
demodê: virgem; e, também, segundo seu depoimento constante dos autos meu cliente teria
apenas tentado molesta-la sexualmente, sem no entanto lograr êxito.
- Senhor advogado, está divagando, não existe nenhuma pergunta nas suas últimas
considerações, seja mais direto: pediu o juiz.
- Excelência, eu só queria deixar claro um fato, estou interrogando uma testemunha sem
nenhuma experiência sexual.
- Está bem, já deixamos claro este ponto, se o senhor não tiver perguntas mais
esclarecedoras a formular passo a testemunha para a acusação.
- Está bem excelência, vou ser mais direto. - e voltando- se para a testemunha. - A
afirmação do fracasso de meu cliente em sua tentativa de molestá-la constante do depoimento
é verdadeira.
- Sim. - respondeu a garota já bastante confusa.
- A senhorita teria alguma coisa a negar ou acrescentar sobre minhas afirmações sobre
sua pessoa, principalmente sobre o fato de nunca ter tido uma experiência sexual?
- Não! - respondeu a garota insegura, refletindo sobre as ultimas afirmações do
advogado, não teve coragem para afirmar perante toda a assistência, na maioria de Morada do
Simum, sua condição de mulher. Preferiu continuar virgem.
- Nada mesmo?
- Não senhor. - respondeu a garota e caiu em prantos. - Eu preciso ir ao banheiro,
realmente preciso.
- Vamos dar uma pausa de vinte minutos e depois retornamos. A testemunha deve ser
mantida longe dos advogados, tanto da defesa como da promotoria até o reinicio da sessão.
- Você está louco? Minha defesa era baseada no fato de sermos amantes, agora isto caiu
por terra.
- Escute bem, Só o seu advogado sabia disso, sua família desconhece este fato, quer ver
a sua casa virar um inferno? Sua esposa vai morrer em pouco tempo deixe-a levar uma
imagem decente sua. Se eu não me sair bem neste interrogatório vou pedir seu testemunho e o
exame médico da garota, ela está cometendo perjúrio ao admitir a própria virgindade sob
juramento. Mas não vou usar este artifício se não for preciso.
- Gostei disso. Então vou ficar tranqüilo com minha esposa e filhas, eu pedi ao
advogado para manter tudo entre nós até o julgamento, quem sabe saio com meu segredo
guardado.
- Meu trabalho é neste sentido.
A sessão foi reaberta e o interrogatório continuou.
- Senhorita Sandra, tenho um pequeno roteiro de como; fui informado; os fatos
aconteceram naquele dia, baseado em algumas informações colhidas do meu cliente e alguns
habitantes de Morada do Simum, quando eu disser alguma mentira quero ser corrigido, certo?
156
- Sim senhor! - respondeu a garota com os olhos ainda vermelhos, devia ter chorado
muito no intervalo.
- O senhor Salvatore tentou chamar a senhorita para um conversa sem importância
segurando em seu vestido, sua reação foi brusca e imediata e ele se rasgou. Estou certo?
- Sim.
- A senhorita ficou apavorada, seu pai havia relutado muito em lhe dar aquele vestido,
era bastante caro para suas posses, iria lhe agredir quando chegasse em casa. Esta correto?
- Sim.
- Quando soube disso o senhor Salvatore se propôs a buscar um vestido de propriedade
de sua filha, igual ao seu. - mostrou uma peça de roupa aos presentes. - mais precisamente
este aqui, reconhece o vestido?
- Sim.
- Gostaria de acrescentar esta peça às provas da defesa.
- Aceito.
- Continuando, quando o senhor Salvatore voltou com o vestido do quarto de sua filha,
não a encontrou mais na sala, foi assim?
- Sim.
- A senhorita correu para a rua e chamou a atenção das poucas pessoas existentes na rua
e continuou no caminho de sua casa e quando retornou ao local já trocada e com algumas
hematomas visíveis viu o meu cliente saindo em um carro de policia e sabia o motivo pelo
qual ele estava sendo preso, estou certo?
- Sim.
- Muito bem, a partir daqui meu roteiro se baseia em informações colhidas do populares
e conclusões, portanto pode conter erros, interrompa- me quando for o caso. Certo?
- Certo.
- A senhorita chegou em casa com o vestido rasgado e seu pai a agrediu com fúria, por
isso algumas pessoas só notaram seus hematomas. Quando você se juntou novamente aos
populares. Aconteceu assim?
- (- )
- Responda à pergunta. - exigiu o juiz.
- Foi, foi... aconteceu exatamente assim.
- O exame de corpo de delito, a existência de hematomas, isto comprometeu o meu
cliente, principal prova da promotoria contra ele, além de seu depoimento na verdade, não foi
provocado por Salvatore Schiavonne e sim por seu pai, estou certo?
- Sim.
- A senhorita quer esclarecer o porquê de seus atos? Na verdade este julgamento não
devia estar ocorrendo, quais os seus motivos?
- Meu pai estava bêbado, quando viu o vestido rasgado me ameaçou de morte, custou
mais de um mês de seu salário, era para a minha formatura do colegial.
- E agora resolveu contar a verdade?
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- Os Schiavonnes são pessoas decentes, eu não podia prejudicá-los, sempre me trataram
com decência e dignidade, não senti o peso de minha atitude enquanto eles estiveram ausentes
da cidade Mas vendo-os frente a frente tudo mudou de figura. Gostaria de registrar meu
sincero pedido de perdão, e agora estou com um problema, não posso mais voltar para casa,
meu pai me mata na primeira bebedeira. Oh meu Deus! - e caiu novamente em pranto.
Salvatore Schiavonne pensou estar sonhado, Athos vencera sem qualquer esforço. O
promotor estava feliz, crescera em Morada do Simum, recebera ajuda dos Schiavonnes para
concluir seus estudos e já não precisava condenar um deles.
Na saída Athos não deixou Sandra voltar para casa, iria refugiá-la em outro lugar. Seu
pai era realmente um homem violento e revoltado com a miséria, o dinheiro pago pelo vestido
fora muito para ele e depois seria alvo de brincadeiras de seus amigos de bar. Quando sóbrio
não haveria problemas, mas sob os efeitos da bebida ficava difícil prever suas reações.
- *Albano estava feliz acabara de, novamente, fazer amor com a mulher de seus sonhos, a
noite fora uma loucura e agora descansava na hidro massagem, era o prêmio pelo assassinado
do desafeto de Rose Lattore a mulher achara aquele ato uma prova de carinho sem limites.
Rose arrumara tudo. Havia trocado a passagem de ônibus adquirida para voltar para
casa, com Ana, amiga e cúmplice. Só era esperada em casa perto da hora do almoço, de avião
ela chegara na noite anterior, a peruca e a maquiagem exagerada utilizada a deixara mais
parecida com a amiga, não o suficiente para ser confundida com ela mas o bastante para não
ser reconhecida por ninguém.
Seu descanso foi interrompido, a mulher o chamava ao quarto. Estaria ainda
insatisfeita?
- Veja, a entrevista do promotor público.
"- ... então as garotas em questão realmente não tinham nada com o crime?"
"- Em absoluto, o fato de terem ido embora segundo varias testemunhas era normal,
faziam sempre isso quando ele demorava no banheiro onde só ia para se drogar."
"- E como vão ficar as investigações?"
"- Estou pedindo o arquivamento do processo até o surgimento de um fato novo, foi
trabalho de profissional e muito bem executado, deixou a arma e o silenciador no local e se
evadiu de imediato, ninguém se lembra de tê-lo visto entrar ou sair, um beco sem saída.."
"- Alguma teoria sobre o assassinato?"
"- Algum traficante ao qual ele devia dinheiro ou ameaçou deve ter cuidado do assunto,
não adianta gastar mais verba do estado nessa investigação."
- Um verdadeiro profissional, este é o meu amor. - Exultou Rose. - Finalmente conheci
um homem de verdade. Você mataria por mim?
- Quem se atrever a lhe incomodar, sem pestanejar.
- Mesmo Pedro Latorre?
- Pedro, Alexandre, qualquer um
- Alexandre? - murmurou a mulher entre a dúvida e a diversão.
- Porque não!
- Existe motivo para matar Pedro Latorre?
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- Um motivo enorme, muito grande.
- Qual?
- Seus filhos são pequenos, a esposa de Pedro confia nele, se ele morrer Alexandre fica
com a administração da empresa, quem sabe a compre de Marta, depois Alexandre morre e
nós ficamos com tudo.
- Nós?
- Claro, não vou abrir mão de um homem capaz de matar por mim.
MARINA E O PREÇO DE MORADA DO SIMUM.
- Você tem certeza? Está nos propondo levar Sandra para morar conosco em São Paulo?
- Marina não aprovou a idéia.
- Exatamente, falou Athos, não podemos deixá-la aqui, eu a instalei no motel da estrada,
mas ela não pode sequer sair do quarto, nem morar lá o resto da vida.
- Ela quase colocou o meu pai na cadeia.
- Estava apavorada, veja! - Athos jogou as fotos da perícia realizada na garota sobre a
mesa. - O pai dela quase a matou por ter rasgado um vestido. Se ela voltar para a casa agora
ele consuma seu ódio na primeira bebedeira. Tenho certeza disso! Ela quer fugir e procurar
emprego em São Paulo. Sem apoio vai acabar caindo na prostituição.
- Mas e todos os problemas causados por ela?
- E os não causados?
- Como assim?
- Nós tínhamos seis jurados de Nova Palermo e apenas um de Morada do Simum, seu
pai não é benquisto naquela cidade e a imprensa já o tinha condenado? Se ela mantivesse sua
história seu pai não sairia livre.
- Tem razão! - manifestou- se Isilda Schiavonne. - Errar é humano, ter a coragem de
corrigir não é privilégio de todos. Devemos acolhe-la, menos se o Salvatore ainda estiver
magoado.
- Pelo contrário, estou aliviado e agradecido. Não deve ter sido fácil reconhecer seu
erro como ela fez.
- Mesmo assim eu sou contra. - confirmou Marina.
- Posso admiti-la para substituir Gianne, não me custa nada. - interferiu Diego.
Marina ouviu aquele oferecimento e sentiu ciúmes, não se lembrava de já ter nutrido o
sentimento com tanta força, estava acostumada a ver Sandra em sua casa vestida em vestidos
pobres e com o cabelo maltratado, a televisão mostrara cenas da saída das partes do tribunal e
ela ficara impressionada com a imagem dela arrumada para o julgamento a promotoria fizera
questão de vesti-la com uma roupa bem juvenil reforçando sua imagem de garota, era algo
para se chamar de tentação à inocência de qualquer ser humano.
Sua imaginação voou longe, não podia deixar aquela mulher ao lado de Diego, ela
acreditava ter a garota um atrativo importante para qualquer homem; também já tivera este
anos antes, era virgem, uma raridade, inteligente e interessada, sempre lhe pedia livros novos
quando sabia de sua vinda à Morada do Simum. Era agradável ao conversar e vencera; mesmo
vivendo naquele fim de mundo; o sotaque interiorano. Falava como os personagens das
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novelas, não os caricatos, mas os finos e elegantes. Não temia por Thomas, quando Diego
estivesse possuído por ele; como ela acreditava acontecer; era inexpugnável, amava-a acima
de tudo, porem fora disso ficava vulnerável. Sandra era linda o suficiente para despertar a
paixão de qualquer homem, seus pensamentos voaram.
Imaginou o pior, se ela e Diego viessem a se casar Thomas poderia estaria perdido para
sempre. Talvez só pudesse tê-lo através dele. O silencio foi rompido por Athos.
- Eu não a queria trabalhando de doméstica.
- Você me interpretou errado - falou Diego. - não estou falando de criar um emprego
de domestica, Gianne não fazia estes serviços. Ela ajudava na organização da casa, ela terá
tempo para cursar uma faculdade e conseguir um bom emprego, em breve ela terá
independência financeira e poderá seguir sua própria vida.
- Eu não a queria trabalhando, só estudando. - Athos comentou. - Ela precisou muita
coragem para admitir seu erro, quero recompensá-la.
- Posso fazer assim também, sustentar uma pessoa e seus estudos não vai abalar nem
um pouco minhas finanças, sem falsa modéstia, sou um homem muito rico. - concordou
Diego.
- Nada disso! - Marina colocou um fim à discussão temerosa da presença da garota
junto a Diego. - Sandra é problema nosso e nós vamos resolvê-lo , será nossa hospede
enquanto precisar, com algum esforço podemos ser amigas, acredito.
- Concordo. Sandra é problema nosso. - ratificou Isilda Schiavonne. - O Senhor já fez
muito por nós.
- Não fiz nada contra minha vontade. Nossa convivência foi um imenso prazer. Não
deve se romper com o fim dos problemas. Não posso nem pensar nisso.
- *Diego e Athos conversavam no Alivio do Simum.
- Isto é fantástico, simplesmente inacreditável.
- Fantástico? Onde? Não estou vendo nada de extraordinário.
- Como não vê Athos? Esta cidade, nunca vi nada igual! Parece parada no tempo ou
melhor, ter retroagido, não pode ser tão antiga a data de fundação da mesma tem pouco mais
de noventa anos no entanto me trás recordações de um passado muito distante, o calçamento
lembra locais só existentes na Europa, ainda assim nos vilarejos esquecidos pela civilização.
É uma paisagem de mais de mil anos atrás. Lembra vilarejos dos confins do mundo, muito,
mas muito antigos, não são vistos nem em cartão postal, sua arquitetura lembra..... - Diego
citou algumas cidades em particular.
Atos fitou o amigo e protegido com desconfiança, como podia saber tanto de
arquitetura? Mas tinha razão, os prédios da cidade levavam- no a recordar as velhas vilas
Romanas, apenas alguns detalhes referentes a reformas recentes em algumas delas podia levála ao milênio atual.
Paradoxalmente a inexistência de fios levados através de postes seguindo pelo subsolo
como nos centros mais modernos colaboravam para criar a atmosfera de uma cidade sem
energia elétrica, algo absolutamente inimaginável.
- Como pode existir um lugar como este?
- Existindo. - respondeu Athos. - Simplesmente existindo.
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- É absolutamente inconcebível, uma cidade como estas jamais poderia existir no Brasil.
- Me de um único motivo para justificar esta sua surpresa?
- Esta arquitetura.... é demasiadamente antiga, alguns detalhes são seculares, quando o
pais foi descoberto já haviam sido abandonados há muito tempo na Europa, quem iria voltar
tanto no tempo.
- Eu desconheço este seu lado. Como aprendeu tanto de arquitetura?
- Não sei, viajei pela velha Europa durante seis meses, agora olho para tudo isso e me
vejo em algum canto daqueles, como se a qualquer momento fosse entrar um exercito de
invasores turcos por aquela rua tentando tomá-la.
- Porque invasores turcos?
- Tem alguma idéia melhor? Os vikings não iriam fazê-lo. Não temos mar aqui perto.
- Não, não tenho, vamos embora, estão nos esperando.
- *À noite Diego ficou conversando com Marina no quintal, Athos os observava, de
repente a garota se afastou e deixou seu companheiro sozinho banhado pela lua cheia, como a
ultima frase dela fosse um pouco alta ele se aproximou do amigo e perguntou.
- Marina disse alguma coisa? - perguntou Athos.
- Müde bin ich, gehzür ruh. - respondeu Diego.
- Como?
- Estou cansada, vou dormir, deve ser isso.
- Em alemão?
- Alemão? Com todo respeito, Marina ainda precisa aprimorar seu português. - e mudou
de assunto. Você já notou a beleza desta cidade? Como alguém pode ser feliz aqui? Sem
placas, postes, pontos de ônibus, caçambas espalhadas pelas ruas, casas pichadas, nenhuma
poluição visual, é um paraíso.
- Realmente é muito bonita.
- Gostaria de comprá-la.
- Uma cidade toda?
- Já fiz as contas, não deve custar muito, mas, é tolice, vamos entrar.
Diego entrou na sala e ainda encontrou Marina lá, conversava com o pai, Salvatore
Schiavonne colocava preço em todas as suas propriedades e ouvindo um pouco se
surpreendeu com o alto valor delas, Moravam em um bela casa, é verdade, bem montada com
recursos modernos, dois canais de som ambiente em todos os cômodos, mas seu carro era uma
Brasília velha, suas roupas eram simples, suas filhas trabalhavam para viver e moravam em
um pequeno apartamento mobiliado antes de "herdar" a casa e o dinheiro de Thomas. Não
imaginava estar falando com um homem tão rico, jamais imaginara a extensão de suas terras.
- O senhor não devia vender suas propriedades, - comentou Marina. - nunca um
Schiavonne as vendeu, com as terras deles nas mãos de estranhos em breve Morada do
Simum não vai mais existir, será uma pena.
- Não tenho dinheiro para aproveitar as terras, meus filhos levaram meu capital e
amargo prejuízo há anos. Meu conforto é cada vez menor. logo essas terras começarão a ser
161
alvo de invasões, vão alegar serem improdutivas. O governo não nos ajuda realmente a tocar
nossas propriedades e de certa forma incentivam terceiros a tomá-las. E o principal. Já não
gosto tanto daqui, essa história foi muito desgastante.
- Fico com elas, tenho dinheiro e pessoal para tocá-las, tenho enorme experiência em
administrar propriedades à distância. - afirmou Diego.
- Neste caso faço um desconto, eu estava calculando a comissão do corretor.
- Não precisa desconto, inclua a casa no preço e negócio fechado.
- Acabou de comprar minhas terras moço; e, tenha certeza, não pagou caro, embora não
tenha sido exatamente uma pechincha, jamais pensei em colocá-las em liquidação. Mas estão
no preço justo.
- Estou certo disso, me informei a cerca do valor das terras por aqui, só não imaginava a
extensão das suas.
- É apenas uma pequena parte das terras dos Schiavonnes por aqui, e neste preço todos
eles vendem, garanto! O café não tem vingado, quando dá o preço cai, se estão pagando bem
geralmente não temos o produto... a troca de culturas nunca resolveu o problema... enfim eu
não queria mais ficar por aqui mesmo.
- *No dia seguinte Salvatore Schiavonne e a esposa outorgaram procuração a Marina, ela
ficaria na cidade com Diego para cuidar da transferência das terras, eles queriam estar longe
dali o mais breve possível. Estava difícil driblar a imprensa. Não suportavam mais a
exploração do assunto. Athos já os esperava no aeroporto com suas bagagens e embarcaram
juntos com destino à São Paulo em um jato da Coexponal. Toda imprensa local foi pega de
surpresa, ele estava vendendo suas terras portanto ninguém esperava aquela retirada
repentina. Na seqüência desceriam em um aeroporto próximo à cidade e continuariam a
viagem de carro, precisavam encerrar o episódio. Ainda mais levando Sandra com eles.
- *Diego e Marina chegaram a Morada do Simum no final da tarde e foram direto para o
bar do Peppino.
- Boa tarde Diego, fiquei sabendo de sua ajuda ao Junqueira, foi uma boa atitude.
- Não foi muito, e preciso ficar bem com o pessoal da cidade, apenas isso.
- Que ajuda você deu ao pai de Sandra? - estranhou Marina.
- Ele queria comprar o barzinho do outro lado da praça então eu lhe emprestei o
dinheiro para dar entrada.
- Foi para comprar o silêncio dele? Tem medo dele não se conformar com o resultado
do processo?
- De jeito nenhum. Ele não pode fazer mais nada, fiz um empréstimo comercial,
financiei a entrada e o resto sai do próprio negócio. Ele vai vender as terras dele e me pagar,
também não consegue tirar lucro dali, ainda mais em um pedaço tão pequeno.
- Compre você, o espaço usado por ele como estrada toma vários hectares de nossas
terra, meu pai sempre falou em comprá-las quando e se houvesse dinheiro; só para fechar o
caminho; se ele vender para estranhos você continua com o problema, são alguns quilômetros
de área desperdiçada com o caminho.
- Eu não quero comprar todas as terras da região.
162
- Compre sim! E digo mais: enquanto ele não sabe quem comprou nossas terras, senão o
preço sobe; e muito.
- Está bem, vou procurar por ele quando o imóvel estiver na imobiliária assim saberei
antes o preço pretendido, você ainda está desempregada?
- Com todos estes problemas nem pensei em procurar emprego, tenho uma proposta da
Coexponal talvez eu volte para lá.
- Eles vão te pagar esta quantia? - escreveu um número no guardanapo.
- A metade.
- Então a partir de agora você trabalha para mim. Vai assessorar minha Diretora de
Negócios Agropecuários, ela já está assoberbada e agora temos também Morada do Simum.
- Eu não entendo nada do assunto.
- A Fátima coloca você a par em um minuto, ela também não entendia tanto assim de
fazendas, nasceu e cresceu na cidade. Meu pai ensinou tudo a ela. No entanto é fácil: temos o
pessoal certo nas propriedades e apenas analisamos os resultados econômicos. Minha paixão
sempre foi o jornalismo, preciso de gente boa ao meu lado para poder me dedicar à vida sem
pensar em dinheiro, falando nela....
Um Santana verde água, metálico, estacionou em frente ao bar do Peppino, e uma linda
mulher desceu dele, cabelos penteados rente à cabeça, óculos e um conjunto de saia e blusa
bastante sério, óculos, pasta de executivo na mão e andar decidido.
- Fátima... Fátima... - gritou Diego e ao notar ter sido ouvido completou: - Venha
para cá.
A mulher observou o ambiente demoradamente depois andou devagar até eles
observando a cidade.
- Alivio do Simum? Isto lá é nome de bar?
- Daqui a pouco você vai descobrir o motivo.
- Este foi o buraco no qual você se meteu? Andei muito nesta estrada para localizar a
entrada.
- Não ofenda a cidade. É a terra natal de Marina, ela gosta muito daqui.
- Desculpe-me por favor, não tive intenção de ofender. - disse a mulher estendendo a
mão à Marina. - Fátima Pires Ferreira, escrava pessoal de Diego Montone.
- Marina Schiavonne. A nova habitante da senzala, vou trabalhar como sua assessora.
- Diego! Fez mais uma das suas. Venho pedindo ajuda há muito tempo e quando recebo
não sei nada sobre a pessoa. Agora preciso torcer para dar certo; ele não vai mudar de idéia
mesmo. Bem vinda a bordo.
Fátima começou a suar, o vento quente penetrava por dentro de sua blusa
transformando-a em uma estufa.
- É melhor a senhora tirar o paletó, ou se sentar de costas para o vento, senão o calor vai
ser muito forte. - sugeriu Peppino.
Ela aceitou a sugestão e se livrou do excesso de roupa, quando ia colocá-la sobre o
espaldar da cadeira foi impedida por Peppino.
- Seu carro é aquele?
163
- É.
- Vou coloca-la lá. É um lindo blazer, não gostaria de vê-lo amassado. Está trancado?
- Não. - respondeu e depois dirigindo-se a Diego.
- Estou com uma analise dos solos próximos ao local. Terra muito boa, pela sua
informação noventa por cento da área nunca foi utilizada: é isto?
- Exatamente.
- Então está resolvido, vamos plantar cítricos em toda a região, a terra é própria e está
pulsando de vida, praticamente não vamos precisar adubar durante os próximos anos. Tenho
aqui um mapa de todas as outras terras adjacentes e já enviei propostas a todos os
proprietários, espero contar com sua aprovação, poucas áreas estão cansadas, não vai ficar
nenhuma terra aqui nas mão de outro proprietário.
- Temos dinheiro para isto?
- Claro, no entanto o importante será o preço, esta terra está com a cultura errada, seus
proprietários não tem retorno com ela, estão malucos para vender.
- Querendo comprar tudo o preço vai subir, e uma conseqüências normal da oferta e
procura.
- Ofereci oitenta por cento do valor se todos os proprietários venderem, se um deles não
aceitar não tem compra, a esta hora devem estar se mordendo.
Marina consultou o relógio, segundo os costumes os proprietários de terra já deviam
estar no Alivio do Simum, inclusive os de Nova Palermo, realmente não havia ninguém ali, a
mulher estava certa, estavam todos reunidos em algum lugar, iria aprender muito com
Fátima.
- Vocês são sempre tão atrevidos, lançam- se com total avidez aos negócios?
- A Fátima é atrevida, é paga para sê-lo , vive muito bem à custa deste atrevimento.
Ficaram por ali petiscando uma carne e tomando um chope, então Marina entendeu todo
o plano de Fátima ia muito alem de comprar todas as terras, incluía comprar a cidade toda; as
casas estavam inclusas na oferta. fato fácil pois ela pertencia inteirinha aos demais
Schiavonnes, proprietários das terras, seus moradores, não proprietários, eram colonos
morando em casas pertencentes a eles; e, construir ali uma processadora de sucos.
- Vocês não podem fazer isto, esta cidade foi construída por meu avô, não pode ser
destruída assim sem mais nem menos.
- São pouco mais de trezentas casas na cidade toda, muitas estarão vazias em poucos
dias, pertencem aos proprietários das terras e foram construídas para os seus colonos, se eles
aceitarem nossa proposta isso inclui seus bens na cidade.
- Você não entende? Isto aqui é uma obra de arte, é uma réplica de uma época
inexistente, tudo foi construído para se assemelhar ao passado, nem postes são admitidos em
Morada do Simum, não pode ser destruída, e toda esta gente?
- São lavradores, não vão ter muita utilidade no processo industrial, poderão trabalhar
na colheita oportunamente, como bóias fria é claro. - Fátima falou com naturalidade.
Ela olhou para Diego procurando socorro em silêncio, queria mostrar- lhe o quanto
aquela cidade era importante, mas não sentiu eco, ele estava analisando tudo como um
negocio a mais, Morada do Simum não significava nada além de um buraco perdido no
tempo, um ponto inexistente no mapa.
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- *Marina não se conformou, mas não podia condenar Diego, seu pai desistira de Morada
do Simum quando vendeu suas terras, qualquer outro grande comprador faria o mesmo,
porque ter aquele povoado sem futuro no meio de suas fazendas e gastar área de alguns
alqueires para manter vivo o sonho de um velho italiano já morto há muito? Construiria
alojamentos para um batalhão de trabalhadores em menos espaço. Não havia motivo para
manter todos os empregados em casas grandes e com quintais idem!
De repente se sentiu inexistente, toda sua vida estava sendo destruída, Thomas com
certeza estava morto, - pensou. - por isso seu espirito dominava, as vezes, o corpo de
Diego. Agora Morada do Simum iria ser riscada do mapa, devia ter acontecido, mas ela nunca
ouvira falar nisso. Seria uma representante de uma naturalidade que deixaria de existir, nativa
de uma cidade extinta, mas não era só isso.
Morada do Simum, propriedade dos seus durante quase um século, sonho romântico de
Ladislaw Schiavonne tinha um motivo para existir, fora projetada para ser um pedaço do
passado, uma réplica perfeita da velha Europa. Fora cuidada com carinho por todo este tempo,
pagou um alto preço, resistiu a emancipação e à modernidade, todavia sucumbiria aos erros de
seus proprietários. Não souberam tirar o proveito correto dela. Algumas horas de trator e não
restaria mais nada. Apenas um monte de tijolos e massa caída sobre o solo, lixo a ser
removido para dar lugar à uma processadora de sucos.
Seus antecessores não conseguiriam manter a cidade, venderiam tudo, tinha certeza, seu
pai mesmo o faria se Diego tivesse oferecido oitenta por cento de seu valor. Mas a cidade não
seria destruída. Se os demais desistissem Marina Schiavonne não o faria, tinha a arma para
isso. Não muito honesta, podia ser visto como algo baixo, indigno, iria compará-la; ao pé da
letra; a qualquer rameira, Mas iria usá-la, caso suas intuições fossem corretas a cidade estaria
salva.
Diego a desejava acima de tudo, faria qualquer coisa por ela; Marina sabia disso; não
quando tomado pelas recordações de Thomas; Ele mesmo; vivia só para ela desde o seu
primeiro encontro. Não a assediava por respeito, mas se multiplicou em gentilezas, presentes,
serviços. Dinheiro para ele não era problema, quase lamentou sua atitude, se aproveitar de um
homem tão digno, mas não tinha outra saída. Só ela podia mudar o rumo dos acontecimentos.
A conversa com ele no quintal da casa de Lúcia Aguiar lhe deu esta certeza:
“- Não fale assim, eu simplesmente gostei demais desta família, não sei explicar,
começou com os jovens, depois achei a mãe deles também tremendamente simpática,
quanto a um possível romance, esqueça, tenho vinte e cinco, quando eu nasci ela já tinha
dezessete.
- Muita gente não liga para isso.
- Eu já estou apaixonado; e, por uma garota na idade certa, mas... bem.... ela não
está.”
Marina sabia qual a garota “na idade certa” à qual ele se referia, apenas nunca quis
aceitar nada a separá-la definitivamente de Thomas. Agora as coisas tomavam rumos
definitivos para Morada do Simum. Os demais proprietários também aceitariam a proposta de
Fátima, os tratores chegariam em breve. Esperou a noite cair e todos se recolherem, mas não
permaneceu em seu leito, abandonou-o para se dirigir ao quarto de quem deteria o poder. Iria
firmar um compromisso com Diego Montone, como Diego Montone, sem "The Platers", sem
rosto terno, sem Thomas, sem amor.
165
MARINA E SUA PROMESSA, DIEGO E SUA CONSCIÊNCIA.
Diego Montone saia satisfeito da câmara municipal de Nova Palermo, tinha feito um
grande negócio, não iria destruir Morada do Simum mas desenvolvera uma estratégia para
impedir definitivamente seu crescimento e a conseqüente proliferação de áreas urbanas e leis
ambientais, conseguira o tombamento de todas as propriedades contemporâneas a Ladislaw
Schiavonne e todas as áreas contíguas, resolvendo definitivamente seus problemas, não foi
difícil, quase a totalidade da câmara era composta pôr Schiavonnes o resto por parentes
destes. Em uma área de poucos alqueires próxima à cidade ele construiria a processadora de
sucos e teria muito espaço para crescimento e ainda manteria o pequeno vilarejo. Ele
investiria na reconstituição das casas com fachadas mais modernas e retornaria as mesmas ao
estilo idealizado pelo avô de Marina para as moradas de seus colonos, cada casa da cidade se
tornaria uma recordação do passado e ele ficaria com o direito à exploração comercial do
local. A prefeitura eliminaria a única rua asfaltada lá existente, a da praça da igreja, também
providenciaria policiamento para o local, pois quando restaurada sua fama transcenderia os
limites de Nova Palermo.
Marina observava os acontecimentos extasiada, completamente assombrada, a atitude
de Diego ultrapassara qualquer expectativa sua, ela só queria impedir a destruição da cidade,
pedira isso como presente de casamento, mas a devoção dele era algo impossível de imaginar,
superava os devaneios da mais desvairada das mulheres, o risco de seu presente de casamento
era temeroso, imenso mas ele não pensou na magnitude do mesmo, gastaria o sonho de
centenas de homens não só para manter a cidade de seus ascendentes, mas perpetuá-la,
garanti-la definitivamente como era.
- Vou torcer para o Diego estar certo. Estou gastando muito dinheiro para deixar este
bar conforme as exigências do projeto enviado à prefeitura; está certo; financiado por ele, mas
vou pagar, não é de graça. - comentou Junqueira, o pai de Sandra com Peppino.
- Ele deve saber alguma coisa sobre negócios. Não ficou rico assim por acaso. Eu
também estou investindo, esconder todos os apetrechos modernos do meu, bar demanda muito
dinheiro. Estas mesas de tronco me custaram os olhos da cara, daqui uns dias chegarão as
novas chopeiras para abastecer nossos dois bares, vai ser mais uma cacetada. Enfim....
- Podem ter certeza, vai compensar. - afirmou Marina ligada na conversa dos dois. quem já vinha aqui tomar um chope vai continuar a freqüentar o seu bar, e muita gente nova
vai aparecer nada pode dar errado.
- Se vierem os mesmos eu já estou satisfeito, quando ele falou em demolir a cidade eu
fiquei muito preocupado, este bar pertenceu ao meu avô, e ao avô dele, nem sei como viver
fora de Morada do Simum, tenho muito dinheiro, nem precisei de financiamento para fazer a
reforma. No entanto nunca fui além de Nova Palermo, ah espere um pouco, vou buscar o
uniforme a ser utilizado depois da inauguração para você ver.
- *O barulhos das máquinas trabalhando a todo vapor na terraplanagem da área destinada a
processadora de sucos era um som novo no local, ali também seriam construída a vila
destinada aos funcionários casas menores, todavia simples e confortáveis, tudo separado da
cidade e da estrada por uma larga plantação de eucaliptos para não causar poluição visual,
tratores preparavam as ruas para receber o calçamento e novos postes de iluminação estavam
sendo instalados, imitariam os antigos, a gás, o pouco comercio a permanecer no local
destinado a turistas não podia lembrar em nada o século vinte nada de luminosos ou cartazes
berrante, embora o interior das casas fosse receber itens modernos e escondidos dos olhos dos
visitantes.
166
- Veja os chuveiros, são em latão envelhecido e os registros parecem mais uma
alavanca, no entanto misturam a água com eficiência, o sistema de aquecimento não será
visível, nada de fios, os interruptores funcionarão através dessas correntinhas, quanto as
arandelas imitando lampiões quero algo mais antigo, não gostei desses. - comentou Diego
empolgado.
- Diego, os gastos com Morada do Simum ultrapassam em muito minhas previsões, não
vamos tirar dinheiro daqui tão cedo, você sabia, era um plano a longo prazo.
- Vai me levar à falência?
- Não, ainda existe muito dinheiro, no entanto acho todos estes investimentos absurdos,
principalmente este castelo, algo fora de propósito.
- Ele não vai custar tanto, na verdade é mais um cenário, embora visto de longe
aparente ser enorme não terá nada alem de dez cômodos, o resto é fantasia, muros e torres
falsas e inacessíveis, vamos aproveitar o declive da montanha para construi-lo , só será
enorme por fora.
- Não existe explicação para a construção dele, uma obra de ostentação sem a menor
finalidade.
- Para você. Mas não para mim, terá acesso pela fábrica, vou poder atingir os fundos
dele de carro, eles não serão tolerados aqui, depois, quero me sentir em casa.
- Se sentir em casa? Isso é tétrico, parece mais um monumento a Edgar Alan Poe, um
cenário de filmes de terror com um custo absurdo.
- Alto, não absurdo, vai dar a Morada do Simum a aparência real de um pequeno reino
europeu, já a tornamos intocável. Se ela tivesse condições de crescer mais tarde iria pedir
emancipação, começar a desapropriar áreas, derrubar meus laranjais, agora não corro mais
perigo, isto aqui se tornou uma vila particular, não tem mais direito a representantes na
câmara e coisas afins, será apenas um grande hotel, impedido de crescer. Quando a prefeitura
sair daqui com o calçamento toda a conservação do local será problema meu, mesmo eles não
vão mais poder legislar a respeito de Morada do Simum, embora eu também não possa mais
demolir ou mudar as casas uma vez terminada a reconstituição.
- Acho tudo isso uma loucura.
- Nem tanto, em breve não teremos um único morador aqui a não ser os comerciantes
locais cujas casas estão nos fundos dos comércios. Eles serão os únicos a manter as
residências. No entanto serão obrigados a reformá-las as suas custas e vão continuar pagando
o aluguel como sempre alem de uma taxa sobre a despesa dos hóspedes. Em breve vamos
começar a recebê-los e isso será uma excelente fonte de renda, com isso vou poder manter a
cidade sempre em ordem, não vamos pagar imposto municipal está no acordo com a
prefeitura e foi bom para ela, só tomava prejuízo com o vilarejo.
- Muito bem. Então nos próximos anos investimentos só na Fazenda Ladislaw
Schiavonne.
- Nada disso, A Fazenda Orgulho do Sul nunca me deu muito lucro. Vamos vendê-la. É
uma de minhas propriedades mais caras. Pagara por tudo isto aqui e deixará a empresa
normalizada.
- Não vale tanto assim, talvez um quinto do valor deste investimento, se ainda pagasse
tudo. Depois, seu pai vai ficar furioso.
- Quando souber da venda da mesma, isso pode demorar muito. Se você não for tratar
disso eu o farei pessoalmente.
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- Você não me deixa saída.
- Eu lhe dou uma chance de mantê-la. Não tente vender a mesma em São Paulo, aqui
ninguém tem noção de valor e até pedindo um absurdo ela acaba sendo adquirida. Verifique
quanto ela vale, e anuncie a mesma pelo quíntuplo do valor e apenas na região.
- Então você não quer vender.
- Quero, é lógico e tenho meus palpites, estou lhe dando uma chance de manter a
fazenda para o meu pai.
- Gostei. Não vai vender mesmo!
- Quer apostar?
- Não quero tomar o seu dinheiro, ninguém é suficientemente estúpido para proceder à
essa compra.
- Aposte!
- Um ano de salário.
- E se você perder? Vai viver de brisa?
- Trabalho com vocês há muito tempo, guardei bastante dinheiro, posso ficar um ano
sem receber. Não vai me abalar em nada.
- Seu Karman-Guia contra minha Mercedes.
- Não aceito. o Karman-Ghia não.
- Com um ano de seu salário você compra vários, é pegar ou largar.
- Não posso, escolha outra coisa para apostar.
- Seu Portinari?
- Aceito, mas você precisa aumentar a sua parte, senão eu tomo prejuízo.
- *Fátima Pires Ferreira, trinta e cinco anos, vinte a serviço dos Montones; seu primeiro e
único emprego. Aprendera a trabalhar e a amar com Vincenzo Bruno Perazzoni Montone, pai
de Diego. Não sabia nem atender a um telefonema direito quando ele a contratou. Devia tudo
ao patriarca, levara- a pelas mãos, ensinara a ela tudo sobre o competitivo e sujo circulo dos
vencedores, sustentara sua faculdade e a introduzira na direção da Montone & Associados,
quando pensara ter atingido seu nível de conhecimento profissional, conversavam sobre este
mundo fascinante até na cama, nunca se enganara em suas previsões, e agora estava plantada
no então já reformado Alivio do Simum vendo limusine do milionário se aproximar e
consciente de sua Fúria.
- Ola Vichi, você está muito bem, tanta boa vida não deixa você envelhecer.
- Fatinha. Você diz isso para receber um elogio de volta, mas não precisava, está
maravilhosa.
- Precisei cometer um sacrilégio para trazer você de volta para o Brasil.
- Foi bom, eu estava mesmo com saudades, vou passar uns tempos aqui quero ver onde
Diego colocou o dinheiro proveniente da minha ira.
- Não usou um tostão aqui, vendeu a Orgulho do Sul para não parar. Não tínhamos
fôlego para novos investimentos. Ele comprou demais por aqui, terras, casas, vereadores....
está reformando esta cidade, um poço sem fundo.
168
- Como pode fazer isso comigo Fatinha? Eu lhe pedi para nunca vender aquelas terras.
Como ele lhe convenceu a fazer isso mesmo contra minha vontade?
- Fui enganada. Ele me mandou pedir cinco vezes o valor delas, pensei se tratar de uma
piada, enviei um procurador à cidade e em três dias a fazenda tinha um novo dono.
- Giovanni Lucas Bragtoni!
- Como sabe?
- É uma velha briga de italianos, meu avo quando se casou o fez com a paixão do avô
dele, eram amigos então, nunca mais se falaram, os Bragtonis e os Schiavonnes se tornaram
inimigos irreconciliáveis, disputaram palmo a palmo cada pedaço de terra na região e
terminaram num empate técnico, não havia mais terras para disputar e passaram a disputar o
domínio político da região, também sem vencedores, se alternando no poder. Quando me
apaixonei por Biancha.... eu não sabia, mas era a menina dos olhos de Giovanni, quando ele
procurou os pais dela para pedir sua mão nós já estávamos com os proclamas prontos, ele não
podia saber, jamais convidaríamos um Bragtoni para uma festa nossa. Então o ódio se tornou
violento, nossos avós e nossos pais combatiam com dignidade, ele no entanto já não tinha a
mesma fleuma, não era imbuído do mesmo orgulho, não se contentou em nos combater no
campo econômico e político, ideológico... aliás, nesse último... acreditávamos nas mesmas
coisas, então armou um atentado contra minha vida, graças a Deus falhou e ninguém saiu
ferido. No entanto eu decidi encerrar as lutas, concentrar meus negócios em outras praças,
coloquei todas as minhas propriedades à venda e me radiquei em São Paulo, porem, eram
muitas posses, fazendas, comercio, indústrias isso não se vende da noite para o dia e quando o
ouvi espalhar aos quatro cantos estar financiando os compradores e sua intenção de nos deixar
sem nenhuma propriedade no local mandei reformar a Fazenda Orgulho do Sul, era bem na
entrada da cidade, e tinha o seu nome, então a transformei em um cartão postal local, com
uma grande entrada, e uma placa: "Um exemplo do modo de vida dos Montones", colocando
uma pedra em seu sapato até vocês permitirem a ele comprá-la.
- De uma olhada no valor desta escritura! Um verdadeiro absurdo, aquela região nunca
viu um negócio deste vulto, depois, mantê-la com toda aquela beleza atender os visitantes
consumia quase toda sua receita.
- Este dinheiro é um absurdo para você, mas não é para mim, nem para Diego, qual o
problema em se manter sem novos investimentos por uns tempos? Não precisamos ser donos
do mundo, nem sei ao certo quanto tenho.
- Diego talvez queira ser, aumentamos suas propriedades em trinta e oito por cento
nesses sete anos nos quais trabalhos sozinhos, fizemos um bom trabalho, eu não sugeri a
venda de nada, sou a favor de adquirir, só pedi a ele para não levar avante este projeto, sem
lograr êxito. Minha opinião sempre foi levada em consideração antes.
Peppino se aproximou, Vincenzo Montone estava começando a suar, em poucos
minutos o comerciante saía com seu sobretudo, paletó e gravata nos braços enquanto um
garçom trajando avental, uma novidade no local lhes servia um chope.
- Quero ver meu filho. Ele é o culpado por tudo, você não tem culpa, porque este
rebuliço todo com uma cidade tão sem importância.
- E a cidade natal de Marina Schiavonne, sua futura esposa, vai dar a ela como presente
de casamento.
- Ficou biruta? Quantos milhões vai custar este presente?
- Na verdade, nada! Examine estes papéis e veja nosso projeto, teremos muito lucro
com a cidade, mas antes.... só por curiosidade..
169
- Fale.
- Perdi meu Portinari para Diego, ele queria meu Karman-Guia na aposta e não aceitei,
foi presente seu e não tem preço.
- Boa menina... boa menina.... ele recebeu o quadro?
- Segundo ele vai passar qualquer dia em minha casa para pegar, sempre foi louco por
ele.
- Vai nada. Fique tranqüila. deixe-me ver estes papeis.
Vincenzo examinou os papéis e não precisou de muito tempo para concordar com o
projeto deles. era fantástico, faraônico na verdade, entretanto fascinante, logo tempo se
transformaria numa extraordinária fonte de rendas vitalícias.
- Mesmo assim não fico feliz. Não me conformo com a vitória de Giovanni.
- Espere para ver, preparei uma surpresa para ele. - Vincenzo ouviu uma voz atrás de si
e se voltando deparou com Diego, sorridente, rosto corado e queimado pelo sol, ficou
maravilhado, onde estava aquele rapaz pálido e com aparência sonada deixado por ele no
Brasil? Esqueceu completamente da Orgulho do Sul. Seu coração de pai estava exultante.
- Mio Filho, como você está bem, parou com aquelas besteiras das agulhadas. Só pode
ser isso.
- Melhor ainda pai. Agora tenho outro vício. Estou apaixonado.
- E os óculos?
- Não uso mais, fiz uma cirurgia e o resultado foi fantástico.
- Está corado também, belíssimo!
- O senhor também está ótimo pai, nem parece ter setenta anos.
- Claro, não tenho mesmo, belo elogio, faço cinqüenta o mês que vem, e não vá me
esquecer de meu presente.
- Pai, agora você vai conhecer Marina, veja-a, esta vindo para junto de nós.
Vincenzo viu Marina se aproximando, caminhava de vagar, andar macio, discreto, no
entanto ao mesmo tempo extremamente feminino, felino, seu rosto, mesmo sem sorrir, serio,
quase preocupado com a visão do futuro sogro deixava transparecer toda ternura nela
existente, seus olhos verdes eram firmes, faziam acreditar em sua sinceridade, Vincenzo
entendeu o motivo de tanta paixão, seu filho não podia ter escolhido melhor, quando ela
chegou não esperou pelas apresentações, olhou para a garota e exclamou.
- Maravilhosa! Magnifica! Uma obra de arte! Então não pode falar. - e levantou os
braços com ar de arrebatado.
- Como? - respondeu Marina frente ao inusitado gesto de Vincenzo.
- Parla? - exclamou Vincenzo enquanto se punha de joelhos - É um milagre! exclamou enquanto segurava as mãos de Marina.
- Não ligue para o meu pai, é o jeito dele de te elogiar, ele sempre precisa fazer teatro
com tudo, é antes de tudo um ator frustrado.
- Vem até aqui criança, me de um abraço.
170
Marina se aproximou de Vincenzo e foi envolvida em um abraço carinhoso, ele era um
homem muito forte, muito alto, exalava uma colônia gostosa, não se sentiu estranha ao
carinho do futuro sogro.
- Você transformou meu filho neste novo homem?
- Não, quando o conheci já era assim. Só o levei para tomar um pouco de sol.
- É modéstia dela pai. Hoje sou apenas e tão somente o produto de meu amor por
Marina.
- E ela te ama tanto assim?
- Ainda não pai, mas vai amar. - respondeu Diego
- Melhor assim! - murmurou o velho - A ilusão de ser amado pode ser terrível, lutar
para sê-lo e preferível a descobrir uma mentira, sempre fica a esperança da conquista. Eu
mesmo morreria agora se descobrisse nunca ter sido amado por minha Biancha. A sinceridade
dela para mim já era esperada, vi isso em seus olhos.
- Eu gosto muito de Diego. Vou fazê-lo feliz, ainda não é o amor louco dos romances,
mas conforme o tempo passa se torna maior. Um dia deverá ser tão grande quanto eles.
- Ótimo, considero este um bom começo, vamos beber.
Todos se acomodaram e Vincenzo perguntou:
- Qual a surpresa reservada para Giovanni, ele comprou a fazenda através de uma
procuração falsa? Me diga a verdade! Foi isso.
- Nada disso pai, vou fazê-lo pensar ter proporcionado o dinheiro para construir tudo
isso, sábado vamos inaugurar a cidade pintada e reformada, dei o nome dele à praça principal.
Foi convidado para a cerimônia.
- Você está brincando. Não pode fazer isso, vai deixá-lo furioso, é um homem violento,
desista desta brincadeira. Não vale a pena, ele tentou me matar.
- Os tempos mudaram, ele não pode mais ficar atrás de uma arvore esperando um
homem passar a cavalo.
- Manda explodir seu carro, sua casa.
- Nada disso, não teria graça, talvez ele possa tentar me dar o troco, isto sim e
gratificante. Matar um homem é uma punição muito fraca.
- Cancele tudo, não vale a pena.
- Não tenho como. Os convites já foram expedidos.
Fátima respirou aliviada, a nova aparência de Diego e a beleza de Marina haviam
impressionado seu patrão e único amante, razão de sua vida, sua fúria; se não foi registrada
agora não existiria mais; estava livre desta.
- *Giovanni Bragtoni não fora o único convidado de Orgulho do Sul, outros proeminentes
cidadãos locais receberam ofícios da prefeitura de Nova Palermo para comparecer à essa
homenagem ao, então, seu mais ilustre habitante; e, uns para tirar proveito da publicidade,
outros para matar a própria curiosidade compareceram, o agraciado recebeu as honras a ele
reservadas e depois foi dar um passeio pelo vilarejo, ver o produto do supostamente edificado
com seu dinheiro em uma charrete, elas foram adicionadas à cidade como um tributo ao seu
próprio inicio, automóveis ficavam restritos ao estacionamento comum, longe das vistas, a
171
partir dali todos eram obrigados a usá-las para atingir qualquer ponto da cidade, apenas as
entregas ao comercio ainda eram feitas em caminhões, mas não nesse dia.
- Bela cidade! - comentou com o charreteiro.
- Um presente de Diego Montone a sua futura esposa e ao mesmo tempo ao povo de
Morada do Simum, ganhamos progresso, perdemos nossas casas mais ganhamos outras mais
modernas próximas à fábrica. Só os donos das lojas permanecerão aqui.
- Uma mulher deve ser muito especial para merecer tal presente, um anel de diamante
seria muito mais barato, quem sabe um Rols-Roice, uma mansão na França até.....
- O senhor não entende? dona Marina é maravilhosa, eu daria tudo isso a ela, e muito
mais, veja! Ela está sentada naquela mesa do Alivio, vou apresentá-la ao Senhor.
- Não precisa, já fomos apresentados, deixe- me junto ao bar e eu mesmo vou falar com
ela, quanto lhe devo?
- Nada, são ordens do Seu Diego, seu dinheiro aqui não tem valor.
Giovanni se aproximou de Marina, era um homem extremamente simpático.
- Estranho encontrar a primeira dama de uma festa sozinha.
- Não sou a primeira dama, os anfitriões oficiais são os meus pais, então essa honra
coube a minha mãe, ela está envolvida com as comemorações. Diego com a organização e eu
fico livre, sente- se, ele vem se juntar a mim em alguns minutos.
- Posso estar enganado; mas com esta beleza toda é muito difícil; você é a garota cujo
namorado foi seqüestrado e ficou tentando encontrá-lo apesar das autoridades o considerarem
morto. Estou Certo?
- Como sabe disso, aconteceu tão longe da sua terra, foi veiculado apenas pelos
noticiários locais.
- Orgulho do Sul fica realmente longe de São Paulo, mas o progresso também nos
atingiu. Acompanho todas as redes pela antena parabólica, ajuda em minhas ambições
políticas.
- Foi como conheci Diego. Ele tentou me ajudar a localizar Thomas, já desisti disso,
não cheguei a lugar nenhum. As providências com a busca estão praticamente estagnadas.
- Então aceitou sua morte?
- As vezes sim, outras não, não tenho certeza... mas não posso fazer mais nada.
Chegamos a um beco sem saída, as autoridades me parecem coniventes com sua morte.
Diego se aproximou deles e Giovanni se levantou:
- Preciso me retirar. Obrigado pela homenagem, tão longe assim de casa pode ser um
bom empurrão em minha carreira política.
- Fique mais um pouco, tome um chope conosco. - convidou o recém chegado.
- Em outra oportunidade. Talvez eu passe alguns dias em São Paulo, ai eu lhe procuro.
- Estaremos lá dentro de quinze dias, até lá deixo Morada do Simum aos cuidados de
seus administradores Não tenho mais nada a fazer aqui.
- E a fábrica? Não vão produzir sucos?
- Nunca construi nenhuma de minha fábricas. Nem você; acredito; as suas! Reconstruir
a cidade foi o meu trabalho mais gratificante, veja o resultado por si mesmo. É uma cidade
172
dos mais remotos tempos, mas com estilo, totalmente calçada e limpa como se fosse o centro
administrativo e comercial de uma velha província européia. O bisavô de Marina fez um
excelente serviço no tocante às acomodações dos seus colonos, deu a eles todo conforto
necessário, os pais tinham quartos separados, os filhos também. Já estava tudo no esquema
correto, eu só precisava organizar a cidade. Ainda tem muitas casas recebendo o acabamento
interno uma série de detalhes, mas não tenho mais tempo para ficar aqui, tenho minha
pesquisa sobre os sindicatos me esperando. Os preparativos para o casamento, vou me casar
aqui no estilo do passado, quero analisar o figurinos, e providenciar tudo, não quero esperar
muito.
- Então façamos o seguinte: hoje e dia primeiro, nos vemos dia vinte ao meio dia na
sede da Montone & Associados. Podemos almoçar juntos e visitar meu escritório em São
Paulo, é hora de sermos amigos, enterrar o passado.
- Para mim está bem.
- Convide Vincenzo, quero pedir minhas desculpas a ele convidá-lo a voltar para
Orgulho do Sul, era nossa competição a mola propulsora daquela cidade. Não comecei nada
de muito importante quando não tive mais sua concorrência, sua mãe.... no final das contas
era apenas um mulher, tenho minha família independente dela e amo minha esposa e meus
filhos, o tempo resolve tudo.
- Ele não vai voltar. Gosta mais da Itália, se sente mais em casa, no entanto ira almoçar
conosco, pode ter certeza.
- Sabe, o ódio não constrói nada, um minuto depois de assinar a escritura de sua fazenda
já não havia mais satisfação nenhuma. Até lá então.
Quando Giovanni se afastou ele comentou com Marina:
- Deus escreve certo por linhas tortas.
- Não entendi?
- Fui fazer uma brincadeira para enervar um inimigo de meu pai e consegui um pedido
de perdão, as coisas não poderiam ser melhores.
- *Diego acordou muito cedo naquele dia, olhou para a janela e o dia ainda não havia
surgido, estava dormindo no hotel, agora chamado de hospedaria. De seu castelo conseguira
terminar apenas a fachada o interior ainda estava sendo construído. Ouvira falar muitas vezes
do nascer do sol visto do outro lado da estrada onde havia o vale, Marina não desceria para o
café antes das oito, decidiu verificar pessoalmente se era exagero ou se realmente o orgulho
dos habitantes retratava a realidade.
Saiu para a rua, e foi obrigado a aguardar uma charrete para ir até o estacionamento e
viu um homem parado do outro lado da rua e não teve dúvida era Athos, há quanto tempo não
conversavam? Marina estava ao seu lado a cada segundo, decidiu convidá-lo a ver consigo
um espetáculo elogiado por todos. Talvez fosse alguma coisa a mais para se colocar como
atrativo para o seu empreendimento.
A saída do vilarejo já não era tão simples, demandava algum tempo retirar o carro no
estacionamento comum. Ao ver a charrete se aproximar o guarda ausente da guarita correu
para o local, não podia liberar a entrada dali.
- Fizemos um belo trabalho. - comentou Diego.
173
- Realmente! Construímos um pedaço do passado aqui, não se vê nada lembrando a
civilização fora das casas, principalmente o castelo. O Doutor Nassib conseguiu pegar o
espirito exato do tempo.
- Seguiu com fidelidade o meu rascunho.
- Aquele desenho na parede? Você o fez?
- Traço por traço.
- Você realmente me surpreende a cada dia.
Diego não respondeu, quando voltou a falar não estava mais no mesmo assunto.
- Temos apenas uns poucos caminhões ainda transitando dentro dela, em breve ficarão
prontas todas as carroças especiais encomendadas e nem mesmo estes poderão mais circular,
as casas ficaram muito boas, a antena está bem distante, a cidade parece não ter uma única
televisão, e no entanto todos os aparelhos tem recepção perfeita.
- Quando poderemos receber hospedes?
- Em uma semana, mas por segurança eles chegaram em três, mas já tenho uma lista de
pedidos para pelo menos um ano, bem acima da expectativa.
- Não era bem esse o sonho de Marina.
- Negociei com ela, os moradores atuais serão admitidos na fábrica muitos foram
absorvidos pela estrutura de Morada do Simum, e continuarão próximos ao vilarejo nos
alojamentos adjacentes. Terão conforto e poderão freqüentar a cidade, continuar a tomar suas
branquinhas em nossos bares, vai tornar tudo mais real, ela vai ter a impressão de ter
continuado tudo como antes.
- Pensei... quer dizer o normal seria demiti-lo s quando acabassem as obras. Não são
pessoas acostumadas à indústria.
- Receberão treinamento adequado e será um serviço muito mais leve. Vão dar graças a
Deus pela nova vida, não terão mais a necessidade de trabalhar tanto; e, o mais importante,
para eles os Montones serão como deuses, pessoas responsáveis pelo milagre de sua nova
vida, vão me dedicar respeito e obediência. Morada do Simum será o meu reino.
- Você não esta levando isso muito a sério?
Diego não respondeu, passou para o lado direito da estrada e estacionou no alto de um
platô, o sol deveria incidir em breve sobre o orvalho ao fundo do vale e o reflexo sobre a fina
névoa provocaria uma fumaça iluminada, brilhante e com vários cores, resultado da difração
da luz sobre a neblina a cobri-lo . Iria aguardar ali onde se encontravam.
- Como é belo o amanhecer, você não pode imaginar como alguém privado disso perde
momentos de extrema beleza.
- Ninguém é privado disso, basta querer vê-lo .
- Não é bem assim, alguns homens trocam o dia pela noite, vivem uma vida totalmente
fora do normal.
- Claro, mas poderiam mudar se quisessem.
- Alguns podem, outros não. Acredite em mim.
- Talvez, mas vamos falar um pouco de você Quase não nos vemos mais. Marina, sua
noiva, está feliz?
- Espero exatamente isso, eu estou, não vejo a hora de estarmos casados.
174
- E como estão de romance? Os jovens de hoje em dia dormem juntos normalmente e
vocês, pelo visto, não o fazem.
- Só dormimos juntos na noite na qual ficamos noivos, por ocasião do trato pela cidade,
agora é diferente, nós nos amamos com freqüência, mas ela faz questão de dormir e acordar
em seu próprio quarto.
- Ela fez o acordo assim, sem mais, nem menos?
- Não, ela jogou em duas fazes: primeiro concordou em se casar comigo, depois
perguntou se eu podia fazer alguma coisa pela cidade; não propôs uma troca, mas em meu
íntimo eu sabia: eu só a teria realmente se atendesse ao seu pedido. Depois exigiu um noivado
tradicional e eu concordei, dormiremos em quartos separados até o casamento.
- E não lhe magoa essa espera? Esta relação tão fora dos tempos?
- Não, pelo menos agora quando ela se entrega é a Diego Bruno Perazzoni Montone e
não a Thomas Aguiar.
- Como assim?
- Naquele dia, quando você chegou em Morada do Simum nós nos amamos, mas ela
estava amando Thomas, existe um efeito qualquer dela sobre mim, parece me hipnotizar às
vezes, tenho a exata impressão de ser Thomas Aguiar e faço tudo como se fosse ele. Ela
consegue provocar isso.
- E você se lembra de ter feito isso depois?
- Não tenho muita certeza de me lembrar de tudo, quando o faço é como um sonho; e,
só em determinadas ocasiões mas tenho uma certeza, ela não o fez depois do nosso noivado.
Ela nunca mais provocou esta metamorfose, me respeita e me trata como Diego.
- Não é uma relação um tanto quando complicada?
- Exatamente, por isso fico em duvida se estou fazendo o certo.
- Não quer mais se casar com ela?
- É o meu maior desejo. No entanto tenho medo, e se ela não conseguir esquecer o
Thomas? Se me usar como uma tábua de salvação? Pode me transformar em um farrapo
humano.
- Não posso influir em sua decisão. Não sem seu consentimento.
- Vamos deixar a coisa como está, mudando de assunto: você ligou para o jornal ontem?
Algum problema?
- Dezenas deles, principalmente a obrigação de participar de programas ao vivo.
Marquei alguns para você; dias dezenove, vinte e cinco, vinte e sete e vinte e oito; seu
contrato o obriga a varias apresentações por ano e vamos levar algum tempo para por seus
compromissos em dia.
- Adiante-os se for possível, quero viajar bastante durante a lua-de-mel pretendo ir para
a pequena vila da Itália onde nasceu o bisavô de Marina, e também onde nasceu o meu,
depois fazer um passeio pela Europa, levá-la a conhecer a vivo os locais aos quais seus pais se
referem com tanta freqüência. Ela e Anabela nunca saíram do Brasil.
- Não entendi bem! Você não pretende levar a Anabela junto?
- Não, é óbvio. Mas vou mandá-la para lá com os pais tão logo regressarmos.
- Agora entendi, no principio eu pensei.... como você é uma caixinha de surpresas.
175
- Quero você em São Paulo imediatamente, Pedro Latorre está meio desesperado. Pensa
estar sendo passado para trás, convença o do contrário.
- Qual a preocupação dele?
- Morre de medo de me ver pesquisando qualquer fonte sindical pelas costas dele,
acontece o seguinte.....
Continuaram ali conversando durante muito tempo, Athos anotou tudo conversado
sobre as pesquisas de Athos sobre os movimentos sindicais e depois observou:
- Se quisermos ver o nascer do sol voltamos amanhã, este já perdemos, quinze para as
oito, Marina vai descer para o café em quinze minutos.
- Vamos lá, gosto de estar esperando por ela, você dirige, assim não vou ter problemas
para estacionar o carro.
- *Após o café eles desceram para a praça, a limousine vazia estacionada junto à praça
devia pertencer a Pedro Latorre, devia estar em algum lugar do vilarejo esperando por ele, deduziu Diego - Não podia ter entrado na cidade, mas o empresário devia ter criado muitos
problemas para os guardas com sua arrogância e acabou sendo admitido contra as normas.
Precisava dar um jeito nisso. Não devia se repetir.
- Pedro Latorre pelo jeito estava com vontade de passear, vindo de carro até aqui, deve
estar lá no Alivio, vou ver se o acho por ai.
- Diego, você me desculpe, não tenho muita vontade de ver este homem, vou dar uma
olhada na casa. Quero a pronta antes de voltarmos.
- Não queria deixar você sozinha amor. Mas Pedro é um problema.
- Eu fico com Marina, vá tranqüilo. - interrompeu- os Athos.
- *Athos não se preocupava mais com as visões de Diego, pensava terem acabado, mas
tendo em vista as novas informações, partindo dele mesmo, acabou trazendo novamente o
assunto à baila e ele conversou a respeito com Marina.
- Não é sempre. Só quando ele tem um apelo muito forte de Thomas a transformação
parece se manifestar, não tem acontecido depois do nosso noivado.
- E você por acaso propiciou alguma situação para lembrá-lo? Para conseguir a
manifestação de Thomas?
- Nenhuma, apesar de saber como fazer isso, depois de nosso compromisso, não posso
ficar mexendo com as lembranças de Thomas estando noiva dele, se ele quer fazer amor toma
todas as iniciativas, eu simplesmente aceito.
- Você está se anulando?
- Não sei, quero me acostumar a ele. Não quero magoar uma pessoa tão boa de maneira
nenhuma, mas me anulando realmente não estou, tenho prazer com ele.
- Você está se casando com a bondade dele?
- Dizem ser suficiente para sustentar um casamento, mas não é só, ele é uma grande
pessoa, tem charme, é interessante, inteligente, famoso, cobiçado.
176
- Não é suficiente Marina, precisa haver algo mais, desejo, amor, vontade de estarem
juntos, não se pode sustentar um casamento com bondade e sonhos sobre uma cidade. Você
pode se tornar infeliz.
- As vezes eu acordo à noite com vontade de estar com ele. Mas me contenho, tenho
medo de pronunciar o nome de Thomas na hora imprópria, já sai de meu quarto e cheguei a
porta do dele, e voltei dali. No entanto acredito na possibilidade de ser feliz ao lado dele. confessou Marina sem notar a presença de Diego atrás deles. - Embora ainda ame Thomas.
Pedro Latorre não estava na cidade, a limousine era igual a dele, mas pertencia ao seu
pai; adquirira-a recentemente, Vincenzo Montone viera verificar o andamento das obras, por
isso tinha sido admitido com o carro, o empreendimento era da família. Mas chegou cansado
e estava dormindo então Diego fora se unir a eles, e ouvira a última afirmação de Marina, mas
saiu rapidamente do local. Haviam muitos bancos na praça, escolheu um e ficou sentado
olhando para o nada e questionando a validade de tudo, era certo continuar com aquele
noivado? Obrigá-la a cumprir seu compromisso? O mais honesto seria liberá-la, deixá-la
completamente livre para decidir qual era realmente sua inclinação, pediu aos céus para
iluminá-lo , mostrar o caminho a seguir quando sentiu aquelas mão tão queridas cobrindo seus
olhos e ouviu a voz à qual gostava de dedicar todos os seus sentidos.
- Adivinhe quem é?
- Diana!
- Não?
- Mona Lisa!
- Errou?
- Então é Marina Schiavonne! Acabaram todas as outras mulheres comuns e sem graça
do mundo.
- Bobo! - choramingou a garota enquanto se atirava em seu colo.
- Seja decente no meio da praça de uma cidade provinciana.
- Eu? Nunca aprendi a ser decente. - respondeu Marina debochada enquanto lhe dava
um beijo.
Estes momentos bastaram para afastar qualquer dúvida, não precisaria nem ser um
beijo, um simples sorriso de Marina era suficiente para lhe dar uma certeza: sua vida sem essa
mulher não teria o menor significado. Seria o fim das emoções, das ilusões, andar sobre um
chão de pedras, sem arvores, flores, sons ou cores a ausência da motivação para a vida.
DETERMINAÇÃO, UMA FORÇA DIFÍCIL DE SUPERAR.
Athos estava preocupado com o desenrolar dos fatos, quando ficou ao lado de Diego,
após os protetores destruírem a memória de Thomas, fê-lo apenas para fazer as coisas
caminharem no sentido de uma aproximação dos apaixonados, queria fazer a linha da vida
deles seguirem o rumo previamente traçado, mas agora estava achando tudo muito difícil, não
estava trabalhando um espectro comum, era único, determinado, inusitado, um ente possuído
de uma determinação até então nunca imaginada nos humanos, tinha uma vontade
inquebrantável, jamais encontrada em espectros tão fracos e sujeitos a tantas tentações da
carne, o amor era tratado por eles como algo secundário, as grandes paixões eram realmente
fruto dos ideais dos escritores e não existiam na vida real, pelo menos paixões como a de
Klaus.
177
Quando se recolheram à região dos Cárpatos, Klaus e seus amigos ficaram com uma
economia praticamente única, ou proveniente da extração de ferro ao oeste, as vinhedas e o
plantio de trigo da região Sarmácia. Muito embora tivessem poucas necessidades precisavam
satisfazer todas as suas vaidades, e, para manter seus territórios colaboravam com o império e
tinham apoio de Bizantium; mais tarde Constantinopla.
Embora nas guerras tivessem muita utilidade para o império com suas incursões
noturnas onde causavam grandes perdas e terror aos inimigos tiveram pouca utilidade para a
igreja. Não conseguiram difundir o cristianismo em seus condados como desejado, estavam
cercados de povos ignorantes, cheios de superstições e aterrorizados pêlo medo de vampiros,
lobisomens e outros monstros, acreditando realmente do poder das cruzes, alho e balas de
prata consideradas terríveis contra tais perigos e não nas ineficazes orações.
Em função disso foram praticamente abandonados pelo Bispado de Adrianópolis e a
não ser quando precisavam realmente de seu apoio militar pouco conseguiam de Roma e não
podiam se dar ao luxo de fazer muitas incursões à capital do império para reclamar em função
de suas limitações quando à sobrevivência durante o dia.
Sua região durante séculos foi invadida por vários povos descrentes no apoio do
Império pensando encontrar ali presas fáceis, ledo engano! Nenhum deles conseguiu
estabelecer um domínio definitivo nem criar um estado forte, assim eles entravam e saiam dos
mapas Romanos com incrível freqüência.
A partir de mil e duzentos seus problemas se agravaram com o enfraquecimento visível
do império e durante trezentos anos travaram batalhas sem fim com os Turcos, mas
finalmente em mil quatrocentos e cinqüenta e três com a queda de Constantinopla ficaram
ilhados no centro de suas rotas de avanço, perdendo definitivamente o já fraco apoio dos
cristãos mais preocupados com seus próprios problemas. Tendo suas fortalezas parcialmente
destruídas ou tomadas e ficando em grande perigo.
Não podiam correr risco de terem suas câmaras de descanso invadidas, então face a
eminente derrota não esperaram muito e decidiram rapidamente se evadir de seus condados.
Suas técnicas de navegação até então guardadas em segredo foram aplicadas, seriam
imbatíveis sobre a água, podiam navegar mais rápido e praticamente com qualquer tempo,
então se lançaram ao Danúbio onde só se moviam à noite, se escondendo em caixões
enterrados em suas margens durante o dia, sentinelas inimigas eram subjugadas e jogadas nos
porões de suas embarcações e utilizados para renovar suas energias. Extremamente fortes
atingiram o Mar Negro onde descansaram e dai, mesmo correndo grande perigo ao navegar
durante uma terrível tempestade, acabaram atravessando o Estreito de Bósforo e de
Dardanelos atingindo o Mediterrâneo onde foram perseguidos, sem sucesso, se escondendo na
ilha de Creta e daí passando por terríveis provações atingiram a Inglaterra onde se refugiaram
em regiões pouco habitadas se espalhando principalmente pelo Pais de Gales e Escócia.
De todos Klaus era o único a possuir uma esposa; Karina; atravessaram juntos séculos,
era sua companheira e razão de existir, no entanto os outros dissidentes também tinham o
hábito de mostrar bebes varões e levá-lo s para serem criados em outras Terras, embora não
os tivessem realmente gerado, eram bebes roubados aos pais em terras distantes e depois
simplesmente devolvidos a eles, sem explicações. Tinham como finalidade criar a expectativa
do aparecimento de um varão mais tarde para sucedê-lo s em seus domínios.
Mas a vida na Inglaterra não se mostrou fácil, pois quando habitavam os Cárpatos
tinham suas próprias leis e era proibido ver o rosto de suas esposas eles viviam coberto por
um véu, mas na ilha precisavam viver como os filhos da terra e este costume precisou ser
abandonado.
178
Ao notar a eterna juventude de Karina. Ela não envelhecia, ao contrário do marido; a
Igreja a acusou de feitiçaria e embora os médicos e advogados de Klaus tenha conseguido
provar uma doença pela qual ela não devia ser exposta ao sol isto só conseguiu prolongar
momentaneamente sua vida, sem vencer a autoridade da igreja e ela foi queimada em praça
publica como feiticeira na noite de dez de maio em mil quatrocentos e setenta.
Desesperado ele pensou em morrer, mas foi convencido pelos companheiros de sua
utilidade, era o líder deles, seguiam-no cegamente desde cento e vinte e dois, dependiam de
sua inteligência e conhecimentos há quase quinze séculos.
Não se interessou mais por mulheres. Passou a ler os livros proibidos pela igreja e foi
convencido da existência da reencarnação, não seria antes de dois séculos segundo os homens
considerados para ele como os mais sábios e isso poderia demorar mais, ninguém podia
afirmar ao certo. No entanto imbuiu-se de uma certeza: Karina voltaria a existir, então ele
esperaria, tinha toda uma eternidade para isso.
Baseado na existência de sua própria espécie acreditou. Ele mesmo já habitara corpos
em outras missões do protetorado e os abandonara vendo-os serem reduzidos a nada e no
entanto permanecia vivo em sua forma espectral, porque seria diferente com os humanos?
Mas pouco sabia sobre a forma como aconteceria então correu atrás do conhecimento ouvindo
toda a série de charlatães.
Houve nova reviravolta nos Cárpatos e regiões satélites, os húngaros criaram um
poderoso exército de resistência, começaram a criar problemas para os turcos na região dos
Cárpatos, Klaus se juntou a eles e em poucos meses haviam recuperado vastos territórios,
inclusive Rardemuc lutou com selvageria e determinação. Mas não o fazia mais pelos
cristãos, não tinha mais nada em comum com eles, responsabilizava- os pela morte de Karina,
perecera em função de sua fuga para a Inglaterra e da absurda procura de bruxas inexistentes
pelo clero, ela jamais teria sido incomodada em Rardemuc. Havia motivos para condenar
Karina, mas quantos inocentes morreram nas mãos da inquisição?
Menor não era seu ódio pelos turcos, também foi extremado, graças a eles fugira de
seus domínios expondo Karina aos tribunais do clero.
Revoltado com a igreja, algoz de Karina, ele cravou uma lança no altar da capela do
castelo e exigiu o abandono imediato da mesma pelo padre ali existente, lacrando-a
definitivamente e abolindo em definitivo os trabalhos eclesiásticos no local. Revoltado com
os turcos tão logo voltou a reinar em seu condado, com o apoio dos Húngaros, dedicou- se à
guerra como se fosse o único fato importante de sua vida.
Na guerra agiu com uma selvageria nunca vista. Sua fúria atingiu o pico em mil
quatrocentos e setenta e cinco quando suas tropas desfilaram para comemorar a destruição de
mais de duzentos mil inimigos, feito incrível, metade deles apenas neste ano. Cruel ao
extremo se deleitava ao empalar os sobreviventes durante banquetes; verdadeiras orgias; dos
quais participavam os mais diversos tipos de aproveitadores e parasitas, da nobreza e da
pseudo-intelectualidade
não-turca do continente, maus elementos, sádicos, loucos,
depravados e outros elementos afins e das mais diversas religiões e credos, mesmo os padres
“progressistas”, se fieis a ele eram aceitos embora não tivessem acesso à capela do castelo.
Isso transformou seu condado em uma miscelânea de deuses e entidades. Acabou
reatando com a igreja, afinal eram contra os turcos, não podiam ser seus inimigos embora os
serviços religiosos continuassem proibidos no castelo a presença dos cristãos era aceita e
tolerada no condado.
179
Em sua loucura e ódio pelos turcos Klaus atingiu todos os limites. Mesmo os cidadãos
de Rardemuc, caso provado alguma amizade, ajuda ou contato menos hostil com os invasores
podiam ser incluídos entre as vítimas de sua crueldade.
Klaus então se tornou uma figura polêmica, o povo da região dos Cárpatos, antes
orgulhoso e livre, após a tomada da região pelos turcos foi submetido a muitas humilhações e
violência.
Com a volta de seu senhor, a fama da "Legião Morcego" comandada pelos Rardemucs
atingiu então seu auge, como apoio de uma legião de humanos transformados e fiéis, o
inimigo era dizimado aos milhares, a liberdade se ampliava com rapidez incrível, em breve
nada havia de domínio estrangeiro naquela faixa, o invasor face às pesadas baixas na região
preferiu manter seus limites ao sul do Danúbio e imediações, de certa forma imitaram os
Romanos. Não havia nada de tão importante naquela área para justificar tantos danos às suas
tropas. Não conseguiam entender. Porquê um povo defenderia com tanta selvageria um
pedaço de terra com tão pouco valor? Decidiram esquecer Rardemuc e regiões satélites.
Herói para a quase totalidade do povo e conhecido como "O Libertador" Klaus
acumulou também alcunhas pejorativas e degradantes, como "O Príncipe Nosferatu", "A Mão
do Demônio", "O Senhor das Trevas", por sua selvageria, modo de se vestir e também por
seu hábito imutável de descansar durante o dia e conduzir sua legião de monstros na escuridão
muito à vontade, como se o Sol estivesse brilhando. Mas a principal alcunha, a mais forte e
sentida "O Homem Sem Alma", por ter estendido sua violência às vezes ao seu próprio povo
E o condado se independeu. enriqueceu, havia muitos tesouros dos saques contínuos aos
inimigos, criou um povo financeiramente estável e de muitos credos. Nesta desordem era
mais fácil encontrar homens cujas idéias se diferenciavam das aceitas pela igreja, alguns
estudiosos e convencidos de suas teorias e alguns charlatães aos quais distribuía dinheiro sem
pestanejar, no entanto embora cada um deles tivesse uma teoria diferente sobre o regresso dos
mortos ao mundo dos vivos, juntando tudo e ponderando as coincidências existentes
decorridos cinqüenta anos estava totalmente convencido de como aconteceria:
O espectro, segundo suas conclusões era apegado ao seu país de origem, então quando
decidisse habitar um corpo ainda sem alma; o faria enquanto o feto se encontrasse no ventre
da mãe; e no caso de Karina na Inglaterra, depois ela daria ao corpo a forma de seu agrado, e
existiria como sempre fora, não importando se feia aos olhos de todos, então um dia, naquelas
terras sua amada nasceria novamente, talvez não tivesse o mesmo nome; seria escolhido por
seus pais; mas seria a mesma mulher e certamente o amaria. Já o fizera antes, ficaram ligados
por quase quinze séculos, impossível ela se entregar a outro homem.
Investiu muito dinheiro em propriedades naquele pais as quais administrava à distância
seja o aluguel seja o resultado financeiro de terras produtivas contando com a ajuda dos
dissidentes ali radicados. Mas quando a perseguição aos bruxos atingiu um ponto insuportável
na Inglaterra e seus iguais também se sentiram ameaçados; três deles haviam também
encontrado o amor e tinham esposas, queriam mantê-las vivas; decidiram abandonar o país. A
administração de seus bens passou a existir apenas através de procuradores.
O retorno dos dissidentes aos Cárpatos não foi uma jornada tranqüila, não podiam
atingi-los pelo mar sem se expor a muitos perigos face ao aumento das tropas inimigas na
região do Danúbio. Como única alternativa lógica foram para a Holanda, atravessaram as
terras dos suíços, dos eslavos e dos austríacos atingindo o lar em uma viagem ousada e
perigosa por terras ainda livres do domínio turco mas disputadas por eles.
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Foram esperados por Klaus e sua Legião Morcego, próximos à fronteira de Rardemuc,
ali seriam obrigados à lutar, com certeza! Se ele sabia da chegada deles isto não ficaria
escondido de seus inimigos.
Pela primeira vez em séculos ele viu sua legião de transformados ser vencida por
soldados comuns e viu a morte de um dissidente em combate.
Observou como eram diferentes dos humanos, mesmo transformados, estes quando
feridos caiam mortos como soldados comuns, ao menos de imediato, mas não o dissidente, ao
ser atingido pela espada causou um mal estar geral entre os combatentes de ambos os lados, a
contar do local atingido ele passou a ser percorrido por duas ondas azuladas, correndo em
sentido contrário e envolvendo rapidamente o corpo, quando se encontraram foram perdendo
a cor até chegar ao branco e tudo se transformou imediatamente em nada, nem um átomo
visível sobrou no lugar onde antes estivera o companheiro ferido, tudo acontecendo em um
período de poucos segundos.
Apavorados os poucos combatentes turcos restantes perderam o controle de suas
emoções e Klaus e os demais dissidentes caíram sobre eles com velocidade impressionante,
liquidando-os sem piedade.
- Não quero um único sobrevivente, ninguém deve escapar e deixar o mundo saber de
nossa fraqueza, seja ela qual for.
Terminada a batalha, eles descansaram e se prepararam para recolher os corpos dos
companheiros humanos transformados, todos mortos no combate. Mas não foi necessário,
com espaços maiores eles foram envelhecendo e seus átomos se desagregando transformandose em pequenos montes de pó cujo vento da noite se encarregava de espalhar.
- Recolham suas armas, deve haver alguma coisa nelas de diferente, nunca fomos
atingidos antes.
Os dissidentes se juntaram a Klaus e o ajudaram a reconstruir sua fortaleza, mas não
tiveram a mesma preocupação militar, sem as grandes muralhas, apenas um confortável
castelo onde podiam viver com segurança com suas mulheres embora nunca fossem vistos.
Somente o conde era conhecido pelos aldeões sobre sua autoridade.
No entanto a morte de um dissidente não podia ser esquecida, então descobriram o
motivo, as espadas dos inimigos continham prata. Não fora feito de propósito, era comum a
incidência de prata de baixa qualidade na região onde foram forjadas misturada ao ferro.
Mas a sorte estava do lado deles, haviam dizimado mais de duzentos homens naquela
noite, eram apenas vinte seus inimigos sabiam disso, não os atacariam mais, eram invencíveis
pelo menos na proporção de pelo menos dez para um, haviam outras terras pelas quais lutar.
Klaus não sabia disso e demonstrou sua preocupação.
- Estamos vulneráveis a esta espada, precisamos tomar o território onde são fabricadas,
vamos criar um exercito de transformados e destruir aquela região, não vamos deixar pedra
sobre pedra.
Mas seus companheiros não concordaram com mais esta luta, ouviam histórias sobre
um pais onde as leis eram tolerantes e mais justas e modernas, a Igreja não tinha poder sobre a
vida dos habitantes e não havia o constante estado de guerra existente na Europa.
- Vamos para lá Klaus, - suplicou Igor. Fazemos a guerra há dezesseis séculos,
queremos descansar, andar entre pessoas vivendo em paz e respirar outros ares, ver algo além
de guerreiros e turcos, a Luisiânia é o futuro os Cárpatos são o passado. Não tem mais nada
para nos oferecer além de tristeza e morte.
181
Klaus não se sentiu vencido, era um homem lógico, eram poucos agora, já não haviam
mais humanos transformados, um exercito deles podiam ser mais uma fonte de problemas.
Não tinham seus conhecimentos seculares, nem sua sabedoria, seria seguro realmente criar
milhares deles? Seriam fáceis de controlar como o pequeno grupo conhecido como a Legião
Morcego? Não havia o perigo do criador ser destruído pela criatura? Então Karina... nunca
mais... não podia admitir isso.
- Vão vocês, eu os encontro quando minha Karina reencarnar, vamos ficar muito longe
das noticias da Inglaterra lá.
Assim Klaus ficou nos Cárpatos sozinho, em companhia apenas das três mulheres
esposas dos dissidentes casados, esperando a reencarnação de Karina e sustentando um
batalhão de espiões na Inglaterra com desenhos de sua amada feitos por ele mesmo,
absolutamente perfeitos como se tivesse vida. Mas sem nenhum resultado. Alguns
colaboradores sequer a procuravam, simplesmente recebiam a paga e nada faziam.
Não se cuidava como quando Karina era viva. Perdeu aquela aparência jovial. Apenas
quando sentia haver passado muito tempo ele ressurgia como o filho do conde e era visto
jovem pelas tabernas locais, Mas sempre citado como um homem triste e misterioso. Depois
novamente se recolhia ao castelo e permanecia nele, solitário por décadas.
O cansaço de muitos povos com as guerras praticamente fizeram-nas cessar em seu
território, embora não houvesse a unificação e continuasse dividida em dezenas de pequenos
condados, praticamente todas eles decretaram uma trégua, não negociada nem política, um
cessar da luta sem explicação, possivelmente resultado da fadiga ou talvez de uma tática
militar mais inteligente, da tentativa de se recomporem para novos confrontos, um dia as
batalhas deveriam recomeçar, mas Klaus não assistiu mais à tais lutas, seu território estava
livre e ele já não tinha tantos compromissos com a Igreja.
Começou a ter problemas domésticos, as mulheres sob sua guarda eram preguiçosas e
não agiam como ele, não iam buscar energia entre seus inimigos, matavam dentro da própria
aldeia e embora nunca tivessem sido surpreendidas durante seus ataques, como esperavam
suas vítimas na encruzilhada próxima à estrada do castelo aquele território acabou criando
fama de maldito e sendo evitado à noite pelos camponeses e Klaus abandonado pela
criadagem, não haviam escravos na região e ele não podia obrigar ninguém a trabalhar para
ele a não ser pela paga, precisava respeitar suas próprias leis.
Na verdade ele não precisava mesmo deles, sentia prazer em caçar à noite, e, nas raras
oportunidades onde era dominado pela fome dos humanos em assar sua própria refeição, ou
as vezes descer ao vilarejo e se sentar na taberna para saborear um bom vinho, mas não podia
abrir mão da criadagem, eles significavam antes de tudo uma garantia para sua segurança e
como não os conseguiu na vila acabou encontrando aliados nos ciganos, pessoas dispostas a
servi-lo , mas de acordo com suas tradições e orgulho, não concordaram em morar no castelo,
ou limpar outro cômodo a não ser a sala onde era servido o jantar e a cozinha, mesmo sem
utilizá-la, preparavam as refeições de Klaus no acampamento, não tinham superstições para
não habitá-lo , não conheciam o medo, apenas davam mais valor à vida ao ar livre, por isso
foi possível negociar com eles, não seriam tratados como criados e recebiam como paga pela
comida o direito de acampar nas terras próximas ao castelo e assim viviam com a liberdade na
qual tinham sido criados sem serem incomodados pelas autoridades locais como acontecia em
muitos outros lugares, um perfeito casamento de interesses.
Para por um fim aos comentários e à morte indiscriminada de seu povo Klaus mandou
lacrar uma ala do castelo com prata misturada a argamassa e incrustada em todas as portas e
janelas, ele mesmo não podia atravessar tais paredes a não ser com a chave, mas isso não
permitiria mais às três mulheres atacar os aldeões; e, em períodos regulares ele era obrigado a
182
providenciar entre seus inimigos as vitimas necessárias a mantê-las vivas e jovens. Não
precisavam delas diariamente, os corpos naturais dos humanos eram muito mais coesos, não o
produto da criação artificial como o seu, portanto uma vitima a cada cinco ou seis meses eram
suficientes, se compensada com alimentação regular e farta, para manter sua juventude. Esta
necessidade aumentaria com a idade, Karina à época de sua morte já precisava se recompor
em intervalos de aproximadamente noventa dias, mas isso não aconteceria com elas a não ser
em muito tempo.
Os ciganos tinham-no como o único habitante do castelo e um homem com tremendo
apetite, - pois as refeições deixadas prontas sobre a mesa alimentariam satisfatoriamente três
a quatro homens acostumados ao trabalho no campo - mesmo comendo apenas uma vez por
dia, mas não o consideravam nem um demônio nem um deus, apenas um homem com hábitos
noturnos, uma grande fome e muito dinheiro.
Sua região nos Cárpatos era organizada e os camponeses trabalhadores, a Igreja graças
à apatia de Klaus em combatê-la como ocorrera no passado conseguira influir em grande parte
da população e já existia um padre efetivo em Rardemuc. Este sabendo da maldição da
estrada para o castelo fez com o povo uma grande procissão por ela e a abençoou com
símbolos eclesiásticos e rezas latinas, das quais o povo nada entendia, colocando uma cruz
sobre a encruzilhada dela para a estrada principal.
Como isto coincidiu com a prisão das mulheres por Klaus e o fim dos assassinatos os
habitantes locais, antes pouco preocupados com a religião, - mesmo os não convertidos passaram a usar também uma cruz como proteção contra os demônios
As superstições locais eram muito fortes e eles não se apegaram apenas à cruz, podia
ser insuficiente. As demais crendices do povo a acompanhavam e eram comuns nas entradas
das residências, como o alho e o pentagrama; a este atribuíam o poder de afugentar bruxas e
lobisomens, mas o símbolo religioso mais importante de Rardemuc era a suástica; - depois
utilizada por Hitler - acreditavam evocar com ela os deuses da mitologia em defesa dos
fracos e por via das dúvidas ainda podiam ser encontradas imagens de Buda, a Estrela de
David, símbolos mitológicos e uma série de outros pinduricalhos e ídolos das mais diferentes
crenças e seitas, normal em uma região dominadas por muitos povos e formada também por
imigrantes de muitas terras vizinhas em busca da paz e prosperidade de Rardemuc.
Desta maneira o vilarejo construído sobre a proteção das muralhas das terras de Klaus,
destruídas há muito pelos turcos e das quais só existiam vestígios se tornou mesmo após o fim
dos ataques das mulheres um recanto dos mais supersticiosos sobre a Terra. O enorme
número de símbolos pendurados nas entradas das casas acabou chamando a atenção dos
viajantes, e transformando o padre do vilarejo em um alvo de muitas piadas e zombarias.
O padre não se conformou e convocou a cidade para uma conversa. Não tinha sido ele e
sua procissão o responsável pelo fim dos assassinatos? Alguém mais havia sido atacado após
este dia? Então deixou claro! Tinha sido a cruz a livrá-lo s deles. Exigiu respeito à igreja e
aproveitou para ameaçar o povo com o fim desta proteção, iria tirar a cruz colocada na
encruzilhada. Para evitar mais problemas todos concordaram em adotar apenas um símbolo, o
responsável pelo fim dos ataques.
Mas na pratica não aconteceu assim, todos fizerem um pequeno armário ao lado da
porta onde acomodaram todos os demais pinduricalhos, aparente, no entanto, apenas o
crucifixo e mantiveram o alho e outros condimentos considerados fortes pendurados nas
paredes, se alguém perguntasse o motivo eles alegavam ser para uso culinário. A situação
ficou sobre controle e o padre, embora sabendo do conteúdo das pequenas caixas; satisfeito.
183
No entanto ninguém mais voltou a trabalhar no castelo do Conde Klaus, aravam as
terras em volta dele mas paravam cedo, sem risco de serem surpreendidos pelo por do sol.
Nunca entravam no enorme bosque a circundá-lo onde nada se plantava, este era mantido
limpo e arrumado pelos ciganos, um espetáculo de rara beleza do qual ninguém se
beneficiava. Ao cair da tarde nada os seguraria naquela região.
Klaus à principio não precisava viajar muito para conseguir suas vítimas, haviam
muitos turcos na Valáquia mas quando ela conseguiu um período muito longo de trégua e não
haviam batalhas sendo travadas ele precisava se locomover até a Bulgária, uma viagem muito
longa, pois não tinha como precisar quem era o seu inimigo senão pelas fardas, até descobrir
a utilização dos símbolos, então passou a não fazer viagens mais curtas, e a poupar todo
homem ou mulher das terras próximas ao condado de Rardemuc caso tivessem consigo uma
suástica ou uma cruz - o inimigo jamais os usaria - estes seriam considerados aliados.
Esta atitude acabou fortalencendo em muito a crença do povo no poder destes símbolos,
no entanto eles não lhe faziam nenhum mal, temia apenas a água benta, mas não pelo poder à
ela atribuído pela igreja e sim por se tratar de água colhida pura para os pequenos invólucros
nos quais os homens a transportavam e assim podiam lhe causar sérios ferimentos embora não
pudessem destrui-lo devido à pequena quantidade ali contida. No entanto, tinha um motivo
para respeitar os símbolos acreditava assim poupar os seus súditos, ao menos de forma
consciente não vitimava o povo dos Cárpatos, isto lhe dava uma sensação de inocência, matar
inimigos fazia parte de sua missão como Senhor de Rardemuc.
Mas ele não precisou mais se preocupar com tais símbolos a partir da noite na qual pode
sentir realmente a extensão de seu poder, levou dezessete séculos para descobrir aquela força:
não precisaria mais lutar para se alimentar, geralmente ele atacava as vitimas e as subjugava
pela força, mas aquela descoberta mudaria tudo.
- *Natasha Wlanduk sempre fora uma garota rebelde, jamais respeitou nenhuma
convenção, usava roupas coloridas ao contrario das outras garotas da cidade, não se
incomodava com os falatórios decorrentes de sua atitude, Rardemuc era uma condado forte,
tinha recursos e boas escolas, alguns mestres ingleses pouco crédulos nas superstições e
costumes locais, educada desta forma ela jamais os respeitou ou teve medo dos domínios do
conde, usava uma suástica por achá-la bonita, um desenho geométrico interessante, no entanto
não se sentia protegida por ela.
Naquela tarde ela se separou dos demais na volta para casa, queria conhecer o bosque, a
visão do mesmo do lado de fora fazia antever uma grande beleza, estava certa: os ciganos
cuidavam realmente daquele local, a grama era muito bem cuidada, havia flores, ordem, com
certeza era o lugar mais lindo visto por ela até então, maravilhada com a beleza do mesmo ela
não notou o cair na noite, a lua cheia e o tempo quente não permitiu, muita coisa ainda era
visível, inclusive o homem parado a uma certa distância, todo vestido de preto, encapuzado,
olhando para ela com desejo, faminto, houve um certo tempo de hesitação mas finalmente ela
foi até ele.
- Tome- me mestre, eu lhe pertenço.
Klaus recebeu o fato com indiferença, nada mais lhe surpreendia quando algum poder
novo se manifestava nele, morreria sem saber a extensão dos mesmos; pensou consigo
mesmo, mas não aceitou a oferenda.
- Ninguém usando uma suástica sofrerá de mim qualquer mal pois lutamos pelos
mesmos deuses.
A garota arrancou o símbolo pendurado no pescoço e o atirou longe.
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- Se é isto o responsável pelo seu medo já não existe. - depois tomou-lhe as mãos e
colocou-as sobre seu colo permitindo assim à energia fluir de seu corpo para o dele.
- O medo não existe nas minhas fraquezas, vocês são meus protegidos, devo zelar pelo
bem estar de todos, não destrui-los. Precisa de segurança para chegar à vila?
- Não! Estou segura em seus domínios.
Klaus em seguida simplesmente devolveu a ela o pouco de energia retirada e se afastou
rapidamente deixando-a sozinha.
Mas a garota não se mexeu, ficou olhando aquela figura negra e encapuzada se
afastando com ar de infinita decepção, se sentindo recusada, insignificante, só depois de
perdê-lo de vista definitivamente se moveu, pegou a suástica do chão, colocou- a no pescoço
e começou andar, mas não em direção à aldeia.
Klaus testou este poder novamente nas terras onde se misturavam muitos povos onde
atraiu um homem para si.
- Aqui estou senhor, minha vida lhe pertence, tome- a.
- Antes me responda uma pergunta? O Senhor é um homem da terra ou um invasor?
- Sou um imigrante, busco a paz hoje reinante na região, sou um cristão temente a Deus.
- Então onde está seu crucifixo?
- Trago Deus em meu coração, isto faz de mim um cristão, não preciso gastar com uma
jóia o dinheiro necessário ao pão de meus filhos.
- Então sua vida pertence a ele, vai- te.
- Se é este o seu desejo.
E assim teve certeza de nunca mais errar. Jamais atacaria um dos seus, estaria sempre
fazendo suas vítimas entre seus inimigos, não importando a origem do invasor e quando
retornou ao castelo se sentiu terrivelmente tranqüilo com sua nova descoberta.
Quando acordou para viver mais uma de suas intermináveis noites sentiu uma presença
estranha no castelo, então se livrou das roupas totalmente negras usadas para suas incursões
pela escuridão substituindo- a por uma casaca e se dirigiu para o salão de jantar de onde tinha
acesso à entrada da morada dos Rardemuc, a pesada porta raramente era usada e rangeu para
deixar livre o vão no qual descansava há muito; e, Klaus teve uma surpresa: a camponesa
poupada por ele na noite anterior se encontrava à sua frente. - Qual o motivo de sua presença
em minha casa? - perguntou estranhando sua presença.
- Estou aqui para servi-lo sei como sou necessária, um nobre não pode viver sem
criadagem e os ciganos se vão ao findar o dia.
- Não pedi nenhum criado na vila, desisti de tentar contratá-los quando, há muito,
passaram a temer o aconchego de meu Castelo e serem atacados na estrada e como sabe da
vida a mim proporcionada pelos ciganos?
- Todos na vila sabem disso, mas eu saberia de qualquer maneira, agora quanto aos
criados, você não os solicita no entanto os deseja, os ciganos mantêm parte do castelo limpo e
fazem sua comida mas é preciso haver vida nesta fortaleza. Alguém precisa servir ao Senhor e
às suas três hóspedes.
Como podia ela saber sobre as três mulheres? Nem os ciganos sabiam nada sobre sua
existência, eram guardadas em segredo absoluto há muito, alem dos criados já mortos,
ninguém mais havia sido visto suas companhias por décadas.
185
Como ela podia saber quem havia poupado sua vida, quando saia à noite usava um traje
totalmente negro e o capuz responsável pela lenda do enorme morcego, agora usava um traje
de gala e camisas brancas, mais adequado a se receber um hospede. Klaus sentiu medo pela
primeira vez em muitos séculos.
Ao tirar a energia dela e devolvê-la devia ter estabelecido uma espécie de simbiose, de
certa forma ter lhe transmitido seus mais íntimos desejos, como o de ter alguém naquela casa
após o anoitecer, ter as velas novamente dando vida aos corredores e; talvez; até, realizar um
baile, há quanto tempo não dançava e conversava com alguém alem das mulheres de seus
amigos dissidentes e ainda assim quase sempre com rispidez, elas detestavam a vida de
prisioneiras.
- Talvez seja uma boa idéia, quem sabe você trabalhando aqui me ajude a conseguir
novos criados, os ciganos são muito fiéis no entanto pouco dedicados, não aceitam fazer
qualquer serviço e seus assuntos não tem nada em comum comigo, com um remanescente de
uma família milenar e altiva, são bárbaros, quiçá sua presença seja o inicio de uma nova era,
de festas, de música e de parte da alegria há muito esquecida.
- Talvez eu possa conseguir criados, mas não é prudente, consiga-os como atraiu a mim,
serão incapazes de trai-lo , serão um prolongamento de seu ser, um tentáculo; e, agirão
segundo a sua vontade.
- Depois eu penso nisso, tente consegui-lo s sem minha participação, quero testar o
efeito de conseguir uma criada, pode significar o fim de lendas infundada. Essas sim muito
me magoam, jamais fiz mal a um cidadão desta cidade, minha luta e contra seus inimigos. Eu
libertei Rardemuc, como podem estes idiotas supersticiosos desconhecerem tal fato?
- Não se exalte Senhor! Farei como me pede; onde devo dormir?
- Vai se arriscar a passar a noite no castelo?
- Se pretendo servi-lo preciso confiar no Senhor, não posso temer a sua presença,
depois.... se minha vida lhe for necessária....
- Está bem, após servir o jantar eu lhe indicarei onde dormir e quais os limites seguros
nesta casa, nunca os ultrapasse, as vezes não estarei aqui para defendê-la.
- Eu já sei Senhor, nunca devo atravessar a porta acabada em prata do corredor, ali
encontrarei a morte! Sem no entanto lhe ser útil.
Pela primeira vez em muitos anos Klaus foi novamente servido ao jantar, não se
alimentava todos os dias mas gostou de fazê-lo com conforto. Depois Natasha em sua
companhia levou a comida das mulheres. Vê-la empurrando o carrinho com os alimentos e
não transportá-lo s pessoalmente renovou a sensação de poder responsável por torná-lo um
dissidente.
Klaus deixou as mulheres em seus aposentos e se dirigiu à biblioteca, ali passava suas
noites quando não saia para caçar. E conviver com os lobos, seus companheiro de jornadas
em todos estes séculos de boêmia mortal, quando foi interrompido por Natasha.
- Senhor! - disse ela enquanto abria a blusa e deixava os seios parcialmente
descobertos. - Por favor.
Ele não precisou muito para entender seus desejos, e então sugou um pouco de sua
energia e depois devolveu e pode notar o prazer proporcionado a ela com sua atitude, devia
haver algo de delicioso em ceder energia, por isso nenhuma de suas vítimas se revoltava após
iniciado o processo em todos estes séculos, se entregavam sem resistência, quase em êxtase,
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só perdiam essa impressão depois de esgotada toda a energia quando então se assemelhavam
às terríveis estátuas de marfim.
Klaus abandonou a biblioteca e foi para um quarto onde Natasha se aconchegou em seu
leito e se tornou a primeira mulher em sua vida após a morte de Karina, depois ela se retirou
para seus aposentos e o deixou só, sabia: ele só vivia à noite e ela não podia lhe tirar este
prazer, talvez passassem juntos algum dia de tempestade então poderiam se amar com mais
intensidade. Ele a olhou como se a entendesse e se lançou pela janela, iria respirar fora do
castelo o único ar externo ao qual tinha direito, o das trevas.
- *Nem tudo é perfeito, Natasha proporcionara a ele sensações já praticamente esquecidas,
mas tivera sua ausência notada na vila, como seu cadáver não foi encontrado o povo supô-la
cativa. No dia seguinte, logo após o meio dia o castelo estava cercado pelos aldeões munidos
de cruzes e comandados pelo padre, brandiam ancinhos, tochas e foices exigindo do conde a
devolução da camponesa. Ela tinha sido vista pelos arredores. Os ciganos; mesmo em menor
número; montavam guarda à porta principal, brandido seus enormes facões, dispostos a levar
consigo alguns deles antes de verem invadida a casa de seu senhor.
As conseqüências teriam sido piores se Natasha não aparecesse à porta atraída pelo
barulho infernal produzido pela turba enlouquecida.
- Posso saber qual o motivo da presença deste batalhão de desocupados? Vocês deviam
estar arando o campo e não perturbando o sono de quem por sua origem nobre não precisa
fazê-lo .
- Viemos salvá-la, você não será mais uma vítima do Conde. - gritou um dos mais
exaltados.
- Vítima de quem? Vocês são todos loucos? Sou uma criada, vou trabalhar aqui e
ganhar um salário, o serviço é mais leve comparando-se com o do campo e a paga é melhor.
Depois, os ciganos o servem há muitos anos e nunca aconteceu nada a nenhum deles. Ou
vocês desconhecem isso? Alguém pode me explicar o motivo para eles não sofrerem nada?
- Porque eles são pagãos, tem parte com o demônio. - gritou um camponês mais
exaltado. - Mas hoje vamos destruir este castelo e estes infiéis com ele, nos vamos... - o
homem se calou ao receber uma pedra atirada por um dos ciganos.
- Calma, calma. - gritou o padre. - Eles também são filhos de Deus, apenas ainda não
ouviram o chamado.
- Vamos destruir este castelo cuja vida só habita à noite e não vamos deixar pedra sobre
pedra. - repetiu o homem revoltado. - Rardemuc não perderá mais os seus filhos para o
Senhor das Trevas, Nosferatu ira buscar suas almas em outras terras.
Enquanto o problema acontecia lá fora Klaus encurralado em sua caixa temia pelos
acontecimentos, o castelo agora já não tinha tantas defesas nem guardas, apenas os ciganos.
Se ateassem fogo em sua morada ele poderia ser atingido, abriu a caixa e levantou os braços
pedindo por uma tempestade, pode acalmá-las quando protetor e precisava defender um dos
seus, talvez pudesse pedi-la também.
- *A discussão foi subitamente interrompida, fortes trovões ribombaram e nuvens negras
se fecharam em volta do castelo assustando a todos, prenunciando uma terrível tempestade,
era temeroso andar ou mesmo permanecer nas encostas quando as águas desciam das
montanhas e o único lugar seguro era onde estavam, então Natasha ordenou.
187
- Abriguem- se nos estábulos ou na capela, só os lideres entram no castelo, não cabem
todos no salão e eu não vou deixá-lo imundo para abrigar um batalhão de vândalos e
camponeses sujos, terei muito trabalho para limpá-lo .
Algumas pedras de granizo atingiram o pátio, isso motivou todos a aceitar a sugestão de
Natasha alguns se refugiaram na capela, os demais no estábulo, foram para a sala apenas o
padre e mais seis homens, dentre os quais o Inspetor Alfandegário, o homem responsável pela
coleta dos impostos pagos pelos camponeses, o padre, o ferreiro, o dono da taberna e dois
trabalhadores braçais, a julgar pelas roupas utilizadas, o burgo-mestre, administrador da
cidade estava ausente, negou-se a acompanhar a turba, era nomeado pelo conde e não quis
perder seu cargo caso a incursão fosse um insucesso.
A tempestade caia com fúria, serem recebidos no castelo fora providencial, o barulho
das enormes pedras atingindo chão; comuns nas tempestades da região; deixava claro poder
machucar alguém exposto a elas.
- Wladimir, finalmente o recebo em minha casa, e posso lhe oferecer o meu vinho.
Fiquem por sua própria vontade, e assim abram suas casas para mim, o mesmo digo a todos os
outros. O Inspetor Alois eu já conheço, os demais; reconheço minha ignorância a respeito de
meus cidadãos; me são estranhos, sou um solitário e raramente me misturo às pessoas.
Todos; exceto o padre; olharam incrédulos para o homem. Tinham certeza: era
impossível para ele viver durante o dia, Klaus impecavelmente vestido estava em frente à
eles, Wladimir o homem ao qual ele dirigira o cumprimentos tratou de responder ao mesmo e
apresentar os demais.
- Grato pela hospitalidade Conde. Estes são o padre Di Rienzi, Whinrich o estalajadeiro,
Neville o ferreiro e Maxis, um carpinteiro dos melhores, Senhor Conde. - Wladimir apressouse em identificá-lo s.
- Sejam todos bem vindos, infelizmente estou refazendo a criadagem e não existe nada
aqui para recebê-los, os ciganos providenciam minhas refeições. Mas ainda tenho um bom
vinho: vou buscar e volto em seguida.
- Eu vou, - cortou Natasha. - O Senhor continua recepcionando a hóspedes tão
importantes.
Klaus tentou impedi-la mas foi em vão, não havia vinho na casa a não ser na adega
subterrânea e sua entrada estava impedida por uma enorme pedra, quando voltasse ela daria
uma desculpa qualquer e ele iria buscar pessoalmente.
- Embora me sinta honrado com a visita dos Senhores eu a achei inoportuna. Não sabem
ser contra o protocolo visitar um nobre sem ser convidado ou pedir uma audiência?
Permaneceram calados, não podiam se justificar sem ofendê-lo .
- Senhores, o vinho. - Natasha irrompeu na sala surpreendendo Klaus, com certeza as
pessoas a ele ligadas se tornavam também extremamente fortes. - De nossas melhores
vinhedos e fabricado especialmente para a família do Conde, nem sei precisar sua idade, mas
é muito velho.
- É uma relíquia da Família Rardemuc. - observou Klaus melancólico. - foram
estocados quando estas terras nunca tinham sido pisadas pelos turcos, então este castelo, antes
uma fortaleza protegendo todo o vilarejo, exalava vida. Com a invasão esta casa e os muros
da vila foram depredados e ficou vazia por décadas, felizmente não localizaram minha adega
e essa maravilha dela provém. Raramente recebo hospedes para compartilhar esta iguaria.
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- Excelente, região.
observou o padre - Rardemuc, não se assemelha aos outros nomes da
- Minha família está aqui desde quarenta e seis, são mais de dezessete séculos, neste
período passaram por aqui muitos povos, muitos nomes novos surgiram e outros
desapareceram, mas não é meu nome de origem, era Marante, recebemos esse nome junto
com o condado, felizmente ele perdurou, no entanto sem se alastrar, fato lamentável. Só
existe mais um Rardemuc vivo, meu filho, não posso tê-lo comigo. Se morrer será o fim de
nossa dinastia não temos um exército para garantir sua vida em meus domínios.
Klaus observou os movimentos dos braços de Natasha incrivelmente velozes,
imperceptíveis aos demais, ficou alguns segundos em silêncio, novamente surpreso. Não tinha
idéia dos poderes a ela transferidos. Quantas e quais seriam tais habilidades? Ele mesmo não
sabia, exatamente as suas, não tentava ser diferente, utilizara varias delas em situações de
perigo ou em emergências, mas não o fazia com prazer, tornara- se um dissidente para
permanecer entre os humanos; e, queria ser tão assemelhado a eles quanto possível, só se
movia pelo ar se não fosse seguro andar como qualquer mortal, já perdera muito desta
condição, não podia sentir o Sol, ou caminhar despreocupadamente pela chuva, não podia
sentir o chamado "sabor insípido" mas tão agradável da água pura e agora sua condição de
paria era lembrada enquanto a garota se deslocava entre os presentes trocando seus pequenos
invólucros de água benta, único perigo presente, por outros contendo água adulterada.
Abandonou seus pensamentos e falou com um semblante visivelmente entristecido.
- Não entendi o motivo de tanta hostilidade nem a razão da presença dos Senhores sem
as devidas providências do protocolo, mão como estão aqui eu estou à disposição para ouvilos.
Face ao silêncio geral ele se manifestou novamente, calmo, tranqüilo sem demonstrar
contrariedade ou rancor, parecia a todos estar diante de um funcionário público exemplar
atendendo cidadãos muito especiais, mas a frase foi incisiva.
- Talvez eu deva perguntar a Natasha, vocês conversaram com ela antes.
- Não sei como dizer, - respondeu o padre cabisbaixo e temendo as conseqüências da
narrativa apaixonada de uma aldeã cuja cultura ele desconhecia. - vim aqui movido pela
curiosidade, os aldeões afirmam algo incrível, segundo eles este castelo é habitado por uma
criatura da noite cujo alimento é sangue humano, não pode se mover durante o dia, sua pele
queima ao contato com símbolos sagrados e não pode suportar água benta.
Klaus se aproximou do padre um enorme crucifixo de ouro adornado em pedras pendia
de seu pescoço, para a surpresa de todos ele o segurou entre as mãos, demonstrando toda sua
fúria.
- Então na sua opinião este símbolo de riqueza iria me matar, me fazer queimar? Na vila
de Rardemuc existem poucas jóias tão valiosas e não pertencem a ninguém, os nubentes as
usam nas núpcias, depois são recolhidas para os novos casamentos, a posse de um objeto
desse por um único homem no meu reino só pode ser visto como um ato de ostentação. Eu
mesmo não uso jóias exceto o anel do condado, mesmo assim extremamente pobre em relação
ao seu, certamente não pode representar Deus. Quanto à água benta, devo bebê-la ou
simplesmente me deixar tocar por ela.
- Beba-a - gritou alguém não identificado de imediato.
- De quem? - perguntou Klaus - a do padre ou a de qualquer outro?
Todos fizeram silêncio, Klaus os tinha agora sob os seus olhos, quem teria a coragem de
sugerir qualquer coisa e talvez perder sua vida em função disso?
189
- Será uma ofensa à sua igreja bebê-la?
- Não sei dizer ao certo, mas talvez fosse melhor atender ao pedido de todos.
Klaus levou o liquido aos lábios e bebeu, depois simplesmente lamentou:
- Eu realmente prefiro muito mais o vinho.
A tempestade não parou há não ser no final da noite, e a chegada das trevas deixou
todos apreensivos, ainda faltava o teste final embora ninguém se atrevesse a falar nele, com a
caída da noite o Conde deveria se transformar em enorme morcego preto e atacar sem piedade
todos ao seu redor transformando-os em seres brancos e sem vida.
Quem estava na sala experimentava uma certa tranqüilidade, Klaus sabia ser simpático
quando queria e praticamente conquistou a todos, mas outros estavam abrigados nos
estábulos, e quando ouviram a frase “- Hora do jantar, saiam todos.” houve um mal estar
geral.
- Ele vai nos matar a todos, terá um festim diabólico hoje, não temos deixado muitas
vítimas à sua disposição.
- Cale-se Dominic, somos muitos e estamos armados, ninguém se atreveria a nos atacar
assim, vamos sair daqui.
Um lauto banquete esperava por todos na tenda armada por Natasha e os ciganos, muita
carne e vinho, logo os aldeões se divertiam juntos no pátio do castelo do “Demônio”.
Klaus ficou atento as pessoas em sua volta, Dimitre, o marceneiro, Dominic, o
fabricante de barcos, Neville o ferreiro e Maxis, o carpinteiro e confraternizou especialmente
com eles, escolheu a dedo alguns camponeses mais fortes, e quando a festa acabou tinha
alguns homens para os quais a única coisa importante era o seu bem estar.
Primeiro esses homens fizeram para ele uma carruagem, preta com detalhes dourados,
forte, resistente, puxadas por seus cavalos ela seria imbatível, depois fizeram um navio,
segundo seus projetos, em breve ele desceria o Danúbio para ganhar o mar, seu destino a
Inglaterra.
Seu navio negro desceu o rio sem ser incomodado, na Inglaterra ele substituiu seus
espiões pagos por homens totalmente sob seu poder, eles não precisavam sequer dos desenhos
de Karina, seu rosto estava gravado na memória de cada um deles, ponto por ponto, detalhe
por detalhe.
Selecionou criados ingleses, gostava dos serviços deles, em breve seu castelo estaria
como no passado, alegre e cheio de vida.
Voltou para Rardemuc e a encontrou cheia de mudanças, seu povo andava tranqüilo
pela noite então, o padre usava um crucifixo de madeira envernizada, as virgens andavam
pelas ruas e haviam quermesses, festas.
Coabitou com Natasha até o fim de sua vida, esta promoveu muitas festas, trouxe alegria
novamente ao castelo, sua criadagem era fiel e dedicada, mas o tempo passou, sua nova
companheira morreu, não podia transformá-la, o trono de seu condado estava reservado para
Karina, inconformado com o fato Klaus se retraiu, foi o fim de sua vida social, ele se recolheu
em sua tristeza suspendeu as reuniões sociais e voltou a viver na solidão, em poucos anos o
medo pelo castelo, sem qualquer motivo, voltou a reinar no vilarejo e suas ruas ficaram vazias ao
cair da noite a lenda do vampiro mais forte, o conde mais temido.
190
DIEGO CONTA COM O APOIO DOS FILHOS DE THOMAS, OU SEUS?
Athos estava novamente no Empíreo, frente à Mesa do Protetorado, temia pela sorte de
Thomas, mas não podia omitir os fatos.
- ....mas aos poucos ele está se lembrando, não sei se isso pode explodir de uma hora
para a outra.
- Não podia acontecer, já apagamos várias memórias sem falhas, estamos lidando com
um homem determinado, com uma vontade inabalável, capaz de desafiar nossa ciência
milenar, nunca aconteceu antes. - admirou- se Kaubhyus
- Meu medo é não saber até onde estas lembranças irão, se ele poderá se recordar de
como abandonou o corpo e fazê-lo novamente.
- Ele deve ser destruído de uma vez por todas, não podemos enfrentar outra crise como
a dos dissidentes. - afirmou com veemência Talonyus
- É isto mesmo, não podemos correr este risco. - concordou Bornyus.
- Abyssus abyssum invocat, ad cautelun...(Um abismo atrai o outro, por simples
cautela nos não paramos para pensar quando tentamos separar a memória de um homem de
sua alma, não conseguimos, agora vamos respeitar as leis) - interveio Agnus Valerye.
- Então não podemos destrui-lo, pode custar muitas vidas à humanidade. - irritou- se
Bornyus.
- Dura lex, sed lex.(A lei é dura mas e lei.)
- E como faremos para resolver o problema?
- De omni re scibili...(É nos permitido saber muito, mas na verdade sabemos pouco,
milênios se passaram e erramos muito, no entanto o problema ai está, como resolvê-lo?)
- Eu não sei! - resignou- se Clodophus
- Felix qui potuit rerum cognocere causas....(Feliz daquele a conhecer as causas das
coisas, possivelmente nossa decantada sapiência não passe da mais pura ignorância e agora
esteja sendo testada.)
- Spiritus promptus est, sed tempus edax redum, corpore est finitum...(O espírito é
forte, mas o tempo destroi as coisas, o corpo é finito; não dura para sempre; então só nos resta
esperar)
- Mas então, deixaremos dois protetores dedicados a apenas duas pessoas durante anos?
- inquiriu Clodophus indignado.
Agnus Valerye abriu os braços em silêncio, nada mais poderia ser feito, parou pensativa
durante algum tempo, fez menção de consolar Athos mas desistiu. Depois encerrou.
- De integra...(Integralmente, apenas a duas pessoas, porém, falhas não serão admitidas,
ao menor sinal de perigo real para a humanidade Thomas deve ser destruído, sem vacilo.)
- Não posso matá-lo, sou seu amigo. - Athos estava arrasado. - substituam- me na
missão.
- Não podemos exigir isto de ninguém nenhum de nós alem de você jamais destruiu
alguém, enquanto protetor, mesmo Klaus e os outros; ainda não retornaram; mas mesmo
assim tinham este instinto, já não matam, encontraram outra maneira de sobreviver. Nada
sabemos sobre o destino dos homens quando morrem, mas ninguém gostaria de saber ter
enviado um espectro para um caminho totalmente desconhecido. - justificou Bornyus
191
- Estou afetivamente ligado a ele, posso não agir na hora certa.
- Você é um protetor! Trabalha para a humanidade. Agirá!
- Neste momento tenho certeza disso, mas quando estou em um corpo fraco, tenho
medo de minhas reações ele tem desejos humanos e enfraquece o espectro.
- Você não trocará muitas vidas por uma única, e já matou antes. - ouviu a voz de
Kazus.
- Não toque nisso, nunca mais toque nisso, eu fiz tudo para salvar aquele homem, ele
morreu por sua obstinação, vou espiar meu erro quando estiver livre de Thomas.
Agnus Valerye repreendeu Kazuz e conversou em separado com Thymoty, depois este
se manifestou.
- O caso de Paulo Marconi deve ser esquecido, foi um acidente como já houveram
tantos outros no decorrer destes séculos, não houve grande perda para a humanidade,
poderíamos afirmar até: ter sido ela beneficiada, no entanto não é nossa finalidade causar a
morte; então vamos tentar fazer tal fato não se repetir, quanto a uma possível pena, se fosse
necessária, será muito triste se for preciso destruir um amigo, um castigo estremo, vamos lutar
por Thomas, contamos com Athos para mantê-lo vivo e no caminho certo, até a ocorrência de
um fato natural alterando essa situação, se conseguir já estará redimido, se não o fizer?
Punido!
- Devo deixá-lo morrer em caso de perigo, não o defendo?
- De maneira nenhuma, seria uma forma de executá-lo, continue fazendo o seu serviço
corretamente, e o impeça de matar realmente, o corpo não é eterno e certamente um dia
perecera naturalmente, não interferimos nisso mesmo.
- *Dia vinte, Diego estava esperando Giovanni Bragtoni para o almoço, se encontrariam
com Marina e seu pai no Cozinha da Roça, excelente pedida para quem gostava da cozinha
caipira, mais propriamente do interior de Minas Gerais.
O almoço transcorreu na mais perfeita harmonia, Giovanni se mostrou um homem
diferente, não demonstrava o menor ódio por Vincenzo Montone, trouxera uma pasta com ele,
mostrou as fotos de sua família, de suas novas fazendas e das indústrias de fiação,
metalúrgicas e processadora de alimentos a e tecelagem a eles pertencentes, inclusive algumas
cujos donos no passado tinham sido os Montones. Havia uma da entrada da Fazenda Orgulho
do Sul e Vincenzo comentou:
- Você tirou esta foto no dia da compra da Fazenda? Estava bem conservada! Meu
capataz fazia um bom trabalho.
- Realmente, estava bem conservada, mas esta foto é da semana passada.
- E esta frase? Um exemplo do modo de vida dos Montones: ainda está ai?
- Não vi motivo para retirá-la, e na verdade ela tem tudo a ver com a fazenda. Então só
mandei repará-la, estava um pouco abandonada.
- Obrigado Giovanni, eu gostaria mesmo de sua permanência lá.
- A Fazenda ainda está em reforma. Mas a casa já está pronta, a parte de cima será a
residência de seu administrador, não da fazenda, mas do museu na qual vou transformá-la,
mas ainda não será aberta ao público, passe este mês lá. Depois nunca mais. Estarei no avião
dentro de poucos minutos, mas amanha te espero lá.
192
- Aceito, amanhã mesmo estarei voando para a cidade.
- Ótimo, assim terei a oportunidade de rever Biancha e apresentá-la a Pâmela.
- Pode mandar preparar o jantar.
- Ok, então preciso realmente ir, vou pedir a conta.
- De jeito nenhum a conta é minha.
- Eu convidei, eu pago. Não vamos começar uma nova competição por causa de um
almoço.
- Está bem, mas se sua finanças forem abaladas, não me culpe.
- Vá com seu pai Diego, e leve esta linda garota, mostre-a também para nossa pequena
cidade.
- Não posso, já estive muito tempo ausente.
- Você vai me ofender, meu avião lhe trás de volta depois de amanhã cedo, você só vai
perder uma tarde.
- Me parece justo, então nos aguarde, iremos juntos.
- *Giovanni Bragtonni foi informado da presença de Vincenzo Montone, não estaria
acompanhado de Diego, tinha certeza, a noticia estampada no jornal, - "CARTA DO
DEFUNTO GARANTE: THOMAS AGUIAR ESCAPOU COM VIDA" - apanhara tanto a
ele como a Marina como uma bomba, acontecera assim, não podia ser diferente. Se ele
presumido morto já significava uma barreira entre eles, vivo então criava um muro
intransponível.
Escondeu o jornal e saiu para receber o novo "amigo", não queria demonstrar seu
interesse pelo assunto.
- Giovanni, bom dia, antes de tudo desculpe- nos pela ausência de Diego, mas ele teve
um grande contratempo, imagine o absurdo. Stella Ferreira Munhoz concluiu após os exames
de DNA e das fichas dentárias uma realidade incrível, um dos mortos enterrados como
seqüestrador era realmente Edgard Ferreira Munhoz, seu irmão, um mendigo conhecido como
Jaú.
- E isto impediu a vinda dele? não entendo. - simulou ignorar os fatos.
- Quando deduziu ser realmente seu irmão um dos mortos ela entregou a policia uma
carta escrita por ele, garantia nela o fato de Thomas ter escapado do cativeiro naquela tarde e
tomado um avião para Salvador.
-
A companhia de aviação confirmou o fato?
Não, a carta se referia a um avião particular, no entanto houve a compensação de
um cheque dele dois dias depois por um comerciante da cidade. A policia está mandando
material de pesquisa para tentar localizá-lo na cidade.
- E então?
- Marina rompeu o noivado ontem a noite, tão logo a noticia foi veiculada pela
televisão, Diego está arrasado.
- *-
193
Marina estava sentada em frente à mesa de Diego, ainda vazia, ele a mandara aguardar
lá enquanto resolvia um assunto com Fátima, finalmente o viu entrar, estava apreensiva com
sua nova situação.
- Muito bem minha amiga Marina, qual é o problema, estou aqui para ajudá-la. - falou
Diego como quem estava se sentindo muito bem.
- Eu não quis entregar isso ao Departamento de Recursos Humanos, tudo aconteceria de
maneira muito impessoal, afinal combinamos continuar amigos.
- E continuaremos, tenha certeza, mas....
- Minha demissão, não acho justo continuar a seu serviço.
- Não aceito, perdi você, tudo bem! Eu nunca tive certeza da conveniência de nosso
noivado.
- Como assim?
- Thomas sempre foi uma barreira muito forte, eu não tinha certeza de conseguir
transpô-la totalmente, só minha fixação por você me levou a continuar, com o noivado, eu
ouvi sua conversa com Athos aquele dia em Morada do Simum e queria parar com tudo, mas
não pude.
- Desculpe- me eu não sabia, eu estava realmente decidida a fazê-lo feliz, nunca tive
outra intenção senão essa.
- Acredito, no entanto, as coisas são como são, não podemos mudá-la, mas a Montone
& Associados não tem nada com nossos problemas, precisa de você aqui.
- Tem certeza?
- Absoluta, não se preocupe comigo, eu já estava me preparando para este final há
muito tempo alguma vezes pensei em provocá-lo, dar-lhe esta opção.
- Você será sempre um amigo muito querido.
- Eu sei, nunca duvidei disso.
- Mesmo depois de ter investido tanto em Morada do Simum, não está indignado com
minha atitude?
- Quanto à sua atitude talvez tenha sido a melhor coisa a acontecer, no tocante a
Morada do Simum, posso reclamar? A processadora de sucos tem na sua população o melhor
pessoal de todas as minhas fábricas, as reservas para se hospedar na cidade são constantes,
temos uma fila para vagas de desistentes para qualquer data, uma mina de recursos
inesgotável, eu deveria lhe agradecer por isso, depois a administração dela é sua
responsabilidade.
- Então é melhor eu ir trabalhar, estou sendo paga para fazê-lo.
- Tem mais uma coisa... meu jornal está mandando nossos correspondentes em Salvador
ficar em cima do caso de Thomas, qualquer noticia favorável você será enviada à cidade por
nossa conta.
- Não posso, tenho um contrato de exclusividade com uma emissora, não posso ser útil
ao seu jornal em nada.
- Já acertamos isso, afinal eles já haviam abandonado o caso, terão nossas informações
de graça e suas entrevistas, mas nós também poderemos publicá-las.
- *-
194
Athos estava frente a frente com Stella Ferreira Munhoz, a mulher jamais poderia ter
recebido aquela carta, nunca houvera seqüestrado nem seqüestradores, conseqüentemente não
podia haver nenhuma correspondência.
- Cavalheiro, não estou entendendo onde o Senhor quer chegar?
- Tenho comigo uma suspeita muito forte a respeito desta carta entregue à policia, ela
foi forjada, essa é a minha opinião.
- O Senhor pode se dirigir a policia e contar essa história, quem sabe eles acreditam na
sua versão, eu não ganhei nada com isso, não cobrei nada por ela não dei entrevistas, nem
vou escrever um livro. Apenas entreguei a carta às autoridades.
- Não estou afirmando ter sido a Senhora. Mas ser ela forjada.
- Como posso ajudá-lo.
- Conseguindo alguma outra coisa escrita pelo seu irmão, com isto podemos realizar o
exame grafotécnico.
- Meu irmão não escreveu nada nos últimos vinte anos, vivia na rua, não temos
cadernos ou recordações escolares dele em casa. Vou lhe dar o endereço de meus outros
irmão, talvez eles tenham algo.
- Está bem, talvez isso ajude. - aceitou Athos inconformado, aquilo não podia estar
acontecendo.
Athos estava analisando o documento na delegacia, era incontestável, tanto o envelope
como o papel eram aceitáveis, os carimbos do correio tinham datas anteriores, não tiveram
como confrontar as digitais nela contidas
Edgard Ferreira Munhoz fora um rebelde fabricado pela riqueza, sempre sustentado
pela família se dava ao luxo de rejeitar o classificado por ele de "costumes burgueses",
abandonou a escola aos dezesseis anos, jamais se apresentou para o serviço militar ou foi
identificado, aos vinte e cinco anos brigou com os pais e foi para as ruas, no inicio ainda
realizava alguns serviços para ganhar algum dinheiro, mas depois se entregou a bebida e a
profissão de pedinte, quando ganhava algum extra e uma roupa limpa tomava um banho e
visitava os irmão, ou ia a casa da irmã apenas para cuidar da higiene. Era o máximo para sua
vida em termos de civilização. No entanto era divertido e conhecia muitas histórias, então era
muito popular com os sobrinhos, talvez algum dia tivesse escrito alguma coisa, feito alguma
dedicatória, era a única esperança dele para provar a falsidade do documento.
- *Simão Naufat saia arrasado da sala de Diego, sua súplicas não foram aceitas, na saída
conversou com Athos, este o tranqüilizou.
Espere por mim, , ele vai reconsiderar tenho certeza. - entrando em seguida na sala de
Digo.
- Diogo, seria sensato reconsiderar o caso de SimãoNaufat, acredito ser melhor para
todos.
- Não vou dar chance a nenhum judeu de me prejudicar.
- Porque?
- Minha missão e combater todos os infiéis, eles não acreditam no Cristo.
- E você acredita.
- Obvio.
195
- Então acredita em Deus.
- Por certo.
- Então tente vê-lo em sua magnitude, considere sua unisciencia, Se os judeus fossem
um povo indigno Deus faria seu filho nascer de um deles? Teria ele essa insensatez?
- Não me cabe julgar as ações do todo poderoso.
- Seja sensato, se você atender ao pedido dele vai dar tudo certo, ele paga sua divida e
não vai passar por tantos dissabores, talvez falir.
- Athos alem da divida vou precisar emprestar mais quatrocentos mil a ele.
- Eu garanto os quatrocentos mil, e você continua correndo o risco do resto.
- Está bem, você me convenceu, mas não vou falar com ele, procure-o você.
- Não preciso, mandei-o esperar por mim lá fora, tem outra coisa
- Fale.
- Aquela carta é falsa Diego, eu vou provar isto, mesmo sendo meu último ato sobre a
terra.
- Esqueça Athos. Nós precisamos trabalhar, cuide de seus assuntos na empresa.
Conversei com o Mariano, não existe meio de provar nada, o homem não tinha um único
registro sobre a terra. Passe alguns dias em Morada do Simun, a fábrica vai começar a
funcionar na próxima semana e ainda não temos nossas próprias laranjas, quero um sistema
eficiente para controlar a entrada das frutas, senão vai ser um tal de entrar caminhão por uma
porta e sair carregado.
- Está bem, mas quando eu voltar eu continuo com minha pesquisa.
- Não tenho nada contra isso, se acontecer nos fins de semana, de segunda à sexta você
trabalha para a Montone & Associados.
- Nós nunca nos tratamos assim.
- Desculpe- me. Estou sendo ingrato com você, mas quero este assunto encerrado:
Marina faz parte do passado.
- Não se conforme. Você a ama, ou não?
- Não importa, Marina ama Thomas e ele até prova em contrário está vivo.
Athos saiu da sala preocupado, novamente Diego agia de forma estranha, não tinha missão
nenhuma, esta historia de combater judeus e infiéis era mais uma para ser somada em seus
pontos negativos.
- *Marina acabara de chegar, fora ao médico e já estavam quase no horário do almoço,
abriu a janela de sua sala como era costume e ao olhar para a rua viu a Mercedes de Lúcia
Aguiar estacionando no espaço reservado para visitantes em frente à empresa, estava
acompanhada pelos filhos. Passado algum tempo o Sonata de Diego saiu da garagem e ela
estranhou, não conhecia a mulher como cliente da empresa mas se preparou para atendê-la.
Era sua função receber pessoas importantes na ausência dele. Como não foi incomodada pela
secretária, olhou novamente pela janela, a Mercedes continuava estacionada numa das vagas
para visitantes, desceu para a recepção. - De repente ela é do tipo de cliente cujas tratativas
só se dão com o dono, então fico livre e começo meu expediente com calma e sem
interrupções. - pensou.
196
No entanto não havia ninguém na recepção, então consultou a recepcionista.
- Quem está atendendo a Doutora Lúcia Aguiar?
- Ninguém, ela não é nossa cliente! Vieram apenas para atender a um convite do Seu
Diego para um almoço: ele não volta mais hoje.
- Onde foram almoçar? Em Paris?
- Na chácara de Diego, é aniversario do pai dele.
- Aniversário do pai dele? Eu não Sabia.
- Está na tela do terminal, bem como o nome dos funcionários dispensados para
comparecer ao evento.
- Não liguei meu terminal hoje, mande um telegrama para ele, escreva algo simples...
deixe- me ver.
- Estou esperando.
- Parabéns hoje, felicidades sempre! Com carinho, Marina.
- Está bem, vou mandar.
Marina voltou para a sala, ligou o computador e não viu nada a respeito do Aniversário,
fora preterida na seleção de pessoas muito importantes, foi tomada por um tremendo
sentimento de ridículo, se sentiu numa situação grotesca. Não deveria sequer se atrever a
mandar um telegrama para Vincenzo Montone. Ele jamais a perdoara por romper com seu
filho, expô-lo aos comentários da sociedade, criar situações constrangedoras. Ficou arrasada,
triste, adorava o patrão e descobriu: sua amizade fora aniquilada por sua atitude. Gostaria de
fazê-lo entender, era uma situação especial, complicadas, tantas coisas... ele não podia
entender desligou o terminal e pegou a pasta da produção para analisar sem muita vontade.
Só então notou o minúsculo envelope preto sobre sua mesa, feito a mão, com pedaços
do maço de Jonh Player Special, haveria um cartãozinho com o mesmo material nele, só
conhecia duas pessoas com esta mania, Thomas e Vincenzo Montone, porem este último tinha
um talento incrível, escrevia longos textos naquele cartão quase sem espaço, abriu e não
conseguiu ler abriu a gaveta para conseguir uma lupa.
"não se esque
Vincenzo Montone não podia ter sido mais gentil, se dera ao trabalho de deixar um
convite do próprio punho para ela, ainda mais com este grau de dificuldade, e não um aviso
pela tela do computador, colocou a lupa sobre ele e leu, "não se esqueça, hoje é meu
Aniversário e vou comemorar na chácara, não vou conseguir ficar feliz se não encontrar este
rostinho lindo entre os convidados." "V.P.M." Marina saiu do inferno para o paraíso, seu
coração disparando de júbilo, não sabia como agradecer tanta ventura, precisava comparecer,
mostrar seu agradecimento, não falando, mas estando lá, ele entenderia como fora difícil, por
outro lado, seria uma desfeita agir de outra maneira, até porque não tinha como se desculpar,
estava dispensada do expediente, então decidiu deixar seu departamento por conta dos
demais funcionários quando saiu sua satisfação podia ser sentida à distancia.
- Marina! Arrumou um namorado novo?
- Não. constatei a existência de uma amizade imorredoura. Ate!
Passou pelo Shopping Center Norte olhou três vitrines antes de achar um presente para
o patrão quando o viu achou nele algo magistral, completo para o amigo e patrão, isqueiro,
um Cartier preto e dourado idêntico ao usado por Thomas, ficava perfeito ao lado do maço de
Jonh Player, entrou na joalheria disposto a comprá-lo, chamando a atenção do balconista.
197
- Senhor, senhor, por favor.
- Pois não, Mario Augusto, ao seu dispor.
- Aquele isqueiro preto e dourado, quanto custa?
- Quatrocentos e setenta dólares senhorita, acompanha a lata com cigarros, quer ver a
peça?
Marina engasgou com a informação, e respondeu com a voz rouca, alterada, muito
grave.
- Dólares, dólares, não existe mais nada sendo vendido em cruzeiros?
- Só na hora de pagar, antes é dólar, artigo importado.
- Aceita cartão?
- Claro, não acrescemos nada no preço, qual o cartão?
- American Express.
- Perfeito. Vou passando o cartão enquanto a Lia faz um pacote no capricho. Quer
escolher o papel.
- Mande ela por o mais bonito, por este preço. - entregou o cartão ao homem, este a
olhou transtornado, ficou lívido, e agora, ele com a voz transtornada se dirigiu a Marina.
- Sinto muito senhor Thomas, mas seu cartão está vencido.
Marina sorriu divertida e entregou o cartão correto ao balconista.
- É do meu namorado, guardo como recordação.
- Ainda bem, uma jovem com a sua beleza, não podia ser um... bem a senhora sabe. Ele
vai adorar o presente, é de muito bom gosto.
O trajeto até a chácara dos Montones imenso, interminável, apesar de não durar nada
além de cinqüenta minutos, era a solidão tornando tudo muito difícil. - “Se pelo menos
Anabela não trabalhasse....” - pensou lamentando estar completamente só.
Quando entregou o carro ao manobrista um dos recepcionistas fez menção de
acompanha-la até a entrada onde um conjunto de cordas atuava dando um ar todo especial à
chegada dos convidados, mas foi impedido por Bruno de Souza Mariano o Coronel com o
qual tratara dos problemas relativos a Thomas, devidamente uniformizado e Ângela; o
Sargento Souza; desta vez bem diferente, os cabelos compridos, e muito bem vestida.
- Deixe por nossa conta, eu cuido do meu cupido, e com muito prazer
- Cupido? - estranhou Marina.
- Aconteceram coisas estranhas quando cuidei do caso do seu namorado, mas tudo me
levou à Ângela, uma série de coincidências inexplicáveis, por isso sempre me refiro a você
assim.
- Como está o caso agora?
- Não sei bem ao certo, está a cargo de uma delegacia, mas não vão fazer muita coisa,
simplesmente mandaram alguns documentos para Salvador pedindo para investigar o
comerciante responsável pela cobrança do cheque de Thomas.
- Algum resultado prático?
- Nenhum, faz muito tempo, o comerciante não se lembra dele, geralmente deposita
muitos cheques de camelôs, então suas informações foram inúteis.
198
- Um camelô não vende mercadorias daquele valor todo dia. Enfrentamos muita
inflação, mas era um cheque equivalente a três mil dólares.
- Mesmo assim não houve nenhum resultado prático.
- Posso conseguir uma cópia do cheque?
- Sem duvida, mando entregar ao Diego, moramos perto.
- Não. Nada disso, ele já não tem mais nada com os meus problemas.
- Como assim? Ainda estou com o convite para o seu casamento.
- Está tudo cancelado, Thomas está vivo.
- Não está, os dados sobre sua morte são conclusivos, leve seu casamento em frente,
esta carta deve ser forjada e se não for? E se os seqüestradores tivessem recuperado Thomas?
Deveriam fazer contato.
- Não creio em seqüestro. Thomas não tinha dinheiro. Seria melhor concentrar seus
esforços em alguém mais importante, ele escapou e está vivo. - Afirmou Marina.
- Então porque não se apresenta?
- Deve ter seus motivos tem o problema do tem o caso do assassinato de Cacá das
Escolas, ele se dizia inocente talvez esteja esperando por um desfecho feliz para retornar,
talvez medo de alguém.
- Quem por exemplo?
- Alexandre Latorre, mantinha negócios com Cacá, pode muito bem ser o assassino ou
mandante, havia conseguido se livrar de Thomas na Coexponal..... de repente ele volta e é
seqüestrado logo em seguida. Um homem sem bens? Terminando uma casa? Talvez tenha
roubado Pedro gastou uma fortuna nos últimos tempos, me deixou uma quantia considerável,
posso viver anos, e bem, com sua herança.
- Realmente! Conheci sua casa é uma bela residência, cinco suítes, elevador, piscina,
quanto vale?
- Algo em torno um milhão de dólares, talvez mais, não sei quanto pode atingir com a
mobília, objetos de arte e os quadros, o valor de alguns deles é absurdo.
- Você acha pouco para motivar um seqüestro?
- Claro! Com a ousadia deles podiam ter pego Pedro Latorre. Este sim tem dinheiro.
Pode dar uma casa igual a minha de presente para cada amante e ainda assim ter uma vida
sexual satisfatória.
- Algum problema em especial com Alexandre Latorre?
- Roubo, extorsão, manutenção de funcionário em cárcere privado, fraude criminoso da
contabilidade, agiotagem e assassinato.... nada com provas, então não existe nada.
- Coronel? - brincou Vincenzo Montone chegando perto deles e interrompendo a
conversa. - não é uma festa formal, onde está seu calção?
- Eu não trouxe.
- Vamos lá para dentro, eu vou conseguir um para você, e também um traje de banho
para esta gracinha, eu só realizei a festa para ver as pernas das moças e agora exijo minha
recompensa, você também Marina.
- *-
199
- Vocês podem usar este cabelo comprido em serviço? Geralmente eu as vejo com ele
bem curto.
- Não trabalho mais, Mariano saiu com um bom dinheiro do casamento, a casa onde
morava e dez por cento dos rendimentos da ex-esposa. Dá para levarmos uma bela vida,
depois ele quer filhos e uma mãe dedicada a eles.
- Que bom, ouvi poucas e boas a respeito dela, ele fez bem em se livrar de Isabel.
- *Marina chegou a área de laser da chácara, Diego ocupava uma mesa em companhia de
Lúcia e dos filhos dela, estavam muito à vontade, como se sempre tivesse sido assim. Rebecca
estava apoiada no ombro dele e Ramon bem a vontade conversando sobre algum assunto no
qual ela não se achava no direito de interferir. Mas quando a ex-esposa de Thomas pousou os
olhos sobre ela e a convidou-a para se juntar a eles se viu com problemas.
- Vou até lá. Mas você vai me buscar daqui a pouco, para todos os efeitos estou em sua
companhia e de Mariano. - pediu a Ângela.
- Tudo bem, vou tirar você de lá em seguida, é só o Mariano sair do vestiário.
Marina não teve saída, precisou se juntar momentaneamente a Diego mesmo a
contragosto, sentia uma injustificada ponta de ciúmes daquela relação, não tinha intenção de
continuar com seu romance, mas mesmo assim não gostava de ver o ex-namorado em
companhia de outras mulheres, não conseguia se entender.
- Eu acho um pouco cedo Ramon, primeiro avance um pouco mais nos estudos depois
eu consigo um emprego para você na redação, se apaixonar pelo jornalismo pode ser um
ponto negativo em sua formação escolar, leve os estudos a sério e na hora certa decidimos
sobre você deve trabalhar ou não, mas ai já como estagiário.
- Puxa.... ninguém concorda comigo, você até parece meu pai, ele e dona Lúcia, sempre
me podando.
- Não se trata disso filho, é uma questão de não se colocar a carroça na frente dos
cavalos, tudo a seu tempo. - respondeu Diego instintivamente
- Vou arrumar outro pai substituto, este aqui é unha e carne com o outro, assim não dá.
- Não é bem assim. Continue fazendo seus trabalhos, e eu vou dando minhas opiniões,
mas vamos combinar uma coisa, você vai reservar um tempo para estas brincadeiras sem
entrar no dedicado aos estudos regulares.
- Fale alguma coisa dona Lúcia! Está me parecendo um filme antigo. Seu Thomas está
na minha frente.
- O Diego está certo, ninguém vai ser jornalista sem pelo menos entrar na faculdade,
vou cuidar pessoalmente de manter as coisas como ele está determinando. Concorda Marina?
- Eu!!! não sei se posso opinar nesse caso, de repente além de ficar decepcionado com
Diego ele faz o mesmo comigo, prefiro ficar neutra.
- Pode falar, quero ouvir outras opiniões. - pediu Ramon.
- Bem, foi você quem pediu, sua mãe está certa.
- Hoje não é mesmo o meu dia, vou dar um mergulho.
- Vou com você, venha também Diego, ou melhor vamos todos.
200
- Boa pedida. - Lúcia se levantou e puxou Diego consigo. - Vamos Marina, a água está
uma delícia.
- Não posso. Estou esperando Ângela e Mariano, combinamos ficar juntos.
- Espere um pouco então Lúcia vou buscar uma bebida para Marina e já me junto a você
em seguida. - Diego se afastou.
- Não demore, Senão Marina vai embora e eu fico sozinha.
Diego voltou em seguida, trazia um stanhiegger e um chope, colocou sobre a mesa e
saiu com Lúcia em direção à piscina, Marina se sentiu infeliz, mas não podia fazer nada, não
estava acontecendo nada errado, ele era um homem livre.
Ângela veio chamá-la para se juntar a ela e ao Coronel, e se acomodaram em uma mesa
do outro lado da piscina.
- Coronel, qual a sua participação atualmente nas investigações a cerca de Thomas?
- Primeiro vamos colocar ordem na casa, para você meu nome é Bruno, Mariano e
Coronel são coisas do quartel, meus amigos não são todos soldados, quanto a este caso, não
tenho mais interesse nele, para mim; já disse antes; Thomas está morto e a carta é forjada.
- Uma análise química não poderia dirimir esta dúvida?
- Existe essa possibilidade, mas ninguém tem a intenção de verificar sua legitimidade,
só se isto for solicitado pela companhia de seguros, mas nem isto aconteceu, eles parecem
estar satisfeitos com a conclusão do caso.
- Entendo, já abdiquei de procurar Thomas, agora só espero, mas se ainda lutasse seria
eu contra o mundo.
- Não podemos gastar dinheiro dos contribuintes com um caso encerrado, com todas as
provas já aceitas e de caráter irrefutável, existe um alerta para Salvador, mas possivelmente as
autoridades locais não vão perder tempo com essa procura, já se passou tanto tempo.
- Ninguém quer esclarecer o assunto?
- Meu envolvimento com o caso foi algo fora do normal, isso é problema da policia
civil, eles tem milhares de inquéritos sem conclusão aguardando solução, não podem desviar
investigadores para um caso encerrado, nem sabemos se a carta é autêntica.
- Podemos mandar investigar Alexandre Latorre?
- Vou conversar com a policia civil ver se consigo alguma coisa, no entanto extraoficialmente, será demorado e perigoso, podem ter problemas. Agora vamos esquecer o
trabalho e nos divertir, senão vou novamente vestir minha farda.
- Você está certo, não posso ficar incomodando todo mundo com minhas dúvidas, como
estão os planos para o bebê?
- Estamos fazendo a nossa parte, agora é aguardar a natureza cuidar da sua.
- E como ele tem se esforçado, veja como está mais magro. - brincou Ângela. Também, nesta idade quer ter o desempenho de um garoto de dezoito.
- Não apanho de nenhum deles, eu sou mais eu.
- Vocês dois fiquem calmos, senão vão querer brincar de papai e mamãe aqui no meio
da festa.
- Vou dar um mergulho para me acalmar então. - e se levantou puxando Ângela pelo
braço.
201
Marina ficou sozinha, tentava dominar sua vontade mais não conseguia, seus olhos não
conseguiam se desprender da mesa onde Diego se divertia a olhos vistos com Lúcia e os
filhos, pensou em se retirar mas se conteve, olhou em volta e viu uma série de conhecidos:
Pedro, Alexandre Latorre e família, Giovanni Bragtoni e Pâmela, Fátima, Isabel Maldonado,
Gianne, agora conhecida como Gianne Fontoura, promissora atriz de novelas, Tancredo Pires
Vinhal o pai de Lúcia, entre outros; até Ramalho; o garçom do Teo trabalhando no local,
alguns funcionários de confiança da Montone. no entanto, ela se sentia sozinha.
- Um drinque especial para uma dama muito especial.
Marina desviou seu olhar da mesa onde estava Diego e vislumbrou Ítalo: com sua roupa
tradicional de mordomo.
- Oi Ítalo, você está trabalhando em um dia como este?
- As festas não são para os mordomos, estou organizando os garçons, mas fiz questão de
lhe servir pessoalmente, sentimos sua falta na mansão Montone, dona Biancha me pediu para
lhe convidar para jantar na sexta- feira.
- Não posso, preciso deixar Diego em paz, na empresa quase não nos vemos, porém,
jantar na casa dele já é outra coisa.
- Não se preocupe, ele não estará em casa, vai para o sitio de Lúcia Aguiar, passar o fim
de semana com as crianças dela.
- Então não tenho desculpas, me espere lá.
- Drinques às oito e jantar as nove, está bem para a Senhorita?
- Perfeito Ítalo.
- *- Diego está indo rápido com a viuvinha, vai passar este fim de semana no sitio dela.
- Ele gosta muito das crianças. - respondeu Ângela. - Vai ver não tem nada com Lúcia.
- Ela já é um pouco velha para ele, quarenta e três anos: imagine!
- Tudo isso? não parece ter trinta anos!
- Quarenta e dois comemorou na minha presença.
- É problema dele, não vamos nos preocupar com a vida de Diego, ou então decida e
fique com ele.
- Não posso, ao menos enquanto não tiver absoluta certeza da morte de Thomas.
- Meu Deus Marina!!! Já está virando neurose, pense bem, se Thomas está vivo e não te
procura.... esqueça-o, Diego Montone é o sonho de qualquer mulher, fama, dinheiro, poder....
depois... é um belo exemplar de macho.
- Opa!!! Na minha presença não! - brincou Bruno. - O único exemplar de macho para
sua vista sou eu; sente o físico. - e assumiu uma pose de alterofilista em competição.
- Deixe de ser ciumento! Fiquei anos esperando por você sem ter sequer um namorado e
não quero outra coisa.
- *Ítalo se aproximou de Diego com uma pasta na mão colocando-a sobre a mesa depois
de limpá-la cuidadosamente.
202
- Desculpe Diego mas o mecânico terminou a reforma da moto e veio até aqui entregar,
quer receber, é só você assinar o cheque, já está preenchido.
- Que moto?
- A Harley. Ficou uma beleza, ele conseguiu todas as peças originais, demorou mais
valeu a pena.
- Você mandou reformá-la?
- Tão logo fui liberado daquele serviço, terminada nossa conversa fui direto para o
mecânico de acordo com a sua órdem.
Diego não se lembrou de ter mantido essa conversa, mas ficou feliz com a atitude de
Ítalo.
- Traga-a aqui, quero vê-la agora.
- Vai fazer muito barulho.
- E dai? É festa e o barulho faz parte dela.
Passados alguns minutos a motocicleta estava estacionada próximo à piscina, o
mecânico havia feito um excelente serviço, inclusive no tocante às peças extraviadas e os
cromados, ela estava exalando juventude, não dava a impressão de ter tantos anos, todos se
aglomeraram em volta da mesma.
- Linda, e a parte mecânica?
- A toda prova seu Diego, não vim morar no Brasil para envergonhar meus
compatriotas, por isso demorou tanto. - respondeu o mecânico com carregado sotaque norteamericano.
- Adorei. - comentou Lúcia. - Vou mandar reformar também a moto de Thomas, está
abandonada há anos, assim posso vendê-la.
- Já tem preço? - perguntou Athos.
-
Interessa a você?
- Bastante, quero presentear uma amiga.
- Passe lá em casa amanhã com o mecânico, assim vocês Já discutem o preço da reforma.
- Vai mesmo vendê-la mãe? Eu pretendia mandar reformá-la para mim.
- Quando você tiver idade para dirigir vai ganhar um carro, nada de motos, Já fui a
muitos enterros por causa delas.
- É uma lembrança do meu pai.
- Não podemos viver de lembranças filho, guarde seu pai em seu coração e vá em
frente, uma moto pela qual ele mesmo nunca se interessou não pode representá-lo. Se você
quiser realmente algo dele tento comprar o Mercedes da Marina.
- Esqueça, ela não vai querer vender, vai entregá-lo como entregará qualquer objeto
daquela casa. - respondeu Ramon.
Diego não gostou do rumo da conversa e tratou de mudar o assunto.
- Vamos experimentar esta jóia quando a festa terminar. assinava o cheque do mecânico. - Ítalo leva meu carro e as crianças.
falou Diego enquanto
- Está brincando, na minha idade. - respondeu Lúcia. - depois eu vim de vestido.
203
- Não se preocupe, arrumamos alguma roupa menos formal. Não aceito um não como
resposta, depois, vamos fazer tudo certinho, capacete e baixa velocidade.
- De jeito nenhum, não aceito.
- *Ítalo levou o aparelho de telefone até a mesa onde estavam Diego e Lúcia, ela estranhou
ser incomodada ali, ninguém sabia onde se encontrava.
- Mãe, Já estamos indo, eu e Rebecca temos compromisso, o motorista do Senhor
Vincenzo está nos levando para casa.
- Não incomodem o homem Ramon, vou me trocar e levo vocês, depois ele vai precisar
voltar aqui para buscar o pessoal.
- Nada disso, ele vai nos levar no carro de Diego.
- Mas! Eu vim com ele, como vou embora.
- Não sei, tem muita gente lá do nosso lado, consiga uma carona.
- Ramon! Venha até aqui falar comigo. - o telefone ficou mudo, não teve resposta.
Lúcia desligou o telefone furiosa, pensou em correr até a saída da chácara, mas sabia ser
inútil, Ramon devia ter ligado da recepção quando Já estava praticamente fora dela.
- O Ramom me paga, onde Já se viu fazer uma coisa destas, não tem mais ninguém na
festa além de nós e umas poucas pessoas às quais não sou afim.
- Tome um drinque especial dona Lúcia, é minha receita para acalmar, e ainda por cima
muito gostoso. - disse Ítalo colocando um copo sobre a mesa, ela pensou em dar uma
resposta malcriada ao mordomo, mas não o fez, ele devia estar cumprindo ordens de Diego,
afinal era um serviçal.
- Obrigada Ítalo, mas eu ficaria feliz se você me trouxesse mais um chope, nunca
misturo bebidas.
- *O vento mais frio da tarde começou a tornar a permanência em trajes de banho
desconfortável e Lúcia foi se trocar, no entanto quando chegou ao vestiário não encontrou seu
vestido e sim as roupas de Rebecca, a principio não representaria problema, tinham o mesmo
corpo, mas era um conjunto de couro, jovem demais para ela, pensou em procurar Diego e ver
se havia alguma coisa mais formal para se vestir, depois desistiu, sentou- se em um dos
bancos ali existente e ficou quieta até se acalmar, depois tomou um banho bem demorado e
quando ia sair do vestiário se viu em apuros, seria observada por todo mundo com aquela
indumentária, voltou para dentro e se olhou no espelho, não estava nada mal, se chamasse a
atenção era por estar terrivelmente sensual e não por uma aparência estranha ou vulgar,
apenas jovem, seus cabelos escorridos pelo banho reforçavam o visual de juventude, no
entanto ao chegar à piscina após uma longa demora descobriu a inutilidade de sua
preocupação.
- Só ficamos nos dois aqui, e melhor você colocar este capacete.
- Diego, você subornou as crianças para arrumar tudo isso?
- Prá dizer a verdade foi um complô. Nós conversamos e decidimos, digamos assim....
um belo trabalho em equipe.
- Então me parece não existir opção para mim, vou ser obrigada a aceitar isso. Mas
alguém vai pagar por isso, ahh, vai mesmo.
204
- Vamos então.
-
Antes gostaria de me despedir de Marina.
-
- Ela Já se retirou há algum tempo, esqueça.
COQUETEL DE SENTIMENTOS, DESPREZO, CIÚMES, INCERTEZA E MEDO.
Marina não tinha a menor pressa; não encontraria ninguém em casa esperando por ela.
Seus pais programaram as compras do mês, Anabela sempre chegava um pouco mais tarde
após se apossar de seu Escort como se fosse dela, ficava além do expediente no escritório
aumentando seu rendimento com horas extras e depois parava um pouco no Teo, esperando
ser notada por Tulio Manzini, e fugir do trânsito pesado dos fins de expediente.
Marina, não sendo esperada e não querendo ficar só dirigia lentamente na faixa da
direita, não estava atrapalhando ninguém, o CD dos Platers estava tocando já há muito tempo,
se repetindo ao final, vez ou outra era obrigada a parar, os ônibus à sua frente paravam para
recolher passageiros e ela não fazia questão de fugir deles, a brisa estava gostosa e apesar da
capota abaixada não sentia frio.
Olhou pelo retrovisor e não pode deixar de reconhecer a moto vista na chácara de
Vincenzo Montone se aproximando rapidamente, sabia quem a dirigia. Diego passou por ela
sem notá-la, atento ao trânsito e já quase chegando em São Paulo, subiu a rampa à beira da
estrada, ela dava acesso a uma série de motéis, instintivamente Marina entrou por ela e o
seguiu, depois se deu conta de sua indiscrição e diminuiu a velocidade tentando passar
despercebida, com sucesso. No entanto tarde demais para não ver quando ele entrava no
Vharmax, um dos seus favoritos. Marina conhecera o local com Thomas; ele também gostava
da casa embora ela a considerasse meio antiquada.
Ficou decepcionada, vira a garota se trocando no vestiário do sítio, reconheceu sua
roupa. Sentiu realmente um pouco de ciúmes de Lúcia Aguiar, mas agora ele se dissipara
totalmente, estava sentindo um tremendo desprezo por Diego, como podia ele estar
corrompendo Rebecca, uma garotinha de colegial depois de ter sido tão bem recebido na casa
de sua mãe, não o imaginava assim tão irresponsável e inconseqüente.
Sua calma acabou, acelerou a Mercedes e começou a devorar a estrada e da mesma
maneira as marginais, queria estar rapidamente em casa. Desesperou- se todavia quando
chegou e viu todas as luzes apagadas, seus pais não iriam jantar em casa e sim com Sandra em
algum restaurante após as compras. Tinha fome detestava beliscar enquanto bebia, mas
tampouco queria comer sozinha ou entrar em casa. Decidiu ligar para Anabela, dirigiu até a
pequena praça próxima à sua casa havia um telefone público lá.
- (- )
- Alô, é do Teo?
- (- )
- Oi, Ramalho, você já está ai.
- (- )
- Que nada, isto é muita vontade de ganhar dinheiro, veja se a Anabela está ai por favor.
Aguardou alguns instantes e foi atendida pela irmã.
- Oi Bela, você pode me encontrar em algum lugar para jantar? Papai não está em casa e
estou sem vontade de preparar nada.
- (- )
205
OK, espero você no Las Veigas, quanto tempo você leva para chegar?
- (- )
- Está bem, vou lhe esperar lá.
- *Marina entrou no Las Veigas, era uma das casas favoritas de Thomas quando casado,
seus filhos eram muito bem tratados pelos donos e ele se sentia bem à vontade quando se
encontrava lá, ela ainda não conhecia o local, nunca a tinham freqüentado juntos, poderiam
encontrar Lúcia e se submeter à situações desagradáveis agora nada disso tinha a menor
importância, olhou em volta e gostou, fora reformada recentemente o padrão mogno das
instalações fora acabado com muito bom gosto, as taças pendentes balcão do teto a tornavam
diferente das pizzarias da região às quais já fora.
Ainda era muito cedo e havia poucas mesas ocupadas, o garçom se aproximou dela
solicito; pessoas sozinhas têm alguma dificuldade para se acomodar.
- Boa noite! Eu poderia sugerir uma mesa junto à janela? O tempo está gostoso e é
possível observar o movimento da rua, ideal para quem está só ou esperando alguém.
- Para mim está bem, vou aguardar minha irmã uns vinte minutos... meia hora talvez,
aquela ali está ótima, bem ao lado de meu carro traga- me um stanhieguer e um chope.
No entanto Marina não ficou só nem por um minuto, quando deu por si Rebecca e
Ramon estavam ao seu lado.
- Oi, veja como o mundo é pequeno.
Marina olhou para os garotos, naquele momento eram as últimas pessoas do mundo em
sua lista das pessoas com as quais gostaria de se encontrar. Concentrou sua atenção em
Rebecca, usava um vestido de seda, extremamente elegante, porém, muito adulto para ela.
Quando se sentiu observada a garota deu uma volta sobre si mesma e depois parou com uma
pose divertida.
- Como estou?
- Linda como sempre, porem este vestido é um pouco adulto.
- É de mamãe.
- Eu sei, eu a vi com ele pela manhã.
- Se eu estou um pouco deslocada dentro dele imagine a dona Lúcia com meu conjunto
de couro? Deve estar muito engraçada.
- Onde está ela? - perguntou Marina, embora pensasse ter entendido a situação.
- Está vindo de moto com Diego, ele nos mandou esperar por eles aqui.
Marina ficou penalizada com a situação das crianças, iriam esperar durante muito
tempo, Diego e Lúcia não deviam estar pensando neles neste momento e sim se dedicando ao
mais antigo jogo dos quais se tem conhecimento e ainda praticado apesar dos milhões de anos
de existência da humanidade.
- Vamos fazer o seguinte, jantem comigo, quando eles chegarem vocês já estarão
satisfeitos... e... se demorarem muito deixo vocês em casa.
- Podemos ficar juntos, mas vamos esperar por eles e jantamos todos, não é muito
educado ser tão apressados apesar de realmente estarmos com fome, gastamos energia a tarde
toda.
- Como queiram, então sentem-se aqui e tomem um suco.
206
- Já estamos tomando... vamos buscar, está na nossa mesa, voltamos já.
Os garotos voltaram com seus copos e Marina ficou remoendo sua raiva, seu ciúme,
embora não tivesse direito a isso, sua pena pelas crianças. Como podiam aqueles dois
irresponsáveis deixar dois menores esperando sozinhos em um restaurante enquanto se
dedicavam aos seus prazeres carnais? Poderiam muito bem fazê-lo, claro, eram pessoas livres,
mas tudo tem a hora correta para acontecer, eles ficariam ali por horas, com fome e
entediados.
- Vocês tem certeza? não querem comer?
- Vamos comer agora, Diego acabou de chegar.
Marina olhou surpresa, Lúcia estacionava sua Mercedes atrás da sua seguida de Diego
com a motoclicleta. Como poderia estar acontecendo tão rápido? Não se passara muito tempo
desde o momento no qual os deixara na entrada do Vharmax e ainda tinham passado na
Montone & Associados e pego o carro da ex-esposa de Thomas, incrível! Seu raciocínio foi
interrompido por Diego se dirigindo às crianças.
- Desculpem- me, demorei um pouco para assinar os papéis do Vharmax, no entanto
agora eu vou garanti-lo como é, os donos pretendiam reformá-lo e eu nunca aceitei isso, iriam
apagar um pedaço do passado construído nos últimos anos.
- Papéis do Vharmax? - perguntou Marina surpresa.
- Isso mesmo, eu o comprei, e passei lá agora há pouco para pagar o sinal e assinar as
promissórias do saldo.
- Não consegui ver como estão os quartos, estavam todos ocupados, mas me recordo
bem deles, Thomas gostava muito daquele motel, ele sempre gostou de ambientes
sofisticados. - completou Lúcia - mas aceitei investir na casa mesmo assim, ainda posso
desistir e Diego assumirá a minha parte, vamos incentivar nossos amigos mais abastados a
usá-lo, se conseguirmos teremos um excelente retorno.
- Mãe? A Senhora não falou nada conosco sobre o negócio, sempre opinamos sobre
seus investimentos é o combinado. - reclamou Rebecca.
- Foi tudo de repente, não levou nem cinco minutos, amanhã vamos até lá quando
saírem do colégio, Diego me deu sua palavra de cavalheiro, se eu quiser desistir rasgamos
tudo.
Anabela entrou e todo mundo se acomodou, Diego, Lúcia e os jovens foram para sua
mesa e elas ficaram sozinhas.
- Pelo jeito seu ex-noivo já está bem encaminhado, quem é a gatinha com Diego.
- Gatinha? Imagine! Gatinha coisa nenhuma, e a mãe daqueles garotos, já tem quarenta
e dois.
- Não brinca? Com aquele corpinho de menina e aqueles cabelos soltos eu diria... não
mais de vinte e cinco.
- Quarenta e três. É a ex-esposa do Thomas.
- Caceta, ele realmente podia se considerar um homem de sorte, quando perdeu aquela
linda mulher conseguiu minha irmã! Porque você é uma das mulheres mais bonitas sobre a
qual já deitei os olhos, no entanto entre as duas é um páreo duro... Ela é um monumento.
- Poxa Anabela! Eu não conhecia este seu lado de admirar mulheres.
207
- Beleza é beleza, se fôssemos eleger a mis deste bairro o titulo ia ficar entre vocês
duas, não tenho dúvida! Quarenta e dois anos? Caso eu chegue assim aos trinta já estarei
muito feliz... Impressionante.
- Vamos mudar de assunto, não vou ficar aqui a noite toda vendo você elogiar a Lúcia.
- Ciúmes? É isto? Foi você a chutar o Diego, agora, se quiser vai ser preciso lutar por
ele, anda acariciando aquela aranha, garanto!
- Anabela, recebi mais uma multa do Escort hoje, você precisa parar de fazer aquele
retorno, o carro está em meu nome e daqui a pouco minha carta vai estar cassada.
- Opaaaa!!!! Decidiu apelar? Esta mudança brusca de assunto não estava no escript.
- Nada disso, você acha certo pegar quatro multas pela mesma infração em apenas três
meses?
- Está bem, então vamos passar o carro para o meu nome e eu me viro com o DETRAN.
- Como você vai me pagar? Com intenções? Este carro é a única coisa realmente minha
no mundo.
- Você podia me fazer um presente, todo o dinheiro deixado pelo Thomas.... seguros e
outras coisas podiam me beneficiar um pouco.
- Nada disso, só vou gastar o necessário, quando ele voltar quero-o encontrando seu
dinheiro devidamente corrigido e com lucro, então volto a ter apenas este carro, o resto é dele.
- Acho melhor eu pedir a pizza. Não vou conseguir levar vantagem com uma mulher
picada pelo ciúme. Porra, estava tão bem lá no Teo.
- Desculpe- me Anabela, devo estar mesmo picada pelo ciúme, eu não queria seguir
Diego e Lúcia até a porta de um Motel, mas quando me dei conta já estava fazendo isso.
Imagine, eu nunca fiz nada parecido nem com o Thomas quando éramos namorados, um
vexame sem precedentes.
- Eles já estão neste estágio?
- Não, estavam comprando a casa, era apenas negócios, e eu aqui julgando o como um
corruptor de menores seduzindo a filha dela.
- Afinal você o seguiu com a Lúcia ou com a garota?
- Foi uma confusão, uma estava com a roupa da outra, o resto eu imaginei, estava
magoada.
- Sem direito. Eles são duas pessoas livres.
- Nem tanto assim, eu e Diego terminamos há pouco tempo, ele podia ficar mais um
tempo sozinho.
- Está bem! Ele guarda sua memória você a de Thomas e a humanidade para de crescer;
e... quer saber? É melhor pararmos de falar neles estamos no mesmo restaurante.
- Esqueça, da maneira como se divertem naquela mesa não ouviriam um terremoto do
outro lado da rua e a Lúcia... parece tão à vontade parecem se conhecer há muitos anos... e na
frente dos filhos.
- Marina, Marina... Só você não quer admitir isso, mas está morrendo de ciúmes, está
mesmo.... e põe ciúmes ai.
- Algo estranho está acontecendo comigo Anabela? Devo estar ficando louca.
- Não é loucura, você está apaixonada por Diego e não quer reconhecer.
208
- Não estou Anabela! Juro! Eu ainda sonho com Thomas todas as noites, ele freqüenta
meus sonhos e me ama, me acaricia e me satisfaz. Sinto-o tão junto de mim como se existisse
ali em carne e osso, acordo todos os dias ansiando por mais, é real como se acontecesse, não
consigo entender meus sentimentos.
- Muito menos eu, não posso saber nada sobre os fatos existente em seu interior, mas
Thomas está morto, convencer-se disso é a melhor coisa. Passe a tentar esquecê-lo.
- Não posso, simplesmente não posso, é algo muito forte independente da minha
vontade.
- Então sinto muito, quer saber de uma coisa... - foram interrompidas.
- Marina, eu preciso conversar com você. - ela olhou para o lado e viu Aroldo, seu
primeiro namorado, estranhou sua presença, não haviam mais conversado depois da
separação, sequer o atendia ao telefone, mas pessoalmente ficou difícil se negar, ainda mais
olhando para ele, um homem abatido, triste aparentemente alcoolizado.
- Anabela! Você pode nos dar um minuto?
- Fico aqui, é melhor.
- Deixe estar, eu vou ficar bem.
- Então qualquer coisa eu estou lá fora.
- Marina, eu quero voltar, preciso voltar, minha vida sem você não tem sentido, tenho
lutado muito, estou vencendo na vida a cada dia, muito dinheiro, mas amor....
Diego de sua mesa observou a figura sentada junto de Marina, parecia ameaçador,
sentiu-se também ameaçado, os demais não notaram a mudança, mas seu semblante
endureceu sensivelmente, queria saber o teor da conversa e descobriu poder ouvi-la na
integra.
- Voltar Aroldo? Impossível, eu não posso me envolver com ninguém, nem sei como
levar minha vida sentimental.
- Marina, tenho pensado em morrer, ainda não acabei com tudo por falta de coragem,
mas estou chegando ao meu limite, não consigo mais pensar em nada, só em você.
- Eu lamento tanto, tanto mesmo, não queria ser responsável pela infelicidade de
ninguém, nem você, nem Diego, mas não posso fazer nada.
- Repense tudo, eu serei seu escravo, nem vou falar sem sua autorização, mas preciso
viver ao seu lado, se isso não acontecer, não viverei, nem você.
- Não diga loucuras Aroldo, a vida é longa, pessoas vão e vêm, amores acabam e
começam, seja forte.
- Não consigo, pense nisso, vou te procurar em uma semana, seremos nós, ou o nosso
fim.
- *Athos e Thyphany estavam preocupados com a situação de Diego, as coisas não corriam
para o rumo desejado, não seria difícil Diego se apaixonar por Lúcia, já o fizera uma vez há
muitos anos, suas linhas de vida também corriam paralelas, então poderia se repetir, amava os
filhos de Thomas, isso poderia levá-lo a se casar com ela em função destes.
- Como pode? Já estava tudo encaminhado, dentro de poucos dias deveriam estar
casados e me aparece esta carta, é uma fraude, Edgard Ferreira Munhoz jamais poderia ter
escrito aquela carta, não era um seqüestrador.
- Depois.... nem houve seqüestro.... - lembrou Thyphany.
209
- Stella Ferreira Munhoz está mentindo, mas com qual finalidade, nega- se à falar com a
imprensa e nem toma qualquer atitude demonstrando ter sido beneficiada pelo fato, é uma
mulher rica, pode é ter sido prejudicada pelo escândalo.
- Talvez não, segundo a carta foi ele quem facilitou a fuga de Thomas. Assim ele se
torna menos culpado perante a opinião pública, um bandido redimido.
- Nunca analisei a coisa por este ângulo. Ela me parece uma mulher muito honesta para
forjar esta situação, depois, temos percepção para saber quando uma pessoa está mentido, ela
não estava. Tem alguma coisa acontecendo de muito estranho.
- Talvez seja alguém do lado de lá aprontando alguma, de vez em quando eles nos
causam problemas.
- Pode ser, mas ai a coisa vai ficar ainda mais difícil, uma analise química comum dos
humanos não conseguiria distinguir um documento falsificado por eles. Como podemos
elucidar o problema?
- Vou vigiá-la, durante o dia quando você estiver na Montone você cuida de Diego e
Marina estão sempre perto, eu fico na casa dela, em poucos dias teremos alguma resposta. Respondeu Thyphany decidida.
- *Thyphany estava certa, na residência de Stella Ferreira Munhoz o assunto começava a
ficar mais claro.
- Você vai mesmo embora Estela? Estou acostumada com seu serviço.
- Vou sim dona Stella, com o seu presente eu posso começar meu próprio negócio,
cozinho muito bem e vou montar meu próprio restaurante.
- Mas eu só lhe dei dez mil dólares, não é suficiente para montar uma casa, se você quer
mesmo montar um restaurante eu posso até entrar como sócia, mas penso serem necessários
uns... bem... algo em torno de cem ou duzentos mil para se fazer alguma coisa decente.
- Não! Quero ser a única dona, tenho meus investimento e economias de todos estes
anos, o resto eu financio através do banco ou coisa assim.
- A criança.... é mesmo filho de Edgard?
- Com certeza. Vocês só não notaram por nem imaginar romances entre um Ferreira
Munhoz; mesmo se tratando de Edgard; e uma doméstica, mas aconteceu. A carta foi
endereçada a mim, eu fui a mulher da vida dele. Quando teve medo de ser preso não quis me
deixar envergonhada e facilitou a fuga de Thomas, infelizmente morreu antes de conseguir se
livrar dos comparsas, mas vamos deixar isso claro, já pedi um exame de DNA, não quero
qualquer dúvida a este respeito.
- Não é necessário o exame. Deixe- a conosco, se eu já a amparávamos como seu filho
vamos fazê-lo com muito mais carinho como meu sobrinho,
- É justo, vou conversar com ele, afinal está bem encaminhado na escola e tudo o mais.
Fica com vocês até o final deste ano e depois vamos embora, quando ao exame, é o início de
um processo para dar a ele o nome do pai.
- Não faça isso, não o tire de nós, vamos fazer o seguinte, tem a casa dos fundos.
Fiquem morando lá, você não precisa pagar aluguel nem nada, é totalmente independente e
sempre foi ocupada por Edgard quanto tinha seus momentos de serenidade. Era uma pessoa
adorável então.
- Não precisa me dizer isso. Edgarzinho é uma prova muito concreta de como ele sabia
ser bom e interessante nessas épocas.
210
- Então posso ficar tranqüila. Vamos continuar juntas?
- Vocês conseguiriam esquecer de minha condição de empregada e me tratar como uma
igual?
- Pode ter certeza. Mas deixe meu sobrinho aqui, todos nós o amamos, mesmo antes de
saber a verdade.
- Podemos tentar então, mas vou me mudar para lá ainda hoje, quero começar uma vida
nova, contratem uma empregada com urgência, tenho muitos planos.
- De acordo, agora vamos cuidar dos detalhes para o reconhecimento do pequeno
Edgard. Me de uma abraço minha xará e cunhada. - Exigiu Stella entre lágrimas.
- *Mais uma vez os sonhos de Marina seriam invadidos fora dormir preocupada, no dia
seguinte seria procurada pelo ex-namorado, não tinha nada para dizer a ele, mesmo tendo sua
vida ameaçada iria recusá-lo, como se unir a alguém por medo de morrer? Então sentiu a
presença de Thomas, acariciando-a, tranqüilizando-a, deixando claro não haver nenhum
perigo nas ameaças sofridas, quando acordou sentia- se muito bem, abriu a janela o dia estava
lindo. Precisava tomar algumas providências, tinha um convidado para o jantar, sequer se
lembrava de Aroldo.
- *Marina aguardava sem muito entusiasmo, Fabiano de Lucca vira buscá-la para jantar,
era um dos diretores da Lucca Viana Sampaio & Associados, empresa responsável pela
auditoria na Montone & Associados, assediara-a até conseguir convencê-la a aceitar um
convite e dentro em breve passaria pelo crivo de Salvatore e Isilda Schiavonne, é claro, seria
também alvo dos indefectíveis e irônicos comentários posteriores de Anabela. Se fosse em
Morada do Simum seria recebido como a todos os demais no terraço da cozinha e iria provar
uma "branquinha" da terra, mas estavam em São Paulo em um dos bairros mais caros da
Capital, apesar de localizado na Zona Norte e seria recebido segundo os costumes dos nativos
locais.
- Eu precisava mesmo estar usando esta roupa? Imagine se vocês vierem a se casar, vou
amarrar uma gravata em cada perna.
- Ora papai, - respondeu Anabela - precisamos estar de acordo com o nosso nível,
afinal o homem é um dos privilegiados pela sorte. Já bastou o Senhor receber o Diego de
pijamas.
- Eu estava bem confortável, este é o nosso nível.
- Papai está certo, - concordou Marina. - este não é o nosso nível, tudo aqui pertence a
Thomas, mesmo esta casa. Nada existe de nosso aqui.
- Tolice! E todo o dinheiro recebido por ele pela venda das terras em Morada do
Simum? Dá para comprar muitas casas dessas e ainda sobra.
- Isto não nos transforma, não muda nosso nível, sempre vivemos de acordo com
padrões muito simples, aquelas terras nunca deram dinheiro a não ser depois de vendidas.
Diego sim vai ter lucro com elas.
- Ele se aproveitou do seu Salvatore aqui e de todos os outros caipiras, elas já valem
muitas vezes o preço pago por elas.
- Ele não se aproveitou de ninguém! Apenas fez a coisa certa, ficamos cem anos
plantando os produtos errados na região e ainda estaríamos tentando as mesmas lavouras,
211
nunca mais diga isso. - cortou Salvatore Schiavonne. - Diego Montone é um homem
honesto, já tinha comprado minhas terras quando descobriu sua verdadeira utilidade.
- Desculpe pai, não vou mais mexer com o seu xodó.
- Não é nenhum xodó, mas um homem decente, manteve Morada do Simum e a garantiu
para sempre como é.
- Claro, fez isso.... mas para dar uns tapas na peteca aqui da minha maninha, está
ganhando muito dinheiro e ainda usufruiu da fruta.... depois caiu fora.
- Anabela??? - falou Isilda Schiavonne - Nunca sonhei chegar à esta idade para ver
uma de minhas filhas falando palavras de tão baixo calão! não estou reconhecendo você. não
foi essa a educação pretendida por nós. Ademais, ele não caiu fora, Marina rompeu o noivado.
- Desculpe mãe? Eu realmente exagerei, mas eu estou cansada! Nos últimos meses não
se vive mais nesta casa, existe uma luta entre um homem morto e um vivo e ninguém vence.
Marina está se acabando e eu assistindo o seu fim. Diego transformando nossas terras em algo
produtivo e compensador, não posso impedir o sentimento de frustração é intrínseco ao ser
humano. Nós lutamos quase cem anos para não chegar a nada, agora o senhor tem todo este
dinheiro e nós não usufruímos. Eu ainda ando com o carro de Marina; e, de favor, ganho um
salário de fome e compro minhas roupas no crediário em lojas baratas, é tudo tão deprimente.
Os Schiavonnes são donos de Nova Palermo e eu vivo como uma mendiga.
- Você tem razão, precisamos mudar algumas coisas, no entanto dentro de certas regras.
Eu pago o carro para Marina e ele fica seu. Mas você vai voltar para a faculdade, senão nada
feito.
- Eu quero um carro novo.
- Ganhe seu próprio dinheiro quando terminar os estudos e compre um. Não sou de
perder as discussões no grito. Será assim ou não será.
- Mas.... O Senhor tem muito dinheiro.... e todos aqueles milhões.
- Não os tenho mais, eu adquiri imóveis, não quis ficar com tanto dinheiro disponível,
não estava acostumado a isso, vou viver da renda proporcionada por eles, não posso viver do
dinheiro de Marina a vida toda nem ficar gastando meu capital ou vivendo de usura, você sai
deste empreguinho e volta a estudar, arranje uma vaga como estagiária e comece a exercer sua
futura profissão.
- Mas.... estagiária não ganha quase nada!
- Eu completo seu salário atual e nem um tostão a mais. Faço a mesma coisa com
Marina, não o salário pago pela Montone, dou o mesmo dinheiro à vocês duas, sustento a
casa e pago a faculdade.
- Eu aceito! - respondeu Marina. - Quem sabe voltar para a faculdade me faça esquecer
meus problemas atuais. Vou pedir demissão amanhã mesmo.
- Eu ainda quero pensar, gosto do meu trabalho.
- Então fique lá e compre tudo com o dinheiro proporcionado por ele ou quando eu
morrer. Não vou insistir afinal....
O toque da campainha os interrompeu. Sandra contrariando a vontade de todos fez
questão de usar o uniforme abandonado por Thyphany na casa e atender a porta como se fosse
a empregada da família. Não tinham uma nem ela era tratada como tal. Sua única atividade
doméstica era ajudar Marina e Anabela a organizar a louça do jantar e mesmo assim faziam
rodízio das funções diariamente, alem disso ela se dedicava apenas aos estudos. Contudo,
212
neste dia fez questão de representar o papel de doméstica, a inexistência de criados em uma
casa como aquela era inaceitável.
- Imaginem.... um homem importante desses vem nos visitar e é recebido por um dos
donos da casa? De jeito nenhum! Depois, não me envergonho do trabalho doméstico, sempre
o fiz com muito orgulho. - argumentou pondo um fim à discussão.
Fabiano De Lucca foi introduzido na sala por Sandra e ficou aturdido com a mesma,
amante de arte se surpreendeu com os quadros e objetos de arte a decorá-la.
- Estou absolutamente surpreso com a mestria com o qual esta sala foi organizada, raras
vezes vi um acervo de arte de tão fino gosto. Gostaria de ter o nome de seu decorador,
preciso mexer no meu apartamento e queria algo semelhante. Uma maravilha.
- Não vou poder ajudá-lo, - respondeu Marina. Talvez Thomas quando voltar, eu já
recebi a casa como está, não acrescentei nada a não ser os canapés sobre a mezinha, a baixela;
no entanto; foi adquirida por ele.
- O resultado é magnífico! Talvez então eu possa trazer meu decorador até aqui, só não
sei se estou disposto a gastar tanto, alguns objetos; como este vaso por exemplo; não
precisava ser um original.... eu compro um caminhão de imitações e consigo o mesmo efeito
com o dinheiro pago por ele, uma fortuna, felizmente está bem preso....
- Isto tudo para mim é uma surpresa. Não fosse tudo recordação de Thomas eu até
poderia presentear alguém com um desses objetos se a pessoa realmente gostasse, depois eu
iria a uma loja e compraria outro.
- Felizmente você não presenteou ninguém. Alguns objetos desta sala existem no Brasil,
mas são imitações, e mesmo assim bem caras. Tudo aqui é original, nem me arrisco a precisar
quanto valem, Thomas era tão rico assim?
- Tinha um bom emprego, só isso.
- Então vem comprando esses objetos há anos; muitos anos mesmo; não são coisas para
serem compradas por assalariados.
- Não sei como as conseguiu. mas existem documentos de compras de todos eles.
- Calma! Eu não afirmei nem por um momento terem eles origens ilícitas, sou uma
cavalheiro e não me refiro a desonestidade de terceiros sem provas, no entanto tenho o direito
de me surpreender.
- Quanto a isto.... eu também estou muito surpresa.
- Bem, vamos ao jantar, afinal sou o homenageado e não posso chegar atrasado, o
senhor não vem mesmo seu Salvatore.
- Não, não me encontro muito bem e prefiro ficar em casa. Você já está levando minhas
mulheres, então não precisa de mim.
- *Salvatore Schiavonne quando chegou à porta de seu quarto já não usava o paletó e a
gravata, e segurava os sapatos nas mãos, detestava roupa social, ainda mais aquela tão cheia
de coisas, com gola de cetim, faixa e aquela gravata minúscula, não nascera para trajes de
gala, no entanto quando tentou entrar encontrou a porta trancada, assim como todas as
demais, apenas a do quarto de Sandra estava levemente entreaberta, podia se divisar a luz
atingindo a parede através dela.
- Sandra, você sabe onde encontro a chave do meu quarto? Está trancado e quero me
livrar destas roupas.
213
- Livre-se delas, algo está impedindo? Afinal a visão de seu corpo nu não é novidade
para mim. Você não pode ter esquecido de tudo, não posso admitir isso! Eu não esqueci.
- Não posso ficar nu pelo corredor e sua última afirmação faz parte do passado.
- Está bem. Vamos lá abrir sua porta. - respondeu a garota frustrada.
Sandra saiu de seu quarto furiosa e foi seguida por Salvatore. Primeiro foi ao quarto de
Marina, e o abriu, depois ao de Anabela, e por último deixou livre a entrada do quarto do
casal.
- Pronto, você já pode se trocar. - falou com a voz quase inaudível.
- Não estou entendendo suas brincadeiras, porém, se está pensando em recomeçar tudo
eu prefiro ignorá-las
- Não quero recomeçar nada. Nunca acabou! Pelo menos para mim. Só não tivemos
uma oportunidade antes.
- Sandra, você aqui é uma hospede. Deve respeito a mim e a Isilda, errei no passado e
paguei caro por isso.
- Caro? Graças a mim e ao nosso caso você tem milhões aplicados em imóveis e vai
poder levar uma vida tranqüila longe daquele calor infernal de Morada do Simun. Mora em
uma casa maravilhosa e vai ter uma velhice decente sem se preocupar com o a chuva. Se ela
vira em demasia ou vai desaparecer durante meses.
- E você quer parte deste dinheiro?
- Eu quero você. Eu podia ter colocado você na cadeia, mas não fiz isso, sabe o motivo?
- Sei o meu advogado te pegou. Se ele pedisse um exame seu adeus para aquela história
de virgindade e seu depoimento estaria liquidado.
- Não é isso, eu podia admitir já ter tido experiência sexual, não mudaria nada na
acusação de tentativa de estupro. Você não pode ter nem sua esposa à força.
- Então me diga qual o seu excelente motivo?
- Eu te amo, amo com desespero! Não me incomoda você ter idade para ser meu pai, eu
sofri muito durante sua ausência. Por não poder retirar as acusações e enfrentar meu pai, pela
possibilidade de perdê-lo para sempre. E para tê-lo novamente aceitei vir morar em sua casa.
Você foi o único homem da minha vida, sempre será!
- É uma loucura, só pode ser, você se fazendo de irmã de minhas filhas durante todo
este tempo, cuidando de Isilda...
- Eu gosto de dona Isilda. Sinceramente. Mas gosto muito mais de você.
- Esqueça, me deixe em paz, não ficaremos mais sozinhos nesta casa, hoje foi a última
vez.
- Vai me por para fora? - perguntou Sandra com a voz quase sumindo.
- Não, apenas não vamos mais ficar sozinhos, será suficiente mesmo usando uma roupa
de gala, quando houver outro jantar vou com eles.
- Está bem, - respondeu Sandra chorando. - Mas ainda não acabou, vou ficar aqui e
aguardar, esperarei tantos anos sejam necessários, um dia você vai me querer, tenho certeza.
- Não chore, por favor, eu detesto causar sofrimento às pessoas.
Sandra correu para o quarto e se jogou sobre a cama chorando, Salvatore continuou a se
trocar distraído, depois, colocou a bermuda do pijama e foi para a cozinha beber um copo de
água gelada. No caminho desistiu e tomou uma forte dose de conhaque, estava tremendo de
214
medo dos acontecimentos, ouvia o pranto da garota e não sabia como fazer para fazê-la parar,
parou em frente à porta e ficou olhando. Ela estava deitada de bruço sobre a cama seu corpo
nu coberto apenas por uma minúscula camisola vibrava com o efeito dos soluços, ele parecia
senti-los como se os movimentos emanados dela se prolongassem através do carpete
atingindo seus pés descalços. Sempre fora um moleirão, não suportou a cena e se sentou ao
lado dela apoiando as mãos sobre os seu ombro.
- Olhe Sandrinha, as coisas não vão ser tão ruins, em breve você arruma um desses
garotos da faculdade e me esquece, apagando de vez estas idéias absurdas.
- Tem certeza Salvatore? Pode prever o futuro, saber realmente o como me sinto?
Avaliar meus sentimentos? Meus anseios? Minha fome de amor, ela só pode ser aplacada por
uma única pessoa, lamentavelmente é você, sinto, sinto tanto.
- Você é muito jovem e está iludida com a pessoa errada.
- Você deve estar certo. Deite- se um pouco junto de mim, estou muito triste, você pode
me consolar como quem agrada uma filha então? Não? Isso pode?
- Claro, posso fazê-lo, é a coisa certa, afinal nos colocamos nesta enrascada e não posso
abandonar você com seus problemas, viu como fica mais fácil? É só colocarmos nossas
obrigações para com as outras pessoas acima de nossos egoísmo, chore um pouco... Não diga
nada, as palavras poderão nos magoar mais tarde, então porque proferi-las? Logo tudo vai
passar e amanhã será tudo como foi até hoje a tarde.
Sandra ficou abraçada a ele, quieta, comportada como uma filha sendo consolada pelo
pai, Salvatore quieto, deitado de costas, esperando o fim dos soluços para retornar ao seu
quarto; ela deitada de bruço com um braço em volta dele e o outro acariciando com aparente
inocência seus cabelos.
A tranqüilidade tomava conta do quarto, Salvatore já se sentia quase livre para se
retirar. Aos poucos o corpo de Sandra foi se acalmando até ficar praticamente imóvel e não
ser mais sacudido pelos soluços, então ela apoiou a perna esquerda sobre sua coxa nua e ele
sentiu o calor emanado de seu ventre, o cheiro de seu desejo invadindo o quarto e o fim de sua
resistência.
- *Já era bem tarde quando as mulheres Schiavonnes voltaram para casa, Salvatore foi
recebê-las à porta como era costume quando chegavam das compras ou de uma visita à
costureira. Em toda uma vida juntos Isilda nunca sairá à noite sozinha deixando o marido em
casa, então de certa forma ficou surpresa por encontrá-lo acordado tão tarde, arrumado,
usando pela primeira vez um robe de seda e echarpe.
- Oi querido, imaginei encontrá-lo dormindo... nossa! Como está bonito, cabelo
escovado, cheiroso.
- Eu peguei no sono e acordei a pouco, estava suado e achei melhor estar inteiro e
elegante para receber tão encantadoras damas. Querem tomar um ultimo drinque antes de
deitar?
- Eu não. - respondeu Anabela. - estou cansada.
- Eu só quero um banho, e cama....você não quer esfregar as minhas costas? - perguntou
Isilda.
- Claro querida! Vou preparar a água enquanto você se troca.
- Então pelo jeito vou tomar meu último drinque sozinha. - Marina foi para o bar e
começou a preparar um coquetel.
215
- Posso ficar com você, - ofereceu- se Anabela. - afinal amanhã é sábado mesmo.
- Não precisa, quero pensar um pouco antes de dormir; é só isso.
Salvatore esfregava com carinho as costas da esposa, Isilda adorava isso, não acontecia
sempre, ele ficava numa posição incomoda na borda da banheira, mas quando o fazia era
extremamente relaxante, não foram muitas as oportunidades nas quais ela se beneficiou deste
tratamento, o marido lançou essa moda após uma briga de recém-casados e sentiu como ela
adorara. Assim quando queria avisar a esposa de sua intenção de ir pescar nos fins de semana
ou precisava lhe pedir desculpas usava seu banho como estratégia e nunca recebeu um não ou
deixou de ser perdoado.
- Você fez alguma coisa errada hoje ou arrumou algum compromisso sozinho para o fim
de semana? - perguntou enquanto se levantava da banheira para ir para a cama. - Já sei
arrumou um amigo pescador em São Paulo e quer me contar?
- Não entendi?
- Você sempre esfrega as minhas costas quando está com a consciência pesada, ou quer
um fim de semana livre. Me diga então qual o motivo de tanta gentileza?
- Você me pediu e eu fiz! Nunca aconteceu antes.
- Realmente! Fui eu a pedir. - surpreendeu- se Isilda, ele sempre freqüentava seu banho
quando queria alguma coisa, porém, nunca se negou realmente a fazê-lo. Ela jamais lhe pedira
antes.
- Então.... é só eu pedir?
- Claro, é só pedir.
- Fique tranqüilo, não vou acabar com você, as coisas boas devem acontecer com certo
intervalo, mas foi bom descobrir essa abertura, posso provocar isso.
- Você pode provocar muitas outras coisas em mim, é a mulher da minha vida.
- Meu Deus! Você hoje está impossível, andou assistindo algum filme erótico?
- Eu não preciso disso, tenho todo o afrodisíaco necessário todas as noites no meu
próprio leito.
- Vamos ver se você é tão bom agindo como falando.
- *Marina ficou sozinha na sala, sorvia um drinque olhando sem muito interesse para a
televisão, mas de repente uma noticia a surpreendeu, começou a prestar atenção:
“... a policia não tem pistas do assassino, mas deduziu tratar- se de um caso de vingança
pessoal, nada foi roubado e a sala de seu apartamento parcialmente destruída, o corpo foi
jogado repetidas vezes contra os objetos da sala, quebrando-os ou derrubando-os pelo chão,
todas as informações afastam a possibilidade de envolvimento da vítima com o tráfico de
drogas ou qualquer tipo de criminalidade, o comerciante Aroldo Vieira possuía uma pequena
rede de lojas na zona leste de São Paulo comercializando.. - Marina desligou a televisão,
ficou perplexa Thomas a tranqüilizara em seu sonho, seria uma coincidência ou uma situação
terrivelmente macabra, assustadora, uma nova e sombria realidade.
Observou a sala e sua tão decantada decoração, em suas mãos algumas notas de
compras daqueles objetos, e muitas recentes, uma verdadeira fortuna gasta com simples
adornos, pedaços de louça sujeitos a serem quebrados por uma faxineira mais afoita,
provenientes dos mais remotos cantos do mundo ou de afamados antiquários, quem era afinal
o homem pelo qual estivera apaixonada sua vida inteira? de onde veio o dinheiro com o qual
216
pagara por tudo aquilo? Ou mesmo o existente em sua conta corrente, seu altíssimo seguro,
valores suficientes para tornar uma pessoa independente. Sentiu-o como um estranho, não
sabia bem o motivo, mas era essa a impressão. Pensou em muitas coisas sobre as quais jamais
conversaram. Teria ele aplicado algum golpe milionário e forjado a própria morte tomando
todas as providências para fazer dela a guardiã de seus bens? Era bem conveniente ter alguém
administrando seu dinheiro para recuperá-lo a qualquer momento talvez até às custas da vida
desta pessoa? não seria a primeira nem a última vez, esses golpes já haviam sido aplicados
antes.
Teria sido ele realmente o assassino de Cacá das Escolas?
Como pode entrar em seu sonho e tranqüilizá-la quanto às ameaças de Aroldo? Porque
este foi assassinado? E os vizinhos? Estavam todos fora do prédio? Não ouviram nada
enquanto um corpo era jogado contra os móveis destruindo toda uma sala?
Sentiu seu corpo ser percorrido por um arrepio, precisava saber como Thomas havia
desaparecido, independente de quem a ajudasse nessa missão, foi tomada de indescritível
pavor, como se fosse a futura vítima de um psicopatia surgindo de repente do nada. Qual seria
seu futuro? Agora lhe parecia negro, assustador, estava aterrorizada. Não podia estar
acontecendo com ela.
DESCOBRINDO FATOS IMPORTANTES.
Sandra, Marina e Anabela estavam na cozinha, Isilda se juntou a elas, tinha uma
expressão feliz no rosto,
- Bom dia queridas! Qual o cardápio para o café?
- Ainda não pensamos nisso. A senhora tem alguma sugestão?
- Presunto, ovos fritos, baicon, pão, suco de laranja, melão, abacaxi, mamão, suco de
laranja, caju.....
- Calma, de onde vem tanta fome?
- Do amor minhas filhas! Seu pai abusou um pouco deste corpo cansado e espero ver
esta atitude todo dia/ Agora vamos ao fogão e ao liqüidificador.
- Sente- se e aguarde, nós preparamos tudo.
- Eu ainda não dei a lista inteira! Ainda faltam queijo, presunto, pão sírio, pasta de
amendoim, pão de queijo, pão preto, americano, talvez eu tenha esquecido de algo.
- Agradeça a Thomas e a Thyphany, por estas listas de faltas; senão não teria nem a
metade em casa; felizmente temos tudo e mais.
- Então coloque tudo na mesa, quero um banquete. Um tributo a Salvatore
Schiavonne, o máximo, o supra-sumo do supra-sumo.
- Ela está falando do papai, imagine. – brincou Anabela.
Quando Salvatore chegou à cozinha ficou surpreso com a mesa preparada para o café.
- Uau! É festa? Se é veio bem a calhar, estou morto de fome. Nem sei por onde
começar.
- Vocês ontem viram periquitinho verde? - perguntou Anabela divertida. A expressão
do casal era de estrema alegria.
- É o amor crianças, vocês precisam ter um para saber o quanto é bom. Precisam
mesmo! Por falar nisso, eu e sua mãe vamos passar o dia fora.
- Não posso Salvatore. Vou ao supermercado, não temos quase nada em casa.
- Nós cuidamos disso mãe. Anabela vai trabalhar pela manhã, mas eu e Sandra vamos às
compras.
Salvatore foi até o quarto, procurou na gaveta a permanência de cortesia do Vharmax,
oferecida a ele por Diego.
- Muito bem dona Isilda, hoje vamos ter um dia cheio.
- *-
217
Marina estacionou o carro e começou a colocar as compras no carrinho quando ouviu o
telefone e pediu a Sandra.
- Você sobe com as compras? Vou atender o telefone.
- Não se incomode com isso. Não vou ter trabalho nenhum. Te vejo lá em cima.
Mas ela não chegou a tempo, já não havia ninguém na linha, apenas o sinal de
mensagem gravada na secretária eletrónica, consultou os recados.
“- Marina? É Fátima. Se possível entre em contato comigo. Preciso de alguns de seus
arquivos e não tenho acesso, vamos ver como resolver isso....... - Marina é seu pai, sua mãe
não passou bem e estamos no Hospital Hanna David, não se assuste, foi uma simples queda
de pressão, só a trouxe aqui para ter certeza.
Marina correu para a garagem. Sandra ainda não acomodara todas as compras no
carrinho. Ela a ajudou a terminar e deu partida no carro.
- Espere, onde vai você?
- Ao Hanna David. Mamãe está passando mal.
- Vou com você.
- Não, fique aqui e aguarde Anabela. Quando ela chegar vocês vão juntas.
- Está bem, mas mantenha-me informada enquanto isso, por favor, é muito importante
para mim. - pediu Sandra com a consciência pesada.
- *Quando Marina chegou ao hospital encontrou o pai bastante tranqüilo, isso a fez
relaxar, não podia ser nada grave.
- Então pai?
- Ainda não sei, mas não deve ser nada, ela vai passar por uma bateria de exames antes
de ir para casa. Você sabe: com o problema dela não podemos brincar, qualquer mal estar
pode ser um sinal
Marina olhou para o lado e ficou surpresa, o coronel Mariano tambem estava ali,
sentado, cabisbaixo.
- Bruno? Algum problema com Ângela.
- Não, está tudo bem com ela, estou aqui por causa de Isabel. Ela está passando muito
mal. Não tem nenhum parente e me procuraram no quartel.
- Isabel? Desculpe- me mas eu não a conheço.
- Ah Marina! Eu me sinto tão amigo seu e me esqueço: você nunca freqüentou minha
casa. É minha ex-esposa, está com uma gripe terrível, mas não reage ao medicamentos.
- É muito grave?
- Ainda não sei estou aguardando o resultado dos exames o hospital quer alguém se
responsabilizando pelas despesas. Angela está furiosa com a situação.
- Lamento muito, mas ela vai entender. Isabel é um ser humano.
- Claro, Angela é uma pessoa maravilhosa, mas sabe como é..... ex-esposa.
- *Isilda Schiavonne não voltaria mais para casa, foram tomadas as providencias
necessárias ao translado de seu corpo para Morada do Simum. Foi sepultada, na tumba
especial criada mais para dar um ar de realeza ao local, mas não era pública. Abrigaria apenas
quem fosse indicado por Diego Montone. Quando regressaram a São Paulo tiveram uma
surpresa: os dois irmão de Marina haviam deixado um recado, queriam ter um encontro com
eles. Salvatore ficou preocupado, não tinha os filhos em alto conceito apesar de serem ricos e
famosos. Em decorrência de sua desconfiança decidiu se precaver durante a visita dos
mesmos. Eles compareceram à casa logo após sua chegada.
- Posso sabe qual o motivo para meus dois filhos milionários abandonarem suas
mansões e se dignarem a vir nos visitar.
- É um momento de tristeza, precisamos estar unidos.
218
- Unidos? Onde vocês estavam quando sua mãe se consumia no câncer? Não puderam
abandonar um espetáculo para visitá-la? Suas esposas ricas tinham vergonha de visitar nossa
casa em Morada do Simum?
- Quem disse isso?
- Fiquei sabendo, não importa como! Talvez se eu não os tivesse financiado houvesse
mais dinheiro para prolongar sua vida, Quando finalmente eu tive não adiantou mais.
- O Senhor nunca nos pediu dinheiro.
- Cansei de ser atendido por uma secretária e deixar recados eletrônicos. Sabe a quanto
tempo não nos vemos?
- Bastante tempo.
- Eu quase fali para financiar vocês, acreditei em suas promessas: vamos ganhar
bastante dinheiro..... vamos devolver tudo ao Senhor.... na verdade vocês não precisavam
mesmo devolver. Era a parte de você na herança, mas custava nos procurar de vez em
quando.
- Queriamos falar sobre isso também, quando assinamos aquele documentos não
tínhamos idéia do valor de suas terras. Temos direito a mais alguma coisa.
- Direito? Como direito? A herança de você não existe mais.
- Vamos tentar impugnar aquele documento, fomos prejudicados na partilha.
Vocês fizeram uma proposta e eu a aceitei, fomos ao tabelião e deixamos tudo claro,
vocês levaram minhas economias de anos, suas irmãs não puderam estudar, sua mãe foi
tratada de maneira regular e agora vocês querem mais? Enlouqueceram!
- Bem, a vida é assim mesmo. Se você se sente prejudicado deve tentar resolver a
situação.
- Vocês tem muito dinheiro. Não temos tanto, dê- me um motivo para dividir o nosso?
- Queremos adquirir uma gravadora importante, um negócio de milhões. Nosso
dinheiro é muito mas não é suficiente com o seu conseguiremos.
- E por isso vocês vão trair suas irmãs?
- Pai, você não sabe como é o gosto do poder. Nunca o sentiu. Mansões, criados,
admiração... Estamos por cima hoje, mas quem sabe o dia de amanhã?
- Então estes são Vitor e Maurinho? Ícones de nossa música sertaneja! Ídolos das
crianças e adultos! Uma fraude com recheio podre! Se isso ficar claro poderão deixar de se
vistos como rouxinóis, maravilhosos, talentosos, o povo também sabe odiar.
- Pense como quiser! Nós vamos lutar pelos nossos direitos, queremos nossa parte na
herança de mamãe. Precisamos dela! Entenda isso!
- Como se diz urubu na linguagem dos cantores.
- O Senhor não pode falar assim.
- Muito bem. Então vou deixar algumas coisas claras. Não existe a herança de sua mãe.
Éramos casados com separação de bens, como todos os Schiavonnes. Se quiserem o espólio
dela, vão ao guarda roupas e dividam seu conteúdo com suas irmãs. E tem mais: amanhã
vocês vão ao cartório acompanhados por um advogado e vamos ratificar de maneira
inequívoca aquele documento.
- De jeito nenhum. O Senhor também é mortal, não vamos deixar tudo para Marina e
Anabela. Não vamos desistir.
- Se vocês não estiverem amanhã no cartório entrego uma copia desta fita a cada
emissora de televisão deste pais. Todos vão saber quem são seus ídolos.
- Não sei nada sobre fita nenhuma.
- Quantas câmeras nós usamos Athos?
- Quatro.
- Então envie uma copia das fitas a eles. Talvez queiram tê-las como lembrança.
- *-
219
Athos e Thyphany se revezavam em vigiar Estela andando com corretores de
restaurante em restaurante naquele dia finalmente ela parecia ter escolhido seu fúturo negócio
e eles ouviram surpresos ela confirmar os termos da compra.
- Gostei desta casa, então como meu corretor já havia proposto eu vou pagar cento e
sessenta mil dólares em espécie. Vamos fazer um contrato de uma entrada de quarenta mil,
naturalmente em cruzeiros, e o saldo pago em trinta meses. Vocês me entregam a
promissórias quitada neste ato e caso encerrado.
Os vendedores se entreolharam mas decidiram aceitar, não teriam como declarar os
recebimentos ao fisco, Mas vender uma casa a vista é realmente difícil. Na seqüência
tentariam comprar outra casa no mesmo esquema.
- E quanto nos encontramos para assinar os papéis?
- Tomei a liberdade de trazer o contrato pronto, podemos assinar imediatamente, quero
fechar a casa para umas pequenas reformas.
- Cento e sessenta mil dólares? - de onde veio este dinheiro perguntou Thyphany? Stella deu a ela dez mil dólares por limpar a memória do irmão, nada mais.
- Vamos continuar vigiando Estela e o mistério vai acabar. Tenho certeza.
- *Marina observava os irmãos, ouvia seus argumentos, eles queriam realmente reverter a
situação.
- Vocês são realmente muito egoístas, depois, não adianta nada mudarmos os fatos,
papai é muito jovem, vai viver pelo menos mais trinta ou quarenta anos, eu e Anabela não
recebemos nada com a morte de mamãe.
- Nos sabemos disso. Não é mais pelo dinheiro, é uma questão de honra. Queremos
voltar a ser herdeiros. Pagaremos a vocês duas a metade do valor entregue por nossos pais
por ocasião da assinatura deste documento onde vocês concordam com a anulação do
assinado antes.
- Já não é uma quantia significativa com esta inflação. - observou Anabela.
- Mas ainda é suficiente para vocês duas levarem uma bela vida. Pensem! Se papai
durar mais vinte ou trinta anos vocês continuam sem nada.
- Esqueçam. Se conseguirem convencer nosso pai tudo bem, mas eu não vou assinar
nada contra a vontade dele.
Marina se retirou, os dois irmão ficaram se olhando em silêncio, demorou para Vitor se
manifestar.
- E agora?
- Não vamos desistir, o homem só vende a gravadora para nós, então o tempo joga ao
nosso lado.
- E se voltarmos a ser herdeiros, vai adiantar? Papai ainda está vivo. - insistiu Vitor.
- Ainda está, você disse. Mas por quanto tempo?
- Não estou te entendendo muito bem.
- As pessoas morrem.
- Eu sei, mas vamos dar todo este dinheiro a elas sem saber quando? - vociferou Vitor
indignado.
- Talvez sejamos obrigados a determinar a data. - respondeu Maurinho impassível. Mas não vou perder aquela gravadora por nada neste mundo.
Vitor ficou em silêncio, entendeu o significado de determinar, não concordava totalmente
com a idéia, mas também queria a gravadora desesperadamente.
DIEGO ESTÁ MUITO PRÓXIMO DE LÚCIA. ATHOS SE DESESPERA.
220
Diego estava convencido de estar fazendo o certo quando propôs casamento à Lúcia,
mas não esperava uma resposta negativa da parte dela.
- Impossível Diego, gosto muito de você, muito mesmo, mas como um amigo, um
namorado até, tudo bem, mas jamais me imaginei casada consigo. Nós nunca sequer nos
beijamos. E vamos passar direto de uma amizade para um matrimônio?
- Estou certo de minha decisão, quero participar mais de sua vida, cuidar de seus filhos,
vê-los caminhando para o futuro com a minha ajuda. Eu amo todos vocês, de verdade?
- Daqui há alguns meses eu vou fazer quarenta e quatro anos e você vinte e poucos....
nem sei ao certo. Ainda estou muito bem. Reconheço sem falsa modéstia ser uma mulher
desejável, mesmo para um garoto da sua idade. Mas pense em daqui há uma década?
- Não importa, não tenho interesse por mais ninguém alem de você e estou cansado de
ficar sozinho. Algo dentro de mim, bem lá no fundo me afirma: podemos passar o resto da
vida juntos.
- É loucura. Como vou viver meus setenta anos contra os seus cinqüenta? Você será um
homem jovem ainda e eu uma anciã. Eu gosto de você o suficiente para namorarmos de vez
em quando. Já pensei nisso, talvez consigamos nos relacionar por mais oito ou dez anos, nada
alem disso.
- Se um dia não for mais possível nos divorciamos, não será a primeira nem a última
vez, no entanto uma certeza lá no fundo me garante uma verdade: isto jamais acontecerá.
Estou convencido disso.
- Diego, você ama Marina, lute por ela.
- Impossível. Não posso vencer a memória de Thomas. Ele me parece cada vez mais
vivo.
- Então? Você vai me usar como um salva vidas para suas tormentas? Naufragaremos os
dois.
- De maneira nenhuma! Não sei como. Mas tenho certeza; não vai ser isso a acontecer.
Às vezes me vejo amando você, partilhando de seu leito e de seu café da manhã.
- Talvez fosse bom você matar sua curiosidade a meu respeito. Pode curar esta sua
fixação.
- Não entendo?
- Vou alugar uma casa de campo e vamos passar uns dias sozinhos nela, quem sabe na
volta você tenha caído em si.
Não precisamos alugar nada. Você tem uma casa de campo e eu também.
- Negativo! Não quero meus empregados ou os seus participando desta nossa
experiência.
Athos observava tudo contrariado, a certeza de Diego tinha fundamento, ele poderia até
passar o resto da vida com Lúcia. Quanto mais próximo ficasse das crianças mais acenderia
seu amor por elas.
- *Marina estranhou o pedido de Lúcia para passar quinze dias cuidando das "crianças"
enquanto ela se ausentava para vender umas propriedades provenientes de investimentos
feitos na Geórgia. Não entendeu o motivo da viagem pois a Montone & Associados também
participava de investimentos semelhantes e sempre fizera todas as operações de vendas
221
através de corretores, sem necessidade de viajar para o exterior. Talvez ela não quisesse trazer
o resultado da transação para o Brasil, era uma possibilidade. E mesmo sem entender, como
gostava dos garotos e podia ser divertido aceitou. Eles faziam o colegial no Mackenzie, o
mesmo instituto onde ela cursava a faculdade então não causariam muitos transtornos;
almoçariam na cidade na saída das aulas e à noite comeriam uma pizza ou coisa semelhante.
Nada de cozinha, isto tornava tudo mais difícil.
Athos passava de Nova Yorque, onde Diego se encontrava oficialmente, as matérias
enviadas pelo patrão, enquanto o casal estava descansando sob o sol da Flórida. Para todos os
efeitos embora no exterior eles estavam separados por quilômetros de distância.
- Não entendo, veja este mapa, daqui a onze meses deverá estar nascendo uma criança
decorrente do casamento de Marina e Diego e no entanto eles estão cada vez mais distantes.
Lúcia e Diego estão se dando muito bem, não vejo motivo para se separarem em um período
muito curto. - observou Athos.
- Eles tem realmente tudo para se dar bem inexplicavelmente o subconsciente de Diego
conhece todos os desejos de Lúcia como Thomas e ainda tem as gentilezas e cuidados
partindo dele mesmo. Ela deve estar se sentindo a mulher mais feliz do mundo. - concluiu
Thyphany.
- E ele também me parece muito contente, será possível termos encontrado alguém
capaz de desrespeitar o curso natural das coisa, mudar as linhas da vida?
- Nada me surpreende partindo de Thomas Aguiar, é um homem único, ferreamente
determinado. Felizmente tem bom caráter senão seria um homem terrível, só me lembro de
mais um homem assim; e, de todos os problemas causados por ele à humanidade,
principalmente no tocante ao seu ódio pelos judeus.
- Acrescente Klaus ao lado de Hitler e terá conhecido dois.
- *Marina passaria a última noite na casa de Lúcia, foram dias felizes, Ramom e Rebecca
se recolhiam para seus quartos logo após o jantar, estudavam e assistiam televisão sem
incomodá-la, ela se acomodava na enorme cama do quarto do casal. Uma réplica da sua e
dormia ansiosa, seus sonhos eram cheios de Thomas. Reais, reais demais, ao acordar ela podia
sentir seu cheiro em suas roupas, não era uma ilusão, - acreditava - acontecia mesmo.
Passavam a noite juntos naquela casa, as vezes chegava ao extremo de sentir medo de
engravidar tal a realidade destas.
Quando saia para levar os irmãos consigo quando ia para a faculdade sonhava com a
próxima noite e o amor de Thomas. Isto não aconteceria mais: não naquela casa.
Lúcia chegou em casa sem avisar. Não queria ser esperada no aeroporto. Ela e Diego
voltaram no mesmo avião e se despediram como dois amigos, sem nenhum gesto mais
afetuoso e se lembrava da conversa mantida com ele quando esperavam a bagagem no
aeroporto, enquanto procurava as chaves do portão.
"- Quando nos vemos novamente? Posso ir à sua casa hoje a noite?"
"- Não! Vou dedicar os próximos dias às crianças, já as deixei sozinhas demais e na
verdade elas são a razão da minha vida."
"- Me telefone então, vou aguardar com ansiedade."
"- Ligo quando estiver livre. Não nos próximos dias, serão totalmente das crianças. Não
quero desviar minha atenção deles."
222
"- E eu, como fico?"
"- Fica esperando. Tenha um pouco de paciência, não quero contar nada para eles ainda.
Realmente não me decidi."
"- Está bem, vou ser paciente. Mas não judie muito de mim, por favor."
Não localizou as chaves na bolsa, deviam estar junto às roupas, então tocou a
campainha e aguardou, ouviu uns latidos e estranhou, nunca tiveram cachorro na casa. O som
lhe deu uma certeza, haviam animais ali. Ficou contente, sempre admirou os dos vizinhos e
nunca se encorajara a comprar um.
Pliciana abriu a porta surpresa, não esperavam a patroa na casa.
- Bom dia dona Lúcia! Fico feliz em vê-la.
- Eu também estava com saudades de vocês, Júlio está por ai?
- Sim senhora. Esta colocando o portão no cercado de Brutus.
- Peça a ele para subir minhas malas por favor, estão um pouco pesadas, podem esvaziálas. Os presentes estão com etiquetas, podem abrir os seus e deixe os das crianças na sala.
Vamos conhecer este tal de Brutus então, já estou imaginando como deve ser bonitinho.
- Brutus e Nero estão presos lá no fundo, são muito bagunceiros.
- Dois cachorros? Não é um exagero?
- Não são nossos. Não os dois. Nero foi presente de Fabiano De Lucca para as crianças
e Brutus foi para Marina. Na verdade ele comprou apenas um para ela, mas como eles ficaram
apaixonados pelo animal veio o outro.
- Vamos ver estes bichinhos então! Deixe as malas aqui na entrada depois Júlio as sobe.
- só então se lembrou de perguntar: - Quem é Fabiano de Lucca.
- Eu. - ouviu uma voz atrás de si se voltou em direção a ela.
- Muito prazer! - murmurou o homem. - Ouvi falar de sua beleza, mas os comentários
realmente nunca lhe fizeram justiça. A realidade é extremamente superior.
- O prazer é meu. Obrigada! É uma bela maneira de ser recebida em casa.
- Não quer ver os cães? São belos filhotes.
Foram até onde se encontravam os cachorrinhos e Lúcia estranhou suas cabeças
enfaixadas.
- Eles brigaram?
- Não, quando cortam suas orelhas colocam estas faixas para mantê-las em pé.
- É uma maldade, deviam deixar os coitadinhos como nasceram?
- É o costume assim o cão fica com uma aparência mais feroz. Eu também não as
cortaria. Mas já vieram assim.
- Não são um pouco grandes? Eu pensei em um caõzinho e para filhotes eles não me
parecem muito pequenos.
- A Senhora não viu nada. - Pliciana tirou uma foto do bolso do avental. - dê uma
olhada no pai deles.
Lúcia olhou a foto e se surpreendeu com o tamanho do cão.
223
- Isto não é um cachorro e sim um bezerro. Em todo caso como já estão aqui, deixe- os
ficar. Você não está preparando o almoço?
- Não! Não tenho feito comida desde a chegada de Marina. Eles almoçam e jantam fora
todos os dias.
- E você?
- Faço um lanche ou cozinho algum prato pronto e tudo resolvido. De certa forma todo
mundo ficou de férias.
- Ligue para o celular de Ramon. Vamos almoçar em casa hoje. Peça ao Júlio para
buscar um pouco de carne e chope e faremos um churrasco. Vou convidar algumas amigas.
- Assim de pronto? A Senhora não prefere descansar?
- Não estou cansada e sim com saudades da nossa comida. Não se come tão bem no
exterior. - e voltando-se para o visitante. - Você fica conosco Fabiano?
- Sem duvida. Eu ia almoçar com Marina e as crianças. Ela deve vir para cá também.
Lúcia estava conversando com algumas amigas quando viu Diego entrando e sua
primeira reação foi de aborrecimento. Havia combinado com ele se dedicar uns dias às
crianças, em seguida pensou melhor: gostou realmente da surpresa.
- Seu chato insistente. Não lhe pedi um tempinho para as crianças?
- Foi Ramon quem me telefonou. Não vi motivos para não atender ao seu convite, e,
como já estava com saudades.
- Eu também. Quase fiz o mesmo, mas para ser coerente com minha própria sugestão e
desisti. Vamos entrar, a carne está uma delícia, quanto ao chope! Nem preciso falar, geladinho
no ponto certo, deve ser saudade de casa.
- *Marina acabou se envolvendo mais e mais com Lúcia Aguiar e Diego, como a exesposa de Thomas tinha seus rendimentos baseados em investimentos imobiliários e
participação societária em empresas médias ela não precisava de um administrador em tempo
integral e conseguiu convencê-la a cuidar de seus negócios e então mensalmente ela era
obrigada a comparecer à Montone & Associados para proceder ao acerto do movimento do
Motel Vharmax e um dia demoraram um pouco mais pois ela precisou se por à par dos
detalhes envolvidos com as reformas do mesmo e os custos para sua execução.
- Então a previsão e de passarmos noventa dias sem retirada e ainda correr o risco de
precisar injetar dinheiro vivo na reforma?
- Exatamente. Mas veja bem. Com estes novo painéis nossas suites terão um controle
tão sofisticado quanto aos dos demais motéis sem perdermos o ar de nobreza do quarto. Eles
serão entalhados em jacarandá e a pintura dos interruptores será feita em banho especial
montado só para nos. Não consegui reduzir os custos em um centavo.
- Preciso conversar com Lúcia, não posso concordar com a reforma, não está nas
minhas funções. Eu deveria estar recebendo um cheque hoje e vou voltar sem nada.
- Isto vai causar problemas a Lúcia para manter seus compromissos em dia?
- Sem duvida. Toda nossa previsão de pagamentos se baseia nesta retirada atualmente.
224
- Possso emprestar algum dinheiro a ela, ou adiar a reforma. Como ela preferir. Eu
ainda não fiz nada, apenas orçamento. Todavia eu gostaria de manter o cronograma como
está. Naturalmente preciso do aval de vocês.
- Duas de nossas lojas e um dos restaurante estão em reforma também. Contávamos
com este dinheiro para cobrir este rombo, mas podemos resolver a situação Sem adiar nada,
temos um fundo de emergência para estas situações e deverá ser suficiente. Aguarde até
amanhã e lhe darei uma resposta final.
Diego atende o telefone e por sua resposta deixou claro o fim da reunião.
- Já estou indo. Me aguardem só mais um minuto. Vou organizar os papéis e estarei ai
em seguida.
- Aconteceu alguma coisa?
- Nada de ruim. É o aniversário da Fátima e o pessoal preparou uma festinha no
refeitório.
- Bem nesse caso vou me retirar. Nos vemos amanhã.
- Pode ser pela manhã?
- Não, tenho aula e não falto à faculdade por motivo nenhum, passo às cinco horas;
pode ser? Afinal o assunto de amanhã não será tão demorado. Na verdade podemos resolver
por telefone. É sim, ou não.
- Tudo bem, quero este assunto resolvido logo. Mas não vá embora. A Fátima vai ficar
magoada se você fizer isso.
- Eu não ando muito disposta à festas, sinto muito.
Mas ela não conseguiu sair. Surpreendida pela própria Fátima foi obrigada a
permanecer no local. Quando a festa se encerrou já era tarde. Marina sentindo os efeitos do
álcool achou melhor pegar um Taxi, e deixar o carro na garagem. Enquanto aguardava a
chuva começou a cair ela se abrigou sobre a marquise longe da rua, isso iria dificultar em
muito sua intenção.
- Acho melhor aceitar uma carona. Você nunca vai pegar um taxi daqui.
- Oi Diego, eu também acho. Os motoristas não me vêem desta posição. Você está
sozinho.
- Estava. Agora estamos juntos.
Diego colocou o carro em movimento. A chuva caia incessantemente. O transito se
tornou lento e ele saiu para um caminho alternativo, daria uma grande volta mais seria mais
rápido. - pensou- Estavam em silêncio há muito. Marina levemente alcoolizada comentou:
- Conversei muito na festa e não comi nada, estou com fome.
- Eu também, e, pelo jeito ainda vamos demorar muito para comer, peguei este caminho
alternativo mas não está resolvendo nada. O trânsito no outro sentido flui bem, talvez
devamos voltar e achar um restaurante aqui por perto.
- Esta é uma idéia fantástica, meu estômago humildemente agradece. Pare no primeiro
em nossa rota.
Atendendo ao pedido de ele ficou atento às placas, mas quase passa pela casa. A placa
do restaurante tinha uma iluminação muito fraca. Estacionou em frente e o manobrista se
225
apressou em atendê-lo, o porteiro munido de um enorme guarda chuva primeiro recolheu
Diego, levou-o até a porta só depois veio buscar Marina.
Quando olhou o Cardápio ela brincou:
- Só assim eu finalmente conheci um Thomas'S, estou cansada de manipular seu papéis
no entanto nunca fui a nenhum.
- Para dizer a verdade, nem eu. A decoração é bem antiga.
- Thomas era assim mesmo. Adorava os anos sessenta, não os viveu, mas suas fitas
eram quase todas da época. O Dr. Sebastião fotografou varias casas tradicionais dos Estados
Unidos para chegarem a uma conclusão. - quando o garçom se aproximou ela mandou
chamar o gerente.
- Algum problema senhorita. Foram mal atendidos? - perguntou o administrador da
casa.
- Em absoluto. Eu apenas queria conhecê-lo pessoalmente. Sou Marina Schiavonne.
- O anjo dos Aguiar?
- Porquê?
- O antigo administrador de dona Lúcia era um monstro. Por isso o apelido.
- Obrigada. Há muito não me chamam assim.
Quando o garço se afastou Thomas reclamou.
- Não faz tanto tempo assim.
- Desculpe Diego. As vezes me parece estar sozinha a séculos.
Quando o gerente chegou à mesa deles levava uma garrafa de Don Pirignon.
- É por conta da casa. Mas não vou abrir ainda, só colocar no gelo. Enquanto vocês
saboreiam um aperitivo.
O garçom colocou a entrada principal da casa e sugeriu vinho do porto como aperitivo
enquanto o champanhe gelava.
O som ambiente era no estilo da casa só as músicas favoritas de Thomas. sem nenhum
estilo definido, quando ouviu Maria Helena ela pareceu viajar até o Archote, estavam juntos,
ali um conjunto sempre tocava a música para eles ao vivo. Foram dias felizes.
Olhou para o lado e não achou estar com Diego. Thomas estava em sua companhia,
- Mais champanhe? - ouviu Thomas perguntar enquanto se ouvia Solamente Uma Vez.
Marina estava em êxtase.
- Claro. Isto aqui está uma delicia. Você está me proporcionando uma noite
maravilhosa.
- Eu também estou adorando, ouça, esta eu gravei para você não houve tempo para
mostrar.
Marina atentou para a música, nunca a ouvira com os Platers. You Never Know para ela
era uma música inédita.
- Linda, eu só conhecia a versão Em português gravada por Antônio Marcos.
226
As musicas favoritas de Thomas se sucederam sem estilo, Valsa Do Imperador,
Danúbio Azul, Everybody Loves Somebody, Setembre, e as taças de champanhe se
sucederam.
- Você está mais linda do que nunca. Como pode? Pensei ser impossível conhecer
alguém mais bela, agora vem você e se supera.
- É sua maneira de me ver. Eu me olho no espelho e me sinto mais feia, devo estar
amarga com a vida, não consigo mais ver beleza em nada, a não ser em um dia como hoje. parou para ouvir a próxima música, Si Mi Comprendieras e ouviu o parceiro lamentando.
- Se você me compreendesse, tão sequer um pouco, jamais choraria porque saberia, eu
por ti sou louco.
Marina se sentiu por demais confusa, Esta última frase só poderia ser pronunciada por
Diego, não sabia quem estava na frente dela.
Quando deram por si já era muito tarde. Diego leu no rodapé do cardápio.
"Todas as musicas executadas nesta casa estão disponíveis em fita, os direitos
autorais são devidamente recolhidos."
- Quantas fita compõem o acervo da casa?
- Vinte e cinco, apenas as gravadas por seu Thomas, dona Lúcia jamais acrescentou
nada, tocamos as mesmas na seqüência exata, o senhor quer alguma?
- Todas, em dobro. Vocês fazem embalagem para presente?
- Claro. Mas temos um único papel. Também imposto por seu Thomas.
- Muito bom. Um dos jogos coloque em uma sacola, vou ouvir no caminho. Traga- me a
conta junto com o novo champanhe, por favor. - pediu Diego entregando o cartão de crédito
ao garçom e se dirigiu a Marina.
- Se você deixou de ouvir alguma de minhas músicas, agora vai conhecer todas.
- Vou mesmo querido, o tempo todo só as suas músicas. - respondeu confusa sem saber
a quem se dirigia.
Diego não pegou o caminho de casa, as musicas se sucediam, A Paz do Meu Amor,
Only You, My Drean, Smoke Gets In Your Eys, Marina não reclamou quando ele ao invés de
pegar o caminho de casa subiu a Alameda Campinas, ela já sabia para onde iam. Thomas
adorava o Maksoud Plaza.
Diego pegou uma mala, sempre carregava uma troca de roupa, colocou as fitas dentro
dela, depois foi ao balcão e se registrou:
- Por favor, deixem nossa mala no quarto, ainda tempo para um drinque no Piano’s Bar.
- *Na manha seguinte entraram direto para a garagem da Montone de onde Marina iria
para a faculdade.
- Podemos nos ver novamente hoje a noite? - Perguntou Diego.
- Não, na verdade não podemos nos ver nunca mais. Vou pedir demissão de meu
emprego com a Lúcia, senão acontecerão esses encontros forçados.
- Como posso entender você, me ensine, eu quero isso.
- Ninguém pode me entender, as vezes nem eu mesma.
227
- Então hoje a tarde será a última vez?
- Não haverá hoje a tarde, pode dar seqüência às reformas, Lúcia dará um jeito para
cumprir os pagamentos, eu sei disso.
- Por favor, pense em melhor. Estamos cometendo um erro.
- Realmente cometemos um erro. Resultado do excesso de bebida. De hoje em diante
vou tentar beber com comedimento.
- Não podemos nem conversar a respeito? - perguntou Diego desolado.
- Não Diego. Sinto muito. Isto está acabado. Não deveria ter acontecido. Agora com
licença, senão vou chegar atrasada na faculdade.
Diego olhou desolado para Marina, como alguém podia ser assim, passaram as últimas
horas se amando, ela se entregara por inteiro, ele pensou estar tudo voltando ao normal, no
entanto....
- *A vigilância de Athos sobre Estela acabou dando resultado. O homem ao lado dela
estava desesperado, havia cometido um crime levado pelo ódio e o orgulho ferido, mas
queria repará-lo a qualquer custo.
- Precisamos colocar tudo no devido lugar, você precisa confessar ter fraldado aquela
carta.
- Está bem. Eu confesso isso. Jogo Edgar na lama de novo e ainda fico sujeita às penas
da lei, esqueça.
- Eu separei Diego de Marina e não tinha o direito de fazer isto. Quero acabar com o
problema. Ela agora está arrasada, se tornando uma beata, eu ouço as historia e vejo a
maldade feita por nós.
- Por nós não. Por você eu não sabia nada sobre suas intenções, aceitei o dinheiro para
entregar a carta a policia pois com isso eu deixava quase limpa a memória de Edgar e não
vou sujá-la.
- Então vou fazer o seguinte. Mando o Abilio forjar uma segunda carta onde Edgard
afirma ter capturado Thomas novamente, e fazer chegar às mãos da policia, assim ninguém se
incrimina.
- Se você fizer isso vou tornar toda a trama pública, eu tenho papéis verdadeiros escritos
por Edgard, posso não só provar a falsidade das duas cartas como apontar o funcionário do
correio utilizado para dar aparência de realidade a elas.
Giovanni Bragtoni se retirou arrasado, não havia saída, ele poderia contar a verdade
aos Montones, mas então uma amizade entre famílias reatada após tantos anos, sua
possibilidade de ver Biancha, conversar com ela; os momentos mais felizes de sua vida então;
poderiam estar definitivamente acabados, havia até uma possibilidade deles entenderem seu
arrependimento, afinal estaria contando a verdade movido pela sinceridade de uma amizade
real e verdadeira. Mas! E se isso não ocorresse? Precisava destes raros momentos em sua
companhia, jamais iria tentar seduzi-la e estragar tudo, porém, queria ao menos usufruir de
sua maravilhosa presença, só isso interessava, o resto era totalmente sem importância.
- *-
228
- Já podemos provar a verdade, vigio Giovanni Bragtoni e quando localizar o homem
chamado Abilio damos um jeito de fazer a policia fazer um exame grafotécnico na
correspondência. - concluiu Thyphany satisfeita.
- Preciso dar outra solução ao problema, não acabar com a amizade ora existente entre
as duas famílias, nem jogar mais lama sobre a memória de Edgard Munhoz, ele é inocente de
qualquer crime e de certa forma eu já o prejudiquei muito ele devia ter sido enterrado como
indigente e não como criminoso não identificado.
- Então como vamos agir? Deixar tudo seguir este curso errado? Diego está muito
próximo de Lúcia Aguiar.
- Vamos esperar um pouco, pensar em uma solução onde ninguém mais se machuque.
Já causei muitos problemas com minha aparição a Thomas Aguiar.
- *Athos observava desolado Marina misturada a todas aquelas pessoas e participando da
sessão religiosa da Igreja da Dádiva Divina. Ela estava convencida dos poderes daqueles
falsos pastores de sua capacidade de curar, invocar e libertar espíritos eles talvez lhe dessem
a resposta da qual tanto precisava.
Seus “pastores” transformavam a igreja numa mistura estranha, embora atuasse como
uma instituição evangélica. nascida de uma linha tradicional cristã ela tinha um tempero dos
charlatães das seitas secundárias e alem de glorificar o Cristo também fazia curas, espantava
maus espíritos e exús, enfim em um único templo conseguia atender quase todos os
segmentos da exploração dos incautos.
Ela assistia maravilhada pessoas contarem suas experiências nas quais relatavam curas
inexistentes e
observava serem expulsos maus espíritos. Elementos
contratados,
representavam para aquela imensa platéia, na saída ela colaborava generosamente com a
coleta feita por eles e ia para casa satisfeita, tinha certeza de conseguir assim expurgar de
Diego suas visões de Thomas, curá-lo e assim permitir a ele uma vida normal e ainda mais,
saber se ele estava realmente vivo. Temia o ex-namorado então, supunha-o um assassino. Um
fugitivo da justiça vivendo à sombra.
- Não acredito, - lamentou Athos. - Marina é uma pessoa com certa cultura, agora deu
para freqüentar esta igreja e aquele pai de santo charlatão, e o pior, ele é esperto e não quer se
arriscar a "receber" alguém possivelmente vivo, então ele finge não conseguir incorporar
Thomas pois, possivelmente, seu espírito ainda habite o "cavalo", e a deixa cada vez mais
assustada com a possibilidade de ser assassinada por ele.
- Estamos realmente encrencados, como pudemos nos comprometer com duas pessoas
tão complicadas?
- Marina não é complicada, é a vontade ferrenha de Thomas de não esquecer seu
passado o fator de dificuldade de meu trabalho e causador todos estes problemas. Ele força
Marina a sentir sua presença e quase a enlouquece com essa insistência.
- Então como vamos resolver o problema?
- Trabalhando e esperando, nada mais, a linha da vida deles está normal depois de
colocarmos Thomas habitando o corpo de Diego. Está aqui. É quase certo, eles vão se
encontrar em breve. É só uma questão de tempo.
- *Giovanni Bragtoni criou coragem e procurou Athos, não podia se complicar diretamente
com Diego, mas não custava tentar uma consulta a ele, segundo todas as informações ele
229
tinha dependência estranha de seu funcionário e aceitava quase tudo do "Homem de Branco";
sem questionar.
- ... e assim, meu arrependimento é sincero e quero solucionar todos os problemas, mas
não quero perder a amizade dos Montones e não posso prejudicar Estela e a memória de
Edgard. Ele ia realmente ajudar Thomas segundo Marina. Acredito até em me revelar por
inteiro diante deles. Talvez seja a solução, quem sabe até me considerem mais seu amigo a
partir de então e tudo uma incógnita.
- Agora não resolve mais, Marina está presa aos pastores da Igreja da Dádiva Divina e
àquela gente do terreiro onde vai todas as semanas. Não vai acreditar em você e sim chegar a
conclusão de ser mais uma trama. Eles a convenceram da condição de Thomas como um
homem ainda vivo e a fizeram acreditar nas visões de Diego como uma doença proveniente de
seu amor por ela e não incorporação de espirito. Ele queria muito seu amor, então tentava
imitar as reações no seu adversário, delírios de um louco.
- Então está tudo muito difícil, vamos desistir?
- Não é claro! Porém vamos aguardar os acontecimentos, estou tentando uni-los sem
com isso prejudicar a mais ninguém.
- *- Continuo procurando Thomas, mas não o encontro entre nós, ele possivelmente ainda
não desencarnou no entanto estou achando você muito apegada a valores materiais, não gostei
de sua atitude com relação aos seus irmãos.
- Que posso fazer para consertar mãe? Dou a metade a eles?
- Não, malgrado sua atitude eles realmente ainda não merecem. Vamos ver uma maneira
de mostrar seu desprendimento às coisas terrenas e fúteis, depois conversamos, agora estou
me sentindo fraca, preciso ir embora.
- Espere mãe, espere, eu preciso me redimir.
- Ela já foi minha filha, não adianta, os espíritos ficam apenas o tempo possível.
Precisam energia para voltar. A viagem é muito longa. Vamos tentar outro dia.
- Obrigada Pai Antônio. Falar com minha mãe me deixa muito feliz.
Marina abre a carteira e tira uma grande quantidade de dinheiro entregando-a ao falso
pai de santo.
- Não precisa minha filha. Não faço isto pelo dinheiro.
- Não é para o Senhor e sim para suas obras de caridade, sei como luta pelas suas
crianças.
- Então eu aceito. Mas só pelas crianças, coitadinhas tão necessitadas.
- Gostaria de visitá-las um dia. É possível?
- Claro. Até já o fez. Minhas crianças estão espalhadas por toda esta cidade, eu levo
alimentos diretamente em suas casas, não quero separá-las dos pais, ou ainda, você pode
encontrá-las pelas calçadas envoltas em cobertores doados por mim, esquecidas pelos
governantes.
- O Senhor é um homem santo Pai Antônio.
- De jeito nenhum minha filha. Pai Antônio é um pecador, um cavalo escravo dos vícios
e da carne, espio um pouco minhas culpas fazendo o bem, não me considere tanto assim, um
dia posso decepcionar você.
230
- *Albano não queria concordar com Rose, o plano parecia infalível contudo muito
perigoso, destituir os homens de Pedro Latorre do sindicato era um golpe milionário, mas ele
sabia o destino de quem o desafiava.
- Se falharmos não tem problema. - afirmou Rose. - Usaremos testas-de-ferro,
comandaremos à distância. Vamos apenas financiar o negócio, depois criamos alguns
problemas entre o sindicato e a Coexponal, a Burns e outras empresas do ramo quando tudo
estiver fervendo nós assassinamos Pedro Latorre, com você aparentemente do lado dele.... não
será nem suspeito.
- Olhe, eu tenho coragem para matar Pedro Latorre a qualquer hora. Mas desafiá-lo
ainda vivo já é outro problema, depois tem o Alexandre.
- Alexandre, Alexandre, ele também está envolvido.
- Mas! Pedro Latorre é irmão dele.
- E dai? Ele já rouba o irmão mesmo! Se for descoberto é um homem morto.
- E Pedro o mataria por acaso? Não me faça rir.
- Pedro mataria qualquer um com coragem suficiente para
cruzar o seu caminho, pode ter certeza disso.
- Como sabe?
- Mandou matar o próprio pai para vender sua confecção e investir na Coexponal.
- Mentira.
- É a pura verdade, por isso Alexandre quer se vingar dele, nunca conseguiu provar nem
o perdoou.
- Está bem, mas ao primeiro sinal de falha em nosso plano eu precipito tudo e mato
Pedro Latorre. Se for assim eu aceito.
- Combinados. Mas não será bom, pode atrair suspeitas sobre nós.
- Da cadeia eu posso me livrar. De Pedro Latorre não.
- *Athos e Thyphany seguiram o "Pai de Santo" até sua verdadeira residência, uma
mansão distante da casa onde ele se mostrava aos seus fiéis.
- Ele é um homem bom, falou Thyphany, não queria aceitar o dinheiro dela.
- Escute isso!
- Está na hora de tomar um dinheiro grosso dessa granfina, deixe abaixar o Thomas. falou a mulher ao lado de Pai Antônio.
- Está louca mulher não leu os jornais, o homem pode estar vivo e eu perco esta
boquinha, olhe para isso, ela me dá quantias assim sem eu pedir, e vem todas as semanas, não
vou matar a galinha dos ovos de ouro, deixa eu receber o espírito da mãe por enquanto e não
de quem eu nem sei se morreu. E desta eu recebo informações, você sabe os meninos....
- Meninos?
- Vitor e Maurinho, seus irmãos.
- Esta .....história de receber a mãe dela vai resolver?
231
- Vamos tirar o dinheiro por ai, mas vou fazer isso com calma, plantar devagar, dentro
de um ou dois anos eu depeno ela definitivamente, por enquanto vai ser assim, meus amigos
já chegaram?
- Estão ai fora, garantem a você uma excelente comissão.
- Mande- os entrar então.
"Pai Antônio" ficou olhando os dois homens entrando na casa, estava ficando muito
importante então, antes não tinha a oportunidade de ver seus ídolos ao vivo e já há algum
tempo os tinha por inteiro e dependentes dele agora extrapolavam indo pessoalmente à sua
casa.
- Ora, ora, ora, jamais imaginei receber meus artistas favoritos em minha humilde
morada, fiquem à vontade por favor.
Vitor e Marinho ficaram olhando para a casa do "Pai de Santo", apesar do mau gosto da
decoração tudo ali custara muito dinheiro, exceto os quadros com estampas baratas adquiridos
nas calçadas. Nada havia de humilde no local, apenas a combinação era grotesca.
- Vamos diretamente ao assunto, não temos muito tempo para conseguir o dinheiro
vamos perder a gravadora e acreditamos só ser possível com sua ajuda.
- É preciso paciência! Sua irmã não é exatamente uma tola, e vai precisar convencer
Anabela, eu o farei: mas sem prazo.
- *- Os três homens saíram da igreja pela porta dos fundos, se reuniram em um terreno
baldio e tiraram os disfarces.
Giovanni Bragtoni, Athos e Salvatore Schiavonne acreditavam ter colhido farto
material, com isso convenceriam Marina.
- Quanto rendeu?
- Eu levei duzentos, está bom para dez minutos de trabalho.
- Canalhas, só me deram cem, e o pastor disse ser um cachê fixo.
- É, mais bancar o cego dá mais trabalho, é preciso ensaiar muito.
- Foi tudo filmado?
- Foi.
- Inclusive quando nos pagaram?
- Inclusive. Não temos som na fita mas temos as gravações no caminhão, podemos
editar, no entanto as imagens falam por si.
- Independente disso depois faremos a edição com o som enviado para o caminhão e
mostramos à Marina. Só assim podemos nos livrar desta corja.
- Mas nada de veicular essas imagens. Pode ter um preço muito alto, estes homens não
brincam em serviço.
- Não quero veicular nada, - afirmou Salvatore Schiavonne. - só mostrar a verdade a
Marina, aquele pai de santo está tentando levar uma fortuna dela. Vai acabar convencendo-a a
reconhecer os direitos dos irmão na herança e ainda vai tomar parte de seu dinheiro para obras
de caridade. Não vou permitir se me for possível, é claro, ainda estou vivo, mas se Vitor e
Maurinho tiverem direito, creio, minha vida corre perigo, é realmente uma muito dinheiro.
Meus filhos não tem limites para suas ambições.
232
Marina, por todas estas coisas tão absurdas da vida, pela pior das coincidências
imagináveis estava do outro lado do muro, muito próxima deles, não conseguiu entender
todas as palavras, mas entendeu bem uma coisa, haveria uma montagem então estavam
tentando prejudicar sua crença? Iriam jogar lama sobre a igreja utilizando recursos de edição
e também sobre seu pai de santo.
Ficou olhando aqueles homens tramarem contra suas crenças. Iriam forjar mentiras,
nem sua igreja nem Pai Antônio eram desonestos. Este criava o maior problema para aceitar
dinheiro, não iria lhe causar nenhum mal. Quando eles tentaram lhe mostrar o filme ela se
negou a vê-lo. Não iria assistir a nenhuma montagem, deixou- os frustrados na sala e foi para
o terreiro onde podia conversar com sua mãe, estes sim eram momentos felizes.
CONSEQÜÊNCIAS E SOLUÇÕES
Marina não queria tomar aquela atitude, mas precisava urgentemente de ajuda não sabia
como tratar aquela gravidez incomoda. Esperava um filho, era de Diego, mas este a esta altura
estava muito comprometido com Lúcia Aguiar, rumores sobre seu futuro casamento eram
corriqueiros nas colunas sociais, no entanto, prestava atenção há muito tempo em seu pai e
Sandra. Eles se amavam, tinha certeza, era o momento de tirar proveito do fato.
Salvatore e Sandra tomavam um lanche enquanto assistiam a televisão, Marina resolveu
colocar as coisas em ordem.
- Se vocês se amam, porque não se casam?
Salvatore Schiavonne não conseguiu engolir o pedaço de sanduíche dentro da boca e
quase engasgou enquanto devolvia o bolo já mastigado para dentro do prato. Sandra correu
para ele e bateu em suas costas para ajudar em sua recuperação.
- Agora quem não entendeu fui eu, não mesmo.
- Entendeu Pai! Eu não sei quando isso começou, mas está acontecendo disso não tenho
a menor duvida
- Há duas semanas, quando você e Anabela foram para a praia, sinto muito se isso lhe
ofende. - interferiu Sandra. Sentiu ser inútil negar, então tentou deixar claro ser tudo um fato
recente.
- Não me ofende, surpreende- me na verdade, nunca pensei nisso, mas é um fato, está
ocorrendo e não podemos negar.
- No entanto, não quero criar problemas em família, Anabela era unha e carne com
Isilda. Jamais aceitará uma substituta para sua mãe.
- Aceitara, pai, depende de quem vai transmitir a notícia, e como levar a coisa. Ela vai
até apoiar, eu garanto. Agora vocês vão me escutar e logo em seguida correr para o cartório
preparar os papéis, não temos muito tempo a perder.
- *Anabela estava muito animada tomando um chope em um barzinho com mesas ao ar
livre na Av.Braz Leme, essa estava muito feliz, Tulio Manzini finalmente a notara. Não só o
fizera como confessara freqüentar o Teo há anos na esperança de conseguir uma aproximação,
as últimas semanas tinham sido de muito amor. Ela estava embriagada com sua própria
felicidade, a troca de olhares de ambos denunciava, era reciproco. Marina saia junto com eles
pela primeira vez, e de repente lamentou.
233
- Mais um brinde a tanta felicidade, eu também estou feliz. Se tudo corresse da maneira
correta em breve teríamos uma nova vida habitando o solar do Schiavonnes. Infelizmente não
vai acontecer.
Esta foi a vez de Anabela engasgar, na seqüência tomou mais um pouco de chope para
aliviar a garganta e respondeu muito divertida.
- Muito bem, então a minha maninha andou pulando a cerca e agora esta pensando em
fazer um aborto. De jeito nenhum! Vai assumir. É pecado!
- Eu, não, não sou a única Schiavonne naquela casa, seu Salvatore não é um pôr acaso?
- Papai? Não é possível, ele nunca sai de casa.
- Nem Sandra, preciso explicar mais.
- Nossa o velho.... quer dizer.... impressionante, aquele piteuzinho.
- Exatamente, aquele piteuzinho esta caída de quatro por ele, beija o chão por onde ele
passa, papai aproveitou, agora quer cair fora.
- Precisamos fazer alguma coisa, não podemos ter um irmão abandonado, vou falar
com papai, ele precisa assumir seus atos. - respondeu Anabela circunspecta.
- Só se você convencer ele. Eu não consegui.
Marina conhecia Anabela como a palma da mão, detestava canalhas. Seu pai não estava
livre de seu julgamento. Seu maior medo era ficar grávida e ser abandonada pelo pai da
criança, fora criada com todos os preconceitos de Isilda Schiavonne. - Agora vamos embora,
esta frio e preciso conversar com papai.
- Já?
- Já, enquanto estou sóbria, senão vou gritar com ele, quero resolver tudo com muita
calma. Não precisa me levar Tulio, vou com Marina, tenho problemas em casa..
Salvatore Schiavonne ouviu cabisbaixo as palavras de Anabela, seus argumentos, e ao
final foi “vencido” por eles, assumiria seu erro tomando Sandra por esposa, ela saiu satisfeita.
Foi para o quarto de Marina e demonstrou sua satisfação pela vitória.
- Você não soube conversar com papai, em breve teremos um novo Schiavonne nesta
casa. Nosso irmão não vai ser um bastardo qualquer, tem nosso sangue nas veias, nascerá de
uma união legal como todos os outros.
- Só você mesmo para conseguir isso, o velho estava irredutível, parabéns. congratulou Marina satisfeita com o esperado desfecho do pequeno teatro representado por
todos.
O casamento de Salvatore Schiavonne se deu sem festas ou convidados, tinham muitos
motivos para isso, Marina já sofrera outras alterações e sua gravidez então poderia ser notada,
Sandra usava uma pequena barriga de teatro Marina uma capa creme larga, própria para
aquele dia frio de agosto, dali foram para um pequeno e aconchegante restaurante. Tulio os
acompanhava, aproveitou para ser apresentado à família sem precisar se submeter ao
tradicional encontro na sala de visitas, saiu dali intimo de todos. Achou Ótimo. Detestava ser
apresentado a pais, experiência incomoda.
Marina ainda freqüentaria a faculdade até concluir o semestre, suas roupas largas,
última moda permitiu isso sem suscitar comentários. Não era muito popular na classe e
ninguém prestava atenção nela, após o “reaparecimento” de Thomas se tornara uma pessoa
arredia e de poucos amigos. O inverso exato de sua personalidade.
234
Para fugir dos olhos do mundo simulou uma viagem para se recuperar dos fatigantes
fatos aos quais foi submetida e foi morar em uma pequena cidade do interior próxima a São
Paulo numa confortável casa adquirida já a algum tempo por Salvatore para passar fins de
semana. Ali viveria em companhia do casal até o nascimento da criança, passando por Sandra
Schiavonne. Jamais abandonou o quintal da casa e ali com sua gravidez acompanhada pela
Doutora Thyphany se escondeu do mundo. Do lado de fora, Sandra desfilava por todos a
cidade com uma barriga de espuma, mostrando ao mundo o futuro filho de Salvatore
Schiavonne.
- Sabe doutora, eu poderia jurar já tê-la visto antes, se eu lhe contar vai parecer absurdo.
- Existem muitas pessoas parecidas, as vezes também tenho a impressão de já ter
conhecido alguma pessoa e na verdade nunca estivemos nem perto um do outro.
- Não fosse estes cabelos escuros e estes óculos eu juraria ser Thyphany, a empregada
domestica de Thomas. Não uma doutora em medicina.
- Você não esta me ofendendo. Eu até fiz alguns serviços parecidos para pagar minha
faculdade, mas já faz muito tempo. As vezes tenho saudades dos clientes da lanchonete.
- Desculpe- me. Mas vocês são muito parecidas, até no nome.
- A Senhorita viu esta mulher por muito tempo?
- Durante uns cinco ou dez minutos, mas está tão fresco em minha memória.
- Vamos nos concentrar no neném, dona Sandra, seu marido agora vai precisar estar
atento, nos próximos dias teremos mais um vivente habitando a terra.
- Está próximo assim?
- E muito, preparei as guias de internação e a Senhora está sendo aguardada a qualquer
momento, não vou poder estar presente no seu parto mas está tudo perfeito, então não se
preocupe com nada.
- *Marina permaneceu na casa durante algum tempo após o parto, Salvatore não esperou
por ela, queria criar a pequena Biancha perto de médicos e hospitais mais modernos, ficou
ainda algum tempo, mas quando uma infecção obrigou a filha a interromper a amamentação
retornou para São Paulo de imediato onde aguardaria a volta da filha, coincidentemente o fato
ocorreu em um dia no qual Anabela os censurava.
- Pai, vocês cometeram uma loucura. Onde já se viu ter um filho no interior longe de
todos os recursos modernos. Não sei quem é mais criança, o senhor ou Sandra
- É muito mais saudável, Sandra só respirou ar puro durante a gravidez, olhe o bem
proporcionado pelo ambiente à menina.
- Ela é muito bonita mesmo, mas eu não concordo, a próxima nascerá aqui! Ah, quase
me esqueci, chegou um telegrama de Marina. Chega amanhã e quer alguém esperando por ela
no aeroporto.
- Deixe: eu vou. Não vá faltar à aula por isso, se eu ainda estivesse no interior tudo bem,
mas não é o caso.
- Nada disso, minha irmã viaja por um longo período e eu vou deixar de recepcioná-la
por causa de umas aulazinhas sem importância, estarei lá e ninguém vai me impedir.
- Como queira, agora me desculpem mas preciso sair, ajude Sandra com a criança e não
a deixe fazer muito esforço.
235
- Claro pai, deixe comigo, não vou deixar ela mover uma palha. Alias ajudaremos, na
ausência de vocês contratei Tereza, a antiga empregada de Thomas, por isso pedi mais
dinheiro para as despesas.
- *Salvatore Schiavonne estava desesperado, Marina estava há poucos quilômetros de São
Paulo e Anabela iria esperá-la no aeroporto chegando de um vôo internacional precisava
ajeitar tudo rapidamente.
- Já comprei passagens para você ir para o Rio, amanhã cedo você voa de volta.
Anabela já pode estar com algumas idéias erradas e se não ver você descendo de um avião
pode começar a somar dois mais dois, infelizmente você vai descer de um vôo doméstico, isto
deve ser possível de explicar.
- Deixe comigo, se ela notar já terei uma explicação.
- Demitiu o caseiro?
- Sim senhor. E dei um bom dinheiro para ele ir embora, não queria mesmo ficar aqui.
Não gostou de viver no Sul.
- Ótimo.
- *Anabela acompanhava curiosa as pessoas saindo empurrando os carrinhos com as malas
e não viu Marina, depois finalmente conseguiu vê-la através do vidro ao lado da esteira.
- Ela está lá, veja está lá é a minha maninha.
- Já vimos. Mas pare de fazer escândalo, nunca vi, criei duas filhas do mesmo jeito e
esta aqui parece um moleque. Escandalosa e boca suja.
- Eu sei... eu não sou sua favorita, mas a vida é assim mesmo. Como seu xodó voltou
para casa e você pode ficar feliz.
- Não fale assim. Gosto de vocês exatamente do mesmo jeito. Apenas vou levar um
tempo a mais para educá-la. As vezes penso em suas atitudes como um jeito de chamar
atenção.
- Ora Pai. Não me venha com psicologia barata, eu quero minha irmão me vendo,
apenas isso.
- Ela não consegue ver você através do vidro, fique quieta.
- *Marina então era um poço de problemas, mal entrou na casa e já se viu tomada pelo
terror a atormentá-la há muito tempo, havia se esquecido dele enquanto esteve ausente, ali
temia pela volta de Thomas. Talvez um assassino contratado de Pedro Latorre e fugitivo da
policia, quem sabe capaz de matar um desafeto e urinar em cima dele como fizera com Cacá
das Escolas, quando ela iria ter paz?
Sua primeira noite na casa foi povoada por um pesadelo terrível, estava sozinha na
casa, ela foi invadida por um homem enorme, asqueroso, barba por fazer, capa militar, roupas
de couro e um capacete nazista, em uma de suas mãos uma arma com silenciador, na outra
uma lata de cerveja, entornava o liquido, dava uma série de arrotos, amassava o invólucro e
tirava outra do bolso de uma capa onde elas pareciam não ter fim.
- Seu marido me mandou aqui para resolver de vez esta questão, só sua morte lhe
devolverá os seu bens, ele ainda é seu herdeiro em seu testamento. Então de adeus à vida.
236
- Como adeus à vida, eu não fiz nada, devolvo tudo a ele sem criar dificuldades quanto
ele lhe pagou?
- Quinhentos mil cruzeiros.
- Eu lhe pago o dobro me deixe fugir.
- Quem sabe o dobro mais alguns carinhos... Você é uma linda mulher.
O homem se aproxima dela, tenta abraçá-la, ela luta, tenta gritar mais o som não sai de
sua garganta. Sofre muito até acordar, molhada pelo suor vai para a cozinha e encontra
Tereza, expõe suas dúvidas com a pessoa certa.
- Thomas um assassino? Imagine, ele não tinha coragem de matar uma barata. Quando
localizava alguma mandava dedetizar o apartamento.
- Mas e todas as historias a respeito dele?
- Você deve estar falando com muita gente. Thomas me tirou da Coexponal para sua
casa. Ainda mantenho amizade com todos e jamais ouvi nada a respeito dele, exceto a
suspeito no caso do Cacá. Quanto a este crime: nunca foi esclarecido, ele é inocente até prova
em contrário.
- Não foi possível provar nada. Ele desapareceu convenientemente.
- Você chama morrer nas mão de seqüestradores desaparecer convenientemente?
- Thomas não morreu naquele acidente.
- Anabela me falou sobre suas suspeitas, mas elas são infundadas, deixe Thomas
descansar em paz, nunca conheci homem tão bom como ele, detestava qualquer manifestação
de violência. Não as suportava nem nos filmes.
- É disso eu sei, mas quem sabe quem se escondia por baixo daquela pele de cordeiro?
- O meu Thomas jamais usou nenhuma pele, era autêntico, maravilhoso, quando me
demitiu me pagou alguns meses adiantados e se colocou à disposição para me ajudar no
futuro, quis trabalhar de graça para ele... Não aceitou infelizmente. E tem mais.
-
Tem mais?
- Claro! Cacá era aliado dos Latorres, se ele fosse uma assassino a serviço deles teria
assassinado outra pessoa.
- Outra pessoa?
- Claro, Elizabeth Vernaz! A morte de Cacá atrapalhou um projeto deles e beneficiou a
professora.
Marina saiu ainda mais cheia de dúvidas do local, estaria ela cometendo uma injustiça
com o homem ao qual já não sabia como considerar, um amor perdido ou um carrasco?
Quando ele freqüentava seus sonhos era bom e terno, se amavam com loucura, quando não
eram pesadelos horríveis, assassinos, monstros, vampiros, estava chegando ao limite de sua
sanidade.
- Marina vai acabar morrendo, vamos fazer como combinamos, não podemos esperar
mais.
- Você tem certeza? Esta é a atitude certa?
- Não vejo outro jeito, se nós não matarmos Thomas para Marina ele viverá para
sempre, ele precisa morrer de uma vez, e agora definitivamente, assim Diego vai deixar Lúcia
em paz, ela precisa seguir sua própria linha não quer realmente se casar com um garoto.
237
- Ela vai notar! Este corpo é falso, conseguiu reconhecer o outro, e depois existem as
provas colhidas pela policia.
- Agora não. Vai acreditar. Vendo- o morto vai exorcizar o seu medo. Ela aceitaria uma
identidade dele perfurada como prova. Seu ser quer isso.
- *Marina entrou na casa abandonada acompanhada de Athos e do "delegado."
- Ele está aqui?
- Está, Mas não vai ser um espetáculo agradável, você precisa ser forte.
- Já enfrentei muitas coisas nesses últimos anos, não vai ser a visão de um cadáver fato
suficiente para me deixar chocada.
O "delegado" abriu a porta do freezer e dentro dele puderam divisar um cadáver, nu,
tinha duas perfurações de bala na altura do peito, Marina olhou para ele e desmaiou, era
Thomas. Não tinha mais duvida nenhuma, quando voltou a si ainda estavam no local.
- Esperei a Senhorita melhorar para olhar novamente o corpo. E confirmar sua
identificação, precisamos ter certeza.
- É ele, tenho certeza, nunca acreditei na sua morte, mas agora sou obrigada a aceitar.
Há quanto tempo está ai?
- Impossível afirmar com certeza, mas pelo volume de gelo existente talvez um ano ou
dois, houve interrupções de energia neste período e isto precipitou a deterioração em alguns
pontos, Nunca vamos saber ao certo, mas tem mais de um ano, com certeza.
- Como descobriram o corpo?
- Recebemos denuncia de uma ligação clandestina de luz e viemos investigar.
Precisávamos de um mandato para arrombar a porta.
- E não saiu nada na imprensa? Não entendo?
- Jogando limpo?
- Exatamente, jogando limpo.
- A Senhorita sabe, o salários de um delegado não é exatamente uma fortuna, recebemos
a promessa de uma recompensa de Giovanni Bragtoni para localizar Thomas, se vivo colocálo em contato com a senhorita antes de enviá-lo para Santos. Se morto para manter o corpo
dele em segredo, ele não queria Diego Montone sabendo de nossa descoberta, foi um pedido
de Athos Montalban
- Entendo.
- Por isso todos nós andávamos com uma foto dele, senão este corpo seria enterrado
como de um indigente.
- Mas assim serão atrasadas as investigações e se torna mais difícil chegarmos aos seus
assassinos.
- Descobrir seus assassinos? Já fizemos todas as buscas no local. Não existe a menor
pista, objetos, impressões digitais, testemunhas, só este corpo nu dentro de um freezer. A
poeira e as teias de aranha evidenciavam a ausência de pessoas nesta casa há muito tempo. Só
o acaso vai lançar alguma luz sobre este assassinato. Jamais será elucidado se não for assim.
- Vamos sair e conversar um pouco? - solicitou Athos.
238
- Claro. Como você quiser. Mas falamos depois, quero tomar um banho A poeira desta
casa está me causando problemas na pele, estou com coceira no corpo todo.
- Vamos para o meu quarto no hotel, não há necessidade de alugar um para você. Quero
ir embora daqui o mais rápido possível e a cidade está lotada de turistas. Não vamos perder
tempo procurando um quarto.
A reação de Marina foi no minimo inesperada.
- Você não precisa me levar para a cama! - respondeu revoltada. - Não sou uma das
mulheres de Diego com as quais você precisa se envolver para resolver seus envolvimentos,
eu não vou perturbá-lo depois desta descoberta de hoje, fique tranqüilo. A morte de Thomas
não muda nada.
- Como você pode pensar isso de mim?
- Era o comentário geral na Montone.
- Mas no tocante a você isto não se aplica, eu só fiz o bem para sua família até hoje. balbuciou Athos visivelmente abatido, e esta visão comoveu Marina, fê-la ver em quem
estava se transformando.
- Me desculpe Athos, meu pai de santo sempre me preveniu contra você, não sei como
pude ser tão grossa, vamos para o seu quarto.
- Agora eu gostei. - respondeu ele sorridente. - preciso realmente de sua confiança. Vou
comprar uma roupa limpa e mando a camareira colocar sobre a cama, tem um robe sem uso
no quarto, você só precisa disso.
- *Pedro Latorre andava de um lado para o outro, falava e gesticulava muito, Diego ouvia
sem interromper, o amigo lhe trazia uma situação muito grave:
- .....concluindo, vou ser obrigado a retirar a minha chapa, se tentar mantê-la
documentos muito fortes serão utilizados contra mim, será a minha ruína moral, nada existe
para me levar à cadeia ou mesmo me causar prejuízos financeiros diretos, mas sem
credibilidade moral estou arruinado. Tenho uma cooperativa, a Coexponal pode desabar.
Diego ficou algum tempo pensativo, entre as provas obtidas contra Pedro Latorre
algumas eram forjadas, embora muito fortes, algumas colocavam-no na casa onde
supostamente Thomas ficara cativo.
Diego pensou em deixá-lo cuidar de seus problemas, se era inocente dessa, certamente
não era de outras, mas não tinha índole para agir assim, não iria permitir a punição do
empresário por um fato não ocorrido. Pela morte de um homem na verdade ainda vivo.
Apenas Marina tinha conhecimento da existência de um corpo tornando isso um fato. Diego
estava entre os que não o consideravam morto acreditava na veracidade da carta de Edgard.
- Olhe Pedro... o Doutor Moreira andou falando umas besteiras para mim por telefone e
isso o deixou de certa forma nas minhas mãos, está envolvido com a oposição de seu
sindicato, mas também me deve algo, entreguei a ele muitos papéis importantes com os quais
eu poderia ter feito muito contra o partido, ainda tenho outros, então acho possível negocias e
chegar à fonte de suas provas através dele, não garanto mais posso tentar.
- Quando terei uma resposta?
- Que tal agora?
- Rápido assim?
239
- Será agora ou nunca? Deixe- me um minuto a sós.
Diego falou alguns minutos no telefone e Pedro pode notar seu ar de surpresa durante a
conversa. Não podia ouvi-lo. A conversa foi reservada. Mas podia observá-lo através do
vidro, quando recebeu um sinal para voltar a sala encontrou um homem com um ar
preocupado e decepcionado.
- Pedro você pode não gostar da minha informação, é grave. Quer assim mesmo? Talvez
fosse preferível você negociar e retirar sua chapa em troca dos documentos. No futuro você
volta a tentar.
- Não posso fazer isso, se ceder a esta chantagem numa mais vou ter força junto ao
sindicado, vim aqui tentar ajuda neste caso, logo, se for possivel, eu quero!
- Então, vamos negociar. Se a informação vingar quero todos os envolvidos, ou
suspeitos fora da Coexponal, seja quem for, independente de seu nível de culpa ou amizade.
- Pode ter certeza disso, quem ajudou, não importa como está fora, definitivamente fora
da Coexponal e da...
- Não fale mais, eu poderia compreender errado, se for verdade, as provas contra você
estão em um cofre a poucos metros de sua sala, você jamais o revistaria, é de um cidadão
acima de qualquer suspeita! - e Diego continuou falando enquanto o homem perdia seu ar
confiante de sempre substituindo-o por um de frustração e imensa tristeza, depois se despediu
e saiu cabisbaixo, inconsolado com a descoberta.
Diego ficou pensando nas conseqüências de sua informação, em breve algumas cabeças
seriam colocadas a prêmio, isso era certo. Suas informações causariam mortes, quantas?
Impossível prever, mas haveriam, o sindicato envolvia muitos interesses, dinheiro, poder,
ascensão política, quem o queria não tivera escrúpulos para tentar chegar até ele, pagaria
agora o preço da tentativa.
Pensou em avisar os envolvidos, mas desistiu, errara ao dar a informação a Pedro
Latorre, fora inconseqüente, mas agora era tarde, mesmo sendo o único homem capaz de
influir no rumo dos acontecimentos e não o faria, o preço podia ser muito alto, quem pagaria?
Seu pai? Sua mãe? até Marina estaria ameaçada se um dia viessem a se encontrar. Se alguém
escapasse da fúria do mafioso sua ira se voltaria contra seu informante e no caso não poderia
ser outro além dele.
Se os traidores de Pedro Latorre acharam compensador o risco deviam agora arcar com as
conseqüências, seria cobra comendo cobra. O melhor seria deixá-los consumir entre si seu
próprio veneno. Não estariam eles mesmos disposto a liquidar o chefão?
Olhou para o quadro existente na parede:
Quando os brutos se houverem devorado uns aos outros, poderá finalmente ser posta em
prática a moral cristã, e os mansos herdarão a terra.
James Hilton
A luta era entre os brutos, eles deveriam resolvê-la.
DECEPÇÃO COM AS CRENÇAS E DESESPERO COM O CASAMENTO DE DIEGO.
Marina demorou muito tempo no banho, parecia não estar lavando apenas a poeira, a
água escorrendo pelo ralo parecia levar com ela o seu passado, os últimos traços do medo de
Thomas Aguiar, agora definitivamente morto estavam ainda representados pelo pó
impregnado nela ao entrar naquele velho armazém, e aos poucos desapareciam junto a água
240
escoando pelo ralo. Sua lembrança? Ficaria para sempre gravado em sua memória, uma
recordação cheia de dúvidas, jamais saberia quem era o homem pelo qual esteve apaixonado
durante anos, dedicara seu passado e interferira em seu futuro.
Estivera enganada o tempo todo em suas certezas, a espera por ele fora em vão, mesmo
seus medos não se justificavam há muito. Estava morto! Alguém mantivera seu corpo
conservado por algum motivo inexplicável. Quando saiu do banho encontrou uma troca de roupa
completa sobre a cama. Achou-a pequena. Seu corpo ainda deveria ter algumas lembranças da
gravidez, as indefectíveis estrias e umas gorduras a mais, nunca se observara depois do parto.
No entanto quando se olhou no espelho não as viu. Chegou mais perto do mesmo e o examinou
com cuidado. Mão havia excessos de gordura nem qualquer outra marca. Não estava se
cuidando como poderia ter acontecido? A natureza estava sendo por demais generosa com ela.
Desceu para o saguão do Meridien onde Athos esperava por ela e dai foram para a
frente do hotel onde se apoiaram na mureta da ampla área de acesso ao hotel construída sobre
pedras. Ela fixou seu olhar no mar buscando uma resposta no infinito, mas não havia nada lá
para elucidá-la então inquiriu o homem de branco ao seu lado.
- Qual a participação de Giovanni Bragtoni nesta história, não sei qual o interesse dele
em gratificar o delegado.
- Ele quer ajudar na relação de vocês. Estou me referindo a Diego.
- Ainda não entendi.
- Ele não acha ideal se um dia vocês reatarem isso for em função da prova da morte de
Thomas. Poderia magoar Diego.
- E por acaso eu tenho a intenção de reatar alguma coisa? Como ele pode imaginar isso?
- Entenda. Vocês estavam para se casar e desmancharam o noivado em função da
situação provocada pela carta de Edgard. No modo de pensar dele comprovada a morte de
Thomas a situação poderia se inverter.
- Mas não vai se inverter, Diego é um capitulo encerrado. Vou recomeçar sem ninguém
do meu passado.
- Está bem, vamos esquecer Diego, mas existem outros motivos para manter esta
descoberta em segredo. Não existe o menor indício para se chegar aos assassinos dele. A arma
do crime estava no local, sem impressões, deixar tudo como está é a melhor coisa.
- Quero-o tendo um enterro decente.
- Escute bem, o aparecimento deste corpo vai causar novos traumas para a famílias de
Thomas. Seus pais, irmãos, vão reviver tristezas já superadas por todos os seus. Para eles o
pai é apenas um pouco de cinza repousando nos pés da roseira de um jardim. Pense em Lúcia
e nas crianças.
- E ele vai ser enterrado como indigente?
- Podemos cremá-lo e jogar as cinzas na roseira onde repousam as do homem cremado
em seu lugar. É suficiente para você.
- Tem mesmo jeito de se fazer isso?
- Vai custar algum dinheiro mas pode ser feito.
- Consiga isso e eu saberei manter o silêncio.
- *-
241
Marina retomou sua vida com toda a força, se associou a Anabela e montaram uma
pequena imobiliária, onde administrava inicialmente apenas os bens de seu pai.
Marina era muito querida por todos. Então vieram os bens de Lúcia os dos Montones, e,
finalmente os de Fabiano de Lucca, tudo dentro do normal, mas o grande choque, o inusitado
no entanto, foi serem procuradas pelo filho de Cacá das Escolas, o homem a quem Thomas
fora acusado de assassinar e da família de Paulo Serafim Marconi lhes entregando também a
administração de seus incontáveis imóveis, fato fora de propósito, não entenderam
absolutamente nada, em seguida foram procuradas por outras famílias originarias da
Inglaterra, Transilvânia e da Luisiânia e de amigos destes.
Como nunca fizeram publicidade não entendiam o motivo de tudo isso. No entanto,
eram clientes e elas os consideravam bem vindos. Isso as obrigou a contratar uma série de
funcionários e um advogado em período integral, passaram muito rápido de uma pequena
administradora para uma de grande porte, felizmente montara a empresa pensando no
crescimento e não tiveram problema de espaço.
A advogada contratada por Anabela e responsável pelas negociações a deixou intrigada.
- Anabela onde você arrumou esta advogada?
- A Doutora Thyphany?
- Isto, eu já a conheci como empregada domestica, como médica e agora como
advogada, não pode ser.
- Marina, você anda imaginando coisas. A Doutora Thyphany alem de ser uma
excelente advogada é especializada em computadores. Estudou a vida inteira! não podia ficar
fazendo bico como empregada doméstica.
- Não ando imaginando nada, e agora ela nem se deu ao trabalho de mudar os cabelos,
quero uma investigação a cerca dos documentos dela, principalmente na Ordem dos
Advogados do Brasil, tem alguma coisa estranha nisso tudo.
- Você está se referindo a isso? - perguntou a advogada atrás dela com uma foto na mão.
Marina olhou impressionada para a foto. Quatro garotas perfeitamente iguais. A
exceção era uma delas cujo cabelo era mais claro. No resto não havia diferenças.
- Somos quadrigêmeas e todas com o mesmo nome, estas são minhas irmãs, Thyphany
Silvia, Thiphany Pâmela, Thyphany Paula, eu sou Thyphany Rachel. Às vezes nos divertimos
muito com isso, mas nenhuma de nós é empregada domestica. De onde conhece minhas
outras irmãs?
- Isto não tem importância, esqueça. Quadrigêmeas.... e precisava acontecer comigo?
Marina pediu licença e foi para casa, rebuscou em todas as gavetas da escrivaninha o
bilhete deixado por Thyphany se referia a um cartão, finalmente o encontrou dentro do
plástico da capa da agenda.
THYPHANY PÂMELA DE MELLO RAMOS Arquitetura e
decoração.
Sentiu vontade de telefonar para ela e pedir desculpas. Possivelmente ajudara Thomas
na decoração da casa tratara-a como uma simples doméstica. Pensou melhor e desistiu.
Estava cansada e confusa, foi para o quarto onde dormiu o resto do dia.
- *Pedro Latorre andava desesperadamente de um lado para o outro, Diego Montone
cumprira sua promessa e mostrava a ele os rascunhos da reportagem sobre os sindicatos e
cooperativas.
242
- Você não pode publicar isso. Pode me levar à ruína. - exagerou. - isto até parece ter
sido retirado de minha administração. Alguns pontos aqui podem motivar uma investigação
com conseqüências catastróficas.
- Nada disso se refere a Coexponal e sim a outras empresas. Talvez o sistema de
falcatruas seja comum a todos. Eu cumpri a minha promessa e não investiguei seu sindicato
nem suas empresas.
- Tudo funciona mais ou menos da mesma maneira. Você está mostrando os pontos
onde estão as falcatruas com muita clareza, com esta história de Procon e associações de
defesa do consumidor vamos ser engolidos por este escândalo. Sempre fomos amigos e eu o
ajudei em muitos momentos difíceis.
- Como? Conseguindo drogas para mim com mais facilidade e ouvindo meus problemas
enquanto entornávamos um barril de uísque? Me apresentando beldades interessadas em ficar
famosa e tirando também proveito disso?
- Eu lhe darei dinheiro, muito dinheiro. Faça o seu preço.
- Eu já tenho dinheiro, minha fortuna e bem superior a sua. Não pode me comprar.
- Como mais dinheiro? Quando você precisa voar usa um de meus aviões. Vai viajar, se
hospeda em meus hotéis, onde está o seu dinheiro?
- Pedro, eu apenas não gosto de ostentar riqueza. Não moro em uma fazenda com
dezenas de empregados, não tenho aviões, mas tenho certeza, minha fortuna é superior à sua;
e, tem mais! Totalmente legal.
- Estabeleça um preço, eu pagarei. Sinceramente, se fosse outra pessoa eu resolveria de
outra maneira, mas os Montones são muito poderosos. Enfrentá-los poderia ser muito
perigoso.
- Não seja exagerado Pedro! Nada disso é novidade. Você não quer é problema com
investigações, nada disso vai lhe afetar realmente.
- Eu não sei realmente, mas investigações sempre são problemáticas.
- Pensando bem você pode me pagar, tenho uma amiga cujo romance foi atrapalhado
por seu irmão e talvez em decorrência disso nunca mais seja totalmente feliz, é tarde para
salvar o romance, mas existe outra condição sim, ouça
Pedro Latorre ouviu atentamente as palavra de Diego, conversaram ainda durante algum
tempo, depois disso gritou:
- Mandem o idiota do Abílio aqui. E já!
- *Vitor e Maurinho conversavam com o pai de santo, precisavam urgentemente do
dinheiro. Podiam não participar da herança do pai, mas agora as irmãs eram mulheres muito
bem sucedidas. Em noventa dias a multinacional iria tornar pública a venda da gravadora, eles
perderiam a opção de compra assinada. Precisariam disputar seu controle na bolsa e não
tinham tanto capital.
- Se ela concordar em nos dar o dinheiro nos lhe daremos cinco por cento da gravadora,
uma fortuna para quem está acostumado a viver de golpes. Você pode se tornar um cidadão
respeitável.
- Está bem, hoje eu vou tentar tudo, mas e se eu falhar?
- Se isto acontecer perdemos todos. Investimos muito para conseguir a opção de
compra.
243
- E se ela concordar apenas em anular o documento? Não haverá dinheiro, seu pai está
vivo.
- Ai você vai cuidar do velho. Ou não pode?
- Posso claro. Mas ai cinco por cento é pouco: pelo menos dez.
- Sete e meio, e não se fala mais nisso.
Marina aguardava pacientemente. o sucesso fenomenal de sua imobiliária e a ascensão
de sua construtora só conseguiam fascinar realmente a Anabela. Falar com a mãe era um dos
poucos momentos de alegria de sua vida. Quando fosse chamada à frente iria saber como
Isilda estava lá entre os anjinhos. Tinha sido deixada de lado por muito tempo. Comparecia ao
local dia após dia e o espírito de sua mãe não se manifestava. Esta ausencia a fazia confiar
mais no terreiro. Se os médiuns estivessem fingindo poderiam conversar com ela todas as
semanas, ela não faltava a uma única sessão. Seu pai e seus amigos estavam levantando
calunias sobre eles.
- Marina, Marina, estou aqui, finalmente consegui romper as barreiras me impedindo de
ver você.
- Estou aqui mãe não vá embora. Não vá embora.
- Venha até mim minha filha. Venha até sua mãe.
- Mãe, porque demorou tanto. Há muito espero por você.
- Seus atos me impedem de me manifestar. Seu egoísmo me segura junto ao limbo.
Preciso de paz para meu espírito.
- Vou orar mais pela Senhora mãe. Muito mais, vou acender velas e rezar para iluminar
o seu caminho.
- É preciso mais minha filha. É necessário uma prova de seu desprendimento pelas
coisas materiais, corrigir o mal feito aos seus irmãos.
- Vou fazer um acerto com eles. Recompensá-los de qualquer prejuízo. Posso até
entregar tudo a eles.
- Não ainda meu biju. Nós o faremos oportunamente, por enquanto ajude os pobres.
Venda uma parte de seus bens e doe para obras de caridade. Já será um começo.
- Doar para obras de caridade? Estou entendendo mãe, a alguma em especial?
- Converse com o Pai Antônio. Ele lhe ajudará a fazer tudo. É a melhor forma.
- A Senhora encontrou Thomas mãe? - perguntou Marina.
- Esqueça-o filha. Não posso encontrá-lo. Está vivo e não merece você. Já tem outra
mulher, livre-se de tudo ligando você a esse homem. Só ira lhe trazer infelicidade. Entregue
tudo aos filhos dele ou aos pobres do Pai Antônio. mas não fique com nada. - continuou a
médium aumentando substancialmente o pedido.
Marina começou a andar para fora do local, as lágrimas caindo registravam sua revolta.
Estava sendo vítima de um golpe, sabia agora. Thomas estava morto, ela sabia. Como podia
ter outra mulher? O espirito de sua mãe estava mentindo, inadmissível, caiu em si, estivera se
enganando o tempo todo, demonstrara uma ingenuidade hilária, simplesmente a presença dela
nunca ocorrera de verdade, era tudo uma tremenda fraude. Olhou para a porta Athos estava
ali, ficou feliz, Pai Antônio sem entender nada a acompanhava esperando pela costumeira
doação.
244
- Minha filha, desculpe-me, normalmente eu até reluto em aceitar, mas você sabe, as
minhas crianças.....
- Eu devia colocá-lo na cadeia. Talvez algum dia alguém faça isso ainda. - respondeu
ainda com a voz embargada. - Como pode ser tão baixo? - Thomas está morto, eu vi seu
corpo. Posso provar.
- Não entendo minha filha. Eu não fico com nada para mim, é tudo para as minhas
crianças.
- Devo trazer a policia para ver onde você gasta as doações?
- Minha filha. Você está envenenada pelo ódio, vá para casa e descanse. Amanhã você
vai ver tudo diferente.
- Pode ter certeza disso. A partir de amanha eu realmente vou ver tudo diferente. Agora
suma de perto de mim ou não respondo por meus atos.
- Não faça assim minha filha, não faça assim.
Marina vibrou a bolsa no rosto do pai de santo e dois homens correram em seu socorro
imediatamente, quando um deles se preparava para agredi-la Athos falou:
- Isto aqui faz um buraco difícil de tampar, quem quer ser o primeiro?
- Calma homem só estávamos defendendo nosso pai de santo.
- Defendendo um homem deste tamanho de uma mulher? - atirou para cima. - Todo
mundo deitado no chão. Quem se mexer morre. E não estou brincando.
Dois seguranças tentaram empunhar as armas, dois tiros certeiros e os dois tombaram
feridos. Os demais correram para o fundo do terreiro.
- Vamos sair daqui. Precisava ser em um lugar tão ermo? - lamentou Athos.
- Só agora eu me dei conta disso. - observou Marina apavorada.
Athos ainda pode ouvir quando o charlatão gritava. - Pegue-os, não quero nenhum dos
dois dando com a língua nos dentes. Vão virar presunto ainda hoje.
- Eles estão saindo pelos fundos, corra e ligue o carro. Passe para o banco do carona e
me espere.
- E o seu carro?
- Estou a pé, vim de ônibus. Faça como pedi.
Athos atirou no portão dos fundos e todos correram novamente para dentro, então ele
entrou no carro e mandou Marina colocar o cinto e se segurar arrancando a toda velocidade,
mas a reação do meliantes foi rápida e quando atingiram a estrada estavam sendo seguidos
por três carros.
- Para quem dá todo o dinheiro para obras de caridade eles estão muito bem e não são
carrinhos, preciso pisar nesta máquina, senão eles nos pegam.
Marina se impressionou com a condução do veiculo. Andava praticamente na mesma
velocidade nas curvas e nas retas, em poucos minutos os carros de seus perseguidores não
estavam mais à vista.
- Você dirige sempre assim?
- Só quando estou com muito medo. Normalmente sou extremamente calmo.
245
- Vocês... me parece.... têm um filme para me mostrar sobre a minha igreja, eu gostaria
de assisti-lo agora.
- *Marina ficou olhando para as imagens, seu pai, Giovanni e Athos recebendo dinheiro do
pastor e inclusive sendo servidos com uma boa cachaça.
- Me dê alguma coisa para acreditar Athos? Senão eu vou me desesperar e entrar em
parafuso, minha vida é um poço de problemas, é tudo tão sem sentido.
- Acredite em Deus. Mas não tente sustentá-lo. Ele não cobra pelos seus serviços nem
pelos seus milagres, não existe nada sobre a Terra tão importante para ser objeto de sua
cobiça. Tudo lhe pertence, é resultado direto de sua obra, não precisa de nada.
- Entendi, não posso dar nada a quem possui tudo.
- Pode sim, o amor espontâneo e a bondade sincera sem valor pré-estipulado.
- Você está sabendo muito sobre mim, fico impressionada talvez ainda seja possível
reconquistar Diego, ele não tem nenhum compromisso formal com Lúcia, vou procurá-lo
amanha, afinal o meu destino está sendo decidido sem minha participação.
- Gostei de ouvir isso.
- *Marina no entanto não chegou a procurar Diego quando recebeu o telefonema de
Rebecca concluiu: havia esperado demais.
- Oi Marina, finalmente a minha mãe vai desencantar. O casamento será no outro
sábado e os convites atrasaram anote ai o endereço da igreja. Ainda não temos certeza do
local da recepção, mas deverá ser na casa de Diego ou no La Residence. Depende de quem
vai ganhar a luta...
Quanto a garota desligou ela ficou arrasada, Thomas estava morto, agora tinha certeza
há uma semana. Diego, o único homem pelo qual se interessara alem dele decidira seu
destino. Não podia mais interferir a esta altura dos acontecimentos, não seria ela a; mais uma
vez; ficar com o companheiro de Lucia.
- Não há de ser nada. A vida é longa e as oportunidades são muitas. - falou sem pensar.
- Opa, qual foi a oportunidade perdida?
- Oportunidade? - percebeu a presença de Anabela na sala.
- Você acabou de lamentar uma oportunidade perdida.
- Ah, foi isso, um terreno... muito bom para construir um prédio. Esqueça, não estamos
em condições de comprar nada, temos três construções em andamento e ainda não vendemos
nenhuma unidade
- Onde era o terreno?
- Era... era...
Era no Imirim, - interferiu Thyphany. - mas como você sabe estamos com o caixa
baixo.
- Nós podíamos utilizar nossas contas particulares eu não aceito perder nada.
- Não adianta, já venderam mesmo. - afirmou Thyphany encerrando a conversa.
- Então o negócio é esquecer, até mais. Me consultem da próxima vez.
246
- Obrigada Thyphany. - Marina se manifestou tão logo Anabela saiu. - Não sou boa
para inventar histórias e já estava me perdendo.
- Este é o meus serviço e não o seu. Vocês administram e os advogados inventam
histórias. Não tente fazer diferente, não dará certo.
- *Marina ainda teria outra surpresa. Talvez tivesse chegado muito cedo e iria assistir
outro casamento antes do de Diego; e, por ironia do destino de Fabiano de Lucca. Ele estava
em pé junto ao altar aguardando a noiva. Não amava este último e nunca tivera realmente
nada com ele, mas era um pretendente à sua mão e já não mais disponível. Estava perdendo
dois partidos no mesmo dia, mesmo não sendo ligada à ele não pode evitar um sentimento de
frustração, parecia condenada a permanecer solteira, Anabela se casaria na próxima semana,
ela seria a "Titia" dos Schiavonnes.
Saiu para a rua. Não queria suportar duas cerimônias, detestava estas oportunidades, e
só retornou novamente para dentro da igreja quando viu o casal indo embora para assistir ao
casamento de Diego e Lúcia.
- Oi Marina, não vi você durante a cerimônia.
- Eu não sou uma pessoa muito grande, mas estava aqui.
- Eu sei. Vi seu carro estacionado quando entrei, a propósito, recebeu o convite?
- Sim, recebi.
- Então já sabe! A recepção será mesmo na casa de Diego, mamãe queria usar o La
Residence seu buffet favorito, então Fabiano juntou as duas coisas, usou o serviço de um e o
local do outro, fez questão de aceitar o presente de seu Vincenzo, jamais ofenderia um de seus
principais clientes.
- Presente de seu Vincenzo?
- É, mamãe e Fabiano não precisam de nada, têm duas casas muito bem montadas.
Então ele fez questão de ceder a mansão para a recepção.
Fabiano de Lucca e Lúcia Aguiar, interessante, se conheceram através dela, mas nunca
notara nenhum interesse especial entre eles, isto só significava uma coisa: Diego estava livre.
- *Marina estava exultante quando entrou no carro, agora as coisas caminhavam no rumo
certo, a festa seria na cada de Diego. Ela iria leva-lo para o meio daquele jardim tão bem
cuidado por Saburo passear por aqueles labirintos de cerca viva e lhe pedir perdão. Ele iria
entender e passar uma borracha sobre tudo. Queria se redimir de todos os problemas
causados em virtude de sua fixação por Thomas e deixar claro seu amor. Sempre o amara na
verdade, tinha certeza disso, e agora podia viver este sentimento.
Não viu Diego entre os convidados e desejando ardentemente achá-lo ela entrou no
salão de jantar arrumado para a recepção e perguntou a um garçom.
- Por favor, o Senhor conhece Diego Montone?
- Claro, quem não conhece!
- Eu gostaria de localizá-lo, sabe onde está?
- Ele foi naquela direção.
247
Estava tudo absolutamente correto, Diego seguira em direção ao jardim, exatamente
onde ela queria encontrá-lo. Estava perto do grande final, dividiria com os noivos a felicidade
do dia, ou melhor, como se diz no teatro, "roubariam a cena", ninguém podia estar tão feliz.
Diego era um homem alto, podia ver um pouco de seu cabelo do outro lado da cerca
viva, algo muito forte o havia empurrado para o jardim, quem sabe a solidão, talvez os anjos
do céu. Queriam reuni-los em um ambiente maravilhoso, no meio de rosas, jasmins e
miosótis. A natureza iria colaborar com a beleza e o aroma; eles entrariam com suas emoções
um quadro lindo e comovente.
Olhou através das roseiras e descobriu algo decepcionante, seus pensamentos estavam
parcialmente certos, algo muito forte o levara para lá, mas não se chamava solidão e sim
Gianne Fontoura, não viu seus rostos, estavam colados, mas pode reconhecer o vestido da
artista, vira-a em frente à igreja. Talvez já se gostassem antes quando ela era uma simples
empregada da casa, agora ela era uma mulher importante e envolvida em muitos projetos,
podia namorá-la publicamente. Ficou ali estática, quando as mãos de Diego levantaram o
vestido da atriz ela se sentiu aviltada, insultada no mais profundo de seu ser. Demorou um
pouco para recuperar o controle sobre os próprios movimentos e saiu rapidamente do local.
Começou a andar decididamente em direção ao carro, estava para ir embora, quando
teve sua passagem cortada por Vincenzo Montone.
- Onde vai minha futura nora?
- Vou até meu carro pegar cigarros, depois vou para dentro.
- Acompanho você, estou morrendo de saudades, Biancha também... tenho uma
surpresa para você; seus pais estão na festa, bem... seu pai e sua madrasta, aquele velho sem
vergonha se casou com uma garotinha e não está perdendo tempo, um filho no colo e outro na
barriga.
- É, papai está muito feliz, Sandra faz tudo por ele.
- Eu observei. Apesar dela ser uma rainha vigia seu pai com marcação serrada. É muito
ciumenta.
- O novo casamento lhe fez muito bem, ele agora vai ao salão de beleza com muita
assiduidade pinta os cabelos e outras coisas mais esta terrivelmente charmoso. Sandra não o
faz com tanta freqüência e com aquele barrigão fica com medo dele sair por ai aprontando
alguma.
- Chegamos. Pegue o cigarro e vamos entrar, Biancha vai ficar feliz em vê-la.
- Gozado, não estou encontrando nada aqui, vou sair e comprar, depois eu volto. respondeu Marina sorrindo.
- Eu estaria enganado ou minha querida amiga está pretendendo se ausentar
definitivamente?
- Não me pressione, por favor, eu estou quase desmontando.
- Imagino o motivo. Diego nunca foi tão indiscreto, mas bebeu a tarde toda, anda
arrasado. Ficou com ciúmes não foi?
Marina começou a chorar, Vincenzo Montone entrou no carro e o colocou em
movimento.
- Pensando bem eu também estou sem cigarros, então acho bom irmos comprar, quem
sabe Ítalo tenha deixado as cigarreiras vazias e quando fico sem alguma coisa sou um homem
muito nervoso.
248
- Ítalo nunca esquece nenhum detalhe, deve ter cigarros à vontade lá dentro.
- Então vamos admitir o seguinte: eu também estou um pouco emocionado e não quero
meus convidados vendo meus olhos vermelhos. Meu sucesso nos negócios e conseqüência
das pessoas me considerarem um homem sem coração. Você tem lenços de papel no carro.
- Claro!
- Então me empreste alguns, eu detesto lenços tradicionais.
Não era comum o Las Veigas receber um casal vestido daquela maneira. Vincenzo
Montone chamava atenção de qualquer maneira, era um homem muito alto e forte, mas
vestido de casaca e acompanhado por uma mulher vestida para uma grande ocasião?
Entrando em uma pizzaria? Não podiam deixar de ser o centro das atenções. Observando
aquilo ele brincou com todos como era seu costume.
- Não precisam se levantar, continuem comendo, por favor só vou fazer o numero de
mágicas mais tarde, primeiro eu e minha partner vamos tomar um chope.
- O Senhor faz mágicas mesmo? - perguntou um garoto.
- Claro, quer ver uma? - e fez uma brincadeira onde parecia estar rompendo o dedão em
dois.
- Isto é muito fácil, todo mundo sabe. - falou o garoto entediado. - Eu também faço,
queria algo mais interessante.
- Então faça essa. - algumas moedas caíram do nariz do garoto realmente surpreso.
- Esta foi legal, faça de novo.
- Mais tarde. Antes vou tomar o meu chope. Fique com as moedas, eu faço tantas
quando quero.
- Esta bem moço, obrigado.
Passado o impacto inicial causado por sua entrada a casa voltou ao normal e as pessoas
passaram a se preocupar com suas próprias vidas. Marina agora ostentava um sorriso no rosto.
- Não sabia destas suas habilidades.
- Eu treino muito, me preparei para ter um batalhão de netos, e só tive três filhos, um
morreu, Diego não se casa e Biancha foi morar no exterior... mas também não se casa. Minha
esperança era você, a menina. A filha de seu pai, ele a chamou de Biancha em homenagem à
minha esposa?
- Na verdade não, é um pedido meu, homenagem à mãe de Thomas, Mas nós não
precisamos contar isso a ela. - e completou. - Vamos ficar com a sua versão.
- Ela é muito bonita, lembra a minha Biancha quando era pequena, nunca vi parecerem
tanto, não fossem os cabelos... escuros como os de Diego.
- *Marina observava a pequena Biancha brincando com o irmão, recém-nascido, seu pai
fizera questão de chamá-lo Diego. Ela protestara contra isso, mas não conseguiu lograr êxito,
seu pai seria eternamente grato ao repórter, achava-o responsável por sua liberdade, pela vida
abastada na qual se encontravam, pela sua felicidade enfim. Marina amava a todos, mas
adorava a pequena Biancha, a alegria da casa e tinha certeza ela era fruto de uma noite de
amor com Thomas, embora carregasse o gen dos Montones.
249
MARINA A INDIFERENTE
Deste dia em diante surgiu uma nova Marina, amarga, fria, sua única preocupação eram os
negócios não conversava sobre nada, a não ser a Schiavonne & Associados. Montou outros
segmentos, se envolveu com novas construções, sua vida passou a existir em função do
dinheiro.
Salvatore Schiavonne temendo novas investidas dos filhos cantores procedeu à divisão
de seus bens em vida: quatro partes iguais, duas para os filhos menores, das quais manteve o
usufruto para si e para Sandra e as demais livres e desimpedidas para as filhas maiores.
Marina transformou sua parte e a da irmã em dinheiro e com isso foi possível tocar vários
empreendimentos ao mesmo tempo.
Anabela e o marido se mostraram grandes administradores e tudo corria
maravilhosamente no plano financeiro, já no afetivo. Nem tanto. As crianças eram as únicas a
receber uma demonstração real de humanidade de Marina, no mais seu coração pareça ter
endurecido, só era carinhosa e terna com os irmãos menores e sobrinhos. Romance, no
entanto, era uma palavra aparentemente banida de seu dicionário, quanto a Thomas, coisas
importantes aconteceram.
- Dona Marina, seu Athos está ai fora, quer falar com a senhorita.
- Athos, mande entrar, já não o vejo a muito,
Quando Athos entrou ela o observou minuciosamente, o mesmo terno, o mesmo rosto, o
mesmo corpo.
- Athos, que satisfação vê-lo, como faz para manter esta forma.
- Como o suficiente e não bebo alem da conta, o resto acontece, agora me conte o seu
segredo, como faz para rejuvenescer?
- Obrigada Athos, mas estou envelhecendo, meu coração endureceu e meu corpo me
parece não liga muito para nada, não pede nada, como quando tenho muita fome, e raramente
bebo, só trabalho.
- Então vou arrumar um emprego noturno também, quem sabe dá certo.
- Posso lhe ajudar em alguma coisa.
- Como você não atendeu Diego, eu vim pedir para você ouvir duas fitas.
- Só isso?
- Nada mais trouxe até o gravador.
- Então vamos lá,
Athos apertou o botão e ela ouviu a voz de Pedro Latorre;
“- Estabeleça um preço, eu pagarei. Sinceramente, se fosse outra pessoa eu resolveria de
outra maneira, mas os Montones são muito poderosos. Enfrentá-los poderia ser muito
perigoso.”
“- Pensando bem você pode me pagar, - ouviu- se uma série de ruídos em seguida a fita
continuou - mas existe outra condição sim, ouça eu quero saber a verdade, sentir estar
ouvindo a verdade, ou nada feito! Você matou Thomas Aguiar?”
“- Eu? Quem iria matar Thomas, um homem bom, inocente até. Inventou aquela história
de pagarmos a mercadoria antes do aumento, é verdade, conseguimos muito dinheiro,
alavancou meu crescimento, mas fora isso era apenas um bom administrador, excelente até,
250
mas nunca quis se envolver, quando descobriu os negócios sujos de Alexandre simplesmente
se demitiu.”
“- Mas voltou!”
“- Voltou, eu concordei, mas não ia ficar, não tinha estômago para isso, eu ainda o
coloquei no setor de relatórios, onde não se envolveria com nenhuma violência, pedi a ele
para conseguir outras maneiras de desviar dinheiro, ele concordou, mas com certeza não o
faria.”
“- E porque o contratou novamente?
“- Thomas era um exemplo de amizade, lealdade e eficiência, tendo-o analisando os
relatórios eu tinha muito a ganhar, não iria confiar somente nas informações dele, eu mesmo
os analisava com cuidado, mas se eu deixasse passar alguma coisa não aconteceria com ele, e
vice e versa.
“- E Alexandre?”
“- Não posso responder por ele, sinto muito.”
Houve um espaço e ela ouviu outra voz, não reconheceu:
“- Foi em defesa própria, guardei a arma dele comigo e as roupas rasgadas por ele,
algumas tem marcas de sangue, outras não mas tem terra e resto de grama do local, bem forte
nas costas, a perícia talvez consiga ver ali uma prova de tentativa de estupro.”
“- Mas ele foi agredido violentamente, como poderia estar tentando estuprá-la” Marina reconheceu a voz de Diego.
“- Eu contei toda a história, ele me tirou do sério, quando escapei tive um ataque de
nervos, ainda estava de botas. A única peça do vestuário no meu corpo, não contive meu ódio
pelo homem e desferi diversos chutes nele, sinto muito.”
“- E porque veio me procurar.”
“- Suas investigações sobre os sindicatos muitas vezes esbarraram em fatos importantes.
Eu acompanhei tudo e me senti em perigo.”
“- Nunca vi nada ligado a Cacá nessas investigações.”
“- Cacá era o homem citado pelos seus informantes como Alemão, tramava com
Alexandre Latorre, não podiam chamá-lo pelo nome no sub-mundo. Mas era ele.”
“- Realmente eu ia entrar nesse campo, mas não vou mais. Abandonei as investigações,
você jamais seria descoberta.”
“- Eu não sabia disso. Fui obrigada a procurá-lo, você podia dirigir a policia para o meu
lado, agora paciência, vou ser forçada a me entregar.”
“- Esqueça, conheço seu trabalho junto as creches, colocá-la atras das...
Athos desligou o gravador, não esperou muito para ir embora, Marina também não,
perdera a vontade de trabalhar, sua agenda não tinha nenhum compromisso importante, mas
não foi para casa, iria acender umas velas e rezar por aquele cuja possibilidade de estar vivo;
para ela; já fora objeto de terror um dia.
O dia seguinte lhe traria novas surpresas, atendeu o interfone e ouviu a voz de Anabela.
- Existe uma moça querendo falar com você, diz ser importante.
- Anabela, desde quando você é recepcionista?
251
- Casualmente, Janaina precisou se ausentar um minuto, foi trocar de roupa para a
recepção. Posso mandá-la entrar?
- Como se eu nem sem quem é?
- Estela. A namorada de Edgar, você sabe quem é.
- Esta moça me causou tantos problemas, nem sei.
- Acho melhor você atender.
- Está bem.
Quando viu a mulher Marina se sentiu muito mal. Se ela não existisse estaria casada
com Diego, Biancha teria nascido de seu casamento, talvez já houvessem outro fruto dele,
hoje, o único carinho masculino do qual desfrutava eram os de Brutus, tentou não ser ríspida.
- Pois não, eu estou um pouco ocupada, gostaria de fazer nossa entrevista a mais rápida
possível.
- Não vou me demorar, vou depender da rapidez de sua leitura, tenho uma carta de
Edgard cujo teor deveria ser de seu conhecimento.
- Já tenho conhecimento desta carta, saiu em todos os jornais.
- Desta não, nunca ninguém a viu.
Marina queria se livrar logo do compromisso, então apanhou a carta e começou a ler.
‘‘Querida Estela:
Colaborei com o seqüestro de Thomas Aguiar, precisava
desesperadamente de dinheiro,
queria assumir nosso filho, no
entanto, agora estou arrependido, quando escolhemos alguém do
estafe da Coexponal,
fizemo-lo por julgar estar pegando um
homem sem caráter como Pedro Latorre, mas não,
colocamos no
cativeiro um homem bom, terno, preocupado apenas em provar sua
inocência em um caso de assassinato, ademais, não tem dinheiro,
apenas uma bela casa, esta precisará ser vendida para pagar o
resgate, e como ele teme não sair vivo desta aventura, vai doála a namorada, mas o resgate jamais será solicitado, vou ajudálo a escapar, a casa onde estamos ficará vulnerável após a
visita do escrevente, então vamos para uma casa de campo de
onde ele poderá escapar com facilidade caso eu não consiga
libertá-lo antes.
Faço isto para viver em paz com minha consciência, nunca me
incomodei com minha vida de mendigo, e caso nos aconteça alguma
coisa, procure- a, faça a saber qual o maior desejo de Thomas,
sua única preocupação, a felicidade dela.
Marina precisa saber, Thomas foi e sempre será um homem
bom, já estava arrependido inclusive de retornar ao emprego,
caso escape ira enfrentar a justiça acreditando nela para
provar sua inocência.
Porém, o essencial é Marina saber, ele sempre a amara terna
como é, não quer vê-la endurecida ou triste, se for possível a
ele vê-la de onde estiver, será feliz na proporção da dela.
252
Não permita a ninguém ......
Marina continuou a leitura, o restante da carta tinha praticamente o mesmo teor, Edgar
tentando mostrar Thomas como um homem bom e preocupado com a felicidade dela,
terminada a mesma esqueceu o serviço e ficou um longo tempo conversando do Estela até
esta se decidir.
- É muito tarde, preciso ir embora, sinto muito
- Já, ha tempos eu não conversava banalidades, estava muito bom, podemos no ver
novamente.
- Claro, fico toda tarde aqui. - estendeu um cartão do restaurante à Marina . - Faça
como ele pediu.
- Como assim?
- Vá ser feliz.
- E como posso ser feliz? Indo simplesmente?
- Eu realmente não sei, mas você deve saber, adeus.
Estela se retirou levando a carta consigo, Marina tentou se concentrar novamente no
trabalho sem resultado, nada dava certo, já estava perdendo a paciência quando Thiphany a
interrompeu.
- Você não vai descer?
- Como descer?
- Você tem responsabilidades.
- Responsabilidades?
- Claro! Então você manda organizar um coquetel com nossos principais clientes para
inaugurar nosso salão nobre e se esquece.
- Mas! Ainda é cedo.
- Cedo? Marcamos o coquetel para as oito, e, são oito e meia.
- Logo hoje? Não acredito, mas já estou descendo, em um minuto estarei ai.
*- Finalmente fomos convidados a estar com você. - Vincenzo Montone se aproximou
dela e a abraçou efusivamente, - Minha futura nora cada vez mais bela.
Marina corou, não esperava mais este tratamento por parte dele, mas fingiu não ouvir e
simplesmente respondeu:
- É um prazer vê-los, gostou de nosso salão? É para lançamentos, sua opinião é muito
importante.
- Fantástico, mas me faz lembrar outro ambiente.
- Sua sala de estar não é? Realmente me baseei nela, a escada para o mezanino é
idêntica, Biancha me mandou as fotos. As vezes criamos e as vezes copiamos, assim não
precisamos gastar muito tempo com detalhes, o mezanino dá outro ar ao ambiente e é ótimo
253
para acomodar uma pequena orquestra ou um conjunto, o Senhor sabe, as pessoas adoram
ostentação.
- No entanto, e melhor irmos aos drinques afinal viemos aqui para isso, não vai se
incomodar por termos trazido Ítalo? Ele estava curioso para ver o resultado.
- Ao contrario, estou felicíssima. - aproximou- se do mordomo e lhe deu um abraço.
- Nesse caso eu também tenho direito a um. - Diogo a abraçou carinhosamente, depois
a conduziu até uma mesa praticamente obrigando-a compartilhar da companhia deles.
- Vou buscar os drinques. - se propôs Ítalo.
- Nada disso, aqui você é convidado.
- Negativo. Não paro com minhas pesquisas e vou preparar uma receita minha; nova;
uma delicia, me aguarde.
- Vou com você. Caso contrário não vão deixa-lo entrar na cozinha, mas ninguém diz
não a Vincenzo Montone.
Então eles ficarão a sós, Marina não sabia como começar um dialogo, queria falar com
ele mas as palavras não saiam, então ele se pronunciou.
- Você precisa visitar Morada do Simum, agora totalmente pronta, as casas, o castelo,
sem mais nenhum caminhão circulando lá dentro, uma maravilha.
- Realmente preciso, aquilo já foi tão importante para mim, como pude esquecer minha
cidade natal?
- Podemos ir até lá amanhã.
- Não por enquanto. Não tenho tempo para folguedos, mas vamos marcar um dia, eu
prometo.
- Aqui está, um drinque especial para uma dama especial, um para um cavalheiro
apaixonado e outros dois para a torcida.
- Obrigada Ítalo. Vou adorar tenho certeza.
Conversaram durante algum tempo e Marina se manifestou.
- Ítalo! Você inventou e eu quero outro.
- Com prazer volto em um instante.
- Dança? - perguntou Diego à Marina.
- Não, realmente não estou com vontade.
- Preciso lhe contar uma coisa, esta semana fui procurado por Elizabeth Vernaz.
- A mulher das creches de Santos?
- Exatamente, minhas pesquisas sobre o sindicado mostravam um envolvimento
acidental dela e Cacá das Escolas, fortes animosidades e ela temeu por seu destino. Ela o
matou. Foi um acidente. Ele pretendia silenciá-la para reverter uma situação, mas ela lutou
por sua vida e o quadro se inverteu.
- Ela ia deixar Thomas pagar por seu crime!
- Na verdade não. Pretendia organizar a diretoria das creches, colocar pessoas de
confiança em seu lugar e se entregar, precisaria de um tempo para isso, Thomas ia cumprir
muito pouco tempo de cadeia. Se fugiu em função disso perdeu a vida a toa.
254
- E então, você vai denunciá-la?
- Porque? Ela continua seu trabalho pelas crianças, tem força junto às autoridades, não
vai poder fazer isso da prisão. Deixei um envelope para você com Thyphany, se for sua
vontade ela vai responder por seu crime, no entanto, o material vai mostrar também quem era
na verdade o Cacá, um crápula.
- Não precisa, alias Athos esteve comigo e mostrou a fita onde estavam gravadas suas
conversas com ela e Pedro Latorre.
- Fitas, eu não tinha o menor conhecimento disso.
- Athos sempre foi surpreendente, portanto esta tudo dentro do normal.
A orquestra tocou Only You e Diego se manifestou.
- Agora você vai se obrigada a aceitar, vamos dançar.
Mariana não resistiu. Já se negara a dançar várias vezes, mas esta não tinha jeito.
Depois disso muita de suas músicas foram executadas: Smoke Get in Your Yes, The
Gret Pretender, You Never Know, It’s Magic, entre outras, ela ficou intrigada.
- Não entendo, já contratei esta orquestra antes, conheci o pessoal das cordas no
aniversário de seu pai e eles não tocavam tantas músicas dos...
- Nunca foram subornados antes.
- Como subornados?
- Quando percebi ser a única maneira de convencer você a dançar mandei Ítalo falar
com eles.
- Thomas fez isso algumas vezes. Não sei como em certas oportunidades vocês podem
ser tão iguais.
- Paixão pela mesma mulher.
- Não brinque comigo. sou uma mulher machucada, não vou agüentar suportar novas
decepções.
- Eu jamais vou decepcionar você, eu te amo, do fundo do meu coração impossível
mensurar quanto.
- *- Vou ligar para minha casa.
- São três horas da manhã, devem estar dormindo.
- De jeito nenhum, eu ainda não cheguei. Viram-me saindo com você, por isto vou
ligar, senão eles não dormem mesmo.
- Alo! Anabela?
(- )
- Não importa onde estou, não vou dormir em casa, avise todo mundo, a última
Schiavonne solteira vai se casar.
(- )
- Amanhã se fosse possível, mas vamos dar entrada nos papéis, talvez eu me mude para
a mansão de imediato, não quero ficar longe de Diego nem mais um dia.
255
DE NOVO NO EMPÍREO
Athos se sentiu sugado da Terra, em seguida estava novamente no Empíreo, em frente à
mesa do protetorado, sua expressão era tensa e abatida.
- Porque estou aqui? São três horas da manhã? Querem prolongar minha agonia e minha
vergonha? Devo enfrentar de novo esta mesa? Falhei em minha missão, eu sei, mas quero um
descanso. Esquecer o episódio Thomas Aguiar.
- Existe uma frase de um humano onde ele se refere à vã filosofia dos homens sendo algo
muito aquém do existente entre o céu e a terra, é verdade, mesmo nós, seres tão velhos cuja
idade não pode sequer ser mensurada nos surpreendemos com algumas coisas, não sabemos
tudo, estamos sempre descobrindo fatos novos e sofrendo decepções para as quais não estamos
preparados.
- Lamento tê-los envergonhado e decepcionado, estou pronto para ser enviado o Limiar.
- Limiar? Qual o motivo para isso?
- Toda a confusão causada por minha estada na terra.
- Como já dissemos antes: Há muita coisa entre o céu e a terra cujo conhecimento do
mais sábio dos seres mal chega a sonhar, ainda mais uma vez plagiando os homens, eu diria:
Deus escreve certo por linhas tortas. Todos os últimos acontecimentos não foram obras do
acaso felizmente você estava junto a Thomas quando tudo aconteceu.
- Como assim? - estranhou Athos.
- Não se culpe mais pelos acontecimentos. Foram provocados por uma força maior.
Fatos necessários, ocorreram para esclarecer muita coisa, queremos lhe contar uma história
muito interessante. Soubemos há pouco através de Barion.
- Barion? Mas ele está desaparecido a quase dois mil anos era um dos dissidentes.
- Providenciem um assento para Athos. - ordenou Agnus Valerye até então em silencio,
abrindo mão mais uma vez de seu usual latin . - O assunto será um pouco demorado. - Agora
você vai saber como os dissidentes conseguiram sobreviver nos últimos séculos passando
despercebido entre os seres humanos.
KARINA. A BUSCA CONTINUA
Novembro de mil oitocentos e noventa, Klaus observa pela janela quando os
ciganos levam o cadáver de sua ultima criada inglesa; já uma anciã; para os serviços
fúnebres na vila, estava novamente sozinho, decidira por um fim à aquela existência
sem sentido, desistira de esperar, a reencarnação era uma mentira. Sua Karina jamais
voltaria.
Antes empreenderia sua última viagem, iria para a Luisiânia entregar as mulheres
aos seus maridos e ali se deixaria surpreender pelo sol, vê-lo-ia uma última vez antes de
morrer.
Mas ainda tinha um compromisso a cumprir, esperava um visitante, estranhara
sua carta pois não sabia se concordava com o motivo de sua visita mas não podia fazer
nada para impedi-lo de chegar. Não tinha criados nem tempo, para correr atrás de um,
então seria obrigado a buscá-lo na encruzilhada, a diligência não parava senão alguns
minutos na estrada, quando chegava ao seu condado já era o inicio da noite e ninguém
se sentia à salvo em suas terras embora na realidade nada acontecesse ali há séculos.
256
Sorriu entristecido com o efeito das superstições, nenhum homem vivo em Rardemuc
tinha perdido um único parente naquelas paradas.
- Talvez eles pensem não ter perdido ninguém por nunca um deles vir até aqui. falou como se houvesse alguém para ouvi-lo.
Levou parte da comida existente sobre a mesa para os aposentos das mulheres e
deixou o resto próximo à chapa do enorme fogão de lenha; perto o suficiente para
mantê-lo aquecido; e a uma distância segura para não queimar; uma ave silvestre assada
e batatas cozidas: verificou satisfeito a existência de pão no armário. Arrumou o serviço
de prata sobre uma das pontas da enorme mesa onde já haviam se alimentado tantos
nobres e bárbaros e; por último; verificou sua vestimenta, roupas de cavalariço e uma
capa de lã grossa, luvas, chapéu e um cachecol alto, era praticamente uma roupa: não
tinha rosto. Saiu para o pátio e viu sua linda carruagem, negra com motivos dourados,
bem polidos, pronta para partir, os ciganos a haviam encilhado com gala, como ele
gostava, os cavalos também negros estavam ornados com mestria, passou por cada um
deles e os alisou, podiam sentir sua amizade sincera e o acariciavam com a cabeça à sua
passagem, era mais uma de suas habilidades desenvolvidas ao longo de quase dezenove
séculos, não podia conversar com os animais como entendemos um diálogo, no entanto
os entendia e encontrava reciproca neles; como se pudessem trocar seus desejos e
anseios com precisão quase de iguais; embora em silêncio. Ele sempre balbuciava
algumas palavras, certo de estar sendo entendido, reforçando sua admiração pelos
magníficos animais empertigados, como se tivessem orgulho de pertencerem àquela
linhagem, produto de suas cavalariças há séculos. únicos, maravilhosos, incomparáveis.
- A cada geração vocês se tornam mais belos, eu deveria inscrevê-los para correr
com os demais, mas seria um ato por demais covarde, não produziram rivais à altura em
todos os continentes. Ademais eu não poderia vê-los. - bateu no peito de um deles. não existem outros com este porte e não existirão jamais.
Os animais relincharam como se em resposta, e se mantiveram empertigados para
receber seu amo e senhor na boléia.
- *A carruagem desceu a sinuosa estrada em enorme velocidade, fora construída para
aquele caminho e parecia não senti-lo, mantendo-se firme mesmo quando a curva mais
acentuada fazia prever um desastre.
Quando Klaus avistou à encruzilhada a diligência já havia abandonado seu
hospede. Mas ainda era possível divisar sua poeira num ponto já bem distante, bem
como perceber a fúria com a qual empreendia a "escapada, como se seus ocupantes
estivessem correndo da própria morte.
Lawrence Stemplenton, um corretor de imóveis estava sentado desconsolado
sobre a bagagem, viu a belíssima carruagem passar por ele sem diminuir a velocidade, o
barulho ocasionado pelos cavalos e o brilho dourado de seus ornamentos podiam ser
percebidos à distância, depois pode nota-la descrevendo um circulo alterando sua
direção e voltando à estrada: parando ao lado dele.
- O senhor pretende ir a morada dos Rardemucs... suponho? - perguntou a voz
escondida sobre as roupas no dialeto Local. - Deve ser o senhor Lawrence.
- Sou mas eu gostaria de seguir viagem até a cidade e chegar ao castelo durante o
dia. - respondeu Lawrence no mesmo idioma.
257
Klaus não respondeu, colocou a bagagem dele na boléia, e deixando a porta da
carruagem aberta assumiu as rédeas. Lawrence se acomodou e quando viu o destino do
veiculo bateu com a bengala na janela de comunicação e o veiculo parou, logo em
seguida ela foi aberta.
- Eu gostaria de seguir até a vila, tenho umas cartas para despachar.
- O senhor devia ter seguido com a diligência, minhas ordens são levá-lo ao
castelo. Meu amo não perdoa desobediência.
- Tive uma discussão com o condutor e ele me abandonou aqui, agora me leve
para a vila. - ordenou com a soberba tradicional dos ingleses; os donos do mundo!
- Eles não o trarão aqui amanhã; nem nunca. Temem o inexistente. - respondeu
Klaus enquanto colocava o veiculo em marcha de imediato.
Klaus começou a subir para o castelo e em dado momento parou, deixando
Lawrence apreensivo na carruagem, andou até uma pequena construção levando um baú
consigo.
Lawrence fez menção de descer e repreender o cocheiro por tê-lo desobedecido e
continuado seu caminho apesar de seus protestos mas quando notou a companhia do
homem; dezenas de lobos; resolveu desistir, fechando a porta assustado antevendo a
hora na qual ele seria estraçalhado, aconteceria a qualquer momento. Lamentou ter
deixado sua arma na bagagem, nunca mais faria isso, não podia defendê-lo ou a si
próprio de forma alguma.
Observou quando seguido pelos lobos, sem ser molestado, ele foi até uma
pequena construção onde trocou o baú em suas mãos pelo ali existente, depois foi para
a carruagem e colocou o retirado da pequena capela na boléia com algum estrondo
assustando seu passageiro sem em nenhum momento ser incomodado pelos animais,
acariciou alguns deles e voltou para a condução do veículo sob o olhar incrédulo de
Lawrence.
A pedido de Klaus, o Inspetor alfandegário sempre deixava os impostos e o
relatório naquela capela assim um não precisava ir ate a cidade nem o outro ao castelo,
ele também o temia como os demais e ninguém da vila ousava chegar tão perto dali
alem deste homem.
Feita a coleta dos impostos ele colocava o relatório escrito a pena e o produto dos
mesmos no local acendendo a pequena lanterna de vidro azul indicando a entrega, podia
ser vista do castelo, ao alto, no entanto não chamava a atenção de um eventual viajante
passando pela estrada principal, bem abaixo dela. Geralmente o Conde demorava alguns
dias para retirá-lo, nessas ocasiões sempre ficavam alguns ciganos vigiando durante o
dia, à noite era desnecessário, mas se não fosse assim, pouco perigo havia, ninguém se
aventurava a andar pelo caminho do "Castelo Maldito" sozinho nem mesmo durante o
dia, mesmo o inspetor sofria com este medo exagerado, não conseguia ser acompanhado
por seus homens até o local e precisava fazer o último trecho do caminho sozinho.
- *A carruagem chegou ao castelo estacionando no pátio, o cavalariço pegou a
bagagem e o baú e os depositou na porta de entrada, depois desapareceu com o veículo.
Lawrence fez menção de segui-lo, mas desistiu assustado com o uivo crescente
dos invisíveis lobos conforme se movimentava, tornou-se estático e se fez silencio,
então assim permaneceu. Finalmente foi atendido por um senhor idoso e simpático.
258
- Bem vindo a minha casa, entre por sua própria vontade e me faça companhia em
minha solidão, os dias aqui são longos e solitários, é bom ver um pouco de vida jovem
entre nós.
- Desculpe- me por chegar a esta hora, pretendia me apresentar durante o dia
como manda o protocolo mas não fui atendido por seu criado, ele devia ter me deixado
na vila.
- Desculpe a falta de jeito de meu cavalariço. Não fosse ele o único criado a meu
serviço; e, necessário eu já o teria despedido, no entanto isso acontecerá amanhã.
- Acho extraordinário, fantástico, o senhor não ter criados, sua fama na Inglaterra
não condiz com esta situação, minhas informações, e eu as julgo fiéis me mandaram
para o castelo de um homem extremamente rico, deveria ter uma casa cheia deles.
- Meu dinheiro de nada vale frente às crendices deste povo, temem o meu castelo
como o próprio inferno. Sem qualquer motivo, mas por favor jante enquanto
conversamos. Mesmo discutir a ignorância é crendices infundadas é melhor bem
alimentado.
Lawrence jantou com vontade, o cocheiro da diligência na pressa de chegar antes
do anoitecer na cidade, visto a troca de uma roda não cumpriu a parada para o almoço,
motivo pelo qual discutiram durante todo o percurso, até ele finalmente ser abandonado
na estrada. Conversaram muito sobre as superstições dos moradores da cidade e as
horas se passaram.
- Não lhe conheço pessoalmente, no entanto não tenho ninguém estranho a mim
na Inglaterra cuidando de meus negócios; e são muitos; não sei quais interesses comuns
podemos ter.
- Estou aqui a pedido de Sir Walker , ele nos fez empenhar a palavra de nossa
firma na compra de uma casa e só depois nos informou quem seria o comprador, deveria
vir comigo, mas teve uma crise nervosa e foi internado, temos o prazo de sessenta dias
para concluir o negócio.
- Conheço Sir Walker, mas não vejo como posso ajudá-los. Não tenho interesse
em adquirir novas propriedades na Inglaterra.
- Ele nos fez empenhar nossa palavra em seu nome, compramos a casa para o
senhor e já pagamos a primeira parcela; é uma velha mansão; coincidentemente na vila
na qual mora minha noiva.
- Não vou poder ajudá-lo. A vida já não faz parte de meus planos.
- Como?
- A vida na Inglaterra, quero dizer, pretendo mudar para a Luisiânia.
- Isto vai me causar muitos problemas.
- Eu já tenho muitas propriedades na Inglaterra. Não vejo como mais uma poderá
me ajudar, atualmente só emprego meus recursos na Luisiânia, em um país novo e com
grande futuro. Vou mandá-lo imediatamente à vila e considerar nossos negócios
encerrados. - Klaus observou aquele jovem forte e exalando saúde, instintivamente
perguntou. - O senhor é cristão? - observando seu pescoço desprovido de qualquer
ornamento.
- Sou. - respondeu Lawrence enquanto tirava o relógio do bolso e verificava as
horas, estava cansado, mas não pensava em dormir, argumentava, insistia, estava
259
desesperado, empreendera uma longa viagem, pensava se lançar definitivamente no rol
dos bem sucedidos com ela, e tudo parecia ir por água abaixo. Então decidiu ganhar
algum tempo.
- Veja! Já é muito tarde, possivelmente numa cidade como essa nenhuma
hospedaria vai abrir para um viajante. Vão me imaginar um demônio ou coisa assim, o
senhor não gostaria ao menos de olhar a casa, é uma linda Mansão, fica na estrada de
ligação entre Londres e Maldon, existem apenas vinte vilas mas nem todas são
tradicionais como ela e com jardins tão belos. A cidade é recortadas por lindas
alamedas; e, mesmo distante dos tumultos de Londres está servida por uma excelente
clínica próxima e tem um atendimento diferenciado dos comerciantes. Quanto a ser
cristão, tem algum peso em sua decisão?
- Muito! Não ser cristão poderia significar muito para a forma pela qual
encerraríamos nossas transações.
Lawrence abriu a pasta na qual estava a foto da "Mansão Bhremer" ela
inicialmente pouco interessou a Klaus, fato alterado pela visão da mulher parada na
frente dela.
- Uma mansão antiga e tradicional, lembra as das famílias tradicionais, já não se
constróem mais moradas assim. Tem uma pessoa na frente, uma linda mulher esta,
quem é? - perguntou Klaus, passando a falar em inglês.
- Karen, minha futura esposa, - respondeu Lawrence mais a vontade em sua
língua e surpreso com o fluente inglês do conde. - ninguém notou na hora, mas estava
na frente da casa quando foi fotografada. Não tive tempo para fazer outra cópia e
embarquei assim mesmo. Vamos nos casar no inicio do verão, caso minha firma não vá
à bancarrota. - lamentou Lawrence impotente. - Não sei como resolver meus
problemas visto seu desinteresse pela Mansão Bhremer.
- Se o assunto é tão grave assim e o senhor me garante ser um bom negócio, posso
pensar com mais vagar no assunto, mas conversaremos amanhã à noite. Hoje realmente
estou cansado e saio muito cedo para vistoriar as terras, preciso saber como vão as
safras, delas saem os impostos, só volto à noite. - respondeu Klaus enquanto observava
Karem. Era Ela! não havia dúvida! Em seguida tirou do bolso um pequeno cordão de
ouro com uma suástica e o estendeu a Lawrence:
- Use isso enquanto estiver em meus domínios, é um símbolo respeitado por todos
e pode garantir sua vida mesmo com os assaltantes de estrada. Não posso comprar uma
casa de um homem morto.
- Seu inglês é absolutamente perfeito, como consegue praticar tão longe a
Inglaterra.
- Todos os Rardemucs são educados lá, para ler Sheakespeare e todos os grandes
autores preciso conhecer a língua, meus criados eram todos ingleses, infelizmente o
ultimo faleceu ontem. Visite minha biblioteca, se algo valeu a pena e foi publicado será
encontrado lá.
Lawrence não notou os olhares de Klaus para a figura de Karen, era um homem
de pouca moral, egoísta, interesseiro e ambicioso, não a amava, e sim o dote com o qual
se casaria e todo a fortuna a ser herdada sendo ela filha única. Sua paixão mesmo eram
os bordéis de Londres os quais não podia freqüentar com regularidade. Tudo isso
mudaria se conseguisse a venda da Mansão Bhremer podendo dar continuidade aos
planos do casamento, depois, uma boa vida e caso a esposa se tornasse órfã, muito
dinheiro. Quando o Conde se interessou pela casa ele viu apenas o valor de uma
260
comissão fabulosa, pois poucas pessoas reunião condições para comprar tal
propriedade.
Klaus, momentaneamente, esqueceu seus problemas domésticos. Uma das
mulheres havia escapado há alguns meses e capturado um camponês, no entanto não o
matou de imediato, levou- o para o castelo e o escondeu no local onde estava confinada
e o usou durante algum tempo para o seu prazer, então aconteceu o inusitado,
totalmente fora de propósito: Ela engravidara, nunca acontecera isso com nenhuma
companheira dos dissidentes, mas também, elas jamais haviam se relacionado com um
ser humano depois de transformadas. Era uma fecundação teoricamente impossível,
supondo o nascimento de um ser imprevisível, primeiro por se tratar de uma criatura
cuja classificação biológica da mãe era desconhecida na íntegra, o cruzamento de um
ente inclassificável com um ser humano normal. Como podiam existir óvulos a serem
fecundados? Eles já não deviam existir nela há séculos, queria participar do problema
ficar ali e descobrir qual o resultado dessa loucura, antes de por fim à vida;
possibilidade agora descartada com a visão de Karina; nem podia imaginar a criatura
fruto dessa relação.
Mas isso agora parecia não ter mais nenhuma importância. Não podia ficar ali e
deixar sua Karina esperando. Fora o motivo pelo qual Sir Walker havia tentado
comprar a casa antes de enlouquecer e usado uma firma nova e sem importância como a
de Lawrence Stemplenton; e, de uma cidade fora de Londres, evitaria comentários sobre
o negócio, depois de realizada a transação possivelmente não mais se veriam, errara em
deixar os negócios aos cuidados do noivo de sua amada, porém, possivelmente nem
imaginasse tal coincidência. Os futuros nubentes moravam em cidades diferentes.
Lawrence mal entrou no quarto a ele destinado e ouviu a carruagem se afastando,
um estranho perfume invadiu o mesmo provocando nele uma sensação de cansaço,
trancou as portas amedrontado e adormeceu.
Quando acordou tinha muita fome e só encontrou na cozinha os restos da ave
servida no dia anterior e as batatas e não havendo alternativa decidiu usar as sobras em
sua refeição matinal, sendo um homem acostumado à cidade e a ser servido tentou
acender o fogão de lenha sem conseguir. Derrotado saciou o apetite com o encontrado e
frio.
Ainda estava terminando a refeição quando a sala foi invadida por um bando de
ciganas vindo da cozinha, dedicaram-se à limpeza sem se incomodar absolutamente
com sua presença. Tentou conversar com elas, provavelmente não entendiam seu inglês,
nem mesmo o dialeto de Rardemuc. Todos os seus gestos indicavam não compreender
suas perguntas; ou simplesmente estavam instruídas a não respondê-las.
Caminhou pelos demais cômodos do castelo aos quais teve acesso, a maioria deles
abandonados, possivelmente há anos, exceção feita à sala de jantar, a imensa biblioteca
e a cozinha, sentiu inveja da imensa coleção de livros lá existentes, poderia trabalhar a
vida inteira e não conseguiria comprá-los, então decidiu aproveitar o dia dedicando-se a
eles. Fez um intervalo no horário de almoço e aguardou inutilmente ser servido, à tarde
não viu nenhum movimento de alguém preparando comida, mas sentia fome.
Aproximou-se da porta e a abriu, mas teve medo de sair ao pátio do castelo face a
aparência brutal dos ciganos ali acampados. Não viu a suástica pendurada no pescoço
deles, não entendeu a afirmação de seu anfitrião, pensou em se livrar da sua, depois
temeroso decidiu mantê-la. Ao cair da noite ele viu as ciganas vindo da cozinha e
provendo a mesa, havia comida suficiente para quatro ou cinco pessoas, ele desconhecia
quem seriam os demais.
261
Esperou até às nove horas, depois não suportou mais a fome; não comera nada ao
almoço; jantou sozinho e foi para o seu quarto onde teve a nítida impressão de ver um
vulto olhando pela janela porém correu até o local e concluiu estar errado, aquela ala do
castelo dava para um abismo cujo fim podia ser apenas imaginado face a constante
neblina existente. Um homem não chegaria até lá e não existiam aves com uma cabeça
daquele tamanho, fora uma ilusão, mesmo assim seus olhos vigiaram o local durante
algum tempo. Sua imaginação havia lhe pregado uma peça. Depois sentiu o mesmo
perfume da noite anterior invadindo o quarto e um sono profundo, quase não conseguiu
caminhar até a cama antes de adormecer, vestido como estava terrivelmente cansado.
Acordou no meio da noite, a promessa de algo muito bom esperava por ele no
corredor, ali andou até uma porta entalhada em prata e a abriu, quando chegou ao seu
quarto foi surpreendido por três lindas mulheres, uma delas aparentemente grávida, não
podia ter certeza, pois os sinais ainda eram pouco visíveis, eram perfeitas, lindas,
usavam apenas diminutas camisolas deixando ver seus corpos perfeitos, absolutamente
maravilhosos, deixaram cair suas vestes e ele procurou um único defeito nelas, não
havia, não achou nada, nem a mais leve cicatriz, Então desejou amá-las e as amou como
nunca tinha se atrevido antes nos bordéis de Londres; com uma fúria quase
incontrolável, como se tivesse praticado o sexo por séculos e sua energia fosse
inesgotável, juntos transformaram o quarto numa festa profana, quando se sentiu
cansado demais para qualquer coisa olhou para o chão repleto de roupas, lençóis,
travesseiros, almofadas, garrafas, copos e espalhados ele não sabia de onde viera tudo
isso e não importava! Arrumaria tudo pela manhã, não tinha forças para mais nada, a
cama; a poucos metros; agora parecia tão longe, não dormiu: desmaiou.
Não pode ver quando o conde furioso invadiu o quarto e conduziu as mulheres de
volta para sua "cela" entregando a elas um homem ainda vivo com o qual deveriam
repor suas energias e as avisou sobre seu hospede. Era intocável. Deveria permanecer
vivo pois lhe era necessário.
Acordou tarde. O sol invadindo seu quarto pela janela aberta parecia um remédio
para seu cansaço, conforme era atingido por ele se sentia cada vez melhor, observou o
ambiente e concluiu ter sonhado, suas roupas estavam arrumadas exatamente como ele
costumava fazer, a cama estava normal e não havia copos e garrafas espalhadas, nem as
almofadas nas quais se divertira tanto na noite anterior. Bateram na porta e quando ele
autorizou umas ciganas empurraram uma banheira para dentro do quarto a qual
encheram com água quente. Após o banho procurou um espelho em todos os lugares e
não encontrou então desceu sem se barbear e desta vez encontrou a mesa pronta para o
desjejum, o suficiente para uma única pessoa.
Os ciganos já se retiravam da casa levando a louça utilizada no dia anterior, uma
delas aguardou pelo fim de sua ceia em silêncio. Limpou o local e se foi.
Mais um dia se passou sem novidades, a não ser a existência de um pesado
cadeado impedindo a abertura da porta entalhada em prata, não se lembrava de tê-lo
visto antes, e a amizade latente entre ele e a cigana responsável por seu desjejum e
almoço, Roxane, alta, esguia, longos cabelos negros caindo sobre os ombros, os largos
decotes faziam antever dois seios de rara beleza, quadris bem proporcionados
seguravam sua saia colorida, os braços muito bem torneados faziam Lawrence
imaginar como seriam suas pernas; totalmente cobertas; era uma mulher de rara beleza,
seus olhos negros como duas jabuticabas jamais foram vistos por ele em Rochester. Não
falava inglês, só o dialeto de Rardemuc, mas era uma companhia agradável, sabia ler e
conhecia poesias dos artistas da língua, as vezes passeava pelo pátio em companhia
dela, era um homem divertido e gentil, não economizou promessas, fez juras de amor
262
eterno, prometeria qualquer coisa para ter aquele corpo, acabou conquistando a mulher
e embora não pernoitassem juntos ela freqüentava sua cama durante o dia e lhe
proporcionava momentos de raro prazer.
Alguns dias depois, ele se preparava para descer e jantar quando ouviu o galope
de muitos cavalos. Saiu para o pátio do castelo de onde a carruagem do conde se
aproximava, e quando a mesma parou notou-o acompanhado de mais cinco pessoas
além dos dois condutores.
- Desculpe-me por ter saído sem avisar, mas não quis atrapalhar seu sono quando
empreendi esta viagem, fui providenciar criados para cuidar do castelo durante minha
ausência, devo encontrar meu filho em Londres. O Conde Klaus Rardemuc Vinte e
Cinco, ele se nega a vir morar neste castelo, vou convencê-lo a comprar a mansão alvo
de seu problema.
- Quando partimos?
- Vou partir sozinho, e vou precisar de seus serviços, o senhor será pago por eles,
naturalmente, converse com o inspetor alfandegário e providencie a transferência do
valor dos impostos para Rochester, em nome de sua firma, transforme tudo em dinheiro
inglês e deixe disponível, eu procurarei pelo senhor vamos utilizar este valor para o
pagamento da vivenda, para mim ou para meu filho.
- Mas, isso pode demandar muito tempo.
- Exatamente uma semana, o Inspetor já está instruído a facilitar tudo, enquanto
isso goze do conforto de meu castelo, ele agora está em condições de hospedá-lo, meus
criados estarão a seu serviço e o senhor será regiamente recompensado.
- Eu me engano ou o senhor trouxe um médico e uma enfermeira entre os
criados?
- Possivelmente o senhor não consiga ajuda na vila. Não o quero correndo riscos
na minha ausência, estarão à sua disposição dia e noite.
- Senhor Conde, como sabia onde era minha firma? Eu não disse.
- Sua memória deve estar falhando, o senhor mencionou Stemplenton & Turner:
de Rochester.
Lawrence tinha certeza, não mencionara nada, Klaus havia traído sua confiança e
mexido em seus papéis, ficou furioso, ademais, tudo ali acontecia de forma estranha não
queria permanecer no local nem mais um dia, queria realmente ir embora. Mas não pode
se negar a colaborar. Se o conde não comprasse a mansão sua empresa perderia
totalmente a confiança e ainda havia o sinal antecipado por ele ao comprador, utilizara
dinheiro de seu crédito bancário para fazê-lo, não tinha onde buscar recursos para
honrar o compromisso e estaria irremediavelmente falido.
- A propósito, aqui está parte do pagamento pelos seus serviços, está em Karins,
quando for embora troque-os por libras com o Inspetor, aqui não precisará delas e sua
circulação é proibida, dinheiro estrangeiro é um convite ao contrabando.
- *Klaus chegou ao porto de Denver durante o dia, o Karina desembarcou
rapidamente sua carruagem e os respectivos cavalos e voltou ao mar onde ele
permaneceu à bordo, para todos os efeitos viajava no Venture: veleiro turco cuja rota
regular era Istambul à Inglaterra e desceria em Londres para se encontrar com o filho
Klaus XXV, inexistente de fato, mas não de direito, tinha um currículo invejável pagava
263
impostos, tinha conta bancária, domicilio e supostamente fora educado pelos mais
graduados mestres da Inglaterra.
Muito antes da data prevista para a chegada do Venture, Klaus já visitara a vila na
qual ficava a Mansão Bhremer, no pequeno e fechado vilarejo de Chelms onde Karem
morava e já havia tentado noticias de Lawrence sem sucesso na Stemplenton & Turner,
embora não pudesse fazê-lo em pessoa, pois supostamente não existia naquela cidade,
depois, preocupado, foi para Londres onde o Venture deveria chegar e permitir sua
presença oficial no pais.
No entanto, sabia! Isso jamais iria acontecer. O navio nunca chegaria ao porto,
sua pequena tripulação de infiéis fora utilizada para lhe dar parcialmente sua nova
aparência jovem, sem no entanto deixá-lo como queria. A noticia do naufrágio iria
demorar, mas viria, então seu "filho" seria oficialmente o novo Conde de Rardemuc
dando seqüência a essa dinastia una e maldita.
Procurou um de seus servidores na Inglaterra e ele lhe entregou todos os
documentos necessários à sua nova identidade, papéis com os quais poderia circular
livremente pelo pais, comandas, títulos de clube e uma série de certificados de
conclusão de cursos aos quais jamais freqüentou.
Os jornais anunciaram preocupados o aumento significativo de morte de
mendigos em função do frio da noite anterior à qual ele se registrava no Sheffield como
o jovem Klaus XXV, Conde de Rardemuc pedindo insistentemente notícias do Venture
onde viajava seu pai e de onde iniciava as providências para visitar oficialmente a
Stemplenton & Turner: de Rochester, onde pretendia se encontrar com Lawrence.
- *No entanto, em Rardemuc, Lawrence não estava mais interessado em voltar para
Londres, havia seguido um criado quando levava comida para as prisioneira de Klaus e
descoberto como abrir a porta entalhada em prata esta já havia povoado seus sonhos
muitas vezes, então ele rompeu a segurança e a deixou aberta aguardando o resultado de
sua ação.
Seu plano deu resultado ele recebeu a novamente a visita delas em seu quarto,
isso se repetiria sempre à sua vontade, se tornou lascivo, quando se cansava delas,
gastava seus Karins na taberna da cidade onde ouvia durante horas histórias sobre as
lendas locais e os medos dos habitantes e se vangloriava de não temer o conde.
Ali conseguia a admiração dos homens e muitos favores das mulheres,
interessadas; e, muito, naquele estrangeiro valente; e, principalmente; generoso. Suas
noites eram repletas de emoções, Karem com seu amor cândido e tímido era apenas uma
lembrança distante, não a veria mais, havia abarrotado suas malas com muito dinheiro
encontrado no tesouro de Klaus, esta quantia somada ao valor dos impostos o qual
remeteria para seu nome pessoal superava em muito o dote destinado ao seu casamento
e toda a fortuna de seu futuro sogro. Depois conseguiria outra identidade e uma noiva
rica nos círculos dos vencedores da agitada Londres, talvez Paris. Não voltaria mais à
Rochester ou suportaria a quietude de Chelms, quebrada apenas por algum grito de
agonia de algum paciente da clinica local onde homens eram internados para cuidar da
sanidade afetada. Nascia um novo Lawrence.
Estava adorando a vida de Rardemuc, seus dias eram preenchidos com os carinhos
de Roxane, adorava olhar para aquele corpo perfeito, suas noites pelas mulheres da
taberna, ou quando estava muito cansado para ir até lá pelas três mulheres do castelo,
mas era cauteloso, decidiu ir embora, deixar tudo aquilo para trás, se o conde voltasse
264
estaria com problemas foi procurar o Inspetor Alfandegário e viu a primeira falha em
seu plano, este já havia providenciado a remessa do dinheiro em nome da Stemplenton
& Turner: de Rochester, conforme constava das instruções recebidas, e aproveitou para
avisá-lo do gênio terrível do Conde esperando por ele já há muitos dias após a data na
qual deveria ter seguido para encontrá-lo e da impaciência dos ciganos revoltados com
sua irresponsabilidade.
- Senhor Lawrence, o conde me instruiu para lhe dar uma generosa quantia em
libras quando de sua partida, mas tomei a liberdade de descontar o dinheiro pago por
Roxane ao pai, ele está ai fora para formalizarmos o casamento.
- Casamento? Mas eu não pretendo me casar.
- Então seremos obrigados a marcar o duelo, o senhor sabe manejar um facão? Ele
certamente escolherá esta arma. É o ofendido.
- Ofendido?
- O senhor tem levado sua filha ao seu quarto já durante algum tempo, isso não
incomodou os ciganos; o senhor jurou amor por ela, prometeu estarem juntos para
sempre; mas ir embora e deixá-la sim, nenhum outro homem da tribo vai aceitá-la.
Lawrence não viu saída, enfrentar um cigano com facões estava fora de cogitação.
Não se abalou com a perda dos impostos enviados para Rochester, ainda havia o
dinheiro roubado do tesouro de Rardemuc, iria embora com ele, os impostos
significaram uma perda, mas insignificante frente à quantia em seu poder. Jamais
voltaria a Rochester ou à insípida Karem, teria Roxane para cuidar de sua casa e
dinheiro para freqüentar aquelas por quais sua lascívia ansiava. Estava tudo certo.
Realizada a cerimonia ele participou ao pai de Roxane sua intenção de voltar à
Inglaterra, este não se dirigiu a ele, mas falou com a filha.
- Este homem está tirando você de nosso seio, não posso impedir, é a mulher dele,
quero receber uma carta sua a cada trinta dias, quando uma não chegar iremos procurála, se algo lhe acontecer a Inglaterra não será grande o suficiente para nos impedir de
encontrá-lo e fazer justiça. - beijou a filha e saiu do local sem falar com Lawrence.
Mais uma vez as coisas não correram como esperado. Quando os ciganos
deixaram o casal na encruzilhada para esperar a carruagem Lawrence sentiu as malas
muito leves e foi verificá-las: encontrou lá apenas as roupas com as quais havia se
dirigido ao castelo e pensara ter abandonado e o resto da paga prometida pelo conde
por seus serviços era uma boa quantia, mas o suficiente para poucos meses com a vida
por ele sonhada.
Seu desespero não podia ser maior, caiu em si, a nova situação mostrava ainda
fatos terríveis para seus sonhos de grandeza. Tinha uma esposa, estava sem o dinheiro
roubado e o produto dos impostos; e, para complicar tudo havia uma empresa para
salvar da ruína! Não havia enviado um único telegrama a Sir Alfred Payne Turner III,
Seu sócio e responsável por seu romance com Karem em todo este período, como
pudera ser tão tolo? Certamente o negócio não se concretizara, o conde não faria
negócio com um irresponsável.
Além de todas as más qualidades antes referidas seria prudente acrescentar a elas
mais uma, era um covarde. No caminho para casa começou a sentir o peso de suas ações
e o medo das conseqüências. Não sabia como justificar sua demora e a perda do
negócio, talvez precisasse enfrentar a fúria de Klaus por tê-lo feito empreender tal
viagem em vão.
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No entanto, tinha o otimismo dos irresponsáveis e isso o fez raciocinar nesse
sentido. Seu medo do conde era infundado, era um homem extremamente rico e não
iria se dar ao trabalho de esperar por ele, não estava mesmo interessado na mansão,
possivelmente já estivesse voltando a Rardemuc. Nunca mais o veria! Seus problemas
eram outros.
Deveria realmente se preocupar com a lindíssima; mas insipiente; Karen, sua
noiva! Embora não motivasse seus sonhos devassos; jamais permitira um carinho mais
ousado; era uma mulher muito rica, como todos os moradores de Chelms, iria alavancar
seu sucesso; sua firma já devia ter ido à falência com o caso da Mansão Bhremer,
precisava uma boa história para o, talvez, ainda futuro sogro.
Conversou com Roxane mostrou a ela como era importante conseguir reatar seu
noivado, convenceu a mulher a manter seu casamento em segredo, iria desposar Karem
para ter acesso à sua fortuna, isso lhe permitiria sustentar a ambas, então teria em uma o
amor devasso do qual tanto gostava e em outra o dinheiro tão necessário.
Se precisava uma boa história seu sogro a teria, tirou de dentro da mala o diário,
presente de Karem para registrar sua aventura nos Cárpatos, ainda intacto e decidiu
escrevê-lo de uma vez, ao chegar na Inglaterra instalaria Roxane em uma pensão barata
e procuraria uma clínica onde iria se internar alegando problemas de saúde e estar
mentalmente abalado; de onde escreveria para muitas pessoas em caráter de urgência,
iniciando sua reentrada na vida de cidadão inglês, precisaria realmente dar satisfações a
muitos.
- *Klaus oficialmente hospedado no Sheffield de onde deveria comprar a Mansão
Bhremer, já como Klaus XXV, era visto saindo sempre antes de romper o dia para
cuidar de seus afazeres, (embora na verdade estivesse indo para a segurança do interior
de uma velha tumba pertencente aos Rardemucs em Londres, tinham-nas espalhadas por
quase toda a Inglaterra, cada pseudo- descendente morto havia sido enterrado em uma
importante cidade inglesa e com isso já existiam vinte e quatro refúgios) retornando
logo após o cair a noite e dali seguindo para a opera ou algum cabaré retornando ao
quarto sempre muito tarde e exigindo não ser incomodado o resto da noite. Desistiu de
aguardar por Lawrence, sua paciência se esgotara entrou em contato com seu sócio e
assinou ali os papéis de sua nova casa em Chelms. Onde tinha esperanças de ver Karen,
mas como ela não aparecia nas ruas passou a observá-la como podia, da janela, ela
nunca saia à noite e ele não tinha porque se apresentar em sua casa, mas havia uma
amiga. Cristie.
Cristie era uma mulher totalmente independente, uma das muitas precursoras das
mulheres do futuro, não admitia a superioridade masculina, seus comentários sempre
fizeram Karem ruborizar, suas roupas leves com decotes ousados, incomuns para a
época também não a agradavam, mas eram grandes amigas.
- Como você pode se vestir assim, nem parece uma mulher!
- Assim deviam se vestir todas, são roupas práticas, permitem a você ser
acariciada na totalidade. Como Lawrence faz para atingir sua intimidade com esta blusa
fechada e todas estas saias?
- Lawrence não pode atingir minha intimidade. Não somos casados.
- E dai? Você não sente desejos? Não ânsia pelas mãos dele em seus seios, em seu
ventre, acariciando suas coxas, todo seu corpo enfim?
266
- Sinto, mas não é decente, tudo deve acontecer na ora certa.
- Só a consumação deve esperar o casamento, existem muitos carinhos a serem
trocados sem qualquer problema. - Cristie aproximou os lábios do ouvido de Karem e
continuou falando, não queria correr o risco de partilhar suas confissões com terceiros.
- Você não tem jeito, vamos para o jardim, assim você não precisa ficar
cochichando, provoca- me cócegas.
Cristie gostava de passear pelas ruas após o jantar, sua carruagem a deixava nas
ruas próximas à Ópera, o local era seguro e ela experimentava aquela sensação de
liberdade necessária a uma mulher com pensamentos progressistas, de igualdade de
sexos, de igualdade de oportunidades, e todas as outras igualdades. Nestes momentos se
sentia semelhante aos senhores do mundo; detestava ser obrigada a circular sempre com
acompanhantes, isso não acontecia com os homens, estes circulavam sem qualquer
impedimento, quando avistou Klaus, alto, moreno, cabelos extremamente lisos, bem
negros, penteados rentes à cabeça mostrando as leves entradas nas têmporas,
impecavelmente vestido uma capa solta cobrindo a casaca, sem a tradicional cartola, um
sorriso amável no rosto não pode evitar a atração.
Sua ousadia, no século dezenove. jamais chegara ao exagero de conversar com
um estranho, mas tudo tem sua primeira vez.
Acompanhou Klaus até uma viela escura onde trocaram algumas caricias, depois
até um hotel barato onde sua ânsia por carinhos ousados a transformaram em mulher.
Uma mulher apaixonada, escrava, perdida para o resto do mundo, esqueceu seu desejos
de independência, mas, só teria um senhor a partir daquele dia.
Apresentou Klaus à família de Karen, como um cliente de Lawrence ao qual
conheceu por coincidência, dando seqüência aos planos deste para ter a amada em
definitivo.
Karen, também, não pode deixar de se sentir atraída por aquele homem, por seu
porte fantástico, era realmente um rei, impressionava a todos, conhecia tudo, dançava
maravilhosamente, a princípio estranhou ele se vestir sempre da mesma maneira, casaca
e uma capa preta com fundo escarlate, sempre impecavelmente limpas, depois passou a
considerar este detalhe sem importância, e vê-lo apenas como um homem extremamente
elegante.
Sua carruagem, bem como os cavalos eram sem dúvida o conjunto mais bonito de
Chelms, talvez de toda a Inglaterra, seus criados os mais sóbrios e altivos já vistos por
ela.
Começou a se impressionar com a figura do homem, mas em momento algum
conseguiram um minuto a sós. Como era comum seus seguidores não admitirem mais
ninguém em sua vida além dele Cristie rompeu o noivado considerado ideal pela família
sem maiores explicações, causando um mal estar geral.
- Como pode fazer isso Cristie? Payne - referindo- se a Sir Alfred Payne Turner
III sócio de Lawrence. - é um homem tão dedicado e a ama sinceramente. Reconsidere
sua decisão. Como você pode tomar esta atitude assim de repente? - estranhou Karen
- Se você soubesse concordaria comigo, não existiria outro homem depois dele.
- De quem você está falando?
- Quando eu puder eu lhe direi, então você vai me dar razão, meu príncipe, é o rei
dos homens.
267
Mas Klaus não concordou com Cristie, não a autorizou a revelar seu romance,
recebia-a em um quarto de um hotel de segunda categoria onde se amavam escondidos
dos olhos da sociedade mas passou a temer sua convivência com Karen, sentia-se como
um estudante apaixonado pela primeira professora e temia ser traído por Cristie.
Freqüentando sua casa ficou sabendo de um passeio noturno de seu verdadeiro
alvo. Ela iria encontrar a amiga na ópera, mais antes iria a um café com uma tia e dali
sozinha para o teatro.
Klaus tão logo caiu a noite se dirigiu ao café, ela não estaria ali antes das oito,
sabia, mas queria estar presente quando aquela figura tão amada atravessasse a porta,
não queria perder um único minuto de sua visão.
Ela apareceu acompanhada de três senhoras e ele desejou sua presença, mas sem
sucesso, suas emoções estariam interferindo em sua performance? Karem não era como
qualquer outro ser humano? Seria imune ao seu poder? Afinal era a reencarnação de
Karina; acreditava; varias vezes fora desafiado por ela no decorrer dos séculos. Talvez
não fosse. Podia ser seu estado psicológico, sua ansiedade sem precedentes a impedir
sua total concentração?
Mas suas preocupações não se justificavam, havia apenas a cumplicidade da
mulher amada, preocupada com a presença das parentes mais velhas, embora ansiosa
por atender ao seu pedido mudo estava sujeita aos costumes locais e jamais poderia se
dirigir à mesa de um cavalheiro sem chamar demasiadamente a atenção, no entanto,
quando ela passou perto de sua mesa deixou cair um papel, ele o apanhou e se encantou
com seu conteúdo.
"Vou deixar as senhoras na carruagem, siga- me depois disso, vou andar
lentamente, sempre para a direita, existe um teatro barato naquela rua, estarei dentro
dele esperando pelo meu príncipe e senhor."
Klaus se preparou para sair, mas ficou apenas na intenção, a chuva começou a cair
forte sobre Chelms, lamentou não estar em Londres, ali as carruagens eram raras, e ele
ficou prisioneiro do local. Não seria nesta noite seu encontro com Karen
- *Antony Latimmer, renomado médico e cientista da mente ouvia os relatos de
Lawrence, estava por demais interessado em sua história.
- Então este Conde o manteve prisioneiro do castelo durante todo este tempo e o
senhor precisou fugir amarrado em cordas através de um abismo?
- Exatamente, o povo da cidade me contou, ele se alimenta de sangue e não
suporta símbolos sagrados, alem disso não pode viver durante o dia, sofre a maldição de
todos os seres das trevas, acorda com a noite e dorme com a luz, descansa de seus
festins diabólicos em um caixão de defuntos, este e o preço por todos os seus poderes e
riquezas.
- O senhor se incomodaria de me levar consigo para sua cidade? Eu gostaria
muito de conversar com este homem, o estudo do ocultismo é uma das áreas nas quais
mais gosto de me enfronhar.
- Impossível, ele está morto, lhe darei meu diário se tiver sua palavra a cerca de
não falar nada sobre nossa conversa, nada disso deverá ser sequer mencionado ainda
existe o filho do conde. É um homem muito poderoso e não o quero como meu inimigo.
Quando chegar em Rochester serei um homem falido e vulnerável. Mas venha comigo,
de lá podemos ir rapidamente a Chelms onde mora minha noiva.
268
- Pode deixar, serei absolutamente discreto.
O diário de Lawrence era uma mistura de tudo mesclava partes verdadeiras da
história com todas as superstições dos aldeões e produtos de sua fantasia. A maior parte
de sua narrativa era produto de sua imaginação, mesmo sua convivência com as três
mulheres, a quem atribuiu a mesma sina fora estranho mais não exatamente
sobrenatural, elas nunca saiam de seus aposentos durante o dia é verdade; mas quem as
trancava neles? Ele próprio! Se elas se alimentavam de sangue, porque o criado levava
suas refeições todas as Noites. Então não podia afirmar nada a respeito de seus hábitos.
O próprio Conde se preocupara com sua segurança e fora extremamente gentil em todas
as ocasiões nas quais se encontraram. Exageros decorrentes de seu medo de perder
Karen e a conseqüente chance de se tornar um homem rico fizeram-no transformar
Klaus em um ser absolutamente diferente do encontrado. Ele era realmente um monstro,
mas nunca demostrou ou deu ao corretor fatos reais justificando o escrito em seu diário.
Mas essa miscelânea, mentirosa no mérito estava incrivelmente perto da verdade
não fora o fato de Klaus não se alimentar de sangue os demais fatos se aproximavam
muito de como as coisas aconteciam embora pelo prisma dos aldeões e alguns
requintados toques de sua condição de um homem instruído e inteligente. Sua suposta
passagem por Rardemuc estava registrada no diário com detalhes, datas, horas, mas
tudo fora escrito durante sua viagem de Calais à Inglaterra e em trens, diligências e
navios, não dia a dia , totalmente forjada. Era uma estratégia: soube lá da morte do
Conde, o navio onde viajava havia naufragado; ele teria uma bela história para
apresentar ao sócio e à noiva, tinha milhares de cúmplices em suas mentiras. Elas
seriam confirmadas por qualquer cidadão proveniente dos Cárpatos eventualmente
encontrado na Inglaterra, quanto à sua falência, era coisa certa, os mortos não compram
vilas e então precisava de forma nunca imaginada da ajuda do pai da noiva.
Provar estar doente fora fácil, estava abatido pelas noites de constantes orgias e a
ingestão de muitas bebidas fortes às quais não estava acostumado, destiladas de
maneira rudimentar pelos aldeões aos quais o preço do vinho de Rardemuc era
proibitivo. Realmente não gozava de boa saúde. Viu no médico um tanto quando
inocente e apaixonado pelo ocultismo um forte aliado para ajudá-lo a permanecer no rol
dos homens bem sucedidos e isso só seria possível com a ajuda do pai de Karem para
segurar a eminente falência da Stemplenton & Turner até conseguirem um cliente para
comprar realmente a mansão. Sua proposta de acompanhá-lo a Rochester foi
extremamente providencial, nada melhor poderia lhe acontecer.
- *Klaus tinha um enorme baú em seu quarto do hotel, poderia precisar dele em noite
de tempestade se estivesse no local ao raiar do Sol pois não podia se expor à água limpa
da chuva e não poderia buscar a segurança de sua tumba. Não quis correr o risco de
receber a luz diretamente sobre ele se alguma camareira inadvertida abrisse as cortinas
enquanto ele descansasse sobre a cama.
No baú havia terra, dormir sobre ela não tornava seu sono tão profundo para não
perceber algum perigo do lado de fora, fazia-o leve e não permitiria imaginá-lo morto se
fosse encontrado, tinha reações de pálpebras e podia mover levemente as mãos, assim
com alguma sorte poderia já ter anoitecido quando voltassem com um médico, isso tudo
se conseguissem arrombá-lo, pois só abria por dentro.
Foi em um desses dias de tempestade; passava algum tempo no saguão do hotel
usufruindo do maravilhoso contato com as pessoas, observou no jornal portado por um
deles detalhes sobre o suposto e inexistente naufrágio do Venture, o navio havia sido
269
colhido por uma tempestade e embora tenha alcançado o porto de Calais num final de
noite não havia uma única vela inteira e nem um homem vivo à bordo. Dai até a
confirmação do desastre chegar a Londres e se espalhar pelo pais ainda foram muitos
dias.
"O DESASTRE DO VENTURE"
"O Venture, esperado em Londres e pertencendo a Companhia Dublin de
Navegação aportou sem tripulantes em Calais, França sem ninguém a bordo, não
existem noticias de sobreviventes, os oficiais e marinheiros possivelmente tenham
tentado alcançar a terra em botes sem sucesso, embarcada no Portland a carga não
perecível chegou ontem aos armazéns da companhia em Londres e se encontra a
disposição dos....
Fingiu não ler a noticia, dia estava maravilhoso, podia estar fora daquele maldito
baú, não o perderia com demonstrações de pêsames, fá-lo-ia mais tarde, as noites eram
todas iguais então em uma delas ele receberia os pêsames pelo passamento do pai, uma
situação à qual já estava acostumado, quantas condolências por mortos inexistentes
tinham feito parte de sua vida?
Então voltou a se dedicar à sua diversão favorita, observar humanos, fortes,
viçosos, cheios de energia, daquela cor maravilhosa resultante do sol contrastando com
sua palidez milenar disfarçada com muita técnica pelos produtos desenvolvidos através
dos anos por ele mesmo, esquecera de usá-los quando recebeu Lawrence e não devia ter
causado uma impressão muito boa - pensou - e absorto nesta preocupação fútil ouviu
aquela voz tão desejada às suas costas.
- Se eu não pudesse imaginar seus problemas e dificuldades com a natureza eu
não lhe perdoaria por me fazer esperar tanto por este encontro, mas ainda guardo uma
pequena mágoa.
Virou-se e deparou com ela, no Sheffield bem distante de Chelms estava a razão
de seu existir, motivo de seus crimes de tantas mortes na busca de uma vida perpétua,
sua Karina, então chamada Karen, a mesma beleza, aqueles olhos maravilhosamente
verdes e aquela pele macia como a mais tenra pétala da mais frágil flor, o mesmo rubro
desejado durante séculos moldavam seu cativante seu sorriso e ainda sob a égide de
uma suposta mágoa permanecia doce, não podia deixar de sê-lo.
- Todas as desculpas antes proferidas, todas a serem ditas, não serão suficientes,
não podemos magoar a quem amamos e tentar consertar isso com desculpas, apenas
minha espera de séculos por você me da o direito de tentar ser perdoado, sem garantias.
- Como poderia eu não perdoá-lo? Não é tão grande minha ânsia quanto a sua? Só
depois de vê-lo eu soube, esperei minha vida inteira por este encontro.
- Assim é o amor, não permite substitutos ou acordos, exige e em nome dele
agimos sem questionar, cegos... inconseqüentes...
- Sabe o meu príncipe tanto assim sobre o amor?
- Deveria saber, mas não fui criado para amar e sim para servir ao próximo, falhei
ai e em conhecer o amor, na verdade eu não sei nada, os séculos nos quais vi o homem
surgir e tentar evoluir não me fizeram defini-lo, é uma força estranha e inexplicável.
Liga amantes e separa famílias, em nome dele se acaricia e maltrata. É bom? Provoca o
bem? É de Deus... ou não? Como cicatriza, faz sangrar; como cura, faz adoecer; a
alguns traz a luz, é verdade, mas pode provocar as trevas, transformar a felicidade
intensa na maior das dores em segundos e também fazer o inverso. Enfraquece o forte e
270
encoraja o covarde. No entanto! É o único sentimento realmente doce, intenso,
importante, forte o suficiente para não ter preço ou dimensão exata, ser o fator a guiar
uma vida quando é real. Como o meu por você,
- Não arriscaria sua vida por mim meu príncipe? Não teve coragem de arriscá-la
para me encontrar?
- O amor é antes de tudo egoísta, ele pode esperar, mas não correr o risco de ser
destruído, de nada adiantaria eu sair à chuva; e, morto não ter nunca mais a
oportunidade de vê-la, minha vida é valiosa demais, pois lhe pertence, como tudo o
mais incluindo em minhas posses, preciso defendê-la, mantê-la. Tudo para dar à mulher
dos meus sonhos. Não permaneça magoada, sinta o meu amor e o poder emanado dele,
transforme-se na minha seqüência, forme comigo uma única pessoa, use o nosso amor.
Mesmo uma flor considerada irracional consegue entendê-lo e reagir... reviver,
rejuvenescer através dele, não haverá momentos de tristeza em sua vida, vou lhe
mostrar.
Levou Karem até um canto do hotel onde um vazo de plantas abrigava folhagens
esquecidas pelos serviçais, e, em sendo assim se apresentavam feias e sem vida.
- Mostre você mesmo a elas o poder do nosso amor, é grande o suficiente para
nunca terminar, forte o bastante para poder ser dividido, doe-se, abandone- se, ame- as e
compreenderá o poder deste sentimento.
Karem tocou as folhas, quis vê-las redivivas, belas, amadas, e aos poucos elas
"entenderam", reagiram, foram se enchendo de energia, recuperando seu verde, seu
amarelo, seus lilases, tirando da pouca terra existente nos vasos o necessário para se
tornaram belas em todas as sua matizes. Quando se afastaram em direção ao saguão
deixaram ali folhagens e flores cuja beleza não seria possível a não ser com a
participação cuidadosa e apaixonada do mais capaz dos jardineiros.
Klaus se encantou com a mulher ao seu lado e teve certeza, Karina habitava
aquele corpo, sua busca não fora em vão.
- A natureza tem sido injusta comigo, duas vezes nos encontramos e duas vezes a
chuva me impede de transitar consigo pelas ruas, compartilhar com todos a minha
alegria imensurável, ver a lua minha velha amiga e mostrar a ela o resultado final de
minha busca.
- Talvez não devamos compartilhar! Nada nem ninguém deve ser testemunha de
nossos anseios e atos ainda, deixarei a porta de minha suite destrancada, não viajei de
Chelms até aqui a não ser por isso, os acontecimentos das ruas e de todo o universo hoje
não me tentam, apenas sua presença em meu leito fará meu coração pulsar realmente,
depois preciso regressar a Chelms, não sei quando poderemos nos ver novamente.
- *Mas todos os medos de Lawrence quanto a uma possível falência eram
infundados, mesmo sem ter contato com o Conde seu sócio efetuou o pagamento do
saldo da mansão, afinal se o dinheiro chegara de Rardemuc, a compra havia se
efetivado.
O valor enviado era bem superior, ele usou o necessário e aguardou os
acontecimentos. Quando Klaus atendeu Alfred na Mansão Bhremer para receber os
papéis referentes à compra da mansão usava uma tarja preta no paletó em sinal de luto
pela morte do pai, passageiro do Venture e ainda não haviam notícias de Lawrence em
Chelms ou na Stemplenton & Turner, Rochester.
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A Stemplenton & Turner nesta data deixou de ser uma pequena empresa, era a
administradora oficial dos bens dos Rardemucs e dos demais dissidentes na Inglaterra.
Klaus quis fazer justiça à sua moda. Uma espécie de troca, tiraria a mulher de
Lawrence, mas faria dele um homem bem sucedido.
Quando Lawrence chegou à firma em Rochester, foi para retirar alguns
documentos particulares, estava arrasado, recebera ainda na clinica em Londres a carta
de Karem pondo um fim definitivo às suas intenções de se reerguer financeiramente
através de um casamento de conveniência.
Descobrir a situação privilegiada na qual se encontrava o deixou espantado,
estava tentando acabar com o homem cuja única maldade fora permitir a ele uma vida
confortável até sua morte, consultou seu saldo, tinha dinheiro para comprar a pequena
vila na entrada de Chelms, podia não ser a maior, nem a mais valiosa, mas era sem
dúvida a mais bela do local, seus jardins eram incomparáveis. Ali se instalou com
Roxane, sua esposa, uma “condessa” romena a quem desposara em sua viagem aos
Cárpatos. Com isso sentiu um leve sabor de vingança em relação a Karem ela não podia
ter preterido quem já era casado.
Klaus tinha pressa para deixar a casa em condições de receber convidados e
contratou um decorador para deixá-la mais aconchegante mas não deixou a casa para
aguardar o fim dos serviços, vistoriava diariamente os avanços dos mesmos, adorava
habitar a casa onde pretendia viver feliz com a mulher de seus sonhos no entanto
preparou pessoalmente o cômodo ao fundo da adega onde descansaria durante o dia.
Não queria correr qualquer risco embora se sentisse seguro em Chelms, não havia
inimigos, lutas, invasores, encontrara o paraíso e sua Eva.
- *A primeira pessoa a visitá-lo na sua nova moradia, paradoxalmente, foi Cristie,
havia descoberto seu romance com Karen e não o aceitou, Klaus enfrentava uma
situação nunca experimentada, uma escrava apaixonada, ciumenta e de temperamento
forte, não sabia como resolver o problema seu poder sobre ela não funcionava, já estava
fascinada por ele antes de lhe ceder qualquer coisa através de hipnose e fugia de seu
controle. Para tranqüilizá-la prometeu romper o relacionamento e a visitar seu leito, ali
sugou quase toda a sua energia sem no entanto exauri-la por completo, não queria vê-la
com aquela aparência extremamente branca de todas as suas vítimas, no entanto sabia,
pereceria em segundos, talvez minutos, ninguém poderia salvá-la. Estava fraca demais
até para absorver a vida de alguém, experimentava o limite sem volta entre a vida e a
morte, tinha certeza.
Mas derrubou um vaso ao sair do quarto e chamou a atenção de todos. Lawrence e
Sir Antony estavam visitando a casa e correram para o quarto como todos os demais,
este vendo a palidez de Cristie a imaginou em crise anêmica, ela quase já não respirava,
mas seu corpo ainda estava quente. Experimentou fazer uma transfusão de sangue e isso
a revigorou parcialmente.
Klaus ficou surpreso ao receber novamente sua visita na outra noite, tinha feito
um serviço perfeito, não podia estar acontecendo, então voltou à procurá-la para
terminar o serviço mas não foi possível, as pessoas em volta dela e a mortalha com a
qual estava vestida deu-lhe uma certeza, desta vez, sem dúvida encontrara seu fim.
Livre definitivamente dela poderia se concentrar em Karem.
- *-
272
Cristie acordou e pode observar sobre si o cetim branco destinado aos caixões das
virgens, suas jóias não adornavam seu braço e suas mãos estavam entrelaçadas. Pensou
um pouco e com uma calma anormal nos humanos deduziu.
- Os idiotas me enterraram viva. - a esta altura sabia exatamente onde estava, e
como, ficou surpresa com sua visão, podia enxergar perfeitamente o cetim com o qual o
caixão fora revestido, estranhou. Seu raciocínio ainda era humano. Então se sentiu
desesperada, fora enterrada viva e estava condenada a morrer sufocada dentro de uma
capela se não tivesse a sorte de acordar um vigia ou qualquer outra pessoa, no entanto
não chegou a gritar: quando tentou mover a pesada tampa sentiu-a tão leve quanto a de
sua caixinha de costuras.
- Qual o material deste caixão? Cortiça? - perguntou- se
A entrada da tumba estava trancada, Karem faminta, só sabia disso no momento,
um cadeado pendia de uma pesada corrente cerrando as grades, muito forte para ser
aberto sem ferramentas, mas quando tentou puxá-lo se surpreendeu, o mesmo cedeu
mansamente deixando a passagem livre, precisava comer, em sua casa encontraria
comida, o resto não tinha importância. Só pensava em se alimentar, matar aquela fome
terrível e dolorida.
Klaus se enganara, ela não estava morta, mas transformada, falhara em sua
tentativa, possivelmente o sangue tenha a capacidade de transmitir energia não como
quanto o contato dos espectros mas o suficiente para manter Cristie “viva” e faminta, se
afastou da pequena capela destinada ao seu último descanso e saiu para a rua andando
em direção a sua antiga casa onde certamente encontraria alimento, a porta da cozinha
estava aberta, mas ela não conseguiu penetrar na casa, algo, uma força invisível a
mantinha do lado de fora, já não fazia parte realmente daquela família, era então uma
criatura noite, comprometida com o terror e a morte. Vagou em vão pelo local sem
lograr êxito em sua tentativa de se alimentar.
O jardineiro acordava sempre muito cedo e a viu! Não teve dúvidas! Estava diante
de algo fora no normal quis gritar, fugir, mas a vontade de Cristie era mais forte. Tentou
reagir àquele pedido mudo, queria fugir, lutar pela vida, mas sentiu faltarem- lhe as
forcas indo ao chão onde rabiscou alguma coisa com os dedos na terra.
Cristie se colocou ao seu lado e tentou reanimá-lo, depois percebeu o alivio
proporcionado pelo contato com a pele do homem seu apetite diminuía segundo a
segundo, então se dedicou somente a sugar sua energia, a vida dele não tinha a menor
importância, era alimento e como tal devia ser utilizado. Aos poucos sua fome foi sendo
saciada até se extinguir por completo o dia estava próximo e ela deduziu, agora era
como Klaus, precisava voltar à sua tumba e descansar, mas não conseguiu atingir o
caixão, repousou no chão da capela por sorte a salvo do sol.
Quando o corpo do jardineiro foi encontrado havia um rabisco ao seu lado, tentara
escrever "Cristie, vive." mas nervoso e fraco escreveu “Christ Live”, isto foi
interpretado como uma última manifestação de religiosidade do homem face à morte
eminente, sua palidez atribuída ao frio.
- *Um ser humano transformado, se não for instruído, é facilmente localizado, pois
não se preocupa com a própria segurança, passa a ver os humanos como caça e não os
teme, não toma cuidados extremos e agem com total naturalidade.
Assim passadas quatro semanas e ela atacou outro serviçal, testemunhas juraram
tê-la visto, mas a policia não acreditou; após um mês outro ataque e as mesmas
273
histórias, como as autoridades se negavam a investigar a existência de um morto-vivo
como o principal suspeito Sir Antony foi com Alfred à capela e abriu o caixão, Cristie
repousava tranqüilamente, suas faces eram rosadas como as de uma mulher sadia, fato
cientificamente impossível. Pediram autorização para realizar um exame no corpo no
hospital, em função da notoriedade e da fama nacional do Doutor Latimmer o pedido foi
atendido de imediato.
O caixão foi removido e levado para fora da capela, por dois trabalhadores em
uma manhã nublada e deixado aberto para permitir seu reconhecimento pelas
autoridades e parentes antes da transferência dos restos mortais para o hospital, mas
quando estes chegaram o corpo embora muito bem conservado não tinha nenhum sinal
de vida, e se apresentava extremamente pálido. Os exames preliminares do mesmo não
permitiram nenhuma conclusão, no entanto, no hospital abandonado sobre uma mesa
longe dos olhos de todos ela foi atingido pelo sol e quando foi encontrado mostrava o
tempo exato de sua morte, estava fétido e parcialmente descarnado.Cristie
já
não
existia, em nenhum dos planos onde poderia ser classificada pela ótica dos crentes no
ocultismo, o dos vivos ou dos mortos- vivos
- *- Como pode o corpo se manter inteiro por tanto tempo e se deteriorar de repente
sem nenhuma explicação? - questionou Lawrence
- Ouvi falar de casos semelhantes ao sul dos Estados Unidos, pessoas saiam ao sol
e começavam a apresentar feridas de imediato, morrendo sob intensa agonia. respondeu Sir Antony. - Isso aconteceu há aproximadamente cinqüenta anos, mas as
pesquisas afirmam não serem os únicos casos, os primeiros registrados ocorreram por
volta do primeiro século II depois de Cristo nos Cárpatos. Exatamente onde residia o
seu conde.
- E como foi resolvido?
- Nos Cárpatos? - perguntou e respondeu de imediato. - Nunca! Mas na Luisiânia
houve um homem, Esaú Norton, ele descobriu como localizar os monstros e destrui-los.
Usava bestas cujas setas tinham ponta de prata, e facas do mesmo material para se
proteger deles e matá-los, eles são imunes a qualquer outro material não podem ser
feridos com ferro ou aço, mas ele também usava água.
- Água benta?
- Não, água pura, transportada em objetos de vidro, deve ser colhida diretamente
da chuva ou em nascentes imaculadas, mas é muito complicado por exigir uma grande
quantidade.
- Então o senhor responsabiliza o Conde por isso?
- Não sei, segundo consta ele estava no Venture, mas estes seres tem uma incrível
habilidade para sobreviver, então não afasto esta possibilidade.
- Podemos procurar seu filho, ele comprou a mansão próxima à casa de Karen me
salvando da falência e dando credibilidade à minha firma, agora sou cada vez mais
procurado por meus clientes.
- Ótimo, você e Karen continuam amigos apesar de terem rompido o noivado.
Talvez possamos nos hospedar lá, se ele tiver alguma coisa com a doença de Cristie
precisamos destrui-lo e a casa na qual você mora é muito distante do local.
- *-
274
Sir Antony foi surpreendido pela visita de Klaus à Karen, desconhecia qualquer
vinculo de amizade entre os dois.
- Senhor Conde, tivemos noticias à cerca da morte de seu pai junto à costa da
Inglaterra, as autoridades conseguiram resgatar o corpo?
- Infelizmente não, poucos corpos foram recuperados, talvez eu não consiga dar a
ele um enterro cristão antes de retornar ao meu castelo, mas já adquiri sua tumba na
Cidade de Chelms onde vou fazer o enterro simbólico.
- O senhor pretende nos deixar?
- Muito a contragosto, amo a Inglaterra e aos ingleses, mas não posso deixar
minhas terras sem comando, é a triste sina dos Rardemucs, nossa administração garante
ao povo baixos impostos e uma vida tranqüila, vou deixar a mansão aos cuidados da
Stemplenton & Turner quero alugá-la, meus súditos precisam de mim, cuido muito bem
deles.
- No entanto seu povo, teme aos Rardemucs? Qual é a sua explicação para isso?
- São uns tolos supersticiosos, mas nunca fizemos nada para mudar isso, ajuda a
manter o respeito, o medo sempre será uma forma muito eficaz para governar, mas
quem abandona meus domínios e retorna trás noticias de muitas tristezas de fora dele,
somos também idolatrados e vistos como heróis nas guerras contra os invasores,
principalmente Klaus Dezessete.
- Eu o conheço como um homem feroz, e não como um herói.
- É uma questão de ponto de vista, nossos inimigos também não podiam ser
contestados em temos de ferocidade, mas deixaram nosso povo em paz depois de
conhecer a nossa.
- Claro, mas isso está chegando ao fim, as democracias estão se instalando
rapidamente, segundo meus cálculos seu poder sobre os camponeses não durará nada
além dos próximos cinqüenta anos.
- Não me preocupa, tenho uma fortuna acumulada durante séculos, grande parte
de meu dinheiro está na Inglaterra, mas também tenho muitos bens no sul do Estados
Unidos.
- Luisiânia?
- Também. Mas como sabe?
- Apenas imaginei, estou certo?
- Está. Mas continuando meu raciocínio, não ficarei em meu pais se for destituído
de meu poder, não vou suportar ver uma dinastia de dezoito séculos de repente se tornar
sem força, não vou viver como um plebeu qualquer.
- Mas isso é inevitável, o senhor precisará viver como um.
- Não em meus domínios, ainda me sentirei um rei no exílio. Não vou poder
manter este sentimento em Rardemuc. De qualquer forma jamais vou ser realmente um
plebeu, sempre vou ter algo de diferente, isso não pode ser ensinado, a não ser através
de uma vida de nobreza, esta enraizado em mim.
- É forte assim?
275
- Claro, mas o senhor não sabe como vive um plebeu, um ninguém, vocês tem as
suas formas de realeza, seja como um procurador bem sucedido ou um doutor
importante, mas ser um homem do povo, realmente do povo?
- Na democracia eles são importantes.
- Meros sonhos, as democracias tem apenas a alternância dos exploradores, os
reis, condes e duques, passam a ser denominados presidentes, senadores e outros
apelidos, mas forma-se outra casta e ali o poder circula, os demais serão como sempre
pessoas sem a menor importância.
- Não são sem importância, formam o povo.
- O povo? Como o meu! Tolos e iludidos. Hoje um povo feliz e despreocupado
com impostos injustos, e nobres desnecessários e no entanto tem movimentos
democráticos eu sei, inclusive quem são os lideres mas não vou combatê-los, gastaria o
dinheiro das obras sociais formando um novo exército, não temos guerra.
- Vai deixá-los assumir o poder?
- Vou, a democracia vai destruir Rardemuc, com seus presidentes, senadores e
tantos outros, cujos salário vai acarretar aumento nos impostos, o povo vai apoiá-los
para cumprir seu triste destino, não ser ninguém.
- Ninguém?
- Exatamente, quem são esses dos quais ninguém se lembra? Que passam pelo
mundo e não tem seus nomes anotados a não ser nos esquecidos arquivos onde se
cadastram os nascidos, isso em Rardemuc onde o cadastro é gratuito e realmente
obrigatório, senão em muitos lugares sequer existirão como cidadãos, nascerão e
morrerão sendo nada.
- Senhor conde....
- Espere por favor. - cortou Klaus - Qual a finalidade de suas vidas? Serem a
pena com a qual outros escrevem a história? O tinteiro contendo a tinta cuja serventia
cessa quando vazio e se transforma em um objeto insignificante, inútil cujo único
destino correto é o lixo? Poderia eu viver como um plebeu sem direito sequer a um
enterro decente muitas vezes servindo de adubo ou alimento de abutres?
- Eu não sou um nobre e me sinto feliz.
- Claro Lawrence! A nobreza é privilegiada, é fato, mas existem outras castas,
outras formas de não ser um ninguém completo: são os vencedores. Mas é preciso
vencer! Onde você estaria agora caso eu não honrasse a palavra de meu pai e não
tivesse adquirido a Mansão Bhremer?
- Não sei, realmente não sei.
- Pense nisso. É fácil defender o povo quando não se é um deles, eles mesmos não
tentam. Estão preocupados demais em sobreviver.
- Engano seu, perdoe- me, mas os lideres do povo nascem de seu meio.
- Nem todos, e mesmo assim ser um líder é profissão, enriquecem através dessa
jornada e quando atingem um determinado patamar tornam- se um dos poderosos a ser
combatido pelos revolucionários a surgir.
- O senhor me parece bem familiarizado com a democracia ainda embrionária,
como pode saber tanto.
276
- Fui educado para ser um rei, assim nos consideramos em nossa pequena
Rardemuc, os lideres revolucionários das democracias não são em nada diferentes dos
candidatos a usurpadores dos reinados e impérios, têm como única finalidade o seu bem
pessoal. Sem exceção! Senão vencida a revolução voltariam às suas profissões
originais.
Antony já perdera o interesse por essa conversa, começou a fantasiar suas próprias
crenças e quando conseguiu levou Klaus até o espelho, se ele fosse descendente de uma
dinastia de monstros e consequentemente um, segundo a lenda sua imagem não seria
refletida, uma das características dessa entidade maldita e se decepcionou quando ele
aproveitou o objeto para ajeitar a gravata um pouco fora de posição. Sentiu uma certa
decepção, mas não desistiu. Haveriam outras oportunidades e testes, de repente apenas
aquele detalhe era inverídico.
- *- Esta é um excelente oportunidade para verificarmos se nosso amigo vive durante
o dia, daqui há pouco vai desabar uma tempestade então nos colocamos próximos à
cada dele e pedimos abrigo lá.
- Sir Antony, não devemos interferir com a vida do Conde Klaus, é um homem
aparentemente gentil, mas é um Rardemuc, foi criado para ser feroz, não gostaria de têlo como inimigo, é um investidor em potencial meu maior cliente.
- A perspectiva de vender e alugar alguns imóveis está deixando você negligente
com suas obrigações para com o resto da humanidade, se ele aparecer então nós o
esquecemos, não é o nosso homem.
- *Klaus observou os dois "intrometidos" entrando na casa e gostou, isso era muito
bom, mesmo nos raros os dias de tempestade onde ele podia andar como os demais
viver sem o escuro infinito no qual se transformara sua vida, ainda era um prisioneiro
do dia, não podia sair e enfrentar a chuva, visitas tornavam o dia mais agradável, criava
a rara atmosfera de cumplicidade compartilhada por todos os mortais comuns e da qual
ele raramente se beneficiava.
- Senhores, sua visita me enche de prazer, raramente tenho companhia, tenho
poucos amigos apesar de desejá-los muito, por favor entrem em minha casa.
- Obrigado pelo abrigo senhor Conde, assim aproveito e tento saber algo mais
sobre o seu povo.
- Não existe muito para se saber sobre o povo de Rardemuc, fora o fato de serem
extremamente valentes e leais ao seu pais.
- Não me refiro a eles, mas aos pleitonianos.
- Pleitunianos na verdade, mas os Romanos nos chamavam de pleitonianos, eu
não me considero um. Nasci em Rardemuc e fui educado na Inglaterra como todos os
meus ascendentes mas como sabe disso.
- Escute um trecho na narrativa deste livro: "Quando Vespasiano entregou
Rardemuc e os condados vizinhos aos pleitonianos como pagamento por suas terras na
Britannia conseguiu novos aliados entregando aos mesmos estas propriedades"
- Interessante, não somos chamados assim desde então.
277
- Exato, mas sou um estudioso, tentei localizar a Pleitonia em todos os mapas
antigos existentes na biblioteca de Londres e não a localizei.
- Nem localizará, éramos um povo vindo do norte, e em nossa embarcação não
havia mapas, estávamos fugindo sem destino, abalroamos a ilha de Ilva por acaso,
podíamos ter aportado em qualquer outro lugar, nossos inimigos não deixavam
sobreviventes quando entramos nas cartas geográfica já estávamos anexados a uma
outra nação.
- E como vocês fizeram para se comunicar? Não falavam o idioma dos romanos.
- Segundo sei todos os nobres Pleitunianos haviam aprendido este idioma com
desertores da decima oitava legião, dizimada ao norte, ela jamais retornou a Roma, mas
o império poderia tentar nova investida e seria útil sabermos nos comunicar.
- Então é impossível saber se a Pleitunia existiu realmente. Estou certo?
Klaus andou até um móvel de onde tirou alguns documentos.
- Posso lhe emprestar todo o acervo ainda existente de meus ancestrais, mas não
vão ajudá-lo a entender, jamais utilizamos este idioma e símbolos após chegarmos a
Roma, no entanto tome cuidado com eles, são relíquias inestimáveis.
- *Ficaram ali até cair a noite, e com ela o fim da tempestade. Quando saiam a
carruagem de Klaus já se encontrava à disposição, foram até um café onde
permaneceram até tarde, quando se separaram Sir Antony tinha outra impressão a
respeito dele.
- É um homem totalmente normal, você tinha razão, se ele gosta de cumprir seus
compromissos comerciais à noite, com certeza, isso é apenas um capricho ao qual só os
milionário podem se dar ao luxo de ter.
- Agora já não estou tão certo, - ponderou Lawrence. - alguns objetos daquela
casa vieram do castelo, seu roupão era idêntico ao de seu pai, não poderiam estar aqui
se estavam na carga do Venture, ela foi jogada ao mar.
- Tem certeza?
- Absoluta, depois da chegada de Klaus à cidade duas mulheres muito chegadas a
mim desmancharam seus noivados e uma está morta. Depois, ele é igual ao pai, o
mesmo corpo magro, a mesma altura, o mesmo olhar, a mesma voz... ele é o Conde
rejuvenescido.
- Você está com ciúmes, encontrou- o na casa de Karen, e mal informado.
Segundo os jornais os não perecíveis existentes no Venture foram transferidos para o
Portland e enviados a Londres. Quanto ao roupão, com o brasão dos Rardemucs, deve
fazer parte do guarda roupa deles, totalmente normal, agora vamos fazer uma pequena
viagem, quero dar estes documentos a um amigo meu de Londres, talvez eles possam
ser decifrados.
- *Mas Klaus ao contrário deles não se sentia absolutamente tranqüilo, Sir Antony
Latimmer, doutor em medicina, filosofia e apaixonado pelo ocultismo não era alguém
para se ter por perto, estava momentaneamente satisfeito mas seria apenas uma questão
de tempo para ele voltar ao ataque.
278
E não levou tanto tempo assim, motivado pelas conversas mantidas com
Lawrence o homem realmente voltou à carga, armou-se de símbolos e pinduricalhos,
facas de prata e armas municiadas com cartuchos do mesmo material e juntamente com
mais três homens dentre os quais Sir James Alton, o pai de Karen, além de Lawrence
compareceu à Mansão Bhremer.
- Precisamos falar urgente com o conde, assunto de interesse da moral da família
Alton.
- Sinto muito, mas ele não está, só voltará ao anoitecer.
- Não gostaria de dar uma olhada na casa Sir James? Afinal existe o risco de ser a
futura morada de sua filha Karen segundo os comentários responsáveis por nossa vinda
aqui.
- Interessante. - respondeu o homem. - deverás interessante.
- Impossível! - interveio o criado. - Não posso permitir a ninguém andar pela
mansão na ausência do conde.
Klaus podia ouvi-los, desesperava- se por ter sido tão descuidado ao chegar,
deixara a porta da adega aberta, poderia ser localizado ali.
- Não vejo nenhum mal em conhecermos o local. - insistiu Sir James, afinal se o
conde pretende cortejar Karen não pode ser tão descortês com seu pai, vou olhar a casa.
Quando olharam em volta haviam mais seis criados em volta deles, homens fortes
e decididos, se sentiram ameaçados.
Sir Antony no entanto estava decidido, sua mão já acariciava a coronha da arma
quando os trovões ribombaram, em segundos o céu escureceu e a chuva caiu forte.
- Seremos todos mortos. - exclamou Sir Anthony entre conformado e decidido a
lutar. - A tempestade pois fim à nossa segurança.
Estavam todos estáticos, o primeiro movimento dependendo de quem o fizesse
podia dar inicio a uma luta sem vencedores, mais algo interferiu.
- Ninguém mais atende a porta nesta casa? - Olharam para trás e viram Klaus, ar
reprovador e com as vestes molhadas como quem tivesse acabado de sair da
tempestade.. - Se eu não tivesse uma chave comigo estaria na chuva até agora.
- O senhor está molhado? - perguntou Lawrence incrédulo - com água da chuva?
- Nada mais natural, acabei de sair dela neste momento apesar da incompetência
de meus serviçais.
- Perdão senhor! - exclamou o criado. - Todas estas pessoas e o barulho infernal
dos trovões.... eu....
- Esqueça! Alguém me providencie um banho e roupas limpas. Sirvam algo para
minhas visitas enquanto me apronto para atendê-los com dignidade. - e virando- se para
os invasores. - Perdoem minhas vestes, eu não fui avisado de suas presenças como
manda o protocolo.
- Protocolo? - estranhou Sir James.
- A Mansão Brhemmer é hoje oficialmente a embaixada de Rardemuc,
considerada como se fosse seu solo. Penetrar nela sem autorização é um ato belicoso e
inaceitável. Esperem por mim por favor.
279
Quando o conde se retirou Sir Antony notou satisfeito o fim da tempestade, ainda
tinham quinze ou vinte minutos até o por do sol, agiria sozinho.
Embrenhou- se na mansão e procurou até achar o quarto onde possivelmente o
conde costumava repousar, a porta estava aberta e havia uma troca de roupas sobre a
cama, no entanto o conde não teria como chegar até elas segundo a lenda, ainda era dia.
No cômodo anexo havia uma banheira com água quente e suja de sabão mas sem
ninguém dentro. Onde estaria o maldito caixão?
- Procura por mim? - perguntou o conde atrás dele. Cabelos molhados e enrolado
em uma toalha, enquanto acionava a sineta autorizando o criado de quarto entrar para
ajudá-lo a se vestir.
Voltou- se de arma em punho e pensou em atirar, mas não podia fazer isso, tinha
fortes preceitos morais, a mínima possibilidade do conde não ser um monstro poderia
transformá-lo em um assassino.
Mas se tentasse atirar não conseguiria, uma força maior o obrigou a baixar os
braços e a colocar a arma no coldre, na seqüência ainda tonto sentiu a arma ser retirada
dele e seu tambor ser esvaziado. Depois não se lembrou de mais nada a não ser de estar
entre os outros na sala saboreando uma bebida.
Para Klaus a guerra estava declarada, Sir Antony era um inimigo, os demais seus
asseclas, não havia segurança para ele em Chelms. Preparou uma mensagem para o
Condessa Karina, já havia até se esquecido dele, mas agora o queria alerta. Devia estar
pronto para partir a qualquer momento.
- *O navio negro continuava ancorado no limite marítimo inglês, era um pequeno
ponto no mar, mas intrigava as autoridades, havia atracado sem ordens há alguns meses
antes e abandonado o cais logo em seguida, no entanto apesar de parado naquele ponto
há muito tempo jamais enviava marinheiros à terra para buscar provisões.
Um jovem capitão decidiu abordá-lo, sua luneta denunciava uma nau fortemente
armada e muito bem conservada, dois símbolos o adornavam, o brasão oficial de
Rardemuc instituído por Roma e a Bandeira Da Legião Morcego, oficializada por
Klaus como pavilhão do pais.
- Está bem, mas sem violência, mantemos boas relações com Rardemuc e não
queremos conflitos internacionais. - autorizou o almirante preocupado com a decisão
do oficial.
- Não se preocupe, quero apenas exigir deles um relatório, uma justificativa sobre
o motivo de sua presença em nossos mares.
Conforme o navio inglês de aproximava de seu alvo ele se afastava, não queria ser
incomodado por autoridades, fossem elas quais fossem.
- Imprimir velocidade máxima, quero alcançar aquele navio. desesperado o capitão.
gritava
Mas a reação do Karina foi surpreendente, sua distancia aumentava em uma
proporção jamais vista pelo jovem oficial, nenhuma nau poderia desenvolver tal
velocidade, nada flutuando nos sete mares poderia superar um vaso inglês.
- Precisamos mais velocidade gritou revoltado.
- Impossível capitão, não temos como nos mover mais rápido.
280
- Como não podemos, navegamos ou não em um vaso inglês?
- Senhor. Observe por si mesmo nossas providências e sugira algo e então
faremos.
O capitão verificou todas as medidas de seu imediato e foi obrigado a concordar
com ele, não havia nada a ser feito.
Quando procurou novamente o Karina ele havia desaparecido, navegou mais
algumas milhas e desistiu, voltou ao porto e quando olhou para o horizonte viu o navio
ancorado exatamente no ponto onde sempre estivera, indiferente ao poderio naval
inglês. Se sentiu humilhado mas não havia nada a fazer a não ser suportar a inveja e a
vontade de comandar uma embarcação tão perfeita.
E como única medida possível para amainar sua frustração apresentou sua
demissão ao almirantado.
- *Klaus desejou ardentemente descarregar sua ira sobre Lawrence e Sir Antony,
mas sentiu medo de magoar Karem, ainda havia um profundo sentimento de carinho
nela pelo ex-noivo, e muita admiração e gratidão pelo Doutor Latimmer resultante dos
cuidados prestados a Cristie.
Mas tiraria Karem deles definitivamente, baniria a presença de tão perigosos
inimigos de seus caminhos, e ainda havia algo a fazer cuja conseqüência não magoaria a
não ser o egoísmo de Lawrence. Quando ele acordou não encontrou senão um deserto
no tão bem cuidado jardim de sua mansão, adquirida graças aos negócios
proporcionados pela administração de seus imóveis e à confiança adquirida com a
venda da residência Bhremmer, isso sim atingiria fundo um homem tão presunçoso e
apegado aos valores materiais na seqüência passou a administração de seus bens para
outra empresa antes de desaparecer completamente.
- *- O senhor tem certeza? Podemos alcança-la? Vamos encontrá-la finalmente. perguntou Lawrence aflito.
- Claro! - respondeu o agente. - Ela vai aguardar por dois dias outro trem para
levá-la ao seu destino final, e vocês chegarão lá duas ou três horas antes de sua partida
Se ela tivesse partido hoje não mudaria a história em nada, fizemos reserva para ela
neste hotel, está tudo combinado já há algum tempo.
Karem havia abandonado sua casa já há dez meses, no dia seguinte à visita deles
ao lar inglês do conde deixando apenas um bilhete, investigações feitas posteriormente
trouxeram ao conhecimento de todos seu casamento, ela desposara Klaus em Londres e
era a nova Condessa de Rardemuc, sem no entanto esclarecer seu paradeiro até alguém
vê-la embarcando sozinha em um trem. Verificado junto à companhia o roteiro dela se
dirigia aos Cárpatos.
Sir Antony e Lawrence estavam se dirigindo para lá, precisavam trazê-la de volta,
ou pelo menos tentar, era o desejo do pai dela, não tiveram problemas para financiar sua
viagem sem limites de despesas. Sir James Alton Não se conformara em ver a filha
viajando para um país desconhecido, sozinha, para se encontrar com um homem
praticamente desconhecido e misterioso.
Lawrence, sonhava com as milhares de libras decorrentes desta missão, seriam
pagas por Sir James Alton pelo seu trabalho caso fosse bem sucedido, e também tinha
281
motivos egoístas, queria se vingar do conde por lhe tirar a administração de seus bens,
mola mestra da Stemplenton & Turner, enquanto Sir Antony se entregava à aventura
por seu cavalheirismo e sonhos de heroísmo.
- Ele não viajou com ela, é realmente um monstro, por isso viajou no navio negro
onde deve ter uma tripulação fiel, não poderia fazê-lo de trem, não teria como
desembarcar durante o dia e enfrentar tantos perigos até o seu destino final. - deduziu
Sir Antony.
- Mas nós o vimos andando durante o dia, passamos a tarde em sua companhia,
estamos perseguindo um homem normal e não um monstro, apesar de toda esta sua
crendice em seres sobrenaturais. - retrucou Lawrence.
- Talvez eles não temam o dia, mas ao sol. Só o vimos durante tempestades.
Lembra- se? As pessoas do hotel onde ele se hospedava também só o encontravam
nessas ocasiões e então ele não saia para a rua, não podia enfrentar a água pura
decorrente dela, o homem é mesmo um demônio, nós vamos destrui-lo.
- Como pode ter certeza?
- Os documentos de Pleitunia, não foram ainda traduzidos na integra, mas falam
de homens que só podem ser destruídos com prata, então talvez realmente não temam o
dia, mas com certeza atingem a plenitude de sua força à noite, por isso se escondem,
vamos localizá-lo quando estiver fraco, então poderemos enfrentá-lo.
- *Não encontraram Karem, no hotel indicado, havia a reserva mas ela não aguardara
pelo outro trem, conforme combinado com a agencia de viagens, pegara uma
carruagem. Então se puseram em seu encalço utilizando cavalos, seriam mais rápidos e
poderiam cortar caminho em vários pontos onde ela seria obrigada a acompanhar as
estradas regulares serpenteando as montanhas tornando o trajeto mais longo. Mas não
foi bem assim, ela não parou, apenas trocava os cavalos nas estalagens pelas quais
passou e se manteve no trajeto o tempo todo, eles não. Lawrence se negou a viajar à
noite, queria passá-las com conforto. Quando chegaram ao castelo não a encontraram,
mas ela já havia atingido o local há muito e segundo os criados dava um passeio pelo
campo. Mas Sir Antony não aceitou a explicação, ela devia estar escondida em algum
lugar aventou inclusive a possibilidade dela então ser também um monstro como Cristie
e estar fugindo do sol.
Penetrou na morada do Conde e passou a procurá-la Lawrence além de conhecido
de todos era agora muito bem quisto pelos ciganos, Roxane escrevia sempre falando da
vida maravilhosa desfrutada em Chelms, alem de tudo e usava a suástica do Conde, não
tiveram nenhum problema para permanecer no local, os criados durante o tempo no qual
ficaram sem Klaus desenvolveram o habito de passar o dia com os ciganos e
compartilhar de suas danças e comida e face a ausência da Condessa Karem agiam da
mesma maneira, desta forma eles ficaram sozinhos no castelo. Totalmente limpo e
remodelado para esperá-la.
- É aqui a porta, se eu estiver certo elas estarão ai dentro.
Quando entraram no aposento no entanto encontraram um pequeno paraíso
infantil e um bebe, uma criada indolente cuidava dele, não havia nem sinal das três
mulheres. Já haviam seguido para a Luisiânia onde Klaus pretendia se instalar e fugir da
curiosidade do Dr. Antony Latimmer, um inimigo a ser respeitado, logo após o
nascimento do bebê. Foram sozinhas por motivo de segurança, a esta altura deviam
estar embarcando no Karina, o médico foi impiedoso em sua decisão.
282
- Vamos levar o bebe para fora e expô-lo ao sol, se for um ser demoníaco
encontrará a morte com isso, a exemplo de Cristie.
- Não podemos, é apenas um bebê? - retrucou Lawrence?
- Um bebê ou um monstro? Terá o mesmo tratamento dado a Cristie, matara
muitos antes de crescer, se for como ela morrerá.
Quando saíram do castelo em direção à estrada levavam consigo o bebe, mas ele
não se transformou como Cristie. Alegraram-se com a visão da carruagem de Karen
retornando do passeio durante o dia, e vê-la descendo para a luz, sob o sol, isso
significava apenas uma coisa, ela também era humana, quando os viu ela gritou
decidida.
- Devolvam o meu filho.
- Karen, viemos buscá-la, você volta conosco para a Inglaterra.
- Não! Estou no meu lugar. Aqui vou esperar Klaus, meu rei e meu marido
perante Deus e os homens. Aqui teremos outros filhos, Klaus logo estará aqui.
- Se é assim, podemos esperá-lo juntos? Não se opõe a nossa permanência no
castelo.
- Claro, fiquem quanto quiserem, assim teremos companhia. Klaus é um homem
generoso e não se negará a hospedá-los, vamos entrar e usufruir um pouco do conforto
de nosso castelo.
- *A carruagem de Klaus avançava velozmente, ele queria chegar ao castelo onde
estaria em segurança, os cavalos eram exigidos ao máximo, já estavam muito próximos
de seu destino quando o condutor notou o dia se pondo, diminuiu a velocidade e parou
para dar um descanso aos cavalos, em breve seu mestre não precisaria mais se esconder,
sabiam da presença dos estranhos, e não podiam chegar ao castelo com a proteção da
noite a não ser esperando nas imediações.
Klaus sabia não poder chegar ao castelo nem permanecer onde estava, Karem
estava em contato com ele, seus perseguidores ouviram o tropel dos cavalos e o
silenciar dos mesmos, e saíram de imediato, sabiam de sua presença nas imediações,
isso significava sem sombra de dúvida uma caçada: estavam em seu encalço, queriam
encontrá-lo durante o dia. Decidiu fugir, mandou a carruagem retornar mas ao tentar se
mover o eixo secular da mesma depois de tantos maltratos não resistiu e o veiculo
quedou imobilizado, então ele pela primeira vez depois de muitos séculos sentiu o
medo, estava perdido.
Abandonou seu corpo como fazia no passado, antes de serem caçados pelos
protetores, ainda podia fazer isso embora se tornasse vulnerável aos do protetorado. Não
tinha saída, sentiu o sol se abatendo sobre seu espectro sem molestá-lo, pelo contrário,
enchiam- no de energia, então viu Sir Antony e Lawrence atingindo a carruagem e
Karem se aproximando deles desesperada carregando o bebê, ficou furioso quando os
condutores caíram eliminados por eles sem a menor piedade, só restou uma mulher para
lutar com dois homens e tentar impedi-los de abrir o compartimento onde se encontrava
o seu amado em vão, era uma questão de segundos e estaria exposto ao sol.
Klaus sentia seu ódio atingindo o mais alto ponto possível, precisava sobreviver
para levar avante sua vingança contra aqueles dois homens, não podia acabar assim,
283
desejou estar no corpo daquele bebê, não podia morrer agora, estava tão próximo de se
unir para sempre à sua amada.
Karem não resistiu à luta e desmaiou com o cansaço, Sir Antony e Lawrence
puxaram a caixa na qual ele se encontrava para fora da carruagem mas não imaginavam
seu peso e não o suportaram, ela escorregou de suas mão e deslizou sobre o gelo
batendo em uma árvore não muito próxima se abrindo com o choque. Lawrence e Sir
Antony não conseguiram perceber a pequena luz azul emanando dela refletindo no
gelo. Quando chegaram ao local não havia nada ali alem de terra, nem monstro, nem
corpo, apenas terra.
- Ele nos enganou de alguma maneira e fugiu, agora nos teme, não virá mais ao
castelo a não ser com muita segurança.
Estavam enganados, mas não puderam ver seu corpo se transformando em nada,
nem os ciganos, estes chegavam em socorro de Karem a nova condessa e já os
imobilizava perguntando insistentemente pelo Conde, queriam saber onde eles haviam
escondido seu protetor.
Klaus se viu olhando para Karem de seu colo, tentou mexer o braço para acariciála mas não conseguiu, ele estava dentro do corpo do bebe, mas compartilhava-o, não
tinha o comando dele, tinha apenas uma esperança, isso viria com o tempo, o importante
agora era estar em segurança em seu interior, à salvo dos protetores, depois era questão
de conseguir outro corpo, não podia consumar seu amor naquelas condições.
No entanto, quando tentou trocar de corpo fracassou, descobriu não poder
abandonar o hospedeiro uma vez nele. E assim ele seria criado como filho de Karem e
Klaus Rardemuc, desaparecido, continuando sua dinastia. Lawrence e Sir Antony
tentaram em vão provar a condição de monstro do Conde, sem sucesso, não haviam
restos dele nem das mulheres. Alias nunca vistas por ninguém. De concreto apenas os
cadáveres dos criados mortos por eles comprovando suas condições de assassinos.
Karen havia compartilhado da memória do Conde e era a atual Condessa de
Rardemuc e a única a conhecer a verdade, sabia tudo sobre Klaus e sua sina, continuou
a vivê-la, tinha agora seu orgulho e seu garbo. Por vingança acusou Sir Antony e
Lawrence de terem raptado Klaus e eles foram julgados por tribunais locais pelo
seqüestro do conde e o assassinato de seus criados, com medo de condenarem à morte
cidadãos ingleses os tribunais aplicaram a eles à prisão perpétua.
Ainda tentaram usar os documentos entregues por Klaus como prova, mas o
testemunho do tradutor dos mesmos foi outra decepção, o homem já não se mostrou o
estudioso imaginado por Sir Antony e sim apenas um bêbado inveterado.
"Eu nunca traduzi documento algum, aliás eles são falsos, envelhecidos
artificialmente, não tem mais de duzentos anos, quanto aos símbolos são meros rabiscos
sem o menor significado, algo feito para enganar os tolos mas sem nenhum valor
histórico, quando descobri isso continuei aceitando dinheiro de Sir Antony, precisava
dele, e inventei uma história dentro da linha imaginada por ele, eu queria apenas o
suficiente para comprar minha bebida, os senhores me desculpem."
Quem embarcou de volta para a Inglaterra foi um homem com bastante dinheiro,
o suficiente para beber até morrer de cirrose no fígado. a recompensa pela devolução
dos documentos de Klaus a Karem Rardemuc. Conseguira traduzi-los apesar do marido
não acreditar na existência de alguém capaz de fazê-lo, no entanto falava apenas de um
povo fugindo dos bárbaros até seu desembarque na ilha de Ilva. Escondeu os fatos de
todos, eles não interessavam a Sir Antony.
284
No entanto as transformações oriundas das revoluções populares se fizeram sentir
e Karem possuía, como herança de Klaus, o conhecimento de séculos, sabia do
proximidade do fim de seu poder. Ao contrário de Klaus não amedrontara seus súditos,
conquistara- os e poderia tentar resistir, por décadas? Talvez anos... meses? Era tudo
imprevisível.
Tinha os conhecimentos de Klaus mas não seus poderes, não podia transformar
pessoas em escravos ou mesmo sugar sua energia, então agiu da maneira mais correta
de acordo com sua lógica, primeiro transferiu toda riqueza oriunda dos impostos do
condado para a Inglaterra e Estados Unidos e permaneceu governando Rardemuc com o
apoio desses países sufocando momentaneamente a revolução.
Mas não queria governar eternamente sob intervenção estrangeira e para abdicar
de seu condado negociou com os revolucionários ainda praticamente sem poder,
evitando a luta. Recebeu uma enorme quantia em dinheiro e uma participação mínima
na produção da região para si, seus herdeiros e sucessores. O governo popular formado
sem sangue não discordou em mante-la com o direito eterno ao título de Condessa de
Rardemuc e uma cadeira hereditária na câmara, quase nada mas ainda assim isso a
tornava importante, essa vaga nunca foi ocupada ou exigida; Karem Rardemuc mudouse para os Estados Unidos; e jamais foi retirada da constituição do novo país até este
abandonar o nome de Rardemuc e ser absorvidos pelo comunismo. Quando ficaram
novamente livres Klaus voltou a ser citado como herói em suas escolas pois durante a
ocupação o regime comunista não admitia referencias à aristocracia a não ser para citar
seus erros e defeitos.
Karem cedeu o poder aos revolucionários, e estes usufruíram dele por décadas até
a eleição do primeiro presidente popular do novo pais este aboliu a prisão perpétua
beneficiando Lawrence e Sir Antony, já dois anciões. Eles recorreram aos papéis
existentes no castelo e descobriram por onde começar a procurar os dissidentes: iriam
vasculhar toda a Luisiânia atrás deles. Pretendiam aprender mais sobre esses monstros
com os seguidores de Esaú Norton e combatê-los. Sem sucesso, não conseguiram
atingir ninguém graças a interferência de Klaus e Karen, eles mesmo dariam um fim a
esta forma de vida.
Sir Antony retornou a Inglaterra após encontrar Lawrence morto em uma de suas
incursões pelas ruas mal afamadas de Nova Orleans a policia atribuiu o fato a um
assalto de uma das muitas turmas de negros do local que viviam em grande miséria, mas
ele não se conformava com isso.
- Eles estão aqui, vocês precisam acreditar em mim, os guardas precisam vigiar o
local com balas e cassetetes com prata nas pontas, esses seres só temem isso.
Mas desistiu, não havia marcas especiais em Lawrence, não conseguiu convencer
ninguém, aliás não localizou uma única vítima desses seres durante sua peregrinação
pela Luisiânia, sua volta a Inglaterra foi um alivio para as autoridades locais aborrecidas
com suas histórias.
- *Klaus viveu uma relação longa com Karen, ela jamais manteve qualquer contato
com outro homem, quando ele conseguiu domínio sobre o corpo de seus hospedeiro
assumindo o controle definitivo do mesmo passou a acariciá-la com mais ousadia,
mesmo quando ainda era uma criança, até fazê-la entender a verdade; ele nunca morrera
realmente, como um parasita a amou desde a puberdade até sua morte. Nunca tiveram
filhos. É preciso registrar uma verdade; suas relações não era incestuosas; o bebê não
285
era realmente dela, embora os comentários da corte fossem de reprovação, nos Estados
Unidos viveram em paz.
Continuou amando-a, mesmo quando a beleza não existia mais nela, quando já
não despertava suspiros de inveja nos demais, ainda era a sua Karen amou suas rugas e
seus cabelos brancos, sofreu com sua morte como quando a viu ser queimada pela
inquisição. Já com idade avançada casou-se novamente, e teve seu primeiro herdeiro
real em séculos, a quem também, chamou Klaus. Descobriu maravilhado um fato: podia
transitar à vontade entre os dois corpos como se pai e filho fossem na verdade um só,
viveria para sempre como um parasita, coabitando os corpos humanos dos filhos
gerados por seus hospedeiros.
O nome Klaus Rardemuc continuaria através dos séculos apesar de tudo.
DE VOLTA A REALIDADE.
- Então foi assim o fim de Klaus como assassino? Por isso nunca descobrimos.
- Foi. - respondeu Kaubyus Ele e os demais dissidentes deixaram um rastro de terror e
morte entre os humanos e depois aparentemente desapareceram do universo, não tínhamos
noticias deles há mais de cem anos, estávamos curiosos para saber qual o destino de seus
espectros.
- Quando perdeu seu corpo imortal podia ter desistido de tudo, porque continuar como
um humano?
- Simples! A morte do corpo de Karem não alterou sua obstinação, ele não desistiu de
seu amor e veio se reproduzindo e se hospedando nos corpos de seus filhos esperando por
uma nova encarnação dela. Para garantir aliados localizou seus amigos nos Estados Unidos e
mostrou a eles a nova forma de continuar vivendo sem precisar matar nem se esconder do dia,
então eles procuraram por hospedeiros fortes e sadios a quem doaram seus bens depois
abandonaram seus antigos corpos à própria sorte, Esaú Norton tinha cada vez mais seguidores
e mais cedo ou mais tarde os alcançaria. Continuariam eternos; e, agora livres para viver,
influindo de peito aberto no destino do mundo, nas máfias e na política, continuariam
monstros, mas protegidos pela lei dos homens.
Athos acabara de ouvir o relato mas ainda estava curioso.
- Vocês falaram em não ter noticias deles a cem anos então sabiam da existência deles?
Como demônios quero dizer.
- Não sabíamos onde nem como viviam, mas nossos cientistas realizaram pesquisas para
localizá-los a partir do nível energético deles, conseguimos capturar alguns, mas só quando
tinham problemas e sua fraqueza atingia um nível insustentável podiam saber onde estavam
naquele exato momento então mandávamos uma tropa de elite para tentar capturá-los,
funcionou no passado, mas no fim do último século exatamente no ano de mil oitocentos e
noventa e sete começamos a encontrá-los estavam morrendo, sabíamos, no entanto quando
chegávamos os corpos estavam se desintegrando e não havia um espectro perto, já havíamos
desistido de encontrá-los, agora sabemos como e porque.
- E como Thomas se misturou com essa história.
- Naquela noite no beco, quando Thomas entrou ali para aliviar o estômago, Cacá das
Escolas, na verdade Klaus Rardemuc Neto acabava de morrer, e longe de seu filho, não
conseguiria fazer a troca de corpo, o espectro se perderia e voltaria ao Empíreo, então ele se
286
hospedou no corpo de Thomas por isso ele pode vê-lo e aos quatro do lado de lá quando
voltou a olhar para o interior do beco.
- Entendi, Klaus deixou de ser um ladrão de energia para se transformar em um ladrão
de emoções, pois ele segundo eu entendi não comanda as ações do corpo, depende totalmente
de seus hospedeiro. - concluiu Athos.
- Você perdeu alguma parte da história. De imediato não. Mas a longo prazo ele
assumia totalmente as ações, impondo sua personalidade, inicialmente levava-os a cometer
atos diferentes, estranhos, desonestos ou desumanos dos quais antes não seriam capaz, depois
assumiam o controle definitivo do corpo e davam continuidade aos seus projetos. Precisava se
manter no topo o tempo todo.
- Por isso de repente Thomas se tornou capaz de cometer atos desonestos?
- Exatamente, já estava sofrendo a influência de Klaus embora em função do curto
espaço de tempo jamais tenha estado totalmente sob o seu controle, mas estará, no principio
ele o domina na noites de lua cheia, ou quando sua mente estiver dominada pela revolta, não
sabemos o motivo, na seqüência terá o comando às noites, e em um prazo mais longo total.
- E como descobriram isso, eu nunca notei a presença dele.
- Deve ser impossível descobrir, não podemos enxergar um espectro parasita de outro, é
como se estivesse dentro, ou vestindo- o, ainda é meio confuso, tudo veio à luz com Paulo
Marconi, tinha um dissidente parasita nele, mas precisou abandonar o corpo junto com o
espectro humano e como se fosse um decalque nele, aguardar sua partida definitiva antes de
procurar outro hospedeiro, você esteve ao lado dele o tempo todo e o reteve no túnel por
muito tempo ele não teve tempo para encontrar uma nova morada, era Barion um dos amigos
de Klaus e quem nos deu todas estas informações. Agora sabemos quem são. Vamos resolver
este assunto rapidamente.
- Mais alguma coisa da qual eu deva ser informado?
- Uma curiosidade, Klaus ficou alucinado quando viu Marina acreditou ser ela a nova
reencarnação de Karina, era ele o responsável pelos passeios do espectro de Thomas, sem sua
ajuda ele não conseguiria fazê-lo.
- E coincidentemente Thomas estava no beco aquele dia.
- Exato, a ocorrência de Morada do Simum deixou Klaus animado, conseguira um
pedaço do passado no mundo, seria seu novo reino, por isso o castelo, é uma réplica modesta
de sua morada nos Cárpatos.
- Ela é realmente a reencarnação de Karem?
- Não sabemos, não existem provas neste sentido, não afirmamos nada sobre a
reencarnação, no entanto é um fato possível, não o colocamos como verdadeiro, mas passível
de acontecer.
- E como ela não se apaixonou por Klaus como Karem?
- Supomos ser pela presença de Thomas, ela o amava realmente, não era o caso de
Karem e Lawrence, então está havendo uma luta entre os dois espectros, a vitória de Klaus
vai ocorrer se não o impedirmos, ele conhece todos os gostos de Marina, quando dominar
totalmente o corpo vai atras dela.
- Por isso Thomas conseguiu passear fora do corpo sem minha ajuda Klaus o ajudava
para visitar Marina?
287
- Exato, mas Klaus segundo as explicações de Barion nem sempre ele precisava levar
Thomas consigo no inicio, mas depois de apagarmos sua memória ele fazia estes passeios
sozinho povoando os sonhos de Marina fingindo ser Thomas tentando impedi-la de se
apaixonar por qualquer outra pessoa. Queria ter tempo para fazê-la conhecer Klaus Rardemuc,
seu filho e levar Diego ao suicídio próximo a ele, podia conquistar Marina neste corpo, seria
uma tarefa fácil.
- Se ele podia passear sozinho, porque não foi até seu filho quando o seu hospedeiro
morreu?
- Não teve como. Sua energia estava ligada ao espectro do hospedeiro, como hoje
provem de Diego, morto o hospedeiro esta fonte se esgota em segundos, Klaus estava fraco,
não tinha forças para se mover além de poucos metros, sozinho ele não conseguiria sequer
atingir a saída daquele beco, se não encontrasse Thomas teria regressado ao Protetorado.
- Então a terra está livre desses seres? Os ladrões de energia ou vampiros como são
conhecidos.
- Difícil saber, haviam os humanos transformados e perseguidos por Esaú Norton,
segundo Barion as mulheres não tinham esta habilidade de trocar de corpos, foram obrigadas
a continuar sozinhas suas sinas de mortos- vivos, quem sabe se ainda existem e quantos?
- Não devem existir, nunca encontramos nenhum.
- Estão além de nosso poder. Jamais vamos encontrar espectros preocupados em nos
evitar, não sei porque mas eles tem uma habilidade incrível em se manter distantes, nunca
nenhum de nós viu Klaus voando através dos Cárpatos e no entanto ele e seus amigos o
fizeram durante séculos.
- Então a humanidade pode ainda esta ameaçada por estes seres?
- Na teoria, sim! Sem dúvida, eles podem ter mudado seus hábitos, não precisavam de
dinheiro, só de um abrigo seguro, podem encontrar isso nos esgotos, porões abandonados,
quem vai se incomodar com um mendigo ou outro encontrado morto nas madrugadas das
grandes cidades? Existem aos milhares.
- E Esaú Norton? Seus seguidores?
- A caça cria métodos para fugir aos caçadores, quem sabe foram eles os assassinos de
Lawrence Stemplenton?
- É... jamais saberemos. Foi realmente uma luta a de Klaus. - observou Athos. Embora não o admire e condene seus atos, paradoxalmente quase o invejo, gostaria de ter um
sentimento tão forte para me acompanhar em minha imortalidade.
- Antes de ficar muito romântico e bom você estar na terra para participar da captura de
Klaus após o fim definitivo de Thomas, chegou a hora de encerrarmos realmente o assunto,
como está ele?
- Bem, por enquanto, não pode imaginar seu destino.
- Você pode resolver o assunto? Ou quer outro protetor cuidando do caso.
- Posso resolver o assunto, com certeza, podem considerar o Thomas eliminado. Só
peço uma coisa, sem interferências, quero resolver tudo do meu jeito.
-
Alea jactea est. - respondeu Agnus Valerye - Consummatum est.
THOMAS AFLORA; ATHOS SENTE A AGONIA DE SER O CARRASCO.
288
Marina acordou feliz, na realidade passara sua primeira noite de amor, amor realmente
com Diego este dava a impressão de querer dormir durante horas, se sentia radiante, queria
se mexer, ir à janela e gritar, fazer todos saberem o quanto estava feliz, acordar o homem
amado com milhões de beijos, mas decidiu respeitar seu sono dar-lhe o merecido descanso,
amara-a noite toda. Era o fim da solidão. Achou graça de seus fins de semana dos últimos
tempos, seu pai e Sandra não ficavam em casa de jeito nenhum e sua única companhia era
Brutus, o enorme dinamarquês pelo menos era atencioso, não se movia do lugar enquanto ela
desfiava seu rosário de tristeza e fazia confidências, ficava balançando a cabeça e as vezes
latia em resposta como se estivesse entendendo ou tentando consolá-la, era um grande
companheiro mas agora já não seria tão necessário, ela tinha uma companhia real, capaz de
responder às suas perguntas e a retribuir aos seus carinhos com afagos, abraços, palavras
ternas, beijos; e, não lambidas.
Tomou um banho e se vestiu quando se olhou no espelho não gostou do visual. Estava
muito sério. Os hotéis geralmente tem lojas, então não seria difícil conseguir algo mais
informal, combinando com seu astral de mulher amada e feliz, queria uma roupa alegre,
jovial; leve como sua alma; e, colorida como sua vida.
Saiu da loja já com a nova roupa, se Diego estivesse acordado quando voltasse, embora
ela duvidasse disso, queria aparecer para ele tão feliz quanto estava e saiu da loja vestindo o
novo conjunto, amarelo como no primeiro dia no qual se encontraram, e com vários tons
sobrepostos para mostrar como se sentia então. Passou pela livraria do saguão decidira
também comprar seu jornal favorito, se ela podia enforcar um dia de trabalho ele iria fazer o
mesmo, o trabalho ou o jornal não seriam desculpas para tirá-los daquele quarto era sextafeira, quem sabe ficassem todo o fim de semana, roupas? Era só descer ao saguão e o
problema estaria resolvido.
Pegou o matutino e o colocou sobre o balcão entregando uma nota á funcionária da loja,
a garota trouxe o troco e só então ela olhou para a manchete de outro, sentiu suas forças se
transformando em nada. Apoiou-se numa coluna, porem, não foi o suficiente, quando voltou a
si se encontrava sentada e sentindo alguém vibrando uma revista na sua frente tentando
aumentar o volume de ar necessário aos seus pulmões.
- A Senhorita está bem?
- Estou ótima. Foi um mal estar passageiro, pode deixar.
- O medico do hotel já está vindo para cá, espere um pouco.
- Não é necessário, já estou bem.
- *Diego acordou tarde. Olhou em volta e teve a certeza de ser a única pessoa no quarto,
havia um envelope sobre a penteadeira.
- Bela maneira de começar um relacionamento, devo ter desmaiado, se ela tentou me
acordar não conseguiu, vamos ver o recado da mulher da minha vida, e agora minha para
sempre.
Diego abriu o envelope e ficou lívido, seu conteúdo colocava um novo ponto final em
seu complicado romance.
"Eu teria aceito se você tivesse terminado há pouco com Gianne, não era necessário
mentir para mim."
Diego passou os olhos pelo jornal, um circulo sobre a manchete deixava claro o motivo
da revolta de Marina.
"GIANNE FONTOURA PODE SER A FUTURA SENHORA MONTONE"
289
E abaixo esclarecia em letras menores.
"Na nossa sessão de variedades Gianne Fontoura uma das novas sensações das telas fala
de sua gravidez e de seu romance com Diego Montone o jornalista milionário e herdeiro de
uma fortuna incalculável."
Diego aguardava a conta no balcão quando sentiu um clarão, ao divisar o fotógrafo
ficou sem ação, novos clarões se seguiram e de repente se viu cercado por diversos repórteres.
- Diego, para quando podemos anunciar seu casamento?
- Vai ser em São Paulo? O jornal fala de uma festa de casamento no Havaí? Não é um
desprestigio para nossa cidade?
- Os planos do casamento realmente incluem uma festa cujo gasto pode superar a casa
dos seis milhões de dólares.
- Gianne também está hospedada aqui? Podemos esperar por uma entrevista com os
dois juntos?
- Eu não tenho nada a declarar, qualquer noticia veiculada a este respeito será
entendida e tratada como calunia e sujeitará o jornal ou emissora a responder na justiça por
seus atos. Eu espero um pouco de respeito pela minha vida particular num momento tão difícil
como este.
Os repórteres se afastaram e deixaram- no passar, no pátio de entrada a limousine de
Vincenzo Montone já esperava por ele:
- Para onde vamos Senhor?
- Vou para a sede da Schiavonne, todos os meus problema estão lá, Michel pegue o
meu carro e localize Gianne Fontoura, leve-a para nossa chácara e não a deixe sair de lá até eu
conseguir falar com ela. O Ítalo só dirige para mim hoje.
- A noticia veiculada hoje é verdade? Eu vou finalmente ter um neto? Vincenzo Montone quando ficaram à sós.
perguntou
- Eu não sei pai, mas ai a gravidez já seria aparente, a festa de casamento de Lúcia já
tem cinco meses, depois vou tratar disso. No momento quero falar com Marina, passamos a
noite fazendo planos para nosso casamento.
- *Na sede da Schiavonne ele foi recebido por Anabela, sua expressão era de felicidade,
fez questão de parabenizar Diego por solucionar seu romance com Marina e falar de sua
própria gravidez já no quarto mês, por sua reação à sua presença ele teve certeza, ela ainda
não sabia de nada.
- Não me parabenize ainda, você não leu o jornal de hoje?
- Li, mas não vi nada a respeito, vocês já conseguiram anunciar o casamento?
- Não é nada disso, deixe-me ver o seu jornal.
Diego verificou e não havia nada na sessão de variedades.
- Quantos jornais vocês recebem?
- Três, mas nenhum deles fala de seu romance com minha irmã.
Diego estendeu o jornal em seu poder a ela e mostrou a parte riscada a caneta.
- Isto é verdade? - Anabela havia perdido sua expressão de felicidade, e assumido uma
atitude arrasada.
290
- Não tive tempo de verificar, não sei responder a esta pergunta, quero Marina comigo
quando me encontrar com Gianne, não posso deixar as coisas como estão.
- Ela ainda não veio aqui hoje, não sei onde encontrá-la, vou ligar para minha casa,
aguarde.
Passado algum tempo veio a resposta, ela havia passado por lá mas já tinha saído.
- Vou ligar na linha privada dela, deve ter algum recado para mim.
- Dê-me o numero, eu ligo. - pediu Diego.
"Anabela, contrate alguém para cuidar de meus afazeres na empresa, não vou trabalhar
por uns tempos, quando volto às atividades é uma incógnita mesmo para mim. Ligo quando
precisar de dinheiro, devem existir alguns garotos com muita energia para me contar algumas
mentiras e me fazer mulher, vou viver um pouco e esquecer de Diego e Thomas, não adianta
deixar recado após o sinal pois não haverá ninguém aqui para conferi-los."
"A propósito, deixei meu celular em casa então não tente me localizar através dele."
- *- Vamos até minha casa conversar com meu pai, ele deve saber alguma coisa, você
cuida de tudo Thyphany. Não tenho outro jeito.
- Não posso, preciso procurar Marina, estou com a agenda dela e alguns endereços.
- Está bem, Athos você pode permanecer aqui? Ajude o Tulio a tocar este barco. Anabela se referiu ao marido. - Diego tem mais gente cuidando da Montone. - pediu
Anabela
- Tudo bem Athos, permaneça na Schiavonne até localizarmos Marina. Diego.
concordou
- Está bem, eu fico aqui.
Salvatore Schiavonne não foi de muita ajuda, segundo ele Marina não disse uma única
palavra quando pegou algumas roupas e foi embora. Não disse para onde ia ou qual o motivo
para se ausentar. Quando os demais saíram ele foi inquirido por Sandra,
- Você acha certo amor? Não devíamos dizer a verdade a eles?
- E faltar com minha promessa à minha filha? Ela já está tomada por um tremendo
sentimento de traição, não posso fazer isso, sou seu pai, em quem mais ela poderá confiar
então?
- Eu ainda tenho minhas dúvidas quanto a concordar com ela.
- Sandra, deixe-a se acalmar, a noticia caiu como uma bomba. Marina nos acordou às
três horas da manhã para falar de sua felicidade. Colocou a casa em polvorosa e depois é
surpreendida com uma barbaridade dessas. Como você se sentiria em seu lugar?
- Não sei, nunca pensei nisso, nunca fui traída, tenho certeza.
- Você confia tanto assim em mim?
- Cegamente.
- Não parece, quando estamos em público às vezes você me deixa sufocado.
- Eu não confio nelas, essas suas idas e vindas ao cabeleireiro deixam você muito
charmoso.
- É tudo para você, não quero deixar minha idade tão patente e deixar você
envergonhada em público.
291
- Eu não tenho vergonha de você, não me importa nem um pouco nossa diferença de
idade, Salvatore, as crianças estão dormindo!
- Devo acordá-las?
- Você sabe muito bem qual é a minha intenção.
- Está bem, vou para a cozinha fazer bracholas?
- Não se faça de rogado, eu não vou implorar, daqui a pouco eles acordam e eu não vou
mais te dar atenção.
- Ok, vou te fazer uma caridade, mas não pense ser atendida sempre.
- *Quando Gianne viu Diego entrando na chácara pôde notar o quanto se encontrava
abatido e se apressou em sair da casa para recebê-lo, a noticia fora também uma surpresa para
ela, desconhecia a fonte.
- Diego, eu não tenho nenhuma responsabilidade nessa noticia Pode acreditar. Sou uma
pessoa fiel, sempre fui.
- Eu não esperava mesmo nada assim de você, mas isso não diminui em nada o impacto
causado pela noticia.
- Não ligue para esta gentinha, mais uma semana e ninguém mais fala no assunto.
- Você não entendeu tudo, eu havia conseguido reatar com Marina ontem, agora não
acredito mais em uma nova chance, nossa ligação era ainda muito frágil. Uma relação reatada
exigem muito cuidado, além do existente com uma nunca rompida. Era preciso muito tato e
foi atingida em cheio por uma manchete dessas. Quem é o pai da criança?
- Não existe criança e se existisse seria sua. Eu não estou grávida, quando me relaciono
com outro alguém exijo preservativo, não quero morrer por uma noite de amor.
- Isto melhora muito as coisas, vamos para a Montone, quero entrar com um processo
contra este jornaleco ainda hoje.
- Estou saindo, vamos embora.
- Aguardem por mim lá fora, quero dar um telefonema e já volto, quero todos os nossos
advogados esperando por nós.
Diego foi ao telefone e ligou para os advogados, seus olhos brilhavam de ódio. na
seqüência ligou para um numero até então estranho para ele, e quando foi atendido ouviu uma
voz familiar, embora não soubesse porquê.
- Janjão?
- Eu, quem está falando?
- Não importa, ouça bem, quero saber quem foi o repórter do caso Gianne Fontoura,
onde mora, como mora, se é casado, sua comida favorita, seus hábitos, enfim não quero
nenhum detalhe faltando, nem a cor da sua cueca.
- E como faço para receber?
- Vou depositar a quantia de sempre para você, será um serviço fácil e portanto alem do
merecido.
- A quantia de sempre? Como assim.
- Verifique sua conta bancária quando o serviço estiver terminado.
- E as informações?
292
- Mande para a caixa postal de sempre.
- Não entendo, você me procurando depois de tanto tempo. Para mim já tinha morrido.
- Para outros também, mas estou aqui.
Janjão era um detetive particular dos mais competentes, no entanto extremamente
desonesto, fizera muitas investigações para Cacá das escolas sem nunca tê-lo visto, fazia
qualquer coisa por um pouco de dinheiro, a quantia de sempre era bem vultosa.
- *Quando Diego retirou os documentos solicitados da caixa postal, não estava em seu
estado normal, deixou os mesmos em seu quarto e dai foi para a Montone, havia um vazio em
sua mente, não sabia explicar o porque do atraso para o expediente.
- Dez horas Fátima, deve haver algo errado Tulio me chamou no horário de sempre,
devo ter adormecido em seguida.
- Não se preocupe, ultimamente você não tem ajudado muito mesmo, não se ofenda,
todos entendemos seu problema.
- *Caia uma tempestade quando Ítalo viu Diego entrando em casa, apressou-se em recolher
sua capa, pasta e guarda chuvas estendeu a ele um par de chinelos, e pegou seus sapatos,
levou tudo para o pequeno reservado ao lado da porta de entrada e perguntou:
- Chegou cedo, algum pedido especial para o jantar?
- Prepare alguns sanduíches e cervejas, deixe em meu quarto, vou trabalhar um pouco,
não precisa voltar para retirar nada, ao terminar o serviço vou dormir direto.
- Claro Diego, como quiser, estará lá em minutos, seu pai pediu a mesma coisa, mas
não chega, vou lhe passar os deles.
Ítalo deixou tudo sobre a mesinha auxiliar e se retirou, os olhos de Diego estavam fixos
naquele envelope, tão logo ficou só o abriu, sentou no chão como se fosse um soldado e
passou a ler o relatório do repórter enquanto engolia um sanduíche.
“Nain Vinhal é um caso interessante, do jornalismo, formado com louvor e ganhador
de uma bolsa de estudos da faculdade fez pós graduação na Inglaterra, suas notas foram
excelentes, isso resultou em bolsas posteriores quando as terminou era disputado por todos
os grandes jornais, no entanto era um iniciante, os salários não convidativos.”
“Este pasquim no qual ele trabalha ofereceu a ele um salário fantástico para um
iniciante e ele aceitou, isto causou um mal estar geral, mesmo as pessoas responsáveis por
tê-lo elevado ao máximo do jornalismo em termos acadêmicos se esquivaram de comentar
sua escolha, uma perda para a instituição.
“O jornal cresceu em faturamento graças às noticias veiculadas por ele, usou todos
seus conhecimentos para criar climas cada vez mais violentos e escrachantes, e nunca se
interessou por nada alem do jornalismo. Não tem hábitos alimentares, come onde está,
comerciais, sanduíches. Antes saia de casa seis horas da manhã e voltava muito tarde.”
“isto até sua fama atrair Dismeire Brandão, sua paixão, mas minhas investigações me
levam a deduzir se tratar de um romance fadado ao fracasso, ela não o ama, gosta de desfilar
com ele pela noite para possivelmente ser reconhecida aposta na possibilidade de expondo
sua figura ela mesma ser o centro das atenções um dia.”
“No entanto, dependendo dele ela pode esquecer, ele é um homem poderoso e nos
bastidores tolhe a carreira da garota, teme ser abandonado por ela caso atinja a fama, está
completamente apaixonado.”
293
“Sua agenda e muito bem organizada, e está transcrita abaixo para os próximos dias.
Ao final, endereço dele, parentes próximos, gostos pessoais e outros detalhes julgados
importantes.
“A vida dele é uma rotina quase imutável, seis dias desta rotina estão totalmente
transcritos nas próxima páginas, por ela pode-se ver como vive o elemento em destaque.
“Se precisar mais detalhes peça especificamente, já está incluso no preço.
O espectro de Klaus dividindo o corpo de Diego com o de Thomas se tornava mais forte
a cada dia, já o dominava quase por completo todas as noites; e, agora odiava o repórter, ele
havia afastado sua Karina dele, precisava sentir a dor da separação, sentir o gosto de não ter a
mulher amada, da desesperança, da saudade sem esperanças, pegou a transcrição da agenda e
se fixou em um dado.
23 - 21:45 = Embarque para o rio de janeiro.
24 - 08:40 = Reunião com a equipe de reportagem.
24- 09:10 = Sair do hotel na direção do local.
...
...
26 - 07:50 = Embarque para São Paulo.
- *Salvatore Schiavonne entrou na casa. A mesma onde Marina aguardara o nascimento de
Biancha, desta vez ela não se escondera ali para esperar pelo nascimento de nenhuma criança,
mas para conseguir ficar alheia aos acontecimentos do mundo exterior, queria esquecer da
existência de Diego, Gianne e os jornais, já se magoara muito com as noticias veiculadas por
eles.
- Pai, onde está Sandra, deixou o Senhor sair sozinho de casa?
- Não, ela está ai fora com seu carro, o portão da garagem está trancado, vou abrir,
espere um pouco.
Quando os carros estacionaram ela viu Brutus saindo de um deles e correu em sua
direção.
- Que bom! O vovô trouxe o meu filhinho, corre aqui amorzão, nossa, você está fedido.
- Choveu ontem e ele não quis ficar na casa dele, ficou a noite inteira encostado na
porta, sente muito a sua falta, não come, vive amuado, melancólico, Por isto eu o trouxe, ele
vai acabar adoecendo.
- Vamos lá para os fundos tomar um banho, tem água quente para o meu companheiro,
o Senhor trouxe a comida dele?
- Claro, comida, toalhas, vasilhas, shampoo, sabonete anti-pulgas e o colchão, coloque
na área de serviço até providenciarmos uma casinha para este safado.
- Pode deixar pai, vamos nos dar bem aqui.
- *Diego amassou o jornal e jogou no meio da sala. Ele não conseguia localizar Marina,
mas as colunas de mexericos sim. No passado ela aparecia como a futura Senhora Montone,
agora como uma mulher cuja maior preocupação era desfilar em companhia de garotos mais
jovens. Dificilmente era fotografada com o mesmo rapaz. Ele a cada dia ele ia se tornando
mais irascível e intratável.
294
Vincenzo Montone também estava irritado. pediu a ele para tirar umas férias, ficou
impossível conviver com o filho na empresa, por muito pouco, muito pouco mesmo eles não
perderam Fátima. Ela sabia administrar os negócios sem a ajuda deles, podiam se ausentar
sem preocupação, depois, ele era o pais dos dois filhos dela, não eram registrados em seu
nome. Não convinha provocar escândalos, mas mesmo assim ela recebeu um por cento das
ações da empresa por ocasião do nascimento de cada um, isto proporcionaria rendimento
suficiente para terem uma vida nababesca, e a tornava uma pessoa realmente interessada pelos
destinos dos negócios.
Diego era cada dia mais Klaus. Este então decidiu levar avante sua vingança e depois
se retirar para o exílio em Morada do Simum.
- *Nain Vinhal viajara para o Rio de Janeiro para cobrir o caso da prisão de um dos
chefões do bicho e da droga e aproveitar para colher algumas informações em seus redutos.
Tinha acesso a eles por jamais publicar nada cujo teor pudesse realmente complicar os
traficantes, mas colhia fotos chocantes, cenas de degradação, se desse sorte de algum cadáver,
ai sim a reportagem ficaria boa. Dismeire atendeu a porta e viu Diego Montone à sua frente,
era sua fã incondicional, um repórter realmente. Culto, elegante, rico, não podia acreditar mas
ele estava ali.
Klaus jogou sujo, precisava conquistar a garota, notou seu ar incrédulo quando disse já
tê-la observado muitas vezes, de uma paixão alienada por ela, de sua possibilidade de subir na
vida, de sua condição exata para se tornar uma modelo famosa. Se comprometeu a ajudá-la, e
dai a levá-la a cama o caminho foi curto, quando a garota dormiu, cansada e ébria, ele saiu e
foi para casa, ligou para ela na noite seguinte.
- Como vai a minha deusa? Eu a acordei?
- Não, eu até já tomei meu café. Porque você foi embora?
- Não quis ser visto pela vizinhança, o segredo será a nossa maior arma.
- Segredo?
- Claro, você quer ser reconhecida por seu talento ou por ser amante de Diego
Montone?
- Para dizer a verdade, eu só quero ser famosa, não sei como.
- Não funciona assim, senão você já seria. Naim é um homem tão conhecido quanto eu,
apenas não quis permitir sua ascensão, poderia perdê-la em função disso.
- E você não tem medo? Não me ama?
- Perdidamente. Por isso não quero você sendo vista como uma aproveitadora, não fale
de mim com ninguém, não vai ser bom. Primeiro você vai romper pública e definitivamente
com Nain. Vou tornar você famosa primeiro e na seqüência vamos nos encontrar casualmente
aos olhos do mundo.
- E não nos veremos neste período?
- Claro, mas escondidos de tudo e de todos, depois de alguns encontros casuais
poderemos namorar em público, para começar, me chame de Klaus, e uma apelido carinhoso
de infância, só as pessoas mais chegadas a mim sabem disso.
- Klaus, claro, o meu Klaus, e quando você vem me ver.
- Quando você me convidar.
- Então venha para minha casa hoje, temos a noite toda. Ele só vai chegar por volta de
nove horas..
295
- Convide-me pelo nome, eu adoro ouvir você pronunciá-lo.
- Venha à minha casa hoje a noite Klaus.
- Vou chegar muito tarde, tenho uma reunião, deixei umas garrafas de vinho ai, pode se
aquecer enquanto me espera, e como esta calor... não use roupa quero ter a visão deste corpo
ao entrar. A propósito pequei a chave reserva na cozinha, e deixei dinheiro suficiente para
você comprar um carro e roupas mais sofisticadas, mais de acordo com sua nova vida. Se eu
demorar muito você pode dormir.
Quando desligou o telefone Dismeire correu para a cozinha, viu o pacote sobre a mesa.
Nunca vira tanto dinheiro antes. Mal podia esperar pelo dia seguinte, carro, roupas novas; ele
não estava brincando.
- Ufa, ainda bem que acordei tarde e não sai de casa, ele está certo, com tudo em
segredo não vou ser vista como uma vagabunda, uma qualquer, Dismeire Supra vai subir por
seus talento, não às custas de ninguém. Gosto dele. Klaus... Klaus... que apelido estranho.
Nain estava definitivamente banido da vida de Dismeire, sofreria um dos mais fortes
golpes de toda sua vida de aproveitamento sem escrúpulos e inconseqüente do submundo.
Mas a vingança de Klaus não terminaria ai, ele foi mais uma vez para os sonhos de
Marina, enquanto Diego dormia ao lado de Dismeire, e não permaneceu no local com a
mesma segurança das outras vezes, nesta oportunidade doou quase toda sua energia; sua
amada acordaria muito bem no dia seguinte; ficou até seu espectro se tornar fraco, precisar
desesperadamente de energia, reteve apenas o suficiente para a viagem de volta. Só então
voltou para o lado da modelo ainda dormindo à sua espera da qual sugou a vida.
Nain entrou em casa contente, não iria para o jornal a não ser depois do almoço, agora
iria beber o néctar da amor de Dismeire. Se embriagar de seu amor até a exaustão, jogou a
mala, paletó e outros supérfluos sobre o sofá, ajeitou as flores e correu para o quarto, ela
ainda dormia, sabia.
Seus gritos puderam ser ouvidos longe, seu terror pela cena ultrapassava sua capacidade
de escrever desgraças, aquela corpo assemelhado a uma estátua de mármore não podia ser a
sua Dismeire.
Olhou pela janela, ninguém se incomodara com seus gritos, pela primeira vez odiou a
cidade, sentiu a indiferença de seus habitantes, foi ao telefone e pediu para falar com o
delegado da região, eram amigos por demais, um homem de profunda sensibilidade.
- Jairo, preciso muito da sua ajuda, você pode vir à minha casa? Agora.
- Claro, posso dar um jeito. É tão grave assim?
Quando Jairo Cruz olhou para o corpo da mulher sobre a cama apesar de acostumado à
violência não resistiu, correu para o banheiro e deu vazão ao seu asco, quando voltou
encontrou o repórter em prantos.
- O mundo não pode ver ela assim, já cobri muitas mortes, mas esta? Você sabe como
pode ter acontecido?
- Não tenho nem idéia, mas também não quero isso nos jornais. Imagine! Será pânico
coletivo, na certa.
- E você pode dar um jeito?
- Vou conversar com algumas pessoas, te encontro no jornal.
- Esqueça! Vou pedir demissão daqui mesmo, jamais poderei enfrentar um cadáver.
296
Klaus passou o dia fora do corpo de Diego. Precisava muito da energia do sol, não
podia voltar para o corpo sem isso, senão ele seria transformado. Mas a noite voltou e chamou
Ítalo.
- Consiga-me alguns empregados de confiança, amanhã vou para meu retiro em
Morada do Simum. Enquanto isso escale alguém para cuidar de meu castelo, inicialmente só
utilizarei dois cômodos, meu quarto e a sala principal, até a criadagem ficar completa.
No dia seguinte Ítalo acompanhou o patrão até o castelo onde passaria os dias como
Diego Montone e as noites como Klaus Rardemuc.
O dia transcorreu normalmente, mas a noite ele era um homem totalmente transtornado,
precisava descarregar seu ódio em alguém, todos os culpados por sua infelicidade pagariam,
desconhecia a participação de Giovani Bragtoni na história. Mas não a de Estela e Stela
Ferreira Munhoz, haviam os policiais de Santos destes não sabia os nomes, Anabela, seus
irmãos, Salvatore Schiavonne.... Todos contra seu amor, Elizabeth Vernaz, sua assassina e
inimiga, Alexandre e Pedro Latorre também tinha culpa em seus problemas este seria o
próximo, estava decidido.
- Ítalo, amanhã logo cedo você vai para São Paulo, vai marcar um encontro com Pedro
Latorre neste local, não ligue de casa, use um orelhão, não se identifique, depois consiga-me
um pouco da mercadoria, estou sentindo muita falta.
- *Athos entrou na imensa sala, examinou- a cuidadosamente, a decoração era fantástica,
a imensa mesa de jantar, os móveis antigos espalhados, e a bandeira em dois tons de azul com
o morcego vermelho no centro, o brasão do morcego ao lado dela, depois notou o jornal
jogado no chão, já sabia o motivo pelo qual se encontrava daquela maneira, todo amassado,
olhou para Diego deitado e concluiu: dormira ali mesmo vencido pela bebida.
Foi até os fundos onde jogou o jornal no lixo e ouviu o barulho da motocicleta entrando
no quintal. Ítalo estacionava a mesma e chamava por ele.
- O Diego me pediu para conseguir um pouco de pó.
- E você trouxe?
- Não! Vou mentir para ele, explicar como não consegui, mas agora com você aqui
talvez ele se acalme.
- Bom, espere ele acordar e vamos conversar com ele.
Quando Diego acordou foi obrigado a enfrentar Ítalo e Athos e se sentiu envergonhado
com sua fraqueza, sua cabeça explodia pelo excesso de bebidas consumido.
- Tome estes comprimidos você vai se sentir bem logo mais.
Diego tomou os comprimidos e logo estava bem.
- Nós podíamos fabricar estes seus remédios, faríamos uma fortuna com eles, o efeito é
estupendo, vamos dar uma volta de moto, nunca fui a sede da fazenda adquirida de Salvatore
Schiavonne, a única preservada em parte, dizem não ser longe e hoje estão colhendo milho
verde. Vou me empanturrar de pamonha e curau ao invés de bebida. Pode até me causar
algum problema no estômago, mas mal como o provocado pelo álcool não fará, isso eu tenho
certeza.
- E Ítalo, como volta? Vim com ele de carro.
- Ele leva meu carro, temos duas motos na casa e não precisamos dele, qualquer coisa
usamos um dos utilitários da fábrica.
297
- Está bem, pode ser divertido, então espere eu vestir minha roupa de couro.
- Precisa tudo isso?
- Quero um estilo bem Marlon Brando, acho interessante.
- Athos, as vezes você me lembra uma criança brincando com a vida.
- Muitas vezes sou isso mesmo, todos deviam ter seus momentos de criança, ao invés
dos de homens maus.
- Tomamos um chope antes. Quero tirar este gosto ruim da boca.
Pararam no Alivio do Simum, Ramiro se apressou em indicar uma mesa.
- Aquela ali está boa? Vou preparar uns salgadinhos para vocês.
- Não Ramiro, é só um chope; e vai aqui no balcão mesmo. - respondeu Diego.
Então se virou para Athos, admirou sua indumentária e comentou:
- Marlon Brando? Você está mais para Elvis. Brando? Eu não me lembro de tê-lo visto
de branco jamais, sempre usava roupas escuras, embora não tenha visto todos os seus filmes.
- Eu não uso preto nunca, você sabe, não ficou bom?
- Você vai voltar porco da fazenda. Ficou boa sua moto?
- Claro! Quando a comprei de Lúcia mandei fazer o serviço no seu mecânico,
igualzinha à sua, a não ser este detalhe em rosa onde a sua é verde musgo. Mas não é minha.
Foi reformada para presentear Marina, como não consigo encontrá-la estou usando.
- Quando encontrá-la, me avise, eu preciso falar com ela.
- Não posso encontrar quem não quer ser encontrado, ela está fugindo de você.
- Mas já fazem quase cinco meses desde o nosso último encontro, ela anda pela noite
paulista à vontade badalando com uma série de rapazes, tenho três informantes procurando-a
e nada,
- *Marina assistia a um jornal pela televisão pela primeira vez depois de muito tempo
quando ouviu a noticia a respeito de Gianne Fontoura, soando para ela como uma bomba.
"Foi publicada hoje no Diário Oficial a sentença do caso de Gianne Fontoura, o jornal
responsável pelo escândalo na qual foi envolvida em um suposto envolvimento amoroso com
Diego Montone foi condenado, mas a indenização ainda não foi arbitrada."
"Gianne Fontoura, cuja gravidez nunca existiu, aproveitou para esclarecer à nossa
reportagem o início e o fim de suas relações amorosas com Diego Montone em caráter
definitivo na noite do badalado casamento de Fabiana de Lucca, conhecido milionário
paulista, esclarece ainda um fato até agora em segredo para não tumultuar o processo, quando
da publicação da noticia já se encontrava em tramitação os papéis para seu casamento com...."
- Meu Deus, como pude fazer uma besteira dessas? - lamentou e se abraçou a Sandra.
Marina havia passado os últimos meses tentando ferir Diego, freqüentava as festas e
danceterias e se deixava fotografar ao lado de rapazes com os quais não mantinha nenhum
relacionamento, mas não desmentia nenhuma das noticias, tentando provocar nele um
sentimento de repulsa por sua pessoa, agora isto se virava contra ela.
- Procure-o. - Aconselhou Sandra. - Esclareça tudo e continuem suas vidas.
- Com esta barriga? E com todas estas fotos nos jornais?
- Qual é o problema?
298
- Como ele vai acreditar em mim, nunca tive nada com outra pessoa, mas....
- Hoje existe o exame de DNA, para esclarecer problemas de paternidade.
- Não posso me submeter a esse vexame, deixe as coisas como estão.
- Então eu vou procurá-lo.
- Se você fizer isso peço o exame de DNA de Biancha e a tomo de vocês.
- Não pode, você jurou jamais fazer isso, Biancha é nossa filha agora, você nunca foi a
mãe dela realmente. Eu a criei e amo como minha.
- Então deixe-me viver a minha vida! - e virando-se para Salvatore. - Isso vale para
você também pai.
- Está bem, está bem. Se você quer passar a vida toda chorando por ele; problema seu;
não vou perder Biancha em função de sua teimosia.
- *Diego e Athos entravam na fazenda; um dia ela pertencera a Salvatore Schiavonne, era
bem diferente então, aquela área por onde andavam era onde ele criava seu pouco gado,
apenas para custear a área e proporcionar um pouco de leite e queijo para a família. Não era
sua atividade principal e sim o café em franca decadência, quase toda a área fora substituído
por laranjeiras, mas a casa principal, o pomar e o pequeno pasto foram mantidos a pedido de
Marina, já não tinha cercado de arame farpado e a braquiara reinava tranqüila sem a presença
do gado para consumi-la.
- Quem mandou tirar o cercado de volta da casa? - perguntou Diego. Não deveríamos
ter algum gado aqui a pedido de Marina.
- Depois do rompimento de vocês Fátima vendeu o gado, a cerca poluía o visual.
Mantive apenas a do galinheiro, embora também não existam galinhas lá.
Diego desceu e ficou olhando para a paisagem, momentaneamente as laranjeiras foram
substituídas por pés de café, uma pequena roça de milho destinada ao gado, algumas
mangueiras espalhadas e o pasto de inverno em volta delas. Ele se viu correndo com Marina
através dele em direção ao celeiro, quase sentiu a coceira provocada nele pelas palhas de
milho, mas isso não o intimidava era a única maneira de amá-la então, na casa dos
Schiavonnes dormiam em quartos separados - Nem se importava em ficar procurando restos
de palha nos cabelos para voltarem sem marcas para a casa principal.
Ela estava ali na frente dele, os mesmos calções vermelhos e largos como se fosse um
jogador de futebol, uma camiseta verde clara decotada e sandálias os cabelos soltos caindo
sobre os ombros; usava-os curtos agora; eram assim à época.
Desceu da motocicleta e foi para a entrada dos fundos da casa, a empregada, esposa do
caseiro, já o conhecia da cidade, cumprimentou-a rapidamente e continuou resoluto até a
geladeira abrindo o compartimento superior onde encontrou o conjunto de canecas térmicas
com o símbolo do Palmeiras, ele as comprara para presentear Salvatore Schiavonne. Aquele
congelador só era usado para mantê-las geladas, pegou duas, abriu o refrigerador da mesma e
pegou uma cerveja saindo para a varanda, anexa à cozinha.
Depois foi até a pequena barrica sobre a mesa e pegou duas canecas de alumínio entre
as penduradas na parede, serviu-se de aguardente, depois abasteceu a outra e a ofereceu a
Athos.
- Experimente, é excelente feita pelo Juca, marido da Betânia. - referindo-se à
empregada. - ele é o responsável pela casa, eu sempre gostei muito desta branquinha.
- Estou certo de precisar disso, coloque um pouco mais ai.
299
Betânia se afastou, sentiu estar acontecendo ali alguma coisa além de sua compreensão;
não lhe dizia respeito; foi para sua casa nos fundos da propriedade e permaneceu lá.
- *Pedro Latorre olhava indeciso para o cofre do irmão, sua memória tentava buscar o
segredo em algum canto remoto, transferira-o para Alexandre quando decidiu comprar um
menor e mais adequado a ser disfarçado por um móvel comum dentro de sua sala, aquele era
um "trambolho", enorme, antiquado, aproveitou para olhar melhor para a sala, não se
lembrava com certeza de ter estado ali depois da mudança, mas, tudo era tremendamente
familiar, os sofás, a mezinha de centro, a mesa, estas últimas estavam um pouco diferentes, só
o exterior, haviam trocado o padrão da madeira da mesmas cobrindo-as com uma mais
condizente com a nova decoração da Coexponal: tudo recoberto com fórmica texturizada azul
petróleo, mas ainda tinham a mesma forma e os mesmos tubos de aço agora recém cromados.
Sobre a mesa as fotos dos dois filhos, da filha, e de Rose. No tocante a ela não fora também
muito honesto com o irmão.
Foi difícil resistir à aventura, não pela beleza de Rose, carecia de algo em sua
aparência, mas a cunhada soubera jogar com ele tornando tudo mais interessante, primeiro se
oferecia e depois assumia um ar de indiferença, acabou virando um desafio. Pedro detestava
perder.
Hesitou ao ver o cofre à sua frente, não queria a confirmação da traição do irmão, já
fora informado dela há muito tempo, mas nunca verificara o fato. Não queria a confirmação!
Torceu para ser uma informação equivocada, mas precisava saber, então tentou! Três voltas à
esquerda.... sessenta e dois, duas voltas à direita... noventa e nove, novamente à esquerda até
o dezesseis. Não abriu.
O segredo não havia sido trocado, tinha certeza, então fez um esforço de memória e
tentou outras combinações. Finalmente suas lembranças chegaram à seqüência correta, e suas
mãos nervosas passaram a rebuscar o conteúdo do cofre até achar um pacote onde se lia:
"Documentos pessoais de Alexandre Latorre, não abram em sua ausência ou sem seu
consentimento"
Ficou apavorado com a possível indiscrição e não sabia exatamente como agir, se a
informação fosse verdadeira Alexandre era muito corajoso, estava temporariamente ausente
da empresa, solicitara uma licença mas não se preocupara em retirar as provas dali.
Aproximou o cigarro aceso da fita adesiva sobre o pacote e ela se soltou. então fez o mesmo
com as outras, se não encontrasse nada era só fechá-lo novamente, mas encontrou! Não só as
provas forjadas contra si, mas como foram obtidas. Poderia provar serem fraudes caso
existissem cópias. Entretanto, havia documentos reais comprometendo todos os elementos
formadores da chapa da oposição e o irmão, tinha-os nas mãos. Agora de nada adiantava
ameaças, o sindicato seria seu ainda por muito tempo, não haveria outra diretoria.
- *Athos só desviou o olhar da arma pendurada na parede, para observar Diego e deduziu
acertadamente, suas lembranças já não comandavam aquele corpo, sua forma de agir tinha um
único significado, Thomas afluíra definitivamente e Klaus desafiara a ciência dos protetores e
dominava parcialmente aquele corpo, breve o domínio aconteceria por completo. Seria
obrigado a matá-lo. Deixá-lo vivo significava um enorme risco para a humanidade, poderia
transformar novamente em realidade os fatos aterrorizantes dos Cárpatos talvez permitir a
criação de um novo exército de criaturas das trevas.
Ficou imaginando as manchetes dos tablóides sensacionalistas, "ADMINISTRADOR
ASSASSINA PATRÃO E SOME NO MUNDO", e pensou em como seria lembrado por
todos. Era considerado um anjo, um benfeitor e um homem honrado e importante,
300
principalmente por Vincenzo Montone, mas, não lamentou por este, afinal, conseguira uma
sobrevida junto ao filho com toda essa história. Diego, na verdade, morrera naquela manhã
sobre a ponte, quando ele e Thomas eram praticamente dois desconhecidos, seu espectro já
habitava outro plano, ele agora convivia apenas com a sua imagem, sua vida provinha de
outra força motriz e agora esta se assenhorara definitivamente dele criando a possibilidade de
gerar um monstro perigoso e faminto.
- Você não me ajudou a me recuperar depois de minha amnésia? Deixou eu me
remoendo de ciúmes de mim mesmo, eu teria reconquistado Marina como Thomas. De onde
você tirou tanta maldade?
- Eu não podia, nós provocamos a amnésia, caso você recuperasse suas lembranças eu
seria obrigado a eliminá-lo e não queria isso.
- Eliminar-me? Não acredito! Você me colocou nesta situação e agora quer me matar, é
uma loucura, não devo estar ouvindo direito, vocês falham, eu pago por isso?
- A sobrevivência de muitos exige isso, você não pode saber o quanto eu sinto! Minha
missão é proteger, não matar. - e passando as mãos pelo nada voltou com a linha da vida de
Thomas nas mãos, quando ocorresse o tiro considerado responsável por sua morte já não
haveria dor. - Acredite na minha palavra, é tudo resultado de uma série de acidentes acima
das minhas forças.
- Devo estar devendo muito aos céus, você sabe porque paramos de orar, de agradecer a
Deus?
- Não, mas gostaria de saber.
- Porque nossos pais nos ensinam isso na nossa infância, e quando nos acham grandes o
suficiente para continuar sozinhos não o fazem mais, minha diversão preferida é ler, quando
criança meu pai me deu umas transcrições em português do livro UM ERRANTE ENTRE
DOIS MUNDOS, de um escritor nazista cujo nome não me recordo, era um discípulo das
idéias de Hitler, minha mãe presbiteriana, ela me ensinava a orar e amar a Deus, meu pai a
trabalhar duro e odiar os judeus. Falando sobre a oração e sobre o habito das pessoas fazerem
suas orações noturnas pedindo proteção, ele desafiava o leitor a deixar de fazê-lo para ver
quais as conseqüências, a testar Deus e seu poder, para saber deixei de fazer minha oração um
dia, nada aconteceu, outro e tudo transcorreu normal, uma semana e sequer cortei um dedo,
meu cérebro infantil e inconseqüente concluiu pela inutilidade daquele ritual, a preguiça de
cumprir obrigações fez o resto. Jamais voltei a fazer uma oração, talvez tenha perdido sua
proteção.
- Não acredito nisso, Deus é pai, sua predisposição a perdoar e proteger supera em
muito qualquer pensamento egoísta dos homens.
- Antes de morrer, gostaria de fazer uma última oração, tentar me redimir, pedir perdão
por uma vida descrente, há tempo para isso não?
- Claro. Use quanto tempo quiser.
Thomas se pôs de joelhos, sua prece era silente, impossível saber o integral teor da
mesma, suas lágrimas certamente não eram de covardia, de medo da morte, eram de
arrependimento por esquecer seu criador por toda uma vida, Athos era responsável por esta
reaproximação, talvez existisse o paraíso, quem sabe não o conquistara nesta oração, devia ser
grato a ele, então se levantou e falou ainda com os olhos vermelhos.
- Obrigado por este momento amigo, estou pronto.
Athos se preparou para romper o tênue fio ligando o espectro ao corpo habitado por ele,
o tiro seria apenas uma formalidade, nem seria sentido. Thomas teve consciência da situação
301
na qual se encontrava, não odiou Athos. Realmente não! Ao contrário: sentiu pena. Pode
sentir a terrível angustia emanada de seu amigo/anjo. Parecia entender tudo. Não era ele quem
decidira seu destino, estava apenas cumprindo uma missão. Com certeza a mais amarga de
toda a sua existência de milênios.
- Você é um ente bom, eu sei, conheço o bem e o mal, você representa o primeiro.
Deve existir uma razão muito forte para isso mas eu preciso saber, eu já me afeiçoei a você,
eu poderia saber porquê?
- Eu lamento muito, mas nem isso posso lhe dizer. - respondeu Athos hesitante
segurando a arma em uma das mão e o fio da vida de Diego ou Thomas em outra então ouviu
uma voz diferente partindo do corpo de Thomas.
- Não faça isso, precisamos conversar um pouco, talvez tudo possa ser diferente.
- Klaus? - perguntou Athos curioso.
- Eu mesmo! Agora abaixe esta arma, e solte este fio. Você pode usá-los a qualquer
momento. Não tenho para onde fugir.
- *- E o Senhor Alexandre? - perguntou o homem à frente de Pedro Latorre, ele sempre
participa dessas missões, ajuda a planejar.
- Desta vez ele não pode participar Alcindo, infelizmente.....
- Então devo deduzir? - o homem se calou sem saber como agir.
- Deve ter deduzido corretamente, infelizmente, o resto eu lhe direi na hora certa, estes
homens vão participar, são de absoluta confiança; quem sabe? Na verdade só confio mesmo
em você
- Pode confiar cegamente. Quando devo agir?
- Imediatamente, mas primeiro vou providenciar os passaportes, meu e de minha
família, vamos todos para o exterior.
- E a esposa dele? Vai realmente colaborar? Mesmo depois de...
- Vai colaborar, não se preocupe. Não tem saída.
THOMAS, O FIM SEM RETORNO
Athos libertou Thomas do sono no qual estava mergulhado há horas, regressara de sua
última viagem ao Empíreo:
- Acorde Thomas, agora precisamos cumprir o seu destino.
- Ainda estou vivo? Infelizmente ainda dependente de sua vontade. Nem imagino qual
sua atitude agora, porque não acaba logo com isto, não entende? Está me torturando.
- Desculpe- me, fui pedir autorização para lhe dar uma satisfação, vou lhe contar a
história de Klaus, depois talvez você entenda o motivo de muitas de nossas atitudes.
- *Depois de ouvir o relato Thomas se mostrava mais compreensivo; no entanto ainda sem
consciência de seu destino.
- Você não vai mais morrer, não sei qual o teor de suas orações, mas fosse qual fosse
deve ter sido atendido; ao menos em parte. Klaus salvou sua vida, concordou em abandonar
seu corpo e nos seguir voluntáriamente, faremos uma repetição de nosso trabalho anterior.
302
Vamos apagar novamente sua memória, mas agora com sucesso, sem a ajuda de Klaus você
não conseguirá recuperá-la e ele já não habita mais o seu corpo, o resto de sua vida será
vivido como Diego Montone, não há outra alternativa. Thomas sabe muito.
- E Marina?
- Não sei, não podemos ajudá-lo a encontrá-la contra a vontade dela.
- Não importa. Eu vou descobri-la mesmo sem a sua ajuda.
- Não aposte nisso. Ela conta com a proteção de Thyphany para evitar você.
- Então vamos logo com isso, apague de vez minha memória, como Diego ai eu não sei
quem é você e fico menos chateado.
- Você me odeia?
- Não, já não vejo em você o motivo para todos os meus problemas Ademais; como
posso odiá-lo? Sei de todas as suas tentativas para me ajudar.
- *Quem chegou à Morada do Simum de volta ao castelo já era definitivamente Diego
Montone, um homem triste e cabisbaixo.
- Não entendo Athos. Fiz este passeio para me alegrar, acabo dormindo um longo
período e acordando desse jeito. Completamente arrasado.
- Acalme- se, tudo na vida tem solução, Valerye tem certeza da vitória do verdadeiro
amor sobre tudo.
- Quem é Valerye?
- Valerye é... é uma amiga minha. Muito inteligente... muito inteligente mesmo, sábia.
não me lembro de já tê-la visto errar uma conclusão; e, torço para ela estar desta vez também.
- *Alexandre Latorre não podia acreditar, mas estava acontecendo, ele e Albano estavam
amarrados a um cadeira e Pedro Latorre à sua frente. Homens de sua quadrilha aguardavam
do lado de fora do galpão, ele queria conversar com o irmão sem testemunhas.
- Você não pode fazer isso comigo, sou seu irmão.
- Sinto muito, mas não posso perdoar aos traidores, você tentou assumir o meu
sindicato trocando sua diretoria quase conseguiu, agora preciso cobrar de você e do Albano.
- Você está brincando, aquilo era apenas negócio, nada particular.
- Isto também é apenas negócio, sinto muito, mas não se preocupe com nada, seus filhos
vão ter uma vida confortável.
- Não quero saber como meus filhos vão viver, eu não quero morrer.
- Claro, ninguém quer, mas sua esposa pode me imaginar um homem fraco e levá-lo a
uma nova tentativa. Sei da participação dela em sua empreitada, você não tem coragem para
tentar sozinho. não posso admitir isso.
- Ela não sabe nada sobre os meus negócios, ela não vai pensar nada, você está
enganado.
- E como vou mostrar minha ira?
- Tem o Albano, mostre seu cadáver ao mundo, afinal todo o plano foi dele.
303
- Você esta louco Alexandre? - revoltou- se Albano. - Foi tudo idéia da Rose, com
sua participação, eu não posso pagar por tudo sozinho, fui apenas um instrumento.
- Cala a boca mentiroso covarde. Você foi o autor intelectual de tudo, eu fui tolo o
suficiente para ouvi-lo. Felizmente meu irmão é inteligente o suficiente para não acreditar em
você. Desde quando você conhece minha mulher.
- Desde quase todas as tardes nos últimos anos, e acreditem: até isso foi idéia dela.
- Você estava saindo com minha mulher? Não mate ele Pedro deixe-me fazer isso.
Desgraçado, queria ser meu sócio em tudo.
- Claro, Claro! Afinal você é meu irmão. - concordou Pedro Latorre, desamarrando
Alexandre e entregando um revolver a ele. - Cuide de sua vingança.
- Você vai matar sua mulher também? - perguntou Albano zombeteiro e ciente de seu
destino. - Não a machuque, principalmente aquela pinta, à qual possivelmente só nos dois
conhecemos, além da mãe dela é claro. Coloque veneno no drinque dela, se ela beber, é pouco
provável! Ela aprecie mais os meus martines.
Alexandre Latorre ficou segurando a arma na mão mas não conseguia atirar, não tinha
estômago para isso, sempre fora um covarde. Pedro Latorre se exasperou.
- Sua coragem parece só existir contra mim, o homem está tratando você como um
palhaço e você fica ai com esta droga pendurada?
Albano começou a rir enquanto Alexandre irritado descarregava a arma contra ele,
ainda estampava o sorriso debochado nos lábios quando finalmente a cadeira tombou sob o
peso de seu corpo sem vida.
- Então? Acredita em mim agora? Foi tudo idéia de Rose e do Albano, mate-a e me
deixe ir? Tudo voltará a ser como antes.
- Acredito, claro. Mas não pode ser tão fácil assim, afinal você conspirou contra mim.
Está fora da Coexponal.
- Claro Pedro, eu mereço realmente um castigo. Fico fora uns tempos, Depois você me
readmite e tudo volta a ser como antes.
- Esqueça! Você não vai poder mesmo voltar, negociei sua demissão com outra pessoa,
não posso quebrar minha palavra. Procure outro meio de vida. Compareça ao aeroporto para
nos despedirmos. Faz bem para minha imagem, estamos entendidos? Leve a família. - Pedro
tirou a arma da mão do irmão segurando-a pelo cano, mesmo assim tinha as mãos enluvadas.
- Entendo, realmente eu não fui um bom irmão, pode deixar... eu me arrumo bem sem
você.
- Vá para casa e não crie problemas para Rose. Não crie mesmo! Você já arrumou
muita confusão. Não a quero adoecendo, aborrecida ou tendo um infarto, ou para o meu
pessoal, o destino dela decidiremos na minha volta, senão mando esta arma para a policia e
vai ser cadeia por assassinato. Agora vá.
- Pode deixar, serei um menino comportado. Rose não saberá nada, só na sua volta.
Tudo vai ser feito do seu jeito, exatamente como você quiser, serei um bom menino.
Alexandre saiu rapidamente, quase correndo, quando girou a chave no contato quase
teve um infarto, como pudera ser tão inocente, deveria ter verificado, podia ter uma bomba
ali, não aconteceu nada, pisou forte varias vezes no freio, se tivesse sido sabotado estouraria
ali mesmo, ficou tranqüilo, Pedro era seu irmão, a voz do sangue fala mais alto.
304
Pedro saiu em seguida, Alcindo andava ao lado dele quieto, entrou no Porche
estacionado ao lado da limousine e falou já de dentro do carro:
- Esperem apenas eu sair do país e façam o serviço, quero o corpo encontrado
imediatamente, ainda quente.
- Não seria melhor sumir de vez com ele?
- Não, o seguro dele é muito alto, sem corpo.... sem pagamento. As crianças vão
precisar deste dinheiro. Deixe as armas ao lado dele, a policia saberá ao menos quem matou
Albano. Coloque seu corpo no freezer e só o tire de lá para juntá-lo ao de Alexandre.
- Não vai ser fácil, ele vai estar arisco.
- Alexandre? Esqueça, é um amoral, ninguém no mundo pode estar mais tranqüilo.
Peguem no em qualquer saída de boate ou sauna, sem trabalhar ele vai se divertir o tempo
todo.
- *Marina comprara todos os jornais do dia, queria acompanhar com detalhes o processo
de Gianne Fontoura.
- Pare com isso minha filha, se você não vai mais procurar o Diego esqueça os jornais!
A moça ganhou o processo, era calunia e assunto encerrado.
- Pai na verdade eu quero e achar uma evidência de culpa de Diego, assim eu me livro
de uma vez por todas da lembrança dele.
- Tolice filha, Diego é um homem decente, ele é inocente mesmo, não tem jeito.
- Fui precipitada pai! Não dei a ele uma chance de se explicar, agora fico aqui
desesperada esperando por um milagre. De repente me sinto totalmente livre para procurá-lo e
não tenho coragem.
- Procure por ele, você sabe onde ele mora, onde trabalha e os seus restaurantes
favoritos, então encontrá-lo não será absolutamente difícil.
- Não posso pai! Quero muito isso, mas agora como posso? Fiquei sendo fotografada de
festa em festa com rapazes e agora apareço com este barrigão, ele não vai compreender.
- Você não saiu com nenhum destes rapazes. Eram só um motivo para deixá-lo longe
de sua vida.
- Na teoria tudo é muito simples, mas na prática...
- Ainda existe o recurso do exame de DNA, se você o ama não devia se preocupar com
vexame ou não vexame.
- Eu até já me acostumei com a idéia do vexame, mas e o problema da confiança? Dele
acreditar em mim ou não, não posso começar a viver um grande amor através de um exame de
laboratório. Para mim não faz sentido.
- Tolice.... então você vai desistir de tudo?
- Não sei, talvez não. Posso esperar a criança nascer e procurá-lo depois, talvez eu ainda
consiga alguns momentos com ele, viverei de migalhas... mas como gostaria de vê-lo agora.
Esta vontade nunca foi tão forte, a partir de ontem me pareceu tê-lo amado sempre. Thomas
também parece ter me esquecido, já não comparece em meus sonhos.
- Procure- o!
305
- Não tenho coragem, e não quero ninguém interferindo, nem você nem Sandra. Se o
fizerem eu lhes garanto, vocês vão sofrer toda minha ira e certamente vão perder Biancha.
- Está bem, se você quer sofrer.... então sofra!
- *Diego estava parado em frente à calçada do Hospital Hanna David, Athos estava
próximo a ele.
- Você as vezes me decepciona Athos! Como eu poderia deixar de solicitar um exame
de H.I.V., eu me relacionei com esta mulher há alguns anos e não posso saber quando ela
adquiriu o vírus.
- Simples! O Coronel Mariano fez o exame e deu negativo, ela adquiriu o vírus há
pouco tempo.
- E como foi morrer tão rápido?
- A reação dos organismos a esta doença não tem um padrão definido, age de forma
diferente em cada hospedeiro.
- Soube de sua atitude, antes passou todos os bens para Mariano e se reservou apenas o
usufruto.
- É uma maneira de pedir perdão, ela nunca o respeitou como marido. - Athos entregou
um endereço a Diego.
- De quem é este endereço Athos?
- De uma amiga sua, está grávida e talvez precise de uma visita.
- Amiga minha? Quem? Gianne já engravidou assim tão rápido?
- Visite-a e descubra.
Diego olhou o cartão em cujo verso estava anotado o endereço,
ginecologista: Doutora Thyphany. Nunca ouvira falar nela.
era de uma
- *Pedro Latorre estava dando uma entrevista coletiva, iria entrar para a política, queria
disputar o governo e investir em segurança, dois raptos ocorridos em sua empresa, o de
Thomas Aguiar e o de Alexandre, seu irmão, duas pessoas muito queridas e agora mortas o
levaram a esta decisão.
- Na verdade nunca me interessei por política, acho desgastante, mas não posso ficar
alheio à realidade, quando perdi a amizade de Thomas fiquei abalado. Pensei em fazê-lo e
resisti, com a morte de meu irmão tomei uma decisão definitiva.
- O Senhor tem alguma proposta para a melhoria da segurança?
- Não vou ser falso e afirmar isso, tenho algumas idéias mas ainda são embrionárias,
Rose, minha cunhada e virtual herdeira de Alexandre na hierarquia da minha empresa
concordou em abando