Revista da Fapese v. 2. n.2, p.83-108, jul./dez. 2006
83
O Cluster Informal de Cedro de São João
Resumo
Sudanês Barbosa Pereira*
O
artigo apresenta uma experiência local de aglomeração produtiva informal, no município de Cedro de São João, em
Sergipe. Em um primeiro momento é feita uma apresentação
sobre o município pesquisado através da análise de alguns dados
socioeconômicos. Em seguida, são apresentados os resultados da
pesquisa por meio de uma análise que combina as características
socioeconômicas e culturais locais, com a aplicabilidade teórica e
contribuições oriundas da geografia e da economia, que se constituiu em áreas do conhecimento às quais foram estabelecidos links,
com o propósito de alcançar o objetivo ao qual foi proposto, ou
seja, analisar uma atividade produtiva fora do eixo das economias
industriais. O artigo finaliza com as conclusões teóricas e as reflexões sobre o desenvolvimento e a sustentabilidade do cluster informal de Cedro de São João.
PALAVRAS- CHAVES: Cluster informal, Desenvolvimento Local,
Artesanato.
* Economista (UFS), Mestre em Geografia (UFS), Pesquisadora CNPq/DTI
do Núcleo de Propriedade Intelectual da UFS.
Email: [email protected]
84
Sudanês Barbosa Pereira
Introdução
O objetivo do artigo é apresentar uma atividade
produtiva local informal, fora do eixo das economias
desenvolvidas de caráter industrial, sua relação com
o desenvolvimento local/regional e os processos que
a envolvem. Para tanto, buscou-se contribuições oriundas da geografia e da economia, que se constituiu em
áreas do conhecimento às quais foram estabelecidos
links, com o propósito de alcançar o objetivo ao qual
foi proposto. As noções conceituais foram utilizadas
no município de Cedro de São João no estado de
Sergipe. O município de Cedro de São João representa uma aglomeração de atividades informais na área
de bordados que constitui uma importante forma de
renda para sua população. Foram aplicados 53 questionários no cluster informal de Cedro de São João, (35
com as bordadeiras e 18 com os intermediários, responsáveis pela comercialização dos produtos), com o
intuito de decifrar as conexões que formam e sustentam a aglomeração produtiva.
Com o estreito vínculo ao objeto acima citado,
procurou-se utilizar o conceito de cluster a atividade
produtiva local. O conceito de cluster difundiu-se no
meio acadêmico a partir dos estudos de Michael
Porter, e está vinculado à noção de que a competitividade das nações é derivada da competitividade das
empresas instaladas no território nacional, localizadas em concentrações geográficas delimitadas, dentro desse território, e compartilhando em grupos, as
externalidades positivas decorrentes das chamadas
economias de aglomeração. Foi possível utilizar também outros temas como capital social e capital humano, aprendizagem, cooperação, redes, enfim, temas que pudessem ajudar na compreensão da atividade produtiva e do local.
O artigo é dedicado aos resultados da pesquisa
de campo realizada pela autora, no município de
Cedro de São João, Sergipe. O ponto de partida analítico foi, portanto, utilizar o arcabouço teórico com
o objetivo prover elementos para a compreensão do
local (suas práticas sociais, percepções do cotidiano
e diversidades) e da atividade produtiva localizada.
1. Visão geral sobre o município de Cedro de
São João
O município de Cedro de São João está localizado na microrregião de Propriá, no Leste Sergipano, a
94 km de Aracaju, capital do Estado de Sergipe. Segundo o censo demográfico de 2000 do IBGE, o município possui uma população total de 5.378 habitantes, sendo que 4.650 moram na área urbana e 728
na área rural, apresentando uma taxa de urbanização de 86,46%. Sua bacia hidrográfica é formada pelo
Rio São Francisco, pelos Riachos da Baixa do Cipó,
da Ponta Comprida, Jacaré e Grande, como também
pelas Lagoas Cedro, do Algodão e do Padre.
O nome do município se refere à planta do gênero cedrus, árvore encontrada em abundância na região, hoje em extinção, e ao nome do padroeiro do
município, São João Batista. O município surgiu do
povoamento da Fazenda Cedro, de propriedade do
pecuarista Antonio Nunes, no século XVIII. À medida que novas famílias chegavam para trabalhar na
pecuária, casas de taipa eram construídas ao redor
da fazenda Cedro, aumentando assim a população
do povoado. As áreas mais altas da cidade eram ocupadas pelas famílias de maior poder aquisitivo, essas áreas não eram atingidas pelas inundações do
Rio São Francisco, ao passo que as partes mais baixas eram habitadas pelas comunidades pobres. O
povoado cresceu e novas atividades, além da pecuária, foram se desenvolvendo como a plantação de
arroz e a pesca. A pecuária sempre ocupou um lugar
de destaque como atividade econômica de Cedro de
São João. Durante muito tempo, o município foi o
maior produtor de carne-de-sol do Estado, mas por
falta de infra-estrutura o matadouro local foi fechado e a produção ficou inviabilizada. As atividades
econômicas predominantes são: a agricultura (arroz,
milho, feijão e horticultura), a pecuária (bovinos,
suínos e avicultura), comércio e serviços (pequenos
empreendimentos como lanchonetes, padaria, correio, farmácia, bares, etc.) e o artesanato, como atividade informal. Cedro de São João possui uma cultura local forte, muito embora desvalorizada e esquecida. A cidade chegou a ter uma banda de música
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
com 24 integrantes, grupos folclóricos - hoje extintos, e outras atividades culturais. Atualmente, as atividades culturais do município são as festas do padroeiro, a via-crúcis na Semana Santa, a Cavalgada
do Baixo São Francisco e as festas natalinas. (Mendonça e Silva, 2002).
No que se refere à economia do município, o setor de serviços sempre foi predominante na economia do município. De acordo com os dados do IPEA
Data, em 1996 o setor de serviços representou 77,97%
85
do PIB total naquele ano, seguido pela agropecuária
com 21,54%, e indústria com 0,49%. A cada
qüinqüênio, o setor de serviços apresenta um crescimento significativo em relação aos outros setores da atividade econômica, o mesmo acontecendo com a agropecuária, que mesmo com uma reduzida queda em 1996, o mesmo ainda permanece
como o segundo setor mais forte para a economia
do município. A tabela e o gráfico abaixo mostram
os valores do PIB do município entre os anos de 1975
e 1996.
Tabela 1 - Produto interno bruto (PIB) do município de Cedro de São João - por setores. Valores em R$ (mil) de 2000.
PIB por Setores
1970
1975
PIB Serviços
1.999,35
1.678,30
PIB Agropecuária
685,76
847,55
PIB Industrial
564,65
492,58
PIB Municipal Total
3.249,76
3.018,43
Fonte: IPEA DATA - Dados Macroeconômicos e Regionais
1980
3.228,29
2.553,63
391,08
6.173,00
1985
3.457,57
2.092,69
1.249,86
6.800,12
1996
5.350,18
1.478,14
33,12
6.861,44
Obs.1: Incluem-se no PIB de Serviços, a custos de fatores, os setores do comércio, do transporte e comunicação, das instituições financeiras, das administrações públicas, dos aluguéis e de outros serviços. Obs.2: Rateio do PIB Agropecuária, a custos
de fatores, em nível estadual do IBGE pelo Valor Adicionado da Agropecuária (VA Agro) em nível municipal estimado pela
fórmula: VA Agro = VP - OREC - CI; onde VP = Valor da Produção; OREC = Outras Receitas do Estabelecimento; CI =
Consumo Intermediário com base em dados do Censo Agropecuário. Obs.3: Incluem-se no PIB Industrial, a custo de fatores,
indústrias de transformação, extrativa mineral, da construção civil e dos serviços industriais de utilidade pública.
Gráfico 1 - PIB do município de Cedro de São João por setores, em R$ (mil) de 2000
(1970 – 1996)
Fonte: IPEA DATA - Dados Macroeconômicos e Regionais
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
86
Sudanês Barbosa Pereira
O setor de serviços possui uma forte representatividade para a economia do município. Segundo
dados do IBGE - [email protected], (2001) o município de
Cedro de São João possuía em 2001, 18 empresas
ligadas às atividades de comércio, reparação de veículos automotores, objetos pessoais e domésticos; 3
empresas relacionadas aos serviços coletivos, sociais e pessoais e 5 empresas na indústria de transformação. Os dados deixam transparecer que os serviços são uma atividade forte para a economia do município, assim como a agropecuária.
municipal e a legislação, o município de Cedro de
São João possui os instrumentos básicos para realizar o planejamento administrativo-financeiro, como
o PPA (Plano Plurianual de Investimentos), a LDO
(Lei de Diretrizes Orçamentária) e a LOA (Lei de Orçamento Anual). Porém, o município não tem um
Plano Estratégico Municipal, onde são definidas as
prioridades locais de planejamento, gestão e desenvolvimento, instrumento de grande importância para
o desenvolvimento de ações voltadas para o fortalecimento de economias locais.
A produção de bordados, ou seja, a transformação de um bem cultural em mercadoria para a venda, é uma atividade importante para o município.
Embora não seja possível quantificar o quanto essa
atividade gera em termos de riqueza para a economia local, é possível constatar que ela possui um
papel significativo para o setor de serviços local, uma
vez que parte da população sobrevive do trabalho
artesanal. Atualmente, esse tipo de atividade é considerada parte da “economia criativa”1, que hoje
movimenta em torno de 1% do PIB brasileiro, segundo o Ministério da Cultura.2 Não existe, em nível
nacional, um cálculo daquilo que seria o PIB brasileiro da cultura, ou seja, o que essa atividade representa para o país.
No tocante aos indicadores de habitação e saneamento, de acordo com o Sistema Nacional de Indicadores Urbanos (2002), 87,9% dos domicílios particulares permanentes em Cedro de São João estão ligados à rede geral de abastecimento de água, 83,4%
dos domicílios possuem acesso ao serviço de coleta
de lixo e 33,9% possuem fossa séptica ou estão ligados à rede geral de esgoto. O município não possui
favelas, cortiços, loteamentos irregulares ou mesmo
clandestinos, o que o diferencia dos demais municípios brasileiros.
A sistematização de um indicador para os serviços ligados a economia da cultura pode proporcionar uma clareza maior sobre essas atividades em nível nacional, regional e local, dado que o país possui
uma diversidade cultural extensa. Esse indicador
poderia auxiliar nas políticas públicas e potencializar
atividades ligadas à cultura e, em particular, o artesanato, beneficiando o setor e as pessoas que sobrevivem dessa atividade.
Com relação à organização do Poder Público Local, particularmente no tocante ao planejamento
1
2
Um indicador importante que mostra dados relevantes de desenvolvimento é o IDH, Índice de Desenvolvimento Humano. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é obtido pela média aritmética simples de três subíndices, referentes à Longevidade
(IDH-Longevidade), Educação (IDH-Educação) e Renda (IDH-Renda). O IDH pretende ser uma medida
geral, sintética, do desenvolvimento humano, ele
varia de zero a um, quanto mais próximo de um,
melhor o grau de igualdade.
De acordo com o Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil (IDH-2000), em 2000, Cedro de São
João apresentou o melhor IDH-M da região, e o quarto melhor IDH-M entre os municípios do Estado. O
IDH-M de Cedro de São João apresentou um cresci-
O termo economia criativa ou indústria criativa, refere-se a atividades ligadas à cultura e inovação. O conceito
surgiu na Austrália, nos anos 90 e abrange áreas como: produção de música, teatro, cinema, livro, jornal, revista,
indústria de computadores, software, fotografia, arte comercial, rádio, televisão, artesanato.
Conferir o texto “Creative Industries and Development”, TD 13, june, 2004, UNCTAD.
Dados do estudo realizado pela Fundação João Pinheiro, para o Ministério da Cultura, publicado em 1999.
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
mento de 11,40% entre o período de 1991-2000, ele
passou de 0,614 para 0,684. Ou seja, significa que a
desigualdade no município de Cedro de São João,
através de uma melhor distribuição de renda, qualidade de vida e educação, está diminuindo. Segundo
a classificação do PNUD, Cedro de São João pode ser
considerado um município de médio desenvolvimento
humano (IDH entre 0,5 e 0,8). Isto não significa dizer
que o município não possui desigualdades sociais ou
pobreza, significa dizer que os indicadores de desenvolvimento humano mostram uma melhoria na qualidade de vida da comunidade. Ou seja, a satisfação
das necessidades básicas de sobrevivência e outros
benefícios que proporcionam um padrão de vida mínimo para a população, estão melhorando.
A renda per capita média de Cedro de São João cresceu 15,47%, passando de R$ 91,53 em 1991 para R$
105,69 em 2000. Essa renda ainda é inferior ao salário
mínimo em vigor no ano de 2000, que era de R$ 151,00,
mesmo assim, os indicadores mostram que durante
esse período houve uma elevação significativa do acesso a bens de consumo como, telefone, televisão e geladeira, como pode ser visto no gráfico abaixo.
87
Outros dados relevantes que mostram a melhoria
da qualidade de vida em Cedro de São João são os
indicadores referentes aos serviços básicos como
coleta de lixo, energia elétrica e água encanada. Todos esses indicadores permitem constatar a melhoria
do acesso ao saneamento básico no município. Essas intervenções são socialmente eficientes, pois afetam diretamente o cotidiano dos moradores, principalmente no que se refere aos componentes de qualidade de vida (saúde, limpeza e higiene).
A pobreza é revelada por indicadores socioeconômicos, tais como renda per capita, expectativa de
vida, analfabetismo, mortalidade infantil, desnutrição, distribuição de renda, saneamento básico e outros. O relatório do PNUD de 2000 demonstra que os
resultados positivos do município de Cedro de São
João proporcionaram transformações de caráter socioeconômico que possibilitaram reduções significativas de indicadores importantes para o desenvolvimento local. No entanto, o desenvolvimento econômico e social reflete não somente a elevação da produção (base material), que gera riqueza, ou do consumo de bens e serviços que são importantes; mais
Gráfico 2 – Cedro de São João - Percentual de pessoas que vivem em domicílios com acesso a
bens de consumo (TV, Telefone e Geladeira) – 1991- 2000
Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (IDH-2000) Versão 1.0.0, 2003, PNUD.
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
88
Sudanês Barbosa Pereira
também nos serviços que refletem o bem-estar coletivo como, saúde educação, saneamento, entre outros benefícios para a população, indicadores estes
que o município de Cedro de São João apresentou
considerável performance. Porém, Cedro de São João
ainda apresenta indicadores de pobreza e indigência
significativos, o percentual de pessoas com renda per
capita abaixo de R$ 75,50, no ano de 2000, segundo
o Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil (IDH2000), era de 56,50%. São pessoas que sobrevivem
de forma extremamente precária, pode-se dizer que
são excluídas, expulsas, marginalizadas do mercado
(economia), ou a sua inclusão é limitada. A distribuição mais eqüitativa da renda, a melhoria da qualidade de vida e a inclusão social do contingente de
pessoas que vivem à margem do processo de desenvolvimento devem ser efetivamente, objetivos concretos de transformação da sociedade. A pobreza e a
desigualdade social caminham juntas, o acesso às
oportunidades sociais deve ser a forma mais justa de
redução de pobreza e desigualdades entre as pessoas, ele deve ser planejado e distribuído de forma eqüitativa para todos.
2. O Cluster informal de Cedro de São João:
resultados da pesquisa
Os clusters são aglomerações, ou concentrações
de atividades produtivas de um mesmo setor, numa
mesma localidade. Eles podem surgir de forma espontânea, sem planejamento, ou serem induzidos e
apoiados por ações públicas. No entanto, o critério
territorial não é suficiente para caracterizar ou mesmo explicar um cluster. No caso de Cedro de São
João, sob o ponto de vista conceitual e teórico, vários pontos convergem e evidenciam a configuração
do cluster informal. São eles:
i. A concentração geográfica da produção de
bordados em nível local, ou seja, a especialização produtiva (bordado – ponto de cruz).
ii. A proximidade de municípios com produção
de atividade semelhante à de Cedro de São
João. Na região do baixo São Francisco a produção de bordados está presente em quase todos os municípios.
iii. A evidência da cooperação de bordadeiras dos
municípios vizinhos, verificada pelas respostas dos entrevistados (as) quando questionados sobre este assunto.
iv. A proximidade de um importante fornecedor
de matéria-prima próximo ao município (a Loja
de Tecidos Confiança em Propriá).
Estas são características importantes para o desenvolvimento de clusters industriais, comerciais ou
mesmo informais. O que evidencia o cluster
pesquisado como informal, são as relações sociais
que o caracterizam, seu funcionamento e sobrevivência.
A atividade econômica associada ao cluster informal de Cedro de São João é o artesanato local, caracterizado pela produção de bordados (ponto de cruz,
redendê e crochê). Segundo Dantas (2004), o redendê
é o ponto mais praticado nos municípios ao longo
do Rio São Francisco, de forma pura ou associada ao
ponto de cruz, ele está presente em quase toda a região. Porém, é no interior da região que ocorre a associação do redendê com o ponto de cruz, fato encontrado em Cedro de São João, sendo que o ponto de
cruz é o ponto pelo qual o município é conhecido.
No Baixo São Francisco, região na qual Cedro de
São João pertence, o artesanato é rico e diversificado. De acordo com os dados da pesquisa do BNB
(2002), é possível encontrar na região o artesanato
em forma de bordados, cerâmica, madeira, e cestarias
e traçados, sendo que, rendas e bordados são as
tipologias mais freqüentes na região. Mesmo sendo
uma atividade importante, não é possível saber exatamente quanto a atividade artesanal representa em
termos de renda e recursos para a região. Segundo o
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o artesanato brasileiro envolve cerca de
8,5 milhões de pessoas, das quais 87% são do sexo
feminino. Essa atividade movimenta algo em torno
de R$ 28 bilhões por ano, correspondendo a 2,8% do
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
PIB brasileiro. O artesanato é, portanto, uma fonte
de geração de emprego e renda.
O artesanato em Cedro de São João é a expressão
artística do município, é o modo de vida da maioria
da população. Além de ter um significado cultural, o
artesanato possui um significado econômico importante, uma vez que é a fonte de renda para as
bordadeiras, e um complemento para a renda familiar. Outros fatores permeiam o universo do artesanato e do cluster informal de Cedro de São João além
do estritamente econômico, é preciso conhecer mais
profundamente o processo de produção desses bens
culturais, suas práticas. Mais ainda, é necessário conhecer os atores desse processo, sejam na condição
de produtores, consumidores, ou mesmo gestores/
vendedores. Enfim, descobrir qual o significado do
artesanato (bordado) para a vida da comunidade, para
o desenvolvimento local.
2.1. O ARTESANATO COMO FONTE DE EXPRESSÃO CULTURAL
E IDENTIDADE LOCAL
Na última década do século XX assiste-se a mudanças profundas no cenário mundial. Essas mudanças alteraram de modo radical as concepções e os
modos de agir, nos níveis pessoais, coletivos e empresariais. Uma das principais mudanças foi o fim
da polarização ideológica que durante décadas dividiu o mundo em dois grandes blocos hegemônicos,
dando início ao processo de globalização econômica, que teve como regra básica à eliminação das barreiras protecionistas como forma de impulsionar o
mercado mundial. O redesenho do tecido
geopolítico do planeta foi acompanhado do incremento das relações de troca e intensas migrações
de capital, tecnologia e pessoas, gerando um inevitável impacto nas culturas e no comportamento social dos indivíduos. Esse cenário global apresenta o
desafio de criar uma nova via de desenvolvimento
retirando do mercado o protagonismo das decisões
e buscando em ações compartilhadas entre sociedade civil e governo a construção de uma sociedade menos desigual.
89
Os debates atuais sobre o desenvolvimento trazem em seu arcabouço, idéias e elementos novos que
contribuem para o enriquecimento, a compreensão
e a identificação de setores de atividade produtiva
que possam conduzir regiões e localidades deprimidas em direção ao desenvolvimento econômico com
inclusão social. A idéia da cultura como instrumento de desenvolvimento sociocultural está cada vez
mais integrada ao econômico.
Nesse debate sobre o desenvolvimento econômico há uma revalorização de aspectos não incluídos
no pensamento econômico convencional como o capital social e a cultura. “A crise do pensamento econômico convencional cria uma “oportunidade” para
que, na busca de um pensamento mais compreensivo e integral do desenvolvimento, sejam incorporadas, em plena legitimidade, suas dimensões culturais” (Kliksberg, 2002, p. 50). Ou seja, a cultura pode
ser de grande relevância na luta contra a pobreza e a
exclusão social, que hoje aflige, através de diversas
manifestações, inúmeras comunidades brasileiras. O
artesanato, uma das manifestações culturais mais
populares do país, pode ser uma das atividades que
pode contribuir para a inclusão social e o desenvolvimento local.
O termo artesanato possui várias definições, cada
uma delas apresentando uma visão diferente tendo
em vista os diferentes aspectos da atividade artesanal.
De acordo com o dicionário Houaiss, artesanato é a
arte e a técnica do trabalho manual não industrializado, realizado por artesão, e que escapa à produção
em série; tem finalidade a um tempo utilitária e artística. Ou seja, o artesanato é uma atividade produtiva singular, tem um significado especial que lhe
confere uma característica peculiar e própria.
A Unesco considera produtos artesanais aqueles
produzidos por artesãos, totalmente à mão ou com a
ajuda de ferramentas manuais, ou, ainda, com a utilização de meios mecânicos, desde que a contribuição manual direta do artesão seja o componente mais
importante do produto acabado. Em Cedro de São
João, o bordado é o resultado da contribuição direta
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
90
Sudanês Barbosa Pereira
das bordadeiras, realizado sob a forma tradicional,
sem a utilização de equipamentos mecânicos. Neles,
estão presentes o saber, a criatividade, a arte e a habilidade das bordadeiras locais. Como salienta
Sampaio (2003), o artesanato tradicional é aquele que
faz parte do modo de vida das pessoas que o realizam, possui um padrão estético próprio e são transmitidos de geração para geração. Ou seja, o artesanato tradicional possui uma expressão cultural própria,
de caráter localizado e possuidor de uma identidade
que o particulariza.
De acordo com a pesquisa realizada pelo Banco do
Nordeste, Ações para o Desenvolvimento do Artesanato do Nordeste (2002), o artesanato nordestino possui onze tipologias e cinqüenta e sete segmentações.
No entanto, não existe uma classificação única nos
estados do nordeste, o que torna difícil uma abordagem analítica uniforme da atividade artesanal na região. Segundo a pesquisa, o artesanato de Sergipe possui dezessete tipologias, sendo que rendas e bordados apresenta o maior número de ocorrências, é a principal tipologia do Estado e a que possui o maior potencial de crescimento. O quadro abaixo apresenta a
tipologia do artesanato sergipano.
Através da pesquisa de campo realizada em Cedro de São João, foi possível constatar que a cultura,
manifestada na produção dos bordados, é um elemento que caracteriza o local e o seu modo de vida.
Nesse sentido, foi perguntado às bordadeiras sobre
o que elas pensam do lugar onde moram e qual a
expressão que, para elas, poderia definir melhor o
lugar onde vivem. Essas perguntas dariam uma melhor compreensão sobre como as bordadeiras, enquanto grupo social enxerga o lugar onde moram e
como a cultura está presente na vida da comunidade.
Das trinta e cinco bordadeiras pesquisadas, 14, ou seja,
40% disseram que Cedro de São João é um bom lugar
para se viver, pois a cidade é calma e todos se conhecem. O fato de “todos” se conhecerem mostra que as
relações sociais em Cedro de São João, se desenvolvem de maneira informal, através de conversas nas
calçadas das casas, na praça ou mesmo durante a confecção de uma peça de bordado. É a forma como a
vida se apresenta em Cedro de São João.
Rattner (2001) comenta que o sentido da cultura
é melhor apreendido pelo estudo do estilo de vida
de um determinado grupo de indivíduos organizados e interagindo em sociedade. Ou seja, o processo
de socialização se desenvolve através do convívio
com os outros, onde as normas e os padrões de conduta – econômicas, sociais, religiosas, culturais,
lingüísticos -, ligam os indivíduos configurando no
estilo de vida ou cultura do grupo. A cultura para as
bordadeiras, se reflete no modo de vida delas, pois o
bordado está presente desde as primeiras horas do
dia, até ao anoitecer. Essa prática cultural se repete
dia a dia e as mantém coesas enquanto grupo social.
Como bem afirma Kliksberg (2002, p. 28), “A cultura é
fator decisivo de coesão social. Nela as pessoas podem reconhecer-se mutuamente, cultivar-se, crescer
em conjunto e desenvolver a auto-estima coletiva”.
Quadro 1 - Tipologias do artesanato sergipano
Caracterização do Artesanato de Sergipe
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
Alimentação regional
Artesanato artístico
Artesanato de confecção
Bordados
Cerâmica
Couro
Foguetearia
Cestarias ou palharia
Gravuras
Fonte: BNB (2002, p.24)
10.
11.
12.
13.
14.
15.
16.
17.
Pinturas
Instrumentos musicais
Madeira
Metal
Pedras
Rendas (bilro, irlandesa, filé, tricô, crochê, renascença).
Tapeçaria (algodão cru, fibra de buriti, corda).
Tecelagem (algodão cru).
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
Outro fator interessante detectado nas entrevistas diz respeito à relação do local, ou do município,
com a produção de bordados. Das trinta e cinco bordadeiras entrevistadas, vinte afirmaram que a expressão que melhor define o lugar onde moram é a expressão “um lugar com cultura e história próprias”,
em seguida foi a expressão “uma comunidade de
pessoas com afinidades sociais e culturais” e em terceiro “um lugar como outro qualquer”.
Para as artesãs, o artesanato é atualmente uma
característica de Cedro de São João. O bordado é o
símbolo da cultura do município. Essa percepção
é fortalecida quando as bordadeiras respondem que
a vocação do município é a produção do bordado.
Das 35 bordadeiras pesquisadas, apenas 10 respon-
91
deram que a produção de carne-de-sol é a vocação
do município; atividade esta que, no passado, foi
considerada importante para Cedro de São João.
Isso mostra a força que a produção do bordado representa para a população e, conseqüentemente,
para o município. A tabela e o gráfico abaixo mostram o resultado da pesquisa. A tabela mostra as
prioridades que as bordadeiras definiram para expressar o lugar onde elas moram e o gráfico mostra a opinião das bordadeiras sobre a vocação do
município.
Como foi possível observar através da pesquisa
de campo, a identidade local é expressa através do
artesanato, ou seja, o bordado é a expressão da cultura local.
Tabela 2 - Cedro de São João - Expressão que melhor define o lugar onde mora
Prioridades
Um lugar como outro qualquer
Um lugar com cultura e história próprias
Uma comunidade de pessoas com afinidades sociais e culturais
Total de Entrevistados
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
1
7
20
8
35
2
6
10
19
35
3
22
4
9
35
Gráfico 3 - Cedro de São João - Vocação do município
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
92
Sudanês Barbosa Pereira
Neto (1999) mostra que do ponto de vista antropológico a identidade é confirmada a partir de dois
elementos principais: as características presentes no
espaço territorial ocupado e o conjunto de símbolos
e signos lingüísticos, códigos e normas (moral e ética), objetos, artefatos, costumes, ritos e mitos (religião, folclore, música, culinária, vestimentas, etc)
aceitos e praticados coletivamente, capazes de distinguir um determinado grupo social dos demais. A
identidade local é a soma de um conjunto de fatores
e de elementos que conformam sua cultura e história. Ela é um conjunto de referências que possui sua
própria dinâmica e capacidade de sobrevivência local. Portanto, reconhecer essa identidade significa
valorizar o cotidiano da vida local e sua cultura como
ela se apresenta.
No entanto, no que se refere especificamente ao
apoio dos órgãos públicos (estadual e local) a cultura, foi possível descobrir que, de acordo com o ponto de vista das bordadeiras locais, mais especificamente, 42,86% (15 bordadeiras), não existe um órgão que preserve a cultura local, 48, 57% (17 bordadeiras) não sabiam informar e apenas 8,57% (3 bordadeiras) afirmaram existir um órgão que preserve a
cultura local. Outro fato importante que
complementa esta informação é a de que, para as
artesãs locais, também não existe mecanismos de
apoio estadual ou municipal para o artesanato local,
e, portanto, para a cultura. Durante as conversas informais, as bordadeiras identificam a Secretaria
Municipal de Ação Social como sendo o único órgão
que possui ações nessa área. Isto porque, é a secretaria municipal que viabiliza os cursos que as capacitam, ou seja, para elas essa ação é a única que estaria
ligada à preservação da cultura local.
Diante dessas constatações, atenção especial deve
ser dada aos processos de produção locais no sentido
de identificar possíveis potencialidades, valorizando e
reforçando suas tradições culturais e elaborando estratégias mais adequadas de desenvolvimento local.
3
2.2. O CAPITAL SOCIAL EM CEDRO DE SÃO JOÃO
Os processos de desenvolvimento endógeno apresentam componentes ou instrumentos de funcionamento internos que, na maioria das vezes, não são detectados por instrumentos tradicionais de medição e pesquisa. São os componentes “invisíveis”, eles estão relacionados com o tecido social e afetam silenciosamente
as possibilidades de crescimento e desenvolvimento
local. Um desses componentes “invisíveis” é o capital
social. Nos países desenvolvidos o capital social começa influenciar nas políticas, nos projetos de desenvolvimento e as instituições de cooperação internacional estão incluindo os progressos em capital social nos critérios de aferição no grau de êxito dos projetos.
O capital social se refere aos recursos sociais em
uma comunidade. Esses recursos sociais incluem,
entre outros fatores, uma identidade comum, familiaridade, confiança, comportamento cooperativo. De
acordo com Baquero (2003), obrigações, confiança,
fluxo de informações, cultura, normas, redes, entre
outros, constituem indicadores parciais sobre o que
é capital social e onde reside. Para o autor, essas dimensões do capital social têm importância fundamental na formação da vida econômica e social.
Em Cedro de São João o capital social se faz presente através das relações de cooperação, confiança,
identidade e das redes de relacionamentos sociais,
que permeiam o universo das bordadeiras locais.
A cooperação entre os seres vivos é uma prática comum. Entender como ela ocorre, no entanto, tem sido
um desafio para especialistas em diversas áreas do conhecimento (antropologia, biologia, economia, matemática, sociologia)3. Em economia e geografia econômica,
as abordagens sobre aglomerações produtivas (arranjos
produtivos locais, clusters, distritos industriais, parques
tecnológicos, sistemas produtivos locais, entre outros)
tratam do tema cooperação como um elemento que integra e fortalece o sistema produtivo.
Ver o artigo “A Cooperação traz a Evolução” na Revista Galileu, Edição 159, outubro de 2004.
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
A cooperação em Cedro de São João ocorre entre
as bordadeiras locais e as bordadeiras dos municípios vizinhos da região, familiares e amigos, e instituições não governamentais. Foi verificado através da
aplicação do questionário, que a cooperação ou participação de bordadeiras de outros municípios vai
além das fronteiras do Baixo São Francisco. Dezesseis
municípios sergipanos foram citados (Amparo do São
Francisco, Aquidabã, Canhoba - Povoado Caraíbas -,
Gararu, Gracho Cardoso, Itabi, Japoatã, Malhada dos
Bois, Muribeca, Neópolis, Nossa Senhora de Lurdes,
Porto da Folha, Propriá, São Francisco, Telha, Tobias
Barreto) e dois municípios alagoanos (Colégio e
Traipú).
Essa rede de bordadeiras pode ser explicada pela
proximidade geográfica que capacita a interação física face-a-face, a reciprocidade, a confiança, mais
também pelo fato de que o entorno é embebido por
um contexto econômico, social e cultural de forte
expressão. Ela é a representação da interação social
entre os atores (as bordadeiras) e os agentes4 (os intermediários). O território, nesse sentido, favorece a
constituição dessa relação entre os atores e agentes,
os quais estão socialmente próximos.
Ainda com relação a esse comportamento
colaborativo entre as bordadeiras, sua interação e
funcionamento, é possível afirmar que não existe uma
data precisa que identifique um período onde tenha
iniciado essa prática. As bordadeiras afirmam que
essa prática existe há muito tempo, elas, no entanto,
não sabem precisar uma data específica. Durante as
conversas informais foram obtidas respostas como:
“existe isso desde anos sem fim”, “existe desde sempre” e “não faço idéia”. As respostas foram dadas
tanto por bordadeiras com idade avançada, como por
bordadeiras jovens. Um fato interessante dessa prática é que não existe nenhum sentimento de repulsa
em relação ao trabalho de artesãs que não são de
Cedro de São João. Essas atitudes positivas em relação a comportamentos colaborativos contribuem para
4
93
a composição e o fortalecimento do capital social
local e da identidade regional/local.
Outros dados importantes que reforçam a pesquisa
e foram constatados em campo são os seguintes: a) para
85,7% das bordadeiras locais (30 artesãs), essa cooperação é importante, uma vez que as bordadeiras de Cedro de São João são insuficientes para dar conta da demanda pelo trabalho; b) para as bordadeiras, essa cooperação é importante porque elas podem trocar experiências com outras bordadeiras da região; c) para a maioria das bordadeiras locais entrevistadas (30 artesãs), a
cooperação fortalece a identidade local/regional porque
ajuda a preservar cultura, 4 bordadeiras do total das
entrevistadas não responderam e 1 disse que não considera importante; d) geralmente, as bordadeiras de outros municípios são “contratadas” informalmente, através do contato direto entre o intermediário e as artesãs,
como afirmaram 32 bordadeiras entrevistadas, enquanto 3 disseram que o contato acontecia através da associação de artesãos local; e) nas conversas com os intermediários responsáveis pelas vendas, foi possível descobrir que eles têm confiança no trabalho das bordadeiras,
pois elas cumprem com as datas previstas de entrega
do material, resultando em uma relação de cooperação
conjunta permanente.
Perguntadas sobre se existe cooperação com alguma
entidade de classe (associação, cooperativa, sindicato)
as respostas foram as seguintes: 9 responderam que sim,
11 disseram que não e 15 não sabiam. Do total de 35
entrevistadas, apenas 3 disseram que participa da associação de artesãos. Essas respostas deixaram transparecer uma certa dúvida pois existe uma associação de
classe no município. Informalmente foi possível averiguar que a associação local não possui influência
sobre as bordadeiras. Apesar dessa constatação, a pesquisa mostrou que do total de artesãs entrevistadas,
cerca de 60% tinham disposição para participar de alguma associação de classe, enquanto 17,14% não estavam dispostas e cerca de 22,86% não responderam,
como é possível ver através do gráfico abaixo.
Agente é a pessoa que é encarregada de uma ação, que, nesse caso, é o responsável pelo contato com as bordadeiras
e pelas vendas das mercadorias. Ele é o intermediário que se dedica ao comércio dos produtos.
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
94
Sudanês Barbosa Pereira
Gráfico 4 - Cedro de São João - Disposição em participar de associação de classe
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
As bordadeiras que não estavam dispostas a fazer parte de uma associação, disseram que não acreditavam em atividade associativa, não tinham tempo e não queriam se associar. Durante as conversas
com as bordadeiras, informações importantes foram
manifestadas, as quais nos permitiram constatar que:
a) existe um sentimento de desconfiança entre as
bordadeiras e a associação de artesãos locais devido
ao componente político (integrantes da associação
são “conhecidos” do grupo de poder local) e as decisões que são tomadas pela associação. Segundo as
bordadeiras, qualquer atividade promovida pela associação, as beneficiadas são as pessoas que estão
mais próximas da direção da associação, e, portanto,
do grupo de poder; b) de acordo com as bordadeiras,
a associação não tem contribuído muito para a qualificação dos artesãos locais. Isso demonstra que não
existe uma relação de cooperação e confiança entre
as bordadeiras e a associação de artesãos local, ou
seja, existe uma fragilidade em um dos elos que
compõem o cluster informal de Cedro de São João;
c) a fragilidade da associação é percebida quando
91,4% das bordadeiras respondem que a relação
entre as bordadeiras do município e as de outras
localidades ocorre através do contato direto entre
os intermediários e as próprias bordadeiras. Ou seja,
a associação não ocupa o espaço de representação
de classe que de direito poderia, mais que, de fato,
não possui.
Um dos componentes importantes do capital social é a confiança. A confiança promove a cooperação, quanto mais elevado for o nível de confiança,
maior a possibilidade de haver cooperação. O que
fica patente na relação entre a associação de artesãos
e as bordadeiras é que a confiança está enfraquecida,
necessitando ser reconstruída. A reconstrução dos
laços de confiança passa pelo entendimento de que
a associação de artesãos é uma entidade que representa as bordadeiras locais, não somente um grupo
específico de artesãos, ou seja, os benefícios promovidos pela associação devem ser compartilhados por
todos; dessa forma, o elo será fortalecido.
Em se tratando da relação entre as bordadeiras e
a associação de artesãos locais, é possível fazer uma
conjectura e afirmar que o nível de cooperação entre
a associação e seu “staff” (diretoria, amigos próximos, membros que compõem a associação) é de certa forma, estabelecido. Utilizando a abordagem do
Fukuyama (2000), pode-se dizer que o “raio de confiança” e de cooperação entre os membros da associação próximos ao “staff” é eficiente, e que o “raio de
confiança” e de cooperação entre os membros da associação é maior que o “raio de confiança” entre a
associação e as bordadeiras enquanto classe.
Por outro lado, o nível de cooperação entre as
bordadeiras de Cedro de São João e as inúmeras borRevista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
dadeiras de municípios vizinhos e municípios do
Estado de Alagoas é fortemente positivo. Essa relação ou cooperação ocorre sem nenhuma hostilidade. É a necessidade de produção, ou seja, de atender
a demanda por bordados que fomenta essa relação.
Nesse sentido, o “raio de confiança” e de cooperação
entre as bordadeiras locais é maior que o próprio grupo, apresentando uma extensão que vai além do
município de Cedro de São João. As externalidades
positivas, nesse caso, podem ocorrer de várias formas: reforço da cultura e identidade local/regional,
fortalecimento da comunidade e do capital social
local, coesão e eficiência coletiva.
Como foi visto no capítulo teórico, o capital social e as dimensões que o compõem, fortalece os recursos locais, as potencialidades de desenvolvimento e a coesão social. É o nível de coesão social que
envolve o “raio de confiança” e cooperação entre as
bordadeiras. Em Cedro de São João, a coesão social é
um forte componente do capital social, uma vez que
todos esses elementos estão presentes localmente e
na região. A produção do artesanato local não deixa
95
de ser uma atividade de inclusão social através do
trabalho. A inclusão pelo trabalho conjuga objetivos
econômicos e sociais, contribuindo para a renda e o
bem-estar social.
Foi perguntado às bordadeiras se existe cooperação com alguma entidade ou instituição empresarial
como Sebrae, CDL, ou FIES. De acordo com os dados levantados, 31,43% das entrevistadas disseram
que existe cooperação com entidade empresarial,
20% disseram que não existe e 48,57% afirmaram
não saber da existência. Para as bordadeiras que afirmaram existir cooperação nessa área, a instituição
mencionada foi o SEBRAE (Serviço Brasileiro de
Apoio às Micro e Pequenas Empresas), isto porque,
é o Sebrae que sempre está presente no município
colaborando com informações e qualificação para
as bordadeiras. Isso é importante uma vez que o
Sebrae é um dos grandes disseminadores de formas de cooperação e associativismo entre os pequenos negócios, como uma forma enfrentar os desafios
do mercado. O gráfico abaixo mostra o resultado da
pesquisa.
Gráfico 5 - Cedro de São João - Existência de cooperação com entidades empresarias
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
96
Sudanês Barbosa Pereira
Mesmo com o desconhecimento por grande parte das bordadeiras sobre a atuação da instituição no
município, as bordadeiras demonstram não somente confiança, mas a certeza de que a presença do
Sebrae em qualquer nível de cooperação estimula a
participação das mesmas.
O capital social em Cedro de São João deve ser
valorizado em todas as suas dimensões locais. A tradição e a cultura local devem ser reconhecidas, as
conexões com a cultura da região precisam ser
fortalecidas sob pena de causar perdas consideráveis
para a sociedade. A valorização do espaço local enquanto espaço de produção, de afirmação da identidade regional e de inclusão, é de fundamental importância. O capital social precisa ser visto como uma
contribuição e um recurso para o processo de desenvolvimento local.
2.3. O CAPITAL HUMANO EM CEDRO DE SÃO JOÃO
A procura pela compreensão de trajetórias de crescimento e desenvolvimento econômico e social em
regiões e localidades diversas, tem revelado que o
conhecimento (tácito ou codificado) e as diferentes
formas de capital (social, humano, estrutural), são
recursos que podem desencadear processos de desenvolvimento local. A capacidade de produzir e
utilizar esses recursos é o que tem diferenciado regiões e localidades que estão transformando e construindo trajetórias de desenvolvimento dinâmicas.
Um dos principais componentes do debate atual sobre desenvolvimento econômico e social é a educação, que implica em abordar o capital humano como
um dos elementos chave desse processo. Se não há
investimento em capital humano, não há possibilidades de desenvolvimento com inclusão social.
No que se refere ao perfil do capital humano
pesquisado em Cedro de São João, pode-se dizer que ele
possui algumas particularidades. O nível de instrução
das bordadeiras locais é extremamente baixo. Das trinta
e cinco bordadeiras entrevistadas, apenas quatro (ou 11,43
%) possuía o 2o grau completo e três (ou 8,57%) o 1o grau
completo. O perfil da pesquisa revela que a maioria das
bordadeiras, ou seja, vinte e quatro (68,57%) possui apenas o 1o grau incompleto. O gráfico abaixo mostra o perfil
educacional das bordadeiras pesquisadas.
Gráfico 6 – Cedro de São João -Grau de instrução das Bordadeiras
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
Considerando o desenvolvimento como um processo que envolve variáveis culturais, educacionais,
econômicas e sociais, a melhoria do nível de instrução
das bordadeiras e, portanto, da população menos
favorecida do município, deve resultar em um processo de inclusão social de cidadãos mais qualificados e
competitivos. Analistas reconhecem que a educação
desenvolve capacidades que resultam em aumento de
produtividade do trabalhador. Tendo em vista a experiência e as habilidades no trabalho artesanal que as
bordadeiras possuem, a educação para o trabalho deve
proporcionar às mesmas uma maior produtividade.
Apesar do baixo nível de instrução das bordadeiras, a prática diária do trabalho permite às bordadeiras serem possuidoras de processos informais de
educação, isto porque, a maioria das bordadeiras locais aprende e ensina a bordar, da mesma forma que
97
aprenderam, ou seja, pela prática e observação. Esses processos acontecem por meio da interação, pela
prática que a arte de bordar requer. De acordo com o
levantamento da pesquisa, 51,43% das bordadeiras
aprenderam a bordar com a ajuda de parentes, 20%
através da observação, e o restante por meio de vizinhos ou mesmo sozinhas. O gráfico abaixo mostra
os resultados.
A pesquisa revelou que o processo de aprendizagem é transmitido, na maioria das vezes, através dos
familiares (avós, mãe, tia, primos, irmãs). Ou seja, o
conhecimento é transmitido entre as gerações. As
artesãs mais idosas orientam e ensinam à nova geração os métodos e técnicas do bordado. Assim, nesse
processo de educação informal que é transmitido pela
interação, através da prática e da experiência, se produz conhecimento.
Gráfico 7 – Cedro de São João - Origem da aprendizagem das bordadeiras (como aprendeu a bordar)
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
98
Sudanês Barbosa Pereira
A continuidade da transmissão do conhecimento entre as bordadeiras de Cedro de São João permanece com as artesãs mais jovens. Das trinta e cinco
bordadeiras entrevistadas, vinte e seis disseram que
ensinam outras pessoas a bordar enquanto nove afirmaram não ensinar. Ou seja, a tradição das bordadeiras de passar o conhecimento tácito que possuem e dar continuidade a essa cultura, é uma expressão de sua afirmação enquanto classe, enquanto artesãs bordadeiras, como também fortalece a comunidade e a identidade local. O gráfico abaixo
mostra a continuidade do compartilhamento de conhecimento enquanto prática de educação informal e
cooperação.
Outras informações foram possíveis de serem obtidas. As bordadeiras dedicam à semana a confecção
dos bordados. Elas trabalham de domingo a domingo e consideram os afazeres domésticos como a segunda atividade que faz parte do cotidiano. Do universo de trinta e cinco bordadeiras pesquisadas, 30
revelaram nunca ter participado de um treinamento,
apenas cinco haviam participado. Das trinta
bordadeiras, vinte e oito gostariam de participar de
um treinamento.
Perguntadas sobre quanto tempo seria disponibilizado para o treinamento, as respostas foram as seguintes: 11 estavam dispostas a dedicar 2 horas ao
treinamento, 7 disseram dispor de 4 horas e o restante entre 1 e 3 horas, 5 não responderam e 3 disseram não ter tempo. Todas, no entanto, afirmaram que
o treinamento é importante.
Em todas as residências onde foi feita a pesquisa,
pelo menos uma pessoa da família trabalha com artesanato (borda). Treze artesãs responderam que uma pessoa da família bordava, nove disseram que duas pessoas
da família se dedicavam ao bordado, seis informaram
que mais de três pessoas da família estavam envolvidas
com o artesanato, quatro responderam que mais de três
pessoas na família bordavam e três bordadeiras revelaram que toda a família estava envolvida com o artesanato. De fato, a arte de bordar envolve adultos, idosos, jovens e crianças. Os homens também ajudam as mulheres a bordar e a engomar as peças.
Gráfico 8 – Cedro de São João - A quem você ensina a arte de bordar
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
No que diz respeito especificamente às bordadeiras, aos intermediários e a produção e venda, foi possível verificar que as bordadeiras são pagas de acordo com a quantidade de peças produzidas, elas não
possuem um salário fixo. As bordadeiras entrevistadas recebem mensalmente um pagamento pelo serviço prestado que está entre R$ 30,00, o menor valor, e R$ 600,00, o maior valor. Segundo as bordadeiras, os valores que elas recebem por peça bordada
são: peça pequena (entre R$ 0,30 e R$ 0,75), peça
grande (entre R$ 6,00 e R$ 7,00), peças de metro (R$
5,00). Para engomar ou passar ferro em uma peça o
valor é de R$ 0,30. Para lavar5 o valor é de R$ 10,00 o
dia. A renda familiar das bordadeiras está entre R$
100,00 e R$ 600,00. O gráfico abaixo revela os valores que as bordadeiras locais recebem pelo serviço.
O trabalho proveniente do bordado assume uma
contribuição importante na renda das famílias, ele é
o responsável por parte das demandas da casa. As
tarefas são realizadas ao longo do dia, entre outras
tarefas domésticas. Essa atividade tem grande importância para a socialização das mulheres na co-
99
munidade, ele permite que relações sociais externas
à comunidade sejam estabelecidas, pois às vezes é a
própria artesã que é a responsável pela venda dos
produtos. Quando é a própria artesã que vende os
produtos, sua quantidade monetária auferida é maior do que as outras que só bordam.
As bordadeiras têm conhecimento das desvantagens econômicas a que estão sujeitas, pois os preços
pagos pelas peças bordadas são baixos, fazendo com
que elas afirmem que o “trabalho com o bordado não
compensa financeiramente, eu bordo porque gosto”.
A renda gerada com o trabalho é destinada a bens
como: roupas, remédios, alimentação, entre outros.
Quando falam do rendimento são tímidas: “Só dá para
comprar essas coisinhas”. No depoimento de uma
bordadeira, foi possível saber que era importante o
marido não ter conhecimento de quanto ela recebia
com o trabalho, pois a revelação do valor poderia
causar um desconforto no lar, porque o marido poderia cobrar uma participação maior nas despesas
da casa, e assim ela não teria uma liberdade maior
de usufruir o seu rendimento.
Gráfico 9- Cedro de São João - Valores recebidos pelas bordadeiras (mensal em R$)
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
5
Este serviço, por ser considerado pesado, é realizado pelos homens.
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
100
Sudanês Barbosa Pereira
Essas constatações mostram que o trabalho informal realizado pelas bordadeiras de Cedro de São
João é uma atividade que não possui a capacidade
de gerar renda para satisfazer as necessidades básicas das famílias. Sob o ponto de vista do trabalho,
esse problema se deve, sobretudo, pela precariedade em que ele é realizado: baixo nível de qualificação técnica e educacional, ausência de uma instituição de classe que fortaleça as bordadeiras enquanto
categoria, inexistência de uma remuneração básica
que permita as mesmas a reprodução da sua sobrevivência.
Quanto aos intermediários foi possível verificar
que os mesmos obtêm um retorno financeiro que
permite uma qualidade de vida melhor do que as
bordadeiras. O faturamento mensal dos intermediários está entre R$ 700,00 e R$ 800,00, os menores
valores, e R$ 3.000,00 e R$ 5.000,00, os maiores valores. Existe o comprometimento de entregar os produtos na data prevista, que é respeitado. Os intermediários são abertos a sugestões dos clientes quanto a mudanças dos desenhos, cores e formatos das
peças. Os produtos são entregues, de forma geral,
quinzenalmente e mensalmente. Outros são entregues a cada dois ou três meses. Para nove dos dezoito intermediários entrevistados, as informações sobre qualquer novidade na área de artesanato são ad-
quiridas através de revistas especializadas, para seis
dos entrevistados as feiras possibilitam a oportunidade de conhecer novos produtos e adquirir informações sobre o setor de artesanato, o restante afirmou ter conhecimento através de clientes e fornecedores. Os intermediários afirmaram que as informações sobre as novidades do artesanato são compartilhadas com as bordadeiras.
Outros destaques merecem ser mencionados além
desses. Existe uma concentração de pessoas que atuam somente vendendo a produção, mais existem também algumas bordadeiras que bordam e “contratam”
bordadeiras para bordar e depois vende a produção,
elas possuem uma dupla função. São pessoas que
estão envolvidas com a venda do artesanato há muito tempo, duas delas tinham quase vinte anos que
atuavam nessa área. Essa grande concentração de
vendedores no município mostra que muitos conseguem obter apenas um retorno que propicia somente a reprodução da sua subsistência e uma vida modesta para a família. A outra parcela de intermediários consegue atingir resultados melhores com as
vendas, acumulando capital e possibilitando dessa
forma, o bem-estar da família e a continuidade das
suas atividades. O gráfico abaixo mostra o
faturamento médio mensal obtido pelos intermediários pesquisados.
Gráfico 10 – Cedro de São João - Faturamento médio das vendas (intermediários)
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
das (técnicas e processos) ou qualquer instrumento ou prática relacionada à gestão das vendas. O pequeno negócio é um empreendimento pessoal, e por
extensão, da família, uma vez que os recursos empregados para a realização do ‘negócio da venda’ (dinheiro, pessoas, materiais, veículo, entre outros) fazem parte do ‘patrimônio’ da família.
Os intermediários são os responsáveis pelas compras das matérias-primas utilizadas na confecção das
peças (linha, renda, tecido). As compras são feitas
na Loja Confiança nos municípios de Propriá e
Aracaju, em Tobias Barreto e no próprio município
de Cedro de São João. Como estratégia de compra
eles utilizam a prática de comprar sempre observando o menor preço/à vista ou o menor preço/maior
prazo para o pagamento. No que se refere às vendas
dos produtos propriamente dita, eles declararam que
o principal problema é o referente à impossibilidade
de participar de feiras e exposições (dos 18 entrevistados, nove elegeram este o principal problema), em
seguida foi a ausência de um programa local de apoio
às vendas (dos 18 entrevistados, onze elegeram este
101
segundo problema) e em terceiro as reclamações sobre a qualidade dos produtos (dos 18 entrevistados,
dez elegeram este o último problema). A tabela abaixo mostra os resultados da pesquisa.
A preocupação com a participação em feiras e
eventos se deve ao fato de que os intermediários consideram a participação em feiras um fator importante para o reconhecimento do artesanato local, como
também um instrumento que serve para alavancar
as vendas e conhecer novos clientes. Para os mesmos, seria importante que houvesse políticas locais
para a competitividade dos produtos artesanais. A
tabela seguinte mostra as prioridades dessas políticas de acordo com o ponto de vista dos intermediários. Como pode ser visto, a prioridade principal seria justamente a promoção de feiras, em seguida a
capacitação e treinamento das bordadeiras e por último, linha de crédito. O crédito não se revelou uma
preocupação para os intermediários, dos dezoito entrevistados, apenas três haviam solicitado empréstimo antes, talvez seja essa a razão de aparecer como
terceira prioridade. (ver tabela abaixo).
Tabela 3 - Cedro de São João – Problemas que enfrenta para vender os produtos
Prioridade
Impossibilidade de participar de feiras/exposições
Ausência de programa local de vendas
Reclamações sobre a qualidade dos produtos
Total de Entrevistados
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
1
9
6
3
18
2
4
11
3
18
3
6
2
10
18
Tabela 4 - Cedro de São João - Políticas públicas que poderiam contribuir para a competitividade dos produtos
Prioridade
Programas de capacitação e treinamento
Ações locais para o desenvolvimento de: feiras, centrais de compras, consultoria, design, etc.
Linhas de crédito
Total de Entrevistados
Fonte: Pesquisa de campo da autora, 2004.
1
4
9
5
18
2
10
3
5
18
3
6
3
9
18
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
102
Sudanês Barbosa Pereira
As prioridades mencionadas pelos intermediários referentes a esses problemas indicam que políticas públicas devem ser priorizadas para o desenvolvimento de ações que valorizem o artesanato local.
São necessárias também, ações que possam beneficiar as pessoas que estão envolvidas com a venda do
artesanato, de forma que os capacite a atuar de forma mais competitiva no segmento artesanal, melhorando assim sua inserção no mercado regional e nacional. Uma ação pública local ou/e estadual para o
setor artesanal favorecerá o desenvolvimento do artesanato enquanto uma atividade geradora de emprego e renda e não como uma atividade meramente
de subsistência como é atualmente.
Quanto a produção e a venda dos produtos podese dizer que o artesanato de Cedro de São João é produzido e comercializado informalmente, não existe
uma estratégia de inserção do artesanato na economia local, permitindo que a atividade seja competitiva sob o ponto de vista produtivo e comercial. Cabe
destacar que o município de Cedro de São João é
responsável pela produção do bordado e ao mesmo tempo é responsável por grande parte do ‘acabamento’6 das
peças que são bordadas em outros municípios.
A produção do bordado em Cedro de São João é
realizada de forma simples, através do trabalho manual. São produzidas diversas peças: caminho de
mesa, colcha, passadeira, toalha, porta-papel, portaágua, entre outras. As peças são produzidas de acordo com a quantidade solicitada pelo cliente. Os clientes podem solicitar modificações nos bordados
como desenhos, cores, tamanhos e modelos. Existe
controle de qualidade nas peças que são bordadas.
Para doze, dos dezoito intermediários entrevistados,
o controle é realizado em todo o processo de produção (enquanto a peça é bordada, na lavagem,
engomagem e na fase final ao passar o ferro) enquanto
6
seis afirmaram que o controle acontece somente nos
produtos acabados.
Os produtos têm como destino as feiras de municípios do interior de Sergipe (Aquidabã, Canhoba e
Propriá), a feira de artesanato de Aracaju, alguns Estados do país e para o exterior. Os Estados identificados como compradores do artesanato são: Alagoas
(Maceió – Pontal da Barra), Bahia (Paulo Afonso e
Salvador), Ceará (Fortaleza), Distrito Federal
(Brasília), Minas Gerais (Belo Horizonte), Paraíba
(João Pessoa – Mercado de Artesanato), Paraná, Pernambuco (em Recife – Casa da Cultura e Feira da
Praia de Boa Viagem – e no município de Caruaru),
Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul (Porto Alegre) e São Paulo. Para o exterior, os produtos são vendidos na Argentina (há cinco anos uma artesã participa da feira de artesanato local vendendo as peças –
renda de bilro) e para Bélgica (pelo intermédio do
padre da Paróquia do município de Propriá). As peças que são vendidas para outros Estados são bordadas com o nome do Estado de destino: “Lembrança
de Recife”, “Lembrança de Alagoas” entre outros.
Além dessas informações, outras importantes
merecem ser abordadas. Em depoimento, uma das
intermediárias revelou que, às vezes, bordadeiras de
municípios vizinhos viajam e oferecem a mão-deobra para trabalhar bordando para Cedro de São João.
Isso mostra a força de atração que o município exerce em relação aos outros da região. Apesar da produção do artesanato ser importante, não existe um posto ou centro de venda dos produtos para serem vendidos aos visitantes que chegam à cidade. A ausência de um espaço de exposição e venda dos produtos
revela a falta de planejamento e estratégia local de
uma política de inserção do setor artesanal enquanto um setor econômico. A integração do espaço de
produção ao espaço de comercialização, contribui
Acabamento é o processo de finalização da peça, que envolve dar o ponto final com crochê, cortar as pontas das
linhas, lavar, engomar e passar.
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
para o desenvolvimento do artesanato, da cultura e
da identidade local, promovendo o desenvolvimento econômico e social do município.
Outro problema identificado na pesquisa e motivo de preocupação das bordadeiras e intermediários
é a ausência de uma marca que identifique o artesanato local. As bordadeiras comentam que os bordados são feitos no município, vendidos em diversos
lugares, mas não são reconhecidos como um produto típico local7. A identificação das peças através de
etiquetas com uma logomarca, ou um certificado de
origem, poderia valorizar a cultura e a identidade
local que a peça contém.
Sob o ponto de vista mercadológico, é importante que se desenvolva um trabalho de capacitação com os intermediários, focando a qualidade
dos produtos, o preço, o mercado, a apresentação
do produto, a embalagem, a associação de cores e
o estímulo visual do produto. Ações desenvolvidas nesse sentido podem de certa forma,
incrementar as vendas, desenvolver o artesanato,
agregar valor aos produtos e torná-lo visível em
um momento em que o artesanato mostra sinais
de vitalidade em um mundo globalizado8. Por fim,
7
1
103
a pesquisa mostrou também que existem dois tipos de redes associadas à atividade artesanal de
Cedro de São João: a) a rede que envolve e articula
as bordadeiras locais e as que bordam para o município mas não pertencem a Cedro de São João.
Essa rede é a representação social das interações
entre os atores sociais. Ela possui a sua própria
dinâmica, isto é, independente das ações dos agente-intermediários, existe um movimento próprio
de artesãs que se deslocam dos seus municípios
de origem até Cedro de São João, para dispor as
suas habilidades enquanto bordadeiras, e b) a rede
que representa as ações dos intermediários em função da venda dos produtos. Essa rede possui articulações local-regional, estadual-nacional e internacional. As articulações aqui, refletem em uma
escala simples, um movimento local-global.
As duas redes se completam e se sustentam. O
território, compreendendo não somente a sua base
natural geográfica, ou seja, sua realidade física, mais
também as suas relações sociais e econômicas que
sustentam a sociedade e representam a maneira como
os atores se organizam, não criou essas redes, ele favoreceu a constituição das relações entre os atores,
os quais estão socialmente próximos.
Sob o ponto de vista das bordadeiras dos municípios vizinhos, o problema é que as peças bordadas por elas são
reconhecidas como de Cedro de São João. Em um artigo para a ISTOÉ de 25/08/2004, a socióloga Rebecca Raposo
escreve sobre o comércio justo e menciona que a Associação Mundaréu, de São Paulo, promove a capacitação de
artesãos de 14 estados do Brasil, e o desenvolvimento de produtos artesanais. O objetivo é ampliar o acesso de
pequenos produtores ao mercado, com remuneração correta, condições de trabalho favorável e o uso sustentável dos
recursos naturais. O jornal O Estado de São Paulo de 10/08/2003, no caderno Guia de Micro Empresas, p.10, trás
uma matéria com o título “Redes de Varejo Descobrem Pequenos Artesãos”. A matéria fala que o artesão brasileiro
começa a conquistar novos espaços para a venda de seus produtos. Redes como o Pão de Açúcar, a Tok & Stok e a
Casa & Construção estão abrindo espaço em suas lojas para os pequenos artesãos.
Reportagem do Financial Times de 26 de maio de 2004, com o título “Craftworks starts to carve out a niche market”
– “Trabalho manual começa cavar um nicho de mercado”. A matéria menciona que atacadistas ingleses estão
favorecendo produtos feitos à mão provenientes de países pobres em desenvolvimento. Fala sobre uma dona de loja
da Califórnia que importa produtos feitos à mão, de sete países, entre eles a Guatemala e a África. A matéria
mostra que existe uma ONG que educa artesãos de países em desenvolvimento e faz a ligação deles com os donos de
lojas em países desenvolvidos. Home page do jornal: www.ft.com.
Em um artigo para a ISTOÉ de 25/08/2004, a socióloga Rebecca Raposo escreve sobre o comércio justo e menciona
que a Associação Mundaréu, de São Paulo, promove a capacitação de artesãos de 14 estados do Brasil, e o
desenvolvimento de produtos artesanais. O objetivo é ampliar o acesso de pequenos produtores ao mercado, com
remuneração correta, condições de trabalho favorável e o uso sustentável dos recursos naturais.
O jornal O Estado de São Paulo de 10/08/2003, no caderno Guia de Micro Empresas, p.10, trás uma matéria com o
título “Redes de Varejo Descobrem Pequenos Artesãos”. A matéria fala que o artesão brasileiro começa a conquistar
novos espaços para a venda de seus produtos. Redes como o Pão de Açúcar, a Tok & Stok e a Casa & Construção
estão abrindo espaço em suas lojas para os pequenos artesãos.
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
104
Sudanês Barbosa Pereira
Considerando, em sua simplicidade, a dinâmica
que as relações sociais assumem em Cedro de São
João, a proximidade geográfica dos municípios
viabiliza a criação de uma ‘comunidade’ de atores
sociais e econômicos baseada em valores e costumes
locais que permite uma continuidade de relacionamentos pessoais baseados em confiança e reciprocidade. Os nós locais (municípios vizinhos - bordadeiras) dão suporte à intermediação dos nós que
acontece em Cedro de São João, o município então,
dá origem a outros fluxos que são as ligações local/
nacional e local/global, gerando externalidades.
Nesse sentido, o local deve ser explicado por meio
de instrumentos que permitam capturar as relações
sociais, culturais e econômicas, ou seja, as conexões
tangíveis (movimentos que produzem bens materiais – artesanato - ou fluxo de produção e venda) e
intangíveis (conhecimento tácito, aprendizagem, capital social, entre outros) contidas no território, que
conferem especificidade ao local. Sob esse ponto de
vista, o local pode ser representado por meio dos nós
e das relações que efetivamente existem. Sua representação pode ser uma rede onde cada nó representa
um contexto local, que por sua vez contém uma rede
de atores, que devido às suas relações, se configura
em um campo de externalidades que adquire vantagem competitiva. Esse contexto favorece uma
ambiência necessária para a construção de um processo de desenvolvimento endógeno onde os recursos (materiais e imateriais) e os processos locais sejam utilizados de forma competitiva.
A metodologia desenvolvida para a aplicação do
questionário com as pessoas envolvidas com a atividade artesanal local, permitiu ter uma visão mais
detalhada do funcionamento do cluster. Estas informações, juntamente à luz da problemática dos
clusters, possibilitaram reunir questões relacionadas
ao capital social, ao capital humano, aos aspectos
socioculturais, à presença de vínculo de cooperação,
das relações que são estabelecidas entre os agentes e
as bordadeiras, como os agentes tomam decisões de
compra de insumos e investimento, e outras informações relevantes da atividade produtiva local.
O cluster informal de Cedro de São João apresenta uma estrutura ainda frágil e incipiente, porém com
possibilidades de crescimento e desenvolvimento.
Seu crescimento depende de uma articulação local
entre a comunidade envolvida com a produção dos
bordados e os poderes locais (instituições representativas de classe e órgãos públicos). É importante que
se estimule os vínculos locais e regionais de produção e colaboração da atividade principal do cluster.
O objetivo é que às economias externas, próprias da
concentração geográfica, adicionem-se ações cooperativas que permitam explorar as vantagens da ‘eficiência coletiva’ local. As carências locais reveladas
na pesquisa de campo, como a ausência de apoio à
produção, comercialização e divulgação da produção do município, mostram-se entre as dificuldades
mais evidentes. Avanços em relação a esses problemas poderiam ser desenvolvidos mediante a criação,
na forma de parceria pública-privada, de um centro
de serviços/vendas/comercialização. A organização
e o funcionamento de uma estrutura desse porte,
poderiam contemplar ações como compras de
insumos e suporte à comercialização, formação e treinamento de pessoal (capital humano), entre outras
pertinentes à atividade. Estas ações podem não preencher as necessidades totais de promoção do cluster,
mais poderiam alavancar a atividade local.
A tentativa de fortalecer o cluster informal do
município de Cedro de São João, é, de uma forma
mais ampla, contemplar como objetivo mais elevado
o desenvolvimento local/regonal. Toda e qualquer
medida que seja direcionada para esse objetivo, deve
privilegiar a criação de oportunidade de trabalho e
da melhoria da qualidade de vida, sob o signo da
inclusão social.
3. Conclusão
O propósito da pesquisa foi analisar a experiência de uma aglomeração produtiva local, em um contexto fora do eixo das economias industriais. A pesquisa espera contribuir para um melhor entendimento sobre os clusters, em especial os clusters informais,
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
e os processos locais de desenvolvimento, especialmente em países de desenvolvimento tardio, uma vez
que os estudos sobre clusters são geralmente associados às atividades industriais, mesmo os poucos estudos que tratam de “clusters informais”, referem-se
a atividades de pequenas empresas que estão atuando em setores industriais. Assim, uma das linhas que
nortearam a pesquisa foi tentar compreender os
clusters informais que possuem atividades produtivas fora do setor industrial, e a outra aprofundar os
conhecimentos sobre os processos de desenvolvimento local. Dessa forma, considerando a fundamentação teórica utilizada e a realidade da atividade produtiva pesquisada no município de Cedro de São
João, serão apresentados aqui os principais pontos
referentes aos questionamentos levantados, por meio
das considerações a seguir.
Com base nas reflexões teóricas e na experiência
local pesquisada, pode-se afirmar que: a) a concentração produtiva em Cedro de São João pode ser entendida como um cluster informal, com capacidade
produtiva informal, não inserida no setor industrial.
A sua sobrevivência é sustentada por relações sociais e econômicas de forma relativamente precárias,
b) o cluster informal de Cedro de São João apresenta
uma identidade sociocultural forte. Essa identidade
pode ser responsável pelo estabelecimento de relações de confiança e de cooperação, principalmente
entre as bordadeiras (locais e de municípios vizinhos). A cooperação está associada a demonstrações
de cordialidade e aceitação do trabalho de bordadeiras externas à comunidade, c) o cluster pesquisado é
um “lugar de produção” onde o processo de cooperação transborda pela sua vizinhança. Esse transbordamento é possível devido ao vasto estoque de mãode-obra (local e regional) versada nas funções e processos associada ao principal produto da comunidade (bordado), e d) a sua sobrevivência tem se constituído mais pela cooperação do que pela concorrência. Essa sobrevivência é mantida, em grande medida, devido a sua produção contínua de bordados que
exerce uma força de atração para os outros municípios. Embora possa encontrar na região diversos
municípios onde a produção de bordados está pre-
105
sente, é em Cedro de São João que a produção se
revela como uma das principais fontes de renda,
mesmo que irrisória, mas contínua, para as famílias
da comunidade.
O cluster informal de Cedro de São João possui
características distintas dos clusters encontrados em
regiões mais desenvolvidas, inclusive no Brasil. Ele
não é constituído de empresas, sua constituição é de
trabalhadores informais e pequenos agentes/intermediários que são responsáveis por qualquer problema
referente à produção, matéria-prima, ou quaisquer
outros aspectos da produção e comercialização dos
produtos. A sua sustentabilidade, sob o ponto de vista
da produção e comercialização, tem sido garantida
por fatores como, cooperação, convergência de interesses (das bordadeiras em produzir e garantir renda
– mesmo que insuficiente para as suas necessidades
básicas, e dos intermediários em manter a produção
que lhe garante a continuidade dos retornos financeiros investidos no negócio da comercialização dos
bordados) e a confiança da manutenção dessa relação.
Os processos locais de desenvolvimento se caracterizam pelas formas com que a aglomeração evolui.
Em Cedro de São João, eles se apresentam de forma
independente, aberta e estão enraizados no território; pois acontecem de forma espontânea, baseada
nas relações entre os indivíduos. Foi possível observar que o cluster de Cedro de São João possui um
forte estoque de capital social, mas sem ação coletiva. São valores e comportamentos, códigos não-escritos que permeiam as relações locais e possibilitam a cooperação que existe no cluster. Esses valores
e comportamentos pertencem à comunidade e formam o seu capital social.
Um dos elementos importantes da comunidade,
tanto no que se refere às bordadeiras quanto aos intermediários, é que o princípio orientador das relações é baseado na confiança. Em uma comunidade
baseada em princípios de cooperação e confiança, as
pessoas trocam informações, idéias, conhecimento
de processos, e outras formas de colaboração, de forRevista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
106
Sudanês Barbosa Pereira
ma mais espontânea e aberta. Só é possível construir cooperação com base em um processo de confiança mútua, nesse sentido, Cedro de São João possui uma história de comportamento colaborativo, especialmente com as bordadeiras da região, que é favorável ao fortalecimento do capital social. Esse comportamento colaborativo contribui para a construção de uma rede de contatos entre bordadeiras e intermediários, que é marcada pelas relações informais,
tácitas e espontâneas.
No que se refere ao capital humano, a pesquisa
revelou que a mão-de-obra é pouco qualificada e mal
remunerada, o que não nos surpreendeu. A maioria
das famílias envolvidas com a produção dos bordados é muito pobre, a recompensa proveniente do trabalho com o bordado complementa o rendimento da
família. A maior parte das bordadeiras recebem pelo
trabalho uma quantia monetária entre trinta reais (R$
30,00) e sessenta reais (R$ 60,00).
A atividade artesanal em Cedro de São João por
si mesma não possui capacidade de gerar renda para
satisfazer as necessidades básicas das bordadeiras
e suas famílias, elas subsistem em condições de pobreza. Em meio a esse problema social e econômico, outra face do capital humano é revelada através
dos recursos intangíveis presentes em Cedro de São
João. A tradição produtiva local é preservada e transmitida de geração a geração, entre as famílias. Ao
ensinar a arte de bordar, as bordadeiras preservam
o seu ofício, ensinam uma ocupação e valorizam o
patrimônio cultural. Os saberes práticos das bordadeiras são transmitidos e compartilhados informalmente, em um processo de aprendizagem face-aface.
A teoria do desenvolvimento local enfatiza a importância dos recursos tangíveis e intangíveis como
fonte de vantagens locacionais. Nessa ótica, o caráter
subjetivo do desenvolvimento se manifesta nos processos locais que podem proporcionar diferencial competitivo para regiões e cidades, podendo ser determinantes para o desenvolvimento local. Em se tratando
do caso estudado, o conhecimento tácito localmente
distribuído em Cedro de São João e na própria região
do Baixo São Francisco, se converte em fonte crucial
de capacidade produtiva localizada. De acordo com
Sengenberger e Pike (2002), uma das características
de qualquer aglomeração produtiva é a presença de
um pool de mão-de-obra local versada nas funções e
processos associados ao principal produto da comunidade. Em Cedro de São João essa vantagem é concreta, daí a importância da capacitação e qualificação
contínua do capital humano local.
A importância do cluster informal de Cedro de São
João para o município e a região é fundamental. Dadas
as limitações de recursos que caracterizam as economias deprimidas em regiões pobres, à mobilização dos recursos tangíveis e intangíveis (ou imateriais) locais e
regionais, para o desenvolvimento, deverá envolver o
maior número de agentes possível. A atividade principal do cluster informal de Cedro de São João é, por coincidência, uma atividade que caracteriza a região, que é
a produção de bordados. A capacidade produtiva local,
que se converte em capacidade produtiva e coletiva regional, deve ser potencializada e privilegiada no sentido de se planejar o desenvolvimento regonal/local
priorizando as vantagens de proximidade, de intercâmbio de experiências e informações, fortalecendo o desenvolvimento e superando os problemas de forma coletiva, em função da região e do local.
Revista da Fapese, v. 2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
O Cluster Informal de Cedro de São João
107
Referência Bibliográfica
ATLAS DO DESENVOLVIMENTO HUMANO NO
BRASIL (IDH-2000). Versão 1.0.0, 2003, Pnud.
ponível em: http://www.cpdoc.fgv.br/projetos/arq/
PrealDebEspecial.pdf
BAQUERO, Marcello. “Construindo uma outra sociedade: o capital social na estruturação de uma cultura política participativa no Brasil”. Revista de Sociologia Política, novembro, 2003, n. 21.
MENDONÇA, Jouberto Uchoa e SILVA, Maria Lúcia
Marques Cruz. “Sergipe Panorâmico” Universidade
Tiradentes, Aracaju 2002.
BNB – Banco do Nordeste. “Ações para o Desenvolvimento do Artesanato do Nordeste”, 2ª Edição, Fortaleza, 2002.
DANTAS, Beatriz Góis. “Rendas e Bordados:
alinhavos de história, debuxos de formas”. In Jornal
da Cidade, Caderno Variedades, C-4, Aracaju, 25 e
26 de julho, 2004.
FUKUYAMA, Francis. “Social Capital and Civil
Society”, Paper preparado para o IMF – International
Monetary Fund, Conference on Second Generation
Reforms, IMF Working Paper WP n° 74, April 2000.
Disponível em: www.imf.org/external/pubs/ft/
seminar/1999/reforms/fukuyama.htm.
IBGE. Perfil dos Municípios Brasileiros – Gestão Pública 2001.
IBGE. Censo Demográfico, 2000.
KLIKSBERG, Bernardo. Falácias e Mitos do Desenvolvimento Social. Unesco, Brasil, Ed.Cortez, 2003.
KLIKSBERG, Bernardo. “Capital Social e Cultura: As
Chaves Esquecidas do Desenvolvimento.” In: Preal
Debate Especial, CPDOC/FGV, Outubro, 2002. Dis-
MINISTÉRIO DAS CIDADES. Sistema Nacional de
Indicadores Urbanos, versão 1.05, 2002.
NETO, Eduardo Barroso. “Design, Identidade Cultural e Artesanato”. Primeira Jornada Ibero-americana
de Design no Artesanato. Fortaleza, novembro, 1999.
Disponível em: http://www.eduardobarroso.com.br/
artigos.htm
RATTNER, Henrique. “Cultura, Personalidade e Identidade”, nov/2001. Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças. Disponível em:
www.abdl.org.br
SAMPAIO, Helena. “A Experiência do Artesanato
Solidário”. In: Políticas Culturais para o Desenvolvimento: uma base de dados para a cultura. Brasília,
UNESCO Brasil, 2003.
SEBRAE. Pesquisa Cara Brasileira. A Brasilidade nos
Negócios – Um Caminho para o “made in Brazil. 2002.
SENGENBERGER, Werner e PIKE, Frank. “Distritos Industriais e Recuperação Econômica Local: questões
de pesquisa e de política”. In: Empresários e Empregos
nos Novos Territórios Produtivos: o caso da terceira Itália. André Urani, Giuseppe Cocco, Alexander Patez
(organizadores). 2ª Edição, Rio de Janeiro, DP&A, 2002.
Revista da Fapese, v.2, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2006
Download

revista concluida