Trabalho 376
SAÚDE REPRODUTIVA DE PESSOAS QUE (CON) VIVEM COM O HIV1
Eglídia Carla de Figueiredo Vidal2
Ana Karina Bezerra Pinheiro3
Emery Ciana Figueiredo Vidal4
Cinthia Gondim Pereira Calou5
INTRODUÇÃO: A reprodução remete à ideia de continuação da vida e a saúde reprodutiva implica na
capacidade de desfrutar de uma vida satisfatória e sem riscos, de procriar, bem como, relaciona-se à
liberdade para escolher, entre gestar ou não, no período e na frequência desejada1. Os avanços
terapêuticos favoreceram a redução da morbi-mortalidade por aids, levando à sobrevida das pessoas
infectadas. Nesse cenário, novas questões se apresentaram mediante a necessidade de cuidado integral à
saúde dessa clientela, considerando-se que os direitos sexuais e reprodutivos são fundamentais para a
promoção da saúde reprodutiva. Na nossa prática profissional, percebemos uma inclinação das pessoas
que vivem com HIV ao uso exclusivo de preservativo masculino após a descoberta da contaminação, com
aparente desconhecimento de outras alternativas contraceptivas, bem como da possibilidade de
concepção. A assistência em planejamento familiar deve respeitar os direitos sexuais e reprodutivos dos
indivíduos; informando sobre métodos conceptivos e anticonceptivos, para uma escolha livre e consciente
do uso, e uma prática sexual saudável, esclarecendo sobre os desejos e possibilidades, ou não, de terem
filhos. Isto posto, pouco compreendemos sobre as vivências de portadores de HIV que gozam de
capacidade reprodutiva, porém enfrentam a “impossibilidade” de exercer a paternidade/maternidade
frente aos riscos da transmissão vertical. Não obstante, percebe-se o avanço mundial em discutir e
pesquisar essas questões, a partir do Protocolo do Aids Clinical Trial Group 076, de 1994, que
demonstrou a redução na transmissão vertical do HIV, pelo uso da zidovudina (AZT)2. Assim, emergiu o
seguinte questionamento: como as pessoas que vivem e convivem com HIV/Aids vivenciam a sua prática
reprodutiva? Verificamos que ao compreender a experiência reprodutiva de pessoas que con-vivem com o
HIV, podemos redirecionar as ações de saúde a estas, no sentido de integrar conhecimentos e estratégias
1
Trabalho extraído da dissertação do Programa de Pós Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará:
“Reprodução e sexualidade de pessoas que (con) vivem com HIV/aids”. Pesquisa financiada pela FUNCAP.
2
Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará. Professora da Universidade Regional do Cariri. E-mail:
eglidia.vidal@urca.br
3
Doutora em Enfermagem. Professora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará.
4
Especialista em Saúde da Família. Especialista em Gestão de Sistemas Locais de Saúde. Professora do Departamento de
Enfermagem da Universidade Regional do Cariri.
5
Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgico pela Universidade Estadual do Ceará e Saúde da Família pela Universidade
Regional do Cariri (URCA), Professora Auxiliar da Universidade Regional do Cariri.
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seguras que garantam seus direitos de concepção e contracepção. OBJETIVO: Compreender as vivências
reprodutivas de pessoas que con/vivem com o HIV à luz dos pressupostos da Teoria Humanística de
Enfermagem3. METODOLOGIA: Trata-se de uma pesquisa descritiva e qualitativa, utilizando o
referencial teórico-metodológico da Enfermagem Humanística3, realizada no Ambulatório de Infectologia
do Hospital-Escola Santo Inácio, situado em Juazeiro do Norte, Ceará, Brasil, com dezesseis (16) pessoas
que convivem com HIV, sete (7) homens e nove (9) mulheres, atendidos/as no referido ambulatório.
Como critérios de inclusão tivemos: conviver com HIV; declarar ter orientação sexual bissexual ou
heterossexual, coerente aos aspectos sobre a saúde sexual e reprodutiva e ao planejamento da mesma; e
ter maioridade civil (faixa etária de 18 a 65 anos para homem e de 18 a 49 anos para mulher,
correspondendo à idade adulta e à idade reprodutiva). Foram excluídas: pessoas impossibilitadas de
dialogar, pessoas que supostamente indicassem suspeitas ou risco, como também aquelas com dano
cognitivo que inviabilizasse a compreensão das questões investigadas. O projeto de pesquisa recebeu
Parecer favorável sob nº 95/07 do Comitê de Ética em Pesquisa (COMEPE) da Universidade Federal do
Ceará. A coleta dos dados ocorreu no período de junho a novembro de 2007. Foram estabelecidos três
momentos para essa investigação, em concordância às etapas da Enfermagem fenomenológica3. O
primeiro momento correspondeu à preparação para vir-a-conhecer, correspondendo à nossa busca pelo
conhecimento de si para abertura à experiência entre ela e outro ser humano. O segundo momento
correspondeu ao conhecimento intuitivo ao iniciar a coleta dos dados. O terceiro momento, correspondeu
à análise dos dados, captados por meio de observação livre, entrevista e registro em diário de campo.
RESULTADOS: Emergiram três seguintes categorias, discutidas a seguir: 1. Métodos contraceptivos
usados antes da (con) vivência com o HIV/aids- Ao abordar os métodos utilizados entre pessoas que (con)
vivem com HIV antes de se saber infectado, evidenciamos o predomínio, quase
exclusivo, do
anticoncepcional oral combinado (AOC). Evidenciamos que o uso de AOC era realizado por alguns
participantes do estudo de modo irregular. Revelaram-se possíveis contextos de uso inadequado do
contraceptivo, mediados por desconhecimento com relação ao método ou por uma conduta de descaso
quanto à possibilidade de gestação, ou ainda, representando o desejo oculto de vir a gestar. Este dado foi
também relatado em outros estudos nacionais sobre uso de métodos contraceptivos, que apontam a pílula
e a laqueadura como os mais presentes na população brasileira em geral4, e também em mulheres
soropositivas5. 2. Contracepção após a (con) vivência com HIV, tendo o preservativo como referência
contraceptiva- Após o conhecimento do status sorológico positivo, o preservativo masculino foi apontado
como o contraceptivo presente na vida atual. Nesse ínterim, o uso do preservativo masculino, pósconfirmação da soropositivade, ganha, além da utilidade como método contraceptivo, ênfase sob a
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vertente da proteção da re-infecção, sendo este aspecto observado neste estudo tanto em homens quanto
em mulheres, na popularizada expressão “sexo seguro”. A utilização do preservativo feminino só foi
citada por uma das participantes do estudo, demonstrando que, se a introdução do condom masculino veio
com o advento da descoberta da infecção pelo HIV, o condom feminino ainda não faz parte da vivência
sexual da maioria. Embora tenhamos percebido postura de inclinação ao uso e manutenção do
preservativo, observamos entre algumas mulheres interesse sobre a laqueadura tubária, que melhor
retratada, revela-nos, por alguns relatos, que essa aparente iniciativa pessoal parece ter sido apontada
como opção pelos profissionais de saúde que conduziram o pré-natal, „pós-soropositividade‟. Com efeito,
a infecção pelo HIV não deve agir como elemento facilitador da esterilização feminina ou masculina. A
atenção no planejamento familiar deve ancorar-se no aconselhamento, como forma de alcançar uma ação
conjunta entre profissionais e casal/indivíduo, implicando na promoção de um diálogo contextualizado
com base nas características e vivências da(s) pessoa(s) e na necessidade de partição ativa nesse
processo5. 3. Desconhecimento do uso de outros métodos contraceptivos na infecção pelo HIVEvidenciamos o desconhecimento das mulheres quanto às outras formas disponíveis de contraceptivos
que podem ser adotados diante do HIV, denotando dúvidas existentes em razão desse desconhecimento.
Soma-se às questões do desconhecimento, a ausência de informações sobre a contracepção e a associação
de antiretrovirais (ARV). Evidencia-se a necessidade de aconselhamento reprodutivo quanto às medidas
contraceptivas e reações adversas ou diminuição do potencial contraceptivo mediante o uso de ARV. 4.
Desejo de ter filhos- Entre homens e mulheres que con-vivem com HIV, o desejo de ter filhos apareceu,
mais notado entre aqueles que vivem sob a situação conjugal de sorodiscordância, contudo, foi citado por
pessoas que vivem sob situação conjugal concordante. O desejo de filhos foi explicitado em diversos
contextos conjugais e também mostrou diversidade de aspectos mediando tal vontade, expressada,
algumas vezes, como parte de planos futuros para a vida. Em casos particulares de duas mulheres
sorodiscordantes, o desejo de ter filhos extrapolou o cenário que envolve o casal, levando a proposta de
relacionamento sexual com outra pessoa para efetuar a reprodução e à exposição consciente do risco de
infectar-se pelo HIV, respectivamente. Estas situações expõem a necessidade de abordar os contextos de
parcerias conjugais e seus entrelaçamentos (sexualidade, contracepção, concepção, entre outros) no
cuidado ofertado aos homens e mulheres com HIV. A possibilidade de adoção foi referida, nos contextos
de relações sorodiscordante e soroconcordantes, entre homens e mulheres, mostrando mais uma faceta
que envolve a esfera reprodutiva, em que se considera o risco de exposição, com possível opção por outra
alternativa de exercício de maternidade e paternidade frente à infecção pelo HIV. CONCLUSÃO: Na
atual conjuntura da aids, de caráter crônico com disponibilidade de recursos terapêuticos para redução da
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transmissão vertical do HIV, evidenciam-se o desejo de casais de terem filhos e o direito à uma
maternidade segura por mulheres infectadas, com necessidade preemente de diagnóstico da infecção pelo
HIV antes da gravidez. Ao falar sobre a esfera reprodutiva, a vivência dos entrevistados vinculou-se a
aspectos da concepção e da contracepção, em que a contracepção é enfatizada e relacionada aos métodos
conhecidos pela clientela, utilizados antes e após a soropositividade. Evidenciamos que pessoas que convivem com o HIV desconhecem as possibilidades de concepção e contracepção, porém desejam filhos.
Esta situação foi tida como conflituosa, em que a premissa da escolha atribuída pode não encontrar canais
favoráveis na atenção profissional. IMPLICAÇÕES PARA A ENFERMAGEM: O aconselhamento em
planejamento reprodutivo constitui importante ferramenta na promoção da saúde sexual e reprodutiva, a
ser desenvolvida pelos profissionais, cuja atuação deve contemplar a orientação sobre o mecanismo dos
métodos contraceptivos e possíveis efeitos colaterais, com orientação, acompanhamento e
encaminhamento nos casos de infertilidade, fomentar a educação em saúde individual e coletiva,
propiciando uma escolha adequada e o correto uso dos métodos, realizar atividade clínica, além de
enfocar o uso de métodos que ofereçam dupla proteção, sem esquecer o respeito aos direitos sexuais e
reprodutivos. A orientação de enfermagem sobre as escolhas reprodutivas é uma importante forma de
diminuir o risco de re-infecção dos parceiros soropositivos para HIV, de infecção dos parceiros
soronegativos (quando apenas um parceiro é soropositivo) e de buscar uma vida saudável entre parceiros
e para os filhos. Observamos a necessidade de organização e articulação das políticas de saúde para
ofertar serviços para atendimento com respeito ao exercício da sexualidade e de decisões reprodutivas,
favorecendo o cuidado de enfermagem que essas pessoas requerem.
DESCRITORES: comportamento reprodutivo; planejamento familiar; soropositividade para HIV
ÁREA TEMÁTICA: Processo de cuidar em Saúde e Enfermagem
EIXO TEMÁTICO: A pesquisa de enfermagem no processo de cuidar e educar: interdisciplinaridade,
transculturalidade e difusão do conhecimento.
REFERÊNCIAS
1. Galvão MTG, Cerqueira ATR, Marcondes-Machado J. Medidas contraceptivas e de proteção da
transmissão do HIV por mulheres com HIV/Aids. Rev. Saúde Pública 2004; 38(2):194-200.
2. Ministério da Saúde (BR) Guia de tratamento: recomendações para a profilaxia da transmissão vertical
do HIV e terapia antiretroviral em gestantes. Brasília: Ministério da Saúde, 2004.
3. Paterson JG, Zderad LT. Enfermeria humanística. México: Limusa; 1979.
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4. Ministério da Saúde (BR). Planejamento familiar: manual para o gestor. Brasília(DF): Ministério da
Saúde; 2002b.
5. Santos NJS, Buchalla CM, Fillipe EV, Bugamelli L, Garcia S, Paiva V. Mulheres HIV positivas,
reprodução e sexualidade. Rev. Saúde Pública 2002; 36(4):12-23.
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Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem