introdução à língua brasileira
de sinais - libras
Profa. Renata Alves Orselli 1*
* Possui bacharel em Direito pela Universidade Braz Cubas (1999), graduada em Letras com licenciatura
em língua portuguesa e língua inglesa pela Universidade Braz Cubas (2006). Especialização em Língua
Portuguesa pela PUC/SP (2008). Aperfeiçoamento em Capacitação de Educação Especial - UMC/SP.
Libras no Instituto de Educação para Surdos SELI/SP, no Centro Educacional Cultura Surda - SP/SP e no
Trabalho de Apoio ao Deficiente Auditivo - TRADEF/MC. Mestre em Semiótica, Tecnologia da Informática
e Educação na Universidade Braz Cubas - UBC. Atualmente docente da Universidade Braz Cubas – UBC,
Faculdade Unida de Suzano - UNISUZ ministrando aulas de Libras e Língua Portuguesa na graduação,
nos cursos de extensão e no ensino a distância – EAD presencial e virtual. Tem experiência na área de
Letras com ênfase em Morfossintaxe. Ministra aulas de francês/português em empresas e escolas por
mais de 12 (doze) anos e no ensino de computação/português para surdos oralizados e não-oralizados.
Voluntária da escola da família na Escola Estadual Dr.Morato de Oliveira na cidade de Suzano ministrando
aulas de LIBRAS para surdos, ouvintes e professores da rede de ensino.
Sumário
APRESENTAÇÃO 7
INTRODUÇÃO 9
Unidade I
O INÍCIO DA HISTÓRIA...
11
1.1 Retrospectiva da Educação de Surdos no Brasil
11
1.2 O preconceito contra os deficientes auditivos
15
1.3 Cultura surda e cidadania Brasileira
16
1.4 A LEI Nº 10.436, DE 24 DE ABRIL DE 2002, DISPÕE SOBRE A LÍNGUA
BRASILEIRA DE SINAIS – LIBRAS 18
1.5 Fisiologia do ouvido (ou orelha) humano
20
1.6 Causas da Surdez
21
1.7 Níveis de Audição
23
1.8 Perda Auditiva
24
1.9 A LÍNGUA PORTUGUESA NA LUSOFONIA
25
1.9.1 O Brasil no mundo da Lusofonia
26
1.10 LÍNGUA E IDENTIDADE: UM CONTEXTO DE POLÍTICA LINGUÍSTICA28
1.11 A Importância da Língua Portuguesa como segunda
língua
31
1.12 Um projeto em desenvolvimento: O ensino de Português
como segunda língua 33
1.13 Batismo do sinal pessoal
34
1.14 Língua Gestual
37
1.15 CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE I
42
3
Sumário
3
U n i d a d e II
O QUE É LIBRAS
47
2.1 Os sinais
47
2.2 A Língua Brasileira de Sinais e seus parâmetros de
articulação
48
2.3 Expressões: facial e corporal dos sinais
50
2.3.1 Materiais produzidos e utilizados no ensino de Libras e da língua
portuguesa
51
2.3.2 Material didático usado no aprendizado dos surdos/ouvintes no
ensino de Libras e da língua portuguesa.
2.4 CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE II
60
62
U n i d a d e III
ASPECTOS EXTRUTURAIS DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS 65
3.1 Características da Língua de Sinais
65
3.2 Construção e formação da Libras
66
3.3 SINAIS E SUAS CONFIGURAÇÕES
69
3.3.1 ORIENTAÇÃO ESPACIAL
69
3.3.2 Leitura dos movimentos das figuras (sinais)
71
3.4 Formas de cumprimento
74
3.5 CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE III
76
Unidade IV
AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
4
Sumário
81
4.1 Algumas diferenças entre a Libras e o Português
81
4.2 Pronomes interrogativos
81
4.3 Pronomes indefinidos
82
4.4 Adjetivos
83
4.5 Advérbio de Tempo
83
4.6 Língua portuguesa e a língua brasileira de sinais: uma
breve análise. 85
4.6.1 As diferenças verbais entre a Língua Portuguesa e a Libras
86
4.6.2 Quando a Língua Brasileira de Sinais e o Português são
semelhantes
89
4.6.3 Tempos e aspecto verbais
97
4.6.4 Tempo e aspecto em Libras
98
4.7 Características das línguas de sinais
110
4.7.1 Língua de sinais encontrada em cinco continentes
111
4.7.2 Representações gestuais da língua de sinais
112
4.8 Pronomes Pessoais
120
121
4.8.1 Gênero Masculino e Feminino 4.9 Números e dias da semana
125
4.9.1 Números cardinais
125
4.9.2 Números ordinais
127
4.10 MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A TECNOLOGIA PARA OS SURDOS 134
4.11 O mundo é das palavras
135
4.12 O QUE É SIGNWRITING?
138
4.13 SignWriting - Escrita de Sinais
139
4.14 CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE IV
144
REFERÊNCIAS
147
5
Sumário
5
APRESENTAÇÃO
Olá, caro(a) aluno(a)!
Bem-vindo(a) à disciplina de Introdução a Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS! É
um prazer tê-lo(a) como aluno(a).
Entraremos no universo de uma comunidade diferente da nossa, porém tão rica
como a dos ouvintes. Os surdos percebem e elaboram o mundo apenas por meio do
olhar, enquanto nós, ouvintes, percebemos este mesmo mundo usando a percepção
visual associada à auditiva. Essa diferente condição fará com que, indivíduos com
iguais potenciais tenham visões diferenciadas de um mesmo mundo.
O bom aprendiz de libras é aquele que exercita os sinais aprendidos repetidas
vezes. Por isso, não tenha vergonha de imitar o professor, pois no início é difícil
movimentar os dedos. Alguns exercícios estarão disponíveis no final da leitura, visando
melhorar o aprendizado e a fixação.
7
Apresentação
7
Lembre-se que a consulta periódica à plataforma, links, Podcast, webaula e
o acompanhamento das teleaulas complementarão o entendimento adequado dos
temas abordados.
Espero que você aprecie a leitura. Bom estudo!
Profa. Renata Alves Orselli
8
Apresentação
INTRODUÇÃO
As línguas são convencionais e surgem de condições variadas. Ela só se realiza
ligada histórica e culturalmente a uma comunidade de usuários. Não existe língua se
não existirem os sujeitos da língua. Isso significa que aprender uma língua vai além do
aprender o conjunto de regras ou normas que a rege, aprender uma língua é mergulhar
no espaço em que ela vive. Este material está dividido em 4 unidades ilustradas com
exercícios para facilitar o aprendizado e a memorização. Em cada unidade foi colocado
um pouco da cultura surda e um pouco da língua que habita esse mundo. Portanto,
fique atento(a) às dicas que complementam o seu aprendizado durante a leitura.
1. Retrospectiva da Educação do surdo no Brasil - Nesta reflexão parte-se
da trajetória da educação do surdo no Brasil, isto é, desde os primeiro indícios
da língua gestual até os dias atuais. A mesma unidade ressalta as leis que
oficializaram a Libras como língua materna, garantindo a inclusão de pessoas
com necessidades especiais nas instituições de ensino e as causas de surdez.
Veremos como se dá o batismo do sinal, a língua e a identidade do surdo,
bem como a importância da Língua Portuguesa para a formação e inclusão
social do surdo no meio em que está inserido. Por fim, vamos aprender a
datilologia das palavras por meio do alfabeto manual.
2. O que é Libras? - Neste livro faremos uma imersão ao mundo dos surdos,
serão verificados alguns aspectos estruturais, expressão não manual/corporal
da língua de sinais e suas particularidades, e materiais para o ensino da
Libras e da língua portuguesa.
3. Aspectos estruturais da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS - Serão
apresentados orientação espacial e classificadores, estes aspectos são
responsáveis pelas configurações de alguns sinais e formas de cumprimento.
4. As convenções da Libras - Aqui serão descritas a formação e a construção da
língua, isto é, a formação de verbos, pronomes, adjetivos, números ordinais
9
Introdução
9
e cardinais, dias da semana, variações linguísticas, novos vocabulários,
signwrinting e os meios de comunicação e tecnologia para os surdos.
10
Introdução
1
Unidade I
O INÍCIO DA HISTÓRIA...
OB JET IVOS D A UN ID A D E
• Identificar as diferentes terminologias (surdo, mudo e deficiente
auditivo);
• Conhecer a cultura e identidade da comunidade surda.
HAB IL IDADE S E C O MP E T Ê N C IA S
• Identificação e aplicação dos Princípios da Inclusão para o
desenvolvimento da competência cognitiva – aprender a aprender.
• Fundamentação das ações da Libras para o desenvolvimento da
competência produtiva – aprender a fazer.
• Desenvolvimento do trabalho em equipe para o desenvolvimento da
competência social – aprender a conviver.
• Estímulo ao respeito à diversidade como riqueza cultural para o
desenvolvimento da competência pessoal - aprender a ser.
Retrospectiva da Educação de Surdos no
Brasil
1.1 O mais antigo registro que menciona sobre “Língua de Sinais” é de 368 a.C,
escrito pelo filósofo grego Sócrates, quando perguntou ao seu discípulo:
“Suponha que nós, os seres humanos, quando não falamos e queríamos indicar
objeto, uns para os outros, nós o fazíamos como fazem os surdos mudos, sinais com
as mãos, cabeça e demais membros do corpo?”
Unidade
11 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
11
A comunicação por sinais foi a solução encontrada também pelos monges
beneditinos da Itália, cerca de 530 d.C, para manter o voto do silêncio. Mas pouco foi
registrado sobre esse tema ou sobre os sistemas usados por surdos até a Renascença,
mil anos depois.
Até o fim do século XV, não havia escolas especializadas para surdos na Europa
porque, na época, os surdos eram considerados incapazes de serem ensinados.
Por isso, as pessoas surdas foram excluídas das sociedades e muitas tiveram sua
sobrevivência prejudicada. Existiram leis que proibiam o surdo de possuir ou herdar
propriedades, casar-se, votar como os demais cidadãos. A grande mudança aconteceu
com o Abade de L´Épée, na França em 1755. Não somente pelo reconhecimento
da língua gestual, mas, sim, pelas portas que ele conseguiu abrir em benefício dos
surdos. Abade aprendeu a língua utilizada pela comunidade surda parisiense e a partir
dela desenvolveu uma suposta língua gestual universal, estruturada de acordo com a
sintaxe da língua francesa, que ele próprio inventou para representar as inflexões, os
tempos, os artigos etc. Com a insistência de L´Épée em sua metodologia (publicada
em 1776, a “Institution des sourds-muets”, que apresenta seu sistema de “sinais
metódicos”), ele conduziu muitos alunos surdos a terem acesso à cidadania, pela
primeira vez na história da cultura ocidental.
No início do século XX, Pintner afirmou que os surdos são intelectualmente
inferiores aos ouvintes em várias áreas da cognição: inteligência, memória e pensamento
abstrato. Referiu-se, ainda, às dificuldades de compreensão na comunicação e na
inter-relação social dos surdos.
Desde então, muitos ouvintes confundem a habilidade de falar, com a voz,
com a capacidade intelectual desta pessoa, talvez seja porque a palavra “fala” esteja
etimologicamente ligada ao verbo/pensamento/ação e não simplesmente ao ato de
emitir sons articulados.
Em 1855, foi fundada a primeira escola para surdos no Brasil, a Imperial Instituto
de surdos-mudos (atual INES - Instituto Nacional de Educação dos Surdos). Era uma
mistura da Língua de Sinais Francesa, trazida por Ernest Huet com a língua de sinais
brasileira antiga, já usada pelos surdos das várias regiões do Brasil, a Língua Brasileira
de Sinais.
12
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
Em 1880, em Milão, foi realizado o Congresso Internacional de Surdo-Mudez e
ficou definido que o melhor e o mais adequado método para o ensino dos surdos seria
o método oral, pois somente através da fala ele poderia ter um desenvolvimento pleno.
Assim, a língua oral é uma condição básica para a aceitação em uma comunidade
majoritária de ouvintes. Segundo Skliar (1997), o congresso constituiu não o começo
da ideologia oralista, senão sua legitimação oficial. As consequências dessa filosofia
educacional, o oralismo, foi um fracasso acadêmico. Para Sacks (1990, p.45), o
oralismo e a supressão do sinal resultam numa deterioração dramática das conquistas
educacionais da criança surda.
Deve-se compreender que as escolas podem ser um dos fatores de integração
ou desintegração das comunidades surdas, dependendo da metodologia adotada.
Se uma escola rejeita a língua de sinais, as crianças surdas que estudam nesta escola
ou não vão conhecer a comunidade surda de sua cidade e, consequentemente, não
aprenderão uma língua de sinais, ou poderão se integrar com os surdos de sua cidade
somente após a adolescência.
Felizmente essa situação mudou e hoje podemos contar com profissionais
surdos, homens e mulheres, que estão se destacando também na área de educação.
Unidade
13 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
13
14
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
Dica de Leitu r a
A história da surdez é, portanto, a história da luta dos surdos na
busca de um espaço como sujeitos sociais, com direito a educação e a
saúde assim como os ouvintes. Para aprofundar o conhecimento dessa
história, indicamos a leitura dos livros a seguir:
CAPOVILLA, F.C. e RAPHAEL, W. D. Dicionário Enciclopédico Ilustrado
Trilíngue: língua de sinais brasileira - LIBRAS. Volumes I e II. São Paulo:
Edusp, 2009.
SÁ, R. L. de. Cultura, poder e educação de surdos. Manaus: Ed. da
Ufam, 2002.
O preconceito contra os deficientes
auditivos
1.2 Tanya (2001) remete-se para tratar da questão que envolve integração do
deficiente auditivo em sociedade a uma época em que existiam leis que proibiam o
surdo de possuir ou herdar propriedades, casar-se e votar, como os demais cidadãos.
Daquela época até hoje, muitos ouvintes confundem a habilidade de falar com voz
com a inteligência. Pode-se até indagar o quanto o pensamento está diretamente
ligado ao poder da fala, mas é absurdo imaginar que uma deficiência física específica
possa alterar a capacidade de abstração de um ser humano. Com este pensamento,
chegamos à conclusão de que uma vez que o deficiente auditivo tenha o domínio da
Língua Portuguesa, este deve ter todos seus direitos preservados. E mais: deve ter toda
a possibilidade de recursos para se aprimorar e desenvolver novas qualidades.
O deficiente auditivo não tem deficiência intelectual, isto é, sua capacidade
de aprendizado é a mesma de qualquer ouvinte. O fato é que, pela dificuldade
de comunicação, o surdo não tem acesso às mesmas informações que o ouvinte
tem. A linguagem visogestual tem como finalidade, exatamente, dar ao deficiente
a possibilidade de se comunicar e interagir com o mundo, como o ouvinte, assim,
podendo ter acesso à educação e às informações para sua formação.
Unidade
15 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
15
1.3 Cultura surda e cidadania Brasileira
Normalmente um grupo predominante, como os das pessoas ouvintes, julgamse superiores aos grupos minoritários, como os dos surdos, ainda mais neste caso em
que o ouvinte goza do privilégio da habilidade da audição que não está disponível ao
surdo.
Esquecemos que cada indivíduo possui características próprias, com habilidades
extraordinárias em campos distintos, além de deficiências em relação aos outros. O
surdo, por sua vez, também possui suas habilidades, independentemente de sua
deficiência auditiva, podendo ser considerado um indivíduo comum, como qualquer
outro, apenas com uma deficiência mais característica.
A falta de audição, necessariamente, não trata de uma perda, mas de uma
diferença, pois muitos surdos, especialmente os congênitos, não tiveram a sensação
de perda auditiva.
Devemos romper o paradigma da deficiência e perceber as restrições de ambos
os lados, tanto do surdo, quanto do ouvinte. Por exemplo: o ouvinte não consegue
se comunicar debaixo d’água, em local barulhento, a menos que grite. Já o surdo se
comunica sem problemas em ambos os lugares.
Atualmente vivenciamos um momento de grandes conquistas, em que grupos
socialmente excluídos, entre eles os surdos, estão cada vez mais integrados na
comunidade, lutando por seu espaço e empreendendo esforços gigantescos para
garantir sua cidadania.
Muitas leis foram e estão constantemente sendo aprovadas pelo Congresso
Nacional para dar suporte legal, priorizando a inclusão e a promoção humana, a partir
do direito de ser diferente no contexto da sociedade brasileira.
Um marco significativo que demonstra o avanço das conquistas dos movimentos
surdos está mencionado no Decreto Lei nº 5.626, de 22 de Dezembro de 2005, que
regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, dispondo sobre a Língua Brasileira
16
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
de Sinais – Libras. O art. 3º trata da inclusão da Libras como disciplina curricular, que
será obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério,
em nível médio e superior, em instituições de ensino, públicas e privadas. O art. 18
da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000, reconhece a Libras como idioma das
comunidades surdas do Brasil.
Entretanto, essas novas conquistas precisam ser traduzidas em ações que
permitam aos surdos o acesso aos saberes sistematizados por ouvintes e, ao mesmo
tempo, os ouvintes precisam ter acesso aos saberes produzidos pelos surdos ao longo
da história da humanidade. Um desses saberes dos surdos é a própria Língua Brasileira
de Sinais – Libras - que já está no Decreto e Leis acima mencionados.
A importância de uma língua está exatamente no fato de que ela serve de
forma de comunicação. Não existiria sentido se não fosse por isso. A comunicação
entre os homens tem sido a peça mestre no desenvolvimento e evolução do ser
humano e suas culturas. Sem a troca e o armazenamento de cultura e experiência
nunca chegaríamos à evolução científica, social e, por que não dizer, moral dos povos.
A Língua Portuguesa, por sua vez, representa a nossa cultura nacional e proporciona
toda a chance e oportunidade que um indivíduo tem para conquistar uma carreira
profissional e, assim, ter uma acessão social, cultural e econômica.
O deficiente auditivo necessita, como qualquer outro indivíduo, de uma
linguagem de comunicação e o aprendizado da Língua Portuguesa é essencial para
que possa usufruir da mesma sorte de oportunidades. A Língua Brasileira de Sinais
entrou em vigor a partir da lei n.10.436 de 24 de abril de 2002, que decretou e
sancionou como meio de comunicação e expressão LIBRAS como forma ideal para o
professor ensinar a Língua Portuguesa, pois é comprovadamente a melhor forma de
comunicação com o deficiente auditivo. Como discute Lemle (2002 p.83), a língua
de sinais parece contribuir para que isso ocorra no texto de aprendizes surdos, pelas
características de sua estruturação sintática.
Unidade
17 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
17
A LEI Nº 10.436, DE 24 DE ABRIL DE 2002, DISPÕE
SOBRE A LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS – LIBRAS
1.4 Descreveremos a lei, que instituiu a Língua Brasileira de Sinais, suas intenções e
analisaremos os benefícios que a sociedade terá com a sua aplicação.
Em seu Art. 1º, a lei 10.436 reconhece como meio legal de comunicação e
expressão a Libras, sendo um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos,
oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.
No 2º Artigo, ela garante, por parte do poder público em geral e empresas
concessionárias, formas institucionalizadas de apoio ao uso e difusão da Libras.
Os artigos 3º e 4º tratam dos direitos do deficiente auditivo, como de
assistências, tanto médica como educacionais por serviços públicos federais, estaduais
e municipais. Dá garantia de inclusão nos cursos de formação de Educação Especial, de
Fonoaudióloga e Magistério, em seus níveis médio e superior, sendo parte integrante
dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs. Também menciona que a Língua
Brasileira de Sinais não poderá substituir a modalidade escrita da Língua Portuguesa.
Esta lei entrou em vigor na data de sua publicação, dia 24 de abril de 2002, e
foi sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e então pelo Ministro da
Educação, Paulo Renato Souza.
18
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
Podemos considerar dois aspectos diferentes no conteúdo da lei. O primeiro
visa garantir e integrar o cidadão portador de deficiência auditiva no mais amplo
aspecto de direitos civis, garantindo-lhe o direito de atendimento médico em qualquer
serviço público, ressaltando sua equidade social de acordo com as normas legais gerais
e oficializando a Libras como uma linguagem visual-motora oficial do Brasil, isto é,
dando a ela um aspecto patriótico e cultural.
Em outro aspecto, a lei oficializa a garantia da inclusão do deficiente auditivo,
tanto no ensino do nível médio como no superior, nos cursos de formação de Educação
Especial, de Fonoaudiologia e Magistério, assim, abrindo portas de formação e
profissão a todos os deficientes auditivos.
A lei 10.436 tem como objetivo o progresso de uma sociedade, que sabidamente
é formada por pessoas de características diferentes uma das outras. O preconceito em
relação à qualificação do deficiente físico é superado e transformado em garantia de
oportunidade na formação e atendimento a estas pessoas. Desta forma, dá-se um
passo à frente na qualidade de vida, não subsidiada pelo governo, isto é, pela própria
sociedade, mas sim, conquistada pelo próprio esforço e trabalho, que remunera o
deficiente e aumenta o potencial de mão-de-obra de um país inteiro.
Dessa maneira, o surdo terá garantida por lei a mesma oportunidade e poderá,
com a Língua Portuguesa, ter um avanço profissional, possibilitando sua inclusão e
participação na sociedade, além de ter um melhor acesso ao mundo que vive.
Dica de Leitu r a
Para ver na íntegra essa lei, acesse o link no AVA.
Unidade
19 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
19
1.5 Fisiologia do ouvido (ou orelha) humano
O homem tem dois ouvidos que ajudam a escutar. Apenas um deles trabalhando
sozinho não consegue fazer isso bem. O cérebro precisa comparar e contrastar ruídos,
volume e o tempo dos sons dos dois ouvidos para que os sons tenham um sentido.
O sistema auditivo humano pode ser dividido em duas partes: Periférico e
Central.
O Sistema Auditivo Periférico é formado pela Orelha Externa, Média e Interna.
A Orelha Externa é formada pelo pavilhão auricular (conhecida como orelha), conduto
auditivo externo, o qual é totalmente fechado pela membrana timpânica (Tímpano).
Na Orelha Interna localiza-se a cóclea (responsável pela audição) e o vestíbulo e canais
semicirculares (responsáveis pelo equilíbrio). A cóclea tem a forma de um caracol e o
seu interior é preenchido por líquidos onde encontramos pequenas células, chamadas
de células ciliadas, as quais mantêm um íntimo contato com as fibras do nervo
auditivo. Este por sua vez, envia os impulsos nervosos para o cérebro, permitindo-nos
percebê-los como som.
O ouvido humano
http://www.aparelhosauditivosecia.com.br/surgimento-aparelhos-auditivos.html
Acesso 19/04/2011 às 19:36
20
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
1. O som (sons ambientais, ruídos e a fala) é captado pelo pavilhão auricular,
atravessa todo o conduto auditivo externo e choca-se contra o tímpano (2),
pondo-o em movimento.
2. Como o tímpano está preso aos três ossículos da orelha média, através do
martelo, todo o sistema, tímpano e ossículos, vibra fazendo com que o som
alcance os líquidos da cóclea (3).
3. Na cóclea o som alcança as células ciliadas e estas o transformam em
impulsos nervosos estimulando as fibras do nervo auditivo (4). Daí estes
impulsos chegam ao cérebro onde os interpretamos.
Em resumo: o som é captado pela nossa orelha (ouvido externo) entra no ouvido
médio e se depara com o tímpano, fazendo-o vibrar. O tímpano é uma membrana
bem fina e muito sensível. Essa vibração do tímpano se transfere, por meio de contato,
para os três ossículos que estão “ligados” ao tímpano (bigorna, martelo e estribo)
que passam a vibrar e transferem essas vibrações para o ouvido interno, (caracol e
canal semicircular) onde o som é transformado em impulsos elétricos. Esses impulsos
elétricos são conduzidos ao cérebro pelo nervo auditivo, o cérebro recebendo esses
impulsos elétricos irá interpretá-los e distingui-los como “som” que nós ouvimos.
1.6 Causas da Surdez
A deficiência auditiva tem origens diversas.
Causas pré-natais (antes do parto):
• Hereditárias;
• Malformações congênitas, adquiridas pelo embrião devido a infecções virais
Unidade
21 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
21
ou bacterianas intra-uterinas (ex.: rubéola, sarampo, sífilis, citamegalovirus,
herpes simplex, toxoplasmose);
• Intoxicações intra-uterinas (ex.: quinino, álcool, drogas);
• Alterações endócrinas (ex.: patologias da tiróide, diabetes);
• Carências alimentares (ex.: vitamínicos);
• Agentes físicos (ex.: raios X);
• Causas pré-natais (durante o parto);
• Traumatismos obstétricos (ex.: hemorragias do ouvido interno ou nas
meninges);
• Anóxia;
• Incompatibilidades sanguíneas (do fator RH que podem provocar danos no
sistema nervoso central);
• Causas pós-natais (depois do parto e no decurso da vida do indivíduo);
• Doenças infecciosas;
• Bacterianas (ex.: meningites, otites, inflamações agudas ou crônicas das
fossas nasais e da naso-faringe);
• Virais (ex.: encefalites, varicela);
• Intoxicações (ex.: alguns antibióticos, ácidos acetilsalisílico, excesso de
vitamina D que pode provocar lesão com hemorragia ou infiltração calcária
nas artérias auditivas);
• Trauma acústico (ex.: exposição prolongada a ruídos nos locais de trabalho
ou em recintos de diversão; sons de elevada intensidade e de curta duração,
22
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
tais como: nas explosões e na caça; diferenças de pressão, como no caso
dos mergulhadores);
• Causas desconhecidas ou idiopáticas.
1.7 Níveis de Audição
Os níveis utilizados para caracterizar os graus de severidade da deficiência
auditiva podem ter algumas variações entre os diferentes autores. Segundo o critério
de Davis e Silverman (1966), os graus de severidade se subdividem em:
1. Audição normal: a pessoa ouve bem o tic-tac de um despertador (até 24
decibéis);
2. Deficiência auditiva leve: a pessoa não ouve o tic-tac do despertador, mas
escuta um sussurro (de 25 a 40 decibéis);
3. Deficiência auditiva moderada: neste estágio a pessoa só consegue escutar
sons mais altos como o de uma sala de trabalho (escritório) e tem muita
dificuldade de falar no telefone (de 41 a 70 decibéis);
4. Deficiência auditiva severa: a pessoa precisa de um som tão alto quanto o
barulho de uma impressora rotativa (de 71 a 90 decibéis);
5. Deficiência auditiva profunda: a pessoa só ouve ruídos como os provocados
por uma turbina de avião (120 decibéis), disparo de revólver (150 decibéis)
e tiro de caminhão (200 decibéis). Este grau de severidade é classificado
acima de 90 decibéis.
Unidade
23 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
23
Mas segundo o decreto n° 3.298, de 20 de dezembro de 1999, a deficiência
auditiva é perda parcial ou total das possibilidades auditivas sonoras, variando de
graus e níveis:
a) De 25 a 40 decibéis – considerado surdez leve;
b) De 41 a 55 decibéis – considerado surdez moderado;
c) De 56 a 70 decibéis - considerado surdez acentuada;
d) De 71 a 90 decibéis - considerado surdez severa;
e) Acima de 91 decibéis – considerado surdez profunda;
f) Anacusia (ausência total de audição).
1.8 Perda Auditiva
De todos os sentidos, provavelmente a audição é o seu mais importante órgão
de comunicação. Mesmo enquanto dormimos, os ouvidos continuam funcionando. O
processo de perda auditiva é lento e progressivo. Em geral, a família é quem nota os
sintomas primeiro por ter que repetir as coisas mais de uma vez ou deixar o volume
da televisão muito alto.
É importante que, assim que os sintomas aparecerem, recorra-se a um
especialista para que se inicie o uso do aparelho auditivo, pois o ouvido pode não
estar mais acostumado a ouvir sons de intensidade normal. Em outras palavras, o
ouvido se esquece de como ouvir.
Assim, pessoas com perdas auditivas são consideradas deficientes auditivos e as
pessoas com perda auditiva profunda são chamadas de surdas. Porém, pode-se dizer
que por muito tempo as leis que classificavam os direitos dos surdos eram a mesma
24
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
para todos os graus de surdez, mas a partir de 2002 foi criada a lei Art. 1º, a lei 10.436
reconhecendo a língua de sinais como meio legal de comunicação especifica para a
comunidade surda estabelecendo seus direitos tanto na educação como na saúde,
reconhecendo a Libras como língua materna e como segunda língua brasileira.
DIC A DE C ON S ULTA
O exame da orelha poderá ajudar a criança ter melhor desenvolvimento
e aprendizagem quando a surdez tem um diagnostico precoce. Consulte
o link no AVA para saber mais sobre o exame da orelha.
1.9 A LÍNGUA PORTUGUESA NA LUSOFONIA
A Língua Portuguesa, juntamente com o espanhol, catalão, francês, italiano,
romeno, vem se transformando através dos séculos. Elas surgem do latim, o que
explica serem referidas como línguas românicas ou neolatinas, constituindo uma única
família linguística.
O latim tem origem na região do Lácio onde, em 711 a.C, fundou-se Roma,
e pertence ao tronco linguístico originário do indo-europeu, falado pelos árias ou
arianos.
As migrações desse povo, que deixou seu território em diferentes tribos entre o
século XV e XX a. C., ocuparam novas regiões da Europa e parte da Ásia, provocando
a disseminação de sua língua. Estudos realizados pelo filólogo alemão Franz Bopp no
começo do século XIX demonstram, pelo método da gramática comparada, que quase
todas as línguas faladas na Europa e na Ásia provêm do indo-europeu, que atesta
por diversos fatos fonéticos, morfológicos e sintáticos a existência do indo-europeu.
Com a dispersão do povo ariano, verificou-se o fracionamento do indo-europeu em
diversos ramos: o germânico, o itálico, o eslavo, o grego, o céltico etc., e distribuídas
em regiões que vão da Europa Ocidental até a Índia.
Unidade
25 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
25
A difusão do latim se expande com o Império Romano dando inicio à história
da Língua Portuguesa pelo processo de romanização da península ibérica, iniciada em
197 a.C.
Após a queda de Roma, ocorre a invasão árabe. Em decorrência dessa invasão,
a formação da Língua Portuguesa ganha força com um movimento para a expulsão
dos árabes e pela influência político-cultural, o que a tornou polo de resistência e
irradiação do cristianismo. Com a reconquista da península, os árabes são expulsos e
Portugal fixa sua capital, Lisboa, em 1255. As grandes navegações, que deram origem
ao descobrimento, em particular, o descobrimento do Brasil, por Pedro Álvares Cabral,
em 1500, estabelecem importantes definições geopolíticas do mundo ocidental e a
difusão da Língua Portuguesa.
1.9.1 O Brasil no mundo da Lusofonia
A etimologia da palavra LUSO-FON-IA (Buyold, 2008) é explicada como LUSOdo latim, lusu- relativo a lusitano, Português, relativo a Portugal.
A Lusitânia era uma das três províncias romanas da Hispânia (Península Ibérica)
que correspondia ao que é hoje o Sul do Douro em Portugal e à Estremadura espanhola.
Os lusitanos eram um dos povos que habitavam esse território na época pré-romana;
sendo considerados os descendentes de uma legendária personagem chamada Luso.
FON- do grego
“som”; “voz”; “palavra”; língua
-IA: sufixo de origem grega que se emprega sobretudo com substantivos
abstratos, derivados de adjetivos e que designam uma qualidade ou defeito, ou a
capacidade ou um estado.
Assim sendo, lusofonia, quer dizer, etimologicamente, a qualidade abstrata do
lusófono que tem a capacidade de falar a língua dos lusos, lusíadas ou portugueses.
26
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
Linguística e culturalmente, a palavra lusofonia designa também uma
comunidade linguística ou uma comunidade de todos os indivíduos que têm em
comum a Língua Portuguesa e que, através dela, partilham aspectos culturais comuns.
Assim, pode-se falar de uma lusofonia mundial. Mais ou menos integrados nesta
comunidade estarão os que falam Português como segunda língua ou estrangeira.
Elas estão presentes em países, regiões, estados ou cidades falantes da
Língua Portuguesa como Angola, Brasil, Cabo Verde, Galiza, Guiné-Bissau, Macau,
Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e por diversas pessoas e
comunidades em todo o mundo. A Língua Portuguesa, com mais de 215 milhões de
falantes nativos, é a quinta língua mais falada no mundo e a terceira mais falada no
mundo ocidental. É o idioma oficial de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, GuinéBissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, sendo falada na antiga Índia
Portuguesa (Goa, Damão, Diu e Dadrá e Nagar-Aveli), Macau e Guiné Equatorial, além
de ter também estatuto oficial na União Européia, no Mercosul e na União Africana.
Nos séculos XV e XVI à medida que Portugal criava o primeiro império colonial
e comercial europeu, a Língua Portuguesa se espalhou pelo mundo, estendendo-se
desde as Costas Africanas até Macau, na China, ao Japão e ao Brasil, nas Américas.
Como resultado dessa expansão, o Português é agora língua oficial de oito países
independentes, além de Portugal, e é largamente falado ou estudado como segunda
língua noutros. Há, ainda, cerca de vinte línguas crioulas de base portuguesa. É uma
importante língua minoritária em Andorra, Luxemburgo, Paraguai, Namíbia, Suíça e
África do Sul. Encontram-se, também, numerosas comunidades de emigrantes, em
várias cidades em todo o mundo, onde se fala o Português como Paris na França;
Toronto, Hamilton, Montreal e Gatineau, no Canadá; Boston, New Jersey e Miami nos
EUA e Nagoya e Hamamatsu no Japão.
Depois de cinco séculos da colonização, nos primeiros anos do 2o milênio, a
sociedade brasileira se apresenta como maior nação de falantes da Língua Portuguesa.
Assim como os outros idiomas, o Português sofreu uma evolução histórica, sendo
influenciado por vários idiomas e dialetos até chegar ao estágio conhecido atualmente.
Deve-se considerar, porém, que o Português de hoje compreende vários dialetos e
subdialetos, falares e subfalares, muitas vezes bastante distintos, além de dois padrões
Unidade
27 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
27
reconhecidos internacionalmente (Português brasileiro e Português europeu). No
momento atual, o Português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de
cem milhões de pessoas com duas ortografias oficiais.
Distribuição geográfica - Em destaque, países e regiões onde o Português é língua
oficial1
LÍNGUA E IDENTIDADE: UM CONTEXTO DE
POLÍTICA LINGUÍSTICA
1.10 As concepções da língua são divididas em três pressupostos:
1. a relação entre unidade linguística e unidade política e o processo de
identidade e nacionalidade;
2. a difusão de língua(s) por meio de instrumentos controlados, usados pelo
ensino, ambientes naturais ou estrangeiros;
3. a capacitação em línguas, mediante programas específicos de formação.
1
28
Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_portuguesa acesso: 10/01/2010 às 22:00.
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
A primeira se dá na utilização efetiva tanto em escala nacional, quanto em
escala mundial, isto é, quanto mais a língua é utilizada mais ela é viva, e se não usada
corre o risco de sua extinção, assim, o seu uso determina o grau de revitalização.
Por outro lado, o mundo globalizado e capitalista está inserido em um mercado
internacional e multiculturalista, por consequência, num canteiro linguístico, onde a
política e a economia são usadas por meio das línguas oficializadas no âmbito dos
Estados.
A língua materna é aquela que aprendemos em casa e que temos como inata.
Ao ingressar na escola, o primeiro objetivo é ensinar a ler e a escrever, nossa língua
maternal (oral) já é dominada a língua materna (oral), a capacidade de comunicar e
construir frases complexas com qualquer falante da Língua Portuguesa.
No entanto, é na primeira série escolar que o aluno deverá adquirir as habilidades
de leitura e escrita, mas, na realidade o número de crianças que são reprovadas sem
saber escrever ou ler corretamente é muito grande. Assim, as aulas de Português não
deveriam se reduzir em “aulas gramaticais”; no lugar delas, deveria haver a aplicação
de um material variado (jornal, revista, literatura etc.) em alta escala. Possenti (2001,
p.143,144) afirma que o ideal é a “escrita constante, várias vezes por dia, todos os
dias, narrativas, cartas etc. Muita leitura e muita escrita, simplesmente porque é assim
que se aprende”.
Sobretudo os professores que atuam hoje e que têm formação de mais de
vinte anos “aprenderam, na universidade, a considerar a língua como um fenômeno
homogêneo, iniciando-se numa gramática formal (sobretudo estrutural), e tomando a
sentença como seu território máximo de atuação” (Castilho, 1998 p.12). Com as novas
propostas e teorias lançadas por diferentes correntes da linguística contemporâneas, a
reação dos professores são de espanto e perplexidade e, em muitos casos, de recusa
total.
Em consequência à rejeição de um novo sistema de ensino, os professores que
atuam nos cursos universitários e que entram em contato com essa nova proposta
científica não conseguem transformar em instrumento pedagógico efetivo para uso
em sala de aula. Mesmo que alguns terminem seus cursos e queiram renovar o ensino
Unidade
29 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
29
da língua materna, vão entrar em choque com as estruturas de um sistema educacional
obsoleto, pouco flexível e muito burocrático, de forma que acaba frustrando os novos
educadores.
Em detrimento ao fracasso que ocorre nas instituições de ensino em relação
à língua materna, foram feitos inúmeros trabalhos contendo discussões e propostas
para uma melhoria efetiva nessa terrível situação em que se encontra o ensino no
Brasil.
Coseriu (1979) enfatiza a sua tríplice oposição que colabora em derrubar o
conceito rígido do sistema linguístico. Ele cita que neste conjunto de fatores que
impedem a prática pedagógica de ter sucesso está na compreensão restrita sobre
o caráter dinâmico da língua e sua diversidade. Coseriu afirma ser possível fazer a
distinção na língua de três séries de características, conforme o grau de abstração e
de formalização:
1. as características concretas, variáveis e invariáveis, dos fatos linguísticos
observados nas infinitas manifestações individuais – a fala;
2. as características normal, comum e mais ou menos constante,
independentemente da função específica dos objetos – primeiro grau de
abstração: a norma;
3. as características indispensáveis, isto é, funcionais – segundo grau de
abstração: o sistema.
Tendo em vista que a norma gramatical é obsoleta e antiquada, não se pode
simplesmente substituir essa norma tradicional por outra atualizada, uma vez que
a função da escola não é ensinar a gramática, e sim introduzir um novo conceito
que vem sendo desenvolvido nas áreas da linguística e da educação, o conceito de
letramento.
Segundo Soares (1999, p.3), letramento é:
30
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
“Estado ou condição de quem não só sabe ler e escrever, mas exerce
as práticas sociais de leitura e de escrita que circulam na sociedade
em que vive, conjugando-as com as práticas sociais de interação
oral...”
A autora ressalta que a escrita traz consequências sociais, culturais, políticas,
econômicas, cognitivas, linguísticas, quer para o grupo social em que vive e para o
indivíduo que aprende a usá-la. Diante disso, o ensino deve ter como objetivo levar
o aluno a adquirir um grau de letramento cada vez mais elevado, desenvolver nele
varias habilidades e um comportamento de leitura e escrita. O ensino tradicional no
Brasil limita-se a ensinar a escrita e a leitura aos alunos que estão iniciando o seu
alfabetizado, tornando o uso da gramática tradicional mecânica, descontextualizadas,
artificial e incoerente. Segundo Soares (1998, p.18), o problema não é só ler e escrever,
mas levar a criança ou adulto a fazer o uso da leitura e da escrita envolvendo práticas
sociais de leitura e escrita.
A Importância da Língua Portuguesa como
segunda língua
1.11 No mundo atual, o conhecimento tornou-se a maior riqueza para um ser
humano. A capacidade de processar esses conhecimentos e, com isso, produzir algo, é
o que faz o homem moderno sobreviver financeiramente, suprindo suas necessidades
básicas ou indo muito além disso. Este homem moderno é formado pela sua educação,
ou seja, pelo ensino ao qual teve acesso, seja por investimento do Estado, no caso do
ensino público, ou por conta própria ou familiar, no caso do ensino privado.
A formação profissional de uma pessoa começa na infância e segue por toda
vida, mas é imprescindível que a educação nesta infância seja eficiente, principalmente
no que tange o ensinamento da língua pátria e a comunicação efetiva. O aprendizado
da Língua Portuguesa, para nós, brasileiros, é o primeiro passo para que toda
uma gama de possibilidades futuras seja concretizada, podendo, a partir deste
Unidade
31 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
31
conhecimento, qualquer pessoa adquirir e/ou desenvolver novos conhecimentos em
campos até distantes da própria língua, como exatas ou biológicas. Mas, como formar
um médico sem que este, em algum momento, tenha aprendido o Português e, com
isso, estudado diversos livros? Podemos transferir esta questão aos deficientes. Como
formar profissionais portadores de deficiência auditiva sem que este tenha acesso a
informações escritas e desenvolvidas por outras pessoas?
Uma vez entendida a importância do aprendizado da Língua Portuguesa, tanto
para ouvintes como para surdos, veremos que conforme Fromkin e Rodman (1993),
a (...) língua de sinais assemelha-se às línguas orais em todos os aspectos principais,
mostrando que verdadeiramente há universais da linguagem, apesar de diferentes na
modalidade em que a língua é realizada.
A aquisição da segunda língua tem três propriedades que se manifestam na
aquisição da língua materna:
1. a universalidade, que corresponde ao fato de que, em condições normais,
todas as crianças adquirem uma língua natural;
2. a uniformidade, que se refere às semelhanças no processo de aquisição a
despeito das consideráveis diferenças nos estímulos do ambiente;
3. a rapidez, que se define em comparação com a manifestação de outras
habilidades como o raciocínio com números, entre outras.
Essas propriedades sugerem que a aquisição da linguagem não é um processo
de imitação, mas deve-se à manifestação de um conhecimento linguístico inato –
a faculdade de linguagem – em face da exposição e dados linguísticos primários.
Essa aquisição é semelhante à habilidade de dirigir carro, tocar um violão, que são
aprendidas por meio de instrução, estratégias para solucionar problemas.
Já a aquisição de língua oral-auditiva para os surdos remete a questões complexas,
tanto no ponto de vista cognitivo como cultural, social e afetivo. Pode-se comparar
a aquisição da língua de sinais para os surdos da mesma forma para os ouvintes
32
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
que estão aprendendo a Língua Portuguesa, isto é, os resultados são semelhantes na
apresentação mental e linguística, e no desenvolvimento nas habilidades cognitivas.
Portanto, é desejável que o surdo aprenda uma segunda língua da comunidade
em que vive, mesmo sabendo que implicaria uma criança surda aprender uma língua
oral, isto é, adquirir propriedades no nível fonológico e prosódico que o seu aparato
auditivo está impedido de aprender. No entanto, essa criança poderá ter acesso à
representação gráficas dessas propriedades, que é a escrita da língua oral. Assim,
o letramento é o ponto de partida na aquisição da língua oral pelo surdo, o que
remete ao processo psicolinguístico da alfabetização e à explicitação e construção das
referências culturais da comunidade letrada.
Um projeto em desenvolvimento: O ensino
de Português como segunda língua
1.12 Em virtude dos problemas de aprendizado nas escolas, foi desenvolvido um
projeto de ensino do Português como segunda língua na área de educação, com a
intenção de contribuir e projetar a Língua Portuguesa no mundo. O Departamento
de Linguística da Universidade de Brasília, desde 2000, vem tomando medidas na
educação com fins acadêmicos que é a Língua Portuguesa que tem como objetivo
principal a pesquisa conjunta que conduza os especialistas a desenvolverem métodos
e técnicas adequadas como língua materna. Essa responsabilidade está no âmbito da
Licenciatura em Português do Brasil como segunda língua.
Foi elaborado o Programa de Gestão para Implantação da Língua Portuguesa
que reúne um conjunto de ações cuja base é a pesquisa acadêmica com vistas à
difusão do Português por meio do ensino que é destinado aos falantes nacionais
ou estrangeiros de outras línguas. Para que essa proposta seja levada em diante,
é necessária a formação de um grupo de trabalho que se proponha a resolver os
problemas linguísticos de comunidades em que o Português é língua não materna ou
estrangeira. Para que uma comunidade seja alvo, deverá ter domínio de outra língua
Unidade
33 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
33
que não seja o Português.
Um dos grupos - Comunidade de Língua Brasileira de Sinais - visa ao
desenvolvimento dos surdos brasileiros pelo meio ensino sistemático da Língua
Portuguesa ao lado da Língua Brasileira de Sinais. Assim nasce a tarefa de instaurar
o bilingüismo nas comunidades de usuários de Libras, cujo processo é de médio a
longo prazo. O conhecimento para ensinar Português, como uma segunda língua, a
falantes da Libras tem como fundamento o fato de que a aquisição de uma língua
natural se processa de acordo com métodos próprios, em função da natureza das
línguas envolvidas. Este processo de aquisição é semelhante, quer nas línguas verbais,
quer nas línguas gestuais, utilizando apenas modalidades de produção e percepção
diferentes: “O homem nasce com a capacidade inata para a linguagem e a sua
aquisição processa-se de forma natural, desde que este esteja inserido num meio
linguístico adequado” (Amaral, Coutinho & Martins, 1994, p. 41).
1.13 Batismo do sinal pessoal
Cada pessoa pode ter seu sinal em Libras. O ato de “dar um sinal” a uma pessoa
recebe o nome de batismo. Possuidora de um sinal próprio, a partir daí, sempre que
for apresentada a um surdo, esta pessoa soletrará seu nome através da datilologia, ou
seja, soletrar cada letra em seguida apresentará o seu sinal se tiver.
Este sinal é dado por um surdo sendo que jamais poderá ser batizado por
um ouvinte, pois o batismo faz parte da cultura surda. O surdo após observar as
características da pessoa ou de algum traço físico, atividade, gesto ou cacoete,
acrescido ou não da letra inicial do seu nome, ele recebe o batismo pessoal – o sinal.
Segue o exemplo do sinal da professora Renata Orselli e como é configurado:
34
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
Vista frontal
Vista lateral
Vista frontal
Vista lateral
Vista frontal
Vista lateral
Vista frontal
Vista lateral
Alfabeto manual da letra R
Classificador – mãos em garra
Unidade
35 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
35
O sinal da professora Renata Orselli e como ele é configurado
Sinal: configuração de mão em CL, deslizando de cima da cabeça até a altura
do nariz em movimento rotatório – meia volta terminando com a letra R (Renata
sempre usou franjas e seu nome começa com a consoante R).
Uma vez batizada, não é costume a pessoa trocar o seu sinal, mesmo que aquilo
que motivou o sinal (o referente) tenha mudado. Por exemplo, Renata foi batizada
com o seu sinal por causa da sua franja. Com o passar dos anos, se ela cortar as franjas
ou deixar crescer, o seu sinal permanece o mesmo.
Dica de L eitu r a
Para saber mais sobre linguagem, língua e a Língua Brasileira de Sinais,
recomendamos as obras a seguir:
LYONS, J. Linguagem e linguística: uma introdução. Rio de Janeiro:
Zahar, 1981.
QUADROS, R. M.; KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira: estudos
linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.
36
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
1.14 Língua Gestual
A língua gestual não é universal, cada país tem sua(s) própria(s) língua(s),
embora se possa traçar um histórico das origens e apontar possíveis parentescos e
semelhanças no nível estrutural das línguas humanas (sejam elas orais ou de sinais).
Assim, nos Estados Unidos, os surdos “falam” a língua americana de sinais; na França,
a língua francesa de sinais, e assim por diante. Vejam os diferentes alfabetos e suas
configurações.
Alfabeto manual da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS
Unidade
37 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
37
O alfabeto manual em Libras é usado para soletrar, essa soletração chama-se
datilologia. Ela é usada para expressar nomes de pessoas, lugares e outras palavras
que não possuem sinal. Essa soletração é representada por hífen.
Ex: J-U-L-I-A, V-O-C-A-B-U-L-A-R-I-O, I-S-S-O etc.
Alfabetos manuais de alguns países:
Alfabeto dos Estados Unidos
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Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
Alfabeto francês
Unidade
39 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
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Alfabeto português
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Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
Alfabeto italiano
Unidade
41 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
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1.15 CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE I
Nesta unidade, pudemos conhecer um pouco da cultura e identidade da
comunidade surda bem como os avanços na área da educação para o surdo ao longo
da história no Brasil e no mundo.
Aqui também ressaltamos a importância da Libras e da Inclusão Social para o
dia-a-dia do surdo, respeitando-o e compreendendo seus direitos como cidadão.
Como parte desta unidade, assista à webaula dos alfabetos manuais da língua
de brasileira de sinais e os exercícios de soletração disponíveis no AVA.
Podcast – gravações de áudio com os principais temas das unidades disponíveis
no AVA.
Como complemento desta unidade, você deve assistir à primeira teleaula
e participar das atividades no ambiente virtual de aprendizagem. Elas são parte
importante de sua aprendizagem.
Para as dúvidas, utilize o nosso Fórum!
42
Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
TESTE SEU CONHECIMENTO
Unidade
43 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
43
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Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
Unidade
45 I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
45
RESPOSTAS COMENTADAS
1. linhas verticais:
primeira linha – b,h,z,s,f
segunda linha – x,i,y,g,v
terceira linha – j,p,l,w,c
quarta linha – k,u,r,c,q
quinta linha - s,o, número 5, letra S na língua gestual francesa, n.
2. primeira coluna à esquerda – luz, feio, vaca e neve.
segunda coluna à direita – nuvem, pai, flor, crer.
3. Abade L´Épée.
4. F, V, F, V, F, V.
Bons Estudos!
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Unidade I - O INÍCIO DA HISTÓRIA...
2
U n i d a d e II
O QUE É LIBRAS
OB J ETIVOS D A UN ID A D E
• Apresentar os conceitos básicos da Libras para a formação e
aplicabilidade dos aspectos estruturais da língua brasileira de sinais
com alunos surdos e ouvintes.
HAB IL IDADE S E C O MP E T Ê N C IA S
• Conhecimentos teóricos e práticos dos aspectos estruturais da
língua brasileira de sinais, tornando-os capaz de identificar as
diferenças e semelhanças com a língua portuguesa.
LIBRAS - é a sigla da Língua Brasileira de Sinais. As línguas de sinais (LS) são as
línguas naturais das comunidades surdas. Ao contrário de que muitos imaginam, as
línguas de sinais não são simplesmente mímicas e gestos soltos, são utilizadas pelos
surdos para facilitar a comunicação. São como estruturas gramaticais próprias.
Atribui-se a Libras o status de língua porque ela é composta pelos níveis
linguísticos: o fonológico, o morfológico, o sintático e o semântico.
2.1 Os sinais
Os sinais são formados a partir da combinação da forma e do movimento das
mãos e do ponto no corpo ou no espaço onde esses sinais são feitos. Nas línguas de
sinais podem ser encontrados os seguintes parâmetros:
UNIDADE II
47
- O QUE É LIBRAS
47
• Configuração das mãos;
• Ponto de articulação;
• Movimento;
• Expressão não manual e/ou corporal;
• Orientação/Direção.
A Língua Brasileira de Sinais e seus
parâmetros de articulação
2.2 Para a confecção de um sinal na Língua Brasileira de Sinais, precisamos usar os
cincos parâmetros desta língua:
• Configuração das Mãos (CM): são as formas que colocamos as mãos para
a execução do sinal. Pode ser representado por uma letra do alfabeto, dos
números ou outras formas de colocar a mão no momento inicial do sinal. A
configuração das mãos é a representação de como estará a mão dominância
(direita para os destros e esquerda para os canhotos) no momento inicial do
sinal. Alguns sinais também podem ser representados pelas duas mãos.
• Ponto de Articulação (PA): é o lugar onde incide a mão configurada para a
execução do sinal. O ponto de articulação parte do corpo ou o sinal poderá
ser realizado num espaço neutro vertical (ao lado do corpo) ou espaço
neutro horizontal (na frente do corpo).
48
UNIDADE II - O QUE É LIBRAS
• Movimento (M): alguns sinais têm movimento, outros não, são sinais
estáticos. Movimento é a deslocação da mão no espaço na execução do
sinal.
• Orientação ou Direcionalidade (O/D): é a direção que o sinal terá para ser
executado.
• Expressão não manual e/ou corporal: (EF/C): muitos sinais necessitam de
um complemento facial e até corporal para que sejam compreendidos.
A expressão não manual são as feições feitas pelo rosto para dar vida e
entendimento ao sinal executado.
Para a realização de um sinal precisaremos atentar para cada um destes
parâmetros, visto que uma pequena mudança já poderá significar outro sinal. Veja a
seguir os pontos de articulação, pois os sinais necessitam ser feitos em vários pontos
do corpo, não somente braços, mas também nos demais membros como: rosto, testa,
nariz, olhos, boca, queixo, bochecha, pescoço, ombro, barriga etc.
UNIDADE II
49
- O QUE É LIBRAS
49
2.3 Expressões: facial e corporal dos sinais
Essas línguas gestuais-visuais possuem sinais que, juntamente com expressões
corporais e faciais, expressam o pensamento que é captado pela visão e decodificado
a partir dos contextos onde estão sendo utilizados. Isso porque existem sinais que
são iguais e a significação depende das expressões, pois a ênfase é que dá fluência às
palavras. Portanto, as expressões faciais e corporais podem retratar uma interrogação,
exclamação, negação, afirmação e/ou ordem.
Expressão facial de negação e afirmação.
50
UNIDADE II - O QUE É LIBRAS
2.3.1 Materiais produzidos e utilizados no ensino de
Libras e da língua portuguesa
Devido à falta de materiais didáticos e pedagógicos para o ensino dos alunos
surdos, desenvolvi algumas ferramentas como estratégia de ensino, por exemplo, as
carinhas de expressão facial, o avental de contar histórias, o jogo com sinais e figuras
etc. Sabe-se que a melhor forma de ensino para crianças surdas é comprovadamente a
utilização do visual e do lúdico, isto é, usar a imagem para melhor fixar e memorizar as
palavras e os sinais. Essa estratégia pode ser usada igualmente com crianças ouvintes
de qualquer faixa etária.
Constatei que não bastava sinalizar as palavras em português, pois, com o
auxílio das figuras, o aprendizado tornava-se mais rápido e de fácil entendimento.
Para sanar as dificuldades de assimilação, houve a necessidade de criação e produção
de materiais que pudessem auxiliar as aulas. No caso dos ouvintes, o aprendizado das
expressões faciais que acompanham alguns sinais é de difícil entendimento, porque,
na língua oral, usamos somente as expressões quando desejamos dar maior ênfase.
Já em Libras, a expressão deve estar associada com os sinais, para que a palavra
tenha seu sentido completo. Por exemplo, a palavra “bravo” deve ser sinalizada como
bravo+expressão facial , assim como para “arrepiado”, a expressão acompanha o
fato de estar arrepiado; se for feito somente o sinal, sem a expressão facial, configurase outra palavra ou descaracteriza-se a palavra, dando um novo significado ou criando
um sinal inexistente.
UNIDADE II
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- O QUE É LIBRAS
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Expressão facial de bravo
Expressão facial de arrepiado + CL
Na tentativa de fazer os alunos entenderem melhor a associação do sinal e
expressão, elaborei um material com algumas expressões faciais usadas nas palavras
em Libras. Esse material foi feito de pano, com formato redondo como o de um rosto
e de fácil manuseio.
A utilização é feita da seguinte forma:
- Primeiro mostra-se a expressão facial, depois, a identificação do seu significado.
Qual é a expressão facial desse boneco?
52
UNIDADE II - O QUE É LIBRAS
- Identificada a expressão facial, irei reproduzir o sinal de bravo.
- Depois, o sinal é reproduzido juntando a expressão facial + o sinal de bravo.
- Por fim é demonstrada a escrita da palavra e seu significado em português,
caso seja um termo de difícil entendimento, haja vista que, para o surdo, algumas
palavras devem ser substituídas por sinônimos, para que ele entenda o significado e
enriqueça o seu vocabulário.
Esse processo é repetido com todas as expressões faciais associadas aos sinais
e palavras. Em seguida, utilizamos o painel de expressões e as características físicas,
tais como cabelo, olhos, boca e nariz. O aluno deverá reproduzir um rosto que terá
uma expressão mais as características faciais. A figura a seguir demonstra o aluno
elaborando o rosto de uma menina sinalizado pelo professor.
UNIDADE II
53
- O QUE É LIBRAS
53
Sinalização do professor antes de o aluno desenhar no painel: uma
menina alegre, cabelos pretos com um laço rosa nos cabelos, nariz pequeno, aparelho
nos dentes e óculos azuis.
Para finalizar o exercício, é feita a associação de cada parte do rosto com as
palavras em português e os sinais em Libras. Com o auxílio desse painel de expressões
e características faciais, pode-se ter uma gama de palavras/sinais para o ensino dos
surdos e dos ouvintes em ambas as línguas, ampliando o seu vocabulário.
Essa atividade demonstra, de acordo com Lyons (1981), que a língua apresenta
flexibilidade e versatilidade. Por meio dela é possível dar vazão às emoções e aos
sentimentos, facilitar a cooperação de companheiros, ameaçar ou prometer, dar
ordens, fazer perguntas ou afirmações. Pode-se fazer referência ao passado, presente
e futuro e até mesmo a noções abstratas.
Outra atividade é o jogo de sinais, que contém figuras de objetos, animais,
alimentos, vestuário etc. e um tabuleiro com as palavras referentes às imagens. O jogo
consiste em associar o desenho à palavra e, em seguida, produzir o sinal. O aluno que
acertar mais palavras/sinais ganha o jogo. Para finalizar o aprendizado, é estudada
cada palavra e o seu significado, sempre fazendo a sinalização. Para o aprendiz surdo,
é de suma importância participar de atividades lúdicas que tornam o aprendizado
prazeroso e de fácil entendimento.
54
UNIDADE II - O QUE É LIBRAS
Tabuleiro de palavras: objetos, animais, alimentos e vestuários.
Em outra atividade, é utilizado o avental de contar histórias. Nessa fase, o aluno
já estará dominando as expressões faciais e um vocabulário suficiente para iniciar uma
história.
O professor veste o avental e sinaliza cada cenário que se pode criar e seus
personagens. O aluno deverá escrever uma história curta utilizando algum cenário
e personagens que foram aprendidos anteriormente, e, em duplas, apresentam a
história com o título, personagens, cenário etc. Nessa atividade, além de exercitar os
sinais já vistos, ele vai produzir e criar uma pequena história escrita. Só posteriormente
serão feitas as devidas correções gramaticais.
Avental de histórias
UNIDADE II
55
- O QUE É LIBRAS
55
Aluna Sílvia (ouvinte) com
Aluna Patrícia (surda)
os personagens:
com os personagens: A Princesa e o Príncipe.
Branca de Neve e a Vovó. Essa atividade permite a criação livre dos diálogos, o desenvolvimento da
imaginação e da criatividade, além de fornecer estímulo à interação entre surdos
e ouvintes. Nesse momento, ambos falam a mesma língua e memorizam de forma
lúdica os novos termos.
A próxima atividade é o jogo do dado, que contém um resumo de todas as
atividades desenvolvidas em sala. Cada lado do dado terá um tema e o dado será
jogado pelo professor em direção ao aluno. O tema que estiver virado para ele deverá
ser sinalizado. Cada lado do dado apresenta:
• Expressões não manuais;
• Expressões + palavras;
• Animais;
• Objetos;
• Classificadores – CL,
• Números.
56
UNIDADE II - O QUE É LIBRAS
Essa atividade visa a fazer uma revisão das aulas para identificar a memorização
dos vocábulos e sinais estudados. Foi constatado que, com o auxílio dos materiais
didáticos, tanto os alunos surdos como os alunos ouvintes tiveram desempenho e
aproveitamento satisfatórios. Observou-se que, quando um deles não lembrava,
sempre havia outro aluno ajudando nos sinais; o professor fazia a mediação apenas
quando era necessário ou solicitado.
O convívio de surdos/ouvintes trouxe uma melhora significativa no
desenvolvimento de ambos, facilitando a assimilação tanto da escrita como dos
sinais. A partir desse entrosamento, verificou-se que o professor surdo que auxilia
as aulas com o professor ouvinte pode, finalmente, “batizar” os alunos ouvintes.
Assim foi utilizado o bolo para simbolizar o primeiro ano na comunidade surda com o
seu próprio sinal (que é analisado em suas características físicas), que será dado pelo
professor. Primeiramente, ensinamos-lhes a canção “Feliz Aniversário” em sinais e,
posteriormente, eles são “batizados”.
Bolo para cantar “Feliz Aniversário”
UNIDADE II
57
- O QUE É LIBRAS
57
Dessa forma, pode-se fazer uma aula mais dinâmica e de fácil assimilação,
tanto para os surdos como para os ouvintes. Essa estratégia é repetida com todos
os materiais produzidos, e os resultados são animadores. Surdos e ouvintes são
observados interagindo de forma igual e aprendendo de forma lúdica.
Cada material deverá proporcionar uma gama de palavras, das quais se forma
uma frase e, dessas frases, um pequeno diálogo e, por fim, tem-se a produção de uma
história. Assim, os alunos ouvintes perceberam a importância da expressão facial e da
corporal, associada aos sinais. É por meio das características físicas de cada indivíduo
que nasce o batismo, sinal que simboliza o nome na comunidade surda. Em Libras,
não há como dissociar a expressão das palavras, pois a expressão complementa e se
incorpora às palavras para dar o seu significado.
Portanto, é importante usar sempre o material didático buscando o visual, pois
o aluno surdo absorve em sua memória a grafia correta de uma palavra, quando
seu significado é associado à palavra escrita. Quando o professor apresenta a escrita
ao lado da imagem, facilita o aprendizado do surdo, promovendo maior interesse
e aproveitamento em relação às novas palavras adquiridas. A atividade lúdica tem
como objetivo gerar prazer em sua execução divertindo o aluno que está praticando.
O lúdico, neste caso, é induzido pela introdução de brinquedos ou brincadeiras mais
livres de regras ou normas; são atividades que não têm como objetivo principal a
competição, e sim uma tarefa prazerosa. As atividades lúdicas também ajudam na
memorização de fatos em testes cognitivos.
Por meio da utilização dessa ferramenta de ensino à criança, também o jovem
e o adulto aprenderão brincando, de maneira agradável. Ela será um fator facilitador
para o aprendizado e, ao mesmo tempo, levará o aluno a desenvolver-se nas diferentes
áreas da educação.
Na educação infantil, as atividades lúdicas favorecem o desenvolvimento
e o aprendizado das crianças. Elas interagem umas com as outras, desempenham
papéis sociais, desenvolvem a imaginação, a criatividade e a capacidade motora e de
raciocínio.
Ferramentas didáticas usadas nas aulas:
58
UNIDADE II - O QUE É LIBRAS
• Permitem a interatividade, como o jogo.
• Trabalham o lúdico.
• Permitem compreensão de novas palavras.
• Trabalham o imaginário e a criação.
• Utilizam e desenvolvem a expressão facial e corporal.
• Facilitam a memorização das palavras.
• Usam a associação do significado ao significante, para uma produção da
escrita mais facilitada.
Quando não se faz uso da atividade lúdica, tanto a criança como o jovem
oferecem resistência à escola e ao ensino, porque, acima de tudo, ela não é lúdica,
não é prazerosa.
Snyders (s/d) defende a alegria na escola, vendo-a não só como necessária, mas
como possível.
A maior parte das crianças em situação de fracasso são as de classe
popular e elas precisam ter prazer em estudar; do contrário, desistirão,
abandonarão a escola, se puderem. (...)
Quanto mais os alunos enfrentam dificuldades de ordem física e
econômica, mais a Escola deve ser um local que lhes traga outras coisas.
Essa alegria, não pode ser uma alegria que os desvie da luta, mas eles
precisam ter o estímulo ao prazer. A alegria deve ser prioridade para
aqueles que sofrem mais fora da escola. (SNYDERS, s/d)
Por meio de atividades lúdicas, o educando explora muito mais sua criatividade,
UNIDADE II
59
- O QUE É LIBRAS
59
melhora sua conduta no processo de ensino-aprendizagem e sua autoestima.
Considera-se, portanto, necessário que as brincadeiras sejam direcionadas; que
possuam um objetivo, porque são importantes no desenvolvimento afetivo, motor,
mental, intelectual, social, enfim, no desenvolvimento integral da criança.
2.3.2 Material didático usado no aprendizado dos
surdos/ouvintes no ensino de Libras e da língua
portuguesa.
Dado: animal, verbos, palavras, números.
Bolo para cantar “Feliz Aniversário”
60
UNIDADE II - O QUE É LIBRAS
Expressão Facial
Avental para contar histórias
Jogo de expressão facial e partes do rosto
Jogo de palavras e sinais
Dica de Leitu r a
A expressão facial não só dá vida e ênfase ao sinal como também é
necessário na configuração dos sinais, sem ela o sinal poderá ter outro
significado. Para melhor compreensão do uso das expressões faciais e
corporais da Libras consulte o livro Nós falamos com as mãos. O livro
é ilustrativo e de fácil compreensão, tanto para alunos como para
professores.
FRANZ, J. Huainigg e BALHAUS, Verena – Nós falamos com as mãos –
1ª Ed. São Paulo:
Scipione, 2006. QUADROS, R. M de. Línguas de sinais: instrumento de avaliação.
Porto Alegre: Artmed, 2011.
Dica de F ILME
O filme “Escritores da Liberdade” aborda de forma comovente e
instigante, o desafio da educação em um contexto social problemático
e violento. A novata professora terá de enfrentar problemas em sala e
adotar novos métodos e estratégias de ensino com o objetivo de ensinar
tolerância mútua.
O milagre de Anne Sullivan
Sinopse: A incansável tarefa de Anne Sullivan (Anne Bancroft), uma
professora, ao tentar fazer com que Helen Keller (Patty Duke), uma
garota cega, surda e muda, se adapte e entenda (pelo menos em parte)
as coisas que a cercam. Para isto entra em confronto com os pais da
menina, que sempre sentiram pena da filha e a mimaram, sem nunca
terem lhe ensinado algo nem lhe tratado como qualquer criança.
UNIDADE II
61
- O QUE É LIBRAS
61
2.4 CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE II
Observamos a importância do uso de materiais lúdicos para o ensino da libras/
português, pois proporciona ao aluno diversas habilidades na aquisição da língua. Para
encontrar mais materiais didáticos consulte o link no AVA – materiais didáticos/
libras.
É importante também que você assista à segunda teleaula para complementar
seus estudos
desta unidade.
62
UNIDADE II - O QUE É LIBRAS
TESTE SEU CONHECIMENTO
UNIDADE II
63
- O QUE É LIBRAS
63
RESPOSTAS COMENTADAS
1. primeira linha horizontal: sério, orgulhoso, indignado, desconfiado
segunda linha horizontal: alegre, aceitação, admirado, bravo
2. a)
3. F, V, V e V
Bons Estudos!
64
UNIDADE II - O QUE É LIBRAS
3
U n i d a d e III
ASPECTOS EXTRUTURAIS DA
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
OB JET IVOS D A UN ID A D E
• Apresentar algumas particularidades da língua, a criação e aplicação
de estratégias de ensino lúdica em sala de aula.
HAB IL IDADE S E C O MP E T Ê N C IA S
• Conhecimentos dos aspectos estruturais e as configurações dos
sinais nos diferentes pontos de articulação.
3.1 Características da Língua de Sinais
A Língua de Sinais usa a modalidade visuo-espacial, que se distingue da
modalidade oral-auditiva utilizada pelas línguas orais.
A pesquisadora Lucianda Ferreira Brito (1995, p.11) diz que a linguística
brasileira é pioneira no estudo da Língua Brasileira de Sinais (Libras), e que o canal
visuo-espacial pode não ser o preferido pelo ser humano para o desenvolvimento da
linguagem, pois a maioria das línguas naturais são orais-auditivas.
Podemos entender que nas línguas orais há um universo linguístico também
identificado na língua de sinais. Nesse sentido, a investigação das propriedades das
línguas de sinais abre novo horizonte para o entendimento das línguas naturais, além
de proporcionar o desenvolvimento de tecnologias que possam contribuir para a
socialização do surdo e a afirmação dos seus valores culturais.
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA65
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
65
Segue como exemplo a língua de sinais e seu universo linguístico, encontrados
em línguas orais.
3.2 Construção e formação da Libras
Para fins de simplificação, os sinais, em Libras, serão representados com letras
maiúsculas na Língua Portuguesa. Ex: MENINA, SALA.
Na datilologia, alfabeto manual, nomes de pessoas, lugares e outras palavras
que não possuem sinal, estarão grafados com separação por hífen letra a letra.
Ex: C-A-R-I- N-A, I-S-S-O.
Os verbos serão apresentados no infinitivo. Todas as concordâncias e conjugações
são feitas por gestos específicos de passado ou futuro.
Ex: EU SABER FALAR.
As frases obedecerão à estrutura da Libras, e não à do português.
Ex: ELE TRABALHA SUPERMECADO? (Ele trabalha no supermercado?)
Os pronomes pessoais serão representados pelo sistema de apontação. Apontar,
em Libras, é culturalmente e gramaticalmente aceito. Para conversar em Libras, não
basta conhecer os sinais de forma solta, é necessário conhecer a estrutura gramatical
da língua, para combiná-los em frases.
Exemplo: Pronome pessoal – você. O locutor aponta para o enunciador.
66
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
Os sinais podem ter um movimento ou não. Por exemplo, o sinal EM PÉ não
tem movimento; já o sinal FLOR possui movimento.
Sinal de flor – com movimento
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA67
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
67
Sinal de em pé – sem movimento
A modalidade gestual-visual-espacial pela qual a Libras é produzida e percebida
pelos surdos leva, muitas vezes, a pensar que todos os sinais são o “desenho” no ar do
referente que representam. É claro que, por decorrência de sua natureza linguística,
a realização de um sinal pode ser motivada pelas características do dado da realidade
a que se refere, mas isso não é uma regra. A grande maioria dos sinais da Libras são
arbitrários, não mantendo relação de semelhança alguma com seu referente : são os
sinais icônicos e arbitrários.Os sinais icônicos são gestos que fazem alusão à imagem
do seu significado, como, por exemplo, o sinal de telefone e o de borboleta.
Isso não significa que os sinais icônicos são iguais em todas as línguas. Cada
sociedade capta facetas diferentes do mesmo referente, representadas por seus
próprios sinais. (BRITO, 1993).
68
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
Os sinais arbitrários são aqueles que não mantêm nenhuma semelhança
com o dado da realidade que representam. Uma das propriedades básicas de uma
língua é a arbitrariedade existente entre o significado e o referente. Durante muito
tempo, afirmou-se que as línguas de sinais não eram línguas por serem icônicas, não
representando, portanto, conceitos abstratos. Isso não é verdade : em língua de sinais,
tais conceitos também podem ser representados em toda a sua complexidade, como,
por exemplo, o sinal de “conversar” e “depressa”.
3.3 SINAIS E SUAS CONFIGURAÇÕES
Como vimos anteriormente, os sinais devem ter expressão facial e são sinalizados
tocando o corpo ou em um espaço neutro. Vejamos alguns exemplos dos sinais e das
configurações das mãos.
3.3.1 ORIENTAÇÃO ESPACIAL
A mão configurada pode tocar parte do corpo ou um espaço neutro vertical ou
horizontal.
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA69
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
69
Exemplo 1: sinal que toca parte do corpo - FAMÍLIA
Exemplo 2: sinal no espaço neutro - TRABALHAR
CLASSIFICADORES - São as formas de colocarmos as mãos para a execução
do sinal. É representado por uma letra do alfabeto, do número ou outras formas no
momento inicial do sinal.
70
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
Exemplo: GATO E DOMINGO.
GATO
DOMINGO
3.3.2 Leitura dos movimentos das figuras (sinais)
As figuras representam os sinais e como elas são sinalizadas. É de suma
importância saber fazer a leitura e a interpretação desses movimentos. O movimento
dá vida e intensidade à palavra, por essa razão a importância de saber sinalizar com
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA71
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
71
mais leveza ou não. Vejam alguns exemplos dos movimentos.
Exemplos: A palavra FOGO é configurada por um classificador, com movimentos
longos repetidos e com vibração nas pontas dos dedos.
A palavra SEMPRE é configurada pelo V deitado com o movimento em zig-zag
para frente.
72
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
A palavra “MAIS OU MENOS” é configurada por um classificador, com a mão
dominante aberta e dedos afastados, com os movimentos médios semicirculares
repetidos.
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA73
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
73
3.4 Formas de cumprimento
Algumas formas de cumprimentos podem ou não vir com expressão facial.
Nos casos que veremos a seguir, pode-se notar que os sinais de cumprimento na sua
maioria são sinalizados por dois gestos para ter o seu significado, como por exemplo
a palavra: BOM DIA!. Deve-se primeiramente sinalizar a palavra BOM + DIA, e assim
por diante.
Exemplo: BOA TARDE!
BOM DIA!
74
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
BOA NOITE!
Já para o sinal de Oi e [email protected], usa-se somente uma sinalização com a mão
predominante, porém o sinal de [email protected] pode ser sinalizado com as duas mãos uma mão na testa e a outra no meio do tronco, a expressão facial depende da ênfase
que você quer colocar.
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA75
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
75
3.5 CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE III
Assista à nossa terceira teleaula e participe das atividades e interações na
plataforma de estudos como complementação desta unidade. Abaixo seguem
sugestões para leitura para que você possa se aprofundar mais nesses temas. Bons
estudos!
Dica de L eitu r a
QUADROS, R. M. Educação dos surdos: aquisição da linguagem.
Porto Alegre: ArtMed, 1997.
SEGALA, R. S. e KOJIMA, K. C. Libras: Língua Brasileira de Sinais a
imagem do pensamento. vol. I, Ed. Escala, 2008.
76
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
TESTE SEU CONHECIMENTO
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA77
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
77
78
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA79
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
79
RESPOSTAS COMENTADAS
1. d)
2. c, d, f, e, g, b, h, a, i e j
3. b)
Bons Estudos!
80
UNIDADE III - ASPECTOS EXTRUTURAIS DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
4
Unidade IV
AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
OB JET IVOS D A UN ID A D E
• Apresentar a formação de verbos, adjetivos, números, meses,
variações lingüísticas e a signwrinting para que consiga identificar,
aplicar e construir a língua brasileira de sinais seguindo as regras
estruturais do idioma sem interferir na configuração dos sinais
articulados. HAB IL IDADE S E C O MP E T Ê N C IA S
• Construção e elaboração de conceitos da língua por meio de novos
vocabulários.
Algumas diferenças entre a Libras e o
Português
4.1 Utilizando o livro “Libras em Contexto”, (Tanya 2001), demonstraremos como
funcionam os pronomes na Língua Brasileira de Sinais e, assim, poderemos entender
a dificuldade do deficiente auditivo em aprender sua forma na língua escrita.
4.2 Pronomes interrogativos
Na Libras, há uma tendência para a utilização, no final da frase, dos pronomes
interrogativos – QUAL, COMO E PARA QUÊ, e para a utilização, no início da frase, do
UNIDADE IV81
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
81
pronome interrogativo POR QUE. Como na modalidade da Língua Portuguesa, não há
diferença entre o “por que” interrogativo e o “porque” explicativo, pois o contexto
mostra, pelas expressões facial e corporal, quando ele está sendo usado em frase
interrogativa ou em frase explicativa/causal.
Exemplos:
Blusa mais bonita. Estampada ou lisa qual? (Pronome comparativo)
Você ler livro?Qual nome?
Nome “Vendo vozes”
4.3 Pronomes indefinidos
Os pronomes indefinidos NINGUÉM (exemplo -1) e NINGUÉM, conforme os
exemplos citados abaixo, são usados somente para pessoa; NINGUÉM/NADA/NENHUM
(exemplo -2) (mãos abertas esfregando uma na outra) é usado para pessoa, animais
e coisas; NENHUM/NADA (dedo polegar e indicador com o formato oval e os outros
dedos estendidos, mão com movimento balançando) é usado para pessoas, animais e
coisas e pode, em alguns contextos, ter o sentido de “não-ter”.
Exemplo:
NINGUÉM (1)
- Ter-não ninguém casa.
não NENHUM (2)
- Você ter carro?
- Eu nenhum carro.
82
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
4.4 Adjetivos
Os adjetivos são sinais que formam uma classe específica na Libras e sempre
estão na forma neutra, não havendo, portanto, nem marca para gênero (masculino e
feminino), nem para número (singular e plural).
Muitos adjetivos, por serem descritivos, apresentam iconicamente uma
qualidade do objeto, desenhando-a no ar ou mostrando-a a partir do objeto ou corpo
do emissor. Em Português, quando uma pessoa se refere a um objeto como sendo
arredondado, quadrado, listrado, entre outros, está também descrevendo, mas, na
Libras, esse processo é mais “transparente” porque o formato ou textura são traçados
no espaço ou no corpo do emissor, em uma tridimensionalidade permitida pela
modalidade da língua.
Exemplo:
Leão cor corpo amarelo perigoso. / Meu pai velho.
4.5 Advérbio de Tempo
Na LIBRAS há expressões específicas para representar freqüência de uma ação
e alguns são expressões idiomáticas:
NUNCA pode ter sinal e sinal soletrado;
FREQUENTE E FREQUENTEMENTE possuem a mesma configuração de mão,
mas para a segunda ideia que tem o aspecto contínuo, o sinal é feito repetidamente;
SEMPRE (continuar) e MESMO possuem a mesma configuração de mão, mas
para o primeiro há um movimento para frente do emissor, o segundo fica no mesmo
ponto de articulação inicial.
UNIDADE IV83
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
83
• As dificuldades que o deficiente auditivo tem em compreender a Língua
Portuguesa
Analisaremos a visão do deficiente e suas dificuldades na compreensão da Língua
Portuguesa, pois o olhar do surdo para um texto em Português é desconcertante, pois
a percepção sensorial do surdo é essencialmente visual, portanto seu acesso e domínio
são restritos.
Em Libras, usa-se o verbo no infinitivo, já em Português, o verbo é uma palavra
de forma variável que exprime o que se passa. Isto é, um acontecimento representado
no tempo, e vem conjugado para estabelecer suas variações como, por exemplo,
número, pessoa, modo, aspecto e de voz.
Número: Singular e Plural (estudo – estudos)
Pessoa: Eu e Nós (estudo – estudamos)
Modo: Indicativo, subjuntivo e imperativo (para indicar dúvida, suposição etc.).
Tempos: Momento que dá o fato: presente, passado e futuro (estudei, estudara,
estudasse).
Aspecto: Diferencia o ponto de vista do qual o locutor considera a ação expressa
pelo verbo. Incluindo também o valor semântico pertinente ao verbo ou ao contexto.
(João começou a comer; João continuou a comer).
Exemplos: Para ilustrar a estrutura das frases em Libras, mostraremos nos textos
que seguem como é fácil perceber e identificar os aspectos divergentes do Português.
a) Eu tomo banho e coloco roupa. Eu ligo máquina de lavar. Eu como café de
manhã. Eu como almoço. Eu faço lanche por meus filhos. Eu durmo às 22:00.
b) Português é muito difícil para mim. De gramática de Português confunde me.
84
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
c) Eu moro em Brasília, até hoje é 2 meses. Dos brasilienses estão pessoas feliz. Eu
tenho os amigos brasilienses. Eles são pessoas boa. Eles ajudam para mim. Eu
gosto morar aqui, mas tenho problemas com falando. Eu escrevo mais. Tchau.
Pode-se notar nos textos o uso de frases curtas, a omissão de artigos,
inadequação lexical e a falta de preposição, a falha na colocação do advérbio de
negação, concordância nominal e o excesso de itens lexicais, o uso inadequado de
preposição, pronome e a omissão do verbo ser.
O aprendiz de uma segunda língua utiliza várias estratégias para descobrir a
gramática da língua-alvo. Cada texto apresentado foi produzido por uma pessoa que
tem como língua materna uma outra diferente e apresenta características próprias.
Os textos têm seu enunciado curto, característico de textos escritos por surdos
que costumam apresentar vocábulos reduzidos, com ausência de artigos, concordância
verbal, preposição e o uso reduzido de diferentes tempos verbais, verbos de ligação
(ser, estar etc.).
Para aprender uma segunda língua deve-se ter o conhecimento do léxico, que
possuem informações sintáticas, semânticas e fonológicas.
Língua portuguesa e a língua brasileira de
sinais: uma breve análise.
4.6 Com o auxilio da língua de sinais, o professor poderá fazer intercâmbio com o
aprendiz surdo, de modo que possa, por analogia, demonstrar as semelhanças e as
diferenças da utilização do verbo nas linguagens, tornando o seu aprendizado mais
fácil.
Esta unidade tem como objetivo demonstrar agora, exatamente estas diferenças
UNIDADE IV85
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
85
verbais entre a Língua Portuguesa e a Língua Brasileira de Sinais, bem como a análise e
a compreensão do papel do verbo em ambos idiomas, logo que o verbo é a ferramenta
mais importante nas construções e compreensão de frases, segundo Tesnière (1969,
p.102).
Uma vez encontrado um ponto em comum quanto à estrutura verbal de ambas
as línguas torna-se mais fácil essa compreensão. Analisaremos o aspecto e o tempo dos
verbos em Libras e na Língua Portuguesa. Sabe-se que tempo relaciona o momento da
ação, e aspecto designa a maneira como o falante vê a ação.
4.6.1 As diferenças verbais entre a Língua Portuguesa
e a Libras
O olhar do surdo para um texto de Português é desconcertante, pois a percepção
sensorial do surdo é essencialmente visual, portanto seu acesso e domínio são restritos.
Como vimos anteriormente, as estruturas gramaticais se diferenciam. Em Libras,
usa-se o verbo no infinitivo, já em Português o verbo é uma palavra de forma variável
que exprime o que se passa, isto é, um acontecimento representado no tempo, e que
vem conjugado para estabelecer suas variações como, por exemplo, número, pessoa,
modo, aspecto etc.
Entende-se por verbo a unidade de significados categorial que se caracteriza
por ser um molde pelo qual se organiza o falar e seu significado lexical. Segundo
Tesnière, o verbo é a ferramenta mais importante na construção e compreensão de
frases, pois ele estabelece, também, uma hierarquia das relações sintáticas. O verbo
ocupa o posto mais alto da oração, tanto na Libras como na Língua Portuguesa.
Tem papel determinante para que a comunicação tenha êxito, e assim, o interlocutor
compreenda a mensagem do locutor.
Apresentam-se, a seguir, as categorias do verbo, comparando as características
da Língua Portuguesa com base nos autores Celso Cunha (2001) e Quadros (2004). Esta
86
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
tabela foi retirada da monografia realizada na especialização em Língua Portuguesa
com o tema “A distinção na forma do uso do verbo entre Língua Portuguesa e Língua
Brasileira de Sinais” pela PUC de São Paulo.
Língua Portuguesa
Língua Brasileira de Sinais
Pessoa
Determina a relação dos participantes no acontecimento comunicado com os participantes no ato da
fala.
Pessoa
Flexão que muda as referências pessoais do
verbo (deixis) apontamento para a pessoa.
Número
Refere-se aos participantes no acontecimento comunicado e daí adquire capacidade quantificadora (está
ligada a pessoa no verbo flexionado).
Número
Flexão que indica o significado, o dual, o trial,
o múltiplo.
Grau
Não tem.
Grau
Apresenta distinção para menor, mais próximo,
muito etc.
Modo
Assinala a posição do falante com respeito à relação
entre a ação verbal e seu agente ou fim, isto é, o que
o falante pensa dessa relação.
Modo
Apresenta distinções tais como os graus de
facilidade.
Tempo ou nível temporal
Assinala a relação temporal do acontecimento comunicado com o momento do ato de fala: o presente,
passado e futuro.
Tempo
Presente, passado e futuro.
Aspecto
Assinala a ação levada até o fim, isto é, como
conclusa (perfeita) ou inconclusa (imperfeita). Certas
espécies de ação: durativa, invocativa, terminativa etc.
Aspecto
Indica distinções do tempo: tais como: há
muito tempo etc.
Reciprocidade
Não tem.
Reciprocidade
Indica relação ou ação mútua.
Foco temporal
Foco temporal
Indica aspectos temporais: início, aumento,
graduação, progresso etc.
Aspecto distributivo
Não tem.
Aspecto distributivo
Indica distinção: alguns especificados, não
especificados, para todos etc.
Estado
Afeta a qualidade lógica do sucesso comunicado
(afirmativo, negativo, interrogativo etc.)
Estado
Não tem.
Categorias Distintas
Não possuem esta categoria
Categorias Análogas
UNIDADE IV87
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
87
Dêixis – É uma palavra grega que significa “apontar” ou “indicar”- descreve
uma forma particular de estabelecer nominais no espaço que são utilizados pelos
verbos com concordância como parte de sua flexão.
A marcação do tempo verbal em Libras
A formação dos tempos verbais, por exemplo, em LGP – Língua Gestual
Portuguesa, é a mesma formação da Língua Brasileira de Sinais. Constrói-se,
essencialmente, em três espaços físicos imaginários que envolvem o gestuante, isto é,
o gestuante serve de referência temporal. Assim, no espaço atrás do ombro, marca-se
o passado, no espaço imediato à frente do tronco, marca-se o presente e, finalmente,
num espaço mais afastado à frente do corpo, marca-se o futuro, como se pode
observar na figura a seguir:
Espaço imaginário de marcação temporal na LGP e LSB.
88
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
4.6.2 Quando a Língua Brasileira de Sinais e o
Português são semelhantes
No livro “Ensino da Língua Portuguesa para Surdos”, Salles (2004 p.85),
podemos compreender que a Libras é uma língua moderna e viva como o Português,
tendo muitos aspectos similares de formação, adaptação e compreensão.
Como foi constatado, há distinção na forma do uso do verbo entre a Língua
Portuguesa e a Língua Brasileira de Sinais. Sobre isso veja uma apresentação das
discussões sobre a ordem das palavras no campo da linguística. A autora (Quadros,
1999) apresenta vários tipos de estrutura de frase da língua de sinais brasileira.
A ordem das palavras é um conceito básico relacionado com a estrutura da
frase de uma língua. As línguas podem variar suas ordenações das palavras. Greenberg
(1966) observou que de seis combinações possíveis de sujeito (S), objeto (O) e verbo
(V). Algumas delas são mais comuns do que outras, e mesmo com essas variações
cada língua elege uma ordenação de palavras como a dominante, observa Greenberg.
Conforme as suas investigações, a ordem dominante sempre será SOV, SVO ou VSO.
Os verbos na Língua Brasileira de Sinais estão divididos em três classes:
a) Verbos simples – são verbos que não flexionam em pessoa e número e não
incorporam afixos locativos. Alguns desses verbos apresentam flexões de
aspecto. Exemplo: conhecer, amar, aprender, saber, inventar, gostar.
b) Verbos com concordância – são verbos que se flexionam em pessoa, número e
aspecto, mas não incorporam afixos locativos. Exemplo: dar, enviar, responder,
perguntar, dizer.
c) Verbos espaciais – São verbos que têm afixos locativos. Exemplo: colocar, ir,
chegar.
Os dois tipos de verbos e o auxiliar: repercussões na estrutura da frase.
UNIDADE IV89
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
89
As formas verbais utilizadas na língua de sinais são divididas em duas classes:
os verbos sem concordância e os verbos com concordância.
Os verbos sem concordância são aqueles que exigem argumentos explícitos,
uma vez que não há marca alguma no verbo com os argumentos da frase (TER, FALAR,
AMAR, CONHECER). Já os verbos com concordância estão associados à marcação
não-manuais e ao movimento direcional (DIZER, ENTREGAR, AJUDAR, REMETER),
como ilustra os desenhos a seguir:
TER
FALAR
DIZER
ENTREGAR
Essas classes de verbos já foram estudadas em outras línguas de sinais (Bellugi
e Klima, 1979; Liddel, 1980) e foram reconhecidas suas assimetrias morfológicas.
Demonstraremos a seguir as repercussões sintáticas diferenciadas entre sentenças
que contêm os dois tipos de verbos e a assimetria entre eles (verbos com e sem
concordância):
1. Verbos com concordância parecem apresentar mais liberdade na sua
ordenação do que aqueles contendo verbos sem concordância.
90
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
MARIA DO JOÃO OLHAR
JOÃO OLHA PARA MARIA
2. As marcas não-manuais são obrigatórias nos verbos com concordância e
opcionais nos verbos sem concordância.
JOÃO GOSTAR MARIA
JOÃO GOSTA DA MARIA
3. Argumentos nulos contendo verbos com concordância ocorrem em contexto
sintático em oposição às sentenças contendo verbos sem concordância.
UNIDADE IV91
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
91
AMANHÃ DAR LIVRO/AMANHÃ VOCÊ DARÁ O LIVRO
4. Há uma distribuição diferente da negação entre sentença contendo verbos
com e sem concordância.
JOÃO NÃO DAR LIVRO
JOÃO NÃO DEU O LIVRO PARA ELA
Essas diferenças podem ser explicadas através da análise de Lasnik (1995) para
a assimetria morfológica observada entre os verbos principais e os verbos auxiliares
no inglês. Lasnik propôs que os verbos principais seriam aqueles que apresentam
uma operação fonológica e os auxiliares seriam inseridos e flexionados no processo
de derivação. Observando os verbos com e sem concordância na língua de sinais,
92
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
percebe-se que os verbos com concordância têm o mesmo comportamento que os
verbos auxiliares no Inglês, já os verbos sem concordância atuam como os verbos
principais no inglês. Conforme os exemplos a seguir, podemos verificar essa analogia.
1. Os verbos principais não podem preceder a negação. (John likes not Mary)
O mesmo é observado na Língua de Sinais Brasileira com os verbos sem
concordância:
Ex: João <Gostar não carro>
2. Os verbos principais não podem ser seguidos da negação sem a presença de
do-support (Jonh not likes Mary e John does not like Mary). Isto é também
observado na Língua Brasileira de Sinais: com um verbo de concordância
a sentença é boa, mas sem o verbo de concordância a sentença será boa
somente com um auxiliar.
JOÃO NÃO DAR LIVRO (com verbo com concordância)
JOÃO NÃO DEU O LIVRO
UNIDADE IV93
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
93
JOÃO (AUX) NÃO GOSTAR
COM VERBO SEM CONCORDÂNCIA COM AUXILIAR
JOÃO NÃO GOSTA DELA
A concordância nas línguas de sinais como elemento gramatical justifica-se a
partir de vários aspectos gramaticais, afirma Rathmann e Mathur (2002), e Quadros
(1999). Veja os exemplos que seguem:
a) as formas para primeira pessoa e não-primeira pessoa são diferentes;
b) a presença de marcação de número nos verbos apresenta múltiplas formas em
diferentes línguas de sinais;
c) a existência de auxiliar em algumas línguas de sinais expressam a relação sujeitoverbo-objeto nas construções com verbos que não marcam concordância;
d) Rathmann e Mathur (2002) verificaram que a concordância verbal na língua de
sinais está associada com diferentes tipos de verbos em relação às propriedades
semânticas de seus argumentos (seleção de argumentos animados e inanimados).
A concordância verbal está presente com objetos diretos/indiretos animados.
Assim, caracteriza-se a concordância em termos estruturais.
Para Quadros (1999), as classificações dos verbos na língua de sinais brasileiras
são os de sem e com concordância verbal; no entanto, há outras manifestações que
94
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
compreendem expressões verbais como, por exemplo, os verbos chamados manuais
e os classificadores.
Os verbos manuais envolvem uma configuração de mão em que se represente
segurar um objeto na mão. Esses verbos finalizam a sentença e pode-se incluir os
classificadores que incorporam a informação verbal da sentença, pois, também
incorporam o objeto quando este é o caso. Por exemplo:
JOÃO CASA PINTAR-ROLO (JOÃO PINTA A CASA COM ROLO)
Verbos Manuais – a configuração da mão pintar-rolo representa estar
segurando o objeto (rolo).
JOÃO CARRO BATER-POSTE (O JOÃO ESTAVA DE CARRO E
BATEU NO POSTE, DETONANDO COMPLETAMENTE O VEÍCULO)
UNIDADE IV95
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
95
Verbos classificadores – na última figura é demonstrada a mão representando
o carro e a outra o poste, na figura anterior nota-se que a configuração da mão reto
(carro) depois que bate ele fica detonado (dobrada) junto ao poste. Esses sinais são
chamados de classificadores, pois incorporam o objeto.
Há viabilidade de entendimento entre estas diferentes formas de emprego do
verbo para que sejam compreensíveis entre si.
Vamos analisar dois pontos encontrados em comum nas duas línguas, o tempo
e o aspecto verbal. É preciso entender que em Língua Brasileira de Sinais usa-se
geralmente o verbo no infinitivo, mas, como foi demonstrado anteriormente, os verbos
sem concordância são os que não se flexionam em pessoa e número e não tomam
afixos locativos, mas alguns deles se flexionam em aspecto. Como, por exemplo, os
verbos: ter e falar. Esses tipos de verbos são aqueles que exigem argumentos explícitos,
uma vez que não há marca nenhuma no verbo com os argumentos da frase. Os
verbos sem concordância apresentam uma operação fonológica de afixação de sua
desinência verbal durante o processo de derivação.
Abaixo, a representação da estrutura da frase para a Língua Brasileira de Sinais.
IP
Spec
Posição em que
os sujeitos são gerados
I
VP
I
Posição ocupada por
afixos, modais e tempo
V
Posição ocupada pelo verbo
DP
Posição ocupada pelo
objeto
Estrutura da frase com verbos sem concordância
Fonte: Livro Língua de Sinais Brasileira – Estudos Linguísticos (p. 169).
96
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
4.6.3 Tempos e aspecto verbais
Tempo
A categoria linguística tempo relaciona o momento da ação, do acontecimento
ou do estado referido na sentença ao momento em que é citado o enunciado, o
`agora´. Na relação entre esses dois momentos, dispomos de três possibilidades básicas:
passado, presente e futuro. Esses marcadores podem ser ordenados de forma linear,
conforme Reichenbach (1966):
1. Momento da fala (MF): o momento em que é proferido o enunciado (escrito
ou falado).
2. Momento do evento (ME): o momento da ação, do acontecimento ou do
estado.
3. Momento de referência (MR): um outro momento temporal em relação ao
qual o evento pode ser situado.
Ao usar os marcadores temporais, o falante acrescenta um ponto de referência
a mais, transferindo o posicionamento temporal para um momento no futuro. A
estrutura desse tempo verbal será: momento da fala situa-se temporalmente antes
do momento do evento que, por sua vez, é localizado como anterior ao momento de
referência. Assim, aplicando a proposta linear, em que a linha indica que o ponto da
esquerda é interpretado como temporariamente anterior ao da direita.
Como segue o exemplo: MF_ME_MR (estrutura temporal do futuro perfeito
composto)
UNIDADE IV97
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
97
Seguem dois exemplos de estrutura verbal em Português:
1. Isabel está comendo graviola. - MF, MR_ME (a vírgula indica que os
momentos são considerados como concomitantes).
2. Mariana comeu graviola demais. – ME, MR_MF.
Aspecto
O aspecto designa a maneira como o falante vê a ação, o acontecimento ou o
estado verbal, isto é, seu ponto de vista diante dos eventos verbais.
Em Português tem essa distinção aspectual em relação aos tempos do passado.
Por exemplo, ideia de continuidade, duração do processo verbal, sem delimitação de
seu começo ou fim.
1. Eu ia ao cinema. (tempo: pretérito imperfeito; aspecto: imperfectivo).
2. Eu fui ao cinema ontem. (tempo: pretérito perfeito; aspecto: perfectivo).
4.6.4 Tempo e aspecto em Libras
Em Libras, o tempo e o aspecto não estão codificados por meio de processos
flexionais no verbo. Há, entretanto, marcadores de tempo não-verbais (ontem,
amanhã), bem como recursos que consistem na repetição de sinais para indicar a
progressão ou repetição do evento. Em alguns casos, acontece a incorporação da
marca de aspecto no próprio item lexical. Por exemplo, em Libras pode representar em
Português uma locução ou expressão (olhar-observando, olhar-várias-vezes).
Para o ensino da Língua Portuguesa como segunda língua, deverá o professor
98
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
saber diferenciar bem a distinção entre tempo e aspecto verbais, e a distinguir esses
dois elementos relacionados ao verbo, para melhor compreensão do aprendizado do
aluno surdo.
Atividade aplicada com alunos surdos: Leitura, compreensão e
identificação dos verbos no livro “Nós falamos com as mãos”.
O objetivo dessa atividade é demonstrar que o aluno surdo é capaz de identificar,
no livro “Nós falamos com as mãos”, os verbos e distinguir os tempos e os aspectos
verbais, bem como fazer a produção de um texto escrito.
Portanto, o ensino/aprendizagem da segunda língua aos alunos surdos será,
assim, o Português escrito, isto é, a compreensão e a produção escrita, considerando
todo aspecto já mencionado anteriormente quanto ao fato da ausência de trocas orais.
O texto escrito não pode se restringir a transmitir informações estruturais e lexicais,
mas caberá ao aluno surdo assumindo o papel de contextualizador, trazendo aspectos
pragmáticos, sociolinguísticos e culturais. Os textos selecionados para trabalhar com
esses aprendizes devem:
1. ser autênticos, sempre que possível;
2. conter temas relacionados à experiência dos alunos surdos, levando a um
maior envolvimento pessoal e provocando reações e manifestações;
3. estar associados a imagens – a boa opção seria artigos de revistas, jornais e
livros que costumam ser ilustrado.
Essas características devem ser observadas no ensino do surdo para a Língua
Portuguesa, pois o procedimento proposto nela está relacionado à concepção
UNIDADE IV99
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
99
interacionista, pois proporciona ao aluno maior envolvimento e com o texto. Na
abordagem interacionista, a concepção de língua é:
“A língua é concebida como um meio para a realização de
relações interpessoais e para o desempenho de transações sociais
entre indivíduos. Ela é vista com um instrumento para a criação e
manutenção das relações sociais”. (Richards & Rodgers, 1986, p.17).
Por essa abordagem, no caso de uma produção de texto e a identificação
dos verbos, é importante deixá-los buscar no seu texto as partes com que mais se
identificam. Uma vez que ele trabalhe com um material que esteja relacionado com a
sua história e cultura, será mais fácil prender a sua atenção, despertando, assim, uma
maior afinidade com o material trabalhado em sala.
Depois de escolhido o material adequado para ser trabalhado com o aluno
surdo, é importante, antes, explicar as semelhanças e diferenças encontradas na
Língua Portuguesa e na Língua Brasileira de Sinais, demonstrando os vários fatores,
a seu favor, para conseguir de maneira mais fácil trabalhar com a língua que tanto
assombra os surdos, pois até então não se usava nenhuma estratégia para alcançar a
alfabetização da segunda língua. Bem sabemos que a língua materna dos surdos – a
Libras – acontece de maneira natural.
O livro “Nós falamos com as mãos” é de leitura rápida e fácil. É a história de
uma menina chamada Elisa, surda desde que nasceu. Ela questiona o som do mundo,
das estrelas, do mar etc. Elisa queria fazer amigos, pois havia acabado de mudar para
o bairro e queria ser aceita por todos, até que um dia conheceu Tomás que, para a sua
alegria, conseguia conversar com ela através de sinais. Este livro, além de conter uma
linda história ele oferece, também, informações importantes sobre a vida e cultura dos
surdos, bem como os meios de comunicação, dicas, sites, curiosidades e um alfabeto
dos sinais.
A produção do texto escrito vem depois da explicação das diferenças e
semelhanças quanto ao uso do verbo entre a Língua Portuguesa e a Língua Brasileira
100
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
de Sinais. Após demonstrar que ele é capaz de identificar o verbo no texto produzido
por ele mesmo, é oferecido o livro como leitura e, depois, a produção de um resumo
da história “Nós falamos com as mãos”.
Finalmente, após a produção, deverá identificar no seu resumo todos os verbos,
e depois encontrar o tempo verbal: presente, passado e futuro.
Nesse momento, espera-se que será mais fácil conjugar os verbos encontrados
e explicar, com outros exemplos, o tempo e o aspecto do verbo na Língua Portuguesa.
Em seguida, veremos uma produção do resumo do livro e a identificação dos
verbos que estão sublinhados por uma aluna surda que foi alfabetizada pela sua
língua materna – Libras – e, após, tornar-se aprendiz da segunda língua – a Língua
Portuguesa.
UNIDADE IV101
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
101
Aplicação e objetividade da tarefa
Para iniciar a tarefa, foi proposta uma leitura de fácil compreensão e que ao
mesmo tempo parecesse atrativo ao surdo, e para isto foi escolhido o livro “Nós
falamos com as mãos”. Como o objetivo da tarefa é a análise da capacidade de
identificação dos verbos, bem como a determinação do tempo e aspecto verbal de sua
utilização, foi pedido ao surdo que após a leitura do livro ele produzisse um resumo
do livro sublinhando os verbos contidos em seu próprio texto. Além da explicação da
tarefa, foi oferecido o vocabulário desconhecido pelo aluno e pedido que cada verbo
por ele encontrado fosse analisado quanto ao tempo verbal, podendo ser presente,
passado ou futuro.
O exemplo que demonstraremos a seguir foi aplicado na surda Patrícia D.
P., de 24 anos, que após a contração de meningite aos 5 anos de idade, perdeu
a audição em ambos ouvidos. A sua língua materna é a Libras, sendo alfabetizada
posteriormente no ensino médio e fundamental com a utilização da leitura labial,
além da própria língua de sinais. Contemplada pelas leis recentes de inclusão social,
conseguiu finalizar o curso de pedagogia da Universidade de Mogi das Cruzes, tendo
como auxílio no curso, o oferecimento de uma intérprete de Libras na sala de aula.
Hoje, Patrícia D. P. é professora de Libras para ouvintes e surdos.
Primeira aplicação
Apresentada a proposta da tarefa e executada a apresentação do livro com a
devida explicação sobre o resumo e observações, foi pedido que a aluna fizesse por
analogia, uma ponte entre os dois idiomas, o Português e a Libras, para perceber as
semelhanças entre eles, e também utilizasse seus conhecimentos prévios da Língua
Portuguesa para analisar sua diferença com a língua de sinais.
102
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
Primeira produção do resumo: Nós falamos com as mãos.
UNIDADE IV103
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
103
Análise da primeira aplicação
No texto produzido pela Patrícia, fica clara a influência da utilização da
estruturação da língua de Sinais, como um estrangeiro que carrega sua língua
materna no aprendizado de uma segunda língua. Como exemplo disso podemos citar
a utilização do verbo no infinitivo, a construção de frases curtas sem pontuação, bem
104
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
como a falta de artigos. O resumo é breve, mas apesar de suas dificuldades, consegue
narrar em poucas palavras a história, demonstrando o entendimento do livro e seu
foco.
Podemos observar também a falta de critérios estéticos implícitos em uma
apresentação, como a falta do título no livro, no resumo, como também de seu
nome. A não realização do complemento do trabalho de sublinhar os verbos do
texto demonstra a dificuldade que existe na compreensão total da tarefa, além de
impossibilitar nossa análise quanto ao uso de palavras que se encontram fora do
contexto verbal, por exemplo: “que, ela e frente”, mas pode-se verificar que os verbos
selecionados na sua maioria estão classificados corretamente, como: “era, pegava e
dançava”. Cabe ressaltar que alguns verbos não aparecem no infinitivo e as frases
começaram a ganhar formas verbais apropriadas.
Segunda aplicação
Como a realização da primeira tarefa não foi satisfatória, fez-se uma nova
proposta à aluna para que a mesma fizesse o resumo novamente completando o
trabalho sublinhando os verbos e os analisando, objetivando a superação de suas
dificuldades. Foi proposto um conjunto de procedimentos práticos, envolvendo não
só a leitura, mas também a produção escrita. Assim, foram propostas e desenvolvidas
as seguintes etapas:
1ª etapa: Refazer a leitura do livro e anotar os pontos mais importantes da história;
2ª etapa: Ao iniciar a produção do resumo, colocar data, nome e o título do livro;
3ª etapa: Sublinhar todos os verbos;
4ª etapa: Classificar todos os verbos encontrados e dar os tempos verbais (presente,
passado ou futuro) de cada um.
UNIDADE IV105
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
105
Segunda produção do resumo: Nós falamos com as mãos
106
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
Análise da segunda aplicação
Na segunda aplicação nota-se uma grande melhora tanto na produção como na
organização do texto. O resumo possui frases maiores, ganha algumas vírgulas, além de
UNIDADE IV107
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
107
pontos finais. O texto obedece às etapas que foram propostas na segunda produção,
colocando o título do livro, seu nome e sublinhando os verbos e os classificando.
Com muita propriedade, a aluna emprega os verbos de maneira correta, mesmo
quando usa algumas palavras que não estão dentro do contexto verbal e, embora não
devam ser classificadas como tais, elas possuem relação com o aspecto e tempo.
Por exemplo:
Agora e já – Foram grifados como verbos e, em Libras, possuem o sentido de
um acontecimento no presente, “já” na Língua Portuguesa é advérbio de tempo,
portanto, pelo sentido que ela usou está correto.
Muito – Advérbio de intensidade refere-se ao tempo, em Libras é usado no
mesmo sentido que da Língua Portuguesa.
Nota-se também que no caso das palavras “muito bom”, o verbo está explícito
na concepção da aluna, isto é, como o verbo de ligação “é” não é sinalizado na
construção das frases em Libras, a aluna sinalizou as palavras que pareciam conter o
verbo “oculto”.
Análise Final
A Língua Portuguesa possui uma complexidade maior que a Língua Brasileira de
Sinais, assim, devemos organizar o aprendizado do Português para surdo por etapas,
como o ensino do verbo, por diferenças e semelhanças, e quanto ao aspecto, e tempo
e suas flexões.
É importante salientar que, juntamente com esta adaptação de linguagem
(Libras para o Português), é essencial que a ortografia seja ensinada, isto é, a grafia
correta das palavras inclusive com o uso dos acentos.
Faz-se necessário entender que o deficiente auditivo, como nós ouvintes,
108
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
só absorve em sua memória a grafia correta de uma palavra quando associa seu
significado à palavra escrita. Um exemplo é a diferença entre palavras: “mau” e “mal”,
que só poderá ser esclarecida quando associada ao contexto de uma frase. O surdo
poderá aprender a escrever corretamente, assim que for capaz de adquirir uma leitura
satisfatória e a praticar com veemência.
Para que o surdo consiga começar a compreender a Língua Portuguesa, temos
de partir do conhecimento prévio que ele possui e, assim, demonstrar a formação
da estrutura do Português, por exemplo, a conjugação dos verbos, a aplicação dos
gêneros, o uso do artigo etc. Esse intercâmbio pode tornar a vida social e a trajetória
acadêmica do surdo muito mais fácil.
O verbo tem um papel fundamental na construção de frases, na comunicação
em geral. Em Libras, ele é usado apenas na forma do infinitivo. Um exemplo do
processo de aprendizado do surdo é fazê-lo compreender que, no caso da Língua
Portuguesa, este verbo que ele conhece no infinitivo tem variações ortográficas, isto
é, uma forma de flexão relacionada a cada pronome pessoal. Este conhecimento será
difícil de ser assimilado a princípio, mas, pelo exercício de repetição, exemplos e muita
leitura o aluno surdo gravará a conjugação correta e sua grafia.
Ex: Eu comer maçã (Libras) - Eu como maçã (Português)
Você comer maçã (Libras) - Você come maçã (Português)
O gosto pela leitura é entre todas as soluções a mais eficaz. Tão logo o deficiente
auditivo tenha acesso a livros e chegue a compreendê-los iniciando-se por aqueles mais
simples e ilustrativos, a prática da leitura fixará e ajudará o surdo a entender e praticar
a gramática correta da Língua Portuguesa e suas diferenças para a língua de sinais.
Assim, é importante saber que a falta da audição não é sinônimo de incapacidade
UNIDADE IV109
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
109
intelectual e, sim, uma deficiência que, hoje, com os amparos legais e com o auxílio
de um profissional devidamente preparado, os surdos poderão efetivamente tornar-se
indivíduos participativos e produtivos na sociedade. Para tanto, deve-se considerar
que desde o seu ensino da sua língua materna e a segunda língua sejam respeitadas
e administradas de forma que não leve o surdo ter dificuldades ao acesso à educação,
que ele tem todo o direito.
O professor deverá primeiramente buscar um material que seja de interesse
ao surdo, para que ele consiga despertar a vontade de aprender sem achar que o
seu maior inimigo “Língua Portuguesa” seja o seu obstáculo, mas a sua garantia
de ingresso ao mundo em que vive. Dessa forma, é de suma importância fazer essa
analogia que estabelece os pontos em comum em ambas as línguas e descobrir as
diferenças, de modo que permita entender os tempos e aspectos dos verbos.
4.7 Características das línguas de sinais
A Língua de Sinais usa a modalidade visuo-espacial, que se distingue da
modalidade oral-auditiva utilizada pelas línguas orais.
Salienta Lucianda Ferreira Brito (1995 p.11), que:
“...A linguística brasileira é pioneira no estudo da Língua Brasileira de
Sinais (Libras), e que o canal visuo-espacial pode não ser o preferido
pelo ser humano para o desenvolvimento da linguagem, sendo que a
maioria das línguas naturais são oral-auditivas”
Podemos entender que é encontrado nas línguas orais um universo linguístico,
também identificados na língua de sinais. Nesse sentido, a investigação das propriedades
das línguas de sinais abre novo horizonte para o entendimento das línguas naturais,
além de proporcionar o desenvolvimento de tecnologias que possam contribuir para a
110
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
socialização do surdo e a afirmação dos seus valores culturais.
Segue, como exemplo, uma ilustração das siglas que identifica a língua de
sinais e seu universo linguístico, encontradas em línguas orais.
4.7.1 Língua de sinais encontrada em cinco
continentes
LIBRAS / LSB – Língua de Sinais Brasileira
LGP – Língua Americana de Sinais
LSF – Língua Francesa de Sinais
ASL – American sign Language
HSE – Hausa Sign Language (Nigéria)
LIS – Língua Italiana Dei Segni
BSL – British Sign Language
LSA – Lengua de Señas Argentina
LSC – Lengua de Senãs Chilena
LSA – Língua de Sinais Australiana
JSL – Japanese Sign Language
LSQ – Langue des Signes Québecois
LSUK – Língua de Sinais Urubu Kaapor
UNIDADE IV111
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
111
4.7.2 Representações gestuais da língua de sinais
A Língua de Sinais Brasileira não é universal porque cada língua é portadora da
cultura das pessoas que a utilizam e, tendo a comunidade surda uma cultura própria,
a Libras é diferente das demais línguas gestuais. Também os alfabetos manuais dos
diversos países apresentam diferenças entre si, na maioria das suas configurações.
A primeira configuração da letra A na Língua Gestual Portuguesa, na American
Sign Language (Americana) e na Langue de Signes Françoise (Francesa).
Não há línguas primitivas – todas as línguas são igualmente complexas e
igualmente capazes de expressar qualquer ideia. O vocábulo de qualquer língua pode
ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos.
Um exemplo é o sinal que designa o correio eletrônico (e-mail) criado no
contexto do recente surgimento dessa tecnologia.
112
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
Todas as línguas mudam ao longo do tempo, segue abaixo um exemplo de
diacronia na palavra pessoas, que antes era feito com as duas mãos e agora somente
com uma mão na testa.
As relações entre sons e significados das línguas faladas e entre os gestos (sinais)
e os significados das línguas de sinais são em sua maioria arbitrárias. Em línguas de
sinais, é reconhecida a motivação icônica de muitos sinais. No entanto, existem
também sinais imotivados.
UNIDADE IV113
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
113
Todas as línguas humanas utilizam um conjunto de sons discretos (ou gestos)
que são combinados para formar elementos significativos ou palavras, os quais, por
sua vez, formam um conjunto infinito de sentenças possíveis. Todas as gramáticas
contêm regras de um tipo semelhante para formação de palavras e sentenças.
Toda língua falada inclui segmentos sonoros discretos, como p, n, ou a, os quais
podem ser definidos por um conjunto de propriedades ou traços. Toda língua falada
tem uma classe de vogais e uma classe de consoantes. Línguas de sinais apresentam
114
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
segmentos discretos na composição dos sinais. Como ressalta em Ferreira – Brito (pó.
Cit.: 35), “às línguas de sinais exibem a dupla articulação, isto é, unidade significativa
ou morfemas, constituídas a partir de unidade arbitrárias e sem significado ou
morfemas (Klima & Bellugi, 1979)”. As unidades constitutivas do sinal são:
• Configuração de mão (CM)
• Ponto de articulação (PA)
• Movimento (M)
• Orientação (Or)
• Expressões não-manuais (ENM)
Pode–se identificar o caráter fonológico das unidades constitutivas do sinal
fato que os sinais podem se distinguir pela diferença em uma delas: Os sinais a
seguir indicam contrastes no ponto de articulação (compare aprender e sábado) e na
expressão não-manual (laranja e sábado):
Todas as línguas apresentam categorias gramaticais (ex: nome, verbo).
UNIDADE IV115
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
115
De acordo com Lemle (2002), em línguas de sinais, predominantemente
`coisas´ são representadas por configurações de mão, e `mudanças´por sucessões de
movimentos e sustações. Trata-se de um processo produtivo de movimentos, um sinal
que contém as propriedades lexicais, e um sinal denotador de `evento´.
Universais semânticos, com fêmeas ou macho, animado ou humano, são
encontrados em todas as línguas. As diferenças nos sinais a seguir indicam a codificação
do traço [+/- animado].
116
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
É importante salientar que a língua de sinais é utilizada por uma comunidade
onde as características pessoais são das mais diversas, sem esquecer que no universo
do surdo possuem inúmeras pessoas, como os membros familiares, colaboradores
e ouvintes que utilizam desta língua para se comunicarem com os deficientes
auditivos. Mesmo entre eles existem vários níveis de surdez e motivos para tal, sendo
imprescindível o estudo da faculdade física do ouvido, as causas e as características
da surdez.
Em relação ao ensino de Libras, cada país usa sua própria língua de sinais nas
comunidades de surdos, diferente da língua usada na mesma área geográfica. Isso
ocorre porque essas línguas são independentes das línguas orais: foram produzidas
dentro das comunidades surdas. Portanto, cada país tem sua própria língua, seja na
forma oral ou de sinais a exemplo do Brasil, onde a língua oral é o português e a
língua de sinais é a Libras; na França, a língua oral é o francês e, na língua de sinais,
é a Língua de Sinais Francesa – LSF e assim por diante. Desse modo, por não ser
uma língua de sinais universal, pode-se observar, nas figuras, os diferentes pontos de
articulação, movimento etc. Como a palavra (sinal) NOME:
Língua de Sinais
Americana – ASL
Língua de Sinais
Brasileira - Libras
UNIDADE IV117
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
117
Além disso, dentro de um mesmo país, há variações regionais, por exemplo,
na língua oral, a palavra mandioca, nome pelo qual é conhecida a espécie comestível
e mais largamente difundida do gênero Manihot, composto por diversas variedades
de raízes comestíveis. O nome dado ao manihot é maniva, de origem do oeste do
Brasil (sudoeste da Amazônia). No Brasil, a maniva tem muitos sinônimos usados
em diferentes regiões: aipi, aipim, castelinha, macaxeira, mandioca-doce, mandiocamansa, maniva, maniveira, pão de pobre e variedades como aiapuã e caiabana, ou
nomes que designam apenas a raiz, como caarina.
Todas se referem ao mesmo produto, mas o nome varia conforme a região,
o que não significa que não seja conhecido, mas, pelo fato de não conseguir fazer
referência ao nome recebido em determinado lugar, é necessário explicar, para que seja
compreendido. No Brasil, a Libras apresenta dialetos regionais, ou seja, apresenta as
variações de sinais de uma região para outra, no mesmo país. A variação é observada
quando os diferentes sinais significam a mesma palavra. Em alguns casos, não somente
o ponto de articulação (PA) é diferente como também a própria configuração das
mãos (CM); já em outras regiões, o único parâmetro de articulação diferente é a CM.
Ex: O sinal da cor verde: essa variação regional é configurada completamente
diferente de uma região para outra, para o mesmo significado.
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
Rio de Janeiro
São Paulo
Curitiba
A variação social tem variações nas configurações das mãos e/ou no movimento,
porém não modifica o sentido do sinal. Ponto de articulação, movimento, orientação e
direção são iguais; o que vai determinar a variação, nesse caso, é somente a configuração
das mãos. Observe o sinal de avião no estado de São Paulo e no Rio de Janeiro.
Sinal de avião SP
Sinal de avião do RJ
UNIDADE IV119
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
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Portanto, os usuários da língua podem incluir o literal e o não literal das
expressões nos seus discursos, observando que o uso demasiado, provavelmente, será
mal interpretado ou não compreendido. Assim, o “significado”, ou “significados”
de uma expressão linguística deve apresentar características comuns compartilhadas
entre os usuários da língua, para que os interlocutores se entendam.
4.8 Pronomes Pessoais
A Libras possui um sistema pronominal para representar as pessoas do discurso,
não é necessário tocá-las para identificar a pessoa, isto é, basta apontar na direção e
direcionar o olhar e retornar imediatamente para a pessoa com quem está conversando.
Na língua de sinais, usa-se a apontação para indicar as pessoas (eu, tu, ele, ela, nós,
vocês e eles), para indicar localização (aqui, ali e lá) e para pronomes demonstrativos
(este, esse, esta e essa).
Exemplo:
VOCÊ – aponta para o interlocutor (pessoa com quem se fala) com o
indicador.
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
EU – aponta para o peito do enunciador (pessoa que fala) com o dedo
indicador.
Pronomes pessoas – primeira pessoa do singular.
4.8.1 Gênero Masculino e Feminino
Na língua de sinais não há desinência para gênero (masculino e feminino)
e número. O sinal, representado por palavras da Língua Portuguesa que possui
essas marcas, será terminado com o símbolo @ para reforçar a ideia de ausência.
Como por exemplo: [email protected] (amiga ou amigo), [email protected] (ele ou ela), [email protected]
(meu ou minha), [email protected] (este ou esta) etc.
Como em Libras não tem essas marcas dos gêneros, os sinais geralmente
são os mesmos para o masculino e feminino.
UNIDADE IV121
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
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Exemplo: [email protected] (Ela ou ele)
Pronome pessoal – primeira pessoa (singular, dual, trial, quatrial e plural):
Eu, nós-2, nós-3, nós-4, nós-grupo, nó[email protected]
Primeira pessoa do plural: nós-2, nós-3, nós-4, nó[email protected]
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
Segunda pessoa (singular, dual, trial, quatrial e plural): você, você-2, você-3,
você-4, você-grupo, você[email protected]
Segunda pessoa do plural: você-2, você-3, você-4, você[email protected]
Colocar o plural
UNIDADE IV123
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
123
124
UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
4.9 Números e dias da semana
4.9.1 Números cardinais
Os números cardinais são representados em duas formas, a primeira é
configurada com o polegar para indicar quantidades de coisas e objetos. A segunda
configuração é com o polegar para indicar os números, e os movimentos são feitos
com a mão dominante e com movimento parada.
Exemplo:
Números configurados com o polegar
UNIDADE IV125
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
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Números configurados com o indicador.
Números cardinais
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
4.9.2 Números ordinais
Os números ordinais são sinalizados com a mesma configuração dos números
cardinais, mais a vibração das mãos. Os números ordinais são usados para indicar
os andares de um prédio – primeiro andar, segundo andar e a colocação como, por
exemplo, primeiro lugar, segundo lugar
Exemplo: dos números ordinais.
1º primeiro, segundo, terceiro, quarto etc.
Dias da semana
Os dias da semana são configurados pelos dedos da mão dominante e o seu
ponto de articulação é na têmpora ao lado do olho (esquerdo ou direito). Porém
UNIDADE IV127
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
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sexta-feira, sábado e domingo o ponto de articulação muda, em frente à boca e rosto.
SEGUNDA-FEIRA
dedo indicador e médio
TERÇA- FEIRA
dedo indicador, médio
e anular
QUARTA-FEIRA
dedo indicador, médio,
anular e mínimo
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
SEXTA-FEIRA
dedo indicador flexionado em X
QUINTA-FEIRA
dedo indicador e médio,
configurado no número 5
DOMINGO
dedo configurado em D, na frente do
rosto com o movimento circular 1x.
SÁBADO
a configuração começa em
C e termina em S
UNIDADE IV129
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
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QUARTA-FEIRA – dedo indicador, médio, anular e mínimo
Meses do ano
Janeiro
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
Fevereiro
Março
Abril
UNIDADE IV131
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Maio
Junho
Julho
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
Agosto
Setembro
Outubro
UNIDADE IV133
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
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Novembro
Dezembro
MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A TECNOLOGIA PARA
OS SURDOS
4.10 A maior barreira para o surdo é a comunicação, quando o código é o som.
A comunicação dos surdos depende exclusivamente de aparelhos, implantes,
fonoaudióloga e subterfúgios que não necessitam desse código.
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
Importante ressaltar que o surdo, mais do que qualquer outra pessoa, precisa
aprender a ler, escrever, contar e entender.
Portanto, não se deve associar falta de audição à falta de capacidade e
inteligência. Esse preconceito é desmistificado quando percebemos que os surdos
podem e são capazes de realizar ações mediadas pelo uso da língua.
4.11 O mundo é das palavras
Alguns produtos e meios de comunicação usados para a comunicação dos surdos
com os ouvintes e com a sua própria comunidade surda e familiares possibilitaram a
integração com o mundo em que vive. Vejamos alguns desses produtos:
• Telefone para surdos – TDD ou TS: Existem no mercado diversos tipos de
telefones TDD para a comunidade de surdos e ouvintes, basta solicitar aos
órgãos competentes.
UNIDADE IV135
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
135
• Serviços da telefônica – 1402 (SP): comunicação ouvintes com surdos
• Sinalização luminosa (para campainhas): quando tocar a campainha, a luz
piscará várias vezes.
• Chamada luminosa de telefone para surdos: ao tocar o telefone, a luz
acenderá acompanhando o toque do telefone.
O photo phone P-300 é um telefone amplificado que permite a inserção de
pequenas fotos sobre as teclas, sendo que pode-se programar o número de telefone
na memória. Ideal para pessoas com deficiências visuais e auditivas.
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
• Despertador e relógio com alarmes vibratórios.
• receptor de choro de bebê: enquanto o bebê estiver chorando, a luz piscará
continuamente.
• TV: legenda escritas e janelas em Libras: closed caption.
• Celular: atualmente o principal meio para se comunicar: com vibrador
(recebe e envia e-mails; mensagens de texto; torpedos, câmera; vídeo).
Torpedo Rybená® é um serviço de telefonia móvel que permite receber e enviar
mensagens de texto na Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS. Pessoas com deficiência
auditiva poderão, através da animação de imagens no celular, se comunicar em LIBRAS,
UNIDADE IV137
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
137
como também visualizar as mensagens recebidas em texto. Ouvintes poderão enviar
Torpedos Rybená®, que serão convertidos para LIBRAS, viabilizando, dessa forma, a
comunicação através do uso de duas línguas (Português x LIBRAS).
C onhe ç a mais
Para saber mais sobre o telefone móvel e os torpedos Rybená, acesse o
link rubena/libras no AVA.
4.12 O QUE É SIGNWRITING?
SignWriting é um sistema visual de escrita que torna possível ler, escrever e
digitar qualquer Língua de Sinais no Mundo. SignWriting utiliza símbolos visuais
que representam configuração de mão, movimento e expressões faciais de qualquer
Língua de Sinais.
O alfabeto de SignWriting pode ser comparado com o alfabeto Romano. O
alfabeto Romano é usado para escrever o Inglês, Espanhol, Francês e muitos outros
idiomas falados. “ABC” é entendido por pessoas na Itália, Alemanha e Dinamarca.
Embora cada língua falada seja diferente, todas utilizam o alfabeto Romano para
escrever, pois ele é baseado em sons fonéticos.
Da mesma forma, os símbolos do alfabeto de SignWriting são internacionais
e podem ser usados para escrever os movimentos de qualquer Língua de Sinais no
Mundo. Cada língua de sinais é muito diferente uma da outra, mas o alfabeto de
SignWriting pode ser usado para escrever todas elas.
SignWriting dá a oportunidade para que surdos escrevam sua própria literatura
como livros, jornais e dicionários escritos diretamente em sinais. Ele pode ser utilizado
para ensinar matemática, ciência e história para crianças surdas ou pode ser usado
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
para ensinar sinais a iniciantes, ajudando-os a relembrar novos sinais aprendidos em
Sala.
Posição das mãos e a representação da escrita.
4.13 SignWriting - Escrita de Sinais
Respostas do exercício – ano, mostrar, namorado, família surdo.
UNIDADE IV139
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
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Compare o sinal de família (Libras) com a escrita de Sinais – SignWriting
Exemplo: ano e família
Sinal na Língua de Sinais Brasileira – ANO
E a escrita de sinais – SignWriting
Sinal da Língua de Sinais Brasileira – FAMÍLIA
E a escrita de sinais - SignWriting
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
Novos vocabulários: desenho, classificador, sinalização e
datilologia
UNIDADE IV141
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
Dica de Leitu r a
Para melhor entendimento do aspecto da estrutura da Libras é
necessário ficar atendo aos detalhes para quando for iniciar um sinal.
Alguns sinais são configurados no espaço neutro horizontal ou vertical,
outros possuem movimentos ou não, as expressões faciais são parte da
configuração etc. Todos esses elementos fazem parte dos aspectos e da
formação do sinal em Libras. GESSER, A. Libras? Que língua é essa? ed. Parábola: 2009.
RODRIGUES, C.; TOMITCH, L. M. B. & COLS. Linguagem e cérebro
humano: contribuição multidisciplinares. Porto alegre: ArtMed,
2003.
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- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
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4.14 CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE IV
Acabamos assim o nosso livro didático da disciplina Libras. Acredito que esta
leitura possa ter lhe ajudado a compreender melhor a cultura e o universo que envolve
o cotidiano dos surdos. É importante perceber que, como qualquer outra língua,
precisamos continuar o estudo e a prática para o aprimoramento e fluência.
Espero, assim, ter despertado em você o interesse e também a importância
desta disciplina principalmente para a área da educação. Lembre-se que você deve
acompanhar esta leitura com as outras mídias, acessando o Podcast e a Webaula no
AVA.
Para fechar esta unidade, assista ou reveja à quinta teleaula. Em caso de
dúvidas, leve-as para o nosso Fórum e participe das atividades on-line.
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
TESTE SEU CONHECIMENTO
UNIDADE IV145
- AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
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RESPOSTAS COMENTADAS
1. c)
2. a) V b) F
3. c)
Bons Estudos!
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UNIDADE IV - AS CONVENÇÕES DA LIBRAS
REFERÊNCIAS
BÁSICA
CAPOVILLA, Fernando Cesar e RAPHAEL, Walkiria Duarte – Dicionário Enciclopédico
Ilustrado Trilíngue –Língua de Sinais Brasileira – LIBRAS – volume I e II – 3ª Ed - São
Paulo – Edusp – 2008.
FELIPE, Tanya; MONTEIRO, Myrna. LIBRAS em contexto: Curso Básico: Livro do
Professor. 4ª Ed. Rio de Janeiro: LIBRAS, 2005.
FRANZ, J. Huainigg e BALHAUS, Verena – Nós falamos com as mãos – 1ª Ed. São
Paulo: Scipione, 2006.
COMPLEMENTAR
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO – Ensino de Língua Portuguesa para surdos – caminhando
para a prática pedagógica – Programa Nacional de apoio à Educação dos Surdos –
volume I e II – Brasília, 2004.
MOURA, Maria Cecília; VERGAMINI, A. Antonialli Sabine e CAMPOS, L. R. Sandra –
Educação para Surdos: Práticas e Perspectivas – 1ª Ed. São Paulo: Santos, 2008.
QUARDROS, R. M. Educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre:
Artmet, 2008.
RONICE, Müller de Quadros e LODEMIR, K. Becker – Língua de Sinais Brasileira –
Estudos Linguísticos – Porto Alegre: Artmed, 2004.
147
REFERÊNCIAS
147
SÁ, R. L. de. Cultura, poder e educação de surdos. Manaus: Ed. da Ufam, 2002.
SEGALA, R. S. e KOJIMA, K. C. Libras: Língua Brasileira de Sinais a imagem do
pensamento. vol. I, Ed. Escala, 2008
GESSER, A. Libras? Que língua é essa? Ed. Parábola: 2009.
O autor dos textos presentes neste material didático assume total
responsabilidade sobre os conteúdos e originalidade.
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Proibida a reprodução total e/ou parcial
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REFERÊNCIAS
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introdução à língua brasileira de sinais - libras