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ANÁLISE DE UNIDADES DE PAISAGEM NO JARDIM PAULISTA EM PRESIDENTE PRUDENTE ‐ SP Elaine Cristina Barboza, Larissa Nunes Hashimoto, Yasmin Santos Gomes Fervença, Bruna Roberta de Lima, Antonio Jaschke Machado Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Professor Doutor, Departamento de Geografia., Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) Faculdade de Ciências e Tecnologia de Presidente Prudente (SP). E‐mail: jaschke.machado@gmail.com RESUMO Este estudo objetivou realizar a análise ambiental por meio da distinção de unidades de paisagem (NUCCI, 2008). É descrito em detalhes o Jardim Paulista, bairro prioritariamente de classe média e média baixa da cidade de Presidente Prudente, SP e baseando‐se em referenciais teóricos, estudos socioeconômicos, históricos, ambientais, físicos e levantamentos de campo (foram medidas algumas variáveis climáticas fundamentais: temperatura do ar, umidade relativa e intensidade do vento); reconheceram‐se unidades paisagísticas a partir da distribuição espacial da cobertura vegetal, ocupação, zoneamento e verticalização. Para cada um dos elementos da paisagem apontados percebe‐se uma influência em relação ao meio ambiente urbano. As variáveis apresentaram uma distribuição espacial que reflete a interferência da superfície na atmosfera urbana. A caracterização de unidades de paisagem, em associação com o levantamento de dados climáticos na base da camada do dossel urbano, mostrou‐se uma ferramenta que pode ser útil para planejamento e gestão no ambiente construído. Palavras‐chave: Paisagem Urbana. Clima. Análise Ambiental. Ambiente Construído. Cidades Médias. INTRODUÇÃO E OBJETIVO Ao passo que as cidades evoluem, sofrem modificações em escalas diferentes, enquanto algumas áreas são mais expostas às transformações, outras são menos afetadas. Este estudo, realizado no bairro Jardim Paulista na cidade de Presidente Prudente (SP), propõe uma análise ambiental por intermédio da distinção de unidades de paisagem (NUCCI, 2008), e demonstra que ao longo dos anos, com o desenvolvimento da cidade, ainda que na escala do bairro, surgem paisagens urbanas variadas e diferentes entre si. Ainda segundo Nucci (2008), relacionando‐se certos indicadores observados in loco é possível compreender unidades de paisagem, estas podem colaborar na gestão do meio ambiente e no planejamento local; o autor observa também que o respeito ao meio físico é fundamental para que o crescimento das cidades não prejudique sua qualidade ambiental. Colloquium Humanarum, vol. 9, n. Especial, jul–dez, 2012 Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão, Presidente Prudente, 22 a 25 de outubro, 2012 197
METODOLOGIA Observações em campo tornaram factível a caracterização física, ambiental, histórica e de contexto urbano e socioeconômico do bairro. Em seguida, determinaram‐se cinco pontos para a coleta de dados de umidade relativa, temperatura do ar e velocidade do vento, aferidos no dia 11 de novembro de 2011, entre 14h30 à 15h20; utilizando‐se de um termohigrômetro e um anemômetro ‐ ambos os equipamentos destinados a uso em áreas externas; e por meio de cálculo, os dados referentes à umidade relativa foram convertidos em densidade absoluta. Por intermédio do software Surfer 8.0 elaborou‐se mapas de variáveis dos dados climáticos. A partir do mapa de loteamento fornecido pela prefeitura e utilizando como referência imagens de satélite disponíveis no aplicativo Google Earth, foram produzidas, utilizando o software de desenho PaintTool SAI, cartas temáticas para analisar o bairro do ponto de vista do adensamento, da distribuição e porte da vegetação, e outras cartas que apontam o tipo de uso e verticalização. Através do cruzamento destes elementos que configuram a paisagem e a análise da distribuição espacial dos dados das variáveis climáticas foi possível determinar algumas unidades de paisagem na área de estudo. RESULTADOS O bairro Jardim Paulista trata‐se de um loteamento implantado em 1946 e com posterior ampliação na década de 1960; situa‐se em uma área localizada entre a região central da cidade e um importante centro de comércio, alimentação e lazer do município, em um eixo, portanto, significativamente adensado da cidade. Assim, para melhor compreensão deste e do método desenvolvido, cabe primeiro expor sua localização no tecido urbano da cidade de Presidente Prudente, SP (figura 1), e apresentar a localização dos pontos de mensuração (figura 2). A determinação de tais pontos pautou‐se em selecionar trechos bem distintos do bairro, de modo que o primeiro se localiza na via de trânsito mais intenso, a Avenida Washington Luiz, caracterizada como ponto nodal da cidade; o segundo se localiza em uma via coletora, com tráfego de veículos intermediário; os pontos três e quatro são em vias locais, com fluxo moderado de veículos e transversais à avenida, sendo a primeira mais próxima a áreas comerciais do bairro e a segunda pertencente ao prolongamento do bairro e uso prioritariamente habitacional; o quinto e último ponto está localizado no fim deste prolongamento junto a um fundo de vale de canalização aberta. Colloquium Humanarum, vol. 9, n. Especial, jul–dez, 2012 Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão, Presidente Prudente, 22 a 25 de outubro, 2012 198
Figura 1. Localização do bairro. Fonte: Google Maps, editado pelos autores. 2012 Figura 2. Localização dos pontos de medição, sobre a hipsometria do bairro. No sentido horário, as fotos correspondem aos pontos em ordem crescente. Fotos: acervo, novembro de 2011. Utilizando alguns indicadores aplicados por Nucci (2008) ‐ cobertura vegetal, ponderando para tal a taxa de permeabilidade do solo e a cobertura arbórea, arbustiva e rasteira (figura 3); e a verticalização, considerando‐se o gabarito de altura e a taxa de ocupação do solo (figura 4) ‐, identificou‐se o padrão de distribuição espacial dos mesmos. Colloquium Humanarum, vol. 9, n. Especial, jul–dez, 2012 Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão, Presidente Prudente, 22 a 25 de outubro, 2012 199
Figura 3. Cobertura vegetal no bairro. Figura 4. Ocupação do solo no bairro (novembro de 2011) (novembro de 2011) Segundo Ito e Beltrão (1987) apud Sobarzo Miño (2004), nos primeiros anos de ocupação do bairro, os compradores caracterizavam‐se por famílias de menor renda, justificável do ponto de vista da infraestrutura e dos serviços ainda deficitários. Na década de 1970, a valorização da área geraria uma modificação do perfil socioeconômico e físico do bairro, fato que alterou o padrão das construções originais. Mais recentemente, com o novo deslocamento dos segmentos sociais mais elevados, podemos observar o processo de transformação do bairro em área de comércio e serviços (figura 5) e sua verticalização à medida que nos aproximamos do eixo viário principal (figura 6). Figura 5. Usos no bairro. Figura 6. Verticalização no bairro. (novembro de 2011) (novembro de 2011) Quanto aos dados físicos do ambiente, a análise espacial das mensurações, indica que temperatura do ar (figura 7a) apresentou sua distribuição relacionada com a topografia, de modo que as temperaturas mais altas ocorreram na parte mais alta do bairro. São evidentes as relações existentes entre temperatura do ar e densidade absoluta (figura 7b), de modo que onde a temperatura se mostrou maior, a densidade estava também mais alta; logo, o que se tem em ambientes de clima como o da cidade de Presidente Prudente é a presença da umidade nos locais mais quentes, em função do processo de evaporação da água contida nos materiais e no solo. Colloquium Humanarum, vol. 9, n. Especial, jul–dez, 2012 Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão, Presidente Prudente, 22 a 25 de outubro, 2012 200
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Figura 7. Distribuição espacial das variáveis, de cima para baixo tem‐se: a ‐ temperatura do ar (º C), b ‐ densidade de água no ar (g.m‐³) e c ‐ velocidade do vento (m/s). Sobre o vento (figura 7c), faz‐se uma ressalva quanto à sua direção, pois esta foi sudeste para os quatro primeiros pontos, diferenciando‐se apenas no último, oeste. Isto se deve ao fato de que os ventos geralmente vindos do oceano atlântico “chegam” a cidade pela direção sudeste devido à sua localização geográfica, isso destaca também que não há grandes variações e obstáculos ao vento no bairro, de modo que este consegue se distribuir mais homogeneamente, sendo auxiliado pela forma da malha viária. O ponto cinco apresentou grande turbilhonamento no momento da medição, constatado pelo maior tempo desprendido para a estabilização o equipamento, isto se dá em função do ponto situar‐se junto ao fundo de vale e final do bairro, não caracterizando área homogênea. Colloquium Humanarum, vol. 9, n. Especial, jul–dez, 2012 Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão, Presidente Prudente, 22 a 25 de outubro, 2012 201
As unidades de paisagem (figura 8) são resultado de uma combinação entre os dados coletados e os dados observados; para cada uma corresponde um dos pontos de coleta de dados; e as mesmas estão descritas na tabela 1. Figura 8. Unidades de paisagem do bairro Tabela 1. Descrição das Unidades de Paisagem do Bairro Áreas 1 2 3 4 5 Unidades de paisagem Descrição Área de preservação permanente (APP) referente a um fundo de vale, o qual não é contemplado atualmente por nenhum tipo de tratamento ambiental recebendo manutenção escassa. Tais condições são evidentes em períodos quentes, onde há considerável poluição do ar devido ao odor liberado pelo córrego, dentre outros problemas, como a presença de insetos e outros animais que avançam para a parte urbanizada do bairro. Área predominante comercial por onde passa um trecho da Avenida Washington Luiz, a qual se qualifica como uma das principais vias da cidade, tanto em termos de fluxo de veículos e pessoas como em relação à presença de comércio e serviços. A vegetação é esparsa. Área mista, pois contem um trecho de comércio vicinal e de bairro em meio à zona residencial, além de uma escola. Não há verticalização e situa‐se na extremidade superior do bairro, já adjacente a bairros menores. Vegetação mais abundante. Área residencial com predominância de residências de alto padrão constituindo a região mais adensada do bairro. Área residencial pouco adensada com predomínio de residências de baixo padrão.
DISCUSSÃO O clima urbano é o sistema que abrange o clima de um dado espaço terrestre e sua urbanização (MASCARÓ, 1996). Ele é diretamente influenciado pelo uso do solo, ocupação, pavimentação e pelos materiais construtivos, que podem gerar na cidade ilhas de calor, Colloquium Humanarum, vol. 9, n. Especial, jul–dez, 2012 Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão, Presidente Prudente, 22 a 25 de outubro, 2012 202
interferindo no conforto ambiental, aumentando a demanda por energia e afetando a saúde dos habitantes. Conforme Nucci (2008), por meio da verticalização ocorre uma diminuição das áreas verdes; qualquer verticalização acima de quatro pavimentos acarreta uma crescente pressão sobre os espaços livres, pois na medida em que o edifício vai ganhando altura o espaço construído vai se tornando cada vez maior em relação ao espaço livre; do mesmo modo, quanto mais à malha urbana se desenvolve a qualidade do ambiente se deteriora, devido à poluição atmosférica e das águas, à produção de lixo, aos congestionamentos, aos ruídos, às alterações do microclima, à destruição do solo, à falta de espaços livres públicos, dentre uma gama de danos que possuem escalas que vão do local ao regional. As leis de zoneamento reconhecem dois índices de ordenamento do uso do solo urbano, tais coeficientes são denominados índice de ocupação e índice de aproveitamento, este último fixa em metros quadrados o que poderá ser construído na superfície edificável do terreno. Porém, a utilização desses mecanismos de planejamento geralmente não leva em consideração o existente enquanto espaço livre e área verde urbana. Diversos autores, dentre eles Cavalheiro & Del Picchia (1992), Lima et al. (1994), Nucci (2008), listam vários benefícios que as áreas verdes podem trazer ao homem nas cidades, como: aumento do conforto ambiental, estabilização de superfícies por meio da fixação do solo pelas raízes das plantas, abrigo à fauna, equilíbrio do índice de umidade no ar, proteção das nascentes e dos mananciais, organização e composição de espaços no desenvolvimento das atividades humanas, valorização visual e ornamental do ambiente, recreação e diversificação da paisagem construída. Oke (1989) vai mais além, considerando a vegetação urbana, sua presença ou ausência, como importante na deposição de poluentes na cidade; dada a combinação dos efeitos de rugosidade na superfície urbana e os efeitos termais das ilhas de calor, essa combinação ocasiona fenômenos turbulentos na atmosfera da cidade. Analisando as variáveis climáticas de temperatura e densidade absoluta, sob a lente das unidades de paisagem estabelecidas, observou‐se que as temperaturas mais altas foram encontradas nas regiões de maior adensamento construtivo e escassez de superfícies vegetadas. As brisas moderadas tem um incremento na unidade de número 2, justamente a que apresenta como elemento principal a avenida de tráfego intenso de veículos; curiosamente, esta avenida apresenta um verde viário em todo trajeto pertencente ao bairro; no entanto, o efeito constatado é particularmente favorecido pelo desenho viário, que anteriormente mencionamos. Colloquium Humanarum, vol. 9, n. Especial, jul–dez, 2012 Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão, Presidente Prudente, 22 a 25 de outubro, 2012 203
Ao contrário da hipótese levantada para este estudo, no bairro, as áreas mais adensadas do ponto de vista construtivo apresentam predominância de casas de alto padrão construtivo, em contrariedade com paradigmas sobre a diferença de ocupação; constatou‐se que no bairro Jardim Paulista não são as áreas mais pobres as mais densamente construídas; na verdade, os proprietários de segmentos sociais privilegiados por terem um maior poder aquisitivo, tendem a tirar maior proveito de seu lote, aumentando os espaços construídos e suprimento áreas permeáveis. Praças e áreas de lazer são visivelmente escassas no bairro, elas aparecem como “sobras” do loteamento, constituindo‐se pequenas áreas esparsas. Como anteriormente relatado, a partir da cobertura vegetal, de sua distribuição espacial no ambiente urbano, é que muitos problemas poderão ser resolvidos e/ou amenizados; neste sentido, quando se fala em planejar com a natureza se trata principalmente da vegetação (NUCCI, 2008). CONCLUSÃO Frente a grandes possiblidades de o bairro sofrer mudanças em curtos períodos de tempo e a partir dos estudos realizados, observamos que há uma necessidade constante da previsão e manutenção das áreas livres, como incremento da habitabilidade no meio urbano; lembrando a importância das áreas verdes como responsáveis por muitos efeitos climáticos nas diversas escalas da cidade. No âmbito do planejamento urbano, uma distribuição adequada das densidades urbanas, compatibilizando‐as com os limites da sustentabilidade ambiental, deve ser pensada e determinada nos planos diretores para cada área, ou zona, uma vez que, as áreas verdes urbanas são fonte potencial para o fornecimento de qualidade ambiental à população; elas desempenham funções sociais, ecológicas, estéticas e educativas capazes mitigar as consequências negativas da urbanização. REFERÊNCIAS CAVALHEIRO, F.; DEL PICCHIA, P.C.D. Áreas verdes: conceitos, objetivos e diretrizes para o planejamento. In: Anais do 1º Congresso Brasileiro sobre Arborização Urbana e 4º Encontro Nacional sobre Arborização Urbana. Vitória – ES, p.29‐38, 1992. Colloquium Humanarum, vol. 9, n. Especial, jul–dez, 2012 Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão, Presidente Prudente, 22 a 25 de outubro, 2012 204
LIMA, A. M. L.P; CAVALHEIRO, F.; NUCCI, J.C.; SOUSA, M.A.L.B.; FIALHO, N. DEL PICCHIA, P.C.D. Problemas de utilização na conceituação de termos como espaços livres, áreas verdes e correlatos. In: Anais do II Congresso de Arborização Urbana. São Luís‐ MA, p. 539‐553, 1994. NUCCI, J. C. Qualidade ambiental e adensamento urbano: um estudo de ecologia e planejamento da paisagem aplicado ao distrito de Santa Cecília (MSP). 2ª ed., Curitiba, 2008. 150 p. MASCARÓ, L. R. de. Ambiência Urbana = Urban enviroment / Lúcia Mascaro. – Porto Alegre: Sagra: DC Luzzatto, 1996. OKE, T.R. The micrometeorology of the urban forest. Philosophical Transactions of the Royal Society of London, 324B, p. 335‐351, 1989. SORBAZO MIÑO, O. A. Os espaços da sociabilidade segmentada: a produção do espaço público em Presidente Prudente. Dissertação (Doutorado em Geografia) ‐ Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente, 2004. Colloquium Humanarum, vol. 9, n. Especial, jul–dez, 2012 
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