Turismo, educação, meio ambiente e cidadania: relatos de experiências de extensão universitária
em escola pública de Mossoró/RN
Raimunda Maria Marques de Azevedo 1
Michele de Sousa2
Márcia Regina da Silva Farias 3
Resumo: Este trabalho apresenta relatos de experiências exitosas do Projeto de Extensão (Re) Conhecer a
cidade: Mossoró-RN, seus cantos e encantos, cujo foco central é a educação ambiental e estímulo ao exercício
da cidadania, numa proposta de roteiros de turismo pedagógico como recurso metodológico, desenvolvidas
em escolas públicas estaduais do município de Mossoró, no estado do Rio Grande do Norte. Os objetivos deste
trabalho se firmam em apresentar a relevância da experiência turística no intuito de alcançar finalidades
pedagógicas e em expor os resultados do projeto por meio da análise do instrumento avaliativo utilizado com
os alunos participantes das aulas-passeios. Os resultados apontam que o turismo pedagógico como alternativa
de educação, inclusive a ambiental, para diversos públicos é uma realidade, embora ainda necessite de maior
incentivo do poder público e mais parceria da iniciativa privada e instituições de ensino superior e acenam para
a continuidade e ampliação desse tipo de iniciativa, bem como para as dificuldades vivenciadas no decorrer da
sua execução.
Palavras-chave: Educação. Turismo pedagógico. Cidade. Educação ambiental.
Introdução
Desde os tempos mais remotos as pessoas realizavam deslocamentos com as mais diversas
finalidades, nos primórdios quando os homens eram nômades buscavam alimentação e condições
propícias para sua sobrevivência. Na Antiguidade os sumérios se deslocavam para a realização do
comércio. Os gregos viajavam para adorar seus deuses, celebrar competições esportivas em
homenagem aos deuses e, também, em busca de conhecimento.
Dando um salto na história da humanidade podemos perceber que as motivações e
organização das viagens foram mudando ao longo do tempo até se aproximar das viagens turísticas
como são concebidas atualmente. No início do século XVIII podemos detectar o embrião do turismo
de lazer e do turismo cultural no Grand Tour europeu, que se tratava de uma experiência destinada a
jovens rapazes da aristocracia inglesa, com duração de um a três anos, no intuito de proporcionar
conhecimentos relacionados às artes, cultura, geografia e demais instruções necessárias aos jovens
aristocratas para assumir no futuro profissões relevantes socialmente, como médicos, advogados ou
cargos de gestão pública.
1
Mestranda em Desenvolvimento Territorial e Políticas Públicas – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Professora
do Curso de Turismo da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. E-mail: [email protected]
2
Doutoranda em Geografia – UNESP/Presidente Prudente. Professora do Curso de Turismo da Universidade do Estado do
Rio Grande do Norte. E-mail: [email protected]
3
Doutora em Ecologia Aplicada (Ambiente e Sociedade), pela ESALQ – USP. Professora do Curso de Gestão Ambiental da
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. E-mail: [email protected]
1
Algumas características da experiência do Grand Tour podem ser verificadas no turismo
pedagógico nos dias atuais, que se constitui em uma atividade com objetivos pedagógicos e tem por
premissa favorecer ao aluno uma visão real do local visitado configurando-se em uma das maneiras
de conduzir a atividade educativa na consolidação do processo de ensino-aprendizagem através de
experiência turística. O deslocamento do aluno para além do ambiente da sala de aula se configura
em elemento motivador e visa propiciar encantamento ao aprendizado.
Destarte o objetivo do presente trabalho é apresentar resultados de experiências de roteiros
de turismo pedagógico realizados no projeto de extensão (Re) conhecer a cidade: Mossoró, seus
cantos e encantos, desenvolvido por docentes e discentes dos cursos de Turismo e de Gestão
Ambiental da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN, cujas ações vem sendo
realizadas com alunos do 7º ano A e B do ensino fundamental de duas escolas públicas estaduais da
cidade de Mossoró/RN, no período compreendido entre junho de 2010 a maio de 2011. Os roteiros
abordaram aspectos sociais, culturais e ambientais dos locais visitados, visando a ressignificação do
olhar sobre os problemas socioambientais e a formação de valores que estimulem o exercício da
cidadania.
Como procedimentos metodológicos do projeto, utilizou-se de aulas-passeios, inspiradas na
possibilidade da inserção do turismo no processo educativo, precedida de planejamento participativo
com as escolas participantes, seguida de visitas técnicas pela equipe de execução para coletar
informações e realizar o percurso antes de fazê-lo com os estudantes. Sempre após a realização de
uma aula-passeio, os discentes participantes do projeto aplicam uma atividade avaliativa, onde os
estudantes são livres para expressar suas impressões sobre a aula-passeio realizada por meio de
palavras, desenhos ou o que para eles melhor represente a experiência vivida. E serão os resultados
desses instrumentos e, por consequência do projeto, que serão apresentados neste trabalho.
1 O alcance do turismo pedagógico como recurso pedagógico
As viagens realizadas no início do século XVIII, denominadas de tour, ida e volta, duravam
uma média de um a três anos, eram permitidas apenas às pessoas do sexo masculino, pertencente à
classe social que gozasse de condição financeira privilegiada. Os jovens eram acompanhados por
professor particular e, como requisito imprescindível ao desempenho da função, deveria ter
profundo conhecimento dos diversos aspectos do país visitado e dominar o idioma, assim as viagens
tinham cunho educativo e cultural. “Os defensores das viagens entendiam que as escolas jamais
conseguiriam o mesmo resultado pedagógico permitido pela observação direta dos usos e costumes,
da política, do governo, da religião, da arte de outras nações”. (BARRETO, 1995, p. 50).
2
Sobre esta prática social, o Grand Tour europeu, Bemúdez diz ainda que
Os filhos dos nobres, burgueses e comerciantes ingleses deveriam completar os
conhecimentos culturais adquiridos em seus países com a realização de uma
grande viagem pelos países de maior fonte cultural do velho continente e
conseguir, assim, a consideração cultural que a sociedade impunha na idade média
(apud BARBOSA, 2002, p.31).
O turismo pedagógico, como referência ao Grand Tour europeu, é uma prática recente no
Brasil, praticado ainda de forma “acanhada”. Esse segmento da atividade turística se apresenta como
uma possibilidade de tornar o conhecimento pertinente, contextualizado e real. A viagem é o
elemento motivador para dar encanto ao aprendizado. No turismo pedagógico, as diversas
realidades e saberes são articulados como uma necessidade de conhecer e reconhecer os problemas
do mundo, em um ambiente descontraído e prazeroso.
O turismo pedagógico ou turismo educacional é considerado uma ferramenta adequada na
condução da atividade educativa, consolidando o processo de ensino-aprendizagem através de
experiência turística, pois se entende que o aprendizado se dá, mais pela interação proporcionada
pelas “viagens” que pelo exercício de memorização de textos ou pela preleção dos professores. O
deslocamento do aluno para além do ambiente da sala de aula se configura num elemento
motivador e visa propiciar encantamento ao aprendizado e alcance dos objetivos. (RAYKIL, Eladyr
Boaventura; RAYKIL, Cristiano, 2005).
As viagens de estudo, como prática de ensino, possibilitam aprender, a partir da experiência
e interação com colegas, o que foi visto bibliograficamente em sala de aula. Nessa perspectiva
Mészáros (2008, p. 9) enfatiza que “a educação não pode ser encerrada no terreno estrito da
pedagogia, mas tem de sair às ruas, para os espaços públicos, e se abrir para o mundo”. A afirmativa
de Mészáros reforça o que defende o pedagogo Celéstin Freinet que, ainda na década de 1920,
sugeriu a aula-passeio como um recurso pedagógico que consiste em atividades extraclasses, desde
que organizadas de forma coletiva e, tem como pressuposto, valorizar as necessidades vitais do ser
humano e favorecer um ambiente propício à criação, a vivência em grupo, a comunicação e novas
descobertas, pois o aluno é considerado sempre o centro da construção de seu conhecimento
(COSTA, 2006).
Diante do exposto, ressaltamos a relevância da experiência vivenciada por cerca de 150
crianças que vêm percorrendo cantos e recantos da cidade de Mossoró/RN, em que vivenciam as
ruas, as praças, as pontes, a biblioteca pública, as margens do rio Apodi/Mossoró, a Universidade do
Estado do Rio Grande do Norte e o viveiro de mudas da prefeitura, o que vem possibilitando novos
olhares sobre a cidade, na busca de contribuir para uma mudança de valores e atitudes diante do
3
ambiente e da sociedade, bem como o envolvimento da escola participante (direção, coordenação,
professores e alunos) e da equipe executora para o alcance dos objetivos propostos.
O projeto (Re) Conhecer a cidade: Mossoró, seus cantos e encantos, implementado no
segundo semestre de 2008, vem demonstrando, a cada semestre, perspectiva de continuidade, dada
a relevância que vem apresentando, tanto para a escola como para a universidade. Esta ação teve
seu projeto piloto executado em duas escolas públicas estaduais, Moreira Dias e Jardim da Infância
Modelo. Os critérios para escolha das referidas escolas foram: interesse da escola em desenvolver o
projeto e integração da equipe administrativa e docente da escola, bem como a proximidade do
centro da cidade, fator que facilitaria os deslocamentos para realização de alguns roteiros, que são
realizados por meio de parceria com um empreendedor local que cede o “trenzinho da alegria” 4 para
transportar as crianças.
A metodologia do projeto se pauta na possibilidade da inserção do turismo pedagógico no
processo educativo. Entendendo que o papel da escola deve ser o de incentivar os alunos a construir
o conhecimento do local onde está inserida, desde os limites territoriais até as características
geográficas, econômicas, sociais e políticas. Entender que ultrapassar os intramuros da escola e sair
da sala de aula possibilitará formação cidadã e criará base para a construção da identidade e vínculo
com o lugar, assim como para estudos de espaços mais amplos. (AZIZ Ab´SABER, 2001 apud RAYKIL,
Eladyr Boaventura; RAYKIL, Cristiano, 2005).
Nessa perspectiva a aula-passeio aqui utilizada como recurso pedagógico, consiste em
atividades extraclasses que tem como objetivo favorecer ao aluno um ambiente propício ao
aprendizado de forma prazerosa e lúdica visando despertar o seu senso crítico e analítico. O sair da
sala aula pode proporcionar aos alunos condições para despertar suas habilidades cognitivas para
observar, criar, se expressar, se comunicar, agir-descobrir, viver em grupo, ter sucesso, se organizar,
constituindo-se em cidadãos autônomos e conscientes de seu papel na sociedade. Assim, afere-se
que a construção do conhecimento se dá na relação com o outro. E as aulas-passeioss-passeio tiram
os alunos do isolamento da sala de aula e favorecem uma interação com o meio, juntamente com os
demais membros da escola, ampliando essa relação para a família.
As experiências das primeiras versões, na definição dos roteiros nos possibilitaram
reconhecer e eleger os roteiros que envolvem e atendem as expectativas dos alunos, além de
contribuir para o alcance dos objetivos, tanto das ações quanto dos alunos. Assim, o presente
projeto que vem sendo executado desde o segundo período letivo do ano de 2008, continua em
4
Empresa de Jocelito Barbosa Góis, empresário local, diretor do Trenzinho da Alegria nos Trilhos da Educação e Transporte
Passageiro Ltda, que dá suporte ao projeto disponibilizando o trenzinho (jipe no qual são engatados dois vagões para
realização de passeios na cidade, geralmente utilizado para o público infantil ou para eventos para realizarmos os roteiros)
e este, por si só, já é uma atração para as crianças.
4
atividade na escola estadual Moreira Dias, na qual desenvolve três (03) atividades de aulas-passeios
por semestre, com as turmas do sétimo ano A e B.
Após as aulas-passeios-passeio são aplicadas atividades avaliativas com os alunos no intuito
de apreender sua percepção da atividade, para mensurar o grau de satisfação e/ou entendimento,
fomentado através de conversas, observação, recital de poesias e versos populares propiciando um
vasto aprendizado sobre geografia, meio ambiente, cidadania, valores humanos, dentre outros.
As experiências5 que serão relatadas se referem à versão aplicada nos semestres letivos
2010.2 e 2011.1 dos roteiros: Cultura e Natureza - Rio Apodi/Mossoró - Biblioteca Pública Ney
Pontes; UERN - Programa Mais Saúde e DAIN – Departamento de Apoio a Inclusão e Centro de
Produção de Mudas do município de Mossoró (viveiro de mudas). Estes roteiros foram propostos
nessa composição, dada às experiências anteriores constatadas, tanto na observação de conduta,
bem como nos depoimentos dos alunos.
2 Descrição e avaliação das aulas-passeios
Passando a descrição das aulas-passeios iniciamos pelo roteiro UERN - Programa Mais Saúde
e Departamento de Apoio à Inclusão - DAIN. O objetivo deste roteiro é possibilitar aos alunos
visualizar e conhecer o universo acadêmico e, despertar nos mesmos o desejo de futuramente se
inserir neste universo, tendo em vista que o acesso do aluno de escola pública à universidade no
Brasil, ainda é incipiente.
Na UERN, os alunos foram recebidos no Auditório da Faculdade de Filosofia e Ciências
Sociais - FAFIC, por membros do programa Mais Saúde 6, ocasião em que foi proferida uma palestra
sobre “A importância da prática de atividades físicas” e uma breve apresentação acerca das
atividades, objetivos e importância do programa. O palestrante destacou para os alunos a
importância dessas atividades para a saúde mental e física, além da influência positiva na prevenção
de doenças. Destacou ainda, as modalidades esportivas oferecidas pelo programa, o público alvo e,
posteriormente, fez uma dinâmica com os alunos, a qual objetivou estimular o alongamento dos
participantes antes das atividades, além da capacidade de conviver em grupo.
Dando continuidade à programação da manhã na universidade, um representante do
Departamento de Apoio à Inclusão – DAIN/UERN, abordou na sua fala o tema “deficiência e, utilizou
5
As atividades desta versão do projeto foram iniciadas com as turmas escolares no meio do ano, assim teve-se a
possibilidade de trabalhar com duas turmas diferentes, em 2010 e 2011(segundo e primeiro semestre, respectivamente),
portanto cada roteiro foi realizado duas vezes.
6
Programa de extensão universitária desenvolvido pela Faculdade de Educação Física da UERN, que oferta modalidades
esportivas, visando promover a melhoria na qualidade de vida de seus participantes. Tem como público-alvo a comunidade
acadêmica, bem como, a população de Mossoró.
5
como recurso pedagógico, uma poesia de autoria do poeta Mário Quitana com o título
“Deficiências”, onde as professoras e alunos da escola recitaram juntos, seguido de um debate que
fez os alunos refletirem sobre algumas questões relacionadas à esta temática, tal como a
possibilidade de conviver com pessoas portadoras de algum tipo de deficiência, tanto na escola como
em outros espaços de convívio social; e a falta de acessibilidade para essas pessoas na escola e nas
ruas da cidade. O debate em questão trouxe uma relevante contribuição para a sensibilização e
compreensão dos alunos sobre este tema, além de estimular a interação e participação dos mesmos,
que expuseram vários exemplos do seu dia-a-dia.
Em sequência, todos os alunos seguiram em direção ao ginásio de esportes e, como última
atividade do dia, desenvolveram práticas de atividades físicas. Na ocasião, alunos do primeiro e
segundo anos do curso de educação física organizaram atividades coletivas, como circuito com várias
provas e diferentes jogos, tendo uma grande participação de alunos, professores e membros do
projeto.
Esta aula-passeio permitiu aos alunos perceberem que, as atividades cotidianas realizadas
por eles, tais como jogar bola com amigos, subir escada, ir à escola, participar de ações coletivas,
dentre tantas outras, tem um grande valor, principalmente se comparadas a falta de acessibilidade
das pessoas portadoras de qualquer tipo de necessidade especial, as quais reiteradas vezes são
privadas de tantas ações simples, como o direito de ir e vir, pois são consideradas incapazes de
desenvolver estas atividades, quando na verdade o que eles precisam e tem direito, inclusive por lei,
é de ambientes adaptados e oportunidade de serem aceitos e inclusos em seu meio social.
Após a realização de cada roteiro é feito uma avaliação com os alunos participantes para
mensurar a percepção deles e a repercussão das atividades realizadas. Com relação ao roteiro em
questão, Luana Larissa comenta que “foi uma atividade bem diferente, lá aprendemos sobre saúde,
deficientes e etc. Na escola aprendemos coisas que vão incentivar para escolhermos uma profissão”.
Percebe-se que a aluna ressaltou os conteúdos que foram abordados na aula-passeio, como saúde,
deficiência e profissão, apesar de fazê-lo de forma sucinta conseguiu apreender o que dizia respeito
aos objetivos da atividade.
Outros alunos são mais descritivos nos seus relatos, é o que pode ser percebido na avaliação
da aluna Maria Clara Nunes Paes.
No roteiro da UERN vi casas, prédios, árvores, o Rio Mossoró, a ponte. Quando nós
chegamos na UERN a primeira coisa que vi foi a FE - Faculdade de Educação, fomos
para um auditório e lá falamos sobre inclusão social. A professora Socorro explicou
as leis a favor da inclusão social, mostrou fotos de artistas e tirou minhas dúvidas e
dos meus colegas também. Vimos livros em braile. Terminou a palestra de inclusão
social começou outra que falava sobre teatro, música, poesia e dança, quando
terminou [...] fomos para a quadra.
6
Apesar de ser mais descritiva, é uma avaliação superficial, que toca nos aspectos mais gerais
que lhe chamaram a atenção, especialmente os tangíveis.
No relato da aluna Ellen Caroline Lucas do sétimo ano A, identificamos também uma fala
mais descritiva, no entanto consegue apreender os objetivos da atividade e ainda ressalta um
aspecto interessante que é peculiar ao turismo pedagógico, o aprendizado com divertimento, além
do respeito às diferenças, o aspecto de (re)conhecer a cidade, como pode ser lido abaixo.
[...] O passeio da UERN foi muito legal, eu me diverti aprendendo. Gostei também
por que a gente conheceu vários outros lugares da cidade que a gente ainda não
conhecia. Nós também aprendemos sobre o ‘Aleijadinho’, um senhor que mesmo
tendo hanseníase não parava nem desistia de fazer suas esculturas. Também vimos
um dos homens que era surdo [Beethoven] e não parava de cantar [...].
Aprendemos que devemos respeitar e tratar as pessoas com doenças, como uma
pessoa cega, com câncer, paraplégico[s], tratar essas pessoas normalmente porque
todos nós temos nossos defeitos e todos nós devemos respeitar e ser respeitados,
não só adultos mas também crianças, os idosos etc.
Já na opinião da aluna Ingrid Dannielle Lopes, identificamos que o entendimento da mesma
sobre o roteiro também passa pelo aprendizado com alegria, diversão e (re)conhecimento da cidade.
Minha aula-passeio não foi boa, legal nem mais ou menos. Foi simplesmente
espetacular adorei apreciar os ‘cantos e encantos’ da cidade, a alegria contagiante
de cada lugar por onde a gente passava, o pessoal acenava e eu espero que os
próximos passeios sejam tão divertidos quanto foi este.
Percebe-se que a interpretação descrita pelos alunos é expressa, também, pelo nível de
compreensão, apreensão, capacidade de descrição e maturidade de cada um deles.
Na aula-passeio seguinte foi desenvolvido o roteiro Rio Apodi/Mossoró – Biblioteca
Municipal Ney Pontes Duarte/IBAMA. O roteiro em questão teve o objetivo de fomentar a
curiosidade e a consciência ambiental, como também, apresentar a importância da leitura no
processo de ensino aprendizagem e formação cidadã.
O roteiro teve início nas proximidades do Espaço Cultural Arte da Terra, onde os alunos
assistiram uma apresentação com o Professor Dr. Ramiro Gustavo Valera Camacho, do
departamento de Biologia da UERN, que falou sobre a importância da preservação do ambiente
natural do rio e seus componentes e, ainda, sobre a importância de conscientizar a população para
recuperar a bacia hidrográfica da região do Rio Apodi/Mossoró7. Logo após a apresentação, seguimos
7
A mais importante bacia hidrográfica da região Oeste potiguar, é responsável por grande parte do desenvolvimento das
cidades localizadas nessa região.
7
a pé para a Biblioteca Municipal Ney Pontes Duarte, o percurso a pé teve o objetivo de identificar,
conhecer e apreciar a cidade e sua dinâmica.
Na biblioteca, os alunos realizaram uma visita guiada para conhecer as instalações e, em
função do número de alunos, observou-se a necessidade de dividir em dois grupos menores. Assim,
enquanto o primeiro grupo visitava as instalações guiadas por um funcionário da biblioteca, o outro
grupo ficou no auditório com o prof. Ramiro Gustavo, ocasião em que o mesmo trabalhou conceitos
importantes para a compreensão e preservação do meio ambiente, o que são e para que servem as
matas ciliares; a importância das árvores nativas para diminuir os danos ocasionados aos rios e a
importância da arborização urbana. Também foi apresentado o projeto Rio Apodi/Mossoró pleiteado
ao programa Petrobras Ambiental numa parceria entre a UERN, a UFERSA e a Fundação Guimarães
Duque, em que juntos, realizaram estudos e medidas de preservação e recuperação da bacia
hidrográfica do Rio Apodi/Mossoró.
Na biblioteca municipal, também foi apresentado aos alunos e professores, os serviços
prestados por esta à comunidade de Mossoró e os procedimentos necessários para se tornar sócioleitor da mesma. As atividades desenvolvidas neste roteiro foram fundamentais para os alunos
conhecerem os serviços públicos da biblioteca disponíveis para a população, perceberem a
importância da leitura para a formação de cidadãos conscientes e identificar os problemas
ambientais ocasionados pela poluição do rio para a cidade.
Após a visita à biblioteca, os alunos foram conduzidos à sede do IBAMA, onde foram
recebidos pela auxiliar administrativa e educadora ambiental, Marlene de Sena e Silva, que explanou
sobre a história da instituição, sua importância para a preservação do meio ambiente e sobre a
hierarquia e as parcerias de trabalho da instituição. Apresentou ainda as instalações do instituto em
Mossoró e deu ênfase às necessidades e as precauções que o IBAMA tem para com a sociedade e o
meio ambiente. As crianças não se mostraram muito interessadas na fala da expositora, já que a
forma como a mesma apresentou as informações não foi muito didática, o que dificultou o
entendimento e a atenção das mesmas. Após o encerramento das atividades programadas no
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis - IBAMA retornamos no trenzinho
para a escola Moreira Dias.
Na terceira aula-passeio foi contemplado o roteiro - Centro de Produção de Mudas do
município de Mossoró, que teve como objetivo despertar nos alunos a importância e função da
arborização urbana, conhecer as espécies nativas da caatinga e, ainda, as técnicas de produção de
mudas.
8
A equipe de execução do projeto, juntamente com os alunos foram recebidos pelo
encarregado do viveiro, o engenheiro agrônomo Antônio Roseno Neto que fez uma apresentação das
diversas espécies desenvolvidas no local; apresentou suas funções, falou sobre as atividades
realizadas no centro de produção de mudas, tipos de sementes que utilizam, procedimentos para a
utilização das mesmas e passou informações sobre a distribuição de mudas para a população em
geral.
Durante o percurso no viveiro, percebeu-se certa apatia nos alunos em relação às explicações
apresentadas e, para amenizar a situação, a equipe de professores, bolsistas e voluntários tentou
intervir juntamente com o agrônomo para que os objetivos do roteiro fossem alcançados.
Diante da situação constatada, em vez de realizar a avaliação do roteiro como de praxe,
decidiu-se aplicar um questionário com perguntas abertas e fechadas, com objetivo de saber se era
viável continuar com as ações do projeto na escola e, ainda, se era conveniente reproduzir para as
turmas seguintes o roteiro em questão.
Foi então desenvolvido um questionário contendo nove perguntas onde se procurou
assimilar qual dos roteiros desenvolvidos no semestre despertou maior atenção dos alunos; o que
eles mais gostam no roteiro; que roteiros eles gostariam de propor para as próximas versões, se eles
gostariam que o projeto continuasse na escola e, em caso de opinarem pela continuação, se seria
pertinente mudar a metodologia para realização das atividades.
De acordo com as respostas obtidas nas principais questões abordadas identificou-se que,
em relação à preferência dos roteiros realizados o que eles mais gostaram foi o da UERN, preferência
de quarenta e sete por cento (47%) dos respondentes como pode ser verificado no gráfico 1. Apesar
do desinteresse dos alunos durante o roteiro do viveiro de mudas, o mesmo aparece em segundo
lugar na predileção dos estudantes.
Diante desta resposta e de diálogo com os professores da escola constatou-se que a conduta
identificada no roteiro foi uma manifestação normal para o perfil da turma, indisciplinada e de
“difícil” convivência, isso segundo seus professores advém do fato da escola, em sendo pública, ter
perfis de alunos de diversas naturezas, inclusive socioeconômica. Alguns têm problemas familiares,
famílias desestruturadas e isso, sem dúvida, tem reflexo no comportamento desses estudantes em
qualquer ambiente.
9
Gráfico 1 – Preferência dos roteiros realizados pelos alunos.
Fonte: Dados do projeto – 2011.
Outro aspecto abordado, diz respeito a metodologia do projeto de extensão e do turismo
pedagógico em si, conteúdos relacionados ao roteiro devem ser explorados em sala de aula pelos
professores e, na aula-passeio, o aluno vivencia e observa na prática a teoria desenvolvida em sala de
aula, ou seja, é uma oportunidade de explorar a relação homem-espaço nas diversas perspectivas de
análise do conhecimento humano (geográfico, ecológico, biológico, físico, etc.). (ANDRADE, 2002).
Com base nesses aspectos perguntamos aos alunos se foram trabalhados, pelos professores
na escola, conteúdos relacionados aos roteiros realizados e, de acordo com as respostas obtidas no
questionário, oitenta e nove por cento (89%) dos alunos responderam que não. Esse dado é
desafiador, pois para que o projeto tenha um maior aproveitamento/aprendizagem por parte dos
alunos é necessário que exista de fato essa parceria da escola em relação ao conteúdo a ser
ministrado antes das aulas-passeios.
Procuramos ainda, saber dos alunos, o que eles mais gostam em relação às atividades
realizadas nas aulas-passeios. Foram dadas algumas opções: trenzinho; música do trenzinho;
paisagem no percurso; contato com professores e monitores da UERN; sair da sala de aula para uma
“aula” diferente; fazer o lanche com os colegas e as explicações nos roteiros – palestras.
O resultado, que pode ser observado no gráfico 2, assinala que sair dos muros da escola para
a aula-passeio ou pra lanchar com os colegas em outro espaço são as atividades que mais agradam
os alunos, totalizando sessenta por cento (60%) das respostas, seguidas pelas explicações/palestras
nos roteiros. Esse resultado pode caracterizar a forma agradável de aprender e interagir com os
colegas fora da sala de aula.
10
Gráfico 2 – Preferência dos alunos em relação às atividades desenvolvidas nas aulaspasseios.
Fonte: Dados do projeto – 2011.
Procurou-se identificar a opinião dos alunos sobre a continuidade ou não do projeto na
escola e, de acordo com os dados, noventa e cinco por cento (95%) dos alunos foram favoráveis à
continuidade do projeto.
Diante disto, foi perguntada a opinião dos respondentes acerca do projeto e, verificou-se que
há uma boa aceitação do projeto como um todo, o que pode ser observado no gráfico 3. Apesar de
ter a opção “ruim” que poderia ser marcada, nenhum dos alunos teve essa opinião sobre as
atividades desenvolvidas.
Gráfico 3 – Opinião dos respondentes acerca do projeto.
Fonte: Dados do projeto – 2011.
Diante das respostas obtidas, constatou-se que a continuidade das ações do projeto na
escola é pertinente, que a postura dos alunos no roteiro supracitado atribui a uma característica
11
particular daquela turma, no entanto, a escola precisa trabalhar mais conteúdos que possam
assegurar maior compreensão dos alunos nos roteiros realizados.
Conclusões
O projeto (Re) Conhecer a cidade: Mossoró-RN, seus cantos e encantos se configura como
uma ação interdisciplinar de turismo pedagógico que contempla diversas áreas do conhecimento
(turismo, ciências sociais, geografia, gestão ambiental, letras) e diferentes atores sociais envolvidos
nas ações.
O projeto, em sua quinta edição, tem sido bem avaliado pelas escolas, pelos estudantes e
pela universidade, tanto que nas últimas edições tem sido contemplado pela Pró-Reitoria de
Extensão com bolsas que tem possibilitado o empenho e a dedicação de alunos do curso de turismo
e de gestão ambiental.
A frequência dos alunos da escola nas aulas-passeios e nas atividades posteriores a essas
aulas vem sendo significativa e participativa. Com isso conseguimos uma culminância dos assuntos
abordados, tanto da equipe executora do projeto como dos alunos, professores e diretores das
escolas participantes.
Através de reuniões realizadas, visitas técnicas como instrumentos de atividades de extensão
e de pesquisa foi possível uma interpretação da realidade e a (re) construção de novos significados
com relação ao viver e conviver na e com a cidade.
Faz-se necessário salientar que os alunos apreendem o que lhes é transmitido nas aulaspasseios de acordo com o grau de amadurecimento e entendimento que é peculiar a cada um,
inclusive devido à história de vida dos mesmos.
O turismo pedagógico como uma alternativa de educação e de educação ambiental para
diversos públicos é uma realidade, embora ainda necessite de maior incentivo do poder público e
mais parceria da iniciativa privada e instituições de ensino superior.
O desafio que se coloca reside na ampliação das possibilidades de acesso ao turismo
pedagógico para um número maior de estudantes, principalmente aqueles que dependem, de forma
majoritária, das ações da escola para ampliarem seus conhecimentos e terem acesso ao lazer. Para
isso, o poder público e as escolas devem estar cientes das necessidades dos seus alunos e das
possibilidades que o meio pode oferecer para a ampliação do conhecimento.
A experiência do Projeto de Extensão (Re) Conhecer a cidade: Mossoró-RN, seus cantos e
encantos, nos acena para a continuidade e ampliação desse tipo de iniciativa, bem como para as
dificuldades vivenciadas no decorrer da sua execução, a exemplo da falta de recursos financeiros
12
para uma melhor execução do projeto; o deslocamento dos monitores e professores, em sua grande
parte custeado com recursos próprios; além dos equipamentos para registro fotográfico serem de
uso particular da equipe, a omissão de alguns professores da escola no sentido de abordar,
previamente assuntos relacionados à atividade o que provoca insegurança e ao mesmo tempo
curiosidade nos alunos.
Ainda assim, entendemos que a continuidade deste projeto e ampliação dos roteiros de
reconhecimento, incluindo visita a outros espaços e empresas da cidade, será relevante dado o
envolvimento das escolas participantes - direção, coordenação, professores e alunos - e da equipe
executora.
Referências
Andrade, J. V. de. (2002). Turismo: fundamentos e perspectivas. (8a ed.). São Paulo: Ática.
Barbosa, Y. M. (2002). História das viagens e do turismo. São Paulo: Aleph.
Barreto, M. (1995). Manual de iniciação ao estudo do turismo. Campinas, SP: Papirus.
COSTA, M. C. da C. (2006). A pedagogia de Célestin Freinet e a vida cotidiana como central na prática
pedagógica. Revista HISTEDBR On-line, 1(23), 26–31. Recuperado em 15 maio, 2009 de
http://www.histedbr.fae.unicamp.br/art02_23.pdf.
Mészáros, I. (2008). A educação para além do capital. (2a ed.). São Paulo: Boitempo.
RAYKIL, E. B., & RAYKIL, C. (2005). Turismo pedagógico: uma interface diferencial no processo ensinoaprendizagem. Global Tourism Revista, 1(2). Recuperado em 21 janeiro, 2011 de
http://www.periodicodeturismo.com.br/site/artigo/pdf/Turismo%20Pedagogico.pdf.
13
Download

Turismo, educação, meio ambiente e cidadania