Margarida Fonseca Santos
Editorial Presença
Tudo se passou numa noite que parecia igual a qualquer outra. Eu e o João
andámos os dois a brincar com uns bocados de papel que estavam
espalhados pelo chão. O Pedro, O irmão mais velho do João estava ao pé
de nós e iam-me fazendo festas enquanto eu tentava tirar um papel da mão
do João. Os pais do Pedro e do João estavam a arrumar a cozinha. Tudo
parecia normal.
Entretanto, a campainha da porta tocou e eu olhei para o relógio.
Os meus donos costumam dizer que eu não sei que horas são quando os
acordo ao domingo de manhã, mas é mentira. Eu devo ser o cão que melhor
sabe ver as horas.
Mas eu estava a contar que, quando ouvi a campainha, olhei para o relógio e
vi que era muito tarde. O ponteiro pequeno já estava muito lá para cima. A esta
hora, o João até já costuma estar a dormir. Mas não estava, realmente não
estava. Continuava acordado e aproveitou aquele momento de distracção para
me tirar um bocado enorme de papel.
O Pedro foi a correr abrir a porta e lançou-se nos braços do tio. O tio dele tem dois
filhos que diz que são gémeos mas eu acho que não é verdade porque eles são
diferentes. Começa logo porque um é rapaz e a outra é rapariga. Mas não vale a
pena contrariar. O tio, a tia e os primos do Pedro vinham com um ar muito bem
disposto e traziam embrulhos de comida. Fiquei a pensar que estavam todos
doidos, porque àquela hora tão tardia não se visita ninguém e muito menos se dá
de comer a visitas.
Deixei o João a brincar sozinho e fui cheirar os embrulhos.
Cheirava tudo muito bem!
A minha dona comentou:
-O Frik deve estar a estranhar vê-los a chegar a esta hora. Ele costuma já estar a
dormir às dez e meia.
É esperta, a mãe do Pedro e do João, mas ela esqueceu-se de me explicar o que
é que ia acontecer a seguir. E a campainha tocou outra vez. Não vos vou contar
tudo, porque seria sempre igual. Na verdade, foi chegando mais gente e todos
traziam comidas diferentes. Eu bem lhes sentia o cheiro e eles vinham todos com
cara de hora do lanche. Quer dizer, aquela cara que as pessoas têm quando vão
passar a tarde a casa de amigos.
O João sem a minha companhia acabou por se deixar dormir no chão. Pudera,
o ponteiro pequenino já estava quase lá no alto do relógio, não havia ele de
estar cheio de sono! A mãe pegou nele ao colo com jeitinho:
-O João já não vai conseguir estar acordado na passagem do ano. Ainda é
muito bebé para ficar a pé até tão tarde.
Percebi então que o ano ia passar cá por casa. Não sabia muito bem o que era
um ano, mas já me tinham dito várias vezes que eu estava a fazer um ano.
Pensei que, se calhar, era o meu que ia aparecer. Pus-me de sentinela à porta,
não fosse ele tocar e ninguém ouvir devido à barulheira que havia em casa.
Foi então que aconteceu uma coisa estranhíssima. Todas as pessoas na sala
ficaram a olhar para o relógio. Eu até pensei que ele devia estar envergonhado,
porque não é costume porem-se a olhar assim para um relógio. Cada uma delas
tinha um copo numa mão e muitas passas de uva na outra. Mas as crianças
tinham smarties em vez de passas.
-O que é que se passa com o Frik? Por que é que ele está ali à porta? –
Perguntou o tio do Pedro.
- Deve estar à espera que chegue o ano – disse o Pedro, e desmancharam-se
todos a rir, sei lá porquê.
Continuei no meu lugar. Nao ia arredar pe dali. Mas, de repente, comecou toda
a gente a gritar e a apontar para o relogio. O pai do pedro segurava uma
garrafa com forca e olhava para o relogio com ar de quem lhe ia atirar qualquer
coisa.
E e que atirou mesmo!
Quando o relogio – eu acho que foi por vergonha – comecou a dar as doze
badaladas, eles puseram-se todos a comer as passas e os smarties. O pai do
Pedro deu um tiro com a garrafa e ela comecou a deitar champanhe para for a
com muita forca.Nao percebi o que aconteceu a seguir, porque cai-me qualquer
coisa na cabeca e eu fiquei tao assustado que fui esconder-me debaixo do sofa.
O relogio ja estava melhor, as pessoas ja tinham parado de engolir coisas e
agora estavam a abracar-se umas as outras.
O Pedro comecou a chamar por mim:
-Frik, anda ca, nao tenhas medo. Foi so a rolha da garrafa de champanhe que
caiu na tua cabeca.
-E mostrava-me uma coisa em forma de cogumelo e que cheirava mal. –
Anda, podes brincar com ela, eu deixo.
Com aquilo? Que cheirava tao mal? E se me caisse outra coisa na cabeca?
Mas finalmente percebi. Era o meu ano que tinha chegado! Tinha vindo la do
tecto em vez de entrar pela porta! Era aquilo! Uma coisa mal cheirosa, parecida
com um cogumelo castanho! Fiquei um bocado decepcionado, mas achei que
era simpatico da parte do Pedro. Comecei a morder a dita rolha, sem sair onde
estava, debaixo do sofa.
Toda a gente comecou a fazer festas na cabeca e a dizer: “Bom ano, Frik!” Eu
achei muito divertido mas sentia-me confuso porque aquele ano parecia um
cogumelo e tambem lhe chamavam rolha: no entanto, depois de bem lambido, o
meu ano ficou mais saboroso.
Passei o resto da noite a roe-lo.
FIM
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Passagem do Ano